Por um conceito crítico de Monogamia

Quando conversamos sobre Monogamia, de uma forma que a problematiza, incorremos em problemas
comuns à problematização de qualquer situação na qual nos inserimos pessoalmente. Nós, como
várias pessoas ao nosso redor, muitas vezes estamos em um relacionamento exclusivo com uma única
pessoa. E falar sobre Monogamia pode incorrer em tomarmos posturas taxativas com os relacionamentos
das pessoas. Muitas vezes isso se manifesta ativamente, apontando-se para um par de pessoas e lhes
dizendo que sua relação é inerentemente assim ou assado. Se vamos entender a Monogamia como
problemática, talvez seja útil nomear seus agentes, fazer análises intersecionais sobre suas (maiores)
vítimas, e começar a compreender seus mecanismos. Além disto, retirar os relacionamentos do campo
individual, e jogá-los no campo político.

Como alguém que abandonou a monogamia há alguns anos, gostaria de colocar alguns pontos no sentido
de definir uma Monogamia com letra maiúscula, que retire este debate do campo pessoal e analise as coisas
de fato, para que possamos perceber a Monogamia em nossas relações — independente do nome que
damos a elas — e principalmente como forma integrante, produtora e produto, de um sistema maior.

Monogamia é um sistema imposto através da força
A Monogamia é um sistema que impõe um determinado modelo de relações através de um conjunto de
práticas formais, isto é, instituições, como a Igreja, a Família, o Estado, o Capital, a publicidade, a Ciência;
e informais, como a violência machista, o sexismo, o heterossexismo, o cissexismo; que produz um
determinado conjunto de sentimentos, como o ciúme, a possessividade, a desconfiança e várias outras
angústias. Algumas dessas angústias podem acontecer também fora da Monogamia, como a carência e o
apego, mas dentro da Monogamia certamente tomam uma face completamente diferente, sendo o que
talvez poderíamos nomear um apego monogâmico, uma carência monogâmica, uma saudade monogâmica.

A Monogamia, portanto, não é meramente um relacionamento entre duas pessoas, ou mesmo duas pessoas
juntas que não se relacionam com outras pessoas, mas sim um sistema que torna este modelo único, e cuja
forma de exercer essa normatização produz, inevitavelmente, sentimentos negativos (como enumerado
acima). Estes sentimentos não são, porém, mero produto da Monogamia, mas também seus produtores, pois
é através deles que ela também se mantém e se reforça.

Não se trata, portanto, de particularizar a um relacionamento exclusivo entre duas pessoas a carga de ser a
Monogamia, mas de perguntar-se que estrutura produz esse relacionamento, e que efeitos ela tem neles, e
do que se utiliza para estabelecê-lo acima dos outros. Se entendemos que essa estrutura é negativa, então
desmantelá-la significa desmantelar esses relacionamentos; mas não porque eles são o próprio problema,
mas porque potencialmente deixarão de ser produzidos fora de um sistema monogâmico.

estabeleceu e durante muito tempo mediou. Ao mesmo tempo. Defender com todas as garras a família nuclear. Não oferece às pessoas que ainda estão lá dentro porque pode lhes dar a ilusão de viver uma liberdade que não vivem. nem às que estão fora dela. somente mascara as realidades que os afetam e que produzem esses problemas. aprovou e registrou a monogamia. que tornará a Monogamia um fato divino. Que aqueles relacionamentos entre duas pessoas. por exemplo. Este sistema também precisa de alguma forma policiar o meio social. depois substituído pelo Estado. mas seu papel histórico como alguém que largamente propôs. moldada no casamento heterossexual. Um relacionamento entre três pessoas que ainda prescreve grandes sentimentos de desconfiança não é um relacionamento mais livre do que um relacionamento entre duas pessoas que não inclui nem desconfiança. mas um único caminho viável na direção de uma salvação. ela integra estes sistemas. de sexualidade) ela se apoia sobre o policiamento formal e informal feito . Daí não oferecer às que estão fora. e nas formas como reagem quando outros indivíduos se aproximam daqueles com os quais se relacionavam antes. nem possessividade. É importante perceber não somente o papel imediato da Igreja como uma normatizadora. A Igreja naturaliza. não é por acaso uma atividade à qual tão ferrenhamente se dedica. e depende da força de outras instituições e práticas informais para propor seu modelo. para naturalizar sua existência. anti-especista ou anticapitalista. aqui. um ordenando de Deus. que não ficam com outras pessoas. que fazem falsas simetrias com os pares formados na natureza. são relacionamentos monogâmicos. uma vez que não se trata aqui de um sistema social. ao colocar a monogamia como um preceito advindo do divino. A Monogamia é estrutural A Monogamia enquanto sistema é estrutural. temos por exemplo a Igreja. discursos biologizantes e científicos. não somente uma proposta. Esse papel burocrático. poliamorista. muito embora sejam evidentemente insustentáveis. e como outras normas (de gênero. Temos também. também é relevante para a sustentação desse sistema. não oferece grandes perspectivas nem às pessoas que ainda estão trabalhando dentro da Monogamia.porque a propõe como um fato inescapável da natureza. nem ciúmes. do qual estamos simplesmente em confinamento. Essa perspectiva. Colar uma etiqueta de “não-monogâmico” ou de “monogâmico” nestes relacionamentos não resolve estes impasses. que torna tudo uma mera questão de nomear um relacionamento como monogâmico.Seria muito prático se pudéssemos simplesmente dizer que a Monogamia é um tipo de relacionamento. O casamento monogâmico se torna. então ela também é ela própria proponente de outras opressões. ou tentando escapar. para impor seu regime e para amenizar as contradições criadas por ele. ainda assim servem como um discurso que legitima a Monogamia. Naturalizar sistemas de opressão é uma tática muito comum. facilmente identificável em qualquer debate. como uma discussão feminista. nas “fidelidades” desenvolvidas entre animais não-humanos. Essas falsas simetrias. porque a monogamia é uma norma. Para propor e naturalizar a essência. e nesta medida ela propõe esse sistema. para citar alguns exemplos. livre.

Uma determinada imagem do amor como algo extremamente romântico. ele é afeminado. a pressão para que pessoas percam ou mantenham sua virgindade. como algo necessariamente profundo. por exemplo. pode ter em relação à sua propriedade e seu dinheiro. a glorificação do . Isso significa que na hora que a Monogamia se dá sobre as pessoas. ela certamente pode ser opressora para todas nós. o homem adulto e cisgênero é o seu administrador. mantém um determinado modelo a ser imitado. quanto glorifica o sexo casual como algo maravilhoso e prazeroso e liberto. como algo que causa dependência. é importante notar que a Família não favorece esse sistema somente como um agente passivo que se beneficia dele.Nenhuma destas impressões é verdadeira. Não se trata da fotografia por exemplo. de forma que a posição dos homens dentro da monogamia se constrói como uma liberdade de violar as expectativas monogâmicas de uma mulher. e o controle que uma pessoa se intitula sobre a outra na hora de um relacionamento fixo. e os homens são socializados não para serem monogâmicos. e neste meio se insere também a determinação de um determinado modelo de relacionamento. ser em si. e as relações de poder cissexistas. como a fotografia. Obviamente. Se a monogamia é um sistema. e até mesmo que precisa causar essa dependência. mas para colecionarem mulheres — e ter nojo dos outros homens. A compulsoriedade para que alguém se relacione. e as mulheres são nojentas. uma vez que o Capital as coloca em uma posição que não permite as liberdades que uma pessoa de classe média. mas muito menos que nas notícias. A mídia corporativa. Como algo exclusivo. mulheres e pessoas não-binárias. o cinema. para citar alguns exemplos. A Família. para não “ficar para titia” ou “estar encalhado”. e reúne em si certas comodidades burocráticas coligadas ao casamento. mas de que sua estética é capturada por este sistema. este sistema também se utiliza de mecanismos para amenizar as suas contradições. derradeiro. é uma instituição responsável pela manteneção de uma ordem monogâmica. mas como agente de constante policiamento de jovens e crianças através de um esquema etarista. na literatura. É importante perceber que. isso não significa que não podemos produzir uma fotografia subversiva. mas é demasiadamente desonesto sugerir que incide de forma igual sobre homens. por exemplo. então ela afeta não somente aquelas pessoas que estão em relacionamentos Monogâmicos. Essas relações de poder afetam e moldam o completo desprezo que uma pessoa pode ter com o corpo de outra na hora do sexo casual. mas também de qualquer responsável para qualquer uma das crianças. burguesas e heterossexistas ainda as permearão. Contudo. mas joga sua sombra sobre qualquer relação. especialmente do pai para as filhas.sobre as pessoas. e das outras relações como desprovidas de qualquer sentimento. uma determinada imagem do que o amor é não será sempre proposta. As mulheres são socializadas a serem monogâmicas — e esperar por um homem ideal. entre pares. que causa uma entrega e uma completa esvaziação da pessoa em virtude da outra. entre outras artes. são meios de veiculação de diversas formas estruturas de opressão. se a Monogamia é um sistema. Essas comodidades burocráticas serão mais frequentemente necessárias a famílias da classe trabalhadora. inerentemente. porque fundamenta a sociedade ao seu redor. os mesmos mecanismos que utiliza para propor seus modelos. nos filmes. Finalmente. e inevitavelmente ela produzirá materiais que reforçam o casal monogâmico cis e heterossexual como um padrão contemplado em detrimento dos outros. porque se um homem o deseja. misóginas. a literatura comercial. opressiva e proposital reprodutora de opressão. A Família. através da autoridade ilegítima colocada de pessoas mais velhas para mais novas. glorificam tanto o amor romântico como algo do qual devamos depender e que requeira nossa completa entrega irrestrita.

do machismo à transfobia. que colocam as situações atuais como imutáveis e inescapáveis. Nossa literatura nos ensina que “todo grande amor só é bem grande se for triste” e ”se acaba. jornalismo e conhecimento. até então glorificada como algo maravilhoso (sua contradição). Trazer ao campo social a monogamia. que rende o tratamento de mulheres como troféus. é um ritual que nos é ensinado. em contestação a este estabelecimento. social e intersecional da monogamia como um sistema? 1. e colocam os próprios sofrimentos gerados pela Monogamia. principalmente. mas também os rituais de sofrimento que o seguem. mas meramente separando as pessoas entre aquelas que são monogâmicas e as que não são. e superar os modelos que nos causam felicidades. sofrer torna-se bom. e principalmente como uma forma de organização anti-monogâmica. e não seria diferente com a conceitualização da Monogamia como natural. e até como algo benéfico. como rituais necessários e inescapáveis. Perceber todas as estruturas deste sistema significa conseguir tecer mais críticas e lançar mais olhares para os lugares certos. e isso é importantíssimo e pode melhorar em muito nossas vidas. intrínsecos ao amor. não retirando o caráter político de destruição deste sistema. são alguns exemplos. . reproduzidos por estruturas que veiculam cultura. mais do que como pessoas querendo melhorar suas vidas. individualistas. culpabilizando pessoas pelo seu ciúme e sua possessividade. Sofrer não é bom. O que é mais familiar do que o burguês que diz à classe proletária que seu sofrimento é inevitável consequência de sua existência nesta terra? O individualismo é uma erva daninha O que pretendo ao tentar explicar uma visão classista. incapazes de viverem suas liberdades. não era amor”. e ninguém deveria se deixar convencer de que é. É claro que isto tem um efeito gigantesco em nossas vidas. são trunfos das mais diversas formas de dominação. não é somente a delícia de estar com alguém. mas é preciso também enxergar-nos como um grupo em organização política. que colocam as pessoas que vivem relacionamentos em pares como inerentemente presas a uma relação opressiva. mas como pessoas se organizando para melhorar o mundo. Permitir que consigamos utilizar a não-monogamia como uma forma de combater esta estrutura. inclusive relacionando-as hierarquicamente: as que não são monogâmicas como mais libertas e esclarecidas do que as monogâmicas. como se esses sentimentos não fossem fruto de uma estrutura maior. que nos convence de que algo deve durar para sempre. um prazer inigualável e necessário. aqui. e não deixa que o sofrimento seja evidência de que algo está errado. Isto é. vão além. e de seu sofrimento como inevitável. isto não significa entender o luto monogâmico que procede o fim de uma relação). Por mais que possamos nos perguntar se é possível não sentir certa tristeza por uma pessoa querida que nos deixa (muito embora talvez seja desejoso se deixar sonhar com isso). O amor romântico. A monogamia consegue amenizar a tal ponto os seus efeitos. que sofrer é benéfico.sexo como a mais prazerosa das coisas imagináveis. de uma traição. de forma a desenraizá-la dos discursos naturalizantes e. A imagem da pessoa chorando em sua cama a dor de um amor que acabou. uma preciosidade que esta imagem da Monogamia coloca como um auge sentimental. Discursos naturalizantes. Estes retratos da Monogamia. E nós o repetimos. 2.

existe um potencial a não se esquecer. des-sexualizando as pessoas idosas e coibindo as pessoas mais jovens a fazerem sexo contra sua vontade e seu ritmo. Entender isto tudo como um sistema é entender que desconstruir isto no nível pessoal não é simples. que coloca a monogamia como um fardo de pessoas mais velhas. contra o capital patriarcal. a não-monogamia precisa ser uma forma de criar poder popular. Que essa organização política não seja um esforço de uma causa só. bem como carências monogâmicas. contra o etarismo. no fim das contas. ou para que função cada parte de nosso corpo serve. aocapacitismo. e o poder popular precisa ser uma forma de combater a monogamia! . ao heterossexismo. contra o racismo. lutas contra a Monogamia. ou de deixar de senti- las. que exclui possibilidades e torna heteronormativas as liberdades. contra a transfobia e o cissexismo. e isto é legítimo e constrói resistência. que normatiza que pessoas são atraentes ou possíveis. e nos limita a atração por um único. e portanto são todas elas estruturas que favorecem que as coisas continuem como estão. ou a dos outros. que presume erroneamente quais são nossas possibilidades com determinados gêneros. Pela liberdade. Atentar para isto é não somente perceber como isto torna as nossas relações livres como armas contra as opressões. possamos ter mais empatia com as pessoas. na tentativa de construir formas de senti-las que sejam libertadoras. e deixarmos de esperar que ciúmes e possessividades. saudades monogâmicas. sejam superadas em um passe de mágica. mas que requer. A não-monogamia é mais do que uma questão pessoal. empatia. mas uma luta intersecional contra o machismo. que estabelece estruturas de poder internas às nossas relações e molda como aprenderemos e lidaremos com a monogamia na sociedade. 4. Justamente. Ao mesmo tempo. e removendo de crianças sua sexualidade infantil de umas para com as outras. e que normatiza o que nossos corpos podem fazer. que criam uma ojeriza a determinados corpos e condicionam nossas relações a funcionarem dentro de determinados moldes homem-mulher e a determinados papeis destes gêneros nas relações. invisibilizando suas individualidades. fazendo com que essas lutas sejam de volta. Que com todo este potencial entendimento social e contextualizador da Monogamia como um sistema. 3. condicionando-nos a sentir nojo de pessoas com quem nos relacionaríamos. que afeta as noções estéticas que temos e quem consideramos como pessoas que nos relacionaríamos e sexualiza pessoas de acordo com sua raça. que as sexualiza e des-sexualiza. se assim se julga necessário. mas também é perceber que todas estas opressões são elas próprias parte de um Estabelecimento que propõe a Monogamia. que é o de lidar comunitariamente com estas emoções perversas. contra o monossexismo. cada pessoa está no direito de escolher se relacionar somente com quem já superou estes problemas.

para inflarmos nossa sensação de poder egoísta através da devoção que a outra pessoa vai criando de nós. entenda masturbar-me e tirar prazer sexual deste corpo. auto-estima e positividade em relação a este corpo que é meu. que no faz não conseguir simplesmente sair indiferentemente de uma relação porque a não-monogamia não implica em não criarmos em determinada pessoa um laço forte de afeto e necessidade. não quero simplesmente poder me desvincular de mulheres (trans e cis) e pessoas trans que não se sentiram livres o suficiente para se relacionar comigo. se não-monogamia não podia significar ter uma obrigação com a outra pessoa. ou agir como se essa dependência emocional não existisse. ou queremos que sejam relações onde questionamos os pilares da imposição. quando criamos laços afetivos fortes com determinada pessoa. e de criarmos intimidade. fosse desimportante. uma problematização com a qual concordo. e cultivar respeito e amor próprio. entenda querer assertivamente que este corpo tenha autonomia e capacidade de consentir às pessoas com as quais ele se relaciona. se existe uma não-monogamia individualista. ainda sentiremos determinadas coisas que podem nos desgastar e consumir. sexual ou romântica deve ser colocada à frente da nossa responsabilidade coletiva de construir novas formas de relação e de afeto. não-monogamia. tais conselhos são úteis tanto para pessoas em relações monogâmicas quanto para pessoas em relações não-monogâmicas. então precisamos entender como parte dessa responsabilidade a de prezar pela autonomia da outra pessoa. e que deveria estimular o auto-cuidado. de certa forma. ou não fosse problema seu. dependência emocional e autocuidado aos poucos fui descobrindo que não-monogamia precisava significar fazer as pessoas se sentirem mais valiosas. pra que dissolvamos as hierarquizações entre um ‘sexo de verdade’. para até onde problematizamos o conceito de ‘relação primária’. quando falo de ter uma relação comigo. talvez a única relação primária que devesse existir fosse a de mim comigo. e neste sentido vale observar que existe determinada cobrança para que relações não-monogâmicas sejam perfeitas e livres de todo sofrimento. do sofrimento e da opressão relacionadas especificamente às formas como organizamos nossos relacionamentos? não creio que se trata de negar a possibilidade de desenvolvermos afeto pelas pessoas. podemos ‘usar’ dessa intimidade para o mal: para satisfazer nossas carências emocionais sem pensar na outra pessoa. amor e intensa paixão com quem nos relacionamos. e que no caminho até desconstruir a monogamia. então automaticamente precisava significar que eu tenho uma responsabilidade de ajudá-la a cuidar-se. entenda tudo que isto compreende: entenda gostar de mim. e não cometer nenhum dos dois erros opostos a isso: agir de forma egoísta em relação às dependências emocionais que por ventura surgissem entre pessoas não-monogâmicas. e nunca menos. a questão é: queremos que relações livres sejam meramente relações que extrapolam para além das relações exclusivas entre pares. oposta a esta primeira. e que estas pessoas respeitem e se preocupem com consentimento. e de não tentar extrair benefícios do fato desta pessoa nos tratar com amor e carinho e grande afeição. um ‘sexo que satisfaz’ e o auto- . então no mesmo segundo eu me situarei numa então fundada ‘não-monogamia social’. é preciso reconhecer que trocamos afetividades de formas diferentes. normatividade e problema. e aí as outras relações todas que tenho são relações não-monogâmicas. ou pressupõe? se falamos na responsabilidade de entender a autonomia da outra pessoa. e pensar em mim. entenda gostar do meu corpo. mas de termos em primeiro lugar uma relação conosco antes de termos uma relação com a outra pessoa. quero que nossa relação seja parte de um esforço político para destruirmos conjuntamente nossas correntes. que pressupõe que minha liberdade afetiva. pra que jamais nossa relação se tornasse escravizante e dependente. como por exemplo o sentimento de dependência emocional.

entenda prezar pela minha integridade física. mas de poder estar plenamente só e distante das pessoas com quem me relaciono e não encontrar nisso uma angústia. e sexo e relação significassem felicidade. respeitar nossos sentimentos. dificilmente te fará sofrer com angústia. é neste sentido que talvez nossas relações devessem estar sempre de forma consciente atravessadas por laços sororários e solidários onde procuramos conscientemente nos atentar para a nossa responsabilidade não só em receber autonomia (dizer a alguém que tem a responsabilidade de não ser uma pessoa controladora. que eu me relaciono com aquela pessoa. e. mas na nossa responsabilidade em dar autonomia. às vezes. no fim das contas. não se trata de agir de forma individualista e egocêntrica. e isso significa que tenho a responsabilidade de não te deixar tornar-se uma pessoa dependente da relação que temos. por mais que eu goste de uma pessoa e queira ter ela o mais perto o possível sempre (sempre?). e de ajudar você a não entrar e/ou a sair desta situação caso assim nos encontremos. para voltar ao gancho da relação própria conosco. precisamos agir de acordo: como balancear um sentimento de profundo afeto e intimidade com alguém. eu identifico isto não somente como uma imposição da Monogamia. sentir saudade é algo que provavelmente não iremos deixar de fazer. eu preciso ter em mente que minha capacidade emocional. mas a talvez produzir uma nova política da saudade: uma onde sentir falta de uma pessoa não signifique se sentir tão mal quanto atualmente. emocional e mental antes de me relacionar com qualquer pessoa. mas que eu deveria me sentir bem e uma pessoa valorosa e inteira e feliz sem ela. quem sabe se poderíamos talvez nos desvincilhar de alguém e conseguir respirar sem tristeza profunda. talvez saudade possa ser como a simples sensação de ter tentado montar um quebra-cabeças e falhado. por mais que te irrite e te faça chatear-se. temos a responsabilidade de nos auto-cuidar também. e pensar que construir relações livres serve não só o propósito de me deixar estar aqui e ali sem obrigações. outras por menos. e que é em volta de mim que as relações vêm e vão… não é que eu queira negar que a saudade exista. temos não só a responsabilidade de conferir. por mais estranho que pareça. subjetividades. sensibilidades). ao me relacionar com as pessoas e desenvolver intimidade e afeição por elas.prazer como sendo inferior. mas como também da sexualidade compulsória que o patriarcado impõe sobre as mulheres (cis e trans). ou que esta sensação não seja de fracasso intenso. que algumas pessoas taxariam de ‘amor romântico’. agimos muitas vezes como se solidão significasse sofrimento. porque tudo gira em volta daquela mesma ideia sobre eu ser uma pessoa sozinha. dores. minha saúde sexual. algumas por mais tempo. de uma inclinação profundamente triste e quase catastrofista. menos prazeroso e algo que acontece quando ‘falhamos em transar. eu preciso cuidadosamente me lembrar que estar só é o meu estágio ‘natural’. mas fundamentalmente. com um sentimento de desvincilhamento e de autonomia emocional? . minha integridade. tenho pra mim como muito libertador me lembrar de que preciso ter integridade e estabilidade num cenário onde a pessoa com quem me relaciono está ausente. algumas delas se relacionam comigo. possessiva. mas de exigir autonomia. se sabemos que algo não nos pertence. talvez (uma definição de amor romântico que considero pouco útil) . e que ao meu redor as pessoas vêm e vão. que a gente compartilha emoções e intimidade. mas de trazer para o nível do consciente que sou uma pessoa que antes de mais nada se relaciona consigo. e que isto não é uma impossibilidade taxativa. é preciso construir conscientemente determinada distância das pessoas com quem nos relacionamos. secundário. podem ser plenamente estáveis e satisfeitas de mim comigo. apesar de sentindo como é infeliz que algo tão bom tenha acabado. outras não. preciso ter na consciência constantemente que eu não devo me escravizar por ela.

mas é fornecer autonomia. e que podemos gozar de autonomia emocional e não sentir obrigação com estas pessoas. e de aprender que se tocar é tão sexual e gostoso quanto que te toquem. fazer depender dela tudo aquilo que tenho de amor por mim. eu acredito que estar numa relação livre não é só exigir. talvez eu deva reconhecer que é um desafio. material. plenamente física: ela acontece quando não sofremos quando estaríamos sofrendo. às vezes mais. meio a estas imposições. eu acredito que estar numa relação livre é ajudar a outra pessoa a conseguir às vezes ser dela. com ela. mas que esse alguém não seja a única pedra onde se assentam. então estamos nos distanciando de uma relação livre. eu defendo. sujo e errado. e é aí que entra ao outro. mas das pessoas com que nos relacionamos também. e tudo aquilo que o patriarcado roubou da gente. mas a gente precisa cuidadosamente construir nossa integridade pessoal e autocuidado. e ainda assim vai sentir que estão querendo te obrigar a isso. preciso que essa relação comigo seja saudável. me relaciono com outras pessoas e aí já são duas relações. é perigoso para mim me esgotar na outra pessoa. e nos autocuidar. não ter posse sobre emoções. pra ela. terceiras. quartas pessoas com quem transo. são as segundas. nos ajudar a construir autonomia sobre nós. acredito que não-monogamia significa responsabilidade coletiva e organizada contra a monogamia em nossas relações e nas vidas não só nossas. e por um momento desafiar a noção monogâmica de que não podemos ser pessoas felizes se estivermos sozinhas. vamos precisar achar paz conosco. não queira se amar. existem. e que antes de mais nada podemos ter uma afetividade. vai ser preciso ter uma relação comigo. eu acho que eu tenho uma responsabilidade de ajudar a pessoa a construir essa relação. e é poderoso não só para construir esta autonomia. é justamente este potencial de que as pessoas percebam que. porque se a gente sofre e subordinam a gente. mas porque o cis-patriarcado também nos ensinou que isso era feio. e defenderei provavelmente para sempre. eu acredito que estar numa relação livre é ajudar a outra pessoa a não precisar de você. e ela não vai ser fácil de construir e de forjar. não somente devemos nos relacionar. nós. talvez você não queira se tocar. mas nos ajudar a desconstruir a monogamia. e que ela também pode me ajudar a construir a minha. quando não nos deprimimos quando teríamos nos deprimido. talvez eu deva transar comigo. e também esta independência pra que uma pessoa não se subordine a depender emocionalmente da outra. e talvez não. preciso ter uma relação comigo. eu acho que estar numa relação livre é trabalhar sororaria/solidariamente no sentido de compreender o que a pessoa está passando e tentar construir com ela esta não-monogamia. eu acredito que não-monogamia significa liberdade. talvez eu também deva me amar. . a visão de que estas duas coisas são compatíveis. mesmo que seja um processo complicadíssimo esse de amar e o cis- patriarcado tenha me dado N razões pra não fazer isso. quando sentimos compersão onde sentiríamos ciúme. nos ajudar a ter consciência de que somos. antes de mais nada. este ‘amor’. não-monogamia significa não ter posse sobre corpos. mas uma liberdade real. quando sentimos saudade onde sentiríamos angústia. não ter posse sobre mentes. existe algo de poderoso em ter uma relação sexual saudável contigo. o que estou dizendo é que.algumas pessoas diriam que o problema está em entrar em uma relação onde este profundo afeto e esta intimidade. um amor e uma sexualidade que nos é própria. outras pessoas diriam que o problema está na pretensão de que podemos nos desvincilhar e nos afastar destas relações sem sofrer. e de que podemos construir relações íntimas de afeto e carinho que preservam nossa autonomia individual e que não resultam em longos períodos de luto e sofrimento. pra que as pessoas possam estar com alguém. que se existe algo de sororário e solidário a se explorar nas relações livres. e essas relações livres que quero ter. já é portanto não-monogâmico. é nosso. e cuidar de mim. as outras pessoas podem ajudar a gente a fortalecer e aprender com essa relação.

Gostaria de deixar enegrecido aqui que sou uma pessoa RLi. mas de colocar alguns pontos através da perspectiva de uma mulher trans negra — categorias estas (mulheres trans e mulheres negras) inexistentes dentro do contingente de pessoas que formulou no passado o que RLi é e como funciona. Eu trago estas ideias porque acredito que é preciso fazer oposição a certas formas de pensar e fazer política dentro do movimento. nela. não existem “casais primários” pra onde pessoas de fora do casal são trazidas (as relações não são hierarquizadas). mas algumas coisas precisam a esta altura serem ditas. não possessivas e não ciumentas. que trago estas críticas: porque esta potência precisa ser aproveitada ao seu máximo. e que encontrei nessa corrente não-monogâmica a forma mais crítica e interessante de não-monogamia. Eu não deveria ter de fazer essa média e deixar flores aos pés do RLi antes de começar. mas elas são necessárias. Uma crítica feminista às relações livres (RLi) Relações Livres (RLi) são uma forma não-monogâmica de se relacionar que existe em oposição e crítica a algumas outras. com presença somente no núcleo paulistano da rede. . Na rede RLi/RS você encontra estas pessoas. Nossa maior dificuldade é que esta visão pressupõe pessoas muito livres. e não existe uma “aprovação” a ser conseguida de uma das partes pra que alguém se relacione com outras pessoas. O movimento RLi é uma potência política organizada contra a monogamia. e que para isso precisamos chamar as coisas pelo nome. e também uma categoria extremamente minoritária dentro da organização da Rede RLi. que seria o mais jovem de todos se não pelos recém-fundados núcleos carioca e soteropolitano. com a supremacia branca e com a transmisoginia. O número de relações não está pré-estabelecido. haja vista que se uma mulher traz os pontos que trarei. E como toda a ordem cultural está oposta a isto. Como definido pela Rede Relações Livres: “Relação Livre é quando a pessoa mantém autonomia e plena liberdade pessoal seja lá qual for a relação sexual/afetiva e em qualquer circunstância de estabilidade. Este é um texto que provavelmente eriçará alguns pelos nas nucas de muita gente. não se trata de separar o joio do trigo. incrível e raro em qualquer lugar do mundo — e é justamente por isso. Minha intenção não é a de dizer que o RLi é falido e descartável. porque é um movimento precioso. e o feminismo me ensinou a não dobrar minha língua para a supremacia masculina. Eu acredito que esta lente pela qual a não-monogamia — e principalmente o processo de “tornar-se RLi” — tem sido analisada dentro da Rede RLi limitou o alcance de pessoas duplamente (ou mais ainda) marginalizadas pela monogamia. sem nunca ceder e compactuar com o patriarcado. há um número limitado de pessoas onde isto pode hoje ser vivido plenamente. ambos ainda em formação. algo fundamental. Sei que minhas críticas serão duras. ela deve ser ouvida mesmo que queiram chamá-la de sectária.” Eu acredito que o maior problema aqui se encontra na frase final: “na Rede RLi você encontra estas pessoas”. Para mim. com o capitalismo.

com deficiência e intersexo podem encontrar apoio dentro da minha reflexão sobre o papel e o alcance de empreitadas não-monogâmicas. mas para colecionarem mulheres — e ter nojo dos outros homens. O que estou dizendo a essa altura deve estar soando a alguns ouvidos — principalmente a ouvidos masculinos. mulheres e pessoas não-binárias. de forma que a posição dos homens dentro da monogamia se constrói como uma liberdade de violar as expectativas monogâmicas de uma mulher. que é ponto pacífico ser danosa. A monogamia é sim um problema. e se estamos falando sobre o que é importante. “As mulheres são socializadas a serem monogâmicas — e esperar por um homem ideal. algo que dentro do RLi é abominável. e que os homens destas relações são mais monogâmicos do que qualquer casamento lésbico). mas o termo “ciúme” é politicamente inútil: ele engole nossas necessidades específicas como mulheres. ela certamente pode ser opressora para todas nós. e é sim mais saudável para nós enquanto um grupo adotar relações não-monogâmicas. Isso significa que na hora que a Monogamia se dá sobre as pessoas. e precisamos sim destruí-la. e os homens são socializados não para serem monogâmicos. porque se um homem o deseja. está atravessada por questões econômicas e de raça. em muitos espaços não-monogâmicos estamos chamando estas duas situações de “ciúme”. cisgêneros e brancos — como uma defesa dos ciúmes. o homem adulto e cisgênero é o seu administrador. o “ciúme” é a restrição de quais pessoas a mulher se relacionará (e aqui cabe lembrar que relações heterossexuais que se dizem não-monogâmicas mas exigem que a mulher só se relacione com outras mulheres são algo profundamente misógino. mulheres trans. e de que as demandas criadas por ele devem então ser obedecidas. No primeiro caso. haja vista que. mas de questionamentos sobre como estamos discutindo ela.” Uma crítica feminista às relações livres (RLi) Eu acredito que não existe equiparação entre a insegurança produzida dentro do patriarcado contra uma mulher negra trabalhadora que perderá seu marido com a insegurança produzida contra uma mulher branca burguesa que perderá seu marido. Atualmente. ele é afeminado. A necessidade de manter-se em um casamento aqui. mas de re-avaliar como nós reagimos ao ciúme. como disse num texto anterior. e então estaríamos “negociando nossa liberdade”. como o chamamos e como o resolvemos coletivamente. . Igualmente.Nisto eu acredito também que pessoas gordas. que arriscam a vida da mulher negra. e principalmente como mulheres negras. mas é demasiadamente desonesto sugerir que incide de forma igual sobre homens. Não se trata disso. No segundo caso. eu não acredito que existe equiparação entre o sentimento de controle normalmente exibido pelos homens contra as mulheres e o sentimento de insegurança das mulheres que o homem se relacione com outra mulher. Se a monogamia é um sistema. e se assentam sobre a milenar empreitada da supremacia branca em minar a auto-estima da mulher negra. e as mulheres são nojentas. mulheres trans negras. uma defesa de que esse sentimento é natural. e o medo de perder esse casamento. Também pretendo falar sobre como a misoginia se interlaça na monogamia. e muitas vezes essa afronta é punida com um feminicídio. de tal forma que se aquela mulher se relaciona com outras pessoas isto é uma “afronta”. Não se trata de uma defesa da monogamia. trata-se da insegurança produzida nas mulheres quando toda a carga de competitividade feminina e de necessidade de agradar os homens lhe produz insegurança.

. uma “ampliação”. e nossa insegurança não é um egoísmo — egoísmo é o ato de violência de um homem que se diz “relações livres” em apagar toda a carga de misoginia desta insegurança e colar nela um adesivo de “ciúme”. nunca iremos perceber e resolver estes entrelaçamentos da monogamia com o racismo. Ele é assassino. como empresas dentro do capitalismo. Sim. isto é. a gordofobia. e nos faz eternas competidoras por sermos “a melhor”. mas entender que o casamento tem raízes econômicas é muito diferente de entender como devemos agir no enfrentamento do casamento dentro do capitalismo tardio. mas da mentalidade patriarcal. então não contem comigo. precisamos ser contra o casamento. estar com outra mulher é ruim. racista e transmisógina. Isto faz sentido quando estão tentando controlar nossos corpos. Contudo. e nosso discurso está descentralizado. “Se vira com seu ciúme” é frequentemente a nossa mentalidade frente a ele. conte comigo. “a que é tão boa que nem é traída”: “homem que come bem em casa não faz lanchinho fora” A monogamia está assentada em questões econômicas. Essas inseguranças não vêm de ciúmes. mas não faz sentido quando estamos sentindo insegurança frente à noção monogâmica que hierarquiza as relações. Ela se assenta no apagamento lésbico.Deixe-me deixar algo bastante esmiuçado: o primeiro significado de ciúme que descrevi é uma forma de abuso emocional. mas principalmente quando somam-se a ela fatores como a negritude e a transgeneridade —. a misoginia e a transmisoginia e nossos esforços como “relações livres” serão esforços de sustentação do patriarcado tal como ele é. e às vezes com orgulho. elas não vêm da necessidade egoísta de “ter a pessoa só para você”. É assim que acontece com as mulheres dentro do patriarcado. e abordá-los não deve ser visto como um “favor”. muitas vezes lidamos de uma forma completamente individualista e ineficaz com esta segunda forma de “ciúme”. Estaremos protegendo a supremacia masculina ao responsabilizar mulheres pela dominação dos homens. de controle dos corpos das mulheres. ou de classe média. Atualmente. onde as mulheres são fontes das quais homens extraem capital sexual. Se trabalharmos nessa visão. porque assim não estamos negociando nossa liberdade. e esta relação será exclusiva. a se assassinar na competição dentro do capitalismo. na misoginia. Estes dois requerimentos não estão descolados um do outro. E se for somente este o ciúme a ser combatido e desprezado. na noção de que devem se relacionar com os homens. mas quem o patriarcado se autoriza a envolver-se. se iremos chamar pelo mesmo nome a insegurança produzida por sistemas de dominação — e isso inclui puramente a Monogamia. O ciúme é sempre tratado como um problema “do outro” e algo a ser resolvido por ele. “a eleita”. comida. É preciso estar com um homem. porque uma mulher estar só é ruim. nojento e precisa sim ser destruído. Elas são colocadas para competir. que impelem o casamento como sinônimo de estabilidade financeira e a capacidade de ter uma casa. dispostas a destruir os recursos e empobrecer os trabalhadores se for preciso. então estamos simplesmente procurando pessoas burguesas. Isto é central. As relações não são meramente uma questão de quantas pessoas estão envolvidas. Tais fontes são portanto descartáveis e substituíveis. Se vamos “encontrar pessoas totalmente livres”. A monogamia está assentada na heterossexualidade compulsória imposta às mulheres. Estes não são pontos distantes do assunto não-monogamia.

] eu acredito que não-monogamia significa liberdade. mas uma liberdade real. material. é nosso. escrevi: “aos poucos fui descobrindo que não-monogamia precisava significar fazer as pessoas se sentirem mais valiosas.” Sendo assim. e isso significa discutir as formas de marginalização que já elenquei inúmeras vezes. pra que jamais nossa relação se tornasse escravizante e dependente. Tal insegurança precisa ser discutida. e que deveria estimular o auto-cuidado. quando sentimos compersão onde sentiríamos ciúme.. quero que nossa relação seja parte de um esforço político para destruirmos conjuntamente nossas correntes. ou agir como se essa dependência emocional não existisse... nos ajudar a construir autonomia sobre nós. de forma a empoderar sujeitos marginalizados para que consigamos enxergar as relações como relações onde somos pessoas valorizadas.. ou é confundido com insegurança. eu falho em entender as razões até mesmo práticas pelas quais deveríamos a qualquer momento tratar os ciúmes como um assunto morto. que se existe algo de sororário e solidário a se explorar nas relações livres. nós. eu acredito que estar numa relação livre é ajudar a outra pessoa a não precisar de você.. quando não nos deprimimos quando teríamos nos deprimido.. nos ajudar a ter consciência de que somos. e que ela também pode me ajudar a construir a minha. não somente devemos nos relacionar. Significa colocar as pessoas que têm estas demandas específicas no centro da roda e começar a falar sobre suas experiências dentro de relações. de duas uma. ou não fosse problema seu.] eu acredito que estar numa relação livre não é só exigir.. ou tem uma face de insegurança.. [. então no mesmo segundo eu me situarei numa então fundada ‘não-monogamia social’. e que antes de mais nada podemos ter uma afetividade. que pressupõe que minha liberdade afetiva. mas nos ajudar a desconstruir a monogamia. e não cometer nenhum dos dois erros opostos a isso: agir de forma egoísta em relação às dependências emocionais que por ventura surgissem entre pessoas não-monogâmicas.] se existe uma não-monogamia individualista. sexual ou romântica deve ser colocada à frente da nossa responsabilidade coletiva de construir novas formas de relação e de afeto. fosse desimportante. se não-monogamia não podia significar ter uma obrigação com a outra pessoa. as . e nunca menos. plenamente física: ela acontece quando não sofremos quando estaríamos sofrendo. do sofrimento e da opressão relacionadas especificamente às formas como organizamos nossos relacionamentos? [. não quero simplesmente poder me desvincular de mulheres (trans e cis) e pessoas trans que não se sentiram livres o suficiente para se relacionar comigo. capazes e autônomas. quando sentimos saudade onde sentiríamos angústia. [. e tudo aquilo que o patriarcado roubou da gente. [. Ele é um assunto extremamente político.] a questão é: queremos que relações livres sejam meramente relações que extrapolam para além das relações exclusivas entre pares. mas é fornecer autonomia. e. é justamente este potencial de que as pessoas percebam que. [. ou queremos que sejam relações onde questionamos os pilares da imposição. Nele. antes de mais nada. então automaticamente precisava significar que eu tenho uma responsabilidade de ajudá- la a cuidar-se..] eu acho que eu tenho uma responsabilidade de ajudar a pessoa a construir essa relação. um amor e uma sexualidade que nos é própria.Fiz um texto em novembro do ano passado onde tentava falar sobre como seria uma forma melhor de lidar com insegurança dentro das nossas relações.. oposta a esta primeira.

está expressando uma mentalidade extremamente liberal. Análises feministas não resultam em falsas simetrias entre homens e mulheres. Esta seria portanto a intenção de uma teoria não-monogâmica radical. neste caso. então não nos basta nos isolar como pessoas “muito livres” que somos. descolando a a realidade monogâmica da realidade patriarcal. a Monogamia. é preciso que este sistema tenha suas raízes expostas e podadas. mas meramente de isolar-se das pessoas que sentem ciúmes. mas sustentá-la. e não de expurgá-la para que ninguém mais. (grifos meus) “[o problema] é que esta visão [RLi] pressupõe pessoas muito livres. Até onde minha experiência chega. infelizmente. principalmente quem não consegue sobreviver dentro dela. partia de uma análise feminista. Sendo assim. sendo assim. um estabelecimento complexo. e não uma mera relação individual entre as pessoas. esta análise falhou em ser feminista. mas que teve que nomear como “ciúmes” inseguranças advindas da transmisoginia. Como feminista radical. serão estas as pessoas cis. sexualização. então se trata de tornar a monogamia confortável para quem tem os recursos para sentir conforto dentro dela. se o RLi se pretendia uma forma não-monogâmica que estava assentada no feminismo.experiências de racialização. A segurança das mulheres dentro das nossas relações afetivas precisam ser prioridade em qualquer espaço. seja “muito livre” de fato. não estamos procurando destruir a monogamia. Eu diria que. que não pretende um enfrentamento da Monogamia como movimento social — algo que talvez me enganei em pensar ser um fator de destaque do RLi comparado com outras correntes não- monogâmicas — mas sim da criação de uma “rede social” onde as pessoas “muito livres. não possessivas e não ciumentas. análises feministas não equiparariam a liberdade afetiva de homens com a insegurança das mulheres. ele falhou nesta missão. a transmisoginia. e portanto se atentam de fato à posição das mulheres dentro dos sistemas sendo analisados. Analisas feministas não dissociam a realidade do patriarcado. cissexismo. e algumas análises feministas não deixariam de problematizar a heterossexualidade dentro do patriarcado como a realidade sangrenta que ela é. e equipara posições desiguais. lendo nas entrelinhas e principalmente naquilo que não é dito mas somente praticado em silêncio. Porque se aceitamos que a monogamia é um sistema estrutural. e isto também exige que nossa integridade seja uma preocupação na hora de produzirmos teoria. brancas. o racismo. o capacitismo. Se estamos meramente nos isolando em relação a estas pessoas. Quando a Rede RLi define relações livres como citei no começo deste texto. Escrevo este texto como alguém que se viu aflita ao lidar com insegurança dentro de relações não- monogâmicas e monogâmicas também. não se trata mais de destruir pelas raízes aquilo que produz a insegurança e aí então o ciúme (nesta ordem) dentro das nossas relações interpessoais: a misoginia. Ora. isto é. e diz. e muito precisa ser reformado para atingirmos esse ponto. como a gordofobia e o capacitismo e o intersexismo incide sobre esses corpos na hora das relações. e encontrar as pessoas certas. Na rede RLi/RS você encontra estas pessoas”. magras. E como toda a ordem cultural está oposta a isto. pra mim se torna evidente a esta altura que. sem deficiências. não-intersexo. há um número limitado de pessoas onde isto pode hoje ser vivido plenamente. como alguém que não sente ciúmes — mas sim muita compersão. a gordofobia. mesmo que devido a estes fatores estruturais. o intersexismo. Ela em muitos momentos protege homens que abusam emocionalmente de mulheres. Nós mulheres trans . não possessivas e não ciumentas” se encontram.

A nossa insegurança diante de uma mulher cis não é uma expressão de egoísmo e de “ciúme”. com deficiência e intersexo. Talvez a própria noção de “mulher ciumenta” seja problemática. de tal forma que o sexo se torna um assunto tão mais político e sensível. ela é fruto da transmisoginia. gordas. É preciso abraçar estas pessoas e discutir com elas as raízes daquilo que nos está prendendo. e as expectativas do patriarcado sobre a beleza das mulheres recaem sobre nós não como “muito altas”. mas sim como “completa e totalmente inatingíveis”. estamos somente isolando quem está mais preso do que nós. a gordofobia. Não se trata de nos isolar das pessoas ciumentas. haja vista que tal uso protege a supremacia masculina. Talvez se trate de parar de chamar insegurança de ciúmes. talvez a noção de “ciúme” é que esteja despolitizada. e que ao se ver comparada com mulheres brancas não consegue retirar a carga que a “beleza” carrega como valor maior dentro das nossas relações. como mulher negra latino-americana cuja experiência de hipersexualização não se aplica às mulheres brancas. mas sim a transmisoginia precisa ser considerada um problema. ou de rechaçar o ciúmes como sempre sendo uma expressão de controle em abuso: é preciso discutir o racismo. mas certamente se trata de tomar uma postura sororária em relação às mulheres que experienciam insegurança. e nos beneficiando dessa higienização. que nunca seremos tão desejáveis quanto elas. . e assim deve ser chamada. Eu escrevo este texto como uma mulher negra que a nenhum momento vai conseguir esquecer de como é a auto-estima da mulher negra dentro de uma sociedade racista. pois do contrário este é um grupo onde pessoas que não sofrem estas opressões irão se reunir e criar laços afetivos e irmandades que no fim das contas excluem e marginalizam ainda mais as pessoas negras. e não de tratar o ciúmes como uma simples espinha a ser espremida pra fora de nossos corpos. trans. Do contrário. a transmisoginia dentro de qualquer grupo que se pretenda não-monogâmico. Estas expressões de insegurança não podem mais ser recebidas como “problemas”.passamos nossas vidas ouvindo que somos menos que as mulheres cis.