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Deslocamentos populaciónais

e mobilidade fictícia:
a razão fetichizada do migrante e do
seu pesquisador
Heinz Dieter Heidernnnn'

Introdução
A finalidade da minha exposição! na mesa de abertura do
seminário é a de apresentar algumas reflexões sobre universalida-
des categoriais das migrações, da mobilidade, seus estudos e seus
pesquisadores, estimulando o debate sem entrar especificamente
no mérito de contextos empíricos regionais e locais, tratando da
Amazônia e de Manaus, temas a cargo de outros expositores desta
mesa.
Não é nenhuma novidade, nem uma constatação inovado-
ra, quando dizemos que não há como escrever a história da acu-
mu~ação primitiva europeia, da expansão colonial portuguesa e da
história do Brasil sem levar em consideração os deslocamentos po-
pulacionais, migrações internacionais. e internas e a generalizada
mobilização do trabalho e para o trabalho.
No Brasil trata-se de uma história, desde a colônia, com o
seu "sentido" já baseado na produção de mercadorias até os dias

I Doutor em Geografia e professor do Departamento de Geografia da Universidade de São
Paulo - USP.
2 Apoio-me principalmente, nas publicoções de Robert Kurz e nos grupos de estudo que
debatem a obra de Kurz e a temótica da Mobilização e Modernização, no laboratório de
Geografia Urbana (Lcbur), do Departamento. de Geografia da FFlCH/USP. .

Migrantes em contextos urbanos: uma abordagem interdisciplinar 116
r-
é

muitas vezes. ao mesmo tempo e contraditoriamen. Hoje. 1 milhão e Levando em consideração a mediação da forma mercadoria 100 mil nordestinos se mudaram para o Rio de Janeiro e São Paulo. de volta. no triangulo mineiro. como Paraná e Minas Gerais. notícias a Roraima são as duas unidades federativas do Brasil que têm mais respeito do fenômeno da questão migratório no Brasil. fizeram o caminho mação. No período 1996-2006. o fator principal para esses números foi a redistribuição populacional para os municípios 161 Sldlloy Antonio da Silvo (orgcnizcdor) MII{I'Ollt M em rOllt ~xt I1N urhnnos: 1. especialmente em São Paulo. uma história de barreiras à mobilidade sujeitada à onipotente predominante é a do retorno para a região. em relação aos movimentos migratórios. de hoje e. Esse fato ocorre desde o censo de 1980.7% em 2006 para 50. mantém um fluxo estatístico de imi. xplorcçõo sexual comercial. desiludidos com a processo da formação dos sujeitos livres.f' r. Neste sentido. o número de pessoas não-natu- reflexão aprofundada sobre a modernização. nando para suas cidades de origem. a tendência te. e reduz o seu crescimento por vários motivos: O primeiro é a tendên. Campinas recebia muitos O tráfico de mulheres. frustrado estímulo à migração. depois de denúncias feitas pela Pasto- do que ocorria antes dos anos 70. rais de Roraima caiu de 53. porém. depois de décadas de lei da concorrência. a população do município de Campinas em São Paulo em fazendas de café e cana-de-açúcar. a mobilização e a for. falta de emprego. Basta citar apenas ale. brasileiros em geral e da imprensa amazonense em particular. Mas outro fato importante ocorre ral do Migrante. muitos migrantes acabaram reto r. como imigrantes do que população originária própria. em condições precárias. sempre lembrando a afir. A fiscaliza- cia de casais optarem por um menor número de filhos. se livre num processo histórico. o DF e o Estado de Com frequência podemos ler. Os migrantes alegam que a busca pelo emprego partes do Brasil.4%. Porém. Agora. Mesmo caindo o registros e informações só podem ser ponto de partida para uma número de migrantes em Rorcirnu. migratório.como ainda de entender a sua imigrantes.5% em 2007. tadores e com os conhecidos ingredientes da violência que permeou lândia. alojados contramão. . É uma história da imposição coercitiva de modernização e Já no Nordeste brasileiro observamos a inversão do fluxo mobilização generalizada e. na atualidade. esvaziamento das áreas rurais. todo o processo de modernização: em São Paulo. mas pela crise fundamental do sistema gente saiu de Campinas e migrou para cidades da assim chamada produtor de mercadorias. que o homem moderno não é livre por natureza. sa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD). caracterizada não só pela universalidade vizinhos a Campinas. é de se destacar que Mais da metade dos moradores do Distrito Federal (DF) são o sujeito livre carece de ter coragem. frequenta os noticiários dos jornais além da redução desse número. Também recebemos inúmeras notícias de temas mais assus- atoriamente alguns poucos recentes exemplos. outrora acentuado para o Sudeste. De acordo com a Pesqui- liberdade em sua negatividade. O percentual exato é de 51. crianças e adolescentes para fins de migrantes de outros estados. Na do Trabalho encontram frequentemente trabalhadores.11 11ti oboldoHcm Intcrdlsclpllnor 117 . Porém. mas torna. Muita negativa da concorrência. como em outras gração crescente. auditores fiscais das Superintendências Regionais é o maior. mação do sujeito na sociedade moderna. Região Metropolitana de Campinas. com as carteiras de trabalho retidas pelo empregador. A cidade de Uber. 1 milhão e 300 mil migrantes de retorno. nos últimos meses. ao contrário ção acontece muitas vezes. podemos estudar o longo processo da formação da mobilidade do em busca de trabalho e melhores condições de vida. Nesse mesmo trabalho da sociedade colonial escravocrata até os nossos dias e o período.

e pela Revista Travessia (CEMSP). por desloc. nas grandes cidades Migratórios (NIEM).groups. fazer de uma mundo inteiro'. .yahoo. lógica fez da produção de mercadorias e. Isto não deve ser chamado de "economicismo". todavia. voltas e circu- abordagem crítica e não ingênua ou banalizada como se fosse ape- lações) de uma ordem numérica nunca vista antes. não é um fenômeno de tramento do mercado mundial até os últimos poros da sociedade. dos Migrantes . que produziu esse novo tipo de movimentos mi- No contexto de um "economicismo real". den. A lógica da sociedade capitalista sempenha um papel relevante. A situação economicismo socialmente real e objetivo e. Trata-se. do sistema social produtor de mercadorias. tura social é determinada pela tentativa de subordinar tudo o que é Desde o início da história da modernização. Para poder entender caráter "nômade" ou até aquela "essência humana" propriamente o fenômeno das migrações maciças. 181 Sidncy Antonio do Silva (orgonizcdor) Mlgron m contextos urbanos: uma abordagem interdisciplinar 119 -r r.com/group/niem_rj/. ex.SPM. Porém. as pessoas migraram das regiões agrárias para 3 Ver p. Sem grande esforço. desse pano de fundo. dependência do desenvolvimento do capitalismo global. deste modo. é necessário analisá-Io na sua nômade. http://www. http://br. um modo universal dominante da A mobilização da sociedade moderna sociedade. encontramos exemplos no Brasil e no vés da aplicação de força de trabalho humana. lorização. tentativas de descrever e interpretar o fenômeno estatisticamente O núcleo estruturador da sociedade é a economia da valori- ou culturalisticamente. Deslocamentos populacionais de todos os tipos determinada quantidade de dinheiro. num processo fazem parte habitual do caráter fantasmagórico da normalidade infinito de valorização como um fim em si mesmo. como Migração e mobilidade se tornaram duas das mais utiliza- afirmam os ideólogos pós-modernos. a partir de si mesmo. Em toda a modernidade a estru. nem a partir de princípios quantitativos. Isso foi uma nem antropológicos. amplas informações e textos divulgados pelo Núcleo Interdisciplinar de Estudos os centros industriais. nada por ele. isto é. a partir Para isso. consiste no fato de produzir "riqueza abstrata" (MARX. pelo Serviço Pastoral modernas. as migrações não podem ser expli- zação de valores e toda a aplicação de recursos sociais é determi- cadas exclusivamente. Com o começo da industrialização. A política não comanda essa economia.amentos populacionais volumosos (idas. social e concreto. por exemplo. mais dinheiro. como alguns filósofos pós-modernos afirmam. na qual se demonstra um novo formam-se tendências históricas específicas. inicia-se o cssirn chamado êxodo rural. devido a isso. entende-se o nexo interno do fenômeno das tro da qual esse fenômeno ocorre. os exércitos industriais de reserva. migrações. pressupor uma na. nas quais se lida com os problemas resultantes do processo de va- mas é indispensável partir de uma análise do processo histórico. Somente essa econômica e social. de seus a migração pode ser explicada apenas como fenômeno da história fluxos de dinheiro e mercadorias. 1985) atra. Portanto. Ela é apenas uma das esferas tureza humana de um ser humano ontológico como "horno viator". enquanto realidade demográfica atual do mundo inteiro é fortemente caracterizada negativa. uma mudança meramente cultural.migracoes. Não adianta.br. surgiram. carece ter um conceito crítico da sociedade. A migração não é um processo possí- tensificação global do modo de produção capitalista e pelo alas- vel de ser explicado. de maior ou menor de aplicação de força de trabalho. de um das palavras-chave das sociedades contemporâneas. a migração de- humano à valorização do capital. deve-se receber nos estudos dos fenômenos migratórios. ilusão da história da modernização. Existem diversas nas uma ideologia. Uma vez criada uma super- população relativa. Só.com. crescente pela in- gratórios sócio-econômicos. como também da sua capacida- social concreta.

catapultadas para fora do próprio "trabalho abstrato". uma sociedade mundial imediata. . caem em mi- alidade é outra. nua mobilização fictícia da força de trabalho em acelerada crise na Podemos entender que a nova migração maciça. no âmbito de um novo sários da miséria na circulação (ambulantes etc. aglomerações (representados em pontos). ('()11l os processos históricos concretos. lassificados um conhecimento qualitativo? Muitas grandes fábricas e.' . para os seus am desesperadamente a oferecer sua força de trabalho. tecnologia de informação e globali. Microeletrônica. mas. como fazer dos fenômenos registrados. tampouco resul- Desde o início da imposição da economia de mercado. O pano de simultâneas da modernização em diversos territórios nacionais ou fundo é. uma espécie de contí- os lugares simultaneamente e se demonstra em novas dimensões. fluxos e refluxos (re- ou mais tarde.). Hoje as pessoasjá não estão coerciti- A migração contemporânea ainda tem uma nova qualida. minadas áreas de produtividade e rentabilidade. Expulsas e tão sendo expelidos para circuitos subordinados. intumesce a barbárie. O mesmo vale para a descri- 20 I Sidney Antonio da Silva (organizador) Migrantes em contextos urbanos: uma abordagem interdisciplinar I 21 r. mensurando. elas estão sendo de. seja como força modo de produção e de vida. seja como empre- atraídas. poderiam se dar melhor. mas não limites. vai surgindo ntcpcs. Em volta delas. forçada" (GAUDEMAR. individualmente processos cegos de "liberação" e desenraizamento na "mobilização e subjetivamente escolhidos. ao mesmo tempo. e sim negativamente questão migratória devem muito aos estudos demográficos. terceira revolução industrial que possui diretamente um amplo ca. o processo tado de um "progresso civilizatório" maravilhoso ou de motivos migratório foi causado pela "coerção silenciosa" da modernização subjetivamente escolhidos. vão à falência. agrupados e conseguem mais vendê-Ia. como também a longa imposição e a crise do processo de moder- ráter global. a demogra- trabalho" cada vez mais pessoas se tornam "obsoletas". além de todas as tradicionais barreiras estudos da demografia a respeito da migração. Os estudos tradicionais das migrações afirmam que a gran.ntribuições e as armadilhas dos zação do capital produzem. fia aponta para sua riqueza. nização. nuam sendo expulsas das suas terras e socialmente desenraizadas. as pessoas teriam reconhecido que. a re.1977). nacionais e culturais. serabilização absoluta. mas é universal e global. As migrações são hoje.". cada vez menos a mobilização da força de traba- regionais. Logo. mais cedo vuróveis dos processos migratórios? Volume. mas continuam a ser o resultado de e não através de motivos civilizatórios livremente. desde o final do terceira revolução industrial. Os "obsoletos" es- industrial inicial devia-se a um progresso civilizatório. Em lugar de um sistema que cobre presentados em linhas). porque não é mais limitada a determinadas arrancadas não. tipologias. então. e de força de atração dos centros urbanos capitalistas e do trabalho mesmo no interior delas. como no passado. vamente "liberadas" para o "trabalho abstrato". Na "crise do trando. transições precisam ser relacionados um capitalismo onde a reprodução se reduz cada vez mais a deter. tornam-se não-rentáveis e. é consequência de uma nova crise sócio-econômica da Face à reflexão sobre fundamentos da formação social. Ela se realiza quase em todos lho para a produção capitalista. sobretudo. continu. as pessoas foram e conti. Em processos violentos. por isso. inúmeras pequenas Como fazer as mediações entre categorias universais oriun- empresas caem abaixo do nível de produtividade determinado pelo dos da crítica da economia política e os fenômenos visíveis e men- mercado mundial. Regis- como processo de dessubstancialização econômico. Porém. quantificando e matematizando. o planeta todo com trabalho abstrato e valorização. mas não Não podemos ignorar que as informações empíricas sobre a positivamente como se fosse uma conquista. de trabalho barata em condições precárias ou. século XX. precisamos apontar as co. padrões. mais ainda. por isso.

a sociedade do sistema produtor de merca.r .. consumo e sexualidade. Se nós queremos refletir sobre o estudo das migrações através da gens demográficas e "culturalistas" e suas propostas políticas. encontramos frequentemente a pergunta: Como a sociedade é constituída. a constituição social Em seminário do grupo EXIT5. hoje se tornou de novo citável. Robert Kurz fetichista e a formação do sujeito da sociedade mo. realizado em 2008. A primeira delas os motivos do sujeito-migrante e a relação entre a realidade e a é uma citação dos Grundrisse (o "Borrador". não só para contex. Sabe-se que Marx nos deixou pouco sobre o conceito de feti- xão teórica sobre o núcleo estrutural da sociedade. K. Kurz destaca o Faz-se necessário refletir sobre a formação do sujeito da movimento do pensamento de Marx e adverte de não ler a obra de sociedade moderna e a constituição social fetichista para entender Marx dogmaticamente como se fosse uma bíblia. contramos também poucos comentários sobre o seu método aplica- mação do sujeito da sociedade moderna. V. Crítica da Economia mia da valorização e a aplicação de recursos sociais determinada Políticc'". Des- de. o movimento das categorias e a sujeição do pesquisador e Roman Rosdolsky uma divulgação mais ampla. ção de etapas. do Borrador ao "O Capital". do em sua obra. sua obra localizamos poucas observações sobre o fetiche. no seu processo de produção da obra. Prolo-radios. Trataremos. nos serve de desafio: também para compreender o seu pesquisador com suas aborda. como en- Isto implica também uma reflexão crítica sobre a for. tifica um Marx "esotérico" e um "exotérico" ajudou entender Marx chizada e da necessidade da crítica categorial. já que a sua obra voltou às prateleiras das boas livrarias neste mo- va de migrantes. li NUa publicado.. migrações repetidas ou de retorno. Em outras partes da por ele. da constituição social. mas. No início da sua obra principal. Assim procuraremos contextualizar o movimento dos mi. retenção seleti. O Capital: crítica da economia política. da razão feti. mento da crise do capitalismo do cassino. sobre a econo. se utilizou de três citações conhecidas de Marx para fundamentar derna a sua refüexõo sobre a crítica do valor-dissociação. ~ MARX. formação do sujeito da sociedade moderna e da constituição social fetichista. precisamos pensar "com Marx para além de Marx". Rosdolsky que iden- estudioso. fetichista. ~ '"' --o . 1985. che. encontramos algumas referências. Nos estudos das ciências sociais. que reflete também a própria história e o processo da obra dorias. e como é a sua reprodução? Recorremos à análise de Karl Marx. de Marx. o processo de modernização. Seguem as três citações para desenvolver o nosso raciocínio: e também em diversos estudos que fundamentam análises dos pro- cessos migratórios. que. I e 11. Livro I. neste caso. manuscritos de Marx ciência. . muito tempo tratado como autor do passado. O fetichismo não é só objeto de reflexões sobre religiosida. _-"" =-~ljll I -í: . ou da primeira edição de 1867 para a segunda edição em 1873. sobre os fundamentos da crítica à economia política) que devem a grantes. net 221 Sldnoy Antonio da Silva (organizador) Mlffrontcs em contextos urbanos: uma abordagem interdisciplinar 1 23 . São Paulo: DIFEL. direitos de ir e vir e de não ir e vir. porém. O conhecimento empírico carece necessariamente da refle. recurso para entender de a década de 1960 e 1970 podemos acompanhar uma nova leitura a sociedade moderna. No centro da nossa reflexão está o conceito da constituição de Marx. . num breve excurso. portanto. O fato que Marx deixou a respeito um torso não con- tualizar o migrante com suas motivações e necessidades. mas disponível na sua versão áudio no portal alemão de ródios livres: www. mas cluído de textos sobre a produção de teoria. "O Capital.

conduz à exigência de uma crítica à forma sujeito e ao su- jekt. São formas peculiar!' e não como uma sociedade de seres humanos trnns-his- de pensamento socialmente válidas e. equivalente geral do sistema produ- Vedog. a produção de mercadorias L. (originalmente 1857/58). Assim. da nossa constituição social. gegeben ist.P (CARTAALASALLE do objetiva-subjetiva. que as catego. a sociedade burguesa tendimento do conceito do fetichismo na sociedade moderna da moderna. hlstorlsch bestimmten gesellschaftlichen Produktionsweise. para situar tanto as rias exprimem. Berlin: Dietz processo etimológico do "rebanho" para o "dinheiro". fetiche não é apenas uma objetivação e encobrimento das relações sociais. ] 7 MARX. isto significa antes de tudo. Do mesmo modo que em toda ciência vés da representação.d. ao mesmo gorias" e usa como conceito analítico as "máscaras de caráter". consequentemente. dieses Subjekts ausdrücken [ . das System der bürgerlichen Õkonornie kritisch dargestellt. also objektive Gedankenformen für die Produktionsverhiiltnisse dieser Darstellung des Systems und durch die Darstellung Kritik desselben. o sistema da economia burguesa representado criticamente.. tóricos. der Warenproduktion. ist 'Kritik der õkonomischen Kategorien' 8 Dcrartige Formen bilden eben die Kategorien der bürgerlichen Õkonomie. mas torna-se o estudo de que se trata aqui é "Crítica uma aparência real. if you relações sociais. executada pelos homens e determinada pelas das categorias econômicas" ou. determinações de existência. Das Kapital. O paradoxo real da constituição objetiva-subjetiva leva a autonomização das categorias e seu movimento. das Sub. Em primeiro lugar. Frank- furt: Europiiische Verlasanstalt. p. Assim a aparência deixa de ser uma mera aparência. hier die moderne bürgerliche Gesellschaft. procedimentos dos pesquisadores de migrações dentro do invólucro quentemente aspectos isolados dessa so.. 26)7 dade como sujeito. objetivas para as relações de apenas de relações entre seres humanos ou grupos humanos. oft nur einzelne Seiten dieser bestimmten Gesell- schaft. sujeito automático. chama atenção a uma duplicidade: trata-se de uma constituição historicamente determinado. portanto. 90. não falamos portanto. isto é.Karl. li Podemos lembrar jocosamente que o termo possui a raiz pecu-. a sociedade é objeto e sujeito. Es sind gesell. um die es sich zuniichst handelt. tor de mercadorias 2" I '1Idn~y IInlonlo da Silva (organizador) Migrantes em contextos urbanos: uma abordagem interdisciplinar I 25 ~ . Es ist zugleich schaftlich gültige. 10 Die Arbeit. oder. nesse caso. O tempo. ]6 (GRUNDRISSE. a propósito do curso das categorias econômicas. sozialen Wissenschaft. wie in der Wirklichkeit. está dado tanto na realidade efetiva como no cérebro. O fato de a forma sujeito ser resultado da constituição do 6 Wie überhaupt bei jeder historischen. [s. so im Kopf.Karl. Marx produção desse modo social de produção. und dass die Kategorien daher jeito enquanto personificação. estudioso das migra- Daseinsformen. É.. tratando de relações sociais modernas. ctru. economia do mercado e. que a sociedade moderna é vista na sua totalidade histórica como rias da economia burguesa. nota-se que Marx fala da própria socie- 1857/58. Existenzbestimmungen. Kritik der politischen õkonomie (originalmente 1867). fre. Marx fala também da "personificação das cate- like. ) 972. ist bei dem Gang der okono- mischen Kategorie immer festzuhalten. e se desenvolveu no seu 9 MARX. Tais formas constituem pois as catego. ciedade determinada [ . fetiche.. O cientista. if you like. a crítica da mesma.. histórica e social em geral é preciso ter (CARTADEMARXALASALLE. dnss. que o su- Estas três citações servem para caminhar em busca do en- jeito. 26. representação do sistema e. Grundrisse der Kritk der politischen okonomie. suas ações sociais e culturais quanto os de ser. p. formas de modo motivações dos migrantes.22/02/1858)10 sempre em conta. O feti- dia 22/02/1858)9 che não é apenas entendido como encobrimento das relações reais.] p.

Um dos grandes tender a forma e o conteúdo sempre relacionados. O conceito da substân- údo torna-se ideologia e a afirmação do conteúdo ideológico da cia é substituído pelo conceito da função. razão. inclusive uma crítica categoria I. Conhecer exige uma crítica. As reflexões sobre as crelcçõo mercadoria . Na mente do migrante e sociedade impede a crítica à forma objetiva do pensar. indo para a lógica da circulação. saem da reflexão da de mulheres ficam presas às formas objetivas do pensamento e às lógica da produção.'ililllt'Y do ~lIvo (orgonlrcdor) 11111111110 Mi(lrontcs em contextos urbanos: uma abordagem interdisciplinar I 27 t: r. chegamos a um entendimento de diversos fenômenos ficas objetivas. O conte- ênfuse é simplesmente a relação funcional. que assim das formas de existência e suas determinações. uma matriz para dirigir Todos estes fenômenos e todas as categorias isoladas formam uma o comportamento do migrante no seu cotidiano e para orientar a unidade e as categorias têm a sua origem numa matriz apriori. Formas são con- problemas das análises tradicionais de questões migratórias está teúdo e tem conteúdo no processo vital real. rica aponta para as determinações categoriais. Nas formas de modo de ser e pensar. É o "fazer atrás mos a lógica da circulação. não existe um objeto sem precondições. É por isso que tórica e religiosa. estado etc. temos a ló- tuídas se representam sempre através da matriz. de outro lado. Aconstatação da história interna O uma quantidadey de dinheiro. Não há nenhuma razão ontológica. No combate à metafísica his- matriz a priori trabalho. os direitos humanos dos migrantes e o tráfico sucumbem fortemente ao relacionismo. tudo foi subordinado às categorias fetichizadas (terceira citação) aponta para a necessidade da crítica. as categorias não são congeladas. é fazer sem saber o que se faz. A carta a Lassalle ao mesmo tempo. O que ganha "formas de existência". devemos en- Se tudo é história.dinheiro. A reflexão sobre as percep- bém. sexismo. porque as rela- moderno. não trata de. etc. Desta forma tam- difere da habitual atividade científica. não trata de construções cientí- ções concretas. . da realidade. dinheiro. precarização. De um lado. mensurar o cotidiano e as pesquisas sobre o cotidiano já são filtrados pela e classificar processos e motivos é reconhecer a matriz apriori como matriz historicamente produzida. existe uma lógica elaborada pelo iluminismo. Para o mundo externo. das relações de troca. Mas as formas consti- na fragmentação de duas lógicas de ação. do pesquisador neoclássico ou pós-moderno tudo é percebido em Aqui também deve ser lembrado o percurso e o permanente relações e funções: uma quantidade x de mercadoria corresponde movimento histórico da sociedade. matriz determina a mente e a razão. nas determi- empíricos das migrações: chauvinismo. uma razão que não existe trens- Por isso. tudo foi colocado perante o tribunal da razão e. nações da existência está presente. Essa reflexão do cientista. e toda filo- ções sociais e os conceitos estão ligados. isso vale também para a razão. isto é. Quem age assim no invólucro da e do processo concreto do sistema produtor de mercadorias leva ao rczêo fetichizada ignora ou nega o conceito de substância e acha reconhecimento do movimento das categorias. não há para o estudioso das migrações um objeto historicamente. No processo concreto ue deve criticar o assim chamado "essencialismo". As análises das ciências sociais barreiras à migração. a ciência. encontra- da constituição dificulta e impede o entendimento. todos os processos de vida e todas as motivações dos migran- ções do mundo do migrante deve sempre levar em consideração que tes são subordinados à razão iluminista. algo externo. em seu sentido tradicional. A coerção objetiva gica da produção do trcbclho abstrato e. e a análise concreta histó- 61 . Quando Marx fala de formas de modo de ser. onde situamos das costas". Apenas registrar. impossibilitando assim a crítica. Para ambos existem como cional no processo de modernização. Por meio de media- ções. a priori. na crítica da ideologia e das configurações da sua his- tória. não serve. Migrante e pesquisador sofia do esclarecimento faz parte de um percurso de construção ra- estão sujeitados à razão do cotidiano. direito.

mercado. uma vez que as categorias não estão constituindo o único modo de compreender globalmente aquilo que congeladas. fundamental da caracterização da mercadoria. a vender sua capacidade ou força de mo agora. to crítico de mobilidade do trabalho como conceito que correspon- mos dentro do invólucro e também pensamos no interior da razão de às formas de existência da força de trabalho como mercadoria. Primeira edição em francês. sob o lema da "igualdade. Na sua discussão. mas indicavam uma nova forma de subordinação locou uma categoria contra uma outra. foram obrigados. 281 Sidney Antonio da Silva (organizador) MIBronlCS em contextos urbanos: urna abordagem interdisciplinar I 29 i'f' ii . no qual o autor demonstra que o modo de produção trabalhador submetido ao capital. A matriz existe. o movimento das categorias e a sujeição do Gaudemar constrói as bases para a discussão de um concei- pesquisador no contexto do fetiche. baseado numa ideia de que lutam por justa relação social no mercado. continuo lembrar e e de qualquer outra mercudoriu que possa vender. Como exemplo podemos lembrar uma longa história que co. Dessa liberdade de compra e pa. É a nossa sorte. mas 12 GAUDEMAR. não recomendar a leitura crítica de um livro escrito na década de 1970 tendo outra hipótese que não seja vender sua força de trabalho. Jean Paul de. sentação e discussão de textos da economia neo-clássica tratan- to através do direito ou até os movimentos sociais contemporâneos do do conceito de mobilidade do trabalho. e a segunda é dedicada à análise da mobi- ir e vir e pela democratização das relações de rrobclho para os mi. a submissão do traba- reflexão crítica radical com uma análise concreta histórica. O livro "Mobilidade do trabalho e acumulação do capital" tica sobre a economia. A ex. moderna. prejudicada pela vontade sempre reafirmada da primazia da polí. na multiplicidade de seus modos. nós esta. na qual grantes. o trabalhador deve ser uma pessoa livre e luta de saída lenta do invólucro categorial da razão fetichizada. portanto. tos de um processo lento e contínuo de emancipação e de uma Em primeiro lug-ar. como determinações polares. "Mobilidade do Trabalho e Acumulação do Capital" de Jean Paul de Esse caráter. da liberdade do Gcudemor". tos dos migrantes. sempre defendendo o trabalho abstra. Um outro grande problema é a resistência de categorias eo capitalista e a sociedade moderna. lidade do trabalho no processo de acumulação capitalista. ao mesmo tempo positivo e negativo. como elemento tinção das categorias. assenhorados de seus corpos. a intervenção sempre negativa e a possi. fre- costumavam elevar a importância da instituição do estado. Num secular processo da imposição da sociedade moderna. E. lho ao capital. 1977. não significavam apenas a libertação matriz. pelo direito livre de "mobilidade perfeita". mas em processo e em movimento. num momento de crise. está dividido em duas partes: a primeira parte é dedicada a apre- cional até o socialismo real. o que facilita a permite. quentemente com violência. o autor ressalta. poder dispor à vontade da sua força de trabalho como mercadoria que lhe pertence. acepção marxista para criticar a "Economia política" neo-clássica. Lisboa: Estam. para o trabalho. o mercado contra o estado social. Mobilidade do trabalho e acumulação do capital. li- fato que a crítica sempre se movimentou dentro das categorias da berdade e fraternidade". em segundo lugar. mes. deve encontrar-se livre tam- Voltando à mobilização para o trabalho abstrato bém de qualquer outra possibilidade de reproduzir sua existência Como já em vários momentos anteriores. Isto vale desde o movimento operário tradi. encerra a "liberdade de traba- lho": o trabalhador dispõe livremente de sua força de trabalho. a elaboração das contradições é trabalho. Gaudemar elabora o conceito de mobilidade do trabalho em sua Volto a lembrar a necessidade de pensar os movimen. sua presença no bilidade de rebentar as determinações de existência são elemen. Os críticos da sociedade capitalista os homens. m absoluta necessidade de a vender.

Não Ser móvel significa. Fugindo da armadilha de pital o é. tanto quanto o ca. é isso que a razão fetichizada exige. I'carranjo da organização da produção que sujeita os trabalhadores vas". Dos movimentos sociais envolvidos com migrantes. como tando-se com uma crítica interna dentro do invólucro econômico. O pesquisador das migra- O ponto de partida da minha reflexão é a nossa existência s não deve se limitar à aparência da ação voluntária. também ser indiferente ao conteúdo do trabalho. espe- balho morto" e a expulsão crescente do "trabalho vivo". O reconhecimento que os velhos paradigmas de esquerda de e exército industrial de reserva fazem parte do aparato conceitual II'IIIIII\() C revolução. Êxodo rural 1111110'. ~1I11'I1I11~x\(Hllllhol1o~: urna abordagem interdisciplinar 131 -s: . na realização de trabalho abstrato.~ . Afinal. illlllll/lll. mas está "uais são os desafios? submetido sempre às exigências do mercado e da concorrência assim Dos pesquisadores acadêmicos e dos movimentos migrató- como a qualquer momento um trabalhador pode ser despedido ou as rios esperamos um aprofundamento dos conhecimentos empíricos. algumas palavras finais: li uma constante mobilização forçada. à autonomização. condições em que esse exerce seu trabalho podem ser modificados. na qual o histórica no sistema global produtor de mercadorias. É a reprodução secular imposição da valorização do valor como fim em si mesmo. como relação social contraditória que produz as neces- É um sistema que se reproduz permanentemente num processo de Idades e mobiliza a força de trabalho a cada momento. portanto. um sistema de mlgrunte busca satisfazer o seu interesse individual. social e cultural da forma mercadoria. ou melhor. no entendimento tradicional. A dupla liberdade conduz ao caráter móvel da força de traba- lho que pode escolher seu trabalho e o local onde exercê-Io. robotização). naturalização do histórico e do social. provocam uma ampliação do "tra. maciços de migrantes potencialmente desmobilizados. O obrigctório aumento da produti. tlll 11\l~ão de poder simplesmente evitar atuações piores de outros vidade e o avanço da tecnologia (automação. desde que tenha êxito no processo de valorização do valor.Oo Iluminista que não alcançará nunca uma emancipação 111 1111 30 I ~Idll!'y flnIO"I" tllI ~llv" (111Htllli/odor) Mh!tllIll~. produtos da liberdade negativa da mobilização. a migração é uma das di.'1 na reprodução permanente do processo de valorização do A crise. do capital. A reflexão crítica exige uma crítica radical ao valor e à cisão 111\ 6rios e sociais. Dos envolvidos nas ptividades do estado e nas políticas mi- mento. I~11t. versas tentativas de manter as pessoas como sujeitos do trabalho bilidade do trabalho. sob a UlllllO'. Podemos falar da mobilidade forçada. esperamos uma reflexão autocrítica sobre o seu das esferas fragmentadas. esperamos uma mobilizados ficcionalmente numa sociedade da crise do trabalho. Dut]lIçles que lutam por direitos humanos. venda da força de trabalho define-se o caráter capitalista da mo. tornaram-se do passado do sistema. desistindo a barreira interna do sistema. batuta da lei da concorrência. aponta para vulor. o pesquisador deve produ- 7ir conhecimento sem ontologizar e descrever criticamente.. transfiguração. produz sujeitos e necessidades e conduz o pensa. estar apto para os deslocamentos e convém se limitar aos registros sofisticados das migrações conten- modificações no emprego. mas aguardamos a substituição da ciência positiva pela crítica. sempre Desafios e perspectivas lembrando que também a forma mercadoria exige um permanente Para atender ao título do seminário "desafios e perspecti. na sua configuração contemporânea. Hoje podemos observar os deslocamentos I IItil\( (lh.no t'l'fLlco sobre a sua bandeira inerente ao processo de mo- Todavia. políticos. abstrato. também nesta crise terminal. I'lIp.

miserabilização não pode ser estabilizada no sentido do mero re. a sua sujeição à valorização do capital. Mas essa luta é apenas possí- Também para a consciência de movimentos sociais das vel como uma reivindicação transitória no contexto de uma crítica migrantes e dos migrantes. Por outro lado. do mercado e do estado. e uma autocrítica que aponta à sua própria nova absorção do trabalho em grande escala. como "problema". também parcelas não-migrantes da população "obsoleta". precarização e Ill'gativa das leis da concorrência e da competição. Cabe aos pesquisadores das migrações uma postura de crí. de existência dos migrantes.xllJlll1lbl1l1l1~: obordogcm 11111(1 intcrdlsclplinor 133 ff' í< . não deixo de ter a fé que existe uma vida depois . No mundo inteiro. conhecimento enquanto sujeitos da produção de mercadorias. depois da inserção negativa do migrante Se as migrantes e os migrantes não querem outra coisa a não ser 1111 Inundo monetarizado e das' políticas da administração da crise. para poder pensar além dele. o citiva da economia do mercado. transnacional que está disposto a eliminar o sistema produtor de O migrante. É possível perder raízes. porque ela mesma já é consequência de uma crise e tlccrnente um sujeito da transformação e emancipação social.odor) MIIIIIIIII"_ MIIII'nllll. buscando meramente vantagens individuais na máquina A luta necessária contra a discriminação. O caminho da crítica movimento operário que não deseja outra coisa do que o reconhe. numa sociedade. quanto às for- cimento de seus interesses na ordem existente. a capacidade do capital para uma constituição social. tes e dos migrantes. como por exemplo. seja automa- de mercadorias. De outro lado. ser entendida como parte integrante do movimento social amplo e cadorias. o número cada vez 1'6111. O movimento social das migran- quando eles reconhecerem a relação causal entre migração e bar. cimento só se pode pensar provisoriamente. 321 Sldney IIntonlo do Silvo (oI'BonIJ. passa pela leitura e o estudo da demos observar que estão caindo fora de qualquer reconhecimento Idllll do Marx. po. torna-se crescentemente mercadorias do capitalismo moderno. Po- desubstancialização do trabalho. O IIr'pois da coerção impessoal que faz dos migrantes máquinas de movimento das migrantes e dos migrantes não pode ser um novo I umbustõo da energia abstrata do trabalho. desaba a condição material e econômica de um tica social radical. que degrada. objeto de políticas restritivas e. uma crítica aos fundamentos da nossa reconhecimento formal. mas ganhar asas da emancipação tudes assistencialistas e humanitárias ou está até convocado para numa sociedade. A produção de conhecimento sobre direito de permanência dos hispano-americanos "ilegais" no Bra- migrações deve levar a sério a crítica da forma mercadoria. 11111\ o 00 moderno sistema produtor de mercadorias.. objeto de ati. só haverá uma perspectiva de futuro fundamental e nova do sistema. migrantes "não-documentados".. 11111'. ultrapassando a vontade de uma inserção num mundo da e não pode mais ser politicamente regulado . na qual todas as relações se tornam relações mo- fazer parte dos movimentos sociais das "multitudes". com a sua "mão invisível" tos revolucionários da grande transformação social. membro de uma assim chamada "multitude". novos sujei.. A luta por reconhe- condição de sujeitos fetichizados e sujeitados à "ditadura" coer. não deixo de ter a esperança de que o desenraizamento social maior de "refugiados" já é uma expressão de que o sistema mundial possa ser um potencial da construção das asas de uma consciência de trabalho abstrato de produção de mercadorias está desabando nrtica. Ainda. A migração do mercado e o "braço visível" do estado. isto é. (Juais são as perspectivas? social. netárias. as relações entre as pes- dos ficticiamente mobilizados não pode tornar-se um movimento soes e degrada progressivamente a natureza? Não acho que o rni- de emancipação no fundamento do trabalho abstrato de produção /{rante. isto é. há algo a ser criticado. hnrbdrie. ao mesmo tempo. no sentido de uma conscientização. só pode bárie nos limites históricos do moderno sistema produtor de mer. sil..