A História da Loucura na visão de Michel Foucault.

Quando Foucault lança o seu olhar para a loucura, ele faz um mergulho nesse universo para
entendê-lo, e a partir daí, construir um saber sobre a loucura e como ela se constituiu ao longo
da história. Ele opera uma desconstrução da história e uma ordem dos saberes, a partir da
qual vai trabalhar a loucura, a punição, a sexualidade, mostrando como esses saberes se
constituiram histórico-culturalmente. Para ele a história não é algo contínuo, linear, mas sim,
experiências. E mostra como a loucura sempre foi objeto de exclusão. Cabe a pergunta: O que
é o louco? O discurso de Foucault está caracterizado na repetição sobre o significado, é a
sociedade que considera o desviante do que é para ser como louco, independente do seu
contexto, ou seja, tudo o que está fora dos padrões da sociedade é taxado como louco.
Foucault trabalha com a loucura como objeto de pesquisa, desde o século XIII até o século
XVIII, mostrando toda a sua formação social, política, econômica, e filosófica. Como a loucura
produz seus discursos e como eles se formam? como cada época muda esses discursos? qual a
gênese da prática de internamento e exclusão?esses são alguns questionamentos dele no livro
“ A História da Loucura na Idade Clássica”. Nesse livro, ele não faz uma historicização da
psiquiatria, ele fala da experiência da loucura em si, como essa experiência se constituiu em
nossa cultura.

A história da filosofia antes de Foucault era pensada de uma forma Hegeliana, linear, ele
quebra essa visão da história da filosofia, pois está sempre trabalhando no nível da história,
fazendo da história o solo epistêmico do seu pensar, com isso, a sua Arqueologia do saber
consegue quebrar essa visão linear, pois ele nunca pensou em termos de unidade, ele pensa
em termos de fragmentos, isso é fundamental em seu pensamento. Na sua Arqueologia com
as obras: História da loucura, Nascimento da Clínica, As Palavras e as Coisas e Arqueologia do
Saber, ele constrói um fio condutor que é a relação saber-poder, onde essa relação gera
conhecimento. A filosofia de Foucault não é uma síntese, porque é uma produção da
diferença, ele trabalha com a idéia de deslocamentos, deslocamentos dos saberes como
evolução. A concepção histórica de Foucault é formada por três eixos, para ele a história é
descontínua; não linear, ou seja, fundada na experimentação; e problematização, a filosofia
sempre tem que dar conta de um problema. Assim ele aborda a história das prisões, da
sexualidade, da loucura como experiências formadoras desses domínios. Ele transforma a
loucura em objeto de história das representações da loucura num contexto histórico-social-
político, levando em consideração a importância cronológica dessa construção de saber.

entendendo e analisando os discursos formados pela experiência em cada época histórica diferente. mostrando haver uma experiência cósmica da loucura versus experiência crítica da loucura. está na esfera do sagrado. divino. ela só passa a ter estatuto científico no século XIX. Alguns questionamentos fundamentais dele nessa pesquisa são: Como a loucura vai se configurar como uma representação na Europa? Qual a gênese da prática de internamento e exclusão que são inerentes à loucura? Qual a percepção da loucura para o louco? Com esses e outros questionamentos ele vai traçando uma configuração histórica da experiência da loucura. a psicologia e a psicanálise. Do século XII ao XIV o grande mal foi a lepra. a loucura não tinha ainda o estatuto de patologia. mística. no século XVI a loucura não é mais vista como transcendental. mas sim uma experiência crítica-racional. A loucura precisa da razão para dizer que não tem razão.A forma como Foucault trabalha a representação da loucura se dá pela construção desse saber e pela percepção do que é a experiência da loucura. a lepra era só física. século XVI – XVII houve uma reforma do entendimento moral do louco. todas as pessoas que estavam fora dos padrões de comportamento social eram consideradas loucas. e a loucura é que vai preencher esse vazio simbólico. ou seja. ela adquiri um significado social e moral. dividido entre os instintos e os transbordamentos desses instintos. a saber. Na experiência crítica a loucura está fora do âmbito da razão. No século XV a loucura perdia seu caráter cósmico. A loucura como consciência crítica quebra a visão da loucura como transcendental. que começa no século XIII chegando ao século XIX mostrando os diferentes momentos de como se deu essa experiência ao longo dos séculos. Foucault descreve o quadro histórico da loucura em cada período. no fim da Idade Média. não entendida na desrazão. a figura do louco era objeto poético. passando a ser o grande medo. a loucura racionalizada entendida na esfera da razão. o significado cósmico na Idade Média passa a ter um significado imponderável na Renascença. séc XIII a loucura era vista como castigo de Deus ou uma forma de redenção. desmistifica-se a loucura. a loucura era excluída da sociedade. A loucura é excluída de qualquer racionalidade. na Idade Clássica. o louco é relacionado à razão. tudo o que era indomável. mas as doenças venéreas e a loucura assumiram também o caráter moral. Só no século XIX é que o louco passa a ser objeto de pesquisa e entra em cena a psiquiatria. o louco está fora do limite da razão. século XIV e XV é a visão trágica da loucura na literatura e poesia que vigora. mas estas eram tratáveis. depois que a lepra desaparece fica um vazio simbólico. das práticas sociais. os leprosários ficaram lotados. no Renascimento. continuam as práticas de internamento e exclusão. e passa a ser objeto de preocupação social. ela é a desrazão. excluindo a razão da loucura. No século XVII aparece as doenças venéreas. O deslocamento da percepção da loucura do Renascimento para a Idade Clássica se dá como a loucura sendo o outro da razão – se encontra no campo da racionalidade. aprisiona-se a loucura dentro da razão. são sentimentos racionalizados descrevendo a ambiguidade do ser humano. . a loucura é tudo que não se encaixava nos padrões. na relação da loucura com a razão há a desmistificação da loucura no sentido alegórico e poético. mas. não perde o seu caráter trágico. remetendo-se a cada época e construindo uma ordem dos saberes. não se sabia exatamente o que era a loucura. a natureza humana extravaza os seus limites. A experiência trágica está entre o cósmico e o trágico. pois a loucura era algo fora do controle. é Descartes que fala do argumento do sonho nas Meditações. não tinha tratamento nem cura e era imponderável. e uma análise do discurso.

nas Naus. uma instância não muda. a loucura passa a ser objeto de análise. começa a entrar para a esfera da medicina e da ciência como objeto de estudo e pesquisa. desde o século XIII. Essas práticas já estão presentes na origem da história da loucura. passa a ser vista como desatino. Lou-cura significa “não cura”. ela é o outro da razão – a desrazão. na Renascença com a Nau dos Loucos. mas as práticas continuam as mesmas. Os significados e as representações mudam. no século XVII a loucura passa a ter um sentido moral. e social no sentido de controle. século XIX até hoje. a loucura já tem um estatuto de razão. já no século XVIII deixa de ter um aspecto moral e passa a ser de cunho médico. o internamento é uma função social produzindo uma segregação social e produzindo alienados. passa a ser patológico também. e o caráter produtivista econômico da renascença. . a loucura como transbordamento do não dito. seja nos mosteiros. por isso. nas casas de caridade. aquele que não tem capacidade de decidir nada na sociedade. o lugar dele é na prisão e não no hospício. propriedade e significação dessa propriedade. e o internamento dos alienados é a estrutura mais visível na experiência clássica da loucura. Na Idade Média a loucura ainda tinha um sentido de lugar. não mais o caráter assistencialista da Igreja na Idade Média. a segregação produziu o ser associal. o não-lugar físico que a loucura adquire como significado é o caráter de exclusão. passa a ter o significado moral. internamento e exclusão. Descartes relega a loucura ao estatuto da Desrazão – longe de qualquer juízo falso ou verdadeiro. já não existe mais o lugar da loucura. mas sim sofre de sodomia. na modernidade. o louco passa a ser um alienado. depois passa a ser absorvida no parâmetro da razão. que são as práticas relacionadas à loucura. por exemplo. Agora a percepção social do internamento é a resolução de problemas. um significado cosmológico ligado ao sagrado. a partir do momento que a loucura passa a ser uma experiência crítica se coloca fora do lugar da razão. esse deslocamento na percepção no século XVII vai evidenciar o motivo da grande internação. etc. a loucura não é por vontade divina. A desrazão da loucura está entre o significado ético e o signifcado moral. Antes. fora da razão.é esse o deslocamento da percepção da experiência da loucura. ou seja. A loucura a partir de Descartes passa a ter um estatuto moral. Sade não está privado de razão. Na Idade Média o louco era assim por vontade divina. e a solução é a grande internação na França do século XVII. A grande internação tem uma característica moral e social. o não-lugar do louco cria o lugar do internamento. esse acontecimento marca a nova significação da loucura na modernidade. um significado simbólico do imponderável. moral no sentido de punição. O hospício moderno surge com o advento da internação do Marquês de Sade. Agora o estatuto da loucura é a razão. o estatuto indeterminado do louco era tudo o que extrapolasse a ordem da razão. ela passa a ser o grande medo da desordem. o que fugisse dos padrões. Mas mesmo com as diferenças de representações da loucura nesses diferentes períodos. As práticas de intervenção sofre alguns deslocamentos de significados. onde o diagnóstico não é de loucura. Se a loucura tem o mesmo estatuto da razão. a loucura era uma experiência trágica. privação de lugar e espaço para o indivíduo. na modernidade.

com a criação do hospital geral na França. as instituições. O significado médico e moral vai surgir na mesma época e ele vai mostrar quais os elementos que levaram as práticas de internação como instituição. e como essas duas formas . A loucura na Idade Moderna passa a ser objeto de estudo científico. tudo está vinculado. que sempre foram internamento e exclusão. começa a se perceber que alguns loucos podia tratar e acompanhar. o outro da razão. ele não separa percepção de prática. O deslocamento na percepção da loucura no século XVII no âmbito da discussão filosófica. começa os tratamentos médicos e a supervisão era no sentido de manter os loucos fora dos focos de epidemias. Foucault mostra que a ciência médica evoluiu de um contexto de evoluções históricas. a loucura como patologia só acontece no século XIX. todas as experiências da loucura e mostra que o século XVII é a chave fundamental nessa história. O louco perde o estatuto de gente. ou seja. as práticas sociais e jurídicas vão conviver no âmbito das intituições. A percepção crítica do louco na Idade Clássica é a grande ruptura. Ele constrói uma Arqueologia do Saber. se há um deslocamento na percepção significa que a prática mudou. na análise de Foucault é na prática que se tem a percepção. Foucault vai descrever no livro “ A História da Loucura na Idade Clássica” toda a evolução da loucura. de humanidade no século XIX para virar um objeto de pesquisa. porque é nesse século que o louco perde o estatuto de humanidade e ganha o estatuto da razão. a loucura passa a ter o mesmo estatuto da razão. os documentos que falam dos internamentos e da exclusão. ou seja.Na Idade Clássica se começa o início do significado médico. mas até chegar a esse ponto de objeto de estudo. . de configurações sociais. os prédios. o foco da pesquisa de foucault é o da experiência da loucura em si. Ele mostra que no século XVII o estatuto da loucura existia nessas duas formas e que ainda não existia uma ciência médica para cuidar do louco. No século XVII há duas práticas fundamentais que são as práticas sociais e as práticas jurídicas. a desrazão. mostrando como se deu a produção dos discurssos da loucura. nessas duas formas a loucura vai se configurar como a entendemos hoje. e como a partir das práticas se tem os saberes. Por isso ele faz esse recuo na história voltando ao medievo até a contemporaneideda para poder entender a questão da loucura e as práticas da loucura. o louco passa a ser um objeto de análise da psiquiatria. houve todo um deslocamento de significado da loucura ao longo da história. Ele vai examinar o século XVII a partir da materialidade. passa a ser vista fora da razão. A preocupação de Foucault é entender como é que o louco hoje é um objeto jogado nos hospícios.

No século XVIII a medicina está em pleno desenvolvimento. não existe uma loucura pré- existente. por isso. o louco é todo aquele que não se encaixa nos parâmetros da razão da sociedade burguesa do século XVII. ele mostra como a loucura passou a ser objeto de análise e pesquisa só a partir do século XIX. mas a loucura é uma construção social. a correção é punida com o internamento. A briga de Foucault com a psicanálise é que a psicanálise fala de uma estrutura psíquica pré-social e foucault diz que o social é anterior a estrutura psíquica. existe alguns comportamentos desviados. Foucault é tão hostilizado por psiquiatras. não há ainda a questão da loucura como objeto de estudo da medicina. Foucault vai falar da história da sexualidade. por ele desmistificar a psiquiatria como a ciência da loucura. psicólogos e psicanalistas. por isso. e se estiver fora dos padrões é excluido. A briga de Foucault com a medicina. mas. alienado. Foucault faz uma genealogia da segregação e da alienação. essa é a tese dele. e não uma questão divina e imutável. O padrão normativo do internamento passa a ter como linha divisória do desatino a sexualidade. corrigir a conduta e reformar a moralidade do indivíduo. antes. Para Foucault o comportamento humano é construído.O sentido terapêutico adquiri o sentido de impureza. Qual a função social do internamento na correção? É a reforma social do indivíduo.Há uma desmistificação da figura do louco. ele vai tratar de como esse padrão normativo está presente nas práticas de internamento. nem o homem que expia os pecados. o médico com o uso do estatuto jurídico. A sociedade burguesa controla a questão da sexualidade pela tradição. o bem é sempre a ordem vigente. Foucault vai mostrar que há uma relação entre significado moral e sentido terapêutico. O caráter terapêutico no século XVII não é no sentido de tratamento. o louco não é mais o possuído pelas musas na visão poética. Ele sustenta que a loucura está na ordem da norma social. os médicos que visitavam os hospitais tinham o objetivo de controlar as pestes e doenças que aconteciam dentro das casas de internação. ele examina não os sintomas. O médico é aquele que diagnostica se pode ou não viver em sociedade. por isso. ele vai de encontro a Freud. mas a vida moral. já que com a medicina. o médico analisa a moral boa e a moral ruim. A psiquiatria só surge no século XIX com Charcot e Pinel. para a reforma do indivíduo. porque a sexualidade está na origem do pensamento social ocidental. penalização. A medicina na Idade Clássica está ligada à visão moral. mas o sentido terapêutico só se instaura do século XVIII para o século XIX. é essa questão do sentido terapêutico. mas sim no sentido de correção. a questão moral e religiosa vai manter esse controle. ele analisa o indivíduo pelos aspectos morais e não pela questão da saúde. Loucura é desatino da . a internação e a ordem social vão estar funcionando dentro desses padrões normativos da época. tudo é uma construção histórica e cultural. Foucault mostra como funcionava o internamento como função moral através das práticas burguesas e como esse terreno moral sustenta a internação. o mal é tudo que contesta essa ordem. impureza moral ou transgressão normativa.

a loucura como patologia. A institucionalização do domínio ético cria o domínio da insanidade. A razão é estabelecida dentro do domínio moral da sociedade burguesa. Foucault mostra que no séc XIX houve o resgate do estatuto individual da loucura como objeto de análise. é uso correto ou incorreto da razão. Com o desatino se tem algo diferente da loucura. distanciamento da loucura e do louco pelo internamento. Os estudos históricos de Foucault nessa primeira fase nos anos 60 e 70 giraram em torno de três coisas: a história da loucura. A loucura é algo que nos padrões morais não se encaixa na sociedade burguesa. Afinal. A loucura é assujeitada à razão. e só a partir do distanciamento e do encarceramento da loucura nos muros da razão. a ciência médico-clínica. Foucault sustenta que a sociedade precede a essa estruturação psíquica. o domínio ético da loucura. o internamento e a exclusão. objeto de estudo da ciência. por isso. e os três estão em origem no século XVII. A experiência Clássica da loucura não reside no fato do internamento. e sujeição como forma de controle. na alma humana. o que é a loucura? Como ela acontece no indivíduo? A partir daí passa a ser estudo da medicina e objeto de pesquisa de outras ciências. para ele a gênese da sociedade contemporânea está . pois este já existia desde o século XIII. e pela psicanálise – uma arqueologia do inconsciente. ele critica freud e a psicanálise. para permitir começar a entender e estudá-la como objeto de pesquisa científica. Para Foucault só existe o louco. Os três elementos básicos da experiência Clássica da loucura são: Alienação da razão. da psiquiatria – do corpo doente. é a cultura que forma e informa (molda) o indivíduo. a loucura é no sentido clínico. A experiência moral do desatino na Idade Clássica é o solo.razão. reside na criação da figura do alienado. A loucura nos séculos XVII e XVIII está submetida à razão. e a história da violência nas prisões. a partir desse domínio vai abrir as portas para os estudos da psicologia – o que se passa na psiquê. a base para o entendimento da ciência. A insanidade no século XVII acaba ocupando o domínio moral. Essas práticas de domínio ético da insanidade vão produzir normas e descrevem um domínio ético do internamento. a psicologia e a psicanálise querem entender os mecanismos internos da loucura. como é que funciona a loucura no ser humano??? A psiquiatria. o que foi a experiência Clássica da loucura? Um gesto de segregação no século XVII que produziu o alienado. é vista como moralidade . então vira desatino. reside no fato de que a loucura perdeu seu estatuto de igualdade frente à razão e passou a ser subsumido e submetido à razão. a figura da loucura é criada no século XVII pela norma social. No século XIX a loucura já não é mais moral. médico.

será material de estudo. Essa questão que foi sinalizada ao longo do texto sobre a loucura ser uma formação social como Foucault sustenta ou ser uma questão psíquica pré-social como Freud sustenta.embasada no século XVII como gênese de uma sociedade disciplinar e o século XX vai ser uma sociedade de controle. visto que neste o objetivo primordial era mostrar a visão de Foucault sobre a loucura. . análise e aprofundamento num próximo trabalho. que é o foco de crítica foucaultiana a Freud.