exploramos a ideia de uma metáfora topológica e dispersiva. E muito. cartas. de modo múltiplo e disruptivo. textos críticos sobre o trabalho de outros artistas. a rigor. Maurice Blanchot Sabemos que Hélio Oiticica escrevia. a arte. . pelo convite a esta reflexão. Fernando Cocchiarale e César Oiticica Filho. e aos curadores da exposição. Mas os escritos de Hélio vão além. Na multiplicidade e heterogeneidade dessa escrita. de maneira análoga àquela de seus trabalhos visuais. *** * Tania Rivera é Psicanalista. A Excrita de Hélio Oiticica Tania Rivera* 1 Refletindo sobre os textos de Hélio Oiticica. ao mesmo tempo. Agradecemos ao curador do seminário. linguagem. desde o início. Nesta operação. escritos. objeto. metáfora Escrever é o interminável. Anotações diversas sobre sua pesquisa artísti- ca. o incessante. textos que explicitam os concei- tos que guiam sua obra. uma operação de linguagem na qual não há 53 .A Excrita de Hélio Oiticica substituição. lida com a transformação da linguagem em objeto. Nisso. Versões deste texto foram apresentadas no seminário que acompanhou a exposição Hélio Oiticica. projetos. pois em seu núcleo encontra-se uma sofisticada reflexão sobre a palavra e o objeto que faz com que cada obra possa ser vista como o precipitado de uma operação de linguagem. ele não está sozinho. mas cada coisa é remetida a outras. o mundo e o homem. Eles constituem uma complexa reflexão teórico-poética da qual irradiam operações múltiplas sobre a lingua- gem. Felipe Scovino. O Museu é o Mundo em São Paulo. Hélio Oiticica. A escrita heliana não se fez ao lado de seu trabalho artístico. mas de uma atividade central na produção deste artista. este ensaio propõe que eles sejam vistos como um campo teórico-poético no qual o artista elabora suas “proposições” e. toda produção artística que dá mostras de uma significativa reflexão concei- tual poderia ser abordada sob esta chave. Não se trata de uma escrita submetida à obra plástica. pulsam a exigência interna e o vigor conceitual de sua obra. etc. professora do Departamento de Arte da Universidade Federal Fluminense e pesquisadora bolsista do CNPq. no Rio de Janeiro e em Brasília. Podemos chegar a afirmar que o trabalho de Oiticica é escrita.

Esse discurso do autor propõe-se como uma espécie de mediação – e seu objetivo informativo ou comunicacional muitas vezes também é cumprido por textos de críticos. Hélio afirma. Eles nos permitem perceber que o fulcro da trajetória heliana é matéria poética. Hélio transcreve um texto que teria. Reproduzimos aqui seu início: Supra (aboutissement) – a chegada ao suprassensorial é a tomada definitiva da posição à mar- gem. Obra? Que é senão gozar? gostozar. 53-64. especialmente aqueles que dão voz ao próprio artista. dá claro testemunho disso. Cannabilibidinar. A radicalização poética da escrita de Oiticica. p. do Ginsberg. nem mesmo justificar ou fundamentar.. salibidor. Os escritos de Hélio não deixam. em seus escritos. atinge o mundo.4 . Supramarginalidade – la vita. etc. ao se dobrar sobre si mesma. crelazer. o prazer como realização. desde o início da trajetória heliana. é operação da linguagem que. bólides.Revista Poiésis. Jul. de cumprir essa função. Eles são o testemunho de um pensamento se fazendo. acompanhando suas preocupações e divulgando-as como parte importante 54 . penetráveis. que só pode se fazer como escrita: de fato. que seu trabalho nada deve ao de Lygia Clark: “nada devo a ninguém – sei o que faço e penso. que são fundamentos de suas obras. Hummm. Nos escritos de artistas faz-se com frequência presente a intenção de comunicar o que visa ou o que é uma determinada obra. não fosse a censura que sofreu. o suprassensorial. Assim. por isso há anos escrevo para deixar tudo claro”1. Cair de boca no mundo. “cor-luz” e “corpo da cor”2. defendendo-se de supostas acusações. ele relata Estou escrevendo muito. Hélio forja noções. com certas influências: de Rogério [Duarte]. publicado na revista O Cruzeiro. no início. de 2011 da obra. ao lado das categorias mais am- plas criadas pelo artista. vitacopuplacer. ninhos. ou o trabalho de toda uma vida. os títulos da maioria de seus trabalhos. devem ser considerados como conceitos poéticos: metaesquemas. em 1969.. malalindavita. Nessa linha. Há textos ou tre- chos dos escritos que buscam não comunicar. os textos devem ser poéticos. mas creio que há coisas no que escrevo: são textos poéticos mesmo quando tratando de arte: não gosto mais de teses ou descrições filosóficas: construo o que quero com a imagem poética na máxima intensidade segundo o caso. em fins da década de 1960. justamente.3 Tratando de arte. sem dúvida. interna. Tal busca de explicitação de seu trabalho envolve a preocu- pação de legar um testemunho de sua criação. Mas também se combina a uma exigência mais fundamental.. Sei que estou vivo – é só o que resta – o sabor. A imagem poética deve materia- lizar “coisas”. com noções como “cor tempo”. etc. n 17. salabor. conceitual. Em carta para Lygia Clark datada de 1968. muitas vezes. mas verdadeiramente fundar sua experimentação. Em anexo a esta carta.

decidida e assumidamente. em objetos ou proposições. Para Maurice Blanchot. O trabalho . poderíamos brincar). nas bordas da linguagem com o corpo. Nesse sentido. na medida em que a própria relação entre linguagem e coisa é nela um questionamento central. *** Falando de seus poemas.) Sinto necessidade da palavra. e objeto-palavra. escrita que se quer vivida no corpo – a língua é aí afetada por um “um pouco demais”. um poeta. palavra-espaço-tempo. trata-se de texto poético (po-ético. tudo no fundo se reduz à mesma expressão só que por formas diferentes”8. em suas beiras. Hélio afirma: “(. suas “coisas”. na maioria das vezes. ou um livro. da linguagem. A escrita faz da linguagem coisa – um texto. promete chegar à própria vida como território de invenção estética – e ética («MARGINetical». 55 . em carta de 1968.. não comunica.. A “coisa” está aí. o poeta “cria um objeto de linguagem”7. eventualmente. Pound. projetos e arquiteturas são também escrita. seus objetos. como bem nota o artista. pode- mos dizer. Linguagem afetada pelo corpo. do que já era ponto central de sua busca poética: a ultrapassagem do sensorial que. no texto assim como. nessa escrita heliana não se trata simplesmente de influências estilísticas incorporadas à trajetória do artista. cheia de neologismos e sinais gráficos como o travessão. nos objetos de arte. na escrita. Oiticica é sempre. dá mostras do contato de Oiticica com os poetas concretos – especialmente Haroldo de Campos – e da leitu- ra de autores como Mallarmé. Ou outra coisa. poética. na medida em que podemos definir escrever como o ato de depositar em coisa uma operação linguageira. sua obra vai além da distinção tradicional entre literatura e artes plásticas. Como vemos na passagem acima. mas se apresenta como “coisa”. que a poesia é justamente aquilo que. articulada à marginalidade como condição excêntrica (ou seja. talvez possamos avançar. Além disso. Suas obras. Por isso. como nota Lacan a respeito da literatura6. Tal escrita é busca do gozo à margem da linguagem. ao lado da colaboração com outros escritores experimentais (como Frederico Coelho tão bem mapeia e comenta em seu recente Livro ou livro-me5). devemos levar ao pé da letra a afirmação de Hélio de que “há coisas” no que escreve. Joyce etc.A escrita deslizante.. construindo muitas vezes objetos-palavras ou palavras-objetos. mas de uma colocação em ato.A Excrita de Hélio Oiticica como grafa o artista no prosseguimento do trecho citado acima). descentrada) do sujeito. Com Oiticica. De fato. numa espécie de definição provocativa.

ou seja. os objetos são “tocados de uma vivência estranha”14. Em vez de pressupor o sujeito como origem. como quer Freud com sua noção de Unheimliche. fazendo surgir o sujeito fora dele mesmo. no objeto. talvez o sujeito só esteja nos objetos de linguagem. 53-64. Oliveira Bastos e Reynaldo Jardim em histórico texto de 1957. mar- cando a diferença entre os poetas concretos cariocas e os paulistas. é porque o objeto vive. No espaço. no objeto e na linguagem pode surgir o sujeito – ou melhor. Linguagem e objeto se arranjam de formas múltiplas e desiguais para atingir um ponto de mira: o sujeito (lugar onde a leitura acaba e a poesia começa). A linguagem. do ambíguo e do fora de sentido. o “vocabulário ‘geométrico’” pode “assumir a expressão de realidades humanas complexas”12. Mais do que um dispo- sitivo isolado. dá notícias do sujeito.”13 Se nos bólides. Como já dizia Hegel. mais fundamentalmente. como seria o caso na publicidade. segundo a fórmula de Mário Pedrosa. Tal estranheza mostra uma familiaridade. mas na linguagem: ele consiste em operações de lin- guagem. A linguagem torna-se objeto e visa o sujeito – não apenas atingindo-o. essa imbricação fundamental entre linguagem e objeto implica um sofisticado 56 . ou seja. mas também do equívoco. A arte explora como nenhum outro campo da cultura tal efeito. termo que significa ao . da relação da palavra e da coisa com o sujeito. e nele fazer a obra jazer eternamente em perfeito solipsismo (ao contrário. exigindo sua participação. mas. na poesia. de 2011 questionamento da própria noção de representação. p. produzindo o sujeito. “o homem é o que ele faz. a palavra é um “material plástico que se presta a todo tipo de coisas”9. como bem explicitam os livros-poema e os poemas espaciais de Ferreira Gullar. deve-se pensá-lo como efeito efêmero de certas operações de linguagem. no conceito. A consciência disso é a articulação fundante do neoconcretismo. É nessa medida que. Não se trata aí de buscar um amálgama entre linguagem e objeto. só apareça nesse convite ou nessa armadilha poética que eles agenciam. Gullar insiste em que “o poema começa quando a leitura acaba…”10). emissor da coisa de linguagem. segundo o Manifesto Neoconcreto.Revista Poiésis. em nome da poesia. Como já dizia Freud em 1905. n 17. produz o que o psicanalista Jacques Lacan chama de efeito-sujeito. Como afirmavam Gullar. por exemplo. Jul. mas “criar um objeto para ele”11. a linguagem não deve apenas precipitar uma “reação” do leitor. explorada como produção de signo e imagem no campo do sentido. artístico não se faz com a linguagem.

57 . .A Excrita de Hélio Oiticica Hélio Oiticica Apontamentos diversos para o capítulo “Bodywise”de Newyorkaises. 1973. Folha datilografada.

sem dúvida. no outro indeterminado que forma o coletivo. como no neologismo inventado por Lacan. tendo lugar no objeto. Para isso exploram a superfície do papel. o mais íntimo aparece entre. No objeto surge o reconhecimento estranho de si como outro. ou seja.. por exemplo. não para aí se reencontrar no corpo. assim como o resto de sua obra. O íntimo é. Ela se asse- melha ao eco. mas para nele se desencontrar e se reencontrar – se reinventar – fora dele. fora. n 17.) ée (sic) o que é e sombra noite afeto afetotempo silêncio eu-afeto comunafeto”15. O que Hélio escreve e faz dá lugar ao sujeito. a recepção tem que ser um mer- 58 . encontramos: “(. escrita centrífuga. a escrita de Hélio revira-se toda para fora. Há um longínquo interior. à maneira do ready-made de Duchamp. O eu-afeto é comum: em um sub- versivo deslocamento. quando o eco não diz apenas mais alto o que primeiro foi murmurado. O mais íntimo está fora. aponta para o que é externo a ela. em vez de buscar dar “um sentido mais puro às palavras da tribo”18. A vida está fora. mesmo tempo estranho e familiar. Fala errante. A arte explora e atualiza isso que constitui o sujeito fora de si – no outro.Revista Poiésis. Comunafeto. na prática inaugurada por Stéphane Mallarmé. Talvez toda escrita heliana seja um Mergulho do Corpo. para aludir ao bólide de 1966/67. Como bem nota Frederico Coelho16. mas faz muito mais: ela ressalta o quanto a “leitura”. o fora de toda palavra. na linguagem. p.. talvez. Jul. Ela designa o fora infinitamente distendido que toma o lugar da intimidade da fala. Ele quer dar um sentido mais impuro.17 Não por acaso. como uma caixa d’água industrial. é excrita. Em texto de novembro de 1969. Elas querem ir além da folha. Essa escrita realizada no objeto faz deste outra coisa. *** Nesse sentido. as notas e poesias de Oiticica querem fundar um espaço. e por- tanto a escrita deve se voltar para o exterior. Nesse “comum” o sujeito se recon- figura na cultura. é o silêncio tornado o espaço ressonante. convoca o outro. Porém. como aquela que para Blanchot caracteriza a literatura. às palavras da tribo. ela não é confessional. e para . uma entrega na qual o corpo torna-se outro lugar. Mergulho do sujeito na linguagem. como visava Mallarmé. em qualquer coisa que nos seja comum. êxtimo. Hélio inscreve “a pureza é um mito” em um de seus penetráveis. de 2011 gulho no objeto. 53-64. mas se confunde com a imensidade cochichante.

JPG Retirado da web em21/032011.A Excrita de Hélio Oiticica Hélio Oiticica Poema Über Coca.3%20p01%20-%2018%20. escrito de 9 a 17 de junho de 1973 em alusão a um artigo pré-psicanalítico de Freud de 1884. . Fonte: http://www. cfm?name=Poesia/0267. 59 .itauculturalorg.73%20-%20 2.br/ aplicexternas/enciclopedia/ho/ detalhe/docs/dsp_imagem.

um estandarte. em uma espécie de dissolução ou desintegração desta dualidade. obra de 1968 que a artista define como “um cubo coberto com uma superfície macia onde a pessoa entra. ensaio de 1973 sobre o Ovo de Lygia Pape. dois pontos à profusão e. tão importante para Oiticica – assim como para Clark e Pape –. *** Em adendo escrito à entrevista que Heloísa Buarque de Hollanda e Carlos Alberto Pereira com ele fizeram. provavelmente. As proposições não deixam de ser “teóricas”. p. Em seus escritos críticos. em letras capitais: “crítico ou é da posição de artista ou não é”20. de 2011 virtualmente o plano. perto de sua morte. constrói palavras-valises. abre-se aqui para o “infinito”.Revista Poiésis. Dele recortamos alguns trechos: o OVO-corpo-ambiente dentro = AMBIENTE FORA identifica o Deslocamento do corpo com o seu AMBIENTE AO ALCANCE DO CORPO com o AMBIENTE INFINITO que ABARCA AS INFINITAS POSSIBILIDADES DE DESLOCAMENTO DESSE CORPO. mas viver. e performa a dinâmica do rompimento do cubo de Pape como movimento do corpo em relação ao “ambiente”. O texto que melhor explicita esse nó entre escrita poética-crítica- -artística é. fazendo dele um Bicho de Lygia Clark. isso brinca a seu bel-prazer com neologismos. com pertinência. sinais gráficos. como vemos em outro trecho. hifens e flechas. um parango- lé. Textos para se vestir. o conhecido “Pape: Ovo”. que trata do Ovo como “PERFORMANCE-limite”: . usa letras capitais e abreviações. 53-64. rompe e ‘nasce’”21. sem pausa.”22 O ritmo desta escrita visual faz do papel. Jul. falando de “teóricos de cabeça oca: teóricos que o querem ser quando a coisa seria não teorizar: que fazer? – !”19. ao mesmo tempo em que discorre. Tais sinais funcionam como uma espécie de dobradiça do texto. no sentido de atualizar a teoria-poesia. A “coisa seria não teorizar”. fazendo dele uma capa. E crítica. Como escrevia Hélio a Lygia em 1974. porém. sobretudo. negrito. ele de fato está falando de sua própria arte. impuro. Oiticica critica a posição “teórica” que seria prevalente nos debates culturais no Brasil. obrigando a leitura a se descolar da superfície e dobrar 60 . às vezes ao espanhol e ao francês. a reflexão que seria de saída artística. O jogo dentro-fora. corpo. textos para se dançar. Flechas revirando o texto. colocando-o em movimento. ou como costuras múltiplas. mistura o português ao inglês. seja nos manuscritos ou nos datilografados. De nada valeria a teoria externa e in- dependente da produção artística. sem dúvida. sobre a obra de outros artistas. n 17. Torna muitas vezes o texto excessivo.

em um processo inconclusivo e que vai além da aparência. mas um nome-objeto-situação.23 61 . na escrita-arte de Oiticica. na clássica definição de Aristóteles. infinitas coisas fora de si – e põe o sujeito nessa dispersão.A Excrita de Hélio Oiticica O Ovo não comportaria e não permitiria qualquer interpretação fixa e estável. centrífuga. Ele não é uma metáfora.25 É falando do outro. capaz de quebrar a linha. uma sequência linear cujo começo é aberto e cujo fim é aberto. pois não dá a uma coisa o nome de outra coisa. isto é: cria no centro do problema dentro-fora que nada mais é que o núcleo da relação partici- pada-objeto-ambiente uma desintegração que a faz explodir em N possibilidades sem concentrar em nenhuma especificamente qualquer tipo de interpretação ou representação em quaisquer dessas etapas: é guarita porque a razão de experimentar é gratuita quanto ao que possa ser um determinado significado privilegiado: ser SHELTER é abrir-se ao MUNDO que se cria dessas multi-possibilidades que abrem na PERFORMANCE participador-objeto-ambiente. e faz-se sempre outra: outro nome para outra coisa para outro nome. Não se trata de . à maneira do Ovo de Pape. como coisa. uma espécie de metáfora dispersiva. nessa subversão da linguagem que é uma subversão do sujeito. A metáfora revira-se para fora. a referência-nome OVO é magistral e erradamente tomada: o que importa não é a metáfora germinação-casaca cheia e depois esvaziada: o que importa é que o OVO é núcleo-proble- ma e passagem-transformação: ao contrário da metáfora que acentua o caráter objeto-ovo e as referências superficiais daí decorrentes OVO não tem lugar como algo estático no espaço e no tempo: é processo: vital e inconclusivo: limite entre o feito e o não- feito: filtro que revela o que é de natureza diversa da aparência: um resvalo em que corpo-objeto-ambiente tangenciam assin- toticamente. não é um nome de uma coisa usado para nomear outra coisa. do Ovo.24 O Ovo apresenta. que Oiticica explicita o ponto mais agudo de sua própria escrita: a metáfora. Metáfora-mutação capaz de pôr em movimento a linguagem e fazer da escrita sempre uma referência outra. pois nomeia diversas. de Lygia Pape. não tendo portanto nem come- ço nem fim-fim: frase fragmento como linha quebrada. em repetida viragem.

Mergulho do Corpo. Apropriação. sua leitura-escrita. por- que exige que nela cada um trace seu caminho. mas como quebra e multiplicidade imediata. topológica. Já em 1961. indo de uma coisa à outra – porque a associação não se dá de uma a outra palavra. (Mais do que se tratar. trata-se da metáfora como labirinto). 1997. Poema Caixa 4. cambiante. em um comentário sobre Goethe e o sublime. Trata-se de uma metáfora espacial. 1967 (Inscrição em caixa d’água industrial) Fonte: Catálogo da Exposição Hélio Oiticica. Rio de Janeiro: Centro de Arte Hélio Oiticica/Rio Arte. Hélio anotava: Só assim consigo entender a eternidade que há nas formas de arte. estática no tempo. vêm desse caráter de ‘inapreensibilidade’. . da metáfora do labirinto.metonímia – apesar do fluxo ser privilegiado.26 Hélio Oiticica Bólide Caixa 22. a forma artística não é óbvia. linearmente. na produção poética de Hélio. mas móvel. abrindo múltiplas dimensões – labiríntica. eternamente móvel. sua imperecibilidade. sua renovação constante.

mas necessita do outro para significar. Paris: Seuil. Nós traduzimos esse e os demais trechos em língua estrangeira citados. H. Ela deve. 7 BLANCHOT. 49. M. como Joyce e como a poesia em geral. Aspiro ao Grande Labirinto. p. in Autres écrits. L’ Espace Littéraire. Hélio Oiticica. Palavra para cantar. Hélio Oiticica.Tal mobilidade e tal transformação no tempo. p. cit. ser lida em voz alta. 55. palavra para ex-istir. 6 LACAN. op. de “prolixidade do real”. p. A escrita é fluxo em direção ao outro e é voz. Os chistes e sua relação com o inconsciente. .A Excrita de Hélio Oiticica fato curioso de que até o século XIII não existia leitura “em voz baixa”). Rio de Janeiro: Imago. no exterior de si mesma. 15. dançar. fiel talvez àquilo que Jorge-Luís Borges chama. Os Escritos babilônicos de Hélio Oiticica (1971-1978). 1987. p. Paris: Folio (Essais). É do sujeito a subversão que se dá na escrita. Livro ou Livro-me. na retomada repetida do laço com o outro. Que a fala. 4 Ibid. o que se vê. em uma poesia. ouve-se. cantata-se. Que a palavra seja música (“Tudo que eu faço. Luciano Figueiredo). p. Cartas 1964-1974 (org. toca no que é excessivo. 8 Lygia Clark. cit. a repetição aí se impõe. p. dizia Oiticica em entrevista a Jary Cardoso28). na realidade. 42. se aproprie da palavra (“A palavra.”27 ) Que se viva a palavra. Hélio Oiticica. S. A busca de alcançar a vida.. Rio de Janeiro: Rocco. vol. Rio de Janeiro: EdUERJ. 9 FREUD. Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud. Recebido em 04/03/2011 e aprovado em 20/042011 Notas 1 Lygia Clark. é música”. Heteroescrita. Cartas 1964-1974. Cartas 1964-1974.. VIII. 1986. 101. na arte. Sem fim.. com a arte. J. F. 2 Ver as notas de 1959 e 1960 in OITICICA. é leitura. 5 COELHO. se materializam em sua escrita em vertiginosa operação de linguagem da qual resulta quebra e abertura. confirmando a leitura como atividade endereçada ao outro (e retomando o 63 . a ela externas. Lituraterre. catarsis-se. no demais do corpo. buscadas desde o início da poética heliana. 1988. 3 Lygia Clark. op. rompimento com a narrativa que é convite para outras escritas. 2001. 43. na leitura. p. 1998. Rio de Janeiro: Editora da UFRJ. grita-se. submerso na linguagem que é depositária (e causa) de meus excessos e de minhas paixões. 76. ela não se basta em si. 2010.

cit. 2009. op.. p.. 55. 78. Ibid. p. em 25/03/2011. cit. cit.. 259. H. 209. 13 Apud BLANCHOT. Cartas 1964-1974. L’ Espace Littéraire. p. São Paulo: Perspectiva.itaucultural. 208. Aspiro ao Grande Labirinto. 77. H. 56. Encontros. op. Aspiro ao Grande Labirinto. 24 Ibid. 1981.. s/p. Gávea de Tocaia.. Arte ambiental. 15 OITICICA. 23 Ibid. p. cit. p. H. op. 53-64. L’ Espace Littéraire.. p. Hélio Oiticica. http://www. 300. p. 302. 16 Em conferência proferida no seminário que acompanhou a exposição Hélio Oiticica. p. op. Rio de Janeiro: Azougue. cit. R. 25 Ibid.. Pape: Ovo.cfm?fuseaction=artistas_depoimentos&cd_verbete=915&cd_item=16&cd_idioma=28555 22 OITICICA. M. M. op. Entrevista a Jary Cardoso. 20 Lygia Clark. 2007.. p. 2000. p. arte pós-moderna. op. 26 OITICICA. p. São Paulo: Cosacnaify. 26. 18 Apud BLANCHOT.org.. cit.Revista Poiésis. 11 Ibid. 10 FERREIRA GULLAR. 281. 64 . cit. 300. 17 BLANCHOT. São Paulo: Cosac & Naify. 21 Depoimento retirado da Enciclopédia Itaú Artes Visuais. Hélio Oiticica. op. O Museu é o Mundo. Hélio Oiticica. de 2011 14 PEDROSA. 302. no Museu Nacional do Conjunto Cultural da República em fevereiro de 2011. 19 Sobre as patrulhas ideológicas. p. in Lygia Pape.. p. cit. 28 Um mito vadio. p. in Experiência Neooncreta. 27 Lygia Clark. op. Poesia Concreta: Experiência Intuitiva. Experiência Neoconcreta. 51. Encontros. Hélio Oiticica. Dos murais de Portinari aos espaços de Brasília. p. 12 FERREIRA GULLAR. ‘Manifesto Neoconcreto’.. p. OLIVEIRA BASTOS & JARDIM. 229. Hélio Oiticica. 132. M. M. p. n 17. . Jul.br/aplicexternas/enciclopedia_ ic/index. Cartas 1964-1974.