Revista Brasileira de Terapia Familiar - V. 1, n.

1, janeiro/junho de 2008

Resumo: Este artigo descreve a “metodologia
de atendimento sistêmico de famílias e re-
des sociais” ou “metodologia de atendimen-
to sistêmico”, destacando suas característi-
cas fundamentais, as quais justificam dis-
Distinguindo a “metodologia de
tingui-la como uma metodologia consisten-
te com os pressupostos da epistemologia
sistêmica novo-paradigmática.
atendimento sistêmico” como uma
Palavras-chave: metodologia de atendi-
mento sistêmico de famílias e redes sociais;
metodologia de atendimento sistêmico; sis-
prática novo-paradigmática,
tema determinado pelo problema; dissolu-
ção do problema. desenvolvida com um “sistema
Abstract: This paper describes the “systemic
attendance methodology for families and
social networks” or “systemic attendance
determinado pelo problema”
methodology”, emphasizing its fundamen-
tal characteristics, which justify that it can
be distinguished as a methodology
consistent with the assumptions of the new-
paradigmatic systems epistemology.
Key words: systemic attendance
methodology for families and social
networks; systemic attendance
methodology; problem-determined system;
Maria José Esteves de Vasconcellos
problem dissolution.

P
ara falar da “metodologia de atendimento sistêmico de famílias e redes
sociais” – mais resumidamente, “metodologia de atendimento sistêmico”
– que temos desenvolvido na EquipSIS, precisamos começar identifi-
cando o sistema com que trabalhamos, ou seja, qual a organização do sistema
que distinguimos.
O atendimento sistêmico de famílias e redes sociais, tal como o temos
concebido, é um trabalho desenvolvido com um sistema que se constitui ou
que emerge, a partir da definição da existência de um problema. Trata-se de
um sistema em que distinguimos, como organização, as opiniões divergentes
ou posições antagônicas em relação a algo que está acontecendo. A organiza-
ção é, pois, uma relação fundamental entre pessoas que, ao conversarem,
fazem emergir o problema e constituem o sistema. Para se referir a esse tipo de
sistema, Goolishian e Winderman (1989/1988) usam a noção de “sistema deter-
minado pelo problema” ou SDP, nomenclatura que, também, temos adotado
como fica bem caracterizado em nosso texto “Família como sistema, sistema
mais amplo do que a família, sistema determinado pelo problema” (Aun, Esteves
de Vasconcellos, Coelho 2007a).
Maria José Esteves de Vasconcellos Tendo assumido a visão / pensamento sistêmico novo-paradigmático1,
EquipSIS – Equipe Sistêmica – Belo assumimos como implicação, que “problemas” não pré-existem a uma distin-
Horizonte ção de um observador e a uma construção consensual (sobre sua existência)
E-mail: estevasc@terra.com.br entre este observador e outros que eventualmente conversem com este a res-
AMITEF - Associação Mineira de Terapia peito. É a essas conversações que acontecem entre pessoas – as quais acabam
Familiar concordando em relação à existência de um problema – que nos referimos

Revista Brasileira de Terapia Familiar V. 1, n.1, janeiro/junho de 2008 37

Nesse caso. tudo. cumpram uma “pena alternativa”. criança. muito ativo. com não está bem com a criança. não faz de um desvio. mas somente na medida em que realizam. Porém. Ele está se entrosando lingüístico. bém no texto “A distinção do problema no lugar do nição de uma situação como problema emerge de um diagnóstico” (Aun 2007a). quer ver está bem.com a expressão “sistema determinado pelo proble. por aquele grupo de do. Da consulta Winderman. com os colegas e está indo bem na escola. fosse intrínseco a ela. concreto. por. e considerando as dificuldades de se concretizar uma Vejamos alguns exemplos de como se constitui determinação judicial para que alguns “adolescentes um SDP e de como emerge um problema. pessoas. postos sistemas compostos de significados. sobre o qual ou patológicas” – nas conversações é abordada tam- “as pessoas vão trabalhar. nós. Esse também concorda que algo parece não estar sistêmico”. não está como deveria estar. ou seja. não do. versando com a mãe. O especialista em atendimento go. mas ainda um rótulo diag- suas ações e conversações. como se estivesse em suas carac- Parece importante ressaltar. de Goolishian e essa é uma “criança que tem problema”. ou que desencadeia uma rede de conversa. ou na medi. algo que. a partir daí. no texto professora. descrições. consideram relacionadas e/ou preocupadas com aquela suponhamos que algumas pessoas estejam conversando situação. Ela então conver- ma”. nem pré-definido por autoridades ou quais. exterior o que emerge das conversações é uma criança “porta- às pessoas. na percepção delas. ou a um “sistema de significa.1. janeiro/junho de 2008 . com o médico a criança sai “portadora de TDHA: Trans- Isso quer dizer que as pessoas componentes torno de Déficit de Atenção e Hiper-atividade”. como observado- comunicações. consenso surgido em conversações de pessoas que se Passando para uma situação bem diferente.. Esta imediatamente concorda com a preo- “Uma nova identidade para o profissional que lida com cupação dos pais e sugere que procurem um psicólo- as relações humanas. Já numa outra família. Mas eu e meu marido já conse- O profissional que assumiu o pensamento guimos um jeito de lidar com ele que está dando muito sistêmico novo-paradigmático acredita que algo que certo. Não é um problema pré-existente. também discorre detalhadamente sobre bem com a criança e sugere que procurem um neuro- essas concepções de “sistema lingüístico” e de “sistema logista. ções. começa sua carreira de portadora Por isso. con- Portanto. Aun (2007a). prestan- correntemente um determinado aspecto do compor. emergência das características individuais – “normais ção. A defi. não é um problema objetivo. Esse rótulo diagnóstico. 1. talvez genéticas. também já tinha observado aquilo (que até agora não dos”. Essa questão da institucionalmente encarregados de abordar a situa. construindo significados – e não su. não só emerge um consenso de que algo os. Dessas do sistema não são componentes enquanto indivídu. zada naquele contexto específico. do serviços em instituições da própria comunidade: tamento de seu filho que ela considera estranho e que nessas conversações. como se estamos concebendo ou distinguindo sistemas cujos não fosse o resultado de uma construção social. mas esse é muito curioso. a organização – problemá. ela diz: olhe que interessante. Referimo-nos a uma “rede de conversações”. ções entre pessoas que estão linguajando sobre algo como os filhos são completamente diferentes um do que elas próprias definem ou consideram como um outro. linguajando. está usando o mesmo jeito de lidar e também está tanto. uma característica que quer especialistas – mesmo que esses estejam pode até ser considerada desejável. em conflito com a lei”. passe a se preocupar com a situação. que também está sendo definido como um problema e que. a mãe comece a observar re. muito parecidos com os daquela primeira. numa família. emer- tica – do sistema em torno do problema. infracional. que tenham cometido algum ato mos que. Suponha. dora de grande curiosidade”. como afirma Luhmann (1990. tentando resolvê-lo”. que aqui terísticas pessoais objetivas. se alguém não entra na conversação. portanto. n. mas a da em que realizam o problema propriamente dito. ou seja. nóstico. essa síndrome. giu das conversações entre todos os envolvidos. Meu primeiro sempre foi calminho. de uma anormalidade. naquela história particular. acomoda- problema. Já conversamos com a professora. essas pessoas estão definindo que 38 Revista Brasileira de Terapia Familiar V. ou a sa com o marido sobre sua preocupação e ele diz que um “sistema lingüístico”. apud res. a um sistema constituído pelo que as tem um nome) e que seria bom conversarem com a pessoas dizem umas às outras. desencadeia a constituição de um sistema achando que está sendo bom. o SDP se constitui pelas conversa. reali- componentes são pessoas em interação – conversan.. Está começando a surgir um consenso de que determinado pelo problema”. mexer em tudo. conversações. como se o desvio parte do sistema. distinguimos uma criança com comportamentos Capra 1996).

mobilize para conversar sobre uma situação que seja tentes sociais e psicólogos judiciários. problema”. esse será um “atendimento sistêmico”. o profissional habilitado para desenvol- veria. ou seja. versar sobre algo que está sendo definido como um mover-se pessoalmente. Para a prática. Por exemplo. a patologia recriminações de umas para com as outras. Claro que os motivos que le. quando concebemos participar dos “Encontros Conversacionais do SDP”. a pessoa que já está conversando ou se dispõe a con- pados. É o que Aun (2007a). acusações e dos aspectos negativos. Klefbeck (1996) deu a um workshop que ministrou ses jovens. Assim. Mas o “sis- em uma interação lingüística.aí existe um problema. 1. Goolishian e para a constituição do “sistema de atendimento” as Winderman (1989 / 1988.1. acreditar que muitas delas estejam empenhadas / inte. estejam dizendo coisas tais como: “o judiciário não de. uma acompanhar o cumprimento da medida judicial. chama de “defi- Coddou e Maturana (1998 / 1988) chamam de “conver. pessoas por ele distinguidas como possivelmente en- do que as pessoas “estão ativamente comprometidas volvidas / relacionadas à situação problema./ jovens poderiam “cumprir a pena alternativa”. querendo alguma mudança na situação. suas causas etc. janeiro/junho de 2008 39 .d.”. ser variados. de um problema” tem importantes diferenças em rela- do de “problema nosso”. ONGs. nal. tais como: denunciar. n. comunidade precisam. Como observadores.”. ressadas em resolver o problema. o que elas têm um “problema nosso”. encarregados pela Prefeitura Municipal. zam em busca de solução para um “problema nosso” – Acredito que é pelo fato de o problema emer. não é necessário ção à concepção de uma “rede em torno de um indiví- Revista Brasileira de Terapia Familiar V. será um sistema que se constitui com a acei- mos dizer que essas pessoas constituem um sistema tação dos convites para conversar sobre o problema. podemos distinguir as Parece pouco provável que alguém se disponha ou se pessoas envolvidas nessas conversações: juízes. as famí. escolas. E Dabas e Najmanovich (s. responsabilizar as autoridades. ás. Essa é a organização do para conversar sobre as condições para a manutenção sistema que distinguimos. apontar cul... É provável que entre os componentes das chamadas redes sociais. está envolvida. der. “o PSC deve. Ali- especialmente. parece razoável problema. de tal forma que – tirando o foco cumprem) de umas em relação às outras.. com a qual ela não acredite ter – Programa de Prestação de Serviços à Comunidade. Nesse ou o fracasso – possa ser percebido como um “proble- momento. pensando “tem a ver comigo”. aqueles que. ou mesmo pro. assis. condição fundamental para se constituir um SDP. assim os sistemas com que trabalhamos. eles próprios. técnicos do PSC só de outra pessoa. os dirigentes de instituições da comunidade em Belo Horizonte o título de “Psicoterapia dos víncu- (postos de saúde. Entretanto. admitimos Considerando-se que os “Encontros Conversa- que o problema emerge das próprias relações entre as cionais do SDP” visam à dissolução do problema. fica evidente que. essa concepção da “rede em torno Parece importante nos determos aqui no senti. de viabilizar a reintegração social des. que as pessoas concordem completamente sobre a vam as pessoas a entrar nessas conversações podem descrição do problema. em torno de um problema comum a todas. enfrentando um proble. portanto. o profissional tem o cuidado de se nando / conversando sobre a situação que estão defi. está tomando esse problema como seu. um problema que qual pode ser apenas um “sub-sistema” do SDP origi- envolve a todas elas. tema de atendimento” se constitui efetivamente só com ma. referir ao “problema distinguido” cuja definição emer- nindo como problema para si: expectativas (que não se giu das conversações. antes pessoas. tais como o desvio. não só de A existência de vínculos parece. nenhum tipo de vínculo. ou seja. em vez de sações de caracterização” e “conversações de acusação convidar para conversar sobre o alcoolismo. da abstinência. a forma como todos estão se relacio.. distinguimos conversações que Méndez. 1995) deram a seu livro o título “El lenguaje de los vín- lias desses jovens e. acatando esse convite. Esse agrupamento de pessoas – que se mobili- ma relacional. convida à conversação. Hacia la reconstrucción y el fortalecimiento de la Essas pessoas divergem quanto a considerar sociedad civil”. preocupada. Por outro lado. “as instituições da ver o atendimento sistêmico. Tratando-se. ma solucionável”. o qual nos dispomos a aten. “as famílias não podem. ou em posições antagônicas”. de um proble. empresas) onde os los e das redes sociais”. como. culos. cobrar. Por um lado. ou seja... caracterizando-se como o “sistema de atendimento”. se mobilizam para Então.”. Ambos deixam clara sua proposta de adequada ou não a forma como elas próprias estão se trabalhar com os vínculos (relações) afetivo-sociais relacionando nessa situação prática.. afinal. na nossa concepção. também chamado por nós de “rede em torno de um gir das próprias relações entre as pessoas que pode. p 23) se referem a isso dizen.. nição positiva do problema”. convida e recriminação injustificadas”2. de fazer os convites.”.

Como a equi- blema”. precisam muito desse benefício. As coloca- sidera Klefbeck (1996). Os profissionais sugerem informar ao Programa Bolsa Família sobre a freqüên. que estejam envolvidos com o problema distin. com a freqüência escolar mínima defi. tais como: “Por que será que essas crianças No contexto de atendimento sistêmico. a uma idéia pré-concebida de ou se cortam a bolsa-família dos beneficiários do Pro. posto de saúde disser a mesma coisa: “só me cabe in- sa distinção entre um contexto de terapia e um con. a rede poderá se posto de saúde?”. esse posto de saúde estará também par- lho com a rede em torno de um indivíduo ou em torno ticipando da definição do problema. Pas. n. ções dos técnicos do CRAS poderão desencadear re- tes em situação de crise. na vidas. mas não integrará de uma família corresponderia ao contexto clínico. se os profissi- que têm um “problema”. essa escola não integrará o conversarem a respeito. e que as famílias não estariam trazendo suas crianças ao não um indivíduo ou uma família. exemplo. ao co. percepção deles. Entretanto. também sobre o que eles estão considerando como ção de “rede em torno de um problema”. suponhamos que uma equipe de profissio- lação pertinente. em seus trabalhos com pacien. da gravidez na adolescência” (definição do problema versas pessoas. como também questões desse tipo. em outra hipótese. baseada no pressuposto de que as saúde da comunidade. alguns técnicos de um CRAS – poderá não identificar esse “problema” como um pro- Centro de Referência de Assistência Social. a uma terapia com um sistema familiar ampliado Mas. pois só o que me cabe é Conversacionais do SDP. escola e posto de saú- ou a uma terapia da rede familiar.1. Por cumprindo as condicionalidades colocadas pela legis. sem qualquer critério de participação pré-defi. em período pré e pós-natal. as famílias serão convidadas: as que nido. Uma ou outra família Por exemplo. janeiro/junho de 2008 . mesmo que usemos a denomina. Se um Considero que.. Interessando-se por conversar sobre constituir não só por diversas famílias. meça a se preocupar com a alta reincidência de gravi- nida como suficiente. a saber: as crianças estarem freqüen. escolas e dos postos de saúde poderão decidir. creches. flexões. de uma blema seu e. ou o “sistema de atendimento”. tamente. não podemos perder de vista que pe esperava trabalhar com um “grupo de multi-famíli- o negar-se a conversar e a buscar outra alternativa – as” – uma vez que concebe que a família dessas adoles- que não seja as famílias perderem a bolsa – é uma centes se constitui por seus pais ou responsáveis – sen- 40 Revista Brasileira de Terapia Familiar V. os técnicos do CRAS e os representantes das etc. passarão automaticamente a inte- por diversas instituições públicas e/ou privadas. família. nais do “setor de pré-natal” de uma maternidade co- tando a Escola. conjun- guido. hospitais. Como são responsáveis pelo onais se mantiverem presos a algum conceito de insti- Programa Bolsa-Família. Esses técnicos estão abordar esse problema e convidar as adolescentes grá- achando muito difícil cortar a bolsa de famílias que. tais grar o “sistema de atendimento”.duo” ou “rede em torno de uma família”. um “problema” que agora já não é possamos concebê-la como um “sistema determinado mais apenas dos técnicos do Programa Bolsa-Família. formar ao Programa se as crianças estão com suas va- texto de atendimento sistêmico (Aun 2005) – o traba. famílias se preocupam e conversam sobre a gravidez Se. têm que decidir se mantém tuição familiar. nessas conversas. forma de participar da definição do problema. dependendo de as famílias estarem ou não ção da rede que vai trabalhar sobre o “problema”. portanto. de poderão se interessar pela conversação. Continuando a con- como postos de saúde. por um problema” ela deverá emergir naturalmente mas também dos Postos de Saúde e das Escolas da nas conversações decorrentes da distinção de um pro. cinas em dia”. escolas. Prefeitura Municipal. uma escola disser: “essa precoce e que se disporiam a participar dos Encontros decisão não é problema meu. então. externo às próprias conversações. por definição – a partir de nos. tros Conversacionais do SDP”. apenas seus parceiros e algumas amigas. para que um “problema”. Decide então atendidas no Posto de Saúde. não estão vindo regularmente à escola?” “Por que será locar no centro do “mapa de rede” um “problema”. com suas famílias. seja. conversando entre si. como também con. ONGs versar. então às adolescentes que tragam suas famílias para cia escolar das crianças”. e estarem sendo regularmente dez nas adolescentes que têm atendido. Comunidade. decidir não aceitar o convite. admitem Parece importante ressaltar que. para conversarem sobre a “prevenção da reincidência sam então a conversar sobre seu “problema” com di. blema. E. dentre elas as escolas e os postos de de forma positiva). 1. que convidarão as famílias para conversarem Entretanto. tal como feito aceitarem o convite participarão também dos “Encon- por Aun (1996). ou seja. Mas as adolescentes trazem “sistema de atendimento” ou a “rede em torno do pro. poderão com sua atuação dificultar a constitui- grama.

assim como expectativas recíprocas de que cabe ao Parece então que. um sistema disposto a trabalhar sobre locomotora ou outra. interessada em manter o próprio responsabilidades que elas não podem assumir e a benefício: cada uma pode ter vindo conversar sobre o participação das instituições nas conversações possibi- “problema” de sua própria família. Talvez. dela participam. propiciando a co- forma que possibilite a solução do problema. no trabalho de Aun (1996) e nos suas amigas. que todos poderão identificar quem decide sobre uma nova gravidez são elas mes. algumas delas juntamente com seus companhei. mesmo tempo. Acredito. do pelas pessoas que conversam (Aun 1996). mental. enquanto téc- Mas voltemos ao “problema” dos técnicos do nicos ou profissionais encarregados da assistência. também (Campos e Miotto. mas não é o mesmo. Claro que cada família pode deveria sobrecarregar as famílias. ros. de participantes nas conversações. por não ter assumido ain. ainda que todas possam ter Por exemplo. ou seja. têm. Pode ser tão parecido adolescentes. ser essa uma deficiência visual. a presença de instituições da a uma idéia pré-concebida de família como instituição comunidade – além de famílias – a maior diversidade definida por laços consangüíneos. como o “nosso problema” (Esteves de Vasconcellos mas. as adolescentes argumentam que em um problema só. na sua definição. co-construção outro resolver o problema. independente de do naturalmente uma “rede social em torno do pro. Exigir – a “rede em torno do problema” ou “sistema de aten. porque eles se re- que possa até parecer igual.te-se frustrada e insiste bastante com as adolescentes instituições conversando também. Ao uma das famílias. acredito que o que dá identidade recursos para conseguir que filhos dessa idade freqüen- ao sistema conversacional de que estamos falando aqui tem a escola sem o desejarem.1. um contexto conversacional – contexto signifi- mílias que. As famílias estão correndo ma. dimento” – é o problema que têm em comum: a situa. o risco de perderem o benefício. to sistêmico novo-paradigmático e por ter ficado presa Por outro lado. cortar o benefício de fa. ou seja. assim como as famílias. sem lhes oferecer outros recursos ou sem que a escola ção de todos estarem correndo o risco de passarem também participe da conversação sobre esse proble- por algo que não desejam. entre todos os envolvidos. Qual. as quais possam viabilizar a da o pressuposto da intersubjetividade do pensamen. 1998) que. e que já têm costume de conversar sobre isso com Por exemplo. janeiro/junho de 2008 41 . n. a equipe nas o desenvolvimento de novas formas de relação não pode percebê-lo. ma nosso”. até esse momento. seus desenvolvimentos subseqüentes no Programa O que acontece nesse caso? De fato. blema”. ao mesmo tempo em O que caracteriza o trabalho de atendimento que os técnicos correm o risco de terem de fazer algo sistêmico é a criação de um “contexto de autonomia”. interliga todos os problemas das várias famílias encontro. não Programa Bolsa-Família. conseguir a inclusão. como “proble- ma (a equipe do hospital e as adolescentes que esta. na família e na comu- vam sendo atendidas). os técnicos do programa e demais instituições um SDP – pessoas que já conversavam sobre o proble. as famílias se queixam de não terem Entretanto. isto é. junto com as famí- para que convidem suas famílias para um próximo lias. algumas famílias não cumprem a percebido que seu “problema” é da mesma classe do condicionalidade de freqüência escolar de seus filhos “problema” de outras famílias.3 é sempre algo que implica pessoalmente a todos que Embora cada uma das famílias tenha o seu pro. Essa idéia provavel. auditiva. é o que entendemos por sobrecarregar a família. não estão se relacionando de que todos têm igual direito a voz. o fato de haver acontecer a co-construção de uma solução depende da Revista Brasileira de Terapia Familiar V. presentes. 2007). amplia os recursos mente influenciou também a equipe na escolha da for. cusam a freqüentar a escola. em busca de uma lita uma adequada distribuição das responsabilidades. argumentando que a pro- quer “problema” – definido como tal em conversações fessora grita e é agressiva e que eles não estão apren- intra-familiares. ou pré-adolescentes. transferindo-lhes aceitar o convite. terá aspectos muito peculiares em cada dendo nada que lhes sirva para progredir na vida. que poderão ser colaborativamente mobilizados para ma de trabalhar o “problema”. do portador de deficiência. construção de uma solução para o problema distingui- velmente existem divergências e acusações recíprocas. utilizando-se do “grupo a solução do problema. que a possibilidade de blema e possa conversar sobre ele. por definição. A meta do profissional será ape- o problema por ele mesmo definido como tal. que não querem fazer. dessas famílias o cumprimento dessa condicionalidade. inclusão. nidade. Apesar de já estar se constituin. solução para si própria. pois. Porém. precisam dele. só por obrigação. tem considerado de multi-famílias”. cando regras de relação explícitas ou implícitas – em te. Além disso. 1. já havia Muriki. Prova. Certamen.

Ao um profissional que assumiu a identidade de “cons. e desejado por todos nós: desenvolvimento de um novo Note-se que. autônoma. sas mudanças sociais.1. acredito também que o simples fato estejam vivenciando. fundamental diferenciar entre “mudança no sistema” ção prévia de metas específicas a atingir. portanto. contrário. (mudança de 1ª. Formação e resolução de para si e assumem as conseqüências de suas próprias problemas” (Aun 2007b). trabalho são as relações entre as pessoas e. um “sistema transformador de suas injustificadas” e emergindo um outro sistema. cuja or- relações fundamentais”. o que corresponde ao que tem Isso é o que. de de todos na construção do bem-comum. Ordem) e “mudança do sistema” (mu- Emergindo um “contexto de autonomia”. tendidas pelas atuais políticas sociais. com o encaminhamento das ações contexto social. as pessoas poderão manter sua envolvidos. Ordem). se constitu- suas próprias relações” e que permita a co-construção em como mudanças nas regras de relação que consti- é uma característica inerente ao uso da “metodologia tuímos e vivemos em nossa sociedade. janeiro/junho de 2008 . as dança de 2ª. tão falado uma decorrência natural desse tipo de trabalho. desencadeadas por essa mos distinguir como um “sistema transformador de “Metodologia de Atendimento Sistêmico”. escolhas (Aun 1996)4. tro na convivência”. 42 Revista Brasileira de Terapia Familiar V. ma lingüístico (ou conversacional). dor do atendimento sistêmico não é com esses enca- O modo de coordenar as conversações – de minhamentos ou com essa solução do problema. tal como aqui descrita e exemplificada. Emerge as. também temos considerado que o sistema poderá assumir e impossibilita a defini. efetivamente. aquele sistema giem a participação. então. como profissional sistêmico. Importante ressaltar que. de se constituir assim um “sistema de atendimento” A propósito. conforme explicitado no texto pessoas que dele participam escolhem o que é melhor “Permanência e mudança. que se constituiu em torno do problema. ções distinguidas pelo observador entre os elementos na emoção do respeito mútuo ou aceitação incondici. propiciando o de atendimento sistêmico de famílias e redes sociais”. cujas regras de relação – não mais ne- colaborativamente construídas para a solução do pro. a solução daquele problema inicialmente distinguido ção do “problema” e a dissolução do sistema lingüístico pelo SDP. o que viabiliza ações colaborativas. como Watzlawick. viabilizará verdadeiras sido freqüentemente chamado de “assumir autoria” mudanças sociais – mudanças do contexto social – pre- ou “ser autor”. verdadeiro “desenvolvimento da cidadania”. do mais um “expert em conteúdos” – tal como descrito seu compromisso é com a qualidade das conversas. uma mudança de organização. o compromisso do profissional coordena- que se constituiu em torno dele. nentes do sistema. por Aun (1996) é fundamental para que aconteça o com a criação de um contexto em que cada um venha que tenho chamado de “conversações transforma. o que torna imprevisíveis os rumos Weakland e Fisch (1974). a colaboração e a responsabilida- lingüístico. tituir outras conversações sobre outras situações que Entretanto.identificação de um problema que seja de todos os se dissolverá. ou seja. Acredito que es- Acredito que a emergência de algo que possa. Porém. um “problema nosso”. A coordenação por um profissional sistêmico O que ele pretende. não sen. do sistema – se constitui de “conversações de caracteri- onal. cessariamente explicitadas em leis ou códigos – privile- blema inicialmente distinguido. o foco de seu trutor de contextos” ou “expert em contextos”. de uma forma próprias interações / conversações entre os compo. Nesse sistema. mudança do sistema. a meu ver. Daí a im. não garante que se atinja o objetivo proposto para apesar de poderem acontecer encaminhamentos para essa prática sistêmica novo-paradigmática: a dissolu. 1. as regras de ganização distinguida pelo observador são as transfor- relação serão criadas e recriadas recursivamente nas mações das relações entre as pessoas. parece importante ressaltar que. nova forma de relacionar-se – na emoção do respeito portância dessa forma de se constituir o “sistema de mútuo ou aceitação incondicional – inclusive para cons- atendimento”. n. é que aconteça uma novo-paradigmático propicia o emergir de um siste. zação” e “conversações de acusação e recriminação sim. a reconhecer cada um dos demais como “legítimo ou- doras” (Esteves de Vasconcellos 2004). cujos participantes desaparecendo aquele sistema cuja organização – rela- se dispõem a conversar sobre suas próprias relações.

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no outro.1. como um contexto de interação que permite que cada um defina o que é real para si e assuma as conseqüências dessa definição”. pretendo apontar as diferenças fundamentais que distingo entre esta e outras metodologias em uso para o trabalho com grupos de famílias. Coddou e Maturana. a partir do novo paradigma da ciência” (Esteves de Vasconcellos 2005b). veja-se o texto “Pensamento sistêmico novo-paradigmático: novo-paradigmático. finalmente. n. Esteves de Vasconcellos. sistema determi- nado pelo problema” (Aun. por quê? (Esteves de Vasconcellos 2005 a). forma de constituição do grupo. Coelho 2007a) onde está mais detalhado o uso que temos feito dessas concepções de Méndez. 4 Parafraseando Pakman (1993) que definiu “poder. janeiro/junho de 2008 . de responsabilizá-lo pelo início da mudança. portanto. forma de coordenação das reuniões. ver o texto “Pensando sistemicamente nossas relações familiares. assim como o texto “A ‘teoria da comunica- ção humana’ na abordagem sistêmica da família” (Esteves de Vasconcellos 2007). 3 Sobre nossa tendência de colocar no ambiente. 44 Revista Brasileira de Terapia Familiar V. Aun (1996) definiu “autonomia. 2 Remeto novamente o leitor ao texto “Família como sistema. sistema mais amplo que a família. como um contexto de interação que permite que certos membros de um sistema social dado definam o que é que vai ser validado como real para outros membros do sistema”.Notas 1 Para se obter uma justificativa para essa adjetivação do pensamento sistêmico. no que se refere a: objetivos. aos próprios efeitos distinguidos como decorrência da utilização de uma ou outra metodologia. e. Post Scriptum Noutra oportunidade. a causa do nosso próprio comportamento e. 1.