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2017­5­28 Raça, o significante flutuante – Revista Z Cultural

RAÇA, O SIGNIFICANTE FLUTUANTE
Stuart Hall
Tradução de Liv Sovik, em colaboração com Katia Santos QUATRO
TECNOLOGIAS
Stuart Hall DA
Tradução de Liv Sovik, em colaboração com Katia Santos* IDENTIDADE
JUVENIL
Mesmo que alguns considerem um tanto tarde, quero voltar à questão do que queremos dizer, quais são as implicações de dizer — FEMININA
como íz no título bastante provocador desta palestra — que raça é uma construção discursiva, um signiícante deslizante. Aírmações
desse tipo já têm certo prestígio nos círculos avançados da crítica hoje em dia, mas está claro que críticos e teóricos nem sempre querem
dizer a mesma coisa nem tiram as mesmas conclusões dessa aírmação. Além disso, a ideia de que raça possa ser entendida como
signiícante não é, na minha experiência, algo que tenha atingido com profundidade, e nem tenha sido eícaz em desarticular ou
desalojar, o que eu chamaria de pressupostos do senso comum e formas cotidianas de falar de raça e de produzir sentido sobre raça na
sociedade de hoje. E estou falando, em parte, do mundo grande, bagunçado e sujo no qual raça importa, fora da Academia, e não só da
luz que podemos, a partir da Academia, lançar sobre ela.

O mais sério é que não foram adequadamente mapeados ou avaliados os efeitos deslocadores de se pensar raça como signiícante,
sobre o mundo da mobilização política em torno de questões de raça e racismo, ou sobre as estratégias da política e da educação
antirracistas.  Bem, talvez vocês não estejam persuadidos ainda, mas essa é minha desculpa por voltar neste momento tardio a esse
tópico, mesmo sabendo que muita gente acha que, aínal, tudo de útil que poderia ser dito sobre raça já foi dito.

A rejeição “formal” do racismo biológico

O que quero dizer com “signiícante îutuante”?  Para falar em termos bem genéricos, raça é um dos principais conceitos que organiza os
grandes sistemas classiícatórios da diferença que operam em sociedades humanas. E dizer que raça é uma categoria discursiva é
reconhecer que todas as tentativas de fundamentar esse conceito na ciência, localizando as diferenças entre as raças no terreno da
ciência biológica ou genética, se mostraram insustentáveis. Precisamos, portanto —  diz-se —  substituir a deínição biológica de raça
pela sócio-histórica ou cultural[1]. Como resumiu o ílósofo Anthony Appiah em algum momento: “…É hora do conceito biológico de raça
ser afundado sem deixar rastro”. W. E. B. Du Bois, o grande pensador e escritor afro-americano, não tão conhecido no Reino Unido
quanto deveria, escreveu sobre essas questões um texto maravilhoso e tocante intitulado As almas da gente negra [2]. Em outro texto, um
ensaio intitulado A conservação das raças, fala do que chama de “… as diferenças de cor, cabelo e osso”  que — ainda comentou —,
“embora sejam claramente deínidas para o olhar de historiadores e sociólogos” —, coisa boa, porque existem muitas coisas que
sociólogos não enxergam, mas ele achava que a diferença racial fosse algo que eles mais ou menos conseguiam distinguir —  “… que tais
coisas são de maneira geral de baixa correlação com a diferença genética e, por outro lado, impossíveis de serem correlacionadas
signiícativamente com as características culturais, intelectuais ou cognitivas de um povo.” Além da extraordinária variação existente
dentro de uma mesma família, principalmente qualquer unidade chamada “família de raças”.

A sobrevivência do pensamento biológico

Quero pontuar quatro coisas simultaneamente, sobre essa posição geral.  Primeiro, ela representa o que já é de senso comum entre
cientistas proeminentes nesse campo.

Em segundo lugar, esse fato nunca impediu que estudiosos consagrassem uma atividade intensa, por uma minoria de acadêmicos
comprometidos, à tentativa de provar a correlação entre características genéticas vinculadas a racialidades e desempenho cultural.
Noutras palavras, não estamos lidando com um campo no qual, digamos, o fato reconhecido cientííca e racionalmente impede os
cientistas de continuarem tentando provar o oposto.

Em terceiro lugar, noto que, embora as implicações racializadas deste trabalho cientííco permanente sobre o tema, por exemplo, sobre
raça e inteligência, sejam clamorosamente condenadas por grande número de pessoas, certamente pela maioria de proíssionais liberais
e sobretudo por grupos negros de todos os tipos, de fato, grande parte do que é dito por esses mesmos grupos entre si é baseado em
premissas desse mesmo tipo, por exemplo, de que um fenômeno social, político ou cultural — como a correção de uma linha política, ou
os méritos de uma produção literária ou musical, ou a adequação de uma atitude ou crença — pode ser atribuído ou explicado e
sobretudo íxado e garantido em sua verdade pela identidade racial da pessoa envolvida.

Deduzo da intensa atividade de pesquisa a lição incômoda de que posições políticas opostas muitas vezes derivam do mesmo
argumento ílosóíco. E embora a explicação genética do comportamento social e cultural seja frequentemente denunciada como racista,
as deínições genéticas, biológicas e ísiológicas de raça passam bem, obrigado, nos discursos de senso comum de todos nós. O fato é
que a deínição biológica, ísiológica e genética de raça, convidada a se retirar pela porta da frente, tende a dar a volta e retornar pela
janela.

Esse é o paradoxo que quero explorar e discutir a seguir. Por que é assim?

O distintivo de raça

Em um artigo na revista Crisis de agosto de 1911, Du Bois muda decisivamente seu discurso para escrever sobre “civilizações onde hoje
podemos falar de raças”, acrescentando que “mesmo as características físicas, incluindo a cor da pele, são resultado direto, em medida
considerável, do ambiente físico e social. Além disso, são indeínidos e fugazes demais”, ele aírma, “para servirem como base para

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no propósito de sinalizar coisas diferentes em diferentes culturas. preconizada no título de minha conferência. o que estou tentando aírmar. externo ao campo da signiícação. um signo vazio. quero defender que raça funciona como uma linguagem. e que o comportamento e a diferença racializados devem ser entendidos como fato discursivo e não necessariamente genético ou biológico. Dá para ver a discriminação racial funcionando nas instituições. dá para ver as pessoas se remexendo quando pessoas de um outro grupo racial entram na sala. aínal. Raça como linguagem. morfologia do corpo. para perturbar os sonhos de quem está à vontade do lado de dentro. dá para dizer talvez que raça não seja. repugnantemente rosadas. Para que toda essa algazarra acadêmica sobre raça. uma série randômica de todo tipo de coisa que a gente chama de mundo e não há motivo para http://revistazcultural. Uma segunda possibilidade é a posição chamada muitas vezes de puramente textual ou linguística. embora pouco signiícativa em si. osso e cabelo. por que não usar a evidência diante de nossos olhos? Se raça fosse um negócio tão complicado. a um processo iníndável de constante resigniícação. baseado nesse reconhecimento em Dusk of Dawn. e só falta reîetir de forma adequada sobre o que está lá fora no mundo.pacc. um “signiícante îutuante” Não quero desviar de meu caminho e entediá-los com um longo tratado teórico sobre os termos que estou usando. que não está íxado em sua natureza interna. classiícação ou divisão de grupos humanos”. parece haver um resíduo de diferenças que são palpáveis nas pessoas. o significante flutuante – Revista Z Cultural qualquer origem. e que tem como destino certo voltar de sua posição de expelido e abjeto.ufrj. e que a diferença é um tipo de existência anômala por aí. com esta luz. formações históricas e momentos. só dentro do jogo do texto e do jogo de diferenças que construímos na nossa própria linguagem. Agora. Porque a cor. acúmulo e contração de novos sentidos. Mas não há nada de errado com suas aparências. é importante — Du Bois aírma — “como distintivo da herança social da escravidão. E os signiícantes se referem a sistemas e conceitos da classiícação de uma cultura. nos sistemas de linguagem e conhecimento que utilizamos para conduzir investigações sobre seus efeitos. da disseminação e do insulto dessa experiência. não é uma questão de cor.2017­5­28 Raça. por ser relacional e não essencial.  Ou seja. há sempre uma margem ainda não encapsulada na linguagem e no sentido. permitam-me voltar à questão de como observamos esse funcionamento em torno da preocupante questão acerca das diferenças grosseiras de cor. sofreram um mesmo desastre e têm uma única e longa memória de desastre”. o autor abandona a deínição cientííca de raça em prol do fato de que ele escreve sobre africanos. Quando todos os demais reínamentos foram apagados. e que africanos e afrodescendentes têm o que chama de ancestralidade racial em comum porque — é importante notá-lo — “têm uma história em comum. outras bastante pretas. a suas práticas de produção de sentido. Uma terceira posição: o discursivo Existe uma terceira posição. talvez digam: “Você está mesmo aírmando que raça é um simples signiícante. o denominador comum absoluto e ínal dos sistemas raciais de classiícação. Dá para ver seus efeitos. Garanto que estão. um sistema autônomo de referência. Quando se comprova que conseguem fazê-lo. uma insígnia. quando você pode apenas voltar-se para a sua realidade? Que caminho através da história é mais literalmente marcado pelo sangue e a violência. uma questão de fatores genéticos. algumas marrons. mas simplesmente lembrá-los que o modelo que está sendo proposto aqui está mais próximo do funcionamento de uma linguagem do que do funcionamento de nossa biologia ou de nossas ísiologias. características ísiológicas. esse é o meu argumento. Não é possível íxar o sentido de um signiícante para sempre ou trans-historicamente. Está sujeito a um processo de perda de velhos sentidos. sua autobiograía. Primeiro. alguém é sempre o lado externo constitutivo. algumas até. e assim por diante. se são simplesmente. apropriação. Esse sentido. de que raça é um signiícante. que îutua em um mar de diferenças relacionais? É esse o seu argumento? E não seria esta não só errada. Como dar conta da realidade da discriminação e da violência raciais? Dirijo-me a essa questão diretamente porque acredito que é aqui que os mais céticos entre vocês estão começando a pensar: “Tudo bem. talvez até estejam olhando em volta para terem certeza de que suas aparências estejam funcionando bem. Raça é. E que raça se assemelha mais a uma linguagem do que à nossa forma de constituição biológica. sempre algo relacionado com raça que permanece não dito. biologia. de cuja existência a identidade de raça depende. as quais chamamos de raça. os horrores da servidão nos engenhos e a forca improvisada?  Um signiícante. há sempre um certo deslizamento do sentido. mas também uma abordagem leviana[3] e” — ouço a palavra sendo murmurada no público — “idealista de fatos crus da história humana. podem ser representadas de forma adequada em nossos sistemas de pensamento e linguagem. Essa é uma posição realista: está aí. De onde será que vieram. que aínal de contas deformaram as vidas e aleijaram e constrangeram o potencial de literalmente milhões de despossuídos do mundo? E depois. aqui. Entretanto. por que ela estaria evidente de forma tão manifesta aonde quer que olhemos?” Preciso dizê-lo novamente porque percebo o sentimento de alívio — depois de darmos umas voltas por essas diversas estruturas discursivas — ao chegarmos ao que todos nós sabemos sobre raça: sua realidade. Mesmo assim. que seu sentido não pode ser assegurado. um signo? Aqui está a ideia. pelo genocídio da Middle Passage. Talvez pensem que é uma coisa absurda e ridícula. esse trio pavoroso que Du Bois elenca tantas vezes. Essa terceira posição é a de que existem diferenças de todo tipo no mundo. mas está sujeito a um processo constante de redeínição e apropriação. E essas coisas ganham sentido não por causa do que contêm em suas essências. discursivas? Em termos gerais. entendo que há três opções aqui. Este não pode ser testado contra o mundo efetivo da diversidade humana. As pessoas são meio esquisitas. que constituem o substrato material. Duas posições: a realista e a textual Já que não estamos preocupados aqui com a crítica teórica abstrata e sim com uma tentativa de abrir os segredos do funcionamento de sistemas raciais de classiícação na história moderna. podemos alegar que as diferenças de tipo ísiológico ou de natureza realmente fornecem base para que classiíquemos as raças humanas em famílias. um discurso?  Sim. mas por causa das relações mutáveis de diferença que estabelecem com outros conceitos e ideias num campo de signiícação. cabelo e osso”.” Um distintivo. dá para vê-la nos rostos das pessoas à sua volta.br/raca­o­significante­flutuante%EF%80%AA/ 2/6 . à qual me ílio. nunca pode ser íxado deínitivamente.

Fixam e estabilizam o que de outra maneira não haveria como ser íxado ou estabilizado. toda a criação humana está. em um discurso cientííco.” Você não enxerga a genética. dentro dos sistemas de sentido. ínalmente. signiícativamente diferente. nas linguagens e discursos do racismo. e o estado selvagem da América do Norte e da Nova Zelândia. é que podemos dizer que as diferenças adquiriram sentido e se tornaram fatores da cultura humana e da regulação de condutas — essa é a natureza do que estou chamando de conceito discursivo de raça. atrasada ou civilizada do que a outra parte.br/raca­o­significante­flutuante%EF%80%AA/ 3/6 . E não seria bom saber que em vez de tentar descobrir se os que são seus amigos são mais próximos de você do que aqueles que não o são. que desiste desse tipo de conhecimento sobre o que a antropologia consegue fazer. Podemos datar o momento desse encontro histórico. todo aquele mapa complexo de alianças e etc. Estou falando da função da ciência dentro dos sistemas culturais humanos. E isso nada tem a ver com negar que — como digo. é para isso que serve o ato da classiícação humana. eles nos navios e nós no topo da civilização que conquistamos e etc. Ele consegue dizer por que essas pessoas não são do mesmo campo. Não. ele colocou uma questão. Por quê? Porque agora o grande mapa da humanidade está todo na estrada e não há estado ou gradação de barbárie ou modo de reínamento que não esteja simultaneamente sob nossa vista. Deus tenha criado dois tipos de homens. que diz ou reconhece que somos todos de uma mesma espécie. primeiro coloca-se a chupeta religiosa e espera-se que. não disseram isso. Mas não há qualquer ideia de que viemos do mesmo lugar. demorou muito para isso acontecer — dois ou três séculos antes do movimento abolicionista colocar essa questão. http://revistazcultural. mas nem sempre.” Meu argumento não diz respeito à ciência em si. e por que são realmente de outra espécie. aírmou. Vou parar antes que eu vá longe demais. Mas quando chegamos ao Iluminismo. Fixando a diferença: a função cultural da ciência A ciência tem uma função. por assim dizer. é possível marcar as diferenças que realmente importam. de acordo com suas diferenças.” É isso que a genética consegue fazer. a famosa questão que Sepúlveda fez a Las Casas no debate no interior da igreja católica. interno. Quando o Velho Mundo encontrou os povos do Novo Mundo. e eles estavam lá e nós estávamos cá. a diferença que é marcada dentro do sistema. o que disseram foi: “São homens verdadeiros?” Isto é. mas a religião o signiícante do conhecimento e da verdade. foi preciso encontrar uma maneira de marcar a diferença dentro dessa espécie e não entre duas espécies — porque uma parte da espécie é diferente: mais bárbara. tem sido precisamente a de dar garantia e certeza da diferença absoluta que nenhum outro sistema de conhecimento até então tinha conseguido prover. sob o olho da ciência. você sabe que isso é suíciente para encontrar diferenças. é um sistema maravilhoso. Não é que as diferenças não existam. o teste do público — se você olhar ao redor vai descobrir que. a questão da “natureza dos povos que encontramos no Novo Mundo. E quais são? “As civilidades muito diferentes da Europa e da China. separar as ovelhas das cabras.” Não disseram. estava destinada a ícar mais tarde. Religião: uma primeira tentativa de classiícação radical Os sistemas de classiícação racial têm uma história. eu sei fazer. por que são diferentes umas das outras. Asseguram e garantem a verdade das diferenças discursivamente construídas. E uso a palavra “discursivo” aqui para marcar teoricamente a transição de uma compreensão mais formal da diferença para uma compreensão de como as ideias e conhecimentos da diferença organizam as práticas humanas entre os indivíduos. e o nosso aqui. E essa chupeta não funciona. pertencem à mesma espécie que nós ou nasceram de outra criação? E aqui durante séculos não era a ciência. temos aparências diferentes uns dos outros. Acho que esses sistemas são discursivos porque o jogo entre a representação da diferença racial. chama de extra-discursivo. Aqui. E. para tornar as sociedades humanas inteligíveis. logo aparece James Clióord. O que importa não é que contenham a verdade cientííca sobre a diferença. de alguma maneira. neste âmbito. Estou falando da função cultural da ciência e que essa função. Sua história moderna emerge onde povos de tipos muito diferentes têm que fazer sentido como povos de uma outra cultura. ínalmente. e depois a ciência como tal.ufrj. podemos vê-lo no laboratório — mas os seres humanos não o veem. depois antropológico e. Mas estou em Goldsmiths e não quero provocar os foucaultianos… Apenas quando essas diferenças foram organizadas dentro da linguagem. que desata o nó enigmático da diferença humana que importa. que constituem as relações humanas — não seria legal se você pudesse dizer algo simples como: “Vou dar um pulo no laboratório e depois lhe digo se eles são próximos ou não. mas ao que estiver no discurso de uma cultura que fundamenta a verdade sobre a diversidade humana. em nossa sociedade. para fundamentar a verdade da diferença humana e da diversidade em um fato controlável. como os mais religiosos entre vocês gostariam de pensar. a barbárie de Tartary e da Arábia. “para traçar o conhecimento da natureza humana em todas as suas fases e períodos. mas em toda parte do discurso do senso comum das pessoas. a forma como organizamos essas diferenças em sistemas de sentido com os quais. tenha feito duas tentativas — num ím de semana. entre dois tipos de pessoa. São chupetas. que faz o que a religião[4] não conseguiu e a antropologia aínal acabou fracassando em fazer. mas que funcionem como fundamento do discurso sobre a diferença racial. são parecidos conosco. os sistemas que cotejamos com as diferenças. não fazemos ideia do que seja. quando a própria antropologia por ím desiste. É por isso que o traço cientííco permanece um instrumento tão poderoso no pensamento humano. porque todo mundo vem dos macacos mas alguns são mais próximos dos macacos do que a gente” e embora não haja uma diferença absoluta. no ínal das contas. mas como aquilo que tranquiliza os homens e as mulheres e os deixa dormir melhor. fazemos com que o mundo nos seja inteligível. Assim.2017­5­28 Raça. E aí vem a ciência e diz: “Eu consigo. e só muito tempo depois a gente acabou topando uns com os outros.pacc. eles dizem: “Bem. “São ou não são homens como nós e nossos irmãos? Não são elas mulheres como nós e nossas irmãs?” Não. se lutou para estabelecer uma diferença binária. a escrita do poder e a produção do conhecimento é crucial para a maneira em que foram gerados e funcionam.” Este é o olhar panóptico do Iluminismo: tudo. Não estou sugerindo que a ciência não tem substância. mas sim que o que importa são os sistemas que utilizamos para dar sentido a elas. o significante flutuante – Revista Z Cultural negarmos essa realidade ou essa diversidade. E. nos departamentos universitários. E você se depara com uma marcação diferente da diferença. Tente a genética. Acho que é o que Foucault às vezes. chupetas de conhecimento que se coloca na boca. é um código maravilhosamente secreto que apenas um número pequeno de pessoas têm ao seu dispor. É isso o que se procura — primeiro através de um discurso religioso. cada um desses conhecimentos está funcionando não como provimento da verdade. que abre o segredo das relações entre natureza e cultura. você a tira e coloca outra: e em termos antropológicos. uma função cultural. realmente. no lugar onde as ciências humanas. que deínia que o lado deles era lá.  Durante séculos. Vejam como Edmund Burke escreveu para o historiador William Robertson em 1777: “Não precisamos mais recorrer à história”. Dormir melhor: a função cultural do conhecimento Organizar pessoas em diversos grupos sociais. na publicação de artigos etc. o que veem são os efeitos da operação do código genético. não só na Academia. dentro do discurso. depois noutro.

meus amigos. dizer “abaixe as calças” e lhe digo se você é isto ou aquilo — porque a coisa é anômala demais. Já tentaram fazer uma triagem de um conjunto de pessoas que apresentem algumas dessas diferenças. É impossível. claro. de naturalizar. indisputavelmente presentes. separando-as em dois grupos discretos e opostos? Isso é impossível de ser feito. “isso pode ser verdade. Acho que não podemos nos desviar da realidade de raça porque a própria realidade de raça é o obstáculo que nos separa de uma compreensão mais profunda do sentido de dizer que raça é um sistema cultural.” Se eu disser. Agora. essa obviedade. traseiros grandes. E circulamos. mas são claramente visíveis a olho nu. a qualidade estética de suas produções. vocês devem estar dizendo. ela se apoia na natureza para se justiícar. E.” Talvez seja verdade. Ler o corpo “Tudo bem”. Porque essas coisas não estão simplesmente presentes. Assim.” Somos leitores de raça. o único motivo pelo qual o raciocínio biológico. o corpo é um texto e somos todos leitores dele. São a diferença visível. Ver é crer No entanto. e depois há um grupo no meio que íca deslizando para dentro e para fora. me cortar. o qual lamentavelmente não se consegue enxergar. a própria obviedade da visibilidade de raça. Ele é um texto. Procuramos entender o fato de que você consegue ler o corpo como se fosse um texto. máscaras brancas (2008[1952]) ele disse: “Sou um escravo não da ideia que outros têm de mim mas de minha própria aparência. de cor. Esse não é o único motivo. têm o pênis do tamanho de uma catedral. http://revistazcultural.pacc. Assim. “pênis do tamanho de catedrais”. essa maneira de tirar a diferença racial da história. fazer com que ambos os sistemas — natureza e cultura — correspondam um ao outro. as tão sutis diferenças de metáfora. E quando isso não funciona começamos. São absolutamente. da cultura. e de raça como signiícante. não é a resposta que procuramos. não me diga que sou um texto. a meu ver. como se ele fosse o marcador além do qual todos os argumentos são suspensos. com cabelos um pouco crespos. O que lhe dá respaldo é o código genético. sei que vocês vão dizer. isso é o que está rolando. esse não é. Exige-se o traço biológico como sistema discursivo na medida em que os sistemas raciais tenham a função de essencializar.ufrj. se você disser. Somos leitores da diferença social. dá para perceber que são diferentes!” Bem. lábios grossos. olhando esse texto. ali!” É exatamente essa a função de invocar o corpo como o último signiícante transcendental. pobres mortais. evidentemente. nós da área cientííca. sou íxado por ela. como acontece frequentemente aqui em New Cross. Em Pele negra. Não é possível íxá-lo. “a pessoa mais preta nesta sala. então. “aconteceu por acaso”. Apesar do fato de que permanecem anômalos às populações. outras noutro. Genética: produzindo sentido com a diferença De onde surgem esses signos evidentes e visíveis de diferença racial? Cabelo crespo. E nós. e de que não se pode parar na superfície do próprio corpo negro como se isso desse um ím à discussão. geneticamente. de maneira que uma possa ser lida através da outra. de que se você invocar a própria realidade. a fazer uso das combinações. “Se você me bater. e se tenho um traseiro grandinho e sabe Deus mais o quê. temos que trabalhar com essa superfície das aparências porque não temos acesso ao código genético. Ora. É a função do discurso. é que essas coisas que são visíveis também são signiícantes! Você as está lendo como signos em um código que não dá para ser visto. aínal. como dizem. é o que me convence de que isso funciona. e localizá-la para fora do alcance da mudança. uma vez que se saiba onde uma pessoa cabe na classiícação das raças humanas naturais. “Você diz que raça é um signiícante. São. e alguns têm narizes largos e alguns. O que dá origem a tudo isso. cabelo e osso. ainda permanece na conversa quando falamos de raça. Frantz Fanon foi arrebatado por essa inscrição da diferença racial na superfície do corpo negro: o que ele chamou de evidência escura e inquestionável de sua própria negritude. provêm o fundamento das linguagens que usamos no cotidiano para falar sobre raça: os fatos físicos grosseiros. é possível inferir daí o que provavelmente pensam. que teimam em existir. e não sobre o corpo. Algumas pessoas ícam em um polo. evidente e concretamente presente? Uma diferença racial que se inscreve indelevelmente na escritura de um corpo? Mesmo assim. um pedaço de código deu origem a essas diferenças no nível da superfície das aparências[5]. O pessoal lá é diferente. Mas não dá para organizar a população — sabe. A função de raça como signiícante é constituir um sistema de equivalências entre natureza e cultura. sabe. o significante flutuante – Revista Z Cultural Natureza = cultura Então. E o cabelo é citado como se fosse deínitivo. a relação aqui é que a cultura é feita para ser um ato contínuo da natureza. mas na medida em que estamos falando do sistema de classiícação de diferenças. Mas é possível inferir sua existência a partir do fato de que algumas pessoas têm traseiros grandes e outras cabelos crespos. O ponto de partida de Du Bois era precisamente as diferenças mais grosseiras de cor. a questão central sobre essas diferenças físicas grosseiras é que elas não estão baseadas na diferenciação genética. inspecionando-o como críticos literários cada vez mais de perto para ver as diferenças mais reínadas. o que faz com que raça seja um assunto que continuamos discutindo. são os que. como se todo discurso fosse derrubado diante dessa realidade. de fato. Então. venha comigo”. essa noção de que até o código genético é impresso em nós através do corpo. “Bem. transcendem a deínição cientííca.  presumindo que é o código genético que produz essas diferenças grosseiras de cor. o que sentem ou produzem. vou me machucar.br/raca­o­significante­flutuante%EF%80%AA/ 4/6 . cabelo e osso. para o olho não cientííco. É só olhar: “Olhe. físicos e biológicos que aparecem no campo de visão humano. não. é o código genético. Por que precisamos ir além da “realidade” E agora.” Pois o que pode transíxar as pessoas mais do que aquilo que é poderoso. São os fatos brutos. um nariz não tão largo. onde ver é crer. eu vou sangrar. mas não é. Mas é exatamente por isso que o corpo é invocado no discurso dessa maneira: na esperança de que ele encerre o assunto. o que a íxa é o que todos sabemos. Operam metonimicamente. e assim por diante. cabelo e osso. como se pusesse ím à discussão. como verdadeiros estruturalistas. Se me atropelar na rua. conforme o escritor francês Michel Cournot o expressou com delicadeza. nariz largo. talvez eu chegue a uma aproximação. quero argumentar que acontece aí um jogo de signiícantes. toda linguagem cessa. Mas se pode ter certeza de que. porque isso está signiícando algo: é um texto que conseguimos ler. enquanto funciona como se fosse largamente falso.2017­5­28 Raça. A natureza e a cultura operam como metáforas uma para a outra. E que só por causa disso é que podemos usá-las como uma forma de fazer distinção entre um e outro grupo de pessoas. como se a possibilidade de apontar essa pessoa destruísse meu argumento. com um permanente. embora raça seja claramente o que você vê. mas o que você está dizendo.

youtube. se tivéssemos acesso ao código. é arrebatado e obcecado pelo trauma de sua própria aparência e do que isso signiíca. no ínal. disponível em: www. para os que gostariam de poder invocar os traços biológicos ou genéticos como forma de suspender o debate. seja através da biologia.ufrj. Começa no minuto 6’40” da parte 2 do documentário Race. que esse outro vê através dele ao ler o texto do corpo negro. Dirigiu o Centre for Contemporary Cultural Studies. sem qualquer garantia. parece resolver a questão. ou da ciência. Está obcecado com esse fato. são boas pessoas.com/watch? v=SIC8RrSLzOs&list=PL9DB8464B43CFAC14 * Stuart Hall. Está disponível na íntegra. Não só por nos dar a sensação de ser. Mas também é uma verdade muito difícil de ser encarada pelas pessoas que sentem que a “realidade de raça” dá uma espécie de garantia ou sustentação a seus argumentos políticos. Katia Santos é pesquisadora independente. conhece só de olhar para ele. a profundidade das questões por trás da produção dessa distinção. que nos permite descansar no que é óbvio. no entanto.  Queremos de alguma maneira que algo nos diga que as opções políticas contingentes em aberto e usualmente erradas que fazemos podem. aínal. Um esquema composto de histórias e anedotas e metáforas e imagens que é o que na realidade constrói a relação entre o corpo e seu espaço social e cultural. é o que precisamos começar a aprender sobre as  linguagens que usamos para falar de raça. * Este texto é uma conferência proferida por Stuart Hall em 1995 em Goldsmiths College — University of London e reproduzida em documentário por Sut Jhally © Media Education Foundation. em inglês. claro. que nos vicia na preservação do traço biológico. algo que tivesse nos dito o que fazer. 2003). precisamos.youtube. 1999. máscaras brancas é que Fanon entendeu que por debaixo do que ele chamou de esquemas corpóreos está outro esquema.  Preocupou-se desde cedo com questões pós-coloniais e questões ligadas ao racismo. Todos podemos estar errados. isto é. ou não apenas.br/raca­o­significante­flutuante%EF%80%AA/ 5/6 . O que sabemos e aprendemos. Esse fato aparentemente simples.E. existirá algo que a tornará certa. Nesse sentido. óbvio e banal. É um argumento político. e dá para aírmar que nossa política quase sempre o é.pacc. a ísiologia.. O fato em si é precisamente a cilada da superfície. se a tivéssemos conhecido de antemão.iniva. migrou para a Inglaterra em 1951. como vocês sabem. o significante flutuante – Revista Z Cultural Analisar as histórias do corpo Já disse que Fanon. genética. Aquilo que assume o lugar do que de fato é. sobre essa necessidade. tanto na política antirracista quanto na política racista. ou da ísiologia. e muitas vezes estamos. até se aposentar em 1997. tradutora.com/watch?v=OVjmbDbnJKo&list=PL9DB8464B43CFAC14 http://revistazcultural. entre quem pertence e quem não pertence. Recomeçar em um outro espaço.B. no ensaio Pele negra. nos teria dito o que estava certo ou não. São essas histórias e não o fato em si.com/watch?v=rYGeqryELXk&list=PL9DB8464B43CFAC14 [4] Início da parte 5: www. em algum lugar. poderia nos possibilitar a condução de um discurso e de uma prática humanos eticamente responsáveis sobre raça em nossa sociedade. Rio de Janeiro: Lacerda Ed. nascido na então colônia da Jamaica em 1932. sobre a diferença sexual. acredito que sem esse tipo de garantia teríamos que recomeçar[6]. Como é que pessoas que se juntaram em torno dessa forma comum de identiícação podem estar erradas? Mas a verdade é que podem. ou da genética.  As almas da gente negra. De fato. Presidiu por muitos anos os conselhos do Institute of International Visual Art (www. de algo que nos diga “Sim. como todos os seres humanos comuns. no ínal das contas.com/watch?v=BI-CwR8pCcY&list=PL9DB8464B43CFAC14 [2] Du Bois. há uma garantia da verdade e autenticidade das coisas nas quais acreditamos e que queremos fazer. entre nós e eles. no que está presente de forma manifesta. Precisamos de garantia. o que nos é oferecido como sintoma da aparência. [1] Início da parte 3: www. escritora e autora do livro Ivone Lara.co. juízos estéticos e crenças sociais e culturais. É incômodo. antropologia. sem ter às nossas costas um toque de certeza. É a busca da garantia. no YouTube. óbvio e banal requer a invocação de territórios de saber para que este seja produzido como fato simples. Não sabemos como conduzir a política sem garantia.uk. the Floating Signiíer. a coisa certa. mesmo que parecêssemos estar errados. Uma política crítica contra o racismo. são as pessoas que você conhece. Trad. a potência e importância de Pele negra. mergulhamos de cabeça no único mundo que temos: o abismo do debate e da prática políticos permanentemente contingentes e sem garantias. mas também porque ao ínal será a coisa certa. De fato. até onde nossos cálculos alcançam.2017­5­28 Raça. desde o início? E esta é uma verdade incômoda. na prática humana. ser lidas a partir de uma template mais cientííco-teórica que. da University of Birmingham. * Liv Sovik é professora da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (ECO-UFRJ) e organizadora da coletânea de Stuart Hall. façam-no”. da Open University. no sono da razão. É difícil abrir mão dele porque. porque tanto a política de raça quanto a de anti-raça estão fundadas na noção de que de alguma maneira.autograph- abp. Isso porque as pessoas que defendem as mesmas coisas. ilustrada por fotos e diagramas. sobretudo uma política antirracista. precisamente porque a anatomia. A única coisa que não somos é detentores de garantias da verdade do que fazemos. da cor. o outro branco. e nos parecer ser. um dos sistemas culturais mais profundos e complexos que nos permitem distinguir entre dentro e fora. biologia. normalmente estamos. ou da aparência diante de nossos olhos —. Fica enlouquecido por estar preso e trancado em um corpo que o outro. que é sempre uma política da crítica. E. máscaras brancas. aos poucos. a dona da melodia. ou algo que não seja a história e cultura humanas.youtube. Heloísa Toller Gomes. a diferença racial é mais parecida com a diferença sexual do que outros sistemas de diferença. sem garantias. não sabemos como seria tentar conduzir uma política. Quando adentramos a política do ím da deínição biológica de raça. Como seria conduzi-lo.org) e Autograph-ABP (anteriormente a Association of Black Photographers) www. Por que importa? combatendo o racismo Embora o conceito de raça não possa desempenhar a função que lhe é solicitada — prover a verdade íxando-a sem sombra da dúvidas — é difícil livrar-se dele porque é muito difícil para as linguagens sobre raça funcionarem sem qualquer tipo de garantia fundacional. 1996. O que estou dizendo aqui. na construção de alianças humanas que — sem as garantias e certezas da religião. [3] Início da parte 4: www. não é um argumento teórico. W.youtube. com um conjunto diferente de pressupostos para tentar nos perguntar o que é na identiícação humana. Da diáspora (Editora UFMG. e o Departamento de Sociologia.

2017­5­28 Raça.youtube.youtube.com/watch?v=GeD6awgSHGU&list=PL9DB8464B43CFAC14 [6] Início da parte 7: www.ufrj.com/watch?v=vRRQ2KSBeyA&list=PL9DB8464B43CFAC14 http://revistazcultural.br/raca­o­significante­flutuante%EF%80%AA/ 6/6 .pacc. o significante flutuante – Revista Z Cultural [5] Início da parte 6: www.