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FRIEDRICH SCHLEIERMACHER

 Elevação da experiência humana, sentimento, à posição de fundamento teológico.
 Sua importância está no método e na abordagem que ele utilizou para tentar
desemaranhar as crencas cristas dos conflitos com o pensamento moderno, o que
constituiu tendencia para os teologos liberais dos proximos duzentos anos.
 Originador da teologia liberal pelo método que ele passou a utilizar.
 Em seus estudos na Universidade de Halle, ele absorveu profundamente o ceticismo
de Kant e leu extensivamente sobre a filosofia iluminista em geral.
 Influenciado pelo romantismo alemão em fins do século XVIII. O Romantismo era
uma reação ao racionalismo frio da filosofia iluminista. Dava grande enfase aos
sentimentos, imaginacao e intuição do ser humano.
 Escreveu sua primeira grande obra Sobre a Religião: Discursos aos Ilustrados que
a Desdenham (1799) em grande parte por causa do desejo de convencer seus
amigos de que a religiao não era aquilo que pensavam. No livro, procurou defender
a religiao dos conceitos errados mais comuns de que ela não passa de ortodoxia
morta e moralismo autoritário que impede a liberdade individual e aliena as pessoas
de sua verdadeira humanidade.
 A verdadeira religião é uma questão de “sentimento” humano universal (Gefühl) e
que pouco tem a ver com dogmas.
 Maior obra: A Fé Cristã, que foi lancada pela primeira vez em 1821-1822 e depois
revisada em 1830.
 Uma tentativa mal-disfarçada de se falar da humanidade como se estivesse falando
sobre Deus. Para os progressistas, a obra representava uma liberação dos dogmas
autoritários ultrapassados e uma verdadeira forma de fé cristã moderna que não
entrava em conflito com a ciência.

O método teológico

 Ele procurou basear a teologia na experiência humana - para mostrar que a religiao
esta enraizada a uma experiencia essencial para a verdadeira humanidade e e
identica a ela.
 Schleiermacher sugeriu que o impasse entre o racionalismo e a ortodoxia podia ser
resolvido se a experiencia humana (mais especificamente o sentimento de

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dependencia total ) - e nao as proposicoes autoritarias sobre Deus - fosse vista como
a fonte da teologia.
 Antes de Schleiermacher, pensava-se em teologia de duas maneiras principais. A
ortodoxia via essa disciplina como uma reflexao acerca das verdades reveladas de
modo sobrenatural e assim praticadas numa teologia “vinda do alto”. A teologia do
Iluminismo (deismo), vendo a tarefa como uma reflexao sobre pensamentos
racionais acerca de Deus, acabou envolvendo-se numa teologia “vinda de baixo”.
 O “sentimento” encontra-se no plano anterior à reflexão consciente - ou seja, sob o
pensamento ou sensação explicitos e antes deles. E ainda, “buscar e encontrar esse
fator infinito e eterno em tudo o que vive e se move, em todo o crescimento e
mudanca, em todas as acoes e paixoes, possuir e conhecer a propria vida na forma
de um sentimento imediato - isso e religiao”.
 Schleiermacher acreditava que tal sentimento religioso (que ele muitas vezes
chamava de “devocao”) e fundamental e universal dentro da experiencia humana.
 Schleiermacher não apenas desejava distinguir devoção e religião de ciência e
moralidade como também queria distingui-las de dogmas e sistemas de teologia.
Ele considerava estes ultimos como sendo estranhos à verdadeira religião e nada
mais do que tentativas humanas de transformar a devoção em discurso.
 A experiencia crista de consciencia de Deus e consciencia de si proprio formada e
cumprida em Jesus Cristo e atraves dele e a essencia do Cristianismo: “a essencia
distinta do Cristianismo consiste no fato de que nele todas as emocoes religiosas
estao relacionadas a redencao criada por Jesus de Nazare”. (...) A teologia crista
procura oferecer um relato coerente da experiencia religiosa dos cristaos.
 A inovacao de Schleiermacher no metodo teologico encontra-se no “voltar-se para
o sujeito que cre”.(...) Nenhuma doutrina e sacrossanta. Tudo esta sujeito a revisao.
 Uma de suas contribuicoes para a teologia contemporanea e sua enfase no carater
cultural e historico das doutrinas.
 Ele seguiu os passos de Kant, ao limitar o conhecimento de Deus aquilo que pode
ser experimentado e ao evitar especulacoes sobre “Deus em si” ou sobre a natureza
mais profunda do universo.

Inovações doutrinárias

 A Biblia desempenhava um papel importante, porem nao central na teologia de
Schleiermacher. A doutrina crista nao deve ser extraida primeira e exclusivamente

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da Biblia. (...) A Biblia e especial no sentido de que constitui um registro das
experiencias religiosas das comunidades cristas primitivas. A autoridade das
Escrituras, porem, nao e absoluta. Fica claro que Schleiermacher nao considerava a
Biblia infalivel ou escrita sob inspiracao sobrenatural. Nela, ele encontrou
passagens e ate mesmo livros inteiros que aparentemente contradiziam a verdadeira
devocao crista.

Deus

 Ela foi determinada pela consciencia crista de Deus que o povo devoto possui, seu
sentimento de dependencia total de Deus. De acordo com Schleiermacher, os
atributos de Deus nao devem ser vistos como uma descricao literal de Deus. (...)
falar de Deus e sempre falar da experiencia humana com Deus. Tal afirmacao nao
descreve Deus em si, mas um certo modo de se experimentar a Deus.
 A compreensao reformulada de Deus oferecida por Schleiermacher apresenta serios
problemas para o pensamento cristao tradicional. Um exemplo e a inflexibilidade
do teologo alemao em sua posicao ao atribuir o mal a causalidade de Deus. O fato
de Deus ser autor do pecado e do mal e necessario para a dependencia de suas
criaturas.
 Rejeitava completamente a realidade dos milagres. Acreditar em milagres e negar
que tudo o que acontece e ordenado e causado por Deus.(...) claro que, apesar das
oracoes nao mudarem nada, o fato de as pessoas orarem e de suas preces
aparentemente serem respondidas e “apenas parte do plano original divino.
Portanto, nao faz nenhum sentido a ideia de que se a oracao nao tivesse sido feita
talvez outra coisa teria acontecido”.
 A esta altura, ja deve estar claro que Schleiermacher considerava toda a ideia de
sobrenatural como algo perigoso.
 Por fim, Schleiermacher considerava problematica a doutrina da Trindade. Ele nao
negou explicitamente a doutrina, mas considerou sua formulacao historica tao fragil
e cheia de contradicoes, que a considerou praticamente inutil para a teologia crista.
 Apesar de nao ser panteismo puro, ha um consenso geral de que sua doutrina possui
caracteristicas panenteistas. (...) Para Schleiermacher, Deus e o poder imanente em
tudo, o absoluto, que tudo determina, que vai alem do pessoal, poder imanente que
esta em tudo mas alem de todas as distincoes que o carater de criatura impoe sobre
a existencia.

ele possuia uma absoluta e poderosa consciencia de Deus”. A palha eram os conceitos de anjos e demonios e os acontecimentos apocalipticos. Procuravam dentro da Bíblia o “evangelho”. Ele criticava a doutrina classica das duas naturezas de Jesus (humana e divina) como sendo ilogica. (. exceto pelo fato de que. Schleiermacher introduziu o conceito de dois aspectos de Jesus: Urbildlichkeit e Vorbildlichkeit — seu carater ideal e sua capacidade de reproduzir esse carater em outros. no sentido de que relaciona Deus e o mundo.  A doutrina de Deus defendida por Schleiermacher pode ser melhor descrita como panenteísta.  Concentração na dimensão prática ou ética do Cristianismo..) No lugar dessa doutrina. Rejeição da autoridade da tradição e da hierarquia sobre a teologia. Avaliação  Um de seus grandes opositores foi Karl Barth. os milagres. tomando-os inseparaveis. AIBRECHT RITSCHL E A TEOLOGIA LIBERAL CLÁSSICA: A Imanência de Deus na Cultura Ética  Ha tres pensadores que se destacam como os mais representativos da essencia da teologia liberal do final do seculo 19 e inicio do seculo 20: Albrecht Ritschl. 4 Cristologia  E quanto a Jesus Cristo? Schleiermacher rejeitava a doutrina tradicional da Encarnacao. era resultante da atividade de Deus em sua vida. substituindo-a por uma cristologia baseada na experiencia da consciencia de Deus. que o acusou de tentar falar de Deus. .  Baseavam a teologia em outra fundação que não fosse a autoridade absoluta da Bíblia. o cerne e referencial eterno da verdade que nao podia ser corroido pelos acidos do conhecimento cientifico e filosofico moderno. Jesus Cristo e completamente igual ao resto da humanidade.. Sua consciencia de Deus nao era produto apenas da humanidade. “desde o inicio. falando com grandiloquencia sobre a humanidade. Adolf Hamack e Walter Rauschenbusch. A teologia liberal clássica  Liberdade do pensador cristão em criticar e reconstruir crenças tradicionais.

Kant e F. era o movimento continuo da teologia liberal em direcao a imanencia divina as custas da transcendencia. Durante sua formacao universitaria. essa abordagem era uma fusao ilegitima de conhecimento cientifico e religioso. o Reino de Deus revelado em Jesus Cristo.  A teologia so esta interessada em Deus a medida que ele afeta moralmente a vida das pessoas. Ela e edificada e centrada na avaliacao que a comunidade crista faz do reino de Deus revelado em Jesus Cristo como o bem maior da humanidade. que era talvez o fundamento inconsciente de todas as outras caracteristicas. um estudioso hegeliano do Novo Testamento. os teologos enfatizavam a disjuncao entre aquilo que era radicalmente sagrado . lancado em etapas entre 1870 e 1874. C. O método teológico de Ritschl  Sua importância também está na abordagem e no método e não nas propostas doutrinárias. . mas o “conjunto de ideias apostolicas” determinado atraves de uma solida pesquisa historica.  A teologia é a investigacao da experiencia coletiva moral e religiosa do reino de Deus na igreja.  A fonte e a norma da Teologia não é a Bíblia como um todo. A Vida e a Carreira de Albrecht Ritschl  Albrecht Ritschl nasceu em 1822 na familia de um bispo da igreja protestante prussiana. Ritschl seguiu Kant ao procurar eliminar a metafisica de dentro da teologia e aproximar ao máximo a religiao da etica. Para ele. Baur.  Enfase no reino de Deus como uma sociedade historica e etica de amor. foi influenciado por Schleiermacher.  Antes do Iluminismo. ajudando-as a alcancar o bem maior.  A obra mais importante de Ritschl foi um tratado de três volumes intitulado A Doutrina Cristã da Justificação e Reconciliação.  Afinidade com a filosofia de Kant.o Deus transcendente – e os seres humanos finitos e pecadores.  Jesus era visto como um ser humano exemplar e nao como o Cristo interventor.  Ritschl rejeitava veementemente qualquer dependencia da teologia em relacao a metafisica. e viam a Encarnacao como o acontecimento dramatico em que Deus havia criado uma ponte sobre esse abismo. 5  O elemento final. Ele não aceitava a separacao que Kant fazia entre as esferas do “fenomenal” e o “nomenal”.

sua razao de ser. Deus) esta presente e manifesta-se em seus feitos (nesse caso. considerando-os parte da esfera do conhecimento teorico e nao religioso. sendo. Ele e universal. estando acima e alem da relacao de Deus com o mundo.  Ritschl estava muito mais interessado no reino de Deus do que no proprio Deus. Deus e o Reino de Deus  Tinha muito pouco a dizer sobre Deus em si. e a unidade dos seres humanos organizados de acordo com o amor.  Ritschl tambem nao falou muito sobre a Trindade.  Para Ritschl. Ele afirmava que a teologia crista so esta interessada no impacto que Deus tem sobre as pessoas e no julgamento apropriado desse impacto. de acordo com Ritschl. Porem. uma doutrina impossivel de se articular em termos de julgamento de valores. o reino de Deus nao e apenas o bem maior e o mais alto ideal da humanidade. a onisciencia e a onipresenca. que. essa identificacao do ser de Deus com o desenvolvimento de seu reino no mundo leva a teologia de Ritschl para a direcao da imanencia. parecia dispensar os atributos. Ritschl apoiou-se fortemente em Lotze quanto a ideia de que algo (nesse caso. esse pecado nao e herdado. . O pecado e. Pecado e Salvação  Para Ritschl. e mesma que a nossa . Para ele.  Para Ritschl. Apesar de nao nega-los explicitamente. egoismo. Pecado é aquilo que se opoe a esse reino. e tambem o bem maior e o mais alto ideal de Deus. mas nao existe outra explicacao para sua universalidade alem do fato de que todos os individuos pecam. a finalidade propria de Deus. a principal afirmacao teologica do Cristianismo é “Deus é amor”. pois a via como uma doutrina sobre o ser interior de Deus. por exemplo. o reino de Deus tambem e o significado interior das doutrinas do pecado e da salvacao. portanto. na revelacao e salvacao). 6 Reagindo a Kant.  Apesar de reconhecer a transcendencia de Deus. Jesus havia proclamado o reino de Deus.o reino de Deus. antes de mais nada.  Assim. por assim dizer. ele tambem nao via nenhum papel positivo para os atributos metafisicos tradicionais de Deus como a onipotencia.

O enfoque religioso e a justificacao.  Ritschl interpretava a divindade de Jesus como a “vocacao” singular dada a ele por Deus. ele nao se conteve e discutiu o conceito da preexistencia de Cristo. em primeiro lugar. a verdadeira avaliacao de Jesus esta interessada em sua conduta historica.  Ele acreditava que a salvacao nao e.  Em outras palavras.  A salvacao da humanidade atraves de Cristo e elemento central da teologia de Ritschl. Ao que parece.  Pelo fato de ter se transformado no portador unico do reino de Deus. que ele caiu em contradicao ao permitir que um elemento metafisico influenciasse seu pensamento. antes de mais nada. o momento da salvacao em que Deus declara que o pecador foi perdoado. Cristologia  A natureza divina de Jesus consistia em sua “divindade”. Ritschl introduz o conceito da “obediencia vocacional” de Jesus ao Pai: Jesus demonstrou com perfeicao o modo de vida apropriado para o reino de Deus.uma vocacao que Jesus cumpriu com perfeicao. 7  Ao longo dos escritos teologicos de Ritschl. O enfoque etico encontra-se na assercao de que Deus chama os homens e mulheres reconciliados a cumprir o ideal do amor para com o seu proximo. Cristo ja existia apenas no sentido de que suas obras sao eternamente conhecidas por Deus e fazem parte da vontade do Pai. para Ritschl. para que fosse a incorporacao perfeita do reino de Deus entre os homens . Ritschl rejeitava firmemente essa formulacao tradicional sobre a divindade de Jesus. o pleno frutificar do reino de Deus na terra.  Porem. em suas conviccoes religiosas e em seus motivos eticos e nao em suas supostas qualidades inatas ou em seus poderes. Foi nessa discussao. seu Pai. afirmando que ela era cientifica e nao religiosa. Sua vida sem pecado e morte voluntaria nao apenas revelaram o reino de . uma questao de se atingir um estado abencoado no pos-vida . A salvacao e. ele simplesmente nao pode se contentar com a conclusao de que aquilo que Jesus realizou foi resultado de seu proprio esforco e iniciativa.  De acordo com ele. mais obviamente do que em qualquer outro ponto.apesar de jamais haver negado esse estado.um religioso e outro etico. ele e visto pelos cristaos como tendo o mesmo valor que Deus. o reino de Deus parece ter dois enfoques .

em 1921. Em 1914. se voltasse contra ele. e nao sobre si mesmo: “O Evangelho. o Pai. Harnack era amigo intimo do Imperador Wilhelm da Alemanha.  A influencia mais ampla de Harnack deu-se atraves da publicacao de uma serie de palestras feitas por ele na Universidade de Berlim entre 1899 e 1900. Ao que parece. e a retidao mais elevada e o mandamento do amor. De acordo com Harnack. mas tambem o liberaram na forma de poder para transformar o mundo. Este foi um dos fatores que fez com que seu mais notavel aluno. . esse evangelho e simples e sublime. Adolf Harnack  Dois membros da escola Ritschliana destacam-se pelas formas criativas como desenvolveram ideias a partir de seus fundamentos: o estudioso alemao Adolf Harnack e o professor americano de origem alema Walter Rauschenbusch. Deus. Avaliação  Como resultado de sua influencia. 8 Deus na Historia. incluindo a Biblioteca Real de Berlim. que escreveu o discurso imperial para o povo alemao anunciando o inicio da Ia Guerra Mundial. Harnack. o interesse principal de Ritschl estava na vida historica de Cristo como exemplo moral que teve um impacto sobre a Historia. que deixou a seu encargo varias instituicoes culturais importantes. toda uma geracao de pastores e professores cristaos desenvolveu o “evangelho social”. o Pai. o teologo suico Karl Barth. ele recebeu do Imperador o titulo de cavaleiro. conforme foi proclamado por Jesus. Suas palestras atraiam centenas de alunos e seus escritos (aproximadamente mil e seiscentos titulos) eram grandemente aclamados no mundo academico. tem a ver somente com o Pai e nao com o Filho”. Em 1901. Ele propos a tese de que Jesus proclamou a mensagem sobre Deus.  Nas palestras procurou separar o que era o Evangelho no cristianismo da palha. apoiava fortemente a politica de guerra do Imperador. essas palestras foram publicadas na America sob o titulo What is Christianity? [O Que e Cristianismo?]. e o valor infinito da alma humana. que foram transcritas por um aluno e oferecidas como presente ao professor.  Ele foi professor de historia da igreja na Universidade de Berlim de 1888 ate aposentar-se. consistindo em tres verdades relacionadas entre si: o reino de Deus e sua vinda.

na competicao e no lucro como principal motivacao. a socializacao das principais industrias. Rauschenbusch passou varios meses estudando o Novo Testamento na Alemanha. Para ele. Rauschenbusch publicou seu segundo maior livro. pelo contrario. Walter Rauschenbusch. todas essas mudancas significavam uma cristianizacao gradual da ordem social .  Rauschenbusch publicou a obra que acabaria por tornar-se a teologia sistematica do movimento do evangelho social. ainda. Christianizing the Social Oráer [A Cristianizacao da Ordem Social]. uma parte extremamente pobre da cidade de Nova York. Pediu. envolveu-se por completo no recem-criado movimento do “evangelho social”. procurava redefinir cada uma das principais doutrinas cristas em termos de realidade social e historica do . Quando voltou para os Estados Unidos. ele se apresenta incrustado com historias fantasticas de milagres.  Em 1891. em 1917. Walter Rauschenbush  Harnack recusava-se a aplicar o ideal do reino de Deus a questoes politicas especificas. apoio por parte dos sindicatos e a abolicao de uma economia centralizada na cobica. demonios e catastrofes apocalipticas. La. onde recebeu influencia da enfase Ritschliana sobre o reino etico de Deus como coracao e alma do evangelho.  Sua obra de maior influencia e que o tornou conhecido foi Christianity and Social Crisis [Cristianismo e a Crise Social]. publicada em 1907. Esse livro apresentava em linguagem severa o enorme abismo entre a riqueza e a pobreza na America e afirmava que ser um cristao em meio a essa crise social significava trabalhar para a salvacao de estruturas economicas que perpetuavam a pobreza. anjos. Ate mesmo no Novo Testamento. ele chegou a criticar duramente aqueles que desejavam usar esse ideal para alimentar movimentos revolucionarios de Reforma. ele envolveu-se com o crescente movimento socialista e ajudou a fundar um jornal socialista religioso.uma aproximacao progressiva do reino de Deus na sociedade humana. A Theology fo r the Social Gospel [Uma Teologia para o Evangelho Social].  Em 1912. gastou a maior parte de sua energia criativa como teologo fazendo justamente isso. 9  Harnack encontrou muito pouco do evangelho no Antigo Testamento. tornando-se seu expoente de maior competencia teologica e principal proclamador. Nela.  O primeiro cargo do jovem pastor foi em Hell’s Kitchen.

Soren Kierkegaard  Soren Kierkegaard nasceu em Copenhague. Kierkegaard era um escritor prolifico. ele tratou principalmente de seu relacionamento com Regina Olsen.  Por tras das criticas de Kierkegaard estava sua controversia fundamental com a filosofia hegeliana aceita pelos intelectuais de sua terra natal. vivido uma existencia mundana. O terceiro estagio foi desencadeado por um discurso funebre em 1854. e morreu em 1855. O segundo estagio veio depois de sua experiencia de conversao. Sua carreira literaria deu-se em tres estagios. assim como seus antecessores. filho de um prospero homem de negocios luterano. Rauschenbusch definiu a salvacao como “a socializacao voluntaria da alma”. que. seu verdadeiro interesse era pela filosofia e literatura. na verdade.  Assim. Ele teve uma infancia infeliz: sofreu de deformacoes na coluna e era fisicamente fragil. 10 Reino do Amor. os teologos neo-ortodoxos seguiam o liberalismo mais antigo.. O movimento do evangelho social americano representou a expressao mais pratica e concreta da teologia liberal classica. aceitando o criticismo biblico. vendo o Iluminismo com naturalidade e.. em 1840. em 1848. No primeiro. e concentrou-se na dificuldade de ser cristao. em 1813. ao completar seus estudos. no qual um bispo da igreja do Estado dinamarques elogiava um colega falecido que havia. (. para ele.) Estavam seriamente preocupados com o fato de o liberalismo protestante ter se esforcado tanto para tornar a fe crista aceitavel a mentalidade moderna a ponto de perder o evangelho. A REVOLTA CONTRA A IMANÊNCIA: A TRANSCENDÊNCIA NA NEO-ORTODOXIA  O movimento neo-ortodoxo caracterizou-se pela tentativa dos teologos de redescobrir o significado para o mundo moderno de certas doutrinas que haviam sido centrais para a antiga ortodoxia crista. Apesar de ter sido educado para o ministerio eclesiastico. . equivalia a “humanidade organizada de acordo com a vontade de Deus”.  Por um lado.

envolve um desejo de ir pela fe a lugares para onde a razao nao pode nos levar.tornaram-se os fundamentos sobre os quais os teologos da neo-ortodoxia do seculo 20 construiram seus pensamentos e as teses que expandiram em suas deliberacoes teologicas. Para que a verdade apareca e preciso apenas que alguem faca as vezes de uma parteira. Berlim. portanto. a verdade e subjetividade. para Kierkegaard.como a transcendencia do Deus que. KARL BARTH: A transcendência como liberdade de Deus A vida e a carreira de Karl Barth  Karl Barth nasceu em 1886 na Basileia. surge quando o sujeito pessoal deseja plenamente fazer parte dessa verdade. inclusive. que o Eterno tornou-se temporal. 11  A verdade nao e impessoal e nao pode ser obtida atraves do pensamento desapaixonado. pois pressupoe que a verdade esta presente dentro do individuo. e a religiao da imanencia.  Ele estudou teologia em universidades em Berna. Suica. Kierkegaard concluiu que sua essencia esta na profunda preocupacao. Mas na religiao de Jesus . Ser um cristao. Tal mestre e o Salvador e Redentor e sua vinda e a “plenitude do tempo”.  A verdade do Cristianismo e captada apenas atraves da fe e nao pela razao.o individuo nao possui a verdade. Ela afirma que Deus tornou- se humano. a “Religiosidade A”. vive no engano.  E claro que. ele precisa de um mestre que leve a verdade ate ele e. profere ao individuo a verdade divina infalivel . temor e tremor santo e nao numa seguranca complacente. ofereca as condicoes necessarias para que ele a receba. Esta ultima. Seu pai era professor em uma universidade para pregadores (semelhante a um seminario) e identificava-se com um grupo relativamente conservador dentro da Igreja Reformada da Suica. no momento do encontro divino. Mas a confissao crista de Jesus como Cristo envolve um paradoxo duplo. chegando finalmente a um posicionamento teologico dentro da linha ritschiliana . Pelo contrario. Kierkegaard delineou sua famosa distincao entre Cristianismo e religiao socratica.  Em Migalhas Filosóficas. ou pior. Assim. esse mestre e Jesus Cristo.  Os temas enunciados pelo filosofo dinamarques do seculo 19 . Tubingen e Marburg. ajudando o sujeito sabedor a dar a luz essa verdade.“Religiosidade B” ou religiao do outro .

ficaria com a segunda opcao. e declarava que se fosse forcado a escolher entre um dos dois. Foi em Safenwil que fez historia na teologia. ele dedicou-se a um estudo cuidadoso e detalhado das Escrituras e. ha dois que se destacam. pois ali. Barth criou uma revolucao teologica. pois vem de um Deus completamente distinto deles.  Durante a guerra. Entre eles estavam quase todos os seus professores de teologia. Em agosto de 1914. ate entao. descobriu “O Estranho Mundo Novo Dentro da Biblia”. . uma mensagem que os seres humanos sao incapazes de prever ou antecipar. Em primeiro lugar. ele havia honrado profundamente. a obra Der Romerbrief [Epistola aos Romanos] caiu como uma bomba no quintal onde brincavam os teologos. Entretanto. mudou-se para uma pequena congregacao em Safenwil. De acordo com um teologo da epoca.  Barth criticou a teologia liberal por transformar o evangelho em uma mensagem religiosa que fala aos homens de sua propria divindade ao inves de reconhece-lo como Palavra de Deus. Barth afirmava a validade tanto do metodo historico-critico de estudo das Escrituras quanto da doutrina da inspiracao verbal. ele recebeu a influencia de Harnack e.  O segundo fator que afastou Barth da teologia liberal foi um acontecimento especifico. titulo que usou para um de seus primeiros artigos. Barth estava pedindo uma revolucao no metodo teologico. os quais. uma teologia “do alto” para substituir a antiga teologia “de baixo” centralizada no ser humano. Em decorrencia disso. O que encontrou nas Escrituras nao foi a religiao humana e nem mesmo os mais refinados e elevados pensamentos de pessoas devotas. uma vila na fronteira entre a Suica e a Alemanha. Barth comecou a trabalhar num comentario sobre a epistola de Paulo aos Romanos.  Em 1911. Ao ser publicado em 1919. Em Berlim. mas sim a Palavra de Deus. Barth percebeu que a teologia liberal de nada servia para ajuda-lo em sua tarefa semanal de pregar o evangelho ao povo de Safenwil. ele provocou um furor inesperado por causa de suas duras criticas a teologia liberal protestante. tornou-se discipulo do grande teologo ritschliano Wilhelm Herrmann. 12 de pensamento liberal. No comentario. ele leu a publicacao de uma declaracao realizada por noventa e tres intelectuais alemaes que apoiavam a politica de guerra do imperador Wilhelm. em Marburg. atraves dele.  No fundo.  Muitos fatores levaram ao rompimento radical de Barth com a teologia liberal.

 Os pressupostos de todo o esforco de Barth em A Dogmática da Igreja baseiam- se no fato de que.  O elemento negativo permaneceu no sentido de que Barth sempre se opos a qualquer fomia de teologia natural . Barth contrastou essa “analogia da fe” com o conceito mais antigo de “analogia do ser”.  Logo depois de concluir seu livro sobre Anselmo. cultura e filosofia.a tentativa de conhecer a Deus atraves da natureza. pois estava convencido de que a verdadeira teologia deve ser a explicacao da Palavra de Deus e nada mais. em Jesus Cristo. que ficou inacabada com treze volumes quando ele faleceu em 1968. do evangelho. e claro. mudando-se para Bonn em 1930. comecou a surgir uma mudanca decisiva na enfase de seus escritos. Argumentava que essas grandes verdades nao podem ser construidas a partir da experiencia universal humana ou da razao. Isso significa que a teologia cristã nao pode ser uma ciencia objetiva e desapaixonada. sua enfase havia mudado em direcao a possibilidade de um verdadeiro conhecimento de Deus em Jesus Cristo atraves da fe. ele enfatizava o carater distinto de Deus. Mesmo sem deixar de lado sua rejeicao a teologia liberal. O conhecimento de Deus nao e uma capacidade inata da natureza ou da experiencia humana. Barth foi convidado para ser professor na Universidade de Munster. Barth omitiu propositadamente essa secao. ele comecou a enfatizar mais o “Sim” de Deus para a humanidade atraves de Cristo do que o carater negativo que havia permeado seu trabalho durante mais de uma decada. A Dogmática da Igreja. mas devem ser recebidas pela revelacao de Deus numa atitude de obediencia. Deus estabelece uma analogia entre si e a humanidade. de seu tamanho) e a falta dos tradicionais prolegomenos ou introducao filosofica. Barth comecou a trabalhar numa teologia sistematica. toda a teologia deve ser feita num contexto de oracao e obediencia. que e tanto Deus quanto homem. para Anselmo. da eternidade e da salvacao. Método Teológico . Porem. mas e possivel apenas porque Deus graciosamente o concede em Jesus Cristo. onde ficou apenas cinco anos. possivel somente atraves da graca e da fe. mas deve ser a compreensao da revelacao objetiva de Deus em Jesus Cristo. Durante esse periodo. 13  Ao longo do comentario.  Em 1925.  Barth argumentou que. O aspecto mais notavel dessa obra (alem.

portanto. 14  Barth resumiu seu proprio posicionamento ao declarar: “A possibilidade de se conhecer a Palavra de Deus esta na Palavra de Deus e em mais nenhum outro lugar”. a proclamacao do evangelho atraves da igreja constitui a terceira forma. Para Barth. entretanto. a medida que Ele fala atraves dela”.  Barth. afirmando que “aquilo que temos na Biblia e. a testemunha privilegiada de toda a revelacao divina. uma serie de tentativas humanas de se repetir e reproduzir essa Palavra de Deus em palavras e pensamentos humanos e em situacoes humanas especificas”. A primeira forma e Jesus Cristo e toda a historia dos atos de Deus que levaram ate a vida de Jesus e estao relacionados a ela. A segunda forma consiste nas Escrituras.  Em sua liberdade e graca soberanas. Deus revela a si mesmo e nao somente algumas informacoes ou um modo de vida. a Biblia nao e a Palavra de Deus numa forma estatica. a unica fonte de teologia crista e a Palavra de Deus. Essa e a propria revelacao.  Devemos. Essa declaracao expressa o lado positivo e o negativo de seu metodo teologico. A Palavra de Deus e a Bíblia  Para Barth. isso significa que “o Deus eterno deve ser conhecido atraves de Jesus Cristo e nao de qualquer outra forma”. negava a posicao dada as Escrituras pela ortodoxia classica. de qualquer maneira. E.  Em decorrencia disso. bem como a sua morte e ressurreicao. A Biblia torna-se Palavra de Deus em um acontecimento: “A Biblia e a Palavra de Deus a medida que Deus faz com que ela seja sua Palavra. o acontecimento singular da Historia no qual Deus se revelou e o advento de Jesus Cristo. A Palavra de Deus tem sempre um carater de acontecimento'. consiste em tres formas ou modos. o evangelho em si. entao. de fato. compreender a inspiracao da Biblia como uma decisao divina que e tomada continuamente na vida da igreja e de seus membros”. e o proprio Deus relatando seu agir. As duas ultimas formas sao Palavra de Deus apenas num sentido instrumental. em Cristo. de certo modo. O fato de a Biblia ser a Palavra de Deus. Ele fazia distincao entre a Biblia e a Palavra de Deus. Essa Palavra. nao depende de forma alguma da . De acordo com Barth. pois tornam-se Palavra de Deus quando Deus as utiliza para revelar a Jesus Cristo. Por fim. Deus se revelou na historia humana e tornou possivel o milagre de conhece-lo.

Deus a usa para realizar o milagre da fe em Jesus Cristo. verdadeiramente humano e verdadeiramente divino. esta a sua possibilidade . diferente do Pai. portanto. Filho e Espirito Santo sao formas divinas de ser que existem eternamente dentro da unidade absoluta de Deus. Se Jesus Cristo fosse uma outra personalidade. O comeco. De acordo com Barth. ele deve ser identico a Deus e nao simplesmente um agente ou representante de Deus.  Para o teologo suico. Em decorrencia disso. pois sempre de novo. Deus como “aquele que ama em liberdade”  Apesar da doutrina da Trindade ser o centro e o coracao de sua doutrina sobre Deus. independente de qualquer decisao ou iniciativa humana. aos ouvidos modernos. Para Barth.  De acordo com Barth. 15 experiencia individual ou das conclusoes de estudiosos baseadas em evidencias externas ou internas. ele nao poderia ser a revelação do Pai. de algum modo. Ele definiu o Ser de Deus como “Aquele que Ama em Liberdade” e dividiu as perfeicoes divinas em . como unica e inigualavel revelacao de Deus. ao falar sobre Jesus Cristo. o meio e o fim de toda doutrina e a figura de Jesus Cristo . morte.a inigualavel revelacao do proprio Deus entao. Deus é quem ele se revela ser. Ele preferia o termo “forma” ao inves de “pessoa” pois. Jesus Cristo e a unica e singular revelação de Deus sobre si mesmo. Barth dedicou a maior parte de um volume inteiro aos atributos ou perfeicoes do ser de Deus (A Dogmática da Igreja 2/1).o Deus Triuno. ele estava falando sobre a encarnacao da “Segunda forma do Ser” (Seinsweise) de Deus.  Se Jesus Cristo e quem a fe indica que ele e . Jesus Cristo. Teologia Cristocentrica e Trinitariana  A estrutura da teologia de Barth é completamente cristocêntrica. a palavra pessoa inevitavelmente implica “personalidade” e Deus tem apenas uma personalidade. Pai.  Barth deixou claro que. a revelacao de Deus e o proprio Deus. o Pai. portanto. Por tras da realidade da revelacao e dentro dela. exaltacao e uniao eterna com Deus. a Biblia e a Palavra de Deus. portanto. e identico a Deus e. ressurreicao.  Contradizendo diretamente a abordagem de Schleiermacher. Barth colocou a doutrina da Trindade como ponto de partida para a teologia. a Palavra de Deus em pessoa.sua vida.

Essa marca substituia a tradicional dualidade divina de imanencia e transcendencia. As perfeicoes que expressam esse grande amor de Deus sao santidade. sendo que todos os seres humanos estao incluidos nele e sao por ele representados. retidao. uma fraqueza que surge do extremo ao qual ele leva a autonomia teologica. que e tanto o Deus que elege como o ser humano eleito por ele. nele. a doutrina da eleicao apresentada por Barth e “cristomonistica”.  Barth prosseguiu enfatizando a liberdade desse amor.  Se Deus precisasse do mundo como objeto do seu amor. “Esta reservado a humanidade e a vida eterna em comunhao com Deus”. Para ele. Nenhum decreto terrivel de predestinacao dupla divide a humanidade em salva e maldita. O amor de Deus e sua livre escolha de criar a comunhao entre os seres humanos e ele proprio atraves de Jesus Cristo. Deus seria privado de sua divindade. todos estao incluidos em Jesus Cristo.  Como sua teologia de um modo geral. Avaliação  A forca do metodo teologico de Barth esta em sua total dependencia da revelacao. Enquanto o amor de Deus pelo mundo e real e eterno. paciencia e sabedoria. Pelo contrario. Deus continuaria sendo amor mesmo que ele nao optasse por amar o mundo. Se nao . A doutrina da eleição  Jesus Cristo e o homem eleito e rejeitado (maldito).  Barth afirmava que a liberdade e o amor de Deus devem ser igualmente enfatizados e equilibrados a fim de se fazer justica ao Deus de Jesus Cristo. 16 duas categorias.  Barth deixou absolutamente claro que Jesus Cristo e a unica pessoa verdadeiramente rejeitada e que.  A forca da teologia tambem e a fonte da maior fraqueza do metodo teologico de Barth. e os beneficios de sua obra salvadora estendem-se sobre todos eles. todos os seres humanos sao eleitos. ele nao e necessario. as perfeicoes do amor divino e as perfeicoes da liberdade divina. entao esse amor nao seria resultado de graca pura e o mundo tornar-se-ia necessario para o ser de Deus. Jesus Cristo e o unico objeto da eleicao e da maldicao de Deus. Sua recusa a todo tipo de justificacao racional da verdade da revelacao conduz a uma teologia que vai alem da autonomia e acaba no isolamento. misericordia.

 A teologia de Brunner e um ataque continuo a todas as tentativas de se captar o ser de Deus com a razao natural e de modo independente da revelacao ou transformar qualquer filosofia humana em uma estrutura necessaria para a compreensao da Palavra de Deus. Mais para o fim de sua carreira. Schleiermacher parece ter sido alvo de grande parte do desprezo de Brunner como o paradigma dos teologos cristaos que transformam o conhecimento sobre de Deus numa capacidade natural da humanidade. Alguns dos criticos de Barth usaram esse termo para descrever a concentracao exagerada sobre a figura de Jesus Cristo. Brunner encarou mais dois oponentes: a “ortodoxia” e Karl Barth. tendo escrito diversos tratados e artigos sobre teologia. O problema dessa posicao e que ela conduz a uma negacao de qualquer revelacao geral. Preocupações teológicas  Apesar de ser apenas mencionado ocasionalmente. uma obra de tres volumes. tomando-a “cristocentrica”. etica social e vida crista. de que maneira a fe crista pode ser algo mais do que esoterismo para aqueles que estao do lado de fora? Uma coisa e Barth rejeitar a forma como a teologia liberal reduzia a fe crista aquilo que podia ser antecipado dentro dos horizontes da experiencia humana. ele compilou o trabalho de toda a sua vida em Dogmatics [A Dogmatica]. Barth nao apenas fez de Jesus Cristo o centro e o coracao de sua teologia. . presente ao longo de toda a sua teologia. mas outra coisa bem diferente e eliminar qualquer ligacao entre crenca e experiencia. daquela forma de revelacao que parece constituir o cerne de toda a argumentacao de Paulo no primeiro capitulo de Romanos. Emil Brunner: transcendência no encontro entre o divino e o humano A vida e a carreira de Brunner  Brunner foi um autor muito proficuo.  Um segundo ponto controverso do metodo teologico de Barth e seu suposto cristomonismo. 17 ha pontes inteligiveis ligando a teologia com a experiencia humana comum ou com as outras disciplinas. como tambem restringiu o conhecimento de Deus aquilo que e revelado em Cristo.  Alem de sua luta contra a teologia da imanencia.

 O tipo de revelacao que Brunner enfatizava acontece em dois momentos: historicamente.  Brunner afirmava que qualquer teologia que trate o conhecimento de Deus de maneira analoga ao conhecimento de objetos (como.  A partir de seu conceito de revelacao como um encontro Eu-Tu. pois. na encarnacao de Deus em Jesus Cristo e.  Foi o teologo e filosofo judeu Martin Buber que influenciou Brunner mais diretamente em sua “descoberta” do conceito biblico de verdade como um encontro entre o divino e o humano. uma resposta e um compromisso. Porem. por exemplo. Brunner tomou emprestadas diversas ideias de dois pensadores existencialistas do seculo 20: Ferdinand Ebner e Martin Buber. Essa comeca quando ele identifica a revelacao como um “Encontro Eu-Tu” que acontece entre o individuo e Deus. A propria essencia do Cristianismo esta na ocorrencia do encontro entre Deus e a humanidade. no testimonium spiritus internum. o testemunho interior do Espirito Santo sobre Jesus Cristo que toma Cristo um contemporaneo do crente. palavras e proposicoes sobre Deus nao podem ser consideradas revelacao. inevitavelmente. planetas distantes ou particulas subatomicas) e fundamentalmente equivocada. Personalismo Bíblico  A teologia de Brunner nao deve ser definida em termos daquilo a que ele se opunha. toda a abordagem teologica de Brunner passou a ser chamada de “personalismo biblico”. Revelação como um encontro  De acordo com Brunner. no tempo presente.no sentido de que transcende o plano dos objetos e o dualismo sujeito/objeto existente no conhecimento desses objetos – exigindo uma decisao pessoal. Ao apresentar aquilo que ele acreditava ser a definicao biblica da verdade da revelacao. transformam Deus em um objeto e acabam caindo na esfera do “conhecimento do objeto”. sua contribuicao a teologia contemporanea tem seu lado positivo e original. 18  Ele condenava os ortodoxos por identificarem as palavras das Escrituras com a Palavra de Deus. . O conhecimento de Deus e pessoal .

Mas. ele comunica o seu proprio ser. Brunner buscava distinguir sua propria contribuicao a teologia da contribuicao de Barth. portanto. Portanto. isso significava para ele que nem tudo nas Escrituras tem igual valor ou mesmo carater verdadeiro. Por um lado. Porem. nela. 19  O ponto mais importante da doutrina de Brunner acerca da revelacao e que. ao enfatizar duas importantes diferencas: o lugar da “revelacao geral” e a doutrina de Deus.  A doutrina da inspiracao foi alvo especifico dos ataques de Brunner. as Escrituras nao sao verbalmente inspiradas por Deus e nem proposicao infalivel da Palavra a humanidade. ele . especialmente acerca da eleicao e da predestinacao. no qual argumentava que Barth estava errado ao negar qualquer tipo de revelacao verdadeira de Deus atraves da natureza. Bultmann considerava-se um aliado de Karl Barth no desafio neo-ortodoxo ao liberalismo. relegando a um segundo plano tanto o testemunho apostolico quanto a Biblia que o contem. por outro lado. Juntamente com Barth.  O que Brunner estava tentando evitar era a heresia do “Teologismo” – colocar a doutrina ou teologia no lugar da fé pessoal. As Escrituras sao um veiculo singular e instrumento de revelacao no sentido de que contem o primeiro testemunho da revelacao de Deus em Jesus Cristo. sao tanto fonte de fe quanto de teologia. elas sao testemunho absolutamente indispensavel de Jesus Cristo. que ve a mensagem do antigo documento como a Palavra de Deus dirigida ao individuo e pedindo uma resposta de fe individual. onde se situa a Biblia? Brunner oferecia um posicionamento duplo em relacao as Escrituras.  Ele voltou-se para Jesus Cristo como a unica e verdadeira norma e autoridade para a fe crista. Deus nao comunica algo sobre si mesmo. Controvérsias com Barth  Como mencionamos anteriormente. sendo.  Brunner publicou um ensaio com o titulo “Natureza e Graca”. RUDOLF BULTMANN: A TRANSCENDENCIA DO Kerygma7  Buscava empregar uma interpretacao existencialista do Novo Testamento. Brunner recusava-se terminantemente a identificar a revelacao com as palavras das Escrituras.  Diante disso. autoridades relativas abertas a criticas e correcoes.  Apesar de certas diferencas entre eles.

o seu centro. que ele via caracterizada pela ansiedade e ate mesmo pelo desespero. porem.ao inves de Deus . Como estudioso do Novo Testamento. determinando que o Jesus historico era a figura normativa para a teologia. especialmente a personalidade de Jesus que. conduta. Albert Schweitzer conclui que a busca havia sido um grande fracasso. dirigida a cada ser humano. Ele afirmava que o conteudo dos Evangelhos apresentava um Jesus que ja havia sido encoberto pelas formas de pensamento do contexto helenista em que os livros tinham sido escritos. Seguindo as ideias do filosofo existencialista Martin Heidegger. em grande parte. o kerygma. A Busca do Jesus Histórico (1906). Na . A fé e o Jesus Histórico  Um primeiro problema que se apresentava diante dos estudiosos do Novo Testamento no final do seculo 19 era a questao do Jesus historico. o Cristo proclamado nos textos do Novo Testamento ou o verdadeiro Jesus historico por tras desses textos? Tomando por base o legado de Schleiermacher.  Assim como Barth. desenvolvimento interior e das impressoes de seus contemporaneos.  Com a chegada do final do seculo.  Ao mesmo tempo. ele declarava que podemos conhecer a Deus apenas em resposta a revelacao divina. Dentro dessa visao. que chega ate nos atraves da Palavra de Deus. 20 acreditava que a teologia do seculo 19 havia feito do ser humano .  Ele e conhecido por aplicar de maneira extremamente minuciosa a tecnica da “critica a forma” no estudo dos Evangelhos. os estudiosos lancaram o que passou a ser chamado de “busca pelo Jesus historico”. Bultmann interpretou essa mensagem exclusivamente em termos de condicao humana. ele foi alem de Barth. uma tentativa de investigar o que havia por tras dos Evangelhos para determinar exatamente o que Jesus havia dito e feito. Em sua obra monumental. para eles.  Qual era normativo. alguns estudiosos comecaram a questionar essa proposta. o liberalismo havia optado pela segunda alternativa. a conclusoes negativas sobre o que podia se saber sobre o Jesus historico. A pessoa de Jesus que os estudiosos haviam reconstruido a partir dos textos nao passava de um reflexo da imagem que eles proprios possuiam desse Jesus. Bultmann chegou. podia ser reconstruida a partir de seus ensinamentos.

. quer seja baseada nas boas obras ou no “conhecimento objetificante”. de fato.  Argumentava que a revelacao de Deus esta no encontro presente entre o individuo e a pregacao acerca de Cristo. vinda ate nos no kerygma.) A fe nao e o conhecimento de fatos historicos. pois nenhuma atividade desse tipo pode provar que Deus agiu em um acontecimento passado. ao inves do Jesus historico. afirmavam que o Novo Testamento refletia o uso de mitos e religioes de misterios – especialmente o mito da vinda de um deus redentor . ele permaneceu um representante fiel da compreensao neo-ortodoxa de revelacao como kerygma. defendendo a eliminacao da mitologia. a verdadeira mensagem do Novo Testamento. com o Jesus da Historia. Bultmann afirmava que estava aplicando ao universo do conhecimento e do pensamento o tema da justificacao pela fe de acordo com Lutero. a proclamacao do agir de Deus em Jesus. Nesse ponto. visualizar as verdades eternas presentes em meio aos mitos.  Mantendo-se firme no seu ceticismo radical quanto aos possiveis resultados da pesquisa historica. entao. Ele argumentava que.. o Novo Testamento nao se preocupa. Bultmann afirmava que o Jesus historico em si nao deve ser visto como o centro da revelacao de Deus. Ele afirmava que era impossivel remover os mitos sem perder o kerygma. Ele se concentra no Cristo da fe.para descrever a obra de Jesus Cristo.  Varios teoricos. 21 verdade.  A teologia liberal havia reagido a essa descoberta. Mitologia  A carreira de Bultmann desenvolveu-se durante uma epoca em que os estudiosos biblicos e teologos debatiam-se com um terceiro problema. (. mas a resposta pessoal ao Cristo com o qual nos deparamos na mensagem do evangelho. para que fosse possivel. porem.  Desse modo. . incluindo Bultmann. e o kerygma ou a mensagem da igreja primitiva que e essencial a fe. A fe so pode ser uma dadiva da graca de Deus.  O que ele se recusava a afirmar era que a fe pode ser ancorada na pesquisa historica.  Para Bultmann. Ele dizia que sua proposta “destroi todo anseio por seguranca”. Bultmann rejeitou esse procedimento. a mitologia. essa falta de conhecimento sobre o Jesus historico nao era um detrimento para a fe crista.

uma desmitologizacao adequada compreende a terminologia mitologica. A esse processo ele chamava desmitologização.  Bultmann conclui que.22 Ao trazer a questao crucial da existencia humana para dentro dos textos. podemos ouvir a Palavra de Deus dirigindo-se a nos atraves do kerygma biblico. mas a interpretacao do mito. a . 22  Bultmann defendia. pois ele contem “a perspectiva e os conceitos adequados para a compreensao da existencia humana”. confrontando-nos.. esperando para serem descobertos por meio da hermeneutica.  De acordo com Bultmann. no sentido de que ela supunha haver dentro do texto principios eternos e universais que estavam la. usando o termo para referir-se a qualquer expressao que possa comprovadamente ser excluida pelo enfoque na ciencia natural caracteristica da mentalidade moderna. pelo contrario. Bultmann. mas porque tambem distorce a propria mensagem. por esse motivo. contraria a concepcao grega de transcendencia divina como algo atemporal . Hermenêutica  O problema da mitologia tratado por Bultmann estava relacionado a uma questao teologica correspondente. Ele afirmava que as perguntas que trazemos conosco ao nos posicionarmos diante do texto e que determinam as respostas que receberemos dele e e nossa relacao com o assunto que determina nossas questoes. portanto.  O conceito de transcendencia proposto por Bultmann diferia daquele apresentado pelos documentos biblicos.  Ele argumentava que. impedindo um encontro verdadeiro com o kerygma. argumentava que a relacao entre o leitor e o texto era muito mais complexa.  Ele ofereceu uma outra compreensao de mito. o existencialismo oferece o pre- entendimento apropriado para a leitura dos documentos biblicos. O mito e problematico nao apenas porque torna a mensagem crista inaceitavel para a mente moderna. com o Ser Transcendente. nao a remocao. assim. a hermeneutica. a fim de visualizar o verdadeiro sentido dos textos apresentados nessa forma literaria.  Ele considerou ingenua essa visao. A transcendência de Deus  A ultima questao para a qual Bultmann procurou uma resposta esta na doutrina de Deus.como uma mente oposta a materia e mundo sensorial .

 Dentro dessa visao. podemos apenas falar de Deus. Transcendencia significa que Deus esta diante de nos no momento existencial da decisao. 23 transcendencia biblica refere-se a autoridade absoluta de Deus. ao mesmo tempo. Para Heidegger. que sao. Heidegger fez uma distincao entre o ser do homem e o ser de todos os objetos no mundo. Ele afirmava que cada individuo e um ser historico. impessoais e objetivos . Bultmann apresentou uma visao existencial.  As declaracoes teologicas so sao possiveis quando sao. Os elementos do existencialismo  Os escritos de Heidegger forneceram varios conceitos a Bultmann. os quais ele empregou com grande sucesso no desenvolvimento de sua proposta teologica. dirigindo-se a nos com sua Palavra e confrontando-nos com o desafio de responder pela fe.  Assim.. acontecimentos historicos.  Dentro da linha de Heidegger. a dicotomia entre “existencia” e “mundo” e central a teologia de Bultmann. Bultmann argumentava que o importante sobre cada individuo e a capacidade dessa pessoa responder aos acontecimentos que ocorrem ao longo do curso de sua vida. Ao primeiro ele chamou de “existencia”. a existencia nunca esta concentrada no geral ou no universal. . afirmacoes antropologicas. mas sempre no individual e pessoal.  O primeiro elemento existencialista de grande ajuda foi o proprio conceito de “existencia”. criando desse modo a verdadeira existencia. enquanto ao segundo deu o nome de “existente”. Por causa da influencia de Heidegger. encontramos a importante dialetica entre a existencia autentica e nao-autentica. ha dois modos de ser. na verdade.  De acordo com Heidegger. Existência Autentica  Relacionada aos conceitos de existencia e historicidade.nao podemos falar em termos distantes.  Bultmann tambem desenvolveu a visao de Heidegger acerca da historicidade. Como resultado. ele argumentava que nao podemos falar sobre Deus . na pessoa como possuidora de capacidade de decisao. As pessoas desenvolvem uma existência autêntica sempre que aceitam o desafio de serem lancadas no mundo.

em si.  A existencia autentica. Isto e pecado .  Bultmann usou esse esquema para compreender a distincao entre os termos biblicos pecado (que para Bultmann significa.  O que importa e o sentido da cruz e da ressurreicao. mas. e viver alem do mundo.compromisso pessoal com Deus. ele rejeitou todas as teorias que procuram provar que a morte e ressurreicao de Jesus tem o poder de expiacao e salvacao. e a recusa em basear a vida no “mundo”. Isto e fe . a saber. nas proprias palavras de Bultmann. concentrava-se no presente como sendo o ponto de decisao. que se encontra na esfera tangivel das proprias realizacoes ou no passado. que tinha esperancas da verdadeira existencia estar ao alcance do individuo por seu proprio esforco. “incredulidade”) e/e.  Desde cedo em sua carreira. História  Essa perspectiva da Historia relaciona-se ainda a visao de Bultmann sobre temporalidade. juntamente com a renuncia a seguranca centrada no proprio eu e uma abertura para o futuro. nao e simplesmente o “agora” . separado de Deus. O “presente”. 24 Por outro lado. por outro lado. E atraves da fe surge uma nova compreensao de si mesmo. A fé e o Evangelho  Ao contrario de Heidegger. pelo contrario. que ele desenvolveu a partir de uma triade de “cuidado” de Heidegger.ver-se em termos do eu proprio. vendo o mundo “como se nao estivesse la”. e a situacao de decisao responsavel. ao mesmo tempo. E viver no mundo. firmando-se em realidades intangiveis. elas desenvolvem uma existência não-autêntica sempre que nao conseguem mais estabelecer distincao entre o proprio ser e o mundo. por sua vez. o significado continuo que possuem como Palavra de Deus dirigida aos individuos de nossos dias. . um milagre de Deus. Ele afirmava que a existencia nao-autentica consiste em uma busca por seguranca e satisfacao no “mundo”. A visao existencialista de Heidegger sobre o tempo. sendo essa resposta. a decisao de unir o passado e o futuro de modo a criar uma existencia autentica. pois a fe e uma resposta a Deus e e em Deus que os individuos encontram o seu verdadeiro ser. basicamente. Bultmann afirmava que a existencia autentica era produto exclusivo de uma resposta de fe a graca de Deus oferecida na proclamacao crista.

para Bultmann. . levou a uma teologia unilateral.  Conforme observamos anteriormente. na verdade. mas sim deve sua existencia a essa historia. Esse problema torna-se evidente em tres principais pontos fracos. Assim. a ressurreicao e a exaltacao do Crucificado a posicao de Senhor. mas sim de outros temas. a cruz (que Bultmann aceitava como um fato da vida de Jesus) e o julgamento libertador de Deus sobre a humanidade. Mesmo mantendo a importancia da cruz de Jesus para a fe. o encontro nao depende de um conhecimento pessoal sobre a vida de Jesus na terra. Por “fe” ele queria dizer o desejo de compreender a si mesmo como tendo sido crucificado e ressurreto com Cristo. Nossa fe nao produz a historia de Jesus como forma de expressao.  Ao inves disso. o principal problema teologico esta no centro da proposta de Bultmann. ele ainda assim tomou o conteudo da vida de Jesus irrelevante. por isso. “a fe na ressurreicao e. Muitos textos simplesmente nao tratam de questoes existenciais como insiste a formulacao de Bultmann. A ressurreicao (sobre a qual Bultmann se recusava a falar em termos de um acontecimento na historia passada) nao se refere a um homem que voltou dos mortos neste mundo e nem a passagem de Jesus para uma vida alem. a mesma coisa que a fe na eficacia salvadora da cruz”. Exegese Universal  Em primeiro lugar.  Bultmann afirmava que a proclamacao dessa mensagem crista faz surgir a fe.  Bultmann foi longe demais em sua tentativa de livrar a fe da dependencia das descobertas da pesquisa historica. O primeiro esta relacionado a exegese. o segundo a vida de fe e o terceiro a natureza de Deus. a fe crista e liberta de qualquer dependencia das inconstancias dos estudos historico-criticos. 25  Desse ponto de vista. o uso do esquema existencialista de Bultmann nos estudos do Novo Testamento resultou numa tendencia a simplificacao extrema da exegese que. Crítica  Independente da questao das formulacoes doutrinarias corretas e criticas relacionadas a varios aspectos de sua posicao. Bultmann dizia que. por sua vez. ao considerar a fe exclusivamente como resposta a mensagem que Deus havia proferido em Cristo.

mas nao conduzia a uma santificacao. a proposta de Bultmann ressaltou a necessidade de justificacao pessoal (a decisao do individuo de ser transformado em alguem autentico). com sua visao restrita demais da mensagem do evangelho. numa encruzilhada importante. em sua maioria. mas sim aplicar a fe crista como ele a entendia na dimensao social da vida. REINHOLD NIEBUHR: A Transcendencia Revelada atraves do Mito  Sua missao nao era apresentar uma teologia nova e criativa.  Em termos teologicos. La.  Nao apenas as declaracoes sobre a realidade divina tem sua abrangencia reduzida. como tambem a proposta de Bultmann limita as afirmacoes sobre o agir de Deus no mundo. uma experiencia que influenciou profundamente tanto seu enfoque social quanto sua teologia. Cristianismo prático . Porem. Ele deu pouca enfase a abrangencia da fe sobre a vida do crente ou sobre a vida corporativa dos crentes em comunidade. em Nova York.  Depois de se formar em Yale. o jovem pastor Niebuhr tornou-se defensor de uma proposta semelhante de mudancas sociais. ele teve contato direto com a luta daqueles que estavam sendo explorados pelos grandes industriais do pais. resulta prontamente numa fe igualmente restrita e privatizada. por operarios da montadora Ford. o caminho de Niebuhr tomou um rumo diferente daquele seguido pelo pastor batista alemao. 26 A fé privatizada  Em segundo lugar. a abordagem teologica de Bultmann. Um Deus limitado  A declaracao de Bultmann de que so podemos falar de Deus a medida que falamos de nos mesmos coloca a natureza eterna de Deus fora dos limites da articulacao teologica humana. Assim como o pastorado de Rauschenbusch no bairro pobre de “Hell’s Kitchen”. o levou na direcao do socialismo. ele tornou-se pastor de uma congregacao constituida.

indo de encontro a vida social contemporanea com a critica oferecida pela fe crista. Ao faze-lo. o reino de Deus é um alvo alcançável. Antropologia Cristã  Sua busca por entender essa impossibilidade levou Niebuhr à teologia cristã clássica. duas realidades que nao podem ser separadas. ele estava profundamente interessado nas implicacoes praticas da fe crista. Justiça parcial  Em segundo lugar. independente de nossas boas inteções. 27  Ao longo de seus escritos. não devemos acreditar ingenuamente que as soluções que propomos parar os males sociais ou nossos esforços intensos para mudar a sociedade irão dar início a uma ordem perfeita. ha tres temas predominantes relacionados entre si e que fazem parte da tarefa basica e central de Niebuhr. Em primeiro lugar..  Seu alvo era sempre “determinar a relevancia da fe crista para os problemas contemporaneos”. um padrão que não conseguiremos atingir. Ele buscava sempre agir como pregador profetico..  Ele criticou repetidamente dois elementos da fé moderna: a idéia de progresso e a idéia de aperfeiçoamento da humanidade. .) Ele afirmava que. pois procurava mostrar a importancia e o valor da fe crista numa sociedade que havia. só podemos esperar encontrar uma experiência parcial de justiça em nossa sociedade. a “justiça parcial” é uma ênfase contínua. Niebuhr argumentava que a humanidade acarreta tanto um potencial quanto um problema.  Por isso... Na obra A Natureza e Destino do Homem ele resume a antropologia biblica em tres teses. (. a doutrina da natureza do ser humano. rejeitado o evangelho. A contradição humana  No centro da antropologia de Niebuhr. (. encontra-se a sua visao da contradicao que caracteriza a condicao humana. mas está sempre presente para julgar a sociedade humana. Baseado no livro de Genesis e no apostolo Paulo. Em termos teológicos. ele atuou como uma especie de apologista. mais especificamente à antropologia. presente ao longo de todos os seus escritos. de um modo geral.) A contribuição mais importante de Niebuhr para a releitura da teologia cristã de nossa geração é sua exposição da doutrina do homem.

28 Primeiro. antes de mais nada. do ponto de vista de Deus (ou seja. por causa do pecado. ele tratou repetidamente dessa questao. A fe e a aceitacao de nossa dependencia de Deus. o ser humano e uma existencia criada e finita tanto em corpo quanto em espirito. A segunda abordagem e mais basica e universal . E. o pecado estava enraizado no coracao do ser humano. no mal uso da capacidade que constitui a singularidade humana . Em terceiro lugar. Entretanto. o orgulho do conhecimento (declarar como absoluto e final coisas que nao passam de conhecimento finito) e o orgulho da virtude (declarar como absolutos os nossos padroes morais relativos). Neo-ortodoxia modificada . levando ao orgulho espiritual (conferir carater divino a nossos padroes limitados). O pecado aparece sob duas formas.a transcendencia de si mesmo. Em segundo lugar. Assim. para Niebuhr. os seres humanos devem ser vistos. eles devem ser amados. era o conceito de pecado que estava mais em falta na mentalidade moderna. Assim. o pecado deve ser visto em relacao a fe. para Niebuhr. como imagem de Deus). O pecado humano  Das tres dimensoes de antropologia biblica. dois meios atraves dos quais procuramos escapar da ansiedade (Kierkgaard). os seres humanos sao pecadores. todas as antropologias dualistas .pontos de vista que dividem o ser humano em corpo e alma .a negacao de nossas limitacoes humanas atraves da afirmacao de nossa independencia. que aparece sob varias formas: o orgulho do poder (buscar o poder como tentativa de sentir seguranca). essa dimensao da visao biblica da realidade humana estava intrinsecamente ligada as outras duas. Ao contrario das antropologias dualistas. a tentativa de negar a liberdade humana ao regredirmos a natureza animal.  Assim. Esse e o pecado do orgulho. enquanto o pecado e a negacao de nossa condicao de criaturas. Por isso. cada ser humano e um individuo capaz de se posicionar fora de si mesmo e do mundo e que nao e capaz de encontrar significado em si mesmo ou no mundo. O primeiro e a sensualidade. e nao em termos de suas faculdades racionais ou em relacao a natureza. mas nao considerados dignos de confianca.devem ser rejeitadas. para ele.

ele via uma enfase a transcendencia de Deus que era equilibrada pela enfase na “relacao intima de Deus com o mundo”.  Lehmann e outros determinaram que a origem desse problema no pensamento de Niebuhr pode ser encontrado numa dificuldade teologica mais profunda. ele concordava com a enfase principal da neo- ortodoxia europeia sem ser tao radical no enfoque da separacao entre Deus e o mundo. afirmava os dois aspectos da revelacao de Deus. 29  Nesse assunto tao relevante. Niebuhr. procurava mostrar como os mitos biblicos ainda falam a situacao moderna. por outro lado. Eles revelam o significado da Historia nao porque sao acontecimentos literais e historicos.  Apesar de Barth ter sido o alvo principal de suas criticas a neo-ortodoxia. Niebuhr tambem expressou certa reserva em relacao a alternativa apresentada por Rudolf Bultmann. sao supra-historicos. A revelacao privada (ou “geral”) e “o testemunho na consciencia de cada pessoa” de que a vida toca uma transcendencia que vai alem do sistema natural em que cada pessoa existe. como acontecia com os gigantes teologos da Europa. Niebuhr simplesmente nao desenvolveu a conexao do Espirito Santo com a afirmacao de Cristo como Segundo Adao e nem com . Assim. enquanto.  O ponto principal em que os dois divergiam era sua compreensao de mito. a saber. Na Biblia. mas porque tornam-se acontecimentos revelatorios apenas para a fé. afirma uma outra dimensao da revelacao. Essa revelacao privada. havia areas inteiras desse contato. que tambem apresenta seus proprios (e muitas vezes falsos) mitos. portanto. para Barth. Crítica Símbolos Irreais  E possivel para qualquer proposta mitologica de compreensao da historia da salvacao ir alem do subjetivismo? Para Niebuhr. de modo a torna-la compreensivel a mente moderna nao-mitologica. a saber. os acontecimentos que desvendam o significado da Historia. Bultmann desejava desmitologizar a mensagem do Novo Testamento. justamente por serem acontecimentos revelatorios. para Niebuhr. Niebuhr. por sua vez. nao havia um ponto de contato entre Deus e o ser humano. a revelacao publica ou historica (“especial”). uma pneumatologia limitada.

 Com base nessa perspectiva.  Em resumo. Niebuhr apresentou uma apologetica realista – porem bastante negativa . que e verdadeiramente capaz de agir no mundo. mas a inclinacao do homem a injustica e o que torna a democracia necessaria. . Isso significa que a enfase na autocritica deve aparecer em conjunto com uma enfase no otimismo e auto-apreciacao. Ao nosso clamor de arrependimento.”  A Historia subsequente confirma que. em ultima analise. 30 sua propria visao do estarmos em Cristo. sua teologia era. ele parece ter eliminado a possibilidade de tais acontecimentos desvendarem a realidade de um Deus transcendente. ela precisa sempre ser apresentada em conjunto com uma teologia de ressurreicao. “binitariana”. deve-se acrescentar a esperanca de cumprimento da Historia dentro da Historia . Transcendência Sombria  Em segundo lugar.parte no presente e tambem em sua plenitude no dia final. a historia teologica subsequente sugere que a opcao de Niebuhr pela cruz como simbolo teologico central carecia de ampliacao. Como resultado disso.a democracia: “A capacidade do homem de fazer justica e o que torna possivel a democracia. ao deslocamento da escatologia para uma esfera que vai alem da Historia. enquanto esse tipo de teologia da cruz tem sua importancia. que surge quando nos tornamos conscientes de nossa pecaminosidade. deve ser acrescentada a palavra de absolvicao.  Ao colocar os acontecimentos revelatorios da Historia na esfera do mito. como fez Niebuhr.

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