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Número 02 Primavera Verão 2005 Revista atlântica de cultura ibero-americana _

18C

LUGARES DE PARTIDA CIDADES INVISÍVEIS A INVENÇÃO DA AMÉRICA
AÇORES MONTEVIDEU A TURBULÊNCIA DA CONQUISTA
JOÃO DE MELO CIDADE ABERTA MARIA DA GRAÇA A. MATEUS VENTURA
A MARESIA DO MUNDO CRUZEIRO DO SUL CORRENTES ATLÂNTICAS
PROVÍNCIA JUAN RULFO M U R A L I S M O MEXICANO
NUNO JÚDICE MEMPO GIARDINELLI FERNANDO AMARO

Número 02 Primavera Verão 2005 Revista atlântica de cultura ibero-americana

3 FIOS AZUIS João Ventura
4 TODOS OS NOMES
6 LUGARES DE PARTIDA
Açores João de Melo
10 HERÓIS DO MAR
Percebeiros da Costa Vicentina João Mariano
16 TRAVESSIAS
Gonçalo de Reparaz, um geógrafo errante português
Maria do Carmo de Reparaz Zamora e Gonzalo André de Reparaz Chambord
22 CIDADES INVISÍVEIS
MONTEVIDEU, CIDADE ABERTA
24 A espera sem ansiedade Alicia Migdal
32 Adeus ao velho bairro Teresa Porzecanski
36 A fundação de Montevideu Mario Delgado Aparain
38 Montevideu é uma cidade feita à escala humana num continente
de exuberâncias [Entrevista com Gerardo Caetano] Mario Delgado Aparain
46 OUTRAS INQUIRIÇÕES
Tão largo e tão íntimo Luiz Antônio de Assis Brasil
50 ILHAS
Contados e pescados na ilha de Santa Catarina Maria do Carmo Campos
54 ALTAS SOLIDÕES
Popocatépetl Antonio de Solís
58 RIOS PROFUNDOS
Guadiana, o grande rio do Sul Cláudio Torres
64 A BIBLIOTECA DE BABEL
Biblioteca do Real Paço e Convento de Mafra Maria Margarida Montenegro
68 A INVENÇÃO DA AMÉRICA
70 A turbulência da conquista Maria da Graça A. Mateus Ventura
76 Crueldades e matanças perpetradas
pelos conquistadores espanhóis no México Bartolomeu de Las Casas
78 Como impusemos muito boas
e santas doutrinas aos índios Bernal Díaz del Castillo
80 BESTIÁRIO
O velho é o jaboti prudente que não se apressa Maria Adelina Amorim
84 A SEDE DO SUL
Cachaça, a rainha do Sul João Azevedo Fernandes
88 SABORES PRINCIPAIS
O cebiche, um prato popular na bacia do Pacífico Gabriela Benavides de Rivero
92 SINAIS DE FUMO
Habanos para um infante defunto João Ventura
96 ESTÁDIO DE SÍTIO
Churubamba Daniel Silva Yoshisato
98 ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM
Andanças e amores em terras lusitanas Virgínia Maria Trindade Valadares
102 O QUE FAÇO EU AQUI
Portugringo, white bird Onésimo Teotónio Almeida
108 A MARESIA DO MUNDO
Província Poema inédito de Nuno Júdice
110 CRUZEIRO DO SUL
Retrato de Juanito Rulfo Mempo Giardinelli
118 FICÇÕES
Luvina Juan Rulfo
124 CORRENTES ATLÂNTICAS
126 Muralismo mexicano –
labirinto da universalidade e espelho de utopias Fernando Amaro
134 Pedro Páramo, o desejado Anabela Moutinho
138 O regresso de Jack Kerouac Roberto Ampuero

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semelhanças onde se espelha a alma ibero-americana. Outras periferias afinal. Porto Alegre. fundacionais – A Planície em Chamas e Pedro Páramo – pre- Ovalle. um jogo de futebol em Chu- lançado a este mar por Lídia Jorge. David. morada solar de Atlântica entre dois mares. por isso mesmo. Luanda. E uma aventura entre Porto Rico e projecto editorial que se vai fazendo a partir da perife. E por isso. responder ao aceno deste mar de papel. Sagres. A majestosa amplidão da Há. desenhados e praças. tra- ços. E são muitos. as vagas sucessivas de imigrantes que fizeram Por isso. de encantos e desencantos. onde ainda e sem..com Algures. rubamba. de Tunes. Tondela. Siracusa ou Alexandria.. são aproximações. pre existirá o «aceno que leva para longe o nómada das Um rolo de papel exposto em Iowa City. Santa Catari- Sejam os lugares primordiais de todas as partidas. gene- rosamente. olhando a partir das suas «escarpas nuas» o mar imenso que se estende para sul.] como um cavalo a galope sobre a rua na Madragoa. caíques e espuma de um perfeito sonho de largada [. cia da conquista». labirintos. Santiago do Chile. Uruguaiana. As cidades invisíveis das Américas gamos em cada edição de Atlântica são como fios. maresia do mundo». já. Outras geografias. Portimão. com «a turbulên- belíssimo. Ainda ao Sul. lançam ao mundo os seus fios azuis. Barranquilla. Cuzco. a marcar profundamente o seu destino. outras vezes. portanto. Mas também uma Montevideu onettiana. fio azul E. do lado de cá. às vezes. de existência lírica e irreal. embora a revista seja também um exercício de dela uma cidade polifónica. desvendando Américas feitas . São Paulo. Coimbra. ou não fosse o mundo uma periferia de si mesmo neste tempo de globalização em que. distinções. Ou a evocação dos barinéis. «in- ventando descobertas nas colunas de um coreto». fotógrafos que. a evocação de Juan Rulfo e dos seus livros nópolis. Ou Florida. também encontramos Portugal. Comerci. nha imaginária dos rios que levam a um mar que não Como se Atlântica fosse «um búzio em que ressoa a tem portos nem barcos. dos astros». azuis. frutos secos e lingotes de prata que vão fazendo a Atlântica. Montevideu. Também as águas em que nave. onde se combinavam idio- curiosidade em relação ao outro lado do mundo. sinais. pelha a nossa alma comum. subindo o continente. azul que se estende em Atlântica. a cidade nocturna fundada desde geografias diversas por mãos cúmplices de um por Cabrera Infante. lugar de pertença de poetas. Resistencia. como es- crevia António Ramos Rosa na primeira Atlântica.. outras tantas visões. sos. Fios azuis João Ventura jventura_atlantica@yahoo. João Pessoa. nesta edição de Atlântica. Primeiro. São Domingos. portanto. em cujos labirintos nos perdemos. cruzamentos de linhas de da por fantasmas de um passado recente que continua sentido que dão densidade ao mar atlântico onde se es. culo XIX.. Marselha. onde o poeta persegue a li. Boliqueime. sob o «arco inteiro res. Às vezes. na. como mas. não fosse Atlântica um lançar e puxar de fios azuis entre nho e todos os outros lugares nómadas que ainda vão as duas margens do mar. investigadores. Achadinha. E ainda Havana. de onde João de Melo «puxa E. através do qual chegaram. Agora. bruxas e lobisomens. talvez faça agora mais sentido «suscitar o desejo de pertencer à terra como uma árvore que se inclina sobre as ondas». Buenos Ai. Mendoza. lugar inaugural desta revista. de Nuno Júdice.] desejo de canoas levando Guadiana acima brocados e especiarias viajar ao encontro do mundo». carne Sejam os lugares de partida de «Todos os nomes» fresca. há um poema. uns e outros. atravessa- bretudo. Lima. escritores. no outro lado de nós. a festa regressaria às suas ruas azuis que nos levam nesta corrente atlântica. os Açores. aqui enunciados ao acaso: e chumbo. Valparaíso. couros e pelicas. os fios num Outubro próximo. Fios azuis que se cruzam em Atlântica. Pico da Pedra. Aljezur. ria para o mundo. um eléctrico atravessando uma os fios do mar [. daqui. um lugar de partida para cada fio pampa instituindo-se em território pleno de metáforas. E atravessando toda a Atlântica. Lisboa. sonhos e projectos. também. texto para outras inquirições sobre um México em cujos Chillán. ainda. Um monte que fumega em Popocatépetl. Outros mares. ilha de histórias de desterro. so. o que se procura. Virgi. cores e estilos de vida diver- se dizia no manifesto inaugural. o Algarve. Montevideu cidade- que estendemos entre as margens oceânicas para nos -porto. Faro. águas». ignorando que. desde meados do sé- reencontrarmos.

Colabora eventualmente com a revista Egoísta e com o semanário Dna. S. Das suas viagens por todo o mundo com diversos escritores. Círculo de Leitores. CLÁUDIO TORRES [Tondela. É director do Campo Arqueológico de Mértola e. Peru] é licenciada em História pela Pontifícia Universidad Católica do Peru. JOÃO AZEVEDO FERNANDES [João Pessoa. muitos dos quais premiados. Ocupou a cátedra de Geografia Rural no Instituto de Geografia de Aix-Marselha de 1981 a 1995. nasceram. Co-autor e responsável pelo design da revista Egoísta. encontra nas fotografias de escritores o seu principal tema. com uma tese sobre os índios e as bebidas alcoólicas no Brasil colonial. os projectos Patagónia Express. embora a sua obra se inscreva em diferentes domí- nios. TODOS OS NOMES 4 5 ALICIA MIGDAL [Montevideu. Portugal] é licenciado em Românicas pela Universidade de Lisboa. Peru] com o livro Gente Feliz com Lágrimas [1989]. Açores. desde1998. Docente nos cursos de Ciências da Comunicação e Design de Comunicação na Escola Superior de Educação – Universidade do Algarve. ANABELA MOUTINHO [Faro. entre os quais o Grande Prémio de Romance e Novela da Associação Portuguesa de Escritores e o Prémio Cristóbal Colón das cidades capitais ibero-americanas [Lima. livros e catálogos. com Mempo Giardinelli. com a tese Mexican Mural Movement – Myths and mythmakers. na Universidad del Pacífico e na de San Martín de Porres. Historia de Cuerpos e Historia Quieta. HENRIQUE CAYATTE [Lisboa. É professora na Universidad Católica. Edi- tou e coordenou a fotografia do Grupo Forum. revista geográfìca dos países mediterrânicos. desde 2004. Actual- mente é adido cultural da embaixada de Portugal em Madrid. Consultor para os projectos especiais de design da EXPO'98 e do respectivo plano de pormenor do recinto. Portugal] é presidente do Centro Português de Design e professor convidado da Universidade de Aveiro. Portugal] é doutorado “honoris causa” pela Universidade de Évora (2001). FERNANDO AMARO [Faro. Portugal] é fotógrafo. Publicou numerosos títulos e obteve vários prémios lite- rários. LUIZ ANTÔNIO DE ASSIS BRASIL [Porto Alegre. Portugal] é professora de Filosofia do ensino secun- dário e professora convidada na Escola Superior de Educação [Universidade do Algarve] e presidente do Cine Clube de Faro. figuram Mascarones. e expõe regularmente desde 1993. Miguel. e mestre em Arte Peruana e Latino-Americana pela Uni- versidad Nacional Mayor de San Marcos. Diplomado pela École Supérieure d´Études Cinématographiques e licenciado em Letras pela Universidade de Telavive. O Legado Islâmico em Portugal (em colaboração). Portugal] é doutorado em História da Arte pela Universidade de Lund. Actualmente desenvolve actividade na área da gestão cultural. Argentina] é fotógrafo correspondente dos jornais Clarín (Argentina) e El País (Espanha). Suécia. GABRIELA BENAVIDES DE RIVERO [Lima. É especialista em mundo rural do Mediterrâneo Ocidental. com o romance Cães da Província. Patri- mónio e Turismo pela Universidad de San Martín de Porres. tem-se notabilizado sobretudo como ficcionista. com vários livros publicados. Comissário e autor do design de diversas exposições em Portugal e no estrangeiro. Foi leitor de Língua e Cultura Portuguesas na Universidade de Paris III e docente convidado na Escola Superior de Educação da Universidade do Algarve. dirigiu o departamento de fotografia do portal Terràvista e actual- mente dirige a agência 1000olhos – Imagem e Comunicação. Autor de numerosos li- vros e publicações nas suas áreas de especialidade. presidente da Comissão Nacional Portuguesa dos Monumentos e Sítios (ICOMOS). Brasil] é mestre em Antropologia e doutor em História. entre outros. Entre outros trabalhos publicados. destaca-se. Tem integrado vários projectos cultu- rais promovidos pela Intendência Municipal de Montevideu. Entre 1998 e 2003 desempenhou as funções de delegado regional do Ministério da Cultura no Algarve. como o ensaio. França] é professor emérito da Universidade de Provença. em 1998. Publicou diversos álbuns. Entre os seus livros. GONZALO ANDRÉ DE REPARAZ CHAMBORD [Aix-en-Provence. a crítica literária. recebeu. Em 1988. e O Refúgio do Fogo. mestre em Gestão Cultural. Uruguai] é um dos mais destacados historiadores e poli- tólogos uruguaios. A Estrada do Mate Amargo. Entre os vários galardões. Escritor. a poesia e a crónica. Co-autor do sistema de sinalética e comunicação da EXPO’98. recebeu em 2003 o Prémio Nacional de Design e o Prémio Dibner Award. Portugal] é mestre em Comunicação. Brasil] é escritor com uma vasta obra publicada tanto no Brasil como no estrangeiro. jornalista e crítica cultural. com Luis Sepúlveda. Cultura e Tecnologias da Informação pelo ISCTE e pós-graduado em Ciências Documentais [área de Bibliotecas] pela Universidade de Lisboa. em França. Em 1991 recebeu o Prémio Pessoa. Foi fundador e autor do design global. É coordenador nacional da Fundação EUROMED. É autor do livro De Cunhã a Mameluca: a mulher Tupinambá e o nascimento do Brasil (2004) e de vários artigos sobre a história indígena do Brasil. JOÃO VENTURA [Portimão. JOÃO DE MELO [Achadinha. Uruguai] é escritora. editor gráfico e ilustrador do jornal Público. GERARDO CAETANO [Montevideu. . La Casa de Enfrente. JOÃO MARIANO [Aljezur. DANIEL MORDZINSKI [Buenos Aires. com Antonio Sarabia. Director do Instituto de Ciencia Política da Universidad de la República. É presidente de Méditerranée.

PAULO BARATA [Luanda. Brasil] é doutorada em Letras pela Universidade de Lisboa e coordenadora do Curso de Especialização de História Moderna e Contemporânea da Pontífica Universidade Católica de Minas Gerais. Desempenhou. Publicou. em Paris. como A Balada de Johnny Sosa e Os Territórios do Amor. entre outros títulos. Licenciada em História pela Universidade Clássica de Lisboa. alguns já traduzidos em Portugal. ensaios e romances traduzidos em mais de vinte línguas e que lhe granjearam numerosos prémios literários. poemas e fotos (parceria com Mauro Paranhos). MEMPO GIARDINELLI [Resistencia. O Olhar do Caminho: Santiago de Compostela. o Prémio Literário Erico Veríssimo pelo conjunto da sua obra. MARIA DO CARMO DE REPARAZ ZAMORA [Lima. sendo presi- dente desde 2002. o maior êxito editorial de 2003 no Chile. foi eleito livro do ano pela prestigiada Revista de Libros do Chile. O seu recente romance Los Amantes de Estocolmo. é professora convidada na Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da Universidade do Algarve no âmbito da Cátedra de Estudos Ibero-Americanos. Na sua área publicou. MARIA ADELINA AMORIM [Coimbra. Nuno Júdice recebeu ainda o Prémio de Poesia Pablo Neruda. destacam-se: Perfumes de Cartago. entre os quais o mais importante galardão latino-americano – o Rómulo Gallegos –. É autor de numerosos contos. Brasil de longe e de perto & outros ensaios. Em 1995. Os seus romances foram traduzidos em alemão. Fundadora do ICIA. francês. trabalha como fotógrafo de cena para teatro. e colabora regularmente com o DNA. os cargos de conselheiro cultural da embaixada portuguesa e delegado do Instituto Camões. D. on- de se doutorou com uma tese sobre Literatura Medieval.o Prémio Literário Nacional do Instituto do Livro e. Escritor com uma vasta obra publicada (conto. É professor da Universidade Nova de Lisboa. cinema e televisão. pós-graduada em Conservação de Mu- seus. NUNO JÚDICE [Mexilhoeira Grande. contos e romances. Prémio Jaboti 2004. Membro do Nodo Coordenador da Cátedra de História da Ibero-América [OEI] e coordenadora executiva da CEIA. Portugal] é doutora em Le- tras pela Universidade de Lisboa. Portugal] é um dos mais importantes es- critores portugueses da actualidade. foi vice-presidente da Direcção de 1995 a 2002. crónica. é Onze Prosemas (e um final merencório). Publicou numerosos ensaios. Miguel. A sua obra mais recente. Uruguai] é escritora. Brasil] é doutorada em Letras pela Universidade de São Paulo e professora do Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. publicada em 2004. poesia. Chile] é um dos romancistas chilenos mais lidos. É autora de vários estudos sobre a missionação no Brasil e sobre a literatura de viagens. A Matéria Prismad. Recebeu os mais importantes prémios de poesia portugueses: Pen Clube (em 1985). ROBERTO AMPUERO [Valparaíso. S. MARIA MARGARIDA MONTENEGRO [Lisboa. Entre a suas obras mais recentes. ainda nesse ano. Açores. Portugal] é doutorado em Filosofia pela Brown University (EUA) e professor catedrático no Departa- mento de Estudos Portugueses e Brasileiros da mesma Universidade. MARIO DELGADO APARAIN [Florida. Angola] é fotógrafo free lancer. Foi colaborador regular no DN e escreve com frequência para o Jornal de Letras. ensaísta e poeta. Com estudos universitá- rios em História e Turismo e larga experiência na gestão do património cultural. ONÉSIMO TEOTÓNIO ALMEIDA [Pico da Pedra. o livro Encontro no Azul Profundo [Temas e Debates] que relata parte da sa- ga do seu popular investigador chileno-cubano Cayetano Brulé. Investigadora do CNPq. com numerosos textos publicados nesta área. trabalha na promoção turística do Peru nos mercados ibero-americanos. este último com o livro Meditação sobre Ruínas que foi finalista do Prémio Europeu de Literatura. italiano e português. pelo seu livro Santo Ofício de la Memória. crítica cultural e professora de antropologia da Facultad de Ciencias Sociales de Montevideu. Uruguai] é escritor. Portugal] é mestre em História do Brasil e assistente convidada na Universidade Lusófona em Lisboa. Dinis da Fundação Casa de Mateus (1990) e da Associação Portuguesa de Es- critores (1994). Expõe desde 1999. MARIA DA GRAÇA A. . TERESA PORZECANSKI [Montevideu. É especialista em história da Ibero-América. este ano. Autor de numerosos romances. recebeu o Prémio Açoriano de Literatura com Pedra da Memória e Senhores do Século. La Piel del Alma e Una Novela Erótica. Aris- teion. MATEUS VENTURA [Portimão. sobretudo na área da poesia. Palácio Nacional de Mafra. entre outros títulos. Acaba de lançar em Portugal A Margem Imóvel do Rio. Foi director de cultura da Cidade de Montevideu. Em Portugal foi editado. Colaborador habitual de diários e revistas argentinos e latino-americanos. VIRGÍNIA MARIA TRINDADE VALADARES [Comercinho. Argentina] é um dos mais conhecidos escritores argentinos da actualidade. jornalista e professor. é professor visitante em diver- sas universidades dos Estados Unidos. Elites Mineiras Setecentistas: conjugação de dois mundos. ensaio. é autora dos livros Matinas & Bagatelas: poemas. teatro). Gran- de Reportagem e Sábado. Peru] é licenciada em Gestão Cultural pela Universidad de San Martín de Porres (Lima). MARIA DO CARMO CAMPOS [Porto Alegre. entre outros títulos publicados. em 1993. Portugal] é directora do Palácio Na- cional de Mafra.

LUGARES DE PARTIDA 6 7 Açores João de Melo .

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pois não lhes fora administrado venta e nove dias consecutivos. experimentando a sincerida- -se no limite extremo do olhar. sede do concelho. Sentei-me na sua frente. de chegada e de partida. As desgraças bém não podiam aspirar ao bosque deleitoso do maiores de então chegavam à frente dos devasta- Paraíso: não eram cristãos perfeitos nem peca. podia acontecer que sur- escuridão do céu dos Açores chorando por cima gisse a tal ilha emersa no meio de uma utopia. Canadá. lá que falávamos. cheirava a destino das torres das suas igrejas (cujas fachadas se pos. íamos de procissão. sem rumo à vista – e perdidos. Os seus ta acima e abaixo. nos imponderáveis e líquidos caminhos das à superfície áspera das coisas. imó. pedregosas). Rua Direi- to de Deus que dos filhos dos homens. simples lugar de achamento num dos terraba e tabaco. Às vezes. duas.. obras e omissões. mar. Nem a nossa vila suas sete ondas e vinha por fim desabar a meus do Nordeste. cor de cinza como devia ser De sorte que. remédios. de que funestos po- gatório nem no fogo definitivo do Inferno. pedindo misericórdia entre as nuvens carregadas de chuva. Rosário. porém. ainda não se sabia nada do veis. existiam para muito acima desse mundo de animais terráqueos que os esconjurasse o poder divino dos grandes com os pés grudados ao chão. Primeiro. entrando e saindo de nas vozes da alma. tam. tangida eu. como esquecê-lo?. à sombra mer às mãos. da ilha a que então chamavam «mato do povo» – Brasil. uma cortina diáfana. viajando mais per. estrangeiras. país ideal. nem as freguesias ao lado da minha tal como um cão ingénuo e faminto. Ponta Delgada (a pouco mais de dez léguas de ca. grandes aves antigos continentes que nos haviam largado a de arribação. mar. atravessavam a Puxando os fios do mar. e lavava os meus olhos tavam de frente para a gloriosa cidade de Jerusa. acreditava mundo. A vida era apenas uma ideia baça. Diziam-nos as avós que com as vozes galope sobre a espuma de um perfeito sonho de plangentes dos pássaros se misturava o pranto largada. rezando. nem a cidade de pés. América. América. in. um vulcão – de onde vinha. Lisboa. Além de plano. passavam alto de mais. pecar por pensamentos. extinguiam. boiando ao sabor das correntes e Eram rasos os ventos marítimos que vinham das ondas) e desejar um navio. com a Salve-Rainha nos suspiros e corpos de peixes metálicos. sejo de viajar ao encontro do mundo. de hábitos nocturnos (os «cagar. regresso. os temporais. minho batido a cascalho de bagacina e a ossadas uma. e logo ele. meio do Atlântico. tudo isso por obra e graça da Senhora do cartolina branca do mar que a luz do Sol fixa. um da América. extasiado perante infância. fície da água. das casas. do a caminho do Limbo. um deus montado no seu carro de nuvens doura- távamos dormir com os seus grasnidos de cólera das pela luz sangrenta do crepúsculo. deres se armava para nos fustigar. crianças cismadas. América. entre a Europa e a América. me veio co- que se perfilavam ao cimo da falésia. e amainavam as vagas e os ventos ame- navios não iam além de miniaturas recortadas na ricanos. enquanto nós. que depois movia o carro das não tinha ido conhecer o mar. despedida. e tão-pouco os verdes. o que era almas. e perdão à Padroeira. Bas- de cima dos quais se via mar e mar de um lado e tava puxar os fios do mar (ele possuía-os à super- do outro da terra. e eu via-a através de suas viagens à volta do mundo. uma cidade. ou vinham com as chuvas de no- dores confessos. como um ponto de do arrependimento – e logo cessavam sismos e final na última página de um livro. ten. e húmidos os campos de milho. cujos nomes não cabiam na língua Quanto aos aviões. fiquei ali de pé. orientando-me à da minha infância aconteceu quando pude enfim flor da realidade mais pelo ouvido e pelo tacto do descer ao fundo da falésia e ir conhecer o mar de que pelo sempre abreviado sentido do olhar na perto. LUGARES DE PARTIDA 8 9 Nesse tempo. Esses males. enevoados montes desconhecidas: adeus. Apesar de estar ali tão perto – entranhado aquela imensa planície de água que se erguia e pelo ouvido e quase ao alcance da mão – ainda enrolava ao largo. Solenes e sinistras. mar. o grande dia o fundo de todos os oceanos. nesse tempo.Venezuela. Por sua vez. ir ao . Não devendo penar injustamente no Pur.. dores ciclones. voltava a ser permitido mente iluminava sobre a linha do horizonte. saudade. be. Por conseguinte. com os sismos que o sacramento que os pudera ter redimido do pe. por entre o calhau rolado da costa vulcânica. abriam fendas nas paredes das casas e no chão dos cado original e levado à doce e serena presença caminhos. chamei-o baixinho. ou no rol de umas esquisitas doenças de Deus. ou outra qualquer personificação do de- dos bebés mortos antes de serem baptizados. a estação infinita das Também não se sabia. três vezes. ros» que nidificavam nas rochas). um cavalo a no ouvido. extasiados com o sal de palavras que me eram lém).

sustentá-lo. dos naufrágios de Sepúlveda. melho. submergindo casas e horizontal. esquecidos en. a razão – e envolvê-lo no exaustos de tanta guerra. pouco ou nada adiantava fazer para o seguinte. das avós religiosas outrora ocorrera ao profeta Moisés no Mar Ver- e frias. Ninguém inventara até então tempos e pessoas junto de quem não vale a pena qualquer forma de regresso a casa. Recorrem à imaginação ex. indo da nossa idade. New Bedford ou Fall River. vam cartas com dólares dobrados no meio de risória. como Todo-Poderoso das catequistas. o Fernão Mendes Pinto da mi. à procura ideia de que devia haver em nós uma ânsia de dessas terras do fogo. mas sim lizava montanha abaixo. Como tormentas. as pessoas. sem princípio nem ruas. explicá-lo. Chegavam a ir longe buscá-lo e nada mais queremos do que lugares e nomes como Québec. põem de parte a chamada lógica Europa das velhas catedrais góticas. a conspiração política e o amor das mulheres. Não houve quem soubesse res. na ilha do Faial. tomar o mundo nas mãos. não era nada re- dezas do mar e do ventre da terra. Tornou-se-nos claro que há lugares e tureiros do mar. Eram cartas pelinhos. o mecanismo. contínuo. Mas. a socorrer-se contra a in. Sair da ilha formular perguntas. Kitimat. doentes e o peso. nos limitamos a boios «treines» e a cerveja «bia». subindo de um século nha alma? De novo. nos tinham ensinado na escola. do Brasil e da América que amiúde aporta. tomar-lhe Boston. À medida que sobre elas se caminhava. repito. enquanto lugar de partida para o seio do mundo. ido pótese – mas esse não foi um movimento de par- nascer aos Açores? Por que motivo falávamos uma tida dos Açores para o mundo de fora. Por mãos da terra. da pirataria argelina. até aparecer de novo terra à vista. nem curvo sequer. nem sabem também onde começa o seu ponto vestida do corso. da riqueza fácil humanidade igual ao sangue da grande família e impetuosa. fazer o acto de resina e a óleo quente dos barcos. dondo. universal. acerca da largada dos primeiros tios a amada do poeta. à plicativa do ser. nem oval. das histó. chegou a notícia do vulcão dos Ca. os com. das minas. tanta tormenta contrição com ar compungido e contar com a ab. passar a cancela do quin- vulcão pode abrir uma porta de saída da terra para tal. matando os campos. com lágrimas e erros de ortografia que nos da- mo-nos que estranha coisa seria essa de saírem vam a saber que o mundo. Que Como tínhamos nós. quase ir. Regressávamos a Coimbra e a Lis- respostas sensatas à impostura dos seus próprios boa. em ascensão para o alto e para perguntas. um significava ir a direito. as sem que a nada e ninguém valesse o Senhor Deus águas abriam-se à passagem dos viajantes. tas do mar e do tempo. tados à luz pelos olhos dos carteiros. onde então a neve se chamava «sinó». das furiosas de chegada à outra margem do Atlântico. como herdeiros dos que morreram às Há uma teoria para tudo neste mundo. Numa ilha dos Açores. Ou acerca dos outros tios que ini. às mais e melhor lhes convém. a Europa e a América. nas vol- pendo mentiroso. à solteiros para o Brasil e a Venezuela. Foi o que naquele tempo nos com uma mensagem de amor ou um pedido de aconteceu. cuja calda des. não pareça excessivamente absurda a minha hi- tre dois continentes. os animais. verbos interrogativos. para nelas natural. ainda agora e sempre. Os bichos da terra não podem esperar dentro de nós. da reencontro com a morada universal de todos os Índia. viajantes que não recordam um lugar de origem vam à aguada das ilhas. fim. aos sonhos de pai e mãe. Toronto. exilados. fechar o caminho atrás das costas e depois o mar e abrir uma outra de regresso à origem do singrar como as garrafas lançadas na corrente mundo e da vida. parado. crêem apenas no bom propósito do que conhecer a vontade de Deus a nosso respeito. e sim um língua que datava do tempo das naus de África. o céu movia-se por cima das suas cabeças da verdade absoluta da Fé em todas as evidências e o horizonte deslocava-se para diante. sempre à frente dos passos perdidos desses aven- ponder-nos. se afinal. mos nascido. como explicar os Açores ciaram a demanda dos distantes países do frio. papelinhos cor de tabaco. aliás? Íamos de regresso aos continen- rias trágico-marítimas coligidas pelo frade Bernardo tes de onde havíamos sido expulsos antes de ter- Gomes de Brito ou escritas por um insigne e estu.confessor na semana da Páscoa. socorro. Abismados. Áfricas. dos sermões irados na missa de domingo. à América única e numerosa como exemplo. tanto enjoo do cheiro a nosso sonho de regresso a casa? . de regresso a tudo e nada. de mar levantado pelos ventos – e depois manda- solvição a troco de uma penitência leve. E isso era a felicidade. onde tínhamos deixado os livros de estudo. para não serem detec- Um dia. perguntá. ao contrário do que jactos de fogo e lava cor de púrpura das profun.

Carrapateira . HERÓIS DO MAR 10 11 Percebeiros da Costa Vicentina João Mariano Ilha dos Ingleses.

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Aljezur . HERÓIS DO MAR 12 13 Pedra da Atalaia.

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HERÓIS DO MAR 14 15 .

Rocha do Monte Clérigo. Aljezur .

residente em Lima) guiam-nos nas travessias deste viageiro português. TRAVESSIAS 16 17 GONÇALO DE REPARAZ um geógrafo errante português Maria do Carmo de Reparaz Zamora Gonzalo André de Reparaz Chambord Este português «de fora». em Barcelona. em 1901. no Brasil. vindo a terminar os seus dias em Lima. pela história implacável de um século XX «cheio de ruído e de furor». em Bordéus. sempre afastado de Portu- gal pela vida familiar. residente em Marselha. simplesmente pelas casualidades e infortúnios da existência. pelas guer- ras. viveu no Porto. Nasceu em Paris. . Os seus dois filhos (Gonzalo André. foi sempre um «amigo invariável». também. e Maria do Carmo. pelas ditaduras e. dos portugueses e do seu país. como ele próprio escreveu.

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TRAVESSIAS 18 19 UMA VIDA O DESTINO PORTUGUÊS DOS REPARAZ Tudo começa com o avô de DE MUDANÇAS Gonçalo de Reparaz. com outros estudantes portugueses. co- laborou na fundação da Socie- dade de Geografia Comercial do Porto. Já jornalista e redac- tor de artigos de geografia. António. o pai de G. O menino passou a sua infân- . a revista intitulada O Académico. dirigiu a orquestra do Tea- tro de São João do Porto entre ENTRE PAÍSES os anos 1850-1870. Ali apre- sentou a sua primeira ópera. Gonçalo de Reparaz O avô espanhol foi maestro e compositor no Teatro de São João do Porto entre os anos 1850-1870 Rodríguez. maestro e compositor espanhol E ANDANÇAS que. nasceu no Porto onde fez os seus estudos superiores e fundou. Mais tarde. de Repa- raz Ruiz. A tradi- ção familiar diz que do êxito desta obra resultaram os nomes E A AMÉRICA de seu filho. de seu neto e dos seus descendentes masculinos: LATINA Gonçalo de pai a filho. o seu filho. a vida agitada e as aventuras intelectuais e polí- ticas de Gonçalo de Reparaz pai fizeram nascer Gonçalo de Re- paraz Roiz em Paris. em 1901. MEDITERRÂNEOS «Gonzalo de Córdoba». vindo de Espanha – via Pa- ris –. De facto.

...cia no ambiente parisiense. Essas foram verdadei. preparava os tratados in. gressa com os pais a Espanha. meira esposa. seriam contactos com o animatógrafo. onde com. da luta de Oswal. que desempe- Gama.. Jaime – que sil. em Coimbra. vida levou-o a Portugal onde sacordos graves sobre a gestão mana no «sebo» (alfarrabista) conheceu a que seria a sua pri- política e social do território dos irmãos Gazeau. num congresso surgiram entre o governo do rei pra os seus primeiros livros. NOS TEMPOS DO tillo. internacional de estudantes e de Espanha e o seu encarregado. nos anos 1929 e marroquinos! Enquanto os pais era a epopeia da borracha. à Europa. demasiado humanitário com os se interessou pelo que. a do pai não duraram muito: de. então. a família uma cultura puramente lusitana. um dos períodos mais felizes da FRACASSO DAS ternacionais com Marrocos e sua vida. a Primeira Guerra biente encontraria historiadores margem esquerda do Douro. dade de pensamento. depois. de Paris. amigos sinceros. onde os altos cargos guês e os novos horizontes do permite-o. conheceu e consolidou uma os Reparaz tiveram de mudar-se amizade inalterável com os ir- para Paris e. Nesse am- «areinho». Gonçalo de Reparaz vive E OS COMPROMISSOS dor de Espanha. e geógrafos portugueses e fran- estabelece os seus primeiros gentina e a espera para regressar ceses que. o jo... a mudança para a Ar. depressa jovens professores de Geografia. e DEMOCRACIAS uma reforma do ensino supe. seu A JUVENTUDE NO BRASIL OS ENCONTROS pai. permitiu encontros admiravel- çalo é enviado para o Porto. com os seus companheiros do Cruz para vencer a febre centro universitário e intelectual do colégio. vi. veio a ser padrinho de seu filho . do cheiro característico das bo. da Amazónia. amarela. no futuro. pensamento e da actividade hu. Reparaz re- Em 1908. aberto às ideias novas e à liber- dos passeios dominicais no riências de geógrafo. descobre o novo mundo portu. Nessa época De um momento para o outro. No Rio de Janeiro. em 1913. vem mancebo impregna-se de Aos 20 anos. para o Bra. Tu. conselheiro do embaixa. de alto nível. nhava o seu tradicional papel de ve. las de borracha queimada e da mente integrados na vida cultu- ra estudar no Colégio Barbosa e vida económica e da conquista ral de Coimbra. sobretudo em São Paulo. Entre 1921 e 1939. entre os 12 e os 20 anos. fala 1930. situação política mais favorável panhola. co-fundador da primeiros foi grande Sociedade livros amigo dos de Geografia no «sebo» irmãos Cortesão Comercial dos irmãos e de do Porto Gazeau António Sérgio continuam em Marrocos. pa. a passou a Marrocos. e Mundial. num ambiente frágio do «Titanic». mãos Cortesão. do era novo para ele. IBÉRICAS rior espanhol. Apenas com 11 anos. então. na parte es. León y Cas. campo situado na Depois. Esse ciclo de congressos O pai Compra Colaborador foi os seus da Seara Nova. Gon. desfruta ramente as suas primeiras expe. a notícia do nau.

publicou em Barcelo- início da minha carreira univer. mo. nomia. integrar projectos entre si.. já cansado e doen- com Jaime Cortesão aludem de (onde se havia instalado o go.. Vai tudo desabar mais relacionados com acções Esta época é também. da história dos Descobrimentos E O PÓS-GUERRA geográficos e dos descobridores. para É uma lei histórica! muito concretas nos países da Reparaz. como prova a O mundo está já velho de parisiense da UNESCO. e sobretudo em França. E acrescenta: «Tudo parecia América Latina. vestigador precursor no campo rante a Guerra e. onde vieram a falecer deria a língua e a cultura portu- Muito mais tarde. portugueses e espanhóis. especialmente em tadura de Salazar e onde os inte. prefe- correspondência que trocaram E a cristandade tísica re. um exilado em -lhe reencontrar os exilados pel fundamental. Um dos maiores prazeres da caro e. No final da Missão da UNESCO no Peru. onde em 1948. louse e ao apoio de universitá. Geografia. Mas.. de português. Zamora de Brito. como o fa. um dos sitária em Portugal». tremendo período passado nas toda a importância dos cartógra- critos por «dois rapazes estu. permitiu. tino-americanas. a di.. até rio internacional da UNESCO. onde ela apren- tuais nas quais está implicado. cartógrafo escreve ao seu amigo Armando mando Cortesão.. geopolítica e geoeco- -se. organizar geográfica e cultu- maneira velada a acontecimen. com efeito desabar». ralmente as viagens da filha a tos e actuações político-intelec. A GUERRA ameaça da ocupação nazi. com o apoio dos portugueses do trabalho original sobre o Mestre Nos anos 1939-45. Chegaram todos a Prades. «os meus 1959. do general Carmona onde se es. 1974. em finais de A OBRA PORTUGUESA DE sinistro Salazar (culpável de 1939. em 1927 e 1928. climato-hidrologia. especialmente os jovens talunha francesa. por fim no Peru. moso violoncelista Pau Casals. Em Lima. dos quais o fiel amigo Ar. verno republicano no exílio. A saída de um do infante de Portugal. onde se encon. graças ao seu título de teve uma importância funda- para professor contratado na Fa. penham. um pa- um refugiado. dificuldades da guerra dá-lhe fos portugueses na cartografia dantes do colégio de São Carlos vontade de respirar um ar mais dos Descobrimentos. em nal e do Estado corporativo. da história da Cartografia. em Bordéus onde pôde GONÇALO DE REPARAZ quanto depois tem vindo a ministrar cursos na Universi. Portugal acontecer) da minha nomeação dade. citando os versos es. casa em 1957 abertos e idealistas que recusa. como escreve. publicou em Coimbra um morreu em 1984. Jácome de Malhorca. milagre. Apesar de ter grande colaborador da Seara Nova concelos!): um cargo de importância na se- e dos «Seareiros». com António Sér. em 1951. Portugal como a de Espanha fi.. num Portugal da Guerra Civil de Espanha. a sua nomeação como funcioná. depois. na. convertendo-se num de Reparaz. passou seus primeiros livros sobre o te- a guerra sob a permanente ma. acolhido pelo Presidente Cárde.. tugal. evidentemente. e tem. como exílio. María Esther partido único da União Nacio. du. terras lusitanas. essencial nos seus trabalhos. primeiro no Bra. Em 1950. história. a da afirmação de con. precisando Cortesão. 1939. tanto a história de DE NOVO – navegadores da Idade Média –. Reparaz teve de fugir para as acções de formação científica tabeleceu. em 1945. Nomeado chefe vicções sociais e de compromis. Armando Cortesão. e Leite de Vas. Doutor da Universidade de Tou. De facto. teima. em 1931. países amigos. nas). rios amigos conhecidos em Por. A AMÉRICA LATINA nos quais os portugueses desem- zeram de Gonçalo de Reparaz A paz. lectuais não podiam expressar. te. geografia. por e pedagógica. sido feita 1930. datada de chegarem». sos democráticos. tendo Por outro lado. A cartogra- . na Ca. recorda «a anulação pelo Instalado. foi um in- sil. em Paris. pouco a pouco. mental. salvando também. traram com intelectuais e artistas com uma senhora peruana neta vam as certezas angustiantes do catalães refugiados. Em toda a sua obra. Jovem historiador de culdade de Letras de Coimbra. muitos anos antes. do Porto» (que eram Gonçalo próximo das suas lembranças la- gio. a sua filha Maria do Car- Este compromisso saiu-lhe pais não quiseram ficar. os seus pais doentes. pai. TRAVESSIAS 20 21 – e Armando. em Gonçalo retoma a investigação. cartas trocadas ram em embarcar para o México sua vida foi. numa carta a dois ou três meses depois de lá guesas e brasileiras. França.

fia terrestre dos séculos XV e (sistemática) da colónia portu- que os espanhóis fizessem, du-
XVI, menos conhecida e estuda- guesa do vice-reinado perua- rante muitas gerações, prova de
da, apaixona-o de tal modo que no», em 1635, por ser demasia- uma sensatez política exemplar
publica dois estudos: La plus an- do rica e activa! O peso econó- antes de os portugueses decidi-
cienne carte topographique connue du Por- mico e social dos portugueses rem federar-se com eles.»
tugal, XVème siècle (Coimbra, 1949) foi imenso. Mas acrescenta: «Não seja-
e Les précurseurs de la cartographie ter- mos demasiado pessimistas. Res-
restre (Paris, 1951). EM JEITO ta uma grande esperança: a fede-
Nos anos setenta, depois de DE CONCLUSÃO... ração europeia. Virá o dia em
anos de trabalho nos arquivos Não se pode terminar esta que esta se tornará realidade: Es-
nacionais peruanos e espanhóis, evocação da vida e da obra de panha integrá-la-á, e Portugal
publica um estudo, feito com Gonçalo de Reparaz sem men- também. Os dois países peninsu-
muita emoção, sobre um tema cionar a visão, de certo modo lares, que tudo deveria unir, en-
quase esquecido, apesar da ele- profética, que ele tinha, já em contrar-se-iam, assim, incluídos
vada importância económica e 1947, do futuro de Portugal in- numa entidade mais importante,
social no vice-reino do Peru: a tegrado numa Europa unida ao e o que pareceria impossível na
presença dinâmica e numerosa lado de Espanha. Conclui, no seu véspera poderia tornar-se possí-
dos portugueses na Época Colo- artigo «Fédéralisme hispanique vel no dia seguinte.»
nial, desde Aleixo Garcia, que et ibérique...» (Berna, in L’ Action E conclui: «Esperemos, pois,
teria sido, provavelmente, o pri- Fédéraliste Européenne): «Pode-se com toda a alma, para o bem de
meiro europeu a contactar com apreciar, pelo estudo que prece- todos, que a federação europeia
o império Inca, entre 1515 e de, toda a distância que nos se- se torne realidade o mais depres-
1525, «precedendo os próprios para de uma hipotética federação sa possível.»
espanhóis», até à «destruição ibérica. Para isso seria necessário Tradução de MGMV

CIDADES INVISÍVEIS 22 23

Montevideu
cidade aberta
De costas para a América, Montevideu, cidade-porto, olha o Rio da Prata,
quase mar, através do qual chegaram, desde meados do século XIX, as va-
gas sucessivas de imigrantes que fizeram dela uma cidade polifónica, onde
se combinavam idiomas, sonhos e projectos, cores e estilos de vida diver-
sos. Depois atravessou ditaduras.Viu desfazerem-se sonhos. E em Outubro
passado assistiu de novo à «refundação da alegria», como disse Eduardo
Galeano na noite da vitória da Frente Amplio nas eleições de Outubro.
Hoje, Montevideu vive ainda a ressaca da explosão de alegria que invadiu
as principais avenidas, praças e bairros após a vitória histórica da esquerda.
Sobre essa Montevideu secreta, invisível que procura agora reencontrar o
seu destino de cidade hospitaleira e aberta, afastando definitivamente a
nostalgia e o medo, aqui ficam alguns olhares de dentro, de alguns dos
seus mais importantes escritores e intelectuais.

Baía de Montevideu. Archivo Fotografico de Montevideo

Molhe de Montevideu. SEM SABER. E O QUE NOS REVELA ATRAVÉS DE UM ÁLBUM FOTOGRÁFICO IMAGINÁRO É UMA MONTEVIDEU INVISÍ- VEL. QUE NUM OUTUBRO PRÓXIMO A FESTA REGRESSARIA ÀS SUAS RUAS E PRAÇAS. ATRAVESSADA POR FANTASMAS DE UM PASSADO RECENTE QUE CONTINUA A MARCAR PROFUNDAMENTE O DESTINO MONTEVI- DEANO. ADORMECIDA NA LONGA NOITE DA NOSTALGIA. CIDADES INVISÍVEIS 24 25 A ESPERA SEM ANSIEDADE Alicia Migdal NUM REGISTO MISTO DE MELANCOLIA E DE AZEDA IRONIA. Archivo Fotografico de Montevideo . ALICIA MIGDAL ESCREVE UMA CARTA SOBRE UMA MONTEVIDEU ONETTIANA. AINDA.

em. antes de partir paciência de interlocutor – cobaia para Espanha. quanto os pedreiros. tão nham arrancado a trepadeira. discretos! –. olho-a do passeio em frente en. já não a reconheceria – e não já desapareceu. isto ainda continua –. Mas ficaria nostál- creio que se importasse –. missores. A casa vai mos tão europeus. mas em que ciclicamente caímos. tão à medida adquirindo um ar saudável. embora fotos acontece alguma coisa. por seu tur. em frente da última casa de Poderia mandar-te fotos onde já Onetti para chegar à minha. guaia. com mudou. se é que nas é um jogo de palavras. Estação do bairro de Peñarol. nhecerás como demasiado uru- da e os janelões de vidros losan. Não não acontece nada. grande desencontro colectivo. como num poço de deliciosa lu- no. anos 50. de fotos fixas. ceros. Sejamos sin- a ver as traseiras onde Dolly apa. Archivo Fotografico de Montevideo Cidade Velha. isso que detestamos. de Borges. ostensivamente disposto a perdas e ganhos. éramos tão pro- bora seja uma pena que lhe te. tão alfabetizados. Envio-te a pri. um pouco lamechas – éra- gonais do seu quarto. passo meira foto. sos que dizem o que há ou o que da. e ele. apesar gica. me devolvem o olhar e volto xúria reminiscente. o Onetti em pijama e com a barriga assunto torna-se elegíaco. uma foto de «não». sem dúvi. e o alpendre onde num passado ou do presente – isto Verão lhes tirámos fotos. embora te envie fotos do nhava sol. uma actividade que reco- de conservar a estrutura da facha. as mudanças oferecer-nos uma imagem da sua desta cidade levaram-nos a um decadência física. Onetti viveu car o meu solilóquio com a tua em Bonpland 598. Archivo Fotografico de Montevideo . Quase todos os dias. Agora estão a re. Entre ao sol. fragmentos inten- construir a casa. tro- por pouco tempo.

prognósticos catastrofistas que a te que agora todas têm um mes. orgulhosa dos seus ténues ras e da Guerra Civil Espanhola – lenta Montevideu que talvez. CIDADES INVISÍVEIS 26 27 A foto da casa de Onetti. necessita- bal sem demolir a velha quinta? mos primeiro de imitar as ma- será contrário a um bunker arqui. umas coisas morram. do rio. O Estaleiro. o tráfego de carrua. alastra a pobreza. país «sueco» antes as casas coloniais reabilitadas. institucionalizando MARAIS MONTEVIDEANO mano de Montevideu é cada vez uma nova actividade nesta Mon. nível inferior. todos os dias passam pelos REABILITADAS. prir-se. Brasil. mesmo que Pe- te que não importa como ou on. à imigração de pré e entre Guer- de casas antigas. E é através tectónico de consumo integrar OS TUGÚRIOS COM de comparações desse tipo que um casarão antigo no mundo estabelecemos as diferenças: de fechado de um shopping). produzam. NA CIDADE VELHA. na nossa memória. Marcha nos momentos de maior que passa na rua ou entra com tros e dos nomes: encontrar-me intercâmbio cultural do país. objecto de comunicação pa. ar as nossas palavras. tão abrangente não estaria. que ironia!). edificada em gível identidade sempre definida que àquela (a parte pelo todo. Lidos que somos –. crie boço de polis de Leonardo. (Vês o que te dizia. o ambiente hu- seus cavalos. como soam no shopping no terreno dos Mendizá. O QUE em 1945. Argentina. Cohen que Darnauchans me gra. tão outras mudem. destinada. O certo é que. mais onettiano. sob formas e estilos E TRABALHO ta María (cidade fundada em da antiga classe média – somos o Buenos Aires. portan. on. Quem poderoso. quando muitos daqueles uma metáfora da cidade ideal es. escrevendo à mão num ca. Uma sociedade tão aluvial. mas digo. se pareça com esse es. integra o conjunto ciedade montevideana homogé. com respostas só formulo perguntas). sempre me Cada classe social tem o seu pas. onde ma perdida na homogeneização uma nova zona da classe média os «nobres» e os «pobretanas» e numa definição enraizada em semi-ilustrada. De- violência nas casas. onde. aproximando de San- tada. com Leonardo e a sua cidade moraram uns trinta anos a cum- videu seja. dois planos ou níveis interligados em relação a um «outro» mais Montevideu pelo Uruguai). onde também abri. vice-versa. minados. e ser a tenaz do Império Britânico. homens já tinham desaparecido. Não nos teremos montevideano se houvesse di. to. gócios». como parábola da dete- «construída junto ao mar ou nas ra una revista em Portugal. umas décadas depois. ideal. pensando ao mesmo tem. pareceram surpreendentes os sado e a sua mitologia. ou sem projectos de shoppings (por Para saber como falamos nós os que razão não se pode fazer um montevideanos. – dizia. gem.Talvez o mito de uma so. o Enquanto preparava um chá mesmo que a Suécia. devido derno escolar. precisamente devido a essa ori- cama. sociedade que poderia evocar um Marais e ouvia a cassette de Leonard civil civilista. AGORA CONVIVEM neiras de um porteño. de já não o vemos estendido na rão as suas portas as lojas e os ne. valores do passado: índios exter- agora convivem os tugúrios com no óbvio». contrastes. lixo com as suas carroças e os Na verdade. a pou- tevideu cada vez mais desencan. SE HOUVESSE DINHEIRO co e pouco. reabilitadas nesta nea. outras ocupem o lu- . dizia-te –. Na Cidade Velha. deu. Mas por meio de escadarias. porto tudo é dinâmico e contraditório quiser poderá percorrer todo o ou a praça-forte conveniente para ainda que. geração de 45 fazia a partir da mo «convidado mal-encarado» vou. rón só tenha entrado na história de. boçada por Leonardo da Vinci. E será rioração da sociedade uruguaia. tão laica e. den. pensava no acaso dos encon. a não ver-se a si mes- tro de um quarto de século. ajusta-se mais a esta Montevideu saudável e formosa.Vamo-nos. enquanto Batlle já lá nossos bairros os remexedores de PODERIA EVOCAR UM estava em 1903. procurando com ou sem reabilitações. conviviam aceitando o seu «desti. po neste velho tema de Montevi. também. perdido num espelho onde os nheiro e trabalho (até parece um traços distintivos são tão ténues? slogan sindical!). margens de um rio para que seja a cidade comunicável? Esta intan. nesta margem oriental nível superior sem ter de descer. Talvez Monte. outras não se re- gens e bestas de carga far-se-á no sincretizadora. AS CASAS COLONIAIS Perón sai Batlle.

sempre o mesmo de celas e quartéis. algum a clandestinidade. amnistiados. o país paralelo dos diálogos secretos. não te pa- tria entre a opressão e o instinto por fazer. com a barba descobrir Montevideu. vestidos com roupas e rece? O medo e as suas conse- de coesão em torno de algum sapatos velhos. carregando mo. quências posteriores. Envio-te te. e chegar a sem militares e sem mitos. depois. dos argentinos por exemplo. via com a foto do menino de bra. os seus rostos de idade in. e me como. ou desde Zabala a Batlle e desde Ba. definida. de para falar de um país vizinho. estas fotos feitas em Montevideu de 73. era um sentimento de outra gen- conservem os seus vestígios. e conservadas dentro de livros co. Por exem- poeta amado. depois. deu. Envio-te uma foto do medo. tando Aparicio e. da Atlanta ou de Joanesburgo. Mas posso também referir-me às A menina de cabeça baixa no pas. já sem a escolta que também eu iria ver e enviar salto e aterrar no golpe militar militar. narrou e chegar a Batlle derro- dade e de solidariedade e deixa. dar um ram-nos. seria um motivo possível para da democracia». findando. veram-nos numa sinistra espera Buazá. mas não está em nenhuma no Mauricio de Zabala.gar das anteriores sem que se seio em frente da esquadra da po. uma sala chilas. mo recortes de um diário? O me. neutralmente. nos anos 60. Março de 1985. A ci. Este mos. fundador mento. das fotos a imagem de um meni. sorrindo. este regresso a casa. entre o cárcere e cia. lícia. se recordo escolarmente Bru- olhar subjectivo de reconheci. dade refunda-se constantemente outra foto complementar. e desde aí políticos saindo. no ano de 1978. da cidade e dos caramelos de café gico. 84 e ao regresso da democracia. o fim da sime. este fim de cinema ou de teatro. devo continuar. no. nem político nem ideoló. do provocado por uma ditadura fundações político-sociais de . charam a curva de setenta anos de diante das baionetas nazis. estes são dois cidade que fundou o medo. A nova até ao momento a que chama. Quem com Artigas com os motes tradi- alta e baixa da democracia manti. com os presos dos paraguaios. com os braços levantados com leite. ou dos negros de tlle à ditadura militar. Eis Montevi. plo. a sós connosco próprios. prisão de Libertad. esta reticên- símbolo: uma canção. e outro mais. Esses anos lacunares que fe. com The Purple Land que Hudson com pequenos instantes de felici. depois. quando estava no liceu cionais criados no século XIX. ços levantados diante dos nazis. me diria. «o regresso deles.

mostrar-te um cinema vazio ou país algures». al. diato. é nas imediações da minha casa. te a ditadura. sim. autonomizou-se já da sua ima. e para quem ou para quê so do nosso futebol. Babini. Marian Zaffa- cá-las através das diversas funda. tá mal. Espanha. Alguns quotidiana. Fi. Felisberto. por isso não estás aqui. roni. E ou um excluído da reflexão co- continuar por aí! Mas o que te lectiva que opera sobre a realida- quero dizer para ver se o poderei de: um desocupado da gravitação escrever. o intelectual é um desocupado. quase como escutar Gardel. onde DEVIDO A UMA na na memória como os baldios a morte. ções mítico-culturais: o circo panhá-la. a vida social e política funcio- nem sequer no século XIX. Também FRENTE DA CASA DE reflexão vão-se ampliando com poderia escolher. perversa. é um desocupado gari. capaz de está bem ou está mal neste mun- conservar-se na memória colecti. como a cara emble. Também poderia regis- estou outra vez em Onetti –. a silhueta do in- gresso de Torres García de Barce. Nessas Agora a cidade contempla-se fotos de «nada» verias que já não SENSIBILIDADE) a si mesma nas paredes. Poderia escolher o arquitectos dizem que qualquer medo como o traço distintivo da EM ISIDORE DUCASSE cidade deve permitir-se uma quo- cidade a partir dos anos 70. Entre exílio. diz um gem que nos toque mais profun. poderia mostrar-te os Quero dizer-te que aquilo que foto diluída. diato. Escutá-la. da vivência juvenil do ime- nem há já uma qualquer persona. grave e estrangulada de Zitarrosa la?). um (A RAMBLA SUL EM ta de destruição para poder mu- choque metamorfoseado agora dar e crescer. a poesia modernista. PENSO tes em cada um de nós. no próprio dia da telectual uruguaio. gum político que esteja mais para Nas fotos de «nada» poderia emigre». o que há. Os graffiti mostram o recuo fixação retiniana nem simbólica dos slogans políticos (está bem. gem física. como um flash demasiado INTACTAS DA NOSSA -se tornado cada vez mais escasso. Aquilo que agora existe – para to. depois. não há fotos. o re. Nesta cidade. ilhas mais ou menos estranhas. Florencio. no artigo é que o social. talvez.» todos. mas estes baldios da em recuo e desencontro. nessas fotos. outra vez Onetti. anos no Obelisco. em privado. com outra com o pai. Nestes tempos. exibem a caligrafia do ime- mento ou do seu afastamento. para muitos?– é a imateriali. a multidão do 27 de ausentes. Ou também «Não se queixe. Eis outras há imagens de uma época. re. baixinho. tanto como da vida IMPREVISTA. já to disse uma gigantesca capacidade de noutro momento que já se me LAUTRÉAMONT É UMA perfuração e isolamento: falamos apartou da escrita. E assinado por Gar- são «foliões» reconhecidos por fechado e. Novembro de 1983 que se reu. gresso e morte inesperada. Poderia haver. a de um avião da Avianca tuição do Cone Sul – a adopção começo da narrativa urbana – e cheio de escritores que se despe. porque é uma verdade para uma . os desaparecidos duran. «Odeio este país». ou em publicações especializadas Quiroga. es- de nenhum novo jogador glorio. Não importa que ensine na Uni- ver apenas as peculiaridades de dos. produto da nova insti- crioulo. a voz ou edite livros. casa me confunde e me aflige. do em que o desencanto faz fi- va para além do seu desapareci. era una festa da coragem nhecer que construção havia an- «bárbara». cre. hoje adolescente algures. forte que cegou os rostos. uma branco. CIDADES INVISÍVEIS 28 29 Montevideu e dedicar-me a evo. imagens do DAS PAISAGENS entre nós. nestes últi- medo não pertence a nenhuma mos anos de democracia medío- dessas situações fundacionais. Ángel Rama. como nos mostra Bar. ASSOCIAÇÃO que não nos permitem já reco- rán. nesse caso. Posso incluir também as sem exclusões nem excluídos. o foto. lona ou a partida de Barradas para convocatória para um Uruguai já sabem. com voz em off de contornos dos corpos dos nossos está nas imediações da minha Candeau. damente pelo seu lado mítico. num autocarro ou num bar. manipulando o cartão del: «Morro com os aviões. e enviar-tas num cartão gar para o discurso público tem- branco. versidade ou escreva na imprensa algumas figuras muito especiais: dade de uma voz. mas o lu- «nada». Deveria acom. niu pela primeira vez em dez mática de um bebé. nhou em Barajas e onde morreu tar. ou também «Há outro além da política.

impressão de calor congelado. dez criativa destas pessoas reser- Devido a uma associação im. penso no adolescente Parque Rodó. mas também dizem os putos apesar da tensão Paris. ou o grupo de pessoas que estão vadas e intensas. junto ao Trianon. Escrevi sobre a «rambla nauchans. o pathos da bloco de fogo. que não conhece e que nos dei- cañera de Bella Unión que veio a grafos uruguaios que começam a xa. posso falar-te sobre uma foto que dos seus temas e da sua música. sentado no popular interiorizada». e para quem nada não podem deixar de regressar: não é o México nem o Caribe mudou. Há algo no- um reequacionamento da nossa Julho. balbu- pé a Montevideu desde a outra abandonar país. digo-o por gracejo a Ca- sagens intactas da nossa sensibili. tudo continua a degra. tisnado e andrajoso. de faz sempre que chega a países ciência) lá onde estão. «mais para cima». a viver perto da minha casa.grande maioria de adolescentes e vigoroso que caminha pela 18 de câmara sem timidez. «Bom. não te envio porque já a vi numa Mais para cima! Onde vão Penso. penso em Isidore Ducas. e que escreveu os Cantos e intempérie. apesar da calcinação se tem uma Montevideu. sem do ao sol. ou o pathos do marginal. do sa de Lautréamont é uma das pai. como Marcelo). os adul- va as lutas de galos e os jogos de francês como espectáculo. a preto e branco. no inevitável prevista. carro. isto dos tupamaros. a rambla segundo Alva. como nos alvores Ou os cantores que partem mas mente analíticas. «intermitências do coração». . aqui está Fernando Cabrera antes com uma tradição tão forte do dar-se. guaios?. porque não que. ciantes ou com respostas pura- ponta do país. com a roupa pendurada entre os uma ponte entre os ouvintes ado- cês rude e rebelde que frequenta. perguntava Paul Leduc numa cidade sem excitações. «Les gémissementes graves du Mon. pública e privada. ou «po- um homem jovem e de aspecto banco de uma praça e olhando a demos levar-te ao Sudamérica. um automóvel estaciona. instaladas atrás da fonte bairro». de repente. Uma pergunta que remos ir procurá-los (a má cons. onde quando se estreou «Fida» em gestus. arbustos e esse belíssimo parque lescentes e nós próprios. tável no desaparecimento da timi- história. todos os dias da janela do auto. a arte a troco da vida. pelo menos a alguns. vejo-as desnudamento de vozes e cora- se (a Rambla Sul em frente da ca. com a estátua da mulher nua no brera e também ao cantor das dade). talvez porque vivemos ro Zino. falan. de cortar o cabelo. «o cantor dos bairros. em Isidores exposição. sol e tos. dançar os intelectuais ur u- Ducasse. montevideano filho do dandy fran. não tão sombria como Dar- taba. (Os jovens fotó. tévidéen». sem pathos. do sozinho entre gente apressada. ções. morreu completamente só em de Lautréamont».

mesmo tempo tangente parece guinte às eleições. Dolly Mhur. Passei-o em toriador. pansivos. chadas. nesta cidade. as mesmas TODA A PALETA DOS dente uruguaio em 1903 e 1911. Santa María. e à noite. «apropria. houve barricadas. Fico a discurso dos políticos das esquer. político-sociais. can- Espinillar de que já te falei. gentinos com valium. diano. parece que só pletos das pessoas mencionadas. semanário fundado em 1939 por Carlos Qui- sobre uma Montevideu interiori. repetições de um mesmo bém o lock-out e as greves banali. Eduardo Darnauchans. escritor. deixámos de lado. manifestação. prócer da Independência. Rafael Barradas. das e o discurso operário. deu soalheira e de folhas secas – CONTINUAM A SER OS Hudson. Juan Domingo Perón. Bruno Mauricio zada por várias gerações até níveis de Zabala. pensar em rupturas e continuida. É que aquele rasgo. Fico a tentes e descrentes do simples ac- pensar também que enquanto os to de falar. Espi- des. tanto para si como para nós. pintor uruguaio-espanhol. os pais. meter as pessoas. zaram o seu impacto. pela primeira processos políticos mundiais nos de Carlitos Real de Azúa. impo. Alberto Candeau. embora vez na história do Uruguai. Joaquín Torres García. cidade in- casinhas e as mesmas mansões fe. senhora. fotógrafo. um cenário de um filme Marcha. W. melancólicos e pouco ex- de soberba. E qual ou quantas es. olhamos. Uma Montevi- OS AUTOMÓVEIS 1726. tão mergulha. ensaísta italiano. do que estas fotos e esta carta sejam descarregar essa liberdade? vernar em Montevideu em lidas por algum leitor menos Escutamos. ensaísta e politólogo. Horacio Qui- veis continuam a ser os mesmos SEM QUALQUER IRONIA roga. Tradução de JV Uma mescla do passado e do presente: na foto. Enrique Santos Discépolo. O Estaleiro. empresa estatal produtora de açúcar e bebidas al- discurso. músico. com os cañeros de tão-pouco grande debate entre o Marcelo Isarrualde. político e Eis agora uma foto do nosso pintor. pois dos quarenta anos. compositor de gundo plano está estacionado um SOALHEIRA E DE FOLHAS tangos. Carlos Real de Azúa. Como falar que duvido muito signifiquem dos estavámos nas preocupações com subtileza atrás de uma barri. realizador de cinema mexicano. uma frente de esquerda obrigam a reequacionamentos e haja politólogos de excelência (Frente Amplio) viria a ganhar as eleições. publicamente mais complexas. privatizações. José Batlle y Ordóñez. Fernando Cabrera. um risco constante de- rismo culto». divisões. conversamos. Edi- rua de Lezica. 1904. estou cansada. espectaculares contradi. caudillo blanco derrotado em no – com toda a paleta dos ocres MESMOS DA INFÂNCIA. uma adolescen- te de mini-saia caminha por uma Juan Carlos Onetti. tautor. casse conde de Lautréamont. Pedro Figari. Sentimos muito a falta 1 Nota do editor: Em Outubro passado. creio que coólicas. José Artigas. Isidore Du- casa a trabalhar. derrotando relativizações. ta de perdas e ter escrito com me- mo que uma intromissão de tu. Pois bem. con. andamos dançando no ar. OCRES E DOURADOS. E ONDE ATÉ jano. Mas é ções». escritor e cantautor cana- automóvel da década de 50. sua mulher. Alvaro Zino. Eugenio de-se voltar a Lezica e Colón e SECAS CAÍDAS COM Garin. José Pedro Barrán. projecto de um mercado comum do Cone Sul. por uma ampla maioria o monopólio dos partidos tradicio- fundo na esquerda uruguaia que aquela perspectiva global e ao nais que desde sempre governaram o país.» . Eduardo Galeano escreveria no jornal uma mescla de lentidão atónita e irrepetível. a olhar-se. etc. poderá encontrar os nomes com- dos seus avós que nós. etc. quando já recuava e se re. no no. Presidente reencontrar o ambiente tranquilo argentino em 1947 e 1973. Re. CIDADES INVISÍVEIS 30 31 onde só se dança. tam. advogado. vi algumas imagens da não há coincidência plena nem nascido em Montevideu em 1846. lancolia. romance de Onetti. Po. clube desportivo e salão de dança. que à primeira vista nos parecemos com ar- querdas? As coisas tornaram-se ceio ter feito uma lista incomple. Preven- verdade. cantautor. emocionalmente coesa. Sudamérica. Brecha: «Nós. que em nota de rodapé os jovens retomaram os costumes Não há debate capaz de compro. Felisberto da infância. Presi- da intemporalidade. No dia se- resiste à mudança. sa. há algo muito pro. nilla. Hernández. digo-lhe. ventada por Onetti no seu romance La vida breve. Eduardo Fabini. mas só formulava no resto do mundo.E. onde vamos dançar e ções – a esquerda começou a go. lugares-comuns e ver. militar espanhol que fundou Montevideu em de vampirização.. cada? Mercosul. actor de teatro. Leonardo Cohen. his- último 1. Florencio Sánchez. pintor uruguaio-catalão. escritor e naturalista argentino de origem ingle- volta-se sempre a Lezica no Outo. mas seria co. onde até os automó. fotógrafo. dramaturgo. minha templamos. 19901. escritor. na massa humana física e todos estamos cansados. os uruguaios. e dourados. dades. Mercosul.º de Maio. escritor. e verás que em se- UMA MONTEVIDEU torial Arca. sem qualquer ironia. escritor franco-uruguaio ticiário. Paul Leduc. informado. acusações. Aparicio Saravia.

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um grupo de amigos que conversam. por ins- tantes. quando as crianças ainda não regressaram da escola. o seu trabalho e reúnem- -se para descontrair e exercer o antigo hábito da amizade. Ao mesmo tempo. CIDADES INVISÍVEIS 32 33 ADEUS AO Não é invulgar encontrar em qualquer café montevideano do centro ou da Cidade Velha. a con- versa intimista e as angústias su- bentendidas. Este influxo de sociabilida- de e comunicação espontânea Avenida 18 de Julho. por volta do meio-dia de um dia de VELHO BAIRRO trabalho. três vizinhas puseram de lado os bal- des e as vassouras e foram sentar- -se ao sol para comentar a evolu- ção da telenovela que costumam ver a certa hora da tarde. comentando o último jogo de futebol da selec- ção uruguaia ou as vicissitudes Teresa Porzecanski sempre controversas da política nacional. noutro lugar da cidade. Archivo Fotografico de Montevideo . Abandonaram. num bairro peri- férico.

específica». conjuntos carnavalescos. durante as déca- das seguintes. Fotografia de JV . onde se consolidavam e cres- ciam os laços de pertença não biológica. crenças que tecem a adesão localizada. diferentes das determinadas pelos videu.... como por instituições [. Se.] ou por relações sociais. na Mon- tevideu de princípios do milé- nio. escolas e liceus). no contexto da vizinhan- ça. sen- do notoriamente responsável por amizades. No caso dos grupos habita- cação ou ao lazer (clubes de fute. hábi- tos. noivados e casamentos. Mons (1994:129). já portante na construção das iden. é muito clara a diferencia- bes sociais. um elemento im. ram também importantes na de. constrói senão em contraste ou que essa identidade se consoli. As fronteiras e a topografía fo. a família e a massa distante e im- pessoal. riais distintivas. no modelo urbano dos anos 50. marcação de identidades territo. rica das categorias «os de cá»/«os em oposição com outras comu- dou. Café de la Corte. «o território das nossas cidades [.ainda não foi extinto. pografia de fronteiras móveis – cionais estigmatizados de Monte- bol. Archivo Fotografico de Montevideo giu o seu protótipo na década de 50. que atin- Bairro popular. configurou. ceitos e identidades grupais. Trata-se de imaginários nidades/bairros.. clu. o clube desportivo ou o liceu operou como construtora das sociabilidades primárias. como escreveu A. o projectistas – gestoras de precon.] está constituído tanto por delimitações visíveis. a concorrência com a escola. pela modalidade rápida e transitória da interacção urbana contemporânea. que o processo de uma identida- tidades pessoais e familiares. pode acei- tar-se que o modelo de «bairrili- zação» de Montevideu. ção que os vizinhos fazem entre bairro interveio decisivamente nos processos de enculturalização da sociedade uruguaia urbana. as que podem de comunitária específica não se Especialmente nas zonas em sintetizar-se sob a fórmula gené. a pa- róquia. Por outro lado. espaciais. simbólicos vinculados a uma to. O controle social dos vizinhos sobre outros vizinhos e um marcado indivi- dualismo constituíram outro factor «centrípeto» dos bairros. intermediando entre o indivíduo. ligada ao surgimento de de lá». Dentro destas redes. agrupamentos vinculados à edu. a perma- nência e a antiguidade no bairro também configuravam factores de poder e prestígio.

gera-se um processo olhar subestimador dos outros. algu. quos como um espectador. urbana despersonalizada – roubar ferentes modalidades de interac. cinematográfica. o que A. o blico e do privado. mopolitismo doméstico» (Eche. «É pro- ção excludente na sociedade» espontânea ainda vável que o limite territorial (do (Veiga. taxas siva da rádio. em tempo real e imediato com o tais como: insucesso escolar. ção comunicativa produz. [. mas não é o «fora» da quer» –. conforme o caso. cujos bairros ofere. a invasão mas. 1995): a casa aberta para «um qualquer». das redes vicinais. nómicos e culturais do país. «uma cidade familiar». na qual se in. virtual. O incremento do «individualismo». di. tevideu e de um «modelo que ca. por dade. delo dos anos 50. a televisão. tradicionais dos vizinhos no mo. independentemente do lu- Alguns estudos falam de media não eram invasivos da priva. bairro.. a reali- classe baixa e média-baixa. o mundo. sair à varanda eram as condutas encerrado em sua casa. como um valor em si mesmo. não foi extinto com a presença dos meios em ca- a paisagem humana e ambiental da lar [. acesso prematuro a Este processo de transforma- empregos de muito baixa quali. Vários outros factores têm que poderia denominar-se de méstico tende a transformar-se contribuído para a transformação «subculturas de Inverno e de Ve. por computador ou em agências racteriza a maioria dos jovens de des sociais estavam associadas di. as re. da personalização. Nos tempos em que os mass cação. gradualmente no que Echeverría do protótipo de bairro dos anos rão» determinam nos bairros de denomina uma espécie de «cos. especificamente. a meio caminho en. rectamente à territorialidade. o fazem os seus habitantes das áreas cara a cara. Oes. ções pessoais. educativo.] quando os lugares já da Montevideu contemporânea na Montevideu de não fazem sonhar. «fora» torna-se um mundo dis. cego ao prios habitantes dos sectores ca. abrir o saguão ou deixar as mundo da imagem televisiva ou estimulado pela crescente oferta portas da casa abertas. turante» (1994: 131-132). resi. CIDADES INVISÍVEIS 34 35 «os de cá» e «os de lá». de «fora próximo». sair à rua. é uma estrutura desestru- seus habitantes aos recursos eco. a informação e a actuali- elevadas de abandono do sistema dade. Sob o ponto de vista das rela- tromete constantemente esse ciam um cenário propício à so. «desterritorialização». telefone e o computador conecta. ciabilidade mais primária gerada pelo qual o sujeito estabelece na elaboração das identidades e pela proximidade. Pode afirmar-se que os «fora». conectado renciados constroem uma identi.. matar «um qual- ção social. VIOLÊNCIA URBANA MUDANÇAS do com o mundo começam a E TRANSFORMAÇÕES NOS ESTILOS DE VIDA apagar o limite separador do pú. de sociabilidade e mudanças radicais na relação – ciais homogéneas que podem de. ge- mento regular de habitantes de tante. o que reflectia com os acontecimentos longín- dade «de bairro» – embora mui. Este influxo outro lado. RADICAIS O clima e. partir da década de 60. das relações diferente da de há três décadas. O espaço do. sem perigos. quanto à utilização que ro. Os pró. da comunidade) beneficie Na sequência deste processo. a extensão sem sair de casa e a comunicação te e Este da cidade. o fax. Nasce o sujeito de experiências e alternativas nas . 50. 2001:20). A zação de acções de gestão quase dentes nos Bairros do Norte. cidade e o telefone não se esten. O incremento da violência Montevideu.] então a te- tende a diferenciar-se mais que princípios do milénio levisão faz as vezes de «vínculo antes em relação ao acesso dos social». verría. comuns e também pelo desloca. mento de facturas por telefone. que se considera substancialmente no Verão. um tipo de violência bairros costeiros «se reabilitam» proximidade contextual do bair. por elementos das comunicações.. maternidade precoce. Em tre a realidade e a mitificação: o cias de linhagem ou parentesco e geral. gar onde reside: ela inclui o paga- «fragmentação social» em Mon. real e imaginária – do sujeito terminar um caminho de inser- comunicação com o espaço que habita. fiável. to desvalorizada –.. balham nem estudam e redes so. descentralizadas próximas. Mons chama ma percentagem dos que não tra. rado pela ruptura das dependên- outros bairros para a costa. dera ainda a toda a cidade. uma frequente e intensa comuni- identificações territoriais. ou seja.

em geral. tura da auto-realização» (Taylor. vedações e dade de mudança de casa –. Imagen. 1995. gra. cio – que estabelece uma necessi. tal co- definitivamente privado.Todos mo é imaginada ou desejada pe- Mas há outras variáveis a configuram elementos decidida. a ocupação e a apa. no bairro em que nasceu ou no cura de uma identidade moldada Tradução de MGMV qual viveram os pais). didos pela publicidade. Paidós. a mentos. políticos. fundadas na vizinhança. nal. o lacional decresce e podem cons- tonamento» num cenário que se incremento sustentado do divór. Montevideo. a ten- segurança que espreita – real e 1996) que coloca ênfase no indi. Charles Taylor. 2001. Madrid. tal y Segregación en Montevideo. Para salvar as formas de vida sivas e afluentes. vo dos discursos (psicológicos. isolado e maior flutuação. a expansão por outros objectos simbólicos: o da própria cidade e as paisagens género. e a crescente in. D. . lo habitante urbano. soal). Barcelona. Anagrama. 1996. Nueva Visión. so urbano global. Veiga e L. quanto mais ligado à «natureza». a idade. A. directa ou vicariamente novas ex. vigilantes. a liberdade – aparente – para cidade. sidenciais» para as margens da relação com os outros contri. Rivoir. a filiação religiosa ou po. mente intervenientes numa ten. territorio. La Ética de la Autenticidad. Javier Echeverría. PARA SABER MAIS que oferece ao habitante. comunicación. periências (no seio de uma «cul. residencial/comunitárias. resgata a considerar: o incremento contí. publicitários) para viver portanto. Mons. onde a densidade popu- buem para um «crescente acan. culturalização bairrista» tradicio. o incenti. As tendências de futuro. como se manifestam no proces. La Metáfora Social. Universidad de la República. e onde um ambiente sistemas de alarme –. mas. a planos e modelos de vida. contra o tipo de «en. vos imaginários respeitantes a rência corporal. lítica. Cosmopolitas Domésticos. Desigualdades Sociales «como é desejável viver» difun. violência por vedações e gradea- deamentos.sociedades contemporâneas. truir-se bairros protegidos da quer protegido – por vigias. escolher novos estilos de vida. conspiram. Buenos Aires. funcionalidade clássica do mo- nuo da mobilidade espacial (cada dência para o declínio da função delo de relações territorializadas vez menos gente continua a viver identitária do bairro e para pro. 1994. dência é deslocar os bairros «re- imaginariamente – o cidadão na vidualismo e na satisfação pes. os no.

. Monte Ovidio. Tais foram. foi baptizado em 6 de Outubro de 1682. Monte Seredo. CIDADES INVISÍVEIS 36 37 A FUNDAÇÃO DE MONTEVIDEU Mario Delgado Aparain Até hoje não está clara a origem do nome da cidade de Montevideu. a modo de digna conde- coração. as diferentes denominações que re- cebeu esta elevação visível para os navegadores que entraram. e de D.EO. Ali perdeu o braço di- reito. poucos centros urbanos da América com desejo de ser cidade tiveram tan- tos pré-nomes até chegar ao de- finitivo: Pináculo de la Tenta- ción. então. Ca- talina Gortázar.. Monte Veo. entre as quais a dos cruéis episódios da Guerra de Sucessão. Nicolás Ibáñez de Zabala. nascido em Durango. Nuestra Señora de la Candelaria. Monte Vidi. E mais. Monte de la Detención. pendurado ao pescoço. e desde então teve de usar um braço de prata que amiúde levava. Mi- litar desde muito jovem. Monte de San Pedro. . Monte Vide Eu. cidade do senhorio de Biscaia. pelo Rio da Prata. O fundador de Montevideu era basco. Montem Video. parti- cipou em múltiplas campanhas militares. cavaleiro da Ordem de Calatrava. durante o cerco de Léri- da. Filho do governador D. Monte VI D. Santo Vi- dio. en- tre a viagem de Américo Vespús- cio (1501) e a fundação por Mauricio de Zabala (1726).

final- com as políticas de expansão videana. e pro- anti-hispânicas do reino de Por. o qual o felicitou. das as demais coisas que levem americanas. ordem reiterada em 1718. Felipe V Alburquerque. o rei de Espanha emite uma Real Ordem na qual do Manuel de Freitas da Fonseca designou Bruno Mauricio de o encarrega de povoar e fortifi. (Um detalhe significativo. por outro. Em 1716. prorro- -Bretanha. destinar as reservas procedentes Na mesma data estabeleceu que. Também devia impedir qual. a 13 de Novembro de Janeiro. desse mesmo ano. embarcou rumo a Montevideu. durante as negociações de Utre. Petrarca também estabe- traçados por um tiro de canhão. e em abandonada pelos lusitanos. tendo-se apresen. mesmo lugar em que os portu- de guarda-costas. precisamen- Colónia do Sacramento situada tavam as actividades dos piratas. erigir a 22 de Abril.. os portugueses a ajustarem-se medida inspiradora das políticas ciou uma série de discussões aos termos que devem». leceu na «Ribeira do Porto» o Zabala desembarcou em do de Buenos Aires manifestou primeiro esboço do que viria a Buenos Aires a 11 de Junho de o seu desejo de povoar a Zona ser a base primitiva da cidade. entre outras ideias. res das veias de ouro e prata» mílias. por to. que comandou Zabala governador de Buenos car «os postos de Montevideu e uma expedição que chegou a Aires e capitão-general do Rio Maldonado» para que nem por. no outro lado por um lado. construção de um forte. sobre o tema. Tradução de MGMV . Em Julho de 1722. 22 de Novembro de 1723. quer se apoderem nem forti. sítios». da Galiza e das ilhas Ca- lando o tratado de Tordesilhas. Dois dias após o último de. que pudessem existir na «outra nárias. que se fizessem «as diligências teja executada a fortificação e convertida em duro perigo para que fossem convenientes a fim povoação de Montevideu e to- a manutenção das suas colónias de que se consiga a dita povoa. já Alonso de la sobre a situação militar da re.. narca.. dador. no e a constituir uma esquadrilha para cumprir as ordens do mo. entre o já debilitado império vizinhos e outras pessoas pro. enviasse «as mais famílias que da a Portugal). de Espanha – não fosse devolvi. tugueses nem outra nação qual. o longo processo funda- lusitanas. após Vega tinha ocupado a península gião. 1717. ou a de le. problemas agravados pela Domingo Petrarca começou a Aires e a saída dos habitantes de arriscada pressão que represen. o monarca encarregou-o necessários como pela recusa própria construção. À sua chegada. a reforçar a sua guarnição parado com sérias dificuldades para defendê-la ». Za. O governador havia de. na actual da vigilância dos arredores de das famílias bonairenses perante intersecção das actuais ruas Cer- Montevideu e de Maldonado.». rido. te onde actualmente se encontra quase em frente. nos Aires que. da Prata. que apresentou à Junta de a ruptura com Inglaterra. havia encarrega. bala determinou de imediato desse ano.». Zabala também ordenou a quer contacto dos portugueses dos considerada altamente peri. desta missão. ponta que faz a Este a enseada Aires. ou seja. Também requeria a Bue- mas nesse momento em poder zona». o Cabi. a de Reais Exércitos. Aires de Saldanha de cional de Montevideu. que com os povoadores de Buenos gosa. potência marítima bala aceitou o seu plano e pediu gou o seu mandato «até que es- crescentemente industrializada. Tinha começado. sua disposição de enviar 50 fa- fundada pelos portugueses vio. tado. os portu. Za- Guerra das Índias a 3 de Março Janeiro de 1720. para além dos limites guesas. no âmbito do confronto Oriental «convocando os seus De regresso a Buenos Aires. Zabala preparou um relatório fiquem nessas paragens. O governador do Rio mente. moveu-o a tenente-general dos tugal. positadamente para o caso». Zabala Antes de sair da Península. tanto por falta dos fundos gueses haviam iniciado a sua bro. bate da Sala Capitular. Zabala informou o rei do ocor- colonial espanhol e uma Grã. aliada e em grande ção. pela sua parte. O órgão comunal ini. e das forças portu. Em Janeiro de 1724. pudesse» para povoar os «ditos Cada vez mais preocupado gueses chegavam à área monte. a possibilidade de se mudarem rito e Ituzaingó. voadores e informou sobre a se a Colónia do Sacramento – vantar a nova cidade «com suo. para a margem oriental. a praça que tem o nome do fun- do rio. o qual levou o rei a Mas a questão não era nada que se erguesse uma bateria «na melhorar as defesas de Buenos simples. A 12 de Outu.. foi a recusa do delegado do terço que lhe correspondia os privilégios dos futuros po- britânico em assinar o tratado pela venda do couro.

Uma cidade a contramão do resto das capitais do subcontinente americano. leva-nos a olhar a cidade desde o Cerro e a descobrir algumas chaves para recriar uma cidade hospita- leira. Uma cidade que convida ao diálogo. Fotografia de JV . Baía de Montevideu. CIDADES INVISÍVEIS 38 39 MONTEVIDEU É UMA CIDADE FEITA À ESCALA HUMANA NUM CONTINENTE DE EXUBERÂNCIAS Entrevista com Gerardo Caetano Mario Delgado Aparain Eis como o conhecido historiador uruguaio Gerardo Caetano vê Montevideu. mais humana e afectuosa. à ideia de proximidade e à polifonia. Numa entrevista ao escritor Mario Delgado Aparain.

nas sempre um velho idílio suas próprias origens. de arestas moderadas.. com os viageiros. Para nos enamorarmos dela é preciso descobrirmos os pequenos lugares. coisas grandiosas. antes convida ao diálogo íntimo.. em si mesma. tem-se insistido em polemizar. Por isso. cadores e soldados.Nos últimos anos e sob diversas perspectivas. porque a sua identidade está muito referida à sua memória. feita à escala humana num continente de exuberâncias. Montevideu é uma cidade de têmpera. é feita de intersecções e de equilíbrios refinados que. antes que procurá-los e indagá. Ainda se pode desfrutar Montevideu caminhando.. pela sua exuberância. tão singular no contexto latino- -americano. Precisamente. íntimo cil» que não entrega com facilidade a sua «alma». em particular. A sua capacidade de persua- são (parece que estamos a falar de uma pessoa) não é épica nem grandiloquente. descrições de Montevideu tuária. em aprofundar o tema da identidade dos uruguaios e. Não tem. como ocorre com outras ci- dades do continente. tem sido uma marca para . pois há grandiloquente. Montevideu convence-nos como um todo. a ruptura com certos rasgos da sua memória a feriu tanto. a identidade de uma cidade como Montevideu. é uma cidade «difí. não se vislum- bram de imediato. Em sua opinião. Monte- videu é uma cidade que Montevideu tem mantido desde começou por albergar. O ENCANTO DA CIDADE POLIFÓNICA Um exemplo desse vínculo com a memória é a sua própria origem. vejo a identidade montevideana muito reportada a uma dimensão pequena.. convida ao diálogo -los. com uma abertura onde ainda hoje se pode perceber uma fina combinação entre raízes tradicionais e motivos estrangeiros e cosmopolitas (sobretudo europeus). a cidade-porto com foram feitas por viageiros tudo o que isso significa. Praça- -forte e porto. não nos toca profundamente nem pro- voca aversão imediata irreversível. por exemplo. a sua melhor oferta é constituída por complexos equilíbrios. E essa di- Muitas das melhores mensão. mer. de textura liberal. em especial a por. O seu cerro. muito à altura do homem comum. Não é épica nem decerto. Não tem morros. A cidade é de formato pe- queno. onde o forasteiro ou se enamora perdida- mente ou foge. é oportuna essa insistência em nos definirmos como uruguaios ou como montevideanos? Em primeiro lugar. é quase um «cerrito». vale a pena. É uma cidade que dificilmente se pode en- tender ou explicar sem referências a momentos. tem o seu rio (ao qual chamamos mar) que nunca nos seduzirá pela sua bravura. combinações feitas de pequenos gostos.

Ainda é válida essa noção? Melhor. Muitas das melhores descrições de Montevideu foram feitas por viageiros. cosmópole e polifonia do. cosmópole e polifonia de viageiros e imigrantes. muitas vezes. Montevideu tem mantido desde sempre um velho idílio com os viageiros. é de proximidades». O porto olha sempre o mar. Essa rambla é. que corres- ponde à grande etapa imigratória. Aquela ideia de proximidade já se instalara na cidade: havia de tudo em cada bairro. E. eis alguns essa que me parece a melhor cidade. . para mim. de algum mo- Porto. «cidade nha a melodia de muitos idiomas. continuam a dizer que vão «para fora». «ci- dade de proximidades». A rambla Sul não seguiu os meandros nem as praias que existiam junto a ela. descobrem que nas vinte e umas secções judiciais de Montevideu havia de tudo. Ao contrário. assim foi. antes de mais. E. cores e estilos muito diversos. procurando um quadro de estratificação. na ver- dade. Mas também foi uma cidade de classe média ou pequeno- -burguesa que. um miradouro. nesse sentido. CIDADES INVISÍVEIS 40 41 nós. Idealizou-a mediante uma concepção muito modelar: não respeitou a natureza. uma cidade de emigrantes – como revela a sua própria nomenclatura. tratou de dominar a natureza. culminou em 1900. um lugar preocupado com os viageiros. Quando analisamos a documentação da segunda metade do século XIX. quando vão para o interior do país. concebeu algumas coisas muito interes- santes. Por exemplo. Inclusive quando estudam o censo de 1908. sempre nos surge uma cidade polifónica que. Real de Azúa dizia que Batlle pensava em Monte- videu como o «grande escaparate» da oferta uruguaia para o mundo. Batlle era acusado de padecer de ramblomania. É um lugar aberto onde chega gente com um olhar diferente. tratava-se de construir um mirante. Montevideu tem sido uma cidade cosmopolita. Tam- bém tem a diversidade das cidades aluviais. salvo algumas franjas. Hoje talvez fosse feita de forma diferente. Montevideu foi a cidade «batllista». ou melhor. provoca-me uma evocação muito agradável. Porto. eis alguns dos melhores traços da histó- ria de Montevideu. O MIRANTE ESPECTACULAR DE DOM PEPE Disse-se que Montevideu foi também a «cidade dos modelos». Era uma cidade que ti- de viageiros e imigrantes. de definir e até disciplinar uma paisagem. E. E. Por isso. a obsessão de construir uma rambla costeira que bordejasse a ci- dade. a capital do «país-modelo». Quando os historiadores Barrán e Nahum falam da Montevideu de 1900. o produto de uma concepção cultural. não olha «para dentro». Mais ainda. mas também sonhos e pro- jectos. teria gosta- do muito de viver nela. recriar dos melhores traços aquela Montevideu polifónica que combinava da história de Montevideu não apenas idiomas. resistiu à territo- rialização do poder social. resistiu durante muito tempo à divisão territorial classista. Os montevideanos. falam de uma «mescla de Manchester e Nápoles».

levaria. Piriápolis e Punta del Este. ganhou-se terra ao mar e à areia. en- cravado entre a Faculdade de Arquitectura e as extensões do Parque Rodó. Archivo Fotografico de Montevideo Porque a ideia hoje vigente (não a que vigorava há 70 ou 80 anos). que ainda hoje continua a ser uma joiazinha da cidade. muito em sintonia com aquela época de utopias. por exemplo. Por exemplo. com vida e consistência próprias. Mas aquela Montevideu do «primeiro batllismo» também tem que ver com o projecto de «cidade-jardim». à ideia de respeitar mais as praias. E. Atlánti- da. Aquelas ideias (que são hoje.Avenida 18 de Julho. Muito poucos sabem que entre os pioneiros desse «bairro-jardim» esteve o mesmís- simo Batlle y Ordoñez que talvez a tivesse pensado. a proposta do «bairro-jardim». Também por . assim como a capacidade em- preendedora dos montevideanos da época. Teve de se eliminar o «Baixio». que se articulava com a proposta de «país turístico» e «de serviços». finais do século XIX. O projecto da rambla Sul expressa exemplarmente essa noção modelar do «primeiro batllismo». como «microcosmos» para projectar depois outros pontos da cidade. Nesse contexto ocorreram coisas realmente admiráveis e interessantes. frequentemente. a da articulação entre cidade e território ou cidade e geo- grafia. entre a Ramírez e a baía. tudo para fazer esse «mirante com vista para o mar» que ainda hoje continua a con- vidar-nos para o passeio e para a contemplação. apresentadas como novidades brilhantes) já então apaixonavam os uruguaios – e os montevideanos em es- pecial – na busca de um «país balnear» que se lançara na con- quista das costas estivais com os molhes de Montevideu. havia muitas praias. orientado fundamentalmente para os argentinos.

se para se chegar ao traba- lho é preciso viajar pendurado em autocarros que chegam tarde e a más horas. Montevideu continua a ser um mundo por descobrir para a maioria dos montevideanos que ignoram as melhores ofertas desse menu complexo que é a cidade. muito virada para dentro. Ainda não conseguimos perceber o sig- nificado profundo de fenómenos como a transformação do cen- tro. Penso que desde há bastante tempo o montevideano. Tem também a ver com uma severa fragmentação social e económica que tem deixado sem resposta muitas franjas da população de Montevideu. Desconhecem ou já se es- queceram de muitas ruas e ruelas. sem saneamento e Rambla Sul – Praia. a vertiginosa modificação do mapa dos bairros e o seu im- pacto na prestação de serviços públicos (vejam-se. novas tra- vessias de descoberta da cidade.. Tem a ver com os novos modelos culturais e com as transformações vertiginosas deste «tempo de mudança»... em poucos anos. Só com uma renovada abertura mental e a partir da recu- peração genuína daquela velha mescla característica da Montevi- deu de proximidade. com a revolução mediática e com o seu influxo decisivo na construção de «outro» modo de ver. talvez com motivos legítimos. temos uma perspectiva muito provin- ciana. Se se vive num bairro marginal. OS MONTEVIDEANOS NÃO ANDAM BEM COM A SUA CIDADE Desde as primeiras décadas do século XX até hoje. olhares muito «eurocêntricos». nos manuais escolares de Geografia (recordo es- pecialmente o de Luis Cincinato Bollo) se falava de Pocitos co- mo a nossa «cidade de Inverno» ou a «nossa Nice». Nós. não está de boas relações com a sua ci- dade. Sem dúvida que esse distan- ciamento corresponde a factores muito diversos. Poderá daí inferir-se que essa reconciliação passará pela entrada de Montevideu na chamada «aldeia global»? Importa descobrir e legitimar outros percursos. poderemos promover a reconciliação efec- tiva com os seus habitantes. Importa. Eram. ou se dizia que o nosso passeio marítimo só se poderia comparar com a estrada que unia Montecarlo a Nice. as relações entre montevideanos e Montevideu têm variado muito. repensar as novas políticas sociais da cidade. em relação a muitos problemas do quotidiano da cidade. as mudanças a vários níveis que ocorreram durante os últimos 15 anos num bairro como o da Aguada) ou a tugurização. sem dúvida. de bairros que antes eram de passagem. Archivo Fotografico de Montevideo com problemas graves de segurança. ou se mencionava que a praia Ramírez superava a de Biarritz em be- leza. e não apenas aqueles que são mapeados na perspectiva da cultura «culta» ou de elite. montevideanos. por exemplo.. Parece haver uma perigosa diminuição de afecto pela cidade. por isso. em função de uma melhor jus- tiça básica sem a qual não será possível a integração na cidade a partir das suas referências culturais. CIDADES INVISÍVEIS 42 43 aquela altura. de encruzi- lhada. mas . é muito difícil ou mesmo impossível que se possa estar reconciliado com a cidade.

legitimando a construção. em todo o mundo. com o Cerro ao fundo. isso permite rever noções e conceitos relativos a problemas cruciais para a cidade. Archivo Fotografico de Montevideo também aqueles que são construídos na experiência quotidiana da cidade. penso no bar «Tabaré» de que gosto muito. finais do século XIX. Nesse sentido. Montevi- deu tem uma dimensão que na Amér ica Latina Eu sempre gostei de contemplar bem pode ser considerada Montevideu a partir do Cerro ideal. Regressando à história. as cidades não querem crescer. por exemplo.Porto de Montevideu. o melhor destino montevideano bem poderá encontrar-se na recombinação das velhas dimensões de microcosmos e de cosmópole com os novos desafios e motivos que o século XXI nos impõe. a partir da diversidade. de novos percursos alternativos aos que conhece- mos e tanto amamos. da tradição ou da modernidade. A cidade pode entrar em diálogo directo com a «aldeia global» de que faz parte sem necessidade de se converter numa megápole. Renovar o olhar sobre Montevideu a partir dessa abertura para a «aldeia global» significa. se Montevideu quiser andar para a frente metendo-se na «aldeia global». terá de partir daí. que é sempre parte de um património cultural. quando se fala dos velhos bares que nos habituámos a frequentar. o emergente. ou simplesmente da mistura de tudo isso. como produtos da cultura popular. repensar sem preconceitos as relações entre o local e o global. . Mas também é necessário descobrir e legitimar o novo. procuram uma escala mais governável. O crescimento bem pode ser um deles. Hoje. Por exemplo.

Quando se procura aquilo a que se chama a «nossa música». Creio que procurar o «nosso» como contraponto ao resto. Pode-se fazer um bolero universal. em Jaime Roos. E entra com r igor. Perguntamo-nos como uma canção tão montevideana pode gerar. em Mauricio Ubal. antimontevideano? Contudo. há mais automó- veis. Uruguai. PROCURAR A GENIALIDADE DA MISTURA Isso é aplicável a qualquer território cultural. e permite-a à distância que faz parte da diversidade desse menu cultural que subutilizamos. por exemplo. A música montevideana. ao invés. não generaliza daí impressões e sensibili- dades ao conjunto da cidade. O Cerro permite essa visão ampla e permite-a à distância. Tanto que. uma espécie de «deserto» dentro do departamento. onde a vida não é fácil. em Colonia. Alguém poderia ter dito: «Que audácia! Cantar precisamente isto no interior. E qual é o seu segredo? Por que consegue ele penetrar no mais fundo da alma montevideana? Porque é precisamente «um génio da mistura». Recuperar. Jaime Roos cantou na cidade de Colónia a canção sobre Durazno y Convención. candombe. Não serei original nisso. Pensemos. Temos de procurar. Por isso. importa redefinir também as políticas sociais. um dia. um fervor nacionalista. estradas. Uruguai!». há que procurá-la no passado? Creio que temos de abandonar essa ideia de «mudar à nos- sa maneira». segundo me contaram. perdendo a noção de visão ampla. opor «o pró- prio» ao «alheio» é um caminho errado. o ambiente atingiu um fervor tal que a canção terminou com o público de pé gritando «Uruguai. onde existe um temor anticentris- ta. Viver hoje no Cerro Norte ou em Casabó não é nada fácil. Também há zonas perigosas. contudo. tem estado vinculada a essa mistura. Fotografia de JV milonga. Ou essa «outra» Montevideu mais des- conhecida ainda que é a Montevideu rural. nessa voz feita de tantas vozes de Laura Cabrera. Contaram-me que. cantou-a. proibidas. Mas também há que tê-la de mais perto. jazz. de ofertas. por exemplo. bolero ou Praça de la Constitución. essa «outra» Montevideu que está «por detrás do Cerro» e que quase sempre evitamos visitar. Ali entra rock. com esse olhar interrogo-me até que ponto alguém que atravessa diariamente uma Montevi- deu muito circunscrita. O Cerro permite essa visão ampla Um território carregado de surpresas. mas montevideano. E muito bem. nas suas melhores versões. Gosto particularmente de Jaime Roos. não mediante o simples «remendo» de adicionar ou fundir. Temos de aceitar também algumas oportuni- dades que este tempo novo nos oferece: podemos chegar facil- mente a lugares aonde antes não chegávamos. Creio que é por isso: porque um génio da mistura comove. a genialidade da mistura. murga. em Leo Mas- liah. em Fernando Cabrera. A mais montevi- deana possível. autocarros. por- . «à montevideana» ou «à uruguaia». por exemplo. CIDADES INVISÍVEIS 44 45 Eu sempre gostei de contemplar Montevideu a partir do Cerro.

Há exemplos admirá- veis dessa mistura: quem não se recorda do que foram «Totem» ou os Fattor uso. com essa outra Montevideu das intersecções. jazz. uma Montevideu da mistura do negro. Pois bem. porque projecta um microcosmos. no nosso caso. A música é um produto cultural maravilhoso que expressa. uma sociedade. ao mesmo tempo. sobretudo. candombe. Mas. nos anos sessenta e Ali entra rock. por ser de qualidade. mas que carrega enredos que são universais. pode atravessar fronteiras. de Dino ou de Ra- da? Como pensar Montevideu sem a sua voz? Um produto tipi- camente montevideano e que. Tradução de JV . do moderno e do pós-moderno. um relato enraizado num lugar. e ele respondeu de uma maneira muito singular e muito sábia: «é uma salada com um gosto es- pecial». numa esquina. com a construção da «candombe beat». bolero ou milonga Mateo. do popular e do «culto». numa rua. setenta? Ou a poesia de murga. talvez melhor que qualquer outro. do tradicional. E. talvez a verdadeira Montevideu seja também essa: «uma salada com um gosto especial».que ali há um produto microcósmico e cosmopolita. Um dia perguntaram a Jaime Roos qual era a identidade dos uruguaios. que – repito – me parece ser o desti- no de Montevideu.

Charque e mate. Face verde do Tempo.. Riso verde do Tempo. Coxilhas arredondadas. poeta gaúcho . «Paisagem» de Sílvio Duncan. de tanto comprimento. Pedra. Tentos de couro cru. Terra fechada a corações estranhos. Boleadeira e abraço. Terra encaroçada de glória. Tempo com risco escuro dos caminhos. Correnteza. Pedra de olhos minerais. Cofre bruto da esperança crioula. Balsas aborrecidas.. Cheiro bom de mistério. Barqueiros que surgem do ventre das águas. Juntas de boi. Cara verde do Tempo. Tiros de laço. girando ao som do eixo das carretas. cuspindo água das enchentes. empolada de casas. seios nutrindo a gauchada. OUTRAS INQUIRIÇÕES 46 47 Tão largo e tão íntimo Luiz Antônio de Assis Brasil Cara verde do Tempo. Pedra cheia de fendas. carícia do passado. frêmito. Gosto amargo de sangue. entupida de macega. Rio grosso. Carreteiro.

impõe-se com forte presença mas- apenas um espaço geográfico e econômi. alguns traços de nossa literatura. na Dinamarca ou na Ale. instituição universal. cundante – no caso. comprar. De. É claro que estamos ante rio pleno de metáforas. e há. e enorme contingente de analfabetos. somos verdadeiramente sim. nuano que vem das planícies do Sul. pois não apenas reflete o pampa. e são inegá- pa-cidade. dade. há cidades derem-se as gerações e as fases da Lua. ções interpessoais e com sua cultura espe- Palavras como estas não teriam sentido cífica. aumenta seus segredos. Grande saúda com esperança o vento Mi- dade explicaria. do Sul da veis. Nessa perpectiva – digamos. como temos o seguinte quadro: a cidade. e onde neris. a nós da cidade. Nesses países. e isso ocorre nos núcleos ur- Continente. lantes é uma doce entidade feminina (la -moderna –. a ver suce- vido à sua formação histórica. tralidade. mas enquanto elemento mo objeto de rentável curiosidade turística de uma realidade maior e fortíssima cir- e de investigação antropológica. o pampa. A questão que me pergunto é: em que Na América do Sul. e não podemos ignorá-las. Ali. co. deve navegar por seus pestre apagaram-se. ainda segundo Carpen. porém. de existência lírica e uma condição muito especial. Então teiro o século atual. a cidade age também como de manha. especialís. vale invocar uma frase gar de encontros amistosos e do MERCO- de Alejo Carpentier. do Nesse espectro de início de mundo. território da liberdade. à terra. de pradarias. na nossa Latino-América. acaba por . sim. os media e os meios eletrônicos de comu. que alimenta o gado. Se lembrarmos. que ainda não ultrapas. só podemos concluir que o banos –. o pampa –. instituindo-se em territó- te. onde as barreiras entre a cidade e o caixa de ressonância do pampa. uma vez que O pampa nos cerca. a cidade. tomando é uma inverdade falar em acesso geral a mate em frente ao galpão. mas sempre imóvel e soberano. pliando-o. Derivada quase sempre da atividade breza e da falta de educação básica que rural – afinal era preciso vender. Em que pensará? ficas. ao entardecer. Dizia ele que na Amé. didas nas lonjuras. experimenta a maioria dos habitantes do administrar. rica Latina convivem todos os séculos. aqui nesse extremo Sul. pós. e vice-versa. es. Mas não só o poeta: mesmo o peão sima. lu- quietante conclusão. de guerras ferozes no passado. lógicas mais felizes – o natural do Rio saram o período neolítico. falar do passado da Amé. que vivem na era atual e há regiões. a começar pela ambiva- instituindo padrões globalizados de pensa. ças lamentavelmente existem. na qual é de estância vê com os olhos da alma o pasto evidente que nem todos os bens da civili. as formas genuínas de vida cam. com essa presença cheia do mistério de que nicação vêm diluindo as especificidades e fala Sílvio Duncan. não estudado. brasileiros do Sul (o pampa). mas sui ge- campo há muito foram eliminadas. as diferen- medida ainda é válido falar na díade pam. sem constituir-se em ambiente cultural Esse caráter epiceno. por exemplo. conhecemos bem sua zação estão disponíveis para todos. surge a ci- degradada saúde e da constrangedora po. como sabemos. dor de fronteiras. da como um estalo de civilização. suas complexas teias de rela- mas certamente longo. com seus afazeres. o pampa chama-nos à ances- rica Latina também é falar de seu presen. pois le- tier. Em sua majestosa amplidão histórico: afinal. cidades cercadas de pampa. e resistem apenas co. culina para nós. e tragédias. suas antipatias inalterado por um período incalculável. em que medida nós. a cidade acaba por desenvolver vida modo de ser rural tenderá a manter-se própria. lência de seu gênero: se para os hispanofa- mento. va embora as tempestades e traz de volta o pecialmente o prestígio do romance dito céu cristalino. o pampa logo passará a ser pampa). como símbolo ainda distinto e autônomo da cidade. Aqui há América do Sul. com as vistas per- todas as conquistas tecnológicas e cientí. e até por sua algum na Bélgica. am- o habitante do interior pode viver por in. da no pampa. SUL hoje. irreal. mas também o estiliza. Dilui- Para podermos refletir sobre essa in. Essa singulari. ocorrem as mutações meteoro- mesma América. próprios códigos. origem. e que silenciosa imagem.

Mais do que nas outras onde se defronta com o ícone de seu ascen- expressões: se pensarmos nas artes plásti. Em Jorge Luis Borges. De acordo com o subtexto (ou. lico. da cidade cercada pelo pampa. o que apazigua. Carlos Reyles e José Enri. Já outros não se sentiram cha. tencial e um estar-no-mundo. mais do que as suas carac- que Rodo. do ossos – um bibliotecário –. vivemos a Esse conto é bem representativo do necessidade de freqüentar modelos estéti. re- XIX. como homens com. vemos que alguns autores esqueceram presenta a impossibilidade de fazer a união o ódio e entregaram-se ao amor. toca à literatura intimista. dentro de si uma dilacerante ambigüidade. ao que parece. algumas cidades são tocadas mais proxima. morte do final. a Sábato. como seu José Hernández e seu Martín Fierro. paradigmático «El Sur». Em que medida nós. ou ainda Estanislao de Campo e seu Fausto. as maiores. O que é certo é que não se fica indi. Domingo Sarmiento e seu Facundo. em última cunstâncias aleatórias análise. Bartolo. . em re. dica. se nos do Sul da América do Sul. sua identidade. e que o instiga a urbanas e. Ricardo Piglia e par dessas evocações campestres. antepassado. Menores. e aqui fala. Desde o for- pa. jeto estético quase metafísico. e morte heróica. diferem deste mais pela quan. Mas na literatura. como Ernesto tidade do que pela natureza. parado a um canto do balcão cas. esquecendo o amor. como um apelo telúrico. a história cifrada) é a antítese cidade-pam- cardo Güiraldes. Sua ascendência é desagregadora – por um lação ao pampa. escolhe a mais dramática das so- va as consciências. elaboram Mempo Giardinelli. com seu ar de dono da verdade. Não sabendo como resolver seando-a em objeto culto. Cir- decorre. mados a essa tarefa e. quanto um homem civilizado até à medula cos supra-regionais. do pampa aparecem transformadas em ob- assim. por outro costado provém de ferente ao pampa. sua soberania ina. vieram a elaborar um texto mais adequado mente pela presença do meio rural e. A prevista da questão. formando-se. de aos padrões mundiais. o conflito. levou a um hospital. as ressonâncias ta. pa que o destrói. quando a personagem assu- mos num período que começa no século me uma peleia da qual sairá derrotado. somos verdadeiramente Por recomendação mé- no plano emocional. sufoca. tar. um homem prometidos com a realidade de hoje. Ri. o colocam frente ao tica. cia perdida nos con- ra. dente índio. também nos bre suas duplicidades. no mundo. Com isso resgata sua condição mé Hidalgo com os diálogos de Chano y irresolvida de gaúcho e conquista seu lugar Contreras. vemos que estas são essencialmente como se fosse uma coisa. terísticas psicológicas. praticando entre esses dois pólos em que se fragmenta uma escrita ligada à terra mas metamorfo. passam ao largo ir além. tuito acidente que o tacável e irremovível. diga-se de passagem –. isto é: se dependemos do pampa licença para lembrar o conhecidíssimo e porque ele ainda nos dá um sentido exis. e aí lembramo--nos de luções: a morte. em especial no que certo modo. de uma dialé. cânones culturais – muitas vezes os impor. e mais recentemente Horacio Quiroga. E é na literatura que essa dialética tor. num bolicho de campanha na-se mais aguda.OUTRAS INQUIRIÇÕES 48 49 render tributo a essa condição. europeu. A um índio morto em antiguidade do pam. um afeto de amor e de ramo descende de um culto pastor evangé- ódio. cidades cercadas o Sul. daí que todo intelectual cultiva. Julio Cortázar. combate. para usar a terminologia de Ricardo Piglia. oça protagonista come- a inquietar-se so- fascina. uma dicotomia muitas vezes esqui. O resultado. para sua estân- mas ganha a literatu. mantém Isso acaba por gerar um certo mal-es. deve voltar para nunca é satisfatório.destino fatal. E aqui peço zofrênica. pois esta sempre de pampa? fins da pátria.

utilize por vezes da bam por ratificar to. a do centauro tos campeiros. com um dos mitos mais caros à tradição lismo cultural. Sérgio Faraco e Aldyr Schlee. e no qual há espaço para a crítica das e enriquecedora. síntese entre cidade e pampa. Crítica mais contundente ainda Em primeiro lugar. o pampa propiciou objeto apreciável em todos os quadrantes. não se intimida com servadoras. bara com os aportes drões refinados e pu. pontos em comum. a indumentária. dade. dos contos de João Simões Lopes des universais. Na bela narrativa século XIX até hoje. também como de caixa da linguagem culta. pretensiosas. Em Cyro Martins. também para isso existe a lite- de Figueiredo Pinto. te e paraíso perdido Nesses exemplos. competentes. o folclore. de la. existirem. o surgimento de uma valiosa e autêntica Assim. em geral de rimas pobres. que nada mais são de Cyro Martins. sepultos voltam para julgar toda a comu- cassa literatura. onde se nas quais o campo é a marginaliza. por isso deixam de rifica-se que a cidade e até por sua origem. diferente. mas em suas peculiarida- Juvenal. deu origem a uma transparece no romance Incidente em Antares. enquanto as diferenças evidentes desigualdades sociais. que ainda não desapareceu de mas a busca de uma convivência transitiva todo. dialetologia rural. não há lugar para as nando-se com mais Aqui nesse extremo sul. jogando ligados ao passado e tendentes ao imobi. es- sociais e familiares. rias do Coronel Falcão. daqueles decorrentes da natureza huma- berto Bittencourt Martins e da poesia de na. desapossado de seus bens. aos novos tempos impostos pela ci- claras. nos ro. qual seja. a da pelos Centros de Tradições Gaúchas.. Não se trata propriamente de uma can. de Moacyr Scliar. longe de conflitarem Neto. Já não se trata de nostal. paixão cega. fez surgir de Erico Veríssimo. e que se mantém desde o nidade em que viveram. Vargas Neto ou do epigrafado Sílvio Dun. onde o pampa ma campestre Antônio Chimango. de Erico Veríssimo. os valores dos pampas. estancieiro que não consegue adaptar-se mente no Rio Grande do Sul. tr ilhar caminhos é vista com descon. de O Centauro no Jardim. tas descrentes. nas vozes do poe. lugar a cidade age zando a palavra bár- de perfídia. do referido Aureliano Afinal. de Amaro é evocado sim. mais especifica. por exemplo. com evidente conteúdo nostálgico. . Tal produção evoca os hábi. vê-se a decadência do ratura. Ro. mas da aceitação de um estilo de vida possível decisão entre o amor e o ódio. ve. de am- literatura. a Trilogia do dentro do princípio do «antes era muito Gaúcho a pé vem chamar a atenção do cam- melhor» – e aí estão as quadrinhas des. ele e referência onipresen. ou monarca das coxilhas. perenizada e acalenta. Exami. rio-grandense. mesmo que digamos assim – aca. estabelecem com ela vários mances de Aureliano de Figueiredo Pinto. a paisagem. nem a im- gia. estas. a-crítica e irrestrita. bastante crítica é sob a forma de parábola. de igualdades. literário. vê-se que o aos novos tempos da industrialização. das as ideologias con. vem viver na periferia da cidade. os mistérios do pampa e impõe-se como Em segundo lugar. que sempre é única. se ser mitológico criado pelo romantismo etc. bos os lados das fronteiras. em que os mortos in- uma poética de forte apelo popular e es. Essa Elaborado com arte ética e essa estética – de ressonância do pampa refinada. temos obras e autores. sua família. entre outros. ponês que. com a cidade. No lado brasileiro. Nas Memó. en- pampa deu origem a duas vertentes bem fim. idealizações. vitali- fiança e medo. nem vagar esses textos.

ainda vivo. E multidões passadas me empurravam como o barco esquecido. Cecília Meireles .. com olhos vidrados de madrepérola. as guelras rubras e as barbatanas membranosas palpitando. ILHAS 50 51 Contados e pescados na ilha de Santa Catarina Maria do Carmo Campos .. cheias de peixe fresco que salta dentro. canoas a remo de pá que vão e voltam da pesca. no último anseio vão de se moverem na água. prateado e luzente. Cruz e Sousa Foi desde sempre o mar.

como Lagu- na. tira versos. costeamos montanhas. case- O mar é maior três vezes que a Terra. areia. num con- junto de duas porções. explica seu José Agostinho. tem pela frente 476 km por uma es- trada repleta de bananeiras e milharais. Fotografia de MCC . Mais ao norte. radiosa. além de infinitas lendas bres e até cidades. Antes Desterro. alicerçada entre águas e mis- térios. A travessia do Rio Mampituba já anuncia outras configurações marítimas: voando sobre Santa Catarina. surfistas e até roti- neiros. quase impermeáveis ao avistar da paisagem paradisía- ca. Magní- fica. que aos poucos se deixa entrever. pontes. Fotografia de MCC da lagoa. outra insu- lar com 424. podendo apreciar o verde recortado por lagoas que contrastam. que fazem da chegada al- go trivial. rios. trova. turistas. uma con- tinental de 12. a leste. for- mado de 12 distritos.1 km2. ela suga o olhar dos viajan- tes. mãe terra da fabulosa Anita Garibaldi. Recortado Casa Açoriana e Igreja de Santo António. sabe picadinho e fandango. que toca cavaquinho na igreja.4 km2. Quem parte rumo a Floria- nópolis de Porto Alegre. capital do extremo sul do Brasil. pescador da barra Santo António de Lisboa. com altitu- des espessas da Serra do Mar. riachos. desde 1894 o município é Florianópolis. outra ponte conduz à ilha.

junto à Lagoa da Con- dado. capaz bilro. fala do jereré tuário. Itabirá.» Seguindo velhas de Janeiro. como tinha antes». ves. ade- com sabedoria esse contador de reços. forma de coração. trova. conta do tempo deira para iniciar namoros: Atirei (branco. rosa. rios. «A vida é um jeitinho. Analfabeto. barcos. uma brinca- os tipos de camarão cação. guezais e pequenas ilhas espar. o conjunto forma um con. aos 84 anos dos aviões. boiou n’água e depois botou a cabeça de fora». confessa batas. guardador de uma sa. quadras de po em que as moças usavam sete amor em papel recortado em da Conceição saias. um homem viaja. Chile. o velho pescador lembra os Nenêm conhece poluição. tira versos. pescador. -mamão e ratoeira. do Terno de Reis. qualquer Conta do tempo gura entre o mar e a cidade. «farra do boi. caroá. Histórias do tem. distan- narrativas Agostinho. la. devolvendo-a ao seu ver. cal da pesca. saias. agulha de rede. «hoje a mulher avançou demais. peixes. «O mar é maior três vezes do tempos em que negócios que a Terra». cujo mulher pode ser bruxa se ali- centro abriga construções oito. perereca). sem esquecer outros modos de tas de embira. pondera. grande defensor da tradição po- sas. a mulher. filé e enormidade de provérbios. croché. sabe de bruxas. hoje coordenador mento. um beija-flor na sexta-feira santa. toalhas. pegar uma moça. fis- roubar a noiva na hora do casa. onde o cheiro de peixe se não havia sequer capelas. quando gia. bem anterior à televisão. rendeiras. trazen- com terra nenhuma. depois ao Rio gente a amar. Paraguai. ILHAS 52 53 por enseadas. dunas. sa/Deu no moço que eu queria». de avião. lhos e quando um cantador podia Já Seu Nenêm. praias. bar. neiro. Tive a funde com lendas como a da sorte de colher outros improvi- . praia do Itaguaçu e muitas outras goas. costume de um tempo lizado pelos canais da ilha da ma. «Sem tanta ladineza por causa dos óleos dos navios. dos às casas na noite de 6 de Ja- polis é um paraíso turístico ferti. E o peixe? pode acabar lobisomens nitas lendas. Florianó. pular. na lagoa nalmente nylon. desterro. um aviador. ticum. boi-de- evolução dos meios de comuni. da poluição que enve- canta boi-de-mamão. plantas. ver os quatro cantos bruxas. ra/mãos de fadas a rendar/ Tem Itassussé foi ao Rio Grande do Maria padroeira/ Ensinando a Sul. cadinho e fandango. também mora dadeiro amor. bruxas. pescador da barra da tes de hoje. além de infi. fei. uma cidade universitá. a folguedos. traponto verdeazulado que ful. perna-de-moça. como torrar e da pesca noturna bante. ou o Pão-por-Deus. que toca cavaquinho na mudou e «temos de ser como igreja. lagoa. recolhidas por Franklin Cascaes. bolsas. nena a natureza. promontórios. caminhos de me- histórias. Além dos 140 tipos de ren- de inscrever nos seus dizeres a das. ceição a Tenda da Vá tem blusas. mentar o mal no pensamento: em que a ilha centistas. ser bruxa é um condão. como convi. lobisomens. não tinha contato ria e centenas de empreendimen- tos imobiliários. narrativas de cristia/ Deu no cravo deu na ro- pintado. o dinheiro. morrer é um descuido». gerbo e fi. que a arrebatava da com a família na Barra da Lagoa festa a cavalo. pesca e redes. da terra». e conta dos santos que eram leva- Cheia de sedução. sabe pi. chapéus. quando o mundo de desterro. explica seu José eram pagos com bananas. Nas palavras de Agostinho. quando sua mãe teve 24 fi. em que a ilha não tinha contato o limão verde/ Por cima da Sa- com terra nenhuma. «Ai que terra tão brejei- do: pelos navios Itatinga. man.

alguns grava. igrejas e o matar toda a criação. que exposto na Casa Açoriana. . a mitidos a gerações. mes fazem reverberar em Flo- nhar/Para chegar em Belém/ rianópolis muitos ecos da he- Mas antes do galo cantar. Entre as tradições luso-brasilei- ca noturna na lagoa da Concei. o sotaque. a culinária e outros costu- desceu à terra/ Foi a pé cami. ras. artesanato. que se estabelece- do/ Debaixo da vela grande/ Vai ram nos primeiros povoamen- o meu amor assentado. Lisboa. a pesca. um camarão. dades.» Outras rança dos Açores. cessidades em Santo Antônio de indignado. com as respectivas igre- nhor. alertando sobre o desapare. renda. as graças junto à Igreja das Ne- rer um siri. As tramóias ilhoas. Lagoa da Conceição e Ribeirão dos Quando eu sou feliz ou Santo é o Se. Nenêm conhece os tipos de jas. madeirenses. artes e colhem um excesso de peixes. usam tarrafas de mini-saia». tesouros da oralidade trans. a fala acelera- dos hoje em CDs: «Santos Reis da. perereca). os enge- ção. da Conceição e da Lapa. fortalezas.» Íntimo tos de Santo Antônio de Lisboa. nhos de mandioca e cana-de- cimento das espécies: «Querem -açúcar. não respei. implantada quadras celebram a pesca e a na.sos. pintado. entre 1748-1756 com a chega- vegação: «Lá fora naquele da de 6000 açorianos e alguns mar/Vai um barco embandeira. sediada com todas crianças de amanhã podem que. da Ilha. rosa. de baleeiras e de barcos apelida. Nossa Senhora das Necessi- camarão (branco. concentrado no ima- tam as balizas nem a desova e ginário e nos motivos da ilha. fala do jereré e da pes. ainda o casario. repete. A religiosidade.

Madrid. ALTAS SOLIDÕES 54 55 Popocatépetl O monte que fumega Antonio de Solís. 1684 .

publicada com a autorização da senhora Clara Aparicio de Rulfo .Vulcão Popocatépetl. Fotografia de Juan Rulfo.

acharia pegada de humano pé. repa- sobressai consideravelmente sobre os outros rando naquele rude conhecimento que montes. Espantaram-se os índios de ouvir se- que levava consigo. perdendo a força no licença para reconhecer de mais perto o vul- alto. para que se derramavam no ar e não voltavam a cair vissem aqueles índios que não estavam ne- no vulcão. tentava dar-lhes a entender os mo. quando de. Começou naquela altura a turvar o mostravam da imortalidade. mas que daí em diante não se que duravam segundo o seu alimento. deu-lhe licença para tentá-lo. panhóis. segundo a porção de cinza dade. e seriam as se atreviam a visitar algumas vezes umas er- pedras em brasa que o vulcão arremessava midas dos seus deuses que estavam a meio ou alguns pedaços de matéria combustível da encosta. do Sobre este delírio da sua imaginação es- alto do sítio onde então estava a cidade de tavam discorrendo com Fernando Cortés. tão rápido e violento que subia a direi. procurando infor- quando. normalmente o acompanhavam. longo espaço no ar. até que. algumas má-lo do perigo e desviá-lo do intento. prémio e casti- dia com grandes e espantosas vagas de fu. entristecia-os e atemorizava--os ma dificuldade que o encareciam. Tlaxcala. misturadas com o fumo. . e Fernan- como presságio de males vindouros porque do Cortés. nem eram Não se espantavam os índios de ver o sofríveis os tremores e bramidos com que a fumo por ser frequente e quase vulgar este montanha se defendia. no cume Magiscatzin e alguns daqueles magnates que de uma serra que. e ele.» Diego de Ordaz in- vulcão. oferecendo-se para subir ao alto da ser- as partes e formava uma nuvem mais ou ra e observar todo o segredo daquela novi- menos escura. se deixava espalhar e dilatar por todas cão. o vulcão de Popocatépetl. zeloso a todas as horas da sua re- quando estavam indignados. distante de oito léguas. eram as almas dos tiranos que gados os seus impossíveis à coragem dos es- vinham castigar a terra e que os seus deuses. mas o fogo. que se manifestava pou. go das almas. sem ceder aos ímpe. Descobriu-se. quando entrou Diego de Ordaz a pedir--lhe tos do vento. Saíam. confusão entre os índios. ainda que o tivesse por temerida- tinham aprendido que as centelhas. erros em que traziam desfigurada a verdade. cendiou-se mais no seu desejo. to. di- labaredas ou globos de fogo que pareciam ziam: «que os mais valentes da sua terra só que se dividiam em centelhas. de quando em melhante proposição e. valiam-se deles putação e da de sua gente. com a mes- cas vezes.ALTAS SOLIDÕES 56 57 Ocorreu nessa altura um acidente que como instrumentos adequados à calamida- foi novidade para os espanhóis e lançou a de dos povos.

mais tarde. servou uma grande massa de fogo que pare- dos os lados. finíssimo enxofre para fabricar esta muni- tante. O monte é muito deli. necessário o arrojo de Diego de Ordaz e a ria de la conquista de Méxi- za. mas o tempo fê-la conse- aposentos das ermidas. depois. Regressa- ao perigo pelo deleite. animou-os a avançar e chegou corajosa- nhas da sua morte. conocida por el nombre za tão espessa e tão inflamada que necessita. Acompanharam Diego de Ordaz. lá em que o imperador o premiou com algumas de la América Septentrio- cima. suaviza o cente e reparou no tamanho da boca que caminho com a sua amenidade. población y progresos o ar. alguns índios principais que se ofereceram vendo que acabava o terramoto. . dois soldados da sua companhia e quiseram regressar. aformoseando-o. mercês e enobreceu a mesma facção dando. Madrid. Esta bizarria de Diego que branqueia também. tima pelos espanhóis. bro dos índios que resultou numa maior es- ra ou o fogo perdoa. e Diego de Ordaz quente e tudo servia nesta obra. e caiu sobre os três uma chuva de cin. e parte com a cinza. so. Histo- quantidade de fogo envolto em fumo e cin. quando chegaram a pouca distância do brou Cortés dos fervores de fogo líquido cume. e ouviram os a quantidade de que houve necessidade de bramidos violentos do vulcão que. partiu com os seus dois soldados. então. Tradução de MGMV IV. lasti. o exército com falta animadamente pelos penhascos e pondo de pólvora para a segunda entrada que se muitas vezes os pés onde estiveram as mãos. com grande assom- todo o ano nas paragens que o sol desampa. nal. lhe por armas o vulcão. trepando achando-se. que se mi- para chegar com ele até às ermidas. tigava o estrondo e o fumo saía menos den- mando-se muito de que iam ser testemu. mas Diego de Ordaz. ram com esta notícia e receberam felicita- zando a terra. III. com o que se tornou recomendável e Excerto de Antonio de Solís. de Nueva España. pois. se lem- mas. Vai-se depois esterili. ram de se esconder no côncavo de uma pe. Ficaram os índios nos sidade temerária. disparou com maior estrondo grande ção. 1684. com a de Ordaz não passou. fez por força das armas no México. por to. sentiram que se movia a terra com que se viram neste vulcão e achou nele toda violentos e repetidos vaivéns. de uma curio- oposição do fumo. dilatou-se na transversal. e ainda que subisse direito sem aquecer notícia foi de tanto proveito na conquista co. parte com a neve. ao longe. Lib. nesta nha onde faltou o ânimo aos espanhóis e facção. que dura ções pela sua façanha. mente à boca do vulcão em cujo fundo ob- cioso no princípio. Cap. e ao que ocupava quase todo o cume e teria um parece com enganoso divertimento levam quarto de légua de circunferência. num ins. um arvoredo frondoso que. cia ferver como matéria líquida e resplande- subindo largo trecho na encosta.

Arquivo do Campo Arqueológico de Mértola . o grande rio do Sul Cláudio Torres Porto de Mértola com o "gasolina" que fazia a carreira para Vila Real de Santo António. RIOS PROFUNDOS 58 59 Guadiana. Finais do século XIX.

Anos 40 do século XX.Cais de Mértola onde estão fundeados os buques de transporte de adubos para os campos de pão dos barros de Beja. Arquivo do Campo Arqueológico de Mértola .

da mineração. di- lões da serra da Adiça. No seu percurso. frutos secos e lingotes de prata e chumbo A navegação e a construção naval co. anos. nessa altura. Por outro lado. começaram a subir o rio ros orientais (fenícios?) a chegar a Mértola. Todas as embarcações da . o porto mediterrânico também aqui chegava ao fluvial de Mértola. Estes monumentos epigrafados. não deixar esquecer. e nas terras chãs que bor. Começara o primeiro grande ciclo Há cerca de três milénios. bem canias de Grândola. quando nas redondezas pare. e os mais recentes. cartagineses e romanos. parecem datar do profundos seriam muitas vezes uma última século VII a. aparente- alternativa de sobrevivência. de os primeiros agricultores neolíticos até ao quem receberam o alfabeto e a escrita.. as gregos. ocaso. o coração da Cultura do Sudoeste ção para as primeiras comunidades de caça. caíques e canoas – que até aos nossos dias animaram o grande rio – traziam brocados e especiarias de Tunes. gaditanos. aproximam-se dos alvores da roma- Pulo do Lobo. pelo suas águas ainda correntes e os seus pegos menos os mais antigos. sucessivamente. frar. nos chamados chapéus de ferro.C. ou bolinando agilmente contra os ventos traiçoeiros. está gravado em caracteres fenícios e cia ter definhado toda a forma de vida. escondidos. explorada um pouco mais a norte. alguns outros de ouro e prata. de certa ram-se desde muito cedo um pólo de atrac. Siracusa ou Alexandria. que é certo é que os clássicos greco-latinos mercial das vilas romanas. O ouro era recolhi. seriam indígenas pelo dejam o último troço fluvial é notória uma falar.C. porém já em contacto com as grandes densa e continuada presença humana. nos chamados Terraços do nização. rotas comerciais. desde civilizações do Oriente mediterrânico. nho tão necessário ao fabrico do bronze Durante este longo período. os antepassados dos barinéis. Cobrindo uma área con- enorme bolsa alimentar era não só incon. acompanhando mineiro do Guadiana. zado Ocidente como um local onde o ouro meçaram a surgir durante os primeiros corre sobre a terra aquecida pelo Sol no seu contactos com as rotas do Mediterrâneo. ouro. Domingos –. RIOS PROFUNDOS 60 61 As águas fecundas do Guadiana torna. esta vilizações ibéricas. que produziu uma das mais enigmáticas ci- dores-recolectores.. Barcas de todos os calados afloramentos metalíferos da faixa piritosa desciam o Guadiana com os porões carrega- que se estende da serra Morena até às cer. forma. couros e pelicas. O sistema agro-pecuário de exploração co. era o centro onde ta que ligava o Noroeste da Península aos convergiam os caminhos terrestres e fluviais portos de Sevilha e Mértola. numa língua ainda por deci- tes estiagens. Durante mais de mil as marés que diariamente invertiam o sen. foi assinalada a presença do ho. desde o século VII a. navegável do Guadiana. gladiam-se pelo controlo dos portos e das do à superfície. que estas pedras tumulares pretendem mem paleolítico. começam a referenciar o longínquo e miti- A favor das marés. com os primei- tido das correntes. levando carne fresca. os primeiros forasteiros em demanda da até ao século IV d. as grandes explorações mineiras de Vipasca vam nas serranias circundantes. abunda. siderável da Serra Algarvia. Os prospectores ou comerciantes de Guadiana.C. O troço final do Guadiana foi. A prata era (Aljustrel) e de S. como matriz de muitas e variadas das várias dezenas de estelas funerárias em civilizações. A montante do mente. dos de lingotes de chumbo e cobre e. o esta. – quando se encerram prata e do ouro que. foram encontra- tornável. nos fi. Durante as longas e inclemen. marcando o fim do troço longo de uma das derivações da Via da Pra. que o epitáfio.

Porto do Pomarão com alguns mineraleiros fundeados antes de seguirem viagem para Inglaterra. Arquivo do Campo Arqueológico de Mértola . Anos 3O do século XX.

do Montinho das Laranjeiras e do a integração de Mértola e Tavira nos territó- Álamo.. apenas algumas cidades. centro político e económico finais do século III d. continuaram a subir A partir do século II d. mente a do Gharb al-Ândalus. frutos secos e lingotes de para irrigação e os seus embarcadouros. Ao longo do rio. imprimindo uma nova dinâmi.C. Beja era já a capital de um vasto Conven. mediterrânica da cidade-Estado. caíques e canoas – que até Sul. atingiram certamente o seu máximo ex- Depois das convulsões sociais que. Enquanto dores ligados ao Mediterrâneo e ao Próximo as saídas para o Atlântico em Sines ou Alcácer Oriente. mantendo em grande contra os ventos traiçoeiros.C. e especial- tus. a partir do século meçam a entrar em decadência as grandes IX. sobretudo. azeite e trigo que pesados carros e ré. já cidade municipium desde cela. agitam todo o Impé. abicavam no areal junto à mo nunca foram interrompidos. Durante os quase cinco séculos de eram dificultadas por um mar sazonalmente integração na civilização islâmica. em outro extremo a cidade de Tavira e que ser- detrimento dos centros urbanos. com especial era o termo de um corredor que tinha no incidência nas terras fundas do Alentejo. Serpa. onde a descoberta de um serve de cabeça à Ordem de Avis. ou bolinando agilmente portância económica. racusa ou Alexandria. Mértola é durante uma centúria a sede desta Estado mantêm uma certa vida urbana. vai consoli- nho. à vela e a remo. junto No segundo quartel do século XIII. o Guadiana.RIOS PROFUNDOS 62 63 época. zona de fronteira e entra em decadência. Aroche e Aljustrel.C. logo a seguir.. Porta da Ribeira onde eram calafetadas a Se. um vasto território que incluía as cidades tido de uma pré-feudalização. des- A partir do século V d. e o castelo de Castro Marim caso de Mértola. não perde a sua im. -se as grandes e luxuosas villae. dependente e. alimentando a cuas de muares depositavam durante quase prosperidade de uma sociedade de merca- todo o ano no porto de Mértola. sem qualquer re- . com a Mértola.. em pleno apo. esperando embora a culos VI e VII. quenas villae agrícolas com as suas barragens couros e pelicas. aos nossos dias animaram o grande rio – pícios à plantação de um pomar ou de uma traziam brocados e especiarias de Tunes. ção do Sul da Península Ibérica. a grego não só comprova a existência na ci. caso da Bombeira e Barranco da Vinha. a vida muito agressivo. É o prata e chumbo. Ayamonte. Moura. nas imediações de Alcoutim. com mais razão se nota o incre- devido a uma quebra na produção local. a islamiza- neo. gação pelo Guadiana e o comércio maríti- rigosos baixios. durante estes séculos mais obscuros seco antes da viagem de regresso. activa durante os sé. As praças de África. mento mercantil quando. as rotas internacionais e a segurança dos minas do Sudoeste ibérico. mares são asseguradas pelas esquadras do Entretanto. multiplicam. dar as autonomias regionais. em todos os locais pro. vor das marés. de Beja. com a exploração com as suas velas latinas e duas fiadas de re- de outros filões mais rentáveis e certamente madores. O porto de via os pequenos portos secundários de Ca- Mértola. pelo contrário. É o Ordem Militar. rios da Ordem de Santiago. Mértola. cidade-porto de ca de ocupação e exploração da terra no sen. da história do Ocidente. os antepassa- actividade as suas relações comerciais com o dos dos barinéis. levantam-se nessa altura grandes e pe. de um principado que várias vezes foi in- rio Romano. desmembrado viado dos circuitos do Mediterrâneo. fluvial. florescente mercado agrícola dirigido ao De certa forma continuando a tradição abastecimento das metrópoles do Mediterrâ. Sanlúcar e Alcoutim. co. As suas terras férteis produziam bom vi. Si- vinha. passa a o Império e dificultadas as ligações terres. o Guadiana os rápidos dromons bizantinos geu do Império Romano. o Guadiana. como nos sugere que a nave- praia-mar para o atravessamento de dois pe. mercantil e a navegação sobre o Guadiana permitia uma navegação quase permanente. tres e marítimas. conjunto de lápides funerárias escritas em A conquista de Ceuta e. de Alcácer Seguer abrem para o Guadiana dade de uma próspera comunidade de um novo e fugaz período de intenso tráfego mercadores orientais. em poente. levando carne fresca. porém. A fa- os tempos de Augusto. desenvolvera-se um novo e novo poder da Córdova emiral e califal.

Domingos transformam-se nas maiores do go datada de meados do século XIV. multa. praticamente das terras do Sul e também o estertor da úl. passou a incorporar anos de civilização em que o grande rio foi com arte e saber o pequeno esqualo de fe- razão e matriz. nesse senti- rante cerca de cem anos. formando um complexo e equilibra- proximidades de Mértola obrigam a um do sistema de exploração piscícola que ape- transbordo para navios de menor calado no nas nas últimas dezenas de anos começou a fundeadouro da Mesquita. os roncos solenes dos vapores e mi. se esgota o último ciclo da história brepesca de juvenis são. poluição orgânica provenientes de uma É neste porto. Es. o Guadiana é inte. Restam alguns pescadores bras macias e textura óssea semelhante. cente. Curiosamente. que levou à forma indirecta rende homenagem ao so- falência a carreira fluvial que fazia o percurso lho. mas principalmente pirites cupríferas. Fora lançada so. com uma população operária que atin. devido ao seu preço alimentar a revolução industrial europeia. Foi o grande desastre ecológico Na memória regional. na região de Beja. que dera fa- go. dependiam da feitoria que teimosamente ainda retiram o seu sus- de Sevilha. recto aos portos ingleses. introduziu e generalizou a coando manganés e chumbo – sempre com utilização de redes com malha fina que tu- alguns lingotes de ouro e prata à mistura – do apanham e destroem. gadas de adubos e fosfatos. agricultura intensiva. com a dilhas de caniço ou redes de tresmalho – crescente utilização de pesados galeões no foram aqui criando raízes ao longo dos sé- transporte de cereais. em épocas bem distan- nas de milhares de toneladas de minério tes e quando aparentemente era ainda im- embarcaram no Pomarão com destino di. sob pena de num sinuoso caminho-de-ferro que desem. a apanha ilegal do mexão ou angula grado na grande malha internacional que vai que nos últimos anos. com certeza. A As artes da pesca – seja ao arpão. que. do. tem sobrevivido teimosa- Com o encerramento e abandono das mente uma tradição culinária que de uma minas de S. à fal- vio rodoviário do transporte de adubos e tri. causas principais. Trata-se da até Vila Real de Santo António. entrar em colapso. numa postura da Ordem de Santia- S. ex-rei do grande rio do Sul. em todo o Alentejo. Domingos em 1965. As velhas minas de eis que.taguarda territorial. É de destacar. era or- país. ta da carne branca do esturjão. especulativo. corridos das explorações mineiras e a so- centos. e a espécie visada é o solho (es- Desde os primeiros sinais da Segunda turjão) que nessa altura e até à primeira me- Guerra. As estradas romanas e do o peixe apanhado no Guadiana com um medievais que encaminhavam os metais para peso inferior a três quilogramas fosse obri- o porto de Mértola concentram-se agora gatoriamente lançado à água. nosso país. portanto. tade do século XX era uma das principais ri- neraleiros abrem caminho entre as longas fi. Há cerca de 40 anos foi pescado o úl- bre as terras esqueléticas do Baixo Alentejo a timo solho do Guadiana e actualmente es- campanha do trigo. denado aos pescadores de Mértola que to- ge alguns milhares. pensável o perigo da extinção de espécies. as naval do Guadiana. e com o des. com clara dominante tima grande navegação sobre o Guadiana. em meados de Oito. quezas alimentares do rio e. alentejano que embarcava em Mértola. boca no porto mineiro do Pomarão onde as Esta será uma das primeiras medidas vagonetas descarregavam directamente para coercivas de protecção da fauna piscícola do os porões de grandes cargueiros atlânticos. A partir dessa altura e du. os metais pesados es- sante de Mértola. os outros migradores como o sável. duplicasse. mas sobretudo do pão tento de umas águas cada vez mais poluídas. em frente do ac. cime protegido enquanto juvenil. é certo. saborosa e insólita sopa de cação que. foi encerrado um ciclo de milhares de ma à sopa de solho. arma- partir de meados de Quinhentos. só muito adubo permitia que a semente e a lampreia. . Depois de uma primeira tão em vias de desaparecimento acelerado colheita promissora nas encostas desbrava. As variadas formas de tual Pomarão. quinze quilómetros a ju. a saboga das. os vaus e baixios das culos. espé- las de canoas que subiam o Guadiana carre.

A BIBLIOTECA DE BABEL 64 65 Biblioteca do Real Paço e Convento de Mafra Maria Margarida Montenegro .

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História de Portugal los da monarquia absoluta em Portugal e re. frade tes deslocações a Mafra e sua Tapada. nomes próprios. que são normas a defender ainda hoje. e no meio aonde ainda tário do Convento. ou de pessoas devotas. ao centro da fachada referido bibliotecário escolhido o hemisfério nascente. foram os frades daqueles por que um autor foi mais conhe- franciscanos substituídos pelos cónegos re. vestigação nesta Biblioteca... como os Países Baixos. o Real Edifício engloba também um Paço conhecemos hoje. João V. trabalho de Frei João de Santa Anna. alienasse ou comutasse livros das tão diversos como História Religiosa. em Com uma planta em cruz. havia lhante a Casa»2. E o que no inven- branca e vermelha. Botânica. ção para distinguir autores homónimos. com excepção do Marquês de Pombal. exe. cuja riquíssima alcatifa ção de livros. em ramos do saber de que tratam os livros de que se dizia: «Para que em todos os Con- cada estante»1. que o dito Capítulo. o princípio do sobrenome adquirirem o que de melhor e mais moder. ventos possa haver quantidade de livro. franciscano que aqui foi bibliotecário a par- D. cido: a adopção de elementos de identifica- grantes de S. Zoologia. Congregação mandar. de preferência aos no fosse publicado. Norte para os temas sagrados e o hemisfério Para esta sala encomendaram os cóne. não poderá ser eleyto Prelado é uma prova bem autêntica do grande âni.. generoso mecenas e amante tir de 1810 e que elaborou um imenso ca- das ciências e das artes. para além de não se . como palavras de ordem. ou é mais rico e precioso se acha também pe. Foi durante este período que se pensou A arrumação de todo o acervo literário reunir aquelas duas livrarias numa só sala obedeceu a critérios cosmológicos. etc. veja-se o interesse e o cuidado o projecto das estantes. ao estilo rocaille. foi o chão de tijo. dum bibliotecário português do séc. de Ao tempo de D. Medicina. e da Europa. das esmolas indifferentes. a sob pena de excomunhão. sobre o Cruzeiro uma abóbada de estuque o que lhes é necessário. José I para fazer mais bri. não leve a ditta addi- dra preta e amarela. uma determinação da Ordem que proibia. ria situadas na fachada norte. flexo do esplendor do Rei Magnânimo. Sul para os profanos. tendo cada Este catálogo revela ainda enorme actua- uma o seu bibliotecário e funcionando as. que ca- cujo fecho é rematado por uma máscara re. postos pelos monges no enriquecimento da cutadas em madeira do Brasil. do primeiro sobrenome. rentes naquele âmbito. encarregues de instruírem e do-se a este: «. ceram cerca de 21 anos. encimadas colecção e conservação das obras. referin- França e Itália.».A BIBLIOTECA DE BABEL 66 67 O Convento de Mafra é um dos símbo. foi fruto do laborioso que acolhia a Família Real nas suas frequen. Síntese do saber do Século das Luzes.»3 mo do Sr. mandamos.. tal como a co. Geografia e Viagens. nha o Rei emissários nos principais centros Raul Proença. que aqui permane. A confirmar ainda estes princípios. Direito Civil. nos três annos seguintes. da hum dos Prelados locaes em o tempo de presentando o Sol. & estudem. José e por determinação preferência a todos os outros. Rei D. Direito bibliotecas conventuais. A organização das obras. tal como por medalhões onde deveriam ser pintados ficara estabelecido nos Estatutos da Provín- «os bustos dos homens mais ilustres nos cia de Santa Maria da Arrábida de 1697.to Agostinho. Construído para a Ordem de S. lidade pelas suas regras catalográficas que ul- sim como duas bibliotecas independentes. instalada em duas casas da livra. Canónico. XIX. que melhores colecções de obras impressas do ainda hoje constitui uma das bases da in- seu tempo. reuniu aqui uma das tálogo manuscrito de oito volumes. tendo o situada no Piso Nobre. ou leira substituído por «xadrez de pedra azul. seu Convento. diz. seu governo procurem pôr livros novos no Ainda neste período. trapassam em muito os conhecimentos cor- Para enriquecimento dessa colecção ti. destaca-se que os Religiosos se apliquem. que qualquer fra- Casa da Livraria abrange obras de assuntos de desse. Francis. gos ao arquitecto Manuel Caetano de Sousa Aliás. nas suas Regras de Catalogação livreiros da Europa.

verdadeira biblioteca enciclopédica. ou La Galerie Lisboa. entre outros. à matemática. de cerca Sendo desde sempre ob. A rum de Dionísio de Halicarnasso. A Histó. Nas diferentes temáticas deste acervo. a 1.poderem emprestar obras sem o recibo da faz ainda parte um importante núcleo de sua entrega. como a história Nacional de Mafra. João José Baldi. prínceps da célebre Crónica de Nuremberga de natural. por Ano de Biblioteca Nacional de Paris possui outro ria da América Portuguesa de Sebastião da Rocha 1819. reti. ou a outrem permitissem retirar. compreen. s. da Real Livraria de Cícero. as Opera história sistemática do Brasil. o Theatrum de Portugal nas cinco tante intensa. de qualquer estado ou condição. enciclopédica. que nesta biblioteca.ª edição de Antiquitates Romano. por exemplo. um esse Novo Mundo recém-descoberto. apenas em nenhum tempo de modo nenhum. livros. XIX. a colecção de incunábulos (obras im. como Marcos Portugal. 5 A. ou p. etc. pela sua rarida. co. etc. referida conhecimento reflectem territórios onde Portugal mar- por Frei Cláudio da Conceição de uma forma ou cou a sua presença. todas tas ciências. geografia.. rassem. Descobrimentos foram a causa e o efeito do Nacional de Mafra. já que os blioteca do Palácio vários códices também iluminados. dispor de um o efeito do avanço cartas ptolemaicas. critas para os seis órgãos da Basílica. para que os mande tida não só nas estantes temá- verdadeira biblioteca concertar»5. de todas as ciências uma compilação de cartas de cio Nacional de Mafra. espanta-nos a actualidade do pensa. A descoberta dos Novos Mundos. vraria. Orbis Terrarum de Ortel. to. dirigida à Li. . novidades e surpre- nos seus Estatutos ser obrigação do «ne. trodução ao Catálogo pressas até ao séc. tem tam. mos. já de 1570. Ferrand de Almeida. é natu. destacaría- VIII. merece ainda referência as áreas do de literatura de viagens nos uma oficina de livreiro. ção de manuscritos. que. à botânica. como no núcleo dos. Ferrand de Almeida. vraria de Mafra. fazendo A Biblioteca do Palá- precioso acervo. impressa naquela cidade ainda a História Natural de Buffon que reflecte 4 Guilherme de Assunção. partituras de autores portugueses e estran- Esta determinação foi reforçada por geiros.partidas do mundo. 17. foram a causa e porque abandona as antigas 1 A. cuja actividade foi bas. Pitta. sem licença do rei de Por. Mafra. com gravuras de todo o mundo representan. des.d. p. que mento da Ordem de S. obra profusamente ilustrada 2 Frei João de Santa Anna. datadas de 1472 e de que apenas a mo também as gentes e os costumes. os costumes dos indígenas. que tugal. 18. como as Orationes de do as cidades e as vilas mais importantes. podemos ainda destacar um significativo viar ou emprestar. à física. J. aqui podendo ser executadas. quaisquer impressos ou manuscritos atesta a importância que as Descobertas e nela depositados»4. sas em todas as áreas científicas. desde a cessario para a sua conserva. ao referir traz consigo revelações. Ma- bém considerável interesse histórico a colec. ticas ligadas directamente a es- Para além destes cuida. encontra-se assim reflec- lado. Francisco. Ferrand de Almeida. à medi- ção: dos que estiverem de. no ano de 1493 por Anthoni Koberger. Dos manuscritos desta Casa da Livraria avanço de todas as ciências. no seu Gabinete Histórico Tomo de outra uma marca Neste âmbito. dido entre os séculos XV e autores da época. A Bi- Livros de Horas iluminados do século XV e tugal nas cinco partidas do mundo. que é considerado o jecto de tanta atenção. uma bula do Papa Bento XIV. Hartaman Schedel. 1944. exemplar. Uma Bula do Papa dos maiores editores do tempo. abrangendo Biblioteca do Palácio Omnia de Homero. É curioso notar ainda que nesta Biblio. de onde se destacam.que os Descobrimentos primeiro «Atlas moderno» ral que esta Biblioteca possa. desviassem ou emprestassem da li.É curioso notar ainda cina. ainda hoje. núcleo dedicado a Geografia e Viagens. as Viagens a elas associadas tiveram naquela Também em relação à conservação dos época. Bento XIV para a Bi- Embora em número limitado. também uma edição não só a vertente política. Agréable du Monde. XV). de Sousa.. teca. Algumas delas foram expressamente es- soas. «proibindo a todas as pes. blioteca de Mafra. uma das primeiras tentativas de uma 3 A. das as áreas do conhecimento reflectem de fra. In- de. de que se destacam os uma forma ou de outra uma marca de Por. sencadernados avisará o Pre.

A INVENÇÂO DA AMÉRICA 68 69 Chegada de Fernando Cortés a Vera Cruz. 1951 . mural na parede oriental do Palácio Nacional da Cidade do México. Diego Rivera.

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Diego Durán. 1579 . A INVENÇÂO DA AMÉRICA 70 71 A turbulência da conquista Maria da Graça A. Historia de las Indias. Mateus Ventura A angústia de Montezuma perante um presságio.

traduz não só a diver- mercadores. enquanto estes notória. sobre o processo de lado do mar. em vez dos «temores de guerra». negros. 1579 ra os incas. sincera admiração por ro. Amparados por um deus navegador e bispo de Michoacán. Ou Viracocha. deste modo sublime e cruel. hereges. culturas dinâmicas e complexas. europeus de todas as condições e crenças atravessaram. a sublinha a acção da Igreja no que respeita à grande promessa de todos os tempos. embora detentores de um do e dar àquelas terras estranhas a forma sistema social e religioso. tupiniquins e guaranis. Hernán Pérez de Oliva. ouro. pícaros. lar a língua e a religião como instrumentos duz na turbulência da conquista da América de liquidação das tradições locais. gência que se vai instalando entre os solda- ros. acotovelando-se bre o efeito de uma «boa e cristã conversa- nos navios. Vasco de Quiroga. o desencontro e anunciam o conflito futu. dades. tupi- canhão e pelo tropel dos cavalos. Era o anunciado regresso de Quetzalcóatl a inaugurar uma nova era. de Cajamarca à Terra de Santa mercialização e estetização antes que os ín. comuni- A cultura indígena da América foi in. em e labregos que a Europa não matara de «gente de qualidade tão mansa e humilde. A advertência do ca. místicos e aventurei. respecti- rante seres humanos. protagonizados por Cortés. com o império Tahuantinsuyu e com Os índios perderam o juízo e caíram re. so- conquistador. vestidos de ferro. Historia de las Indias. prende os índios zacional (tendo em conta a interrupção mensageiros com cadeias de ferro e manda abrupta provocada pela conquista euro- disparar o canhão. o escritor uruguaio Eduardo Galeano. aparentemen- desmistificavam os deuses americanos. Os índios divinizaram os espanhóis. peste ou fome. prata. do Caribe a Te- cantamento contra desencantamento. peia).» As. Junto a pastores ção». de se- res de duas cabeças. viajam capitães. amiúde. traduzem plexidade social e cultural destes povos. de horticultores- terrompida pela surpresa. Diego Durán. No outro dos e os missionários. -América. atravessam. Cortés seguido pelos tlaxcaltecas. co. Todos procuram o milagre. pa. aberta. for- jando nas terras do Novo Mundo uma me- mória de fogo de configuração continental. Da A diversidade étnica e cultural da busca do paraíso à ambição desmedida pe. em particu- sim. Os diálogos em espanhol. -recolectores. partem os persegui. em nome de uma missão civilizadora abençoada por um Deus maior. dades semi-sedentárias. mar mágico que lava sangues integração dos índios na cristandade. o grande oceano. a acção conquistadora. As crónicas de dondos no chão. nambás. suscitando. Cruz. guerra. desaparecido no mar. os povos maias e astecas. era o prodígio anunciado por dores de alucinações. vamente. doenças. o mar imenso. insatisfeito. A buzina sagrada seria silenciada pelo parte dos autores. mas. imposição da cultura europeia. levando e trazendo ilusões. vin- dos em pequenas torres flutuando no mar. Foi também diversa. Na costa atlântica. nos intro. que atingiram o seu auge civili- ma. no espaço andino e na Meso- ro de Quetzalcóatl enviado por Montezu. «De todos os cais. com destino à Améri. como e transfigura destinos. tiveram menor . Mesclar o mun. O estrondo foi enorme. En. oferece-se. tímida e obediente». Cortés recebe o tesou. bigode e longas barbas amarelas. da nossa. nochtitlán. Os oito presságios mexicanos anuncia- vam a era da gente estranha. da organização política e da com- Jerónimo de Aguilar e Malinche. conquista são prolixas na descrição das ci- náhuatl e maia. vezes sem fim. de carne bran- ca. América pré-hispânica e pré-cabralina era las riquezas terrenas. Chavín e olmeques haviam gizado dios se convencessem de que estavam pe. te.

ao primeiro impacto. repre- sentados por seres zoomórficos. tudo na descrição da fauna e da flora e dos Evangelizados os índios. com a heresia e a condenação do menor número. As narrativas tinhos. aos contra os que. E é exacta. contra-reformista e atravessaram o Atlântico tuais antropofágicos e a poligamia. às escondidas. e na divinização das guerra tem lugar. para alimentar a crença na sua imortalidade. mais tarde. do judaísmo. depressa impuseram o seu domí- litismo estenderiam ao Novo Mundo o zelo nio. fugiram da tensão olhos dos europeus de Quinhentos – os ri. a império inca e no império asteca. Hernando de Soto cionais das populações ameríndias. do protestantismo e veitamento militar das dissenções internas no de costumes perversos como a sodomia. Em vão. giado da conquista espiritual da América. da Europa. agos- apropriação do território. Os relinchos. dora que começou com a destruição siste. mas ardilosos quer no apro- islamismo. do jaguar à manidade do índio e sobre a legitimidade da serpente emplumada. foi amortalhado em segredo e. pela calada da na extirpação das crenças e dos rituais tradi. lançado nas águas profundas do Mississípi em 1525. integrando-o no sistema repressivo missionários e à Igreja secular. a guerra virou-se costumes mais reprováveis dos índios. Teria pen- sado capturar aquele bando de barbudos de- salinhados para sacrificar ao deus Sol e apro- veitar o talento de três deles: o ferrador. foram mais eficazes que os exércitos de milhares de índios surpreendidos por tão terrível novida- de. A chega. quer da bigamia e a feitiçaria. quando o pau-de-fogo se tornou guerra das imagens – instrumento privile- riqueza importante). o barbeiro e um excelente volteador. De nada valeu a Atahualpa a aparente se- renidade perante os volteios insolentes de Hernando de Soto. dominicanos e. o processo que desmantelaria as defesas dos que levaria ao enraizamento da falsa ideia naturais. Mas o es- trondo causado pelo tropel dos cavalos e pe- las cargas da artilharia e o assassinato do inca acabaram com qualquer veleidade. ESTA GUERRA SE GANÓ A LA JINETA A visão do cavalo montado por um gi- nete causou tal temor e admiração nos índios que. 1615 tico assente em mitos fundacionais. Franciscanos. Lima. Padres castigam cruelmente os meninos índios na doutrina A crença na imortalidade dos corcéis foi Felipe Guaman Poma de Ayala espontânea em povos com um sistema mí- Nueva Crónica y Buen Gobierno. inaugura a campanha evangeliza. em simbiose com o cavaleiro de ferro. mitologia. em namente. em Cajamarca. Se a violência da conquista foi registada mática e irreversível de ídolos e santuários. A INVENÇÂO DA AMÉRICA 72 73 capacidade de resistência aos invasores. desmaiavam ou fugiam. da dos primeiros franciscanos ao México. os braços A CONQUISTA ESPIRITUAL do Santo Ofício não pouparam o Novo A legitimação da conquista cabe aos Mundo. mercedários. em busca de uma paz que os reconciliasse com as suas consciências. pelas crónicas indígenas e pelos relatos dos . A Europa debatia-se. são detalhadas sobre. noite. mente no campo da fé e da relação da Igreja com a idolatria que a polémica sobre a hu. jesuítas portuguesas da Província de Santa Cruz assumiram-se como o exército da fé na (Brasil. Os conquistadores. Cortés mandava enterrar. do Velho Continente. já traumatizados com a guerra e as de uma brandura lusitana no processo de epidemias. inter. forças da natureza. A ortodoxia e o prose. os cavalos mortos. o estrépido do galope.

. ESTA GUERRA SE GANÓ A LA Soldado espanhol JINETA Felipe Guaman Poma de Ayala Nueva Crónica y Buen Gobierno. 1684): «Foi notável. como por outros que. em 1530. como António de Solís.». entrou no Para- guai com 600.. como soldados. Depressa se multiplicaram e se tornaram valor de referência. Mais a sul. Nasceram nas Antilhas os primeiros cavalos crioulos. necessitavam de in- ventar novidades contra um género de inva- são cuja gente. quando o comércio sucedeu à guerra. reflectem sobre ela. 1615 Seguiram-se as éguas e os burros nas expe- dições seguintes. As mulas chegaram mais tarde. participaram na conquista. a hoste de Fernando Cor- tés contava com 19 cavalos. já Francisco Pi- zarro.. foram povoando o continente ame- ricano. tal era a . na sua Historia de la conquista de México (Madrid.. Determinantes do sucesso da con- quista. Em 1519. a resistência dos mexicanos e a sua impossibilidade em vencer uma guerra desigual foram reconhecidas por alguns cronistas espanhóis. a diligência com que os mexicanos defen- deram a sua cidade. Martínez de Irala. penetrou no império inca acompanhado de 90. missionários. cujas armas e cujas disposi- ções eram fora do uso naquela terra. Lima. e em algumas circunstâncias digna de admiração. Os primeiros cavalos chegaram à Améri- ca em 1493. não só por aqueles que. anos passados sobre esta turbulência. vinte anos depois. levados por Cristóvão Colombo.

As populações ameríndias tratando o quotidiano dos conquistadores. uma tragédia sublinhada pelos contemporâ- sas. a res das Índias. o Reino se voltas índias. iguanas. 1. o serviço de apoio às minas a que índios que apenas conheciam uns pequenos os índios eram obrigados. dizia Garcia de da mortandade são várias: a repressão das re. associado à guerra e à escravi. e nem perdoa- zação. contraram a morte no quotidiano da con- produção descontrolada de novas espécies. nhóis que originaram muitas mortes entre viam descoberto e conquistado as Antilhas e eles e puseram em risco o domínio da terra. faz quais havia «muitas e de muitas maneiras de um balanço trágico da presença espanhola pinturas». os tributos e serviços a que os índios foram cados (na América Central) ou habituadas sujeitos. num epitáfio canos. enunciando as dez pragas com General de las Indias Occidentales y Particular de la Go- que Deus castigou aquela terra: a varíola e o bernación de Chiapa y Guatemala) salienta a morte sarampo que dizimaram. fome e como os porcos e os cavalos. Aos encontros idíli. acabando por morrer pelo A MORTE DOS ÍNDIOS caminho. da Florida aos confins chile. canos. treinados na quantos era comprado e vendido levava le- perseguição aos fugitivos. a nos Andes): cavalos. na cara com ferro privado ou d’el-rei. antes da conquista. os maus tratos. a apropriação da um impacto decisivo nas populações índias.65 ao poeta Medina Medinilla. pela espécie com a sua eficácia própria na sub. premeditação. as varas de porcos acompanharam os como grandes manadas de ovelhas. outros mais en- desequilíbrio ecológico provocado pela re. Se o despovoamento da América foi vização e o despovoamento. a América Central. em muitas provín. a sangria na população ibérica. terra dos índios pelos fazendeiros espanhóis. ou Motolínia ram aos lagartos. a captura de escravos. re- E as doenças. entre 1494 e 1508. a ilha Espanhola perdeu mais de três mi. destruidor e instável. só restavam 2. car a grande distância para levar mantimen- tos aos mineiros. fim pouco consentâneo com a mortandade elevadíssima provocada pela heroicidade veiculada pela literatura cava- conquista. a subalimentação. os lebréus. Despensa ambulante lho. Os le. mais de metade da população índia. desastrosa dos conquistadores e governado- cias. criando um mundo ten- so. Lope de Vega. a depor. provocou elevada mortalidade. doença em terra. dos 9 milhões mar da América se perdeu a flor e a nata de restavam. ferrados soldados numa procissão nunca vista. os escra- dos espanhóis. porque de pendentes. Resende: «Ao cheiro da canela.» Sobre Portugal. em 1570. «tan- bréus. morreram muitos índios. Frei Antonio de Remesal (Historia no México. A varíola. dade que comeram todos os animais de qua- lham-se descontroladamente. não tinham um sistema imunitário que as evoca inúmeras vezes a situação de fome de protegesse no contacto com europeus e afri. sucedem a escra. que estes eram vítimas: em Santo Domingo. olhos que chispam. massiva mão-de-obra e pela dureza do traba- missão dos naturais. A INVENÇÂO DA AMÉRICA 74 75 procura. Toríbio de Benavente. coelhos. a fome decorrente da ocupação e lheiresca. de orelhas ondulantes. vos feitos em série que entravam no México nos. os espanhóis ha. o sarampo e a malária espa. tendo de se deslo- cães mudos que lhes serviam de alimento. das (Historia de los Indios de la Nueva España. pelo traba- aos carneiros da terra (as lamas e as vicunhas lho excessivo. Segun. o ram nas guerras europeias. despovoa. tempos da conquista. as minas de ouro onde. neos. Fernández de Oviedo. no Peru.3 milhões. dos 25 milhões de mexi. A MORTE DOS CONQUISTADORES cos das primeiras viagens. porcos e lebréus. 1565). amedrontavam os treiros». lagartixas ou cobras. Genocídio sem tro patas que havia na ilha – cães da terra. escrevia: «No milhões em 1568. Os primeiros espanhóis deixados . desconhecedoras de quadrúpedes domesti. os primeiros cristãos passaram tanta necessi- bios. cada edificação da cidade do México que. meno relevante. é também um fenó- do Jacques Lafaye. nos lhões de naturais. portadores de novos vírus e micró. Segundo Las Ca. longas línguas to que toda a cara traziam escrita. as divisões e bandos entre os espa- Num quarto de século. As causas nossa época. quista da América: tormentas no mar. As hostes conquistadoras causaram da destruição das colheitas.» Se muitos espanhóis sucumbi- tação.

FCE. idólatras e idoloclastas. o cirurgião e o pró. cas. preenchiam o quotidiano dos milhares de quista da América. morreu de sífilis quando re- gressava a Castela. Muitos acabavam por morrer de «dor ches. o tabaco. apresenta-se del Fuego 2. desencadeado pela con. A doença era companheira previsível cida do mundo. foi algo que a redima. Las Caras expedições. cos. Historia 16. Figuras y Escrituras. peias. além dos curandeiros e ensalma. Los Conquistadores: soldados que se aventuravam em terras inós. Alonso de Ojeda. o primeiro governador da Nova Andaluzia. México. ed. jalofos. Lima. Memoria prio barbeiro eram figuras obrigatórias nas emerge no nosso imaginário. Madrid. o milho. quechúas. pitas. De pouco serviam quando a fome. de corpo inteiro. ou invadidos por níguas e bubas. de costado». La Guerra chadas. por esmola. 2002. Batalha entre espanhóis e índios aymaras e quíchuas PARA SABER MAIS: assassinados pelos companheiros. das hostes. a bordo dos navios ibéri- vítima de um naufrágio. Enfim. diz Carlos Fuentes. México. Juan Pizarro morreu em Cuzco às mãos dos ín- dios. .nas Antilhas foram mortos pelos índios que condição. enquanto a América se repovoa dolo- velmente na Espanhola e tão pobre que os rosamente de gente de todas as nações. Diego de lhe conferem uma nova identidade. enquanto Fernando de Souto foi lançado ao Mississípi depois de morrer de calores e dores de costado. café. o algodão. O próprio almirante. franciscanos o enterraram. Blasco Núñez de Vela. 1999. tolhido de gota. conquistador do Peru. ma e Cortés. inscrevem-se Montezu. de Cristóbal Colón a A conquista da América foi uma catás. Aquela parte desconhe- degolado pelo sogro – o temível Pedrarias Dávila. fechou o cír- Cristóvão Colombo apresentara como gente culo de globalização económica. governador do Rio da Prata. abala as nossas certezas e y las Máscaras. Aventura colectiva ibero-americanos. do «mal das índias» Tonantzin e Nossa Senhora de Guadalupe. a batata. gente de toda a os redentores da catástrofe. aste. mortos às Felipe Guaman Poma de Ayala Crónicas Indígenas. que havia prendido Va- ca de Castro. de las Imágenes: (sífilis). As moe- e pesaroso da má paga de tão avantajados das fortes europeias passam a circular à escala serviços. D. Jacques Lafaye. que durante milénios nos Madrid. foi morto por Gonzalo Pizarro. (1492-2019). de Miguel de León-Portilla. 1615 Visión de los Vencidos. demográfi- doméstica e mansa. bana. angolas. Serge Grunzinki. melancólico nos litorais africanos e no Oriente. María Zambrano. «Blade Runner» trofe. Veintiuno. as pratas peruana e mexicana dão a va. primeiro governador de Castilla del A vitória militar da Europa sobre a Oro. morreu mais pobre do que espera. Diego de Alma- gro foi degolado e afogado pelos pizarristas. guaranis. cansaço. de. nos pronta para mestiçagens e sincretismos que umbrais do portal da sua igreja. mandingas. Atahualpa e Pizarro. morreu misera. alguns com Nueva Crónica y Buen Gobierno. FCE. amarelos e com as barrigas in. Francisco Pizarro. congos. Siglo dores. o desafia as nossas consciências. o pri. tupis. descobridor do Yu- catán e Tabasco. ca e cultural inaugurado pelos portugueses meio despojado. segundo a Espanhola. sepultura líquida. foi morto por Diego de Almagro filho. morreu na viagem de Terra Firme para América foi uma catástrofe que. mundial. Mama Occlo e Nossa Senhora de Copaca. Francisco de Bobadilla morreu no mar. 1994. morreu às mãos dos índios numa emboscada nocturna. Pedro de Mendonza. portugueses e espanhóis. de repente Eduardo Galeano. contemplou silenciosamente. O boticário. maias. que mobilizou. se atenua se dela nascer meiro europeu a contemplar o Pacífico. e este justiçado por Pedro de la Gasca. e este degolado pelo licenciado Vaca de Castro. volta ao mundo. com paixão. o chocolate renovam as dietas euro- pois de muitos sofrimentos. Juan de Grijalva. mãos dos índios ou de doença. capitais e tecnologia. Somos nós. Nicuesa. No movi. de modorra. os esfriamentos ou os calores mento das ideias. mapu. Vasco Núñez de Balboa.

tendo conhecido 43 edições no estrangeiro. 1656). No século XIX. A INVENÇÂO DA AMÉRICA 76 77 Crueldades e matanças perpetradas pelos conquistadores espanhóis no México Bartolomeu de Las Casas O dominicano Bartolomeu de Las Casas. em seis línguas. . entre 1578 e 1656. missionário na Nicarágua e na Guatemala (1535-1539) e bispo de Chiapas (1544-1546). envolveu-se apaixonada- mente na polémica sobre o índio. e apenas 2 em Espanha (1552. converteu-se numa arma política de defesa dos índios e de crítica aos espanhóis. escrita no ano em que foram publicadas as Leyes Nuevas. A sua brevísima Relación de la Des- truición de las Indias. frade encomendeiro na Espanhola (1509-1515) e em Cuba. defendendo a sua natureza humana e de- nunciando as atrocidades cometidas pelos conquistadores espanhóis no quadro de uma guerra injusta. Las Casas foi recuperado pelos independentistas hispano-ameri- canos que o adoptaram como «defensor da liberdade».

Felipe Guaman Poma de Ayala de las Indias. dita tirânica servidão. à faca e à lançada. toda a violência e tira. que foi a 18 de Abril de 1518. Por. foram cometidos por mento. até ao ano de 30. Nueva Crónica y Buen Gobierno. mas também pelas leis humanas. em distintas partes e dades. toda a injustiça. notícia ou indústria humana para referir os que são tantos e tais os estragos e as cruel. despovoa. e queimando-os vivos. desde o princípio. feitos espantosos que. são agravam. em simultâneo. matanças e destruições. No ano quistas. grandes escândalos nos índios e algumas enquanto durou o que eles chamam con- mortes pelos que a descobriram. ao rei. Lima. onde caberão quatro e cinco grandes reinos tão grandes e bastante mais felizes que Espanha. não diligência e tempo e escrita se poderá ex- são comparáveis nem em número nem em plicar perfeitamente. juntamente com Barcelona. co- vão a povoar. neste dia do mês de Setembro. quando estiveram mais povoadas. transbor. que sempre. quotidianas. ainda que as disséssemos todas. Assim. turco para destruir a Igreja cristã. ma- Espanha e. E desde este ano de 18 até mo o são e muito piores que as que faz o hoje. e em alguns inimigos públicos e capitais da li- tantos e tais reinos da grande Terra Firme. nhagem humana cometeram dentro da- que todas as coisas que temos dito são na. fazem-se e cometem-se as mais graves e abomináveis. estamos no ano de 1542. quele circuito. e ainda alguns feitos segun- da em comparação com as que se fizeram. e hoje. fizeram-se taram mais de quatro milhões de almas. em verdade que só com muita infinitas as que deixamos por dizer. violências e tiranias. porque não há nem houve nunca tanta população nestas cidades. roubos. 1542 1518 se fizeram e se perpetraram até este Tradução de MGMV dia e ano de 1542. no descobrimento. vexações e opressões nia que os cristãos têm feito nas Índias. condenadas não só pela lei de a roubar e a matar. sendo invasões violentas de cruéis de 1518 os que se dizem cristãos lá foram tiranos. do as circunstâncias e qualidades que os mas. esquecendo-se de si mesmos. No ano de 1517 descobriu-se a Nova mulheres e crianças e jovens e velhos. Estas terras eram to- das mais povoadas e cheias de gentes que Toledo e Sevilha e Valladolid e Saragoça. duraram as matanças e estragos que as sangrentas e cruéis mãos e espadas dos es- panhóis fizeram continuamente em quase 450 léguas em torno da Cidade de México e arredores. E isto dou e chegou ao cúmulo toda a iniquida. ainda que digam que Deus. sem os que mataram e matam cada dia na de. Os espanhóis nos ditos doze anos e Um arreeiro transporta os filhos mestiços dos padres doutrinantes de la Destruición nas ditas quatrocentas e cinquenta léguas. que Deus pôs e que havia em todas as di- tas léguas. porque perderam todo o temor a Deus e Particularmente não bastará a língua. 1615 Sevilha. Porque é verdade a regra que acima pusemos. que foram doze anos comple- tos. que para percorrê-las em redor Excerto da obra se tem de andar mais de mil e oitocentas Brevísima Relación léguas. gravidade às que desde o dito ano de Valência. 1552 . têm vindo a crescer em maiores desaforos e obras in- fernais. desde a entrada da Nova Espa- nha.

Díaz del Castillo contrapõe o índio como objecto. Jerónimo de Mendieta. na conquista do México por Fernando Cortés (1519-1521). . de López de Gómara. Alheio às discussões metafísicas sobre a na- tureza do índio e a justeza da guerra que envolveram juristas e teólogos do seu tempo. À visão do índio como sujeito. como resposta à história panegírica do capitão Cortés. partilhada pelos evangeliza- dores franciscanos como Toríbio de Benavente. pelos dominicanos Diego Durán e Las Casas ou pelo jesuíta José de Acosta. como soldado. A INVENÇÂO DA AMÉRICA 78 79 Como impusemos muito boas e santas doutrinas aos índios da Nova Espanha e lhes ensinámos a ter e a guardar justiça e os ofícios que se usam em Castela Bernal Díaz del Castillo Bernal Díaz del Castillo participou. quando era regedor da cidade de Santiago de Guatemala. Redigiu a sua Historia Verdadera de la Conquista de la Nueva España em 1555. e em defesa dos conquistadores anónimos que ele representa. Bernardino de Sahagún. numa história autobiográfica em cuja narrativa o índio é prota- gonista apenas para realçar o sucesso da missão evangelizadora e civiliza- dora dos espanhóis no México. escreveu uma história comprometida com a sua vivência de conquistador.

que é Castela Velha. assim de martelo como de Nossa Senhora de Agosto ou do patrono da molde. Depois de abandonadas as idolatrias e é fazer vidro ou ser boticários. que Tradução de MGMV Trad... de Historia Verdadera Padre cristianíssimo celebrando missa Mestres de coro e de escola castigando os índios de la Conquista Felipe Guaman Poma de Ayala Felipe Guaman Poma de Ayala de la Nueva España. e de outras ordens. CCIX. e os ourives de Deus ou de São João ou de Santiago. e vendem-no. e levam os seus índios por pagens que como nesta província de Guatemala. assim homens como mulheres e rurgiões e ervanários e sabem fazer jogo de crianças que nasceram depois. e muitos deles zer panos de lã.. em alguns povoados Além disto. e primorosas obras com os seus trados de muitos deles são ginetes. porque alguns deles são ci- soas havia. os acompanham. e fazem está muito bem plantado nos seus corações. 1615 Cap. ainda que o tivessem tentado. e há muitos que aguar- pidários e pintores.. Nueva Crónica y Buen Gobierno. dado que. mãos e marionetas e fazem violas muito dantes.. em especial num ferro. pão e biscoito. Lima... se baptizaram. todas quantas pes. das leis do reino por onde sentenciem. desde nho-os por tão engenhosos que o aprende- que os conquistámos. Lavradores. mas eu te- todos os maus vícios. e agora religiosos do senhor S. e herdades com todas as árvores e frutas que mente ornamentadas com altares e tudo o temos trazido de Espanha. cetim e tafetá. e têm plantado as suas terras E além disto têm as suas igrejas muito rica. Não com tanto primor e autoridade como entre há falta de cantores de capela com vozes nós. Lima. 1555 . e ainda em alguns povoa- Todos os demais índios naturais destas dos jogam canas e correm touros e jogam terras aprenderam muito bem todos os ao anel. 1615 Nueva Crónica y Buen Gobierno.. povo que se diz Chiapa dos Índios. Castela se usa. só dois ofícios não puderam en. como há muitos e bons tes que viéssemos a Nova Espanha..... e de fa. igreja do seu povo. ainda que sejam bravos. trazem jaezes com boas tas e charamelas e sacabuxas e dulçaínas. são exímios oficiais. e o pregando pelos povos. e se orgulham e querem saber muito muito bem concertadas.. rão muito bem. valos e são ricos. e outros são chapeleiros e são arrieiros segundo a maneira que em saboeiros. ou de ouro e prata. e passeiam-se pelas cidades. e os entalhadores fazem dam os touros. E fazem justiça que pertence ao santo culto divino. por sua natureza o são an- infernos. trar neles.. especialmente se é dia de Corpo de ofícios que há em Castela. assim como la. E agora. criam gado de todas as espécies e domam Domingos. selas. rais.. trazer lenha e milho e cal. que andam bois e aram as terras e semeiam trigo. Francisco e de S.. mo tiples e contraltos. o santo Evangelho beneficiam e colhem. e há rebanhos de éguas e mulas que os ajudam a oficiais de tecer seda. assim tenores co. as suas almas iam perdidas para os boas. e a Muitos filhos de principais sabem ler e maioria dos caciques tem cavalos e alguns escrever e compor livros de cantochão. vilas e lu- Trompetas altas e graves (sordas) não há gares onde vão folgar ou donde são natu- tantas na minha terra.. todos os caciques têm ca- há órgãos e em todos os restantes têm flau.

Alexandre Rodrigues Ferreira. BESTIÁRIO 80 81 O velho é o jaboti prudente que não se apressa Maria Adelina Amorim Colecta indígena de ovos de tartaruga e posterior fabrico de manteiga. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará. II. E. Mato Grosso e Cuiabá (1783-1792).. BN.A. Rio Negro. 251A . Vol.

«de perfume tentador e logo dizerem que os índios nos chama- acidez irritante». II. meu tempo para me insultarem: cágado-da. Ainda por cima descreveram-me ram Américas. senhores! Como ficaram gulosos. virar.. Vivi assim vagarosamente a minha Sousa. sistir àquelas frutas «fragrantes». E. mais altos e Chegaram depois uns da tribo dos de mais carne. pés e pescoço. 251A . Imaginem!. já que o seu fruto. É. para lhas ou amarelas.. onde. Viagem Filosófica pelas Capitanias do Grão-Pará. Olharam para nós como se fôs- mília dos testudinídeos. medir-me. Servimos de mantimento com outros que eu não conheço nem sei aos índios cururisos... Vol. Foi aí que a nossa história mudou pa- -terra. diziam que notável feitio. Foi tão grande a polémica mentos são pretos. é o meu sustento favorito. semos uma jabuticaba ou um maracujá e Começaram por observar-me. maiores que os de Espanha. como se fossem chícharos. começaram a matar-nos para comer a -me do avesso. o cajá ou ge.. verme. Alexandre Rodrigues Ferreira. nudo. fa. vam jabutirimim e que somos muito sabo- A mim retiraram-me da mansidão do rosos e medicinais. casca – que eu não sou desses –. O meu Para me escovarem o pêlo. os lavores dos comparti. nipapo. mora A viração das tartarugas. oitavado e car- a extensão daquelas terras a que chama. comparar-me nossa «carne». e o meio de cada um é que envolveu juristas e teólogos. éramos peixes. Perdia o meu tempo junto dos tapera. ovos. e têm as conchas lavradas Portugueses que. imajanazes onde vivem: «há uns que são muito e aos outros todos da Amazónia. com verrugas nas mãos. Rio Negro. réptil da ordem dos quelónios. E dos meus baseiros. e o meu branco e almecegado» (Gabriel Soares de nome chegou a Roma. para se desculparem da em compartimentos oitavados de muito gula em dias de abstinência. 1587). Mato Grosso e Cuiabá (1783-1792). Notícias do Brasil. É difícil re. isto é. a e o daquelas antas que insistem em enxo.A. diziam tar-me do meu pé de árvore. e não só.. dizem. que pertencia a uma casta de cágados. existência pelos matos da Bahia e por toda Eu compartimentado. oraotisos. ra sempre. como que a dar-me categoria social. BN.

] tinha uma todos da filha solteira com quarenta anos de idade. .» gros – que naquele caso eram os índios. doutores. nome por pudor e reserva. como foram os jabotis. a que chamam dízimos. aqueles adornos de uma mitologia francamente selvagem. cobras. assados. Até o Euclides da Cu- aos índios nha nos seus Sertões disse que. compra deles. ainda. e não só Os grandes da literatura brasileira es- creveram sobre mim. Se não. zimos. testemunhou sobre esta «espécie» de tartarugas. No fim. existia na vida. peixe e por tal se comiam diante do Papa» sendo o nosso fígado o maior dos petis- (Carta de Frei Cristóvão de Lisboa. e foram os que nesta jornada nos mataram muitas vezes a fo- me» (Carta. 1868). de que tanto se fala. e nos dí- ver rezão que mostrasse não serem carne. sos ovos. de enfeite para adornar cururisos. feia como um jaboti.. jabotis vivos. gostei mais do Mário racterísticas de quem leva a vida fechado de Andrade na sua Macunaíma (1928): em si próprio como eu. que é sustento muito geral em to- de mantimento das estas partes. vejam: taperebá. cos. Policárpio Quaresma.. Até o Padre António Vieira. Por isso transporto «Era uma honra grande para mim rece- sempre a minha casa às costas para não ter ber no meu mosqueiro um descendente que pernoitar em lar alheio. De todos os que li. E disseram: «[. travagantes de índios. temo que a minha raça se ex- nossos velhos companheiros de chão – e tinga como tantas outras. disse que algumas coisas não «Mandando eu que se abstivessem eram lícitas.. ja- carés..M.BESTIÁRIO 82 83 um ser maior que o Grande Jaboti.. No Até ganhei estatuto na discussão das princípio era só o Jaboti Grande que coisas lícitas e ilícitas. bem vivos. veiro de negros. e da qual nunca se separava pelo medo da sedução de algum Amazónia. só faltava acrescentarem que não era bonito. de jaboti.» imajanazes (Lima Barreto. fomos sendo comidos aos milhares. aqueles vestuários ex- oraotisos. Macedo. com polémica ou no púlpito publicamente que eles eram não. cati- dos jabotis nos dias de peixe por não ha. o mesmo acontecendo com os nos- Ao menos Frei Cristóvão defendia-me da. que em as Índias Servimos de Castela se chamam icotéas. desde o Guimarães Rosa ao José de Alencar. das décimas. os corpos dos ameríndios nas suas festi- vidades: «de resto. e aqui ja- botis. Memórias do Sobri- nho do Meu Tio.» e vir isto resoluto pelo superior disseram A verdade é que. 1626). namorado (J... Eu ao lado dos ne. Ao menos isso. raça primeira de todas. éramos excelente vitualha. Nem vale a pena comentar. que são as ca. que bem podíamos esconder queles carnívoros de que eu não digo o debaixo da terra. A estas desgraças todas que me aconteceram – e às minhas primas tarta- e aos outros rugas –. meu «Falando eu conforme a verdade e avô primordial. que sempre vive em terra. 1915). 1654). Servi.. Não E eu que só queria a minha baga de é de somenos.

complexo pode contemporânea. à capacidade de resistir. uma mensagem de Márquez num romance com a emoção e o enorme sentido esperança ao oceano que é ao mesmo tempo e o compromisso com de humor de Alfredo de individualismo uma reflexão sobre a razão dão as mãos Bryce Echenique fazem e pobreza existencial a velhice e a celebração para oferecer a mais deste romance em que navegamos das alegrias da paixão. A LER É QUE A GENTE SE ENTENDE . permitir-se o luxo de ser claro. ANIVERSÁRIO GRANDES VOZES DA AMÉRICA LATINA Memória O Aroma O Horto da Resistir das Minhas da Goiaba Minha Amada Ernesto Sabato Putas Tristes Gabriel García Alfredo Bryce [ Prémio Gabriel García Márquez e Echenique Jerusalém/Prémio Cervantes Márquez Plinio Apuleyo [ Prémio [ Prémio Nobel Mendoza Planeta 2002 de Literatura A escrita incomparável Uma obra na qual A escrita terna Ernesto Sabato lança de Gabriel García o compromisso e irreverente. sugestiva aproximação de iniciação amorosa nestes tempos. E a sua O romance mais a um ser que de tão um clássico da literatura palavra é um apelo esperado do ano.

a rainha do Sul João Azevedo Fernandes Bar Alambique-Cachaçaria e Armazém. Carlos (ed. 1990.). Formato . A SEDE DO SUL 84 85 Cachaça. Almanaque da Cachaça Belo Horizonte. Belo Horizonte (Minas Gerais) in Gravatá.

Abrideira, amarelinha, amorosa, azulzinha, bichinha, branquinha, brasileirinha,
caninha, danadinha, dindinha, lindinha, meladinha, pinguinha, purinha, santinha,
sinhazinha, teimosinha...

“Branquinha pura, branquinha
Nunca fez mal a ninguém
Se negro morre por ela,
Branco morre também.
Da Caninha do Cipó
Sempre assim ouvi dizer –
Quanto mais a gente bebe,
Mais vontade de beber...”

Abre-bondade, água-benta, água-de-briga, água-que-passarinho-não-bebe,
apaga-tristeza, aquela-que-matou-o-guarda, assovio-de-cobra, boa-pra-tudo, capote-
-de-pobre, cem-virtudes, desmancha-samba, esquenta-aqui-dentro, lágrima-de-
-virgem, levanta-velho, santo-onofre-de-bodega, semente-de-arenga, três-tombos,
urina-de-santo, xarope-dos-bebos...

“Vou na venda
Bebo dois vinténs de cana
Meto a faca em Zé Viana
Vou p’ra cadeia morá”

Ácido, água-bruta, a-que-incha, arrebenta-peito, braba, cândida, desman-
chadeira, estricnina, extrato-hepático, garapa-doida, malvada, não-sei-quê, nó-cego,
pau-de-urubu, perigosa, terebintina, tíner, veneno, venenosa...

“Peguei a tomá cachaça
pensando que bem me fazia,
era coisa qu’eu não queria
meter-me nessa desgraça”

A SEDE DO SUL 86 87

Terá a cachaça alguma mal- na casa das fornalhas, que o jesuíta brandies, bagaceiras, whiskies, grappas...
dição? Companheira de todas Antonil, escrevendo em 1711, – surgirá entre os europeus. Se-
as horas, tratada com um cari- chamou de «cárcere de fogo e rá na América, porém, que os
nho que só pode ser expresso fumo perpétuo», e onde traba- destilados conhecerão seu pa-
por uma profusão de diminuti- lhavam os escravos «bouben- raíso, entre enormes quantida-
vos, a bebida nacional do Brasil tos» ou «com corrimentos», des de matéria-prima, como a
é também vista como uma ine- que procuravam a cura para cana-de-açúcar e o milho, e
fável fonte de desgraças. Cachaça seus males através do indescri- uma fartura de braços cativos
é moça branca, filha de um home tri- tível suadouro, e os escravos para produzi-las e bebê-las.
guero, quem puxa mucho por ela, fica criminosos, punidos e postos a No Brasil, é bem provável
pobre e sem dinhero, diz a loa po- trabalhar naquele inferno. A es- que a cachaça já fosse produzida
pular. Chamada por alguns es- cuma dali resultante era dada em fins do século XVI. Durante
trangeiros de «rum», para hor- aos animais e aos escravos, ne- o século seguinte, o Império
ror de quem conhece as dife- gros e índios, que a fermenta- português assistiu a uma ver-
dadeira guerra contra a cacha-
ça, que roubava mercados às
bebidas do Reino, e que, por
proibida, não pagava imposto.
Apesar do peso da Coroa e das
autoridades locais, a moça-branca
espalhou-se alegremente, nos
braços do contrabando, tanto
no Brasil quanto na África,
obrigando a Coroa a aceitar e
taxar a nova bebida. Os sobas
que vendiam escravos aos eu-
ropeus adoraram a cac haça
brasileira, forte e barata, e exi-
giam que esta, juntamente com
o tabaco, participasse do tráfico
de gente para o Brasil. Os na-
vios que vinham lotados de
homens e mulheres acorrenta-
dos voltavam carregados de
barris da garapa-doida. Aos africa-
nos escravizados, comprados
com cachaça em sua terra, ca-
Índios numa fazenda, in Rugendas, João M. 1976 (1.ª edição, 1835).
bia chegar ao Brasil e fabricar
Viagem Pitoresca através do Brasil. São Paulo/Brasília, Martins/INL
mais cachaça, em meio ao ca-
lor das fornalhas e às chibata-
renças entre as duas bebidas, a vam e a bebiam com o nome das dos feitores. Para compen-
cachaça tem uma longa histó- de garapa ou vinho de mel. sar, bebiam, e bebiam muito. A
ria, que se mistura com a pró- Não se sabe ao certo quan- cachaça acabou por se tornar
pria origem do Brasil. Tão lon- do esta garapa passou a ser des- uma bebida associada aos ne-
ga que, em seus primórdios, tilada. Beber álcool destilado gros: marimbondo dono do mato, car-
nem se chamava cachaça, mas era uma novidade para os pró- rapato dono da jóia, todo mundo bebe
jeribita, palavra de origem duvi- prios europeus: durante a Ida- cachaça, negro de Angola só leva fama,
dosa, africana talvez. Cachaça era de Média a acqua vitae, extraída diz o folclore brasileiro.
a escuma formada pelas impu- do vinho, era usada apenas co- Os índios também se tor-
rezas que subiam dos tachos mo um remédio. É durante os naram amantes da água-de-briga.
em que se fervia o sumo da ca- séculos XVI e XVII que toda Enquanto sua bebida fermentada
na. Esta operação era realizada uma pletora de novas bebidas – tradicional, o cauim, feito de

mandioca, milho ou frutas, era
tenazmente combatido pelos
jesuítas, os nativos iam sendo
apresentados à lindinha. O padre
António Vieira, escrevendo em
1654, mostrou como a cachaça
era usada pelos colonizadores
para atrair os índios «brabos»:
«[...] nós os festejamos e brin-
damos; e, posto que estranha-
ram a aguardente, que é o vi-
nho de cana, que cá se usa, eles
nos prometeram com muita
graça que se iriam acostumando,
e nós o cremos». Realmente,
eles se acostumaram ao cauim-
tatá, o «cauim-de-fogo», como
a cac haça era c hamada por
eles, e diziam: «goi i catu de
catonhe cauim tata» ou «oh!
Quanto é bom, muito bom o “De primeiro só bebia
vinho de fogo». Durante toda a negro, caboco e mulato,
história do Brasil, a cachaça foi hoje até os home alto
usada para conquistar corações veve bebo todo dia,
e mentes dos indígenas brasi- na rua tombá e pendê
leiros, muitas vezes com conse- contano os passo errado
qüências desastrosas. até o seu delegado
Podemos, agora, quem sa- já tenho visto bebê”
be, responder à nossa pergunta
inicial. Tratada como uma bebi- Bebamos, pois, não o veneno
da «de pobre», indigna de ser ou a malvada, mas a dindinha, a
bebida por «gente bem», a ca- purinha, a teimosinha...
chaça tornou-se um porto se-
guro para todos aqueles que
sustentaram, com seu trabalho
e sangue, a construção do Bra-
sil. Talvez por esta origem radi-
calmente popular, a cachaça te-
nha demorado tanto a ser con-
siderada a delícia que é, seja na
forma pura, seja como espírito
do drinque nacional do Brasil,
a caipirinha. Aos poucos, a amo-
rosa vai se tornando uma bebida
madura, algumas dentre elas
sendo tão gostosas quanto uma
bagaceira. Já não se bebe ape-
nas nos botequins, mas tam-
bém em sofisticadas cachaçarias.
Vai se tornando realidade a voz
do cancioneiro popular, quan-
do dizia:

desde há mais de trinta anos. um prato popular na bacia do Pacífico Gabriela Benavides de Rivero O cebiche constitui um património gastronómico para os povos americanos da bacia do Pacífico. mas para o Peru este prato converteu-se. SABORES PRINCIPAIS 88 89 O cebiche. . no símbolo da cozinha crioula. certamente.

entre ou. sem es- tras.processo de conservação caso do cebiche. Encontramos um cebi. parece que era nas calhetas nor- Se nos afastarmos um pouco. generosa aplicação de uchucuta ou ají salga- rante vinte e quatro horas em frio. azeitonas. que teriam levado nhado com tomate. nozes. nhos de índole ar. cede do Norte do Peru. alhos. é mais que isso. pi. previamente fervidos. e tendo como base esta téc. Há quem de. quando a polpa já salgado para os conservar e depois lhes está «cozida». ba. ainda que com outros ter. na culinária nacional. manjericão e muitos povos recorreram a esta técnica de coentros picados. que cobria com ají molho tabasco e cebola. biche tailandês tem como protagonistas ra- tata-doce). alcaparras e representativo na culinária nacional. pimento. Pois bem. coentros picados. ca o preparado em si. .qualquer sem esquecer che equatoriano onde o peixe é acompa. hortelã e natas. o ají. do em postas muito finas que se colocam não obstante. tos. Estamos a sumo de limão por leite de coco. dos navegadores mo. Não há dúvida de que servem-se com gengibre. para não falar dutos que integraram dos preparados crus do Extremo Oriente. stricto sensu. diversos grupos hu. sumo de la. fere-se um peixe macerado de um dia para Dissemos que existe o outro em vinagre e vinho branco. inúmeros testemu- pecífico e constrói. um processo de conserva- No México encontramos. com garfo. A técnica de cebichar consiste em mace. Macera-se em limão. Sabemos que foi utilizada pelos po. ção da carne num ácido qualquer. No Chile pre. a partir dele e dos pro. Depois de se lhe juntar o sumo de limão. Tam. este preparado na travessa e se regam com sumo de limão obedece às seguintes condições: peixe ao qual se junta caril. molho de tomate que acompanham o pei. um sistema culinário particular. pimentos. Desenvolveu-se vos da bacia do Pacífico. do. macerar em ácido. queológica e docu- ter. fenda que a difusão nica de conservação. bos de lagostins. abacate. che. cobre-se com um molho preparado menta americana) consumido no prato e com caldo de peixe. acompanhado com maçaroca cebolas. Após quinze minu- fresco macerado em limão e ají (chile. há E o cebiche realmente não Cada povo desenvolve um paladar es. desde o México originariamente no seio dos povos moche e até ao Chile e às ilhas do grande oceano vicús. Existe a variedade de deter-nos principal. vinho branco e povos indígenas no seu labor quotidiano. ao un termo para desig.o ají qual se junta a cebola. conservação. batata. Carne macerada em ácido após uma xe previamente macerado em limão du.não menos representativo cebiche de lagostins e frango. rar carnes em ácido. que significa consome-se com abacate. Também falar do ácido do tumbo e do maracujá. esta preparação.é mais que isso. tomates. O cebiche peruano é um prato que pro- mos. o cebiche de peixe char». Na Costa Rica. molho tabasco. mente no que signifi- dutos previamente fervidos. espreme-se e substitui-se o aplicar o ácido que os cozeria. os alhos e as ervas nar esta técnica. do cebiche pela bacia da carne num ácido manos desenvolveram formas particulares do Pacífico é obra para este preparado. e leva um pouco Polinésia. encon. tenhas de Huanchaco e Pimentel que o tramos um cebiche havaiano de filetes de pescador em plena faina se alimentava dos peixe e lagostins. Acerca dos pro- como as Filipinas e o Havai. peixes recém-pescados. E o cebiche realmente não molho de tomate e bolachas de soda. não menos (jitomate). com os pro. No mental. «cebi- picadas. uma variedade de cebiche com tomate quecer o terceiro protagonista. este costume até à o terceiro protagonista ranja. açúcar e pipocas. O ce- de milho verde e camote (boniato. um dutos da região ou dos que é capaz de ob. Devemos de óleo e especiarias. O cebiche peruano desenvolveu uma há um cebiche à japonesa com salmão corta- variedade muito interessante de pratos. que era companhia indispensável dos bém se lhe junta azeite.

protagonistas desta obra de arte gastronó- mente se foram impondo por força do mica que é o cebiche peruano. vo produto. o cebiche causou um impacto pensava que provocava danos irreparáveis total. preconceito comece a ser conhecido. Mas o valor acrescentado culinária é fundamental. Referimo-nos à deste prato peruano é o terceiro elemento destituição da laranja amarga para dar as constitutivo: o ají. porque sem ele não é boas-vindas ao limão de Ceuta ou limão cebiche. de parte. E sem peixe não há realmen. a ma. como se sabe. como também não o seria um pei. com a origem do prato ou se se património da cultura mochica ou da vicús. rios entre o Norte e Lima. o ají é um uso do ají num processo de mestiçagem produto de consumo aceitável num am- gastronómica. um na meca do cebiche com ají e ácido. é certo que o paladar da população perua- te cebiche. crioulo. O povo assumiu-o muito rapida- nos intestinos por ser muito corrosivo. finalmente. vegetais. por exemplo. O século costume e das exigências do nosso paladar: XIX também é cenário da chegada do pra- referimo-nos ao uso da laranja amarga e to à capital no meio dos afãs bélicos. lento. Entretanto. assinala-se que a cocção era tão não é cebiche tal como lenta que se devia esperar um ou dois dias se tivesse convertido se entende em senti. embora ao longo dos tempos se na se tinha educado no consumo da la- tenha utilizado a técnica de «cebichar» para ranja amarga devido ao seu aroma. amarga e ají. Daí que o cujo ácido fazia as vezes de meio de coc. porque se Em Lima. em alguns casos. do restrito: peixe O século XIX traz. Estes frutos trazidos pelos espanhóis cebiche limenho até ao século XX e que foram rapidamente introduzidos nos vales muitos tivessem acreditado que a origem nortenhos. Nas costas limenhas e nas costas nia com a laranja amarga e foi assumido o nortenhas há peixe muito bom. Muito bem. mão subtil em relação ao qual havia tanto ceração do peixe co. não só contro gastronómico da cozinha do Norte pelo sabor que se pode obter com um no- do Peru. que temos vindo a comentar. e inclusive. inclusive. SABORES PRINCIPAIS 90 91 Falar de macerar carnes em algum tipo Em finais do século XVIII. e o limão culti- . há uma mudança impor- macerar carnes em limão. mas quipa. aplica. no cozinhar outros frutos do mar. mas também pelo tempo de com as práticas mouras de preparação de cocção. uma série que toca ao processo de «cebichar» este era de carnes e. como actualmente é conhecido. incremento da navegação entre os portos res e indígenas do Norte continuaram a de Callao e Paita. que Castela deu à marinha mercante per- ma de preparação a partir do ají e do tumbo mitiram um contacto permanente de pes- ou do maracujá. simplesmente desfrutava-o. e isto traduzir-se- Com a chegada -á nos preparados culinários. ritmo de vida mais ágil. pois o peixe cru demora de três a são variações. querida para que a carne pudesse ser con- rimentações a partir sumida. soluções. preparava com tumbo ou com laranja obviamente. como em Are- Daí que o Callao de uma técnica. seis horas para conseguir a maceração re- ções. nenhum de ácido é entrar no tema de tecnologia consumidor de cebiche se preocupava. O do limão de Ceuta. no entanto. até o peixe estar no ponto. o que em termos de tecnologia carnes com limão. no da conservação dos alimentos que não é Norte. exis. tiu desde tempos remotos a prática de No século XIX. o limão foi posto do prato estava no porto da capital. Se xe sem ácido. subtil. expe. tante na preparação deste prato. daí que o li- limenho até ao século XX dos espanhóis. Callao se tivesse convertido na meca do ção. passado pouco tempo. adoptado como um dos alterações que final. O mente e elevou-o à categoria de prato certo é que o prato tomou carta de cidada. Daí o feliz en. bem como o impulso conservar por muito tempo a ancestral for. Na Ásia. os pescado. plo sector da população. de acordo soas e com elas receituários e usos culiná- com alguns estudiosos. com chicha de jora. usa- meçou a apresentar do e.

cebiche peruano começa a conquistar um lar posições até ser consumido pelas ca. como a carapulcra e a papa a la superior (corvina. huancaína ou o ají de galinha. há receitas à base de bonito ou de nuel Atanasio Fuentes o considere mais cação que são bastante aceitáveis. as mesmas que tinham cional. é mais saboroso o guisado que mais o dos preferidos das camadas populares. 282 430 200 fax: 282 415 261 E-mail: bemposta@bemposta-sa. entra realmente nos restaurantes e desse Em conclusão. implantados e reconhecidos devido à sua é também um prato económico. temos um prato que é modo vem juntar-se à cultura gastronómica agradável para o paladar e responde a uma dos limenhos em geral. pois já não será técnica simples mas precisa. lugar na gastronomia nacional e interna- madas superiores. o culo XX é que este prato começou a esca. dado que elaboração e sentido de identidade com o se pode usar quer um peixe de qualidade autóctone. Só mortifica à hora de comer».pt Site: www. Mais cozinha nacional é o picante. em finais do século XIX e ao longo do sé.pt . porque há o visto como uma curiosidade mas antes co- risco de recozer o peixe em limão se for mo um prato destacado nas ementas e nos deixado muito tempo. embora Ma- ainda. A partir de meados do século XX. O que na ver- quer também um peixe mais barato mas dade é de salientar como característica da de sabor agradável como a cojinova.vado nos vales nortenhos é de fácil acesso francesa e à italiana. fundamentalmente à Tradução de AJM Aldeamento da Bemposta Apartado 59 8501-909 PORTIMÃO telef. Começa a substituir os pratos mais de ají. perdendo-se assim o sabor da carne. Actualmente é o prato predilecto e uma cultura gastronómica mais ligada à mais representativo do Peru. linguado ou mero). Foi essa veneno do que alimento: «para os aprecia- versatilidade que fez do novo prato um dores. cozinha europeia.bemposta-sa. É então que o cebiche para os limenhos. ou exagerar o uso buffets.

SINAIS DE FUMO 92 93 Habanos para um infante defunto João Ventura .

Fotografia de Daniel Mordzinski .Cabrera Infante.

na sem tempo à qual tos habanos. de intersec. regressando sempre aos mesmos temas tacto caloroso das pessoas. do rum se exilar. rancor quase irracio- fés ao ar livre. na sensualidade com uma nostalgia feroz: a Havana dos imediata dos corpos. a e de ter sentido mo uma «ár vore Lost City do filme que transplantada». Uma Ha. a sua relação com o questras de mulheres Estado cubano. até de novidade.SINAIS DE FUMO 94 95 Há em Havana uma rua. a noite. Era co- já não era. muito antes de alguma vez ter ido ma Havana que eu via. E. ba. que trei-a. uma decadência de charme. Três Tristes Tigres. de uma felicidade talvez mais sentida pe- depois. pois cópias de Três Tristes vinda da vizinha corrente do Golfo. se chame nha juventude. dos charutos cubanos ca dissidência que o cer La Rampa. Reencon. Via-a. que Cabrera Infante co- -me na Havana dos anos cinquenta. que desemboca no Malecón. mentos dispersos que agora eu ia recupe- latado dos charutos cubanos. pelo menos eu via-a assim. Cabrera La Rampa. insu. a mú- dos charutos. à pécie de crónica pessoal de uma Havana qual juntaria. justa e pouco amável que Cabrera Infante a mesma Havana nocturna. mitiu Padura. na música omnipresente nos sica. rando pertenciam a uma certa mitografia ci-a vezes sem conta em Três Tristes Tigres. de alguma vez ter ido que atravessa os seus Quando. algumas imagens de pobre e carregada de sons. suas inusitadas or. E. as mulheres. foi Tigres sempre circularam em Cuba. a mes- no mar. meçou a escrever ainda em Cuba. perdi. o cinema e os charutos. vana nocturna. num tivo dos livros. es. no la. amenizada por uma brisa refrescante esse afastamento. porque aqueles ele- a Havana e de ter sentido o aroma achoco. Desci essa rua. imagino. Ao des. ele não mais voltou. antes de birinto sonoro de rumbas e son. o troço alguma iconografia que moldaram a mi- final. ainda. sinal de fumo de Cabrera Infante encon- . a Havana tar fora de Cuba era tei a cidade. As- que amenizavam os muito antes sim se compreende- cafés do Paseo del rá a amarga ironia Prado». depois. for- ainda a cidade nocturna fundada por mando gerações de escritores. los estrangeiros do que pelos cubanos. como ad- Cabrera Infante que atravessei. em Havana para um Infante Defunto. visi. co- Andy Garcia promete o aroma mo disse na sua pas- estrear este ano. e de. a 23. Havana um castigo. em algum imaginário e em desce para o mar. de La Rampa. começo de uma noite quente de Verão tro. nem ele nem Havana merecessem pical. talvez. se ali estivesse. O primeiro bares e cafés de Habana Vieja. patine luminosa dos edifícios recuperados A ausência preenche-a Cabrera Infante do Centro Histórico. por culpa de um lar. não obstante a opinião in- Ali estava. alguns livros. Paradoxalmente. para ele. e as ao final da sua vida. no perfume adocicado anos 40 e 50. nardo Padura. ainda. E a partir daí. es- anos mais tarde. cheios Desci essa rua. de Ca. no con. Subi-a e des. tornou ausente de pois caminhar a pé uma cidade que foi ao longo do Malecón sempre o centro fes- até ao Centro. «com os seus ca. que mergulha Infante já não veria. reflectida na tinha dos escritores que vivem na ilha. ções. sagem por Lisboa o seado no romance achocolatado escritor cubano Leo- Três Tristes Tigres. nal que marcou. E. Trági- brera Infante. que mergulha no mar. é uma homenagem a uma Hava- Bacardi e dos charu. Talvez por isso.

desde mi universo opaco de cómoda butaca. reacendendo na memória do lei- felicidad a sentarme solo en el lobby de un tor-espectador um certo voyeurismo: um ci- viejo hotel después de una cena tardía. viru- acender e apagar um puro. luego arde rojo. Dickens. mesmo que algumas páginas de Colombo.] contada por um fumador nato que. que se es- to da América. vitolas e até se ensina como se deve cortar. quando um membro da tripulação mo um puro. ma espécie de ajuste de contas do escri- baco. em fuma e perfuma co- 1492. Hemingway. com o descobrimen. que é o processo de fabrico. nu- briu a folha de tabaco. transformado Três Tristes Tigres: Defoe. Lima. Jack Lon- que Cabrera Infante quando parece apagado.. apagou- ções de tabaco. Barrie –. Poe. dos campos e planta. o que fica é a sua pai- trinta marcas disponíveis com as suas 700 xão pelos habanos: «primero se lo prende.» aceso é outra fénix: Raymond Chandler. Porque Mundos. Também paz. «o charuto [. tranquilo en la de Cabrera Infante outras páginas que oscuridad: lo que fue exalam o mais puro antaño una hoguera encontrei-o em fumo literário. de- cinzas. violeta. sabemo-lo desde Ha- Hemingway. Es entonces cuando O primeiro sinal de fumo cos negros como A Dama de Shanghai ou A fumo mi puro en Sede do Mal. fumadores onde se explica a evolução do Mas como sinal de fumo. uma beata rude entre o índice e o trada y solamente se polegar de Bogart. mo el faro del alma. Conrad. Por isso. . luego crea ascuas y cría cenizas: ba da Vuelta Abajo. os filmes são fei- mento à tal mitografia da felicidade. una pasión consumida». onde viveu durante algum tempo para Cabrera Infante. roll. Mas também um guia para tor com o seu passado. a vida do fogo e J.» pois do almoço e do jantar. Como os puros. no bar do Hotel Ambos relação entre o cinema e o fumo. Conan Doyle. civilizadas que relu. M. tal- que só seria traduzi.trei-o em Três Tristes Tigres: «O charuto [. E também a Cu. Rodrigo de Xerez. referências a Daniel que. trich. o distingue. quando fumei o meu pri. Lezama escreveu original. entre outros – mente em inglês e morto.] Mallarmé. Em Puro Humo. don. conta-se uma Nicotine. garro lânguido nos lábios de Marlene Die- cuando se han apagado las luces de la en. decidiu que. com primitiva en el bos. Uma paixão pelos puros se-lhe o último habano. al maldade nos clássi- portero en su vigilia. história que começa Pura literatura. Lorca. vana para um Infante Defunto. fumaria um puro todos os dias. Uma história do ta. juntando assim mais um ele.. a vida do fogo surge entre as suas nheiro. se um dia tivesse di- morto. amarga e obsessiva. violento. e sem redenção. este não tinha lido o que Cabrera Infante dissera Puro Humo move-se de Cuba em direcção ao sobre o prazer de fumar charutos: «Llamo cinema. Há dias. lento. vez o mais belo títu- do para espanhol surge entre as suas cinzas» lo de todos os livros quinze anos mais que fumam: My Lady tarde. se avaliam as mais de que interessa aqui.. portanto. Lewis Car- cen en la noche co. ainda tos de sonhos. ahora en las ascuas Stevenson.. portanto. Em Havana. ainda aceso é outra fénix: quando parece apagado criança. viu índios sejam atravessadas por uma nostalgia («hombres-chimenea») fumando e desco. Mas Puro Humo é ainda uma história da meiro charuto.

ESTÁDIO DE SÍTIO 96 97 .

1.Equipa de futebol feminino de Churubamba. Daniel Silva Yoshisato. Agence France Press.º Prémio Desporto | Histórias World Press Photo 2005 . Peru.

Fotografia de Paulo Barata . ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM 98 99 Andanças e amores em terras lusitanas Virgínia Maria Trindade Valadares Madragoa.

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Brasil. No dia 7 de Se- governo brasileiro que se opunha tanto à doutrina tembro (dia em que se comemora a independência quanto ao socialismo que sonhávamos. idos anos da década de 70 do século passado. campainha e veio um senhor de idade me atender. rodas da tal Revolução. Ao chegar a Lisboa. se iniciaram para mim outras tantas desco. fazer doutorado em mos ferozmente a ela. pelo português navegador português Pedro Álvares Cabral e que a revolucionário. tanto sobre Portugal. no fundo eu continuava com má- nesta disciplina. não sei bem porquê. não se ad. enfim. caí em Lisboa meio de pára-que- numa ditadura militar e nós. localizada no Vale do Jequiti. De pronto. para trás meu marido. Só falávamos em todas as infância. Nunca se falou no Brasil dezinha onde nasci. o pequeno-almoço se iniciava às oito menos um duz um cipó longo e que bate forte) «voltando no quarto. Nesse país e a um povo de quem. Nesta mesma década de 70. minação e do materialismo histórico. Portugal ainda nem a língua que eu achava ser a mesma que a minha possuísse países na África vivendo sob o seu gri. na África. Acreditava no marxismo. ao contrário do da Europa e excluí conhecer Portugal. como sendo de dominação e des onde trabalhava em Belo Horizonte e. época Continuava detestando ouvir falar em «Pátria-mãe». Naquele momento. viajei por boa parte por Marx. enquanto estudante de His. É evidente que tos. te. acontecimentos. e fiquei sem saber o horário de funcionamento das lhão e sob a sua colonização. ALGUM CHEIRINHO A ALECRIM 100 101 Pensar e escrever no cantinho da revista Atlântica. minha filha de 14 anos e meu mos que o processo de colonização exercido por filho de 17. já fazendo licenciatura em Caetano e boa parte dos ricos colonizadores e con- História. em Minas Gerais. Ademais. na nhuma bolsa de estudo. Universidade de Lisboa. cultural e político. um quarto. de ensino médio e fundamental. Toquei a era o responsável pelas nossas desgraças. antes. Não gos. tentando vestibular para ingressar na Fa- Portugal e pelos portugueses fora uma guerra que culdade de Medicina. a História de Portugal. A minha proposta tinha sido aceite pela estudávamos a ação dos portugueses no mundo. No entanto. no curso primário em Comercinho. enfim. Era. O Santa Zita. como no di. Pedi licença nas Universida- desde o século XVI.Viajei todo o tempo chorando a destruiu os nossos índios. tive a sensação de que já estivera mo maus e perversos. que nos massacrou sob cântaros. Começo aí a redescobrir um ou- primeira missa no Brasil foi celebrada na Bahia. enquanto adolescen- Europa era tudo o que mereciam. estudantes. no tro tipo de português e um outro Portugal. O governo de Salazar e o por ali. cia da África e dos africanos. Deixei de ser estudante «Algum Cheirinho a Alecrim». Fiquei desesperada. cida. Torcia. deixando América e. Estudei «Brasil Colônia» e. é falar de amor a um reproduzia todo aquele refrão aprendido. muito menos o que era pequeno-almoço. Apesar de todos os novos bertas sobre Portugal. pouco ouvira fa. Daqui ção de ele ter nascido na cidade de Coimbra. perdas e ganhos. nosso ídolo musical. Em 1974 graduei-me. Portugal. Continuava contrária ao processo colonizatório. colonizador havia-nos roubado o ouro e todas as Até o nome da rua me era estranho. a aroeira (madeira que pro. nos manuais nos quais eu estudava desde a minha cantava «Fado Tropical». Reconhecía. Daí ser este país o responsável por eram o nome da santa e o portão enorme com uma toda a miséria e atraso de nós brasileiros. hospedei-me na Casa de o ponto de vista econômico. no interior de Minas. em plena década de 70. é claro. me avisaram que zer do Geraldo Vandré. Resolvi. arrumei as malas. o almoço às doze horas e o jantar às sete mais lombo de quem mandou dá». Isto foi nos goa da exploração que Portugal tinha feito no Brasil. instante estourou em Portugal a Revolução dos lar. sem ne- aniquilamento dos povos subjugados na Ásia. resistía. defendido No inicio da década de 90. encontrando guarida pelo povo e pelo novo tória. até àquela data. Eu torcia pela independên- nhonha. vendo-os co. adorava Fidel Castro Sabia bem que o Brasil fora «descoberto» pelo e Agostinho Neto. gime. assim como o nossas riquezas. refeições. Mais tarde. tava nem do país nem do seu povo. em que eu era totalmente adepta da teoria da do. . Portugal era tema recorrente Cravos. sobre Portugal e a de História e passei a ensinar História em escolas minha passagem por este país é escrever sobre afe. placa onde estava escrito «Proibido fumar». pois não entendia mitia que. Enfim. das. governo de Portugal. por Frei Henrique Soares A Revolução dos Cravos sai vitoriosa! Marcello de Coimbra. Ilhéu da Coroa Vermelha. são expulsos os nossos intelectuais opositores ao re- Nesse momento. descobri que no sobrenome do Frei não servadores portugueses vêm para o Brasil e são bem existia Coimbra e que tal denominação era em fun. Parecia o internato das freiras Clarissas Fran- atraso em que vivia Portugal em relação ao resto da ciscanas no qual estudei interna. e Chico Buarque. recebidos pelo governo da ditadura brasileira. situada na Rua de Santo António à Estrela. Vivíamos do Brasil) de 1994.

a vel sentir em sua própria casa. «Portugal». No dia seguinte. Defendi a minha dissertação de olho. nou também que os colonizadores estavam ali. bom e mau. com toda a intimidade que só é possí- entre vizinhos. mas nunca mais sen- que era bica. a partir do nasci. Senti- goa. Me senti amada e respeitada. Júri sério. jogasse fora o ar. e foi um Deus nos acuda até que 2001 ganhei uma bolsa de estudo da FCT (Funda- eu me desarmasse do colonizador. café tudante todo o frio do mundo. Vi que era capaz pessoas. isto é. no Carnaval. onde me alimentava. somos frutos em terra estrangeira. Éramos 10 alunos. vam pessoas e culturas. trabalhei mais e e naquele país. desta vez ca. copo de café com leite que era galão. mas por saudade e gratidão. mento de Cristo em 94. la-se aqui o brasileiro. elefante dade portentosa. também. to- 45 anos. percebi a luminosidade de Lisboa. do céu e de ti. ção para Ciência e a Tecnologia) de Lisboa. criei amigos. passando a noite de Natal em pelo amor. Sabia que lá encontraria amigos. Formei um círculo de para lançamento do meu primeiro livro fora do Bra- amigos diversificados que ia desde o senhor da tas. ao mesmo tempo. que eu havia cultuado por Chegou o Natal! O que fazer numa festa de fa. Retornei ao Brasil. nheci pessoas maravilhosas. único numa rela. Santo António à Estrela até à Baixa Pombalina para inscrevi o meu projeto de doutoramento naquela dar tempo ao meu corpo e à minha cabeça entender mesma Faculdade. Emocionei-me e chorei em público. somos todos nós mília naquela noite de Pai Noel. saísse do internato de Santa Zita e fosse que não havia conseguido no Brasil. tradição acadêmica que não existe em era necessário romper preconceitos para enxergar e terras brasilis. e em 2002 de- morar sozinha. Ganhei flores e elogios. viajei para o Algarve. Já era tempo do frio e no dentes. bolsa esta co e a flecha. Se iniciou aí. Houve a superação do mani. sinto. espavorida de e os documentos me esperando na Torre do Tom- com o olho a lagrimejar. com os mesmos professores e co- o que realmente era a minha função naquela cidade legas amigos. pensei: onde estavam os colonizadores. Veio a mim a noção de família portugue- compreender a complexidade de um povo e de uma sa e desta feita misturada de um entre-lugar a de cultura. entre pessoas mais idosas e. Co. renovando minha auto-estima. Visitei a Universidade e resolvi re. Percebi neste instante da minha vida que dos togados. Somos todos nós povo- junto com alguns dos meus senhores professores. lindo e barulhento pelas brigas -me em casa. xícara que era chávena. homens capazes de atrocidades. usurpadores e honestos. o meu nascimento em Passei a entender a língua portuguesa e a ter terras portuguesas. da época e da sociedade a que pertencemos. cordiais. sensibilida- primeiro dia de aula cheguei atrasada. dos amigos e dos amigos dos meus amigos. andei várias vezes da Rua de de alguma coisa e. «Pátria-mãe»: ganhei mais flores e recebi abraços Já morando na Travessa das Inglesinhas. Eu -nação. Em 2000 voltava eu para as de seleção para cursar o mestrado. Madra. ao invés de fazer o doutoramento. do colonizador. Em chope que era fino. Naquele momento beleza do seu céu. é hoje uma paisagem na parede da minha alma: Criei ânimo novo. senti falta da alegria triste dos navegadores portu- cuar. das imagens. Difícil entender o que aquela Trabalhei e conheci Coimbra e a sua Universi- gente falava. li e vi outra mília sem família? Fui a uma empresa de turismo e História. mas também de hu- vidada para participar de um almoço em Santarém. o encanto da sua arquitetura seis. fa- ção onde existe dominado e dominador. manidade e cumplicidades. mas que nos tornámos uma fa. certeza que a lingüística precisa ser mudada. amo e gosto. Se iniciaram as terras lusitanas. A História construída pelos documentos. respeito e solidariedade. que mata- centista e a cordialidade silenciosa do seu povo. se eu era brasileira. gosto das mestrado. e nos vários outros ar- cença e o Senhor Professor de pronto me perguntou quivos portugueses. Desta feita já sem choro e ranger de aulas. bo. Era um tal de pá. bairro típico. Portugal onde tirava fotocópias. tristes e ale- custei a acreditar ser possível tamanha sensibilidade gres. peões. ti em nenhuma terra portuguesa o frio da alma. E esta me ensi- Monte Gordo. tinham múltiplas faces. sil. enfim. como eles mesmos dizem. mas. A lín- queísmo e ficou claro que o ser humano é múlti. pá. amigas e a casa Em 2004 voltei a Portugal de forma meteórica de portugueses com certeza. mas sozinhas como eu. Gosto do gostar. gua que se fala no Brasil não é exatamente a língua plo. pela primeira vez ao longo dos meus fendia minha tese de doutoramento. Entrei na sala sem pedir li. e a Portimão em Maio. Senti no corpo daquela cidade es- que era arma de fogo. Até o próprio português nos Freqüentei os arquivos. língua falada no Brasil. No dia 25 fui con. fiz o exame gueses da atualidade. à senhora dona da lojinha não por medo. . cindido e. grande parte da minha vida? Aprendi. tornada «família Tombo». guerreiros e pregadores da paz. fui à Serra tirou a síndrome do colonizador ao redenominar a da Estrela.

white bird Onésimo Teotónio Almeida . O QUE FAÇO EU AQUI 102 103 Portugringo.

sacar um visto no consulado da República Dominicana e. A conversa per- mitiu-me. depois de sentir o bafo azul-quente caribe a afagar-me o rosto. seguidas de afirmativa titubeante. Era Janeiro branco na Nova Inglaterra. mesmo sabendo eu que não ia aterrar na Índia. Aguenta aí! Autorizar-me-iam a ir a Miami em vez de Boston? Consulta aqui e acolá. quanto mais para ninharias como essa de tomar conhecimento de que um não-ci- dadão americano com passaporte português (eram eras de pré-dupla cidadania) necessitava de visto. Sim. A demora folgada fez-me serenar por inteiro o raciocínio e vislumbrar um expediente ainda mais económico: já ago- ra. Foi ao livro. por isso. embora a cabin fever só apertasse lá para Fevereiro. rápida e barata. hesita- ções. O boletim meteorológico anunciava mais um nevão e that was it! Agarrei do telefone e. mas as escolhas também não abun- davam numa urgência assim e. Um pouco como Colombo. regres- sar amanhã. Eu a puxar camaradagem lati- na. com sorte. Voos mais frequentes até. Pagando nova viagem. Saída de Boston às sete da matina. em me- nos de um quarto de hora a Charlene telefonava com a solução: Caraíbas. o Porto Rico? É território americano e bem mais perto. Novas consultas. o senhor não! Tem de voltar a Boston no mesmo avião. o orçamento e a lista das peças a in- cluir na bagagem. Santo Domingo. resposta positiva. antes da chegada de mais neve. Por sorte . Os computadores eram ainda lentos nessa altura. dúvidas. todavia.. minutos antes de a agência de via- gens fechar. acalmar o ânimo e encon- trar a solução mais próxima. Só o soube já em terra dominicana. neve alta e. Quis certificar-me uma. evidentemen- te. por fim.. folheou o passaporte e inquiriu: O visto? O visto? Na agência não me tinham dito que era preciso. duas vezes. Desnecessário narrar por- menores porque nada resultou. Nem houve tempo para dormir. implorei dois bilhetes para o sol na manhã do dia seguinte. implacável. reduz-se a lista a metade e dobra-se o dinheiro. dei com a His- paniola por mero acaso. a confirmar aquele princípio básico do via- jar: feitos. Espera ilimitada e. urgiu-me por dentro ir de abalada derreter o espírito enquanto recauchutava a pele. e ele. O funcionário ignorava a localização de Portugal e nunca antes encarara com um portu- ga. como se interesseiramen- te a roubar-me a mulher: Ela pode entrar.

postei: ¡Señor cónsul. neditina de quem necessita e não tem outro re- Agarrei de um táxi e larguei rumo à cidade. se calhar. Pormenor insignificante de que ape. atravessada sempre sob chuvada tropical a en- -americano. San Juan até segunda-feira. dose de paciência perante o meu arremedo de mentos de onda. Não sei exactamente em que parte da porque era nada mais nada menos do que. na? Aliás. gode e uns bons sessenta anos. telefónica enquanto a roupa secava e eu me en- Dirigi-me em linha recta à cabine telefónica rolava na toalha após um duche quente. felizmente não me permitia localizar. para contactar a Marian- A chuva amainara e julguei até que se es. e eu a querer colá-lo à linha tele- minha segunda surpresa tenha sido uma panca. porque os porto-riquenhos que atendiam o tele- ria que me deixasse. Fosse para o hotel. Ao acaso poderia acer- via por ali que soubesse do paradeiro ou sequer tar. O QUE FAÇO EU AQUI 104 105 um avião saía dali a duas horas e o voo era de Eu. nha. Era um à sorte e por is. à Camões na foz do rém. Eureka! Eureka! Ouvi um ¡Sí. traído na soneca.. Que não se preo. sistência. Dispus-me a levá-lo a cabo com a paciência be- lhariam o leitor como me atrapalharam a mim. E eu voltando sem- nhar o consulado aberto. acho que me esca- pêlo e nem uma escova de dentes. ses. fui fazendo pesquisa. Nova elipse de pormenores que só atrapa. final- me porque. de visto na mão. soube da queixada de um tume. Cheguei a San Juan perto das Armado dessa pista. não exibia grande mas eu voltara as antenas para outros compri. voltei ao hotel e à lista cinco de uma tarde carregada de cinzento. Ou talvez as nuvens o estivessem dando. Ao fim de errantes deambulações. O melhor seria um procedimento sistemático. que eu haveria de aparecer ainda que a de la República Dominicana. optimista de nascença. Afinal o avião descolou com atraso latino. As malas levara-as a Ma. mandavam-me ir bugiar a carteira como posse. Nem uma luzinha a iluminar o que quer Cambodja. não. mas isso foi apenas para descan. sem nada nas mãos e apenas Outros. Os mais Juan. As minhas hipóte- Mas nem elas nem as brancas nem ninguém ha. O taxista não o sabia e perguntou-me onde que. tinha a certe. me era já algo familiar. Cerradíssimo. estaria à espera de notícias. el lunes!. so fiquei lá. Quem sabe? No Viejo San fone não decifravam o meu portunhol. que o do piloto a ter-se o fornecedor dos sumos dis. señor cônsul se chamava Luiz A. para sítios que o meu magro espanhol de calão rianne para o hotel e nem me ocorrera precaver. não podia deter-me. assim de molha no Sem querer acreditar. Era za de regressar naquela mesma tarde. todavia. mais rafeiros. porém. primeiro de táxi. escorre- cupasse. da de água que se abateu sobre mim sem pré. a pergunta foi feita inúmeras vezes. enton- nas me apercebera no avião. a cada frase minha. delicados pediam simpaticamente para repetir. Por isso me cinquenta minutos apenas. embora nunca alguma Oito chamadas seguidas sempre introduzi- vez na vida me tivesse sido necessário achar o das por É da casa do senhor cônsul da República Dominica- endereço do consulado da República Dominicana. fónica para que me escutasse a súplica. que aparezca el lunes en el consulado. até atingir o tom Desta vez. De porta em porta aberta na vizinhança. frutífera.. mas a sorte naquele dia não estava comigo. Ri- sexta-feira. mente. porém. A. ces. depois Despedi-me da Marianne. A telefonista. nem um li. mas tinha de lá entrar quanto antes.. su nacionalidad? Por-tu-gue-sa! ¿Portugués? ¿Es usted Adensava--se a perspectiva de ficar retido em portugués? Entonces venga mañana a las nueve al consulado. yo no soy americano! Cual es.. los americanos.. para razões que podem ir de uma ressaca velhote. Farpela molhada e tudo. aventurei San Juan fora. E. de quem já esgotara a pachorra:Ya le he dicho a usted tornei a sair a ver se chegava a tempo de apa. López. po- nado. Lancei-me em cata de hotel. Desliguei. a meia viagem. para servirlo. que médio. Precavera-me com o nú- quecera de cair. Na rua. descansando sobre uma bengala. a pé. ne em Santo Domingo. Despachava-me repetindo com um ¡El enquanto a roupa secava. que fosse. mero de telefone do hotel onde certamente ela sar enquanto esperava a minha saída do hotel. Mas. Avaria técnica foi a desculpa do cos. com o señor cónsul ainda em li- vrinho para adormecer. lunes. descansasse.. puliu um urrah!. que imaginei com sotaque. espanhol. eufórico. Os Luiz mais próxima e mergulhei nas páginas amarelas. Ou. existência do consulado dominicano. conversa o ouvi resmungar: . . López eram muitíssimos. eram poucas. Não respondiam ao pre à carga a fazer-lhe ver as razões da minha in- telefone. charcar-me os ossos. provasse garam-se-me os olhos num letreiro: Consulado a praia. O senhor. de bi- aviso. Daí que a ele ali ao vivo.

agarra de um carimbo desgraças. português. cruza as mãos so. Nisto. Voei para o aeroporto. e. o azul-turquesa da fresquíssima água de uma lado. Não tive coragem de esboçar qualquer reti- ças acontecem em ciclos de três e. o motivo por que escolhera tendrá mucho honor en recibirlo! a República Dominicana e. mingo no dia seguinte. de.. A sorte ameaçava-me com um fim-de. Não dei por ninguém chegar mas. nem tão-pouco ao senhor padre. deu-me um abraço e. ou melhor. Ergueu-se da cadeira. o ho- do. também era avião para a República do Senhor Cônsul. de Providence. mentalmente me penitenciando pela co- um ciclo delas. Mas do quarto dela mais nada menos do que. Estava portuguesa. Voz de barítono pesada e pau. pouco amistoso e. como dera com os ossos nos século. fui zuniam-me hipóteses e interrogações. terminado cência. tava com a funcionária. um dos dois tinha de ser hóspede lá. saí para a cidade. ao meu tenteado nove já eu estava de plantão à entrada do consula. moreno e ocu. da Junta de Freguesia. som e tudo. De repente. Deverei percebendo que a Marianne estava farta de vir ou não mostrar-me disposto a pagar o que for da praia à recepção saber se tinha chegado al- preciso? E se o insulto? Por que demora tanto gum telefonema para ela. o senhor cônsul no quarto. sábado. inaudito poder ser de alguma utilidade a um Pediu-me o passaporte e quis saber o que se pas. português. a partir dos Estados Unidos. . já du. exalava autoridade e nela se comprazia. Segundo a lei de Murphy. entregou-me o passa- Na manhã dele. meia hora antes das porte. de Boston que é. a teimar. uma espécie de figura de quadro do século praia caribe. com a euforia do Qualquer gaffe minha seria fatal. mas dirige-se-me solenemente: ninguém se lembrou de registar a transferência. Uma molha de horas no pêlo murro no passaporte. as desgra. peremptório. Salazar. ¡Por Dios! Tinha sido um prazer eu tinha visualizado ao telefone fazia-me sinal. Uma das figuras. ela descobrira uma pingueira sobre a ajusta solenemente os óculos. não advém um outro de aconte. sequer cuecas ou um par de me lembro de jamais ter ouvido ao presidente meias secas para mudar. eu não reconheci. com movi. sor. mas desejava saber quanto dev. algum mem quase me tapou a boca a reprimir-me o tempo depois. enquanto o homem continuava embalado cimentos bons. tudo reservado e pago estadistas que no mundo mais admirava e que antecipadamente. embrenhou-se numa tirada elogiosa como não Sem um livro. XIX de repente em três dimensões. aquilo que todos conhecemos e lamentamos.. Na recepção do hotel. Voltei ao hotel e adormeci a mo Escobar e Salazar que o mundo está hoje consultar os horários de voos para Santo Do. pouco depois de dar entrada mais seguro é o silêncio. E o senhor ninguém atendia. bigodaça retorcida e severa. quem eu era. Interrompi o diálogo sada. ainda. terminado um ciclo de coisas más. Esperava-me dista. no seu disco prazer que prestava aquele serviço a um cidadão partido. sar com mais largueza e aponta para a parede o que na América Latina se entende por Costa onde estão dois quadros. já em Santo Domingo.. Jurei que a Marianne me de um grande estadista.respondeu que ali não constava ninguém com Pois ficasse sabendo que era com imenso aquele nome. Nada! – garantiam-lhe. molha os lábios um no outro e um anexo ainda nem sequer inaugurado. Na cabeça reencontro e da narrativa da minha odisseia. se a minha ca. um Leste. a alguém nado e educado sob o regi- Acabei exigindo o gerente. como se num tribunal a bater com o martelo -semana de prisão em Porto Rico. ¡Y buen viaje y felices vacaciones en mi patria! Que domínios do Tio Sam. todo este processo? Nestas circunstâncias. o Soube então que. Ergue-se então da cadeira como para discur- pois do corredor Miami-New York-Washington. aliás. ao regedor ou ao profes- vidando da promessa de no outro dia ter o côn. do meu Pi- sul a abrir expressamente o consulado para este co da Pedra natal. cama e reclamara mudança. e logo eu a teimar ainda mais. eram a sua companhia naquele gabinete. O senhor tinha um ar grave de esta. para impor a ordem. Muitíssimo obrigado. de permeio. bardia. Impossível! Era ela. súbdito do que foi um dos grandes líderes do sara. Agarrei o primeiro ra-metade. Passaram-na para bre a secretária. uma porta abria-se e a figura que resto da frase. enquanto. a Marianne argumen- mento.. A outra era nada uma señorita assim chamada. apenas recomeça um novo de no panegírico. O gerente admitiu por fim que dera entrada tal Escobar. deu com ele um enérgico Serão curto. não é o mais aconselhável traje para noite de declarava ser por não existirem mais homens co- fim-de-semana.

prometendo o anun. mas a manhã senvolvida. O Presidente Reagan decidira cote que se respirava no hotel-aviário. ser de outro -nos a entrar no que parecia um restaurante. ali a funcionária era já outra e não sabia das mi. A ver como era. Saiu-nos. suponho. é certo. Mr. já com novo re. reconhecidos aos visitantes pelo contributo importante que traziam a uma economia subde- A chuva estragara a véspera. agarrei de uma toalha nhoras-bem. Assim andávamos nós em demanda dos do- minicanos autênticos. Esperávamos. ciado nos panfletos turísticos. Entre a decifração da ementa. pobres remendados mas limpos. nal não passávamos de mais dois dessa raça. no Funchal. Quer dizer. A foto da praia Numa ruela escusa. the real people. sem turistas. Afi- que eu tinha o número de telefone do hotel. de desaguar num bairro com restaurantes frequen. uma chuvada tropical de catálogo. atenciosos e. todo a descascar de torradinho. os pedintes. Não estávamos muito longe do manuscrita e com as suas regras ortográficas centro da cidade. ao invés. Algazarra. mapas e guias. Robinson queria the real people mas o dos livros etnográficos. Metemos con- aliás o mesmo que nos leva de regresso à bran. Robinson vol- k tou pouco depois. uma boa hora de despertou de cara lavada. queixava-se uma de e fui estirar-me ao sol numa cadeira vazia junto que. Consultei filmes. um canto ao outro do exíguo quarto. e dois bilhetes comprados no mercado negro. de água. em versão para turista. conseguiram um hotel quase junto à Décima Avenida num sítio hediondo. caras. enviando potentes vasos de guerra para o saro da neve. Les Misérables! Depois vinham-me flashes do Mr. arte. de preferên- cia. era a ma- tados pelos locais. descorçoado e de estômago indisposto: Moscas. Extraído dos vesse sol que o resto era de somenos. calíssimo. moço de uma grande família. para aquela tarde. conseguimos perceber que o a marginal murada pelo malecón. Percebi então o significado fizesse esquecer o imundo Rio. sujidade. farta da miséria do Rio. canas. Lembrei-me de uma All is well when it ends well. Fui infor- mar-me e passei-lhe a dica. o Mr. mas só de chover no molhado. New York. sequiosos de oportunidades para melhorarem honradamente o seu estatuto social. São Domingos (os white birds – do Canadá e do Norte dos States). da Zona Sul. recheado reagir contra algumas insurreições latino-ameri- de gente que viera como nós no snowbird. O QUE FAÇO EU AQUI 106 107 Preocupadíssima com o meu silêncio. por exemplo. ou pás. mais estrelado do que o nosso. Ela queria cultura. a lixeira pública. Foram. era especialmente contemplado. Ra- ceava que me tivesse acontecido alguma coisa e zão acrescida para aproveitarmos uma aventura já se tornara impertinente na recepção. Lá fomos descobrir a miséria. em exibição de força. a pedir-me que lhe indicasse um restaurante da terra. e um bom passeio. de favelados e mi- à piscina. implorara ao marido que a levasse dali e a sorte veio assinado com uma brutal descarga para fora a desopilar por uns dias. Lo- hotel. um aroma convidou- exibida no catálogo devia. Todavia. fora do circuito turístico. carregado de peles-brancas Caraíbas. algo que a sabar-me no corpo. nifestação contra os Estados Unidos agendada neámos portanto uma saída do ambiente de pa. Robinson. Assim é conhecido nas Caraíbas o Golfo do México e vários portos principais das avião vindo do gelo. pois sabia vestimento. serviço. fora daquele casulo enlatado. permitir-nos-ia grande tema de conversação entre as mesas. frequentado por locais. a atravessar muito próprias. a de. Peace at last! O tratado de paz entre mim serentos. muitas moscas e uma casa de banho fétida. versa com os comensais e tudo acabou em al- cura fria uma semana depois. Inteiraram-nos so- . para um musi- cal. Pla. mas hou. caminhada povo real dentro. corri para o quarto a peça que vi no Rio de Janeiro: entre duas se- vestir os calções de banho. Cheiros. re. a nhas frustes insistências na véspera.

A Não sei se chegaram a prestar atenção ao con- avenida regurgitava de gente e era impossível selho. tro adensava-se ainda mais a massa de gente. Não haveria maneira de irmos mente que isto vai ficar feio! para o hotel? Um táxi? O restaurante.bre a arrogância imperialista de Reagan e sosse. No pôr o pé na rua. À medida que nos aproximávamos do cen- garam-nos (depois de acalmarem eles próprios).. curso até lá estava desobstruído. mas não havia remédio senão passar De repente. Preocupadíssima. Afinal era a sala toda que agora chorava no melhor sorriso e. Entretanto. no mais arremedado espanhol. nem os manifestantes. Mas dali a minutos tação e. Saltavam em tei a maior descontracção. – Não sabem da manifestação? aparentemente. desviámos por um pequeno um musculoso cinturão preto a garantir que não largo mais desafogado. tão nas nuvens caminhava aquela dupla. tentou acal. de cima desceu outro logo ali.. E. invectivou-me com os porta sem perceber.Yankee. os olhares das pessoas a fulmina- na algibeira uma bomba de gás lacrimogénio rem-nos. – Pois regressem a ele imediatamente. estávamos já numa clareira que se alargava mais ramente. em quase cinco minutos atingíamos é um daqueles dias em que vocês não podem as palmeiras do extremo oriental do malecón. por descuido. a pegar na mão grupo: ¡Tu a mi non me pareces japonés! Ainda parei. ¡Mira. mente encobertos estavam. Tentámos cautelosamente mos brasileiros. entanto. Hoje Com efeito. con- estrangeiro ali. expressando até alívio quando nos souberam Desviámo-nos para o lado oposto ao mar por ter europeus. Já nos acercávamos do malecón e. – Não. Nem uma cara de multidão. ginal uns bons vinte minutos antes da arruaça. íamos conseguir atravessar a mar. ela rebentara-lhe prematu. com orífica onde agora seria o nariz a chorar se bonomia nos olhos e na mão que me deixou tivesse lágrimas. embora me chegasse aos ouvidos a mais abertas. com a raiva toda olhos e exclamou: Gás lacrimogénio! Eu olhei para a do universo no semblante. beirando o nirvana. nem devem ter reparado na irritações e levantaria suspeitas. galgámos a primeira meia hora sem vislum. Subitamente. Faltava um quarto para francês. a Marianne levou as mãos aos pelo meio. um buliçoso grupo teima de um pequeno grupo insistindo que éra. até porque provocaria se foram até ao malecón. A rua estava calma e convenci a Marianne Faltavam dez minutos para as quatro quando de que podíamos seguir a passo lesto para o entrámos. particular. e logo ao fundo emergia o hotel. apressada. achámos prudente abrandar a marcha. tentei espremer o meu jorro. Com relativa calma mas de acelerador nos – Desculpem intrometer-me na vossa vida pés. prosseguir naquele passo. meio de uma balbúrdia confusa. Ficam foi-se-me. A dona do atirei: ¡Yo no soy gringo! Sem intervalo. Contra os conselhos outra sem olharem sequer onde punham os pés. barrando-nos ostensivamente o cam- que lhe haviam dado para levar para a manifes. – Dar um passeio pela marginal. O pateta de um rapazolas trouxera adensar-se. porém. quase chocou comigo. o maricón. O per- tabefes. Levou-nos para uma cierto! Yo soy portugués! cave-arrecadação-armário-de-lixo-câmara-frig. largámos. não tinha telefone. da Marianne e a puxá-la para dentro fazendo resistindo à Marianne que me puxava o braço: ¡Es sinal para eu as seguir. mas para onde vão? brar qualquer sinal destoante da azáfama encon. contorná-lo. amigo! – um gorducho careca. Era pagar e andar. se calhar. cair no ombro – e o original da frase em espanhol mar-se acalmando-nos. Cruzando-se connosco. tão enlevada- Robinson. mas guardei bem nítida a ideia: aqui fechados e só irão para o hotel depois de quando isto começar. um parzinho hotel. Mas já tinha apanhado um par de e mais. da nossa prestimosíssima anfitriã. não há português nem terminar a manifestação. o barulho sempre a havia problema. Porquê? trada na ida. Real local people. mas já não vi nada porque olhos e mandou: Gringo!. diria o Mr. seguiriam diferenciar-lhes o rosto. . Um mal-encarado. Não vai ser nada. Só há pouco saímos do quarto. go home! Eu inven- as lágrimas toldavam-me a vista. um outro do restaurante acorreu. inho e empurrando-nos. de mão dada e boquinhas uma na aquecer e a irracionalizar-se. Conseguimos furar mais um magote aqui. Há dominicanos e o resto é gringo! as três e o protesto estava marcado para as qua. Desapeguem-se vocês para o hotel imediata- tro daquela tarde. vedou-nos o caminho. Decerto bem mais de gringos apaixonados com ar de inocentes em seguro antes de começar o ânimo da populaça a lua-de-mel.

na página dos anúncios. Todos os outonos são feitos de coisas banais. e as bolas de bilhar batiam nas tabelas do jardim onde os velhos liam o jornal. empurram a alma para fora do asfalto. ouço temporais nos telhados que vão cair. abro hemisférios nas fachadas por pintar. atirada pelo vento. como se não houvesse mais nada na sua existência. em busca de viagens que nunca mais fariam. E ao sair da praça. obrigam o ser a descobrir uma forma para o tédio. ouvi a música branca do coreto vazio. e um coro de pássaros afinados pelo outono. levo comigo os jornais que os velhos deitaram fora. Uma infância antiga corria pelo meio do empedrado. Sigo com o indicador o rumo dos rios. Mas invento descobertas nas colunas do coreto. há uma saída para esta praça. Poema inédito de Nuno Júdice .A MARESIA DO MUNDO 108 109 PROVÍNCIA Assim. sujando-a na lama das bermas. me levasse na sua corrente. deixando para trás o Outono. e é como se o gesto que faço sobre o fio azul. colam-se a um sentimento que não tem nome. cantando a melancolia branda da província. no centro da praça. Algures. enchem de névoa o horizonte dos olhos. depois de ler os anúncios. no papel. até esse mar que não tem portos nem barcos. põem-nos pela frente um velho mapa de nuvens desbotadas.

Fotografia do Arquivo Museu Municipal de Portimão .

CRUZEIRO DO SUL 110 111 Retrato de Juanito Rulfo Mempo Giardinelli .

Fotografia publicada com a autorização da senhora Clara Aparicio de Rulfo .

diários e universi- mantivemos longas conversas dades para escrever sobre a sua peripatéticas pelas ruas do Mé. como lhe chamáva. que não se preocupava com a víamos combinado dias antes. foi ele que me osso da Avenida Félix Cuevas. tive o privilégio de ser seu ami- Porque há que ser muito grande go e de o conhecer bem. Naquele se costuma pensar. nos últi- era totalmente improvável. honrou com o seu afecto. e pare- seus afectos e desafectos para sê-lo e que não se note. Patagonia e faço-o agora. além disso. quan. como de costume. como também Colónia Guadalupe Inn. ele adorava. Porque ele não teria gosta- Juanito. aves. e tas revistas. salvo uma pequena já um escritor consagrado. já não escrevia. timos anos de vida com uma respeitávamos religiosamente a generosidade e um alento enor. em silêncio. nota necrológica que enviei do so à celebridade e com fama de México para um diário porte- intratável. Juan impunha-nos um silên- mos. e depois que. pode ter agora algum interesse. ou há dava a escrever. A quarto. como sempre fazia dar-lhe a volta ou não há manei- com o que escrevia. anos e creio que talvez seja tem- influenciável que foi sobretudo vital. intimidade. mas sempre me ne- xico e de Buenos Aires. com os falei-lhe da Argentina. como me po de falar dele sob outro ângu- aconteceu com outros velhos es. de um recanto da Funerária Gay- Na realidade. inclusive néscio. critores. mos anos. e os seus amigos Foi. A nossa amiza. Fi-lo com muitas destas pala- conheci na minha vida. arbitrá- mandava saudar. O que acontecia era arbitrária como ele próprio visitá-lo nessa tarde. lo. Nunca mais consegui fa- te em 1986: encontrámo-nos lar de Juan em público. ido várias vezes a sua casa na Não era tímido. onde se tinha instalado o calhão. um homem comuns que ele sempre me apaixonado. distinguiu-me nos seus úl. Falámos de polí. era ousado. Porque realmente. conversámos muito e eu até os seus amigos. vitalidade e coerência. Pelo contrá- terceiro piso que eu conhecia rio. CRUZEIRO DO SUL 112 113 Conheci Juan Rulfo nos Desde então. a lápis. brin- bem. posso dizer que fomos amigos. possivelmente. embora para conversar todas as sextas. país que quais era terrivelmente exigente. cio absoluto. Mas já passaram muitos de não foi estritamente literária. noite. . ce-me que o meu testemunho não incomode e não esmague. grandes pela sua litera. divertido e dotado de seu leito de doente num pequeno uma mordacidade implacável. e depois de o anos do meu exílio no México e ter acompanhado. publicação e preferia manter-se Nessa mesma semana eu tinha afastado de qualquer veleidade. ra de os fazer mudar de opinião. vras no meu livro Final de Novela en tura mas sobretudo pela sua sa. do. No dia em que Juan morreu Diz-se que Juan. chalaceiro. Não é contrava-me no México e devia verdade. – 8 de Janeiro de 1986 –. proibição implícita. das quais que ser bastante brilhante para desdenhou. eu en. o homem menos mes e constantes. Demo-nos desde fi. violento. tenha sido solicitado por mui- feiras. desses tica. como ha. creio que de um dos seus sua ironia era capaz de desfazer filhos. guei. durante cinco anos. e falámos de amigos E era. a química dos bedoria. rio. se têm uma ideia na cabe- mostrou-me umas notas que an. nunca mais consegui escrever do eu era muito jovem e ele era sobre ele. e. nho (o Clarín) nessa mesma nais dos anos 70 até à sua mor. ça – e ele tinha muitas –.

Juan Rulfo com Mempo Giardinelli. Arquivo pessoal de Mempo Giardinelli .

reinven- mo da forma e se. o escrever sem gressão para eludir o inferno e o suporte de uma biblioteca que aludir ao que se passa criando uma chave para definir escudasse cada página. ou jamo-lo como evasão do que os velhos camaradas Valadés e nos é mais provável: o inferno. insignifican- que ele estimava profundamen. cialidade. za derivava de pose ou de sno. o precisamos de transgredir. e. moralidade textual interna capaz Maldizente e transgressor. o caminho para o céu (literá- são. Dese- brasileiro Eric Nepomuceno. tista o é. possivelmente. sar que se deve descrever um sempre confrontadas com aqui- . – tentar fazer a descrição de um ci na minha vida. tes e olvidáveis. então. Desesperava com a superfi. ilusão. CRUZEIRO DO SUL 114 115 Foi. que se expressa na estranha mo- dicações superficiais fazem pen. Para madamente. Creio que essa era. é impossível – e vão menos influenciável que conhe. capacidade de trans. aproxi- suporte ético de cada texto. os ares dilaceradores e dilace- ta combinação de exigências: rantes que percorrem Comala destreza formal. volo. pre um transgressor. juízo que passava por uma exac. sozi. ralidade das suas personagens. guagem. moldamo-la. que crê no inferno. arbitrária como ele próprio. rio) não passa de uma trans- o falar sem saber. são transgressões que expres- substância. na minha opinião. te (jovens escritores como o so. desesperado. não se inferisse uma ção inerente à arte. A A Planície em Chamas. A glória. detestava a ignorância. por sua vez. os rancores vivos. Consequentemente. Toda a obra vel. com a mesma exactidão com mexicana deste século canas. Susana San Juan a continuidade da narrativa vários colegas da sua geração. de da constante alusão e elusão. ao mesmo tamo-la. mas também não era frí. requisitos de toda a literatura e El Gallo de Oro bismo. nos seus contos e tempo particular de cada leitor. significante. especialmente. felicidade de um texto) depen- Pedro Páramo Não era solene. que. merecimento. realmente. Aspiramos ao céu porque norense Federico Campbell. a paraíso. como Ezra bate silencioso. nem a sua rude. Nesse sentido. a filosofia de Juan ele não havia escrita válida sem Rulfo. quando todas as in. Odiava essa ilusão que é cada conto e muito e com infantil veemência cada romance. sabemo-lo. e esse as. embora existam inúmeros nho ou com amigos comuns textos passadistas. Sabia que a transgressão é significado. ou se não conjugasse criativa. mas de uma elu- Para Juan. em Pedro Páramo notamos o com- Juan acreditava. ter um glória literária (por exemplo. ra. ser escritor signi. Todo o ar- fectos era totalmente imprová. As buscas terárias sempre elaborava um fantasmáticas. ficava. artística que merece ser consi- Mas houve um aspecto na derada como tal altera e subverte sua vida que me impressionou uma ordem estabelecida. Transgredimos a lin- o significado com o brilhantis. antes de mais. são que é. Augusto Monterroso). de se projectar no espaço e no ele próprio. A transgressão é condi- tempo. originalidade. a compromisso com a seriedade. Pound. o homem apocalipse. – é evidente – descrê do céu alguns grandes das letras mexi. nos anos em que o so não há literatura conservado- conheci e me dei com ele. o rada. não resulta de pecto foi a solidez da sua ética. Por is- ainda mais. foi sem- química dos seus afectos e desa. e nas suas preferências li. sam uma mesma ética desespe- cendência e.

Descortês. pu- ção feliz é impossível e nas blique. durante muito cidade de modificar uma reali- tempo foi uma manifestação de dade que o atormentava. E Conhecia o valor na minha opinião. Co- por ter vivido». Ou seja. durante um jantar. É conhecida a história Cordillera». Por algu. e Pedro Páramo. Não há muitas fúgio nos livros e na música esperanças na obra de Rulfo. Mas. detestava as mediocrida- sensibilidade. Ética. como ele mesmo se o senhor sente quando escreve? enfadava a explicar. os remorsos que que respeitá-lo. mas era implacável com a livros fundacionais: perpétuas. isto é. mais parecia resignado. pois. não publicava. Outra até ao desespero e ao desalento . Sofria protesto.lo a que. falavam por ele. se chama «decisões trági. se es. Juan era devastadora. me atrevi a questionar. na minha opi- o desespero que essa prisão nião. São como prisões des. mas perguntou: às récuas de gado unidas por – Senhor Rulfo. do prato. luta com as suas próprias con- E li também uma versão de «La tradições. matérias mediocridade. em transgressão face ao esperado. Planície em Chamas e Pedro Páramo. clássica. Não lhe agradava sentiam as suas personagens? nem o fazia feliz. o seu pequeno re- de ser nefastos. se devesse ter parafra. não se permitia publicar nada minhos que inexoravelmente se que pudesse ser inferior a esses e o significado dos seus cruzam quando se tem a devida textos. Nem sequer Só agora. creio eu. um escritor veterano. ve desagradável com as suas iro- cia não são senão. derivações de um espírito nada que pudesse produz. pela sua incapa- jecturalmente. há já Que remorsos eram esses muitos anos que havia decidido que Juan sentia? Os mesmos que o seu silêncio. não há escapatória própria. e lhe uma cadeia de montanhas. mem de ilusões. soluta consciência da qualidade mento tê-lo feito. Tinha ab- fesso que vivi». Juan nunca deixou de es. Havia. o que é que uma corda. Tenho para também. para dos seus livros fundacionais: A ele. grosseiro. con. creio entender o seu obstinado seado o seu admirado Pablo Ne. particularmente no porque ele próprio não era ho. eu sempre angustiado. nhecia o valor e o significado A pena e a dor eram. quando já passei prático. mas sim «la. inclusi. Eram. uma constante. canto gregoriano. são dois ca. às vezes. ou com o que ele terá nem sequer através da ironia ou suposto que era a sua própria A Planície em Chamas do jogo de palavras. mas de um rebelde. aquelas cuja resolu. levantando os olhos crevia. silêncio: a auto-exigência de ruda. que ele dominava na perfeição. Daí a sua aspereza. enfado fácil. dos cinquenta anos e sou. as manifestações da sua as. por conseguinte. ao fim e ao nias. peço desculpa dos seus primeiros textos. o seu quais todos os resultados hão-. Para mim. desde os gregos. Juan. o seu romance daquela senhora que se abeirou frustrado que não se refere a dele. Ética e Dor. Eu tive acesso a vários dos seus princípios morais em contos que ele tinha na gaveta. respondeu: ma estranha decisão que nunca – Remorsos. escreva e. E não se permitia publicar cabo. ao previsível: que um escritor cas». Juan não teria dito «con. uma forma de transgredir pereza não eram. de rebeldia. essas artes da inteligên. mim que. submetido ao contínuo conflito ser inferior a esses textos crever.

dos prémios. dirigida Essas lições são as que sem- por Octavio Paz. mexicano. não devia. Censurava a sen. de 1928. em vez de lhe exigir que rios latino--americanos. sem conces- também sob o ponto de vista sões. E julgava-o não só sob discurso contra a corrupção no o ponto de vista literário. organizou-se uma México: La Sombra del Caudillo. continua pontualmente o de um fóbico. tiva mexicana deste século. militares e políticos. não de de. Não havia sensualidade que ticava os escritores que eram. E. dia seguinte. mas implacável mocracia. definir a continuidade da narra- nita honestidade. ções do sistema político mexica. minável qualidade de homem Equidistam perfeitamente dos puro e. mas seu país. e da qual se pôs toda a estrutura Noticias del Imperio. ou a teme. de 1987. furibundo: «Não leias essa das narrativas mais vigorosas do porcaria!» Arbitrariedade que eu nosso castelhano: A Planície em não partilhava. portanto. e sobre ela utilizaram- cumprisse papéis sociais didato ao Prémio Nobel. a ser destinatário de críticas e compreendendo a Contraditório e temperamental. ou mesmo de um re- numa ocasião viu-me a folhear a conhecimento algo cínico por sua orfandade afectiva revista Vuelta. que tinha razão. se adjectivos e qualificações pre- rou-ma das mãos com violência. na sua submissão ao inferno inte. Oro (ainda que a ele já não lhe de. cri. desfrutava secre. é consentimento do orgulho). Tudo o mais é tor reconhecido e ensaísta can. libertário. Falava de sistema. mais tar. da sua infi. Pedro Páramo e El Gallo de viu para compreender. uma chave para rior que o acossava. ape. Ofendia-se com os subsídios tão. No político-social. proferiu um no. porque o po. voltou a encerrar-se no seu mu- der – sabe-se – nem sempre tismo. o dobrasse nestes assuntos. rancores. da ser uma obra deliciosa) são. rias: o seu comportamento era mo após a sua morte. Mas. Acusou. das honra. então um escri. cisas e suficientemente justicei- que ele jamais cumpriu atirou-a para o chão e gritou. retroceder nem um milíme- que compram consciências. também se alguns anos depois ainda nos deixava mimar. Na primeira ocasião. e ti. pre prefiro evocar. dizer. antes a sas e interpretações. defe- compreende a cultura. melhores. delicado. Chamas. Prefiro sabê-lo pai de uma me. ou a comba. para mim continua a combate das suas paixões. da sua inter. amigos do gover. acaloradamente. ignorando críticas. A Juan havia que sar desses desprezos. que nesses dias parte de muitos dos seus com- causava furor nos meios literá. en- te. perguntava: «E o que é que eu ia amá-lo com muita calma. mais revolucionários Em 1980 ou 1981. senão aquilo? Ou não era blico. suave. verdade o que eu disse?» Mes- serenamente. muito orgulhoso e ao mesmo nante de turno em prossecução tempo irónico (porque a ironia de apoios pecuniários. tá-lo na sua casa da Colónia de . Juan. não me e mais modernos romances do lembro bem. minha opinião. tamente do reconhecimento pú. solitário. além disso. CRUZEIRO DO SUL 116 117 mais absolutos pelas imperfei. de Fernando do sistema cultural do Estado del Paso. a dimensão do interminável agradasse. tro. de homenagem nacional ao serviço Martín Luis Guzmán. patriotas. dirigida pelo próprio Da última vez que fui visi- Presidente José López Portillo. literatura. mas que me ser. Ele pensava oprime. ras. suspenderam-se sualidade do poder com espírito todos os festejos rulfianos e ele acrata.

Guadalupe Inn, ele estava an- incapaz de os pedir. A Juan havia
sioso pela minha visita porque que amá-lo com muita calma,
eu vinha de Buenos Aires, e es- serenamente, compreendendo a
tivemos a conversar um bom sua orfandade afectiva em vez
bocado. Como sempre, pergun- de lhe exigir que cumprisse pa-
tou-me como estava a Argenti- péis sociais que ele jamais cum-
na e disse-me que tínhamos de priu. Havia que amá-lo sem pe-
voltar a ver-nos. Encontrei-o dir nada em troca, sem esperar
muito animado, embora fraco e nem exigir nada dele.
consumido na cama de um só Na noite do dia em que
lugar, estreita e de madeira es- morreu, estive na Funerária
cura. Impressionou-me muito Gayosso, da Avenida Félix Cue-
vê-lo assim: era um quarto des- vas, que fica perto da Guadalu-
pojado, e essa cama tinha uma pe Inn. É uma casa muito gran-
cabeceira arqueada, alta e escu- de, com sucursais em quase to-
ra onde só pareciam brilhar os dos os bairros da Cidade do
lençóis brancos. Havia uma luz México. Era uma noite muito
à direita de Juan e creio que fresca e o local estava cheio de
nada mais. O quarto estava gente. Montes de escritores e Afastei-me pensando
mergulhado na penumbra e amigos, e gente do povo, desfi-
dei-me conta de que ele tinha lavam diante do caixão. Eu não que todos os que estávamos
estado a escrever porque sobre os vi todos, mas lembro-me de
a mesinha havia alguns papéis Arreola, com a sua grande capa ali éramos – e talvez
com a sua letra e, ao lado, um negra, a dar uma entrevista pa-
infalível lápis amarelo, de mina ra a televisão, e recordo Tito continuemos a ser
HB ou 2B, que era os que ele Monterroso com a sua esposa, a
preferia. Escrevia quase sempre narradora Barbara Jacobs, e Ed- para sempre – irremediável
com lápis, embora tivesse vá- mundo Valadés com a sua espo-
rias lapiseiras. Encantavam-no sa Adriana, e Elenita Ponia-
e completamente rulfianos
as canetas de tinta permanente towska, e Juan Antonio Asen-
e, especialmente, uma Pelikan cio, e Monsreal, havia ali um
de tampa prateada que costu- montão de gente.
mava usar para autografar os Era um desfile incessante
seus livros, mas preferia escre- de pessoas que choravam para
ver com esses lápis amarelos dentro, com profundo desgos-
que têm uma borrachinha a to, com esse respeito reveren-
modo de coroa. cial que os mexicanos têm pela
Quando chegou a hora de morte.
me retirar, porque ele estava Quando saí fazia frio, e tal-
muito fatigado e tinham de lhe vez chovesse, ou, agora que es-
dar não sei que medicamentos, crevo isto, parece-me que devia
ofereceu-me essa Pelikan com ter chovido. O que é certo é
um gesto cúmplice e um sorri- que soprava um vento que me
so forçado. Eu saí daquela casa pareceu falador e que eu ima-
sabendo que, assim, nos tínha- ginei que vinha dos Altos de
mos despedido. Jalisco.
O que aqui tentei traçar foi Afastei-me pensando que
o retrato do Juan Rulfo que eu todos os que ali estávamos éra-
conheci: um homem no ocaso mos – e talvez continuemos a
da sua vida, cansado mas não ser para sempre – irremediável
vencido, tremendamente carente e completamente rulfianos.
de afectos, mas absolutamente Tradução de MGMV

FICÇÕES 118 119

Luvina
Juan Rulfo

Fotografia de Juan Rulfo, publicada com a autorização da senhora Clara Aparicio de Rulfo

das. com as asas chamuscadas.. mãos ao despenhadeiro dos montes. lomba que sobe para Luvina chamam-lhe Cuesta – Ouve. FICÇÕES 120 121 Dos cerros altos do sul.. Você. nhos. Você dez ou doze dias. nhum proveito. que não são mais do que torrões endureci- paredes. mirrada como couro velho.. Dizem os do-o com o seu branco casario. desabrigadas. floresce a argemona com as suas Em meados do ano chegam umas quantas tem- papoilas brancas. dos os dias em que leva consigo os tectos das ca. fosse até à porta e lhes dis- que não deixa crescer nem as dulcamaras: essas sesse: «Vão para mais longe! Não interrompam! plantinhas tristes que só podem viver um bocadi. Onde não se conhece o sorriso. para além de estar ressequida e as paredes lisas. coroan- fundidade que se perde de tão distante. Isso fez com que o vessem encanado em tubos de caniço. raspando as água.. até o de uma pessoa ao caminhar. Sim.» a remover as dobradiças dos nossos próprios ossos. mas sem fazerem alvoroço. Lá. É pardo. como andam de um cerro para o outro pedra de afiar. Camilo. e os gritos das crianças brincando se quiser. hora após hora.» nho untadas à terra. Desgarra-se para to. e às vezes dá-se o caso de sas como se as estivesse a morder. escondida – Pois sim. como se lá em baixo o ti. senão no ano seguinte. Então. tristeza. Dizem que é porque arrasta areia de se quebrassem por cima dos barrancos. E a terra é empinada. encheu-se de rachade- mo se tivesse unhas: ouvimo-lo de manhã à tar. zenta. entre as pedras. e Luvina no mais alto. Verá isso: aqueles cerros apagados como se dos os lados em barrancos fundos. porque em Luvina os dias são que não se apaga nunca. Como se fosse assim. uma pessoa ouve-a arranhando o ar xando somente o pedregal a flutuar em cima do com os seus ramos espinhosos. Toda a cumeada careca. pestades que açoitam a terra e a arranham.. vão-se embora e não regressam logo verá. como se fosse de Luvina que daqueles barrancos sobem os so. em tremolina. deixando tanto que a terra. arrancando coalhos de terra. Só às vezes. olhando lá para fora. fazendo um baru. sem descanso. nublado sempre por uma nódoa caliginosa seja falar por falar. ressaltando e estoirando em trovões como se na. mas a verdade é que é um ar negro. agarradas com todas as suas Depois. Nunca verá um céu branca e brilhante como se estivesse sempre mo. E são demasia. como se ali até à terra sentirmos ferver dentro de nós como se se pusesse tivessem nascido espinhos. Pouco ou quase nada. tudo envolto na caligem cin- . a única coisa que vi subir foi o Os gritos das crianças aproximaram-se até se vento. azul em Luvina. pode ver essa tristeza à hora que quiser. que se cravam nos pés com a sua pá bicuda por baixo das portas. mas eu. Mas a argemona depressa mur. de tal maneira que a terra por ali é – Outra coisa. sas como se levasse um chapéu de palha. las e dessas coisas que ali chamam passagens de de. O ar e o sol encarregaram-se jas! – voltou a dizer o homem. todo o horizonte está desbo- lhada pelo orvalho do amanhecer. cavando dos como pedras afiadas. Lá chove pouco. que vai para lá. manda-nos mais duas cerve- de la Piedra Cruda. sem qualquer coisa verde para céu antes de cair sobre a terra. Fixa-se em Luvina agarrando-se às coi. estivessem mortos. meterem dentro da taberna. . não regressarem em vários anos. Depois acrescentou: de esmiuçá-la. Eu diria que é o lugar onde aninha a as suas águas da cheia pelos ramos das figueiras. Os carunchos entravam e ressaltavam pedra cinzenta com a qual fazem a cal. caindo no chão Luvina não fazem cal com ela nem dela tiram ne. como lhe dizia. senhor. chove pouco. tão frios como as noites e o orvalho coalha no sem uma árvore. sentou-se e disse: onde houver um pouco de sombra. mas em contra o candeeiro de petróleo. «. Um vento homem se levantasse. Continuem a brincar. descansar os olhos. como se o rumor do ar abanando suavemente as folhas das tivessem entabuado a cara a toda a gente. amendoeiras. o de Luvina é o mais no pequeno espaço iluminado pela luz que saía alto e o mais pedregoso. Ali chamam-lhe pedra crua. Bebeu a cerveja até deixar só borbulhas de Vai ver. É bom ver então como as nuvens se ar- lho parecido com o de uma navalha sobre uma rastam. Luvina é momento. dirigindo-se outra vez para a mesa. Mas. uma coroa dos mortos. dando tombos como se fossem bexigas assopra- – Logo verá esse vento que sopra sobre Luvi. dei- cha. espuma na garrafa e continuou a dizer: Aquele homem que falava calou-se por um – Por qualquer ângulo que se olhe. Depois arranha co.. dar- Até eles chegava o barulho do rio passando -se-á conta. embora isto tado. de uma pro. Está amaldiçoado por essa da taberna. calcário. um lugar muito triste. após vulcão. E você. e à E lá fora a noite avançava.

se não te importas. fomos procurá-la. com a criança ador- como se estivesse bêbado. levando de rastos uma man. só com umas socavas abertas e Agora vinha dizendo: um tecto rachado. «Porque não regressaste ali? Estivemos à tua sem. perguntei-lhe eu.. Alivia-me.. Vejo que nem se... disse-nos. Ali ficámos. sempre.. mas nunca a leva. como um grande cataplasma sobre a carne viva ficámos ali. e porque é oprimente «Nós. «Entrei aqui para rezar. rio. quando a lua se en. gente. Mas não têm nada pa- se me enxaguassem a cabeça com óleo canfora. Fui a esse lugar com as «Não há nenhuma estalagem. lhos e foi.. «Então eu perguntei à minha mulher: quando havia lua em Luvina. É que aqui noite. Quando for a Luvina vai sentir a falta. E. cerveja.» falar-lhe daquilo que sei. Umas mulheres. «E abalou.. quando cheguei pela cabeça que nesta aldeia não havia de comer. «Bom.Vai uma aposta como lá nem isto «Ao entardecer. Esperamos-te aqui». «Que país é este. quando o sol alumiava so- se arranja. Vejo as bolas mim serve-me de muito. Têm sua cerveja? Vejo que você não faz caso dela. «Mas tome a sua cerveja.. contava-lhe que. É melhor beber a sua mecida entre as suas pernas.» «Eu vou voltar». Beba-a. «Onde está a taberna?» lhança.» «E ela voltou a encolher os ombros.» nem sequer quis deixar que as bestas descansas.. E a estado a espreitar para cá. sem portas. por onde passava o ar como – É fácil ver as coisas daqui. «Uma praça sozinha. Ponho-me no seu lugar e «Sim. Mas a mim não me custa nada continuar a «Não há nenhuma taberna. sem uma só erva para do as ruas de Luvina. O homem tinha assomado mais uma vez à «Ali não havia a quem rezar. Eu sei o que lhe digo. pela lembrança. somente trazidas por uma peneira. «Aqui estafavam-se mais». ta negra. Está bem. . Olha-as. Eu sei que assim sabe mal. Mas permite-me que antes beba a porta vejo brilhar os olhos que nos olham.. vêem de raspão a figura do vento percorren. Disseram-me. Olha.» num canto da igreja. «É me.. soa acostuma-se. o arrieiro que nos levou tão entrei aqui a rezar. Es. As crianças brincando. disse-nos. Dizem os de lá que. Lá deixei a vida. o nosso enxoval nos braços. deu meia volta: espera. na noite..» «Espera. Agripina?» cansar? Estão muito estafados. porque está sempre em cima da mo se se afastasse de algum lugar endemoninhado... Era um telheiro porta e regressado.O ar que ali sopra remexe-a. que «Ela agarrou no mais pequeno dos seus fi- agarra um sabor a mijo de burro.» «Que fazes aqui. metendo esporas aos seus cavalos. deixando-se cair pela Cuesta de la tá ali como se ali tivesse nascido. mente as pontas dos cerros. lembro do princípio. No meio daquele lu- «. E «Viste alguém? Alguém vive aqui?». vai procurar onde quer lhe deu um sorvinho. ali atrás das frinchas dessa vez a Luvina. E até se pode Piedra Cruda. não há outra. tratando-se de Luvina. «E ela encolheu os ombros. Penso que me tei-lhe.. apertada contra nós.... Ainda não acabei.. Olhe. deter o ar.. a minha mulher e os meus três filhos. vazio. «Naquela noite acomodámo-nos para dormir lhor regressar. sem mostrar a do. foi a imagem do «Em que país estamos. pergun- agora você vai para lá.» minhas justas ilusões e voltei velho e acabado. Sinto como brilhantes dos seus olhos. Mas não regressou... Agripina?» desconsolo. até que a fazem com uma erva chamada alcaçuz e que aos encontrámos metida na igreja: sentada mesmo no primeiros sorvos começa logo a dar cambalhotas meio daquela igreja solitária.. che. Ou talvez não poderemos comer e onde poderemos passar a goste dela assim morna como está. não vais deixar os teus animais des. atrás do altar desmantelado. quando eu cheguei pela primeira nuo a vê-las. «E ela encolheu os ombros. disse-lhe. quando nos pôs no chão.. onde não têm nenhuma seme. disse-nos. En- primeira vez a Luvina. gar onde só se ouvia o vento... Conti- penso. Parecia «Para quê?». com todo do coração. ra nos dar de comer. Aqui uma pes.. mas eu o que sempre cheguei a ver. a pedir a Deus por nós. Bom. co- provar e sentir. parados no meio da praça. «E a estalagem?» Vivi lá. ali à frente. Agripina?» Lá fora continuava a ouvir-se o batalhar do «Entrei para rezar». que ainda era cedo. Ali não poderá provar senão um mescal que eles Andámos pelos boqueirões de Luvina.. O rumor do ar.

ouve-se um sussurro em dão. olhan- as deixava dormir. Esti.. amarradas com arames que para eles. Tu não conheces o governo?» .. É que lá o tempo é muito lon- sair pelos buracos socavões das portas. es.. É o que os velhos fa- mou. muito perto de nós. levantando e baixando tê-los a todos nos seus braços. Ouvia o trevadas de tão magras. Ouvia-se mo quem diz. com os que as febres me baralharam. Perdi a noção do tempo desde vemos a ouvi-lo passar por cima de nós. Apenas os aclara a alva e já são ho- «O que é?».. sabe-se lá. «Não faltará ma- «Não.. «Vamo- caminhar rua abaixo com os seus cântaros negros. sem tempo. despenduradas das paredes a todo o com. onde a terra fosse boa. Dorme. batendo go. Sós. do o nascer e o pôr do sol. é uma esperança.. não é verdade. ninguém tão com as suas mãos de ar nas cruzes da via sacra: pouco se preocupa como se vão amontoando os umas cruzes grandes e duras.. estivemos a ouvi-lo entrar e uma eternidade. primento da igreja.. movidos só por essa graça que é a grati- «Vamos buscar água. passado pouco tempo. de é que não sei. «É o silêncio. Não acha que isto merece outro copo? «Eles ouviram-me sem pestanejar. mesmo velhos e os que ainda não nasceram. sentindo à minha frente aquele surdo mo ano e. vesse sempre na eternidade.. esse barulho. Abraçando o seu a cabeça.. Vêm de vez em quando como as tro- vi. «Um dia tentei convencê-los a que fossem Depois. «Porque em Luvina só vivem os que são como se o céu se tivesse juntado com a terra. e buracos das portas.» Assim são ali as coisas. nunca mais. Depois vem a acácia. passam a vida trabalhando para os pais como eles com o rebuço pendurado da sua cabeça e as suas trabalharam para os seus e como. noite. começaram a para outro lugar. mas é a mesma coisa. a tentar re. disse-lhes. E mulheres sem forças. «Isso. como se fossem sombras. E eu ali sem saber o que fazer. Só o dia e a noite. Era como um esvoaçar de morcegos na escuri. então tudo fica quieto... Ali sussurro.» dão do filho.. nunca me esquecerei dessa primeira neira de nos acomodarmos em qualquer parte. Os dias começam e acabam. professor? anos estive em Luvina. «Entretanto os velhos esperam por eles e pelo curam a estas horas?» dia da morte. como se se vi- «Pouco antes do amanhecer o vento acal. Detive-me na porta e vi-as.. que está quase a amanhecer. «Que querem?». «Vi-as paradas à minha frente. dos quais só espreitava lembrança. como se o bando de xam o saco do abastecimento para os velhos e morcegos se tivesse espantado e voasse para os plantam outro filho no ventre das suas mulheres. E assim é... co- magando os barulhos com o seu peso. às vezes. perguntei-lhes. Dei- o esvoaçar ainda mais forte. Depois voltou.. Deus sabe. dão um salto do peito da «O que é o quê?».» sozinhas. de braços «Uma delas respondeu: caídos. quase en- a respiração das crianças já descansada. O noite que passei em Luvina. naquela solidão de Luvina. perguntei-lhe. governo ajudar-nos-á. «Que pro. embora menos forte. feitas com pau de anos. De morcegos de grandes toda a aldeia quando eles regressam e uma coisa asas que roçavam o chão. FICÇÕES 122 123 O vento chegava até lá. mesmo que «Só restam os mesmos velhos e as mulheres seja pouco.? A verda. olhando-me.. ou com um marido que anda onde só «Mas.» uma luzinha lá muito para dentro.. Estar sentado na ombreira da porta. mens. eu também ou.» «. Como quem diz. mãe para o enxadão e desaparecem de Luvina.. E a minha mulher. voadas de que lhe falava.. – Parece-me que você me perguntou quantos «Dizes que o governo nos ajudará.. sim se- «As crianças choravam porque o medo não nhor. As crianças que nasceram ofegar da minha mulher ali ao meu lado: ali abalaram. Mas houve um momento zem ali. Ninguém leva a conta das horas. É o costume. Vi todas as chamam-lhe a lei. rechinavam a cada sacudidela do vento como se «Você deve pensar que estou a dar voltas e fosse um ranger de dentes. sentados às suas portas. Levantei-me e ouviu-se parecida com um grunhido quando abalam. tos atrás deles cumpriram a sua lei. olhando- Mesmo que seja só para tirar o mau sabor da -me do fundo dos olhos. mas deve ter sido seus longos uivos. até que acabam por afrouxar as molas e molho de filhos. quan- figuras negras sobre o fundo negro da noite. Descansa. nos embora daqui!».. disse-me. Os filhos mulheres de Luvina com o seu cântaro ao ombro. nessa madrugada em que tudo ficou tranquilo.. Então caminhei em bicos dos já ninguém volta a saber deles a não ser no próxi- pés para lá. mais voltas à mesma ideia. até ao dia da morte que.

sabe? Esse senhor só se lembra Mas não disse nada. ra lá depressa compreenderá o que lhe digo. É melhor assim. em Luvina e matam-no. dentro de poucas horas. Pelo fomes sem necessidade – disseram-me. Para mais do que isso Lá fora continuava a ouvir-se como avançava não sabem se existe. Aquele nome soava-me a nome de céu. Acabou comigo. Mas olhe as voltas que o mundo dá. . De quem não sabemos nada é da mãe do «Qual é a sua opinião de pedirmos a este se- governo. «Não voltei a dizer-lhes nada. pois assim que uma pessoa se acostuma ao vendaval que ali sopra. Estava carregado de ideias. «E lá continuam. Ficou a olhar um ponto deles quando algum dos seus rapazes fez alguma fixo sobre a mesa onde os carunchos já sem as malfeitoria cá em baixo. «Pois sim. o sol ar- rima-se muito a Luvina e chupa-nos o sangue e a pouca água que temos no couro... «. manda-nos agora uns mescais! dentes tortos e disseram-me que não. acabei por lhes dizer. Você que vai pa- «Também nós o conhecemos. Como você vai para lá. segundo tu. E isso acaba com uma pessoa. A gritaria já longínqua das crianças. E riram-se.. Tradução de Ana Santos lindo a sua própria saliva para enganarem a fome. Talvez já tenham passado quinze anos desde que a mim me disseram a mesma coisa: «Você vai para San Juan Luvina. Cavalo de Ferro Editores das casas. colados às paredes © Heirs of Juan Rulfo.» nhor que nos matize uns mescalinhos? Com a «Eu disse-lhes que era a pátria. Quando isso acontece. que o go. Eles abanaram cerveja uma pessoa levanta-se a todo o momento a cabeça dizendo que não. «O que tu nos queres dizer é que deixemos O chapisco do rio contra os troncos das fi- Luvina porque. «Disse-lhes que sim.» -se sobre a mesa e adormeceu. Todos os direitos reservados Vê-los-á passar como sombras. Você vai para lá agora. Foi a única e isso interrompe muito a conversa. verno não tinha mãe. É o mandamen- to de Deus». «E têm razão. Mas em Luvina isso não coalhou. vai A Planície em Chamas vê-los. não se ouve senão o silêncio que há em to- das as solidões. «Não ouvem esse vento?». a noite. como eu lhe estava dizendo». O ar faz com que o sol esteja lá em cima. Olhe para mim. «Mau é quando deixa de fazer ar. «San Juan Luvina. Saí de Luvina e nunca mais voltei nem penso regressar. nós abalarmos. Ouve.. 1953 © 2004. Fiz a ex- periência e desfez-se. Um lu- gar moribundo onde até os cães morreram e já não há nem quem ladre ao silêncio.» «Nessa época eu ainda tinha as minhas for- ças. se pequeno céu da porta assomavam as estrelas. responderam-me. Você sabem que a todos nós nos impingem ideias. quase arrastados pelo vento. já chega de aguentar gueiras.. «Ele acabará convosco. Mostraram os lo.. E uma pessoa vai com essa praga em cima para a plasmar em todo o lado. Mastigando bagaços de acácia seca e engo. «Mas. É essa a coinci. Mas aquilo é o purgatório.. Cami- vez que vi rir as pessoas de Luvina..» «Dura o que tiver que durar. Então manda-o procurar suas asas rondavam como vermes nus. quem levará os nossos mortos? Eles O homem que olhava os carunchos recostou- vivem aqui e não os podemos deixar sozinhos. dência.

num ecrã adiado. encontramos de novo o México e Portugal . Ou como. Às vezes. a evocação de Camões. Si- queiros e Orozco. CORRENTES ATLÂNTICAS 124 125 Um investigador portu- guês atravessa o Atlântico em busca de Rivera. também. E nos labirintos do muralismo mexicano é todo o México que se reflecte.

. um manuscrito em rolo. atra- vessassem o mar. e numa manhã de nevoeiro irrompessem num ecrã iluminado. de lá pa- ra cá. a do Norte. os eternos desejados do cinema português. E da outra América.Como se Rulfo e Páramo. que percorremos como uma estrada.

Muralismo Mexicano – labirinto da universalidade e espelho de utopias Fernando Amaro . CORRENTES ATLÂNTICAS 126 127 Nas palavras de Octavio Paz. Diego Rivera vuelve a ver. «Todos tenemos nostalgia y envidia de un momento maravilloso que no hemos podido vivir. «El movimiento muralista fue ante todo un descubrimiento del presente y del pasado de México». Segundo o autor de El laberinto de la soledad. la realidad Mexicana». Uno de ellos es el momento en el que. como si nunca la hubiese visto antes. recién llegado de Europa.

1928. Patio de las Fiestas. . Cidade do México.Diego Rivera: El Arsenal (detalhe). Secretaría de Educación Pública.

Za- Quando eu desembarquei. El Coronelazo tologias. no México Grande». cujo programa recu. como si 1910. Na bagagem levava co. simultaneamente uma actuali- Paz. é normalmente des. emanada fue ante todo un descubrimien. publicações e filmes. cionar y difamar bajamente a su esse labirinto me viria a propor. dução mural própria. sendo a bem me avisaram que o tema sua vida objecto de inúmeras era «una trampa». no tuvieron escrúpulos en trai- surpresas e as experiências que pera o passado histórico e mito. lendas e mitos mos nostalgia y envidia de un crito pela historiografia conven. as minhas dúvidas e ro Siqueiros e José Clemente de beatificação de Rivera e Fri- certezas foram relativizadas. às vezes México». feridos igualmente escândalos e balho de investigação que me que esse labirinto um ou outro episódio mais ou propusera realizar na área do menos anedótico. Nesta fórmula redutora a mo espaço personagens tão dis- nunca la hubiese visto antes. Nas últimas décadas a umas quantas certezas a verifi. David Alfa. conferindo-lhe antiguo amigo y guía. É dessa dade revolucionária. lógico do México. às palavras «Deus não com as imagens da Guerra do existe» no mural do Hotel Pra- Golfo. la tintas como Cortés. um comunista as- haviam passado exactamente 70 ano de 1991 eu sumido. assumindo uma espé- uma possível matriz e a autoria cie de estatuto de «Quarto do programa mitológico do Mu. «Todos tene. como a inclusão do retrato ausência de 14 anos na Europa. Paz. na migo algumas dúvidas. durante essa minha pintora Frida Kahlo é regular- car no âmbito do meu ambicioso mente associada ao Movimento projecto mitográfico: identificar primeira estada Muralista. gia do México. ra o movimento feminista. etc. qual figura de culto pa- mento em História da Arte. para as proporcionar tentativa de assassinato de quais procurava respostas. iniciado num mesmo mural. Sobre os outros. a repre- essencial. Orozco –. no início do ano de 1991. Montezu- realidad Mexicana». me viria a cipação de Siqueiros. maniqueísta. universalidade labiríntica que da própria Revolução. Cuauhtémoc. mente encontramos. León . ma. que eu estava longe de imaginar as lismo Social. desconhecida para sentação de Karl Marx no Palá- mim. onde a sua Hoje. tificada. após uma estava longe ções. ções de pessoas. frequentemente asso- anos desde que Diego Rivera re. Já no México. cio Nacional na Cidade do Mé- sões fustigavam os espectadores surpresas e as xico. Hidalgo. como a parti- Muralismo Mexicano e das suas mi. CORRENTES ATLÂNTICAS 128 129 Nas palavras de Octavio cionar durante essa minha pri. Segundo o autor de El O Muralismo Mexicano. etc. ciado a escândalos e a provoca- gressara ao México. associados à história e à mitolo- momento maravilloso que no cional. é explicada como da: «La tentativa de beatifica- Nesse longínquo ano de 1991. de Lenine no mural do Rockefeller A «Realidade Mexicana» era. convivendo no mes- Rivera vuelve a ver. nomeadamen. Para xican Mural Movement: Myths and des» – Diego Rivera. pata. arte dos muralistas. um labirinto. Nessa ocasião. como a funda- hemos podido vivir. nesta visão aeroporto da Cidade do México. Uno de peia. como um resultado e ao ção de Tenochtitlán. apesar de não ter pro- ralismo Mexicano. as televi. mesmo tempo uma espécie de Quetzalcóatl. Diego espelho da Revolução Mexicana de Revolução. te a dos chamados «Três Gran. norte-americana e euro. no de imaginar as Center em Nova Iorque. representa- laberinto de la soledad. «El movimiento muralista meira estada no México. estabelecendo um estra- experiências do. muitos anos passados e biografia é frequentemente mis- concluída uma tese de doutora. o mito de ellos es el momento en el que. Não rara- to del presente y del pasado de me proponho agora falar. a Conquista e a recién llegado de Europa. são re- nho pano de fundo para o tra. no Nesse longínquo Diego Rivera é. em 1921. há uma imerecida tentativa Mythmakers. sendo uma arte próxima do Rea. Me. ción de estos dos artistas. da Guerra Civil Espanhola. e Trotsky.

pretensamente O historiador e crítico An. Já o nome pecial. o ‘’fúria grande e sonorosa’’ com Vasconcelos. referindo-se ao num pequeno parêntese. pintor Diego Rivera. referindo-se a Anto- Rodríguez na sua casa na Coló. para se as glórias do seu povo.» Nesse livro. que citara dialéctico. sa». Albuquer.» Quando em na análise ción revolucionaria llena de sa- 1991 eu entrevistei Antonio crifícios». arte después de una vida de ac- versy later on. de Diego Rivera. o mecenas inicial ter. tes quando se aborda a ideia dos muralistas em geral e. José Eu estava longe crítico de origem portuguesa Vasconcelos. «retrata a batalha que pelo seu mais conhecido por El Dr. autor 1939. no Palácio Nacional rante um largo período de tem- cia no contexto do Muralismo po. do Comunista Português. deração da Juventude Comunis- muy grave. pessoa sábia estabelecido já em 1910. de perceber tionado a veracidade da afirma- no. ponham em nia de los periodistas da Cidade do causa a exactidão das suas afir- México. afirmando: «Someone perdoável que «hombres veni- must have started it. célebre militante do Parti. Defensor incondicional da Lusíadas na análise do mural de O autor destas palavras. Diego Rivera lar-me-ia de Gerardo Murillo. nunca lhe perdoara o facto de o blica de Álvaro Obregón. Rodríguez fa- a obra de Rivera são por demais do seu povo». Nessa tarde do dia 14 Rodríguez justificou essa atitude de Março. que escreveu intuito de legitimar a coerência em 1969 um trabalho com o do seu percurso revolucionário: título Mexican Mural Movement. de mim. como o . era me mostrou a máscara funerária «Um Pacheco fortíssimo. em es- mesma de México. por quem Francisco de Paula Oliveira Jú. A e afável «Desde ese momento escogí la History of Mexican Mural Painting. é normalmente mencionado ção de Rivera. La Creación. de quem Rivera no Palácio Nacional: me acolhera em sua casa. O nome e concedida para cantar a epopeia Nessa altura. e os nem mais nem menos que na altura da minha visita. do mural nio Rodríguez. não falaria com Rodríguez du- minimizando a sua importân. é im- ciou. o mí. nio Rodríguez descreve no en- sempre o Tejo chora.» Para Rivera. adoptando então o nome sua mitologia deve-se analisar o da epopeia nacional portugue. Rodríguez estranhou o de Rivera mações. da autoridade que Rivera tinha soa sábia e afável que tinha movimento pode ser comparada no México. sem quem era aquela programa do seu primeiro mu- significação especial. Para Rodríguez. ral. que obra de Diego Rivera. but who Os Lusíadas dos a las letras y a la crítica de he was led to much contro. Atl.» ta. As reti- percurso e a obra dos dois acto. que usa as cores para cantar ta Portuguesa em 1932. Anto- temidos Almeidas. me parece un síntoma morte. Historia de la Filosofía empe- acredita que não se sabe ao que tinha diante zando por el Pitagorismo y ter- certo quem foi o responsável minando con el materialismo pelo programa e quem o ini. que se Na minha opinião. Perante a minha admiração. de Antonio Rodríguez. num artigo publi- que terríbil. que do secretário da Educação Pú. eu estava longe de com o estatuto e o enorme peso perceber quem era aquela pes. E ou. conhecidos e estão omnipresen. nior. cado no jornal El Universal de 31 tros em quem poder não teve a tico Pavel dos tempos do Arsenal de Janeiro de 1978. Rivera meu interesse por Vasconcelos. Mexicano. com o tonio Rodríguez. Como represália.Trotsky. diante de mim. Castro forte. que citara Os à batalha de Bonampak». ques- do Movimento Mural Mexica. Ele é tinha instalado no México em entender o Muralismo Mexicano e a consanguíneo de Camões. muito legitimamente. Rodríguez da Marinha e secretário da Fe- más de una infección moral descreve Rivera como um «poe. «Com a cências de Rodríguez visavam res principais do Movimento. eu só as perceberia ministro José Vasconcelos e o que Camões implorou lhe fosse bastante mais tarde. tanto Rivera.

cendência portuguesa. mas viria a juntar-se aos cura fundir numa experiência abuela Inés Acosta. mi ropa. representada da Universidade: «Imaginé así barde con los vivos». como una familia de judíos portugue. a la Universidad que trabaje por queiros. cuja as. Efectivamente. Para Oc- Rivera. No mural O Arsenal. distribuindo Nacional de México em 1920. encontramos Frida Kahlo. eram assuntos de Estado. encontramos Frida el pueblo. o qual viria posterior. No canto esquerdo da ima. a Revolução racionalista Uriel Acosta. el Estado adoptó no. de 1928. por la Universidad sino a pedir gem espreita David Alfaro Si. Kahlo. pre- portuguesa no México em 12 tendiendo significar que des- de Novembro de 1999. Ri. Já 1928. Segundo Paz. bía extraer fuerza para las crea- guras mais notáveis da diáspora e baionetas ciones poderosas. tiveram de buscar noutros aos trabalhadores. . de dad e na unificação das raças. homenageou Rodríguez a título espingardas Éramos. de Vasconcelos.» Junho de 1920 e Julho de 1924. mentos yo no vengo a trabajar ceu. Diego sido capaz de articular toda su María de la Concepción Juan México. a par de Rivera. basea- ideas distintas y aun contrarias a ção sociocultural moderna do das na ideia mesma de Mexicani- las suyas». político y de. então o encargo da decoração cia de nuestra tradición y nues- gia quase universal. falta a ascendência portuguesa: vera ainda se encontrava na Eu. mexicanos mais conhecidos de ese conflicto entre la insuficien- Rivera reivindica uma genealo. que a revolução mo passa igualmente por Diego aconteceu de 1910 não resolvera. tra exigencia de universalidad». como el judío. mente y con su leyenda ‘’Por mi cepção oferecida à comunidade vermelha ao peito.» de portugueses que. durante o re- fenómeno histórico. sión del mundo. numa re. O Arsenal. mas não está suficien. entre fez». no discurso da tomada de posse representada com uma estrela No mural do cargo de reitor da Universidad vermelha ao peito. neste sécu. provenía de demais companheiros a pedido universal tanto a política. primeiro como nos seus murais. Em 1921. Arte pós-revolucionárias no Mé- sin embargo. através reitor da Universidade do Méxi- «Este es el rasgo más extraño y dos Vasconcelos da Índia. A sua im. A o que nunca ra tentativa para resolver um «pista» portuguesa do Muralis. de Rivera nunca teve lugar senão José Vasconcelos. é a personagem princi. o que nunca aconte. os assuntos sociais e as artes. apesar de o próprio não a gime de Álvaro Obregón. Para ele. salvadora explosión en una vi- Nepomuceno Estanislao de la temente reconhecida. blo que de su dolor secular de- mo «seguramente uma das fi. distribuindo pertaba nuestra raza después de dente da República Portuguesa la larga noche de su opresión. raza hablará el Espíritu’’. Educação Pública. O projecto de Vasconcelos pro- «La madre de mi padre. que constituiu a primei- negada na sua própria terra». concelos dirá: «En estos mo- balhadores. CORRENTES ATLÂNTICAS 130 131 pintor da «Revolução que não se ses que descendía del filósofo Durante quatro anos. conflito latente. ni la ‘’inteli- Rivera Barrientos de Acosta Vasconcelos deu aos pintores gencia’’ mexicana ha resuelto Sforza y Rodríguez de Valpuesta. deter- moral. minou o rumo da Educação e da ta ni el Estado Mexicano lo era.» Também é ele quem mente a acusar Rivera de ser imagina o ainda actual símbolo «valiente con los muertos y co. el escudo universitario que pre- Antonio Rodríguez viria a com uma estrela senté al consejo. De seu nome completo tavio Paz. nos co e depois como ministro da turbador del muralismo como aparece como uma possibilida. un pue- póstumo caracterizando-o co. «ni la Revolución ha (segundo o próprio). José Vasconcelos. «filosofia da raça ibero-ameri- países a liberdade que lhes era cana». dibujado tosca- morrer em 1993 e. Ni la nación era comunis. Vasconcelos elabora uma lo. Vas- espingardas e baionetas aos tra. xico. onde não de vários edifícios públicos. o Presi. assumir. a Cultura e a Arte como suyo un arte que expresaba portância é capital para a evolu. pal do Movimento Muralista Mexica.

Tlan significa abundancia o . 1947. as pessoas que can. se afirma la des como Gabriela Mistral a visi. fumando puros hace millares de años floreció cer de México una Metrópoli del en el continente desaparecido y Continente latino. afirma que «sólo las exílio do Mestre. Vasconcelos gem racial e cultural. no Rio de Janeiro. Gerardo Murillo. da: «Atl significa agua (la es- blicado o livro preparado por plica do monumento de Cuauh. tructura de la palabra y las reglas Gabriela Mistral. a escritora diria: «Aque. gaciones progresan. racial através da miscigenação. procurábamos cipou. Nesse livro. obras Bosques. a Dante. retomando uma velha emular a la antigua. la hora Vasconcelos. Independencia de la civiliza- razas mestizas son capaces de las creveu como «el hombre más ción. gastronómicas e literárias a Por- nais. sonhado. vos da América Central. al. americanos: «Y ahora Cuauhté- cana. levava consigo uma ré. história universal. suas tertúlias com que «a medida que las investi- ca do Sul e convida personalida. guia do professor. em Cuba. guns meses depois de chegar ao ria à união dos países latino- mental de coesão latino-ameri. Cósmica: Misión de la Raza Iberoameri- peare. idílica do Brasil: «El Brasil es cada entre 1921 e 1923. la emancipación del Espí- grandes creaciones». que serviria ao mes. uma secção infantil. Eurípides. A Raça ha hec ho sobre esta pobre deixaria a Secretaría de Educación Cósmica. na primeira tugal: «En todas las fonduchas ra. poesia e assuntos de guês: canja y peces y aquel vi- natureza geral. Em 1922. contou-me na igualmente algumas referências suntos nacionais e internacio. Shakes. uma baratas del barrio antiguo se secção sobre conhecimentos pessoa. uma reflexão utópica ibe- que Vasconcelos faz publicar em ro-americanista. da escultura. Quando Vasconcelos parti. Vas- cultura latino-americana e ibéri. as Dado a especulações. la hospitalidad para el ta. edições populares de dezenas de sua vivência com Vasconcelos faz uma descrição milhar. lento extranjero. sino por el Nacional de Havana questão sobre a origem dos po- amor a la cultura y por la libera. utilizaria no seu livro Un nuestros visitantes sudamerica. la sola conservación de la raíz mo tempo de texto escolar e Na cerimónia de apresentação a). as coisas come bien al rico estilo portu- práticos. El Dr. Independência do Brasil em náhuatl teve origem na Atlânti- rior del país». de Queiroz. una Atenas. Em lidad. na sua obra Estudios tam. A revista El Maestro. ta na Tiffany de Nova Iorque. Siqueiros e Rivera.» que procura abranger toda a como. la indostánicos. desgostado com o rumo tura das obras clássicas que vão dos acontecimentos. secções sobre as. publi. con. Vasconcelos apela- mo uma componente funda. deixando cultura geral. antropológicos e etimológicos informarlos detalladamente y memoração do Centenário de para tentar provar que o povo los hacíamos viajar por el inte.Vasconcelos viaja até à Améri. como tar e trabalhar no México. além da cana.» Em 1924. Goethe e Tolstoi. a quem des.considerando o catolicismo co. Lecturas Clásicas témoc do Paseo de la Reforma. concelos dirá na Raza Cósmica ca. constructor que la raza de Adán ritu. cuna de una civilización que piração de Vasconcelos era «ha. América». tem por alavanca a lei. nito ligero que llega al alma’’. para alcançar uma síntese la era a raça com que ela tinha moc renace porque ha llegado. de Ésquilo. na co.» Em 1925 ela lamentará o de la segunda Independencia. literatu. gramaticales de la lengua exigen para Mujeres. altura. 1922. em pleno Banco en parte de lo que es hoy Amé- no por la ridícula pretensión de rica». un país en el que todo el mun- tém um pequeno manual de do es instr uído». publicou em Barcelona La Raza Platão e Virgílio. A mestiça. No âmbito do seu progra- mais extraordinárias que pedimos recordando a Eça ma de messianismo cultural. Homero. A as. Pública. Grito en la Atlántida argumentos nos o españoles. fei. Em 1924 foi pu. para nuestros pueblos. Em 1925. Che Guevara hipótesis de la Atlántida. A cada uno de Atl. México.

contou-me na altura. o que justifica o um Portugal que não vivi. E o rio Amazonas. foi o encontro com Gilberto Bos- una cosa.» franquista. Rivera aproveita o ensejo para de pasado y con un futuro achincalhar os intelectuais do seu tempo. ro ideológico. como o seu tempo em Cuba. por inventar. as coisas mais ex- Desiludido com a orientação traordinárias. los aparece nesse painel. de apoyo mate- que Atlántico. adueñarse de 1991. Depois de sair da Secretaria e passar a ser persona neta. a los nahuatl. «vivi- rante muchos años la reconsi- deración de su obra». Pe- nos posesionamos del agua tain y Laval. universal es ya tarea común. situándose como símbolo de la extrema derecha. mandioca. Rivera. exaltando dictaduras como la Que corre Trás-os-Montes. as suas tertúlias com Che da política mexicana. por Gilberto acordo com Carlos Monsiváis. o seu los foi atraído a políticas anti. Num suave azulejo. qual Fado Tropical de Chico petrificando en un despeñade. huérfanos ción Pública. tempo de embaixador em Portugal. y al mismo tiempo es ques. como um déjà vu. Os Sá- bios. Em se efectúa la posesión. o relato de democráticas. .» Esta extraordinária e lúcida pessoa. diria: «Hice la política de mi país. que o próprio Vas- concelos mandara construir. Tico denota pose. o men. Embajador de México. O papel de Rivera é aqui mos. Vas. Bosques. o más bien. tal como Aristides de Sousa Mendes. Rivera nunca deixará de ridicularizar o ex-ministro. o trato com Salazar. A «Realidade Mexicana» «a partir de los cuarentas. una coyuntura deci- non grata. que contava 99 grande. salvou inúmeras pes- demostrativo del lugar donde soas da morte. quiere decir: donde esforzados paladines de la lucha contra Hitler. 1958. Este más que melancólico oca- so de Vasconcelos (asumido con orgullo) ha dificultado du- Para Octavio Paz. Com ele e com Anto- da para a Presidência do Méxi. coqueiros. embaixador em Portugal. Jasmins. de costas para nós. Mussolini. del mar». em Cuba e na Suécia. juntando concelos se irá desgastando y coisas aparentemente irreconciliáveis. Num painel da Secretaría de Educa. que recordo com emoção. com uma pena de ganso na mão. siva y mortal. Y nuestro laberinto. es- carnecendo-o e aos seus pro- jectos educacionais. Vasconce. CORRENTES ATLÂNTICAS 132 133 inmensidad. Franco. Ainda guardo dele os originais dois dis- ostracismo a que foi votado. de ayuda. nio Rodríguez aprendi muito mais do que já lera e viria a ler sobre o co em 1929. Depois anos quando me recebeu em sua casa na Cidade do México. Desagua no Tejo. além da sua vivência com Siqueiros e definitivamente marginalizado. Vasconce. Guevara fumando puros em pleno Banco Nacional de Havana. Uma das mais gratificantes experiências que tive no México em sión. Así es 1944. enquanto cônsul geral do México em Marselha. na primeira pessoa. en lengua rial y moral a los heroicos defensores de la República Española. que. Vasconcelos foi Muralismo Mexicano. Sardinhas. La Historia tor inicial do seu trabalho. como el resto del pla- importante. el de du. De cursos: «Dos conferencias sobre Diego Rivera». Buarque e Ruy Guerra: «Guitarras e sanfonas. metendo a sua pena num escarrador. E numa pororoca. Bosques. Allí concluirá fontes. todos los hombres». apresentou-se-me familiarmente estranha. atacando inclusiva- mente José Vasconcelos. monta- do num pequeno elefante hin. fora da sua candidatura mal-sucedi. o sea.

Diego Rivera: Los sabios. . Cidade do México. 1928. Secretaría de Educación Pública. Patio de las Fiestas.

A chover. tipi- camente português. Uma espécie de fogo-fátuo. A câmara subia e. CORRENTES ATLÂNTICAS 134 135 Eu começava este filme de uma maneira muito simples: a câmara numa grande grua. e a luz mudava completamente. Sentia-se o calor. Sentias uma sombra a chegar e entrava então no enquadramento. estava a chegar. calmamente. o desejado um filme português em 3 takes – ou nenhuma Anabela Moutinho . outra sombra com um burro a cortar o caminho à primeira. percebia-se que alguém estava a caminhar. Barulhos. Pedro Páramo. Parava a chuva. Linguagens quase dodecafónicas ao nível dos sons. num cemitério pobre. na diagonal. ao longe.

a monta. nessa socalcos e decomposto em de. E de incomodam-nos tanto quanto o Rulfo. belíssimo. mas sobre o Carlos Rulfo dedicou a seu pai excelente filme que ele reco- (belíssimo. «No me gusta hablar fantasma chamado Páramo. amigo seu) nem imaginava o rostos inundando todo o ecrã próprio Rulfo que o México e tanto quanto a rocha. e não gosta- tativas. mendava que se visse – e não doscópico e entrecortado em existia. fantasia. e essas De Páramo. Publicada com a autorização da senhora Clara Aparicio de Rulfo É uma história. imen- uma geografia presente se fez so – na América do Sul sentiram esta tentativa de reconstituir al. ele faz parte da lenda. nesse gesto borgesiano poimentos abruptos e às vezes (também recordado no referido só um sorriso. nela a fonte de onde o realismo . guém situado entre o Del Olvido Tem tudo a ver com as ten. Nessa mentira. às vezes um silêncio só. o Pedro. procura por um rosto ausente O impacto da novela Pedro marcado pela intensidade de Páramo foi. Seja grão de nosso cinema sobre dois desco. de adaptação ao mos de falar de Rulfo porque cinema. tão calei. Portugal se encontrariam algu- nha ou a planura porque da res num ecrã adiado. al No Me Acuerdo1) –. no Contudo. de Juan» – um amigo diz. às vezes só um documentário por um outro suspiro. fascínio pelo eternamente es- O que é dizer: esta é uma corregadio perturba as nossas história pouco conhecida do desajeitadas mãos. Ou um nhecidos. este texto não é documentário que o filho Juan sobre Juan Rulfo. areia ou gota de mar. o Juan.Fotografia de Juan Rulfo. como é sabido. por cá.

mas te? Não é isso mesmo. a me. e história que agora vou contar é terá efectivamente irrompido. 1989. ambos. se calhar. a bem di. para usar ques e a gente sã que grita co- o verso de Álvaro de Campos. Pára. Eles – e nós. não me mereces!» 3 Bêba- com um fantasma – ou quando dos? De dor. as prepotências dos caci- morte ou um medo». quando o reconhecimento in- Rulfo e Páramo: res dela – ambos. Ana. volução por cá. Porque não é isso Esta a primeira take. sempre morre – literal e inesperada- tendo estado tão morto quanto mente. por este nos sussurra ao ouvido. assim ditos. 1989 – o tes dois e o mundo da literatura projecto. António Reis e Margarida ciado. A dupla confirmava-se. e Rulfo enquanto autor aberto. subsidia – isto é. O se. o mundo des. o mundo desta projecto. Pela primeira vez mentasse aquela obra tendo em na história do cinema portu- vista o presente artigo). branco em manhã os demais. vro que cria um mundo» – A seguir. logias assombrosas entre a no- de nevoeiro. no carácter dos auto. in- Páramo enquanto personagem tensa. aliás. 1983. habitantes da Comala que Juan dro Páramo – a morte. especial obra fílmica em os eternos desejados independente do seu criador 4 peças fosse enorme e tivesse Rulfo. Reis não ter podido dar corpo à . a vida? Lugar de mor. O nome dela em zer: o mundo de Páramo e o primeiro lugar na ficha técnica. «um li. Realizam vo nível de realidade». Reis/Cordeiro) enquan- a morte? Morte? Almas penadas to Juan Preciados a ensaiar des- em sala escurecida em processo de reconhecimento cortinar Pedro Páramo no meio mútuo. Mesmo assim. Rea- para que expressamente co. o protagonista da no. O IPC não Preciado. CORRENTES ATLÂNTICAS 136 137 fantástico específico daquelas Salvo erro ou omissão. De ana- mesmo. múltiplos. E a um pedido que lhe foi feito depois Trás-os-Montes. lizam ambos. mo o bêbado na novela «ai vi- Que se sente ao dar de caras da. encontra até ele mesmo ça – e entretanto António Reis morrer – ou. Pedro Páramo. prestígio do nosso cinema no ram-no em vida. a nhuma – mesmo que e mesmo meu ver. Tal como os mundo. 1974 – ele reali- José Luís Peixoto (em resposta za. das brumas da sua própria vi- É da ordem do arrepio o da/morte. um guês – uma dupla de criadores. em todo o mundo ficou anun. Rosa de Areia. nos anos quentes da Re- do cinema nunca independente do perso. 1976. Realizam ambos – o cumpririam sul-americana. ternacional desta peculiar. lizam ambos. projecto. portanto. A seguir. «universo que é como um no. Em 1991. completa. a paragens havia de irromper. vela e a tentativa de adaptação mória da vida? Reconstituição dela: os singulares criadores em ecrã iluminado da morte? E não é isso mesmo. mata à nascen- não em cavalo vela. para usar as palavras de Cordeiro. com Pe- desconjuntarem-se. No IPC2. Porque aí se mundo de Rulfo. lução lá fora no que se refere ao português a mo e Rulfo são espectros. as portas à revo- nagem Páramo que criou. Jaime. Rea- dois. (Rulfo. ela assiste-lhe a realização. mória e o desvario da criação Arrepio «como um frio de dela. A seguir. Entregam ambos – o e o mundo da restante. Resposta ne- verdadeiramente gredo de tanta eficácia reside. Universos poderosos que se passa com a tentativa de (os de Rulfo e Reis/Cordeiro) adaptação de Pedro Páramo em algures entre o poder da me- obra cinematográfica portuguesa. E fo.

Porque dolorosa demais um possível significado suple. E em 2003 ela é re. ed. Realiza. a do aborto – sombra com um burro a cortar Lisboa. Multimedia). p. – essa. Ou.sua vontade de filmar Pedro Pára. 70’. poesia da terra. que imagino para esta história os ouviríamos. como diria por outras pa- adaptação – dela? de Reis? de Fernando. en. comple. co. esta (org. mas em ecrã iluminado já tínhamos imaginado. põe a quem se decida a adaptá-lo. Lisboa. de obtenção de subsídio no Linguagens quase dodecafóni. tal como na frase final Mas a segunda take tem no. co. ed. dramento. de quem de si mesmo é porque está em todo o lugar. Entre português. Argu. tência dele. Que versão nos daria anuncia oficialmente que não tuguês. até agora em vão. mara numa grande grua. port. este gesto de amor. Faro. tro de ti? Que versão nos darás.). 11 de Março de 2005. na diagonal. 1998. gar. nada irreal pela primeira. não de. nhece e quer fazer o Pedro Pára. O que vai ser. Margarida? E de Mazeda? Sim.»4 Não pode e amigo de Rulfo também. e ao neça. Barulhos. cumpririam verdadeiramente rida Cordeiro. Em 2001. de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues.» Basta-nos então de- uma inquietação. cit. parece-me ser o gran- tão: Pedro Páramo seria. Margarida. Espantosamente. e corpo. sejar que a sua sombra perma- que vais fazer? Margarida. Se o cinema é fan- nio. «Toda a gente do cinema co. andam. o ronar-se no chão7.. em sala escurecida pela força acabar todo o trabalho expo. que nem sabemos onde tornados tão espectrais quanto mo. longe percebia-se que alguém do corpo – ou um medo. Em arrepio como um frio mo vais conseguir? Margarida. Sentia-se o uma vida. agora que a vida lhe maneira muito simples: a câ. como vais dar Rulfo se ele se estava a caminhar. Em homenagem ao Antó. Margarida novela para criar um filme por- çam». Estou segura que realizar o filme. voeiro. A morte em mentar – a sombra que atraves. me bem. A chover. Fazê-lo de uma forma convin- IPACA/ICAM5. produtor José Mazeda. uma ter. Reis? A dos espectros que não se encontra em condições de Paradoxalmente. nem mimar. tanto preciados que somos sasse o plano não seria a do al. é que. Simplesmente. ou pela impo- nho. Anabela Moutinho e Graça Lobo uma vida que não conseguiría. Cavalo de Ferro. A câmara subia. morte. num Rulfo dispondo de outras ferra- ra? Pedro Páramo? Coragem. mas sim a de todos nando como se fosse um montão de pedras». tasma. 115. mocreve. siste de tentar uma adaptação Rulfo e Páramo: os eternos dese- dida a que. 7 «Deu um golpe seco contra a terra e foi-se desmoro- que morremos antes de chegar. Margarida? Ai. e como ando a pintar um apresentada ao ICAM. seja assumidamente neste caso. 2 Instituto Português de Cinema. Quem? O amigo de Reis? E de do nosso querer. valo branco em manhã de ne- quadro de cada sequência que mento: Félix Murcia. tamente. universal. calmamente. Parava a cente poderá ser o projecto de vez. Páramo e Rulfo ao terem tenta- escreveu o justo verso «eu não O lugar da morte deu lugar à do. nós. uma surpresa. tipicamente mentas. Limpa e seca. fazer o mesmo que havia roubado quem mais ama. 6 Em declarações à autora. E curiosamente com Audiovisual) e ICAM (Instituto do Cinema. mo lidar com a morte tão den. Em 2000 foi de cas ao nível dos sons. mesmo que figurativamente: substituição de uma outra tor- ção de quadros parados? Não. então teria de ser. Ela. movimento: um filme. cemitério pobre. não podia ser. se não fizer o Pedro portuguesa de uma novela tão jados do cinema português a Páramo que era para dar ao Antó.» Parece. O que vale é que. Sentias uma sombra a che. desconjuntarem-se. Porque aí se e expressão de afecto – Marga. adaptar a voo/ ando/ quero que me oi. estava a che- tornou António? Margarida. e rosto. quando dor: Fernando Matos Silva. que seja presença ausente – e o uma exposição de quadros em mo. 4 In António Reis e Margarida Cordeiro – a interrompe-se voluntariamente o caminho à primeira. de desafio que este livro pro- 1996 e 1999. Uma festa. chuva. . continua a ser conhe- seria essa gestação. gar e entrava então no enqua.»6 Projecto aprovado. p. «Estou deci. Uma da-se conclusão. e é como. verdade. cido simplesmente por Instituto do Cinema. o calor e a luz mudava. outra 3 Trad. 25. realidade imaterial em ser. nem abertura. 1997. duas tentativas Uma espécie de fogo--fátuo. anos carrega este fardo e o um monte de pedras a desmo- vente passagem de testemunho transmite de mão em mão. no meio de tanta feérica denominação nos últimos anos. ceira take ainda: quem há 15 de Pedro Páramo. aguar. ele. 33. CCF. 5 IPACA (Instituto Português da Arte Cinematográfica e mos suportar. mos sequer à aldeia de Comala estes «homens do burrico» p. Uma exposi. 1 Realização e argumento de Juan Carlos Rulfo. 2004. como vai ser? «Eu lavras José Luís Peixoto: «Re- Reis nela? de que morto nela? começava este filme de uma produzir tanta beleza e tanta da morte. ed. ela morra como me. Audiovisual e velar. não em ca- nio. México. o final voam.

Trata-se do manuscrito do romance Pela Estrada Fora. símbolo da contracultura da Geração Beat. o escritor chileno radicado nos Estados Unidos. O regresso de Jack Kerouac Roberto Ampuero . É o regresso de Jack Kerouac. Roberto Ampuero. admirador tanto de Charlie Parker como de Julio Cortázar. escreve sobre um rolo de papel exposto em Iwoa. CORRENTES ATLÂNTICAS 138 139 E porque a América é também a do Norte.

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desdobrado. numa sa. com o seu colega e ami- vez um curso de escrita criativa. no excelente Museu de Arte da sos da cultura estado-unidense. em que Bush foi derro. Kerouac narra ficcionalmente as do ponto de vista literário. norte-americanas. Mas isso não é tudo: atractivo reside no retrato fresco existe também nessa cidade li- improvisação de jovens que gozam do sexo. onde se pode des. res. décadas mais Kerouac é Salvatore Paradise – tarde. Cas- poetas. de dois milhões de dólares. sem ajuda de droga. a história em três semanas com a . estado num criativa. não ser cenas que escandaliza- ter e T. avançar por uma nova. Kurt Vonnegut Jr. entre 1947 e Iowa que se criou pela primeira frutar de filmes e jazz dos anos 1949. creveu. com 500 mulheres e deseja- pessoas como Raymond Carver. e o seu alguns. concedida pelo IWP a intelec. Boyle. como é defendi- símbolo da contracultura da Ge. John Chee. é uma lenda viva por. para narrar. de superpotência oci- de todo o mundo. Ernest Hemingway ou esteja a expor nestes meses. em Abril de Road (Pela Estrada Fora). cultural com o manuscrito. Kerouac escreveu o go Neal Cassidy. e parece um papiro egípcio. foi outro caso de vida levada ao O curso de Iowa City. avaliado em mais 1951. No manuscrito. Um romance reformatório. devia ser como va ser escritor. o símbolo da contracultura dos segundo livro dos vinte que es- anos cinquenta. acontece nada de espectacular. que começavam a um programa internacional de trompetista perder a sua identidade para escritores. enquanto curso. simples e coloquial. CORRENTES ATLÂNTICAS 140 141 Iowa City é uma pequena ração Beat.C. metade da última página. iniciou o primeiro ma Dean Moriarty. entrar na sua máquina e redigiu blicado em 1957 pelo norte. Nesse do por muitos. longa vitrine em forma de mesa cortou-as para que pudessem to manuscrito do romance pu. que hoje limite: aos vinte anos tinha rou- ministra um mestrado em escrita bado automóveis. cano que tem muito que contar Universidade de Iowa. ideia que. contradi- tem anualmente vinte escritores que Kerouac tória. trata-se de uma bolsa admirava numa linguagem irreverente. um dos mais valio- cidade do Midwest norte-ameri. Jonh Dos Passos. morrer no México em 1969 um grupo de romancistas e com uma overdose de droga. Assim. beral. para só referir uma ram os conservadores. escreveu On the cie de rolo de telex. pós-guerra. que viria a Corria o ano de 1936 quando romance à máquina numa espé. E tudo isso foi escrito mente. o IWP. No romance não John Irving. um dos manuscri. re- se avança ao longo do amarelen. dizia que pelas suas aulas passaram ele. A origem de Kerouac é cu- tos de um dos romances mais riosa: como estava convencido surpreendentes que existem: o de que tinha algo de muito forte rolo de 40 metros de compri. a Flannery O’Connor.. folhas de papel com três metros mo-nos emocionados enquanto O rolo encontra-se numa de comprimento cada uma. criou um artefacto mento no qual Jack Kerouac. até então tuais para passarem três meses a tanto como inaceitável para a «grande» lite- escrever nos Estados Unidos. de Charlie Parker. ratura. sequido e carcomido. colou com fita-cola 13 E não há nada a fazer. com cor. cinquenta. O texto está patente manuscrito. e dos Es- Midwest.americano que se tornou o recções à mão e à máquina. representada para Ke- Por isso. a que assis. sob a direcção de Wilbur sidy – que no romance se cha- Schramm. hoje zelosa. uma das poucas do do álcool e das drogas. alastraria a todo o planeta. não é de surpreender Julio Cortázar rouac por escritores como Henry que neste contexto literário se James. Concreta. Senti. mente vigiado. dental. tados Unidos profundos do tado por uma ampla maioria. Foi la imersa numa semipenumbra viagens que fez por estradas no âmbito da Universidade de inquietante. . feito amor.

que ati. lio Cortázar. Isto de. por Kerouac começa rapida- da fluidez da improvisação no mente a ser comercializado pela jazz. ou O Sol Nasce te e caíam na repressão maccar- melhava à escrita automática Sempre. seguidores do de café expresso. um tipo lúcido sumo impulsionado pelas gran- e metódico. Quanto ter. não encontrou editor. e começa a lie Parker. que morreu em vendeu um quatrilião des empresas e pelos meios de 1969 muito jovem. a explorar as margens da Arthur Miller e Jonh Cheever. e não nhava. perder o seu carácter autentica- rouac admirava tanto como Ju. des sem causa nos Estados Uni- Kerouac desejava promover a rou muitos para o precipício de dos que dominavam no Ociden- escrita espontânea. indeterminado mancista e membro. assim. ma e da música. alcoolizado. Com a minhou um número indetermi- publicação. aos 47 comunicação social mais in- anos. savam da Segunda Guerra Mun- tória na literatura norte-ameri. sua publicação causou um im. a estrada Estrada Fora vendeu um quatrilião nuscrito começou a sofrer alte. Allen Ginsberg.sem parágrafos. sufocante mundo imposto pelo mento Marlon Brando lhe tenha maccarthismo e pelo anticomu- oferecido 100 000 dólares para afirmou que nismo. havendo um que levou românticos ao suicí. e em 1957 a Viking quinas de café expresso. lhas. do núcleo criador A chamada Geração Beat era tos que duvidam que ele tenha a contracultura de jovens que improvisado Pela Estrada Fora. Eisenhower e Ginsberg. James Dean. de máquinas dial para a Guerra Fria e come- cana. um número mudança drástica que se avizi- crito e mal estruturado. Aí. famoso da noite para o dia e giaram com o seu estilo a ju. Kerouac tornou-se nado de jovens para a estrada». o . e. que faria his. procuravam um interstício no da geração beat. que precisava com Kerouac e o poeta Allen de dinheiro e estava convencido de jovens para Ginsberg. mente contestatário do início. Beat. de Levis e um milhão de má- rações. García Márquez. preto. Nessa altura. do cine- mo uma improvisação de Char. ro- merecia ser publicado. de Levis e um milhão fluentes. e enca- Press decidiu arriscar. embora haja mui. calças Presley. Nixon e Elvis tenham tido posições polariza. trompetista que Ke. há poucas cor. indústria do vestuário. thista. afirmou que «Pela nas mãos. jovens que rejeitavam a levar o romance ao cinema. Os Estados Unidos pas- minou a sua obra. mas a sua timidez A influência de Pela Estrada Fora mudança e com personalidades nunca o deixou projectar-se sentiu-se de imediato no mun. camisolas justas. ou liberais. Um romance devia ser co. Kennedy e Martin Luther King. Todavia. homogeneização dos seus com- nem tudo foram rosas para este Pela Estrada Fora portamentos através de um con- livro de Kerouac. país em acelerado processo de da literatura. das em relação ao romance. Cem Anos de Solidão. e quase todas elas estão Paixão do Jovem Werther de Goethe. dio. Marlon recções. a escuras e botas. estes encontraram um apodaram-no de Marlon Brando ventude dos anos vinte e trinta. Brando e Elvis Presley entron- feitas à máquina. Para çavam a perder heterogeneidade os seus críticos. conservadoras mediaticamente. que se asse. William Burroughs. juntamente sesperou Kerouac. espaços-chave na cultura com trama claramente estabele. pacto social só comparável A sociedade. do: milhões de jovens começa. cam nesse look juvenil de rebel- ou outro apontamento escrito. Se bem que num dado mo. do núcleo criador da de que tinha uma grande obra Geração Beat. o ma. contraditórias. Aí estavam McCar- Embora os críticos literários ram a usar blusões de cabedal thy e Kerouac. baseado numa de estradas com cafés-restauran- literatura alheia à oralidade e e encaminhou tes. o romance de Hemin. a construção cânone tradicional. a deixar pati. o look inspirado dos surrealistas e aproximá-la gway cujos personagens conta. o romance estava mal es. constitui a premissa para a cida. regional.

comportamento individual. entender os É impossível. De- identidade norte-americana e primido e desiludido com a sua empurravam uns para a direita carreira. Movimento Beat e por afirmar mostrando certas semelhanças que este se tinha convertido num produto do mercado. mas opôs-se à modernização e vislumbrou a solução no passado rural e nos marginais. mas também Easy Ri- sem Kerouac der. a grande mudança devia ter de identidade. a prosperi. quando os seus representantes. porém. Pelo con- dade e «os outros Estados Uni. en- tender os Estados Unidos do Estados Unidos pós-guerra sem Kerouac e a ge- ração à qual ele deu nome. mas gião. renegar a sua influência no sorientada ideologicamente. Ke- rouac provocou mudanças: à qual ele aproveitou o jazz negro da épo- ca da discriminação para provar que era possível criar à margem deu nome do mainstream.CORRENTES ATLÂNTICAS 142 143 movimento pelos direitos civis propôs. Kerouac acabaria por e outros para uma esquerda de. da família e da comunida. a conveniência lugar no papel. com os quais se identificava. regressou ao catolicismo. enfim. Kerouac. ou tinham É impossível sido atirados para uma confor- midade silenciosa». Foi um revolucio- nário no aspecto literário. segundo ele. sem Kerouac. que passou nos anos sessenta transformou por uma fase budista e depois radicalmente os Estados Unidos. trário. a nova superpotência e o nacional na inocência e na rus- plano Marshall. fenóme. não na agenda social. e o anticomunismo. como se poderia supor. E. nunca Tradução de AJM . de direitos civis. ti- nham desaparecido «em pri- sões e manicómios. perante a crise ele. ticidade dos Estados Unidos nos que punham em tensão a que estavam a desaparecer. danças. no texto e no de voltar aos valores da reli. Para ele. um mipenumbra do museu: para sector advogava. É do pós-guerra impossível entender Vonnegut e Bukovski. O seu cu- rioso manuscrito tipo rolo de telex parece sublinhá-lo na se- com o que hoje acontece. uma utopia concreta. e o outro a de explorar mu. Até as diferen- ças radicais que hoje dividem o e a geração país têm substratos Beat. radical ou de. ele procurou a alternativa dos». mas não no aspecto social. o Movimento Beat tivera o seu esplendor desde finais dos anos quarenta a meados dos anos cinquenta. que foi a que.

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