Fonte: PONZIO, Augusto. Identità e mercato del lavoro.

Due dispositivi di una stessa trappola
mortale. In: ______(Cura). Globalizzazione ed infunzionalità. Athanor. Anno XIX, n. 12,
2008-2009. p.5-20.

Tradução para o português de Mary Elizabeth Cerutti-Rizzatti e Giorgia Brazzarola publicada
em: MIOTELLO, Valdemir; MOURA, Maria Isabel de. (Org.) A alteridade como lugar de
incompletude. São Carlos/SP: Pedro & João Editores, 2014. p. 49-94

IDENTIDADE E MERCADO DE TRABALHO: DOIS DISPOSITIVOS DE UMA
MESMA ARMADILHA MORTAL

Augusto Ponzio

Comunitário/extracomunitário

Há uma relação muito estreita entre identidade, seja individual ou coletiva, e
trabalho indiferente, trabalho quantificado, contado em horas, o trabalho-mercadoria.
Não só porque, no que se refere à identidade individual (que, no fundo, é sempre
coletiva, requerendo pertencimento a um igual), o trabalho resulta a condição para tal
(falta ou perda de trabalho como falta ou perda de identidade); não somente porque a
comunidade é uma comunidade de trabalho (de modo que, como acontecia na
Alemanha nazista para o hebreu [v. o filme de Spielberg Shindler’s List], ainda hoje o
certificado de trabalho permite também ao “não pertencente” – o extracomunitário – ser
ainda aceito1). Mas também porque todas as diferenças-indiferentes sobre as quais se
baseiam as identidades individuais ou coletivas pressupõem a forma social
caracterizada pelo mercado de trabalho.
A identidade impõe a oposição e, como tal, é já arrolamento, recrutamento,
chamada às armas, é já constrição ao conflito, constrição à guerra.
Hoje o mercado de trabalho, em razão da automação, está acabando. Aquele
que resta tenta mover-se das áreas de “desenvolvimento” para as áreas de
“subdesenvolvimento”, onde o capital encontra força de trabalho a baixo custo. Mas

1
N.T.: Alusão do autor à permissão de permanência de estrangeiros (não pertencentes à
Comunidade Europeia) em países europeus, como a Itália, emitida a partir da exigência
de rigorosa comprovação de ocupação profissional.

isso incrementa a desocupação no “desenvolvimento” e, ao mesmo tempo, não cessa o
ingovernável e desenfreado fenômeno da migração devido à invisibilidade no
“subdesenvolvimento” produzida pelo “desenvolvimento”.
Cada identidade comunitária tem o seu próprio extracomunitário do qual
defender-se, e ele é o outro, diferente de qualquer outro que faz parte da comunidade.
Diferente não apenas de qualquer outro igual da comunidade, mas também de qualquer
outro diferente e oposto ao interior da comunidade.
Isso vale também para aquela identidade comunitária que designa cada um de
nós, vale dizer a comunidade dos vários eus de que cada um de nós se constitui, como
um conjunto de funções, de posições e de elos sociais, entre os quais subsistem,
dependendo dos casos, relações de coerência, de coexistência pacífica, relações
hierárquicas, conflituosas, etc. De todo modo, trata-se ainda de relações que pertencem
à mesma função do eu, através da qual o outro se apresenta como um dos iguais, outro
apenas em sentido relativo, isto é, a respeito de um eu como seu “alter ego”.
Porém, paralelamente a essa comunidade de eus, de sujeitos, dos quais é feita a
nossa identidade, irredutível a ela e, todavia, o seu fundamento, como o si da
consciência de si, há a alteridade outra de cada um de nós em relação a nós mesmos,
uma alteridade antecedente às funções, às escolhas, à posição do eu, uma alteridade não
relativa, constituída de nosso próprio corpo. Mas não se trata de corpo individual, como
o percebemos no nosso imaginário de eus, de sujeitos, mas interpretado no seu real elo
intercorpóreo com o mundo e com os outros, subjacente e antecedente ao corpo
individual, cujo grau de “autonomia” e “autossuficiência”, de “liberdade”, de
“autopertencimento”, é relativo ao imaginário de formas sociais determinadas. A
refração do si em relação à subjetividade, em relação à consciência desse si, a sua
materialidade, a sua inassimilariedade na consciência de si por parte do sujeito, a sua
singularidade irredutível ao gênero e, portanto, à identidade do indivíduo que precisa do
gênero para constituir-se, comportam a presença de uma alteridade no próprio interior
da identidade egológica, mas diferente da alteridade relativa dos diferentes eus que
constituem aquela identidade comunitária que constitui cada um de nós: uma alteridade
absoluta (Lévinas), também essa extracomunitária.
Uma comunidade é feita de igualdades, mas também de diferenças e oposições
internas. A diferença, a diversidade, a oposição, melhor, neste caso, a discordância
(desprovida de unidade e de síntese) do extracomunitário é diferente daquela interna.
Ela não é relativa como aquela interna, mas absoluta: alteridade relativa do outro da
mesma comunidade e alteridade absoluta do extracomunitário.

do temor por ele. sempre mais capilarmente definida pela precisão legislativa. e. definida. em que a não-indiferença é neutralizada pelos álibis da responsabilidade. mas ponto de chegada da constituição da identidade. Paralelamente. que se submetem ao social como necessidade devida à realização do interesse individual delas mesmas e nas quais a preocupação com a própria identidade e com a própria diferença. E quanto mais o que nos interessa é reduzido ao interesse pela identidade. com suas responsabilidades sempre mais delimitadas. sobre relações entre singularidades fora de qualquer gênero e sem álibi. mas a não-indiferença (Lévinas). mas também precisa da indiferença para com o outro. em uma relação em que a diferença não tem como consequência a indiferença. mas também sem identificação comunitária. ao invés. Da não indiferença pelo outro à diferença e à relativa indiferença: esse é o percurso através do qual a identidade se constitui. medo por ele. Na história do Ocidente. de uma responsabilidade determinada. Para realizar-se. a análise lógica nos faz distinguir um genitivo sujeito. o qual a lógica deveria levar em conta como terceiro sentido em que se pode desambiguar a expressão “sentir o medo do outro”. do gênero que a define. da indiferença. A lógica do capitalismo é a lógica da identidade. A relação social é a relação de individualidades reciprocamente indiferentes. temor por ele. Aqui. o “homo homini lupus”. Para captar. Este “do outro” é um tipo de genitivo ético. redução justificada pela limitação da responsabilidade e da extensão dos álibis. portanto. Hoje. levando-a à exasperação. de Hobbes. sem mais distinções entre sujeito e objeto. o outro sentido. aquele do medo pelo outro. entendendo “do outro” como genitivo objetivo: o outro é objeto de medo. a diferença e a inerente indiferença sobre a não indiferença. portanto. teme-se o outro. do desinteresse para com ele. a identidade precisa da diferença. as relações entre indivíduos no interior de seus gêneros. no sentido de que é o outro o sujeito do medo. “medo do outro” vale no sentido de medo que se tem dele. Sujeito e objeto. e mais aumenta o medo do outro. Paroxismo que não é ponto de partida. O capitalismo construiu o próprio sistema sobre a identidade. que comece e termine no gênero que garante a identidade. uma responsabilidade de gênero. tanto mais nos liberamos do medo pelo outro. o medo do outro como medo que se tem dele chegou ao paroxismo porque a defesa da identidade tornou-se exasperada. tem sempre prevalecido a identidade sobre a alteridade. devemos sair desta dicotomia. de não ter que ter medo. desta polarização em que a lógica permanece aplanada: ter medo do outro como ter o seu medo. da diferença. é o outro a temer. indiferente às . levando ao paroxismo o medo do outro como objeto e delimitando e amortecendo sempre mais o medo pelo outro. circunscrita.

A comunidade é a resultante passiva dos interesses de identidades reciprocamente indiferentes e se apresenta ela mesma como identidade até quando tais interesses requerem dela coesão e unificação. “Comunidade”. Hoje a comunidade que o capitalismo. 1887) obteve muito sucesso (foi reeditado na Alemanha nazista em 1935). Comporta um “nós” contraposto a “os outros”. a tradição. que. atribuições. de uma mesma pessoa. implica laços fortes e indissolúveis. conforme a amplitude do conjunto a ser delimitado e que serve para assegurar a identidade). como seu modo “normal” de ser. o filósofo alemão Ferdinand Tönnies (1855-1936). como mencionei anteriormente. comunidade de trabalho. a religião: a comunidade apela para esses fatores (valendo-se ora de um. o termo Gesellschaft. Comunidade indica a existência de algo em comum. a comunidade dos eus em que consiste a identidade de cada um de nós. tanto que se estabeleceu a dicotomia comunitário/extracomunitário. o solo. da recíproca separação e indiferença entre papéis. responsabilidades no interior de um mesmo sujeito. Comunidade de quê? De sangue certamente. a língua. Na Alemanha nazista. ao invés. com sua lógica de identidade. Ele distinguia entre sociedade como alguma coisa de mecânico e de casual. – vai assumindo sempre mais conotações racistas. cujo livro Gemeinschaft und Gesellshaft (Comunidade e sociedade. Com relação à Europa unificada. como resulta da divisão entre comportamento público e comportamento privado no mesmo indivíduo. que. comunidade do trabalho. linguagens. sociedade. foi substituído por Gemeinschaft. Deve ser lembrado. produziu é colocada em discussão. A relação diferença-indiferença própria do macrocosmo da coletividade se encontra no microcosmo da identidade individual. de qualquer . ora de outro. não tanto pelo conflito de interesses diferentes das identidades de que é resultante. a cultura. conceito extremamente funcional em relação ao de “identidade”. Por mais exacerbados e violentos que possam se revelar tais conflitos. e a comunidade. mas também comunidade de trabalho. eles fazem ainda parte da própria lógica do capitalismo e são. A comunidade egológica.diferenças dos outros. competências. incrementa sempre mais o medo que se tem do outro. em relação ao fenômeno irrefreável da migração – nesta forma de produção em que o desenvolvimento e o bem-estar se realizam sobre a base do subdesenvolvimento e do mal-estar. o sangue. a cor da pele. Esse algo em comum que assegura o pertencimento a um “nós” pode ser a história. comunidade. apresenta o mesmo tipo de sociabilidade fundado sobre a recíproca indiferença. de acordo com seu pertencimento social. aqui. se tem falado e se fala em termos de comunidade.

. A comunidade que o capitalismo é capaz de produzir. com o pedido de entrada das migrações. econômica e cultural. a tradução para empregador impede a manutenção dessa reiteração. criada em Trani. excluída. é posta maximamente em discussão pela alteridade extracomunitária. submetidos a uma condição de extrema pobreza social. reduz sempre mais a possibilidade de haver álibi. Religião. nas quais a nossa própria alteridade.T. da responsabilidade delimitada. e comprometida com o reconhecimento e respeito dos/aos direitos fundamentais e invioláveis negados aos mais vulneráveis. o trabalho- mercadoria. História.php/sample-page-2/. coletivas ou individuais. dada a sua lógica da identidade. com respeito às nossas comunidades de pertencimento.it/blog/index. O que efetivamente se requer é a superação do social como lugar da recíproca indiferença e do encontro e colisão de interesses privados. da indiferença sobre a qual a identidade construiu a diferença. mantendo a ideia de lavoro (trabalho) ao longo das expressões pospostas em sequência. de tipo fisiológico e também funcional a ele. datore di lavoro. 2 N. aquilo que automaticamente entendemos por trabalho em expressões como “mercado de trabalho”. Uma resposta efetivamente respondente. dos álibis. por exemplo. através da extrema ratio da guerra. (http://oasi2.maneira. Partido. nota no título). Uma resposta não evasiva pode vir apenas da nossa própria alteridade. Não apenas trabalho “Não apenas trabalho” é o título extra-ordinário de um seminário promovido em Trani pela Oasi22 (v. o “trabalho” na forma social capitalista. sejam elas amplas ou restritas. Etnia. empregador 3 . orientadas pelo sentido da própria e contínua destotalização. em 1986. do nosso próprio ser outro em relação a essa lógica e em relação a nossa comunidade. comunidades não identitárias.: A Comunidade Oasi2 São Francisco é uma ONG. A resposta pode somente consistir na abertura de cada espaço comunitário ao extracomunitário.) 3 No original. da boa consciência. é segregada. Trata-se do trabalho na acepção comum. na construção de comunidades estruturalmente extracomunitárias. que. a comunidade da diferença-indiferença. responsiva. Região. a comunidade de Raça. Nação. Acesso em agosto de 2013. ela mesma produto e mercadoria do sistema capitalista. mas não aniquilada. de indivíduos. Indivíduo. da negação da não-in- diferença. responsável pode vir somente da nossa própria situação de extracomunitários para com nós mesmos. solucionáveis.

o “datore di lavoro”. Percebe-se que. “Estou aqui. encontro um trabalho e sou livre. faço os créditos das disciplinas. “o recurso humano”.“procura-se por trabalho”. tangível e de importância decisiva. que hoje . O mercado de trabalho é tido como algo tão real. Quem de vocês não concorda? Quem não aceitaria esta afirmação? Quem é contrário? Quem se abstém?” A afirmação é aprovada por unanimidade. deixando de lado e “corretamente” recusando-se eles mesmos a aprenderem tudo aquilo que “não é útil para o mercado de trabalho”. que toda a formação se organiza. e o emprego deles em função do “investimento imaterial” e do lucro. obtém sucesso seguro na campanha eleitoral. “certificado de trabalho”. “força de trabalho imaterial”. mas também pre-ocupa. Falaram alto e claramente aqueles que fazem parte da Comissão Européia. reconhecido “recurso fundamental”. Toda a vida se organiza em função da capacidade de vender o próprio trabalho. se “entra em política” e promete a coisa certamente mais frutífera de consenso e de votos. realidade segundo a qual é preciso encontrar trabalho para se inserir “neste mundo”. em função do mercado de trabalho. e é de domínio público. os jovens na universidade sabem disto: devem adestrar- se para o “mercado de trabalho”. “O trabalho liberta”: assim estava escrito no ingresso do campo de extermínio de Dachau. e sempre de uma forma mais direcionada. entra na universidade. potencial recurso imaterial. sem “distrações” e “perdas de tempo”. com seus livros brancos e verdes.” Quem estuda. prepara-se para o trabalho “imaterial”. estudo. o incremento das “vagas para trabalhadores”. aquela da “comunicação global” ou “comunicação-produção”. porque estão convencidos de que “o trabalho liberta”. gradua-se. especializa-se. exatamente o que se quer mais hoje em dia: investimento e lucro com o “trabalho imaterial”. o mercado de trabalho. para pessoas com os pés no chão e sem utopias. é organizada toda a formação – sempre de modo focado e sem “distrações” e “perdas de tempo” durante o percurso – a preparação dos jovens. que antes se chamavam “patrão” (Angelo Bottai. o “datore di lavoro”. na revista “Critica Fascista”. atribuía a ele também essa substituição terminológica). Faço frequentemente este experimento em sala de aula: “‘O trabalho liberta’. como requer a projeção atinente à reorganização atual do trabalho da fase hodierna de produção capitalista. com base nos resultados de um levantamento realizado sobre a contribuição do fascismo para a inovação linguística. visto que é ele próprio quem promete. isto é. A respeito dessa realidade. este paraíso para leigos e realistas. O trabalho ocupa. Hoje.

de criar. é conservado em uma teca. Sebeok] que não é útil. à necessidade – a menos que esteja obrigado a isso. o trabalho no sentido de inventar. de mudar. Bem. do estudo como “recurso imaterial” (quantificável e computável em horas). Identidade e mercado de trabalho: duas “abstrações reais”. Material seria simplesmente aquilo que é físico. em um . capaz de inovação. o alimento. o motivo pelo qual. e também neste caso é difícil que não tente algum tipo de “evasão”) –. mas é aquele do trabalho imaterial – imaginem que “fixação material” e “fiscal” têm essas pessoas para falar da inventividade. aquilo que diz respeito ao trabalho físico. um detalhe inútil. Por meio do sistema universitário de cômputo de “créditos” do estudo e da sua formação. não se limita à sobrevivência. os estudantes se acostumam à quantificação em “horas-homem” também do “trabalho imaterial” e a sua equiparação em termos de retribuição. capaz do “jogo do fantasiar” [Charles S.o recurso determinante não é aquele do trabalho material. em qualquer parte do mundo. o que significa colocar em discussão a reivindicação totalizante da “identidade”. Não existe o mais pré-histórico vaso de terracota que não apresente alguma coisa de infuncional. dois dispositivos de uma mesma armadilha mortal! A expressão “o homem é um animal que trabalha” se for entendida no sentido de que o animal humano não come o cru. no sentido de que não se atém à mera satisfação das necessidades. transforma-o – não lhe interessa senão em situações inumanas de mera subsistência. da inteligência. da criatividade. elabora-o. ainda que a custo de “guerras preventivas”. mas como ocorre em qualquer obra humana. na realidade. o que o torna inutilizável. que. documento que declarava também a determinação dos Estados Unidos em defender tal condição e exportá-la. finalmente. mas o “prato” – equivale a “o homem é um animal infuncional”. de excedente a respeito da sua utilidade: um friso. Este outro. se compreendeu consistir na “condição de ser capaz de vender e de comprar”. E aspiram assim a poder logo vender a única coisa da qual – se o custo dos estudos permitir – podem dispor para participar da corrida para a liberdade. de imaginar. Thomas A. Pierce. “não apenas trabalho”. tudo isso é considerado imaterial. uma forma particular. aquele que é propriamente trabalho humano (inseparável. mesmo na ausência do fundo do vaso. apesar da divisão do trabalho imposta historicamente nas diversas formas sociais de produção). sendo o infuncional a marca do homem – também no mais primitivo vaso de terracota – como “animal semiótico”. que é. trabalho imaterial. como havia proclamado o documento da Casa Branca de setembro de 2002. também no sentido infuncional (como no caso da “obra” do artista.

supérfluo em relação à mera satisfação das necessidades. como humanidade derivada de humus. um humanismo da alteridade. no qual. não se referem à identidade do gênero que inclui todos nós. poderíamos distinguir entre o arrogar a si a qualificação de “humano” (parafraseando a frase de Orwell “somos todos iguais. como aquele de qualquer identidade. reivindicados com base no fato do pertencimento ao gênero humano. se “protege” e se “ajuda” (“ajudas humanitárias”). se isola o “diverso”. intervém-se com a guerra – “intervenção humanitária”. da liberdade e da democracia”. da mesma palavra da qual deriva humilitas. “humano” e “humanidade” não derivam de homo. A esse respeito. mas de Humus. uma coisa bem diferente do antropocentrismo – pertencimento que. igualdade. Emmanuel Lévinas escreveu um ensaio intitulado I diritti umani e i diritti altrui. como humilitas. pelo bem do outro. como os chamados direitos naturais. ao invés. em que humanitas não deriva de Homo (de fato não se diz “homanitas”. propriedade” (empregados para justificar um modo no qual a liberdade é confundida com egoísmo. e isso pelo simples motivo que. a identidade que deriva do pertencimento à espécie “homo”. guerras humanitárias. o modo prevalente de ser livre é a serventia. de recuperar a humanitas. que é uma coisa bem diferente do exaltar-se em razão do pertencimento de gênero. nosso similar. são os direitos da própria identidade. mas nós somos mais iguais do que os outros”. “Humanidade” é uma prerrogativa da espécie. é a marca do humano. e o direito à propriedade consiste em garanti-la para aqueles que a possuem). Intitulamos Umano troppo disumano o volume anterior da série “Athanor” (2007-2008). o modo prevalente de ser igual é uma desigualdade imposta do alto.museu. mas de humus. se interna o “anormal”. o trabalho inventivo. trata-se. Uma digressão sobre “humano” e “racional” Nesse sentido de “humano”. tem sempre um caráter . “para o seu bem”. “liberdade. mas nós somos mais humanos que os outros”). criativo. intervenções humanitárias. A infuncionalidade. “somos todos humanos. naturalmente adquirida e vantajosa. desde o título resulta que os direitos humanos não coincidem com os direitos dos outros. o “extracomunitário”. desde sempre. bombardeamentos humanitários sob a cobertura do humano quantos crimes são cometidos. mas “humanitas”). e em nome da qual. ao invés. como nós. de espécie. Hoje. “guerra humanitária” – para permitir que também o outro possa “gozar. portanto a “humanitas” e. reserva-se a ele um tratamento diferenciado. o gênero mais amplo com base no qual se faz valer (sempre contra alguém) a própria identidade.

nem mesmo a mais “primitiva”. como invenção. como algo mais. o trabalho como obra. destrutivo. é trabalho em geral. Quantos crimes em nome da razão! A expressão “ter razão do outro”.T: Mantivemos a página da edição em italiano mencionada no artigo. como transformação. . O excedente. o supérfluo. Também “racional” é uma prerrogativa adquirida pelo pertencimento à espécie homo. como supérfluo. caracteriza o humano. mencionamos anteriormente: “Arbeit mach frei”. a serviço da subjugação do outro. como superação da necessidade para além da utilidade. trabalho abstrato. produz para a mera subsistência. cumpra a sua transformação em animal racionável. Segunda digressão. de “animal racional”. “dar-lhe uma surra de santa razão”. 933 4 ) que o reino da liberdade se encontra além da esfera da produção material verdadeira e própria e começa apenas onde termina o trabalho determinado pela necessidade e pela finalidade externa. p. como mostram os danos da antropização do planeta e as chamadas guerras humanitárias.discriminador. rapidamente. é igualmente necessário. para satisfazer-se com o que pode ser comprado com dinheiro. mas também de grande parte da vida do planeta Terra. Nenhuma cultura. É necessário que o homem. para “ganhar para viver”. tanto que se torna mercadoria. De tal forma essencial para o indivíduo humano que o mercado faz dela uma mercadoria atraente para além da satisfação do “necessário” e da relativa possibilidade de saturação da necessidade de compra. onde há desenvolvimento das capacidades humanas com fim em si mesmo. e também essa tem um caráter discriminador. a menos que esteja constrita a tal. opositivo. evidenciam bem que a “razão” é sempre a razão da identidade. Dizia Marx (terceiro livro de Capitale. 4 N. sem ter de depender dos outros. A distorção desta verdade. meio de lucro e símbolo de status social é essencial para o indivíduo humano. para além da mera subsistência. e o uso de ratio (que significa também meio – “como todos os meios necessários”) em “extrema ratio” para justificar o recurso à guerra (“justa e necessária”) nos conflitos internacionais. sob pena de seu desaparecimento. Identidade e vagas de trabalho O trabalho como criatividade. o quanto antes. O trabalho que “liberta” é trabalho reduzido a simples meio para ganhar um salário. atraente para além do necessário.

outra solução otimal além de “vagas de trabalho para todos”. a propósito do Programa de Gotha (1875) – contra o qual interveio Marx protestando contra a afirmação que o trabalho é “a fonte de toda riqueza” – que a velha moral protestante do trabalho ressurgia de forma leiga entre os operários alemães. “não pode ser o escravo de outros homens que se tornaram proprietários das condições materiais do trabalho”. alienado é tal que até mesmo o projeto de formas sociais alternativas geralmente não tem conseguido imaginar outra fonte de riqueza social senão o trabalho como se configura na forma alienada. a comunidade. Antes. já mostra. combate o equívoco de uma reprogramação do social que continue a fazer. ma estesa a tutti gli uomini6” (p.marxists. diz Benjamin. criticando o “comunismo tosco e material” (e ante litteram. Marx. 6 N. 109) “non è altro che una comunità del lavoro e l’eguaglianza del salario. também o “socialismo real”) que suprime a propriedade privada generalizando-a e que opõe a propriedade privada à propriedade privada geral. a posse física estendida a todos. trabalho alienado. dalla comunità in veste di capitalista generale. de modo que “l’attività degli operari non viene soppresa.indiferente. ante factum. ainda. em relação ao qual uma coisa é o tempo de trabalho e outra coisa é a “vida” que um certo tipo de trabalho assegura ao sujeito. abstrato. da Critica al Programma di Gotha (1875). no texto conhecido come Tesi di filosofia della storia (1939-40: 214-2155). afirma Marx (p. observava. como na sociedade capitalista. il quale viene pagato dal capitale comune.htm . já no manuscrito de 1844.” http://www.T. do trabalho em geral a fonte da riqueza. traços tecnocráticos que apareceriam mais tarde no fascismo. Marx observava que o homem que não possui outra propriedade além da força-trabalho. mas ampliado a todos os homens. 108).: Mantivemos a referência da obra em italiano. Para tal comunismo “tosco e vulgar”. Entrambi i termini del rapporto vengono elevati ad una universalità rappresentata: il lavoro in quanto è la determinazione in cui ciascuno è 5 N.T. A relevância do trabalho indiferente. A ideia de que no incremento do trabalho consista a riqueza social e que no objetivo de que todos tenhamos uma vaga de trabalho consista o projeto de uma nova forma social segundo o conceito de trabalho próprio do marxismo vulgar. Walter Benjamin. que foi intitulado Proprietà privata e comunismo. mercadoria no “mercado de trabalho”.: “O papel do trabalhador não é abolido.org/portugues/marx/index.

htm . http://www. Gemeinschaft und Gesellschaft.posto. objetivo necessário da produção capitalista. ao recurso para o lucro – irredutibilidade que os dois fenômenos incontroláveis neste sistema e que congestionam o circuito das comunicações globais. a migração e a desocupação estrutural. “A universidade deve ser funcional para o 7 N.org/portugues/marx/index. À forma social em que a riqueza social consiste em tempo de trabalho sucede uma forma social fundada no trabalho incalculável.”.marxists. como menciona Arcangelo Leone De Castris em ensaio recente (2008). e na qual a riqueza social seja medida pelo tempo disponível – disponível para a própria alteridade e de outrem. nos lugares comuns do discurso – a esse propósito é importante lembrar a tese de Marx. singular. que infecta e envenena agora em nível global. Ao internacionalismo do trabalho sucede um outro internacionalismo: aquele da irredutibilidade de qualquer um à força do trabalho. em condições de desenvolvimento da plena riqueza dos indivíduos e de toda a sociedade. Marx preconizava nos Grundisse (1957-58) a transformação.”. colocam sob os nossos olhos. pela comunidade como capitalista universal. il capitale in quanto è la generalità riconosciuta e la potenza riconosciuta della comunità”7. resulta o tempo disponível e não o tempo de trabalho como verdadeira riqueza social. da redução do tempo de trabalho. de que as ideias dominantes são as ideias da classe dominante –. riqueza que consiste no tempo disponível para si e para o outro. Na acepção atual. o trabalho é identificado com o trabalho-mercadoria. Gesellschaft. muitas vezes esquecida pelos marxistas. na crise do capitalismo. De modo que. foi suplantado por Gemeinschaft. no poder dar tempo (o que consiste efetivamente na escuta) ao outro de si mesmo e ao outro do outro dele mesmo. “Procuro trabalho. ele dizia. por meio da automação. sociedade. Os dois aspectos da relação são elevados a uma suposta universalidade. por meio do desenvolvimento tecnológico. A questão hoje. mencionado anteriormente). um capitalismo doentio. comunidade. uma comunidade de trabalho. fechada (v.T: “A comunidade é só uma comunidade de trabalho e de igualdade de salários pagos pelo capital comunal. é aquela de uma forma de sociabilidade não baseada na compra- venda do trabalho. o trabalho como uma situação em que todos são colocados. identitária. No léxico da Alemanha nazista. o “clássico” livro di Tönnies. seja ele material ou imaterial. aberta à alteridade e livre da obsessão da identidade. e o capital como a universalidade e poder admitidos na comunidade. único para cada um. “mercado de trabalho”. o trabalho que se vende e que se compra: “Estou sem trabalho.

É o centro histórico que geralmente identifica uma cidade: a tal igreja antiga. sob o título “Esaltazione e crisi dell’identità8”. . a funcionalização da formação universitária cada vez mais para o chamado “mercado de trabalho”: quanto mais esse mercado vai se reduzindo. homologado. como foi feito para referenciar os espaços todos iguais do “novo”. a reivindicação da identidade 8 N. lugares comuns de um discurso que agora se repete e se confirma em nível mundial.. Isso é afirmado nos escritos de Pasolini – a escrita consegue dizer o indizível –. isso se torna objetivo e parâmetro. Acontece: quanto mais uma coisa foge de suas mãos. Tudo o que é novo é igual. as casas. mas também de “gênero humano”. Assim é também com a identidade: quanto mais se perde a identidade – identidade de gênero (não somente no sentido de “gênero sexual”. Paroxismo da identidade. exaltação da identidade como consequência da crise de identidade. Tivemos em Bari neste ano [2009] uma série de seminários. identidade étnica. Quanto mais entra em crise a “própria” identidade. identidade de nação. agarrar-se ao passado e à memória. mais você persiste em relação a ela. identidade de cor – mais se persiste na afirmação da identidade (incluída a reafirmação do antropocentrismo. dos usos. reivindicação e afirmação exasperada da identidade. das tradições.. identidade de língua. Seria melhor defini-los lugares comuns. mas também para os lugares que habitamos. eis o ponto de apoio: o passado. são homologados. Então. realizados na livraria Palomar. É impróprio definir “não lugares”. por diversas causas estruturais à forma de produção contemporânea. agarra-se a qualquer coisa a fim de segurá-la. os escritórios. toda a parte nova de uma cidade. Os lugares do novo. das religiões. De que é feito o passado? Dos ritos. também na Itália. mais o sujeito se apega. particularmente em Petrolio (que é verdadeiramente um dos romances mais emblemáticos de nosso tempo). Isso vale não apenas para os aeroportos e as autoestradas. a tal fonte. – é o fenômeno disseminado da desocupação estrutural – e mais paradoxalmente. discussão na qual o sentido é que a crise da identidade produz a exaltação. diretamente proporcional a cada vez mais nociva antropização do planeta): o paroxismo da identidade. Então onde agarrar-se para encontrar a identidade? Certamente não ao novo. dada a cada vez maior sobreposição de humano e desumano). a tal praça antiga.: “Exaltação e crise da identidade”. para não deixá-la fugir. no que se refere aos espaços em que vivemos e circulamos. Então. dos costumes (vestuário incluído).mercado de trabalho”.T. Esta última fórmula comportou.

também para dizer “eu estava aqui antes”. “não é um poema da dissociação. propõe-se a representar. que mencionamos anteriormente. ao mesmo tempo. contrariamente all'apparenza. motivo convencional do romance. no que se refere à Itália. no início de sua obra. [. de uma obra literária? O recurso é o da dissociação. reivindicando pertencimento de território. Esse apego ao passado. O motivo mais verdadeiro. 181). Petrolio. continuamente registrada em cada momento. Obsessão da identidade e sua fragmentação O romance de Pasolini. fixando a própria identificação com o solo. tornando-o legível.] Al contrario. diz ele.” . velha: as raízes. este poema é um poema da obsessão pela identidade e. a tornar visível. tomado como uma regra narrativa que assegura a limitação e a legibilidade da obra. agora levada ao paroxismo a causa da perda da identidade. diz ele. já o motivo convencional da dissociação. e que hoje se apresenta em toda a sua extensão e sua espessura no termo globalização. e sabemos também quão mortal é a armadilha da identidade quando se vale desses argumentos. della sua frantumazione..T. “non è il poema della dissociazione.. é hoje mais que nunca um argumento muito válido no conflito entre identidades nacionais. sabemos. mais real da obsessão da identidade e da sua fragmentação encontra-se no âmbito do ilegível e do ilimitado. Esse arraigar-se ao passado. questo poema è il poema dell’ossessione dell’identità e. 181). As raízes estão ligadas ao passado.. “Questo poema” (p. pela sua fragmentação.”9 A obsessão da identidade e. da sua fragmentação: é esse ilegível que o romance deve eliciar.: “Este poema” (p. uma forma narrativa unitária a essa desordem? Como reaver a ilimitação e a ilegibilidade do fenômeno da obsessão da identidade e de sua fragmentação nos limites de um texto legível.apela para qualquer coisa rançosa. ao mesmo tempo.] Ao contrário. insieme. A obsessão da identidade e a sua fragmentação são desordem: como dar uma ordem narrativa. contrariamente à aparência [. tem muito peso no plano conflitual. Quem estava aqui antes? Quem chegou primeiro? Quem ocupou originariamente esta terra? Nós já estávamos aqui. étnicas. a “própria terra”.. justamente a obsessão da Identidade. em cada etapa de desenvolvimento desta nova fase da forma capitalista que Pasolini descreve. que é 9 N.

O “eu penso” é uma síntese. 2008) Ter cura e curar. mais está sujeito à possibilidade de cindir-se. de uma religião: o “Ocidente”. calar. cada vez que eu digo “eu”. e isso diz respeito tanto à individualidade de uma pessoa. parece que se trata apenas de um. Di Lernia. a respeito de uma língua. ou de um conjunto de pessoas dizemos que é aquele povo.. de “língua” (a minha língua. a obra literária se torna. quanto mais paroxismo da identidade. agudo filósofo. Mas não somente pelo outro. de uma cultura. ilegível. centra-se. pelo outro “em relação a mim”. antes ainda que “caia em pedaços” (v. fragmentar-se. Cada vez que eu digo “eu”. quanto mais esse eu enrijece. como certas palavras. também para retomar e esclarecer melhor algumas considerações feitas anteriormente. de “uma só peça”.também uma “homenagem à grande narrativa burguesa estabelecida por Cervantes”. apega-se a alguma identidade. quanto à individualidade de uma comunidade. presunção – é sua debilidade desde o início. A palavra “indivíduo” contém o significado de não divisível. isto é. De algo unitário.. também por aquele extracomunitário de mim mesmo. mais intolerância em relação ao outro. Quanto mais há crise. certos substantivos. o inglês. também o contrário: isto é. de “nação”. de outras diferenças. o “Cristianismo”. enquanto se dá como certa a legibilidade da realidade. certos . a língua materna – com o mesmo sentido de pertencimento. como quando. ou no caso de “nós”. mais paroxismo da identidade. afirma Pasolini. São recursos prontos e usados inconscientemente que. mas pelo outro de “mim mesmo”. de outros modos de ver as coisas. de unitário. por mais anômala que seja a obsessão da identidade e a fragmentação que essa realidade produz. reduzir ao silêncio. na prática. seja no caso de “eu”. de propriedade. aquela nação. Esse esforço de legibilidade daquilo que enquanto ilegível não se deixa capturar e permanece invisível faz com que se torne verdadeiro. A sua arrogância – jactância. fundando-se a ordem do romance no motivo da dissociação. encontra-se no legível e no limitado. Porém. como se estivéssemos dizendo a “casa materna”) realizam uma situação de homologação e também de subjugação. falava de “síntese” a propósito do “eu”. controlar. Mais ainda: todos aqueles extracomunitários “de mim mesmo” que eu procuro afastar. de apagamento nos confrontos de outras possibilidades. querer bem e querer o bem Aqui é oportuno recordar. fossiliza-se. alergia pelo outro. dizemos que é o italiano. seja quando falamos de “pátria”. Justamente Kant.

o anormal. um dirigir-se a ele. nesta fase de medicabilidade difusa e de farmacracia. uma coisa é sentir medo de alguém. em que. temer por ele. Uma coisa é curar alguém (o doente mental. indiretos. o desadaptado. uma coisa é querer o bem de alguém (“quero o teu bem”: parece que quem o diz deseja se apropriar do bem alheio. que nos casos oblíquos. ou de “genitivo subjetivo” se se entende que é aquele alguém a sentir medo). uma coisa é ouvir alguém no sentido de obedecer-lhe. na terminologia nosográfica. o abuso. no que se refere à cura dos “doentes mentais”. nos submetemos a alguma cura) e outra coisa é ter cuidado com alguém. funcional à lógica da identidade e da determinação do ser de alguma coisa ou de alguém – na verdade do sujeito se pode afirmar que é aquilo que indica o verbo na forma do particípio presente. na análise lógica chamamos de “caso indireto” ou “oblíquo”. e. mas também o “normal”: todos nós. Agora não se usam mais. É risível o fato de que a estatística informe que a depressão aumentou notavelmente.. a abertura ao outro. dessa palavra como chave-mestra. trata-se de fato. “esquizofrênico”. judicante.verbos carregam um duplo sentido quando são empregados nas relações entre sujeito e objeto (com base na dicotomia ativo-passivo. e do objeto. queremos evidenciar que. de controle. que o faz na forma do particípio passado: x cura y: x é quem cura e y é quem é curado) e quando. . muitas vezes. ou como quando dizemos ter cuidado com alguém. se se entende que se teme alguém. cuidar dele. na realidade apenas aumentou o uso. e outra é ouvir no sentido de colocar-se em escuta em relação a ele.. de fato. apofântica.: há somente. uma outra é sentir medo por alguém. na relação sujeito-objeto. apesar da forma oblíqua (como também em “dar ouvidos a alguém”). está implícita uma relação de domínio. o colocar-se em uma posição de escuta. de reivindicação de domínio. uma coisa é cuidar alguém e uma outra é cuidar de alguém como quando dizemos “cuido-te” e queremos dizer cuido de você. Com isso. ou melhor. é assim mesmo) e outra é querer bem a alguém. exprima-se um “ir para o outro”. a escuta da qual teria necessidade quem se encontra em dificuldade é substituída pelo medicamento. aquela da frase como unidade de sentido feita de sujeito e predicado. o depressivo ou eufórico. como se costuma dizer – “eufórico-depressivo”). palavras como “histérica” (geralmente referenciando o feminino). da relação sujeito-objeto (e de fato a análise lógica trata de “genitivo objetivo”. Estabelecido que se trata de um caso de depressão. “o bipolar”. o incapaz. E não é causal. eles estão na forma em que. ao invés disso. ao invés. que é a relação dominante na lógica predicativa. porque a farmacracia precisa de medicamentos homologados: trata-se ainda da mesma “disfunção” e também neste caso a dicotomia é característica de cada identificação: a “bipolaridade”. ainda.

no sentido e querer bem a alguém e de desejar que também esse alguém queira bem a nós. as palavras “infunzionale” e “infuncionalità” não são previstas. é regida por essa mesma exigência irredutível. para 85% da população mundial. que queria alguma coisa. e de fato não são relações senão no plano formal. sabemos bem. o marido. gostaríamos. o amigo. é um nada muito importante. Me diga. Cada um de nós sabe que é a própria infuncionalidade que gostaria que o afeto dos outros fosse direto. que cada um de nós vale na sua infuncionalidade. eficientes para aquela outra coisa: nas relações que não são de trocas e que estão relegadas ao “privado” (aquelas públicas são baseadas na troca. uma relação decisiva no sentido afetivo. na grande maioria dos casos (digamos. destituídas do caráter essencial da relação). é importante aquele telefonema em que o outro não tem nada para te dizer. A vida não é vida (e o direito à vida é privado do essencial) sem o direito à infuncionalidade. Sendo de outra forma.O direito à infuncionalidade Nos vocabulários da língua italiana. mas você esperou o telefonema toda a noite. queria usar você de alguma forma.” Nada. Em suma. aquela dos bens supérfluos do supermercado. de amizade por interesse. dizemos: “Pronto?” “Sim. com . Estou contente por ouvir você. funcionais para aquilo. na verdade. sabemos com certeza que o valor dessa relação consiste em ser ela “desinteressada”. apesar dos valores de mercado. no dar-ter. no seu “por nada”. no sentido que é uma relação decisiva para nós – não uma relação de trabalho –. mas se trata de um percentual seguramente que deve ser atualizado) “privado” também no sentido de “de-privado” (privado do essencial). que. de matrimônio de interesse. Então. E o corretor do Word assinala em vermelho quando são escritas no computador.” E se continua com esse nada. Em uma relação que nos envolve fortemente. você descobre que aquela pessoa está te chamando por um motivo preciso. se fala. ao invés. e você? Nada. “O que me diz?” “Nada. em um telefonema entre amigos. a nenhum de nós agrada perceber que quem diz nos querer bem – mostra-nos afeto. que queria considerar você possivelmente funcional. Quanto a esse “por nada”. todos. o noivo. E se. quisesse bem a nós “por nada”. por exemplo. enfim. A mesma infuncionalidade mercantilizada. de modo que substancialmente são relações “privadas”. o parente.” “Não. queria apenas ouvir você. A infuncionalidade é considerada um negócio privado. preza a nossa relação – na realidade age assim enquanto somos úteis para isso. em seguida. que o outro. cada um de nós. Essa relação feita de nada é uma relação que conta. nada. no interesse. como fim em si mesmo.

Mercado universal significa que nada se subtrai a ser mercadoria. de amor. não havendo mais nada a vender além do próprio trabalho. não como meio”. este ser considerado como tendo um sentido por si só. de criar. não basta o direito à vida. elas próprias. até mesmo sendo judeu. apesar da crise do mercado de trabalho) para indicar quem é livre para vender o próprio trabalho. É necessário reivindicar este outro direito: o direito à infuncionalidade. De fato já estamos nesta condição. como “privadas” (no duplo sentido de expelidas.certeza esse comportamento não te agrada. Atenção: a vida como a estão reduzindo não é vida. fechavam todos os dois. antes de tornar-se atual como ocorre hoje com o mercado global – a situação de “mercado universal”. uma condição pela qual devemos comprar tudo – exceto aquelas relações que são verdadeiramente relações e que paradoxalmente são consideradas. isto é. esta possibilidade de inventar. então não há mais limite sobre o que se pode vender. as relações de amizade. Eis o direito à infuncionalidade. Comunidade de trabalho: na Alemanha nazista – recordemos o filme de Spilberg. Este ser considerado fim. Uma vez que o trabalho está à venda. “tratar o outro como fim. e tudo que precisamos é mercadoria. o direito à vida não basta. Então. fazer parte da comunidade. esse é o ponto central. Isso valia até para os judeus. ter um posto de trabalho significava ser reconhecido como funcional à nação. o direito de o homem ser considerado valor como fim em si mesmo. O trabalho livre é o trabalho que se pode vender livremente. As formas sociais são comunidades de trabalho desde quando o trabalho passou a ser vendido e comprado. o que mudou? Se o . Bem. a mesma coisa acontece hoje. de modificar. A compra-e-venda do trabalho: se um extraterrestre fosse enviado para a Terra para descobrir se “há ainda capitalismo sobre a Terra”. se essa vida for uma vida de exploração. segregadas em relação “ao público” e de “desprivados” destituídos do essencial). mas a relação de compra-venda do trabalho permanece. o qual mostra que ser contratado – naquele caso. de responsabilidade sem álibi em relação ao outro – que são relações por excelência. vende-se a característica mais específica do humano. Schindler’s List (fiz referência a ele en passant anteriormente). baseadas nos valores da infuncionalidade de que eu falava anteriormente. então há – já em nível potencial. na indústria bélica. esse ser considerado valor (não “recurso humano”). Fechavam um olho. cunhou-se o termo “proletário” (hoje em desuso. desde quando existe o trabalho livre. para citar a atividade humana mais simples – se isso está à venda. isto é. de elaborar – o cozinhar. Uma vez que se venda e que se compre o trabalho. de transformar. qual critério deve usar para dar uma resposta? Ele deverá simplesmente ver se se vende e se se compra o trabalho. na indústria das armas –. Não é o direito à vida o essencial. dadas gratuitamente.

E. Jeremy Rifkin com seu “best seller” chegou um pouco tarde. mas o tempo de trabalho. pagar com base no tempo necessário. se candidatar às eleições políticas. pagamos por hora. O paradoxo é que este tempo de trabalho deve ser reduzido sempre mais. [pre]-ocupados em “se inserirem” o mais rapidamente possível: “procura-se empregador”. A um certo momento. e a coisa funciona. ocorreu até a possibilidade de substituir a inteligência. Antes acenamos à questão da formação e dos créditos. nós podemos fazer um cálculo: quantas horas? Podemos estabelecer quantas horas são necessárias para esta tarefa. Os trabalhistas sem trabalho são aqueles que já estão prontos. Falou-se em “mais-valia”– hoje dizer “mais-valia” equivale a dizer “Marx” – melhor então: “valor agregado”. para o trabalho material parece factível (se precisamos pintar uma sala.. hoje mais que nunca. o trabalho “imaterial” . Todavia a quantificação. “fim do trabalho”. E como se reduz o tempo de trabalho de um operário? Substituindo-o pela máquina. Mas também para ele. que estamos no fim do trabalho. o cômputo de horas. porque esta comunidade é uma comunidade de trabalho..extracomunitário mostra ter o atestado. O famoso Adam Smith dizia: “a verdadeira riqueza social é o tempo de trabalho”. O mesmo problema é examinado por Adam Schaff. Mas emerge ainda aquele segundo sentido pelo qual se trata propriamente de uma comunidade de trabalho. Estão dispostos também a votar nele se. por ventura. por Eric Weil. a equiparação trabalho-salário está condicionada ao lucro. para fazer crescer os lucros – e a automação tecnologicamente avançada leva esse processo em direção ao azeramento do trabalho: “trabalho zero”. Quanto mais se reduz o tempo de trabalho. parece funcionar. “a Itália é uma República fundada no trabalho”. Estamos dizendo isto: que somos uma comunidade de trabalho? Talvez o sentido seja outro. já André Gorz havia dito que a coisa mais paradoxal é que nos encontramos em uma sociedade de gente preparada para o trabalho. não o ouro nos caixas do Estado (bulionismo) e nem a terra (fisiocracia). enquadrados. enfim. eu diria uma sociedade de trabalhistas para distingui-los dos trabalhadores. é a condição para quantificar. E que o risco é o adestramento para o mercado de trabalho sem vagas de trabalho. não?) Pagar por hora. Que se possa contar em horas o trabalho “material” parece mais fácil. Logo. Já Hannah Arendt adverte que o trabalho está acabando. primeiro semiautomática e depois automática. Uma sociedade de trabalhadores sem trabalho. Em definitivo. treinada. parece factível. o certificado de trabalho (o que não é fácil obter). a substituição do trabalho físico pela máquina. mas para um trabalho que não existe. instruída para o mercado de trabalho. Em cada caso há uma desigualdade. é aceito na comunidade. E isso não é uma coisa boa. mais a produção se torna competitiva.

torna “excedente” o trabalho intelectual além do trabalho material.e ao invés disso eles tinham I-pod! Enfim. quantas horas de trabalho? Havia um tal sujeito – se chamava Newton – estava sob uma árvore. antes de mais nada. o prazer de ler um livro. E como fazemos para avaliar. cada um por sua própria conta. parece fácil quantificar o trabalho material. escutando música. e eu pensei: “Mas eles concordam com tudo aquilo que ouvem” e ao invés disso. que habituemos os jovens desde o início. como pode ser quantificado? Quando nós. em fantasia. Boa parte das invenções mais importantes vieram por serendipity. para ser competitivo com a máquina inteligente. e eu estava contente. A máquina automática ejeta. Mas.. três meses. também por erro e distração. com o sistema de créditos. quando estão se formando. de ouvir uma boa aula. na universidade.pela inteligência artificial. e a sala estava cheia. há um campo cujo preenchimento requer “quantas horas de trabalho serão dedicadas para a pesquisa”. acompanhavam . de trabalho criativo. eu fui à apresentação da revista “Quaderni di comunicazione” (publicação da Meltemi).. estava até dormindo. o interesse por uma disciplina em pontos a serem acumulados. ou está dirigindo um carro e te vem uma ideia extraordinária. Os créditos: transformar o estudo. o trabalho “imaterial” não é verdadeiramente quantificável porque se trata de trabalho inventivo.. enquanto o relator falava. por acaso.. a acreditarem que isso seja factível. e esse trabalho deve ser competitivo também com a máquina automática e com a inteligência artificial. dois créditos. e ele inventou a teoria da gravidade universal. quando lhe caiu a famosa maçã sobre a cabeça. no jogo do fantasiar. o trabalho inventivo. Outro dia. E como o fazemos? Bem. estabelecer quantas horas se trabalhou e pagar com base nesse cálculo. outros de maneira mais rápida. estavam todos com fones de ouvido nas orelhas. isto é. Mas o trabalho imaterial. o trabalho criativo. fortemente inventivo. não importa saber se isso é possível ou não. Se ainda há necessidade do homem. Quantas horas são necessárias para inventar uma coisa? Para encontrar uma ideia nova? Para resolver um problema? Você pode levar três anos. é preciso. estavam. elimina o trabalho (uma espécie de jobkiller). é porque o homem é ainda capaz de superar a máquina em invenção. preenchemos um formulário solicitando recursos para a pesquisa. moviam as cabeças para frente e para trás como se concordassem. Portanto. Como eu dizia. quando estão estudando.. deve ser fortemente criativo. pela máquina inteligente. alguns de maneira mais lenta. mas faziam isso continuamente e ritmicamente..” E depois percebi que alguns. depois me veio uma suspeita: “Estão dando créditos para quem participa deste encontro?” “Sim. como fazemos para quantificar tudo isso? Bem.

Quem não diria que é democrático? Quem não diria que é tolerante? Mas depois – como dizia Pier Paolo Paolini – ao invés de usar o particípio presente “tolerante”. A liberdade. em The Open Self. tornando-se uma espécie de palavra-guarda-chuva. Liberdade e democracia: esses valores vêm desfraldados indiferentemente e unanimemente por “grupos” que se consideram opostos.o ritmo. mas pouco clara do ponto de vista designativo. “democracia” pode tranquilamente circular. Na liberdade e da democracia à procura do trabalho e da identidade Assim. no qual está proclamada a ideia da “guerra preventiva” e onde se fala dos “Estados trapaceiros”). é a liberdade da ideologia neoliberal que consiste na possibilidade de comprar e de vender. como definida pela Constituição Europeia (Treaty estabilishing a Constitution for Europe ) e pela The Nacional Security Strategy of the United States of America (setembro de 2002. “tolerado”. nos nomes dos dois partidos do governo) e acreditamos que é certo. vendo se ainda nos agrada. no sentido humanitário. Classificar-se como “democráticos” é agora tão normal e inevitável quanto para os políticos tirar fotos com as crianças. 1948: 145-146). é o texto da Casa Branca. estão. E acrescenta: “Quando o fascismo conquistar a América o fará em nome da democracia. o semioticista americano Charles Morris. Quem? E os outros? Podemos nos vangloriar de ter a democracia e a liberdade (hoje. com introdução de Bush. nós somos bem afortunados em relação àqueles que se encontram na comunidade de trabalho de tipo nazista: nós temos a democracia! Nós. qualquer coisa que agora se faça na América – ou em qualquer lugar da Terra – será feita em nome da democracia”. “com todos os meios necessários”. Também em uma “sociedade fechada”. De fato. Se usássemos o termo “democracia” em sentido designativo seria sinônimo da expressão “sociedade aberta de eus abertos” (Morris. quem gosta de ser tolerado? Isso pode fazer entender quanta hipocrisia existe na tolerância. que sejam exportadas para os países que não as possuem. observava que “democracia” tornou-se uma palavra fortemente apreciativa. e “dever-se-ia” aplicar essa palavra a si mesmo. às claras. dever-se-ia tentar usar o verbo “tolerar” no particípio passado. de 1948. na garantia do “livre mercado” e da igualdade de oportunidades. ao invés de encher a boca com a palavra “tolerante”. No que se refere à “democracia”. estavam ali simplesmente esperando que “aquela noia” terminasse para finalmente assinar e obter os dois créditos. se essa forma social é uma comunidade de trabalho. mas “prontos para o diálogo” . na Itália.

de cultura. no caso da migração. que se trata de um tratado entre 10 N. o mercado. a identidade de pertencimento. juntos. é o posto de trabalho. intitulado Reincanto/Disincanto). a identidade buscada no trabalho-mercadoria. se você é um imigrado. O que é mais importante? Indubitavelmente não apenas importante. mas estão juntas porque a identidade se realiza através do trabalho. mas tem a identidade. será expulso. o fim do trabalho comporta a falta.T. de raça. a causa da desocupação estrutural. Você. a carteira de identidade.T. ou pelo menos coloca em crise a identidade. 2008. termo usado para designar os campos de concentração que depois se trasformaram em campos de extermínio. Estamos em um período de re-encantamento (haverá de novo o desencanto. não encontrar trabalho significa perder a identidade. deve ter um trabalho.T. a vaga de trabalho. O desocupado não tem trabalho. Ponzio 2008 e outros ensaios do “Quaderno di comunicazione”. de contratação. enfim.: O equivalente a ‘cai fora’. Melhor usar uma sigla. eis as duas armadilhas mortais: aquela do trabalho e aquela da identidade. 8. deve ao menos exibir um certificado de trabalho. . mas fundamentalmente decisivo. a igualdade. de pertencimento comunitário. Então. 11 N.: Centro de Permanência Temporária para imigrantes clandestinos. o desocupado migrante deve ir embora – ‘smamma10’ se diz no Sul da Itália– e vem também de-tido nos CPT11 até quando não mandado de volta para o lugar de onde veio. em pares. “CPT”.: Em alemão. sob forma de aut-aut. de religião. de nação. a perda. Perder o emprego. a perda. Marcuse (1967: 112) mostrava que a sigla “OTAN” não significa aquilo que diz: “Tratado das Organizações do Atlântico Norte”. sem o pertencimento. Identidade e trabalho entram em jogo. de detenção provisória ou preventiva. Vem detido – e sabemos as condições dessa detenção – nos campos – como os chamamos – de trabalho? Lager12? Não. a democracia. no que diz respeito a qualquer pertencimento (v. Então. ao desocupado basta o pertencimento. e. de outro modo. e é a tal ponto que a falta. de etnia. o seu paroxismo (que se manifesta na identidade de sexo. a igualdade de desocupação.para a manutenção e a reprodução desta forma de sociedade. ‘campo’. ou identidade ou trabalho: se não pode exibir a identidade comunitária. migrante. ou seja. como houve no passado? – mas as novas gerações não sabem nada disso) nos confrontos dos “velhos valores saudáveis”: a liberdade. 12 N.

alguém poderia perguntar por quê a Grécia e a Turquia são membros da OTAN. aqueles que estão mal. É o caso do Sul da Itália. Não é deslocamento de força-trabalho porque onde acontece “não há trabalho”. que está crescendo e que se conecta com aquele da desocupação. Com a complicação que. no sentido de que não se encontra uma vaga de trabalho. ao invés. diferentemente da forma como a Constituição italiana preveria: em um país democrático seria necessário que fossem representados aqueles que estão pior. uma espécie de deslocamento não controlável. mas é atualmente sempre mais também interno aos países “desenvolvidos”.: Imposto Comunal sobre Imóveis. embora em nosso país no governo haja a Liberdade e a Democracia. não absorvível. no Parlamento não há mais ninguém que represente “as minorias” (minorias ideológicas. aqueles que não aguentam mais. mas é a procura de um espaço de vida por causa da impossibilidade de se viver que o chamado “desenvolvimento” produziu no chamado “subdesenvolvimento”. Migração.T. 14 N. retiramo-lo? –. E não se trata mais de uma desocupação 13 N. E o subdesenvolvimento não é apenas externo. é um fenômeno absorvível que. Eis como uma sigla serve muitas vezes para sancionar um fato como fora de discussão. mas não têm nem ao menos a casa! A migração é um fenômeno que não se pode conter. desocupação e inconversibilidade em trabalho-mercadoria Deve ser considerada. porque há uma essencial diferença entre emigração e migração: a emigração é aquela tradicional. que não se pode conter. a diferença da emigração. IPTU . A migração – a palavra “migração” se usa para os pássaros. Pode-se programar a emigração porque se trata de um deslocamento de força-trabalho. neste ponto. no fim das contas. é o deslocamento da força-trabalho. se assim o fosse. aumentamo-lo.as nações que estão defronte ao Norte do Atlântico. é conveniente para quem “acolhe”. A migração não é simplesmente a procura de trabalho. Eis a migração.: Conotação negativa dada aos moradores do Sul da Itália. aqueles que não têm o problema do ICI 14 – abaixamo-lo. para os animais que se deslocam – é. E começam a nos chamar “forasteiros” (“terroni13” era melhor).T. mas maiorias no que concerne à proporção de “mal-estar” difuso: a chamada “falsa consciência” – para usar uma expressão recorrente e mal empregada – provoca essas distorções).

Podemos dizer que hoje há dois bons motivos para os trabalhadores serem demitidos: um porque a empresa “perdeu”. É possibilidade de tempo livre do trabalho. compro uma máquina automática. é uma peça. liberação do trabalho livre. apesar da identidade e dos ressurgimentos racistas quando se trata destes últimos? O não-trabalho. de humanidade não mercantilizável.. No mundo da “comunicação global”. pode permitir-se “excessos” e pode dizer: “Você não me serve mais. notável. outro porque a empresa vai a todo vapor e. mas não porque é uma “mercadoria proibida”. exceto ele. isso repercute de modo drástico. O que une o migrante e o desocupado. real. Assim.. sofreu uma derrocada. essa condição continua a apresentar-se com o caráter de temporariedade. não consegue converter-se em mercadoria. tudo pode ser convertido em mercadoria exceto ele. portanto. Em relação ao migrante. Aquele tal que se chamava Marx não teria nunca imaginado que o socialismo teria pretendido realizar-se em países como a Rússia ou a China. liberação do trabalho mercadoria. aos países de capitalismo avançado. portanto. o migrante. quanto mais diminui o tempo de trabalho mais aumenta a competitividade. mas de uma desocupação estrutural. a “indústria do tempo livre”. tempo disponível. Para o desocupado. mas porque não é uma mercadoria. essencial. porque um capitalismo avançado produz liberação do trabalho. tudo pode ser comunicado. São duas peças da humanidade não conversíveis em mercadoria. precisamente. . se diminuir o tempo de trabalho significa incrementar o lucro. o resultado é sempre o mesmo: demissão. Para ele. o paradoxo. tudo pode circular. Disponível para quê? Disponível para a minha alteridade. a outra face da medalha. ao invés.conjuntural.” Então. diferentemente. é que. de tempo disponível – não confundir com “tempo livre” que é o tempo dependente do trabalho e para o qual existe toda uma “indústria”. essa é a consequência. para a minha infuncionalidade – nada a ver com a identidade! – para aquele outro de mim que devo sacrificar. de contingenciamento – embora sociólogos e economistas falem de “desocupação estrutural”. desocupação. a máquina inteligente que substitui você. para aquele outro de mim o qual não posso cuidar. fechou as portas e. Como chamamos esse tempo livre do trabalho? Chamamo-lo desocupação. Mas de que se trata na realidade? Façamos o esforço para ver a outra face disso. não teria nunca projetado para esses países de miséria a realização do socialismo (e os fatos têm mostrado que tinha razão): visava. É um bicho feio a desocupação. em uma situação que temos definido como mercado “universal”. demite. porque. a empresa ou vai a todo vapor ou a empresa vai à falência. tempo livre do trabalho mercadoria. A desocupação é estrutural porque essa forma social produz tempo livre do trabalho.

lastimável e risível. ambos com pronúncia muito semelhante. o que lhes confere essa condição. da formação. a forma como essa realidade se apresenta impede ela própria a mercantilização. a estrangeira. o tirano – a um certo momento vai pessoalmente até Medea. computar em horas. cujo sentido remete ao fato de crer que os créditos acadêmicos possam ser mercantilizáveis. Haverá uma nova “internacional do não trabalho” (“Não-trabalhistas de todo o mundo unam-se!”). 2) O recurso considerado hoje decisivo para o investimento.t. à alienação – “não queremos mais ser mercantificáveis” – não. Sentir o medo do outro no sentido de um ‘genitivo ético’. Creonte – o rei. talvez não destinada à falência como as “internacionais do trabalho” sujeitas a ruírem toda vez que entram em colisão com pertencimento nacional. do estudo. O expediente dos créditos para torná-lo crível (vale dizer: (“credici e crediti da um momento all’altro mercificabile! 15) desde o período da preparação. é. de consciência. o poderoso. Medo e vergonha em relação ao outro. isso é interessantíssimo: há sempre mais peças de humanidade que não são redutíveis à mercadoria. Terminamos com uma referência a Medea. ao mesmo tempo.: uma espécie de trocadilho do autor com o verbo (credici) e o substantivo (crediti). hoje há um contínuo aumento. para a qual o mercado está saturado. não porque alguém tenha se oposto à mercantilização. que não pode ser comunicada. uma parte notável (a grande parte) de humanidade (migrantes e desocupados) não conversível em mercadoria. seria necessário refletir para imaginar e ver cenários diferentes daqueles da reprodução dessa forma social. aqueles que diziam isso o faziam com base em uma certa ideologia. Aqui a coisa é diferente: embora alguém queira ou não queira. Eis que. com base em uma tomada de posição. que não podem ser transformadas em mercadoria. particularmente diante da “prova de fogo” da guerra? Sobre esses dois aspectos. que foi levada a Corinto por Giasone. . para o lucro – o chamado trabalho imaterial – com muita dificuldade se deixa quantificar. a forma social capitalista: 1) Concretamente. de Pier Paolo Pasolini. a quem deu dois filhos e que agora 15 N.

fora relegada para fora das muralhas. A propósito de “ter medo por”. Ter medo por. dedicado à tortura na Turquia. “Por quê?” – pergunta Medea. um simpático modo de dizer. então. tenho medo não de você. nem por suspeitar de sua diversidade de bárbara. em um primeiro momento. a análise lógica conhece apenas dois sentidos de “sentir medo do outro”. “Por que também os meus filhos?” Creonte. aqui não se trata do fato que você causa medo ou que eu tenho medo de você ou que não quero que minha filha tema a presença de você. de indivíduo para indivíduo. que deve ir embora definitivamente com os seus filhos. enquanto se distancia. responde. tive medo por ela. É diferente de todos nós. vinda de uma terra estrangeira. “dele”.mas por temor do que pode fazer minha filha. que se sente culpada em relação a você. tenho medo pela minha filha.” Creonte revela como efetivamente são as coisas.. podemos recordar aquilo que escreve um jornalista. Tenho medo – digo a você abertamente – pela minha filha [com que Giasone pretende casar]. um jornalista-escritor. Como chamamos esse sentir o medo do outro nesse outro sentido? Em análise lógica. isto é.” Bem. como bárbara. como mencionei anteriormente. Assim. “Porque tenho medo de você. Ela se distingue.” Em seguida. olhando para seus ombros delgados. mas “cuido de você”.. entre “genitivo subjetivo” e “genitivo objetivo”. Há na língua espanhola. com rosto descoberto.. como ter medo por ele. Uberto Tommasi. porém nós temos expressões do tipo não “cuido-te”. que sente remorso e vergonha perante você. É que eu tenho medo pela minha filha. o medo do outro pode ser no sentido que o outro tem medo – é genitivo subjetivo – ou que se teme o outro – genitivo objetivo. de único para único. Creonte diz: “Quero te dizer a verdade: não é por ódio contra ti. isso não existe.. “dela”. O “outro” ou é sujeito ou é objeto do medo. não é mais nem genitivo subjetivo nem genitivo objetivo. Aqui não há mais nem genitivo subjetivo nem genitivo objetivo. mas a seu risco e perigo: “seu”. que tenho medo. em Tulipani Rossi. uma relação extra-ordinária. Todos sabem nesta cidade que. já confinada às margens. que chegou à nossa cidade com traços de uma outra raça. ele mesmo diz: “São doces as tuas palavras.” Sentir o medo do outro. você é muito esperta em malefícios. uma relação fora das regras: Creonte e a estrangeira – a bruxa – face e face. Então. por isso não queremos você entre nós. mas também o temos em nossos idiomas . não está previsto: ou é sujeito ou é objeto. diz assim: “Senti medo. Por que Creonte vai até Medea? Vai para dizer a ela. extra moenia. Estabelece-se.. como Medea lhe responde de um modo muito educado. no qual conta o encontro com uma moça que tinha sofrido torturas terríveis e que lhe fez conhecer um grupo de opositores que denunciavam isso. o que diz Creonte? Diz: devo ser sincero com você. humanas. Quando ela sai.

. removam-nos da minha frente. No restaurante. o remover o outro daqui. quanto mais te vê. Significa algo como: "Esteja bem por mim. entre o uso do caso direto e do indireto ou oblíquo. tirem-nos de mim. foi Giasone que. quanto mais te vê mais aumenta o sentimento de culpa. subentendendo que faz bem a mim que o outro fique bem até um próximo encontro comigo. acontece que.". “Cuido de você”. na palavra. Não está bem assim. Fiz referência anteriormente à diferença.T. um confim que não seja resultado de guerra. “J’aime le poulet roti”. Sente-se culpada a tal ponto que pode fazer qualquer loucura. Mas eu sou um tipo sensível e me fazem sentir culpa e não durmo tranquilo. se ela não te vê. Volto para casa depois de um dia de trabalho. enquanto estão servindo o frango assado. “tenho medo pela minha filha”. fede também a comida que cozinham. Como chamamos agora este genitivo em “sentir o medo do outro”. na verdade. isolá-lo. é mais fácil que ela recupere a paz de consciência. em que não é “te” complemento objeto acusativo (assim se chama!).” É aquilo que fazemos com os imigrantes. mais se sente culpada. de temer por ele? Eu o chamo genitivo ético. porque se sente culpada. não se viu 16 N. no sentido de ter medo por ele. devo jantar. envolveu-se com a filha do príncipe. diz isso porque sabe que ela se sente culpada: é a mulher que se envolveu com Giasone. Os pacifistas que procuram sair do mundo da guerra são aqueles que sabem que todo o mundo é um mundo de guerra: que não há uma parte de território. enfim. ao invés disso. Eis por que podemos falar de dois tipos de pacifistas. Eis que isso é interessantíssimo. Em outros termos. um rapaz diz para a moça. a consciência em paz. a quem pouco antes havia se declarado “Je t’aime”. a diferença. Luzy Irigaray intitulou Amo a te a um livro seu editado em italiano. não se viu ainda. no que diz respeito às relações com o outro.: Mantido exemplo em italiano em razão da lógica da argumentação. . quanto para dizer “te amo”. Dizemos: “Tirem-nos daqui! Tirem-nos da frente!” Por que devemos vê-los? Por que eu saio e devo encontrá-los? Além de federem. expurgá-lo. Portanto. em francês. para ficar com a consciência limpa. Creonte está dizendo a Medea: “Eis porque você deve ir embora. a boa consciência. porque ela não deve ver você. se você vai embora. Em relação a quem? Medea. de nação. para promover-se.. Sabemos que em francês se usa o verbo amar tanto para dizer “eu gosto do frango”. por analogia ao “dativo ético” (“stammi bene!”16) Quando Creonte diz: “eu tenho medo pela minha filha”.meridionais. que traduzido em italiano é “amo a te”.

constrição à guerra. prepare-se para a guerra. A identidade é sempre intrincheirada. ao invés disso. no sentido. chamada às armas. e de desfrutá-lo melhor (aos migrantes: “ voltem para casa. dado o indivíduo isolado de outro indivíduo. há os pacifistas que. quer dizer. o ponto de chegada de uma forma social que tem a identidade e o trabalho-mercadoria como suas armadilhas mortais: -o trabalho-mercadoria com a sua dupla competitividade interna: “procurar trabalho”. “a paz é a guerra” e “a guerra é a paz”. de raça. chegam à conclusão de que não poderá nunca haver uma paz que não seja a paz da guerra. e o consequente paroxismo do medo do outro (genitivo objetivo e subjetivo). de língua. Uma paz “originária”. como condição de paz preventiva. a necessidade de adquiri-lo e o custo. porém com certeza.nunca uma paz que não seja paz de guerra. e vendê-lo melhor. aquele de consciência em paz. de cultura) impõe a oposição e. recuperar a saúde da não indiferença pelo outro. guerra: sair da trincheira da identidade. aquele que desejaria não saber. São. recrutamento. fruto de uma guerra. São todos. de nação. de reduzir. assim vão nos custar pouco” – uma bagatela!) A identidade. como tal. de ocupações. Todos esses três diferentes tipos de pacifistas se reúnem a marchar juntos na “marcha da paz”. vamos nós até vocês para contratá-los. Se você deseja a paz. com o seu direito à liberdade e seus interesses privados (de-privados da relação com o outro). a partir disso. Depois. o homo homini lupus não são o ponto de partida (a falácia de Hobbes!). Tradução de Mary Elizabeth Cerutti-Rizzatti e Giorgia Brazzarola . de se sobressair em relação ao outro que também o procura. poderíamos dizer. no que se refere a qualquer tipo de pertencimento (de sexo. não ouvir. parar com os álibis da identidade. E há. assim não te vejo e não me sinto culpado”. Desse modo. é já constrição ao conflito. é uma “minoria não representada” no governo da liberdade e da democracia) quer efetivamente sair deste mundo de. o pacificador da própria consciência.. Mas apenas uma “minoria” (numérica? ideológica? Não é uma contagem estatística. não ver: “vá embora.. para quem o compra. São tantos. é já arrolamento. curar a alergia ao outro. Ou dito orwellianamente. quanto mais possível. ainda. a paz consiste em encontrar-se à beira da guerra. para quem o vende. um terceiro tipo de pacifista.