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UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE

Instituto de Estudos Estratégicos
Programa de Pós-Graduação em Estudos Estratégicos da Defesa e da Segurança
Disciplina: Economia Política dos Estudos Estratégicos
Professor: Jonuel Gonçalves

GRANDE ESTRATÉGIA DOS EUA: UMA PERSPECTIVA DA ATUAÇÃO
ESTADUNIDENSE NO ATLÂNTICO SUL

Murilo Gomes da Costa

Mestrando em Ciência Política pelo Programa e Pós-
Graduação em Ciência Política do Instituto de Estudos
Socais e Políticos da universidade do Estado do Rio de
Janeiro (IESP-UERJ)

Niterói

2017

Apesar da ascensão de diversas potências do Sul Geopolítico. Neste trabalho. como parte da conformação de sua Grande Estratégia. tanto economicamente. como militarmente nos diversos cenários regiões do mundo. será abordado de forma sintética. a análise qualitativa. com levantamento e revisão bibliográfica de dissertações. na região do Atlântico Sul. Para tal. China. E. o trabalho usará como metodologia. com destaque para a emergência de instrumentos políticos – como a reativação da 4ª Frota. será apresentada uma análise sobre a presença e atuação dos Estados Unidos da América. será abordado conceitualmente a ideia de Grande Estratégia dos EUA e como ela conforma e reforça a ideia de inserç ão estadunidense no sistema internacional. que reforçam ainda mais a derrocada da hipótese de que os EUA estariam num processo de colapso e diminuição do seu poder hegemônico. artigos e livros sobre a temática.Introdução A partir do século XXI há nos debates sobre a Economia Política do Sistema internacio na l uma certa disputa sobre a questão da centralidade ou da futilidade do poder militar para manutenção da ordem hegemônica existente no contexto global. com uma atuação militar e diplomática. por fim. o reforço da ação externa. referentes à atuação dos instrumentos políticos supracitados. Em seguida. pretende-se com este trabalho mostrar um dos eixos de inserção extrarregio na l dos EUA. Em síntese. como ator extrarregional. trazendo elementos que demonstram. como por um viés da defesa e segurança. será realizado um breve estudo de caso da atuação e presença dos EUA como potência extrarregional no Atlântico Sul. tanto por um viés diplomático e econômico-cooperativo. que também demonstram uma projeção estadunidense. Em um primeiro momento será analisada historicamente a tese sobre a derrocada hegemônica dos EUA no sistema internacional. pelo contrário. como Índia. seguindo a linha de orientação política de sua Grande Estratégia. e a atuação da AFRICOM – que vem sendo usados para efetivar essa presença estadunidense no Atlântico Sul. é notável ainda a presença e atuação dos EUA. Na seção posterior. Brasil. A análise vai perpassar pela atuação conjunta das políticas externa e de defesa estadunidense. além da análise de documentos estratégicos dos EUA. África do Sul. algumas iniciativas de cooperação em Defesa e Segurança com países do Sul-Geopolítico. como parte das atividades do Comando Sul. 2 .

Iniciou -se em 1989 e "manteve uma continuidade e aumento de interesses que hoje se desdobram em várias atividades. a proclamada “ameaça” comunista se desvanecia e. 2008:28). Calcula-se que existam cerca de 80 mil técnicos chineses trabalhando na África em obras de infraestrutura e em centros de excelência agrícola (Porto de Oliveira. Lamazière (2001) define esta negligência benigna como “vácuo de poder” deixado pelo hegemon. há por parte dos EUA. Porto de Oliveira ressalta que a presença chinesa é a cada ano maior na África. Em termos de preocupação 3 . houve um gradual desengajamento dos EUA com o hemisfério sul. 2013:101) Adentrando nos anos 2000. permitindo ao Brasil uma política externa mais autônoma e abrindo espaços de manobra para a articulação de acordos de caráter militar. a questão da segurança regional no Atlântico Sul passou a ser retomada como pauta importante na política externa dos Estados banhados pelo oceano. em que não se almeja a projeção de poder. Ainda neste período. Em termos geopolíticos. impulsionadas pelo extraordinário crescimento da economia chinesa. Conforme afirma Oliveira (2013:101): A “indiferença” dos EUA em relação às condições de segurança sul- americana é normalmente referenciada nos meios acadêmico e diplomático como uma “negligência benigna”. URSS. remetendo à ideia de uma geopolítica às avessas. assiste-se a emergência da China como grande potência e seu crescente interesse pelos recursos naturais africanos. o Brasil e o Uruguai. A este seria adicionado o problema do terrorismo com os ataques de 11 de setembro de 2001. um campo de preocupação tradicional e que assumia uma dimensão bem maior e de possível cooperação: o combate ao crime transfronteiriço. as operações tiveram mais o caráter de fomento da confiança mútua que de preparo para lutar contra um inimigo comum. Nesse contexto. como contraponto. restando. como parte da arquitetura de defesa do continente americano. tanto nas suas fronteiras terrestres. o papel do Atlântico Sul no contexto da segurança global. a iniciativa da realização de manobras conjuntas. Regionalmente. a fim de trazer maior diálogo entre as forças armadas desses países. e Estados Unidos da América (EUA). contudo. perdeu o sentido que tinha no período anterior. Assim. diminuía o envolvimento do oceano Atlântico Sul nas disputas de um mundo disputado pelas duas grandes potências. A posição geoestratégica relativamente importante que este oceano ocupava na estratégia estadunidense foi sendo gradativamente enfraquecida. (Oliveira.Contexto histórico e o debate sobre a derrocada hegemônica dos EUA Com o final da Guerra Fria. na medida em que os acontecimentos no continente europeu abriam caminhos para um novo horizonte geopolítico para os EUA. senão preservar o espaço que já se conquistou. De um lado. A partir do fim da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). ao mesmo tempo. o Atlântico Sul voltava à sua tradiciona l condição de tradicional “oceano de trânsito”. de maneira bilateral ou multilateral com a Argentina. quanto nas marítimas.

O corolário lógico desta posição. Saint-Pierre (2010) informa que se decidiu manter o Tratado Interamericano de Assistência Recíproca TIAR. como Immanuel Wallerstein ou Giovanni Arrighi. detém vantagens significativas sobre todos os outros atores. Fiori (2008:68) infere uma crítica à ideia de que o sistema internacional estaria em presença de uma “crise terminal” do poder americano. Com os atentados de 11 de setembro. (Bernardo. houve a primeira demonstração de que os EUA não seriam imunes e que o seu território continental era atingível. naquele momento. 68). A ascensão da China e da Rússia. com uma resposta militarizada a todos os problemas.com a segurança hemisférica. transformou-se em tema de um debate. o autor sustenta que a crescente interdependência financeira entre os Estados Unidos e a China será o fenómeno a ter em conta no início do século xxi (p. dada o seu carácter excepcional. engendrando uma reflexão prolongada em torno das questões do posicionamento estadunidense dentro do sistema internacional. Isso levou alguns teóricos. seria a de que o poder estadunidense teria entrado num processo de declínio de adaptação estrutural. Esta ideia emergente de que o poder estadunidense – como uma esfera agregada composta pela situação estrutural e diacrónica dos Estados Unidos – estaria em declínio. é um produto da nova corrida imperialista. Assim. Assim sendo. conforme argumentou Fiori: a pressão competitiva observada em anos recentes é uma função dessa presença. O autor afasta a hipótese de que o desenvolvimento histórico da economia política mundia l possa ocorrer em termos de “ciclos hegemônicos” (Ibidem. ele examina a realidade com base na noção de que a presença dos Estados Unidos. A corrida imperialista 4 . a maioria dos participantes neste debate tem defendido a reconfiguração do sistema internacional. Em síntese. declarando a impossibilidade de comparar a situação dos Estados Unidos. Dessa maneira. a identificaram – baseando-se na ideia de que o sistema internacio na l capitalista teria entrado num novo ciclo – uma trajetória declinante dos Estados Unidos. 2008:143) No entanto. a qualquer outro processo histórico. recuperada da desestruturação enfrentada nos anos 1990. como ator contemporâneo de um processo histórico de muito longa duração. Ao invés de um conflito declarado. o desenvolvimento do sistema-mundo dar-se-ia de forma incremental. que acarretaria na redistribuição assimétrica do poder. para Fiori (2008:20). e propôs-se uma agenda hemisférica de segurança. no entanto. 2008:12-22). Ou seja. a contraponto destes argumentos. tendo os Estados Unidos sofrido o primeiro ataque terrorista dentro das suas fronteiras continentais. mesmo inoperante. a existência deste Estado hegemônico é transformada em motor do sistema. Isto constituiu um choque para a estratégia americana.

na América do Sul e na África. com destaque para o Atlântico Sul. na camada pré-sal da plataforma continental brasileira e no golfo da Guiné. no entanto. um declínio do poder americano: será uma função da sua continuidade (Ibidem. há um cordão de ilhas de posse do Reino Unido. 2015:2) 5 . com destaque para a ilha de Ascensão. No entorno estratégico1 dos países lindeiros ao Atlântico Sul. a ideia de uma articulação de Defesa. no entanto. pelos Estados Unidos. de base para as operações militares dos Estados Unidos e do Reino Unido no Atlântico Sul. destaca-se a reativação da quarta frota naval no Atlântico Sul. Estratégia e Diplomacia. Além disso. reforçando a desconstrução da derrocada do poder hegemônico dos EUA. que serve. A partir de 2008. por um viés diplomático. mas sim com uma grande estratégia que conjugue política externa e política de defesa. segundo Fiori (2013:1). Dentre eles. se refere a região geográfica onde o Brasil deseja irradiar sua influência e sua liderança. a complexidade do ambiente geoestratégico da região sulatlântica. Incluo nesta concepção. como é possível ver no mapa abaixo. para Fiori. Imagem 01: Configuração Geopolítica do Atlântico Sul.2008:60-68). devendo ser a diplomacia o respaldo permanente da política de defesa. é importante relevar também. que marcaram o eixo de inserção estadunidense no hemisfério Sul. por exemplo. que coincidiu com a descoberta de imensas jazidas de petróleo. (Amorim. há a deflagração de situações e promoção de políticas nas áreas de segurança. por Wanderley M essias da Costa 1 A definição de entorno estratégico. há algumas décadas. de uma maneira que não enseje a ideia de contenção ou expansão brasileira. não significará. econômico e militar.

definindo os interesses estatais e enfatizando os posicionamentos do país perante o mundo. segundo essa definição.) determina objetivos e orientações de segurança estratégica nacional (. Segundo Martins e Cepik (2014:40). sua grande estratégia teria sido constantemente dirigida para a manutenção da primazia do poder dos EUA..interesse nacional) gera uma inversão entre os fatores. em termos de segurança. que será a ênfase do trabalho. mostrou-se relacionada à noção de "poder inteligente" que informa as posições da administração Obama e como a crise não provocou um desafio fundamental à posição predominante dos EUA no sistema internacional. A grande estratégia deve estabelecer premissas para o uso da força e da diplomacia. é a esfera da guerra “em que uma nação (. transformando os EUA. (Storti. desenvolve e usa os recursos nacionais para alcançar aqueles objetivos” (DOD. o reajuste da grande estratégia estadunidense não atingiu plenamente os resultados almejados por essa 6 . ela determina as alianças e os compromissos militares que poderão ser assumidos no exterior. seus valores. tem-se adiante a necessidade de avaliar como se desenvolveu a grande estratégia dos EUA a partir dos governos Obama (2009-2017). uma tendência a ignorar algumas características políticas que condicionam e são condicionadas por ela. estratégia. ao invés de condicionantes da estratégia .) e. Assim.. Isto porque. 2014:38).. (CEPIK & MARTINS. que define os interesses vitais do Estado. as percepções das ameaças e como elas serão combatidas. Especificamente no caso dos EUA. A definição de estratégia estabelecida pelos EUA no governo Obama teve. assim como orienta as intenções do país perante o mundo. deve-se que a estratégia se dá em seu nível político. “trata-se de uma definição puramente técnica e procedimental”. utilizando-se para isto todos os meios disponíveis. por sua vez. mas sim confirmou a necessidade de reajuste da grande estratégia de tal Estado na direção da acomodação dos interesses de grandes potências. segundo Layne (2006:45). Nos EUA o documento que torna pública a grande estratégia norte-americana é o National Security Strategy release. (Layne. 2014: 251). 2009:23) Adentrando no período pós-2008.Breve discussão sobre o conceito de Grade Estratégia dos EUA Grande estratégia podes ser entendida como o tipo mais alto de estratégia. em seguida. Ademais. economias emergentes e Estados hostis à grande potência. onde a dissociação entre estratégia (meios) e política (fins . 2006:43). Entretanto. É ela quem define os objetivos políticos da nação. em meros instrumentos. especificamente no que é composto pelas diretrizes do chefe de governo e sua equipe de segurança nacional. por parte do governo Obama. sua identidade e seus interesses.. bem como se preocupa com a garantia da paz e da segurança do país. A adoção de uma certa grande estratégia de acomodação.

não tem conseguido estabelecer uma presença efetiva. no Atlântico Sul. buscando outras fontes fornecedoras. 7 .administração. Argentina e Uruguai. conforme afirma Neves (2015:246). 2011). arrendada dos ingleses e de grande valor estratégico. por estar situada próxima ao “estrangulamento” Natal-Dakar. principalmente (DAVIS. que contaram também com participação do Brasil. para assegurar seus interesses e legitimar suas soberanias sobre suas áreas jurisdicionais. economias emergentes e Estados hostis aos EUA. 2014:31) Como será mostrado a seguir. 2013). se deu no seu envolvimento nos exercícios navais conhecidos como ATLASUR. e de que forma ocupam esse possível vazio de poder. para além da atuação nas regiões marítimas. simbolizadas nos cursos de instrução militar e na continuidade dos exercícios navais conjuntos com os países sulamericanos. à pirataria e ao narcotráfico. no entanto. além de um esforço de envolver a África do Sul nestas manobras. que buscaram garantir uma presença estadunidense na região. Sua presença também é sentida sob forma de pressão ostensiva. A presença dos EUA como potência extrarregional no Atlântico Sul Os EUA estiveram presentes nas relações militares no Atlântico Sul. Para tal. no que se refere à atuação dos EUA para o espaço geográfico do Atlântico Sul. que os Estados Unidos vêm buscando diminuir a sua elevada dependência de petróleo do Oriente Médio. apenas para o combate ao terrorismo. os EUA contam com instalações militares na Ilha de Ascensão. no argumento de que os países do Atlântico Sul não teriam ameaças externas. houve importantes ações e planejamentos estratégicos. Para isso. Assim sendo. Um exemplo do ensejo estadunidense em protagonizar a segurança desta região. que têm sido realizadas bianualmente desde 1993. devendo transformar suas forças navais em milícias armadas . os países costeiros. o que induziria à constatação de que a defesa do espaço marítimo no Atlântico Sul seria garantida pelos EUA (VIDIGAL. Tais exercícios tem tido mais o caráter de fomentar a confiança mútua do que promover o aprestamento contra um inimigo comum (AGUILAR. principalmente em território dos países africanos. para com os países do Atlântico Sul. 1997). É interessante notar também. é importante entender como atuam os Estados Unidos nesse ambiente. sendo esse um dos pontos principais da visão estratégica de longo prazo dos EUA. (Jesus. sejam da América do Sul ou da África. em face da cooperação limitada por parte de outras grandes potências. mesmo sem um arcabouço formal.

para justificar a recriação da IV Esquadra: a definição do terrorismo internacional como principal ameaça. em 8 . Dessa maneira. os exercícios marítimos tradicionais e. tanto a IV Esquadra quanto o AFRICOM seriam manifestações organizacionais desta estratégia. em outubro de 2008. Consequentemente. Dessa maneira. um outro motivo aparente para a criação da Quarta Frota seria justamente o crescimento da exploração de hidrocarbonetos na costa do continente africano. et al. o apoio às operações antidroga. com destaque para as áreas do mar e do espaço não pertencentes a nenhum Estado nacional. a IV Frota trabalha conjuntamente com o Southcom e é responsável também pela região da América Latina. percebe-se que os EUA completaram o estabelecimento de sua capacidade global de projeção de forças. comportando os navios. ou seja. o apoio a operações de manutenção de paz. em julho de 2008. De acordo com as ações mencionadas acima. após o 11 de setembro de 2001. Battaglino (2009) expõe dois argumentos para a expansão da infraestrutura militar global estadunidense. os EUA passam a ter uma estrutura militar que conta com seis Comandos Unificados Combatentes e seis frotas no globo. Logo. principalmente no Golfo da Guiné. quanto como uma demonstração de força e afirmação da presença estadunidense no Atlântico Sul. submarinos e aeronaves que fazem a defesa da área sob responsabilidade do Southcom (Maclay. tanto para o AFRICOM. para alimentar as demandas de gás e petróleo do mundo. 2009:1). o objetivo oficial declarado da IV Frota é estreitar a cooperação e a parceria dos países da região por meio de cinco missões. também. o auxílio a desastres. a presença estadunidense no Atlântico Sul se dá em três ações: o restabelecimento da IV Frota dos EUA. além da potencial produção no Pré-Sal do Brasil. o fortalecimento do United States Southern Command (Southcom) e a criação do Africom. a Quarta Frota não teria relação somente com a área de atuação do Comando Sul dos Estados Unidos. Pela primeira vez. Frente a tal cenário. a assistência humanitária. Pode-se estabelecer ainda a hipótese adicional sobre a reativação da IV Esquadra a partir da ideia de uma força operacional provendo apoio emergencial. e o modo operacional de “vigilância persistente e extensa” que visa ao controle e à ocupação dos chamados “espaços comuns”. (Battaglino 2009:37) A IV Frota é responsável pela segurança do Atlântico Sul. segundo Reis (2011:92). Segundo Maclay et al (2009:1). este movimento de procura por novas fontes de petróleo estaria imbricado com a ativação da 4° Frota.

o AFRICOM foi desenvolvido. em 2006. mas somente passou a aderir à edição dos exercícios a partir de 2012. em março de 2011. Num exemplo mais recente da securitização em curso no Atlântico Sul.face da crescente presença da China e da Rússia na disputa de recursos da região. assim controlando todas as rotas navais que por ali passam. no Golfo da Guiné. que se estende a Cabo Verde. na tarefa de localização e identificação de navios que circulam naquele espaço marítimo. evolvendo atores extrarregionais. 2013:111) Convém ressaltar ainda a formação da Comissão do Golfo da Guiné (CGG). tem- se a realização. (Olive ira. em 2001. de exercício militares em escala inédita. 2013:109) ³ (Imagem 2 e 3) Comando das Esquadras dos EUA . a partir da ideia de aumentar a atual importação de petróleo da “zona de interesse vital” de 16% para 25% em 2015 (GUEDES. que constituía e constitui. Nigéria. e contando com a presença da França. para operações concretas de abordagem e interdição marítima (ALMEIDA e BERNARDINO. 2013:5) 2A AFRICOM atua principalmente no Golfo da Guiné. exceto o Egito. uma enorme vulnerabilidade destes Estados e da região” (ALMEIDA e BERNARDINO. Fonte: Poder Naval Online 9 . (Oliveira. capaz de monitorar todo o Golfo da Guiné. Desde 2009. mas sua jurisdição engloba 53 países africanos. e a criação do AFRICOM pelos EUA2 . intitulados Obangame Express. a componente naval do AFRICOM desenvolve um projeto de assistência naval para dotar os membros do CGG de meios de ação rápida. Espanha. a Marinha estadunidense iniciou um sofisticado sistema de radares de vigilância em São Tomé e Príncipe. Ademais. A crescente atividade de pirataria despertou a necessidade dos países localizados nesta região potencializarem a segurança coletiva na área. 2012). em paralelo. ou “Guarda do Golfo da Guiné”. 2013:3-4). organizados pelos EUA. “nomeadamente a vertente da segurança marítima. Desta maneira. Bélgica. O Brasil foi convidado.Área de Jurisdição de cada uma das frotas numeradas. São Tomé e Príncipe e República do Congo. Gabão.

em especial com os países lindeiros aos Atlântico Sul. sendo uma reação indireta à ingerênc ia extrarregional na área. como a Copa do Mundo e Olimpíadas. Para fins de ilustração. e uma forma de garantir maior presença dos países legitimame nte soberanos da região. ou por intermédio das instituições de suas regiões. como o Fórum da Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (Zopacas). Em suma. Na imagem abaixo. o crescimento da importância estratégica do oceano para a potência estadunidense fez com que esta adotasse uma abordagem que. Os EUA têm reforçado a sua cooperação militar com o Sul-Geopolítico. a exemplo da União Africana. Os investimentos são bastante justificados pelo período de organização dos eventos de grande porte. choca-se com as perspectivas dos países costeiros ao Atlântico Sul. Além disso. situados no sul geopolítico. Ou seja. muitas vezes. os EUA vêm fortalecendo sua presença militar na última década. Fica bem evidente o grande aumento principalmente a partir de 2007. Cooperação em defesa e segurança como instrumento de Projeção dos EUA Há de se ressaltar também outro elemento que reforça o argumento da centralidade das questões estratégicas e militares para manutenção da presença e hegemonia estadunidense no sistema internacional. fica demonstrado o crescimento dos investimentos dos EUA no Brasil para ajuda militar e treinamento de efetivos das Forças Armadas brasileiras. seja por intermédio da cooperação e capacitação das forças navais de países da região. em operações e exercícios milita res. nota-se que dos dois lados do Atlântico Sul. por exemplo. ou até mesmo fortalecendo a iniciativa multilaterais. é esse tipo de ação internacional prévia que tem sido construída no que tange ao contraponto à militarização do oceano. que exigiu um aperfeiçoamento do setor de inteligência das Forças Armadas brasileiras. seja numa ação mais ostensiva. os países que pertencem geograficamente ao Atlântico Sul têm reiterado o interesse em protagonizar e resolver os problemas da região por si só. Entretanto. a despeito da crise financeira que atingiu os EUA. abordar-se-á nesta seção o caso especial de cooperação e participação estadunidense nas forças armadas do Brasil e no reforço da segurança no âmbito cibernético. 10 . por meio da cooperação. para fazer frente a possíveis ameaças transacionais.

e gerou um intercâmbio de informações da ABIN com outros órgãos. por meio da assistência para segurança cibernética. aumentando a capacidade de identificação de ameaças relacionadas ao terrorismo. nesta mesma área. educativos e militares. Soares de Lima. por parte do Brasil um esforço em fortalecer os setores como o cibernético – principalmente mediante a ocorrência dos grandes eventos esportivos –. Fonte: Atlas da Política Brasileira de Defesa. Clacso. os altos investimentos dos EUA. com países do Sul-Geopolítico. Neste período. houve também. Esta cooperação ocorreu na segurança dos grandes eventos esportivos sediados no Brasil. (Milani. 11 . com o reforço da cooperação em segurança cibernética. 2017. denotando um ensejo estadunidense de aprofundar questões de segurança em áreas de interesse estratégicos. principalmente vinculadas a questões de redes de terrorismo e núcleos potenciais de promoção de ataques cibernéticos a sistemas governamentais. com a troca de informações com serviços de inteligência estrangeiros e a cooperação internacional por meio dos adidos de inteligência na Argentina. Nesse tema. 2017:75) Há de se ressaltar. Há também um empenho da ABIN nas ações de contraterrorismo. os EUA exercem papel importante na formação de militares e civis. as autoridades brasileiras buscam que as capacitações nesta área sejam destinadas aos usos industriais. Imagem 04: EUA NA Cooperação Militar. Colômbia e Venezuela.

é possível identificar que o interesse dos EUA em manter o Atlântico Sul como área estável e segura tem vínculo com algumas questões. Nota-se também que eles veem com desprezo a definição do Atlântico Sul como zona de paz e cooperação. Em especial. Ao se considerar o curso dos recentes desenvolvimentos no Atlântico Sul. os EUA tendem a priorizar a força militar. impõe-se a necessidade de construção de um sistema de segurança crível diante da crescente pirataria e de atos terroristas contra estruturas petrolíferas no Golfo da Guiné. Na visão estadunidense. como a China e Rússia. e não somente um fórum diplomático como a ZOPACAS. 2017. Clacso. Fonte: Atlas da Política Brasileira de Defesa. e é exatamente na forma de operacionalizar a estrutura de segurança do Atlântico Sul que se identifica um ponto claro de divergência entre Brasil e EUA. Imagem 05: Cooperação Norte-Sul em Segurança Cibernética. os EUA procuram garantir a segurança das rotas comerciais. sobretudo sua vulnerabilidade energética. neste oceano. poderá dar ensejo a uma sobreposição de sistemas de segurança e defesa com perspectivas e formas operacionais distintas. principalmente quando há uma crescente presença de outras potências extrarregionais. principalmente por este oceano ter se tornado uma das suas principais áreas de fornecimento de petróleo. é possível infer ir que a continuidade da ausência de um sistema de segurança crível. Na defesa de seus interesses mais sensíveis. competindo por mercados e acesso a recursos. que provavelme nte optarão pelo uso militar como meio de enfrentamento de ameaças não-convencionais na região 12 . CONSIDERAÇÕES FINAIS A partir do que foi exposto.

Em particular. enfraquecendo ainda mais os débeis laços em termos de segurança e defesa existentes nas duas margens do Atlântico Sul. o que leva a tendência de que as Marinhas africanas prefiram uma cooperação mais próxima com a Organização a partir das missões navais iniciadas recentemente. Além disto. e àqueles com potencial de se efetivar. a ZOPACAS. Isso afetaria bastante os objetivos brasileiros de buscar uma solução prioritariamente negociada e diplomática. há de se considerar também uma atuação mais assertiva da OTAN no Atlântico Sul. com a estrutura militar dos EUA. Nelson Jobim. a revitalização desta instância tem sido um dos principais meios de reação política brasileira aos mencionados esquemas de segurança e defesa engendrado pelos EUA. 2013:114) Em suma. 13 . em suas zonas jurisdicionais no mar. possibilitando garantir uma atuação efetiva dos países lindeiros ao Atlântico Sul. Isso parece estar em curso no Golfo da Guiné. embora não esclarecesse quais fossem. No tocante ao impacto destas ações para o Brasil. o AFRICOM. nem com os EUA nem com a OTAN. pode-se citar um acontecimento ocorrido em 2010. demandam respostas diferenciadas. são distintas e. há a necessidade de se materializar uma cooperação de defesa em bases mais sólidas. considerando-se a intensificação de atividades criminosas como a pirataria. ressaltando que o Brasil se recusava a aceitar qualquer forma de soberania compartilhada no Atlântico Sul. Em consequência. as preocupações do Ministro Jobim demonstraram forte consonância com o que o Brasil sustenta como instância legítima de concertação. como se pode observar na interação entre a Comissão do Golfo da Guiné. que fique marcada de forma mais definitiva na mentalidade dos governantes. em 2010 em Lisboa. portanto. (Oliveira.sulatlântica. esclarecendo que tanto a presença militar dos EUA quanto a da OTAN eram inoportunas e inadequadas. Jobim reafirmava que as questões de segurança relacionadas às duas esferas do Oceano Atlântico. por exemplo. rechaçou as iniciativas de aproximação da OTAN. Como argumenta Oliveira (2013:114): Na Conferência Internacional sobre o futuro da Comunidade Atlântica. sendo ainda mais eficientes e legítimas quanto menos envolverem organizações ou Estados estranhos à região. formadores de opinião e das sociedades em ambos os lados deste oceano. no Atlântico Sul. quando o então Ministro da Defesa. além da consolidação do fórum da Zopacas em uma rede mais densa e coesa sobre o Atlântico Sul.

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