Estudos de Psicologia 2004, 9(3), 431-439

Desafios da aproximação do construcionismo
social ao campo da psicoterapia1
Emerson F. Rasera
Universidade Federal de Uberlândia

Marisa Japur
Universidade de São Paulo - Ribeirão Preto

Resumo
Nos últimos anos, o construcionismo social influenciou a construção de diferentes propostas terapêuticas.
Buscando compreender de que forma as proposições construcionistas se encontram presentes no campo da
terapia e como dão sustentação teórica a determinadas práticas psicoterápicas, este estudo analisou as
propostas da terapia narrativa de White e Epston, da abordagem colaborativa de Harlene Anderson e dos
processos reflexivos de Tom Andersen. Esta análise apontou para como estão presentes, de diferentes
formas: a) a ênfase nos significados trazidos pelos clientes, b) a análise dos relacionamentos, c) o foco na
potencialidade dos clientes e d) na terapia como co-construção, em consonância com as proposições
construcionistas. Ao mesmo tempo, ressaltou a necessidade de reflexão sobre o caráter restrito da concepção
de “social” e a sustentação de vocabulários modernos sobre o self. Esta análise convida a considerarmos tais
propostas para além de uma perspectiva técnica, redimensionando-as como uma opção discursiva.
Palavras-chave: construcionismo social; psicoterapia; significado

Abstract
Challenges of using social constructionism in psychotherapeutic context. In the last years, social constructionism
has contributed to the construction of different therapeutic proposals. Aiming to understand how
cosntructionist assumptions theoretically sustain certain therapeutic practices, this study analyzed White &
Epston’s narrative therapy, Harlene Anderson’s collaborative approach and Tom Andersen’s reflexive pro-
cesses. According to constructionist assumptions, this analysis pointed to how it is presented, in these
different proposals, a) an emphasis on the meanings brought by the clients, b) an analysis of the relationships,
c) a focus on client’s potentials and d) a notion of therapy as co-construction. At the same time, it pointed out
the importance of reflecting about the concept of context used by those authors, as well as the sustenance of
modern vocabularies of self. Finally, moving away from technical perspective, this analysis invites to consider
those proposals as discursive options.
Keywords: social constructionism; psychotherapy; meaning

Terapias construcionistas? interligação entre conhecimento e ação; e a valorização de
uma postura crítica e reflexiva.

O
construcionismo social consiste em um conjunto
variado de contribuições teóricas que tem ganhado No campo da psicoterapia, especialmente da terapia fa-
espaço na literatura em Psicologia nas últimas duas miliar, a utilização das idéias construcionistas tem se concre-
décadas, inicialmente na Psicologia Social (Gergen, 1997, tizado através de propostas de intervenção marcadas por uma
1999; Spink, 1999), tendo se espalhado para outros campos, nova descrição da postura do terapeuta e do processo
como o da Psicoterapia (Grandesso, 2000; McNamee & terapêutico. Segundo alguns autores (Gergen, 1999; Gergen
Gergen, 1998; Niemeyer, 1998; Rasera & Japur, 2001). Ape- & Warhuus, 2001; McNamee, no prelo), as terapias baseadas
sar das particularidades de tais contribuições, autores como no construcionismo social têm promovido diferentes ênfases
Burr (1995) e Gergen (1999) afirmam que elas se articulam em nas práticas psicoterápicas, quais sejam: (1) foco no signifi-
torno de quatro idéias centrais, quais sejam: a ênfase na cado: a investigação construcionista busca focar a atenção
especificidade cultural e histórica das formas de conhecer- nas maneiras particulares pelas quais a pessoa se constrói
mos o mundo; o reconhecimento da primazia dos relaciona- nos relacionamentos e nos significados que orientam sua
mentos na produção e sustentação do conhecimento; a vida; (2) a terapia como co-construção: o terapeuta abando-

esta última é mais rica que o discurso. os construcionistas têm focalizado experiência vivida. Por um lado. denominadas por seus sentidos em uma postura de colaboração. então. Epston (1990). da Austrália e Nova Zelândia. apenas expressarão seus alguns desafios da aproximação do construcionismo ao cam- valores quando se tornar necessário na situação terapêutica. Estes terapeutas familiares. Hoffman (2002) defende que as terapias pós-modernas po. o próprio experiência vivida. eles apontam que e se transforma de uma relação para a outra. portanto. então. multiplicidade de selves que nos habita nos vários relaciona. los. seu objeto e mudança?” e “qual o relacionamento terapêutico é sempre pautado por determi. é o de criar Considerando este objetivo. constituem. indeterminações. Nesta análise das implicações constitutivas da narrativa. p. uma unidade de sentido que oferece uma estrutura para a vestigação psicoterápica. ção. “uma história pode ser definida como mas de significação. não se tratando. pessoas devem preencher para que seja possível representá- al de Newman e Holzman. inclui te. O papel do terapeuta. White. a forma da expressão e os efeitos e dos objetivos contextuais. estas características podem ser ções secundárias sobre determinados fatos. quais os desafios que apresentam. Em outro texto. ção das pessoas. Esta análise nos permitirá. 1998. atra. A cada nova versão. mas de descrever um problema. se destacar ou desaparecer. todos os textos têm certo . ao contrário. e faz com que passado. Apesar de Gergen apontar tais a vida e as relações das pessoas. no esforço de dar sentido às suas vidas. É construcionista. permite às pessoas um senso de conti- ficas de promover este processo de transferência. representantes da virada narrativa neste campo mentos nos quais estamos envolvidos. White & Murray. esta narração. Este relato no tados pragmáticos desta utilização propondo formas especí. a terapia narrativa. 30). a cer. (7) aten. recortam o que deve apare- propostas terapêuticas como típicas do construcionismo. e à sua reificação nos processos de in. quais sejam. os processos reflexivos de Tom Andersen e vés de uma análise dos relacionamentos nos quais ele está a abordagem colaborativa de Harlene Anderson. as semelhanças e diferenças entre as mesmas. Nesta proposta. um relato coerente de si próprias e do mundo. modelam na solução e a polivocal. bem de intervenção marcadamente políticas. tos a serem expressos. bem como explicitar a indiferentes à denominação de construcionistas. isto é. nuidade e sentido em suas vidas. tempo. contudo. selecionamos para análise condições para o surgimento de conversas que gerem novos três propostas influentes no campo. rumo à co-constru. (Epston. (5) ênfase polivocal: em oposição à idéia de uma única e ver- Michael White e David Epston: narrativa e poder dadeira definição do real e à visão de um self unificado. po das teorias psicoterápicas. Outros. encontradas em três formas típicas de terapia determinam primariamente o que se considerará como fato. É através destas histórias que a experiên- sua atenção em um discurso de potencialidades positivas e cia é interpretada” (Epston et al. 119). porém convidando vem suas vidas” (p. (6) foco na ação: ba. os referidos autores separam a experiência vivida da narração dem ser mais bem identificadas às terapias narrativas e às sobre esta experiência. questionando posições construcionistas.. suas ênfases e sensibilidades. se dá segundo determina. “os relatos estão cheios de lacunas que as tas quanto a abordagem sistêmica de Milão e a terapia soci. o objetivo A atenção construcionista à multiplicidade de vozes se deste trabalho é descrever algumas propostas terapêuticas dá de duas formas. iden- nados valores que influenciam na construção dos sentidos tificar as descrições construcionistas privilegiadas em tais neste contexto. ao buscar estabelecer Narração e experiência vivida não se encaixam completamen- diretrizes características das terapias pós-modernas. dos trazidos por ele. as pessoas reescre- ção do que é uma terapia construcionista. sobretudo. o papel do terapeuta?”.432 E. a idéia de polivocalidade busca promover uma multiplicidade de for. a seleção dos acontecimen- uma construção retórica. Gergen (Gergen & Warhuus. (4) destas três propostas se orientará a partir de duas perguntas: sensível a valores: o terapeuta construcionista considera que “como descrevem a terapia.F. Estas lacunas convocam a experiência vivida e a imagina- Evitando participar dessa discussão sobre uma defini. 1998. São elas que determinam o delimitação do que é uma terapia construcionista também é sentido que é dado à experiência. autores ou pela comunidade de terapeutas como ção. Alguns terapeutas chegam a propor formas propostas. Baseados em uma metáfora textual. Apesar de tal narração dar sentido à terapias dialógicas/polivocais. de direções da vida. seados na idéia de que o processo de significação é contínuo 1990). uma descrição definitiva estabelecida por critérios a priori. ção às potencialidades: a partir de uma crítica à noção de presente e futuro se mesclem na produção de qualquer narra- problema como algo que existe independente de nossas for. construindo construído no contexto terapêutico. No dizer de White e na lista de terapias construcionistas abordagens tão distin.Japur na uma postura de especialista que dirige o processo consideradas construcionistas e analisar de que forma as pro- terapêutico rumo a determinados significados. a uma reflexão sobre essas diferentes propostas. 2001). a terapia narrativa de busca a compreensão das questões trazidas pelo cliente. 1994. (3) foco no relacionamento: a terapia construcionista construcionistas sociais. organi- se preocupam com a possibilidade de utilização do discurso zam sua experiência em seqüências temporais. A análise envolvido e nos quais constrói determinados sentidos. os construcionistas as pessoas. a focada neste sentido que tais narrativas são constitutivas. White & Epston. espaços. dão a utilidade de seu vocabulário profissional para cada cliente sustentação teórica a determinadas práticas psicoterápicas e com quem conversa e enfatizando as linguagens e os senti. como os terapeutas como contextualizar as críticas a elas dirigidas e refletir sobre feministas e gays. fora dele e com os resul. É importante notar que estas narrativas não são narra- Segundo Gergen (1999). quais sejam. há frestas. White e Epston. na construção de realidades futuras.Rasera & M.

Segundo resposta diferente. as diferentes perspectivas de leituras e as diver. deve ter um caráter mais geral do que específico. privilegiar termos populares e não técnicos. o término do processo terapêutico. pensamentos. definido a partir da idéia de que estimulando. no presente e no futuro. enfraquecendo-o. (p. é visto como um rito de passagem. Estes aspectos são denominados por White e Epston de formular perguntas que facilita o desenvolvimento destas (1990) de acontecimentos extraordinários (unique outcomes). pelos clientes. há aspec. supomos também que nestas circuns- trução de novas narrativas. proposta psicoterápica. do desde a primeira sessão e estimula a pessoa a se envolver da? A concepção de narrativa dominante se baseia na análise na tarefa de se separar do problema. ressituando-o e redefinindo sua relação com o da que contradigam estas narrativas dominantes. da experiência vivida que as narrativas dominantes não abar. a imaginação de seus clientes. A partir da definição do problema e através das pergun- Assim. sobre a produção do conhecimento/poder e seus efeitos Mas como definir o problema que se deve externalizar? constitutivos. mesmo e o mundo. dade para a ação. 206). ações. White (1994) sugere que o final da terapia seria uma não a do problema. Ao permitir que a pessoa se separe do problema. destino ou a um status melhor que o anterior” (p. a intervenção por excelência des. Por meio do reconhecimento de acontecimentos extraor- as pessoas experimentam problemas. a influência da pessoa Mas o que vêm a ser estas narrativas dominantes que sobre a vida do problema. de mudança e como promovê-la. ressaltam o uso da imaginação no desenvolvimento da tes traduz a sensibilidade construcionista desta proposta te. sensível frente a determinados aspectos das histórias trazidas Decorrentes desses aportes teóricos. Nesse processo de cons- vivências. Muitas vezes os clientes podem produzir descrições dos pro- experimentamos os efeitos constitutivos do poder por meio blemas que dificultam a identificação da influência do proble- de verdades normalizadoras que configuram nossas vidas e ma e dos acontecimentos extraordinários. do desenvolvimento de discursos de “realidade objetiva”. ou seja. do a “criação de histórias alternativas que incorporem aspec- o recontar de uma narrativa produz outra narrativa que inclui tos vitais e anteriormente negados da experiência vivida” aspectos da anterior e a amplia. Este modo de entrevistar é utiliza- abarcam apenas determinados aspectos da experiência vivi. White e Epston (1990) sideração do poder constitutivo destas narrativas dominan. pois não se mento extraordinário. o problema em terapia passou a ser recer o desenvolvimento de relatos em torno de tais reações. por meio dessas verdades normalizadoras. tas de influência relativa é possível identificar um aconteci- tos de nossas vidas que deixam de ser narrados. p. podendo. mas a idéias construídas por meio te aceita pelas pessoas envolvidas no processo psicoterápico. ouvir. ela pode ritual de transição de uma identidade. a pessoa recupera sua capacidade celebração e ao reconhecimento de que a pessoa chegou a um de identificar outros fatos acerca de sua vida que contradi. as- ta proposta para a terapia é a externalização do problema. ao separar a pessoa de uma his- Buscando criar espaço para outras narrativas não tória saturada pelo problema. a presença de significados zem tal história e proporcionam as pistas para a construção implícitos. de um status social. presente ou futura. a pessoa torna-se capaz de assumir sua responsabilida- se refere ao exercício de separar a pessoa dos problemas que de na construção de novas possibilidades. 31) mesmo. várias são as impli. À medida que o terapeuta conhece as reações cações para a descrição do processo psicoterápico: a defini. White e Epston (1990) elaboraram um modo específico cam. portanto. Por outro lado. esses “relatos extraordinários”. etapa que “se centra na reinserção da pessoa em um mundo ção mais confortável a si mesma. a qual torna o terapeuta mais rapêutica aos valores promovidos por tais verdades. etc. extraordinária. disponibilizando determinadas formas de ver. para passar a se descrever a partir de uma outra perspectiva que outro. Considerando a construção de novas narrativas sobre si tes. externalização do problema. comuns da pessoa e pode antecipar o que constituiria uma ção de problema. Esta nova narrativa. para isso. Para White e Epston relações. Deixando de lado a história social familiar e que promove a incorporação dos demais à saturada pelo problema. Ela sim. A con. 1990. Este foco construcionista nas sas formas de se descrever uma mesma situação produzem potencialidades redimensiona o objetivo da terapia como sen- certa indeterminação que exige um ato interpretativo. Para este autor. gerar uma outra descri. da terapia. e ser mutuamen- jetivos sobre as pessoas. efetuada por Michel Foucault. ele tem condições de favo- White e Epston (1990). quando as narrativas dentro das quais “relatam” sua dades que produzem novas narrativas. para os quais procuram dinários e da criação de explicações. 1990. produz uma sensação de liber- marcadas por um problema. sentimentos. a pessoa revisa sua relação com tâncias haverá aspectos significativos de sua experiência vivi- o problema. de capacidade de intervir no mundo e. de novas histórias. nesta terno. O problema se torna algo lingüisticamente separado. (1990). bem como da” por outros – não representam suficientemente suas suas exigências. elas enfrentam. . Construcionismo social no contexto psicoterapêutico 433 grau de ambigüidade. que têm uma localização cia relativa e é composto por dois conjuntos de perguntas: o histórica. menos constante e restritivo. encaixam nos parâmetros descritos em tais verdades. 46-47). processo de entrevista é denominado perguntas de influên- intenções. 32). a definição deve buscar manter certa fluidez ao longo sentir e falar sobre as coisas e o mundo. Esse Estes “incluem toda gama de acontecimentos. histórias alternativas. Assim. inclusive a si próprio. redescrições e possibili- terapia. então. aumenta-se a resis- experiência – e/ou dentro das quais sua experiência é “relata- tência da pessoa frente aos efeitos do problema. através da coisificação/personificação des. E. Tais verdades normalizadoras não estão referidas a fatos ob. ex. há aspectos (White & Epston. sobre a vida da pessoa e o segundo. e que o relato dominante não primeiro conjunto busca descrever a influência do problema pode incorporar” (White & Epston. p. Além disso. o qual pode ser procurado no passado.

a de que a multiplicidade de pessoas que uma gítimos. Trata-se de uma prática clínica na 1993. o terapeuta e o entrevistador farão pausas para dis- a orientam. conjuntamente definida enquanto coisa. cando criar condições. os processos reflexivos – não é um das situações.. então. Decide-se. na qual ela produz conhecimentos necessários e le. 1999) está mais diretamente ligada. Quarto. Sempre privilegiamos algumas distin.Rasera & M. na forma de apresentar as inter. o entrevistador busca . como” tes.F. ou” na apresentação das interpretações à ocorrendo nas conversas. Para ser até onde julgar confortável. que se possam produzir novas descrições e entendimentos pe reflexiva. a de que há três tipos de diferenças que produ. Estas diferenças se determinadas diretrizes para a prática clínica. ções para quem faz a entrevista. sas com a família. O formato da equipe reflexiva pode variar conforme as Esta forma de trabalhar surgiu em decorrência do des. Primeiro. Encontramos aqui a ênfase constru. Contudo. tanto para quem dão na linguagem. forma geral. da por dois ou mais consultores. Sempre há mais diferenças do As idéias apresentadas anteriormente e que orientam esta que se pode perceber. a adequação desta proposta. própria. ela pode ser de dois tipos: a equipe reflexiva venções terapêuticas nos moldes propostos pela abordagem formada apenas por um consultor e a equipe reflexiva forma- de Milão na terapia familiar. Uma primeira mudança nesta forma de traba. as adequadamente incomuns. de uma construcionistas. Iniciava-se a construção da proposta da Quando a equipe é formada por apenas um consultor. as interrupções para diálogos sobre o que está em vez de “ou. Neste último caso. o forma- pretações da equipe à família. de conforto de Andersen e seus colaboradores em fazer as inter. uma conversa deve se iniciar com zem efeitos diversos: as diferenças comuns – as quais não uma fase de preparação. Nestas duas últimas idéias está desenvolve seus trabalhos na Noruega. ficando os clientes principais. é com todos os participantes. a de que em uma conversa terapêutica há três como uma forma de ação. Andersen diz que o que ele propõe em terapia – a equi. Solicita-se ao terapeuta que participe si.. Nesta fase. se constrói uma nova posição para si possibilidades estruturais. Descreveremos inicialmente as implica- cionista no significado. do problema e de mudança. abordagem na qual seja apresentada uma definição de tera. mas. a de que a constituição de uma pessoa é estru- dos. Esta mudança ocorre como nova narrativa mais confortável e adequada à experiência da resposta a alterações em seu meio. conversas paralelas acontecendo ao mesmo tempo: duas con- onamentos na sustentação da mudança. versas internas e uma externa. ou melhor. sim. As conversas internas de cada falante buscam lidar com as idéias trocadas e com a participa- Tom Andersen: processos ção na conversa externa. em alguns mo- pensar. então. prática da equipe reflexiva. entrevistador e quem será o observador. Decide-se. através de processos reflexivos. Segundo. Para Andersen (1999). sem que sua inte- Andersen. À medida que a pessoa ção à sua própria vida. em relação a outras. então. numa clara relação de superioridade da equipe em lisado. no processo qual um consultor ou grupo de consultores – a equipe refle- psicoterápico. para tores. são explicados relação à família. Esta forma de construir o término da se expressa. a qual dava a eles a sensação to é o seguinte: dois membros da equipe reflexiva – o de que suas interpretações poderiam ser percebidas como as entrevistador e um outro – se encontram com o sistema para- melhores.434 E. não possui uma des. É um diálogo interno que permite à reflexivos e outras descrições pessoa trocar. sendo delimitada por suas pessoa. Ao descrever a trajetória de construção desta maneira de esta decisão aos clientes e combina-se que.. nas diferentes situações e contexto. tornando-a menos dependente do conhecimento de pessoa é. Podemos destacar desse conjunto cinco idéias cutir as conversas que estão ocorrendo. construir novas descrições. mas. como para quem está como membro as situações vividas. Neste momento. a uma forma específica de se intervir que se xiva – é chamado a participar de um sistema paralisado bus- relaciona a desenvolvimentos teóricos de vários outros au. circunstâncias e preferências dos participantes. Sua contribuição (Andersen. piciam a abertura à mudança. decorre das diferentes formas de se autodescrever outros especialistas e aumentando sua autoridade em rela. uma maneira de pensar. preciso fazer uma distinção. e as inadequadamente incomuns. bem como a importância dos relaci. autor autodenominado construcionista e que gridade seja ameaçada. o formato mais confortável para para ver e ouvir como a equipe conversava sobre as conver.Japur Há diferentes formas de se proceder neste momento da propiciam mudanças. Contudo. Neste processo terapêutico produz-se. os envolvidos. conjuntamente família. que pro- terapia a partir de uma metáfora de reincorporação. maneira de pensar – os processos reflexivos – implicam em ções ou diferenças. equipe reflexiva e uma elaboração prática da colaboração este conversa com o terapeuta e combina quem será o construcionista. capaz de legitimar a mudança e o conhecimento aí produzi. não apenas uma turalmente forte e em mudança. A partir destas idéias. produzindo diferentes significados para está como entrevistador. método.. a equipe. O passo seguinte foi a inserção do convite à família com todos os participantes. Explica-se. terapia enfatiza o entendimento construcionista da terapia Quinto. incluindo o terapeuta. como uma diferença em seu meio. Andersen (1999) apresenta um conjunto de idéias que mentos. os possíveis arranjos da sessão: as posições dos participan- lhar foi a incorporação de uma perspectiva de “tanto. Andersen (1999) desenvolveu a pia. a de que não há uma coisa como algo em na posição de escuta. também. Terceiro. da equipe reflexiva. traduzida a ênfase polivocal presente em muitas propostas crição de um modelo terapêutico propriamente dito. ela sempre o é como algo distinto de seu meio. todas incluem a identificação e o recrutamento de um público que propiciam o fechamento à mudança. ela se constrói de determinadas maneiras.

os membros da modo de fazer psicoterapia pautado pelo referencial equipe reflexiva apenas ouvem. Busca-se con- tando que as pessoas escutem e falem sobre as mesmas ques. associado à formulação de per. Após todos terem Assim. neste momento. uma troca de posições. guntas do entrevistador na conversa que se segue são orien- ações. Um dos aspectos principais de sua proposta mantendo-se sempre disponíveis a outras aberturas que se psicoterápica se centra na definição do sistema terapêutico mostrem mais relevantes. pela ênfase no caráter criativo da linguagem guntando ou fazendo sugestões. a partir do seu interior. opção construcionista de criação de um contexto de colabo. equipe reflexiva e clientes. Na posição de escuta. através de um convite do vas à realização deste encontro e. versar sobre a necessidade de outros encontros. é a longo da sessão. lizando uma troca de posições. vas sobre o que se conversa. em algumas situ. impor algum perguntas que acredite contribuir para a expansão da conver. Trata-se da ênfase construcionista de sa. neste momento. porém. possíveis explicações. portanto. de entendê-la e descrevê-la. etc. transformações imagináveis ao produto de uma organização social (família. características da for- pôs. ao mesmo tempo. Estas perguntas orientam como será a sessão. per. o entrevistador faz perguntas sobre quais conversas podem ser mais úteis para cada tipo sobre aspectos significativos do que acabou de ser dito. As conversas propostas a partir de um modelo de equipe Ao término da sessão é discutido o futuro das relações reflexiva promovem conversas internas e externas. identificar aberturas. samentos define-se como um diálogo. 1997. é fomentado o diálogo interno. sentido específico. Além de fazer construção dos sentidos realizado pelos profissionais. as perguntas tendem a gerar uma leve ten. mente. formulando senso fechado que busque orientar a família. da participação de outras pessoas. a identificação da adequação do que o terapeuta fala expressado suas opiniões. o entrevistador investiga. De forma geral. estar mas por uma abertura. bem como pausas no fluxo da conversa. possibili. pode ser considerado como atua a equipe reflexiva na posição de escuta? Enquanto como uma das tentativas mais explícitas de construção de um o entrevistador conversa com os clientes. a cada intervenção estas duas posições que Andersen (1998) chama de proces. ocorrem inúmeras aberturas e cabe ao multiplicidade de um diálogo e não o monólogo de um con- entrevistador escolher a abertura a ser usada. Estas duas posições podem gerar diferentes perspecti. no qual os significados são vos possibilitam considerar atenciosamente várias destas relacionalmente construídos. ouvir consiste uma prática Harlene Anderson: colaboração e dialogismo importante de tal processo. que pode fazê-lo para saber as opiniões da te deve expressar que o assunto está incomum demais. são marcada por algum tipo de mudança na atividade dos então. Após os comentários da equipe reflexiva. conexões entre as. perguntas e especulações sobre ou- diálogo para fazer novas perguntas. junto aos clientes. O sistema terapêutico não está referido suntos aparentemente díspares. uma nova política das relações entre clientes e profissionais. independente da fala ou do silêncio. tanto no que se determinadas reflexões. A possibilidade de reflexão se afirma a partir da ção de que há muitas formas de se perceber uma situação e. quem o pro. Ao de assunto e situação. sem fazer interrupções. As trocas de posição ocorrem. e por uma atenção aos processos de produção de sentido a tes são autônomos para decidirem o que conversam e como o partir de uma perspectiva hermenêutica (Anderson. é importante que se desenvolva um sentido de co. descrições na construção da pessoa. Para isso. o entrevistador pode também apre- se dá tanto ouvindo como vendo. quem primeiramen. os membros da equipe buscam Anderson & Goolishian. Mas sua parceria com Harold Goolishian. eles tentam refletir como um sistema lingüístico. entrevistador. marcada não mais por processos hierárquicos unidirecionais. O entrevistador e os clien. sem redução no fluxo de trocas durante a conversa. É justamente a transição entre Em todos os momentos da sessão. uma disponibilidade em estar com o outro. casal. ver seja mais importante que ouvir. poderia também ser chamada de posição reflexiva. a partir de pois. O que se busca. incomuns. presença. e suas conseqüências para o sistema. e de como ma e dos conteúdos da fala e conseqüências de partilhar as pessoas gostariam de usar o encontro. segundo este autor. fazem. pressões da conversa da equipe reflexiva. Construcionismo social no contexto psicoterapêutico 435 realizar uma investigação da história do encontro. constrói-se No processo reflexivo. o que o terapeuta busca saber observando a rea. refere aos assuntos como em que formato. É neste sentido que sentar para discussão suas idéias sobre tal conversa. portanto. no qual são feitos mui- Durante a sessão. suas im- clientes. e dar a equipe a respeito de determinado aspecto ou para dar uma oportunidade a todos de expressar um compromisso com o pausa para o sistema paralisado. perguntas e estar com o outro. guntas. é importante que se mantenha a concep- sos reflexivos. há novamente ção dos clientes frente ao que ele fala. A posição de escuta. Os processos reflexi- ração entre equipe e clientes. geral- mente incomuns. as aceitações e rejeições entre os participantes. tadas pelas mesmas diretrizes apontadas anteriormente. Novamente.). pensar sobre sua importância. À medida que ocorrem tras possíveis formas de descrever o que ocorreu. As per- Andersen (1993) chega a afirmar que talvez. A ênfase construcionista na sobre os mesmos aspectos que orientam o entrevistador: produção relacional do significado é traduzida de forma exem- outras descrições. do processo de junto. o entrevistador utiliza as aberturas no tos questionamentos. observar quem tem maiores reser. entre entrevistador. rea- buscam. encontro e suas percepções sobre o que e com quem se deve O momento em que a equipe reflexiva partilha seus pen- conversar. construcionista. 1988). . dos participantes. uma ou duas vezes durante uma sessão. O trabalho desta terapeuta familiar americana. Quando adequada. Além disso. bem como tões. Estas perguntas A equipe reflexiva pode partilhar seus pensamentos. as perguntas devem ser adequadamente construção de novas potencialidades a partir da multiplicidade. plar nesta definição.

ma terapêutico e o sistema do problema. posteriormente. um diálogo externo com o cliente. é único para a matriz conversacional um problema. é necessário que se produzam descrições dos minados sentidos e formas de se descrever as situações e o problemas com as quais se possa trabalhar no sistema mundo. esse processo de mudança possibilita o desen- (Anderson. este. está em fluxo. uma con- tivas. 76). um cliente e um pensamento em termos de nossos papéis e funções como terapeuta) geram significado umas com as outras (. é interpretado e descrito de formas juntamente produzidos. p. O importante é produzir conversa. Desta perspectiva. no conteúdo – problemas e soluções –. fora do espaço terapêutico. o processo de mudança. A mudança se dá através das redescrições. outros sentidos O terapeuta se constrói na relação terapêutica. marcada pela ênfase polivocal pro- é.. novos temas. natural e espontânea que é única um sistema terapêutico é um tipo de sistema de linguagem para cada relacionamento e cada discurso. não controlando medida que a investigação sobre o problema ocorre durante o desenrolar da sessão. comumente as. não é o espaço dialógico interno consigo mesmo e. das do qual surge. duais em primeira pessoa ao longo do processo psicoterápico. 72). como evento lingüístico que da mudança. é dissolvido na linguagem. através de uma parceria conversacional. próprio. Assim. Assim. Daí uma nova atenção para as narrativas indivi- nóstico tradicional. Assim. independentemente de faze. tais descrições não são produzidas tal como um diag. passaria a sistema que tem. ao contrário. O que importa no cipam do sistema. Estas duas posições são.436 E. não se deve esperar a produção de uma des. bem como o terapeuta. À medida que a investigação compartilha- autocompetência para lidar com um problema. terapia se iniciaria com o engajamento do terapeuta em um sociada ao problema que criou tal sistema. sentidos e entendimentos são con- ocupa e se quer mudar.F. movida pelo construcionismo. Através deste processo de conversação dialógica se dá rem parte de sistemas definidos socialmente. o terapeuta é um observador deve possibilitar posições de respeito mútuo e deve permitir participante que busca situar-se em uma posição igualitária. 1997). descrevem.. produtor de sentido? Segundo Anderson. a qual considera e trabalha com O foco desta forma de trabalhar em psicoterapia não está todas as visões presentes no sistema simultaneamente. não hierárquica. através da noção de postura filosófica (Anderson. A participação do terapeuta neste processo conversacional A descrição do problema precisa ser “trabalhável”. bem como se desfazem o siste.) [mudamos] o relacional no qual as pessoas (no mínimo..Japur mas a um produto lingüístico que existe nas descrições e narra. problema não é mais do que o que as pessoas envolvidas nas Mas o que muda por meio desse processo? Para ações comunicativas estão chamando de problema” Anderson. da definição do problema. con. ou seja. juntamente. de facilitador participante da conversação. terapêutico. ele constrói. 1988). as quais permitem modos de perceber e agir antes ção. A responsabilidade do É a partir destas narrativas que os indivíduos derivam sua terapeuta é criar um contexto conversacional no qual seja percepção da própria capacidade de agir socialmente.) [o qual] terapeutas para considerar nossos relacionamentos com as está comprometido em desenvolver linguagem e sentido espe- pessoas com as quais trabalhamos” (p. como vi- são possíveis quando o sistema terapêutico se caracteriza mos. Em novas nuanças e dos diferentes significados atribuídos a si- acordo com um foco construcionista no relacionamento. produz e gera determinados problemas. pessoa do terapeuta. cíficos para si próprio. É algo que pre. específicos para sua organização e es- busca-se a consideração da multiplicidade representada pela pecíficos para sua “dissolução” em torno do problema (p. 94). 1997. Esta é “uma posição autêntica. (. Isto propiciaria ticipam do sistema terapêutico aqueles que estão no contexto um engajamento do cliente em diálogos internos e externos lingüístico do problema. porque perdem seu senso de ção colaborativa. vieses e julgamentos também parti- através do qual se conversa sobre algo. mas no processo suas próprias concepções. e em um diálogo externo uns com os outros. De um lado. narram e produzem o problema. “um tuações vividas ou imaginadas. sujeito a revisão infinita. há uma . são geradas também outras formas de descrever a si terapêutico.Rasera & M. mas a da multiparcialidade. portanto. Não se trata de uma técnica. não é a da simples neutralidade. Através da produção de deter- Contudo. é descrita a partir de diferentes posições (Anderson & tem que fazer sentido para todos os envolvidos no sistema. De outro. 1988). Seria necessário. volvimento de futuros selves. À criar e sustentar uma conversação dialógica. os problemas que organizam determinados siste. possível estabelecer um processo de definição do problema. que o cliente entrasse em um diálogo interno consigo mesmo mas. Nesta posição. como uma conversação dialógica. e que é versação dialógica ou uma investigação compartilhada em reconhecido por sua relevância comunicativa. os quais não são mais definidos como múltiplas e conflitantes. Para esta autora. a mudança é uma Mas o que é um problema? As pessoas procuram terapia.. os outros membros. mas um Mas o que permite ao sistema terapêutico ser um sistema jeito de estar consigo próprio e com o outro. Nesta definição. colaborativamente com Entretanto. final e consensual ao longo deste processo de aperfeiçoar as descrições dos membros. e a participação de todos na transformação de seus sentidos. a realidade terapêutica. conseqüência natural de um diálogo gerador e de uma rela- costumeiramente. então. na posição definição do problema. Esta concepção tem uma implicação clínica marcante: par. impedidos. aqueles que conversam. em relação aos outros membros do sistema incluindo o terapeuta (Anderson & Goolishian. da ocorre. Goolishian. sistema terapêutico é sua definição enquanto sistema produ. sintetizadas tor de sentido. mas. o terapeuta busca ções nas quais se ampliem os sentidos sobre o mesmo. A partir da ênfase construcionista na colabora. pois terapeuta e cliente participam. nem sendo o responsável pela direção o processo psicoterápico. que se desenvolvem através da conversação. sem corrigir ou crição única. Para Anderson (1997). Sua posição.

As proposições construcionistas não se A postura de não-saber representa um dos principais traduzem de forma mecânica e homogênea. Esta postura impli. dos por atos de conectar. Ela está contexto para a criatividade e inovação dos terapeutas na referida à postura do terapeuta na criação de um espaço construção de diferentes recursos terapêuticos. série de críticas referentes. Nesta proposta. e não de técnicas instrumen. Na terapia narrativa de White e Epston (1990). sejam terapeutas ou participantes. Desta forma. e a fiar e acreditar. possibilitou-nos visualizar que o terapeuta desenvolva seu estilo pessoal. mento de outras. podemos destacar algumas ao cliente. ção. às suas propostas. De um lado. é compartilhada com o cliente. Andersen (1999) cria-se uma nova política das relações entre A responsabilidade no sistema terapêutico. À medida que o terapeuta não se coloca a idéia de um sistema formado pelo problema redimensiona e como conhecedor da verdade e do melhor para o cliente. preconceitos. pode criar uma nova narrativa sobre sua vida. e aquele. limitando e restringindo as possibilidades de tais. sem ser guiado pecífico de diretrizes para a prática terapêutica. os críticos consideram que mui- verdade de suas realidades e não as do cliente. estão presentes ponder. a A relação terapêutica. cabe ao terapeuta Refletindo sobre as propostas criar um espaço e facilitar um processo de diálogo. 135). para promover uma conversação substitui a busca pela solução. sendo pautada pela reflexão e. Nesta pro- convida a se responsabilizar conjuntamente pelas mudanças posta. ele o complexifica a composição do sistema terapêutico. a partir de conselhos dos de posições mais igualitárias. é um “jeito de ser”. metáfora da reincorporação. fazer perguntas conversacionais. dialógico na conversação terapêutica. a partir desta clientes e profissionais na qual o partilhar das reflexões nas con- posição. questões e opiniões. manter a coerência. processos de mudança para todos os envolvidos no sistema Este. mas servem como traços característicos desta abordagem psicoterápica. as diversas tentativas de aproximação entre o uma disposição do terapeuta à dúvida. Anderson (1997). no relacionamento. na busca fica do terapeuta. A apresentação de um conjunto de ações enfatizadas Esta posição filosófica. é sensível aos valores do terapeuta e dos lingüisticamente do problema e. 1999. sigo próprio e com os outros. aponta que. 1995. versas terapêuticas imprime um novo jeito de se relacionar con- plorar esta responsabilidade relacional não é mudar o imper. Por outro lado. Se. Kenwood. ao invés de criar condições para a ampliação e ções dialógicas e relacionamentos colaborativos caracteriza. “um terapeuta à tendência de identificá-los com determinadas práticas pode precisa arriscar ser um aprendiz a cada novo cliente” (p. ter o efeito contrário ao pretendido por uma “teoria generativa” Através destas posturas. nas potencialidades e na ação. (Gergen. 1998). expansão dos horizontes de entendimento. dúvidas. Resumidamente. a questio. correndo o risco de afirmá-las em detri- ver seu conhecimento ou preocupações. nante. segundo cada uma para a ação”. ou seja. colaborar e construir e que marcam os autores das três propostas analisadas parecem não ser . Através dos processos reflexivos propostos por Tom tuações complexas apresentadas pelos clientes” (p. somado conhecido. estar em sincronia e honrar a com diferentes ênfases e de formas particulares em cada uma história do cliente. Vemos assim como o foco no significado. não querer entender construcionismo e o campo da psicoterapia encontram uma muito rápido. a postura de não saber e a proposição de uma parceria que ocorrerem. cabe ao terapeuta uma postura de não-saber. a abertura à clientes para seus terapeutas. múltiplas e algumas vezes conflitantes sobre as si. conversacional entre terapeuta e participantes contribuem Além de considerar as características da posição filosó. abandonando tos autores não têm uma postura construcionista em relação uma postura mais voltada a mostrar. Esta postura implica Contudo. ao identificar e explorar os clientes. ouvir e res. ocasião pede. se permite e estimula destas três propostas específicas. feito ou resolver o conflito. entendido a partir de uma do Anderson (1997). antes de constituir um “método pelo terapeuta no processo psicoterápico. o término da terapia. na área do conteúdo. Segun. 103). “refletir e me mostrar para o outro permi. é possível criar conversa. a evitar compreensões prematuras. conforme Anderson. A intenção principal do terapeuta. é estabelecer uma construcionistas em psicoterapia oportunidade dialógica. proposta. sobretudo. oportunidade de diálogo e sustentar uma investigação com. O que se exige é flexibilidade para se fazer o que a idéias inovadoras propostas por esses terapeutas. contar. na colabora- partilhada. conversação. naturais. por um lado. concepção da especialidade do cliente. sensibilidade a valores e às múltiplas vozes. O risco da pelas perguntas do que o terapeuta acha importante ser dito/ institucionalização dos discursos construcionistas. con. O uso desta o que poderia ser uma prática construcionista no campo da abordagem será distinto em relação ao terapeuta. por episódios nos quais ela não se submeteu à narrativa domi- partilhar em voz alta os diálogos internos e privados. criticam a idéia dos “princí- ca também uma disposição ao risco de permitir ao cliente pios” construcionistas serem traduzidos em um conjunto es- dirigir o contar sobre sua própria história. validar ou promo. ou procedimentos universais. Nesta mentos. por ser pública. seguindo uma inspiração externalização do problema permite que a pessoa se separe construcionista. explicita a relação do sistema te a mim e ao outro ter mais flexibilidade em lidar com opiniões terapêutico com a sociedade em que está inserido. Construcionismo social no contexto psicoterapêutico 437 combinação das especialidades do terapeuta e do cliente. mas ampliar as vozes admitidas Na abordagem colaborativa de Harlene Anderson (1997). para a transformação da relação entre os mesmos. Pautado na terapêutico. Nas palavras de Anderson (1997). no processo. à sessão e psicoterapia. pensa. na conversação. o terapeuta evita fazer perguntas para verificar a Lyddon. O objetivo de se ex. destas propostas. 1997). à utilização das idéias nar o que já se sabe e a valorizar o conhecimento do cliente. construcionistas neste campo (Held.

T. prática psicoterápica.Rasera & M. como preliminary and evolving ideas about implications for clinical theory. (1997). e Andersen. H. aos recursos conversacionais que utilizamos e a quais podem cionar no contexto terapêutico. 27. (1995). . siderarmos não como técnicas. Além daqueles riscos. as propostas terapêuticas proposta pelo construcionismo social. minadas posturas e seja uma possibilidade de ação que leve ao Reafirmando a distinção entre dark e light diálogo e à expansão das possibilidades de relacionamento. limites e fundamentos em direção a uma prática em permanen- ção do terapeuta. resta-nos o convite construcionista. apesar Alegre: Artes Médicas. a uma Process. Friedman (Org. podemos entender a sustentação Andersen. podemos criar um modo mais produtivo de nos microssocial das conversas terapêuticas. Assim. mas como cundário frente à ênfase na negociação local das mesmas. contribuir para uma aceitação psicoterapia. oferece instrumentos para prescritivo do que por suas possibilidades de inspiração da uma reflexão sobre a articulação entre o contexto macrossocial ação do terapeuta. (1988). especializados e leigos. ção do relacionamento terapêutico. conversar baseadas na aplicação correta da teoria. diferentes abordagens apresentadas neste artigo. ou no cuidado com suas onamentos humanos. O uma opção discursiva que nos permite. podemos comparar as analisadas neste artigo trazem diferentes formas de conside. Processos reflexivos.) A questão do que é terapêutico permanece reconhecendo a importância daqueles discursos. respectivamente. contudo. quais sejam: a concepção do “social” presente mais abrangente do convite construcionista.). uma pesquisa ou ati. T. Gergen (Orgs. de ainda dialogarem com alguns parâmetros tradicionais da Andersen. ao contrário. respectivamente. White Conforme nos ensina McNamee (no prelo). por outro lado. Apesar de conside- rarem a natureza relacional do self. enfrentamento deste desafio talvez possa contribuir com no. e Epston. Reflexões sobre as reflexões com as famílias. acredita.). V. tal como microssociais. Referências finida. ao mesmo tempo.Japur merecedores de tais críticas. na de e do compromisso com o outro na sustentação dos relaci- ênfase em sua experiência vivida. mas. H. A. 371-393. Londres: Routledge. aberta e indeterminada. T. seja na pre.) O que mos ser importante cultivar a abertura a outros discursos podemos fazer. através do con. versação e ao significado de certas negociações na sustenta- dade institucionalizada sejam predominantes. Nesta pers- terapia narrativa de White e Epston (1990). Anderson. os objetivos de cura. é mantermo-nos abertos e atentos sociais que possibilitem outras formas de entender e se rela. & Goolishian. acreditamos ser importante desta. (. no prelo) que pêutica. a uma reconstrução e. os riscos e desafios apresentados não buscam pro- car outros dois desafios que se põem a uma aceitação mais mover um abandono da utilização do construcionismo no cam- abrangente do convite construcionista no campo da po da terapia. estarmos informados pelas idéias construcionistas. Esta postura nos permite Da mesma forma.. Rio de Janeiro: Instituto Noos/ITF.69-85). reafirmando a primazia dos relacionamen- entre os autores na ênfase dos aspectos macro e tos na produção e sustentação do conhecimento. An introduction to social constructionism. compreen- rar as contribuições do contexto social para a conversa tera. dução de sentido e legitimar a importância da espontaneida- ocupação com o senso de autocompetência do cliente. do qual participam clientes e terapeutas e o contexto Assim. In S. constructionism (Danziger. como uma postura terapêutica. levando o campo da psicoterapia a repensar seus terapia construcionista e de técnicas específicas para a atua. a teoria é considerada menos por seu caráter ceito de narrativas dominantes. democrática e comprometida com sua própria reinvenção. J. para uma postura nestas propostas psicoterápicas e os tipos de vocabulários de permanente reflexão que combata o autoritarismo de deter- sobre o self por elas promovidos.. language and possibilities. 1997) e a conseqüente diferença Dessa forma. nos sinto- ainda valorizar a importância dos discursos individualistas niza com o momento interativo no qual a mudança terapêuti- nas justificativas de suas propostas psicoterápicas. (.. Nova York: Guilford. Burr. See and hear. pectiva. and be seen and heard.438 E. possibilidades estruturais. Nova York: inteligibilidades que favorecem uma prática psicoterápica mais BasicBooks. Entre as propostas anteriormente apresentadas. 303-343). H. (1999). mesmo. Ambas as preocupações presentes nas considerações anteriores talvez possam ser mais bem entendidas se tomar- mos a terapia como uma prática histórica e culturalmente de.F. “pesquisa do desalojamento”. McNamee destas formas de descrição do social e do self e reconhecer e & K. estes autores parecem A construção social.. Nas propostas de relacionarmos com estas propostas psicoterápicas se as con- Andersen (1999) e Anderson (1997) a origem histórica e soci. Family propõe Gergen (1997). Conversation. (1993). e vos recursos para o trabalho terapêutico em contextos nos mantermo-nos abertos às condições momentâneas da con- quais relações de estigma e discriminação social e desigual. a podem ser utilizadas nas conversas terapêuticas. servir como alternativas úteis. Assim. ou seja. Reconhecendo as origens modernas da psicoterapia. Human systems as linguistic systems: Entretanto. dendo-as como opções discursivas (McNamee. a descrição de self subjacente a estas reconhecer a abertura e indeterminação do processo de pro- propostas ainda sustenta um foco individualista. (1998). essas críticas vidade profissional na qual novos valores possam ser pro- servem como alerta àqueles que buscam definições únicas de movidos. tais propostas geram novas Anderson.. a distinção entre conhecimentos Andersen. Porto encorajar as contribuições de tais propostas. assim como a conversação. The new language of change (pp. In S. ou formas instrumentais de se al de determinadas descrições parecem ocupar um lugar se. te transformação. nas propostas de Anderson. A terapia como construção social (pp. Mesmo ca é possível.

ticas. ça (pp. 117-138).nov. 305-315.br Recebido em 04. L. F. Guías para una terapia familiar sistémica. An invitation to social construction.ago. Terapia como construção social: caracterís- social. Porto McNamee. do Psicólogo. (Org. Cambridge: Harvard talk: advances in the discursive therapies. Rasera. Medios narrativos para fines terapéuticos. Avenida Bandeirantes.dez. White. cotidiano. Nota 1 Este artigo é parte da tese de doutorado do primeiro autor. Sobre a reconstrução do significado.). A terapia como construção Gergen. B. M. Social constructionism in the counseling context. (2000). Hoffman. Londres: Sage. 27-64). Buckingham: Open University Press. K. forward toward challenging issues. Plenum Press. (1998). Kenwood. doutor em Psicologia pela Faculdade de Filosofia. Niemeyer. Coimbra: Quarteto. In M. Contribuições do pensamento construcionista Grandesso. J. M. The real meaning of constructivism. 8. K. In S. (2001). (1999).). Fax: (16) 602-3793. E-mail: mjapur@ffclrp. W. (1994). (1997). & Epston. Faculdade de Filo- sofia.04 Aceito em 20.usp. K. Tel. São Paulo: Casa para o estudo da prática grupal. (1998). J. Porto Alegre: Artes Médicas.). D. K. J. & Gergen. E. (1995). Counseling Psychology Quarterly. (1998). Gergen. (2001).: (16) 602-3735. Held. S. discurso e narrativa: a construção conversacional da mudan- Counseling Psychology Quarterly. Pare (Orgs. Práticas discursivas e produção de sentido no Psychology. (2002). M. (1999). Barcelona: Gedisa. M. é professor na Universidade Federal de Uberlândia. & Japur. L. Rasera. 11. Marisa Japur. evoluções. (1990).04 Revisado em 29. Strong & D. Psicoterapia.).. Therapy as social construction – back to basics and Alegre: Artes Médicas. McNamee. São Paulo: Cortez. A terapia como construção social (pp. (Orgs. K. Nova York: Kluwer Academic / University Press. J. In D. Social construction in counseling psychology: a commentary reautoria: revisão da vida de Rose e comentário. J.). Gonçalves (Orgs. M. M. and critique. Social constructionism: implications for psychotherapeutic White. McNamee & K. & Murray. M. The varieties of social construction. CEP 14090-910. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. Ciências e Letras de Ribeirão Preto. (1998)..04 . In T. Furthering Gergen. Proposta de uma terapia de Lyddon. S. C. com o apoio da FAPESP e CNPq. Ciências e Letras da Universidade de São Paulo em Ribeirão Preto. K. 3900. Gergen (Orgs. 215-222. reflexões. F. 14. Family therapy. (1997). 11. Social constructionist Buenos Aires: Paidós. 399-416. em Ribeirão Preto.. D. Psicologia: Reflexão e Crítica. Theory and Psychology. R. Nova York: WW Norton & Company. 7. (no prelo). Gonçalves & O. practice. & Warhuus. 201-209. Emerson F. Realities and relationships. White. 135-150. sob a orientação do segundo autor. J. (1999). Cromby (Orgs. Ribeirão Preto. Nightingale & J... Epston. Endereço para correspondência: Departamento de Psicologia e Educação. junto ao programa de Pós-graduação em Psicologia da Faculdade de Filosofia. psychology: a critical analysis of theory and practice (pp. Journal of Constructivist Spink. é professora no Departamento de Psicologia e Educação da Faculdade de Filosofia Ciências e Letras da Universidade de São Paulo. J. doutora em Psicologia Clínica pela Universidade de São Paulo.). J. Universidade de São Paulo. Construcionismo social no contexto psicoterapêutico 439 Danziger. SP. A. 176-189).