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A NOVA RAZÃO DO MUNDO: ENSAIO SOBRE A SOCIEDADE NEOLIBERAL

THE NEW REASON FOR THE WORLD: ESSAY ABOUT THE NEOLIBERAL
SOCIETY

Martin Kuhn
Walter Frantz

Resumo
O livro A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal propõe fazer uma leitura
crítica do movimento político e econômico que desemboca na denominada sociedade
neoliberal. Os autores escavam, desde o século XVII e XVIII, o movimento de construção e
reconstrução do liberalismo. Está estruturado em duas partes. Na parte I, constroem uma
espécie de genealogia do liberalismo, dos seus primórdios até os anos 1980, quando se
configura o que denominam de racionalidade neoliberal. Em cinco capítulos produzem um
movimento retrospectivo e apresentam ao leitor as teses básicas do liberalismo e suas
sucessivas transformações, permitindo compreender a racionalidade neoliberal. A parte II da
obra, organizada em quatro capítulos, discute as transformações em curso, nos planos
políticos, econômicos e sociais, nas subjetividades dos indivíduos, produzidas pela
racionalidade neoliberal. Para os autores a razão neoliberal expressa uma racionalidade não
democrática e que ataca de modo explícito a cidadania. Sugerem que fugir dessa prisão total e
global é extremamente difícil e vislumbram nas práticas de ‘comunização’ do saber, de
assistência mútua, de trabalho cooperativo como traços de formas alternativas a outra razão
do mundo, designando-a por razão do comum.

Palavras-chave: Liberalismo. Neoliberalismo. Racionalidade.

Abstract
The book The new reason of the world: essay about the neoliberal society proposes to make a
critical reading of the political and economic movement that leads to the so-called neoliberal
society. From the seventeenth and eighteenth century, the authors have been digging the
movement for the construction and reconstruction of liberalism. It is structured in two parts.
In part I, they build a kind of genealogy of liberalism, from its beginnings up to the 1980s,
when what they call neoliberal rationality is configured. In five chapters they produce a
retrospective movement and present to the reader the basic theses of liberalism and its
successive transformations, allowing to understand the neoliberal rationality. Part II of the
book, organized in four chapters, discusses the ongoing transformations in political, economic
and social plans, in the subjectivities of individuals, produced by neoliberal rationality. For
the authors, the neoliberal reason expresses an undemocratic rationality that explicitly attacks
citizenship. They suggest that escape from this total and global imprisonment is extremely
difficult and they envisage practices of 'communication' of knowledge, of mutual assistance,
of cooperative work as traces of alternative forms to another reason of the world, by
designating it by reason of the common.

Keywords: Liberalism. Neoliberalism. Rationality.

DARDOT, Pierre; LAVAL, CHRISTIAN. A nova razão do mundo: ensaio sobre a
sociedade neoliberal. São Paulo: Boitempo, 2016.

orientado pelo princípio da competição e “produzindo uma subjetividade ‘contábil’ pela criação de concorrência sistemática entre os indivíduos” (p. Compreender o neoliberalismo. Na parte I. certas maneiras de viver subjetividades”. um dos equívocos mais recorrentes acera do neoliberalismo se refere à retirada do estado da economia. saúde e de educação da população” (p. os autores constroem uma espécie de genealogia do liberalismo. tais como. 24). O livro está estruturado em duas partes. estado. 30). segundo os autores. O livro A nova razão do mundo: ensaio sobre a sociedade neoliberal. apresentam de modo objetivo e esclarecedor alguns conceitos acerca dos discursos que circundam a temática do liberalismo/neoliberalismo. historicamente. Os seus capítulos produzem um movimento retrospectivo. à custa de todas as considerações de salvaguarda das condições mínimas de bem-estar. 17). desde o Estado até o mais íntimo da subjetividade” (p. subjetividade. práticas e dispositivos que determinam um novo modo de governo dos homens” (p. a relação entre . privatizações. tornando-se “coprodutor voluntário das normas de competitividade. Pelo contrário. em nosso entender. quando se configura o que os autores denominam de racionalidade neoliberal. que se estendem a todas as dimensões da existência humana como uma razão do mundo. 34). produziram uma nova governamentalidade. permitindo que o leitor tenha uma compreensão mais consistente do ensaio. Na introdução da obra. permitindo compreender a racionalidade neoliberal. 16). No entender dos autores. dos seus primórdios até os anos 1980. o neoliberalismo “produz certos tipos de relações sociais. não se trata de um complô programado. uma razão-mundo (p. Ao desfazerem o entendimento simplificado da redução do neoliberalismo a uma ideologia política econômica. apresentando-o como uma racionalidade. Apresentam ao leitor as teses básicas do liberalismo e suas sucessivas transformações. O que fica explícito na revisão histórica do liberalismo é de que se trata de um conjunto de elementos que. Apesar de reconhecer essa interconexão. o movimento de construção e reconstrução do liberalismo. Os autores escavam. concorrência. Na sua visão. o “desenvolvimento da lógica do mercado como lógica normativa generalizada. afirmam que o Estado neoliberal assume políticas intervencionistas. propõe fazer uma leitura crítica do movimento político e econômico que desemboca na denominada sociedade neoliberal. fortalecendo uns aos outros” (p. que tende a estruturar e organizar a existência humana em sua totalidade. de Pierre Dardot e Christian Laval. 31). requer conhecer a história de sua construção. desde o século XVII e XVIII. Definem-no como um “conjunto de discursos. de seus modos de pensar e agir. “interagindo uns com os outros.

sem dúvida. A crise que se produziu nas teses sobre “o direito natural. os autores assumem o entendimento de que o liberalismo clássico cede lugar a um novo liberalismo reformista.o legado de uma tradição e o novo que se configura. [.. Essa tese é contraposta pelas perspectivas sociais que defendem a “capacidade humana de criar de forma voluntária e consciente uma ordem social justa. Defende que a prosperidade social para todos “é uma consequência da economia de mercado e apenas dela. que tanto quanto . reconhecendo que o “estabelecimento e o funcionamento do capitalismo não são predeterminados: eles dependem das ações políticas e das instituições jurídicas” (p. regulamentações..). leis destinadas a consolidar a condição dos assalariados e a evitar tanto quanto possível que eles continuassem a criar o pauperismo que afligiu todo o século XIX” e que se consolidou nas políticas econômicas do modelo de welfarismo. trata-se apenas do aprimoramento de um modelo de acumulação e expansão. Apesar disso. uma extensão máxima da liberdade ao maior número de indivíduos.] dá ao Estado o papel essencial de assegurar a cada indivíduo os meios de realizar seu próprio projeto” (p. a partir de meados do século XIX. fundado em políticas redistributivas. 61).. 64). gera-se uma tensão permanente entre os dois tipos de liberalismo. principia a produção de um contraponto: o liberalismo de caráter reformista e social. reguladoras e protecionistas passou a ser visto. afirmam os autores que o liberalismo social assegura. um mal necessário. o Estado aparece como interventor legítimo na economia e na sociedade. acaba sendo um golpe ao liberalismo dogmático. ao passo que os seguros sociais e as indenizações de todos os tipos pagos pelo Estado social. configurando um modelo de “Estado administrativo. mas longe de significar sua derrocada. 103). que reprime a dinâmica espontânea do mercado e protege a sociedade” (p. Diferentemente do liberalismo naturalista. respeitar a natureza” (p. a liberdade de comércio. “Não intervir era. assistenciais. em resumo. planificadoras. pelos liberais dogmáticos.. Trata-se de um “movimento ascendente de dispositivos. os ordoliberais defendem a criação de um Estado de direito. por “legislação. Há uma gradativa transformação do Estado como instituição política em agente racional de organização e defesa de interesses econômicos. 103). criador e regulador da economia e da sociedade de mercado (. Assim. na compreensão dos autores. O ordoliberalismo não trata da defesa de um Estado de bem-estar ou Estado Social. Na visão dos autores. mas provisório. O contorno assumido pelo liberalismo. 80). marcado pela intervenção política em matéria econômica e social. a propriedade privada e as virtudes do equilíbrio do mercado pela livre concorrência”. condizente com a dignidade do homem” (p. Essa regulamentação. Nesse novo modelo. como uma degeneração e que conduziria ao coletivismo. Do ponto de vista da economia.

práticas. vai requerer a consolidação de pelos menos 4 estratégias: a produção de uma estreita articulação entre as políticas neoliberais e as transformações do capitalismo e. A parte II da obra discute as transformações em curso. lastro para racionalidade neoliberal. econômicos e sociais. Esse liberalismo renovado defende um Estado forte. preservando a “eficiência da ordem do mercado”. Assim.possível deve ser limitado – podem desmoralizar os agentes econômicos” (p. nas subjetividades dos indivíduos. obrigados a governar a si mesmos sob a pressão da competição. com o respeito das regras gerais pelo próprio Estado” (p. a modificação das regras de funcionamento econômico e a alteração das relações sociais de modo a impor esses objetivos” (p. regulada pela concorrência. refletindo- . uma nova racionalidade fundada na concorrência e competição como norma de conduta. questionando-se a regulação keynesiana. 199). Portanto. conservadoras e neoliberais. desse modo. a produção de uma disciplina para os sujeitos. com a “busca de objetivos relacionados a uma distribuição justa da renda está em contradição formal com a regra do Estado de direito” (p. ao mesmo tempo. entendida como “o conjunto de discursos. ao mesmo tempo. As quatro exigências requerem a efetiva participação do Estado para a produção e consolidação dessa racionalidade. Assim. a estratégia neoliberal. A nova racionalidade. para tal. aprofunda-se a implementação de políticas de ruptura com o ‘welfarismo’ da social- democracia. nos planos políticos. guardião do direito privado. empenhando-se a favor de políticas econômicas que levam a “comprimir salários e gastos públicos. por fim. 180). reduzir ‘direitos adquiridos’ considerados muito onerosos e enfraquecer os mecanismos de solidariedade que escapam à lógica assistencial privada” (p. 123). A racionalidade ordoliberal produz. o Estado se torna essencial. empenha-se em disciplinar os indivíduos e produzir uma nova subjetividade. 121). 191). dispositivos de poder visando à instauração de novas condições políticas. em termos ideológicos uma crítica sistemática e duradoura de ensaístas e políticos contra o Estado de bem-estar. 178). de modo que o “indivíduo possa contar com a aptidão do Estado para fazer com que as regras gerais sejam respeitadas e. Mais que isso. passa a ser apresentada como a alternativa à crise do Estado. Conforme os autores. contrário ao discurso de sua retirada do cenário. a queda de lucros e a desaceleração do crescimento” (p. Não cabe aos governos o propósito de produzir justiça e equidade por meio da transferência de “rendas mais altas para as rendas mais baixas” (p. o Estado keynesiano. nos anos 1980. com os argumentos de que “poderiam superar a inflação galopante. agora. segundo os princípios do cálculo maximizador e uma lógica de valorização do capital e. produzidas pela racionalidade neoliberal. 189). contribui amplamente para a criação de uma ordem que o submete a novas restrições.

Segundo os autores (2016. . combater as ideias que visam a pôr em risco esse tipo de sociedade” (p. por falta de previsão. p. em todo caso. trata-se de responsabilizar o indivíduo pela sua condição. O modelo empresa torna- se a referência para a produção das subjetividades neoliberais. vetor e parceiro do capitalismo financeiro”. ‘precário’. à educação. em uma empresa de si capaz de encontrar e assegurar um emprego. do emprego e da velhice confluem numa visão contábil do capital que cada indivíduo acumularia e geraria ao longo da vida” (p. “O homem neoliberal é o homem competitivo. Sob essa ótica e lógica. liberdade de escolha. e pela administração empresarial dos estabelecimentos escolares. o fracasso escolar e a exclusão são vistos como consequência de cálculos errados” (p. o desemprego. inteiramente imerso na competição mundial” (p. responsabilizando-o pelas dificuldades da sua existência. os valores fundadores da sociedade livre ou. da educação. Em última instância. “a doença. As instituições de ensino teriam. antes propõe que os Estados sejam “vistos como uma ‘unidade produtiva’ como qualquer outra no interior de uma vasta rede de poderes político-econômicos submetidos a normas semelhantes” (p. de modo que a concorrência e a competição sejam as normas de conduta. 321). “a desgraça. 230). à saúde. claramente a tarefa de “transmitir. O neoliberalismo não procura tanto a retirada do Estado. Assim. portador de capital humano. assim. a doença e a miséria são fracassos dessa gestão. ‘fluido’. 231). p. ‘flexível’. A governança empresarial torna-se modelo de governança do Estado. Sob a lógica da racionalidade neoliberal “não se trata mais. prudência. a pobreza. Estado neoliberal passa a ser “construtor. 322). 205). seguro contra riscos” (2016. ‘sem gravidade’ (p. 230). que compra títulos na baixa para tentar revendê-los na alta”. de redistribuir bens de acordo com certo regime de direitos universais à vida. por meio de seu trabalho. Assim. que propõem a transformação das escolas em estabelecimentos comercais pela concorrência. transformando-se “numa espécie de Estado corretor.se nas políticas educacionais. Para a racionalidade neoliberal se tornar efetiva é fundamental a produção do sujeito neoliberal que pode ser definido como alguém ‘impreciso’. 249). como no ‘welfarismo’. 277). Para a racionalidade neoliberal “a problemática da saúde. não é incomum o discurso do sujeito empreendedor ou da empresa de si mesmo. à integração social e à participação política. Isso foi explicitado objetivamente na crise de 2008. isto é. A produção de subjetividades com essa performance requer um sólido e convincente trabalho pedagógico que transforme cada um em empreendedor de si. mas de apelar à capacidade de cálculo dos sujeitos para fazer escolhas e alcançar resultados estabelecidos como condições de acesso a certo bem-estar”.

assim como a instauração de um sistema de direito específico” (p. somente é possível se cada indivíduo se tornar uma pequena empresa” (p. 377). em última instância. c) a desmoralização. supervisionar e zelar para que as regras de concorrência sejam respeitadas por todos os agentes econômicos. f) a perversão comum. elaborando estratégias adequadas”. . O terceiro traço afirma que o “Estado não é simplesmente o guardião vigilante desse quadro. definida como relação de desigualdade entre diferentes unidades de produção ou ‘empresas’” (p. e para tal a fabricação em série de subjetividades empresariais é fundamental. 334). “O grande princípio dessa nova ética do trabalho é a ideia de que a conjunção entre as aspirações individuais e os objetivos de excelência da empresa. e) a dessimbolização e. d) a depressão generalizada. A expressão ‘empresa de si mesmo’ é bastante esclarecedora para definir a subjetividade neoliberal. “Eles têm um ponto em comum: podem se referir ao definhamento dos quadros institucionais e das estruturas simbólicas nos quais os sujeitos encontravam seu lugar e sua identidade” (p. atingindo diretamente até mesmo os indivíduos em sua relação consigo mesmo” (p. ele próprio. 378). Ou seja. b) corrosão da personalidade. mas como uma realidade construída que. requer a intervenção ativa do Estado. Em segundo lugar de que a essência de nova ordem de mercado não reside na troca “mas na concorrência. entre os profissionais. Na razão neoliberal empresa é promovida a modelo de subjetivação. ou seja. entre o projeto pessoal e o projeto da empresa. A sociedade neoliberal pressupõe a produção dessas subjetividades. Significa afirmar que o fracasso e o sucesso profissional. 361). como tal. em sua ação. 378). é submetido à norma da concorrência” (p. Em sua conclusão os autores apontam 4 traços que caracterizam a razão neoliberal. não é incomum a confirmação dos sintomas constatados nos ambientes de trabalho. citado pelos autores (2016. feito para ganhar e ser bem-sucedido. cada indivíduo é uma empresa “que deve se gerir e um capital que deve se fazer frutificar” (p. Cabe ao Estado a tarefa de instaurar. é responsabilidade única do indivíduo. O quarto traço afirma que a “norma da concorrência ultrapassa largamente as fronteiras do Estado. produz sintomas clínicos. 333) afirma que “falar em empresa de si mesmo é traduzir a ideia de que cada indivíduo pode ter domínio sobre sua vida: conduzi-la. Primeiramente a de que “o mercado apresenta-se não como um dado natural. Entre os sintomas os autores apontam: a) o sofrimento no trabalho e autonomia contrariada. etc. Bob Aubrey. Em um olhar atento para a nossa realidade. Esse novo sujeito competitivo. a ética da empresa e a ética do sujeito neoliberal se orientam sob os mesmos princípios. as mesmas regras que regulam o mercado impõem- se ao Estado. geri-la e controlá-la em função de seus desejos e necessidades. p. 377). 378). Portanto.

Para eles a “cidadania em termos de direitos sociais. assim. 396). coloca-se a questão da saída dessa prisão: “como resistir aqui e agora à racionalidade dominante”. Na visão dos autores. 384). ajusta-se ante os novos cenários que se apresentam. 382). 396) pela interiorização de seus princípios morais e éticos. Vislumbram ser possível alinhar-se a outros horizontes que não os da racionalidade neoliberal e. designando-a por razão do comum. ante a corrosão progressiva dos direitos sociais do cidadão. de trabalho cooperativo como traços de formas alternativas a outra razão do mundo. jurídicos e econômicos” (p. Como racionalidade dominante – “conjunto de dispositivos discursivos. sugerem práticas de ‘comunização’ do saber.a razão neoliberal reorganiza-se. políticos e sociais se encontram igualmente ameaçados” (p. de assistência mútua. . Assim. Por se tratar de uma razão global e total fugir dessa prisão é extremamente difícil. Como tal sugerem a produção de uma dupla contraconduta: a “recusa de se conduzir em relação a si mesmo como uma empresa de si e a recusa de se conduzir em relação aos outros de acordo com a norma de concorrência” (p. “o único caminho praticável é promover desde já formas de subjetivação alternativas ao modelo empresa de si” (p. . políticos. Para os autores a razão neoliberal expressa uma racionalidade não democrática e que ataca de modo explícito a cidadania. institucionais. 401). “na medida em que esta tende a trancar o sujeito na pequena ‘jaula de aço’ que ele próprio construiu para si” (p.