You are on page 1of 21

Imaginação televisual

e os primórdios
da tv no Brasil
Marialva Carlos Barbosa

Em janeiro de 1944, a revista Seleções do Reader’s Digest publica um anúncio
que, no mínimo, causa estranhamento a quem se dedica a pesquisar a história
dos meios de comunicação. Ocupando uma página ostenta o título: “A eletrônica
trará a televisão ao nosso lar”.
A publicidade da empresa General Electric destaca a imagem de uma me-
nina loura apontando uma caixa, onde, em preto e branco, um palhaço ocupa
parte da tela e é acompanhada por um texto que procura explicar as potecialida-
des técnicas do novo invento, possibilitado pelo desenvolvimento da “eletrônica”,
classificada como “uma nova ciência para um novo mundo”. A empresa, deixa
claro o anúncio, participa ativamente do esforço científico de tornar possível a
transmissão de imagens em aparelhos domésticos, realizando experimentos no
sentido de desenvolver a “nova ciência” (ver p. 22).

História da televisão no Brasil

Seis anos antes da instalação das primeiras emissoras no país, a TV Tupi Di-
fusora de São Paulo e a TV Tupi do Rio de Janeiro, observa-se nos anúncios publi-
citários, nas matérias publicadas nos jornais diários, nas revistas antes destinadas
exclusivamente a publicar notícias sobre o rádio, a formação de um imaginário
tecnológico sobre a televisão, que a apresenta de múltiplas formas.
Tecnologia que insere, definitivamente, o país na modernidade; possibilida-
de decorrente da capacidade inventiva do homem; ampliação da reprodução sobre
a forma de verdade das imagens do mundo; meio mais completo do que a radio-
telegrafia, que permitiu a eclosão das ondas sonoras nos espaços domésticos: essas
são algumas das formas com que se caracteriza o novo meio. Imersa numa imagem
de sonho, na qual aparece materialmente como próximo ao rádio e ao cinema,
um misto dos dois, a televisão antes de ser materialidade povoou o imaginário
da população, criando o que estamos chamando de uma imaginação televisual.
Essa imaginação permite a construção material do meio como um híbrido
entre o rádio e o cinema e a sua instauração num lugar simbólico, como veremos ao
longo deste capítulo, que multiplica as faces desconhecidas e torna os acontecimen-
tos do mundo ainda mais próximos. Dependente diretamente de um imaginário
tecnológico que, também no Brasil, se formou gradativamente desde os primeiros
anos do século xx, quando inúmeros artefatos imagéticos, sonoros e motores in-
vadiram o cotidiano do público, a televisão exacerbou a imaginação em torno das
possibilidades de reprodução em imagens do que era captado pelo olhar humano.
Com a moderna tecnologia da eletrônica, as imagens em movimento, prerrogati-
va dos que saíam do espaço privado para os lugares públicos de exibição cinema-
tográfica, passam a ser possíveis de serem disponibilizadas no espaço doméstico.
A rigor, a imaginação tecnológica, em torno dos meios de comunicação,
seria exacerbada já na década de 1920, quando se criou a possibilidade de ouvir
os sons do mundo através de um transmissor que emitia, também no espaço da
casa, as chamadas ondas hertzianas. A radiodifusão despertou, ainda, as potencia-
lidades inventivas de muitos que procuravam se aproximar do novo meio cons-
truindo, a partir dos mais diferentes artefatos, transmissores artesanais através
dos quais escutavam sons do mundo.1 Muitos podiam ser (e eram) inventores de
aparelhos que permitiam a recepção das ondas sonoras.
Na década seguinte assistiu-se a popularização do rádio e, nos anos 1940,
quando o país se preparava para adensar aquela que conceituamos como sua pri-
meira modernidade,2 começam a aparecer na imprensa encenações em torno de
outro artefato tecnológico doméstico que colocaria definitivamente as imagens
do mundo ao alcance do público na sua sala de visita. Muitos já “ouviam falar de
televisão, mesmo antes de ver a televisão”.3

16

Nessas histórias. de onde saem imagens esmaecidas e pouco nítidas. em parte. pelo menos. nos seus primórdios. que não havia receptores para um público ainda em formação. numa espécie de corrida em direção à nova tecnologia. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil Antes de entrar no universo que mostra a imaginação do público preexisten- te ao aparecimento da televisão. Juntos. neste texto cujo intuito é remontar brevemente a atmosfera des- se tempo de gênese da televisão brasileira. que. de maneira pioneira. espalhando-os pelas ruas de São Paulo. A cena reproduz. a TV Tupi Difusora de São Paulo reali- 17 . esse primeiro momento caracteriza-se pelo improviso. Entretanto. Qualificada por alguns autores4 como “fase elitista”. repetidas vezes aparece nas descrições do dia em que foi ao ar. há sempre referência ao fato de Chateaubriand ter “contraban- deado” duzentos aparelhos. a aglomeração de pessoas que sempre se formava nas portas dos prédios dos jornais para ler juntas as notícias que faziam a sensação das cidades. os textos que se referem aos primórdios da televisão no Brasil destacam o gênio administrativo e empreendedor de Assis Chateaubriand. A cena que se perpetuou em fotografia congela o exato momento em que a primeira imagem da televisão brasileira foi ao ar e o público que se espremia diante de um aparelho de tv no saguão dos Diários Associados. a uma emissão da televisão brasileira. na hora mesmo da inauguração. a televisão no país. A televisão. assistem. convém situar o leitor num passado que ilustra o momento de surgimento da televisão no Brasil. pela primeira vez. oficialmente. pela pouca disponibilidade de receptores. Todos estão em silêncio. repetia um gesto cotidiano do público diante da novidade e da sensação. Improviso que levou ao extremo de se descobrir. sobretudo. oficialmente. e que se repetiram durante décadas também em frente às bancas de jornal para ver as mes- mas manchetes de sensação. e. para que pu- dessem ser vistas as imagens do primeiro dia de transmissão. pela experimentação de uma nova linguagem que levaria. em fun- ção também de seus altos custos. Inaugurada. Nessas análises históricas sobressaem as memórias de um tempo cuja marca mais evidente eram as ações improvisadas. em 18 de setembro de 1950. como se fossem a uma festa. quero destacar uma imagem que. Improvisando uma televisão Invariavelmente. duas décadas para se estruturar. não mede esforços para implantar. mulheres bem vestidas. tam- bém. as primeiras transmissões da tv brasileira: homens de paletó e gravata. colocam-se de pé diante de uma espécie de móvel-caixa.

nesses primór- dios. Às sete horas descobre-se um defeito em uma das três câmeras. Foram a Companhia Antarctica Paulista. fabri- cante da Prata Wolff. com a prata da casa. Chateaubriand destaca a ação de quatro empresas que. ou seja. do Moinho Santista. dado o volume da força publicitária que detemos. ao Guaraná Champagne da Antarctica. a Sul América Seguros de Vida e suas subsidiárias. em São Paulo. Em segundo lugar. Este transmissor foi erguido. não ultrapassavam o saguão do prédio dos Diários Associados. que é o que pode haver de bem brasilei- ro. o cauim dos bugres do Pantanal mato-grossense e de trechos do vale amazônico. o que faz com que o show inaugural só começasse a ser transmitido após as oito horas. Durante o discurso na cerimônia. Destacando a importân- cia da adesão de primeira hora. pois. Em 10 de setembro. desde 1946. Não pensem que lhes impusemos pesados ônus. onde havia alguns aparelhos instalados. o proprietário dos Diários Associados continua realçando a importância de ter conseguido montar as emissoras com recursos de empresas nacionais. tornaram pos- sível o custoso empreendimento: a Companhia Antarctica Paulista. arrancadas ao coro das ovelhas do Rio Grande e. isto é. No dia 18 de setembro de 1950.5 Nesse pequeno trecho. O empreendimento da televisão no Brasil. ainda na fase experimental. se uniram aos Rádios e Diá- rios Associados para estudá-lo e possibilitá-lo neste país. o Moinho Santista e a Organização Francisco Pignatari. em primeiro lugar. logo. duas indicações: em primeiro lugar.6 18 . que “o empreendimento” televisão fora dispendioso. ainda sem ser transmitida. o grupo Sul América Seguros. o dono dos Asso- ciados remarca que as ações no sentido de implantação da tv no país se iniciaram em 1946. com os re- cursos de publicidade que levantamos sobre a prata Wolff e outras não menos macias pratas da casa: a Sul América. começa às cinco da tarde. devemo- lo a quatro organizações que. vai ao ar um filme em que o ex-presidente Getúlio Vargas fala de seu retorno à vida política. quatro anos antes daquela data. que é a bebida dos nossos selvagens. já que eram quatro dos maiores anunciantes dos anos 1950 que subsidiavam a iniciativa. mais que tudo isso. com recursos publicitários.História da televisão no Brasil zava emissões experimentais desde abril daquele ano. localizado na rua 7 de Abril. As imagens. o Moinho Santista e a Organização Francisco Pignatari. as lãs Sams. a cerimônia de inauguração.

No dia do padroeiro da cidade. Dois anos antes. Em 20 de janeiro de 1951. o proprietário dos Diários Associados fizera a encomenda dos equipamentos necessários à rca. Também dos Estados Unidos vieram os técnicos responsáveis pelas instalações dos equipamentos. que descobriu que não havia nenhum televisor em todo território nacional para captar as imagens. Segundo as versões apresentadas para o fato. uma “máquina” que diminuía distâncias e possibilitava a exacerbação da imaginação fantasiosa de um mundo provável e possível. Guaraná Champagne. nos Estados Unidos. além da alusão ao fato de a torre de transmissão estar localizada no alto do prédio do Banco do Estado de São Paulo. à exaustão. Atentai bem e vereis como é mais fácil do que se pensa alcançar uma televisão: com prata Wolff. faz-se um bouquet de aço e pendura-se no alto da torre do Banco do Estado um sinal da mais subversiva máquina de influir na opinião pública – uma máquina que dá asas à fantasia mais caprichosa e poderá juntar os grupos humanos mais afastados. No Rio de Janeiro. a aventura começara em janeiro daquele ano. os recursos que tornaram possível a “mais subversiva máquina de influir na opinião pública”. Walther Obermüller. entre outros. Nada mais natural que o homem-chave dos Associados agradecer. deveria ter sido inaugurada a sede da emissora carioca. O primeiro programa transmitido pela TV Tupi Difusora de São Paulo foi o “tv na Taba”. foi um desses técnicos. marcando o início das transmissões do Canal 6 da então capital da República. bem quentinhas. indica ainda a forma como a tecnologia era vista pelo maior magnata da imprensa brasileira da época: a televisão era uma “máquina” capaz de influenciar a opinião pública e. lãs Sams. que só começariam no ano seguinte. apresentado por Homero Silva e que teve ainda a participação de atores como Lima Duarte e Mazzaropi. o presidente da República Eurico Gaspar Dutra pessoalmente ligou o transmissor da TV Tupi do Rio de Janeiro. borbulhante de bugre e tudo isto bem amarrado e seguro na Sul América. ao mesmo tempo. o que fez com que Chateaubriand contrabandeasse os duzentos receptores e os espalhasse pelos ba- 19 . para a montagem das emissoras. mas problemas técnicos impediram as transmissões.7 O trecho final do discurso. 20 de janeiro. “Uma máquina que dá asas à fantasia mais caprichosa” e capaz de “juntar os grupos humanos mais afastados”. e cantores como Hebe Camargo e Ivon Curi. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil Graças à venda de um ano de espaço publicitário a essas empresas. fora pos- sível fazer face aos custos de montagem das duas primeiras emissoras.

teleteatros.10 Em 1952 existiam em todo o país cerca de 11 mil televisores. Loredo destaca também as dificuldades iniciais da TV Tupi do Rio de Ja- neiro decorrentes da falta de estrutura. Também a proibição dos cassinos levou muitos dos grandes astros que se apresen- tavam nos três cassinos do então Distrito Federal a procurar na televisão um novo lugar para apresentar seus dotes artísticos. com grandes intervalos entre os progra- mas. transmitindo-se espetáculos tais como eram encenados nos teatros. O suor pingava do rosto dos atores e das atrizes nas cenas ambientadas em pleno inverno. ocupava o quarto andar do prédio da avenida Venezuela. Ainda em novembro de 1950 é autorizada a concessão da TV Record de São Paulo e da tv Jornal do Comércio de Recife. Para os que viveram a experiência pioneira. Mesmo assim era uma sauna. atores. nos dias que se seguiram ao da inauguração. além disso. Os estúdios não tinham nenhum tratamento acústico e. onde funcionavam as rádios Tupi e Tamoio. 20 . entre fios espalhados pelo chão. Mas o preço continuava proibitivo para a maioria da população: custava três vezes mais do que um produto também objeto de de- sejo da classe média ascendente: as radiolas. para que pudessem ser preparados para ir ao ar. também do grupo Associados. microfones. as janelas ficavam abertas para evitar o calor quando os panelões (refletores de estúdio da época) fossem acesos. “Imagens do Dia”. barulhos de carros e apitos de navio entrando pelas janelas – visto que os estúdios eram construídos ao lado do cais do porto – os programas iam ao ar. Chateaubriand lança em 1951. 43. O alcance limitado da transmissão – cerca de cem qui- lômetros – também fez com que as imagens pudessem ser vistas por não mais do que um punhado de pessoas. quando começam a ser produzidos no país os primeiros receptores da marca Invictus. programas de entrevistas e um pequeno noticiário. juntando-se aos novos diretores. essa foi uma das razões para que desde este momento algumas transmissões do Canal 6 do Rio de Janeiro tenham sido feitas das ruas. uma campanha publicitária para esti- mular a compra dos aparelhos. sempre ao vivo. com apenas duas câmeras e um estúdio pe- queno. cenógrafos e outros profissionais. a emissora.8 No Rio de Janeiro. As transmissões ocorriam entre às cinco da tarde e às dez da noite. na praça Mauá. E ali.9 Em São Paulo. como a ausência de estúdios adequados.História da televisão no Brasil res e lojas de São Paulo. paulatinamente é colocada no ar a programação da emissora: musicais.

a televisão já estava colocada definitivamente na sala de visitas do público. tv Rádio Clube (de Recife).. tv Cea- rá. Tupi-Difusora (de São José do Rio Preto). Televisão: o seu lugar é na sala de visitas Meio século transcorreu desde que a primeira mensagem radiotelegráfi- ca foi transmitida. no ano seguinte. Acompanharemos o intrépido explorador em suas viagens através das selvas ou seguiremos o voo de um avião sobre o cimo dos Andes. por meio da televisão. como expectativa. mas o anúncio de Seleções refere-se. Em 1960. Muitas décadas ainda seriam necessárias para que fosse possível a gravação de externas. tv Paraná.. Em 1955.12 não havendo possibilidade de os novos receptores serem construídos de maneira artesanal. tv Borborema (de Campina Grande). a televisão já fazia parte do coti- diano do público como imaginação. Amanhã. Antes de ser imagem. tv Alterosa (de Belo Horizonte). ou o vistoso espetáculo de um corso carna- valesco. Ainda que em relação à televisão. tv Brasília. seria a vez da tv Vitória. um jogo de futebol. E. Quatro anos depois é a vez da TV Piratini (de Porto Alegre) e a tv Cultura (de São Paulo). Mas mesmo antes dessa explosão inicial. tv Florianópolis. cujo uso ainda era experimental. os anos 1950 seriam marcados também pela expansão da tele- visão como uma rede de imagens nas principais cidades do país: de 1955 a 1961 são inauguradas 21 novas emissoras. en- cena uma expectativa em relação aos modos de ver televisão que a coloca definitiva- mente na sala de visitas dos que inicialmente serão chamados de “telespectadores”. tv Goiânia.11 O anúncio do novo artefato tecnológico. tv Mariano Procópio (de Juiz de Fora). tv Aracaju. Hoje a radiodifusão leva às mais longínquas fronteiras da terra as notas de uma sinfonia ou as últimas notícias das frentes de batalha. a complexidade técnica impedia o exercício do “saber-fazer”. sobretudo. são inauguradas a tv Itapoan (de Salvador). começa a funcionar a TV Itaco- lomi (de Belo Horizonte). ha- via mesmo antes de sua materialização uma designação prévia dos modos de ver e dos conteúdos que poderiam ser considerados relevantes para o potencial público. tv Coroados. tv Campo Grande e tv Corumbá. diferentemente do que acontecera com o rádio. presenciaremos. comodamente sentados em nossa casa. tv Uberaba. tv Baré. às imagens de um 21 . A ideia de comodidade se sobressai em muitas das reproduções e nos textos que infor- mam as possibilidades tecnológicas do novo “invento revolucionário da eletrônica”. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil Apesar disso.

no qual atores coletivos construíam cenários gerais a se- rem fixados e transmitidos na sala de visitas das casas. Lugares desconhecidos. o anúncio apresenta o presente como sendo ainda o tempo do som que se propaga tornando o mundo espacialmente 22 . mundo em movimento. de um mundo exterior que reúne uma multiplicidade de atores (jogo de futebol. com seis anos de antecedência. só aparecia. que o novo invento colocaria definitivamente na casa daqueles que “comodamente” sentassem diante da televisão. Duas ordens de assuntos são destacadas: os de natureza coletiva. carnaval). até a eclosão da reprodução das imagens técnicas. visões de um mundo desconhecido que. e os de ordem individual. como imagem. Destacando uma dualidade temporal. na imaginação do público (a selva e o voo por cima de montanhas inóspitas). envoltos em uma atmosfera de sonho. História da televisão no Brasil Acervo da Biblioteca Nacional Propaganda da General Electric anunciando a chegada dos aparelhos de televisão à casa dos brasileiros. distantes.

mas um espaço longínquo. o mundo interconectado ou comunicacio- nalmente presente. Os conceitos de utopia comunicacional e de utopia midiática que estamos utilizando não possuem nenhum paralelo com a ideia de utopia da comunicação utilizada por Breton. pelo som. A televisão transforma suas imagens numa função da imaginação do público. fazendo uma espécie de caminho natural em direção ao futuro. Desde antes de ocupar um lugar na sala de visitas. artefatos que querem representar cada vez mais a sonoridade e visualidade do mundo. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil mais próximo a partir da possibilidade sonora: a música de uma sinfonia ou as notícias do front tornavam. 23 . Já o amanhã. permite o aparecimento de novas e engenhosas invenções. o que é transmitido pela tv. Como uma utopia comunicacional. como presen- tificação do futuro. e estabelecendo elo fundamental com a imaginação produtora de sentidos através de imagens. mas que gra- dualmente se transforma em utopia midiática. pensar na possibilidade imagética da tv é quase que naturalmente visualizar a utopia como o reino da televisão. que pela imaginação torna-se próximo. Um uni- verso que coloca em relevo a imaginação das possibilidades comunicacionais da televisão. para o anúncio. nas imagens. mesmo pre- viamente concebida como irrealizável. no qual também informação e entretenimento se fariam presentes no universo do público graças às possibilidades técnicas da televisão. Através das imagens. As imagens da tv constroem um parâmetro identitário e. a televisão ainda é para a maioria do público o nenhures. percebe-se não o lugar onde se está. O presente. já que em nenhum meio massivo a produção de ficções imaginativas via imagens é mais expressiva. Diretamente relacionada à possibilidade de alguma coisa. que só se realiza naquilo que se pro- jeta como ficção. o tempo da imagem. a materialidade de um meio que ainda não fazia parte do universo cultural do público. Dois tipos de som são dominantes: aqueles que divulgam a informação e os que possibilitam o entretenimento. que. pode se transformar numa possibilidade lateral da própria realidade. ou seja. abrindo cami- nho num universo ainda desconhecido mais potencialmente possível. Olha-se o nenhures. em certa medida realizável. A televisão já nasce dependente da imaginação comunicacional do público e como utopia midiática. era.13 A utopia comunicacional não pode ser pensada apartada de uma teoria sobre a utopia como um conceito complexo. um lugar que só existe como imagem potencial para atingir o alhures (o lugar onde gostaríamos de estar). ao mesmo tempo. houve a produção de va- riações imaginativas sobre as possibilidades futuras do veículo. permitem a produção da imaginação. que só se realiza com o complemento da imaginação. de início mentalmente. acionando-se uma imaginação particular que produz. algo que só existe como imagem-imaginação. o alhures.

convidar à sua casa seus amigos e parentes para assistir uma ópera ou um filme cinematográfico transmitido por televisão. Outro anúncio. Depois da vitória. pois. uma espécie de lugar vazio a partir do qual se pode olhar. a utopia seria “uma mentalidade. uma configuração de fatores que permeia toda a gama de ideias e sentimentos”. inscrito desde os pri- mórdios na maneira como o público deveria se relacionar com o meio. os modos possíveis de ver televisão. seria um “sistema simbólico abarcante”. em conjunto.15 Na continuação do anúncio. o ser em ser humano. um Geist. àquilo que na- quele instante era possível: as transmissões produzidas em estúdio ou a difusão de filmes. enfim. na publicidade se destaca um desenho que mos- tra. é gênero declarado que apresenta o nenhures. Nesse sentido. no qual a voz audível da plateia se confundiria com o som que seria emitido pelo novo meio. o nenhum-lugar. em 18 de setembro de 1950. como um sonho que se quer realizado ou como uma ficção que dá forma a outra realidade. graças a experiência adquirida durante os anos de guer- ra. Já a segunda é ins- taurada pela possibilidade técnica que permite múltiplas produções discursivas específicas instaladas nos meios de comunicação desde a invenção da impressão no século xvi. mas num ambiente de reunião coletivo. em Schenectady. distinguir utopia comunicacional e utopia midiática. A televisão deve ocupar um lugar coletivo da casa. com as transmissões da TV Tupi Difusora. 29). A primeira seria decorrente da ação humana que transforma. o ato de ver com está. Da sua estação wrgb. Após esse título chamativo. A televisão foi imaginada para ser vista não apenas na sala de visitas. ao introduzir variações imaginativas sobre o passado e o futuro. novamente. são irradiados anualmente programas educativos e culturais. permite a sua presentificação através da ficção. Ações compartilhadas.História da televisão no Brasil A utopia é criação distintiva de um autor. os receptores ge permitirão V. assim. no qual se reunirão pessoas próximas para assistir. reafirma-se mais uma vez a expectativa prévia em relação aos modos de ver. convidava o público a se dirigir a um dos revendedores ge para. em São Paulo. A utopia. Podemos. Agora vá ver televisão” (ver p. A utopia pode ser defini- da ainda como um modo de pensamento específico. uma das maiores do mundo. Faz anos que a General Electric vem construído aparelhos transmissores de televisão para uso experimental. E mais uma vez assistir de ma- 24 . publicado logo após ir ao ar as primeiras imagens da tv brasileira.14 Em outras palavras. ver a televisão: “Você já ouviu falar. pelo ato narrativo.S. em precários estúdios instalados na sede da emissora.

senta-se lado a lado e olha fixamente o novo aparelho que atesta definitivamente a entrada do país noutro tempo. ao redor de uma plateia cada vez mais vasta. Risonhos. disposto como num cinema. a suposição era de que a televisão deveria ser vista de maneira coletiva. num receptor General Elec- tric. com os quais você poderá assistir em casa aos mais importantes acontecimen- tos. a General Electric tem agora a satisfação de oferecer também aos lares cariocas os seus afamados receptores. homens e mulheres formam uma espécie de massa amorfa (todos aparecem no desenho com um rosto semelhante e com nenhuma qualidade in- dividual) pouco familiarizada com o novo artefato tecnológico. com uma tela ovalada. a reprodução nítida e precisa das imagens irradiadas pelo transmissor ge da TV Tupi. Complementando a imagem. nem nítidas e nem era possível a produção de programas que transmitis- 25 . Mas. prometia-se a “reprodução nítida e precisa das imagens”. na qual uma imagem de mulher domina a cena. Envolta numa atmosfera de sonho e irrealidade. nos idos de setembro de 1950. boquiabertos. mas em lugares previamente montados para a sua recepção: a televisão era apresentada definitivamente como uma espécie de outro cinema. agora não mais na sala de visitas. Na plateia. A televisão causava um misto de estranhamento e admiração. acrescentavam a possibilidade de partilhar momentos em torno de alguma coisa que não se sabia bem o que era e. o texto dizia: Enfim. uma expectativa que estava longe das possibilidades iniciais do meio: as imagens ainda não eram nem pre- cisas. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil neira coletiva. parece ser o imperativo com que se imagina a possibilidade receptiva do meio. Líder mundial em eletrônica e televisão. o público. Criava-se.16 O texto destaca igualmente a possibilidade de assistir na comodidade da casa aquilo que se passava no mundo. jamais tinha visto a imagem de um receptor. Vá ver a televisão ge nos revendedores General Electric. Além disso. sobretudo. aparecia a imagem de um receptor: uma caixa de madeira. a primeira a fornecer e instalar um transmissor de tv no Rio de Janeiro. prometia- se também que através desses receptores poder-se-ia “assistir em casa aos mais importantes acontecimentos”. Num cenário semelhante a uma sala de projeção cinematográfica. mesmo quem já tinha ouvido falar da tele- visão. O mundo ficaria ao alcance do público em imagens. Afinal. o que seria. no vazio. você vai ter a oportunidade de ver a televisão em funcionamento regular! Nos revendedores ge vocês poderão ver. portanto. abria-se a cortina e. Mais uma vez. ao mesmo tempo acionava possi- bilidades reais e imaginárias em torno da nova mídia.

portanto. partilhando temas.História da televisão no Brasil sem em casa os mais importantes acontecimentos. ou. Há. gradativamente. ou os microcomputadores. O anúncio enfatizava as pos- sibilidades futuras da tv. no passado. desde meados dos anos 1950 – num longo processo que ainda não terminou na primeira década do século xxi – para o interior das casas. preexistem como imaginação comunicacional. ao mesmo tempo em que convidava para ver de perto algo que existia na mente daqueles que já tinham ouvido falar na televisão como imagem-imaginação. mesas de centro e ou- tros utensílios domésticos das famílias brasileiras mais abastadas dos anos 1950.17 O centro de interesse passa a ser o interior das residências. ou seja. cada vez mais. cristaleiras. transformam-se em possibilidade tecnológica real. são estruturas de sentimento materializadas em práticas culturais que existem como possibilidade antes de serem práticas comunicacionais. 26 . gradativamente a formação de uma imagem-imaginação em torno da televisão e das expectativas que traria para o cotidiano de seu potencial público. de onde todos olham para janelas reais ou imaginadas (como a televisão.19 a estrutura de senti- mento apresenta-se como uma imaginação de possibilidades das relações do públi- co com o meio de comunicação. As tec- nologias de comunicação que se desenvolvem.18 que existem primeira- mente como imaginação e que. instaura a “privatização móvel” de que fala Raymond Williams. Mais do que um mero “sentido vivido de um tempo”. no presente) e através delas veem (e escutam) as imagens de um mundo lá fora que determinam a forma de existência de suas vidas. Complementando o anúncio. a partir de então. como possibilidade mental. amplificando o burburinho na hora das refeições. como estrutura de sentimento. Olhar pela janela. sem estar em contato com as imagens criadas de um mundo que também estava do lado de fora. Novas práticas e hábitos sociais e mentais. vêm suprir essas necessidades e dar resposta a “estruturas de sentimento”. presumir que a televisão ocuparia lugar de destaque nas salas de visita. ainda. um desenho de outro modelo. que possibilitaria a produção de rituais nos modos de ver (em conjunto. enfim. uma expectativa para a materialização de uma re- lação comunicacional. Ver imagens reproduzidas em movimento sem sair de casa. para fora. Volta-se. que se iniciam e se tornam dominantes numa determinada época. ceri- mônias possíveis em datas especiais) e que se espalharia pelos lugares públicos (como restaurantes e bares). no qual a tela ocupa menos da metade de um móvel construído como ornamento a ser coloca- do ao lado de outros nas salas de visitas: sofás. ou. mais ainda. que existe como possibilidade e desejo antes de se realizar.

ao telespectador diante de um aparelho. amigos”. Todos vestidos adequadamente para uma ida a uma sala de cinema na década de 1950. há a interferência do mundo exterior na identidade “mais completa e humana”. também brancos. merece atenção especial a visão de como é construí- do o público. Agora. na imaginação televisual pré-concebida. é visto na situação de “pri- vatização móvel”. mesmo quando “os produtos são guardados no carro e o carro chega de volta ao lar”. O indivíduo dá lugar. de possuir objetos que. há somente uma massa amorfa diante da televisão e. por que ali recebe estímulos do que pode ser desejado. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil Na análise dessa imagem. Televisão: o “brinquedo mais fascinante do século xx” Aqueles que só tinham. diante do novo móvel que ocupa lugar nobre na sua sala de visitas. o público deixa de ser indivíduo mesmo den- tro de casa. só eram vistos no mundo lá fora. que estaria à sua disposição “ao rodar da chave na porta da frente: uma família. Não há identidade individual. artefato de uma era que traz para dentro da casa imagens de um mundo de desejo e possibilidade. Numa sala de projeção coletiva. aparece na plateia uma dezena de rostos de homens e mulheres. Assim. até então.20 Essa privatização facilita a disjunção de um comportamento privado e de um público e. de cabelos curtos e sorriso nos rostos. através do qual o público buscava infor- 27 . Todas as fisionomias são idênticas: os homens possuem o mesmo rosto e as mulheres também. portanto. apresentado numa indiferen- ciação reveladora. Ao mesmo tempo em que ajuda a mascarar o isolamento com o sentimento de cons- trução de outra proximidade. mesmo supostamente como espectador individual. antes. A televisão seria o meio por excelência dessa situação qualitativamente nova. Todos absolutamente iguais: as mulheres brancas. O público é. ao mesmo tempo. o público. obscurece a relação entre ambos. esses homens e mulheres são representados.21 O comportamen- to econômico do consumidor passa também a ser acionado da poltrona da sala de estar. de paletó e gravata. um casamento. ouvido falar de televisão (até porque o rádio era o meio de massa por excelência. como tal. num segundo nível ajuda a produzir uma noção de consenso numa sociedade que vive de maneira dispersa e atomizada. parentes. no ambiente privado da casa. comprado. dentro da sua casa. filhos. primeiro como imagem-imaginação e depois como produto. os homens. trazido para casa. Como uma espécie de duplo.

de um personagem cujo rosto era desconhecido. na revista O Cruzeiro de 24 de dezembro de 1949. ocupando todo o espaço disponível da tela da tv. aos poucos torna-se mais comum aos olhos de muitos. E sem a ondulação que é resultado da oscilação da ciclagem da energia elétrica. ocupando um pedaço retangular numa tela redonda. Ainda no decorrer da déca- 28 . Eles não podem acreditar que seus ídolos tenham essa cara!”. mas potencialmente possível. primeiro oval e depois retangular. o rosto que aparece na cena. para destacar a “vantagem notável” que oferecia e que permitia a ampliação da imagem na tela da televisão. duvidavam que “seus ídolos tivessem aquela cara” ao vê-los nas imagens onduladas. Este é um detalhe decisivo para a escolha de seu televisor: somente Ze- nith pode lhe oferecer a comodidade de uma imagem ampliada quando a perfeita visão exigir tamanho muito maior do que a tela retangular. “Ao simples girar de um botão”. as repetidas alusões à possibilidade de receber imagens sem interferências de todas as ordens – chuviscos. “as primeiras expe- riências de televisão deixam o público furioso. pouco nítidas e imprecisas que a televisão nos seus primórdios oferecia. apregoava a empresa Zenith. ou seja. em 1952. a tv aparecia sempre como uma espécie de rádio com visor. e não a imagem pouco nítida. ondulações. que permite a ele descortinar o casal dançando na tela ou imaginar. as empresas anunciam a intro- dução de outras tecnologias inovadoras. sentencia o texto que resume os fatos mais importantes de 1949. Afinal. É apenas a imaginação.História da televisão no Brasil mação e entretenimento) tiveram as mais diferentes reações ao ver as imagens que agora saíam daquela caixa de madeira. Aquele aparelho tecnológico desconhecido. Estupefatos. a tela retangular da televisão podia se transformar numa “imagem gigante sem ondulação!”. sempre em close. e a imagem pouco nítida. aparece no anúncio um casal dançando. no formato original. Procurando ultrapassar os limites do meio. e na ima- gem ampliada. parca nitidez – deixam claro que o público vê o que ainda está encharcado da sua imaginação. Ainda nos primeiros anos em que a televisão aparece na cena cotidiana. agora se via uma tela. através de uma visão meio esmaecida.22 Exemplificando a nova possibilidade tecnológica – a imagem em zoom ao simples toque de um botão –. “Compare! A imagem do visor redondo gigante é muito melhor!”. No lugar do pano fino que no rádio deixava o som dos alto-falantes se espalhar pelos ambientes. Nas revistas da época que reproduziam o novo artefato tecnológico.

de setembro de 1950. pela TV Tupi de São Paulo. “televizinhos”. colunas dedicadas a amplificar o mundo da tele- visão. proliferam nas revistas destinadas a noticiar o mundo do rádio. comentários e pequenas reportagens sobre a televisão e sua gente – esses artistas que vão se tornando ídolos de 29 . em referência às primeiras exibições de televisão no Brasil. a primeira emissora nacional. A revista Radiolândia. como Radiolândia ou Revista do Rádio. já no seu segundo número. como o Rio e São Paulo. em janeiro de 1954. destinada a divulgar um apanhado de informações. “Telefans”. cria a coluna “Televisolândia”. “telespectadores” são agora nomes comuns para designar aqueles que diretamente se relacionavam com o novo artefato cotidiano que ainda era pouco encontrado nas casas. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil Acervo da Associação Brasileira de Imprensa Anúncio publicado na revista O Cruzeiro. mesmo nas capitais que já possuíam emissoras. da de 1950.

Dircinha e Linda Batista. e apresentam-se como figuras imaginárias numa eterna utopia midiática. Mara tornou-se de tal forma popular. No imaginário televisual. abraçá-la e admirá-la” poderia transportá-la para o mundo da vida. capaz de popularizar artistas que não eram anteriormente conheci- dos. Em uma palavra. hoje em dia. as imagens atestam muito mais a possibilidade de sonho do que uma cópia da realidade presumida.História da televisão no Brasil um público mais apaixonado.23 Poucos anos depois da primeira emissão. Araci de Almeida e tantos outros igualmente famosos da rádio brasileira. esses corpos no “brinquedo mais fascinante do século xx” pareciam irreais e não afetados pelo tempo. constatavam a força comunicacio- nal do meio.24 A reação do público diante de um personagem da tv é no mínimo curiosa. e somente o ato real de “pegá-la. por exemplo. O fato de receber as imagens na intimidade do lar forjava. mesmo muito depois da primeira década de sua existência. são criaturas que só existem dentro daquele móvel. que jamais tiveram a popularidade que ago- ra desfrutam. Vejam. Dalva de Oliveira. Ary Barroso. Entretanto. 30 . confessou-nos. Mara Rúbia. os personagens dos teletea- tros. não pode sair à rua sem que seja assaltada por uma legião de fans [sic] – crianças e senhoras que desejam pegá-la. os cantores. Isso se passava ao mesmo tempo em que trabalhava somente no teatro? De maneira alguma. encontramos nomes já consagrados na rádio e no teatro. inegavelmente a maior vedete de nosso teatro de revista. imperecíveis. agora de posse de uma imagem que presumia a materialidade de seus corpos. percebem-na como personagem que vive exclusiva- mente dentro da caixa de madeira. um ideal de intimidade que o público nutria em relação aos seus novos ídolos. Ao ver a imagem de Mara Rúbia na televisão. Os artistas. paradoxalmente. Entre os artistas que atuam na televisão carioca. abraçá-la. admirá-la como se fosse uma criatura irreal. Emilinha Borba. mesmo que atuantes “na rádio e no teatro”. que aquele que consagrou nomes como Silvio Caldas. Aparecendo em dois programas da TV Tupi (“Furo de Amostras” e “Casal do Barulho”). como também é a forma como a atriz é qualificada na matéria. uma espécie de criatura irreal. apesar de ser o maior cartaz feminino de revista e de ter atraído ótimos lucros às bilheterias de seus empresários. que. talvez.

mesmo aqueles não diretamente relacionados com a televisão. A doçura de Haydée Miranda ajudou-a a vencer. modelos Alvorada e Café.. só veio a conhecer a fama depois de aparecer na televisão. entrando no ambiente doméstico. Esse é o caso da publicidade de sapatos Iris. a ideia de intimidade. literatura. O segredo da televisão talvez resida na intimidade com que os programas são recebidos nos nossos lares. a foto mostra um homem comodamente sentado frente a um aparelho de tv localizado na sala. no qual aparece associado ao ato prazeroso de descanso no lar. a estrelinha dos Calouros. qua- lificada como a “namorada da televisão”. mas ninguém o esquecia. os sinônimos mais recentes de resistência. o conforto e o descanso só seriam agora completos diante da televisão. o fato de o aparelho ser entronizado num lugar de destaque no cenário cotidia- no. a relação do público com aqueles que eram os personagens do meio também passava a ser de intimidade. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil Em muitos anúncios. Ninguém atentava para o nome. nas conversas de família. [. Ao entrar na intimidade da casa.. fazendo com que os seus artistas mereçam um particular carinho dos telespectadores. são repetidas vezes representados. beleza e conforto” –. em que se descreve o “trágico destino de Sônia Ketter”. muitos outros aspectos que constroem este painel de sentidos que estamos qualificando como imaginação televisual apa- recem representados: Sonia aprendeu música.25 Noutra matéria. os modos de ver que a coloca na sala de visitas. vários idiomas e estava longe de su- por que tudo isso reunido a sua beleza fora do comum. a lourinha da televisão. nos comentários depois das transmissões da TV Tupi.] Os primeiros telespectadores sentiram atenção despertada para aquela moça loura. de olhar simpático e sorriso belo. Abrindo a porta. Haydée Miranda.26 O “brinquedo do século xx” tornava possível a apreensão de múltiplos senti- dos e o aprisionamento do público a partir de encenações que destacavam o que o 31 . apesar da antiga rádioatriz da [Rádio] Tamoio. O seu público foi conquistado pela beleza suave do seu rosto e pelo encanto que irradia sua simpática presença. Acom- panhando um texto que associava o produto à ideia de descanso – “Iris Alvora- da ou Iris Café. Era. seria aproveitado em um sentido novo e que ela se tornaria a namorada da televisão no Brasil.

A voz que dominava com exclusividade os ambientes midiáti- cos até os anos 1950 ganha um novo sentido: são agora voz e imagem numa única percepção. Os chamados “televizinhos” compareciam em grande número nos horários dos programas mais esperados.História da televisão no Brasil personagem era para a visão. A própria escassez de receptores. nos quais o texto produzido era invariavelmente complementado pelas múltiplas opiniões da pla- teia. ampliando a capacidade sensorial do público. partilhando opiniões com al- guém que está ao seu lado no momento da emissão. em múltiplas percepções sensoriais. terminado esse momento. A emissão era seguida em silêncio. recriando-se em torno dela novas tipologias dos antigos saraus domésticos. No trecho anterior aparecem novamente vestígios dos modos de ver televi- são. pelos “comentários depois das transmissões”. A televisão podia tornar presente para o público o retrato em preto e branco de Sonia Ketter: o fato de ter aprendido música. como já assinalamos. via imagem amplificada na tela real/irreal da tv. para a audição. Os adultos se espremiam nas poltronas da sala. que incluía a ausência do mínimo barulho durante as transmissões. 32 . em assentos que se multiplicavam de maneira improvisada diante daquele móvel de onde saíam imagens meio mágicas. Assim. a “lourinha da televisão” era agora um rosto visível. requeria uma atenção suplementar. pois afinal não era apenas a imagem que se ressentia das possibilidades tecnológicas: sendo o som também precário e quase inaudível. a personagem perdia o nome e ga- nhava a prevalência de um rosto. poderia se tornar visível através de um “sentido novo”. Às crianças debruçadas nas janelas pedia- se invariavelmente por silêncio. Mas. Tal como Haydée. ou seja. Em contato com a imaginação produtora de sentidos que constrói invariavel- mente uma nova imagem muito além do olhar. o sorriso belo e o ornamento dos cabelos claros. fazia como que a ação de ver televisão de forma partilhada fosse exacerbada. está presente na cena da tv desde as primeiras emissões. literatura. Sônia se transformava numa moça loura. aliado a sua “beleza fora do comum”. que domina a forma como o público se relaciona com o meio. repletas de sons. o som da televisão era encoberto pelas “con- versas de família”. que o ato de ver com. já que nesse primeiro momento apenas alguns poucos aquinhoados podiam dispor de vultosas quantias para comprá-los. no qual o público podia perceber a simpatia. de um alhures que existia como potencialidade imaginativa. o encanto. num sorriso belo. No pequeno trecho fica visível. transfigurando-se definitivamente na “lourinha da televisão”. portanto.

era algo imperecível. era preciso mostrar que Bibi Ferreira realmente existia para além da caixa de madeira que emitia luzes sob a forma de imagens fluidas. Como que para materializar o que havia apenas como o nenhures. Fez sua estreia como Dulcina – um curto papel. onde toda uma família. sobretudo. manifes- tar-se diante dela também como outra espécie de personagem oculto da televisão. irracionais diante de uma popularidade que se alarga via emissão televisual. fosse desviada de seu caminho e levada para um distante bairro da cidade? Todos os casos de tarados. O talento. para festejar sua presença. Sempre desejara ser uma atriz grande. às vezes. foi con- vocada pelo ardoroso fã. a juven- tude da moça da televisão. Depois de várias temporadas. para a realização do sonho. Que diria a leitora se. foi reconhecida pelo chofer e levada para vila Mariana. ao tomar um táxi em São Paulo. Bibi conseguiu popularidade com apenas algu- mas apresentações em televisão. No trecho. das utopias. onde a querida atriz estreava pouco tempo antes. e. Desde menina sempre pensara em teatro. aquela que nascera para o estrelato quase ao mes- mo tempo em que a magia da imagem entrava nos anos brasileiros. certamente. não importa se real ou ficcional.28 Como o “brinquedo mais fascinante do século xx”.27 Aqueles que juntos comentavam durante as emissões a performance de Bibi Ferreira nos programas da tv Difusora queriam ver o corpo real da atriz. Tornando mais fácil o reconhecimento daqueles que antes ficavam encober- tos pelo som da voz nas emissoras de rádio. desfilariam em sua cabeça e o susto não haveria de ser pequeno. que era fas- cínio para os jovens que a viam e a adoravam à distância. 33 . de um caso inusitado em que um cho- fer de táxi rapta a passageira famosa para apresentá-la ao seu real público. Foi o que aconteceu com Bibi Ferreira quando. Mas devia sair do palco para tomar parte no brinquedo mais fascinante do século xx: a televisão. a televisão transforma seus personagens em rostos visíveis e perfeitamente identificáveis. a televisão transforma- se em lugar para a produção simbólica. mas não o suficiente para que os rostos deixassem de ser identificados. inclusive televizinhos. O moço era um telespectador assíduo dos programas da tv Difusora. ao tomar um táxi. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil Bibi Ferreira raptada por um chofer de praça. o que interessa destacar são as ações. que dominasse as plateias. a beleza. e não quis perder a oportunidade de externar o seu entusiasmo. e depois outro.

a lourinha da TV Tupi de 1952 é ainda. 1997. fato que torna a imagem-imaginação “algo imperecível”. dissertação (mestrado em Comunicação).).telehistoria. Paris. Ideologia e utopia. 451-2. Niterói. Natal. 5. 2010. Era uma vez. p. grifos nossos. em O Cruzeiro. 14 Paul Ricoeur. 2010. 16 Anúncio “Você já ouviu falar. 10 Sérgio Mattos. ufrn. grifo nosso. Paisagens imaginárias. 5 Discurso de Assis Chateaubriand durante inauguração da TV Tupi Difusora de São Paulo. Edições 70. 1950.com. só a permanên- cia eterna que aumenta de maneira assustadora a espessura do agora. em Revista Vivência. 9 Ver João Loredo. London. a utopia midiática faz do agora mesmo um presente estendido de maneira exponencial. 17 Ver Raymond Williams. Dessa forma. A imagem que aparece na tela não tem passado nem futuro. 2005. São Paulo. 7 Idem.htm>. Notas 1 Ver Michele Vieira. 2010. Vozes.br/canais/emissoras/tupi/tupi5. destacando-se a construção de um eterno presente. 15 Seleções do Reader’s Digest. A utopia midiá- tica. Agora vá ver televisão”. 13 Ver Philippe Berton. Lisboa. De inventores a ouvintes: o rádio no imaginário científico e tecnológico (1920-1930). Petrópolis. Na televisão e na percepção do público que visualiza as suas imagens há um só tempo.. a lourinha da tv de 1952. na qual essas imagens-imaginação sobre a televisão tornam-se possíveis de ser acessadas. e esse é o presente. Edusp. São Paulo.. 12 Ver Beatriz Sarlo. 34 . cit. uff. 1950. op. 1997. Em instantes: notas sobre a programação na tv brasileira (1965-1995). acesso em 5 abr. op. Alegro. disponível em <http://www. Cabral Editora Universitária. 1985.. 1944. “Imprensa e encenações de modernidade no início da República”. Um presente esten- dido que engloba o passado tornado presente e o futuro transfigurado em exten- são do mesmo presente. La Découverte.. L’Utopie de la communication. produz um sentido de tempo particular. Estendendo o instante em que a imagem está na tela num presente que não termina nem quando a emissão acaba. 8 Ver Sandra Reimão (org. cit. Towards 2000. 2002. 1991. 3 O Cruzeiro. História da televisão brasileira. 23 set. 11 Anúncio “A eletrônica trará a televisão ao nosso lar”. 6 Idem. na memória dos que a viram em cena. p. São Paulo.História da televisão no Brasil inclusive aquela que torna possível o aprisionamento do tempo. 29 set. a televisão. jan. 2000. 80. 4 Ver Sérgio Mattos. em Seleções do Reader’s Digest. pp. 2 Ver Marialva Barbosa. Penguin Books.

23 Radiolândia. “What We Have Again to Say: Williams. em Christopher Prendergast (ed. Feminism and the 1840s”. 21 Idem. 1952. 1995. op. 19 Conforme Cora Kaplan. 22 “A moça da televisão: o trágico destino de Sonia Ketter”. jan. cit. 1979. p. Rio de Janeiro. Imaginação televisual e os primórdios da tv no Brasil 18 Ver Raymond Williams. op. 27 “Televisolândia”. n. em O Cruzeiro. 21. 26 “A moça da televisão: o trágico destino de Sonia Ketter”. grifos nossos.. p. Jorge Zahar. Marxismo e literatura. em Radiolândia. cit. grifos nossos. op.. 28 “A moça da televisão: o trágico destino de Sonia Ketter”. op. cit. University of Minnesota Press. Cultural Materalism: on Raymond Williams.). op. jan. cit. em Radiolândia. em Radiolândia. 35 . 2. 24 “A tv cria ídolos”. 25 “Televisolândia”. n. 20 Ver Raymond Williams. Minneapolis. 1985. cit.. 188. cit. 1954. 11. op.