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A proclamação da Independência brasileira, em 7 de setembro de 1822, foi um passo decisivo para o início

da organização do estado brasileiro. "Significou soberania para que o país pudesse estabelecer suas normas
políticas e sua administração pública. Tanto é que dois anos depois, o Brasil já tinha sua primeira
constituição", explica Carla Ferretti, professora de História do Brasil da Pontifícia Universidade Católica de
Minas Gerais (PUC Minas).
Até hoje há controvérsias entre os estudiosos a respeito da data da Independência e mesmo do papel ativo de
D. Pedro I para que ela se efetivasse. "Houve uma pressão muito grande para que isso acontecesse", diz a
professora. Isso porque os proprietários rurais e de escravos temiam perder a liberdade econômica que
ganharam com a vinda da família Real em 1808 e a abertura dos portos. Quando D. João VI voltou para
Portugal em 1820, o clima político indicava que o Brasil sofreria um cerceamento de liberdade novamente.
Esse movimento por liberdade econômica e política não acontecia apenas aqui no país, mas estava
propagado por toda a América. "Era um reflexo da independência das colônias americanas", diz a professora.
A independência, no entanto, não resultou em transformações políticas profundas, nem tampouco sociais,
porque D. Pedro já governava o país desde que D. João VI havia voltado para Portugal. "Na verdade foi uma
independência sem muitas mudanças no quadro político e social do país", afirma a historiadora.
A Proclamação da Independência
Ao viajar de Santos para São Paulo, D. Pedro recebeu uma carta da Coroa Portuguesa que exigia seu retorno
imediato para Portugal e anulava a Constituinte. Diante desta situação, D. Pedro deu seu famoso grito, as
margens do riacho Ipiranga: “Independência ou Morte!”
Pós Independência
- D. Pedro I foi coroado imperador do Brasil em dezembro de 1822;
- Portugal reconheceu a independência, exigindo uma indenização de 2 milhões de libras esterlinas;
- Em algumas regiões do Brasil, principalmente no Nordeste, ocorreram revoltas, comandadas por
portugueses, contrárias à independência do Brasil. Estas manifestações foram duramente reprimidas pelas
tropas imperiais.

A história do Brasil logo após a independência
Após 21 meses de guerra, Dom Pedro I garantiu a unidade do
território. A primeira Constituição garantiu aos brasileiros a
liberdade de culto e de imprensa
Perto das 16h30 de 7 de setembro de 1822, um rapaz de 23 anos alcançava o alto de uma colina ao lado do
riacho Ipiranga, nos arredores da vila de São Paulo, seguido de alguns acompanhantes. Era o príncipe
regente dom Pedro, montado numa mula, coberto de poeira e com as botas sujas de lama. A viagem fora
mais uma vez interrompida pela diarreia incômoda que o perseguia desde a partida de Santos, antes do
amanhecer. O alferes Francisco de Castro Canto e Melo, que vinha de São Paulo com notícias dramáticas,
alcançou a comitiva, prestes a retomar o curso. Antes que ele desse seu recado, porém, chegaram a galope
dois mensageiros do Rio de Janeiro. Traziam cartas de José Bonifácio de Andrada e Silva, da princesa
Leopoldina e do cônsul britânico na capital, Henry de Chamberlain.
O sucessor do trono português não podia esperar novidade pior. Lisboa havia cassado sua regência sobre a
colônia e anulava suas decisões anteriores. Um membro da comitiva, o padre Belchior Pinheiro de Oliveira,
relataria quatro anos depois o que viu naquela tarde: “Dom Pedro, tremendo de raiva, arrancou das minhas
mãos os papéis e, amarrotando-os, pisou-os e os deixou na relva. (…) Caminhou alguns passos,
silenciosamente. De repente, estancou já no meio da estrada, dizendo-me: ‘(…) As cortes me perseguem,
chamam-me de rapazinho, de brasileiro. Pois verão agora quanto vale o rapazinho. De hoje em diante estão
quebradas as nossas relações. Nada mais quero com o governo português e proclamo o Brasil, para sempre,
separado de Portugal’”. Minutos depois, diante da guarda de honra que o esperava mais à frente (leia acima),
desembainhou a espada para determinar: “Será nossa divisa de ora em diante: Independência ou Morte!”,
descreveu o chefe da guarda, o coronel Manuel Marcondes de Oliveira Melo.
Moda tupiniquim
Poucos meses depois, nas principais cidades do novo país, muitos homens começaram a mudar alguns de
seus hábitos. O deputado baiano Cipriano Barata, por exemplo, passou a se vestir exclusivamente de algodão
brasileiro e a usar chapéus feitos de palha de carnaúba – no que foi rapidamente imitado. Os nacionalistas
mais empolgados penteavam o cabelo de forma a deixar uma risca definida no meio da cabeça. Era a
chamada “estrada da liberdade”, uma forma de simbolizar os caminhos abertos pela Independência. O uso do

no Nordeste e no Sul (veja quadro à pág. toalhas e roupas com a ajuda de um ou dois escravos. iniciada em fevereiro de 1822. Os modismos foram só a vitrine mais singela das transformações na vida nacional – iniciadas. Somente Rio. discutiam e se agrediam. médicos davam aulas. o governo brasileiro sequestrou os bens de portugueses que ainda contestavam a independência no Rio. o soberano havia legado uma nação ainda turbulenta politicamente. Esse processo foi mais lento sobretudo no Norte. “Em 1825.” Apesar da grande desigualdade social. na Bahia. no Maranhão e no Grão-Pará. “A Independência dá um novo dinamismo às províncias. Entre 1825 e 28. nem pensar. Em alguns lugares. A Guerra da Independência. A terra pela qual dom Pedro se apaixonou a ponto de romper com Portugal (não sem antes implorar ao pai dom João VI. Os analfabetos somavam mais de 90% dos habitantes”. para que lhe poupasse do posto de príncipe regente. ganharam um grande poder com a possibilidade de se casar com brancos e com a liberdade para exercer diversas atividades econômicas simultâneas”. Dom Pedro I continuou a abrir estradas. advogados mantinham lojas. em Pernambuco. em 1831. defensores do Brasil e de Portugal se estranhavam e. dois eram escravos. um dos fundadores da Ordem dos Advogados do Brasil. em 1808. manteve um grande intercâmbio cultural com a África. advogado e político negro Francisco Gomes Brandão. o Grão-Pará ao Maranhão. Ainda se dormia em redes e esteiras. Confronto Em importantes cidades. como a que assolou o sertão nordestino em 1825 e levou à primeira grande onda migratória interna. café e gado ocupava cada vez . de Pernambuco. ela dobrou. negros forros. adotou o nome Francisco Gê Acaiaba de Montezuma (homenagem também aos astecas). indicava que o país de 4. O cenário que encontrou às vésperas do Grito do Ipiranga. mulatos. E os intimou a deixar o país”. índios ou mestiços. em 1821. as indústrias incipientes ganharam fôlego – especialmente fábricas de barcos. Barbeiros eram músicos nas horas vagas. em especial as mulheres.5 milhões de habitantes “tinha tudo para dar errado: de cada três brasileiros. Cozinhavam e costuravam para a família e ainda vendiam nas ruas quitutes. Minas Gerais a Goiás. diz Isabel Lustosa. limitando investimentos urgentes e gerando inflação. pólvora e tecidos. Nas maiores cidades. mas já estabelecida como Império do Brasil. A infraestrutura das províncias mais afastadas da capital não tinha mudado muito desde a chegada de dom João. que continuavam sendo vendidos em grandes quantidades no Brasil. 28). historiadora ligada à Fundação Casa de Rui Barbosa. Um ramo da família Galvão. historiador e professor da UFMG. a chegada de escravos. algo inédito depois de três séculos de controle estrito das atividades profissionais e das fontes de renda dos súditos de Lisboa. Surgiu uma primeira geração de ex-escravos livres. uma nova classe de trabalhadores se desdobrava com mais de uma ocupação. que passaram a ligar a Bahia a Pernambuco. E eles. incomum entre os portugueses. A adesão ao comando do imperador. Leia mais à pág. que acabaram fragmentadas. Cachimbo. não raro. “Por outro lado. As mulheres também se viravam bem. Em Salvador. também foi adotado para marcar diferença. As pessoas têm uma grande mobilidade social. Quando deixou o Rio de Janeiro. Escravos e livres se movimentam muito e exercem atividades econômicas variadas. econômica e cultural. São Paulo e Minas Gerais aceitaram de pronto as ordens de dom Pedro. Só a dívida externa superava 1 bilhão de reais em valores atualizados. No Sudeste. Exagero? Muitas famílias trocaram seus sobrenomes de batismo por expressões indígenas. Era uma população pobre e carente de tudo. Bahia. O jornalista. Piauí e outras províncias pegaram em armas para garantir a autonomia brasileira e a unidade do território nacional – desfecho diferente do que ocorreu nas colônias vizinhas. Nas ruas. é verdade. Também havia contato com estrangeiros de outros lugares. Mas as diferentes regiões já tinham mais contato com os acontecimentos no centro de poder. Rachas provincianos somavam-se à luta com os portugueses. A produção de algodão. diz Eduardo Franco Paiva. era preciso ter coragem para aderir à onda do cavanhaque. se comia com a mão e se andava em ruas escuras e estreitas – mesmo no Rio de Janeiro.cavanhaque. pegava mal fumar os adorados charutos cubanos – era obrigatório valorizar o produto nacional. a iluminação a gás só estrearia em 1860. O medo de uma rebelião escrava pairava como um pesadelo sobre a minoria branca. O confronto acabou de afundar as finanças quase falidas do novo governo. passaria a se chamar Carapeba. escreve Laurentino Gomes em 1822. pedreiros cortavam cana. após o desembarque da família real. pois tornou-se símbolo dos exploradores europeus. De uma hora para outra. porém. um padre se recusou a prosseguir com o cortejo fúnebre enquanto o defunto não fosse barbeado. não foi automática em todas as regiões. durou 21 meses e matou de 2 a 3 mil pessoas. a miséria e a fome não eram tão comuns – diferentemente do que acontecia sobretudo no interior em tempos de seca. 32) reagiu com empolgação à sensação de autonomia. em 1824. a novidade significou a realização literal do lema “Independência ou Morte”.

claro. o maestro Sigimund von Neukomm vivia no Rio desde 1816. foi um período de intensa atividade política. as mortes eram bem superiores aos nascimentos. mas a Carta garantiu liberdade de culto. o rei Francisco I da Áustria. das “febres de março”. Aluno de Joseph Haydn e colega de estudos de Ludwig van Beethoven. A língua francesa se tornava mais comum. alfabetizados e com renda de 100 mil-réis escolhiam os cidadãos que podiam votar e ser votados desde que atendessem a certos requisitos. eles eram 23% de todos os deputados. livres. a rua do Ouvidor já estava tomada por lojas francófonas (leia à pág. tanto por meio de revoltas ou burburinhos quanto usando mecanismos formais. que faziam diversas vítimas todos os anos. em 1821 (ou 110 mil com a área rural). A capital já tinha uma primeira geração de médicos formados no Brasil. sobretudo embarcando café (que. para 79 mil. A população se acostumou com facilidade a resolver suas pendengas na Casa de Suplicação do Rio. Em uma época de condições sanitárias precárias. evitando o fim da escravidão. escreve o historiador Luiz Felipe de Alencastro em História da Vida Privada no Brasil. mas não podiam calçar sapatos. O porto do Rio concentrava a metade do comércio exterior nacional. em 1824. O Teatro São João. tudo mudou na cidade. onde eles se limitavam a rabiscar plantas de terrenos. Os pianos eram uma peça obrigatória nas casas mais ricas e o imperador dedicava tempo às composições musicais. professora da USP. mas as escolas da Guerra e da Marinha constituíam uma crescente classe de militares. mais aportuguesado e menos marcado por expressões indígenas do que no resto do país. As pessoas rapidamente se acostumaram a se vestir mais de acordo com a moda europeia (mesmo escravos adotaram ternos. seria dissolvida em novembro. o impacto das mortes no parto e.mais espaço. Na década de 1820. Os pés descalços denunciavam sua condição). A cidade crescia graças apenas às migrações de pessoas que para lá eram atraídas. mantinham negócios e. em 1799. por exemplo). a ponto de até mesmo alfaiates manterem seu próprio veículo de comunicação. A influência dessa vida pujante era tal que ganhava importância o sotaque carioca. Em 1826. falando a verdade é um tanto teatral. a Biblioteca Real e os jornais locais faziam a vida cultural ficar muito mais diversificada e acessível. A Assembleia Constituinte. Homens maiores de 25 anos. No começo dos anos 1830. o Banco do Brasil já havia ajudado a alterar a economia da cidade. 30). Em carta ao pai. Em 1818. Havia um afluxo grande de estrangeiros. principalmente. os habitantes do Rio já influenciavam a fala dos habitantes das outras províncias”. esses doutores começavam a substituir os barbeiros com suas sanguessugas. Era uma forma de reduzir a mortalidade em geral. “Muito antes ainda (do advento) da televisão. mulher e filhos. cujo sistema de esgoto consistia em grandes latões de dejetos carregados por escravos. que é defeito de meu Marido”. Mas as transformações mais radicais aconteceram mesmo na sede do Império: o Rio de Janeiro. de tecidos a lampiões. O Poder Moderador dava a ele autoridade sobre os demais poderes. As discussões a respeito dos rumos do novo país não ficavam restritas às elites (embora pelo menos parte dela tenha feito valer sua vontade. A população saltou de 43 mil habitantes. queixas e representações”. em detrimento do açúcar e da mineração. Os religiosos seriam valorizados – até porque eles representavam parte considerável da ínfima parcela alfabetizada da população. a população foi sendo beneficiada por todas as mudanças”. diz Maria Luiza Marcilio. o imperador promulgou a primeira Constituição do país (considerada até liberal para a época). a imperatriz Leopoldina escreveu: “Envio-vos nesta ocasião uma Missa de Neukomm (…) que merecerá sem dúvida o vosso bom acolhimento. “A população estava longe de estar a reboque das camadas dirigentes”. os suíços formaram a primeira colônia de imigrantes não portugueses em Nova Friburgo. vivia basicamente do escambo. Os padres raramente usavam batinas. instalada em maio de 1823. escrevem os historiadores Gladys Sabina Ribeiro e Vantuil Pereira em O Brasil Imperial: “O povo foi ator político fundamental na trama do Primeiro Reinado. Faltaram soldados nativos para as lutas de independência nas províncias. com muita frequência. criada por dom João VI. O meu Marido também é compositor e faz-vos presente da Sinfonia e Te Deum de sua autoria. A Constituição O Primeiro Reinado. Apesar da falência em 1821. que. A capital Sob o impacto dos 13 anos de estadia da corte. de imprensa (em termos. como petições. nas faculdades de medicina do Rio e de Salvador. no geral. a começar por monarquistas e republicanos (que em 1822 se aglutinaram em torno de dom Pedro para confrontar as cortes portuguesas – grandes responsáveis pelo processo que levou à Independência). pois havia determinadas perseguições) e deu outro status à figura do eleitor. Mas. o surgimento da Academia Imperial de Belas-Artes tirava os desenhistas dos quartéis. origem do Supremo Tribunal Federal. A elite se dividia em várias correntes. mas. “Sistematicamente. em 1840 somava quase 50% de toda a pauta de exportações) e importando produtos ingleses inéditos por aqui. . até a década de 1810.

Foi o estopim para uma série de manifestações populares. Mas a escravidão ainda era a regra. A proximidade com o porto. ele e a família foram ao teatro. no Maranhão. José Bonifácio. assim como a do Ouvidor. A “nova” economia O café e o algodão ganhavam espaço na economia do país. Em seus últimos três anos de vida. em 1888. que falavam quase um “portunhol”. Com o desmonte da assembleia.5 milhões de km2 que formavam o Brasil. A História reconheceria. MINAS GERAIS A província e o centro-oeste do país ganhavam pujança econômica com a produção de carne. Dali em diante. até que dom Pedro II assumisse o cargo e garantisse a estabilidade política (ao menos temporariamente) não alcançada pelo pai. que vivia um período turbulento. a província se dividiu ao meio. Não se limitou a garantir a independência do Brasil e a unidade do território. Na noite em que assinou a Constituição. já abalado pelos escândalos de alcova. RIO GRANDE DO SUL Os gaúchos. em 1831. mas ele saiu ileso. Apesar da falta de recursos. No ano seguinte. seria proclamada a República. Mesmo após a Guerra da Independência. o intendente de polícia Estevão Ribeiro de Resende mandou seus homens às ruas para apreender os panfletos com chamados à revolução. Na Bahia. a política dava lugar a festas ao som de lundu. aceitaram a Independência. incomodavam os brasileiros. O Brasil mergulharia numa década de revoluções e turbulências. a exemplo da sufocada Confederação do Equador. despontava uma nação com identidade própria. Um grupo tocou fogo em poltronas. repleta de produtos franceses. Mas a Bahia ainda enfrentaria tensão com uma revolta em 1832. GRÃO-PARÁ Entre 1822 e 1823. a verdadeira transformação ocorreria com o fim da escravidão. Em 1831. BAHIA Após a Guerra da Independência. que gritavam palavras de ordem pedindo direitos civis e apresentavam por escrito centenas de sugestões aos deputados. tecidos e outros itens vendidos para o Rio de Janeiro. Rio imperial Capital foi o retrato das transformações pós-1822 “Morte ao traidor!” Protestos e enfrentamentos entre aliados e adversários de dom Pedro ganharam as ruas do centro. A derrota na Guerra da Cisplatina. que tinha indústrias incipientes no Rio. a partir de Pernambuco. no Grão-Pará e na Cisplatina. Com ele. que culminaram com a família real abandonando o Rio na surdina. dom Pedro teve de enfrentar levantes de províncias que queriam autonomia. Belém ficaria sitiada durante a Cabanagem. em 1824. Os conflitos aumentavam a inflação e castigavam os moradores. no Natal. os defensores da independência pegaram em armas contra portugueses e aliados. havia afetado seu prestígio. leite. no Piauí. A vitória dos imperiais não cessou os conflitos. Já a Cisplatina conseguiu desmembrar-se e virou o Uruguai em 1828. PERNANBUCO Foi convulsionado por movimentos separatistas e de caráter republicano. Entre 1835 e 1845. porém. Em 1835. . Moradores migraram para o campo. Negros e mulatos eram a maior preocupação das autoridades – se reuniam em tabernas nos arredores da cidade. facilitava as transações. dom Pedro voltou a dissolver seu ministério. porém: Pedro de Alcântara Francisco foi um dos nomes mais importantes da trajetória do país. romperiam com o Brasil. ele mudaria também os rumos de Portugal. Alguns escravos seguiam a moda europeia. o som mais popular na região. área cheia de quilombos. por onde passava 80% da economia do país. em 1828. O imperador abdicaria do trono no dia 7 de abril e iria para Lisboa. Um grupo chegou a fundar um “Club dos Malvados” com motivações políticas e raciais.Os debates da constituinte foram acompanhados por populares. aos poucos o custo de vida caiu em Salvador. mas perderam com a separação da Cisplatina. Próspero e variado A rua Direita reunia o comércio de luxo. Seus vínculos com Portugal. inclusive mercenários estrangeiros) venceram. Já liberais radicais organizaram um atentado contra o imperador. Longe do centro A vida tumultuada nas províncias O Grito do Ipiranga ecoou de modo diverso nos 8. O rei voltou a enfrentar resistência política intensa dos deputados. O sucessor Dom Pedro I indicou imperador o filho de 5 anos e deixou como tutor um dos patronos da nação. os “brasileiros” (partidários da causa nacional. Mas.

caíram sobre a multidão como um toque fúnebre: “Se é para o bem de todos e a felicidade geral da nação portuguesa. soberana. como exigiam as cortes constituintes reunidas em Lisboa. O príncipe abandonava o Brasil à própria sorte e voltava para Portugal. a essa altura já praticamente rompido com Portugal. Isso deixou os brasileiros em minoria na proporção de dois por um perante os portugueses. deflagrou o turbilhão de acontecimentos que o levaria ao Grito do Ipiranga. em 1808.O dia do vou O que aconteceria se Dom Pedro tivesse voltado para Portugal em 1822? Na manhã de 9 de janeiro de 1822. O total de deputados deveria ser proporcional à população de cada região. Dúvidas Se dom Pedro partisse. o novo país não tinha exércitos. conspirava-se para que o Brasil voltasse à condição de colônia. caso de Minas Gerais. afrontou publicamente as cortes. de território integrado e dimensões continentais. um mês após a eclosão da Revolução Liberal do Porto. ficava um país transformado. dom Pedro sentia-se cada vez mais isolado: “Fiquei regente. todo esforço brasileiro estava concentrado em assegurar a permanência do príncipe e garantir a autonomia e os benefícios já conquistados. obviamente. Na praça em frente. as cortes constituintes começaram a se reunir em Lisboa no dia 26 de janeiro do ano seguinte. que o pressionavam a voltar para Lisboa. desde 1815. e. Pedia que o herdeiro da coroa portuguesa ficasse no Brasil e liderasse os esforços pela independência do novo país. As palavras de dom Pedro. À época. o Brasil teria grandes chances de fracassar como nação independente. Ao desembarcar em Lisboa. Menos de 10% dos habitantes eram alfabetizados. formada na Universidade de Coimbra. navios. situação que perdurara durante mais de três séculos até a chegada da família real portuguesa ao Rio. Convocadas em setembro de 1820. o Brasil teve direito a ocupar somente 72 das 181 cadeiras. o deputado Fernandes Tomás propôs que aquela parte do território passasse a ser chamada de província de Portugal. Sem a liderança do herdeiro real. em 1822. A cena é. entre outras correntes. que. Para trás. no centro do Rio de Janeiro. o príncipe regente. se queixaria em carta ao pai. oito meses depois. porque governo só a província (do Rio de Janeiro)”. os brasileiros viviam um momento de grande tensão e expectativa. armas e munições para sustentar a inevitável guerra com a Metrópole pela independência. era um Reino Unido com Portugal e Algarve. diga ao povo que vou!” Era o fim do sonho. No célebre Dia do Fico. mestiços e forros – pobres e sem formação. O rei dom João VI voltaria a Lisboa em abril de 1821. oficiais. índios. No Rio de Janeiro. só 46 brasileiros tomaram posse em Lisboa. Cada uma delas elegeria sua própria junta provisória de governo. mas reacionárias naquilo que dizia respeito à sua mais rica ex-colônia. Mesmo assim. Nos dias anteriores. antes que os deputados brasileiros chegassem a Lisboa em condições de contestá-lo. reunidos em silêncio desde o amanhecer. é tentador fazer a conjectura: qual teria sido o destino do país caso dom Pedro tivesse retornado a Portugal? Em janeiro de 1822. de apenas 22 anos. a ampla maioria da população era de escravos. Em um esforço deliberado de fragmentar o território brasileiro como forma de mais facilmente controlá-lo. Ao saber que o Pará aderira à revolução constitucionalista. cassando os benefícios concedidos por dom João VI. Os portugueses tinham pleno conhecimento dessas dificuldades e se empenharam em tirar proveito delas. no dia 24 de abril de 1821 as cortes decidiram criar províncias autônomas. porém. que poderia resultar na fragmentação territorial. republicanos e federalistas. . As cortes se revelariam liberais em relação aos seus próprios interesses em Portugal. tinha profundas divergências políticas: eram monarquistas absolutos e constitucionais. fictícia. Por isso. mas os escravos estavam excluídos. Por isso. depois de nomear o filho regente do Brasil. Todas visavam recolonizar o Brasil. o futuro do novo país seria incerto. que responderia diretamente a Lisboa. já no fim de 1821. embora tivesse uma população superior. cabendo a Portugal 100. um gigantesco abaixo-assinado havia mobilizado os cariocas. A pequena elite intelectual. os brasileiros esperavam ansiosamente que ele lhes desse uma boa notícia. Ainda assim. sem dar satisfações ao príncipe regente. Os demais não foram por dificuldades de locomoção ou divergências dentro da própria delegação. O isolamento e as rivalidades entre as províncias prenunciavam uma guerra civil. um trêmulo príncipe regente dom Pedro apareceu na janela do Paço Imperial. ao permanecer no Brasil. As outras províncias ultramarinas (como Angola e Moçambique) ficaram com as nove cadeiras restantes. O projeto foi aprovado no dia 5 de abril de 1821. e hoje sou capitão-general. Em Portugal. sem nenhum vínculo com o restante do Brasil. fugindo de Napoleão Bonaparte. Praticamente falido. os deputados brasileiros foram surpreendidos por diversas decisões tomadas na sua ausência. e quebravam a promessa de não tocar em assuntos relativos ao país antes da chegada de seus deputados.

que à época era território brasileiro). Mas parte dos portugueses que habitavam o Brasil não aceitou a independência. demorarei a minha saída até que as cortes e o meu Augusto Pai e Senhor deliberem a este respeito. era ligado à maçonaria e foi o autor da representação que. D. “Como é para bem de todos e felicidade geral da nação. estou pronto: diga ao povo que fico!”. Outro pedido financeiro seria feito aos ingleses para indenizar Portugal e assim garantir que a antiga metrópole reconhecesse a independência do Brasil. considerou a hipótese de embarcar para Portugal. mas a nova versão estava mais de acordo com as expectativas dos maçons do Rio de Janeiro. Nessa época. houve a coroação e sagração do novo imperador do Brasil. sem uma liderança capaz de manter as províncias unidas e aglutinar os esforços pela independência. O custo foi de 2 milhões de libras esterlinas. contida na primeira versão. que vigorou até a chegada da corte. A famosa declaração do Fico envolve. no dia seguinte um novo edital foi publicado com palavras mais enérgicas. as comunicações entre Brasil e Portugal eram muito lentas. No Rio. na prática interventores militares encarregados de preservar a ordem e sufocar qualquer tentativa de autonomia. É o que se depreende da enigmática expressão “demorarei minha saída”. Seu ocupante. traficantes de escravos e comerciantes. Em 12 de outubro de 1822. seria entregue ao príncipe pedindo que ficasse no Brasil. José Clemente Pereira. em nome dos habitantes da cidade. Piauí e em Cisplatina (atual Uruguai. Ao todo. Apesar de conseguir a Independência. ainda que por algumas horas. Só no dia 9 de dezembro de 1821 chegaram ao Rio de Janeiro as notícias de que as repartições governamentais seriam fechadas e dom Pedro deveria embarcar para a terra natal. ao receber o abaixo-assinado. O mistério contido nessas duas versões do Fico é a prova de que no dia 9 de janeiro de 1822 dom Pedro. o Brasil teria se fragmentado em duas. em 1808. viajar pela Europa “a fim de instruir-se”. Para lutar nessa guerra. restabeleciam o sistema de monopólio comercial português sobre os produtos comprados ou vendidos pelos brasileiros e determinavam que dom Pedro retornasse imediatamente a Lisboa para. A escravidão não foi abolida e o poder continuou centralizado na pessoa do Imperador. teria sido a resposta. que passou a se chamar Dom Pedro I. Segundo o historiador Tobias Monteiro. Minas Gerais e na própria capital. sem rompimentos. Pedro I teve que pedir um financiamento da Inglaterra para montar suas Forças Armadas. a situação social no Brasil não se alterou. na Bahia. em outubro as cortes nomearam novos governadores de armas para cada província. dom Pedro teria dito: “Convencido de que a presença de minha pessoa no Brasil interessa ao bem de toda a nação portuguesa. Pedro I continuava governando para os grandes proprietários de terras. Essa é a versão constante dos autos da vereação e do edital publicados no mesmo dia – uma resposta prudente. dom Pedro anunciou a decisão de permanecer no Brasil. porém. situado no largo da Carioca. A soma de todas essas decisões devolvia o Brasil à condição de colônia. excluindo a imensa maioria da população da participação política. Não se sabe quem mudou. Anulavam os tribunais de justiça e outras instituições criadas por dom João no Rio. D. em seguida. três ou quatro nações de língua portuguesa em cujas escolas hoje se estudaria o episódio que passaria para a História como “o Dia do Vou”. em 1824. seguidos de México e Argentina. Manifestos e abaixo-assinados contra as cortes e pedindo a permanência do regente começaram a ser organizados em São Paulo. o que ocorreu em 1825. mentores da representação. Maranhão. . Eles ocorreram principalmente no Pará. com perfeito conhecimento das circunstâncias que têm ocorrido”. O primeiro país a reconhecer a independência brasileira foi os EUA. um mistério. Ao receber o documento das mãos do presidente do Senado da Câmara. na qual invocava “o bem de toda a nação portuguesa”. A reação dos brasileiros foi de revolta. Para assegurar que suas resoluções fossem cumpridas. o centro da conspiração era uma modesta cela no Convento de Santo Antônio. Misteriosamente. frei Francisco Sampaio. ocorrendo alguns conflitos que ficaram conhecidos como as Guerras de Independência.As medidas mais drásticas saíram no dia 29 de setembro. Nesse caso. dando início à dívida externa brasileira. tinha 8 mil assinaturas – número espantoso para uma cidade com menos de 120 mil habitantes. e conhecido que a vontade de algumas províncias assim o requer.