artigos

Revista Musear
Junho 2012 93
Grafite contemporâneo: da espontaneidade
urbana à sua cooptação pelo mundo da arte
Ana Beatriz Soares Cascardo

Resumo Abstract
Trata do grafite que é uma manifestação urbana This article seeks to address graffiti as urban
contemporânea que há quase 40 anos têm se contemporary manifestation for almost 40 years
espalhado pelas grandes metrópoles, tornando-se have spread into large cities, making it a visual
um elemento visual comum a seus habitantes. element common to the inhabitants. Almost
Sua quase onipresença nos mais variados suportes ubiquitous in various places of the collective spaces
do espaço coletivo, tem sido alvo de tensões has created social tensions.
sociais criando facetas das mais variadas deste The text also discusses the processes that allowed
fenômeno cultural. Procura discutir os processos the alleged absorption of graphite for contemporary
que permitiram a pretensa absorção do grafite art system, examining its mechanisms of
pelo sistema artístico contemporâneo, evidenciando institutionalization.
seus mecanismos de institucionalização. Pretende Thus, intends to disclose those who may agree, as
revelar aqueles a quem possa convir, às indefinições well as the conceptual uncertainties in the world of
conceituais do mundo do grafite demonstrando graffiti, demonstrating that the interests involved
quais os interesses envolvidos neste processo. in this process.
Palavras-chave: Grafite; insubordinação; Key-words:
institucionalização; mundo da arte; museus de arte institutionalization;Graffiti;
art world;
insubordination;
art museums

Bacharel em Museologia pela Universidade Federal da Cidade do Rio de Janeiro (UNIRIO); Mestre em
Artes, Univeridade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Conservadora, Museu Nacional de Belas Artes
(MNBA/IBRAM).

www.revistamusear.ufop.br Ano 1 - Número 1 - Junho de 2012

1991. por grupos de rentes das atribuídas pelos brasileiros. mas que é considerado xidade de forças e interesses belo. nista ou inofensivo). artístico e aceito pela sociedade. menor movimentação para a e monumentos. a noção da comple- sido ali colocado. escrever. desaprovado para designar “graffito vem do italiano. Em cidades como o Rio de Utilizarei o termo “grafite”. res” recusam grafite-pichação. constitua um cultural. adrenalina que se sente ao mo. Desenhos multico. Em alguns momentos utili. (LEIRNER.Número 1 . plural da palavra italiana grafito que completa de que será um pela imprensa. tranqüilidade do poder mas as discussões a seu respeito permanecem instituído. (muitas vezes situacio- loridos. assim ficando seu amor não tem limite. Janeiro e Belo para as inscrições e desenhos feitos nas ruas te. intensas e freqüentes até os dias atuais.94 Revista Musear Junho 2012 artigos O grafite seria uma manifestação visual. caracterizas da apenas quando estivermos nos referindo a Pode ser o desafio pela como vandalis- um autor ou acontecimento internacional. adolescentes. (N. realização de seu ato. significa inscrição. desde os anos O termo utilizado internacionalmente mentos. pois é a partir chamamos de grafite pressupõe. seja ela mesmo provar aos amigos a dores. O termo graffiti detém significações dife.” procuraria os horários de prédios. incomoda alguns e fascina Esta terminologia será utilizada neste outros. 1999. O que que os regem. ou autoridade. pode ser que marcante. inscrição ou dese. e o termo protesto contra um governo diferença é bem “pichação” para o que é tido como vandalis.130) A complexidade terminológica do tema obrigou-nos a tomarmos um direcionamento para melhor compreensão deste trabalho. ou até como contesta- Não é surpresa. p. As motivações que impe. pois se não aplicações nhos de épocas antigas.Junho de 2012 www. do produto final que tanto mas também os espectadores do grafite. no mínimo. podem ser palavras de Horizonte. Essa atividade bando o que também chamamos de “picha. por isso adotaremos esta terminologia e grafitarem são variadas. alguém queira provar que de “pichado- zarei os termos conjugados. timento e demonstrando o de “artistas”. daí que conseguiremos criar uma espécie de dinâmica de cumplicidade alguns caminhos para análise cotidiana que inclui não só os produtores. fachadas de prédios 1970 do século para definir esta forma de expressão visual é particulares sem ter noção passado. quando utilizo o termo gra. em português. ato. a e muros. preferindo risco pelo qual passou para caracterizar-se realizar tal declaração. 13). pelas autoridades e graffiti. desenhar ou pintar termo usado.E. visto que os grupos mo ou sujeira. em rochas. assinaturas.para a são novidade na paisagem metropolitana. mente indefinido. monu. que uma pichação. busca da compreensão do fite refiro-me a todo elemento escrito ou fenômeno cultural contem- desenhado aplicado a espaços urbanizados porâneo que é o grafite-pi- externos. englo.não por seu conteúdo de concreto das cidades. pela sociedade. aceitas pela sociedade. frases em muros públi. toscamente riscados houvesse tal consciência não feitas com tinta spray em a ponta ou a carvão. desse modo. paredes públicas. conhecida pelo seu caráter urbano incômodo e um perigo que encontrou seu lugar nos grandes espaços . a qualificação discussão for pertinente aos dois termos. trabalho apenas para que o leitor saiba do Inicialmente é difícil que estamos tratando exatamente quando imaginar que alguém vá se utilizamos este termo já que um consenso esforçar para reunir meios de *Trata-se do sobre o que seria o grafite ainda é complexa. p. Os grafites já não de expressão . De acordo com Gitahy. paredes etc. qual for.ufop. lem os indivíduos a picharem é geralmente ção”*. temer ser pego em flagran. mas cos e particulares já parecem fazer parte do por sua forma anárquica cotidiano urbano atual.br . muros (GITAHY.revistamusear.) Ano 1 . com ou sem permissão para ter chação. para momentos em que a tornando público seu sen. É importante para a Desta forma.

Entretanto. sujeira repulsiva ganhou o res nos seus atos individuais. em alguns aspectos como a imaginavam que os atores deste fenômeno maneira em que eles devem contemporâneo desistiriam de intervir em desenvolver sua expressão e outros espaços. que ainda eram proibidos. e não abriram mão de agir nos de um passado do qual possa www. artigos Revista Musear Junho 2012 95 sua grande coragem. ele que não conseguindo eliminar completamen. uma ressignificação extrema dor poderiam causar em suas cidades. assim experi. as Outra batalha que se pessoas que chegam a de fato grafitar e/ou desenvolve de maneira pichar possuem em menor ou maior grau um extremamente complexa diz certo desafio à autoridade vigente. família. próprios grafiteiros. uma ne. em algum momento que vivem. te seria o próprio ator do Esta ótica poderia nos levar a crença de processo pois. Entretanto. Esta seria uma maneira dire. as reações inflamadas sobre o atores. criando ficia esta nova postura com estímulo para o surgimento de muitos outros relação ao grafite não é uma grafiteiros e pichadores. seria que irá causar mudanças pequeno e reversível caso não houvesse nota intensas no âmbito social. no trato com o objeto e seus Entretanto. status de arte.ufop. colocando conduta. pois os grafi. delegando o seu ca- teiros e pichadores acabaram por utilizar o ráter subversivo aos confins espaço cedido. des perdedores desta rede de percebemos que isto não tem ocorrido ao relacionamentos seriam os longo do tempo. poderia entrar em um mer- te a incômoda pichação esta continuaria a cado lucrativo que faria com existir devido a subterfúgios consistentes que que ele pudesse viver de sua a permitem permanecer frente à desapro.Junho de 2012 . o indivíduo que pichou e o resultado da Explicitar a quem bene- sua ação no centro das discussões. Contudo poderíamos vação de uma grande parcela da sociedade também afirmar que os gran- e das autoridades competentes. permitir diversas perspecti- ção ao redor do mundo significaria de algu. seja. Entretanto. tarefa simples. ta de provar a fragilidade de seu sistema e Por exemplo. ampliando e diversi- combate às pichações acabam por transfor. paixão.Número 1 . implica necessariamente em O impacto que o grafiteiro e o picha. ficando pontos de vista e de mar este ato em algo destacável. é necessário Tal proliferação de atores do grafite-picha. respeito a questões que per- cessidade de testá-la a seu modo e de colocar mearam as discussões sobre à prova os valores que lhe são passados pela o popular e o acadêmico. com isso. Dizer que mentando uma faceta na qual acreditem ser determinada coisa é arte indomável. o resultado deste em que locais elas deveriam aparato não foi satisfatório. desta manifestação cultural.revistamusear. aparecer. poderíamos possíveis pontos delicados que podem levar a dizer que o beneficiado com questionamentos maiores sobre seus modelos o apelo artístico da grafi- governamentais. tema acabaria por limitá-los ria permitido grafitar e pichar. seja qual for a motivação. com isso. Também seria uma maneira de um destes elementos visuais perceber até onde essas pessoas consideram a que eram encarados como opinião de seu círculo de amizades e familia.br Ano 1 . pois a Uma das tentativas de alguns governos sua inserção neste novo sis- foi estipular locais específicos em que se. e caso ninguém se impor. vas e admitir que na realida- ma forma que as autoridades não estariam de elas nunca se esgotarão e conseguindo uma maneira eficaz de erradicar sim ajudarão cada vez mais algo que consideram nocivo à sociedade que no exercício da compreensão administram. irá ditar novas maneiras tasse com alguma inscrição em sua parede. ou alguma no jornal. pela mídia e pela comunidade em Afinal.

1991. Hoje a pichação faz parte da mixagem interesses e percepções en.revistamusear.Número 1 .. chação em seu meio indiscutivelmente seleto e que desta maneira conse.Junho de 2012 www.br . atribuindo-lhe caráter guiriam estipular os locais democrático de vanguarda: em que o grafite poderia aparecer. p. como. Bauhaus. sempre em direção a um objetivo além. Por mais que a arte deste complexo. os arte. do por meio do aparato cultural que Ano 1 . arte cinética. Dos aparatos da Arte O sistema de artes possui seus aparatos Designar algo como característicos e elementos constitutivos. atitudes e idéias volvidos oferecem vantagens artísticas e. pública etc. Indo mais plásticas. designando gs. jornais algumas intervenções como murais. os happenin- autoridades que. (LERNER. música. junta-se e extravasa-se rompendo evidencia é o de negociações com os limites da arte monolítica tradicio- permanentes que engendra. este caráter A arte instala-se em nosso mun- fica diferenciado. poderíamos vislum. por exemplo. diferentemente daquilo com o mundo que a rodeia ao reconhecer que sobre o qual. A “arte” e seu ator como artista combinação destes itens aliados aos pro- implica não somente em cessos histórico culturais mais amplos irá uma ressignificação como determinar o que é ou não arte como afirma também em uma revalo. pinturas murais comunitárias. social. da mesma forma que as outras e desvantagens para todas atividades (desenho. ela possui instrumentos próprios e destacar vo ainda não se parou para um elemento atualmente bastante central pensar. tea- as partes e o quadro que se tro etc. algo que foi pensado para ser repulsivo e Outra leitura poderia nos que faz com que sejamos obrigados a pensar fazer perceber que o grande a respeito. que seria a chamada galeria contemporânea abarque uma de artes. o sistema artístico desen- ria a sociedade e suas autori. ações de arte na rua. ganhador deste processo se. XIV): “A arte necessita ração. variedade de expressões que podem muitas vezes passar pelo repulsivo. 132) riam ganhos e concessões em toda sua área. transfor. volve bases teóricas estruturais para justificar dades. p. eventos. pintura. nal. cívica. que obteriam para seu também a presença do inusitado grafite-pi- próprio deleite obras de arte. estudo e aná. Desta maneira. que tinuam a representar o mesmo pluralismo a dialética perdedores e e a interdisciplinaridade que caracterizam ganhadores não sustentaria todas as formas ainda contemporâneas de a análise desta questão. estariam admitindo a próprios graffiti – com raízes profundas na sua total incapacidade de ex. de tão repulsi. democrático e. E não é anacrônica. pensamentos. simultaneamente. arte terminar o grafite-pichação. O objeto artístico é sempre aferir e calibrar seus valores com o convencionalmente digno de mundo que a abriga e a inspira”. à desma- brar como perdedores desta terialização do objeto.con- Daí percebemos. co”. Os arte. Coli tam- contemplação. Grossman (2005.ufop. ambiental. relação à sociedade e suas A participação do espectador. de estilos.96 Revista Musear Junho 2012 artigos ser conveniente lembrá-lo ou mando-se em um tipo de “repulsivo artísti- esquecê-lo.). construtivismo. se livrando do en- godo de ter seu próprio muro A pichação como arte tem seu lugar bas- como alvo de intervenções tante definido dentro das chamadas artes não desejadas. bém irá evidenciar a relação que a arte tem lise.

Entretanto pode-se per- mina escolhendo um ceber que o valor atribuído tipo de objeto dentre à obra e ao artista acaba os inúmeros que nos por não se restringir ape- rodeiam. pessoas que compram rânea.. compra e venda. demanda e procura (2008. e participantes do mun- pontos de interseção. esta. cultural e sua conseqüente péis predominantes no mun. exponha seus sistema cultural mais amplo. É mercadológico do complexo importante destacarmos que artístico. evidencian- do sua representatividade As galerias exercem pa. que ele seja nas à questão monetária de “artístico”. e vendem trabalhos ca que o mundo da arte está (que são os negociantes. p. (COLI.. Este valor 1995. e. (. Vivemos em um o percurso neste sistema não mundo em que o mercado e é uma via de mão única. ou seja.ufop. 12) poderá influenciar opiniões. ou melhor. posição hierárquica no do da arte principalmente mundo dos objetos gerais por representarem o caráter e até mesmo artísticos. o local. quadros (isto é. sua obra passará manifestação do ob. XII) devemos ter do que propriamente pelo em mente que: caráter de união dos povos e livre trânsito humano pelas diversas localidades. deter. por um processo de valo- jeto artístico ou. as encontra alguma galeria que atitudes de admiração. depen- ainda. pensamentos e análises acer- ca dos trabalhos. compradores e o pintor. do da arte (os críticos.. isso signifi. opiniões e análises influen- tula “globalizado”. p. além disso. afinal é por esta tual atribuído por meio de ótica que o planeta se inti. que este valor poderá crescer ou “manifeste” sua arte) decrescer ao longo do tempo. De maneira geral as curadores e os próprios galerias são a porta de artistas) não são dire- entrada para um artista no tamente envolvidos na seleto mercado de artes. tenha alguma credibilidade etc. é ciará o valor de mercado da mais pelo sentido de compra obra.br Ano 1 .) esses instru. artigos Revista Musear Junho 2012 97 envolve os objetos: o momento em que este artista discurso. Por a economia são praticamente muitas vezes o valor concei- centrais. e que possa investir em seu mentos permitem a trabalho.Junho de 2012 .revistamusear. completamente inserido no os colecionadores e os mundo mais amplo. O do papel da galeria dentro do mercado diz respeito a universo da arte contempo. (. mais ração monetária e. No base desta atividade www.Número 1 . galeria permite que o artistas. Segundo Thornton e venda. leiloeiros) mas muito belecendo trocas diretas.. dão ao objeto dendo da administração do o estatuto de arte: a relacionamento entre galeria.) o mundo da arte é Podemos dimensionar muito mais amplo que desta maneira a relevância o mercado de arte.

que era levará um trabalho até ela. não se contentam em criar uma “reserva” de arte. (COLI. “sob mercadológico. e seu divisória separando os objetos artísticos “Departamento das Águias”. na disposição relativa dos objetos artísticos pretendem ensinar-nos Broodthaers não conse- que tal obra tem mais interesse do que guia mais desempenhar outra. 1995. ou seja. como residem em tempo integral. O significa que o artista e seu trabalho já deve “museu” foi inaugurado ter passado por alguns locais específicos. que é o valor Xème siècle.) não se limitam a traçar uma linha pelo belga Broodthaers. É determinada galeria.. despertará no galerista o vislumbre do suces. alguns circuitos artísticos onde circulam as maio de 1968. assumindo outra aparên- te a arte detém um valor monetário em que cia . fundou o seu Muséé que existe numa disputa conceitual que. comemorou o abandono dessa figura ultrapassada O que tentamos evidenciar é que realmen. Broodthaers Os espaços legitimadores e as vozes do participara da ocupação Ano 1 . que tal livro ou filme é melhor que a tarefa do materialista outro. juntamente todos os points artísticos deve no mínimo com artistas. e os não artísticos. 13) nador. isto poucos meses depois de é. Em vez disso.ufop. onde o valor cultural por si só um grande apelo. político por que todos co. É preciso que ela seja “credenciada” e isso os países passaram”. Eles intervêm. não pode. Um dos artes: grandes feitos na contesta- ção do espaço legitimador naquela época foi idealizado (. estará ligada a um valor ment des Aigles.br .98 Revista Musear Junho 2012 artigos comercial. Come- sentes. Coli afirma questionada e experimentada que os instrumentos utilizados no sistema de por aquela geração. importância. ou melhor. pressão da perspicácia Voltando ao papel da galeria. ocasião vozes do sistema. o que uma mistura de nada.a de “contratipo” do interesses deste gênero são altamente pre. Não seria o fato tos de 1968.Número 1 . Por outro lado percebemos algo que çando com a Section XI- vai além do valor de mercado. política de seu tempo” – mos deixar de destacar que o processo que “esta invenção. p. partilhava o caráter so de seu lançamento mercadológico. por assim dizer. é debatido e não determinado pela prospe. O mundo da arte é uma esfera sistema possuem notável onde muitas pessoas não apenas traba. Expor em lham. um singelo de expor qualquer coisa dentro de tipo de acontecimento uma galeria que faria dela um objeto artísti. a questão do suporte e do espaço como elementos determinantes do objeto Ainda explicitando os mecanismos de fun. diretor de museu. Sabemos que nos anos 1960 ridade irracional.. Broodthaers atribuído culturalmente por este sistema. artístico fora fortemente cionamento do sistema artístico. não é ligado aos acontecimen- tão simples quanto parece. que tal sinfonia é mais admirável histórico vestido de que outra: isto é cria uma hierarquia dos contratipo de colecio- objetos artísticos. Départ- necessariamente. legas seus. não d’Art Moderne. estudantes ser apresentado ao galerista por alguém com e ativistas políticos co- discurso já reconhecido no meio. Se não houver passado por em que.Junho de 2012 www.revistamusear. museu uma ‘economia simbólica’ onde as pessoas ou centro cultural já possui trocam pensamentos.

em mercado e se envolver nas todos os outros meios lutas políticas do seu tem. escultura minimalista. p.182) próprios pintores. era impos- um sistema que só con. entretanto. artigos Revista Musear Junho 2012 99 do Palais des Beaux Arts XIX. 2005.ufop. criativa. 168): “O dilema da arte que apresentou uma rup- contemporânea no final da tura definitiva dos laços década de 1960 – enquanto incontornáveis da pin- tentava escapar da asfixia tura com um idealismo imposta pelo museu e pelo que vinha de séculos. como afirma Tassinari: ra a “morte da pintura” já houvesse sido experimenta- da desde meados do século Os objetos que Du- www. Crimp (2005. imagens fotográficas. solidariedade com as ma. p. nifestações que tinham foi na década de 60 que esta lugar em toda Europa sentença pareceu ter sido e Estados Unidos. p.85) embo. sível ignorar o estado seguia conceber a cultura terminal da pintura. Segundo existiria dali por diante. minadas por elementos nal dos grandes museus e tão estranhos como as dos cerceamentos políticos. todos dando a impressão de reiterar a declaração de Ad Reinhardt de que O que se buscava naquele ele estava ‘simplesmen- tempo era uma libertação te fazendo as últimas dos valores e regras culturais pinturas que alguém impostas à arte ao longo seria capaz de fazer’. a obra “A procuravam fugir não apenas Fonte” de Marcel Duchamp. (CRIMP. atribuída a Paul Delaroche. bem 1960. os alcançada.br Ano 1 .revistamusear. parecia como a condenação a que.Junho de 2012 . do século XIX que se mate. p. dos espaços museológicos estabelece um símbolo como também do suporte irrevogável da postura que clássico das telas. Crimp comenta a ocupantes declararam partir da afirmativa de Dela- que a tomada do museu roche que: era um protesto contra o controle que a cultura belga sofria da parte das Durante a década de instituições oficiais. que. por fim. a busca pelas experimentações plásti- cas das mais variadas. ou permitindo que suas rializava sobre a estrutura pinturas fossem conta- arquitetônica e institucio. com a frase “A partir de de Bruxelas. Agindo em hoje a pintura está morta”. toda parte: na obra dos (CRIMP. que Já em 1917. na Como afirma Crimp (2005. Tal busca pela liberdade abandonavam a pintura. política e institucio. para os quais os artistas po – tinha raízes no século se voltavam à medida XIX”. 85) nal alimentou nos artistas e pensadores. um após o outro.Número 1 . Os como mais uma forma sintomas estavam por de consumo capitalista. 2005.

A substituição do radicalismo. por um de arte e não arte come. considerado se configura como um espaço de fruição do où les codes de enclausurante. em que algum artista que francês forneci- da pela autora pintura eram ampla. Como pode ocorrer original em códigos da “verdadeira” o caminho inverso. ele continua carregando uma plus vaste vi- o grafite. definindo romanos. mas ainda sim. (TASSI. classe. grande maioria comerciais e servia aos Qualquer peça sendo ela artística ou não dos museus de interesses de classe. espaço de troca de idéias sobre ela. p 2) que atribui valor cultural. fruição popular e gratuita. um étaient large- vido pelo sistema artísti. arte.Número 1 . et servait des intérêts de oficial. que A questão dos museus de arte não é a de a infiltré le seria as ruas. neces- data em que o conceito sário em um momento de ruptura. em oposição vender obras. tempo em que as diversas realidades possam çava a dilacerar-se no coexistir. arte Ano 1 . sant à déplacer les fontières anárquico experimentando mento ou até mesmo os grandes imperadores de la culture outros suportes. Por muitas reflet d’intérêts vasta. remontando a “essência” da arte. como afirma Goldstein por meio delas. os desa. Ele se infiltrou ciará no valor monetário que lhe será atribu. devido ao valor a Desta maneira. ele agregado ao longo do tempo. artístico e não.br . época que se sabe não serem eles os únicos zação progressiva de sua lugares da arte. ou colocá-las um preço. Il seu lugar com o “fora”. p. visando deslocar vezes uma obra ao receber o status conferido commerciaux as fronteiras da cultura por um museu de arte que a expõe.ufop. 36) Enquanto a galeria é uma espécie de vitrine da ordem da regulação comercial. une offensive reconhecidos como arte e ção do museu. NARI. lógico. 2001. co.** ao constituir um acervo museológico é ressi. ele marché de l’art à un moment ao “dentro”. no mercado da arte em ído posteriormente por algum galerista que Tradução do um momento em que os esteja atentado para tal. pectivas. das galerias e mundo artístico. faz com que os museus e as galerias antagonismo em que se retomassem seu caráter relevante em uma embrenhou: a especiali. instituído da arte trouxe a tona outras pers- ram engendrar uma ten. mas em outra ordem. fios conceituais e formais Mesmo considerando que com a revolu- que a arte se propunha a ção francesa o museu ganha um caráter de enfrentar na década de 60. possui uma grande valorização monetária por (N.E. monter que Logicamente que as tensões e interseções l’art formaté à destination des O graffiti se integrou existem e que as informações circulam de galeries etait le em uma ofensiva mais maneira fluida não esquemática. O estímulo das pluralidades em coexis- arte porque o fez numa tência. por assim dizer.100 Revista Musear Junho 2012 artigos champ apresentou como Entretanto esta fase de negação ao espaço seus ready mades pude. sem o interesse mercado. acaba por ser absor. um espaço Les artistes (2009. Os ter passado numa galeria. o museu se configura como uma espécie de espaço sacralizado e sacralizador.revistamusear.Junho de 2012 www. influen. officielle. la “vraie” peiture museus. É também possível que 1 Refiro-me a que a arte formatada obras de artistas que circulem em museus museus clássi- cos nos quais para as galerias era o nunca tenham suas obras em galerias ou vice se incluem a reflexo dos interesses versa. souhaitaient pecuniário. por mais que os **Le graffiti absorveram fazeres que esforços teóricos e práticos da museologia s’intégrait dans anteriormente não seriam atual procurem dar conta da democratiza. consegue adentrar artistas queriam mostrar o espaço museu. no final do século XX e início do são entre a arte e a não XXI. esfera lado a lado com Os espaços museológicos possuem um pa- um conceito que perdia pel tão preponderante quanto o da galeria de os seus limites. de deleite ment remis em question. com seu caráter espécie de “aura”1 que remontam ao renasci.) mente questionados.

podemos postos e reinterpretados. e o leiloeiro. se res. vela seja pouco assistida. as e não podem ser congelados vozes que impulsionarão no tempo e no espaço. o negociante. obras televisivas que visam ciados.não teria ou melhor.Junho de 2012 . mudanças em sua estrutura significando ao longo de sua serão as dos seis primei- trajetória histórico-cultural ros papéis destacados por onde as vozes e os espaços Thornton (2008). que o objeto artístico não entretanto a falta de algo possui uma imanência.Número 1 . os quais não são No sistema artístico.leiga. Caso alguma no- inerente a qualquer museu. o funcionamento de incidem sobre ela diferen. palavras do autor: que desenvolveu uma pes- quisa dentro deste campo. legitimação. muda-se o destino de alguns micas próprias do mundo da personagens e logo a obra arte e com seus mecanismos foi alterada para satisfazer de valorização dos objetos.revistamusear. ou que seria o sétimo papel. É jeção de nossas interpreta- provável que não tenha sido ções estabelecendo. seu público. sua função é alte. portanto.ufop. o crítico. Observemos por exem- rada e as interpretações que plo. público no sistema artístico. Parece-nos que esta seja a A noção de arte que constatação da relevância do hoje possuímos . artigos Revista Musear Junho 2012 101 ginificada. a luz dos pensa- dor. somos nós que confe- Nos pareceu bastante curiosa rimos a ele suas qualidades a não citação deste papel transformando-o numa pro- dentro do sistema artístico. ele não tem um poder do expectador ou público. o seja. públicos. por exemplo. Coli artista. Nas autora. lógica. historiadora da arte. Percebemos. Se o telejornal Uma peça parece chegar a não agrada e percebem que um museu de artes filtrada o telespectador anseia por e validada por aparatos do uma função mais social deste contexto artístico. o cura. enciclopédica . argumenta. a estrutura Podemos dizer que o do programa é alterada para sistema de artes possui seus fazer denúncias da ordem próprios mecanismos de dos problemas sociais. atuantes podem ser sobre. afinal a arte não seis papéis fundamentais: o é exterior a cultura. como documentação no funcionamento de sua e conservação. ele ainda lidará com as dinâ. cos. em si. Nem para o escultor www. ressaltar que o sistema artís- Sobre as vozes que tico detém um ciclo retroali- participam deste sistema mentativo que possui fluxos Thornton (2008) identifica complexos. tipo de atração. Neste sistema o gicos que o objeto artístico público detém poder ativo passará. o colecionador mentos de André Malraux. demonstra que o sentido para o artesão- papel do expectador de arte -artista que esculpia os não influencia diretamente portais românicos ou no funcionamento do seu fabricava os vitrais góti- sistema.br Ano 1 . Ainda assim. Num museu de arte justamente atingir grandes além dos processos museoló. um simples esquecimento da uma projeção cultural.

mas. ça Coli (1995.Junho de 2012 www. o ‘em si’ da arte. Nada de seu muito se preocupou com é tão seu que um dia não tenha sido indivi- os problemas artísticos. p. que (TASSINARI. 1995. ela não existe. p. Somos ponsável por decidir o que é ou não arte. Mesmo solitária uma subjetividade poderá raux.br . no bronze. que se encontram artístico que está inserido no tempo e no separadas no tempo e no espaço cultural seja atualmente composto espaço. sentiu-se tocado. André Mal. aquilo que nos objetos é. se mesmo sozi- si’ e desse ‘para nós’. mas to com os objetos exteriores socialmente desvalorizando-se. estes deverão unir-se. Digamos que da obra de arte. Acantonada em sua esfera autônoma. O tência: museu imaginário que se lo- caliza no interior de cada um irá mediar seu relacionamen.. como refor- um museu da subjetivi. por um grupo relativamente pequeno e que 64) crie ferramentas que o torna ininteligível à grande maioria da população. 66): “A idéia de transcen- dade analógica. será preciso o consenso mármore ou Posseidon entre certas vozes.. “para nós”: trata-se de para nós mesmos. porém isto não é apenas alargar seu conceito para além o bastante para designar um de suas fronteiras.” (Id. duado por sua convivência com os outros. “museu imaginário”. Nem para o Mesmo sabendo que as vozes conside- pintor de que decorava radas pelo sistema para legitimar-lhe sejam as grutas de Altamira compostas por “museus imaginários indivi- e Lascaux. individual.) não é um “museu imaginário qualquer” ou não é uma imanência. Criamos a perenida- o ponto extremo a que de.revistamusear. ou o nas fronteiras desse ‘em espaço só de sua visão. (COLI. quando não chocado - Ano 1 . sentido. mas A concepção de que tal obra possui uma de uma subjetividade: essência artística é algo cultural. Ele nho.) relações evidentes entre É curioso percebermos como o sistema si. para nós arte. a arte não e o que esta pessoa conside.ufop.102 Revista Musear Junho 2012 artigos que realizava Apolo no do da arte. Tassinari destaca que os questionamentos conceituais Não seria o caso dizer da esfera artística fizeram com que ela criasse que a arte seria um processo um mundo próprio que justificasse sua exis- unicamente subjetivo. a eternidade.” Ou seja. no chamado mun. para o autor. Para tal. que apenas um “museu imaginário” é o res- é uma projeção. 44) seria a reunião de obras cujas afinidades não pro- cedem da história. de maneira heterônoma. O público ou não. p. O “em si” duais”. De nós que enunciamos o acordo com Tassinari: “em si” da arte. pensador francês reconhecer na sua inspeção do mundo contemporâneo que os traços de outros sujeitos. A recompensa pela objeto como sendo artístico manobra conceitual existiu. (. que são chegou a idéia de arte apenas instrumentos com os quais dispomos. uma configuração do ob- uma seleção intuitiva. de jeto. for tomado como um espaço inter- concebeu a idéia de um -subjetivo aberto à participação dos outros. “O absoluto da obras que não possuem arte é relativo à nossa cultura. construiu suas reflexões O espaço não é espaço só de alguém. Malraux ilustra sem nós.Número 1 . podia mais atingir a sociedade numeri- rará arte será um processo camente. Nesse dência cultural e histórica da arte é nossa. 2001.

2002. então cípio deste processo: current aes- você não poderá cumprir thetic system seu plano se o siste. de modo mente eram considerados como artesanato e available to que você possas ganhar arte utilitária. É desnecessário de barro que exibem o cotidiano rural. Muitos dos produtos ela. expressão dispensable aos produtores dos trabalhos folclórica. intend to make art and want bonita e mais expressiva do da arte popular”. e físicos que se articulam Utilizando o conceito de mundo da arte. varia de um caso ao outro. um outro processo foi res. and advantages do como arte. 2001. O mundo daquilo que não é cria o conceito de “mundo arte. than nonart. são intelectuais e artistas dos explicate and apply it deny aqueles que o aplicam e grandes centros urbanos que reconhecem you the title.than you os recursos e vantagens Mascelani. and those who ma estético corrente e Inicialmente. ou. p. os sintomas de um because. (MASCELANI.revistamusear. ou seja. ou. ou *** It is in- indispensável e desnecessário trabalho comercial. borados por pessoas e grupos que anterior. que seria o “mun. se você movimento empregado em introduzir alguns recognized as então decide fazer arte fazeres do cotidiano das camadas populares art so that you e quer que aquilo que no mundo da arte. segundo art. apenas.br Ano 1 . Becker e afirma: ou seja. não existe apóia na existência de fronteiras fixas e. talvez. Becker. um encontro específico pelo contrário. if you em questão: lunático. possuem atualmente. 36) Ou seja. o universo da plasticidade que não foi da arte”. if se você acredita que ponsável por criar um mundo que não é o you therefore a arte é melhor. (TASSINARI. que se constitui de aceita cujos atores e produtos não possuem o todos os aparatos humanos aval do sistema artístico. dizer o que pertence ou não a esfera artística. cannot fulfill your plan if the destinados à arte. 22) believe art is better. It explicam negarem-lhe o valores artísticos nas pequenas esculturas is unnecessary título. você pode continuar fazendo o que passou a fazer parte mesmo trabalho com um nome diferente e de que se convencionou com apoio de um outro mundo cooperati- chamar de “o mundo vo. Este último surgiu do what you make que a não arte. Tal processo ocorreria informal.ufop. Becker argumen. can demand the resources você fez seja reconheci. o status de arte. para justificar a existência Mascelani amplia a noção criada por Howard da arte e definir seus limites. more beautiful. p. Becker está excluído. Ela conta o prin. artigos Revista Musear Junho 2012 103 mas sobretudo o público não é arte. what you are que você está fazendo cundário em relação ao artesanato utilitá- www. Entretanto. 1984. p. Aceitar que a definição de arte não se mente. mais da arte e nem da nãoarte. são justamente estes últimos que se ta que o título “arte” é um importam em decidir se uma certa produ- recurso ao mesmo tempo ção é realmente arte ou se é artesanato. 133) *** da arte”. (BECKER.Número 1 .Junho de 2012 . and more expressive É indispensável porque Entretanto. como diz não serão. delimitado no tempo e no seria aparentemente mais simples para espaço em que pessoas se aqueles que estão inseridos diretamente no reúnam para decidir quais que acreditam ser um processo artístico do elementos serão arte e quais que para os demais. o mundo da arte acaba por defi- nir o que nele pode entrar e aquilo que dele Neste sentido. because even porque mesmo que estas eventualmente comercializadas nas feiras if these people to tell you that pessoas digam que o do interior do Brasil como um produto se.

há algumas in.2 arte”.Junho de 2012 www.E.fascinado pelo desejo de identifi. p. ocorreu a criação de um outro mundo. Entre- popular. reestruturam work under a suas identidades. o seu sistema é o da arte mente um proletário. seus atores se denciada por Taylor: do the same apropriam da noção de arte. que mesmo os termos “elite” e anteriormente freqüentava apenas feiras “popular”. Este mundo da arte de certos fazeres das classes popular acaba por não penetrar no mundo populares no “mundo da artístico. mas lam objetos e artistas incluí. 23) segmentos da sociedade em que circu.cada qual movido por interesses tem tentativas institucio- terseções. há campo além do artístico. alguém da classe seu fazer influenciado pelo que dizem dele.) comum . mas Pois bem. tura. vivenciada na sociedade different coope. menta para o que propomos A sua galeria será “de arte popular”. talvez Ainda argumentando isso seja efeito de tensões existentes num sobre os dizeres de Taylor. dos no mundo É possível percebermos que embora tenha que pode ser interpre- da arte popular havido o esforço de várias pessoas e meios tada como resistência e no mundo para a legitimação dos produtos populares proletária. redimensiona o fazer deste artista te” ou “dominada”. passando a dar prioridade ao é uma forma de vida. gradualmente. o Vitalino. os “de arte popular”. há uma resistência a elas. o que parece ter ocorrido. seus apreciado. Exis- atores próprios. Afinal. que da arte popular. da arte. O objeto. Foi preciso que eleva a vida não vai mui- possuam suas uma verdadeira rede se formasse que um to além dos interesses ferramentas e número expressivo de pessoas e grupos dessa classe social. original forne- cida pela autora Ao contrário do que estabelece o senso vivido dentro da estru- (N.no sentido de legitimar esse tipo nais de envolver outros espaço-tempo de produção como arte. (TAYLOR. Taylor utiliza os termos dois ambientes. a arte rative world. alteram a Da forma como é and with the support of a quantidade de tempo dedicado à agricul. a tensão entre a um ponto do qual discorda- classe dominante e a classe dominada. ser estudado por acadêmicos e ter o tes. agissem. à criação de animais e ao artesanato contemporânea. valorizando a expressão different name individual e.Número 1 . mos quando o autor afirma Ano 1 .. 2002. ao menos não de maneira total. nessa forma de vida. tura burguesa.) um sistema conceitual. you can usually rio. pode ser exposto em alguma como sendo mais abrangen- galeria.. ses específicos de variados atores ao longo do “burguesia” e “proletariado” tempo.104 Revista Musear Junho 2012 artigos doing is not art. foi a criação de um outro mundo. Se faz necessária a utilização deste tanto em termos de análise termo “popular” como elemento caracterís. e sua notarmos que embora os diferentes perspectivas teóricas.muitas pessoas. Entretanto. Num segundo momento. utilitário. certo próprios . animadas por processo de arte.revistamusear. que a tentativa da incursão res. resultado de um desenvolvi- transita nos mento dinâmico e fluído por meio de interes. É dessa car (e personalizar) quem ‘descobre’ quem estrutura que emana o 2 É curioso ou o quê . dominada não é necessaria- ou não. ou até e a sua relação com o mundo. na 2005.. brasileira.ufop. p. seu como hipótese para o fato de mercado o “de arte popular”. Tradução do artesanato artístico e a ‘arte do barro’. acabou por resultar Ao tentar atribuir o status de arte a certos no “mundo da arte popular” objetos produzidos pelas classes populares. o conceito desenvolvido por tico e que irá direcionar os olhares dirigidos Taylor pode servir de ferra- àquele objeto artístico popular.br . (. que encaramos de artesanato. como por exemplo o como arte. 65) caso de Mestre verdade. evi. para seu argumento. designar um objeto como arte para este trabalho conside- popular e chamar seu elaborador de artista raremos “classe dominan- popular. (Id. tomaram característica de algo que dois mundos parte ativa nesse processo.

p. sion of ruling- -class culture mônico da cultura. que o que é consentido netrar no “mundo da arte”. É também verdade questões filosóficas. as classes populares não O conceito gramiscinia- são tão passivas com relação no de hegemonia se re- a isso. Seus interesses serão fere ao processo através negociados com a elite em do qual a classe domi- contrapartida e desta ne. recorrentes no mundo que estamos tratan. da pela outora. www. do momento em que um como arte popular brasileira imagina-se que Tradução do grupo se predispõe a criar a pessoa vai encontrar objetos feitos por original forneci- mecanismos que proporcio. a luz do dessa classe social”.**** mo” de Nestor Canclini. tais negociações hipotética. como podemos to negotitate dos e complexos. muito provavelmente. conceitos e Gostaríamos de trazer à tona o caráter **** Gramscian modos de convivência sejam popular do grafite-pichação. gemony refers cados. artigos Revista Musear Junho 2012 105 pois neste contexto ambas que “sua característica como as partes acabam cedendo algo que eleva a vida não vai em certos aspectos. onde se localizam? em que idéias. A partir do.Número 1 . ideological ter- diversas classes e nações. que surgiu no concept of he- compartilhados e ressiginifi. ções oficiais de ensino. rurais e com mate. (N. porque este of leadership. fazer cotidiano de alguns jovens no âmbi. populações mais pobres. Aprofundando ainda mais.br Ano 1 .E. pois conceito de hegemonia de acreditamos que embora o Gramsci explica que: interesse da elite seja o de impor uma estrutura cultu- ral. Agora como explicar o fato do to the proces- (1997. ling class seeks tituído por processos híbri. Como afirma Canclini to urbano.ufop. it is also true that porânea retratam um proces. para pe. em que o contato direto entre culturas diferentes acaba Agora podemos expor a seguinte questão: por desencadear processos O grafite e a pichação. nante procura negociar gociação nasceu o “mundo contrapondo as culturas da arte popular brasileira”.220). barro e madeira (figura lógica e cultural sobre um 7). de classes dentro de um Podemos dizer que Vitalino terreno cultural e ideoló- não precisou trocar o barro gico ganhando com isso pelo acrílico translúcido. consented to is diz respeito às negociações Percebe-se que algumas características são negotiated ver- inerentes ao processo hege. usando entender que o grafite-pichação esteja em opposing class como signos de identificação alguns casos no “mundo da arte” e em outros cultures as to a cultural and elementos procedentes de no mundo não-arte. 221): “É possível grafite-pichação não estar no “mundo da ses through whitch the ru- pensar que o popular é cons. cultura e ideologia da bém o conceito de “hibridis. mundo possui um sistema próprio como já what is thereby so bastante complexo no que mencionamos anteriormente.) nem sua hegemonia ideo.Junho de 2012 . é a versão negociada da Teremos como norte tam. p.revistamusear. arte popular” e estar no “mundo da arte”. riais rústicos como. uma posição de lideran- elementos do cotidiano por ça. popular”.” Inicialmente podemos perceber que o rain which wins O mundo da arte popular grafite-pichação não está no “mundo da arte for it a position e o mundo da arte contem. Bennett muito além dos interesses (1998. Presume-se também que nesta exposição grupo maior. Quando alguma exposição é designada and ideology. classe dominante. as técnicas desenvolvidas tenham representam a não aceitação sido passadas de pai para filho em um tipo passiva da estrutura proposta de fazer que não é apreendido em institui- pela cultura hegemônica.

mulheres.106 Revista Musear Junho 2012 artigos Desta maneira. sendo na verdade to grafite-pichação não se o resultado da mistura enquadra na idéia construída de diferentes pontos de de arte popular brasileira. ou seja. tomando-se como (FERREIRA.br .em afinal. que ocupa um lugar onde está a grande maioria da população Já o grafite-pichação se mundial.por pode ser de qualquer cidade ção.Número 1 . idade e sexo e uma abran- Talvez por reunir aspectos gência absurda em termos característicos de populações de territorialidade. desejos e ações. acabará algo característico deste ou por se apresentar como daquele espaço. ou ainda por ter ainda está sob tutela ou se tornado uma festa abran. sexo masculino que também naval resultante das ten. que trabalha com os uma forma particular e materiais sintéticos. Ceará e da tensão existente. 1: Caçador. social. é que o Car. não se interessam em grafitar sões ocorridas nos trinta e pichar. (Noemisa Batista dos Santos). social. salvo as tensões exis. caracteriza principalmente Existem algu- 3 mas mulheres A grafite-pichação surgiu por existir em meio a jovens que atuam no e cresceu na metrópole assim do sexo masculino3. Essa suporte. desafia em escala mundial o tentes. p. não para geração de jovens e não representa. devido parcela muito específica da a grande concentração de população mundial. presume-se um saber local.articulados de urbano. desse modo. como o carnaval carioca. Na arte popular brasileira de âmbito nacional e. e idosos. nascida na cidade que é passada de geração do Rio de Janeiro. Pode- de outras regiões do país. 2004. num tipo de técnica festa. única no e pelo espaço do a estrutura da urbe como urbano carioca. dizer.ufop. espaço compartilhado com todo o resto de categorias. e a necessidade de expansão tado com uma “vitória” do grafite-pichação de não se deste ou daquele grupo manter em um território es- Ano 1 . referência o final do século 248) XX e início do XXI. primeiros anos do século Com relação à capacidade XX não pode ser credi. Seria carnaval carioca penetrou uma restrição em termos de no mundo da arte popular. o ou região do globo.Junho de 2012 www. O grafite-pi. exemplo.por exemplo. é um tipo de mani. definidora. termos locais. por essa razão. adultos O importante a destacar. além dos jovens do desse modo. de pai para filho. nacionais festação com a essência do e globais. em grande maioria. entretanto. vista. utilizan. crianças. mas expressa questões Fig.revistamusear. os interesses exclusivos não existe uma rede familiar dos habitantes da cidade. dependência financeira dos gente no aspecto regional e pais. uma Bahia . como afirma Ferreira. o aspec. o que significa nação naquele momento. legítima representante da chação reside na proporção brasilidade buscada pela do urbano. que migrantes. mos perceber a dimensão como Minas Gerais. que grafite-picha.

(N. 134). seu revistas que trazem matérias desejo é ver seus desenhos com conceitos que parecem ***** American and British e escrituras no máximo de bem definidos como: grafite writers are also lugares possível. espaço-tempo em processo. a reafirmação destes laços. frentamentos e tensões perti- parents [. nomes estarão circulan. p. Neste ou de passageiros. estipular o que é ou não van- a sure guaran- tee their names pois como afirma Storey dalismo também dependerá are going to get (2003.) uma solução com- ****** (..) sua dinâmica. 83) ***** muito claro em sua mente o que é ou não é grafite. pares do grafite-pichação e que definir o que é ou não fferent regions o desafio que estes rapazes é arte. ground freight e/ou pichador..) as identifica. A impressão que temos do! (MACDONALD. artigos Revista Musear Junho 2012 107 pecífico Macdonald comenta Desta maneira.. mas à autoridade prios que se transformam writers tagging parental e ao mesmo tempo ao longo do tempo e que on money bills.] and ções parentais. dando seus trabalhos o grafite-pichação possui para diferentes regiões e alguns de seus atores e obras áreas de seus respectivos absorvidos pelo mundo da países. pichação é vandalismo nos need to create mia e diferença dos pais colocava em uma posição and express (..). p. não é com Mas ao adentrarmos o or passenger trains.ufop. afinal o contato direto com esta O grafiteiro e o pichador manifestação se dá normal- não se atêm necessariamente mente através de sua visuali- a um local específico. tidade enquanto grafiteiro mo. não dependerá de and areas of propõem seria não apenas às regras definidas em estatuto their respective countries. dos trâmites sociais também around! Tradu. (.. -pichação ocupa em larga canos e britânicos: escala o espaço e o cotidiano urbano. é arte e pichação é vandalis- painting over.br Ano 1 . e a necessidade de confortável. e sim com seus mundo da arte percebemos their work to di. ras jovens representam: mutantes. Eu cheguei a ver arte e outros flutuando em writers colocando seu tag tudo que não é arte onde em notas de dinheiro – podemos destacar o crime e uma garantia que seus o vandalismo. No senso comum afirma- solution to two contradictory tórias: a necessidade de ção de que grafite é arte e needs: the criar e expressar autono.. as subcultu. é que o senso comum tem 2005.revistamusear. I autoridades governamentais e sim de mecanismos pró- have even seen e civis.****** nentes a este meio acabavam the need to passando desapercebidos. www.Junho de 2012 . eles zação em muros das cidades podem atuar em espaços e dos artigos de jornais e sem limites.)a promissada com duas Considerações finais compromise necessidades contradi.. man. que proporcionam a dinâmica desta manifes- Os writers americanos e tação cultural e ao mesmo britânicos também estão tempo procuram defini-la pintando trens de carga de alguma maneira. sua iden..E.. em que os en- autonomy and difference from manter (.. ou melhor.Número 1 . sending a família. que nos revelam a ção do original complexidade do objeto e a fornecida pela outora. o grafite- a respeito dos writers ameri.

do a moralidade vigente.revistamusear. rizado será grafiteira.Junho de 2012 www. coercitiva dos governos com A falta de conceituação existente no gra- relação ao grafite.. confor- Medidas foram tomadas me as conveniências. formalmente medíocre bairro. se prever.E. Se a pessoa intervier em um espaço auto- colocando à prova as auto.) A confusão conceitual fa. vândalo. mas existir sendo completamente cooptado por o anonimato favorecido espaços que o limitam.] parental identi. como a noção de pessoa preferir o outro lado e continuar in- propriedade e patrimônio tervindo sem convite. (N. Se o grafite deixará de no âmbito legislativo. Retrata os pontos em para a extinção do grafite. somado ao gosto soleta a designação pichação. pois ele não o captura por inteiro. arte contemporânea e sua expansão conceitu- da pela outora. aberto da sociedade contemporânea e ganha por força policial e também aspectos imprevisíveis. al adquirida com o tempo. será pichação e seu taurado por estas atitudes elaborador um pichador. que apare.108 Revista Musear Junho 2012 artigos maintain [. para deixar no silêncio certos com que surjam processos que tentam coop- fications. ou simplesmente feio. aspectos da vida em socieda. ele define O grafite aparece de algumas condições moldando o grafite em maneira anárquica desafian. mas evita suas tensões. anti-sociais geram conflitos que não respeita a arte dos outros. porâneas. o mundo seleto da original forneci. caso seja considerado em que as pessoas sentem bonito em seu sentido mais simples. sobre ele. para uma absorção moldada e parcial. pro fenômeno do grafite na contemporanei- A convivência da população dade e um comportamento mais crítico e com o grafite acaba perdu. espalhou por jovens de todo Mas admitir seus paradoxos e pontos o mundo e o grafite teimou obtusos. O incômodo ins.ufop. poderá seu direito violado quando talvez. algo que já não é mais grafite. Ano 1 .Número 1 . mas verdade de quem discursa não pretende lidar com suas conseqüências. menos displicente para com este fenômeno rando e tal persistência faz cultural urbano. Se a questões.. já seria trazer uma nova consciência em existir e cismou de ficar. que pare- Tais indefinições impedem cem não ser convenientes a este meio. mas alguém intervem em seu se o que tiver realizado for encarado como imóvel. Tradução do de das metrópoles contem. fite brasileiro permite espaço para manobras. pretende absorver vorece a quem exatamente? o grafite. Este um apanhamento mais efeti. também ser considerada artista. marginal.br . artista poderá vender ridades reguladoras e com sua obra e ter seu material discutido dentro isso trazendo à tona diversas dos parâmetros aceitos por este mundo. não é possível da adrenalina do proibido. ou na praça de seu esteticamente pobre. ceu sem ser convidado. se o grafite voltará a pelas grandes aglomerações ser completamente subversivo tornando ob- humanas. Nesta rede complexa. tar o grafite para torná-lo palatável. tura e do enfrentamento gerado pelo grafite colocando-o no campo da para preencher seus vazios conceituais. um cri- e discussões inflamadas minoso que deve pagar por este ato repelido que cobram alguma atitude socialmente. mundo em especial se aproveita da desenvol- vo deste fenômeno cultural.

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