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Capitulo 4

Tão rápido e tão complexo

Durante toda a primeira semana de fevereiro, os dias pareciam
apenas horas. Certa vez, na noite de quarta-feira, Jon se lembrara de
comentar com os amigos que vinte e quatro horas eram pouco demais para
um dia.
Na sexta-feira, o pessoal marcou de sair à noite para se conhecerem
melhor, conhecer os gostos, as manias, de onde veio. Todo mundo confirmou
presença. Durante a semana, Alex não tivera muito tempo de conhecer
Karen melhor, mas conversara alguns poucos minutos com ela.
Nesta mesma sexta, o sol de manhã estava quente, porém, após o
meio dia, nuvens cinzentas e cheias de água tampavam a cidade de
Uberaba. Em alguns pontos estas nuvens desabavam, em outros não. E
durante a noite, uma brisa fria refrescava as ruas movimentadas da cidade.
Alex, Jon e Gabi estavam no carro a caminho do bar onde marcaram.
Os cabelos negros de Alex esvoaçavam junto com gola de sua camisa xadrez
vermelha com branco cujas mangas estavam dobradas até o cotovelo. A calça
jeans preta e justa de Alexandre tinha linhas de costuras douradas e o
sapatênis bege com listras azuis, vermelhas e brancas controlava os pedais
do carro. O relógio de pulso indicava oito e trinta e quatro da noite.
Jon estava sentado no banco de trás, como sempre, vestindo uma
camiseta preta e lisa por baixo de uma blusa branca esburacada. Tinha uma
calça jeans branca na perna e um tênis azul claro enquanto trazia no
pescoço um colar com um pingente do exército, mesmo nunca tendo ido para
lá.
Gabi, no passageiro, vestia uma blusinha de seda amarela que
pressionava seus seios. Pulseiras douradas cintilavam e tintilavam nos seus
pulsos. Vestia uma curta saia jeans branca que deixava suas coxas à mostra
e calçava saltos altos.
A lua cheia parecia tímida escondendo-se por trás de nuvens de
chuva. O rádio do carro de Alex estava ligado e uma música leve acariciava
os ouvidos do trio.
Não tardaram chegar ao bar selecionado. Victor e Leonardo já
estavam sentados em uma mesa. Vic vestia uma camisa de botão rosa com
as mangas dobradas, igual a Alex, e trazia nas pernas uma calça jeans azul
com seu coturno tradicional. Já Léo optara por uma blusa de lã com capuz
de um roxo vinho, com uma calça jeans azul escura e um tênis Vans
vermelho. Estavam em uma mesa grande e redonda para doze pessoas.
- Olá! – saudou-os Léo, quando o trio entrara.
Alex notara que aquele era um grande e rico bar. Era um lugar escuro
com várias janelas, mesas de madeira e pequenas luzes de um laranja
escuro. Os garçons estavam elegantemente uniformizados. Havia garrafas

Você nunca namorou? – perguntou Weslley. O resto do grupo aprovara a ideia com exclamações de confirmação..Residencial Mário Franco. Estava aproximando-se das onze horas da noite quando o grupo já virava copos e gritava risadas da mesa. Weslley e Rita foram os próximos. O vento soava frio lá fora e o movimento na rua ia diminuindo lentamente. Meu pai é ator e está viajando com uma companhia de teatro. Alex pensou um momento sobre certos segredos que poderia ser revelado ali. .”. . E.. – Deixe eu me apresentar. Um garçom vinha e ia da mesa do grupo. moro aqui com minha mãe médica. . Rita quebrara aquela situação. Sou Rita Brizolli. – Eu me . Um grupo de pessoas davam altas gargalhadas em um canto do bar. Algumas pessoas da mesa deram risadas. perto da cozinha. – respondeu Alex. Também nunca namorei e meus gostos são complexos: gosto de livros de biologia. cervejas antigas. fim. Parece o único totalmente sóbrio aqui. O outro percebera e retribuíra. Mesmo não concordando com a ideia. uma delas. Às vezes o silêncio gritava mais alto que as vozes.de uísque.Então você nunca fez sexo? – completou Weslley. – Eu morava em Ubatuba com meu pai e minha mãe.Bom. trazendo bebidas e petiscos. como Dom Casmurro. Um frio percorreu sua espinha dorsal antes da palavra sair seca pela garganta.Não. Alex não hesitou. Nunca namorei e gosto de literatura brasileira. . A maioria das pessoas estava bêbada e poderiam revelar coisas que não revelariam quando sóbrios. . – tinha a voz ríspida.. Alex procurara deixar uma cadeira vaga ao seu lado para Karen.Começa por você. lei que fiscaliza a mistura de álcool com direção de carros. .. . Pouco a pouco iam chegando as pessoas.. como Rihanna. O silêncio tomou conta da mesa. que já estava mais ou menos bêbada. – murmurou Victor. donos de uma rede de fast-food. Esta era uma das perguntas que Alex temia. Pouco depois de o trio chegar. – completou a garota. eu sou Alexandre Vilela.O que vocês acham de nos conhecermos melhor? – aconselhou Rita. . O grupo sentou- se de uma forma que fizera com quem Jon ficasse de frente para Victor sem querer. Era início de carnaval e agora a famosíssima Lei Seca. prefiro filmes científicos e gosto de música internacional. pensou Jon. “Ele é tão.Não.Minha vez. ele voltaria dirigindo. deixando Karen por último e quando esta chegara. vinhos e outras bebidas alcoólicas em uma das paredes. – começou. afinal. “Que. Jonathan percebera que Vic lançava gostosos sorrisos para todos. inclusive a morena. Por sorte.. Alex decidira beber suco. . relacionado com medicina. lindo. Sou bem eclético em relação a gostos musicais e filmes. Isabela entrara no bar. Brotara um fraco sorriso no rosto do loiro. lindo e fofo!”. Alex. estaria rigorosa.Que rica.Onde você mora? – perguntou Vic. – o grupo calou-se. . . Alex levantou- se completamente da cadeira para cumprimentá-la com um forte abraço.

se fosse possível. Este. . Nunca namorei.Ah. arrepiando todo o seu corpo. tomou uma nova atitude. alguns poucos segundos calados. . . parecia. O grupo permanecera.chamo Victor Hugo. . sua pele embranquecera anormalmente ficando quase da cor de sua blusa.Sim. . – respondeu. então. Jon pareceu congelar. mas prefiro Jon. homo. pensativo. com ouvidos apurados. Ainda tenho muitas dúvidas e prefiro respondê-las antes de tentar algo sério. Gosto de pop internacional.As aparências enganam. Não gosto muito de ler. – retrucou Weslley com uma piscadela. Ele pareceu corar um pouco mais.Fale mais sobre você.Vinte e quatro.. – Gosto de livros de sagas. pagodeiro? Era o único que eu achei que teria um pouco de preconceito! . Jonathan ainda questionava com si mesmo quais seriam as “dúvidas” de Victor. A mesa pareceu confusa quando Alexandre e Gabriela levantaram também... Inocentemente. – que eu não tenho nada contra. .Eu só quero deixar claro – começou Weslley. Vou continuar sendo seu amigo e agora com um novo apelido. A brincadeira parecia ter cessado. – finalizou. Morava em Ubatuba antes de vir para cá e como os três. Todo mundo começou a conversar entre si e Jon pôde ouvir Isabela comentar com Karen “Nossa que desperdício! Ele é tão bonito!”. . – só. mas também danço um arrocha. – começou sem jeito. . Prefiro os baseados nestes livros. – o loiro corara enquanto seus olhos cristalinos viravam para Victor. E. Jon.. – Tenho dois irmãos mais velhos então vocês já imaginam a pressão. como Harry Potter. eu sou gay.Quantos anos você tem? – perguntou Isabela.Eu pego um táxi. Todos os olhos da mesa voltaram-se para Jonathan com curiosidade. . Alex sentiu o frio percorrer novamente sua coluna. – confirmou timidamente e suspirando parecendo aliviar-se de um grande peso. isto é.. – respondeu Jon levantando-se rapidamente da mesa e seguindo para a saída.Você é gay? – perguntou um Victor interessado. A mesa dera uma bêbada gargalhada. E filmes. – Eu sou Jonathan Silveira. Um sorriso leve e tímido surgiu em seus lábios enquanto Alex suspirava aliviado. – falou com uma risada tímida.E seus pais? – o grupo calou-se no exato momento que a espinha dorsal de Alex esfriara novamente. “Menos uma” pensou. Jon assentiu.. mas já quase. – Jon espantou-se antes do restante do grupo concordar com Weslley. . Weslley erguera a voz para fazer uma nova pergunta ao amigo. .Posso lhe perguntar algo indiscreto? – falou Victor. depois de fitar a mesa. – pensou. de verdade. Ninguém pareceu querer falar sobre si. – Jon apurou os ouvidos. de novo. moro com meu pai comerciante e minha mãe advogada. . O grupo ficou em silêncio novamente. gosto de arrocha tipo Thiago Brava e gosto de filmes de ação e aventura.Nossa! Você. nunca namorei.

Alex e Gabriela tiveram de apertar o passo para alcançar Jonathan. gravata borboleta preta. Eles entraram naquele quente carro e seguiram para casa. pago vocês outro dia. – falou Alexandre jogando uma nota de cinquenta reais na mesa. O quarto estava escuro por causa das cortinas fechadas enquanto a mulher vinha e ia do banheiro. . Venha. eu dirijo. .Está tarde. “Camisa parecida com a de Victor. Gabi parou de andar para lá e para cá e fitou o amigo também. chinelos grossos e brancos e trazia no pescoço um colar havaiano colorido. Parecia surpresa e confusa ao perguntar. . Sentou na cama da amiga e avistou o amigo vestido de uma camisa rosa com mangas dobradas. seguido pela de vinte reais de Gabi. Ele vestia uma camisa praiana colorida. que já estava na calçada esperando um táxi.Mas é a avenida aqui em baixo! Alex jogou o resto do corpo na cama e fechou os olhos. Alex estava em seu quarto quando Gabi alertou-os. Aquela manhã de terça-feira estava confortavelmente quente. – retrucou Alex puxando Jon de leve pelo braço até o carro. . respectivamente. . Os uberabenses costumam ir para as avenidas principais dançar atrás de caminhões de som.Por que ela vai vir para cá? – perguntou sentando na cama de casal de Gabi. Ela dormia na única suíte do apartamento. como colares distribuídos em festas e praias. uma bermuda brim branca. Ela estava muito natural. era carnaval. finalizando sua roupa carnavalesca. vai ver ela acha que não sabemos qual avenida é. ao ver de Alex. . afinal ele quem fizera a pergunta.Rita vai passar aqui para ir com a gente para a avenida. Alexandre aprendera a não falar tudo que pensava. sexta-feira” pensou Alex.Se precisarem de mais. Weslley parecia mais confuso e preocupado que o restante. Estava com roupa de verão. . Com anos de convívio com Jonathan e Gabriela. . uma bermuda jeans branca e sapatênis bege. calçava rasteirinhas e deixara os cabelos soltos.Vocês não precisam ir embora. – refutou Jon ao ver seus amigos aproximarem. . “Pelo menos o segredo de Gabi ainda está a salvo” pensou Alex. – Alexandre ouviu a voz de Jon na porta do quarto. Ela vestia uma bermuda curta jeans e uma blusinha amarela com decote. porém Alex não imaginava o que se passava na cabeça da amiga. Era 12 de fevereiro. Seguiu o caminho para o quarto de Gabriela e a viu se arrumando. – gritou Gabriela do seu quarto. Estava frio lá fora. Viu passar por seus olhos a última sexta-feira.Weslley me ligou. O jovem saiu do quarto com seus chinelos ecoando pelo apartamento enquanto ajustava seu cabelo.Eu não sei exatamente. os acontecimentos do bar e perguntou para si mesmo o que aconteceria naquela avenida de hoje.

Para provar que não tenho vergonha da minha etnia. Alex imaginou como encontrariam Léo. Jon virou as costas para o quarto e seguiu o corredor até a sala e a porta de entrada. Isa e. – retrucou Rita também fitando o amigo de cima a baixo. mas de uma forma sensual.Minha naturalidade. . – completou Jon ainda admirando-a de cima a baixo. . – completou entrando na casa. a roupa? . Eles saíram a pé mesmo e viraram a esquina. a sua. – falou rindo e parando ao lado do sofá. . Jon e Alex ficaram imóveis algum tempo. Negros. O sol do meio dia ainda iluminava aquela região de Uberaba. Quando a abriu viu uma Rita diferente. Ela estava cheia e era uma larga avenida. Apenas o som da campainha interrompeu o silêncio presente ali.Pedindo desculpas por sexta.O que é isto?! – perguntou Jon fitando-a de cima para baixo. Leopodino de Oliveira. Ela vestia uma calça marrom com alguns buracos e surrada. – respondeu ela no mesmo tom de voz. O carnaval neste dia era na Av. claro. um colete de couro batido bege escuro. abotoado deixando um decote e os braços nus. descendo para a avenida. mas pareciam felizes.Como vamos encontrar o pessoal? – gritou Alexandre para a morena. meio confuso. Ambos foram ao encontro de Jonathan e Gabriela e os puxaram para a esquina que era o encontro da Av. Weslley. tinha um bracelete de couro e calçava. rasteirinhas. Victor. Alex e Gabriela chegaram à sala e também deixaram o queixo cair ao ver a amiga. – respondeu. . . . O térreo estava cheio de moradores subindo e descendo os andares. um pouco mais recuados de toda aquela bagunça. no meio daquela confusão. o sol e a multidão. . O quarteto terminara de descer a rua e entrara na avenida e aos poucos eram arrastados para o meio do pessoal.Minha roupa de carnaval. mas admirado. – Vamos? Os três amigos assentiram e todos saíram dali. Alex podia ver algumas pessoas suarem com a dança. olhando para o nada e pensando em tudo. Karen. enquanto Alex e Rita deixaram levar-se. Jon e Gabi estavam juntos. Trazia na cabeça um elástico branco e fino que mantinha os cabelos baixos. Pessoas vinham e iam naquela confusão de fantasias e danças enquanto um axé alto ecoava por aquela parte da avenida e as pessoas dançavam com entusiasmo. Gabriela suspirou parecendo aliviada e voltou à sua arrumação. saindo e entrando no prédio. Era meio dia e meio quando entraram no elevador pra descer os andares e chegar à portaria.Bota sensual nisso.Vamos esperar eles ali na esquina da rua do prédio de vocês. . Leopodino de Oliveira e da Rua Tenente . também.Mas você pode me explicar o que quer dizer. Rita estava realmente sensual.Então? – perguntou.Por quê? . – Criativo.

A multidão ainda queria levar o quarteto para avenida adentro. vestido com uma roupa bem leve: uma bermuda fina. Alexandre reparou a diferença do beijo na Gabi e na Rita. alguém tocou-lhe as costas e murmurou seu nome. Jon entrou na multidão sem dar explicações para os amigos que aguardavam na esquina. Será que você podia vir me buscar? – perguntou a mulher do outro lado. Jon não teve tempo de olhar nos olhos da pessoa para ver se conhecia porque no mesmo segundo que virou para vê-la. mas eles lutaram para sair dali e seguiram contra todos. quando por entre a multidão surgira Leonardo. exceto a parte dos olhos. algo diferente do normal. Quando virara para ver quem era. Era carnaval e a pessoa estava com uma calça jeans preta. . e estes nem perceberam que ele tinha ido. Quando conseguiu parar no meio do povo. o celular de Jon tocara. sem ser levado pela multidão. Não precisou dar muitos passos para entrar no ritmo da dança na avenida. Rita providenciara logo de ligar para o pessoal pelo celular de Alex. afinal Gabi e Rita não trouxeram bolsa e os celulares não caberiam nos bolsos. levou um pequeno susto seguido de uma ação inesperada. O importante era que ninguém se machucava no meio da multidão. rapaziada! – cumprimentou-os dando um forte abraço em Alex e Jon e um beijo na bochecha das mulheres. – falou atendendo. a pessoa erguera uma pequena parte do lenço na cabeça e beijara os lábios vermelhos.Alô. Ficaram parados ali na esquina durante alguns bons vinte minutos.Wenceslau de Oliveira.Jon. E tudo aconteceu tão rápido que o jovem não pôde nem se tocar de que acontecia. Era algo estranho. Jon não conseguia ver Karen em lugar nenhum e estava se aproximando do local marcado com a garota. Os únicos que trouxeram aparelhos telefônicos era o rapaz e Jon. aparentava ombros largos. mas não sabia se tinha realmente ombros largos por causa das vestimentas. . Neste mesmo instante. falando as lojas que havia à sua volta e algumas barracas em que estava perto. porém preferiu não comentar nada. Já conseguia ver todas as barracas e todas as lojas em volta e não achava ela. isso ele sabia. . Alguém menor que Jon. quentes e macios de Jonathan. calçava um coturno marrom. eu estou meio perdida aqui na multidão. Era Karen. . vestia uma blusa de frio preta por baixo de um pano preto. Trazia enrolado na cabeça outro pano preto que cobria todo o rosto. camiseta cavada colorida e sapatênis. apenas afastara um pouco para falar com a nova amiga. As pessoas gritavam e empurravam levemente os outros. .E aí. Pelo toque pensou ser Karen. perto da onde? Karen explicara exatamente onde estava.Onde você está? Digo. Era alguém. pela voz percebeu que era um homem. O rapaz não alertara ninguém.