PODER JUDICIÁRIO ||| JUSTIÇA DO TRABALHO

TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO DA 2ª REGIÃO
2ª Vara do Trabalho de Franco da Rocha ||| RTOrd 1000817-72.2017.5.02.0292
RECLAMANTE: FRANCIUVANIA MARIA ALVES
RECLAMADO: MINI MERCADO NOVO MODELO LTDA

TERMO DE AUDIÊNCIA

PROCESSO Nº 1000817-72.2017.5.02.0292

Aos dezessete dias do mês de agosto do ano de dois mil e dezessete, às 15h40, na sala de audiências desta
Vara, foram, por ordem da MM. Juíza do Trabalho, Dra. CLÁUDIA ZERATI, apregoados os litigantes:

FRANCIUVANIA MARIA ALVES, reclamante.

MINI MERCADO NOVO MODELO LTDA, reclamada.

Ausentes as partes.

Conciliação prejudicada.

Submetido o processo a julgamento, foi proferida a seguinte

SENTENÇA

FRANCIUVANIA MARIA ALVES ajuizou ação trabalhista contra MINI MERCADO NOVO MODELO
LTDA, ambas qualificadas nos autos, alegando que foi admitida pela reclamada em 03/05/2010 e
dispensada sem justa causa em 20/01/2017. Exercia a como última, a função de promotora. Postulou o
reconhecimento de direitos e o pagamento das verbas elencadas no rol de pedidos. Deu à causa o valor de
R$ 57.412,58.

A reclamada ofertou defesa escrita, arguindo a prescrição e refutando as alegações deduzidas na inicial.
Pugnou pela improcedência dos pedidos.

Foram juntados documentos.

Em audiência, foi produzida prova testemunhal.

A instrução processual foi encerrada com a concordância das partes.

Razões finais escritas pela reclamante.

Inconciliados.

É o relatório.

DECIDO

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DO MÉRITO

DA PRESCRIÇÃO

A prescrição quinquenal, oportunamente arguida pela reclamada, é acolhida, nos termos do art. 7º inciso
XXIX da Constituição Federal de 1.988, encontrando-se prescrito o direito de ação em relação às parcelas
anteriores a 30/06/2012, inclusive quanto ao FGTS. Vale explicitar que a decisão recente do plenário do
STF no julgamento do recurso extraordinário com agravo (ARE nº 70912) em nada altera o entendimento
deste Juízo, que sempre aplicou a prescrição quinquenal para o FGTS, em respeito às regras
constitucionais.

DA ESTABILIDADE

Argumentou a demandante que a sua dispensa foi irregular, uma vez que sofre de neoplasia benigna das
meninges espinhais" (CID 10 - D32.1), doença que o impede a realização de qualquer tipo de trabalho que
envolva esforço físico. Pleiteou a nulidade da dispensa com a reintegração ao labor.

A reclamada alegou que a reclamante estava plenamente apta, tendo sido assim considerada pelo INSS e
pelo médico do trabalho. Ademais, relatou que a doença não guarda qualquer relação com a atividade
exercida na empresa. Defendeu a validade da dispensa.

Consta da Constituição Federal de 1.988, como direito assegurado a todos os cidadãos, que ninguém é
obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de lei (art. 5º, inciso II). Infere-se,
ainda, da Carta Magna que, enquanto não for promulgada a lei complementar prevista pelo art. 7º, inciso
I, é direito potestativo do empregador rescindir o contrato de trabalho, salvo quando houver previsão legal
de estabilidade.

No Direito positivo pátrio somente são previstas garantias de emprego por doença profissional no art. 118
da Lei 8.213/91 e nas Convenções Coletivas de Trabalho de algumas das categorias profissionais.

No caso em tela, pelo próprio relato da petição inicial se verifica que a doença não tem relação com o
trabalho. Além disso, a reclamante não alegou ou provou existir norma convencional prevendo o direito
vindicado. Não houve alegação, outrossim, de ter o reclamante percebido o auxílio-doença acidentário,
que é o único requisito objetivo exigido pelo art. 118 da Lei 8.213/91 para o implemento do direito. O
afastamento anterior pelo INSS, com alta em fevereiro de 2014, se deu por auxílio doença comum
(espécie: 31).

Desta forma, por não preenchidos os requisitos legais para tanto, não há que se falar em estabilidade, e,
por conseguinte improcedem os pedidos de reintegração ao emprego e indenização de salários.

Portanto, totalmente desnecessária a realização de perícia médica no caso em epígrafe, como bem
asseverado em audiência pela decisão que indeferiu o pedido, não havendo qualquer cerceamento de
defesa ou nulidade a ser consideradas na presente.

DO PENSIONAMENTO

Pleiteou a reclamante o arbitramento de pensão indenização mensal devido a clara redução da capacidade
laboral, considerando a perda total de visão do olho esquerdo.

Verificou-se no presente caso, pelo próprio relato da petição inicial, que a doença explicitada não guarda
relação com a atividade exercida na reclamada, o que por si só afasta o direito de indenização em relação
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ao empregador, inclusive a indenização por danos materiais consistente em pensionamento.

Mas, ainda, vale ressaltar que para o deferimento do pedido de pensionamento é preciso que se demonstre
também a dificuldade na recolocação no mercado de trabalho, já que o artigo 950 do Código Civil diz que
a pensão deverá corresponder à importância do trabalho que a incapacidade o inabilitou ou da depreciação
que ele sofreu.

Restou devidamente comprovado pela alta do INSS desde fevereiro de 2014, a continuação da atividade
laboral até a dispensa em 20/01/2017 e o exame demissional que a reclamante está apta a se recolocar no
mercado de trabalho.

Portanto, julgo improcedente o pedido de arbitramento de pensão indenização mensal.

DAS HORAS EXTRAS

Alegou a reclamante que laborava das 7h as 20h de segunda-feira a sábado, inclusive feriados e aos
domingos das 7h às 16h, realizando intervalo de duas horaspara refeição. A partir de fevereiro de 2013,
trabalhava de segunda-feira a sábado das 12h às 22h30, inclusive aos feriados e aos domingos das 7h às
16h com intervalo de duas horas para refeição. A partir de agosto de 2015 até a dispensa, a jornada era de
segunda a domingo das 9h até as 17h20, inclusive feriados, com intervalo de uma hora para
refeição/descanso e jornada de sete dias com um dia de descanso, sendo que a partir de dezembro de 2015
passou a folgar aos domingos. Pleiteou o pagamento de horas extras e integrações.

A reclamada alegou que o reclamante laborava em diversos horários elencados em defesa, com duas ou
uma hora de intervalo e uma folga semanal. Afirmou que havia controle de horário regular e assinado, por
meio de cartão magnético, e as eventuais horas extras eram regularmente quitadas.

A reclamante confessou em audiência a regularidade dos controles de ponto, afirmando que registrava
corretamente os horários de entrada, saída e intervalo através de crachá magnético; que no final do mês
assinava um espelho de ponto e nele verificava que as horas estavam corretamente registradas.

Desta feita, fixo a jornada laboral de acordo com tais cartões de ponto, anexados pela reclamada, tanto em
relação à jornada como quanto aos dias laborados e intervalos.

Pela análise perfunctória dos controles em cotejo com os recibos de pagamento, não verifiquei a anotação
de horas extras sem o competente pagamento. Por outro lado, cabia ao reclamante apontar eventuais
diferenças de horas extras, ônus do qual não se desincumbiu satisfatoriamente, nos termos do artigo 818
da CLT c/c 373 inc. I do CPC. Nada há nas suas razões finais nesse sentido.

Destarte, improcede o pleito em relação à jornada como quanto aos dias laborados e intervalos.

Procede, no entanto, o pedido de horas extras pela supressão no intervalo de 15 minutos relativos ao art.
384 da CLT, a serem apuradas em liquidação de sentença, considerando-se a jornada constante dos
cartões de ponto anexados. As horas extras deverão ser acrescidas do adicional convencional de 60%,
com integrações em: dsr's férias e abono constitucional, décimo terceiro salário, aviso prévio, depósitos
fundiários e multa de 40%.

Improcede o pedido de pagamento dos domingos e feriados trabalhados de forma dobrada, uma vez que a
demandante não logrou êxito em comprovar o labor nesses dias, sem a folga compensatória ou o
pagamento de horas extras com adicional de 100%. O fato de o reclamante não gozar de folgas sempre
aos domingos não gera o pagamento vindicado, mas somente sanção administrativa.

DO ADICIONAL NOTURNO

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O pedido de adicional noturno improcede. A reclamada por meio dos contracheques juntados comprova o
pagamento da referida verba e da hora noturna reduzida. A reclamante, por seu turno, não logrou êxito em
demonstrar as diferenças alegadas, encargo probatório que lhe competia.

Desse modo, conclui-se pelo correto pagamento do adicional noturno, bem assim da correta aplicação do
redutor à vista dos demonstrativos de pagamento anexados, não impugnados de forma específica pelo
reclamante.

DOS DESCONTOS INDEVIDOS

Alegou a reclamante que sofria descontos indevidos referentes a contribuição confederativa e assistencial,
sem a autorização da reclamante. Pugnou pelo reembolso desses valores.

No nosso ordenamento jurídico o trabalhador apenas é obrigado a pagar as contribuições de que tratam o
art. 580 e 582 da CLT, quais sejam: contribuições sindicais. Para as demais, como a confederativa e a
assistencial, é imperiosa a expressa concordância do empregado, concordância, esta não demonstrada no
presente caso.

Cláusulas de Convenção Coletiva em sentido contrário ferem o direito de livre associação e
sindicalização, constitucionalmente assegurado. Nesse sentido o Precedente Normativo 119 da SDC do
TST.

Assim, deverá a reclamada restituir os valores descontados a título de contribuição confederativa e
contribuição assistencial.

DOS DANOS MORAIS

A reclamante alegou que sofreu dano moral, uma vez que sofreu atentado a sua honra e dignidade devido
a jornada de trabalho excessiva.

O dano moral caracteriza-se pela lesão da personalidade, grave atentado à honra, à dignidade e à imagem
da pessoa. Traz em sua configuração o sentimento de repudio e aversão ao fato descrito. Trata-se de
situação que expõe o ofendido a vexames ou constrangimentos juridicamente relevantes.

A reparação de danos morais exige a presença concomitante de três elementos: conduta ilícita, nexo de
causalidade e dano. No presente caso, não estão comprovados nenhum dos requisitos.

A conduta ilícita não ficou demonstrada. O fato de serem praticadas horas extras não causa dano moral
indenizável. Tampouco ficou demonstrado o nexo causal, que é o liame entre a conduta ilícita e os danos
efetivos. Sem a conduta, impossível a ocorrência do nexo de causalidade.

Por fim, vale frisar que a proliferação de pedidos de indenização por dano moral acaba por banalizar esse
importante instituto, erigido à ordem de garantia constitucional, devendo o Poder Judiciário repudiar
pleitos infundados.

Portanto, improcede o pedido de indenização por danos morais.

Improcede, também, o pedido de arbitramento de indenização por dano existencial (sic), uma vez ausente
qualquer fundamento doutrinário ou jurisprudencial para o pleito.

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MULTA NORMATIVA

Afasto o pleito de aplicação de multa normativa, uma vez que não caracterizadas as infrações aos termos
previstos nas CCTs anexadas aos autos.

DA COMPENSAÇÃO

Não foram comprovados pagamentos de verbas sob os mesmos títulos das ora deferidas. Rejeito o
requerimento da reclamada.

DOS OFÍCIOS

Por não constatadas irregularidades que justificassem a expedição dos ofícios requeridos, improcede o
pedido.

DA JUSTIÇA GRATUITA

Defiro ao reclamante os benefícios da justiça gratuita requeridos, para os fins previstos pelo art. 790 § 3o
da CLT.

HONORÁRIOS ADVOCATÍCIOS E PERDAS E DANOS

Honorários advocatícios são indevidos, uma vez não preenchidos os pressupostos da Lei 5584/70, que
regula a sucumbência no processo do trabalho. Lei própria e especial afasta a aplicação de norma de
direito comum (art. 769 da CLT), não tendo a CF/88 retirado a capacidade postulatória das partes nesta
Justiça Especializada.

No que tange a indenização prevista no artigo 389 e 404 do Código Civil, o pedido também não pode
prosperar pelos mesmos motivos acima expostos, ressalvando que a reclamante não pode transferir para a
parte contrária o ônus de ter contratado advogado particular, a despeito de ainda viger na Justiça do
Trabalho o jus postulandi.

PELO EXPOSTO, nos termos e limites da fundamentação supra, resolvo o mérito, pronunciando a
prescrição do direito de ação do reclamante, em relação às parcelas anteriores a 30/06/2012 e julgo
PARCIALMENTE PROCEDENTES os pedidos, para condenar MINI MERCADO NOVO MODELO
LTDA a pagar a FRANCIUVANIA MARIA ALVES:

- horas extras pela supressão no intervalo de 15 minutos relativos ao art. 384 da CLT, a serem apuradas
em liquidação de sentença, considerando-se a jornada constante dos cartões de ponto anexados. As horas
extras deverão ser acrescidas do adicional convencional de 60%, com integrações em: dsr's férias e abono
constitucional, décimo terceiro salário, aviso prévio, depósitos fundiários e multa de 40%.
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- restituição dos valores descontados a título de contribuição confederativa e contribuição assistencial.

As verbas deferidas serão apuradas em liquidação de sentença e serão acrescidas de juros simples, a partir
da data do ajuizamento da ação, e de correção monetária, na forma prevista pela Súmula 381 do C. TST.

A reclamada deverá comprovar nos autos os recolhimentos previdenciários e fiscais decorrentes desta
sentença, autorizada a retenção dos valores devidos pelo reclamante, na forma prevista pela Súmula 368
do C. TST, observando-se a Instrução Normativa RFB nº 1127 e a Orientação Jurisprudencial nº 400 do
SDI-I do TST. A contribuição previdenciária incidirá sobre as verbas deferidas, à exceção das pertinentes
ao aviso prévio indenizado, restituição dos valores descontados a título de contribuição confederativa e
contribuição assistencial e ao FGTS + 40%, uma vez que não integram o salário de contribuição. Caso a
reclamada comprove no curso da liquidação ser optante do sistema Simples Nacional, nos termos da Lei
Complementar nº 147 de 7/8/2014 e da Resolução CGSN nº 115, de 4/09/2014, aplicam-se as regras
atinentes a tal sistema, observados os requisitos e óbices da legislação específica que rege a matéria.

Custas pela reclamada no importe de R$ 60,00, calculadas sobre o valor ora arbitrado à condenação de R$
3.000,00.

Cientes na forma da Súmula 197 do C. TST.

Nada Mais.

CLÁUDIA ZERATI

JUÍZA TITULAR DO TRABALHO

FRANCO DA ROCHA,14 de Agosto de 2017

CLAUDIA ZERATI
Juiz(a) do Trabalho Titular

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