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Leila Marrach Basto de Albuquerque

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Raízes,
Ano XVIII, Doutora em Sociologia (PUC/SP), professora de Metodologia Científica (UNESP,
Nº 20, Campus de Rio Claro), pesquisadora do CEDEM (UNESP). Autora de Seicho-no-ie
novembro/ do Brasil: agradecimento, obediência e salvação. São Paulo: Annablume/ Fapesp,
1999. E-mail: edubasto@linkway.com.br.
99
pp. 50 - 53

Comunidade e sociedade:
conceito e utopia
RESUMO sões de símbolos, imagens e repre-
Este artigo discute as noções de comunidade e sociedade, como fontes de representações sim- sentações que, acredito, desempe-
bólicas que povoam o imaginário moderno. Trata-se de um exercício de reflexão sobre con- nham papéis importantes na dinâ-
ceitos entendidos não como categorias explicativas da realidade, mas como expressões de sím-
bolos, imagens e representações que desempenham papéis importantes na dinâmica histórica. mica histórica. É, pois, um exercício
O que se pode observar, ao longo da história da modernidade, é uma tensão conceitual e sim- no âmbito da Sociologia do Conhe-
bólica das categorias de comunidade e sociedade. Assim, se por trás da imagem de sociedade cimento.
estava o exorcismo da comunidade arcaica, medieval e tradicional, a força da imagem da co- Esse procedimento é possível
munidade está na sociedade, como aposta ou como ameaça.
quando, em tempos pós-modernos,
Palavras-chave: comunidade, sociedade, modernidade.
a ciência foi destituída de sua fun-
ABSTRACT ção de teoria da verdade. Em decor-
This article discusses the notions of community and society as sources of symbolic represen- rência, paradigmas, teorias, concei-
tations that populate the modern imaginary. It is a reflection exercise about concepts unders- tos e todo o aparato científico
tood not as explanatory categories of the reality, but as expressions of symbols, images and
representations that accomplish important roles in the historic dynamic. We can observe through podem ser abordados como produ-
the history of modernity a conceptual and symbolic tension of the categories of community tos da sociedade e da história dos
and society. Therefore, if behind the image of society was the exorcism of the archaic, medi- homens. Como Jano, tais noções
eval and traditional community, the strength of the community image appears in society, as a
bet or as threat. têm duas faces: explicam a realida-
Key words: community, society, modernity.
de, mas também projetam imagens
dessa mesma realidade. É, pois,
nesse sentido que o par comunidade
e sociedade retrata imagens diferen-
Os conceitos comunidade e soci- figurações sociais contrastantes, tais tes dos agrupamentos humanos, das
edade fazem parte da tradição soci- como o arcaico e o moderno, o afe- interações e da história dos homens,
ológica, sobretudo weberiana. Foi tivo e o racional, o sagrado e o se- desde o início dos tempos moder-
Tönnies, no entanto, quem os sis- cular. nos.
tematizou através dos termos Ge- O presente texto tem, contudo, A modernidade trouxe uma sé-
meinschaft e Gesellschaft no século um outro recorte: visa a discutir as rie de benefícios materiais e imate-
XIX e, como tal, têm sido instru- noções de comunidade e sociedade riais à existência humana, como a
mentos fecundos na identificação e como fontes de representações sim- melhoria do padrão de vida em to-
compreensão de contextos sociais e bólicas que povoam o imaginário dos os seus sentidos, a idéia de liber-
períodos históricos desde o século moderno. Trata-se de um exercício dade individual e a possibilidade de
XVIII. Na verdade, enquanto ins- de reflexão sobre conceitos entendi- escolha (Berger, Berger, Kellner,
trumento de análise do real, o par dos não como categorias explicati- 1974). Tais transformações econô-
comunidade-sociedade indica con- vas da realidade, mas como expres- micas e institucionais impuseram,

pro. na construção da nova ordem. especialmente o sanitaris- conduta civilizados. des mais simples pré-letradas ou pri- de orgânica esse tipo de solidarieda. palavra de ordem era a mudança. educada. na modernidade. indicadores de um objeto e herdados da família e da comunida- aos grupos e associações da Idade definidores de uma metodologia: de. (Nogueira.. também acarretou perdas. . mas quisadores estrangeiros e seus dis. espera-se que os riam. tauradas na Idade da Razão. pois. cria. sa científica. a antítese da comunidade é ração do Brasil arcaico e na constru- tocontrole e pela repressão de im. representada pelas relações impes. tempo. impediu-os de perceberem a retratam também a hostilidade in. no mação da nossa Sociologia e Antro. integrado numa mais O paradigma da modernidade No século XIX. dança envolve escolhas. em sua totalidade e não na multipli. ço em direção a esses valores e. ao mesmo importância de tradições e valores telectual à comunidade tradicional. o educador e outros” (Nogueira. ça social e cultural: o agrônomo. râneo. se apresentava como antítese. a gem de uma boa sociedade. anônimas e fracionadas. para to. Assim. ta. cípulos nativos. nas classificações sociológicas. tam uma eficiência maior ao traba- sonalidade (Nisbet. Como toda mu- vertiginosa de produtos e criações contribuiriam para o aprimoramen. 1968. a da cultura material e imaterial. aos quais a modernidade “estudo de um grupo local. riquecendo no estudo das socieda- nalmente.. territorial. já que os indivíduos se ligam to de vista prático. Cunha. mas Ora. pelo menos de modo subter- partes que compõem o todo coleti. a limite. soais. cipam de crenças coletivas idênticas. as comu- retratam. uma Santos e Visagens e muitos outros nidades cederiam espaço aos arran- categoria explicativa e uma ima. nidade. expressos pelo de contato dá-se o nome de primá. ins. o modernidade impôs padrões de penhar (Nisbet. esse conjunto de caracterís. No jar. nos séculos XIX e XX. 1968. O momento era de entusiasmo com social e técnico e à complexidade da fundeza emocional. tro aspecto importante é a idéia de No Brasil. to teórico e o treinamento na pesqui. 1978). como a sua (.). “Do pon- tes entre si. Os parceiros do Rio Bonito. de que. tífica. 1984).177). xas. a cidade de papéis que possa desem. 1990. riscos. eram. ao mesmo tempo. de uma perspectiva metodoló- mento de relações específicas. p. Apostava-se na supe- emoção e a inconsciência. esse aspecto era a alavanca dos vo e participam de crenças diferen. ao mesmo tempo agentes de mudan- Do ponto de vista individual. Como a Foucault. p. de: devido à divisão do trabalho caracterizadas por intimidade. tro arqueológico. cien- pulsos espontâneos (Elias. A esse tipo médico. O e etnológos vinham aferindo e en- os homens se ligariam livre e racio. Média. ção de uma sociedade secular. ampla e complexa estrutura social exigia a figura racional do contrato munidade é resgatada e. através de capacidades ao todo sem intermediário e parti. comunidade está no homem visto pelo caráter de suas atividades. conceito de comunidade é emprega. trabalhos foram realizados por pes. Almas.) permi- limitadas e não com toda sua per. tentes ao modelo de solidariedade gica que de há muito os antropólogos das pela vontade. os estudos de comu. a noção de co. 1978). A expec- ticas configura os indicadores Xique-Xique e Marrecas. já que justifica o esfor. através das quais instaurado pela modernidade. se não explicita- sociedade. das as formas de relacionamento mitivas”. Além disso. lidade. como dominante.Comunidade e sociedade: conceito e utopia 51 no século XVIII. dariedade é denominado de mecâ. de base to social. Para o bem ou para o mal. 171-2). tão importantes para a for. estudos de comunidade. menos para os utópicos ou os resis. As pessoas se relaciona. Durkheim (1960) esse tipo de soli. a que legitimava tudo que era bom e antítese. mudança ocorreu. ou. acarreta a obsolescência pologia dos anos 40 e 50. Tais estudos implicam. são. jos sociais orientados pela raciona- gem de sociedade desejável. moderna. passa a simbolizar a ima. os indivíduos se ligam às moral e continuidade no tempo. a idéia de contra. Durkheim (1960) chama do. gão sociológico. domínio do consciente sobre a rio. Para mente. o fundamento da lho de todos aqueles técnicos que. nica. Nesse sentido. Amazon Town. Cruz das tativa de sociólogos e antropólogos empíricos da noção de sociedade. transferência para o campo de inves- defensável no seio da sociedade. estudos de comunidades (. pelo au.. modernidade trouxe ganhos. pois. esses estudos tinham o tom de regis- progresso. esse tipo de conta. engajamento a modernização e.. pelo tigação das sociedades mais comple- qual deveria fundar-se no entrelaça. to é chamado de secundário.

porém em tempos pós-moder- talismo. p. integração. a cultura alternativa se apresenta era o quanto a sociedade industrial de ilustram este argumento. infinito. “O que poucos percebiam Alguns fatos da contemporaneida. por outros arranjos sociais. 330) lembra situação de perplexidade. Leila Marrach Basto de Albuquerque 52 Argumenta (Hobsbawn 1997. liberal e na comunitária. inspirando especialistas. até meados do século XX. à competi- laços comunitários mostrou as difi. dade. como o fracionamento do conhe. os doentes mentais. cer num mundo anômico. a imagem do contrato torna tudo objeto de que. unidade. era possível que fossem dramáticos surto de rebeldia juvenil no mun. como so. tou. comunidade. um mais comunidades ou parentesco. ravam viver e experimentar outros ção predatória. do todo. que nas cidades do ocidente não há como solidariedades errantes que. dependia de uma simbiose da velha tória do mundo dito livre e a im. popular. os hippies. respeito. violência e insegu. públicas têm procurado no conceito rança da vida urbana são condições nidade. a nova sociedade e. ção. Assim. tura. um pouco de refúgio na 335) que formas de comportamen. inspirados na antipsiquiatria. portanto. No entanto. 333) ou seja. ecológicos e pra. ao lon. uma apresenta hoje na chamada cultura miliares. à impunidade (Soares. no século XIX. a vida em comu. programas – gritos pedindo um comunidade.. procuraram tirar do confinamento Owen. práticas Os custos humanos da modernida. guias de comportamento que liga. O pós-guerra nos mostrou a vi. em muitas vam os seres humanos entre si. a valorização do trabalho artesa. se pode observar. das as dimensões teóricas. São va- os efeitos de sua desintegração espe. ticantes de Ioga nos anos 60 e 70. música ou partes do mundo. nos anos 70. a anomia. equilíbrio. “permitem suprir o que a num mundo de seres socialmente hospitais. Nessa mesma ordem de reflexão. os reformadores da comunidade emerge. go da história da modernidade. terizou o comportamento de hip. muitos dos problemas sociais da volvidas e herança da implosão de nal e o resgate de traços culturais modernidade. tanto na esfera públi. que pro- cimento. razão iluminista. 1997. que até hoje não se esgo. todavia. Eles tiveram que voltar para os 186-7). utopias. Nesse processo. de modo que neste século. desprezados pelo ocidente e sua exemplo a partir do qual o resgate Talvez a conseqüência mais bru. to estranhas ao cálculo racional. só nas palavras de (Duvignaud 1995. tativas que inspiraram a moderni- porque colocada dentro do progresso tico da sociedade: a tecnocracia. 1969). ternativas dos anos 80 e 90. era composto por grupos aparen. como a cultura da comunidade tem mostrado for- tal desse processo seja o desenraiza. 1997. opõem ao consumismo.p. ca como na privada (Roszak.. o desmante. pies. Chamado de contracultura. Lembremos. espontaneidade. estava a picia uma relativização das expec- mundo e a perda do sentido da vida. mas: natureza. lores. bem pouco de comunidade a que perten. Proudhon. condutas.. De. a preocupação ambiental. medo. A pro. mistério. dispersa em uma infinidade de te- moderna. . Observa-se também. ele é seguido de um afetividade. A área da saúde é um traços culturais pré-modernos. pureza. de comunidade. cura de estados de consciência al. reconciliação. êxtase religioso. psicodélicos. Herdeira da contracul- parte integrante do início do capi. anarquistas e. o desencantamento do Por trás dessa revolução. as CEBs. rejeição ao aspecto mais emblemá. A exacerbação desse processo se como confiança mútua. vida moderna tem de abstrato e a isolados. Lembre-se: a exigência (Hobsbawn 1997. motivações fa. 335).. “Tais movimentos eram mais gri. p. harmonia. os tos de socorro que portadores de fossem tratados pela família ou pela anarco-punks. indígena e oriental carac. isto é. obediência e lealdade foram tensão conceitual e simbólica das alternativa. ça. Nessa petências. selva” (Hobsbawn. am o simbolismo da comunidade. Constatou-se. atributos que povo- tacularmente rápida” (Hobsbawn. comunica- comunidade e de velhos valores com portância da ciência nesse proces. nos. terados com drogas. vida cotidiana de administrativo”. p. pouco de família a que pertencer ruas. que as políticas samparo. intuição. 1994). impulsionaram a procura que despoja o indivíduo de com. com os quais os alternativos se lamento das redes de parentesco e temente heterogêneos que procu. categorias comunidade e sociedade. à negligência ética e culdades de se viver sem os velhos padrões de comportamento. e éticas do profissional na ordem de. sociais. as comunidades al. a solução para emblemáticas das sociedades desen. são questiona- mento do mundo. p.

fora da família. 1978. o poder de força dos conceitos de Uma história dos costumes. ticismo ecológico no Brasil. depois (orgs. 171-83. Comunidade. ROSZAK. Religioso por na- dicional. 1990. Rio de de tanto tempo de macrossociologia Janeiro: Livros Técnicos e Cientí- e estudos estruturais. De la division du da universidade ou do escritório. como NISBET.S. Esses breves exemplos sugerem ELIAS. Solidarieda- resgata cumplicidades de vizinhança de. punks. P. seja no imaginário coletivo. estaria crescen. The homeless mind. E. tureza: cultura alternativa e mis- munidade está na própria socieda. picos e errantes que fornecem abri. e mesmo o interesse pelas comunidades religiosas. 1974. do. a qual se preten- dia uniforme. Do ponto de vista dos estudos O breve século XX (1914 – 1991). Os estudos de co- o que eles nos falam da sociedade. talvez RACCHI. São do uma microssociologia para dar Paulo: Editora Nacional. R.). 186-7). EDUSP. H. (Duvignaud.. p. In ________. FOUCAULT. Graal. Paris: Presses Univer- Laços de afetividade e de prazer re.. a força da imagem da co. Valeria a pena ficos. LLNER. mão de planejadores sociais. seja na Janeiro: Jorge Zahar. Sociologia e Sociedade. 1995. de outro modo. 1997. objetos como grupos São Paulo: Companhia das Letras. Em ambos. MARTINS.M. DURKHEIM. p. Petró- Enfim. como aposta ou como ameaça. acadêmicos. do esporte. alternativos. social: introdução às suas técnicas. New York: Vintage Books. KE- se verifica desde meados dos anos 80. bem como DUVIGNAUD. O. Rio de comunidade e sociedade.. In: de. os limites da ordem estabelecida e impulsiona utopias redentoras. da fábrica. T. N. SOARES. para desvendar NOGUEIRA. Rio de Janeiro: Relume-Duma- Já em tempos neoliberais. BERGER. O rigor da indiscipli- . o mo. munidade. E. 1995. conta de solidariedades inesperadas 1968. da música. B. HOBSBAWN. se por trás da imagem da polis: Vozes. inventariar os estudos de comuni- dade mais recentes. 1960. na modernidade. go para uma vida social mais viva e intensa. 1984. o par conceitual desvenda der. E. _________. Era dos extremos. A contracultura. únem indivíduos em torno da dan- ça. 1972. Laços de Esta- e da aldeia. 1994. sociedade estava o exorcismo da comunidade arcaica. queiram dizer alguma coisa. vimento de dessindicalização. O processo civilizador. Microfísica do po- contudo. medieval e tra. abriu espaço para grupos microscó. Modernization and consciouness. rá. Rio de Janeiro. J. Laços de sangue. Lisboa: Instituto Piaget. Pesquisa Ou. que BERGER. In FO- as CEBs ou os Carismáticos. travail social.Comunidade e sociedade: conceito e utopia 53 Referências bibliográficas na. M. minorias étnicas. isolados. Jean. S. M. sitaires de France.