VARIA ESCRITA
Feade Queiroz
Vasco de Castro
SER OU NAO-SER FRADIQUE MENDES
BEATRIZ BERRINI
(Pontificia Universidade Catdlica de Sio Paulo)
Em estudo recente, lembrava eu que os narradores queirozia-
nos em primeira pessoa, nas ficgdes do inicio da carreira, so per-
sonagens grotescas ¢ risfveis. Como se Ea de Queiroz receasse re
velar-se demasiadamente através do emissor auto ou hi
refugiando-se entio atrés da aparente obj
‘primeira pessoa com desassombro, sem rest
de qualquer ordem. Esse € 0 caso das Memorias e Notas, que antece-
dem A Correspondéncia de Fradique Mendes. E capaz entio de
recordar lembrangas de sua prépria juventude, usando a primeira
pessoa e empregando um tom memorialista, Lendo essas paginas
perfumadas por um certo saudosismo, vem-nos & recordagao, em
certos momentos, passagens do seu ensaio para o In Memoriam de
Antero de Quental. A voz que emuncia, na verdade, nada tem a ver
com os emissores d’O Mandarim, d’A Rel
trodugéo que inaugura
A Correspondéncia de Fradique Mendes.
6VARIA ESCRITA
Inicialmente, por exemplo, temos o relato das vivéncias lisboetas
do grupo do Cengculo, podendo-se mesmo tragar um paralelo entre
estas recordagées € 0 texto introdutério de Batalha Reis para as
Prosas Bérbaras. Como um leit-motiv, ou qual um refrao, de forma
intermitente, nos primeiros pardgrafos aparece repetidamente a
expresso que assinala de forma insofismével aimportincia ea época
cem que os fatos narrados se passaram: «firamos assim absurdos em
1867!» O ano é aquele em que Fa, de posse do diploma de bacharel,
Antero de Quental
‘ou seja os companheiros das aventuras do Cenéculo e, posterior-
mente, das Conferéncias do Casino Lisbone
verdade, identifica-se nao s6 com Ega, m:
‘dentificagdo opera-se
também entre o autor ¢ a personagem Fradique. Em outras palavras
‘© emissor das Memérias, muito préximo do autor em
das passagens, apresenta o jovem Fradique € empresta-Ihe tragos
biogréficos queirozianos, mais ou menos transfigurados, que corres-
pondem a primeira fase de vivéncia lisboeta do préprio Ega; mas
atribui-lhe outros que 0 aproximam do cOnsul Eea de Queiroz. O
romancista, com efeito, também morou no exterior, também muito
vigjou, Tal fato nos permite desde jé perceber o trabalho de criagao de
Fea de Queiroz: distribui ele as suas experincias entre duas
personagens, atribuindo-as ora ao emissor ora a Fradique Mendes.
Embora no texto o narrador se distinga da personagem— de quem foi
intimo amigo, — ambos carregam as marcas biograficas do autor;
© Autor nao & a Personagem, nem é o Narrador: ele pode
-ar-se comuma € com outro, porém somente de forma parcial.
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SER OU NAO SER FRADIQUE MENDES
uma certa hesitacdo ou ambiguidade, pois o texto parece oscilar entre
a Ficgao e a Historia. Do que seria prova também a presenca textual
dos amigos de Eea de Queiroz, como interlocutores de Fradique,
testemunhas fidedignas da veracidade dos fatos narrados.
través da imaginagio criadora, portanto, oautor transformatanto
as suas experiéncias lisboetas como aquelas outras vividas no
estrangeiro, — qual a sua viagem ao Oriente e o seu distanciamento
profissional de Portugal, — que passam a ser experiéncias espectfi-
cas e curiosas de Fradique Mendes ou do narrador: transfigura-as,
ficcionaliza-as, converte-as em Art.
Em um determinado momento, desses primeiros capitulos, 0
narrador reproduz um conceito de Arte enunciado por Fradique, que
convém recordar: «A arte & um resumo da Natureza feito pela
imaginagdo>. Pois esta definigdo, talvez banal, resume, a meu ver, a
peculiaridade do texto das Memérias: a experiéncia que Ega de
Queiroz. sofreu, no contacto com a realidade da vida, encarna-se de
forma sintética na sua palavra, migica palavra de criador, depois de
filtrada pela meméria e transfigurada pela imaginacao,
Criagdo coletiva de Bea, Batalha e Antero? em 1869, 0 imagind-
tio Fradique permaneceu latente apenas no intimo de Ega de
Queiroz, pronto a ressurgir para a vida ficticia que o criador Ihe em-
prestasse, Houve logo depois uma primeira ressurreigao
jo da Estrada de Sintra (1870), romance escrito em col
Jembranga € no universo imagi
‘oculto aos olhares estranhos,
ressurgir por volta, primeiro de 1885, e, defi
1888. Os dois companheiros da primeira aver
talvez recordassem vez ou outra Fradique Mend
das LAPIDARIAS; na meméria de Fea de Que
jardim secreto, Fradique continuou a viver ocul
oOVARIA ESCRITA
Estrutura e organizagao
Uma visto ligeira da Correspondéncia, permite desde
reconhecer as duas partes em que a obra se divide: na primeit
‘vozque,em certas edigdes?, mas somente em algumas edicdes, as
-se Ega de Queiroz, recorda momentos biogréficos de Fradique,
sobretudo a sua relagéo com ele proprio, narrador. Sao as Memérias
@ Notas. Segue-se a segunda parte, constituida pelas cartas de Fradi-
que, na verdade uma selecao delas, conforme é explicado ao leitor.
‘No texto inaugural, o ewemissor diz-se amigo de Fradique, apresenta
alguns dados biogrificos de sua infaincia e adolescéncia, faz o relato
de seus primeiros contactos como poeta das LAPIDARIAS, pasando
fe a tragar o que eu chamaria de retrato intelectual €
16gico-moral de Fradique. A partir do 1V° capitulo, com
© texto narrativo é entrecortado com frequéncia por excert
correspondéncia de Fradique, que nele se integram. Ou seja,
sucessivamente orelato 6 suspenso, para acolher extratos de cartas dé
Fradique dirigidas a Oliveira Martins, Carlos Mayer, Ramalho, Antero
assim por diante, de modo que se pode afirmar que as diferengas
.guem a primeira da segunda parte nfo sio to grandes
poder-se-ia concluir.
ta parte introdutéria da obra, a emissdo esta sob a
responsabil jo eu. Emcertos momentos, o narrador
das Memdrias e Notas limita-se a comentar ¢ costurar 0s vérios
fragmentos de cartas do proprio Fradique. Na verdade, o protagonista
mostra-se diferente para cada destinatério, apresentando uma faceta
distinta de sua personalidade, de modo que, para tragar 0 seu retrato,
o narrador vale-se das revelagdes fragmentirias expostas aos diver-
0s receptores: as idéias sobre Hist6ria comparecem nas missivas
dirigidas a Oliveira Martins, o pensamento filos6fico naquelas para
‘Antero, asua visto da ptria e das coisas portuguesas nas cartas para
co narrador e para esse outro destinatédrio que se ocul a
GF. ou FG., iniciais que talvez. merecessem uma investiga¢ao.
Além disso, outros fragmentos de cartas, estas dirigidas a0 proprio
Na Revista de Portugal por ex
rece, porém estcla ausente dacdigdo de
‘como als acontece também na edicéo ia Aguilar, Mas a assinatura
presente em alguns textos da Gazeta de Noticias, do Rio. Ovtras vezes, compare-
Gem as duas assinaturas: Ega de Queiroz/Fradique, em Portugal como no Brasil
os
SER OU NAO SER FRADIQUE MENDES
narrador, completamas informagdes eo retrato—adensando-o.Com
isso, porém, Fradique no se torna um ente mais complexo e con-
traditério, com 0 seu toque de mistério, Em decorréncia da mul-
cidade de perspectivas e de opinides, o que se observa & uma
convergente unanimidade nas avaliagdes. Como escreveu Ant6nio
Candido, a personagem de ficgao € muito mais coerente do que a
pessoa humana. Sua estrutura limitada «é obtida nao pela admissio
cca6tica dum sem-ntimero de elementos, mas pela escotha de alguns
elementos, organizados segundo uma certa l6gica de compasigo que
ria a ilusdo do ilimitado»'. Eca de Queiroz, no caso de Fradique,
parece ter em vista criar uma convincente e fascinante persona~
‘gem, apresentando o seu retrato completo ¢ coerente, que se caracte~
riza por uma excepcionalidade que a todos domina e cativa. O
fique Mendes dotado de qualidades invulgares, por
todos reconhecidas, sem opinides divergentes, a no ser as poucas
restrigoes que Ihe faz Teixeira de Azevedo. Como Carlos da Maia,
Fradique parece pertencer a uma humanidade excepcional, somente
es de Cicero — um autor mui
presente em Bea de Queiroz, citado com frequéncia inch
Correspondéncia, —no seu tratado sobre a amizade (De ami
‘© romano reconhece a existéncia de pessoas excepcionais; mas se
tal acontece entre amigos, «o maior hé-de ser igual a0 menor» e os
inferioresnaosedevems
superiores, em questées de «engenho, fortuna,
em Fradique existem razSes que 0 tornam
ele sabe achegar-se a todos, trazé-los ao seu
‘Voltando & estrutura da obra: as duas partes em que ela se divide
apresentam, como se percebe, fortes elos de ligagao entre si, no
somente porque tém por assuntoa mesma personagem, objeto central
de uma e outra; mas ainda pelo fato de ambas serem tecidas por
diferentes vozes, entre elas avultando a da personagem e a do
narrador, O discurso epistolar é muito utilizado também na primeira
parte. Nela, sob a regéncia do narrador, miiltiplos emissores ma-
nifestam-se a respeito de Fradique, ou constroem a personalidade do
protagonista gracas aos trechos das cartas que Ihes foram dirigidas
ignidade»’. Assim, se
10 de ser amado,
4 Ant6nio CANDIDO: «A personagem do Romance
Fiesio, por Antonio Cndido e outros. S. Paulo, Per
Marco Tilio CICERO: Didlogos. Rio, Ga
in A Personagem de
1968.
100 seguintes.
oVARIA ESCRITA
quecontribuem para orevel
icamente como tni
atirios. Com isso,
‘Nasegundaparte, se Fradique mantem-
emissor, vat
ique a cada diferente
cura presente na parte anterior, a saber:
1s acabam por sugerir uma personagem plural,
condicionada & mal lade de receptores. Preciso € nao esque-
cer que alguns sio explicitamente nomeados, ¢ entio hé ou
ccionalizagdo de pessoas ou destinatérios inteiramente
sentados. O verdadeiro receptor de toda a obra, noentanto, 60.
‘que de certa forma passa a ouvir clandestinamente o que a prinefpio,
nio fora destinado aos seus ouvidose asta mente. Note-se, ainda, que
0 narrador primero no esté de todo ausente na parte reservada as
cartas de Fradique, pois nao faltam, aqui e ali, pequenas notas com
farrapos de comentérios, designando, por exemplo, as missivas
que, originalmente em francés, foram traduzidas; ou as pecul
circunsténcias em que teria sido encontrada uma outra ete, Se Fradi-
‘que esté substancialmente presente na primeira como na segunda
parte, nesta tiltima o narrador primeiro nao se ausenta totalmente:
comparece indiretamente através da escolha que faz das cartas e, de
nas notas explicativas.
das Memsrias, com efeito, diz ter realizado uma selegao
das cartas de Fradique Mendes, uma vez que a correspondéncia do
«adorével amigo» era por demais vasta e copiosa. Com um punhado
res asuia imagem de Fradique: um
interessante em todas as sas manifesta
paixio, de sociabilidade ¢ de ago».
homem «superiorme
‘Ges de pensament
A amizade: um valor supremo
emerge do texto gragas
Geragdo de 70, ficcioi
todos despertou: admiracZo pelo seu saber, pelas sua inteligéncia,
também pela sua elegdncia e bom gosto, pela sua afabilidade e gene-
rosidade, pois também marcado pelo shakespeareano tépido leite da
bondade humana... Hé uma convergéncia de opinides a favor da
lade de Fradique. O texto mostra-o digno de ser querido ¢
admirado, ¢ por isso todos sao seus devotados ¢ irrestritos amigos.
70
SER OU NAO SER FRADIQUE MENDES
Poder-se-ia argumentar que tal imagem favordvel resulta das
avaliagGes de pessoas amigas e por obra d
excertos convenientes e as cartas que iriam integrar a publ
‘Imagem falsa entéo? Deve ser colocada sob suspeigao? E a tinica
imagem que temos, em
nasce quer das informa-
te, quer das proprias,
itor faz.a sua coleta de
dados € conclu 0 dbvio: as opinides mostram-se convergentes. HA
uma unanimidade consagradora em todas as avaliagGes: Fradique €
excepcional
jém disso, e sobretudo, a amizade € um valor que emerge
‘Nao sem razio sentiram os contemporaneos,
imperiosa, a necessidade de dar um nome a esse punhado de homens
inérios, que se distinguiram em tantos campos do saber e das
artes, no final do século XIX: a Geragdo de 70: grupo de amigos, unidos
por fortes lagos intelectuais e afetivos. Bidgrafos, criticos e en-
safstas queitozianos repetidamente jé assinalaram a valorizacio da
amizade na vida e na fiegio de Ea de Queiroz, O afeto dos amigos,
— neste homem de infancia e adolescéncia solitérias, — foi essen-
cial; € tal valorizagdo esté presente, transfigurada, na sua obra
ficcional
Em varios romances, com efeito, esto presentes pares de
confidentes e conselheiros,
Nao se trata apenas de atribuir aos amigos a fungio de ouvintes
atentos,
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