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Mia Couto

2

(Moçambique)

A varanda do Frangipani

Nota:
Os termos de origem moçambicana usados pelo Autor, e que podem ser
desconhecidos do leitor, encontram-se explicados num Glossário, na parte
final do livro.
Chaka, fundador do império Zulu, aos seus assassinos:
"Nunca governareis esta terra.
Ela será apenas governada pelas andorinhas do outro lado do mar,
aquelas que têm orelhas transparentes..."
(citado por H. Junod)

"Moçambique: essa imensa varanda sobre o Índico..."
(Eduardo Lourenço, na despedida de Maputo, em 1995)

3

Carpinteirava em obras de restauro na fortaleza dos portugueses. Me faltou cerimónia e tradição quando me enterraram. Todas estas atropelias sucederam porque morri fora do meu lugar. Nunca se deixa entrar em tumba nenhuns metais. Até eu. do extremo à extremidade. Com tais inutensílios. pontuais. Sem ter sido cerimoniado acabei um morto desencontrado da sua morte. sombras e escuros. Tanto e tantas que eu já cheiro a pétala. que são os defuntos definitivos. conto sabedoria pelos dedos. os cemitérios. Transitei-me com os punhos fechados. Os defuntos só sonham em noites de chuva. pandemoniando os vivos. E ainda pior: coisa que brilha é chamatriz da mal dição. me guardei no sossego que compete aos falecidos. em São Nicolau. Faço parte daqueles que não são lembrados. Não foi só o devido funeral que me faltou. não há senão uma magrita frangipaneira. Se vivi com direiteza. Deixei o mundo quando era a véspera da libertação da minha terra. e eu descia ao chão. Nós. Aceitei a prisão da cova. Não ascenderei nunca ao estado de xicuembo. Me ajudou o ter ficado junto a uma árvore. Mesmo esses que rondam. os Mucangas. Os mortos não sonham. Os desleixos foram mais longe: como eu não tivesse outros bens me sepultaram com minha serra e o martelo. Sobre mim tombam as perfumosas flores do frangipani. Primeiro capítulo O sonho do morto Sou o morto. Ninguém me abriu as mãos quando meu corpo ainda esfriava. que sabem eles dos mortos? Medos. Quem sabe foi bom. eles são sonhados. Enterraram-me junto a essa árvore. essas almas que vagueiam de paradeiro em desparadeiro. ninguém me cuida. Na minha terra escolhem um canhoeiro. Fazia a piada: meu país nascia. No resto. gente de autorizada raça. nos arredores deste forte. A pessoa deve sair do mundo tal igual como nasceu. Como não me apropriaram funeral fiquei em estado de xipoco. exilado da luz. Eu que nunca tive quem me deitasse lembrança. assim evitado de assistir a guerras e desgraças. enrolada em poupança de tamanho. Mas não ando por aí. isso vos digo. chamando maldição sobre os viventes. No resto. Nossos mortos olham o lugar onde a primeira mulher saltou a lua. em roupas de bandeira. Trabalhava longe da minha vila natal. me arrisco a ser um desses defuntos estragadores do mundo. E ainda mais: não me viraram o rosto a encarar os montes Nkuluvumba. Não o deviam ter feito. Mas eu não ganhei acesso a cova pequena. com direito a serem chamados e amados pelos vivos. Os ferros demoram mais a apodrece que os ossos do falecido. Mas aqui. Se eu tivesse cruz ou mármore neles estaria escrito: Ermelindo Mucanga. Não tive sequer quem me dobrasse os joelhos. arredondada de ventre e alma. Sou desses mortos a quem não cortaram o cordão desumbilical. Mas eu faleci junto com meu nome faz quase duas décadas. Durante anos fui um vivo de patente. Disso eu já me resignei. Os mortos devem ter a discrição de ocupar pouca terra. Minha campa estendeu-se por minha inteira dimensão. temos obrigações para com os antigamentes. desglorifiquei-me foi no falecimento. eu sou sonhado 4 . falecido veterano. Vale a pena me adoçar assim? Porque agora só o vento me cheira. Ou uma mafurreira.

Nesse destempero. Careciam de um da minha raça. agora. Queriam pôr em montra a etnia. essa intrujice. Mas não era o bicho escavadeiro. Todos sabem a lenda: Deus enviou o camaleão como mensageiro da eternidade. Não fui amado enquanto vivo. abrindo pastos para mortes. moço e felizão. tribo e região. Demorou-se tanto que deu tempo a que Deus. Para contentar discórdias. marfins e panos. Se faleci foi para ficar sombra sozinha. Pois eu sou um mensageiro às avessas: levo recado dos homens para os deuses. Quando percebi. Pás e enxadas desrespeitavam o sagrado. Veio a guerra. com voz entre os mortais. Ninguém lhe ama de verdade. custasse os olhos e a cara. eu me ajeitava a impossível antepassado. Até que. se entendeu construir uma prisão para encerrar os revolucionários que combatiam contra os portugueses. Já tinham posto a correr que eu morrera em combate contra o ocupante colonial. A nação carecia de encenação. do outro lado. um herói é como o santo. Ou melhor. Por isso me cavavam o cemitério. um dia. Não era para festas. se arrependesse e enviasse um outro mensageiro com o recado contrário. Depois da Independência ali se improvisou um asilo para velhos. até fiquei atrapalhaço. O bicho demorou-se a entregar aos homens o segredo da vida eterna. fui acordado por golpes e estremecimentos. Caso senão eu nunca mais teria sossego. os meus restos imortais. Ali se descoloriam os tempos. Me embrulhavam em glória. Mas os tiros ficaram longe do forte. Quando chegar ao lugar dos divinos já eles terão recebido a contrapalavra de outrem. entretanto. A condecoração devia ser evitada. Nos fins do tempo colonial.por quem? Pela árvore. Ainda pensei na minha vizinha. O que esgravatava aquela gente. Dispensava. essa que ficou cega para poder olhar as trevas. tudo engomado a silêncios e ausências. a toupeira. 5 . Precisavam de um herói mas não um qualquer. fantasma palpável. Certo era que eu não tinha apetência para herói póstumo. fantasma sem lei nem respeito? Ainda pensei reaparecer no meu corpo de quando eu era vivo. Ou seria o vice-versa? De necessitado eu passava a necessário. Por aquele terraço escoaram escravos. Eu tinha que desfazer aquele engano. Terminada a guerra. Que poderia eu fazer. Nunca fui homem de ideias mas também não sou morto de enrolar língua. Me retroverteria pelo umbigo e surgiria. Naquela pedra deflagraram canhões lusitanos sobre navios holandeses. arrombas e tambores. o asilo restava como herança de ninguém. Com os terceiro-idosos. Agora queriam os meus restos mortais. o lugar definhou. Se lembram dele em urgências pessoais e aflições nacionais. queriam raspar a casca para exibir o fruto. Estavam a mexer na minha tumba. Só o frangipani me dedica nocturnos pensamentos. como sombra de serpente. A árvore do frangipani ocupa uma varanda de uma fortaleza colonial. avivando assim a minha morte? Espreitei entre as vozes e entendi: os governantes me queriam transformar num herói nacional. Aquela varanda já assistiu a muita história. equilibrar as descontentações. Lembrei o caso do camaleão. Me estou demorando com a mensagem. bem fundo no quintal da fortaleza. Mas um xipoco que reocupa o seu antigo corpo arrisca perigos muito mortais: tocar ou ser tocado basta para descambalhotar corações e semear fatalidades. Além disso.

No asilo não faltaria quem estivesse para morrer. Perseguia a extremidade do corpo ou afinava a voz para que eu lhe entendesse? Porque não é com qualquer que o bicho fala. Apontou o pátio da fortaleza e disse: . viajando em aparência de um outro alguém. você deve remorrer. Mesmo no meio destes destroços nasceram flores silvestres. o nosso halakavuma? Pois este mamífero mora com os falecidos. O veneno. Um vazio desocupado. Visto por detrás não passaria de oco de buraco. Falava assim. me chamavam a mim. . Ele se enrosca a meus pés e faço-lhe uso como almofada. para sempre. De meu recanto eu veria o mundo translucidar. Para eles nunca há surpresa. Meu avô.Quer dizer que eu vou ter fantasmear-me por um alguém? . Eu tenho um pangolim comigo. eu estava transitando para xipoco. O halakavuma ganhou as gravidades e disse: . como em vida tive um cão. em doses.você irá exercer-se como um xipoco. Lhe lembrei que eu queria era conselho. não me apetece. meu animal de estimação. Há alguém que desconheça os poderes deste bicho de escamas. O pangolim rodou sobre si próprio. a decisão já tinha sido tomada. Com certeza.Não quero regressar para lá. No fundo. Ermelindo. . nos dá mais vivência. Me irritavam aquelas vagueações do escamudo. Pelas outras palavras. Consultei o pangolim. Tomba na terra para entregar novidades ao mundo. Mas eu iria residir em corpo alheio. receber directamente o sopro dos ventos. Nessa mesma noite.Não. . O halakavuma se parecia com meu avô. por exemplo. Da prisão da cova eu transitava para a prisão do corpo. Ermelindo. Voltar a falecer? Se nem foi fácil deixar a vida da primeira vez! Seguindo a tradição de minha família não deveria ser sequer tarefa fazível. Não parecia difícil. uma saída. à mordedura das cobras.Deixe-me pensar. Apanhar boleia dessa outra morte e dissolver-me nessa findação. . O bicho insistia-me: .Não quer ser herói? Mas herói de quê. . durou infinidades. as proveniências do porvir.Veja à sua volta. outra vez? . desse modo. dormia junto de perigosas folhagens. amado por quem? Agora. disse eu. pequenito carpinteiro!? O pangolim se intrigou: . O velho deixava a perna de fora do corpo.Você. Eu fingia apenas ser dono da minha vontade. Desce dos céus aquando das chuvadas. ilúcido. não morreu ainda.Escolha um que esteja próximo para acabar. o tempo está pisando nas pegadas da véspera. que o país era uma machamba de ruínas. Perguntei ao meu halakavuma o que devia fazer. Oferecia-se. Caso reocupasse meu próprio corpo eu só seria visível do lado da frente. Ergueu-se sobre as patas traseiras. 6 . teimoso como um pêndulo. E parecia a vida lhe dava razão: cada vez ele ficava mais cheio de feitio e forma. Como está a minha terra. nesse jeito de gente que tremexia comigo. o teu jardim: entre pedra ferida e flor selvagem. me transformava num "passa-noite". Eu estava interdito de tocar a vida.Não lhe apetece ficar vivo. Minha única vantagem seria o tempo. Para os mortos.É que aquele será. O lugar mais seguro não é no ninho da cobra-mamba? Eu devia emigrar em corpo que estivesse mais perto de morrer.

de tanto estar longe do mundo? Há anos que ele não descia ao solo. . todas as mulheres do mundo dormiam ao relento. Uma dúvida me enrugava.É um de fora. No dia seguinte. Depois me deitavam terra com suavidade de quem veste um filho. perdido o esposo. Apenas serviço de mãos. eu era um morto solitário. Não. Me enchi tanto desta vontade que até sonhei sem chuva nem noite. . Então. Deixe o resto por minhas contas. ainda depositei dúvida: esse halakavuma dizia a verdade? Ou inventava. Assim eu me aprendia: um vivo pisa o chão. espetavam à minha volta paus de acácias. É o tempo do polícia ser morto. Recordava. no entanto. Por estreada vez iria escutar. Todas estavam sujas por minha morte. sem o filtro da terra. lá no asilo. Foi morto ao tiro. Eu que me instalasse no corpo desse inspector e seria certo que morreria. depois. sobretudo. no momento de morrer por segunda vez. como mandam nossas crenças. me perguntava: como sabemos que este cheiro é da terra e não do céu? Mas não lembrava. Recordava somente certos momentos mas sempre exteriores a mim. 7 . eu aspirava ganhar acesso às minhas privadas vivências. Não era apenas a viúva que estava interdita a abrigar-se.O director do asilo. o perfume da terra quando chovia. Vendo a chuva escorrendo por Janeiro. Tudo em aptidão de ser flor. Descia à terra nessa posição. Em meu caso. contudo. As lamparinas iluminavam o milho. E sonhei ainda mais: após a minha morte. E se eu acabasse gostando de ser um "passa-noite"? E se. . Nunca tinha passado de um pré-antepassado. Eu falecia sentado. na vida? .Que grande? . Queria saber quem era a pessoa que ia ocupar.Seis dias. Vai chegar amanhã. as humanas vozes do asilo. Será sempre assim? Os restantes mortos teriam perdido a privada memória? Não sei. em mim. suas unhas já cresciam a redondear umas tantas voltas.Você vai entrar nesse polícia.É um que está para vir. . Era a primeira vez que eu iria sair da morte. Depois. nenhuma intimidade do meu viver. mal acordei me pus a abanar o halakavuma. um morto é pisado pelo chão. queixo na varanda dos joelhos. povoada de andanças. . Ouvir os velhos sem que eles nunca me sentissem. Paravam quando a areia me chegava aos olhos. O que queria lembrar. Há uns poucochinhos dias mataram um grande. Era como se todas as mulheres tivessem.Quanto tempo vou ficar lá. mãos trémulas passavam com o cadinho do fogo entre os espigueirais. Uma semana antes e tudo estaria já resolvido. E para convocar a chuva me cobriam de terra molhada. O que sonhei? Sonhei que me enterravam devidamente. Não usavam pás. me tivesse apaixonado pela outra margem? Afinal. Limpavam-se os campos dos maus-olhados. Se mesmo as patas dele tinham saudade do chão. como é hábito da nossa crença. Por motivo desse assassinato vinha da capital um agente da polícia. acrescentou: Foi pena não me ter lembrado antes. por que motivo sua cabeça não fantasiava loucuras? Mas.Um? Qual? . No princípio. O que surpreendia era eu não ter lembrança do tempo que vivi. O luto se estendia por todas as aldeias como um cacimbo espesso. eu me fui deixando ocupar pela antecipação da viagem ao mundo dos vivos. meu corpo assentava sobre areia que haviam retirado de um morro de muchém Areia viva.

Eu tinha medo. . Esse pangolim já estava demasiado gasto. Ele me sugeriu. No dia seguinte. Confessei esse desejo ao pangolim. Daí seus extremos cansaços. Ele que entendesse: a força do crocodilo é a água. O pangolim me assegurava futuros mais-que-perfeitos. molhado a boas chuvinhas. o tempo lá está bonito. . Poderia eu confiar em seus poderes? Seu corpo rangia que nem curva.muito-muito. Agora. eram as mulheres que amei. Tudo se passaria ali. Quem sabe eu encontrasse uma mulher e tropeçasse em paixão? O pangolim avaselinava a conversa e engrossava a vista. Minha força era estar longe dos viventes. então: . eu seria roído por minhas próprias unhas. o mesmo medo que os vivos sentem quando se imaginam morrer. Ermelindo: você vá. porém.Aqui é onde os deuses vêm rezar.Você mal chegue à vida queime umas sementes de abóbora. Seu cansaço derivava do peso de sua carapaça. Eu e a árvore nos semelhávamos. mesmo quando era vivo. alguma vez. Ele sabia que não era assim fácil. 8 . Eu nunca soube viver. na mesmíssima varanda. Olhei o frangipani e senti saudade antecedida dele. O pangolim é como o cágado caminha junto com a casa. Apontou a varanda e disse: . mergulhado em carne alheia. Eu que fosse e agasalhasse a alma de verde. Chamei o halakavuma e lhe disse da minha recusa em me transferir para o lado da vida.Para quê? . eu repensei a minha viagem à vida.Ora. tinha regado as nossas raízes? Ambos éramos criaturas amamentadas a cacimbo. O halakavuma tinha também suas gratidões com o frangipani.Não sabe? Queimar pevides faz lembrar amantes esquecidos. no embaixo da árvore onde eu estava enterrado. Quem.

vou ele. Neste momento. A Fortaleza de São Nicolau é uma pequenita mancha que cabe num pedacito de mundo. por cima das vertigens. fechavam o cerco. Sua profissão é avizinhada aos cães: fareja culpas onde cai sangue. Estou num canto de sua alma. Espreito das nuvens. frente à praia rochosa. Tinha sido enfermeira no asilo até à data do crime. De helicóptero iam chegando mantimentos e visitantes. por exemplo. essa nem se distingue. agoniavam podres. se atrevia caminhar nos matos próximos. Porque este Izidine. antes. um mulato que foi responsável pelo asilo de velhos de São Nicolau. uma fraqueleza. a fortaleza é. vou nele. Lá em baixo. As rochas. Desejo quem ele deseja. apontando a imagem: . não tem senão seis dias de destino. enganos e mentiras. É lá que fica o asilo. eu me contrabandeava por essa fronteira que. a velha Nãozinha. este homem que me transporta. sentada no banco de trás do helicóptero. do lado interior. porém. Falo com quem ele fala. Segundo capítulo Estreia nos viventes Este homem que estou ocupando é um tal Izidine Naíta. Com ele eu emigrava no penumbroso território de vultos. o mágico toque da gente humana. Se notam os escombros como costelas descaindo sobre o barranco. Sonho quem ele sonha. Suspeitará do seu próximo fim? Será por isso que ele se apressa agora. Izidine iria percorrer labirintos e embaraços. Fico com pena de não ter ocupado esse outro corpo. Minha campa. As minas. é lá que estou enterrado. Só um dos asilados. E eram carícias. Vê-se uma fotografia. Na capa está escrito Dossier. Vou com ele. dificultavam o acesso por mar. Minhas madeirinhas. Meu hospedeiro anda esgravatando verdades sobre quem matou Vasto Excelêncio. aquelas que eu ajeitara. Durante os longos anos da guerra. estou viajando num helicóptero. inspector da polícia. A fortaleza permanecia ainda rodeada de minas e ninguém ousava sair ou entrar. agora. Izidine pergunta em voz alta. sou eu. pouco mudara. em todo país. sem remédio contra o tempo e a maresia. Tem graça que eu tenha saído directamente das profundezas para as nuvens. Esse mesmo monumento que os colonos queriam eternizar em belezas estava agora definhando. Mas ela era tão sem peso que nunca poderia accionar um explosivo. recente. Olho da janela. o asilo esteve isolado do resto do país. espreito-lhe com cuidado para não atrapalhar os dentros dele. me separara da luz. Este Izidine Naíta. Marta Gimo era mulher de se olhar e lamber os olhos. Enquanto morto eu tinha sentido os pés dessa velha me calcando o sono. O lugar cortara relações com o universo. junto à praia. A paz se instalara. decidido a ganhar tempo? Vou no gesto do homem ao abrir uma pasta cheia de dactilografias.Posso ver melhor? Olho a nossa companheira de viagem. Agora. 9 . No asilo. Vista do alto. antes.Este era Vasto Excelêncio? . faceando o mar se vê a velha fortaleza colonial. em missão enviada pela Nação. Apenas pelo ar se alcançava São Nicolau.

Ela permaneceu distante. vagueando um dedo pela fotografia. Não tinha fontes acreditáveis. Alguns morcegos já se lançavam dos beirais em voos cegos. Buscaram nas imediações. bravios e arredios. O inspector tinha sete dias para descobrir o assassino. vivo? Impossível. Um deles se prendia com as duas mãos a um mastro. Saltámos do aparelho. para a viagem de retorno. quando sobrevoavam a zona voltaram a deparar com o corpo estendido sobre os rochedos. Me atentei em Izidine e tive pena do homem que eu residia: ele estava perdido. Restavam-lhe testemunhas cuja memória e lucidez já há muito haviam falecido. como se. Agarravam-se às vestes como se flutuassem. uma tristeza a tivesse trespassado Ficou com a foto nas mãos e respondeu em suspiro: . eles regressaram para os seus cantos. Assim que pousaram. As hélices faziam eco nas paredes de pedra e nuvens de poeira se erguiam em remoinhos. de repente. desceram a encosta para recuperar o corpo. o mesmo helicóptero deveria regressar para o transportar à capital. sem demoras. Contudo. Excelêncio tinha sido promovido a importante lugar no governo central. Nem sequer sobrara o corpo da vítima. a fotografia tombada sobre o assento. Alguém o tinha assassinado. Contudo. Depois de o aparelho voltar a levantar voo. Desistiram das buscas e. já não encontraram os restos de Excelêncio. Os velhos 10 .Não vejo aqui a mulher de Vasto. um helicóptero viajara até à fortaleza para ir buscar Vasto Excelêncio e sua esposa Ernestina. iniciaram a viagem de retorno. perdido entre seres que se vedavam a humanos entendimentos. Parecia uma bandeira em dia de ventania. Saíra apenas para prestar-se a testemunhações e depoimentos em Maputo. quando chegaram a São Nicolau já não o encontraram com vida. Não faltava muito para deixar de haver sol. assim pensaram. porém. Olhou as redondezas e afastou-se pela amurada da fortaleza. O certo é que os do helicóptero deram com o corpo de Excelêncio esparramorto nas rochas da barreira. De que desconfiavam? O helicóptero se extinguiu em nada no horizonte e Izidine Naíta se foi sentindo desamparado. Como voltara para ali? Estaria. devíamos sair. como anoitecesse. afinal. O que sabia ele? Que uma semana atrás.Nessa altura. Não se sabe quem nem porquê. lá em baixo. Deram voltas e voltas mas não era possível o helicóptero aterrar ali. . O combustível dava. Se notavam os extensos ferimentos e não havia sinal de movimento. E regressaram à capital. Olhou o mar. O piloto nos deu indicações em voz alta: mal tocasse o solo. os velhos se encolhiam como cachorros. Viram-no quando o aparelho se aproximava da fortaleza. Izidine tentou aproximar-se mas os velhos se furtaram. Marta rodou por ali. Pousou o saco de viagem sobre um banco de pedra. Marta não reagiu. Quando chegaram às rochas. O cadáver desaparecera misteriosamente. As ondas o levaram. nenhuma pista. Assim sucedera. Uma semana depois. . cumprimentando cada um deles. Em vão. abarrotando dúvida. disse Izidine. a mulher dele ainda não tinha chegado a São Nicolau. à justa.Estamos a chegar! Marta acenava para um pequeno grupo de velhos.

Poupe bem a vela. matreiro. uma casca de tartaruga. Depois. Está a ver lá? . Por isso. Seria um pedaço de madeira? Parecia. O velho sorriu. Izidine lhe solicitou a sua versão do que ali tinha ocorrido. em cada noite. O primeiro velho apareceu assim que Izidine saiu dos aposentos.internavam-se no escuro dos seus pequenos quartos. ontem. Não notara a aproximação de Marta. Sentou-se fazendo passar o aro pelo pescoço. Trazia um arco de bicicleta. Assim surgiu um pequeno livro de notas. antes. Acendeu a vela e retirou as coisas do saco. E explicou-se assim: .Está à procura de uma lanterna? O polícia saltou de susto. . O livrinho apodrecerá com meus restos. somos livres de mentir. Na manhã seguinte. Nem Deus nos faz companhia. Izidine inspeccionou o conteúdo do saco. A enfermeira apontou um quarto próximo e entregou uma vela e uma caixa com alguns fósforos: . um dos velhos sobreviventes. Ao regressar surpreendeu um velho remexendo no seu saco. De dia procederia a investigações no terreno. Rapidamente. voltou a sair. São como estas cataratas nos meus olhos: névoas que impedem Deus de nos espreitar.Lá. O inspector ainda se perguntou sobre quem ouviria primeiro. No chão tombou uma pequena lata.Aquelas nuvens no céu. este caderno com a letra do inspector fixando as falas dos mais velhos e que eu agora levo comigo para o fundo da minha sepultura. Ainda o chamou mas ele desapareceu no escuro. anotaria tudo o que escutara na anterior noite. O polícia entrou no quarto.é que aqui. se sentaria junto à fogueira a escutar o testemunho de cada um. . Depois de jantar. falamos de mais. E sabe porquê? Porque estamos sós. O velho perguntou: .Antes de falar sobre a morte do director eu quero saber se foi você que. O polícia não se demorou. onde? . aqui na fortaleza.Você tem a noite toda de tempo? Colocou o homem à vontade: ele tinha a noite inteira. O intruso fugiu. Izidine tinha um plano: entrevistaria. Suspirou de alívio: a pistola ainda ali estava. Os bichos se alimentarão dessas vozes antigas. é a única. Apanhou o objecto: não era uma lata. Izidine se intrigava: como saiu aquilo do saco de viagem? Rodou a casca entre os dedos e deitou-a pela janela fora. No lusco-fusco parecia um menino. receoso de que a magra luz se escoasse. Mas não foi ele que escolheu. mexeu no meu saco! 11 . já sem luminosidade.

Sim. Neste asilo. são os próprios tiradores. O silêncio é que fabrica as janelas por onde o mundo se transparenta. Se não há proprietário não há roubo. Não é que roubem. Taúlo Guiraze. não encontrando atalho nem alívio. senhor inspector: foi eu que matei Vasto Excelêncio. assim cega e rasa. a criança velha. Mas eu vi esse mexilhento. Navaia Caetano. Navaia Caetano: sofro a doença da idade antecipada. Está a ver estas rugas nos meus braços? São novas. Ele que se condenou. por isso. Vou juntar outra verdade. Tiram sem chegarem nunca a roubar. Minha voz se está enfraquecendo. Nem parecia arte de gente. pousou em todos os cantos da escuridão. sou a unha que teima em nascer num pé que foi cortado. É que nós aqui vivemos muito oralmente. quem sabe. Mas eu sigo adiante. Não vou dizer quem foi. Eu sou como a minhoca: não encosto desvontades contra ninguém. à medida que vou contando me sinto cansado e mais velho. A morte desse Excelêncio já começou antes dele nascer. aqui. Era um vulto abutreando as coisas do senhor. Não escreva. antes de falar consigo eu não as tinha. A minhoca. faço na palavra o esconderijo do tempo. o senhor se aumente de muita orelha. não receie o fumo. se fiz com alma e corpo. Nós dizemos: ntumbuluku. Tudo começa antes do antigamente. Além disso. A maldição pesa sobre mim. com permissão de sua paciência. Nego o roubo mas confesso o crime. até me estremexe a alma só de lembrar. Chiças. eu? Mexer-lhe nas suas coisas? O senhor pode inquirir em todos: não mexi nem toquei na sua mala. Não é assim? Aqui o capim é que come a vaca. Aquela sombra esvoou e pousou nos meus olhos. Estou aqui. Se comporte como água no vidro. doutor. Meu tio materno. Chegue-se mais à luz. deixe esse caderno no chão. vi. Não eu. O que cumpri. Não tenho força para odiar. quem ela pode odiar? Lhe explico. não foi por ódio. Só tiram. Enquanto ouvir estes relatos você se guarde quieto. Eu explico: nesta fortaleza ninguém é dono de nada. Começou comigo. Terceiro capítulo A confissão de Navaia Quem. quem é cacimbo se esvapora. Digo logo. Me dê suas paciências. o morcego chorou por causa da boca. me disse: as demais pessoas contam a 12 . Já não precisa procurar. Quem é gota sempre pinga. Nem tenha medo de queimar: não há outra maneira de me escutar. me é proibido contar minha própria história. Ou. Mas agora eu pergunto: levaram-lhe coisas? é que os velhos. Quando terminar o relato eu estarei morto. Sou como a dor que não tivesse carne onde sofrer. mais débil ficando à medida que eu desfiar estas confidências. A boca fala mas não aponta. eu só executei seu desejo matador. ainda mais parecida com a realidade: esse mulato se matou ele mesmo usando minhas mãos. Sou um menino que envelheceu logo à nascença. não? Será mesmo verdadeira esta condenação? Mesmo assim me intento. Dizem que. Parece longe mas é lá que nascem os dias que estão ainda em botão. Alguém fez. senhor inspector. eu.

Enquanto lacrimejava eu ia desaparecendo. uma desobediência às leis dos antigos. Sobre mim recaía a maldição.Não morreu. 13 . Mas não era apenas aquele o sinal da minha condição. estou chegando a mim. Quando ela paria um novo menino. sabe porquê? Porque mentiu. Agora sei: nasci de um desses nós mal atados na cintura de um falecido irmão. estou enchendo de saliva sua escrita. É ordem da tradição: o corpo da mulher fica intocável nos primeiros leites. mas a origem do mal todos conheciam: meu pai visitava muito o corpo de minha mãe. As lágrimas lavavam a minha matéria. Porque começou aí minha desgraça. Minha mãe. Ficou sem falar como se pesasse a minha alma. Resolvia-se. todo ele posto em riso. Eu sei. Histórias dele eram inventadas. Calma. . na aparência. E me aconselhou: . Não se lembra como falei? Nasci em corpito frágil. Qual a razão desse castigo? Ninguém falava. Meu avô me voltou a ajeitar no seu peito. Digo bem. Meu tio me convidava a mentir? Só ele podia saber. Mas.Esta criança há-de ser mais antiga que a vida. Ele não tinha paciências para esperar durante o tempo que minha mãe aleitava. alinhados pelos bons espíritos. Nunca eu vi mulher tão demasiado parideira. são pedaços soltos de minha vida. Fui sabendo dessa maldição nas primeiras vezes que chorei. Meu avô me levantou em bênção e me deixou suspenso em seus braços. Findas as muitas histórias. Antes. Enquanto os outros envelhecem as palavras. porém. só o homem é um escutador de silêncios. Mas a felicidade dele se enganava. desaparecia o anterior filho. Pois ela dava à luz sempre o mesmo ser.. Essa criança se divertia contando a sua história. o adoentado destino de minha mãe. Quem sabe o que ele procurava? Entre os mil bichos. me dissolviam a substância. inspector. no fim. o senhor vai entender isto que estou para aqui garganteando. eu lhe conheço uma saída. eu já havia nascido sem parto. Uma criança-velha não. não filhos. gotas rivalizando a mesma água. na aparência. Mas todos esses que se sucediam eram idênticos. A gente da aldeia suspeitava de castigo. outro lugar..história de suas vidas de maneira muito ligeira. Ao sair do corpo não dei nenhuma sofrência para minha mãe. Quando se preparasse para trebeliscar a esposa ele amarraria um nó na cintura da criança.Meu filho. Caso se um dia você decidisse ser contadeiro. sempre dispensado da sede. no meu caso quem envelhece sou eu próprio. ele permanecia vivo. Os caroços tombaram de modo certeiro. Tudo para explicar o sucedido no asilo. Ele mesmo anunciou como superar o impedimento. Quantas vezes ela saltou a lua? Lhe nasciam muitos filho.E qual seria? Ele ouvira falar de uma criança-velha nascida em outro tempo. O que vou contar agora. Meu velho desobedecia. com risco de meu próprio fim. O namoro poderia então acontecer sem consequências. . Digo bem: filho. Minha estreia parecia ter sido abençoada: foram lançadas as seis sementes de hacata. abro falas nela. vendo como os outros se angustiavam na ansiedade de o ver morrer. . Levaria para os namoros um cordão abençoado.

O curandeiro me perguntou qualquer coisa em xi-ndau. crescera e envelhecera num só dia. vai. me foi arrastando no caminho de casa.Menos de uma. negando meu corpo envelhecido. me drenei pela carne materna mais líquido que o próprio sangue. Mas não. E explicou: aquelas palavras eram chaves que se quebravam dentro das portas depois de as terem aberto. Chamou meu pai que baixou os olhos em nenhuma direcção.Basta uma lágrima? . Esse feitiço me haveria de defender contra o tempo. simplesmente virou o rosto. espantada com sua própria grandeza.O que lhe digo. Tinha sido assim: eu nascera. Qualquer tristeza mesmo que mínima. antes. esta criança pode nunca mais reaparecer. cabisbaixa. Um homem está interdito de enfrentar o filho antes que lhe caia o cordão umbilical. demorada como um desembrulho que nunca mais encontra as destinadas mãos. De tarde. Herdei de minha mãe esse modo de entristecer: só quando não choro eu acredito em minhas lágrimas. . Parecia ela estava em véspera de lágrima. . Minha mãe é que confessou não ter entendimento: . estavam os remédios contra a tristeza. Não serviam duas vezes. mamã. a voz definhava e me magoava a saudade de não ter vivido. . atravessassem a minha carne mais profunda. A vida da pessoa se estende por anos. O adivinho me cheirou os espíritos. Eu não sabia mas. ascendia por espasmos. às vezes. sem corpo. meu filho. espirrou. Mas alguém. Os espíritos falavam por sua boca mas era como se. Naquele momento. Fica mal um homem perguntar explicação de prosa alheia. O velho acenou fingindo perceber.Agora. dentro de mim me ocupou a voz e respondeu nesse estranho idioma. Os ossinhos da adivinhação disseram que me devia ser posto um xi-tsungulo. internada em si mesma. torrente.Não posso falar disso. gatinhoso. dentro dos panos. E se afastou.desprovido de substância. me arrastando. Minha mãe logo pressentiu que eu era um enviado dos céus. é que. Escorreguei ventre abaixo. tossiu e. Nunca eu sentiria tal firmeza em sua mão. Basta um pedaço de lágrima. Meu velho mandou chamar o chirema.Mãe: qual é a doença que eu sofro? Minha mãe me apertou com força. restava meu tio Taúlo para me desvendar os meus padecimentos. ao contrário. se chorar. língua que eu desconhecia e ainda hoje desconheço. O chirema voltou a ser atacado por convulsões. Pela noite. Rodeou-me o pescoço com esse colar feito de panos. você não tem nenhuma idade.Este menino não pode sofrer nenhuma tristeza. vaticinou: . depois. As lágrimas me confirmavam criança. Se entornava em frases. A poderosa voz do adivinho seguia entre rouquidão e canto. Minha mãe guardou silêncio e assim. simples fio. Eu era mais recém que recente mas já escutava com total discernência. lhe será muito mortal. era homem feito. 14 . Caetanito. eu era criança. se despendera toda num único dia. capaz de acertar no passo e no falar. Outras. Minha vida.Você. O irmão de minha mãe me falou: . De manhã. . já minha pele se enrugava.

Depois de falar com esse branco já você vai escolher decisão. Minha doença foi nascer. Quando cheguei ao asilo entendi que esta era minha última e definitiva residência. Entendo-lhe. já é raiz antes de proclamar seu verde sobre o mundo. Não encontrou ainda com ele? Amanhã. disse ela. vai ver. Minhas razões são. ninguém testemunhou como ela morreu. meu tio Taúlo concluía: . Todas as noites ela me traz restos de comida. Nessa altura. no segredo da terra. Se lembrava de um outro menino-velho: chupou o seio da mãe com tais ganâncias que ela não resistiu e faleceu. o Domingos Mourão. vou puxando lembrança.Não posso deixar o meu filho sofrer de fome. Essa coruja me padrinhou e sustenta. essa piagem me requenta as minhas noites. . estava contaminado com um mupfukwa. O menino que assim nascera certamente trazia novidades. Como essas mães que amamentam até se extinguirem. o senhor diz. A gente se arrepia por vermos confirmados os buracos por onde nos vamos escoando. Foi pena. inspector: quem matou Vasto Excelêncio fui eu. mais poderosas. Daí a um apouco vou ver o que.Ninguém lhe dê de mamar! Minha mãe sacudiu uma invisível mosca e se aproximou de mim. tão 15 . inspector. o senhor vai pensar que quem matou o director foi o velho português. deitando-me em seu colo. os cabelos me tinham crescido e as unhas eram compridas e curvas como um lagarto. Antes. mirrada como a cana numa prensa. Passou-se o dia primeiro. já eu não exibia convidativas aparências: minha pele tinha mais rugas que a tartaruga. Não. desta vez. inspector? Está a ouvir essa coruja? Não receie. Sofria de fomes sucessivas e quando minha pobre mãe me ofereceu o seio mamei com tal sofreguidão que ela quase desfaleceu. o espírito dos que morreram por minha culpa. ofereceram o seio: também elas morreram. já estamos nascendo. É como a planta que. antes mesmo de nascer. Antes. Os presentes taparam o rosto. meu tio Taúlo levantou o braço e mandou parar o mundo: . eu pertenço a essa ave. A gente vai acordando no antecedente tempo. Padeci tais fomes que só não morri porque a morte não me encontrou. durante dias e dias nem pus dente em côdea. Mas tome cuidado. Já vai ver. Foi então que me expulsaram. O que é. só estou enxotando cacimbos. eu me assustava também. Agora. Agora entendo. Vieram as tias. Preparava-se a seguinte mamada. Eu trazia maldição. Fiquei derreado. no entanto. Continuo. presságios sobre o futuro da terra.Nenhuma mulher lhe ofereça o peito! Ele estava avisado. Estou me perdendo. O piar da coruja faz eco no oco da nossa alma. Estou pagando com minha própria vida. ela me trouxe. Assim. Outra condenação me atrapalha: quando acabar de contar minha história eu morrerei. Ela é a minha dona. Quando começar o serviço de duvidar. Ao senhor lhe faz medo. E puxou o seio para fora da capulana. Sempre de braço em riste. É verdade: o português lhe vai presentar razões para deitar morte no mulato. me excomungando para este asilo. Todos recusaram assistir. O parto é uma mentira: nós não nascemos nele. mesmo meu tio. a minha família chamou os habitantes e pediu que esperassem à volta da nossa casa.

afinal. .. Meus companheiros conheciam o perigo mortal daqueles relatos. nem tudo. me coube uma garça em estado moribundo. Porque esse que em mim morria não era. Era uma criança. Meu arco quem o brincaria.. Despescoçámos a garça.. redondeando alegrias pela velha fortaleza. sem explicação.magro que estava. eu podia ser abocanhado pela morte.Com certeza. Primeiro. me pesava a velhice. Nessa noite. Era verdade que inventava. E se consolasse em estado de mãe. muito depois. Mas animal. De noite.Acabam as histórias. em trocapartida. depois de muita palavreação me senti esgotar. Anda-se a esquivar da verdade. meu lado criança governava meu corpo. Minha velhota falou por voz do nyanga: a paz só me visitaria se. Foi preciso apanhá-lo junto do pescoço. No final de um trecho. A vida me expirava o prazo e eu desabrochava em aspecto de renascer? Os velhos se entreolhavam: desta vez eu teria contado a verdade? Senti que alguns deles choravam.. Havia que acontecer urgente e 16 . Mesmo assim me pediam que prosseguisse minhas narrações. Eu que desse total andamento à minha infância. A feiticeira primeiro negou-se. agora? Aquela roda de bicicleta que antes barulhava pelos corredores. eu lhe concedesse paz a ela. De dia me ocupasse de brincar. fiz pacto com a coruja e recebi migalhas das suas réstias. onde eu iria. Contudo. Deitado no meu leito. Uma ideia me luzinhou: se calhar ela me podia ajudar a voltar à minha verdadeira idade! Falei com essa Nãozinha. Nessa altura. Por minha boca já não transitavam palavras. Depois. E o mais estranho: enquanto roçava a derradeira fronteira meu corpo se desenrugava. parecido com eles. desencantar? Falei com a coruja e lhe encomendei peça viva.O que ela quer?. meu peito ainda se movia. chamava os outros velhos para lhes contar um pedaço de minha história. para que ela escutasse minhas folias. eu perdia a aparência da velhice. . Ela dizia não ter poderes. Desfiava prosa e mais prosa e eles se cansavam: . ansiavam ver o espectáculo de uma morte. Chamou-me para me dizer que iria aprontar uma cerimónia para agarrar o mupfukwa. esse mau espírito que me perseguia. um ser totalmente em infância. Era preciso um animal. Será que eu tinha morrido? Não. Logo correram os ditos: ela era uma feiticeira. Era eu menino a tempo quase inteiro. Nessa altura chegou ao asilo uma velha chamada de Nãozinha. este gajo não morre nunca.Porra. A cerimónia estava pronta a ter início. Eu era a única luz que entrava nos escuros corredores. ali. se arrependiam. Mas nem sempre. Agora. meus gritos e risos se acenderam nos corredores do asilo. Nãozinha falou claro: o espírito de minha mãe que exigia satisfação. carecia-se de fazer descer o sangue à terra. Desde então. o sangue da ave era tão leve que não tombou no soalho. De dia. Lhes doía uma súbita saudade das minhas criançuras. Um dia. ele inventa. . Minha esperança se desfez. acabamos nós e ele ainda há-de sobresistir. Esse menino não podia morrer. uma notícia me trouxe esperança. Fosse totalmente menino. perguntei. porém. Certa noite. quem lhe iria agora dar voltas e tonturas? Me vendo morrer eles se decidiram. Pensei: agora é que estou pisando o fim! Passaram diante de mim estrelas que em nenhuma noite foram vistas. ela mudou de ideias.

quase ficara louco. velho.Isso é português? Nem se entende. . vinda das profundidades.Deixem ouvir! . . E.Quero saber que língua fala o teu demónio. panos escondidos. No fundo estreloso da noite não vislumbrei senão a fugidia passagem de uma ave rapineira.. era o director pontapeando o bidão de tontonto. Ela nos sossegou: apenas eram nuvens entrechocando. capulanas. queremos saber quem é esse soldado. Se improvisaram panelas. desperdiçada. O espírito era o de um soldado branco que morrera no pátio desta fortaleza. os olhos lhe desapareceram. enfim. De quando em quando. só via o mar. Depois.Calem-se vocês. . eu. E se prepararam: tambores. .Afinal. Durante horas festejaram.Eu não disse que estão proibidas estas macacadas no asilo? 17 . A bebida se vazou pelo chão. de novo. Por sua fala começou a caminhar uma outra voz. Nem os antepassados careciam de tanto beber. Roubaram produtos na despensa do asilo..autenticada cerimónia. deixem ouvir o espírito. A feiticeira então baralhou os braços nos gestos. Ficaram só duas cavidades. . Mesmo o velho branco era atiçado a dançar. sempre a olhar o mar. cheios de inquietação. disse o branco. Domingos. Não admirava: o português sempre via o mar.Sim. surgiu o estrondo.. de mão em mão. A última coisa que ele viu foi a chegada do temporal. Atravessava. Parámos a dança e olhámos Nãozinha. . Depois. bebendo.. transitaram ervas fumáveis e os perfumes se espalharam como tonturas.Mas eu não espero nenhum barco. Havia que reclamar a salvação desse menino. a branca viuvez da garça. Era língua portuguesa mas de antigamente. De súbito. Na noite anterior tinham preparado o tontonto. soberana. Olhei o céu mas não havia vestígio de nuvem.Vejo o mar. a claridade da noite. até tambores se inventaram. olhando o mar. disse a feiticeira. sem despedida.É como você. a tristeza tem artes de fazer música. cantavam. O soldado tinha adoecido. sujou-nos o nome. Olhei: afinal. afinal. Esse português.Que merda é esta? Que se passa aqui? Nossa cerimónia era bruscamente interrompida por Vasto Excelêncio. nós? Sim. tínhamos as tantas coisas. De tanto olhar o mar seus olhos mudaram de cor. Seria a coruja? E.. . desta vez bem terrestre.O espírito fala português . Tudo para sossegar o muzimo que me tinha ocupado. De tudo. me espreitavam no leito: eu ainda resistia. . Navaia Caetano. . Parecia a guerra tinha retornado. ordenando às gentes que continuassem dançando. O director abusou de boca. onde se raspavam tais nuvens? Deflagrou um segundo estrondo. A feiticeira colocou as duas mãos sobre o rosto do português e lhe disse: . esperava um barco. entrando em transe. grutas por onde ninguém ousava espreitar. Parecia o corpo lhe saía fora da alma.Isso pensa você. Assim falou Nãozinha.. tubos da canalização. dançavam. Mandei os outros se calarem: . Ele morreu sem enterro. excedendo as bocas.

corroendo os ossos interiores. Apoiado pelos velhos fui sendo arrastado para a porta.Vai você.. disse. Depois. tudo. crianças. 18 . Sem esforço. bebidas. E saiu. virou-me costas e proclamou: .. em minha mão direita. vai lá matar esse filho de uma quinhenta. O mulato me olhou. Sobre mim tombou o luar.Ou me arrumam já esta merda ou pego fogo a tudo. me levantei. Navaia. velhos.Você é que é criança. Afinal. Ergueu o lençol e começou a esfregar-me as pernas com óleos. Os outros velhos explicaram: aquela cerimónia era para me salvar a mim. a feiticeira me encorajou a sair da cama: . E as vozes me incitavam: . Nãozinha se levantou e chegou-se ao meu leito. As forças lhe vão chegar. Os velhos se olharam. tem forças de meninice.. Navaia. esfregou as pálpebras a esborratar a visão. Quando seus olhos se fixaram nos meus foi como se um golpe o derrubasse. Havia como que uma mão invisível me empurrando. Fechei os olhos. mais vazios que o tontonto.. tinha sido para matar que a morte disputara meu corpo? Desencrispei as mãos. Faz o que tem a fazer-se. espantado.Sim. Eu senti um calor me. Sacudiu a cabeça. Se aproximou do meu leito como se se quisesse certificar da minha identidade. justiceiro. . Passado um tempo. Só então notei um punhal brilhando.

ele que respeitasse. Rodou sobre s mesma. adiando a pedida explicação. Aquele não era o seu mundo. Aquele seria o seu segundo despertar naquela manhã. Já antes Marta o tinha feito saltar da cama. o polícia voltara a adormecer.. ela recusara acompanhar o polícia: . Ermelindo Mucanga. Restavam pedras avulso. olhos embrulhados de sono.. baratas e pesadelos sobrava-lhe pouca cabeça. A Independência parou o resto da obra. Izidine se atestava de 19 . A enfermeira procedia como se suspeitasse de ocultas intenções.O que se encontra nesta vida não resulta de procurarmos. Deixasse tudo quieto.. Marta se calou. Guardou-a num dos bolsos do casaco. não entendi. Eram necessários vários braços para transportar o corpo de um homem como Excelêncio. arrependida. Como tinha dormido mal naquela noite! Suspeitava de minha presença dentro dele? É muito de duvidar: sou menos que a névoa na teia de aranha. esses passaritos que chamam pela maré cheia. A morte me interrompeu o serviço. Existira. seguindo-lhe as andanças. O mar enche e vaza sob mando de aves. Izidine voltou a acordar umas horas depois. Será que a deixara assim tão espalhada? De repente. um ancoradouro junto ao recife rochoso. Trazia uma chávena de chá. Ou. Depois. Ela o espreitava. carpinteirara nessa plataforma. o crime poderia ter sido cometido ali mesmo. Ainda há pouco eram os tchó-tchó-tchós que ordenavam que as águas descessem. O barulho das ondas o ajudava a pensar. Já bem basta você mesmo para se atrapalhar.Não quero atrapalhar. quem sabe. Engraçado como um ser gigante como o oceano presta obediências a tão ínfimas avezitas. Levantou-se e recolheu-a. Tinha sido ali que encontraram o corpo. junto às rochas? Olhou para a barreira e viu Marta. Por fim. acedeu a falar. Marta riu-se de o ver assim e saiu para que ele repousasse um pouco mais. . suas tristes estridências. o polícia deveria simplesmente sentar-se e ficar quieto. Parecia evidente que o crime tinha sido cometido por mais de uma pessoa. A maré estava vazia e deixava a descoberto grandes porções de areia e rocha. mesmo junto à rebentação. fingindo limpar uma poeira na camisa do inspector. Não tardaria a ouvirem-se os chori-choris. Naquela manhã. Depois. Eu mesmo. depois de entregar o chá. mesmo silêncios e ausências.Desculpe. Antes de sair ficou a olhar a roupa desarrumada sobre uma velha mesa. Logo a seguir. eu esperava que Izidine recordasse. Entre ratos. E troncos que teimavam ondear por ali.. Izidine ficou sentado na areia molhada. o mar se vingara naquele porto inacabado. O polícia bebeu-a de um trago. deu andamento a um plano que traçara previamente: descer à praia para calcorrear as grandes rochas. Escutavam-se as gaivotas. No aviso dela. . Quarto capítulo Segundo dia nos Viventes Na segunda manhã. viu a mesma casca que deitara fora na noite anterior. junto ao chapéu. em tempos.

De entre esses lamentos lhe haveriam de chegar os gritos do próprio Vasto Excelêncio. Domingos Mourão. Rapidou-se pelo caminho de regresso. pescadores afogados e mulheres suicidadas. das línguas. Marta lhe corrigiu o cepticismo: . o inspector lembrava as palavras da enfermeira.Gritos. como se quisesse sacudir não os grãos mas as suas próprias lembranças. Se passara. respondera Caetano.Ontem me pediram para ouvir. perguntou Izidine. afinal. o morto grita o nome do assassino. O que o velho dissera foi que. E não mais disse. Na noite anterior. como que por magia. Caminhou sobre as rochas. Quem sabe Marta tinha razão? Ele estudara na Europa. se escondiam vozes de naufragados. verdadeira? Seria aquele um resto material dessa frustrada fuga? A suspeita enrugou a testa do inspector: alguma coisa lhe escondiam. sob o ruído da rebentação. Havia restos de paus.Pediram para ouvir o quê? Repetiu o enigmático conselho de Navaia. Gritos de quem? . agora. O que queria ele dizer? Bem que Marta o poderia ajudar nesse esclarecimento. Porque. para além do marulhar. Aquilo que o fugitivo acreditava serem ondas. Sem desfecho ficou o velho que sonhara evadir-se. A embarcação se desamantelou.O mar aqui carrega mais traição que ondas. em tempos. Parecia ter sido arrastada pelas ondas.Está a ver a sua arrogância? Pois fique sabendo que. Agora. Navaia lhe contara uma história. Em Moçambique ele ingressara logo em trabalho de gabinete. liquefeitos. de repente. Uma embarcação ali? Se todos lhe tinham certificado que aquelas águas eram inavegáveis!? Lembrou as palavras do velho Navaia: . Distraído. regressara a Moçambique anos depois da Independência. Nem sequer estava escondida. Levantou-se e sacudiu a areia. A enfermeira se fazia de cara. E os penedos se dissolviam. Pouco mais que isso. Porque. Como se fossem pedaços de uma jangada. quando um velho tentara fugir por mar. A história da jangada era. o certo é que aquele mar não dava conselho para viagem. Até que encontrou uma espingarda. trocaram aparências. nem notou que a noite estava já caindo. No campo.Dos falecidos. 20 . lhe haveriam de chegar gritos humanos. Navaia Caetano lhe pedira que escutasse o mar. ela acedeu. das pequenas coisas que figuram a alma de um povo. . Procurou nas cercanias. O polícia se intrigava. .Todas as manhãs o morto clama juras de vingança.Não posso crer. desdenhoso. empedernidas. Na noite anterior. . sentado junto à rebentação das ondas. .dúvida. não passava de um estranho.?. Marta Gimo lhe solicitava quase o inverso. O seu quotidiano reduzia-se a uma pequena porção de Maputo. Improvisara uma jangada e se fizera à água. E sorria. o velho-menino já o tinha poeirado o suficiente. tinha marcado encontro com o velho português. Mas as rochas e o mar. Aquela noite. Você me pede o contrário. O polícia sorriu. se solidificavam. Havia uma certa raiva no seu gesto. Por fim. todas as manhãs. Mas ela sorriu. Navaia tirava estória de sua imaginação? Houvesse ou não uma inventada história. . Esse afastamento limitava o seu conhecimento da cultura. Izidine voltou a pedir-lhe. negando com a cabeça.

Depois ela se sentou. há muito que deixou de ouvir a noite. Você. junto à árvore do frangipani. parando junto dele. o rumor do oceano. sombra vadia. Esse barulho é a própria noite. embrulhada em capulana. Despertou. de noite. Ficaram como sentinelas silenciosas. então.Venha ver o mar daqui de cima! Domingos Mourão se aprontava num banco de pedra. vinda do escuro.Quem sabe se.Será o mar que faz esse ruído? . O polícia se sentou na amurada do forte sentindo. Os olhos lhe começaram a pesar e acabou vencido pelo sono.O senhor me perdoe a indelicadeza. para fora do acontecível. Era Marta que se chegava perto. Será que nasceu perto do mar? Izidine negou. . . a entoar em surdina uma antiga canção de embalar. acreditou ouvir reais vozes junto à praia.O mar também não é. esta noite. Ela se retirara. Era o velho português: .Esse barulho não são pessoas. Izidine foi levado para longe. Começou. Depois. Se aproximou. se internando num silêncio demorado. sou eu o escolhido? E o velho português fechou os olhos. minutos depois. lá de onde vem. 21 . O português disse que ouvira falar de uma terra longínqua em que os velhos se sentavam. . Ficavam assim em silêncio. De repente. O polícia ficou ainda um tempo. cobrindo as pernas com a capulana. O mar vinha e escolhia quem ia levar. tentando decifrar os sons que chegavam da rebentação. ao longo da praia. lhe perguntou: . falou. . ao fundo. junto à fortaleza. Esperou-o no pátio mas o outro se demorou. E assim. Uma mão lhe chamava à realidade. olhos postos no horizonte. Mas Marta já não estava ali.Minha mãe me cantava essa mesma melodia.

onde?. inspector. Era como se o tempo não andasse. minhas querências estavam atoladas no matope. minhas raízes renasceram aqui. O senhor inspector me pede agora lembranças de curto alcance. Agora não cheira a nada. Até o velho Nhonhoso se entristece do modo como eu me desaportuguesei. Desculpe-me este meu português. eu podia partir de Moçambique. Sou português. E que tempos foram esses! Quando veio a Independência. um velho preto que andava pelas praias a apanhar destroços de navios. agora não é tempo das flores. um dia. como se fosse sempre a mesma estação. Dizem que havia. Falava com ninguém? Não. Nem cemitério eu não teria. Não que eu hoje precise de sentir nenhuma passagem dos dias. Domingos Mourão. nesse tempo. Isso nem é duvidável. Acontece que uma dessas tábuas que ele espetou no chão ganhou raízes e reviveu em árvore. Se quer saber. a árvore do frangipani. lhe conto. Venho de uma tábua de outro mundo mas o meu chão é este. eu sou essa árvore. Na despedida. conversava com as ondas lá em baixo. de coração amarelo. senhor inspector. é coisa antiga. a minha mulher se retirou. ali no asilo. minha esposa ainda me ralhou assim: . naquela tarde. Tudo sempre se passou aqui. da cor desta terra. O senhor é negro. Me lembro de.Como o mar se dá bem neste lugar! Falei assim. faz agora vinte anos. inspector. nome de nascença. Não pode entender como sempre amei essas árvores. uma réstia de nenhuma coisa? Lhe conto uma história. na vossa terra. de Moçambique? Eu encolhi os ombros. É que aqui. Só esta fica despida. nesta varanda. -. Me contaram. dos tempos de Vasco da Gama. Mas Nhonhoso insistiu: 22 . Só o frangipani me devolvia esse sentimento do passar do tempo. Recolhia restos de naufrágios e os enterrava. Mas nunca poderia partir para uma nova vida.Aqui. como o besouro que dá duas voltas antes de entrar no buraco. Quinto capítulo A Confissão do Velho Português . tenho a gramática toda suja. Pois. Mas o perfume desta varanda me cura nostalgias dos tempos que vivi em Moçambique. por baixo desta árvore.Você fica e eu nunca mais lhe quero ver.Num cemitério daqui. já nem sei que língua falo. ele me ter dito: . este país lhe pertence. lengalengo-lhe? Vou chegando perto. Converso-lhe. pertence a Moçambique. Ganhei afecto desse rebaptismo: um nome assim evita canseira de me lembrar de mim. Mas não lhe traz um arrepio ser enterrado aqui? -. deixei de sentir o Outono.Você. Me sentia como se tivesse entrado num pântano. Xidimingo. Quando vim para África. Não é só o falar que é já outro. não há outras árvores que fiquem sem folhas. Sim. Aqui me chamam Xidimingo. Minha vontade estava pegajosa. São estes pretos que todos os dias me semeiam. E levou-me o miúdo que já estava em idade de tropear. perguntei. Minha vida se embebebeu do perfume de suas flores brancas. Voltou para Portugal. faz conta está para chegar um Inverno. E o pensar. Sou o quê.

-- É que os seus espíritos não pertencem a este lugar.
Enterrado aqui, você será um morto sem sossego.
Enterrado ou vivo, a verdade é que não tenho sossego. O senhor vai ouvir
muita coisa aqui sobre este velho português.
Hão-de-lhe dizer que fiz e aconteci. Que até incendiei os campos, que se
estendem desde lá atrás. Até que é verdade: sim, eu lancei fogo naqueles
matos. Mas foi por motivo meu, a mando só meu. Sempre que olhava as
traseiras da fortaleza eu via a savana a perder as vistas. Perante toda aquela
devastidão me chegavam instintos de fogo e cinza.
Hoje eu sei: África rouba-nos o ser. E nos vaza de maneira inversa:
enchendo-nos de alma. Por isso, ainda hoje me apetece lançar fogo nesses
campos. Para que eles percam a eternidade.
Para que saiam de mim. É que estou tão desterrado, tão exilado que já
nem me sinto longe de nada, nem afastado de ninguém. Me entreguei a este
país como quem se converte a uma religião.
Agora já não me apetece mais nada senão ser uma pedra deste chão. Mas
não uma qualquer, dessas que nunca ninguém há-de pisar. Eu quero ser uma
pedra à beira dos caminhos.
Volto à minha história, não se preocupe. Estava onde? Na despedida de
minha antiga esposa. Sim. Depois dela partir, vieram os distúrbios, a
confusão. Digo-lhe com tristeza: o Moçambique que amei está morrendo.
Nunca mais voltará.
Resta-me só este espaçozito em que me sombreio de mar. Minha nação é
uma varanda.
Nesta pequena pátria me venho espraiando todos estes anos, feito um
estuário: vou fluindo, ensonado, meandrando sem atrito. Na sombra, me
reiquintei, encostado àquele murmurinho como se fosse meu embalo de
nascença. Apenas as cansadas pernas, certas vezes, me inconvinham. Mas os
olhos andorinhavam o horizonte, compensando as dores da idade.
Você sabe, caro inspector, em Portugal há muito mar mas não há tanto
oceano. E eu amo tanto o mar que até me dá gosto ficar enjoado. Que faço?
Emborco dessas bebidas deles, tradicionais, e me deixo zululuar. Assim, na
tontura, eu ganho a ilusão de estar em pleno mar, vagueando sobre um barco.
A mesma razão me prende ali, na varanda do frangipani: me abasteço de
infinito, me vou embriaguando. Sim, eu sei o perigo disso: quem confunde céu
e água acaba por não distinguir vida e morte.
Falo muito do mar? Me deixe explicar, senhor inspector: eu sou como o
salmão. Vivo no mar mas estou sempre de regresso ao lugar da minha origem,
vencendo a corrente, saltando cascata.
Retorno ao rio onde nasci para deixar o meu sémen e depois morrer.
Todavia, eu sou peixe que perdeu a memória. à medida que subo o rio vou
inventando uma outra nascente para mim. É então que morro com saudade
do mar. Como se o mar fosse o ventre, o único ventre que me ainda faz nascer.
Demasio-me nesta palavreação. Lhe peço desculpa, já perdi hábitos de
conviver com pessoas que têm urgências e serviços.
É que aqui não existe ninguém que tenha função que seja. Fazer o quê?
Digo com meu amigo Nhonhoso: ainda é cedo para fazermos alguma coisa;
estamos à espera que seja demasiado tarde. Em todo este asilo sempre fui o
único branco. Os restantes são velhos moçambicanos. Todos negros. Eu e eles
só temos serviço de esperar. O quê? O senhor devia era se juntar a nós nestes
vagares. Não se preocupe, deixe o relógio sossegado. A partir de agora vou

23

mais a direito: recomeço onde fiquei, nesta mesma varanda onde estamos
agora.
Pois, aconteceu numa certa tarde, em que aquele tanto azul me parecia
derradeiro: a última gaivota, a última nuvem, o último suspiro.
- Agora, sim: agora só me resta morrer.
Pensava assim porque, neste lugar, a gente definha, morrendo tão
lentamente que nem damos conta. A velhice o que é senão a morte estagiando
em nosso corpo? Sob o perfume doce da frangipaneira, invejava o mar que,
sendo infinito, espera ainda em outra água se completar. Eu desfiava aquela
conversa sozinho. Quando se é velho toda a hora é de conversa. Em voz alta,
pedia licença a Deus para, naquele dia, me retirar da vida:
- Deus: eu quero morrer hoje!
Ainda me arrepiam aquelas exactas palavras. é que me sentia em
sossegada felicidade, nenhuma dor me atrapalhava. Me faltava, no entanto,
competência para morrer. Meu peito obedecia à vaivência das ondas, como se
tivesse lembranças de um tempo que só existe fora do tempo, lá onde o vento
desenrosca a sua imensa cauda. Sorte têm estes meus amigos que acreditam
que todo o dia é o terceiro, apto a ressuscitações.
Mas eu requeria morrer naquela tarde que não passava nuvem e o céu
estava indeferido para gaivotas. Não era só o mar que me trazia esse desejo de
me infindar. Eram as flores do frangipani. Como se me tivesse parenteado com
a terra. Como se quem florescesse fosse eu mesmo.
- É verdade, a morte não haveria de me doer hoje.
Vê lá que eu ainda te faço a vontade.
Eram palavras que não saíam de mim. Nem notei a chegada de Vasto
Excelêncio, esse filho da maior puta. Excelêncio era um mulato, alto e
constituído, sempre bem envergado. O tipo riu-se, ombros hasteados:
- Queres mesmo morrer, velho? Ou não será que já morreste e,
simplesmente, não foste informado?
Aquilo me arranhou, fossem palavras proferidas por garganta de bicho. O
mulato prosseguiu, sempre me abestinhando:
- Não tenha medo, velho rezingão. Amanhã já vou daqui embora.
Fiquei surpreso, inesperado: o sacana nos deixava, assim? E de que
maneira ele se retirava?
- Não acredita?
Sacudi a cabeça, em negação. Vasto rondou o tronco do frangipani como
o toureiro estuda o pescoço do touro. Se apurava em me magoar:
- E sabe que mais, velho? Vou levar comigo a minha mulher.
Heim, vou carregar Ernestina. Está ouvir, velho? Não diz nada?
- Que nada?
- Sem Ernestina quem é que você vai estreitar? Heim? Como será, velho?
Eu me prescindi. Vasto me convidava para raivas e disputas. Eu só podia
me escusar. Até que ele se levantou e me puxou com força pelos pulsos.
- Quer saber por que sempre lhe tratei mal, Mourão? A você que é um
anjo caído dos lusitanos céus?
Fingi pegar o céu com os olhos, apenas para evitar as fuças dele.
Recordei os tantos castigos recebidos nesses anos. O director assentou os dois
pés em cima do meu tornozelo.
- Dói? Como pode ser? Os anjos não têm pés!
Assim, pisando-me onde o corpo mais me doía, o mulato me calcava
acima de tudo a alma.

24

- Está fingir de pedra? Pois, então: a pedra não é coisa de se pisar?
Aguentei, impestanejável. Os bafos do satanhoco me salpingavam. Um
desfile de insultos se estribilhou da boca dele. Me segurou as orelhas e me
cuspiu na cara. Foi saindo de cima de mim e se afastou. Então, dei azo a
antigas fúrias: peguei numa pedra e apontei à cabeça do sacana. Uma
inesperada mão me travou o gesto.
- Não faça isso, Xidimingo.
Era Ernestina, a mulher de Excelêncio. Me puxou para o assento de
pedra. Suas mãos me desenharam as costas.
- Sente aqui.
Obedeci. Ernestina me passou os dedos pelos cabelos.
Aspirei o ar em volta: nenhum cheiro me chegou. Era eu que inventava
os perfumes dela?
- Você não entende as maldades dele, não é?
- Não.
- É que você é branco. Ele precisa de o maltratar.
- E porquê?
- Tem medo que o acusem de racismo.
Eu, sinceramente, não entendi. Todavia, estando assim junto dela, eu
não requeria nenhum entendimento. única coisa que fiz foi levantar-me e
colher umas tantas flores. Frágeis, as pétalas soltaram-se logo no gesto da
oferta. Ernestina levou as mãos ao rosto.
- Meu Deus, como eu gosto deste perfume.
Alisei compostura em meu fato de domingo. Eu já não fazia ideia
nenhuma sobre os dias e as semanas. Para mim todos os dias tinham sabor
de domingo. Talvez eu quisesse apressar o tempo que me restava. Ernestina
me perguntou:
- O senhor não sente saudade?
- Eu?
- Quando está assim, olhando o mar, não sente saudade?
Abanei a cabeça. Saudade? De quem? Ao contrário, me sabe bem, esta
solidão. Juro, inspector. Me sabe bem estar longe de todos os meus. Não
sentir suas queixas, suas doenças. Não ver como envelhecem. E, mais que
tudo, não ver morrer nenhum dos meus. Eu aqui estou longe da morte. é esse
um pequenito gosto que me resta. A vantagem de estar longe, nesta distância
toda, é não ter nenhuma família. Parentes e antigos amigos estão lá, depois
desse mar todo. Os que morrem desaparecem tão longe, é como se fossem
estrelas que tombam. Caem sem nenhum ruído, sem se saber onde nem
quando.
Me leve a sério, inspector: o senhor nunca há-de descobrir a verdade
desse morto. Primeiro, esses meus amigos, pretos, nunca lhe vão contar
realidades. Para eles o senhor é um mezungo, um branco como eu. E eles
aprenderam, desde há séculos, a não se abrirem perante mezungos. Eles
foram ensinados assim: se abrirem seu peito perante um branco eles acabam
sem alma, roubados no mais íntimo. Eu sei o que vai dizer. Você é preto, como
eles. Mas lhes pergunte a eles o que vêem em si. Para eles você é um branco,
um de fora, um que não merece as confianças. Ser branco não é assunto que
venha da raça. O senhor sabe, não é verdade? Depois, há ainda mais. É o
próprio regime da vida. Eu já não acredito na vida, inspector.
As coisas só fingem acontecer. Excelêncio morreu? Ou simplesmente
mutou-se, deixou de se ver?

25

reparei que ela evitava ser olhada de ambos os lados. que eu acabei de morrer um bocadinho. por fim. tingido de ter sido sovado. em pedaços desencontrados. sem tecto.Vasto lhe bateu outra vez? Ela desviou o rosto. recomendando-me sossego. Deixe. Me deixe. Ela era todas as mulheres. inspector. Custa-me ir cumprindo tantas pequenas mortes. 26 . Porque a memória me chega rasgada. ao me despedir de Ernestina. esperei pela noite. Assassinei o director do asilo. Lhe montei a armadilha lá em cima. no alto. que liga o quarto dele à cozinha. inspector. essas que apenas nós notamos. todos os homens que foram derrotados pela vida. Eu quero a paz de pertencer a um só lugar. Agora. Ser todo de uma vida. não é nada. . eu quero a tranquilidade de não dividir memórias. Acho que nunca sabemos o motivo quando matamos por paixão. E assim ter a certeza que morro de uma só única vez. Sua mão me alicateou o braço. ele sempre passava por um corredor estreito. inspector. Nessa hora. E agora me deixe só. Simplesmente. Termino. O seu rosto estava marcado. Fiz subir uma grande pedra e a deixei. disse. na íntima obscuridade de nós. cabeça na sombra dos ombros. Foi por ciúmes? Não sei. preparada para cair sobre Vasto Excelêncio. Me custa chamar lembranças. E saiu. Percebi. Aquela mulher que eu tanto queria não era uma simples pessoa. Tudo então me apareceu simples: Vasto deveria desaparecer. eu o devia matar o mais breve possível. já no esfriado do tempo encontro explicação: nessa tarde.

Sente-se. . A enfermeira. . Ela agora certificava se não havia reincidência.É que. Ela estava sentada junto de Navaia. Falava diversas línguas e o polícia não fazia ideia do que eles diziam. . Navaia. Navaia? . não se ocupava nos afazeres de enfermagem. rindo e cavaqueando. Soletrava a palavra "inspector como se de 27 . de mim. Navaia Caetano comentava sobre a magreza das suas pernas. eu conheço as minhas pulgas. Falava com um sorriso irónico.Não me venha com essa história da coruja. Navaia se retirou com lentidão: a curiosidade o prendia àquele lugar. está sair um cheiro de vela apagada. . Desta vez. resistia com subtileza. Com uma das mãos fez parar a enfermeira para ele próprio revistar as pernas. a sua profissão. Os depoimentos dos velhos o lançavam por pistas que pareciam falsas mas que ele não podia ignorar.Está a ver essa pulga. não a mim.Antes que me esqueça! Me pediram para lhe entregar isto. De uma coisa tinha a certeza: era dele que Marta e os velhos riam e faziam abuso. Dizia ter que trabalhar. Mas. Marta lhe deu uma palmada nas costas.É o tempo. Depois. Passava horas brincando com a velharia.Você anda a comer o quê. quando ficaram a sós Marta estendeu a mão ao polícia: . . enfermeira? . Agarrou qualquer coisa e espremeu-a entre os dedos: . enfermeira? . inspector. paciente. Chegou-se mais para junto do velho e descobriu-lhe as costas para lhe procurar algum sinal de doença. A enfermeira sorriu e ordenou que endireitasse as calças. O tempo é um fumo. Marta Gimo sorriu. Voltou atrás ainda duas vezes fingindo que procurava seu arco. Marta explicou que tinha havido casos de lepra no asilo. Estou tratando de Navaia. Izidine se afundava em hesitação. bem igual àquelas que apareceram no quarto. Escusava-se a marcar encontros. enfermeira. O velho-criança arregaçara as calças exibindo suas pernas magras. aqueles idosos eram testemunhas essenciais mas era de Marta Gimo que devia obter as suculentas informações.Migalhices dessas que me deixam por aí. dona enfermeira. contudo. agora preciso falar com o inspector. .Já me esqueci. Finalmente.Pronto.Essa pulga não é minha.Não me cheire. o polícia se aproximou de Marta. Sexto capítulo Terceiro dia nos viventes Era o meu terceiro dia na fortaleza. Deitou um pequeno objecto na palma da mão direita. Navaia não parecia estar à vontade: .E porquê não? . Naquela tarde. nos vai secando as carnes. vai lá. Essa história é para contar aqui ao inspector. Era uma escama. pelos vistos. parecia que ela exercia. Não é minha. um bafo de coisa morta. .Quem lhe deu isto. de facto.Não vejo nada. .

inspector. ontem. Era ela que gritava.. O polícia repentinou-se pelo quarto dela adentro. Os gritos vinham do quarto de Marta. então? . pistola em punho. Izidine acudiu a resguardá-la. Marta Gimo desatou a rir.Estão a matar as últimas raízes que poderão impedir que fiquemos como o senhor. Marta aproximou-se e passou-lhe a mão pelo cabelo. Izidine Naíta não encontrou forças nem sequer para sorrir. em vão. senhor inspector: o crime que está sendo cometido aqui não é esse que o senhor anda à procura.O verdadeiro crime que está a ser cometido aqui é que estão a matar o antigamente. quando já se preparava para dormir. mas isso. é filosofia. para mim. Uma espingarda? Isso não é possível. Naquela noite. surgia como a única ponte para desvendar o caso da morte de Excelêncio. . A verdade é que o tempo muda. esses velhos são uma geração do passado.O que quer dizer com isso? . ouviu gritos de mulher. E gritou com a enfermeira: que ela não tinha nenhuma vontade de ajudar. . . . Gente sem história. Marta era uma fonte de informação que ele devia explorar.É aqui dentro que eles estão morrendo. . senhor inspector. Marta Gimo levantou-se e virou costas. Estava escuro. A combinação revelava o corpo à transparência. .. Correu pelos becos da noite. O senhor deve-se ter enganado. Enrolada sobre si mesma.Conversa. Não era ajuizado afugentá-la por razões de desconversa..Mas não assim. sufocada pelo riso. E foi directo ao assunto: . Eu sou um simples polícia. . De súbito.São guardiões de um mundo.Continuo sem entender. ela abriu a porta e saiu para o luar. ..Mas estes velhos estão morrendo dentro de nós.Encontrei uma espingarda. . É todo esse mundo que está sendo morto. Izidine se arrependeu de retoricar com a mulher.. gente que existe por imitação. Eles todos estão morrendo. cada vez mais. Que ela escondia qualquer coisa. interpondo-se contra o invisível adversário. em jeito de espelho: pistoleiro. Olhou-se.São o quê.Faz parte do destino de qualquer um de nós. Não podia desperdiçar tempo.Como eu? .Desculpe. o policial procurava o intruso. a enfermeira sublinhou: ..Escute. . . não se percebia contra quem a enfermeira se debatia. . 28 .um insulto se tratasse. Não lhe restavam senão mais três dias. O inspector desatinou-se.. . E batendo no peito. . o senhor entende? Estes velhos não são apenas pessoas. junto às rochas. Muito menos poderia perder ligação com aquela que.Sim. Marta caiu enquanto.Olhe para estes velhos.Mas quem era perguntou Izidine. de cuecas. E que isso era punível por lei.Era um morcego! A sua voz se entremeava com as gargalhadas. Izidine fingiu ignorar o tom sarcástico.

tomar banho? . o polícia sorriu.Sabe o que deveríamos fazer agora? .Sim. . Riu-se.É pena o senhor não ser um seguidor da tradição. Devíamos. Na atrapalhação ele apressou a despedida.Está ver? Ficámos sujos com pêlo de morcego. Pediu-lhe que pousasse a arma. sabe o que fazíamos? . Atrás dele ainda escutou as últimas palavras da enfermeira.Não faço ideia.O que devíamos fazer? . sei lá. É pena. não acha? 29 .Devíamos fazer amor. . . Sem saber o que dizer. atirando a cabeça para trás. se fôssemos seguidores da tradição.

Xidimingo repentinava. esbracejante: . 30 . Pois. bicho sem fruto nem carne. .. Branco é como camaleão. chapámos as palmas.Deixa-me descansar um bocado e já lhe despacho uma boa murraça. aliviado: o que ia fazer exigia muita sombra e poucos olhos. nunca desenrola todo o rabo. .. Nhonhoso: quer apanhar mais outra vez? . . Sétimo capítulo A Confissão de Nhonhoso Falou com o velho português? Aposto que ele lhe contou sobre daquela vez em que ele estava sentado por baixo do frangipani. Nhonhoso da merda. ambos desatámos a rir. Nunca tínhamos falado assim. . O velho branco riu-se sozinho.. olhos semicerrados.... . Você é um arrota-peidos. pretos..Cala. Suspirei. Me cheguei no ante do pé. o nosso Xidimingo. parecia transtornado em juízo de bicho. se ocupou em ajeitar o corpo. Só os nossos respiros se farfalhavam nos peitos cansados. caraças de tu! . seu velho branco. Xidimingo. Então. Nunca pensei que o branco despertasse. . . lhe disse: . A lâmina entrou fundo no suave tronco.Para me dar um murro você precisa descansar um século. desafeitos. essa árvore é minha.Que estás fazer. Os dois nos sacudimos. me lembro bem dessa tarde. .A diferença entre mim e você é que. . puxei a catana ao alto e desferi o primeiro golpe. Cheguei à varanda e vi o velho branco adormecido. estou-lhe a agradecer bastante. Me enganei. . .Não quero mandar em ninguém. Sabe uma coisa: colonialismo já fechou! . Mas a luta logo se desgraçou.. . Depois.Os brancos são como o piripiri: a gente sabe que comeu porque nos fica a arder a garganta. . em acordo.Eh pá.Sua? Suca mulungo. Lhe doía a garganta como um torcicolo em pescoço de girafa.Você é que apanhou maningue. De repente.E vocês. . não me chateia. Ficou um tempo imóvel. aos tropeços.Charra! Eu quase ia morrer sem bater um branco.Nada. Os dois brigámos. Batemos as mãos.Pára com isso. convergindo violências. se levantou e.Você sempre quer mandar em mim. vocês falam mal dos brancos mas a única coisa que querem é ser como eles. ficam cabelos no pente enquanto a você ficam pentes no cabelo. Lhe arreei umas autênticas porradas. Domingos Mourão. a mim. Nos olhámos sérios.Você está respirar.Porquê? . Xidimingo.. O branco me solavanqueou.Não está ver? Estou cortar essa árvore.. se atirou contra mim. desvitaminados o pé e o soco.Como não quer? Eu nos brancos não confio.. Aquilo havia sido briga de disputar gafanhoto.Chamas a isto bater? Recebi foi carícias. Parecia desmaiado.Ouve.. Mourão? .

brancas transpirações das nuvens. Ainda havemos de sentar muitas vezes nesta varanda. . como escamas do sol.Essa velha é doida. Diziam: ela matou o marido para ficar com os filhos e matou os filhos para ficar com os netos.Mas para é que ela quer tanta nkakana? . Mourão: me roubaram as unhas! . dizia. . . Nhonhoso. Nesse mesmo 31 . . lhe caíram as garras. essa que amamentava filhos de imaginar...Nhonhoso. me alarmei: . já quase lhe posso tocar. mulungo.Não me faça rir.Mostra cá.Feiticeiro?!. .Ora.Não tenha medo.. Eram os netos. E expliquei: não havia outra intenção senão ajudar Nãozinha. Fica descansado. Estremeci ao escutar estas palavras. seu velho vagabundo: que motivo você tinha de cortar essa árvore? Pousei a catana por baixo do banco. A pobre já esgotara as ervas de nkakana nas imediações do forte. . mulungo.Eh pá. Até já me pergunto: o chifre nasce antes do boi? O velho branco se debruçou a apanhar uma flor que tombara da árvore.Nada. eu também sou feiticeiro. A velha se tinha vertido no centro das falas. então. por exemplo. Estendeu o braço e tocou o frangipani como se a partir daquela singular árvore ele fabricasse uma floresta inteira.É que aquelas eram minhas últimas unhas.Não. veja como faz bem ao seu corpo. . . Falávamos de Nãozinha. Já o céu para mim começa mesmo em cima dessas folhas. Nhonhoso. ninguém lhe vai fazer nada.É verdade: nascemos com o umbigo na barriga.Toque também você. .. meu irmão.acusada de feitiçaria. As flores do frangipani eram alimento para os olhos do português: ele as via cair. Sei que Nãozinha tinha sido expulsa de casa.Estou velho. .Para puxar o leite..Leite? A velha tem mais de noventa. . ainda vai viver muita unhada. Com certeza. Eu estava triste de inflamejar os olhos: . não sei. Mas não eram apenas receios que me assaltavam. Aquele incidente me angustiava a ponto de lágrimas.Conheço feitiços dos brancos. Eu neste mundo já não ponho certeza. . Não vê que foram cortadas com lâmina? Isso foi serviço de Nãozinha. O português me disse. Meu tio. Tão velho que até me esqueço de ter dores. Diziam e dizem. olhando as minhas mãos. Não sei. me diz uma coisa. Foi nessa altura que. avivar as mamas. você.. Nhonhoso. Não vou ter vida para me crescerem outras novas. . depois das mortes.Estou quase para morrer. foi nessa porrada que te dei.. sombras e chilreinos. uma coisa que nunca hei-de esquecer: . Aquele branco tinha sido tão companheiro dos últimos anos que eu me inimaginava sem a existência dele.. Nhonhoso. meninos abandonados durante a guerra. Os olhos dele se encheram de perfume. a gaja me quer fazer feitiço com minhas unhas. morremos no oposto. . Sei quando uma pessoa vai morrer: é quando acorda com o umbigo nas costas.. acordou-se com a barriga no inverso lado. .Não sei.

Sabe Nhonhoso: eu já ganhei muita desilusão com Deus. .Aí é que você se engana.. até parecia Frelimo contra colonialismo. Nhonhoso. Me ri. você sabia? . Nós é que tínhamos as armas. . O homenzito iria morrer aqui. sim. tem alma eterna: a própria terra. encantinhando-se. . acreditámos que os espíritos dos que chegavam eram mais antigos que os nossos. O que aconteceu é que nós. . Quem sabe suas histórias eram mais de encantar? Também eu. Ficou mexendo os dedos. Voltei atrás e me sentei ao lado do português. Durante quinhentos anos vencemos sempre..Porque ele não trabalha: só faz milagres.Estou. parado. murchas as pálpebras. longe dos antepassados. O português. Nossos deuses estão aqui perto. O Deus dele está longe. Ele não entendia o passado. deste lado da vida.Eh pá. Xidimingo? Ele negou com a cabeça..Foi bom. naquele instante. tanta pena dele. as coisas sem alma. Ao menos a árvore. No céu farinhavam as primeiras estrelas. sim. Ficámos a olhar a enganosa quietude do mar.. Por isso os deixámos governar.E por que diz isso? . Lhe cansavam. mulungo.dia se despediu. Eu me ri. . já dado a disposições: .Porra. Por que dedilhava ele numerações em cada mão? Também receava ter perdido unhas? . Mourão? Lutámos. Acreditámos que os feitiços dos portugueses eram mais poderosos.. Deus segura estrelas. Alguma vez se cansou? .Mentira.Nós brancos. . para além das vistas e das visitas. Ele.Você reza a Deus.Mas essa árvore. . dizia ele.Estou-lhe a dizer. 32 . sempre ganhámos. no presente. E ficou. Uma vez mais. . Mourão? . Nhonhoso: eu não sou bom. A gente toca o tronco e sente o sangue da terra circulando em nossas íntimas veias. . gostava de escutar as histórias do velho português. por que você lhe põe tantas importâncias? . a ver se me faltam. atento em acertar contagens. Agora fica caladinho para escutar o mar. Nhonhoso. Seria enterrado em terra alheia. lhe dei um soco mesmo em plenas fuças. estava condenado à mais terrível das solidões: ficar longe dos seus mortos sem que.Você está respirar. Não foram armas que nos derrotaram. Sou é muito vagaroso nas maldades. Senti. Você é boa pessoa. já viu. lhe pedia que me entretivesse de fantasias. houvesse familiar que lhe deitasse cuidados.Estou cansado. .Então? .Você.Por exemplo-me: esse Deus é muito preguiçoso. moçambicanos. nós! . mantinha aquela ilusão. .Estou a contar os dedos. você só me faz rir.. O velho branco se afastou. coitado.Me deixe conversar com o mar. o tipo é um preguiçoso. Temia as lepras que abundavam por ali. Respondeu que só rezava quando não queria falar com Deus. milhões delas em milhões de noites. para disfarçar a gravidade da ofensa.

É que nós. . O português levantou o elástico das calças.Ainda.. O branco. Não havia árvores. está sonecar? .Desdiga isso. Então. . é que não sabem. somos parecidos com Deus.Está maluco? Não posso mostrar.Eh pá. eu só quero uma arvorezita que eu possa cuidar. o mundo era feito só de homens. estreita. Mostra lá sua.É uma coisa que nunca encontrei ocasião de dizer.Amanhã. O português não aceitou a conclusão. florir. ele disse: Você. assaltados por piolhos.Vocês.Nem Deus quer saber de pecado. parece temos as pilas pequenas. meu irmão? . não vale a pena encostar-se muito. Já nos íamos amolecendo foi quando Mourão me sacolejou: .. ratos e baratas. os pretos. Contudo. .Também ouvi dizer assim. Que isso e pecado criminal.Você fala de Nãozinha. logo. brancos. Primeiro. Eu vejo vocês sonharem com grandes carros. escutando a velharia. brancos. nos acertámos: . de repente. bichos e homens. Assim falei. Os outros querem florestas. suas malucarias.É verdade como? . . de manhãzinha. se quer. Nos deitámos ali. Eu não queria uma nova discussão. Mas o português parecia não ter ouvido nada. Aí eu me zanguei: como não gostamos de árvores? Respeitamos como se fossem família. Pois vou-lhe ensinar uma coisa que você não conhece. decidiram transformar alguns homens em plantas. . 33 . a ressonar. A única coisa que Deus quer.Você não entende. O que se passa. grandes propriedades. não podíamos entender.Bom. sabe qual é? Ele quer é fugir do Paraíso.Eu só ambiciono ter uma árvore. . . Pirar-se daquele asilo. árvores e bichos. nem animais. Resolvemos nos deitar ali. lá nisso. Resultado? Somos irmãos. E. Xidimingo. Disse que nós. Ao menos os sonhos dela abastecem crianças A conversa já nos saturava. cansou daquele falatório. Reclamou. nós não gostamos de árvores. encolhendo toda a barriga. Só existiam homens.E você sonha com pequenices? . confirmei.É verdade. . nem pedras. não pode entender. Invocou que estávamos para ali perdendo salivas quando o assunto era a maneira como eu tinha maltratado o seu frangipani.É quase um bocadinho pequena. um junto e outro ao pé. em serviço de horas-extras. Será que ele confundia meu desejo de aquecimento? Quando eu já acreditava que ele dormisse ainda lhe ouvi: . nasciam tantos seres humanos que os deuses viram que eram de mais e demasiado iguais. mano. ver crescer.. Depois de uma pausa. E ainda outros em pedras. . E lhe contei sobre a origem do antigamente. vamos comparar quando elas estão ainda acordadinhas. Estávamos cansados de dormir lá dentro das casas. no relento.Nhonhoso. Somos todos parentes saídos da mesma matéria. Sacudiu a cabeça e disse: . . homens e pedras. outros em bichos.

Se cobria com os próprios braços. Xidimingo. namoradeiro de fama e proveito. mesmo.. ele lhe colocou as mãos nos ombros como que a obrigar a deitar-se. .Nhonhoso. agora lhos tapo com cobertor. velharias. tombasse chuva. De repente. porém. Minha garça era Marta Gimo. foi vencido pelo sono. E pensei: . Vinha com passo furtivo. Marta não sabia.É para eu sonhar também. Em nossa idade cada movimento pede um corpo que já não temos. Quando o voltei a ver estava ele falando com Marta. fui-me rindo de mim para mim. Ele insistia que era verdade.. essa mulatona. A garça tem vergonha de dormir as vistas do mundo. seu malandro. me levantei para ir espreitar aquela que eu tanto queria.É Marta... um pedacito de lâmina que fosse.É só mais uma pergunta: você já viu a garça a adormecer? . quase me partia o sonho?! . Discutiam? Sim. você: Excelêncio ainda lhe arrebenta o olho espreitador. Também quem manda a gaja despir-se aí.. noites sem fim. Marta se zangava.. Se dirigia para os lados da cozinha. me decidi intervir. porquê? .Cá eu gosto de estreitar é a mulher ao chefe.Já. E voltámos a nos deitar. Xidimingo. Estavam sentados. Logo. evitando ser visto.. . Era eu que.Ernestina? Cuidado. Desapareceu entre arbustos. . que perdi idade para as vias do facto. O português falara nas garças que se cobrem com as próprias asas. ninguém sabia. fizesse frio.. Assim deveríamos fazer em hora de adormecer. . escorreguei e caí mais comprido que o chão. Aquela noite.. Enquanto caminhava para as traseiras da cozinha. 34 .Nhonhoso? . Adormecemos naquele sono de velho que é leve e breve. muito juntos. apontando-me o dedo: . em frente de todos? . O sonho não lhe vinha se não corresse esse vermelho de dentro. eu conferia a respiração do tuga.É bem feito que é para não sonhar mais. A meio da noite ele me estremunhou. Mourão.Quem é? . Há muito. como o homem quando chora. nessa noite. no primeiro passo. Me tentei levantar mas.Antes eu cobria-as com meu corpo.Ela tapa a cara com a asa. . Nós. deixe disso. não havia maneira de ganhar sossego: . O velho Mourão acreditava que só sonhava quando sangrasse. De imediato. Me ria sozinho quando vi Vasto Excelêncio passar. De vez em quando. Ela dormia nua sobre a terra. Marta lutou.Eh pá. para a eventualidade de uma ajuda.É para quê uma faca? . onde Marta costumava dormir. lhe salvava do frio.. Aquela andança de manta às costas era o que me restava de um glorioso passado de ladrão de solteiras. demoramos a chegar ao chão. Levei comigo a manta.Eh pá! E você me abana assim. Eu esperava aquele momento. Finalmente. você está sonhar. de novo. Sonhar? Ri-me. Me desmistifique lá esta dúvida: será que sonhamos sempre com mulheres? Eu sempre sonho com a mesma mulher. me trestrapalhei.Me deixa dormir. O branco me tocou a pedir uma faca. .

Quando se aproximou saltei com inesperadas forças que fui buscar no passado. 35 . A raiva decidiu por mim: eu tinha que encurtar os gasganetes desse satanhoco. Lhe empurrei para a parede. enfim. esse Vasto tinha magoado aquela que eu tanto amava. Matei por amor. Filho de uma quinhenta. inspector. Corri a emboscá-lo no fundo do corredor onde ele acabaria por passar. A moça chorava Assim que me viu. tapei o focinho dele com a manta até lhe tirar o respiro final. Passou-se assim mesmo. consegui chegar junto de Marta já Vasto tinha escapado. Um velho como eu pode amar. esmaguei a cara do gajo contra o muro. Fui eu que tirei a vida desse mulato. Pode amar tanto que mata.Quando. ergueu o braço a mostrar que não me queria perto.

assim mesmo. eu quero perguntar-lhe uma coisa.. lá das entranhas do mundo. o polícia estava decidido a abrir clareira no labirinto. fazendo menção de se afastar para que ela ajeitasse compostura.Alguma vez fiz outra coisa? . Se encaminhou. Ela pensou antes de responder.Assim? . eu me sinto gémea do chão. . .Tenho!? E por que motivo tenho? . Ela estacou junto dele tão próxima que ele se embaciava da sua respiração. Oitavo capítulo Quarto dia nos Viventes Nessa manhã. Fez um esforço para se libertar. venho já. . Em vão.Eu. Primeiro. Ficou mesmo à beirinha de morrer. modos bruscos. aqui. Você tem que me responder.Até aqui. apenas coberta com uma capulana. A enfermeira acordou estremunhada. .. logo nas primeiras horas. Tenho que ir vê-lo. muitos casos.Marta. eu quero saber se você teve um caso com Vasto Excelêncio. segurou-lhe num braço. Se desculpou.Quem sabe? Assim deitada.Falo a sério. Evitando o polícia.. desviando os olhos.Durmo nua sobre a terra. para os lados da cozinha.. Ontem ele dormiu mal. Mas ela se ergueu e. . Izidine encalçou-a. ela se afastou. . . barrando-lhe o caminho. eu sou uma autoridade. Mas ela se deixou naquele despreparo e chamou o polícia: . Reapareceu..Você. ainda sinto esse perfume que vem do fundo. disse Izidine. Ela segurou o pano e 36 . encontrou Marta que ainda dormia.Porque eu. . demorou-se um breve instante. foi o primeiro a depor. Só quando chegou perto é que reparou que ela estava nua. Queria ver se entrava no armazém para confirmar o que ali se guardava. para receber da terra as secretas forças. No caminho. Ela dormia fora porque aqueles quartos lhe davam uma tristeza de caixão sem cova. Foi atrás de um muro. Marta. anunciou disposição para conversar..Sim... despida. Vinha desavençada. Conhece. deixando exposta a nudez da mulher. Mas responda-me com verdade. eu faço sempre assim. dois casos. o inspector revelou maneiras. o velho-criança. Não é assim que dizem: a mulher faz da terra outra mulher? .Talvez esse perfume venha de si e não da terra. E ainda mais: dormia assim. . disse: Vou-me vestir. . sem se cobrir. Esperou que Marta se cobrisse.. não é autoridade nenhuma.Espere. sem quentura nos panos: .Um caso. De repente. O que sucedeu foi que a capulana tombou.Fique.Tenho que ir ver o velho Navaia. quero saber se vocês foram amantes. .. ..Ontem à noite ele quase chegou ao fim da sua historia. justificou-se: não era por causa dos piolhos ou das ratazanas. neste lugar abandonado..

Queria resposta? Pois teria a devida resposta. . estão no fim das suas vidas.Medo.Sim. . A fragilidade súbita daquela mulher o amoleceu.Marta. não sei o que fazer. .Não percebo? . Marta Gimo enrolou melhor a capulana em redor do corpo. .Mas falam outra língua. você tem que responder. E sabe porquê? Porque não confiam em si. Parabéns. uma fúria o tresvairou. Quando se preparava a engatilhar um argumento. São velhos. medo. Eu estou a trabalhar. calada. Assim é que se exerce autoridade. outro português. . o agente reparou que Marta chorava... Sentou-se num muro pequeno. Eu também tenho que trabalhar. sentou-se ao lado da enfermeira.Você quer condená-los! . Sabe o que vou fazer? Vou prendê-los a todos. Mas aqui há gente. eu? .Não são disparates.Sim.Qual chão.Boa. Mas um sacão vigoroso afastou o gesto 37 ..Aqui não cabem polícias. O polícia embolsou as mãos e perfilou o olhar no oceano. A enfermeirinha queria discutir? Pois ele não era um desses polícias quaisqueres. O homem insistiu: . você que sabe deste mundo. São todos culpados. é você que anda a meter coisas na cabeça dos velhos.Quero saber a verdade. qual meio-chão! Eles sabem coisas que me estão a esconder..improvisou decência.Não falo? Se nós falámos sempre em português?! . Aquele sossego a perder de vista como que o acalmou.. . Só lhe faço esta pergunta: por que é que você não deixa de ser polícia? .Por favor ajude-me. Você é que não fala a língua deles.Acontece que sou polícia. Você é que não percebe o que eles lhe estão a dizer. De novo. são o chão desse mundo que você pisa lá na cidade.. O inspector muito se agravou: . Izidine apertou com mais força seu braço fugidio.Que quer que eu faça? Diga-me. estou aqui como isso. . sua enfermeirazinha de distrito.. a enfermeira intentou escapar. Marta mergulhou o rosto entre os braços.Quer condená-los. . . De novo.. água e céu rivalizando em azuis. Agora já sei porquê. .É isso só que você quer: descobrir culpados. Esses velhos lhe fazem lembrar de onde vem. lhe estão a dizer coisas importantíssimas.Saia do meu caminho.Escute bem. Resistiu assim. ..Mas para quê esta conversa estúpida? Eu estou aqui para descobrir quem matou.Eu? . . senhor polícia. Suspirou fundo. Pousou a mão sobre o seu ombro. vai ver que chega a Maputo e recebe logo uma promoção. Mas são pessoas. . Eu não estou a avançar. sabe porquê? Porque você tem medo deles! . Sua voz já estava ajoelhada: .. O silêncio dela foi maior que a paciência do nspector.Eles. inspector. Estes velhos são o passado que você recalca no fundo da sua cabeça. todos eles. é você que me anda a estragar a investigação. . Eu já não tenho tempo... . para eles inventaram disparates e me confundirem. Só então reparou como o dia estava bonito. todos cúmplices.

o fantasma dentro dele. Quando se preparava para descadear a porta foi interrompido pela voz de Nhonhoso: . polícia! Marta afastou-se. ferrolhos e fechaduras.Me deixe. Cautelosamente. E o polícia foi arrastado para junto da feiticeira. .Esse armazém perdeu o chão. falou daquela maneira dele. acenando um sim. Dirigiu-se ao armazém onde guardavam os produtos alimentícios. . Caiu quase sem nenhuns sentidos.consolador. . Aquele chão tinha sido engolido pela terra. .O senhor entra e é engolido também. Mais asas se juntaram e o rosto de Izidine foi severamente golpeado. Com um tiro estilhaçou a fechadura da porta principal.E porquê? O velho hesitou em responder. Ali dentro havia apenas um vazio. Izidine já de nada se apercebeu. Estacou perante os mil fechos. Depois. senti as mãos de honhoso ajudando-o a levantar-se.Não tem chão? Nhonhoso confirmou. Estava escuro e respirava-se uma humidade e um cheiro estranhos. um vazio dentro de um buraco. 38 ... seu. antes de entrar. um bater de asas chicoteou o silêncio e ecoou pelos fundos.É melhor o senhor não entrar aí. De repente. nem pão nem queijo. Pronunciou-se em estranhas falas: . O inspector ficou um tempo para se acertar. A porta bateu com violência. Depois. Mas eu. espreitou o interior. Izidine Naíta desdenhou os conselhos do velho. decidiu retomar o programa que estabelecera.

mas eu devo relembrar meu pai. Não fui eu que dormi com ele. Não era só essas cegueiras momentâneas que o preocupavam. o medo. Primeiro. Não quero perder-lhe o tempo mas o senhor não vai entender nada se eu não descer fundo nas minhas lembranças. Me acusaram de feitiçaria. Sofri. Digo certo: cemitério. Tocava em corpo de mulher e perdia as vistas. Me dá jeito pensarem que sou feiticeira. Na tradição. Fui expulsa. Remexo nessa água e tudo se avermelha. por sua obrigação? Está certo. Quando se contam coisas no escuro é que nascem mochos. Me entenda bem. Posso retrasar-me nele. é lá da cidade. Me culparam de mortes que sucediam em nossa família. injustamente. Sempre que se aprontava a fazer amor ele ficava cego. em meio de tanto mundo. a feiticeira. Tenho que demorar essa lembrança. você mesmo. E lhe avançou promessas: meu velho queria ficar no sossego da abundância? 39 . Meu pai sofria uma demoniação. Quando terminar a minha história todos os mochos do mundo estarão suspensos sobre essa árvore onde o senhor se encosta. salvo seja. Nono capítulo A confissão de Nãozinha Sou Nãozinha. Cansado. Fui também acusada. acusadas de não morrer quando já velhas. Mas hoje me aproveito dessa acusação. sepultados não em terra mas em água. Tudo isto tem sua razão: a minha vida foi um caminho às avessas. Não sabe nem respeita. Foi assim que se decidiu a deitar sua vida na esteira do nhamussoro O que o outro lhe disse foram garantias de riqueza. Tive que lhe matar porque ele era um simples braço executando as vontades do meu falecido velho. Nós. Lhe inspiro medo? Por essa mesma razão. É que as coisas começam mesmo antes de nascerem. mulheres. senhor inspector. sendo preto. As minhas lembranças são seres morridos. Está ver? Meus poderes nascem da mentira. uma velha sempre arrisca a ser olhada como feiticeira. em tempos do antigamente? Lhe peço licença porque o senhor começou com mandanças. lhe digo: não devíamos falar assim de noite. Assim me receiam. senhor. devo falar primeiro de meu pai. Ele estava sentir-se estreitado. Porquê? Porque eu mesma matei o mulato Excelêncio. Se admira? Pois lhe digo. Não destine ordem em minha alma. É por isso: para falar desse Vasto Excelêncio. Não me peça para desenterrar passados. não me batem. Não tem medo? Eu sei. Mas fica a saber. estamos sempre sob a sombra da lâmina: impedidas de viver enquanto novas. Desculpa. Ele é que dormiu- me. Todos os que eu amei estão mortos. não me empurram. meu pai consultou o feiticeiro. A serpente engole a própria saliva? Tenho que falar. um mar que desaguou no rio. lá nas nossas aldeias. Minha memória é uma campa onde eu me vou enterrando a mim mesmo. eu fui expulsa de casa. Ninguém obedece senão em fingimento. Senão quem vai falar é só o meu corpo. Vamos então escavar nesse cemitério. mesmo antes de eu abrir boca. agora: esse satanhoco tinha o espírito do meu pai. Sim. eu fui mulher de meu pai. Minhas lembranças são custosas de chamar.

. Agora sou velha. A cabaça do feiticeiro ficou durante anos esperando por meus lábios. Contudo. filha. Morrer? Ataratonto. ainda se duvidou.Sim. Mas o que ele podia fazer? Ficou assim. Seguindo os antigos mandos. Sem roupa? E puxei a capulana para ele ver as roupas. simplesmente eu baixei todo o rosto. . Meu pai perdia as visões. igual uma qualquer mulher. Voltou para casa e fui mesmo eu. Sua filha vai aceitar.Me ajude a entrar. o escuro balançando dentro de mim. Assim. a mim. depois de beber os remédios que eu lhe vou dar. já lhe era desejável. Nesse instante. toda. Mas. aceitável. magra e escura como a noite em que o mocho ficou cego. Então. ele me deu as bebidas que o curandeiro preparara.Aceita. a capulana soltou-se e ficaram às vistas meus seios. . fiquei eu. Naquele momento. Nem perguntei o que era aquilo. e começar namoros com ela. cada qual tem tristezas que são maiores que a humanidade.Não são perigosos? .No caso de não. sua filha destinada. como um cego. era de chamar dedos. No dia seguinte. Meu velho engoliu boas securas. 40 .Pode. . incluindo fotografias. minha pele que. Mas tudo isso que importa. em desmaio de ramo desfrutalecido. Passaram as horas e ele balançando no escuro.Posso beber amanhã? . Fiquei parada como se adivinhasse o que iria suceder. me tocou os ombros. Bebe quando você sentir desejo. Os velhos aqui sabem. você terá de morrer.. Estudou o caminho com as mãos. meu primeiro homem. Queria se amparar na porta mas. se sente bem? .Pai. . sua filha varâ. esposa e filha. em vez. Não ingeri logo a bebida.Nãozinha: estás sem a roupa? Só eu pude rir.Namorar?. Escuro que não vem da raça mas da tristeza. De meu pai não ficou nenhuma imagem. sucedeu que ele deixou de me enxergar. que lhe abriu a porta. meu único remédio fui eu mesma. Queria dizer: eu. Meu pai foi. Nesse tempo. . devia levar sua filha mais velha. Parecia eu estava despida. era interdito às crianças verem os falecidos. Veio a assombrável sombra: a noite. Você sabe.E no caso de não? . órfã e viúva. até que meu velho morreu. nesse caso. eram enterrados com o defunto. nenhuma sobra de sua presença. E assim me sucedi. Mas naquele atrapalhamento. Assim mesmo: transitar de pai para marido. namorar nela mesmo. Começou então o namoro. Mas eu tenho um segredo. todos os pertences. E sentiu meu arrepio.Esses remédios afastam a boca do coração. Sempre meu velho acreditou que eu estivesse sob cuidado dos espíritos e que agisse ao mando dos remédios. é só excesso de escuro. Meus olhos estavam cheios de dúvida. . perguntou meu pai.Mas se ela não me aceitar? .. Não me deixaram vê-lo. de parente para amante. respondeu o nhamussoro. . à contraluz do xipefo. é melhor não pensarmos porque. meu e único.. Se pendurou como um morcego. eu própria. nesse tempo. Veio o poente. a morte é como uma nudez: depois de se ver quer-se tocar. devo confessar uma coisa: nunca bebi a poção. sabe que ele viu? Viu-me. afinal.

tanta gente aí a estrumar a terra. o mais restante. rio em estuário. Nhonhoso. eu só me sinto feliz quando me vou aguando..Eu pensei você já tinha-se apagado. já cheguei a um pensamento: os mortos servem para apodrecer a pele deste mundo. Esta noite mesmo. Primeiro. Senão até ficava aqui também. Porque logo que amanhece. Nós.. Desculpe. o rosto. estamos a desenterrar esse caroço onde residem espantáveis maravilhações. Me lembro perguntar-lhes: . Que bom seria eu não voltar! Para dizer a verdade. na banheira. Meu leito é. então. Escorro. uma banheira. Nem ruga. depois desta conversa. liquidesfeita. a carne se traduzindo em suores. se conformam os olhos. Nhonhoso foi o primeiro a despertar. Acordei-os com suavidades. Como eu queria dormir e não voltar! Mas deixemos meus devaneios. Aqui. nos deixa aqui mesmo. àquela noite em que encontrei os dois velhos. Volto ao nosso assunto. me pergunto: os mortos servem para quê? Sim.Eu é que tenho mesmo que dormir na minha banheira.. Naquela noite. Escute bem: em cada noite eu me converto em água. O senhor sabe a resposta? Eu lhe respondo: na água se pode bater sem causar ferida. Não se pode deixar um alguém apagar-se no nosso colo. às vezes. Em mim. Não houve nunca quem assistisse até ao final quando eu me desvanecia. Para o rio tudo é hoje. Mas aquele cacimbo não era bom para idades. me trespasso em líquido.Então vocês dois vão ficar aqui? Dormir fora? . Nãozinha. Aquilo dói tanto de ser visto que os outros se retiraram. O senhor inspector sabe a razão da amontoação dos falecidos? Eu. a elas regresso. transparente. a vida pode golpear quando sou água. O senhor quer saber só de ocorrências. os vivos e os mortos. me empurra assim? Eu entendia o medo de Nhonhoso. da minha parte. esfriar em nosso corpo. desatou-se a gritar. Não foi para isto que me deu ordem de falar. Lhe conto agora mas não é para escrever em nenhum lado. hoje não nos apetece ficar lá junto da velharia. . como peixes mergulhados em improvisado aquário. não é? Pois. Tem medo? Não receie.mais ninguém. Elas se demoram cada vez mais. Por último são as mãos. neste asilo. eu me dirigia para a minha banheira quando encontrei Nhonhoso e Xidimingo dormindo na varanda. me desviei por bula-bulas. .E então. medrosos. Até os outros velhos me vieram testemunhar: me deito e começo transpirando às farturas. inspector. O branco se estremunhou: .. Nesse estado em que me durmo estou dispensada de sonhar: a água não tem passado. 41 .O que e isso. se aqueciam. Aquele cocuana não esbanjava coração.Olha. Quando ele descobriu o velho Mourão anichado em seu colo. de novo se refaz minha substância. O senhor não me acredita? Me venha assistir. se morre tanto que eu. mar em infinito. onda de passar sem nunca ter passado. por essa razão. toda curadinha do tempo. as mãos me ficam água. Com brusquidão empurrou Xidimingo para o chão. Um dia. Pudesse eu para sempre residir em líquida matéria de espraiar. está maluco? . teimosas em atravessar aquela fronteira. deste mundo que é como um fruto com polpa e caroço. nem mágoa. Estavam embrulhados um no outro. se compõem a boca. é preciso que caia a casca para que a parte de dentro possa sair. Há aquela adivinha que reza assim: "em quem podes bater sem nunca magoar?. Os mortos se agarram à alma e nos arrastam com eles para as profundezas. Depois.

Sim.Qual nós negros? Você se cale. Então. Sentou-se na cadeira. Mourão e Nhonhoso ainda tentaram interceder mas os pobres velhos. Parecia se divertir com aquela conversa.. Mas estou a pedir uma coisa: não chame ninguém para me bater.Excelêncio.Eu não disse para deitares a árvore abaixo? . Nhonhoso. Chamariam Salufo Tuco para se encarregar dos castigos corporais. nua. Heim. . Todos sabíamos a punição que se iria seguir. .Por favor.Não entendo. virando-se para o velho português. Sentámos os três num banco comprido e Nhonhoso apanhou logo um encontrão.Bater-te!? Estás doido? . E logo ele se descarregou em mim. para nossa surpresa..Eu sei. aliviados de me verem longe.. meus filhos. . carregado de culpas. . apontando dedo de juiz: . juntou voz a Excelêncio: . matara os filhos para ficar com os netos. que eu matara o marido para ficar com os filhos. Nhonhoso. Eu fiquei estendida.Não diga que você nunca arreou num preto. Vasto Excelêncio segurou-lhe o rosto para lhe faiscar os olhos: . Agora já sabe. Como todos os outros. Chamou-nos aos três.Afinal. você me bata. o director interrompeu. Foi quando chegou o director mulato. Que pensassem. cabisbaixito. madala? O velho preto se calou. Era ali que ele procedia a maldades. fingindo não ter sido senão um homem batendo em mulher velha. 42 . tu também! O director foi sumário: Nhonhoso logo ali foi declarado culpado de insubordinação.Não me peça isso. patrão? Sublinhava bem a palavra "patrão"..O que é eu te mandei fazer. se admirou o português. Nesse momento. . Eu ainda tentei sossegar a raiva do director. vocês brancos nunca deixaram de ser patrões. Depois. com o maior sarcasmo: . Parecia envergonhado. Pensavam que matara meu pai para ficar com o marido. Depois bazofiou. Ainda vi Marta chegar e estender-se.Cala-te. Naquela noite. .Mandei-lhe cortar a árvore do tuga e você desobedeceu. Uma e mais e muitas vezes. não somavam uma única força. Nhonhoso: agora eu sou "patrão"? Quem respondeu foi o director do asilo. mesmo juntos. seu oportunista de merda. Eu não posso. não sou capaz. Imaginavam que fora eu quem encomendara a morte de meu marido... negros. me satisfaça esse pedido. com ar de mandos. Os dois se riram. . era isso?. Excelêncio se virou para Nhonhoso e gritou: . ordenou que o acompanhássemos ao seu gabinete. você não vai arrear nestes pobres.Eu não quero que seja um preto a me bater. me demorei na companhia desses dois velhos. Você me cortava a árvore a mando deste filho da puta. Aos gritos me bateu no peito. Nhonhoso implorou: .?! . Nós. Escolhia os seios: bateu neles até eu sentir como que fosse um rasgão me rompendo ao meio. patrão. eles também acreditavam que eu fosse uma feiticeira. Nhonhoso e Mourão trocaram cumplicidades de miúdos. Perguntou ao branco.Sim. em pleno chão.

Porque sucedeu que. Me parecia que sangravam. branco: nunca queira uma cobra dessas.Está um céu de desaparecer a Virgem. Do meu saco tirei folhas de kwangula tilo. Separei-me às pressas dos meus companheiros. Dei a todos menos ao director. enfervescido. E assim se abruptam no vão do espaço. Mourão. Nhonhoso. O velho tinha razões. saímos de casa a espreitar o céu. Nãozinha. Nunca eu havia presenciado tais zangas dos firmamentos.Calem-se: está passar no céu o wamulambo! . essa uma cobra gigantíssima que vagueia pelos céus durante as tempestades. caraças!" O velho Nhonhoso. Olhava o firmamento e dizia: ..Lhe peço. Não conhecia o wamulambo.. com pressas intestinais.Há muito tempo que estou dizer para pintarmos aquelas telhas. Meus seios me doíam em insuportável aperto. Sou o Xidimingo. . se interpôs no caminho do branco. em contraparte.Eu não sou patrão de ninguém! . .. que é feiticeirinha. ele se semelhava. lhe juro.Não me vai magoar. Nhonhoso falou: . Era o velho português.. com voz tremente. . Assim se preveniam contra o rebentar dos pulmões. de repente. . em surdina: . Telhas de zinco se tinham descavacado.Lhe digo uma coisa.Cala-se. . Depois. Mourão era o que mais sofria o peso das nuvens. Devagar. Essas cobras das ventanias confundem o brilho onduloso das telhas com as ondas da água. peito agachado. caraças! Não me venham com essas merdas.Não sou patrão. Elas ajudam os donos mas. Xidimingo.Calar-me? Se o patrão assim manda. velhos. bem que podia oferecer um wamulambo para o velho Xidimingo.Você. se fragiliza a meteorologias.Lhe peço. exaltado. mergulhando sobre os zincos. Mas não chegou a cumprir sentença. lá fora.Não posso.O wamulambo?!. . . eu sou Domingos Mourão. ordenei: . deflagrou uma tempestade de rasgar céus. nos sentíamos frágeis como um calcanhar. até o ciclone se cansar. satanhoco! O director saiu. Já não desabavam trovões. Vasto Excelêncio sorriu-se no canto da boca: .Vai-me magoar a mim. Me bata. . estão pedindo sempre sangue. empunhou o chamboco. ele levantou o braço. de repente. Agora. O branco fechou os olhos. Incrível como um velho depende do estado do tempo. . à beira da lágrima. Me dirigi a minha 43 . cada um de nós. O português nem de amarelo sorriu. Mas pelo asilo se espalhavam os estragos. dava voltas enquanto repetia: "Sou Domingos. insistiu Nhonhoso. perguntou o director. porra! O português.É. Ele não conhecia todas nossas crenças. Xidimingo Mourão se espantava. Depois. Ficámos um tempo. é meu patrão!. Baixou a cabeça e suplicou. Sempre de pálpebra descida. Relâmpagos e trovões se confundiam. meu irmão. Faça isso. Dei um ramo a cada um dos velhos para que segurassem em suas mãos.

Só havia uma maneira de eu ser salva. . . Ficaram calados. Nãozinha? . Aquela era. olhos no chão. por vontade de sua mão. O que é se passa? . Atabalhoando-se.Esta noite. Foi o que eu fiz. derrotada. Ele trataria do assunto.Que é que você fez-se?. deflagrada em mil gotas. O mulato fosse maldiçoado com todas as mortes. em silêncio.É sangue do meu peito. sem banheira. Eu ainda sorri. perguntou o velho preto. Eu me estava suicidando. O sangue me encharcava a blusa. Mas os brancos como se envaidecem de suas ignorâncias! Para o português o assunto era pão e terra. explicou ao português. Eu carecia com urgência de me converter em água.Me venho despedir. À minha frente surgia a caixa de sândalo que eu tantos anos guardara. em aflição: . o homem subitou-se por minha autoria. Eu nem tinha força para desditos. Todos temos nossos desconhecimentos. minha última noite.Você está sangrar em todas as pernas. em minha realidade. Outros se decidem abrir. . regressei junto dos meus amigos.. Retirei a raiz desse arbusto que cresce junto aos mangais. dançando com o tempo. naquele momento. Minha mão volteou o fecho do armário. Ficam girando. por essa fresta onde eu e a vida nos havíamos já espreitado.Sabem que a tempestade quebrou a minha banheira? . castigando-me de minhas mentiras? Fiquei ali sentada. demorando- se na casa. o português me sacudiu. Já perdendo forças. respondeu Xidimingo. 44 . . fui espetando a raiz no centro do meu corpo. Era um deles fazer amor comigo. Mas. . O português sorriu: para que nenhum lado iria eu? Nhonhoso também riu. Nunca mais voltaria a amamentar meus netos. De súbito. polvilhado em nada. O mesmo sangue que me escorria no peito havia ele de perder do seu corpo. Nãozinha. esse sangue é outro. Agora. depois. eu vou-me escoar por essas areias. Há uns que entram e que têm medo de abrir a segunda porta. Nhonhoso sabia. Deixei o veneno se espalhar nas minhas entranhas. fossem eles de verdade ou de carne. a porta traseira. No que o português se opôs. De onde saiu sangue não pode escorrer leite. Naquele pequeno quarto eu fiquei parada vendo pingar meus seios. .Mas não é arriscoso? O veneno não pode passar para nós? Os dois cocuanas trocaram. foi esse mulato me bateu.Que se passa. Eu iria ser enterrada como chuva.Não me venha com essa história da água. na coerência de uma ossada.casinha para me deitar. A vida é uma casa com duas portas. conhecia os nossos modos. medos e angústias. Levantei um torrão de areia e deixei os grãos escorrerem. Eu é que lhe encomendei. Sendo um retinto. E falou: o branco ficasse tranquilo.Não. Nãozinha. eu digo: Vasto Excelêncio foi destinado nesse momento. Nãozinha. O wamulambo se confrontava comigo. minha vida rodeou o abismo. Até que o velho Nhonhoso sorriu. Abria as pernas e. cambalinhante. Abri a porta e deparei com a banheira toda quebrada: a tempestade se vingara nela. lentamente. eles se certificaram de minha tristeza. Uma pessoa que vira água? Impossível! O corpo se fragmenta é na morte..

Apontou a minha casita e perguntou: . Assim. afinal. 45 . Que eu era a mais linda. E discutiram-se. Ele é velho. Senti pena de Domingos Mourão. Agora que Nhonhoso estava assim.. Até que despejou o desabafo: . que casalinho apaixonado nós temos aqui.É que Nãozinha. Nhonhoso.É inútil como tirar ferrugem a um prego.. . Parecia ter perdido coragem.Vamos? Eu já me havia esquecido da arte de trocadilhar os corpos. . O português não tinha entendido por que motivo eu lhe mostrara o corpo.Sabe. Nhonhoso me pegou na mão. Minha loucura era acreditar em Nhonhoso. Quem que vai sou eu! . Ambos me queriam? Usaram motivos e tudo: um que tinha maiores factos que argumentos. . em jeito namoradeiro. disse e fiz. Você nunca viu um mulato? Então? Pode-se ser mulato de raças. Entrou sem bater e ficou. pode-se ser um mulato de idades. já os corpos livres de roupagens. O que ele me falou. Você é velha-menina. além das falas. E nós nos adiantávamos. ele parou. coração à mão de semear. Você fala as coisas bonitas.Medo? . nos contemplando: . simplesmente autoriza outras loucuras. Eu já sabia: a velhice não nos dá nenhuma sabedoria. Esse momento que Xidimingo Mourão pensava ser de cortejo tinha sido.Mas é perigoso de morrer. Rimo-nos. Ele sorriu e respondeu que não valia a pena. Eu é que vou. O português ficou calado por um instante. Depois. Mas. . Minha mão passeou em suas delicadas partes.Eu sempre tive medo. Um gaguejo lhe travava a voz. Mais me confundiam as falas de Nhonhoso: esta é a esteira. O preto dizia: você se deita com a feiticeira e está mais condenado que palha de cigarro.. foi quando apareceu Vasto Excelêncio. Quando uma velha se desnuda e desafia um homem esse é um sinal de raiva.. A vida é a maior bandoleira: sabemos que existimos apenas por sustos e emboscadas. uma mensagem de desprezo.Vejam. em soprinho no ouvido. homem! .Nem pense. . de riso ao canto. ele voltou-se a calar. mulungo. Que eu estava ainda em idade de flor. mas. a minha miúda. me convenceu às loucuras.Tenho medo. Nhonhoso. perguntei. Coitado. e somente a esteira quando se deita uma só pessoa. . ainda pratica coisas bonitas? O velho Nhonhoso desenrolava as prosas: veja o Navaia Caetano.Eu não queria revelar isto. é criança? Estou a falar.E se lhe faço uns carinhos. a favor do preto.Fala. Mas quando se deitam dois amantes a esteira recebe nela a terra inteira. De repente. em tempos. . Nhonhoso. A disputa se resolveu. Nãozinhita. a mais mulher. levantou todas as saias para mim. dizia. afinal. Já era tarde para emendas. . outro que tinha a raça certa. O melhor era deixar Mourão nesse engano. Mourão ainda desconhecia muitos dos nossos segredos.Quem quer apanhar o gafanhoto tem que se sujar na terra. o velho branco nem merecia. E eu lhe olhei sem nenhumas roupas.

Simulava o galo. Terminou com um rosnar de bicho. O director não notou logo aquela dedada vermelha no vidro. estilhaçando-se. afugentou o velho com os pés. E lhe adocei o gesto. Então. coincidi com seu corpo. minha Ernestina! Em mim ele completou seus viris préstimos. velha! O copo tombou. Voltei à sala e. Fiz conta que me encostava nesse engano. . cortejador. Empurrando Nhonhoso. Até que uma tontura o deitou ao chão.Tenho uma especial aguardentinha.. lhe atestei o copo. ansiosa por me lavar. Separei-me de seu corpo. cabrão! Nhonhoso se foi. Era como se os líquidos dele. Vasto fingiu me cortejar.. Enchi o copo. dentro de mim. Enquanto me lavava.Marta! Tina. nua e húmida. Excelêncio bebeu e rebebeu. concavidei-me com ele. O director delirava. Foi então que me deitei sobre ele.. o mulato berrou. E o corpo de Vasto Excelêncio caiu pesado em cima dos mil vidrinhos. Me humilhava a ponto de animal..Enche mais. Era isso que ele queria. Bebeu de um trago o veneno e. 46 . Seus beijos transpiravam a quente espuma da bebida. como se aceitasse aquele baixar da asa do mulato.Sai daqui. Excelêncio me enredou nos braços. além da porta. impondo mais bebida. de novo. mandou: . lhe ordenou: . Assim mesmo. No espelho reconfirmei o sangue tingindo-me o peito. me azedassem mais que os prévios venenos. tamboreando na barriga. No rebordo ficou uma marca de sangue. ensonando-lhe os ombros com as mãos. O homem saltitava de nome em engano: .

Espero que haja algum que não coma matumanas. . As nuvens se abriram enquanto ele escutara a feiticeira.Quem sabe até ficam com a língua mais solta. vazios. Trazia água do mar e despejava-a em cavidades das rochas. Enquanto as borboletas lhes escapavam pelos olhos.. . Tinha que ir aos seus assuntos. O polícia acenou um adeus e chegou-se à árvore. . Décimo capítulo Quinto dia nos Viventes Izidine vagueou todo esse dia com a imagem da feiticeira ratazanando-lhe o juízo. Rindo-se. Lhe impressionara a extrema magreza dela. Bateu à porta e. Como podia esperar que eles se abrissem e lhe contassem a verdade? A constatação. . lucrava mais confiança neles? Mas quando se preparava para apanhar a primeira matumana uma voz lhe ordenou que parasse. Pergunte-lhes o que eles sonham depois de comerem estas matumanas. são parecidas. . com gosto.. A manhã estava húmida. Até que Nhonhoso veio ter com ele. corrigiu ela.. as matumanas. Quem sabe. Deixava a água secar e depois lambia o fundo dessas cavidades. Naquela altura do ano. Os outros diziam que Nãozinha se alimentava apenas de sal. Diziam mais: que os insectos cresciam dentro deles. Aproximou-se. Os velhos não o aceitavam. . concluíam: Não somos nós que comemos os bichos. tinha chovido durante toda a noite. que também conhecia aquele costume. Deliravam à custa dos sucos leitosos das matumanas. ainda que óbvia. O polícia não conseguia nem chegar perto. interdito ao mundo. entregava aos outros velhos.Porquê? . . São eles que nos comem a nós.. E arrecadou-se no quarto. A enfermeira se juntou a ele para assistir ao espectáculo.Você não pode chegar perto.Isso pensa você. Obedeceu. constituídos em borboletas carnudas.Porque não pode. Nunca ouviu falar do soro da verdade? Marta Gimo sorriu e se desculpou. . Entendia juntar-se aos velhos na apanha das lagartas. até lhes restarem só os ossos. sempre que chove os troncos cobrem-se de lagartas. contrariado. entrou e se deu 47 . Os velhos comiam essas lagartas. Senão você não vai ter ninguém para hoje lhe dar um depoimento. . Até Izidine conhecia aquele hábito.Diga-me você. o deixou abatido. antes mesmo que houvesse autorização. feitas da carne deles. assim. ao fim da tarde. Simples coincidência? O polícia deambulou pelo pátio até ser atraído pelos gritos dos velhos.Se não são as mesmas. depois. Caetano Navaia se trepadeirava pelo tronco e colhia pequenos bichos felpudos ue. Os asilados rodopiavam à volta da árvore do frangipani. eles iam ficando magros.Não são as mesmas lagartas.eles vão-lhe dizer que as borboletas lhes saem pelos olhos enquanto dormem. O polícia mostrava.

os tambores. Era Marta. . Ordenaram ao polícia que se desroupasse. . .Como inexisto? . O polícia se olhava.Eles gozaram às suas custas. para vocês. mais uma maneira de lhe atirarem poeira? Fosse o que fosse ele deveria saber contornar aquela inesperada barreira. estranhando as vestes do polícia. inspector.Nós não lhe confiamos. Seguraram o polícia pela cintura e lhe enfiaram um vestido pelo pescoço. Entraram Nhonhoso. . . Ele já era demasiado adulto. vendo o tempo se areiar entre os dedos. Retirou o chumaçudo objecto: era uma outra escama. algas de fogo.São assim também as memórias destes velhos. Um volume estranho no vestido chamou a atenção do inspector. incrédulo. os mais velhos.Você não é bom nem mau. E se selou acordo. já haviam pesado. Postou-se de pé. tudo dito a meios-tons. O polícia estava desesperado. as danças. esfregou as mãos no rosto. Fechou os olhos para. Mas cerimónia. E à custa de meu vestido.? Só por eu ser polícia? Ele encolheu os ombros.São archotes. . Estava atónito. 48 . Aquelas luzes ficavam a flutuar nas ondas e eram brilhos avermelhando as espumas.Vão-me circuncisar? O velho riu. existiam outras Razões que eles. Mourão.Venha comigo. bem junto ao mar.Você fez circuncisão? O inspector desconseguiu responder. Cansado. E se aprontou a ser sujeitado a cerimónias. Nhonhoso o incitava a que dançasse e cantasse.assento. Depois saíram e o polícia os acompanhou até ao quintal. Era condição para ingresso na família. Nhonhoso saiu a avisar os restantes para que preparassem o ritual. sujeito aos frescos do fim da tarde. limpou-se de vergonhas. . Nhonhoso puxou de uma roupa de Marta. E proferiu frases vagas. Você simplesmente inexiste. Izidine se sentou. havia que ser feita. Os velhos riram-se a fartar.Desculpe. . que o país se tinha tornado num lugar perigoso para quem procura verdades. Izidine representou o melhor que soube. Izidine aceitou.Afinal vão-me cortar?. Marta parecia inclinada a poesias. perguntou aflito. eu não sou um homem bom? . sim. Ela se despregou em risada. Passos de um alguém o despertaram. tudo em versão feminina. Passadas umas horas batiam à porta. Marta apontou luzes que se acendiam na praia. Disse que a luz é mais leve que a água. Começaram os cantos. Navaia. Os velhos acendem-nos para apanhar lagostas. Então era aquilo? Ou seria simples pretexto. flutuando mais leves que o tempo. os reabrir. a tribo dos mais crescidos. Sente-se aqui no meio. Marta. se deitou no passeio. E depois. logo.Nesta festa. Que se passavam coisas no asilo. E seria aquela noite mesmo. se ele assim o desejasse. . Caminharam até ao frangipani. . E contou o sucedido.Será que. .Mas porquê. . seus reflexos ficam boiando como peixes lunares. você faz conta que é mulher. Está uma noite bonita para duas mulheres passearem. fardado de mulher.

. imaginando serem archotes em mãos de velhos.Isso. Várias vezes ela pediu que levassem doentes. se interessou. desceu-lhe carícias pelo peito. estupefeito..O que era? . é uma escama de pangolim. . o halakavuma.Os velhos já não estão lá. levou a que le se deitasse.Me chame de Izidine.Mas aqui na fortaleza. E um "passa- noite" está interdito de se envolver em assunto dos vivos. ela imitou o mar numa concha. a praia: já não havia archotes na praia. Marta apontou. . eu acedia ao estado de paixão. Agora estão lá. E se preguiçou nesse silêncio até que ela perguntou: . Depois.. em Marta Gimo. eles tinham medo. Queria saber quem eram esses "eles".Sabe o que é isto? . Tudo escureceu até que revi Izidine se erguendo. um golpe? Izidine se riu....Afinal. O polícia sticou os braços. Parecia que ela lhe queria entregar um segredo.Nele. ao fundo. as estrelas. . caro Inspector. O que se está a passar aqui é um golpe de Estado.. Mostrou-a à enfermeira.Tinham medo que nós os denunciássemos lá para fora.. . Esse que desce das nuvens para anunciar notícias do futuro? . em lugar de palavra. Excelêncio sempre recusou. Uma vez mais esse mulato negou. E lhe passou a mão pelo rosto. Marta.Um golpe de Estado? . apagado de mim e do mundo.Não. Olhou. Talvez demasiado. Por isso. Francamente. Izidine a quis proteger colocando as mãos por baixo dela. . . .Sabe o que eu mais odiava nesse mulato? .Quando morreu Salufo Tuco pedimos que levassem o corpo para que fosse enterrado em Maputo. . .Você nunca vai entender. na praia. Izidine.Afinal. Traziam caixas e iam vazios. senhor polícia.Ah.. 49 . Mas ela dispensou essa deferência: . A verdade é que. incorpado no amante. ajeitou o vestido. Ermelindo Mucanga.Medo? Medo de quê? . E que denúncias seriam aquelas.Os velhos não estão a ver-nos? Marta sorriu. você não esqueceu a tradição. rolando para que ele ficasse sobre o seu corpo. no céu. eu estou bem almofadada. Vamos ver se esqueceu outras coisas.Em quem? . . já sei. Desabotoava lhe o vestido? Seu gesto o convidou a mais se aproximar. O inspector. me deixei tombar em vazio. .Sim. O polícia tinha experimentado tais doçuras? E eu. Marta via o helicóptero sair e entrar.Isto. entrar e sair. com o braço. Acendeu a lanterna sobre o rosto dela.Use melhor as mãos. O polícia se perdeu nos astros luzinhando no alto. se afastando da enfermeira.. A enfermeira desviou-se do foco: . em Excelêncio. Colocou-lhe os lábios sobre o ouvido mas. escoar-me daquelas Visões. de repente.. vi-me. súbito. é isso que o deveria preocupar.

A enfermeira se divertia ao vê- lo. .Uma carta. Senão o país fica sem chão.O que é isto? . É no país inteiro. O inspector se aprontava para regressar ao quarto quando foi parado pelas gargalhadas de Marta. E. Desta vez.Não é só aqui na fortaleza.Há que guardar este passado. Uma vez mais. Ele abanou os braços. envergando trajes de mulher. Ela que falasse. Quero saber apenas quem matou Vasto Excelêncio. realmente. o polícia evitou milandear. . rodou sobre si mesmo. .Eu aceito tudo. 50 . Se fechou a conversa.Leia isto.Uma carta de quem? . Só isso. Marta. é um golpe contra o antigamente.De Ernestina. Marta Gimo o apanhava em contra-mão. Marta se aproximou para lhe dar as despedidas. . falou: . Sim. grave e assumido. Desembrulhou uns papéis e lhos fez passar: . Encenou uma vénia. Leia-a.

Os velhos estão habituados a não comer. Por isso me dá pressa de sair destas praias. Nem sequer teve enterro. mulher de Vasto Excelêncio. Irei em condição desqualificada. Chorava sempre que comia. Pensava que seria definitiva essa separação. Eu recusei acompanhá-lo. Seu corpo era a minha nação. para dirigir o asilo de São Nicolau. Que ninguém me preste tenção e me tomem por tonta. Eu não confiava 51 . E os sonhos são como as nuvens: nada nos pertence senão a sua sombra. Rectifico: viúva de Vasto. às vezes me parecia que morriam espetados em seus próprios ossos. quero vencer esta muralha que me cerca. Redijo estas linhas na véspera de me levarem para a cidade. Mas Vasto era insensível àquele sofrimento. . Mas esses nomes nunca eu lhos revelei. Deixam.. Lhe dei nomes só meus. eu ainda amei esse homem. Quando cheguei ao asilo confirmei as imoralidades de meu marido. Ficavam comigo. até lhes havia de fazer mal. Os horrores que aconteceram! Me diziam que Vasto. Tornado invisível. Prefiro esse alheamento.. Mas quero escrever. agora. Como se tudo aquilo fosse coisa sonhada.. Excelêncio negociava com os produtos destinados a abastecer o asilo. Foi então que decidi reconciliar-me com Vasto e vir ter com ele. A morte não é o fim sem finalidade? Vasto morreu em mistério. Nunca encontrarão o corpo de meu marido. Como era possível Vasto ter chegado a tão pouco? No princípio. Dizem que as mulheres que vêem seus filhos morrer ficam cegas.. Para esquecer. Eu escutava rumores dos massacres como se ocorressem num outro mundo. E chorava. No fim das buscas. Minha vida me sabe a sal. segredos que escondia de mim mesmo. Décimo primeiro capítulo A carta de Ernestina Sou Ernestina. Quando aconteceu o desfortúnio eu estava separada de Vasto. O meu único filho morreu à nascença. Nunca mais pude ter filhos. Não me pedirão testemunho. Vasto tinha sido destacado. de ver o tempo. Grãos e gotas se misturavam nos lábios. Mas a morte de meu filho me deixou frágil. nem para quem. . Durante anos vivi rodeada de velhos. eu me esgotara em sucessivas desilusões. enquanto andam por aí entretidos a vasculhar pela fortaleza. não sabia que tristezas se me enrolavam na garganta. o passado deixa de doer. sim. Comer. levar-me-ão com eles. nos campos de batalha. esse sabor de maresia. A nossa relação tinha-se gasto. nomes que eu inventava por força de tanto lhe querer. Meus ertences eram sombras velozes sobre a terra. se comportava sem moral. Os velhos não tinham acesso aos alimentos básicos e definhavam sem remédio. Melhor assim: pouparam-me a hipocrisia do funeral. Não é a primeira vez que cruzo caminhos com a morte. O que eu sofri mais na guerra foi aquilo que não presenciei. Escutava o que se murmurava sobre o meu marido. me respondia. você que tanto fala em nome do povo. agindo da mesma forma que os inimigos a quem ele chamava de demónios. Nem sequer sentimento. gente que só espera pelo breve e certeiro final. Hoje eu entendo: não é que elas deixam de ver as coisas. nem eu sei para quê. tida como alma incapaz. para sempre. Escrevo esta carta. esamparada.Como é possível você não fazer nada.

Era um homem estranho. só Vasto Excelêncio. Em suas palavras havia uma permanente queixa: se lamentava da condição dos asilados. no 52 . sim. ter ultrapassado os setenta. E agora como tirar a malvada dos seus interiores? Foi na guerra que Vasto Excelêncio conheceu Salufo Tuco. No início. se confirmava a autêntica natureza de Vasto. As coisas. Depois. O patrão era um indiano e lhe pagava o salário não em dinheiro mas em sobras de panos. Se apresentava assim para renovar memórias de sua inicial juventude. Só Salufo podia manipular esses carregamentos. A família os protegia. apenas em ilusão. Hoje já não preciso nenhuma razão para odiar. Deveria. Para mim era fácil entender: meu marido não queria que se conhecessem as reais quantidades de comida. se revelam. quando autorizado. Participara em missões que eu preferia desconhecer.que ele soubesse cuidar desses enfeites que a minha ternura fabricava. Em seu corpo de gigante se escondia uma alma gentil. Retorquiu assim: a cobra pode reinstalar-se na pele que largou? Não sei o que se passara no campo de batalha mas Salufo tinha estranhos deveres de fidelidade para com Vasto. remendos mal costurados. Mas guardava muito da adolescência. Com o tempo. eu ainda queria explicação para a minha raiva. Salufo se transferia para os perdidos paraísos da infância? Não sei. naquelas visões. Vasto não queria olhos mexericando em coisa que as mãos nunca iriam tocar. Viu muita gente morrer. Esse armazém é realmente a antiga capela da fortaleza. os idosos tinham uma condição bem mais feliz. E dizia que. Ninguém lhe dava a idade que realmente tinha. ele negou. se vai afastando da fonte. Se vestia com retalhos de tecidos. nas aldeias do campo. que se extinguiu a sua última réstia de bondade? Estranha sucedência: a maior parte da gente era deslocada pelo conflito armado. eles eram ouvidos e respeitados. Salufo confidenciava muito comigo. Uma vez lhe perguntei. O tempo me foi trazendo a verdadeira face desse homem. Eu gostava do seu convívio. Vestindo-se de remendos. para o armazém que está fechado a sete chaves. Os velhos sempre queriam ajudar. Ninguém pode ali entrar. Deus me perdoe. porém. Mais que isso: passei a ter-lhe ódio. Eu era como o rio que. Ele se transformou no seu braço direito. sozinho. E Salufo Tuco. feito de boas humanidades. convertida em depósito de mercadorias. refugiada em seu coração. Mil restrições rodeiam a antiga capela. Salufo era quem descarregava a carga que os helicópteros traziam. Recordava os primeiros pagamentos que recebeu como ajudante de alfaiate. Naquele momento. mantas e sabão. Como diz o velho Navaia: nós nada descobrimos. Não aparentava mais que cinquenta anos. movidos pela curiosidade de saber o que vinha nas caixas. Se o lugar já foi sagrado agora ainda o é mais. eu deixei de o amar. Os anciãos tinham a última palavra sobre os assuntos mais sérios. era mentira. Com Vasto sucedia o contrário: a guerra é que se tinha deslocado para dentro dele. contudo. Ele os transportava às costas. E encontrei modo de justificar: Vasto tinha servido na guerra. aquele que mais tarde se tornaria nosso criado. Salufo já tinha servido como soldado nos tempos coloniais. Mas Vasto Excelêncio sempre os proibiu. Salufo executava os trabalhos domésticos em nossa casa. Quem sabe foi ali. Salufo lembrava antiguidades e seu rosto se meninava. Me veio a primeira vontade de me distanciar de Vasto.

se renegando seu passado de falsidades. Chamei-o e pedi-lhe: . Fiquei toda a noite acordada.Não vá. sem preparação. De qualquer modo. Um devaneio de Salufo podia arrastar para a morte muitos daqueles velhos. Nessa mesma tarde foi consultar a velha feiticeira. pé-ante-pé. Seria impossível que isso passasse desapercebido. Tinha esperado pela noite. Salufo.Não é? . resignados àquele pequenito destino? à medida que se aproximava a planeada fuga eu me tomava de uma crescente angústia. Salufo encabeçava o grupo de velhos e acenou com um bastão antes de ser engolido pelo escuro. Em respeito a um pedido da feiticeira. Nãozinha surgiu em minha casa. essa noite. . ela me segurou ambas as mãos e me pediu: . Seu plano era levar com ele todos os velhos que estivessem cansados do asilo.O que devo fazer. assim mulata. Estava tão atenta naquela escuta que nem dei conta que Vasto não estava em casa. eu lhe peço pela fé de Cristo! Mas Salufo haveria de partir com todos os outros. Consulte Nãozinha. Temia a todo o momento ouvir explosões. a reconfortei: . Salufo. Imitavam piares de mocho. Enquanto o grupo de fugitivos ultimava seus preparativos.. Talvez só o tenha feito para me agradar mas Salufo aceitou. Sei como se põem e se tiram minas. ele já os vinha contactando. Se um velho pisasse uma mina o estrondo ecoaria pela savana. Se despediram do asilo soltando um "Ouooh" estranho.Nunca fui. Mas ele estava decidido.Você tem poderes. .Sou um militar. eu sei. eu não sou feiticeira de verdade.Mas como é que vai passar por esses caminhos minados? . Assustou-se quando me viu 53 . Fiquei triste: eu perdia não apenas um empregado mas um amigo.Isso é coisa que uma outra mulher sabe ver. conheço os segredos da guerra.Como é que sabe? . Apesar de triste. eu vi que Nãozinha rezava. Para minha surpresa. E me pediu que não dissesse nada a Vasto. senhora? . Apenas uma meia dúzia recusou. Um dia. ansiosa. Surpreendi o seu regresso. tão portuguesa de alma.desfecho.A senhora.Salufo. eu prometi cumplicidade. Em segredo. Não tenho nenhuns poderes. Depois. era já quase madrugada. Ernestina O seu corpo parecia pedir um consolo. não sei se negando as minhas palavras.. Tinham medo de arriscar? Ou já tinham sido ensinados pela morte. eu soube. Salufo Tuco me confessou que tinha decidido fugir. É que eu. Ernestina. Quase todos aceitaram participar na fuga. implorando baixinho: . Esta lhe havia dito: um viajante nunca deve partir no crepúsculo. Nãozinha sacudiu a cabeça. . não vá assim. Não sei o que entre eles acertaram. não deixe ele partir. ela pode abençoar sua viagem. Só sei que. Mas a sua voz não deixava transparecer nenhuma fragilidade.Eu estive a pensar.Você. Todo aquele barulho era para agoirar Vasto Excelêncio.Acredito. a senhora acredita nessas coisas? . . . se fechava em melancolia.

. Só no fim do dia se sentou e falou. Para quê martirizá-lo? Salufo pareceu adivinhar a minha dúvida. Os velhos tinham passado a zona das minas. Os velhos que.. Salufo. à ganância das famílias se juntavam soldados e novos dirigentes. roupa. o que vai fazer? Era essa pergunta que eu deveria fazer. E ficávamos olhos nos olhos como quem contempla o sem fundo de um oceano. Depois. E acrescentou. . Mas preferi calar-me.sentada na varanda. Ele não respondeu. Os parentes visitavam os velhos para lhes roubarem produtos. Levantou-se e disse: . Os donos da nossa terra já espremeram tudo. O mundo.Deixa. Salufo Tuco deixou de abordar o assunto. em meio riso: Para depois ser consolado pela senhora. afinal. os familiares trazem lembranças para reconfortar os que estão nos asilos. Saturado daquele mundo. lá dentro. haveremos de sofrer a Paz. Vasto. Passaram-se dois meses. decidiu voltar para São Nicolau. Enterraria as mesmas minas que. Só para os mais novos tratarem dele: Salufo trocou mentira por um canto num lar. Eu vou começar a minar.Nada. Havia organizações internacionais que davam dinheiro para apoio à assistência social. Marta ainda me veio ver umas poucas vezes. Salufo lhes respondia: vocês são a casca da laranja onde já não há nem sobra de fruta. Estava profundamente magoado.Eles estão a desminar. Na nossa terra era ao contrário. Mas esse dinheiro nunca chegava aos velhos.. Diziam que era invenção dele para eles desistirem de sair. Salufo explicava-se assim: em todo o mundo.. Chegou e se instalou sem falar com ninguém. Mas eu não tinha palavras. .Prefiro ser pisado por Excelêncio. tinha mudado. não fales.Sofremos a guerra. estavam a ser retiradas. 54 . De fora vinham familiares e soldados roubar comida. em silêncio. Já ninguém respeitava os velhos. sem incidente. .. porém.. Salufo tinha-se aguentado em casa de sobrinhos na base de uma mentira. lá na estrada. Todos vinham tirar-lhes comida. eu fui ver. Se recusava lembrar o que passara naqueles dois meses. Entrou na arrecadação que lhe servia de quarto e recomeçou as suas tarefas diárias como se não se tivesse passado nada.. Me isolei neste quarto.Eu fui soldado. Não perguntei nada. estão espremendo a casca para ver ser ainda sai sumo. Vinha triste. desocupada de tudo e de todos.Eu. Demorou-se em inventados afazeres. sabão. Salufo Tuco voltou. esfarrapado. E como diz o ditado cabrito come onde está marrado. E agora. antes. Sabe o que vou fazer? Me expôs o seu incrível plano: ele iria voltar a minar as terras em redor da fortaleza. Quando Salufo contou isto aos amigos do asilo eles não queriam acreditar. ansiavam por companhia já não queriam receber visitantes. E eu entendia. Não me vinha o sono. fora de São Nicolau. Perguntei-lhe o que acontecera. lá fora. . Dentro e fora dos asilos era a mesma coisa. Todos se haviam convertido em cabritos. . Ela me segurava os braços.Tina!? O que estás tu a fazer? . Nos outros lares de velhos a situação ainda era pior que em São Nicolau. O velho declarara ter bens e riquezas. Agora. A noite passou.

. Se ocupou. Tudo me parecia tão para além do real que eu nem sabia fazer perguntas. com alma. Um dia. Uma manhã. parecia divertir-se vendo o criado se afastar. Os campos se amargam quando os homens os abandonam. tudo estava permitido.Mas aqui. aos despedaços. os velhos se espantaram com o seu pedido: 55 . Saí correndo. o velho iria pelos ares. Salufo. Tudo era convertido em capim.É verdade. Dizia a Vasto Excelêncio que saía pelas proximidades para. já estava paralisado.O que se passa. lá na arrecadação. Vasto? .. Ninguém me viu. meu patrão: esta miséria é vingança da terra. Eles hão-de vir aqui quando o capim deles acabar. E não ficava pela intenção. . E realmente não.Eu vou lá ver o que tiraste. no entanto. Era ainda lusco-fusco. Não quero que ninguém venha aqui nos chatear. Como iria o velho se abastecer de explosivos? . Vou plantar. Vasto agarrou os remendos do velho e lhe exigiu explicação sobre o que ele tinha roubado. . Vasto parecia acreditar. Eles desplantam lá. Eu tinha estado na cidade e observara a ganância dos enriquecidos. Ignorando minha presença. patrão. Salufo caiu.Mas. ruminada e digerida em crescentes panças.Este filho da puta abriu o armazém. Pediu-me que chamasse os outros velhos. Salufo? . Salufo Tuco queria fechar caminhos ao futuro. eu planto mais travez deste lado.Eu vi esse mundo. Levantei-me para espreitar. Dona Tina. Quando se juntaram em volta de Salufo. O corpo de Salufo saltava sob mando das pancadas.. quem é que vem? . todas as deslealdades. mãos nos bolsos.. ainda o sol não espreitara.. Eu não cabia em mim. Sobre ele choveram pontapés. matéria de ser comida. E ordenou que me retirasse. Ou fingia: Porque aquele era um jogo mortal. Vasto estava fora de si. E tudo isso mesmo ao lado de aflitivas misérias. Todas as madrugadas. Eles é que estão doidos. Salufo nem teve tempo para responder. Meu falecido marido ralhava com Salufo. gaguejou: . deu pausa ao espancamento e. Salufo? . Salufo sacudia a grande mão no ar quando o meu marido o fingia advertir: . você. .Eu trouxe comigo. Já a mão fechada de Vasto embatia com toda a força em sua boca. a terra se zanga se não plantamos nada. Por fim. Salufo ainda se virava para trás e insistia: . roubei. senhora.Estás maluco. Quando Excelêncio o deixou estatelado ele ainda respirava. lá nas cidades.Agora é que isto vai ser uma fortaleza de verdade! . afogueado. umas nkakanas para Nãozinha.Hão-de chegar aqui. . a essa estranha missão. meu filho da puta! Salufo Tuco não morreu logo.Estou imune às minas. todos os oportunismos. Eu gritei. Não esqueça eu já fui um naparama. Vasto Excelêncio.Mas para quê? Minar porquê. Eu sabia bem o que Salufo estava dizendo. Seu corpo. implorei para que deixasse o homem em paz. fui desperta pela voz de Vasto. Interrompi a zanga. ele saía com um saco e uma enxada. Agora. Ai de ti. Aquilo não iriam ser cenas para mulheres. apanhar umas verdurazinhas.Não.

Quem sabia a certeza sobre o estado definitivo dele? E ficaram acenando- lhe. Vinha do armazém. Braços e pernas escancarados. Assim fizeram. praguejando. Eu fiquei. Salufo sempre falava do moinho de vento. incrédulos. falando com ele. Vou fechar este escrito. como que chamada pela própria terra. o pudesse irritar tanto assim. esses moscardos deviam ter descido à campa junto com Salufo. Depois. como um eco vindo do tempo. Haveria razões que me fugiam mas os velhos acederam ao seu pedido e o levaram lá para cima. Parecia que tinha morrido todo seu corpo. frustrado. Gargalhava mesmo quando ficava de cabeça para baixo. se afastou. . calo as mãos. Me pareceu que tivesse desmaiado. De súbito. depois. Como ele queria: rente ao céu. Aos berros ordenou que o desamarrassem e o trouxessem para baixo. desfiando piadas. Os velhos espreitavam. obedeceram. Antes. Ele. Quando depositaram seu corpo no chão já Salufo estava sem vida. Disseram-me depois que no lugar onde o sepultaram se escutam zumbidos de moscas vindos das profundezas da terra. Foi então que surgiu Vasto Excelêncio. o levaram para o enterrarem longe dali. Seus olhos chisparam quando olhou Salufo suspenso no catavento. Excelêncio. Fosse magia. E quem passasse por ali ouvia os insectos zunzunando nos subterrâneos. Palavras valem a pena se nos esperam 56 . Seus olhos visitavam as pás rodando e se inebriavam daquele movimento. pior que uma fera. Salufo estava imóvel como uma bandeira. Havia ali maiores urgências. fosse coincidência mas. finalmente. Passou-se um tempo e. menos o olhar. E me juntei aos outros velhos que faziam roda junto do falecido. Outros dizem ser Salufo Tuco ressonando em seu definitivo leito. perplexos. ainda escutei as gargalhadas de Salufo. feito ponteiro de relógio. . Então notei o modo estranho como o defunto nos contemplava. depois. Amarraram-no às pás do catavento. no entanto. amarrado lá no alto.Me amarrem no catavento! Hesitaram. Soprava babas e espumas. o vento parou. Desviei a palavra daquela conversa. segundo ele. Cá em baixo nos angustiávamos vendo Salufo Tuco naquele carrossel. Mas eu devia mais fidelidade a Salufo. parecia divertir-se. A medo me debrucei sobre ele. haver mortos com os olhos vivos. sopraram os ventos e as hélices do moinho começaram a rodar. Pronto. Ainda hesitei em o acompanhar. Há dias que nem brisa visitava os nossos céus. ainda agrediu aquele corpo. Até que. naquele exacto momento. Nem eu sei como conseguiram subir a escada do moinho de vento carregando aquele peso vivo. Assim mesmo: os olhos restavam vivos. Sim. Porque de Salufo se desprendia a suspeita de uma brasa sob a cinza. imóvel. Já escuto as vozes dos que me vêm buscar. à espera das ventanias.! o céu que ele tanto desejava parecia ter- lhe entrado pelos olhos. Nhonhoso era o único que não se admirava: . Seria natural. Não entendíamos como aquele ser. O velho rodava com elas.Então não há os vivos que têm os olhos mortos? Falava dos cegos. fechando-me eu nele.Que fazemos com ele? Os velhos hesitavam no destino a dar àquele morto. Agora. Mas. E dizia: aquele ventinho lá é todo feito à mão. Por uns tempos. já tinha deitado minha voz no silêncio. Esta é a minha última carta. ele se calou de olhos muito abertos.

No final de tanta linha já sei a quem deixar esta carta. Agora. A Marta Gimo.encantamentos. Foi ela a última pessoa a me escutar. Tina. vou sonhar-me. 57 . estou incapaz de sentimento. Me impenetrei em mim. Seja em seus olhos que me despeço da última palavra. Nem que seja para nos doer como foi meu amor por Vasto. ando em aprendizagem de fortaleza. Mas eu. agora.

E autorizar que me nomeassem de herói. Deixe-se aqui. acertadas as esperas e as expectativas. solitário e fundo.Não se envergonha de fabricar castigo para os seus irmãos? Irmãos? Esses a que chamavam de "irmãos" não tinham parentesco comigo. me atirou: . eu era omnimnésico. Perdera a capacidade de sonhar. Além de tudo.Dormir. Décimo segundo capítulo De regresso ao céu Nessa noite. O bicho. Me tinham calibrado os modos. esquadrinhando-a janela. Me educaram em língua que r ao me era materna. Me demorei uns momentos a transitar de visão.Aceite. me lembrava de tudo. só lhe chateiam de ano em ano. O inhacoso morreu quando queria certificar-se do que estava a ver.Fique herói. a converter madeira em tábua. Agora. Um dia . Mesmo mentira isso lhe aleija? Você faça como o porco-espinho. Tomei o velho martelo entre as mãos. Ermelindo. só podia me trazer maldições. alojado em corpo de vivente. Os outros contratados. Era como se vivesse de regresso. me faltava pouco para chegar ao final dessa peregrinação pelo corpo de Izidine. Eram revolucionários. porém. Não estava o polícia condenado? Não tinha os dias descontados? E havia mais. . em viagem de ida e volta. enquanto Izidine dormia. Tudo isto é muito perigoso. A única herança que recebi foi a pobreza. Ermelindo. me apertavam exigência. Eles. E era como se estivesse sucedendo hoje esse tempo eu que trabalhei na fortaleza. Combatiam o governo dos portugueses. maus modos. havia qualquer coisa que eu não podia confessar ao pangolim. . aceite-se na sua cova.me ocorreram vários indivíduos. eu? Acordo mais cedo que o céu. rectangulando a porta. eu fui chamado pelo pangolim. eu não podia regressar agora. Eu não tinha coração nessas makas. Não é o espinho que dá tranquilidade ao porco-espinho? E será que o bicho se pica nos próprios espinhos? Eu sentei-me no meu túmulo. Me puxaram pelos ombros e. Depois fui aprendendo a não querer do mundo mais que o meu magro destino. Na realidade. guerrilheiros. Até que me surgiu o pangolim. Pesava sobre mim esse eterno desencontro entre palavra e ideia. por exemplo. criavam era dificuldade e 58 . Com ele golpeei o chão. me interrogaram: . Em tempos de vivo eu me metia. A única prenda que me deram foi o medo. Subitamente exilado de meu hospedeiro. só fingiam trabalhar. O pangolim me queria convencer a voltar definitivamente para o meu buraco. Habitar entre os vivos. Não. parecia dormir. Era o gosto que me dava ser roçado por existência de mulher. voltei ao meu lugar de morto. Deixe que eles venham promover-lhe em herói.como eu me lembro desse dia -. por exemplo. enrodilhado. Sempre estudara em missão católica. Me lembrava. Me deixassem nessa conformidade. logo cedo. sem intróitos. do barulho da madeira sendo golpeada. Na cova eu não tinha acesso a memória. O pangolim se desenredou. Marta Gimo me trazia a ilusão de voltar ao tempo em que amei uma inautêntica. Eu devia deixar o mundo dos vivos. O mundo dos vivos era perigoso? Mas eu já tinha provado essa miragem. E.

o ventre. E disso me acusavam: eu trabalhava de traidor. Foi nessa altura que comecei a receber a mais estranha e doce das visitas.Patrão: eu não quero trabalhar mais na fortaleza. Só atracariam se se vencesse a barreira das rochas. Olhei os mamparras. No meu quarto não havia pano. carrasco dos justos. Era. Seu rosto não se oferecia a conhecer. Meus olhos se alongavam a ponto de colher antigas tristezas. O capataz desconfiava dessas fugas amorosas? Nunca eu viria a saber. a mulher do capataz me fez parar. as nádegas. Certa vez. construía-se um ancoradouro. O marido ainda matabichava. eu me dirigi ao capataz. Chorava. Minha amante anonimada muito me passou a frequentar.Você pára de martelar ou nós te martelamos os cornos. . Já tossia mais que respirava. Quem fala consente? Fiquei calado. meu ancoradouro. aumentando o encosto da terra. eu sentia suas redonduras se colando em mim. Daquelas aranhas enormes que depois de mortas se reduzem a ínfima ninharia. sobretudo. Por um tempo. junto às rochas. todos dispersavam. Nos seguintes dias eu vivia a única obsessão: adivinhar quem seria a nocturna visitadora. A primeira vez quase faleci de susto. em vaivências. Depois. Eu não lograva adivinhar quem era. Que atentassem no caso de Jesus. a atitude nervosa do marido. Mas eu estava tomado de tanta ansiedade que invadi a sala. Me assaltavam para desconto de vida? Não. encharcadas de tristezas. Ali eu ganhava conforto de uma ilusão: nada na minha vida se havia perdido. o intruso me dedicava açucarosas carícias. barcos cheios de prisioneiros chegariam por aquela via. Ali. A mulher me atendeu e me mandou aguardar. Tocava a despegar. Num breve futuro. Colava-se nas minhas costas. enervando o ar. afinal. Um deles me abanou ameaças: . Alguém lembra o carpinteiro que oficinou o crucifixo? Alguém lhe deita as culpas? Não. Mão pecadora foi a que pregou os pulsos do Senhor. Seus lábios me dedilhavam a pele. Só eu me deixava olhando o mar. me mordiscou o pescoço. Ri-me na cara deles. Que a serradura me entranhara o peito. Trabalhava eu demasiado? Ou me consumia em afazeres de paixão? 59 . No final de umas incontáveis noites. Dias e dias eu casei tábua com tábua. E transferiu-me para os trabalhos da praia. vai ser a berro e fogo. Não era apenas o seu corpo que me sugeria semelhança. esse terraço luminoso. Que eu estava como o mineiro com os pulmões a céu aberto. Me fechei. o vulto descia em mim. de quê? Na manhã seguinte. Tudo eram ndas. parecia que soletrava meus contornos. Improvisei um farrapo de desculpa. meu desaguadouro. Regressei à minha cubata.Os traidores pagam. na totalidade do escuro. Me pareceram aranhas. me custou ficar em mim. acreditei ser a esposa do capataz. Sorri. Eu sentia o seu respirar. Comentou o meu pouco aspecto. Consigo. rodava os braços por meu peito. Os seios. Porta e cortinas eram de madeira: não havia raio de luz que ali penetrasse. desdenhador. O homem perplexou-se com meu pedido: . como era usual. Nada neste mundo é mais redondo que nádega de mulher. Só eu levava a sério as obras da cadeia.emperramento. E se me inundaram as pestanas. Eu já dormia quando senti uma mão me tocar. Nessa noite. Depois. Seu corpo se converteu em meu balouço. a visitadora já me sabia na ponta da língua. O homem aceitou.

A última vez que descera à terra tombara em tais desamparos que desconjuntara escamas às porções. já eu há muito a sabia de cor e sal tirado. Tinha chegado o momento de escolher: eu voltava ao lado da vida.Você se escolhe. me refugiava de novo em Izidine Naíta. durante a minha morte. em vida. agora. Me admirei mais foi com meu próprio grito. No redondo da barriga. Os cegos. E ocorria duvidar-me: será que. Eu gostava já do moço. O pangolim escutava. da sua identidade.A mulher sorria. eu senti esse arrepio me relampejar o corpo. Você tem costelas que cheguem? Aí. Eu sabia o que vinha a seguir e ofereci o pescoço. malandra. Mas o amor cresce mais rápido que o peito. perdera a lembrança. 60 . Pela misteriosa mulher visitadora eu soube como o dente pode. em linhos e desalinhos. Foi quando os dentes. tinha sido uma mulher cheia de corpo mas sem nenhum rosto. Ermelindo: coração que ama engrandece. perseguem fantasmas de mulher. Ela me sossegou: não se preocupe. Era pior ainda. nós discutimos. Eu conhecia o argumento do halakavuma. a minha confissão. Pela mordedura da última noite aprendera a definitiva lição da morte. eu tinha amado um xipoco? Não teria sido isso que me matou? E agora. os dentes não têm serviço de morder. Não é que estivesse realmente invisual. Andamos a aprender o mundo mesmo ainda quando estamos em ventre de mãe. meu irmão. Esperava o lábio. Há coisas que aprendemos para nos longear do bicho que somos. o que são? São aqueles que não tiveram tempo para acabar de aprender. Como se tivesse sido sempre ela. era o meu carrasco. Estava certo. os homens amam sempre irrealidades. ele próprio já andava em aflições de magia. Um desses esquecimentos que nos obrigaram foi o de que. Mas no buraco da cova. Ela. a lembrança me escavava no peito um outro coração. ele era feito de boa humanidade. Bem vistas as contas. Ermelindo Mucanga. Marta Gimo. Até que senti o seu hálito quente me humedecendo o ouvido. a um mesmo tempo. sendo eu mesmo um xipoco. aprendemos a ver mesmo antes de nascer. Senti que ela entrava na cubata e se dissolvia no escuro. Essa noite eu aguardava com ansiedade a chegada da visitadora. . Eu gaguejei um silêncio. em nós. a língua. violentos. se cravaram na minha carne. Palavra de pangolim.Não é nada. soube-o tarde de mais. Suas mãos me tocaram. o dente. Com ou sem as licenças do halakavuma eu decidia voltar à vida. Essas aprendizagens custam tanto que nem delas nos lembramos. inebrilhante. Não sei se se ouviram os demais erros que não contive. Quem se pensava o pangolim? Com tantas antiguidades já a língua lhe era maior que a boca. agora. em toda a minha vida. ser lâmina e veludo. E me advertia: você se cautele. é a luz que me faz ficar cego. Quer ser toupeira ou caranguejo? O pangolim tinha medo de perder-me a companhia. A mulher demorou a carícia. A única que eu amara. Porque esse último intruso. Estava como o cão que perdeu o cheiro. eu estive cego por dentro. me apaixonava por um bem real vivente. Não podia ver o meu passado. Adivinhava as partes que omiti? O bicho se desencolheu ainda mais: . Como um bicho subterrâneo. A enfermeira dava corpo à visitadora de minhas noites na cubata. Marta me recordava essa visão. O martelo em minha mão voltou a pesar.

Nunca me refiz totalmente. agentes que se vendem. as famílias se arrumavam para os idosos. A guerra deixa em nós feridas que nenhum tempo pode cicatrizar. É a guerra. expulsos de nós mesmos. todo em ruínas? Aquilo já foi uma enfermaria. caro Izidine. Houve tempo que a cidade ainda me tentou E ainda ensaiei me instalar por aquelas bandas. Aquele é um corpo que está vivo graças à sua própria doença. A guerra cria um outro ciclo no tempo. não é uma pessoa. tenho dúvida. lá na polícia. se alimenta de imoralidade. Vive do crime. antes do conflito eram amados. Depois da tragédia. mataram. A guerra instala o ciclo do sangue. longe dos rebuliços? Deixe. Se admira? Pois foi Vasto que entrou pelas chamas adentro. Izidine. Não morreram todos graças a quem? Espante-se. roubaram. Tiraram-lhe a investigação dos negócios de drogas. as estações que marcam as nossas vidas. Você se há-de perguntar que motivo me prende aqui. Ao menos. respirar. Morreram duas velhas. Agora. Levei tempo a refazer-me daquele incidente. Seus pequenos delírios eram os novos muros da minha fortaleza. Graças a Vasto Excelêncio. Foi ela que matou Vasto. E os velhos foram expulsos do mundo. Mas eu lá adoecia de um mal que pão tem nome. Recebia medicamentos dacidade. Sobretudo quando soube que a principal razão do ataque tinha sido eu própria. Depois. arregaçando coragem e salvando os outros doentes. Era ali que eu trabalhava. a violência trouxe outras razões. Já não são os anos. Décimo terceiro capítulo A confissão de Marta O culpado que você procura. Sempre pensei que sabia responder. por exemplo. E por que motivo o enviaram para aqui. Pedi a Excelêncio que mandasse vir novo recheio para reinstalar o centro sanitário em meu próprio quarto. Houve um tempo em que pensei poder mudar esse mundo. aqui na fortaleza. Havia um mundo que os recebia. além. olhar. Mas o asilo foi atacado. eu mudo de assunto. Você. semanas após eu ter chegado. as inundações. já tinha deixado de dormir sob 61 . A violência é a razão maior deste meu retiro. Afinal. Do edifício restaram chamuscadas paredes. A guerra engole os mortos e devora os sobreviventes. Todas as culpas são da guerra. caro Izidine. Os bandidos me queriam raptar. Foi ela que rasgou o mundo onde a gente idosa tinha brilho e cabimento. Passamos a dizer: "antes da guerra. Estes velhos que aqui apodrecem. nesta solidão. Nessa altura. Os bandos entraram aqui. os velhos ntentavam outra ordem na minha vivência. Lançaram fogo sobre a enfermaria. Eu não queria ser um resto dessa violência. Já não são as colheitas. depois da guerra. é sobre mim que me devo espraiar. Marta Gimo. Era como se desaprendesse as mais naturais funções: escutar. Porquê? Você bem sabe. Você não se interroga quanto tempo vai levar até ficar contaminado pela doença dos subornos? Sabe bem a que me refiro: investigações que se compram. Vê aquele edifício. as fomes. Eles me davam o ciclo dos sonhos. Mas hoje desisti. conduzir-me para os acampamentos deles. Transferiram-no da secção de estupefacientes. eu fiquei como aquelas ruínas.

não é o que voa mais perfeito? Foi nessa circunstância que Vasto Excelêncio me encontrou. Eu perguntava sobre a origem de tais odores. não tinha com que desocupar o tempo. Os velhos apontavam o vão das bocas. De tal maneira que deixei de sonhar. O voar não vem da asa. Nenhum dos meus colegas. das nocturnas babas dos desdentados. Nem queria saber de futuros. Foi assim que vim parar aqui. Aquele bafo provinha das almofadas. Me desterraram nesse campo acusada de namoradeira. lhe digo. Uma das mentiras era do Salufo. Sem o centro e sem medicamentos eu me privei de motivos de viver. Há muito tempo. Foi nesse afundamento que me apaixonei por Vasto. já chego nela. como se a mentira fosse a pele que nos protegesse mas que. A profissão me reaproximava da família que eu há muito perdera. Os velhos fabulavam tanto que às vezes inventavam comidas que. Mas os helicópteros militares que iam e vinham não tinham disponibilidade. Eu quero só que entenda a total carência que. Ele tinha poderes. Não pode imaginar como me era imprescindível o trabalho na enfermaria. Eu estava doente sem doenças. Ele fazia de conta que tinha posses só para ser amado. No início. Aconteceu assim: primeiro. me inconsolava com este degredo. Nãozinha se inventou de feiticeira. fui enviada para um campo de reeducação. me acabou o riso. É essa a ordem da tristeza. depois do cigarro fumado. Sou neta de enfermeiros. dizendo que era querido pela família. no Hospital.aquele tecto. Estes velhos mentem. O beija-flor. Espere. Depois. ali eu me exercia a bondades. Eu estava aleijada desse órgão que segrega as matérias do sonhar. Não era verdade. Também eu me refiz de mentiras. no momento. Entrava no aposento e sentia o cheiro a coisa apodrecida. Me interessava apenas o instantâneo momento. Eu gosto apenas é da cinza. Foi isso mesmo que sucedeu com Ernestina. Reconstruindo a enfermaria eu muito me teria refeito. Perdi essa possibilidade de me reinventar. as palavras. tão abreviadinho de asa. inspector: a vida é um cigarro. bebida e seringa. nem chegava a haver. nesta fortaleza. escorregatinhosa em homens e garrafas. Tanto que acabou por duvidar de seus poderes. de tempo em tempo. eu quase desistia. Para além da enfermaria. Hoje. o modo como o desespero nos encerra num poço húmido. Protegiam esses restos com receio de serem roubados. Nesse campo em que cumpria a sentença eu me degradava a custo de sexo. Vou-lhe dizer: estas histórias que você está a registar no seu caderno estão cheias de falsidades. O amor não é o 62 . E mais irão mentir se você continuar a mostrar interesse neles. Há muito que ninguém lhes dá importância. Sou de Inhambane. depois. Não que o trabalho na enfermaria tivesse sido fácil. nos tivéssemos que desfazer. Sofria dessas maleitas que só Deus padece. No princípio. sob os travesseiros. me respondia Vasto Excelêncio. por fim. me retirou dali na condição de eu exercer enfermagem no asilo. os sonhos. se levantou para me defender. vi que não era assim. Aquele era o meu hospitalinho. pesava em minha vida. Só os pesadelos me visitavam. minhas famílias já há muito perderam seus nomes africanos. O cheiro vinha as sobras de comida que eles escondiam debaixo dos travesseiros. Ainda acreditei. Havia outras prioridades. Deve compreender: eu fui educada como uma assimilada. antes de vir para este asilo.

Falo da água. sonhatriz. E me fechei. 63 . não fique ciumento. Meu corpo.Sou enfermeira. porém. num momento em que eu própria me estreitava. Vasto se sentia traído. Só que. Castigava de preferência ó pobre Domingos. Que palavras eu podia ajeitar. O ele ser mulato esteve na origem daquele exílio a que o obrigavam.Vai tirar como? . Confesso-o. Me faço desentender? É que eu conheci Vasto. As lágrimas me escorriam e ele as sorvia como se fossem a última água. ele inteiro. menino e homem. Aquela era a fonte que lhe dava alento.Vou tirar esta criança. Mas tudo isso foi noutro tempo. da sua raça. Mas tudo esconde intrincados segredos. do mar. Antes de me tocar pedia-me que chorasse. ele se chegou e me surpreendeu em flagrante lágrima. calada. entendo Vasto. Eu o desejava. se declarava portador de outro corpo. Quero sentir-me pequena. em segredo. . De que serviço eles se ocupavam quando fixava n Ernestina? Me abri. Mas. ele me pareceu falso como o azul que está no mar sem lá se encontrar. sem nenhuma raiva. Eu já nem dava conta de meus olhos. Mais que minha própria carne. todos nós somos mulatos. estrela em céu. bem vistas as contas. sei como fazer. Me encarou fundo. Para que ficasse patente que não privilegiava os brancos. Não sei se conhece o mandado: quem limpa lágrima de mulher fica amarrado em nó de lenço? Eu e Vasto nos passámos a encontrar de noite. E lhe disse: . Ernestina parecia deter não apenas aquele segredo mas toda a minha vida mais privada. para meu espanto. Só uma mulher pode olhar assim. No princípio.Quando será? Eu nem sabia responder. Pela lágrima nos despimos. Rectifico: era isso que eu queria. Ernestina me visitou um desses dias. O pranto desoculta a nossa mais íntima nudez. me pergunto. honesta como um diário de adolescente. Quem quer saber de beleza? Num homem eu quero é tocar a vida. Tinha complexo da sua origem. Vasto ainda me dedicava estranhos namoros. isso é mais visível por fora. Falava muito sobre a raça dos outros. amarga e pouca. sexo e anjo. foi ensinado a dar-se mal com sua própria pele. Exercer maldades passou a ser a única maneira de ele se sentir existente. eu cheguei a amar esse homem. Que posso eu saber? Os únicos que conhecem a verdadeira cor do mar são as aves que olham de um outro azul. E ficou assim. eu era ainda uma menina. um homem cheio de angústia. Até que engravidei. Não quis dizer a ninguém. Desiludido. Me enxugou o rosto. Ernestina me queria punir por minhas levianades? Não. Se era bonito? E isso o que interessa. não se notava nenhuma redondura. É isso que eu quero. ele não se aceitava. grão em areia. essa altura eu não sabia que.irremediável remédio? Um dia. Eu trazia a barriga à socapa. O que restava dessa utopia? No início se descontaram aparências que nos dividiam. Os melhores anos de sua vida ele os dera à revolução. que já não choro. sim. Com o tempo lhe assaram a atirar à cara a cor da pele. Hoje. Nessa altura. Vasto Excelêncio. em alguns. Todavia. E me perguntou: . Ela simplesmente se ajoelhou e encostou a palma da mão no meu ventre. eu ainda via os homens como as aves entendem a nuvem: um lugar onde se pode passar mas nunca habitar. naquele momento? A mulher do director se baixou sobre mim e colocou-se à distancia de uma maldade.

Fiquei de olhar vago. Sobrei ali. sem se compor. ali no asilo. cheios. fumacento O meu estado. Dessa vez. . Já antes eu notara suas estranhezas. rápido. não há nariz sem ranho? Quando dei conta.O menino há-de mamar aqui.?. Vinha grave. enxotando um mau presságio. Aquela barriga devia ser corrigida o mais rápido possível. enevoado. preocupado só consigo mesmo? A Nãozinha mais seus 64 . Ernestina me segurava a mão. as lágrimas me escorriam. disse: . Vasto entrara no pilão mas queria sobrar intacto. Passeou as mãos pelo peito. quem mais podia ser o autor? E ele. Não me podendo ordenar por dentro fui arrumando coisas até que a feiticeira despertou em sobressalto. as suspeitas recairiam sobre ele.Eu notei antes mesmo de acontecer. nestes seios de mulata. Dentro da boca faz sempre sombra. até podia perder posto e vantagens. . Ainda pensei que Vasto se inclinasse a beber aquelas gotas. Nãozinha me visitou essa noite. Deixei-me entardecer nessa ausência de mim mesma. Nunca mais eu lhe voltaria a servir de fonte. um menino para amamentar.Me entregue esse menino.Não tenha. parecia acabada de comungar. Não. Depois. E assim mesmo. Ao contrário de Ernestina. em desconsolo. não havia que hesitar: eu tinha que interromper aquela gravidez. Vou ter um de verdade. Mas eu estava em inteira penumbra. adormecendo na cadeira. às tantas. Mentia ou se revelava agora tal igual era? O orvalho é falsificador de pérolas? Vasto abordou o assunto. não preciso de inventar. no arco dos braços. me desafiaram. insinuosa: . Até que. A velha trazia um sorriso de anjo. rosto abaixo. . perguntei. Agora. parou à minha frente e começou a desabotoar a blusa. Ela costumava se anichar. Abanei a cabeça a mostrar o impossível do pedido. Rezamos tanto mas sempre os dias são mais que o pão. na sombra do frangipani.Já sei. coitado. a velha se desatou do meu lugar. Sendo ele o único homem em função. Ernestina se levantou com modos solenes. horas. bateu a porta e saiu. não tenha essa criança! E sem mais.Veja! Seus seios. Ernestina me voltava a surpreender. tudo me parecia irreal. Orava? Falava com Deus? Ou simplesmente adiava o gosto de viver? Há muito tempo eu também rezei. Homem é homem? Ou. rezei muito. Fiquei um tempo sem saber o que pensar. o próprio Vasto Excelêncio deu aparição. Seus dedos namoravam consigo mesmo. Olhei para ela. disse. agitando os braços. Abanava a cabeça. sem saber o que pensar. Ela entendera quanto eu recusava ser mãe. Mas não. as palavras de Nãozinha. haveria de obedecer? A Vasto. Antes mesmo de me saudar. ensaiava um embalo de ninar. Eu sorri. Se chegou a mim. simplesmente. baixou a voz. afinal. Também ela já sabia da gravidez. A beleza dela estava ali em instigante montra. Rodou pelo quarto como se procurasse qualquer coisa. desceu-as ao ventre. crepuscalada. ele não me dedicou nenhum afecto. ela implorou: . cheia de espanto. Sim. acariciando os próprios mamilos. Depois de ela se retirar fiquei sem palavra. tristonta. . Ela se provocava. Nãozinha se deixou ali. A quem eu. Depois. O homem fugia-se. E já ela.Nota-se assim tanto. Depois desisti.

surumático. Eu ainda ia a tempo de desencomendar o feto. incapaz de tomar decisão. lhe dou um bom crescer. querendo ser mãe em filho de outra? Pensando bem. Era como se aquela criança fosse já sua.Não se preocupe. nos internaram em distintos hospitais. Era gravidez da autêntica? Ou era obra de fantasia? Na minha terra a gente costuma perguntar: uivar de cão se escuta de dia? Vasto. ambas as mães! O impensável aconteceu: também o ventre de Ernestina inchou. afligida: . Fui abrupta: . Ernestina não enchia a boca de falsa promessa. lhe segurei o rosto. se deu a espantável acontecência. Ela caiu em si. você fez amores foi comigo não foi com Vasto. Soltei os braços. Me rodearam como se de um velório se tratasse. fui dando andamento à minha barriga. As palavras dela me assustavam. Nos restantes meses. lá na fortaleza. Deixou cair a cabeça sobre o peito e ficou lutando consigo mesma até que. Mais eu me luava e mais Ernestina tonteava por descondizentes palavras. me costumei a aceitar destinos. Em sonho me apareceram os velhos do asilo.Se esse menino morrer. O helicóptero veio e embarcámos as duas. circunsequente. Com essa altivez. Tomava ela mesma as preventivas vitaminas. Não o faça. Vasto morrerá também! Me senti acudida pela força daquelas palavras.Vasto não tem nada com este assunto. Lhe disse de minhas dúvidas.Ontem. Entende? Esse é o nosso filho.Vasto é o pai. sem nunca assanhar os deuses. aguardava o primeiro helicóptero. Em lugar de Vasto. Ernestina não dizia coisa nem coisa. Por outro lado. Eu vou levá-lo para longe. Assumia porte de rainha. Exportaria a incessante esposa. Por herança do hábito. Eu tenho que o ouvir. àquele mesmo lugar que tanto maldiçoara. Rumámos à cidade.azedos pressentimentos? Ou a Ernestina. como se a minha barriga crescesse em seu próprio ventre. Ela já não tinha as costas quebradas.Mas Vasto não quer esta gravidez. não se dando tempo a respirar. . Na noite que antecedeu o parto fui assaltada por estranhas visitações. Senti uma terrível urgência de me ver livre daquela conversa.Não. Ela levou as mãos ao rosto. o 65 . De repente. Nãozinha pousou as mãos no meu leito e me contou as recentes ocorrências: . E bordava roupinhas. Me trazia comidas e doces que ela preparara. Tive que erguer a voz: . Me dava conta que me feiçoara ao lugar. A mulher falava sem pausa. Já se dizia também ela ser mãe. Traziam-me flores de frangipani. pousou a mão em meu ombro e me sossegou: . toda eu me dediquei a arredondar. Este mundo tem suas trapaças. levantando o cabelo da testa. me entregue o menino. passei a ser visitada por Ernestina. agarrando-me as mãos. não faça isso. Me apontava e se incluía: . Fazia respirações em preparos de parto. Esse menino que você traz consigo é meu filho. Me aconselhava a descansos e anexas sopas. a fortaleza não tinha condição para nascenças. me disse: . eu também não tinha vontade de sair dali. repetia. como se tivesse sido espancada.Nós. Confusa. só nosso.

os morcegos desataram a atacar as andorinhas. mais refeita. Esses mesmos velhos me ensinavam a cicatrizar essa ferida que rasgara meu útero e minha alma. já desabastecido de volume. exibindo dentes e mandíbulas. A ternura dos velhos que me receberam como se. a mancha da morte não tem água em que se possa lavar. Ernestina perdia o seu segundo menino. 66 . ali sobre os lençóis. Naquela noite. na minha terra. Acordei com o médico a meu lado. Entende agora a verdadeira razão por que eu durmo sem tecto? É que. caindo com gentileza sobre o chão. A loucura de Ernestina. A escrita era sua única palavra. E precisei de aprender a reter as lágrimas quando eles me tratavam. Se escutaram suas asas como manuais helicópteros militares. da cor dos mortos. A última dessas cartas é essa que lhe entreguei. Nesse enquanto. se abrigaram. Parecia que depenavam as próprias nuvens. choveu tanto sangue que o mar todo se tingiu. Um eclipse. eu me tivesse ascendido a mãe. O papel era sua única janela. eu perdera meu filho. Se encerrava no quarto. Mas. Os ichos. Como se desembrulhasse as roupas que cobrem o nosso comum filho. os vampiros enevoaram o mundo. eles as devoravam.Tenho tanta pena! Fizemos tudo o que pudemos. A indiferença de Vasto. Cinzentos. Então. ela emudecera. agora. sem a devida cura. na realidade. de "mamã". decidi visitar Ernestina. Meu e de Ernestina. Teriam os deuses atendido meus ocultos desejos de não ser mãe? De repente. Lhe passei esse papel com o mesmo coração com que. Quando regressei ao forte tudo estava como eu deixara. A meu lado estavam brancas flores do frangipani. Nesse dia. aflitos. a surtos e sustos saíram do armazém onde Vasto Excelêncio escondia suas mercadorias. Me segurava a mão e me dizia: . Os velhos. Os bichos rasaram as casas. Ela regressara do hospital. Em plenos ares. lhe entrego estas minhas palavras. Um dia. uma visão e sobressaltou. envolta em penumbra. As plumas dançavam pelos ares. E eram tantas as avezinhas sacrificadas que respingavam gotas vermelhas em toda a parte. Olhei o meu corpo.céu se cobriu de morcegos. E adormeci ao consolo daquele perfume. Até que da morte sejam purificadas. as mulheres em luto só se podem deitar ao relento. em mim. parecia.

abriu a porta. Seu rosto refrescou uma fresta na porta. o que faz? Agora. Em cada noite. Izidine ficou imóvel. escutando as revelações que se seguiram. O senhor espantou a verdade. Estava vestida a rigor de cerimónia. Pedia as licenças: . Não lhe transferiram e secção? Não lhe ameaçaram? Por que não segue acção do pangolim? Por que não se enrosca a proteger as suas descamadas partes? O senhor não sabe mas eles o odeiam. Décimo quarto capítulo A revelação Era a última noite. Agora ele era chamado a prostrar-se no chão. A feiticeira ordenou que se sentasse. Só de noite ele se desenrola. Balançou-se diante dele. em Maputo. Veio à cadeira do inspector e o puxou pela mão: . Nãozinha se dirigiu para ele e fez escorregar qualquer coisa entre as suas mãos. Você. o senhor está a ser perseguido. ela se virou bruscamente. Os velhos estavam todos naquele aposento: Navaia Caetano. Deveria ter tido maneiras para rondar por aí. Esse mundo que está chegando é 67 . Os relatos se misturavam. Mas não. perdemos os laços com os celestiais mensageiros. Deu-lhe um beijo. ao lado dos ouvidos. E desatava discurso: . Nhonhoso.Venha! Conduziu-o pelo caminho de pedra até ao seu quarto. . Nos dias de hoje. A feiticeira se ergueu. Depois. Nãozinha espalhou nele as cascas do pangolim: sobre os olhos. devia aprender esses cuidados. bem ali ao dispor de mãos feiticeiras. era isso? O inspector constatava estar em pleno ritual de adivinhação. agora. Antes de abrir a porta.Hoje sou eu a depor? Não esperou que ele respondesse. Se acautele. Você estudou em terra dos brancos tem habilidades de enfrentar as manias desta nova vida que nos chegou depois da guerra. porém. sugerindo que ele se calasse. o bicho já não sabe falar a língua dos homens. olhos cerrados. Domingos Mourão. parece o javali que foge com o rabo em pé. nas mãos. uma dessas escamas tinha trabalhado a alma do inspector. Izidine olhou: era mais uma escama de pangolim. Afinal.É a última. Passou-lhe os dedos sobre os lábios como se esculpisse uma despedida no relevo da sua carne. ao de leve. os derradeiros artifícios dos aléns. Aquelas eram as últimas réstias do pangolim. Nãozinha se lamentava: quem nos mandou afastar das tradições? Agora. E. . Nãozinha as tinha apanhado junto do morro de muchém. onde ele não tem escamas. Lá. Depois de um tempo disse: . os velhos falavam como se tudo estivesse ensaiado. descido lá do céu. Nãozinha. Nãozinha atropelava sílabas em salivas.O que se passa? Mourão fez um gesto com a mão. no cuidado do escuro.Sabe como faz o halakavuma? O bicho se enrola a esconder a barriga. inspector. a boca. O policia entrou e ficou andando para a frente dando passos para trás.O halakavuma é que devia aparecer. Marta veio chamar o polícia. inspector. Restavam as escamas que o halakavuma deixara escapar da última vez que tombara.

o seu mundo.Eles virão aqui. se espantou o polícia. Lhe deram a missão: tirar-lhe do mundo. As caixas eram atadas a pedras que lhes davam o peso do eterno fundo.Amanhã será. . A verdade é esta: o senhor deve deixar a polícia. não sabiam. Na capela se guardavam brasas de um inferno onde os pés de todos já se haviam queimado. Virão para lhe matar. O crime é o capim onde pastam os seus colegas. Aquelas armas eram sementes de nova guerra. Além disso. Até que. Você é o amendoim num saco de ratos.Sangue!?. Esta fortaleza é um depósito de morte. Excelêncio escondia armas. E a feiticeira. Nãozinha acelerava o transe. Tiraram-lhe do charco dos sapos e você se meteu no charco dos crocodilos.Eles virão amanhã. É esse mesmo que o trouxe de helicóptero. você sabe pisar na lama sem sujar o pé. em espasmo. o segredo transpirou. a peúga da traição. Deitaram algumas lá perto das rochas. Só o Salufo Tuco tinha acesso a esse armazém. próprio. ela se virou para a velharia e perguntou: . Apenas Salufo tinha esse conhecimento. E a feiticeira adiantou: não chegava deitar fora as armas. Por isso. Enquanto falava ela sofria de convulsões. A verdadeira razão do crime era só uma: negócio de armas. então. Era como se o corpo dela se animasse de viva labareda: . Levantaram a ideia de escavar um buraco. Fizeram-no combinados com Salufo. Temos pena de si pois é um homem estúpido. ávidos pela palavra que se seguia: . E foi o que foi. Você é um fruto bom numa árvore podre. . O assassino eu o estou a ver. . Onde. escorriam-lhe babas pelo pescoço. E os velhos reuniram. mais respirável. Izidine. de mais para as suas forças. Isto é. Os velhos. um dia. Certa vez. Izidine: você se meteu na casa da abelha. sobras da guerra. decidiram: pela calada da noite abririam o depósito e fariam desaparecer as armas. A fortaleza se transformara num paiol. assustados. Esse é quem o vai matar.Cuidada! Vejo sangue! . É o piloto. Não é vontade dele. Mas as armas eram pesadas. Os velhos desembocavam num impossível: não se podia deitar no mar.Um buraco que perdeu o fundo o que é? . Você já está perdendo a sombra." As palavras pareciam sair-lhe não da boca mas de todo o corpo. dava nas vistas transportar as caixas. 68 .É o nada. no princípio. Eram guardadas na capela. não se podia escavar na terra. fosse mesmo no escuro da noite. um homem bom. Vão devorá-lo antes que você os incomode. Até que a feiticeira se enclavinhou. Não sabe como se faz com o capim: há que cortar sempre não para que acabe mas para que cresça ainda com mais força. Eles devem calçar o sapato da mentira.Matar-me? Quem me vai matar? . fazer desaparecer o dito paiol? Aquilo não era coisa para se resolver com pensamento Só a intercedência de Nãozinha podia valer. E assim optaram por deitar o armamento no mar. Todos se suspenderam.A terra não é lugar para enterrar armas. foi desvendando os sucessivos véus do misterioso assassinato do director. Mas Nãozinha se opôs.

a mulher- água.Então que podemos fazer. A feiticeira se aproximou. O réptil cambiou de cores. Onde a palmeira é que se planta nas ondas. inflou a pontos de bola. hão-de vir para lhe matar. exausta. estourou. Tinham morto Excelêncio." 69 . E a feiticeira os conduziu junto à capela. um dia. E atiraram os armamentos nessa fundura. . despedaçado de encontro às rochas. Como o pobre Izidine: na mão direita. Te digo eu. abruptando-se no vão do espaço. Redigia como Deus: direito mas sem pauta. Foram eles. um vão no vazio. Ela retirou a capulana dos ombros e cobriu com ela o chão da capela. Não havia fora que bastasse para aqueles ferros manchados de morte. Serás escorregadiço como o fogo. Um grupo de homens fardados desceu do helicóptero e foi ao armazém. Despertou em sobressalto com um ruído na porta. O polícia estava todo desalinhavado. Lhe desabotoou a camisa. extravasando-se todo o escuro que há nas nuvens. A seus olhos se esculpiu a fantástica visão: ali. escoando para além do mundo. a morte já não poderá abraçar-te. Cabeceou sobre a mesa. Nãozinha? Me sigam. O resto balança nas duas margens da dúvida. ganhando raiz em fundos corais. Mergulhou os dedos numa banha amarelada e começou a besuntá-lo. Despejavam as munições no abismo e ficavam. As ondas te levarão e só terás destino num lugar onde não chega nenhum barco. Te converterás num ser das águas e serás maior que qualquer viagem. regirou os olhos e desatou a inchar. inspector. afastando as poeiras com as mãos. Serás aquele que ama e não quer saber se é certo. Nãozinha falou enquanto friccionava o peito de Izidine. os mesmo que irão matar-lhe. recuaram. Trouxeram o corpo dele e atiraram-no para as rochas junto à praia. Os velhos estavam longe. De imediato. Os velhos espreitaram o gesto de Nãozinha e ainda hoje eles se estão para crer. onde havia chão. Inflou. Os que lhe lessem iriam ter o serviço de desentortar palavras.Esfrego-lhe com este óleo de baleia. tempos infindos. . De súbito. Os velhos tossiram. puseram braço na obra. Izidine Naíta saiu da cerimónia. Era Nãozinha. atónitos. Contudo. Quem escavara aquela armadilha? E onde estavam as armas? Começou o enorme milando. em silêncio. no seguinte. Tu serás aquele que sonha e não pergunta se é verdade. mufanitas. De um saco retirou o camaleão e o fez passear sobre o pano. caindo por terra. você ficará maior que qualquer tamanho. Levaram-no para dentro de casa. Trazia uma lata ferrugenta. Na vida só a morte é exacta. foi ao quarto e escreveu durante toda a noite. um oco dentro do nada. era agora um buraco sem fundo. Pensarão que nada irá restar de teu corpo. se ouviram os tiros. a testa almofadada pelos papéis. Nãozinha terminou as falas. a escutar o ruído dos metais entrechocando Ainda hoje se ouvem as armas. observando. Os estranhos abriram a porta do armazém e. Os outros. Amanhã. . Eles lançar-te-ão sobre as ondas. Levantou-se num pulo e apontou a arma. Foi então que ribombeou o mundo. ecoando no nada. Vinha buscar armamento.Foram eles que assassinaram Vasto Excelêncio. Lá onde o mar é que desagua nos rios. a pistola. Adormeceu. Passados nem momentos. logo uns tantos se desfiladeiraram pelo abismo. o helicóptero voltou. a caneta. Abriu as portadas com simples roçar de unha. "A baleia é grande. Até que. Nãozinha. na esquerda. Desconfiaram de Vasto.

tomei atenção na feiticeira mesmo depois de ela bater a porta. o xipoco dentro dele. 70 . Encolheu os ombros e depois deitou fora a lata. rodou-a entre as mãos. parecendo em culpa. Seguiu caminho cabisbaixinha. Olhou a lata com que benzera o polícia. até que parou. Izidine Naíta não viu mas eu. A velha saiu.

confirmando a iminente ameaça. . foi de mentira. Corri ao quarto de Izidine e o chamei. Primeiro. Minha vida. quando autêntica. O polícia ainda hesitou um momento.Vá buscar o moço. colhi a flor. Ele iria juntar forças deste e de outros mundos e faria desabar a total tempestade. O barco? Que barco? Ou era simples imagem sem nenhum enigma dentro? Mas o pangolim já tinha emudecido. me desconfiou. E pensei-me: toda a minha vida tinha sido falsidades. fantasma visível só pela frente. O helicóptero nos perseguiu. abalado. Meu coração. O halakavuma me anunciava seus planos. aos poucos. Restreava assim minha própria matéria no mundo. Corremos em direcção à praia. em espanto. venha por aqui! Eles já aí estão. às pressas. com o oceano a namorar-me o olhar. Eu iria abandonar o corpo do inspector. Durante esses terríveis eventos eu deveria apenas seguir as suas instruções. tudo em volta se inaugurava. Fui conduzindo Izidine para as rochas. Preguei tábua quando uns estavam construindo a nação. Enquanto eu corria. Morto me escondi em corpo de vivo. Lhe gritei ordem: ele que corresse atrás de mim. Décimo quinto capítulo O último sonho O desalentado gesto de Nãozinha me trouxe decisão. se educou. eu saí do corpo de Izidine Naíta. mesmo sujeito a promoções de falso herói. Me apreendi. se decidiu a me seguir. Espreitou o céu. Eu me coroara de cobardias. sempre esteve ali. . eu conduzo o furacão. as palavras do pangolim prosseguiam em minha cabeça. Quando houve tempo de lutar pelo país eu me recusara. afinal. Depois divaguei na varanda. com a voz já encharcada: . tudo cintilou em milibrilhos. Comecei a escutar as hélices do helicóptero. primeiro. O homem. A claridade. Toquei a árvore. . Lembrei as palavras do pangolim: . pávida e poeirenta. não tinha sido enterrado. Granizos e raios tombariam sobre o forte. ela me surgia como o único lugar do mundo. Olhei o mundo. Depois. afundando-se num destino que já me fora revelado. Fui amado por uma sombra quando outros se multiplicavam em corpos.Aqui é onde a terra? se despe e o tempo se deita. atarantonto.É a terra.Você guia o barco. E murmurei.Quem é você? Não havia modo nem tempo de explicação. Estava ali.Depressa. a minha terra! Mesmo assim. onde nos podíamos esconder de feição. Nessa manhã. aspirei o perfume. Quando nos deitámos entre as penedias da praia eu me contemplei. Eles estavam a chegar! Tudo em mim se repentinou. reflorindo no frangipani. abutreando lá no alto. Não podia deixar aquele moço morrer. A 71 . A voz do halakavuma se fez ouvir: . Preferia sofrer a condenação da cova. A luz imensa me invadiu assim que me desencorpei do polícia. Em vivo me ocultei da vida.

Acenei. daquele depósito sem fundo. Quando. vi os velhos que se aproximavam pela praia. Aos poucos. tombou como esses papeizinhos em chamas que não sabem se descem ou se sobem. se soltaram andorinhas. em autenticado corpo. Depois. perguntou Izidine. triste. as ruínas se convertiam em imaculadas paredes. Aquilo que o polícia tomava por máquina voadora era o wamulambo. os fumos se dispersaram.Está morta? A visão daquela morte me fez lembrar meu próprio fim. afinal. excitado. As aves relampejavam sobre as nossas cabeças e se dispersaram. a cobra das tempestades. Me despedi da luz. ele inflige morte. A hélice se desprendeu e o aparelho. reinou um silêncio como se toda a terra tivesse perdido voz. Dela restava um tosco esqueleto. para os velhos. velhos. os edifícios se reerguiam intactos. Era coisa jamais presenciada: o céu pegou-se em fogo. E todos. esse mesmo cais que eu carpinteirara enquanto vivo. tudo se acalmou. das vozes. Os fogos que eu vira. o céu se foi limpando até ficar tão transparente que se podiam ver outros firmamentos para além do azul. Eu não podia. Aos poucos. Izidine e eu.Qual helicóptero? A velha feiticeira soltava as gargalhadas. Foi então que uma explosão se tremendeou pelo forte. aos milhares. Nuvens espessas escureceram o céu. Atrás vinha Marta. Espantação minha: à medida que caminhávamos. uma prova dessa desordem. um testemunho que a morte visitara aquele lugar. Um xipoco. parecia o mundo se fogueirava. de imaginária sucedência? Havia. folhas. Os velhos foram chegando à varanda e cuidaram de não pisar os restos ardidos.?. do cacimbo. Se apoiavam. fosse respeitado. Nãozinha ordenou que regressassem ao forte. Caso senão. Aquela cobertura resistia e nos protegia da chuva de fogo. envolto em labareda. enfim. A construção que fora concebida para servir a matança de prisioneiros cumpria agora funções de ajudar meus companheiros viventes. desasado. Era a árvore do frangipani. voando sobre as colinas azuis do mar. recíprocos. De repente. as rebentações que assistira não passaram. Izidine Naíta me instigou a juntar-me a eles para os ajudar. entre tudo o que restava. Afinal.morte me chegou com tanta verdade que nem acreditei. só de viver. Marta. dedos de carvão abraçando o nada. o helicóptero se incandesceu. súbito. . flores: tudo se vertera em cinzas. Assim. Ela tomou a dianteira e foi abrindo caminho por entre os lugares que se haviam incendiado. Num instante o céu ganhava asas e esvoava para longe do mundo. as nuvens arderam e o mundo se aqueceu como uma fornalha. Agora era o último momento em que eu podia mexer no tempo. E todos juntaram risadas. porém. deflagrou a tempestade. Chegara a minha vez de me reassombrar. enchendo o firmamento de súbitas cintilações. E fazer nascer um mundo em que um homem. . a máquina se derrocou sobre as telhas da capela. Xidimingo se inacreditava: .Viram o helicóptero. não pode tocar num vivo. Quando já tudo clareava sucedeu que. Me comecei a internar na areia. 72 . Afundou-se lá onde se guardavam as armas. nos juntámos sob a plataforma que ainda restava sobre as rochas. Tronco. não é o pangolim que diz que todo o ser é tão antigo quanto a vida? Todo aquele pensamento desfilava em minha cabeça quando.

me cobri com a mesma cinza em que a planta se desintactara. tansfinito? Recordei ensinamentos do pangolim. Daqui em diante. Vou ficando do som das pedras. hesitei: o caminho do regresso não podia ser aquele. natalícia. A cada gesto meu o frangipani renascia. Este não é um caso de última vez. Era Navaia Caetano. Lhe pedi para que deixasse fora o inutensílio. FIM 73 . Me apertou a mão e.pronto a me desacender. o arco de brincar. tomado pelo sotaque do chão. fomos entrando dentro de nossas próprias sombras. O tempo já lhe tinha confiscado o corpo. perdia as naturais cores da vida. para atravessar a derradeira fronteira eu carecia de clandestinidade.Me toque.Deixe o brinquedo entrar. vou perdendo a língua dos homens. eu vou consigo. em meio disso. corrigente: . Me deito mais antigo que a terra. Remexi a réstia do tronco e a seiva refluiu. desci do meu corpo. Lá os metais eram interditos. a árvore do frangipani. Estava encostado no tronco. ainda notei que os outros velhos desciam. breve cintilação de madrugada. A árvore era o lugar de milagre. E repetia: . Mas. vou dormir mais quieto que a morte. deles restando a dupla cintura de um cristal. arborizado. Me estendeu a mão e pediu: . Agora. em vida. toquei a cinza e ela se converteu em pétala. E Navaia se iluminou de infâncias. juntos. a tiracostas. por favor.. Mas então reparei que ele trazia. Aos poucos. connosco. E quando a árvore toda se reconstituiu. E ouvi a voz suavíssima de Ernestina. embalando um longínquo menino. Eu me tinha tornado num estrangeiro no reino da morte. Na luminosa varanda deixo meu último sonho. como sémen da terra. meu irmão! Me chamava de irmão. meu irmão.Por favor. à tona da luz. Como me transitar. o velho-menino. Esperava a final conversão quando um fiozinho de voz me fez parar: . ficavam Marta Gimo e Izidine Naíta. Aquele chão já não me aceitava. Do lado de lá. sem culpa de eu. Então. Me habilitava assim a vegetal. o velho me ratificava de humano. Sua imagem se esvanecia. profundezas da frangipaneira. No último esfumar de meu corpo. não ter sido outro. rumando pelas.. Eu também quero ir...Espere. Segurei a sua mão. Mas a voz do pangolim me chegou.

Maka: problema. Charra: exclamação de espanto equivalente a "caramba!". Mamparra: designação pejorativa que se dá aos recém-chegados às cidades. Mulungo: branco. conflito. Matope: lodo. Halakavuma: pangolim. Mafurreira: árvore de onde se extrai o óleo de mafurra. nas línguas do Centro de Moçambique. descendo à terra para transmitir aos chefes tradicionais as novidades sobre o futuro. Hacata: planta do género Hibiscus. Chamboco: matraca. A tradição diz que as tempestades podem rebentar o peito de quem não segura um ramo desta planta. Em todo o Moçambique se acredita que o pangolim habita. Cocuana: velho. Nome científico: Sclerocarya birrea. os céus. Mufanita: diminutivo de mufana. Machamba: terreno agrícola para produção familiar. 74 . lama. Muzimo: espírito. mamífero coberto de escamas que se alimenta de formigas. Kwangula tilo: nome que nas línguas do Sul de Moçambique se dá à trepadeira Asparagus falcatus. Madala: velho. senhor. criança. Nome científico: Trichilia emetica. Do fruto (canho ou nkanyu) produz-se uma bebida alcoólica servida na festa do início da colheita. Frangipani: árvore tropical que perde toda a folhagem no período da floração. Pertence ao género Plumeria. Glossário Canhoeiro: árvore de fruta que é sagrada para os povos do Sul de Moçambique. em Fevereiro. Muchém: o mesmo que formiga muchém (as termiteiras).

A. nas línguas do Sul de Moçambique. do Centro de Moçambique. S. os primórdios da Natureza e da Humanidade. Tontonto: aguardente caseira. e que o imuniza contra maus-olhados. Xipefo: lamparina. Editorial Caminho C Editorial Caminho. Xi-tsangulo: lenço que o curandeiro amarra em redor do pescoço daquele que sofre de má sorte. Ntumbuluku: termo que. Naparama: designação dos guerreiros tradicionais que usam apenas arco e flecha. Nhamussoro: adivinho. Suca. Xicuembo: feitiço. designa simultaneamente a origem dos seres. ou ainda os antepassados divinizados pela família.o 98. branco.1996 Depósito legal n. Xi-ndau: língua do povo Ndau. Tuga: português. mulungo: vai-te embora. Satanhoco: malandro. e que se supõe estarem protegidos pelos feiticeiros contra a acção das balas. Nyanga: feiticeiro. Nome cientifico: Momordica balsamina. Xipoco: fantasma. Lisboa .240/96 ISBN 972-21-1050-o 75 . Nkakana: herbácea cujas folhas são comestíveis e usadas na medicina local.