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GÊNERO: UMA CATEGORIA ÚTIL PARA ANÁLISE HISTÓRICA

JOAN SCOTT

TRADUÇÃO: Christine Rufino Dabat

Maria Betânia Ávila

Texto original: Joan Scott – Gender: a useful category of historical analyses.
Gender and the politics of history. New York, Columbia University Press. 1989.

Nota das tradutoras: A divulgação desta produção foi devidamente autorizada
pela autora, Joan Scott.

Joan Scott é professora da Escola de ciências Sociais do Instituto de altos
Estudos de Princeton, Nova Jersey. É especialista na história do movimento
operário no século XIX e do feminismo na França. É, sem dúvida, uma das
mais importantes teóricas sobre o uso da categoria gênero em história.

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GÊNERO: UMA CATEGORIA ÚTIL PARA ANÁLISE HISTÓRICA

JOAN SCOTT

Gênero: categoria que indica por meio de desinências uma
divisão dos nomes baseada em critérios tais como sexo e
associações psicológicas. Há gêneros masculino, feminino
e neutro. (Dicionário Aurélio Buarque de Holanda).

Os que se propõem a codificar os sentidos das palavras lutam por
uma causa perdida, porque as palavras, como as idéias e as coisas que elas
significam, têm uma história. Nem os professores da Oxford nem a academia
Francesa foram inteiramente capazes de controlar a maré, de captar e fixar os
sentidos livres do jogo da invenção e da imaginação humana. Mary Wortley
Montagu acrescentava a ironia à sua denúncia do “belo sexo” (“meu único
consolo em pertencer a este gênero é ter certeza de que nunca vou me casar
com uma delas”) fazendo uso, deliberadamente errado, da referência
gramatical (1). Ao longo dos séculos, as pessoas utilizaram de forma figurada
os termos gramaticais para evocar traços de caráter ou traços sexuais. Por
exemplo, a utilização proposta pelo Dicionário da Língua Francesa de 1876,
era: “Não se sabe qual é o seu gênero, se é macho ou fêmea, fala-se de um
homem muito retraído, cujos sentimentos são desconhecidos” (2). E Gladstone
fazia esta distinção em 1878: “Atena não tinha nada do sexo, a não ser gênero,
nada de mulher a não ser forma” (3). Mais recentemente – recentemente
demais para que possa encontrar seu caminho nos dicionários ou na
enciclopédia das ciências sociais – as feministas começaram a utilizar a
palavra “gênero” mais seriamente, no sentido mais literal, como uma maneira
de referir-se à organização social da relação entre os sexos. A relação com a
gramática é ao mesmo tempo explícita e cheia de possibilidades inexploradas.
Explícita, porque o uso gramatical implica em regras formais que decorrem da
designação de masculino ou feminino; cheia de possibilidades inexploradas,
porque em vários idiomas indoeuropeus existe uma terceira categoria – o sexo

indefinido ou neutro. Na gramática, gênero é compreendido como um meio de
classificar fenômenos, um sistema de distinções socialmente acordado mais do
que uma descrição objetiva de traços inerentes. Além disso, as classificações
sugerem uma relação entre categorias que permite distinções ou
agrupamentos separados.

No seu uso mais recente, o “gênero” parece ter aparecido primeiro
entre as feministas americanas que queriam insistir no caráter
fundamentalmente social das distinções baseadas no sexo. A palavra indicava
uma rejeição ao determinismo biológico implícito no uso de termos como “sexo”
ou “diferença sexual”. O gênero sublinhava também o aspecto relacional das
definições normativas das feminilidades. As que estavam mais preocupadas
com o fato de que a produção dos estudos femininos centrava-se sobre as
mulheres de forma muito estreita e isolada, utilizaram o termo “gênero” para
introduzir uma noção relacional no nosso vocabulário analítico. Segundo esta
opinião, as mulheres e os homens eram definidos em termos recíprocos e
nenhuma compreensão de qualquer um poderia existir através de estudo
inteiramente separado. Assim, Nathalie Davis dizia em 1975: “Eu acho que
deveríamos nos interessar pela história tanto dos homens quanto das
mulheres, e que não deveríamos trabalhar unicamente sobre o sexo oprimido,
do mesmo jeito que um historiador das classes não pode fixar seu olhar
unicamente sobre os camponeses. Nosso objetivo é entender a importância
dos sexos dos grupos de gênero no passado histórico. Nosso objetivo é
descobrir a amplitude dos papéis sexuais e do simbolismo sexual nas várias
sociedades e épocas, achar qual o seu sentido e como funcionavam para
manter a ordem social e para mudá-la” (4).

Ademais, e talvez o mais importante, o “gênero” era um termo
proposto por aquelas que defendiam que a pesquisa sobre mulheres
transformaria fundamentalmente os paradigmas no seio de cada disciplina. As
pesquisadoras feministas assinalaram muito cedo que o estudo das mulheres
acrescentaria não só novos temas como também iria impor uma reavaliação
crítica das premissas e critérios do trabalho científico existente. “Aprendemos”,
escreviam três historiadoras feministas, “que inscrever as mulheres na história
implica necessariamente a redefinição e o alargamento das noções tradicionais

o seu uso comporta um elenco tanto de posições teóricas. Não existe este tipo de clareza ou coerência nem para a categoria de “raça” nem para a de “gênero”. trabalhamos com ou contra uma série de definições que no caso do Marxismo implica uma idéia de causalidade econômica e uma visão do caminho pelo qual a história avançou dialeticamente. as(os) pesquisadoras(es) de estudos sobre a mulher que tinham uma visão política mais global. tal metodologia implica não só em uma nova história das mulheres. Além disso. outros(as) utilizam a classe como uma fórmula heurística temporária. A maneira como esta nova história iria simultaneamente incluir e apresentar a experiência das mulheres dependeria da maneira como o gênero poderia ser desenvolvido como uma categoria de análise. A ladainha “classe. O interesse pelas categorias de classe. raça e gênero” sugere uma paridade entre os três termos que na realidade não existe. estes três eixos. mas em uma nova história” (5). de raça e de gênero assinalavam primeiro o compromisso do (a) pesquisador(a) com a história que incluía a fala dos(as) oprimidos(as) e com uma análise do sentido e da natureza de sua opressão: assinalava também que esses(as) pesquisadores(as) levavam cientificamente em consideração o fato de que as desigualdades de poder estão organizadas segundo. Enquanto a categoria de “classe” está baseada na teoria complexa de Marx (e seus desenvolvimentos posteriores) da determinação econômica e da mudança histórica. as(os) historiadoras(es) feministas. que como a maioria dos(as) historiadores(as) são formados para ficar mais à vontade com descrição do que com teoria. tentaram cada vez mais buscar formulações . quanto de simples referências descritivas às relações entre os sexos. no mínimo. recorriam regularmente a essas três categorias para escrever uma nova história (6). para incluir tanto a experiência pessoal e subjetiva quanto as atividades públicas e políticas. as de “raça” e de “gênero” não veiculam tais associações. No caso de “gênero”. Não é exagerado dizer que por mais hesitante que sejam os princípios reais de hoje. Alguns(mas) pesquisadores(as) utilizam a noção de Weber.do que é historicamente importante. quando mencionamos a “classe”. Entretanto. Aqui as analogias com a classe e a raça eram explícitas. com efeito. Não há unanimidade entre os(as) que utilizam os conceitos de classe.

a reação da maioria dos(as) historiadores(as) não feministas foi o reconhecimento da história das mulheres para depois descartá-la ou colocá-la em um domínio separado (“as mulheres têm uma história separada da dos homens. que não nos concerne necessariamente” ou “a história das mulheres trata do sexo e da família e deveria ser feita separadamente da história política e econômica”). I Na sua maioria. Primeiro porque a proliferação de estudos de caso na história das mulheres parece exigir uma perspectiva sintética que possa explicar as continuidades e descontinuidades e dar conta das desigualdades persistentes. mas também das experiências sociais radicalmente diferentes. mas também a ligação entre a história do passado e as práticas históricas atuais. No que diz respeito à história das mulheres. Eles(as) fizeram isso pelo menos por duas razões. O desafio lançado por este tipo de reações é. Ele exige a análise não só da relação entre experiências masculinas e femininas no passado. Não foi suficiente para os(as) historiadores(as) das mulheres provar ou que as mulheres tiveram uma história ou que as mulheres participaram das mudanças políticas principais da civilização ocidental.teóricas utilizáveis. as tentativas das(os) historiadoras(es) de teorizar sobre gênero não fugiram dos quadros tradicionais das ciências sociais: . No que diz respeito à participação das mulheres na história e a reação foi um interesse mínimo no melhor dos casos (“minha compreensão da Revolução Francesa não mudou quando eu descobri que as mulheres participaram dela”). Como é que o gênero funciona nas relações sociais humanas? Como é que o gênero dá um sentido à organização e à percepção do conhecimento histórico? As respostas dependem do gênero como categoria de análise. Depois porque a defasagem entre a alta qualidade dos trabalhos recentes da história das mulheres e seu estatuto que permanece marginal em relação ao conjunto da disciplina (que pode ser medida pelos manuais. portanto deixemos as feministas fazer a história das mulheres. um desafio teórico. mostram os limites das abordagens descritivas que não questionam os conceitos dominantes no seio da disciplina ou pelo menos não os questionam de forma a abalar o seu poder e talvez transforma-los. em última análise. programas universitários e monografias).

Em alguns casos. o “gênero” inclui as mulheres sem as nomear. Estas teorias tiveram. A primeira é essencialmente descritiva. Este uso do “gênero” é um aspecto que a gente poderia chamar de procura de uma legitimidade acadêmica pelos estudos feministas nos anos 1980. o termo gênero não implica necessariamente na tomada de posição sobre a desigualdade ou o poder. Neste uso. As abordagens utilizadas pela maioria dos(as) historiadores(as) se dividem em duas categorias distintas. No seu uso recente mais simples. O segundo uso é de ordem causal. buscando entender como e porque aqueles tomam a forma que eles têm. explicar ou atribuir uma causalidade. dissociar-se da política – (pretensamente escandalosa) – do feminismo. no melhor dos casos. trata realmente da aceitabilidade política desse campo de pesquisa. mas também o engajamento feminista na elaboração de análises que levam à mudança.elas(es) utilizaram as formulações antigas que propõem explicações causais universais. nem mesmo designa a parte lesada (e até agora invisível). por conseqüência. O gênero parece integrar-se na terminologia científica das ciências sociais e. Enquanto o termo “história das mulheres” revela a sua posição política ao afirmar (contrariamente às práticas habituais). e parece assim não se constituir em uma ameaça crítica. Livros e artigos de todo o tipo. ela se refere à existência de fenômenos ou realidades sem interpretar. que as mulheres são sujeitos históricos legítimos. Nessas circunstâncias. Um exame crítico destas teorias mostrará os seus limites e permitirá propor uma abordagem alternativa(7). isto é. que tinham como tema a história das mulheres substituíram durante os últimos anos nos seus títulos o termo de “mulheres” pelo termo de “gênero”. “gênero” é sinônimo de “mulheres”. este uso. ele elabora teorias sobre a natureza dos fenômenos e das realidades. . um caráter limitado porque elas tendem a incluir generalizações redutoras ou simples demais: estas minam não só o sentido da complexidade da causalidade social tal qual proposta pela história como disciplina. o uso do termo “gênero” visa indicar a erudição e a seriedade de um trabalho porque “gênero” tem uma conotação mais objetiva e neutra do que “mulheres”. ainda que referindo-se vagamente a certos conceitos analíticos.

esse uso do gênero só se refere aos domínios – tanto estruturais quanto ideológicos – que implicam em relações entre os sexos. uma categoria social imposta sobre um corpo sexuado (8). O seu uso rejeita explicitamente as justificativas biológicas. Este uso insiste na idéia de que o mundo das mulheres faz parte do mundo dos homens. é igualmente utilizado para sugerir que a informação a respeito das mulheres é necessariamente informação sobre os homens. o gênero é igualmente utilizado para designar as relações sociais entre os sexos. a . tem muito pouco ou nada a ver com o outro sexo. estes(as) não colocam entre os dois uma relação simples ou direta. O uso do “gênero” coloca a ênfase sobre todo um sistema de relações que pode incluir o sexo. segundo essa definição. Apesar do fato dos(as) pesquisadores(as) reconhecerem as relações entre o sexo e (o que os sociólogos da família chamaram) “os papéis sexuais”. o gênero dizia respeito apenas a temas como as mulheres. como aquelas que encontram um denominador comum para várias formas de subordinação no fato de que as mulheres têm filhos e que os homens têm uma força muscular superior. as famílias e as ideologias do gênero. uma maneira de indicar as “construções sociais” – a criação inteiramente social das idéias sobre os papéis próprios aos homens e às mulheres. que ele é criado dentro e por esse mundo. porque ele oferece um meio de distinguir a prática sexual dos papéis atribuídos às mulheres e aos homens. Ademais. Porque na aparência a guerra. “Gênero”. as crianças. O gênero se torna. É uma maneira de se referir às origens exclusivamente sociais das identidades subjetivas dos homens e das mulheres. Com a proliferação dos estudos do sexo e da sexualidade. como substituto de “mulheres”. O gênero é. Esse uso rejeita a validade interpretativa da idéia das esferas separadas e defende que estudar as mulheres de forma separada perpetua o mito de que uma esfera. Esses usos descritivos do gênero foram utilizados pelos(as) historiadores(as) na maioria dos casos. que um implica no estudo do outro. o gênero se tornou uma palavra particularmente útil. a experiência de um sexo. para mapear um novo terreno. Na medida em que os(as) historiadores(as) sociais se voltavam para novos temas de estudo. Em outros termos. aliás. Mas isso é só um aspecto. mas que não é diretamente determinado pelo sexo nem determina diretamente a sexualidade.

continua irrelevante para a reflexão dos(as) historiadores(as) que trabalham sobre o político e o poder. Isso tem como resultado a adesão a certa visão funcionalista baseada. frequentemente. Os (as) historiadores(as) feministas utilizaram toda uma série de abordagens nas análise do gênero. ou ainda. entretanto. ele não diz como elas funcionam ou como elas mudam. Alguns(mas) historiadores(as) estavam. ele não diz nada sobre as razões pelas quais essas relações são construídas como são. que era concebida em termos gerais ou universais. O “gênero” é um novo tema. tão escondida que esses estudos não podem ser utilizados como modelos para outras pesquisas. portanto. ou pior. porque elas se embasam nas teorias universais e só conseguem mostrar temas imutáveis. sobre a biologia e a perpetuação da idéia das esferas separadas na escritura da história (a sexualidade ou a política. com a história que estava tratando do estudo de contextos específicos e da mudança fundamental. ou então. novo campo de pesquisas históricas. parece digno de interesse empregar algum tempo nesse exame. conscientes desse problema. a família ou a nação. naturalmente. Como. No seu uso descritivo o “gênero” é portanto um conceito associado ao estudo das coisas relativas às mulheres. De fato o desafio é a reconciliação da teoria. daí os esforços para empregar teorias que possam explicar o conceito de gênero e explicar a mudança histórica. que empregam os seus preceitos sem ter consciência das suas implicações. as mulheres ou os homens).diplomacia e a alta política não têm explicitamente a ver com essas relações. mas ele não tem a força de análise suficiente para interrogar (e mudar) os paradigmas históricos existentes. tentativas para esclarecer a mudança. em última análise. O resultado foi muito eclético: empréstimos parciais que enviesam a força de análise de uma teoria particular. O gênero parece não se aplicar a esses objetivos e. estudos maravilhosos e cheios de imaginação nos quais a teoria é. Mesmo se nesse uso o termo “gênero” afirma que as relações entre os sexos são sociais. mas estas podem ser resumidas em três . É unicamente através de tal exercício que se pode avaliar a utilidade dessas teorias e talvez articular uma abordagem teórica mais poderosa. as teorias que inspiraram os(as) historiadores(as) não foram claramente articuladas em todas as suas implicações.

“O homem come a mulher: sujeito. os grupos de consciência. para outras a resposta se encontrava na sexualidade em si. Se a reprodução era a chave do patriarcado para algumas. a construção à expressão. Mary O’Brien. fundamentalmente dividida entre o pós-estruturalismo francês e as teorias anglo-americanas das relações de objeto.posições teóricas(9). inspira-se nas várias escolas de psicanálise para explicar a produção e a reprodução da identidade de gênero do sujeito. A segunda se situa no seio de uma tradição marxista e procura um compromisso com as críticas feministas. no entanto. A terceira. a libertação das mulheres viria das transformações da tecnologia de reprodução. define a dominação masculina como um efeito do desejo dos homens de transceder a sua privação dos meios de reprodução da espécie. a percepção à coerção. Na adaptação engenhosa de Hegel. numa avaliação das contradições entre a natureza do trabalho reprodutivo das mulheres e a mistificação ideológica (masculina) deste (10). a reprodução era também aquela “amarga armadilha” para as mulheres. A primeira. na sua análise mais materialista. o mito à realidade. “A reificação sexual é o processo primário da sujeição das mulheres. no lugar do materialismo dialético. mas ao mesmo tempo são características de certa abordagem. um esforço inteiramente feminista que tenta explicar as origens do patriarcado. Para Sulamith Firestone. que poderia no futuro próximo eliminar a necessidade do corpo das mulheres como agentes de reprodução da espécie (11). MacKinnon propôs como método de análise feminista. Continuando a sua analogia com Marx. As formulações audaciosas de Catherine Mackinnon são criações próprias. verbo. O princípio da continuidade de geração restitui a primazia da paternidade e obscurece o labor real e a realidade social do trabalho das mulheres no parto. A fonte da libertação das mulheres se encontra “numa compreensão adequada do processo de reprodução”. “A sexualidade é para o feminismo o que o trabalho é para o marxismo: o que nos pertence mais e. Ele alia o ato à palavra. nos é mais alienado”. Entretanto. Expressando a experiência comum de reificação. objeto”(12). As teóricas do patriarcado concentraram sua atenção na subordinação das mulheres e encontraram a explicação na “necessidade” do macho dominar as mulheres. dizia .

a não historicidade do gênero em si. Toda a diferença física tem um caráter universal e imutável mesmo quando as teóricas do patriarcado levam em consideração a existência de mudanças nas formas e nos sistemas de desigualdade no gênero (14). não tem nada – fora a inerente desigualdade de relação sexual em si – que possa explicar porque o sistema de poder funciona assim. as relações desiguais entre os sexos. De certo ponto de vista. ou que ela venha pela reificação sexual das mulheres pelos homens. apesar do fato de que as relações sexuais sejam definidas como sociais. afinal de contas. a análise baseia-se na diferença física. No caso em que se propõe uma solução baseada no duplo sistema (composto de dois domínios: o . As feministas marxistas têm uma abordagem mais histórica. Apesar dela afirmar que a desigualdade – que tem as suas origens na sexualidade – está integrada em “todo o sistema de relações sociais”. enquanto estas propõem uma análise interna ao sistema de gênero. que a dominação venha na forma da apropriação masculina do labor reprodutivo da mulher. as mulheres são levadas a compreender a sua identidade comum e são levadas para a ação política. As teóricas do patriarcado questionaram a desigualdade entre homens e mulheres de várias maneiras importantes. a história se torna um epifenômeno que oferece variações intermináveis sobre o tema imutável de uma desigualdade de gênero fixa. Primeiro. Mas as teorias do patriarcado não explicam o que é que a desigualdade de gênero tem a ver com as outras desigualdades. A fonte das relações desiguais entre os sexos é. afirmam igualmente a primazia desse sistema em relação à organização social no seu conjunto. Segundo. mas para os(as) historiadores(as) as suas teorias colocam alguns problemas. já que elas são guiadas por uma teoria da história.ela. Na análise de MacKinnon. Mas quaisquer que sejam as variações e as adaptações. Uma teoria que se baseia na variável única da diferença física é problemática para os(as) historiadores(as): ela pressupõe um sentido coerente ou inerente ao corpo humano – fora qualquer construção sócio-cultural – e portanto. o fato de que elas se impõem a exigência de encontrar uma explicação “material” para o gênero limitou ou pelo menos atrasou o desenvolvimento de novas direções de análise. ela não explica como esse sistema funciona (13).

como no caso em que a análise desenvolvida se refere mais estritamente aos debates marxistas ortodoxos sobre os modos de produção. são produtos da mudança dos modos de produção. “A . É assim que Engels concluía as suas explorações na Origem da Família (15). Uma tentativa importante de sair desse círculo vem de Joan Kelly no seu ensaio “A Dupla Visão da Teoria Feminista”. famílias. que são separados. o caráter fútil da integração dos “modos de reprodução” nos debates sobre os modos de produção (que reprodução permanece uma categoria oposta e não tem um estatuto equivalente ao de modo de produção). inclusive no que diz respeito à determinação dos sistemas de gênero. mas sua vontade de permanecer no quadro marxista levou-a a dar ênfase à causalidade econômica. é sobre isso que se baseia a análise da economista Heidi Hartmann. mas em interação). mas que ambos “operavam simultaneamente para reproduzir as estruturas sócio-econômicas e as estruturas de dominação masculina de uma ordem social particular”. Os primeiros debates entre as feministas marxistas giravam em torno dos mesmos problemas: a rejeição do essencialismo daqueles que defendem que “as exigências da reprodução biológica” determinavam a divisão sexual do trabalho pelo capitalismo. apesar de tudo. A idéia de Kelly de que os sistemas de “gênero” teriam uma existência independente se constitui numa abertura conceitual decisiva. a causalidade econômica se torna prioritária e o patriarcado está sempre se desenvolvendo e mudando como uma função das relações de produção (16). Afinal de contas.patriarcado e o capitalismo. na medida em que desenvolve a sua argumentação. mas em interação. de uma explicação materialista que exclua as diferenças físicas e naturais (17). que nenhum dos dois sistemas era casual. a explicação das origens e das transformações de sistemas de gêneros se encontra fora da divisão sexual do trabalho. o reconhecimento que os sistemas econômicos não determinam de forma direta as relações de gênero e que de fato a subordinação das mulheres é anterior ao capitalismo e continua sob o socialismo. Porém. lares e sexualidade. a busca. onde ela defende que os sistemas econômicos e os sistemas de gênero agiam reciprocamente uns sobre os outros para produzir experiências sociais e históricas. Ela insiste sobre a necessidade de considerar o patriarcado e o capitalismo como dois sistemas separados.

sobretudo. um pressuposto tácito que percorre o volume segundo o qual o marxismo poderia ser alargado para incluir as discussões sobre a ideologia. muitas vezes. pela convicção de que a “revolução sexual” contemporânea exige uma análise séria. e que esse alargamento será efetuado através de pesquisas sobre dados concretos de tal abordagem é que ela evita divergências agudas. um volume de ensaios publicados em 1983 (19). no entanto. Influenciadas pela importância crescente que é dada pelos militantes políticos e os pesquisadores da sexualidade. Em vez disso há. o mais tocante nesse volume é a falta de unanimidade analítica e consequente clima de tensão na análise. Se as autoras individuais têm tendência a sublinhar a causalidade dos contextos sociais (que designam freqüentemente o econômico).relação entre os sexos ocorre em função de estruturas de gênero” (18). eles colocaram a questão da causalidade e propuseram uma série de soluções. a política deveria integrar em sua análise a atenção “sobre componentes eróticos e fantasmáticos na vida humana”. o uso que ela fazia do “social” era concebido em termos de relações econômicas de produção. De um lado as responsáveis pela antologia adotam o argumento de Jessica Benjamin. mas por outra parte. pela insistência do filósofo francês Michel Foucault sobre o fato de que a sexualidade é produzida em contextos históricos. Desta maneira. A análise da sexualidade. a cultura e a psicologia. Kelly introduziu a idéia de uma “realidade social baseada no sexo”. Se falam às vezes que a “ideologia de gênero” “reflete” as estruturas econômicas e sociais. De fato. que foi mais longe entre as feministas marxistas americanas se encontra no “Powers of Desire” (“Poderes do Desejo”). elas sugerem a necessidade de estudar “a estruturação psíquica da identidade de gênero”. segundo o qual. mas ela tinha tendência a enfatizar o caráter social mais do que o sexual dessa realidade e. os autores centraram suas interrogações sobre a “política da sexualidade”. também reconhece de forma crucial a necessidade de se compreender a “ligação” complexa “entre a sociedade e uma estrutura psíquica persistente” (20). e a sua desvantagem é que ela deixa intacta uma teoria . nenhum ensaio além do de Benjamin aborda plenamente ou seriamente as questões teóricas que ela coloca (21).

escolham hoje uma ou outra dessas posições teóricas (23). a escola Francesa baseia-se nas leituras estruturalistas e pós-estruturalistas de Freud. A dificuldade para as feministas inglesas e americanas que trabalham nos quadros do marxismo é aparente nas obras que eu mencionei aqui.já inteiramente articulada que leva mais uma vez a pensar as relações de sexo baseadas nas relações de produção. no contexto das teorias da linguagem (para as feministas a figura central é Jacques Lacan). Além disso. No interior do marxismo. Essa dificuldade se expressa da forma mais espetacular nos recentes debates que foram publicados na New Left Review entre Michele Barret e seus(suas) críticos(as). O trabalho de Gilligan inspira-se no trabalho de Chodorow. O problema com o qual elas se defrontam é o inverso daqueles que a teoria do patriarcado coloca. e que tinham insistido na possibilidade de certa fusão entre os dois. Ela se expressa também pelo fato de que os pesquisadores que tinham iniciado uma tentativa feminista de reconciliação entre a psicanálise e o marxismo. revela que as inglesas têm tido mais dificuldades em desafiar os limites de explicações estritamente deterministas. . mesmo se ele enfoca menos a construção Anglo-Americana. já que se teve a tendência a classificar as diferenças da abordagem segundo as origens nacionais dos seus fundadores ou da maioria daqueles e daquelas que os aplicam. o trabalho de Carol Gilligan tem tido um impacto muito grande sobre a produção científica americana. A Escola Anglo-Americana trabalha com os termos de teorias de relações de objeto “Object Relations-Theory”. o conceito de gênero foi por muito tempo tratado como subproduto de estruturas econômicas mutantes: o gênero não tem tido o seu próprio estatuto de análise. Um exame da teoria psicanalítica exige uma distinção entre as escolas. que a acusavam de abandonar uma análise materialista da divisão sexual do trabalho no capitalismo (22). Uma comparação entre as tentativas das feministas marxistas americanas – exploratórias e relativamente abrangentes – e as das suas homólogas inglesas. mais estreitamente ligadas à política de uma tradição marxista forte e viável. Nos Estados Unidos o nome de Nancy Chodorow é o mais associado a essa abordagem. inclusive na área da História.

as duas centram o seu interesse nas primeiras etapas do desenvolvimento da criança com o objetivo de encontrar indicações sobre a formação da identidade de gênero. Minhas reticências frente à teoria das relações de objeto provêm do seu literalismo. interpretação e representação de gênero (para os pós-estruturalistas. por essa razão. particularmente. é o lugar de emergência da divisão sexual e. Tanto a divisão do trabalho na família quanto as tarefas atribuídas a cada um dos pais têm um papel crucial na teoria de Chodorow. ou porque elas parecem oferecer uma formulação teórica importante no que diz respeito ao gênero. um lugar de instabilidade constante para o sujeito sexuado. com os seus pais).. Ademais. nenhuma dessas teorias me parece inteiramente utilizável pelos(as) historiadores(as). que par Chodorow é. têm relações com as pessoas que cuidam dela e. Para as lacanianas o inconsciente é um fator decisivo na construção do sujeito. linguagem não designa unicamente as palavras. ou porque elas permitem fundamentar conclusões particulares para observações gerais. ao passo que os pós-estruturalistas sublinham o papel central da linguagem na comunicação. as ordens simbólicas que antecedem o domínio da palavra propriamente dita. do fato de que ela faz depender a produção da identidade de gênero e a gênese da mudança. mas os sistemas de significação. aquelas que têm problemas com a teoria feminista se viram em direção a Lacan. em última instância. As teóricas das relações de objeto colocam a ênfase sobre a influência da experiência concreta (a criança vê. Afinal de contas. suscetível de compreensão consciente enquanto para Lacan não o é. ouve. um olhar mais atento sobre cada uma delas poderia ajudar a explicar o porquê. Outra diferença entre essas duas escolas de pensamento diz respeito ao inconsciente. As duas escolas se interessam pelos processos através dos quais foi criada a identidade do sujeito. de estruturas de interrelação relativamente pequenas. Nos anos recentes as historiadoras feministas têm sido atraídas por essa teoria.. O produto do sistema dominante ocidental é uma divisão nítida entre masculino e feminino: . da leitura e da escrita). Cada vez mais. os(as) historiadores(as) que trabalham com o conceito de “cultura feminina” citam as obras de Chodorow e Gilligan como provas e como explicações das suas interpretações. naturalmente.

Sem dúvida está implícito que as disposições sociais que exigem que os pais trabalhem e as mães cuidem da maioria das tarefas de criação dos filhos. O drama Edipiano faz com que a criança conheça os termos da interação cultural. o falo tem que ser lido de forma metafórica. o sentido masculino do Eu é fundamentalmente separado do mundo” (24). da sua identificação imaginária (ou fantasmática) com a masculinidade ou feminilidade. Essa interpretação limita o conceito de gênero à esfera da família e à experiência doméstica. Mas a origem dessas disposições sociais não está clara.“o sentido feminino do Eu é fundamentalmente ligado ao mundo. Não se encontra também nenhuma interrogação sobre o problema da desigualdade em oposição àquele da simetria. estruturam a organização da família. é a chave de acesso da criança à ordem simbólica. se os pais fossem mais envolvidos nos deveres parentais e mais presentes nas situações domésticas os resultados do drama edipiano seriam provavelmente diferentes (25). Através da linguagem é construída a identidade de gênero. A relação da criança com a Lei depende da diferença sexual. às maneiras como as sociedades representam o gênero. políticos ou de poder. as regras da lei (do pai). o utilizam para articular regras de relações sociais ou para construir o sentido da experiência. já que a ameaça de castração representa o poder. A linguagem é o centro da teoria lacaniana. Segundo Chodorow. e para o(a) historiador(a) ela não deixa meios de ligar esse conceito (nem o indivíduo) com outros sistemas sociais. Como podemos explicar no seio dessa teoria a associação persistente da masculinidade com o poder e o fato de que os valores mais altos estão investidos na virilidade do que na feminilidade? Como podemos explicar o fato de que as crianças aprender essas associações e avaliações mesmo quando elas vivem fora de lares nucleares ou dentro de lares onde o marido e a mulher dividem as tarefas parentais? Eu acho que não podemos fazer isso sem dar certa atenção aos sistemas de significados. Em outros termos. Segundo Lacan. já que a relação feminina com o falo é . não tem sentido. e sem processo de significação. isto é. nem o porquê delas serem articuladas em termos da divisão sexual do trabalho. não tem experiência. Sem o sentido. econômicos. a imposição das regras da interação social é inerente e especificamente de gênero.

Desejos reprimidos são presentes no inconsciente e constituem uma ameaça permanente para a estabilidade da identificação de gênero. Portanto. ela não permite a introdução de uma noção de especificidade e de variabilidade históricas. as identidades subjetivas são processos de diferenciação e de distinção. O falo é o único significante. que exigem a supressão das ambigüidades e dos elementos opostos a fim de assegurar (de criar a ilusão de) uma coerência e uma compreensão comuns. previsível. Da mesma forma que os sistemas de significações. negando sua unidade e subvertendo sua necessidade de segurança. No entanto me incomoda a fixação exclusiva sobre as questões relativas ao sujeito individual e a tendência a reificar como a dimensão principal do gênero. o processo de construção do sujeito de gênero é. a teoria tende a universalizar as categorias e a relação entre o masculino e o feminino. A conseqüência para os(as) historiadores(as) é uma leitura redutora dos dados do passado. Esse tipo de interpretação torna problemáticas as categorias “homem” e “mulher” sugerindo que o masculino e o feminino não são características inerentes e sim construções subjetivas (ou fictícias). já que é sempre o mesmo. já que elas variam segundo os usos do contexto. as idéias conscientes do masculino e do feminino não são fixas. Essa interpretação implica também que o sujeito se encontra num processo constante de construção e oferece um meio sistemático de interpretar o desejo consciente e inconsciente. extremamente instável.obrigatoriamente diferente da relação masculina. Enquanto tal eu acho instrutiva. mesmo ficando em aberto a maneira como o “sujeito” é construído. existe sempre um conflito entre a necessidade que o sujeito tem de uma aparência de totalidade e a imprecisão da terminologia. Ademais. a relatividade do seu significado e sua dependência em relação à repressão (26). mesmo quando ela aparece como sendo coerente e fixa. em última instância. Mesmo se esta teoria leva em consideração as relações sociais. relacionando a castração com a proibição e a lei. Ademais. o antagonismo subjetivamente produzido entre homens e mulheres. é de fato. referindo-se à linguagem como um lugar adequado para a análise. O princípio de masculinidade baseia-se na repressão necessária dos aspectos femininos – do potencial bissexual do sujeito – e introduz o conflito na oposição entre o masculino e o feminino. Se nós . Mas a identificação de gênero.

em termos de diferenças de “experiências” (de realidade vivida). justamente. Não é surpreendente que os(as) historiadores(as) das mulheres tenham retomado suas idéias e as tenham utilizado para explicar as “vozes diferentes” que o seu trabalho lhes havia permitido ouvir. ou então o fato de que eu ainda não consegui me desfazer da “episteme” que Foucault chamava de Idade Clássica. É exatamente essa oposição. De fato. Falta uma maneira de conceber a “realidade social” em termos de gênero. Os problemas com esses empréstimos são diversos e logicamente conectados (30). com todo o seu tédio e sua monotonia que (para voltar aos anglo-saxônicos) é colocada em evidência pelo trabalho de Carol Gilligan. Se o antagonismo é sempre latente. O . não há meio de precisar estes contextos nos termos propostos por Lacan. ele projeta certa dimensão eterna. mesmo na tentativa de Lauretis a realidade social (isto é “as relações materiais. Essa perpetua. é possível que a história não possa oferecer uma solução. a formulação de Alexander contribui para a fixação da opinião binária masculino-feminino. como a única relação possível e como um aspecto permanente da condição humana. o que Denise Riley chama de “insuportável aparência de eternidade da polaridade sexual”.pensarmos a construção da subjetividade em contextos históricos e sociais como sugere a teórica de cinema Teresa de Lauretis. mas unicamente a reformulação e reorganização permanente da simbolização da diferença e da divisão sexual do trabalho” (28). Talvez seja o meu otimismo incurável que me deixa cética frente a esta formulação. mesmo quando ela tem historicidade como em Sally Alexander. mais do que coloca em questão. Sua leitura de Lacan a conduziu à conclusão de que o “antagonismo entre os sexos é um aspecto inevitável da aquisição da identidade sexual. O problema do antagonismo sexual nessa teoria tem dois aspectos: primeiro.. Riley escreve: “o caráter historicamente construído da oposição (entre o masculino e o feminino) produz como um dos seus efeitos. Seja o que for. econômicas e interpessoais que são de fato sociais.. históricas”) parecem se situar à revelia do sujeito (27). a aparência de uma oposição invariável e monótona entre homens e mulheres”(29). e numa perspectiva mais ampla. Gilligan explica os diferentes modos de desenvolvimento moral dos meninos e das meninas.

Temos que ficar mais atentas às distinções entre nosso vocabulário de análise e o material que queremos analisar. Gilligan e outros extrapolam sua própria descrição. se não essencialista. Precisamos rejeitar o caráter fixo e permanente da oposição binária. nas discussões da “cultura feminina”. sem parar. Se utilizarmos a definição da desconstrução de Jacques Derrida. Apesar do fato de que elas insistem na reavaliação da categoria do “feminino” (Gilligan sugere que as escolhas morais das mulheres poderiam ser mais humanas do que as dos homens) elas não tratam da oposição binária em si mesma. as feministas reforçam o tipo de pensamento que elas queriam combater. baseados numa pequena amostra de alunos americanos do fim do século XX para todas as mulheres. esta crítica significa analisar no seu . nossas análises à autocrítica. para chegar à: “as mulheres pensam e escolhem esse caminho porque elas são mulheres”. Com efeito. precisamos de uma historicização e de uma desconstrução autêntica dos termos da diferença sexual. levadas por certos(as) historiadores(as) que coletando seus dados desde as santas da Idade Média até as militantes sindicalistas modernas. estabelecida sempre da mesma forma. as nossas categorias à crítica. particularmente. uma comparação dessa série de artigos com as teorias de Gilligan mostra o quanto a sua noção é ahistórica. Temos que encontrar os meios (mesmo imperfeitos) de submeter. de mulheres.primeiro problema que esse tipo de empréstimo coloca é um deslizamento que acontece freqüentemente na atribuição da causalidade: a argumentação começa com a afirmação do tipo “a experiência das mulheres levam-nas a fazer escolhas morais que dependem dos contextos e das relações”. que podemos encontrar no Simpósio de Feminist Studies de 1980 (32). os utilizam como prova da hipótese de Gilligan que diz que a preferência feminina pelo relacional é universal (31). mas não exclusivamente. Essa extrapolação é evidente. Insistindo de forma simplificada nos dados históricos e nos resultados mais heterogêneos sobre o sexo e o raciocínio moral para sublinhar a diferença sexual. Encontramos implicadas nessa abordagem a noção a-histórica. Esse uso das idéias de Gilligan se coloca em oposição flagrante com as concepções mais complexas e históricas da “cultura feminina”. definindo a categoria mulher/homem como uma oposição binária que se auto-reproduz.

outras reconheceram uma “questão feminina”. A história do pensamento feminista é uma história de recusa da construção hierárquica da relação entre masculino e feminino. para insistir sobre o caráter inadequado das teorias existentes em explicar desigualdades persistentes entre mulheres e homens. Elas estão ausentes na maior parte das teorias sociais formuladas desde o século XVIII até o começo do século XX. II As preocupações teóricas relativas ao gênero como categoria de análise só apareceram no final do século XX. só fizeram isto durante anos. nos seus contextos específicos é uma tentativa de reverter ou deslocar seus funcionamentos. Em certo sentido as feministas. De fato. revertendo e deslocando a sua construção hierárquica. como o meio de falar de sistemas de relações sociais ou entre os sexos. A meu ver é significativo que o uso da palavra gênero tenha emergido num momento de grande efervescência que em certos casos toma a forma de uma evolução dos paradigmas científicos em direção a paradigmas literários (da ênfase colocada sobre a causa em direção à ênfase colocada sobre o sentido. em lugar de aceitá-la como real. Os(as) historiadores(as) feministas estão atualmente em condições de teorizar as suas práticas e de desenvolver o gênero como uma categoria de análise. entre aqueles que defendem e aqueles . sem dúvida. como óbvia ou como estando na natureza das coisas (33). Em outros casos. essa evolução toma a forma de debate teórico entre aqueles que afirmam a transparência dos fatos e aqueles que insistem sobre a idéia de que qualquer realidade é interpretada ou construída. misturando os gêneros da pesquisa segundo a formulação do antropólogo Clifford Geertz) (34). não tinha aparecido.contexto a maneira como opera qualquer oposição binária. outras ainda preocuparam-se com a formação da identidade sexual subjetiva. Esta falta poderia explicar em parte a dificuldade que as feministas contemporâneas têm tido de integrar o termo gênero em conjuntos teóricos pré-existentes e em convencer os adeptos de uma ou de outra escola teórica que o gênero faz parte do seu vocabulário. O termo gênero faz parte das tentativas levadas pelas feministas contemporâneas para reivindicar certo campo de definição. algumas dessas teorias construíram a sua lógica sob analogias com a oposição masculino/feminino. mas o gênero.

tem espaço para um conceito de realização . É nesse espaço que nós devemos articular o gênero como uma categoria de análise. O que poderiam fazer os(as) historiadores(as) que afinal de contas viram a sua disciplina rejeitada por certos teóricos recentes como uma relíquia do pensamento humanista? Eu não acho que tenhamos que deixar os arquivos ou abandonar o estudo do passado. Temos que nos perguntar mais freqüentemente como as coisas aconteceram para descobrir porque elas aconteceram. Segundo a formulação de Michelle Rosaldo temos que procurar não uma causalidade geral e universal. pois ambos têm uma importância crucial para compreender como funciona o gênero e como se dá a mudança. Temos que examinar atentamente os nossos métodos de análise. precisamos substituir a noção de que o poder social é unificado. coerente e centralizado por alguma coisa que esteja próxima do conceito foucaultiano de poder. mas uma explicação significativa: “Me parece agora que o lugar das mulheres na vida social-humana não é diretamente o produto do que ela faz. entendido como constelações dispersas de relações desiguais constituídas pelo discurso nos “campos de forças”(36). clarificar as nossas hipóteses operativas e explicar como pensamos que a mudança se dá. mas são processos que temos que ter sempre presentes em mente.que colocam em questão a idéia de que o “homem” é o senhor racional do seu próprio destino. as feministas não só começaram a encontrar uma via teórica própria. do lado da crítica da ciência desenvolvida pelas ciências humanas e da crítica do empiricismo e do humanismo que desenvolvem os pós-estruturalistas. mas eu acho. Para fazer surgir o sentido temos que tratar do sujeito individual tanto quanto da organização social e articular a natureza das suas interrelações. No espaço aberto por esse debate. temos que conceber processos tão ligados entre si que não poderiam ser separados. É evidente que escolhemos problemas concretos para estudar e esses problemas constituem começos ou tomadas sobre processos complexos. mas do sentido que as suas atividades adquirem através da interação social concreta (35)”. Em lugar de procurar as origens únicas. como elas também encontraram aliados cientistas e políticos. que temos que mudar alguns dos nossos hábitos de trabalho e algumas das questões que colocamos. No seio desses processos e estruturas. Enfim. em contrapartida.

quais suas modalidades. uma vida. A posição que emerge como dominante é. o gênero implica quatro elementos relacionados entre si: primeiro – símbolos culturalmente disponíveis que evocam representações múltiplas (freqüentemente contraditórias) – Eva e Maria. Esses conceitos são expressos nas doutrinas religiosas. como símbolo da mulher. um conjunto de relações. as questões interessantes são: quais as representações simbólicas evocadas. mas a direção da mudança não segue necessariamente um sentido único. na tradição cristão do Ocidente.humana como um esforço (pelo menos parcialmente racional) de construir uma identidade. por exemplo. Para os(as) historiadores(as). da purificação e da poluição. O núcleo essencial da definição baseia-se na conexão integral entre duas proposições: o gênero é um elemento constitutivo de relações sociais baseado nas diferenças percebidas entre os sexos. o jogo de invenção metafórica e de imaginação. Minha definição de gênero tem duas partes e várias sub-partes. declarada a única possível. Elas são ligadas entre si. de resistência e de reinterpretação. e o gênero é uma forma primeira de significar as relações de poder. mas também mitos da luz e da escuridão. educativas. mas deveriam ser analiticamente distintas. As mudanças na organização das relações sociais correspondem sempre à mudança nas representações de poder. A história posterior é escrita como se essas posições normativas fossem o produto de um consenso social e não de um conflito. científicas. em que contextos? Segundo – conceitos normativos que colocam em evidência interpretações do sentido dos símbolos que tentam limitar e conter as suas possibilidades metafóricas. é isto que deveria preocupar os(as) historiadores(as). De fato essas afirmações normativas dependem da rejeição ou da repressão de outras possibilidades alternativas e às vezes têm confrontações abertas ao seu respeito quando e em que circunstâncias. políticas ou jurídicas e tipicamente tomam a forma de uma oposição binária que afirma de forma categórica e sem equívoco o sentido do masculino e do feminino. Como elemento constitutivo das relações sociais fundadas sobre diferenças percebidas entre os sexos. apesar de tudo. Um exemplo desse tipo . da inocência e da corrupção. uma sociedade dentro de certos limites e com a linguagem – conceitual – que ao mesmo tempo coloque os limites e contenha a possibilidade de negação.

de história é fornecido pelo tratamento da ideologia vitoriana da mulher no lar. descobrir a natureza do debate ou da repressão que leva a aparência de uma permanência eterna na representação binária dos gêneros. como se ela só tivesse sido colocada em questão posteriormente. O gênero é construído através do parentesco. pelo menos na nossa sociedade. uma descrição da "transformação da sexualidade biológica dos indivíduos na medida em que . notadamente antropólogos(as) reduziram o uso da categoria de gênero ao sistema de parentesco (fixando o seu olhar sobre o universo doméstico e na família como fundamento da organização social). supostamente mais autêntico. a educação (as instituições de educação socialmente masculinas. enquanto que na realidade tem poucos antecedentes históricos que testemunhariam a realização inconteste de um tal papel. ele é construído igualmente na economia. para as sociedades modernas complexas) o mercado de trabalho (um mercado de trabalho sexualmente segregado faz parte do processo de construção do gênero). Alguns(mas) pesquisadores(as). na organização política e. opera atualmente de forma amplamente independente do parentesco. não mistas ou mistas fazem parte do mesmo processo). Não tem muito sentido limitar essas instituições à sua utilidade funcional para os sistemas de parentesco. mas não exclusivamente. enquanto que ela foi tema permanente de divergências de opinião. Precisamos de uma visão mais ampla que inclua não só o parentesco. como se ela fosse criada num bloco só. Esse é o terceiro aspecto das relações de gênero. O quarto aspecto do gênero é a identidade subjetiva. Um outro exemplo vem dos grupos religiosos fundamentalistas de hoje que querem necessariamente ligar as suas práticas à restauração do papel “tradicional” das mulheres. Esse tipo de análise tem que incluir uma noção do político. ou sustentar que as relações contemporâneas entre homens e mulheres são produtos de sistemas anteriores de parentesco baseados nas trocas de mulheres (37). O objetivo da nova pesquisa histórica é explodir a noção de fixidade. o sistema político (o sufrágio masculino universal faz parte do processo de construção do gênero). Estou de acordo com a formulação da antropóloga Gayle Rubin de que o psicanálise oferece uma teoria importante sobre a reprodução do gênero. mas também (em particular. tanto quanto uma referência às instituições e organizações sociais.

assim. como demostraram Mrinalini Sinha y Lou Ratté em seus respectivos estudos sobre os termos da construção de identidade de gênero por administradores coloniais britânicos na Índia e hindus educados na Grã Bretanha que se revelaram líderes nacionalistas antiimperialistas (40). contudo. Ainda. porque esse pensamento. se desenvolve em minha segunda proposta: o gênero é uma forma primária de relações significativas de poder. até agora. as biografias: a interpretação de Lou Andreas Salomé por Biddy Martin. de fato. A primeira parte de minha definição de gênero consiste. precisam investigar as maneiras pelas quais identidades de gênero são substancialmente construídas e relacionar suas descobertas a uma variedade de atividades. ou. Historiadora(e)s. mas parece ser uma forma persistente e recorrente de facilitar a significância do poder nas . nestes quatro elementos e nenhum de seus componentes opera sem os outros. homens e mulheres reais nem sempre ou literalmente preenchem os termos das prescrições da sociedade em nossa categoria de analíticas. a vida de Jacqueline Hall escrita Por Jessie Daniel Ames e a análise de Charlotte Perkins Gilman. Trabalhos coletivos são também possíveis. organizações sociais e representações culturais historicamente específicas. Uma questão para a investigação histórica. Poderia melhor dizer que o gênero é o campo primário dentro do qual o por meio do qual se articula o poder. O esquema que eu propus do processo de construção das relações de gênero pode ser usado para discutir classes. A teorização do gênero. e não é de surpreender. Não é o gênero do único campo. eles não operam simultaneamente. de Mary Hill (39). no entanto. Os melhores esforços em este campo foram realizados. se nega o essencial da pesquisa histórica. não é feito com de modo preciso e sistemático. Pero a pretensão universal da psicanálise me faz hesitar. como se um pudesse simplesmente ser o reflexo dos outros. qualquer processo social. Além disso. raças.são aculturados" (38). etnicidade. o retrato que Kathryn Sklar fez de Catherine Beecher. historiadora(e)s precisam trabalhar de um modo mais histórico. Minha intenção era clarificar e especificar como é necessário pensar sobre o efeito do gênero nas relações sociais e institucionais. Se a identidade de gênero se baseia só e universalmente no medo da castração. Ainda que a teoria de Lacan possa ser útil para pensar sobre a construção de identidade de gênero. em geral. é sabe qual a relação entre os quatro. da mesma maneira.

this part of the definition might seem to belong in the normative section of the argument. no que tange conceitos de poder. A função de legitimação do gênero funciona de várias maneiras. gênero torna-se implicado na concepção de poder ela mesma. concreta e simbólica. A historiadora Caroline Bynum. mostrou como em certas culturas a exploração agrícola era organizada segundo conceitos de tempo e de estação que baseavam-se em definições específicas da oposição masculino/feminino. no entanto. o corpo. yet it does not. os conceitos de gênero estruturam a percepção e a organização. Na medida em que estas referências estabelecem a distribuição de poder (um controle ou um acesso diferencial aos recursos materiais e simbólicos). As diferenças entre os corpos que são ligados ao sexo. esclareceu de forma nova a espiritualidade medieval pela ênfase que ela deu às relações entre o conceito do masculino e do feminino e o comportamento religioso. Estabelecidos como conjunto objetivo de referências. isto é. Seu trabalho permite compreender melhor as formas como os conceitos . Como tal. a sociedade que fantasma na sexualidade. de toda a vida social (41).tradições ocidentais. sobretudo. a uma divisão do trabalho de procriação e reprodução". por exemplo. Bourdieu. sobretudo. e Natallie Davis mostrou como os conceitos de masculino e feminino eram ligados a percepções e críticas das regras da ordem social no primeiro período da França Moderna (44). legitimar” (42). 1069). baseada em referencias "às diferenças biológicas e. (tenho dúvida se essa ultima frase está traduzida corretamente: “As such. mas testemunhar a favor. embora eles possam construir o gênero. mas. O antropólogo francês Maurice Godelier formulou isso desta forma: “não é a sexualidade que produz fantasmas na sociedade. atua como "a mais bem fundada das ilusões coletivas". O sociólogo francês Pierre Bourdieu escreveu sobre como a "di-visão do mundo". Gayatri Spivak fez uma análise rica das utilizações do gênero e do colonialismo em certos textos de escritoras britânicas e americanas (43). esta parte da definição pode parecer pertencer à seção normativa da argumentação. though they may build on gender. nem sempre são literalmente sobre o próprio gênero. Não só testemunhar. judaico-cristã e islâmica. are not always literally about gender itself” p. são constantemente solicitadas para testemunhar as relações e fenômenos sociais que não tem nada a ver com a sexualidade. for concepts of power.

O ataque de Edmund Burke contra a revolução francesa se desenvolve em torno de um contraste entre as harpias feias e matadoras dos “sans culotes” (“as fúrias do inferno . Essas interpretações estão baseadas na ideia de que as linguagens conceituais empregam a diferenciação para estabelecer o sentido e que a diferença sexual é a forma principal de significar a diferenciação (47). Quando os(as) historiadores(as) procuram encontrar as maneiras como o conceito de gênero legitima e constrói as relações sociais. no que diz respeito ao governo e ao Estado nação. Eu escolhi por duas razões os exemplos seguintes ligados á política e ao poder no seu sentido mais tradicional. A política só constitui um dos domínios onde o gênero pode ser utilizado para análise histórica. O gênero é.informavam a política das instituições monásticas e dos fiéis individuais (45). para justificar ou criticar o reinado de monarcas ou para expressar relações entre governantes e governados. Primeiro. situadas em contextos específicos. já que o gênero foi percebido como uma categoria antitética aos negócios sérios da verdadeira política. isto é. como a política constrói o gênero e o gênero constrói a política. Os(as) historiadores(as) da arte abrem novas perspectivas quando decifram as implicações sociais nas representações de mulheres e homens (46). numa época em que parentesco e realeza eram intrinsecamente ligados. As analogias com a relação marital constituem uma estrutura para os argumentos de Jean Bodin. mas. porque se trata de um território praticamente inexplorado. eles/elas começam a compreender a natureza recíproca do gênero e da sociedade e das formas particulares. porque a história política – que ainda é o modo dominante da interrogação histórica – foi o bastião de resistência à inclusão de materiais ou de questões sobre as mulheres e o gênero. um meio de decodificar o sentido e de compreender as relações complexas entre diversas formas de interação humana. Pode-se esperar que tenha existido debate entre os contemporâneos sobre os reinos de Elizabeth I da Inglaterra ou Catherine de Médices na França em relação à capacidade das mulheres na direção política. as discussões sobre os reis machos colocavam igualmente em jogo representações da masculinidade e da feminilidade (48). O gênero foi utilizado literalmente ou analogicamente pela teoria política. portanto. Depois. Robert Filmer e John Locke.

A ligação entre os regimes autoritários e o controle das mulheres tem sido bem observada mas não foi estudada a fundo.. parece importante ressaltar que a mudança nas relações de gênero pode acontecer a partir de considerações sobre as necessidades do estado. . a legislação que estabeleceu essa posição. os ideólogos políticos conservadores gostariam de fazer passar toda uma série de leis sobre a organização e o comportamento da família. que modificariam as práticas atuais. “a fim de manter o Estado fora do alcance do povo.. a nossa pátria tem que ser amáve”) (49).sob a forma desnaturada da mais vil das mulheres”) e a “Feminilidade Doce” de Marie-Antoinette que escapa a multidão para “procurar refúgio aos pés de um rei e de um marido” e cuja beleza tinha antigamente inspirado o orgulho nacional (referindo-se ao papel apropriado ao feminino na ordem política Burke escreveu: “para que se possa amar a nossa pátria. mas também. Retomando argumentos bem mais antigos a respeito da boa ordem familiar com fundamento da boa ordem do estado. redefiniu os limites da relação marital. Para que esta última reflexão não seja interpretada como a ideia de que a teoria política reflete simplesmente a organização social. Mas a analogia não diz respeito sempre ao casamento. Um exemplo importante é fornecido pela argumentação de Louis de Bonaud em 1816. na nossa época. da mesma forma o divórcio “verdadeira democracia doméstica”. nem mesmo à heterosexualidade. a irrelevância das mulheres com qualquer noção de política e de vida pública (50). se rebelar contra o poder estabelecido”. sugerindo não só a existência de formas de sexualidade aceitáveis comparáveis aquelas que Foucault descreve (em seu último livro a respeito da Grécia Clássica). Da mesma forma. sobre as razões pelas quais a legislação da Revolução Francesa sobre o divórcio devia ser revogada: Da mesma forma que a democracia política “permite ao povo. permite à esposa. o símbolo do poder político faz mais freqüentemente alusão às relações sexuais entre um homem e um menino. é necessário manter a família fora do alcance das esposas e das crianças” (51). “parte mais fraca. parte fraca da sociedade política. Na teoria política da Idade Média islâmica. Bonaud começa com uma analogia para estabelecer em seguida uma correspondência direta entre o divórcio e a democracia. se rebelar contra a autoridade do marido”.

proibindo o trabalho assalariado das mães.Num momento crítico para a hegemonia jacobina durante a Revolução Francesa. Os anarquistas europeus eram conhecidos desde muito tempo pela sua recusa das convenções como o casamento burguês. a diferença sexual tem sido concebida em termos de dominação e de controle das mulheres. Essas ações só podem adquirir um sentido se elas são integradas a uma análise da construção e da consolidação de um poder. a força. Essas ações e a sua programação tem pouco sentido em si mesmas. a autoridade central e o poder soberano identificando-os ao masculino (os inimigos. . Os socialistas utópicos na França e na Inglaterra nos anos de 1830 e 1840 conceberam sonhos de um futuro harmonioso em termos de naturezas complementares de indivíduos. o regime democrático do Século XX tem igualmente construído as suas ideologias políticas a partir de conceitos de gênero que se traduziram em políticas concretas. em todas essas circunstâncias. por exemplo. Nesses exemplos. por exemplo. tornando o aborto ilegal. Eles podem nos dar idéias sobre os diversos tipos de relações de poder que se constroem na história moderna. os dirigentes que se afirmavam. mas também pelas suas visões de um mundo no qual as diferenças sexuais não implicariam em hierarquia. o Estado Providência. legitimavam a dominação. impondo códigos de vestuário às mulheres” (52). alguns movimentos socialistas ou anarquistas recusaram completamente as metáforas de dominação. Segundo modos diferentes. Ao longo da história. demonstrou seu paternalismo protetor através de leis dirigidas às mulheres e às crianças (53). Uma afirmação de controle ou de força tomou a forma de uma política sobre as mulheres. na hora em que Stalin tomou o controle da autoridade. os subversivos e a fraqueza eram identificados ao feminino). os “outsiders”. na época da operacionalização da política nazista na Alemanha ou do triunfo aiatolá Khomeiny no Irã. e traduziram literalmente esse código em leis que colocam as mulheres no seu lugar “proibindo sua participação na vida política. Na maioria dos casos. apresentando de forma imaginativa as suas críticas aos regimes e organizações sociais particulares em termos de transformação de identidade de gênero. ilustrados pela união do homem e da mulher “o indivíduo social” (54). mas essa relação particular não constitui um tema político universal. o estado não tinha nada de imediato ou nada material a ganhar com o controle das mulheres.

precisamente graças à exclusão das mulheres do seu funcionamento. A articulação do conceito de classe no século XIX baseava-se no gênero. O gênero é uma das referências recorrentes pelas quais o . no entanto. mas elas só são uma parte da minha definição de gênero como um modo primeiro de significar as relações de poder. Trata-se de exemplos de ligações explícitas entre o gênero e o poder. que de outra forma seriam vulneráveis) até a crença no dever de que teriam os filhos que servir aos seus dirigentes ou rei (seu pai). portanto. Quando. Freqüentemente. ela mesma. da diplomacia e da alta política aparecem freqüentemente quando os(as) historiadores(as) da história política tradicional colocam em questão a utilidade do gênero para o seu trabalho. desde o apelo explícito à virilidade (a necessidade de defender as mulheres e as crianças. mas eram reforçados na medida em que se referenciavam a ele. protetores das mulheres e das crianças). uma dimensão decisiva da organização. mas constitui. legítimos) em termos de relações entre masculino e feminino. da igualdade e desigualdade. a legitimação da guerra – sacrificar vidas de jovens para proteger o estado – tomou formas diversificadas. os dirigentes operários e socialistas respondiam insistindo na posição masculina da classe operária (produtores fortes. Os temas da guerra. A alta política. As relações de poder entre as nações e o estatuto dos súditos coloniais se tornaram compreensíveis (e. a ênfase colocada sobre o gênero não é explícita. fracos. na França os reformadores burgueses descreviam os operários em termos codificados como femininos (subordinados. A codificação de gênero de certos termos estabelecia e “naturalizava” seus significados. As estruturas hierárquicas baseiam-se em compreensões generalizadas da relação pretensamente natural entre o masculino e o feminino. por exemplo. as razões de ser e a realidade da existência da sua autoridade superior. e até associações entre masculinidade e potência nacional (56). as definições normativas do gênero historicamente situadas (e tomadas como dados) se reproduziram e se integraram na cultura da classe operária francesa (55). sexualmente explorados como as prostitutas). Mas lá também temos que olhar além dos atores e do valor literal das suas palavras. Nesse processo. Os termos desse discurso não diziam respeito explicitamente ao gênero. é um conceito de gênero porque estabelece a sua importância decisiva de seu poder público.

como é que as coisas mudam? De um pondo de vista geral responde-se que a mudança pode ter várias origens. portanto. Crises demográficas causadas pela fome. legitimado e criticado. transtornos políticos de massa que coloquem as ordens antigas em causa engendrem novas. parte do sentido do poder. ele mesmo. São os processos políticos que vão determinar o resultado de quem vencerá – político no sentido de que vários atores e várias significações se enfrentam para conseguir o controle. elas contém ainda dentro delas definições alternativas negadas ou reprimidas. colocaram. A natureza desse processo. Para reivindicar o poder político. dos atores e das ações. pestes ou guerras. Só podemos escrever a história desse processo se reconhecermos que “homem” e “mulher” são ao mesmo tempo categorias vazias e transbordantes. Ela pode oferecer novas possibilidades para a construção da subjetividade. fazendo parte da ordem natural ou divina. podem revisar os termos (e. às vezes. mas elas podem também ser vividas como novo espaço de atividade para as filhas e as esposas obedientes (59). em questão as visões normativas do casamento heterossexual (quando foi o caso em certos meios de certos países no decorrer dos anos 20). Mas eles podem não fazê-lo. . transbordantes porque mesmo quando parecem fixadas. Se as significações de gênero e de poder se constroem reciprocamente. mas também. mas ela pode servir para atualizar este drama terrível em termos ainda mais eloqüentes. a oposição binária e o processo social das relações de gênero tornam- se. a organização) do gênero na sua procura de novas formas de legitimação. A emergência de novos tipos de símbolos culturais pode tornar possível a reinterpretação ou mesmo a reescritura da história Edipiana. Ele se refere à oposição masculino/feminino e fundamenta ao mesmo tempo seu sentido. provocaram políticas natalistas que insistiram na importância exclusiva das funções maternas e reprodutivas das mulheres (58). Colocar em questão ou mudar um aspecto ameaça o sistema por inteiro. a referência tem que parecer segura e fixa fora de qualquer construção humana.poder político foi concebido. noções antigas de gênero serviram igualmente para validar novos regimes (57). A transformação das estruturas de emprego pode modificar as estratégias de casamento. os dois. só pode ser determinada especificamente se situada no espaço e no tempo. vazias porque elas não tem nenhum significado definitivo e transcendente. Desta forma.

qual é o impacto da guerra sobre a sociedade). Ed. é imposto o poder político. por exemplo. Qual é a relação entre as leis sobre as mulheres e o poder do Estado? Por que (e desde quando) as mulheres são invisíveis como sujeitos históricos. redefinirá as antigas questões em termos novos (introduzindo. . como alguma coisa que é definida e constantemente construída num contexto concreto. E. porque ela sugere que o gênero tem que ser redefinido e reestruturado em conjunção com a visão de igualdade política e social que inclui não só o sexo. mas cujo sentido é contestado e flutuante. temos então que perguntar não só o que é que está em jogo nas proclamações ou nos debates que invocam o gênero para justificar ou explicar suas posições. NOTAS 1. Em certo sentido a história política foi encenada no terreno do gênero. Oxford English Dictionary. considerações sobre a família e a sexualidade no estudo da economia e da guerra). tornará as mulheres visíveis como participantes ativas e estabelecerá uma distância analítica entre a linguagem aparentemente fixada do passado e nossa própria terminologia. Além do mais. vol. É um terreno que parece fixado. mas também como percepções implícitas de gênero são invocadas ou reativadas. 1961. Dictionaire de langue française. 2. mas também a classe e a raça. Paris 1876. quando sabemos que elas participaram dos grandes e pequenos eventos da história humana? O gênero legitimou a emergência de carreiras profissionais? (60) Para citar o título de um artigo recente da feminista francesa Luce Irigaray. Se tratamos da oposição entre masculino e feminino como sendo mais problemática do que conhecida. essa nova história abrirá possibilidades para a reflexão sobre as estratégias políticas feministas atuais e o futuro (utópico). Littré. o sujeito da ciência é sexuado? (61) Qual é a relação entre a política do Estado e da descoberta do crime de homossexualidade? (62) Como as instituições sociais têm incorporado o gênero nos seus pressupostos e na sua organização? Já ouve conceitos de gênero realmente igualitários sobre os quais foram projetados ou mesmo baseados sistemas políticos? A exploração dessas perguntas fará emergir uma história que oferecerá novas perspectivas a velhas questões (como por exemplo.4.

Marxism. The Politics of Reproduction. ver também o debate sobre o trabalho de Humphries in Review of Radical Political Economics. 7. Signs. 6. Scott.Mary O’Brien. p.Ellen Ross et Rayna Rapp. New York. Para uma argumentação contra a utilização do gênero para sublinhar o aspecto social da diferença sexual. “Women’s History: The Modern Period”. 4. 5. 12. Linda J. 3 (Winter 1975-76). Christine Stansell and Sheron Thompson eds. 76-94. Para um exame crítico das obras recentes sobre a História das Mulheres. Method and the State: An Agenda for Theory”.Heidi Hartmann. p. 17. 1970. 15. p. and Theory. 541. Voir aussi. History. 1984. Urbanna I11. p. Mari Jo Buhle et Nancy Shrom Dye. 14. 9. A expressão “amarga armadilha” (bitter trap) pretence a O’Brien. “The Unhappy marriage of Marxism and Feminism: Towards a More Progressive Union”. p. New York 1972). 1 (Spring 1976). 8 (Summer 1979). 1-33. Patriarchy and Job Segregation by Sex”. 285. 101 (1983).Catherine Mckinnon. New York 1983. 141-57. p. The Origins of the Family. Feminist Studies. Para uma abordagem um pouco diferente da análise feminista. 16. 543.Ibid. .90. “Feminist.515. “Capitalism. Keywords..3.53. p. London 1981. in Powers of Desire. Sally Alexander and Barbara Taylor in Raphael Samuel Ed.Para uma discussão interessante sobre a força e os limites do termo “patriarcado”. Ed. p. Joan W. “The Problem of Women’s History. 1884(nouv. 19. v. 46 11. “The Family as the Locus of Gender. Private Property and the State. the Politics of Sexuality. The Politics of Reproduction.51-64 e em particular p. “The Doubled Visiono f Feminist Theory “no seu livro Women. Signs. Past and Present. 8. “Doubled Visiono f Feminist Theory” p. p. Raymond Williams. “Sex and Society: A Research Note from Social History and Antropology”. o debate entre Sheila Rowbothan. Nicholson. Powers of Desire. p. v.Shulamith Firestone. 8-15.61. The Dialectic of Sex. v. 168. 241-58. Capital and Class. “Women’es History in Transition: The European Case”. Moira Gatens. Class and Political Struggle: the Example of Housework”. Ann D.89. 20. p. 366-94. New York 1983. O melhor exemplo e o mais sutil é fornecido pelo artigo de Joan Kelly. p. 10. 13. 13 (versão 1980) p.Kelly. 6 (Spring 1981).61. 7 (Spring 1982).A respeito do debate do feminism marxista: Zilah Eisenstein p. Chicago. Natalie Zermon Davis. 18.Ann Snitow.8. 541. v. Signs.Friedrich Engels. Gordon. p.

148 (November-December 1984). “Beyond Sexless Class and Classless Sex”. “Master and Slave – The Fantasy of Erotic Domination”. mas não são unicamente o que está em jogo ou o desfecho deste. 149 (January-February 1985). Calif. Berkeley. p. The Debats on Sex and Class”. Angela Weir et Elisabeth Wilson. p. p. particularmente.Johanna Brenner et Maria Ramas. podem ser influenciados durante o período do complexo edipiano. Sou grata a Jane Kaplan que me indicou esta publicação e que aceitou compartilhar comigo seu exemplar e suas idéias. 166. Jane Lewis. 15 (Fall 1984). Powers of Desire. 12. p. na qual a mãe tem o papel de parente principal e o pai situa-se a uma distância significativa e investe-se na socialização. Chodorow. 167-8. É importante notar que entre Chodorow .123-28. Estes processos mais amplos têm uma influência igual sobre a formação da estrutura psíquica e sobre a vida psíquica e os modos das relações nos homens e nas mulheres. p. 7-44. Estes desfechos. Para uma tentativa de ir além do impasse feminista marxista. p. class and sexual difference” History Workshop 17 (Spring 1984) p. new Left Review.21. 10 (Winter 1983). Studies in Political Economy. New Left Review. “A Response to Weir and Wilson” New Left Rewie. 125-35. p. London. 297. Ver também a tentativa americana brilhante iniciada nesta direção por Gayle Rubin in “The Traffic in Women” Notes on the “political Economy” of sex “in Rayner R. ver Papers on Patriarchy: Conference. “Rethinking Women’s oppression”. Hugh Armstrong et Pat Armstrong. “The British Women Movement”. 24. ver Coward. 146 (July-August 1984). aussi Jessica Benjamin. em áreas ligadas aos papéis de gênero tipificados”. São responsáveis pelos modos diferenciais de identificação e de problemas edipianos mais assimétricos descritos pelos psicanalistas. Voir aussi Hugh Armstrong et Pat Armstrong. 25. bem como os desfechos edipianos. New York. Patriachal Precedents. A negociação destes problemas ocorre num contexto que implica em relações de objeto e de construções do “eu” mais amplas. no início de 1986.108-120. article unpublished. Reiter ed. 1976. June 1985.74-103. Towards an Anthropology of Women”. 150 (March-April 1985).1-7.Introduction. “Gender and reproduction. p. 143-47. or Babies and the state”.“Minha exposição sugere que estes problemas. 23. 179-84 et Jane Jenson. p.Para formulações teóricas anteriores. The Reproduction of Mothering. “Women. “Comments: More on Marxist feminism”. provêm da organização assimétrica das tarefas parentais. New Left Review. “Rethinking Women’s Oppression: A Reply to Brenner and Ramas. Powers of Desire. p. Michelle Barret. 1978. 144 (March-April 1984). Para a posição psicanalítica ver Sally Alexander. p. The Reproduction of Mothering: Psichoanalysis and the Sociology of Gender. 33-71. relativos ao gênero.Nancy Chodorow. 169. 22. p. No decorrer dos seminaries da Universidade de Princeton. Juliet Mitchell parecia voltar a das a prioridade à análise materialista do gênero. New Left Review. Studies in political Economy. 1975. Michelle Barret.

165-79. 6 (Spring 1980). Class and Sexual Difference”. Baltimore 1976. 11. Para uma discussão sucinta e acessível de Derrida. Mass. número especial de Social Research. “Comentary an Gilligans.Teresa de Lauretis.26-64. Awerbach et al. 31. e as teóricas britânicas da teoria das relações de objeto que seguem o trabalho de Winicott e Melanie Klein. Meus comentários sobre a tendência dos(as) historiadores(as) em citar Gilligan. On Grammatology. 1979 e uma transcrição do seminário de Pembroke Center. In a Different Voice”.. artigo inédito apresentado no seminário do Pembroke Center. 28. New York.As críticas do livro de Gilligan são: J. p. “Summary of Preamble to Interwar Feminist History /work”. London 1983. . Chicago. O trabalho de Chodorow seria melhor definido como uma teoria mais sociológica e mais socializada. 27. 26. 1982. Ithaca. vêm das minhas leituras de trabalho inéditos e de propostas de subvenção que parece injusto citar aqui. automne.. 30. “Women. há diferenças de interpretação e de abordagem.Michele Zimbalist Rosaldo.Denise Riley. Jacques Lacan and the Ecole Freudienne. Signs. Sours. mas ele constitui o ponto de vista dominante. American Scholar. Cinema. Ver também Jacques Derrida. 34. Feminist Studies”. 50 (1983). “The uses and abuses of Anthropology: Reflections on Feminism and Cross-Cultural Understanding”. Ind.Feminist Studies. portanto. Bloomington. Class and Sexual Difference”. 135. 1984. p. em particular p. 1984. 33.Juliet Mitchell et Jacqueline Rose eds. através do qual a teoria das relações de objeto foi abordada pelas feministas americanas. p. ver Jonnathan Culler. 1982.. 156-79. Alice Doesn’t Feminist Semiotics. ver Denise Riley.Clifford Geertz. 32. 35. Alexander. “Blurred Genders”. on Desconstruction: Theory and Criticism after Structuralism.Alexander. queria apelar para a formulação de Derrida que.159. Há cinco anos que eu acompanho este tipo de referência e elas me parecem cada vez mais numerosas. 1983 Subjetcs/objetics. Jacques Derrida. apresenta a vantagem de teorizar e. sem inventar o processo de análise que ela descreve. p. 5 (Spring 1980). “Women. A respeito da história da teoria das relações de objeto nas suas relações com a política social. 29. p. (Spring 1985). Maio de 1985. 49 (October 1980). Cambridge. e “Women and Morality”.Carol Gilligan In a Different Voice: Psychological Theory and Women’s Development. 400. pode constituir um método útil. P.Falando de “desconstrução”.

The History of Sexuality. Cherlotte Perkins Gilman: The Making of a Radical Feminist. Na medida em que os pós- estruturalistas não fixam um sentido universal para as categorias ou . J. 1982. Catherine Beecher: A Study in America Domesticity. “The Traffic in Women”. 189. vol I.Lou Ratté. Kathryn Kish Sklar. p. New Haven. 127 (May – June. Calif. 40. p. 1969 – Luce Iragaray examina as formas como as referências femininas funcionam nos maiores textos da filosofia ocidental em Speculum of the other Woman.A respeito deste ponto. Essays on the Complexity of Symbols. 44. 12 (autumn 1985) p. 1978. Paris 1980. 1860-1896. 124-51. “Introduction”. Conn.Michel Foucault. Ed. 366. 38. article inédit. 1975. Jesus as Mother: Studies in the Spirituality of the High Middle Ages. 243-46 – ver também Kate Millett. article inédit. Hill. 41. dans son Society in Early Modern France. 3-3-. New Left Review. ver Gayle Rubin. New German Critique. Departament d’Histoire.Maurice Godelier. “Three women’s Texts and a Critique of Imperialism”. Stanford. 37. Philadelphia 1980. An Introduction. State University of New York. “Gender Ambivalence in the Indian Nationalist Movement”. T. Mary A. Sociales. Critical Inquiry. “Manliness: A Victorian Ideal and British Imperial Elite in India”.Natalie Zemon Davis. 246-47. Representations 11 (Summer 1985). Criticism and Foucault”. por exemplo. 27 (fall 1982).Pierre Bourdieu. Power/Knowledge: Selected Interviews and other Writings. stony Brook. 43. à paraitre Beacon Press 1987.Gayatri Chakravorty Spivak.36. 45. 1972-77.Rubin. “Women on Toop”. 39. Seminaire Pembroke Center. 46. 1984. p. Michel Foucault. 1981) p.Caroline Walker Bynum. La sens pratique. “Feast and Flesh: The Religious Significance of Food to Medieval Women”.Ver. p. Caroline Walker Bynum. “The Origins of Male Domination”. 1-25. 199.A diferença entre os teóricos estruturalistas e pós-estruturalistas sobre esta questão reside no fato da categoria da diferença ter um estatuto mais ou menos aberto entre eles. “Feminism. “The Traffic in Women”. 17 Artigo publicado na França sob o título: “Les Rapports Hommes/femmes: le problem de la domination masculine:. Spring 1983 et Mrinalini Sinha.Biddy Martin. 333-461 et en particulier p. Clarke… 47. Religion and Gender. 42. 1973. Sexual Political. p. p. obra coletiva sob a direção do CERM. New York 1980. Berkeley Calif. Paris. in La Condition Feminina. Caroline Walker Bynum. Ithaca – NY – 1985. New York.

49. vol. 13 (1983). “Femme. Lusage dês plaisira. French Historical Studies. 53. “En allant à 1 ‘expo: 1’ouvrier. Patriarchs and Other political Works.Louis Devance. Radical History Review. Critical Matrix (Documents de Travail des Études Féminines de Princeton). p.Sobre os socialistas utópicos Ingleses. para a França.. 1983.Edmun Burke. Reflections on the French Revolution. Voir aussi Elisabeth Fox-Genevese.Sobre a Revolução Francesa ver Darlene Gray Levy. New York 1967. 1892. História da Sexualidade. Harriet Applewhite e Mary Johnson eds. 6(1985).. Representations. . 52. a sua abordagem parece levar ao tipo de análise histórica que eu defendo. Voir aussi Louis Montrose. “Liberated Woman. “Men and Woman. 2. Cambridge 1970. Montreal 1980: Mary Lynn McDougal.. Joan W. 1606. oxford 1949 et John Locke. Six Books of the Commonwealth. Representations. Women in Revolutionary Paris 1789 – 1795. reed.. p. 4 (Spring-Summer 1977). in Mythes et representation de la femme au XIX e siecle. p. 1890-1913”. 51. ver Marilyn Arthur. Paris 1976: Jacques Ranciere et Pierre Vauday. para as suas interelações. Western Political Quarterly. Urbana.61-94 et Lynn Hunt.Elisabeth Wilson. 32 (march 1979). 5-22. ver Barbara Taylor.36-59 et Mary Lindon Sanley. ver os documentos in Rudolph. Paris. famille. Women and the Welfare State. Voir Jean Bodin. 214. “The Crown Has Fallen to the Distaff: Gender and Politics in the Age of Catharine de Medici”. p. sobre a legislação soviética. London 1977: Jane Jenson. prés. “Protecting Infants: The French Campaigns for Maternity Leaves. 1690. Les Révoltes Logiques. New York 1909. p. 95-117. p.. p. 1984. 55.208-209..Sou grata a Bernard Lewis pela referência ao Islamismo – Michel Foucault. reed..Citado por Roderick Phillips. 1979 – 209-20. reed. “Property and Patriarchy in Classical Bourgeois Political Theory”. Roberty Filmer. 50. Par Peter Laslett.79-91. 2 (Spring 1983). Two Treatises of Government. sa femme et les machines”.Rachel Weil. “Gender and England 1900-1939. 48. “Shaping Fantasies: Figurations of Gender and Power in Elisabethan Culture”. NY. 1 (Hiver 1975). Eve and the New Jerusalém. “Marriage Contract and Social Contract in Seventheenth Century English Political Thought”.. Scott. Neste tipo de situação há que se perguntar quais são os termos da identidade de gênero e se a teoria freudiana basta para descrever o processo da sua construção – A respeito das mulheres em Atenas no período clássico. 2 (Spring 1983). travail et morale sexuelle dans Ideologie de 1848”. “Hercules and the radical Image in the French Revolution”. III. 79-105 54.

Technologie et Education. 57. Boston . Liberty’s a Daughters: The Revolutionary Experience of American Women.56. octobre. Women in Revolutionary Paris.Australian war memorials. 1985.Sobre a Revolução Francesa ver Levy. comunicação inédita apresentada na Conferência de Bellágio sobre Genre. sobre a Revolução Americana ver Mary Beth Norton.

60. Sobre os anos 1920. Margaret Rossiter.. Princeton.. por exemplo. 58.war in the Nursery e Jenson “gender and Reproduction”.Sobre o natalismo ver Riley. 1984. Work and Family. Tilly e Joan W. 22-54..Luce Irigaray.Para diversas interpretações do impacto do trabalho moderno sobre as mulheres ver Louise A. p. Esta questão é abordada por Jeffrey Weeks… . p. 383-446. Women’s Suffrage and Social Politics in the French Third Republic. “Is the Subject of Science Sexed?”.J – 1984 – Um tratamento muito interessante de um caso recente é o artigo de Maxime Molyneux “Mobilization Without Emancipation? Womens Interest the state and Revolution in Nicarágua”.Ver. Feminist Studies. (Summer 1985) p. Paris.…Berkeley Calif 1985. Sobre a Terceira República na França ver Steven Hause. 62. 61. Cultural Critique 1 (Fall 1985). ver os ensaios in Stratégies des femmes. 59. Scott.. 73-88. N. Women.