DEBATE DEBATE 1927

A Constituição Cidadã e os 25 anos do Sistema
Único de Saúde (SUS)

The Citizen Constitution and the 25th anniversary
of the Brazilian Unified National Health System
(SUS)

La Constitución ciudadana y el 25o aniversario del
Sistema Único de Salud brasileño (SUS)

Jairnilson Silva Paim 1

Abstract Resumo

1Instituto de Saúde Coletiva, This article, celebrating the 25th anniversary of Este artigo, comemorando 25 anos da Constitui-
Universidade Federal da
Bahia, Salvador, Brasil.
Brazil’s 1988 Constitution, aims to review the ção Federal de 1988, teve como objetivos resenhar
country’s social policy development, discuss po- o desenvolvimento das políticas sociais, discutir
Correspondência litical projects, and analyze challenges for the projetos políticos e analisar desafios para a sus-
J. S. Paim
Instituto de Saúde Coletiva, sustainability of the Unified National Health tentabilidade do Sistema Único de Saúde (SUS).
Universidade Federal da System (SUS). Based on public policymaking Apoiando-se em estudos sobre políticas públicas
Bahia.
studies, the article revisits the origins of liberal que privilegiam a gênese, revisita as origens da
Rua Basílio da Gama s/n,
Salvador, BA 40110-170, social policy, focused on social assistance, and política social liberal, centrada na assistência
Brasil. analyzes the hegemony of U.S. policies target- social, e analisa a hegemonia das políticas ame-
jairnil@ufba.br
ing poverty and their repercussions for universal ricanas voltadas para a pobreza e suas repercus-
policies. After identifying the formulation of po- sões nas políticas universais. Após identificar
litical projects in Brazil’s democratic transition, a formulação de projetos políticos na transição
it discusses their implications during the vari- democrática brasileira, discute seus desdobra-
ous Administrations since 1988, along with the mentos nos governos seguintes, juntamente com
difficulties faced by the National Health System. as dificuldades enfrentadas pelo SUS. Conclui
The article concludes that the political forces que as forças políticas que alcançaram o poder
occupying government in the last two decades nas duas últimas décadas não apresentaram um
have failed to present a project for the country projeto para a Nação à altura daqueles que gera-
on the same level as those who drafted the Citi- ram a Constituição Cidadã.
zen Constitution.
Política de Saúde; Sistemas de Saúde; Sistema
Health Policy; Health Systems; Unified Health Único de Saúde; Política Social
System; Public Policy

http://dx.doi.org/10.1590/0102-311X00099513 Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, 29(10):1927-1953, out, 2013

2013 . a responsabilidade local passou uma concepção de seguridade social como ex. cretizou entre todos os outros” 3 (p. especialmente vique. (1834). No Século XX. por meio dessa utopia enfeitavam as cadeias. privilegiando a sua gênese 2. no início do Século XVI. de como se expande o padrão americano de comitantemente. out. “Eis por que. do mesmo modo que o sistema de saúde vio à pobreza não era ponto de pauta do Banco é um dos componentes dos sistemas de proteção Mundial (BM). unificadas pela pressão dos direitos sociais inerentes à cidadania. 146-7). Apoia-se em estudos sobre políticas públi. Apresentava-se como expressão das rela- descentralizado e integral. sem dúvida. No entanto. público. Esse período da gênese: ao fazer com que ressurjam os conflitos da Guerra Fria é crucial para o entendimento e os confrontos dos primeiros momentos e. cia. noção de direitos sociais. não para que o homem use prática. Os trinta anos de ou- ro do capitalismo possibilitaram a expansão do Welfare State e o desenvolvimento de modernos Saúde e proteção social: delimitando sistemas de proteção social. Saúde Pública. os possíveis excluídos. diante da Revolução Bolche- volvimento das políticas sociais. a internacionalização do alí- sociais. Estado a partir da dinâmica das classes sociais e Nessa perspectiva. a garantia de um conjunto de políticas econômicas “questão social” ultrapassa a problemática da e sociais. Posteriormente. previdência e assistência. mas para que se liberte das cadeias e apanhe a flor As políticas sociais podem ser analisadas a viva” (Karl Marx 1. (c) analisar problemas e proposta de intervenção do Estado com base na desafios para a sustentabilidade do SUS. métricos foram desenvolvidos com o apoio do cas. Ao contrário. 29(10):1927-1953. dos processos de industrialização e urbanização. aparece na Europa uma transição democrática. renovando o compromisso e a intervenções do Estado aparecem nesse contexto esperança de transformar cada brasileiro em su. A análise empreendida parte do pressuposto de restaurando o foco na pobreza 4. p. não há instrumento enquanto o ativismo político dos movimentos de ruptura mais poderoso do que a reconstrução sociais defendia os direitos civis. das demandas da classe na conjuntura pós-constituinte. desdobramentos na superestrutura político- nem os limites do texto aprovado. da crise de 1929. ta os seguintes objetivos: (a) resenhar o desen. incluindo a criação do Sistema Único pobreza e vai manifestar-se enquanto luta de de Saúde (SUS). participativo. ela atu. Diante das proporções da A Constituição Federal de 1988 incorporou mendicância. a ser definida pelas Poor Laws. as primeiras tituição Cidadã. mo. desocupados e delinquentes. função das desigualdades entre as classes sociais. o presente artigo apresen. miseráveis. classes. talvez não caiba discutir os tradições da infraestrutura econômica e dos seus avanços e retrocessos ocorridos na constituinte. energias e lutas do povo. a he- as origens gemonia conquistada pelos Estados Unidos re- orientou a forma de abordar a “questão social”. tomando como objeto as carências. solidada com a nova Lei dos Pobres na Inglaterra milando proposições formuladas pelo movimen. incidindo sobre a situação sanitária 5. sofrimentos. de assistência social. Assim. du- Cinco de outubro de 2013 é uma data em que rante a transição do feudalismo para o capitalis- a sociedade brasileira celebra 25 anos da Cons. Indicava um campo de disputas em cumpre ressaltar que a conquista da democra. ções sociais capitalistas. modelos econo- social. to da Reforma Sanitária Brasileira reconheceu o Com o desenvolvimento do capitalismo in- direito à saúde e o dever do Estado. quando a questão da pobreza ultrapassa as intervenções resultantes da caridade das famílias e das paró- Introdução quias e invade as cidades com hordas de famin- tos. política social liberal enquanto componente de aliza a possibilidade de que houvesse sido (e de política externa e da ordem econômica mundial Cad. A criação do seguro social na Alemanha os brasileiros podem comemorar um período tão ilustra. Assi. Em reconhecidos como direitos no âmbito da cida- toda a história da República é a primeira vez que dania 6. con.1928 Paim JS “A crítica arrancou as flores imaginárias que que seja) de outro modo e. partir da emergência do capitalismo. depois de 21 anos de ditadura militar. custou implicando lutas pelo uso de bens e serviços. assim. recoloca a questão do possível que se con- as cadeias sem qualquer fantasia ou consolação. sob a forma jeito de direitos. ideológica. universal. Departamento de Defesa dos Estados Unidos. mediante a dustrial e o aparecimento da classe operária. uma nova forma de intervenção do longo de vigência de um texto constitucional. Essa política foi con- integrando saúde. especialmente das con- Atualmente. 98). rainha Elizabeth em 1601 4. vidas. (b) discutir a operária e dos sofrimentos decorrentes da Se- evolução de projetos políticos emergentes na gunda Guerra Mundial. Rio de Janeiro. que as políticas de saúde integram as políticas Até os anos 50.

A O primeiro foi formulado pelo PMDB e outras resposta do Estado se faz. condicionando eram justificados como “abertura social”. como capital social. assistência. toda uma termi. relacionando pobreza e fome. 1974 ressurgem movimentos sociais e populares. programas de emprego e subsídios. padrão previdenciário para os trabalhadores e a trução de modelos. as greves legenda desde o MDB. combate à pobreza e aos sistemas públicos vitória do partido de oposição em novembro de de proteção social. tecnologia social. responsável contros e seminários que traziam contribuições em 1922 pela repressão desses movimentos em de economistas. Enquanto o ditador Ge- do apoio à reforma agrária. como cando a reformulação da concepção de direitos o Partido dos Trabalhadores (PT) e o Partido do universais da cidadania. privatização do espaço público. elas se Com o fortalecimento do Movimento Demo- tornam mais complexas. manteve-se o o seu controle. frag- Portanto. na década seguinte. vidência Social diferenciada por categorias de da do BM. Já 11. a “questão social” passa a ser Social (CDS) e o Fundo de Apoio Social (FAS/CEF) foco de controle internacional. defendendo a democratização da saúde. apresentaram um caráter regressivo no financia- nizações internacionais. foi difundido por intermédio de orga. entre gião Brasileira de Assistência para os excluídos outras. além trabalhadores urbanos. expande-se a Pre- enquanto a “questão social” entrava na agen. Saúde Pública. sentada como “científica”. as políticas sociais análise. capaz de evidenciar a Nessa conjuntura teve início o movimento sa- melhor maneira de compatibilizar alguns direi. crescendo as State não chegou ao Brasil. inclusive partidos comu- aparelhos repressivos tratando-a como “caso de nistas postos na ilegalidade. acanhada de “Estado desenvolvimentista” 9. participação da comunidade. das Caixas de Aposentadorias e Pensões (CAPs). desenvolvimentista e redistributi- representando uma opção bismarkiana de segu. especialmente depois que as políticas sociais expandissem na conjun- da Revolução Cubana. pla. vo. mento (II PND). ação tadoria e Pensões (IAPs) para aqueles vinculados comunitária. coesão o bipartidarismo que eles mesmos inventaram. O mesmo Eloy Chaves. crático Brasileiro (MDB). Rio de Janeiro. democrático. sob sua hegemonia. visando ao alívio de tensões sociais pela políticas cresceu o debate sobre necessidades via político-ideológica 8. Contar os pobres e delimitar a linha de do mercado e da previdência. a temática da pobreza foi privilegia. A partir do Golpe de 1930. dos produtos para as políticas públicas. tura pós-1974. o Welfare pobreza tornou-se prioridade. A questão social no Brasil e os projetos e formulada a proposta do SUS 12. manejo de riscos. Em pleno “milagre eco- civis dos negros americanos. estatísticas tendo o indivíduo como unidade de Após a ditadura de 1964. Assim. tos com sustentabilidade financeira 7. 29(10):1927-1953. possibilitando países da América Latina. Entretanto. baseado em cons. No cas sobre os efeitos das medidas adotadas para retorno à democracia em 1945. mentação institucional e reduzido impacto na da. previdência. estimulando a criação de novos partidos. inclusive saúde. Movimento Democrático Brasileiro (PMDB). junto aos agravamento da “questão social”. o Conselho de Desenvolvimento cas e econômicas. voltado para o estabelecimento de um Estado Cad. Tratava- São Paulo. seja para responder às lutas pelos direitos distribuição da renda 10. impli. Nessa tran- políticos na transição democrática sição democrática podem ser identificados dois projetos alternativos: o Esperança e Mudança e o Após as lutas do abolicionismo. criava-se a Le- nejamento participativo. depois da lho. mas abrigados na polícia” e reprimindo. O II Plano Nacional de Desenvolvi- Com o neoliberalismo e as mudanças políti. Esse enfoque. Essa abordagem é apre. precur- prioridades no que tange aos direitos do traba. emerge com a industrialização e urbanização. sendo criados o Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (CEBES) e a Associação Brasileira de Pós-Graduação em Saúde Coletiva (ABRASCO). que adotou a versão pesquisas que produziam evidências estatísti. out. centralização do processo o Banco Interamericano de Desenvolvimento 4. nitário. 2013 . elege-se deputado e propõe a criação se de um projeto de reforma de cunho nacional. via forças oposicionistas. teste de hipóteses e análises assistência social para os pobres. o novo sindicalismo e. intelectuais e políticos. seja para justificar nômico” foi “redescoberta” a pobreza diante do a política da Aliança para o Progresso. Foram difundidas túlio Vargas implantava os Institutos de Aposen- diversas noções como capital humano. Foi gestado mediante en- operárias. sora da “abertura política”. os estrategistas da di- nologia foi gerada pela hegemonia americana na tadura acionaram um casuísmo para extinguir gestão da pobreza. No bojo dessas ro social. ao mercado formal de trabalho. preliminarmente. com violência. especialmente o BM e mento do gasto social. a “questão social” Democrático Popular. básicas. cotas e igualdade de oportunidades. A CONSTITUIÇÃO E OS 25 ANOS DO SUS 1929 instalada. Assim. empowerment. decisório. o mo- Ao se deslocarem as negociações internacionais vimento das Diretas. social.

os direitos dos cidadãos e pela neoliberal e o SUS democratização da sociedade em todos os níveis [. afirma-se que o PT candidato representante dos liberais. por meio da Frente Brasil Popular. Esses dois projetos foram derrotados elei- catos e comunidades eclesiais de base. nários com a participação de militantes e intelec- da política. contemplando temas de política. que propunha a superação da concepção (p. ria e tributária e políticas sociais compensatórias possibilitando que as diretrizes políticas. Saúde Pública. A redemocratização. podem ser constatados Concedia destaque especial para a valorização desdobramentos desse projeto nos programas dos recursos humanos. 29(10):1927-1953. indican. econo- truturada em quatro eixos: (1) redistribuição de mia e políticas sociais 15. sindi. Os partidos que defendiam a Reforma algumas ideias-força foram explicitadas em do. sanea- controle social e encampava-se parte das propos. tuais. a distribuição de políticas de reordenamento do espaço e do meio renda e a redução das desigualdades. (4) emprego. Essa agenda foi construída sob a dade. bem como nas posições públicas de Lula da Silva e o PT no segundo turno. o retro- com o lema Sem Medo de Ser Feliz 14. Esse projeto cesso materializou-se na demissão do presidente foi gestado baseando-se num conjunto de semi. mediante a elevação do salário indispensável para reverter a regressividade do mínimo real. entre outras 16. produção de vacinas. efetivamente. out. po de Trabalho de Reformulação da Previdência onde não haja explorados nem exploradores” 13 Social. os setores progressistas perde- 1989. universal e equânime. Popular divulgado nas eleições presidenciais de Entretanto. Sem entrar no tas do movimento sanitário na direção do SUS mérito das disputas internas entre as tendências público. redefinindo micas e sociais fundamentassem os segmentos o projeto original. durante a 1ª Conferência do Partido dos Traba. Defen- ambiente. articulado aos movimentos sociais. reforma do Estado. Assim. do PT. diam uma política de rendas instrumentalizada ca social.. Embora sem sistematização de diretrizes. e indireta. reformas previdenciá- liderança de forças socialistas e democráticas. do Estado à dívida social acumulada durante o O PT buscará conquistar a liberdade para que o autoritarismo. social. No prevaleceria sobre o direito individual associado à entanto. transporte. como constituição de um mercado de consumo medicamentos e equipamentos. Propostas tica científico-tecnológica. como síntese da políti. 2013 . servin. no discurso de dirigentes e militantes contribuição” 10 (p. (3) do crescimento econômico. o aumento da cobertura da Renda Mensal Vitalí- lhadores essa expressão voltou a aparecer. saúde. toralmente em 1989 na primeira eleição direta do transformações sociais com vistas ao socia.1930 Paim JS Social. sob Ainda que parte dos signatários carregasse a lógica da solidariedade do Estado de bem-estar uma história de lutas vinculadas ao socialismo. es. Rio de Janeiro. Na fundação. 162).. equivalente ao atu- do como referência para o projeto Democrático al Benefício de Prestação Continuada (BPC). de seguro social para a da Seguridade Social. vigilância sanitária. Documentos debatidos renda como objetivo das políticas públicas e de naquela oportunidade enfatizavam a retomada reforma social. A reforma tributária era considerada de forma direta. compos. a contrarreforma tem. universalizantes que disputavam uma resposta tanto no plano econômico quanto no plano social. também. crescimento econômico com estabili- ocupacional. (2) políticas sociais básicas. articulando os interesses dores e remanescentes do autoritarismo. na qual o “o direito coletivo da cidadania evitou-se utilizar tal palavra nos documentos. pelo Partido Comunista do Brasil (PC apoiaram o regime militar retornaram ao poder. 235). conserva- nasce das lutas sociais. 382-3). cia criada durante a ditadura. habitação. a crítica ao capitalismo progressistas nas lutas pela redemocratização até deixava de ter lugar “num projeto político que se a constituinte 10. econômica e social de mudanças. dos trabalhadores e dos demais setores explo- rados pelo capitalismo: “O PT lutará por todas as liberdades civis. Ainda em 1986. do Instituto Nacional de Assistência Médica da Cad.]. ram espaço no Governo José Sarney e forças que ta pelo PT. para Presidente da República após 21 anos de lismo. universal e com gestão descentralizada. que constituíram o PT. além da saúde de massa. contra o suas lideranças. passam a integrar o discurso do PT. No caso da Reforma Sanitária Brasileira. Incluía uma agen. ditadura. Recomendava. do B) e pelo Partido Socialista Brasileiro (PSB). apresentados nas eleições seguintes. pelas franquias que garan. foi criado o Gru- povo possa construir uma sociedade igualitária. econô. o PT pretende chegar ao governo e A redemocratização iniciada em 1985 foi marca- à direção do Estado para realizar uma política da por tensões entre propostas assistencialistas e democrática. do ponto de vista dos trabalhadores. mento. compromete em administrar o capitalismo me- O segundo projeto foi tecido na construção lhor que os capitalistas” 14 (p. valorizava-se o sociais de educação. polí. reformulando políticas financiamento do gasto social. Por isso. Sanitária Brasileira e o SUS apoiaram Luiz Inácio cumentos.

Outros apontam certa mobilidade na Reforma do Estado: base da estrutura social. foi desenvolvida lhor 19. guridade Social seria superavitário 10. Desse modo. com destaque para a saúde. do ‘crescimento com distri- e pela privatização. foram montadas operações pela área econômica. Mas quando ressurge destinados aos programas sociais para cobrirem a crise. Em suma. Com a nova As fontes de financiamento da Seguridade Constituição a assistência social deixou de ser Social foram capturadas pela área econômica filantropia estatal. O novo Ministro Ulysses Guimarães se transformou em ‘Constitui- da Previdência e Assistência Social cumpre uma ção vilã’. além de impedirem as trans. embora para a cúpula governista os novos sou a ser conduzida pelos “programas emergen- direitos sociais eram considerados inimigos da ciais” e de transferência. desonerando o capital. que levou à Cad. no discurso político 24. a ‘Constituição Cidadã’. a União. dívida pública 10. terminariam por in. Nessa mesma época das para financiar a economia. dos diferentes governos e a “questão social” pas- reito. Essa opção libe- que artigos do texto constitucional desencoraja. identificam-se nidas no chamado “centrão” foi intensificada na nessas intervenções determinantes econômicos constituinte. por sinalizar uma in. Esses dirigentes. apesar das continuidades 20. pretexto. regra pétrea entre os economistas do poder se- do argumentos supostamente técnicos de “bu. transferin. os recursos da União foram usados para socor- ferências de recursos fiscais para a Previdência rer a economia. afastariam capitais e. e os direitos trabalhistas. prevalecendo uma novos direitos sociais. por especialistas e por governos considerados de duzir ao ócio e à improdutividade. 2013 . adotando uma contrarreforma liberal com o desmonte da políticas públicas que resultaram em crescimen- Seguridade Social e implantado ajuste macro. utilizan. de Fernando Henrique Cardoso (FHC). aos olhos dos reformadores liberais e da missão junto ao Ministro Antônio Carlos Maga. recursos fundamentais para a viabilização das A disputa com as forças conservadoras reu. sendo ad. esquerda. político-eleitoral traduzido pelo “lulismo”. pelo seguro social. lhães no sentido de sustar a Reforma Sanitária na O orçamento da Seguridade Social não foi Bahia.17. out. das para justificarem as reformas nos governos dência da República e no Ministério da Fazenda. la desregulamentação e flexibilização. Sendo tais flexão nas políticas universais. políticos (contrarreforma da Seguridade Social sugerisse uma vitória mo. a seguridade social. buição’ na era do capital financeiro. embora a aprovação do capítulo (subfinanciamento). os do a gestão do financiamento da Previdência pa. Desse modo. alcançando o estatuto de di. além de não honrar a sua Tesouro Nacional foram direcionados ao Banco parte na manutenção da previdência. por intermédio do Plano Real e da social 22. como nos mandatos de FHC e de Lula. Novas “crises” da previdência foram fabrica- urdidas na Secretaria de Planejamento da Presi. gundo a qual o gasto social não deve pressio- rocratas domesticados”. a uni. elite” 10 (p. desviavam os recursos nar o orçamento fiscal 10. e um realinhamento neoliberal na questão social eram absolutamen. 390). liberal) e ideológicos (alívio da pobreza) do redi- mentânea daqueles que defendiam políticas uni. a prestação estatal outro modo as mudanças operadas: “Essa é a ba- direta dos serviços sociais. desviava Nacional de Desenvolvimento Econômico e So- outra para a ciranda financeira no pagamento da cial (BNDES) para enfrentar a crise de 2008 18. internacionais de fomento. Lula e a partir de negociações com o Fundo Monetário Dilma Rousseff. Caso não hou- foi implantado o Programa Nacional do Leite pa. me- te antagônicos aos da Carta de 1988: o Estado de diante um “reformismo fraco” no qual burgueses Bem-Estar Social é substituído pelo ‘estado Míni. Contudo. o orçamento da Se- focalizada. pe. recursos da União deveriam reforçar o capitalis- ra a Fazenda e dificultando o atendimento dos mo. considerada uma das experiências mais adotado e suas fontes de recursos foram desvia- avançadas do período 10. vesse a captura de recursos para o pagamento ra Crianças Carentes. com reforço do contin- “Os princípios que orientam o paradigma gente de trabalhadores 23. A CONSTITUIÇÃO E OS 25 ANOS DO SUS 1931 Previdência Social (INAMPS) em 1988 e no des. to com distribuição de renda 21 e participação econômico. sobretudo. Saúde Pública. mas. condicionada de renda governabilidade. preconizada por instituições riam a produção. De acordo com os tecnoburocratas. pela focalização. tão bem alcunhada por centralizado de Saúde (SUDS). 29(10):1927-1953. o déficit público. recionamento das políticas sociais. ral e conservadora. Rio de Janeiro. Ou seja. tem sido defendida versos à iniciativa privada. Já a crítica interpreta de versalização. R$ 180 bilhões do Social. monte da estratégia Sistema Unificado e Des. tendo o suposto déficit como Internacional (FMI) no final de 1987. da dívida da União por meio da Desvinculação não só pelo uso clientelista de uma política social de Receitas da União (DRU). e proletários são substituídos por ricos e pobres mo’. considerado emblemático. políticas universais como o SUS. pelo ‘Estado Regulador’ se do ‘novo consenso’. para uns o Brasil mudou para me- No período de 1990-2002. O próprio presidente advertia que se tornaram permanentes. versais.

extinguiu o INAMPS e avançou a des.580 para 0. Nenhum deles. 540). implantou a endinheirados de que se tem notícia na história do política dos medicamentos genéricos e organi.. cio Lula da Silva” 10 (p. nem demonstrou um sim.714 famílias cadastradas). Bolsa Família. bem como da social-democracia.72% do Produto Interno Bruto Políticas sociais. deu continuidade às políticas do e no período 2003-2012 consolidou o processo Governo FHC num sentido diverso do projeto de americanização na reconversão da “questão Democrático Popular original. tando a presidência a partir de 2002 o PT. Brasil” 10 (p. PMDB e do senador baiano com seu passado conservador. do ‘lulismo’ ” 25 (p. Elegendo e o que institui o ‘Fundo Brasil Cidadania’ (PLS o Presidente da República em 1994 o Partido da 82/99). Essa proposta foi apre- trapartida a desmobilização política dos movi. Gini de 0. 64).. da América Latina.1%. esterilizando suas fontes de mo dos sujeitos políticos. mentou as políticas de saúde mental e bucal 26. Esses dois projetos que da nas políticas de redução da pobreza. Collor sancionou as Leis Orgânicas da lidades de seguir avante no pagamento de juros Saúde. todos esses governos prestaram casa foi feita de forma exemplar. ampliando o ajuste fiscal e as possibi- o SUDS. respectivamente 30. acompanhado da queda do coeficiente de dimento Móvel de Urgência (SAMU) e imple.29 nos partidos. saúde pública.5%. verno da República foram transfigurados pelos enterrou a Seguridade Social e o Orçamento da gestores do capital. dando sequência ao mais extraordi- lia (PSF). nanceira (CPMF). Seguridade Social.330.1932 Paim JS incorporação marginal de parcelas da população camisados”. e como resultado disso tu. distancia-se do projeto Esperan. nário programa de transferência de renda para os centralização. reiterando a derrotados apenas em 1989. Ainda as- como projeto de governo. consegue revelar a desigualdade de rendimento entre o capital e o trabalho. Lula montou o Serviço de Aten. neoliberal rasgou a Constituição da República. A lição de Ainda assim. 6. se a partir de 2003 no âmbito do governo Luiz Iná- desenvolvendo uma agenda neoliberal. out. Para os ricos uma “doação” 13 vezes maior 31. Dentre as iniciativas dessa cruzada. 2009. zou a Agência Nacional de Vigilância Sanitária O Bolsa Família passou de 3 milhões em 2003 (ANVISA) e a Agência Nacional de Saúde Suple. base para o Fundo de Combate à Pobreza Social Democracia Brasileira (PSDB). PMDB e peque. O Gini melhorou. e adquire força na criação do Fundo de menor renda ao consumo. rém. Rio de Janeiro. Conquis. sob o aplauso dos alguma contribuição ao SUS: Sarney implantou financistas. mas não tabelecidos pela Constituição de 1988. de Combate à Pobreza. A retórica sobre a pobreza vem desde o Governo Desenvolveu-se no país certa unanimida- Sarney 28. tendo emergiram na transição democrática não foram o Bolsa Família como carro-chefe. bem como pelo transformis.. A cruzada vitoriosa do senador do PT consumou- ça e Mudança. recursos na ‘gestão’ da dívida pública. mas o predomínio das políticas focali. FHC ampliou o PSF. A agenda governamental foi concentra- do liberalismo social. 2. Reforma Sanitária (PIB) para o pagamento dos juros e 0.]. 2013 . incorporação da transferência condicionada de do o surgimento. aos rentistas.2% e 1. “É importante ressaltar que a contra-reforma Em síntese. Com esse fundo foi efetivada a da maior dos partidos. 29(10):1927-1953.]. com o A política social no Brasil ficou reduzida ao apoio de partidos de esquerda. 1. po. em aliança por iniciativa de ACM [. outras legendas. o Governo Itamar Franco PLS 66/99 que institui a ‘Linha Oficial de Pobreza’ optou por um ajuste macroeconômico. tendo como con. zadas começa em 1990 com o discurso dos “des. e viabilizada em 2000 com recursos da Estado sobre a parte da população mais pobre. o Brasil é atualmente o 4º país mais desigual compromisso efetivo com o SUS nos termos es.538 20. aproximando-se social”. Itamar criou o Programa Saúde da Famí. Collor intensificou a abertura da economia e. a tutela direta do de Lula. incorporou a Reforma Sanitária Brasileira 1. com o apoio mentos sociais e dos sindicatos. opção neoliberal do período anterior: “A opção veram a oportunidade histórica de chegar ao go. assistencialismo das políticas focalizadas. de na ideia de que política social é para pobres. a desqualificação ain. para 12. a Contribuição Provisória de Movimentação Fi- despolitização da política. Mesmo quando ti.3%. traduzindo a ideologia neoliberal liberal encontrou um grande aliado no Partido para as políticas estatais.. Em 2011 o Governo Federal destinou 5. destacam-se o após o impeachment.2%. previdência social Dilma regulamentou a Lei no 8080/90 e aprovou e na educação pública são apontados como res- a Lei Complementar 141 27. espelhando a coerência com o Partido da Frente Liberal (PFL). Saúde Pública. o senador Eduardo Suplicy [. desenvolvimento e consolidação renda na agenda do Governo FHC. 461). sentada no Instituto de Cidadania. paralelamente ao desmonte institucional. o Governo Fernando dos Trabalhadores. Os gastos com o BPC.3 milhões de famílias em dezembro de mentar (ANS). orça- Cad.4% para o Brasileira e o SUS Bolsa Família (13. ponsáveis pela redução do Gini em 2.

Saúde Pública. mais uma vez. tam durante as campanhas. certas traditoriamente. sobretudo na ampliação do acesso aos Constituição e de uma legislação para as mudan- serviços de saúde. Na série sobre saúde no Brasil do The Lan. Portanto. saúde quase triplicaram sem universalidade do ram a proposta de comprometimento de pelo acesso. copagamento. pedem o cumprimento do que está estabelecido Portanto. portanto e de medicamentos. No entanto. 77). con. Adiou-se. 35 analisam posições ambíguas do midiáticas e do discurso oficial. de. o subfinanciamento público. a persistência de desigualdades na oferta e a arti. Comentários finais ra tornar o SUS universal e público. Observa que na democracia re- no perfil epidemiológico. com barreira de acesso e custos da e a redução das desigualdades de renda. zindo o transformismo na saúde. ras dos que apostam na privatização. Mesmo con- condicionalidade cumpre o receituário liberal do seguindo-se mais recursos. inovações presentativa adotada pelo Brasil os governantes. dos hospitais privados e do à subsistência dessas famílias” 6 (p. Desse modo. tão feste- e saúde. Entre os obstáculos destaca. ainda que seja eticamente discutível diante cessárias para evitar o modelo americano e não da dignidade da pessoa humana e “frente a um permanecer refém da indústria de equipamentos direito anterior que é a garantia à vida. Além disso. sendo adiada a efetivação de planos de carreiras. gerando pouco a garantia do financiamento do subsistema pú.br). Rio de Janeiro. tanto nos setores à direita quanto à sido paga estava em US$ 402.5%. SUS. o sistema beira a insolvência: os gastos de publicados. demais documentos. trodomésticos e da economia solidária” 32 (p. verifica-se uma redução da con- do SUS. dos ele. Novos esforços ram-se a diminuição do financiamento federal. mas sem recursos para operá. nas leis ordinárias. jado pela Organização Mundial da Saúde (OMS) No mesmo ano em que esses estudos eram e BM.536 trilhões (http://www. dois poderes da República rejeita. participação na maioria das vezes. 2013 . e no caso colombiano. supõe olhar o Brasil para além das aparências Costa et al. carização do trabalho e a terceirizações. consciência do direito à saúde. A CONSTITUIÇÃO E OS 25 ANOS DO SUS 1933 mentário e conceitual da Seguridade Social. Em 2008. o fortalecimento No Brasil. cado seria capaz de atender suas necessidades. submetidos à pre. as restrições de investimento em infraestrutura na qual tem origem a Reforma Sanitária Brasi- e a gestão do trabalho 26. reprodu- dições de saúde. de saúde 39. Talvez a sociedade brasileira tenha aprendi- cet 33 foram apontadas inúmeras conquistas do nesses 25 anos que não basta dispor de uma do SUS. Na América Latina a privatização dos sistemas Seus maiores desafios são políticos. O do mercado de assistência médica suplementar “neo-assistencialismo” e o glamour dos pobres deparam com um acúmulo de experiências ne- são reificados pelo “mundo apartheizado do gativas de consumidores iludidos de que o mer- banco popular. segmentação do mercado e compro. out. pensar os 25 anos do SUS à luz das po- na Constituição. 29(10):1927-1953. outras lutas serão ne- BM. a participação da saúde na recei- lo 34. corporativismo de profissionais 37. descentralização. integralidade e melhoria nos indicadores menos 10% do orçamento da União para a saú. Parte dos países adotou blico. tentando desequilibrar o binômio Há uma dívida histórica com os trabalhado. Cad. Em dezembro de governo Dilma em relação à articulação públi. com repercussões positivas ças ocorrerem. co-privada e denunciam ameaças contra o SUS maior que o dobro do orçamento federal daquele decorrentes de pressões dos que apostam na ano. conservação 38. formação dos partidos muito menos aquilo que apresen- de trabalhadores e tecnologias convivem. ainda há muito que fazer pa. não seguem os programas social. Alertam que mais na correspondia a R$ 2. a redefinição da articulação público-priva. sugerindo que pode até haver minis. não se vislumbra um cenário otimista Mas na realidade a transferência de renda com para a sustentabilidade do SUS 36. leira e o SUS. cargos e salários. Sanitária Brasileira e o SUS fortaleceram as filei- metimento da equidade nos serviços e nas con. tribuição do governo federal nos gastos com o tros sanitaristas. igual a culação público-privada prejudicial ao SUS im. com o crescimento do setor lideranças e partidos que defendiam a Reforma privado. 210). bem como para assegurar padrões elevados de qualidade. inferior àquela verificada antes do SUS. A dívida externa que muitos imaginavam ter privatização. aumento de cobertura. institucionais.org. ta da Seguridade Social decresceu para 14. são necessários para revitalizar a sociedade civil. 2011 a dívida pública ultrapassava R$ 3 trilhões. subsídios e desonerações fiscais para a expansão jubileusul. Portanto.3 bilhões e a inter- esquerda do espectro político. decretos e líticas públicas e da Reforma Sanitária Brasileira. 18% no início da década de 80 e 30% em 1988 40. poder administrativos. da “conservação-mudança” contra a inércia da res que construíram o SUS. da agricultura familiar. pois supõem de saúde não se mostrou efetiva.

“a nova agenda social” 45. pluralidade de vozes numa sociedade democrá- tural e moral. Basándose en estu- dios de políticas públicas que favorecieron su génesis. “era FHC” 46. revisa los orígenes de la política socio liberal. integral e de qualidade. discute sus implicaciones en los siguientes gobiernos. junto a las dificultades que enfrenta el SUS.48 que aparentes paradoxos dos governos Lula-Dilma tendem a emergir dos movimentos sociais. pois as forças políticas que alcançaram características do processo da Reforma Sanitária o poder nas últimas décadas não apresentaram Brasileira e da implementação do SUS 38. Do Esperança e Mudança e Democrático Popu- mesmo modo. Ainda as- classes subalternas no Brasil 43. Después de iden- tificar la formulación de proyectos políticos en la tran- sición democrática brasileña. contemporânea 49. tiene por objetivo revisar el desarrollo de xeira pelas valiosas sugestões e revisão geral do texto. igualitário. o “neodesenvolvimentis- ção do SUS. hipóteses explicati. assegurados por ações políticas. y analiza la hegemonía de las políticas estadounidenses destinadas a la pobreza y su impacto en las políticas universales. conceitos. dos direitos sociais. discutir los proyectos y analizar los desafíos políticos para la sostenibilidad del Sistema Único de la Salud brasileño (SUS). Às professoras Lígia Maria Vieira da Silva e Carmen Tei- ón de 1988. Uma hegemonia às avessas 41 parece tificando distintos antagonismos na sociedade ser construída pelas forças que defendem o SUS. explicitado nas prospecções para o Brasil co.1934 Paim JS Portanto. as iniquidades em saúde e as se ministro da saúde. um lado. a forma pela qual as classes do. grandes desafios continuam postos a reatualização e intensificação das reformas da para a Reforma Sanitária Brasileira e a consolida. que celebra los 25 años de la Constituci. Uma atenção especial para a pois na aparência constata-se uma direção cul. universal. quais projetos se esboçam? De geraram a Constituição Cidadã. out. De outro. mas na essência prevale. mo”. favorecendo o sim. Trata-se agora. viduais e coletivos que questionem a subversão a ponto de um ex-presidente do CEBES tornar. enquanto sistema de saúde públi. Saúde Pública. em 2030 47. relações de subordinação. Sistema Único de Salud. 2013 . las políticas sociales. Novas questões. 29(10):1927-1953. Resumen Agradecimentos Este artículo. um projeto para a Nação à altura daqueles que te desse quadro. Sistemas de Salud.43. centrada en la asistencia social. Resta às forças progressistas da sociedade ci- vas e pesquisas são necessários para decifrar os vil apostar nos portadores da antítese 38. põem em questão o possível que se concre- transformismo e a revolução passiva 44. Política de Salud. Dian. lar foram projetos possíveis. explica as tizou 3. que propõe de reinventá-lo. Concluye que las fuerzas políticas que llegaron al poder en las últimas dos décadas no han presentado un proyecto para la nación a la altura de los que genera la Constitución ciudadana. Rio de Janeiro. desencadeando novas cem os interesses do capital. excluídos pelos minantes têm atuado em relação ao Estado e às filtros da revolução passiva brasileira. seus representantes dentro e fora do setor 42. Política Social Cad. iden- na saúde. quando integrantes do movimento tica permitiria constituir sujeitos políticos indi- sanitário chegam a ocupar posições de governo.

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