As inovações do discurso político-religioso do presbiterianismo nacional na

transição do regime político brasileiro

Pedro Henrique Cavalcante de Medeiros

Programa de Pós-graduação em História da UFRRJ

Esta comunicação está baseada no projeto de pesquisa apresentado para a
seleção de doutorado no Programa de Pós-graduação em História da UFRRJ. A questão
que guia nossa pesquisa é saber o que estava envolvido na produção do discurso
presbiteriano nacional no contexto de transição do regime político brasileiro.

Como referencial teórico, partimos das reflexões de Pierre Bourdieu. Para Roger
Chartier (2002, p. 140-148) a lição principal do trabalho de Bourdieu é sempre pensar
de forma relacional tanto em nível de sociabilidade e de coexistência entre indivíduos
quanto em níveis mais abstratos, mais estruturais de organização social.

Para Chartier, a partir de Bourdieu, o pesquisador deve estar atento ao mesmo
tempo no espaço, no campo de coerção, de coações, de interdependências que não são
percebidas pelos indivíduos; além de pensar nas estratégias, ou no sentido prático, de
ajuste às situações que não é homogênea, mesmo para indivíduos com as mesmas
determinações sociais. Dessa forma, Chartier (2002, p. 151) aponta para a importância
dessa perspectiva para a história dos livros, dos textos e da leitura. O autor explica que
há coações que partem das intenções do texto, das possibilidades abertas ou fechadas
pela forma de escrita de um texto; mas também há coações que vêm de cada leitor
através de seu pertencimento a uma comunidade sócio-cultural.

No entanto, conforme dito por José Murilo de Carvalho, o conceito de campo
tem suas limitações impostas por sua própria historicidade, tendo em vista caracterizar
esferas autônomas de uma sociedade moderna, sendo, portanto, de uso complicado para
o século XIX brasileiro, caracterizado pela indiferença entre os universos sociais. Por
isso, conforme Roger Chartier (2002, p. 167-168), torna-se necessário pensarmos,
principalmente, no princípio relacional da teoria de Bourdieu, evitando a aplicação

p. sem precisarmos estar convencidos que essas propriedades e exigências só possam ser adequadas para configurações históricas que designariam o conceito de campo. o benefício da teoria dos campos é convidar o analista a pensar em termos relacionais. ou um conceito que revela as relações de força e de dominação em estruturas de distribuição desigual dos capitais específicos. ao analisarmos o objeto de pesquisa a partir dos pressupostos teóricos de Bourdieu. poderíamos construir conceitos diferentes dos de campo a partir de fragmentos dos mesmos elementos ou componentes que dão base ao conceito de Bourdieu. os campos podem ser caracterizados apenas como espaços de posições em que se revelam as estratégias dos agentes em luta. 17-18). Além disso. Para Lahire (2002. mas não deve ser tomado como um conceito rígido. Para o autor Bernard Lahire (2002.mecânica da categoria de campo o que poderia dar a falsa ideia de uma categoria universal e contínua. ou estar de acordo com uma parte das exigências teóricas requeridas para construir esses microcosmos sociais. p. Wheriston Neris e Cidinalva Câmara (2008. Embora. tão comum na América Latina desde os primeiros tempos da colonização. Sobre a aplicação da teoria de Bourdieu à religião. 37-38). Ainda sobre o problema da universalidade dos conceitos. avaliarmos rigorosamente a aplicação de seus conceitos e não simplesmente repetir de forma despropositada a . a religião não pode ser considerada como tendo apenas a função de consagrar a ordem social enquanto estrutura de relações entre os grupos. mas presente em diversos campos. p. Dessa forma. para ele. Dessa forma. Suárez ressalta que para alguns analistas. o conceito de campo pode ser considerado um esforço intelectual para caracterizar um espaço social. a religião não deveria ser considerada um campo totalmente autônomo. 132-134) defendem que não se pode pretender que conceitos tenham pertinência universal e de que o conhecimento científico avança muito mais pelo confronto de categorias e conceitos com objetos empíricos novos do que pelo enfrentamento teórico. 22-25). podemos julgar como pertinentes algumas propriedades características dos campos. essa teoria possa contribuir para o entendimento da relação entre religião e política. torna-se necessário tomarmos pelo menos três atitudes principais: apreender esses de forma séria. p. Para Hugo José Suárez (2006.

católicos e políticos liberais ao longo das décadas de 1860 e 1870. a palavra não tem nenhuma existência social. 2006. à origem. 158) diz que o que é adquirido é o domínio prático da linguagem e o domínio prático das situações propícias para a produção do discurso adequado. compreender não é reconhecer um sentido invariante. mas “apreender a singularidade de uma forma que só existe num contexto particular”. submetendo-o a novos objetos. De acordo com ele. a maneira de se expressar e as condições de sua realização são indissociáveis. Pensamos em ideias como: as ideias da luta entre o novo que força o direito de entrada e o dominante que tenta defender o monopólio da violência legítima. um acordo do que merece ser disputado. O referencial metodológico em que procuramos basear nossa pesquisa foi o contextualismo linguístico da escola de Cambridge (JASMIN. e 1880-1900. havendo uma cumplicidade subjacente aos antagonismos. e prolongarmos de forma crítica os pressupostos de Bourdieu. Segundo Skinner. a intenção. agora na pesquisa de doutorado. 119-121). p. na pesquisa de mestrado.linguagem de Bourdieu. Bourdieu (1983. p. quais questões ele estava formulando. ciente de que não havia ainda uma autonomia dos campos. a ideia de que os dominantes do monopólio da distribuição do capital específico da esfera social tendem à conservação e para isso passam a produzir um discurso defensivo da ortodoxia. entendemos ser possível analisar a relação entre política e religião no século XIX utilizando certos conceitos próprios da teoria dos campos de Bourdieu (2003. para Bourdieu (1983. 18). 159). enquanto que o discurso subversivo herético reclama o retorno às primeiras fontes. p. Tratando da questão da competência prática do produtor do discurso. além da ideia de compartilhamento de certo número de interesses fundamentais em comum por aqueles que estão engajados na luta dentro do campo. contra a banalização e degradação feita pelo dominante. p. Importante ressaltar também que. ela está submersa nas situações. Pierre Bourdieu também tem contribuído para problematizarmos o discurso divulgado por evangélicos. o que ele estava tentando . Com essas ressalvas. Para o sociólogo. o contexto e o vocabulário político da época de qualquer obra de filosofia política eram cruciais para compreensão do que o autor estava fazendo ao escrever determinado texto. excluindo a concorrência.

quais foram as interpretações feitas. Portanto. Para Marco Morel (2012). o que ele aceitava e endossava. e não simplesmente pelo produtor (BARBOSA. e o contexto línguistico. mas mecanismo de participação política. pensar em como o público reagiu à mensagem produzida. quais relações sociais e culturais tornaram possível seu surgimento. como se constitui como sujeito histórico e quais são suas relações. Dessa forma. ou contestava e repelia. espaço produção de referências e campo de embates simbólicos. denominado por ele de langue. 4-7). p. Deve-se perscrutar como uma determinada publicação se constitui como força histórica num determinado momento. o pesquisador deve ter em vista que o significado de um texto é construído pelos leitores. Além disso. A relação entre os agentes produtores e os leitores receptores era o que produzia o abstrato reino da opinião pública. a imprensa brasileira do século XIX se constitui como um efetivo agente histórico. A história da imprensa deve se constituir em uma análise dos processos comunicacionais e das complexas relações que se desenvolvem em torno do sistema de comunicação. Pocock (2003. isto é. os quais ele denomina de parole. é necessário . 3) a história da imprensa deve ser feita procurando compreender a complexidade do objeto pesquisado. 260) destaca que não é possível trabalhar com um fragmento de um veículo da imprensa. Cruz (2007. 13). ou até mesmo ignorava das ideias e convenções predominantes no debate político da época. sem o reinserir no projeto editorial no qual está articulado. para quem e quais foram as consequências dessa produção para a sociedade. além disso. O historiador deve estar atento à criação e à difusão de novas linguagens dentro do discurso e a interação deste discurso com o contexto social em que o autor se situa. p. 73-74) defende uma história do discurso que esteja situada entre os atos de fala. A imprensa não era apenas mero veículo de comunicação. De acordo com Skinner (1996. de que forma. Segundo Marialva Barbosa (2004. quais são os ditos e não ditos e o que os determinou. p. o foco do pesquisador deve ser o de indagar sobre a configuração do projeto editorial do jornal. p. p. 2004. destacando sua historicidade e intencionalidade. a atenção a esses pontos torna-se necessário para compreendermos as intenções de um determinado autor. pensar sobre o que se produziu.responder.

. 2) destaca que. Andréa Fonseca (2002. além dos desafios e das práticas diferenciadas do ser protestante. enquanto religião oficial. Os hábitos desses protestantes era contemplado nos jornais. Lyndon Santos (2004. na fase de inserção do protestantismo. principalmente a Imprensa Evangelica e Novo Mundo. apresentavam o protestantismo como a religião do progresso. comportamentos e condutas. Sobre a imprensa protestante. 6): “esses jornais não trazem uma preocupação com a escravidão enquanto um sistema opressor. controle. liberdade. Pela imprensa. como aponta Fonseca (2002. No entanto. regenerado moralmente”. Ela deve ser vista como agente histórico e não com mero registro de acontecimentos. p. ao abordar a questão da imprensa protestante no Império e no início do período republicano. destaca sua importância como meio de socialização e formação da rede de contatos estabelecida entre os leitores protestantes. p. Além disso. p. Analisando a questão do progresso e da escravidão nos jornais evangélicos. visões e interpretações de mundo. p. Santos (2004. razão e reflexão. p. Por outro lado. Somente a partir da década de 1880 é que esses jornais. Alguém que deve ser ‘resgatado’. assim como de coerção. ela era apontada como um obstáculo para o progresso. dos agentes e dos colportores. Primeiro o escravo aparece como alguém que deve ser evangelizado. passaram a publicar artigos abolicionistas. das sociedades bíblicas. conservadorismo e manipulação. Fonseca (2002. posturas e posicionamentos. 196) destaca que a imprensa protestante não teria surtido efeito se não fossem as ações das livrarias. Entretanto. 195). a imprensa era um espaço de progresso. 5) aponta que esses periódicos estavam mais interessados em defender o progresso. que viriam sedimentar um ethos protestante no Brasil”. “Esta rede construiu um conjunto de ideias e ideais. os missionários sentiam a necessidade de mostrarem sua singularidade e utilizaram a imprensa para alcançar esse objetivo. quando tratavam da escravidão. dos redatores.pensar as tipografias como locais nos quais se estabeleciam relações sociais. os protestantes combatiam o catolicismo. por ser o responsável pelo atraso do Brasil. que foram “importantes agentes de penetração da prédica protestante em várias cidades e interiores do país”.

tais como os de Aureliano Cândido Tavares Bastos. de interditarem as irmandades de Olinda e Belém. os bispos estavam apenas exercendo o seu papel de representantes da Igreja Católica Apostólica Romana. foi Robert Reid Kalley. o editorial procurou defender a ampliação dos direitos civis para os não-católicos. Em 1862. sediada em Nova York. os presbiterianos não criticaram a atitude dos bispos d. p. que influenciou Ashbel Green Simonton a criar um jornal voltado especialmente para divulgação da mensagem protestante no Brasil. que para os presbiterianos era o símbolo do retrocesso. enviado pela Junta de Missões Estrangeiras da Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos da América (PCUSA). foram fatores fundamentais na garantia e no aumento do consumo desta literatura”. organizando a Igreja Evangélica Fluminense. que iniciou suas atividades missionárias no Brasil em 1855. Em 1864. A nossa pesquisa teve início com a chegada do primeiro missionário presbiteriano. frei Vital e d. 199) indica que “o crescimento da população urbana nas principais capitais e o estabelecimento de igrejas nelas. que se tornou muito próximo aos presbiterianos (MEDEIROS. em 1859. Para eles. e que publicou. De acordo com David Gueiros Vieira (1980. diversos artigos em jornais como Correio Mercantil e Jornal do Comércio. a secularização dos cemitérios e a autonomia cartorária para registros civis sem a dependência dos registros eclesiásticos. Os primeiros nove anos de produção do jornal foram analisados em nossa dissertação de mestrado. Ashbel Green Simonton. 2014). 132-147). Santos (2004. No intuito de reforçar as ideias defendidas no jornal. Durante aqueles anos (1864-1873). Macedo Costa. foi organizada a Primeira Igreja Presbiteriana do Brasil. entre 1855 e 1866. os redatores também procuraram apoiar discursos de políticos liberais. p. no Rio de Janeiro. tais como a defesa da instituição do casamento civil. foi fundado o primeiro jornal evangélico do Brasil. Durante o primeiro ano da chamada Questão Religiosa. a laicidade do Estado. Sobre o aumento no consumo da literatura protestante. Para os redatores da Imprensa Evangelica. em 1858. defendida em 2014. por certo. a incoerência partia dos maçons e dos liberais que censuravam os bispos por suas . Acima de tudo. Imprensa Evangelica. o jornal defendia a total separação da Igreja do Estado.

p. a Questão Religiosa foi importante para estreitar os vínculos entre maçons e protestantes contra a hegemonia da Igreja Católica no Império. eles poderiam manter-se como maçons e cristãos. pois nesse caso. De acordo com Vieira. O editorial procurava exaltar o valor da maçonaria devido à sua filantropia. de discussões profundas a respeito da escravidão no Brasil. e passarem a integrar a Igreja evangélica. Se . de uma Igreja retrógrada (MEDEIROS. o tema da abolição só passa a ser tratado no jornal em 1884. o relacionamento entre evangélicos e os maçons e a relação entre os discursos religiosos protestantes e a escravidão. às suas escolas e bibliotecas (MEDEIROS. A primeira menção é um artigo sobre a aprovação da Lei do Ventre Livre. 2014. Naquele momento. 173). Para José Carlos Barbosa (2002. 173). pois ele previa que “metade dos brasileiros abandonaria a Igreja Católica. Para alguns desses missionários. p. Segundo Barbosa (2002. as reuniões das igrejas passam a ser frequentadas por homens ilustrados curiosos e aumenta-se também o pedido de assinatura da Imprensa Evangelica. 2014. o jornal só faria menção da escravidão novamente em 1874 e depois apenas em 1879. em 7 de outubro de 1871. convidando-os a deixarem a Igreja Católica. 174). como Beaty Howell. p. p. 2014. Para David Gueiros Vieira (1980. 174). era chegado o tempo de a Igreja evangélica se preparar. para se associarem à Igreja Evangélica” (MEDEIROS. após essa publicação. “num momento em que proliferavam movimentos emancipacionistas por todos os cantos do País”. p. Essas duas questões. Outra questão surgida em nossas pesquisas de mestrado foi a ausência. os presbiterianos entenderam que era a oportunidade para fortalecerem o vínculo com os maçons brasileiros. 171). especialmente os intelectuais. “o jornal Imprensa Evangelica posicionou-se como mero expectador diante dos conflitos envolvendo a abolição da escravidão”. De acordo com Barbosa. ou a relação entre religião protestante e a política imperial são questões cruciais para nossa pesquisa. não lutar contra ela tentando manter-se na Igreja.atitudes. quando esses apenas cumpriam com o seu papel de sacerdotes católicos. a partir desse momento. durante esses primeiros nove anos de publicação da Imprensa Evangelica. p. para regiões que não haviam recebido ainda a visita de nenhum missionário protestante. 280).

Os que ingressaram e se formaram nesse seminário foram: Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa. convertido e ordenado ao ministério pastoral na Igreja Presbiteriana em 1864. 311). Miguel Gonçalves Torres e Antônio Pedro de Cerqueira Leite. Da mesma forma. Em 1867. p. Nascido em 8 de novembro de 1855. anos depois. Para Francis Joseph Christopher Schneider (1868. em 1861. ainda na Imprensa Evangelica. O seminário tinha o intuito de preparar jovens para o ministério pastoral evangélico (MEDEIROS. 2014. p. 39. já em outro periódico da Igreja presbiteriana. Scheneider havia estudado no Seminário Teológico do Oeste (Western Theological Seminary). anos depois. que durou apenas três anos. já há diversas publicações combatendo a escravidão no Brasil. 4). O primeiro líder brasileiro do protestantismo foi o ex-padre José Manoel da Conceição. aquele que consideramos ser o mais relevante para nossa pesquisa é o rev. 139).inicialmente os protestantes presbiterianos defendiam os maçons e se aliavam a eles (MEDEIROS. 42). os redatores não se privaram de apoiar todos os discursos liberais que defendessem a separação da Igreja do Estado e a plena liberdade religiosa (MEDEIROS. 2004. o mesmo que Blackford havia estudado (MATOS. p. houve um crescimento das lideranças nacionais. em Caldas. p. Eduardo Carlos Pereira. O presbiterianismo nacional iniciou-se exclusivamente com lideranças norte- americanas. Antônio Trajano Bandeira. Entendemos que havia estreita relação entre o discurso religioso protestante e o discurso político do oitocentos. O Estandarte. junto com Simonton e Carlos Wagner. que foi um dos primeiros professores do seminário. se inicialmente havia um relativo silêncio por parte do editorial presbiteriano com relação à escravidão no Brasil. o seminário do Rio de Janeiro podia ser comparado em qualidade ao seminário dos Estados Unidos. No entanto. Ashbel Green Simonton fundou o primeiro seminário presbiteriano. 2014. era primo de Antônio Pedro de Cerqueira . 168-176). dentre esses novos líderes nacionais. O foco dos protestantes era principalmente divulgar a mensagem evangélica e contestar as doutrinas católicas devido ao catolicismo ser a religião oficial e predominante do Império. Com o avançar dos anos. 2014. que era pastor luterano. havia publicações condenando a maçonaria e argumentando que não havia condições de haver aliança entre evangélicos e maçons. 27). Minas Gerais. 2004. p. encerrando as atividades em 1870 (MATOS. p. No entanto.

332). É importante destacar que em nossa pesquisa de mestrado. ele passa a exercer suas atividades missionárias em Campanha. Chamberlain. ensino bíblico e justiça cristã”. p. Em 14 de agosto de 1875. Em Campinas. 2004. Sua ordenação ao ministério ocorreu em 2 de setembro de 1881. “O plano visava despertar nas igrejas o senso de responsabilidade pela evangelização através do sustento de obreiros nacionais” (MATOS. procurando demonstrar a total incompatibilidade entre escravidão. verificamos ainda no início das missões no Brasil. uma reclamação do Presbitério do Rio de Janeiro para com o Sínodo de Baltimore. Pereira propõe em 1886. De acordo com Alderi Matos (2004.Leite. É da autoria de Eduardo Carlos Pereira o primeiro opúsculo protestante contra a escravidão. nesse intuito. 331-332). organizando a Igreja em 6 de abril de 1884 (MATOS. Minas Gerais. Entre 1870 e 1873 estudou no Colégio Ipiranga. Sua formação teológica se deu na Escola Americana com John Beatty Howel. p. instituição dirigida por um suíço. Foi através de Morton que Eduardo teve contato com George Chamberlain. Em 7 de março de 1875. No intuito de maior autonomia para a igreja nacional. Embora publicado em volume único em 1886. o Presbitério do Rio de Janeiro recebeu Eduardo Carlos Pereira como candidato ao ministério. Eduardo Pereira tinha um interesse crescente pela nacionalização da Igreja Presbiteriana no Brasil. em 1883. tornou-se professor desse colégio em Campinas e em São Paulo. Posteriormente. 332). pastor da Igreja Presbiteriana de São Paulo. Outro fato interessante relatado por Alderi Matos é o fato de Eduardo Pereira ser um abolicionista convicto. passou a lecionar na escola missionária. p. Segundo José Carlos Barbosa (2002. responsável pela Junta de Missões Estrangeiras da Igreja . ele funda a Sociedade Brasileira de Tratados Evangélicos. diretor do Colégio Internacional. Em janeiro de 1883. o Plano de Missões Nacionais. 175). 2004. esse opúsculo já havia sido publicado em série nas folhas da Imprensa Evangelica. Em 1877. passou a frequentar a igreja presbiteriana e assistiu a pregações de George Morton. em Araraquara. Ferdinand Boeschenstein. p. A reunião para organização dessa sociedade ocorreu na Escola Americana em 17 de setembro de 1883. ele foi recebido por profissão de fé pelo rev. Eduardo Carlos Pereira “assume uma postura clara acerca do assunto.

havia divergência entre eles no que tange à relação entre missionários e a educação. em 31 de janeiro de 1887. Eduardo Pereira lança o Plano de Ação visando maior autonomia para a igreja nacional. o editorial da Imprensa Evangelica teve que mudar o enfoque. com relação à falta de apoio financeiro para as atividades missionárias no Brasil. p. p. ele foi eleito o primeiro professor nacional do recém-criado Seminário Presbiteriano (MATOS. Em 1892. 207-208). E. 2004. Esse plano resultou na fundação do jornal O Estandarte. O jornal teria continuado a publicar questões contra os dogmas católicos. 334). outro projeto lançado por Eduardo Pereira para a maior autonomia da igreja nacional foi o lançamento da Revista das Missões Nacionais. igreja fundada por Eduardo Pereira. em 8 de setembro de 1891. Nesse contexto. os principais temas abordados pelo jornal deixaram de existir. como órgão oficial da Igreja Presbiteriana. p. principalmente com Horace Manley Lane e William Alfred Waddell. com o advento da República. Em 22 de agosto de 1888. 214).Presbiteriana dos Estados Unidos da América. 2014. 333). p. 2004. esses conflitos teriam aumentado a partir de . p. Além disso. 2004. fez com a Junta de Missões dos EUA “decretar seu fechamento e negar aos brasileiros o uso do nome do periódico”. nesse contexto Eduardo Pereira entrou em conflito com os líderes do Mackenzie. De acordo com Alderi de Matos (2004. pois a Igreja tornou-se separada do Estado. após a cisão da Igreja Presbiteriana em 1903 (MATOS. E com o esforço de lideranças nacionais em buscar a emancipação das atividades missionárias nacionais. O Estandarte existe até hoje como órgão oficial da Igreja Presbiteriana Independente do Brasil. que veio a substituir a Imprensa Evangelica. Em janeiro de 1888. “Foi o órgão das finanças do presbiterianismo e durou mais de trinta anos” (MATOS. 332). Para Matos. encerrada em 1892. 333). p. De acordo com Edwiges Rosa dos Santos (2009. mas passava a se dirigir estritamente a questões religiosas e de cultura geral. também verificamos um protesto sobre um possível repasse financeiro que o Presbitério do Rio de Janeiro deveria enviar para o Sínodo de Baltimore (MEDEIROS. Eduardo Pereira foi eleito o primeiro pastor nacional da Igreja Presbiteriana de São Paulo. foi um sermão de Eduardo Pereira que apareceu no lançamento do primeiro número do periódico O Púlpito Evangélico.

(MATOS. 340). A conversão de Zacarias Miranda foi um choque para a população da cidade e para o pároco local. não via incompatibilidade entre essa organização e a igreja” (MATOS. Em 1896. uma outra importante liderança para esse contexto foi José Zacarias de Miranda e Silva. foi ordenado ao ministério evangélico presbiteriano. tornou-se diretor da tipografia da Sociedade Brasileira de Tratados Evangélicos e redator-gerente de O Estandarte (MATOS. 2004. cujo co-pastor foi Zacarias de Miranda (MATOS. Em 9 de setembro de 1881. província de São Paulo. Zacarias dissera que “como maçom há vinte anos. assumindo também as Igrejas de Guareí e Faxina. 2004. fundou também o Colégio Sorocabano. Minas Gerais. Zacarias e Francisco Lotufo. pois ele era bastante conhecido por ser o professor-diretor da banda da cidade e participava ativamente das festas religiosas do local. 340). Iniciou suas atividades missionárias em 1º de setembro de 1880. Esse grupo se une. Em posição oposta a de Eduardo Pereira. pastoreada por Eduardo Pereira. Zacarias de Miranda tornara-se membro da Igreja de São Paulo em 8 de dezembro de 1878. quando lecionava para Delfino dos Anjos Teixeira. fundada em 18 de outubro de 1893 por Modesto Perestrello Barros de Carvalhosa. junto com Eduardo Carlos Pereira. . com o início da “questão maçônica”. Nesse tempo. em 1899. que estava estudando para ser ministro evangélico presbiteriano e dirigia uma escola missionária em Campinas. organizam a Igreja Presbiteriana Filadelfa. junto com pessoas que não se sentiam bem na 1ª Igreja Presbiteriana de São Paulo. p. que já havia se desligado da 1ª Igreja por não concordar com as ideias nacionalistas de Eduardo Pereira. p. foi transferido para a Igreja de Sorocaba. João de Santa Cândida. p. 338-340). No ápice da “questão maçônica” e da nacionalização da Igreja Presbiteriana. 2004. p. Zacarias professara a fé protestante na igreja de Itapira em 10 de janeiro de 1876. Ele se converteu em Itapira. Em setembro de 1883. em Baependi.1897 e teria alcançado o ápice com o início da “questão maçônica”. e assim. 338). posteriormente à 2ª Igreja Presbiteriana de São Paulo. formam a Igreja Presbiteriana Unida. 312-313. assumindo as Igrejas de Brotas e Dois Córregos. em 1903. Em 22 de setembro de 1899. 2004. terminando com a cisão da Igreja Presbiteriana em 1903. sendo batizado por Edward Lane. Nascido em 5 de novembro de 1851.

Em 10 de dezembro de 1897. Foi recebido por profissão de fé na Igreja Presbiteriana de São Paulo. Nicolau Esher passa a escrever artigos para O Estandarte. no Rio de Janeiro. p. partindo do entendimento de que a produção do discurso religioso estava relacionada não somente a questões propriamente religiosas. pensamos que a luta pela emancipação representou o distanciamento dos propósitos dos missionários norte-americanos e a busca pela identidade do protestantismo nacional. com seus discursos e suas ideias e de que forma essas relações interferiram na produção do discurso e na tensão interna da Igreja Presbiteriana. . p. nascido em 30 de julho de 1867. No Rio de Janeiro. alertando sobre a inconveniência entre ser cristão e ser maçom. em 1858 (MATOS. Tornou-se também o primeiro presidente da Associação Cristã de Moços do Rio de Janeiro. 2004. que por sua vez era irmã de Honório Hermeto Carneiro Leão. Nicolau Esher estudou na Escola Americana. O jornal passou a publicar artigos sobre os dois pontos de vista e em abril de 1899. Inicialmente. 2004. Mas em 1901. que deveria estar preocupado com questões nacionais. mantinham com políticos nacionais. sendo batizadas em 7 de janeiro de 1859 por Robert Reid Kalley. posteriormente organizou a primeira Associação Cristã de Moços em São Paulo em agosto de 1895. tais como: Eduardo Carlos Pereira. George Chamberlain. p. (MATOS. que só teria fim com a cisão de 1903 (MATOS. 492- 493). 2004. Pretendemos prosseguir investigando quais relações essas lideranças nacionais. pelo rev. o Marquês do Paraná. pretendemos comprovar ou não algumas hipóteses iniciais de nossa pesquisa. 494). mas políticas também. na Igreja Evangélica Fluminense. em 1878. Henriqueta era filha de Gabriela Carneiro Leão. cursou farmácia e medicina. fundada em Petrópolis. filho de William Richard Esher e Henriqueta Augusta Soares do Couto. A pesquisa ainda está no início. uma figura importante para essa pesquisa inicial é Nicolau Soares do Couto Esher. Por fim. Zacarias de Miranda e Nicolau Esher. Eduardo Pereira passa a abordar o mesmo tema no jornal. em 6 de dezembro de 1885. Dessa forma. o debate se encerrou. Essas foram as duas primeiras damas da corte a se converterem ao protestantismo. 494).

Em seguida.ufrgs. Disponível em: <http://hemerotecadigital. a partir do nosso referencial teórico. DOCUMENTAÇÃO SCHNEIDER. BN PR-SOR 03254_376582. protestantismo e escravidão no Brasil Império. Anais.bn.. 2004. C. Schneider. Francis Joseph Christopher. Marialva.doc>. entendemos que provavelmente. discursos polêmicos contra a religião católica. além de silêncios intencionais próprios de uma religião que procura estabelecer seu espaço na sociedade. Florianópolis. 2002. IGREJA PRESBITERIANA DO RIO DE JANEIRO. Disponível em: <http://www. Centro de Documentação: CENDOC. Negro não entra na Igreja: espia pela banda de fora. Como escrever uma história da imprensa? In: ENCONTRO NACIONAL DA REDE ALFREDO DE CARVALHO. BIBLIOGRAFIA BARBOSA. José Carlos.. 2.br/alcar/encontros-nacionais-1/2o-encontro-2004- 1/Como%20escrever%20uma%20historia %20da%20imprensa. J. Rio de Janeiro. os limites do discurso produzido na imprensa religiosa foram determinados objetivamente pelo campo religioso brasileiro que começava a se constituir na passagem do Império para a Primeira República. Acesso em: 14 maio 2015. a partir do entendimento da configuração política e religiosa do período. Relatórios Pastorais (1859-1875). pode-se determinar o que poderia ser sido dito ou não na imprensa pelos agentes religiosos. Apresentado ao Presbyterio do Rio de Janeiro e lido perante elle na sessão de 8 de agosto de 1868. IMPRENSA EVANGELICA. Piracicaba: Editora UNIMEP. BARBOSA. é possível que encontremos discursos a favor do secularismo nas instituições governamentais.br/>. 1864-1873. Portanto. Dessa forma. um dos pastores da Igreja do Rio de Janeiro para o anno presbyterial de 1867-68. Relatorio de F. . Acesso em: 02 maio 2016. mas também acordos contra a laicização absoluta do Estado.

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