Centro Universitário IESB

Direcão II
Renato Nascimento

Taxidrama
Análise de Roteiro
Estudo de Personagem
Método para Ensaios

Brasília, 13 de abril de 2017

A história contada é basicamente sobre o trajeto de Lucas até o aeroporto. Os personagens não mudam. . quando ocorre uma fria conversa com Júlio. a despeito da qualidade do roteiro – que não é boa – a trama trata de um roteirista desacreditado que usa um acontecimento trivial para tentar fazer disso um filme. ter uma conversa enfadonha e procurar fazer disso um roteiro. Lucas e Júlio tem uma conversa. a saber pela qualidade da profundidade de Lucas e a profundidade do roteiro em si. O taxista é aquele que procura ser a voz da sabedoria e o passageiro. o taxista. suas motivações não mudam. nem justificativas mais plausíveis sobre os porquês das mesmas. eles são parados e sem nenhum background justificável para seus comportamentos. que ao mesmo tempo que procura dizer muito. e é duramente criticado. A metalinguagem construída – ou a tentativa dessa construção – revela que o personagem pode ser um reflexo do roteirista. 1. Lucas (o personagem). Sendo assim. A história não tem um caminho progressivo nas ações. mais tarde. A trama seria a ação de Lucas pegar um taxi. O que pode surgir de interessante da história é a relação fria que. curta e sem maiores pretensões. Análise de roteiro A narrativa de Taxidrama é simples. Roteiro – Taxidrama (Roteiro no final do trabalho) Sinopse: No caminho para o aeroporto. O roteiro tenta se utilizar do clichê “roteirista em crise” para justificar a motivação do personagem. Também há (talvez não exista e seja impressão minha) uma tentativa de mostrar o “espírito de Brasília”: cidade parada mas movimentada. mesmo após revelações um tanto inusitadas – para alguém que acabou de encontrar uma pessoa – a postura do personagem não muda. não diz nada. onde todos são frios e educados apenas até o momento do adeus. procura ser aquele que finge ser compreensível. a história se resume apenas a uma conversa trivial mas estranha num trajeto feito de táxi. É possível dizer que a fábula de Taxidrama é um roteirista desacreditado e um taxista clichê que se encontram numa corrida.

a história caminha de um ponto até ele mesmo. Análise de Personagem 2. Lucas anda com andar marrento. se utilizada da máxima educação para se mostrar como alguém agradável. 2. barriga grande. fala de modo carregado. Tende para ser um liberal. mesmo que sejam pessoais.1 – Lucas Lucas. pseudo- . o que facilita esconder sua barriga grande e excessos de gordura. roupas comuns. com pouca atitude para correr atrás das coisas. É simpático. É do tipo reservado aberto para escutar histórias. Há marcações de cena confusas. Essa estrutura dada pelos pais geraram um acomodamento por parte de Lucas e de seus irmãos.2 – Júlio Júlio é a personificação do taxista que aparenta saber demais. É magro. e sem um momento decisivo para dar mais razão às atitudes de ambos os personagens. Com apenas um ato mais ou menos definido. Tem curso de Advocacia mas a grande vontade era atuar como roteirista. não tem um vínculo muito forte com família. é apático. trocando externas por internas e vice-versa. e quando ocorre. reside numa região de classe média na Asa Sul. É dado a conversas. 30 anos. Tem 47 anos. desligado. cabelos pretos. Tem o olhar perdido. distante. 2. barba por fazer. visto que possui vida boa por conta do pai. Mora sozinho desde muito cedo. ou uma construção progressiva que desemboque no final proposto no roteiro. Está procurando o equilíbrio entre ser extremamente bem sucedido ou arriscar procurar essa estabilidade na escrita de roteiros. também é branco e alto. natural de Brasília. Não possui unidade narrativa. sem transformações de personagens. ou razões plausíveis para ações especificas. alto. Lucas é daquele tipo de pessoa que não se dá muito ao diálogo. conversador. reflexivo. tentando ser descolado mas não conseguindo. conexões entre eles. meio parado.

acumular para viver bem. Se entregou a situação que não foi favorável em sua vida. Vive no táxi. o que revela uma pessoa desacreditada. o ator precisa sentir o clima de um apartamento pequeno. de certa forma. Tem o estereótipo do taxista de Brasília. desconfortável. para ocupar tempo. Cada ambiente tem uma característica que estimula o tipo de conversa que se desenvolve ali. onde se mora sozinho. logo mostrar para o ator que Júlio está. que acha que aguenta tudo. A razão de Júlio na história não é criar grandes camadas para ele: é apenas criar uma ponte entre Lucas e o aeroporto. como também não vemos alguém numa reunião de negócios comentar sobre o passeio do fim de semana. Apenar de possuir outras pessoas na história. resolvido com essa realidade. Não possui nada dúbio. Método para Ensaios Como não tenho em mãos um roteiro bem desenvolvido. o ideal é não tentar salvar uma história mediana com interpretações exageradas. e para que suas ações sejam pensadas dentro do ambiente interno do carro. O ensaio com os atores se passará dentro do carro. não tentando interpretar a forma de dirigir. 3. Não vemos alguém num velório falando de piadas. É o típico taxista machão. logo os atores deverão desenvolver uma educação forçada. e acessem na memória situações nas quais tiveram a conversa por tabela dentro do táxi. Júlio vive se negando de viver sob a pressão de apresentar resultados. Conversar com o ator que fará Lucas para o orientar a caminhar como se sempre estivesse apertado. Júlio deve apenas fazer as ações. É importante que os atores tenham essa percepção. O taxi é um lugar de indiferença e conversas triviais. Júlio não é um cara ressentido pela sua situação com a família. a trama se desenvolve em torno de Lucas e Júlio.politizado. para que os atores se adequem ao ambiente. De igual modo. apatia escondida. nada que o motive a ter uma importância maior na história como um todo. Acredito que colocar os atores para ensaiarem com o máximo de informações acerca do local onde a cena e questão será executada contribui para um melhor entendimento da ação em si dentro daquele local. A maior parte da história se passa dentro do táxi. de olhar para Lucas no banco . e arrumou maneiras de desenvolver uma personalidade para o ajudar a viver esse estado de negação. etc.

e por isso também considero importante ensaiar – se possível – nos ambientes em questão. Embora Pedro Cardoso defenda que o ator não precisa saber todas essas coisas. mas poderia também mostrar marcações que não estejam funcionando. conversando com a mãe. bem como interpretações que não estão trazendo a carga do período do dia e o clima do ambiente onde se passa a cena. acredito que quando construímos uma rotina para um personagem torna-se mais fácil definir com que tipo de espírito ele deve começar determinada cena. Ensaiar de madrugada seria algo bem complicado e que poderia gerar controvérsias. etc. o ator pode passar a simular tal sensação (curioso falar assim. cada período do dia também trás uma certa carga. já que parte do trabalho do ator é. contando que não se altere nada dentro da sua participação na história. Como diz Luciene Adami. Por isso considero importante trabalhar com os atores sobre a características e sensações que os ambientes dão. e seguindo o pensamento de que cada ambiente tem seu “clima”. sentado numa mesa. O ator deve estar bem consciente de como a sua personagem agiria em cada situação. pedir a ele que construa. jeito de passar a marcha. Gosto de pensar nos ambientes. em que lugar ele costuma pernoitar? Nunca foi parado pela polícia? Já foi assaltado. A cena se passa de madrugada. e tentar construir a atuação os considerando. como é o seu dia? Onde ele estava quando Lucas ligou pedindo a corrida? Ou o que ele estava fazendo antes da ligação? Se ele ganha apenas o necessário pra viver. baseando toda essa construção para apoiar a atuação nesses aspectos. simular). Creio que trazer à tona a sensação desses ambientes para os atores torna a ação mais realista e natural. Lembro de ver um making off da Anna Muylaert ensaiando para o Durval Discos. Outra boa estratégia pra orientar o ator a tornar Júlio mais natural é criar uma rotina para ele. porque não aluga uma casa? Se ele dorme no táxi. citada por Gerbasi: quando ela está interpretando. existe comida de fato no prato. mesmo que algumas situações não estejam presentes.do carona. Com certeza isso deu ao ator uma noção e as condições necessárias para perceber a sensação . Se ele vive no carro. onde e como Júlio estava antes da ligação de Lucas? A criação dessa rotina pode responder. etc? Ao invés de mandar fichas para o ator com essas informações. Caso contrário. Mesmo no ensaio praticamente todo o cenário está presente. Por mais que ela “abra” mão de si para dar vida ao personagem. Já existe uma memória afetiva em cada pessoa sobre ambientes. numa cena onde a personagem está almoçando. é ela interpretando a personagem. No caso de Taxidrama. provocando uma reação não convincente. de certa forma. não deixa de ser ela o interpretando.

. O ator precisa sentir e fazer. Lembro também de ver atores que interpretaram em filmes feitos em chroma key reclamando por não poderem acessar o mundo que seria criado no chroma. é possível deixar atores bem a parte do que é esperado da história e de suas atuações. seguindo por esse caminho.daquele ambiente e notar como a personagem se relaciona com ele. Acredito que.

TAXIDRAMA Roteiro original por Heron de Andrade Brasilia-2012.com 4 Tratamento Todos os direitos reservados. . contato: capheron@hotmail.

cessando o som do alarme. Serviço público? (CONTINUED) . NOITE O relógio despertador está sobre o criado mudo. LUCAS Sim. Há um táxi parado e o motorista está ao lado do carro esperando. LUCAS Bom dia. LUCAS. atende o interfone. JÚLIO Então? LUCAS Pro aeroporto. Os dois personagens entram no táxi. pegando uma mala carry on. alto. Lucas volta para o quarto e pela janela espia o estacionamento. veste-se e se prepara para uma viagem. dessas que transportam lap tops. Vem ao encontro de Lucas e ao cumprimentá-lo pega a bagagem do passageiro e coloca no porta-malas do veículo. branco com uma barriga protumberante. táxi? Ok. NOITE Lucas entra no carro e senta no banco da frente segurando no colo uma mochila. Depois ele entra no elevador. advogado. O motorista do táxi é JULIO. voz firme com sotaque do sul. EXT. 30 anos. Da cama ao lado do criado mudo pode-se ver uma mão masculina que bate em cima do relógio.SEQ 1 QUARTO INT. Ainda está escuro. SEQ 2 TÁXI. O homem se levanta da cama. A mala. JÚLIO Quadra boa essa. O interfone toca no corredor do apartamento. magro. Lucas pega a mala e sai do seu apartamento. 47 anos. ele sai da portaria de seu prédio e se dirige ao táxi. O alarme dispara às 4:20 am. já estou descendo. JÚLIO Bom dia. No térreo.

vagabundo. Por isso me chamam nesse horário. Não estudei. JÚLIO (indignado) Só tem vagabundo na rua! Só pilantra. Os rapazes vestem blusas com capuz. não me casei e to aqui. (CONTINUED) . Essa cidade tá mudada não era assim. LUCAS Sim. porque to disponível. ficam em cima. Trabalho vinte e quatro horas. O senhor tá viajando pra onde? LUCAS Pro Sul. Ainda é madrugada. LUCAS O senhor é daqui de Brasília? JÚLIO Do Paraná. Tu não vê um polícia na rua. O carro sai pelas ruas que se encontram praticamente desertas. LUCAS É seguro? JÚLIO Essa hora só tem vagabundo. Depois fiquei e não fiz nada. Vim pra cá em 69 pra servir ao quartel. Só drogado. vivo nesse carro. uma dupla de jovens caminha pela calçada na direção oposta ao carro. LUCAS O senhor trabalha sempre essa hora? JÚLIO Eu vivo no carro. ferrado. eles cercam o carro. LUCAS Quanto tempo o senhor tá aqui? JÚLIO Há muitos anos.CONTINUED: 2. Se você para perto da rodoviária. No entanto. Não tenho nada.

LUCAS Mas e nos finais de semana? JÚLIO Sempre no carro. Morreu por nada. E teve que ser enterrado lá por Goiás mesmo. foi pra Abadiânia. Tomo banho no posto de gasolina. Não tenho ninguém. um conhecido que vivia que nem eu. Lucas balança a cabeça concordando que é mesmo gaúcho. LUCAS Como assim? Onde o senhor dorme? JÚLIO No carro. JÚLIO Gaúcho? Tem muito gaúcho aqui. É o que dá pra fazer. Sou sozinho. Antes tivesse ficado aqui. colegas? não se reúnem? Não te ajudam? JÚLIO (irônico) Amigos? Esse tipo de amigo não existe mais não. fecharam ele na estrada e levou três tiros. Na volta. Ganho pouco.CONTINUED: 3. (CONTINUED) . Só dá pra tirar o que preciso pra viver. LUCAS Nunca mais voltou lá no sul? JÚLIO Não. Acertou um preço com o cliente que mal pagava o custo da viagem. Minha casa é no carro. A vida é assim moço. Por isso vivo no carro. Mas não tem muito paranaense. Outro dia. LUCAS Mas os amigos. LUCAS E sua família? JÚLIO Eu briguei com a família.

.. Só mais um vagabundo. O carro estaciona na frente do terminal de passageiros do aeroporto.Deixe eu ver. S. Amanhã é outro dia. LUCAS Seu Júlio.Sou só um vagabundo.complicado. (CONTINUED) . Vê-se algumas placas de trânsito indicativas de aeroporto...... né?! JÚLIO O negócio é trabalhar né?! O que o senhor faz mesmo? LUCAS Advogado.CONTINUED: 4.. Tudo pode mudar. Júlio abre o porta-malas e retira a bagagem carry on de Lucas. LUCAS Quanto deu moço? JÚLIO Hum. JÚLIO Um ou dois? LUCAS É no terminal dois. Lucas retira o dinheiro da carteira e paga o taxista... LUCA S (O. LUCAS Obrigado.) Nada. Lucas pega sua bagagem e entra no terminal de passageiros. Depois os dois personagens dessem do carro. A vida continua. Até.Vinte e cinco. Qual é o seu nome? JÚLIO Júlio. O carro se aproxima do aeroporto. incomodado com aquela história) Nossa. espero que as coisas melhorem pro senhor. LUCAS (Lucas abraça a mochila.

esse cara mora no carro.Que isso? é um documentário? PESSOA2 Fraquinho. Elas discutem o filme. observando Lucas.o que pode render isso? PESSOA 3 Travestis. Qual a relação do taxista . 24 horas rodando. Tem de ter travestis na noite da cidade.CONTINUED: 5.. o garoto e os vagabundos? PESSOA1 Tá muito Carlos Saura.peludo. (CONTINUED) .. DIA. Os primeiros raios de sol aparecem. As demais pessoas são mostradas. Quatro pessoas estão reunidas numa sala. largadão.Só aparecem os pés e as mãos do roteirista fazendo as notas. PESSOA2 Veja.. PESSOA1 Tá meia boca. toma nota de tudo. fedendo a cachaça. Júlio fica um instante parado. Pessoa 2 é uma mulher.. Cadê o drama? PESSOA3 Eu não entendi.E as marcações dos atores? Muito retilinea essa narrativa. PESSOA2 Cala a boca! Coloca ele de bigode.e ele é assim tão perfeitinho? Não tem um maneirismo? Uma dubiedade de caráter? PESSOA1 Preso 24hs num táxi. Fim SEQ 3 SALA. O carro se afasta lentamente do terminal do aeroporto ao som de uma suave música instrumental. Uma das pessoas é o roteirista. INT. Depois entra no carro e sai dirigindo.

Vagabundo pra caralho. PESSOA2 Hei. fala ai? PESSOA 1 Então? tamo esperando. É Lucas. Passa-se um instante de silêncio esperando o roteirista responder. não no West Village! PESSOA2 Esquece Manhattan.. A câmera sobe lentamente e aparece o rosto do roteirista.Bingo.olhar pensativo e bate a caneta repetidamente em cima do seu bloco de notas. seu porco colonizado! PESSOA3 (gesticulando mostrando os enquandramentos) Boa.....O que você quis mesmo dizer com essa estória? PESSOA 3 Isso.. Todos os olhares estão agora voltados para ele..Eles param na plataforma da rodoviária e fazem uma tomada do Congresso Nacional! PESSOA 1 É. o passageiro do táxi.CONTINUED: 6. Fim. PESSOA3 É taxista ou caminhoneiro? PESSOA1 E esses jovens de capuz? São o que? DJs? Zumbis? É um video da Lady Gaga? PESSOA3 Estamos no cerrado bein.. Ele está sério. .Assim.