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Universidade de São Paulo

Gabriel Antonio Mesquita de Araujo

Número USP: 8024064 - Matutino

Literatura Alemã - Romantismo

Prof. Dr. Tércio Loureiro Redondo

O romântico e o moderno em Tieck – uma leitura de Der blonde Eckbert

Há uma gama muito rica de tentativas de interpretação do conto Der blonde Eckbert
de Ludwig Tieck que, por sua vez, buscam esgotar as questões referentes à determinação do
gênero literário a que este pertence, bem como discutir os sentidos das relações dos planos
tramáticos. A narrativa, publicada em 1797 numa seleção intitulada Volksmärchen apresenta
dois planos narrativos: um primeiro mais direto e posicionado no âmbito do “agora” do ponto
de vista temporal, em que se apresenta o casal Eckbert e Bertha, no qual esta última decidirá,
encorajada por Eckbert, contar a história de sua infância a Walther, amigo de Eckbert. Em
contrapartida, a narração dos eventos da infância constituirá, por sua vez, este segundo plano
que é efetivamente mola propulsora ou eixo crucial para entendimento da narrativa como um
todo. É de interesse interpretativo e analítico, verificar a importância desta obra para a
conjuntura romântica alemã, na medida em que se pode perceber nesta obra um ponto de
virada substancial caro a esse momento literário e sua respectiva concepção de mundo. Além
disso, é ponto nevrálgico a argumentação de que esta narrativa não se reduz às normas ou aos
critérios da dicção literária tradicional do Romantismo, se não que introduz elementos
modernos (a Tieck) fulcrais – uma ambivalência já bastante conhecida. Assim, dedica-se à
análise desta interação entre “pré-modernos” e “modernos” e como esta se manifesta no texto,
quais tópicos ou elementos permeiam a narrativa a fim de conferir um caráter delineador de
paradigmas axiais do romantismo alemão ou que os transcendem.

Enquanto os representantes do Classicismo de Weimar tentavam nivelar, ou melhor,
equilibrar, a perda do mundo holístico numa forma una e rígida, numa obra de arte uniforme,
os Frühromantiker buscavam uma “progresiven Universalpoesie”1 que tinha por objetivo
“alle getrennten Gattungen der Poesie wieder zu vereinigen”2, ultrapassando as limitações ou
comedimentos das obras classicistas, e com isto, surgindo tanto como reflexo do

1
SCHLEGEL, 1978
2
idem
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daß ich mich schon herrlich geschmückt sah.aburguesamento da sociedade em voga bem como manifestação aos clássicos: “Die romantische Dichtart ist noch im Werden. Isso pode ser testificado. daß sie ewig nur werden. wie ich sie mit Gold und Silber überschütten und mich an ihrem Erstaunen laben möchte. mas também àquilo que é inatingível e irracional. die wunderbarsten Phantasien beschäftigten mich. O mundo vivenciado não se restringe apenas àquilo que é estranho ou desconhecido. wie ich ihnen helfen wollte. der mir immer noch im Gedächtnisse lag. que ao deixar a casa de seus pais precisa enfrentar todos os percalços até encontrar a senhora que lhe ajudará.”4. die sich in Edelsteine verwandelten. so kam er mir immer wider Willen zurück. den überaus schönen Ritter anzutreffen. na história de fuga de Bertha. daß die Willkür des Dichters kein Gesetz über sich leide. percebe-se que o autor vai além. Ainda. Wenn ich mich so vergessen hatte. die mir unterirdische Schätze entdeckten.. 3 SCHLEGEL. weil mir der Kopf von allen den seltsamen Vorstellungen schwindelte. um irgend etwas zu helfen. pois ele torna possível que “die hergebrachte Rahmenerzählung aus der Binnenhandlung heraus zerstören. Das Zerbrechen der Erzählform führt zu Form- Experimenten. Pág.. Ou em: Zugleich war es mir dann vielleicht möglich. wenn ich plötzlich reich würde. em que ela sonha em comutar sua realidade. dann sah ich Geister heraufschweben. wenn ich wieder aufschaute. kurz.) Sie allein ist unendlich. no que se refere a esta construção de um contra-mundo. wie sie allein frei ist und das als ihr erstes Gesetz anerkennt. Um elemento muito mais do âmbito da reflexão do que do distanciamento. aber wenn ich so an meinem Rade saß. und mich in der kleinen Wohnung antraf. nie vollendet sein kann. 12 2 . 1978 4 NEUMANN. por exemplo. und Ritter und Prinzen um mich her. oder zu tragen. pode-se lançar luz sobre os momentos de fantasia da menina. Ou ainda em: Im Anfange war dieser Gedanke nichts weiter als jeder andre Gedanke. legando ao leitor apenas a certeza da dúvida. oder mir kleine Kiesel gaben. konnte ich ordentlich betrübt werden. 1991. und wenn ich nun aufstehn mußte. mas logo após apercebe-se de sua condição social: Oft saß ich dann im Winkel und füllte meine Vorstellungen damit an. Tanto os aspectos conteudísticos quanto formais do texto são postos em xeque no decorrer da narrativa. (. und ich verlor mich so in ihm. Todavia. é de extrema valia ressaltar que no que é concernente a Tieck.”3. so zeigte ich mich noch viel ungeschickter. sem que possa construir como compensação um novo mundo. ja das ist ihr eigentliches Wesen. uma espécie de contra-mundo a este que está posto. die bereits auf Erzählweisen des zwanzigsten Jahrhunderts vorausdeuten. àquilo que o individuo deve enfrentar isoladamente.

Schlegel e Novalis fundamentam esta proposição concernente a este paradoxo de que é no exercício de interiorização ou de adentramento que se alcançaria o caminho para a revelação ou entendimento: “Nach Innen geht der geheimnisvolle Weg. Para isso. seria na absoluta interioridade. porém. em última instância. Isso parece estar em plena coadunação com a perspectiva de Tieck.”5. por exemplo. mas também forças obscuras. não há uma explicação lógica para tal acontecimento. desconhecidas e abismais. de modo que este integra essa ruptura indiretamente na literatura ficcional. Até aqui se dissertou a respeito da influência dos modernos. da percepção destas personagens que por si só seria intraduzível. 1984. In uns. Isso é também corroborado pelo fato de não haver um narrador onipresente e onisciente. ou melhor. Isso pode ser verificado. mas encontram apenas o caminho da insanidade. de modo que as personagens buscam pela salvação. os eventos ocorrem. uma vez que. na transfiguração de Walther na anciã que cuidara de Bertha. Tieck reconhece. 431 3 . não é dada nenhuma explanação. uma vez que não se encontraria apenas o que há de bom e claro neste interior. ressignificada no plano da natureza. uma vez que ele considera essa ruptura da realidade quase que insuperável. O início da narrativa não nos apresenta qualquer diferenciação exata entre realidade factual e um outro mundo menos real. oder nirgends ist die Ewigkeit mit ihren Welten. sendo. dificulta que se consiga fazer uma distinção entre inocentes e culpados ou entre bons e maus. mas ao leitor. Portanto. o texto de Tieck celebra justamente a fragmentação do indivíduo e opõe-se à extrema interioridade ou interiorização. portanto. É de extrema valia ressaltar que Tieck leva em Der blonde Eckbert as concepções secularizadas e religiosas de redenção do Romantismo ao absurdo. assim. na criação de mundos próprios e na tentativa de recuperar a unicidade do indivíduo por meio da Poesia. sobretudo. uma vez que esta assume na narrativa um papel personificador da lugubridade deste mundo interior das personagens. elemento basilar do romantismo alemão. Pág. mas a tematizando explicitamente. a natureza é elemento fundamental. as implicações desse processo de interiorização irrestrito. Der blonde Eckbert é introduzido com uma forma 5 NOVALIS. no processo de total subjetivação que se poderia medir a Poesia. como dito. nem ao menos reconhecer os agentes da ação. o que. em que indivíduo e natureza se amalgamam ou em que há pelo menos uma relação muito íntima entre ser e natureza. na medida em que. Entretanto. por sua vez. ao ponto de o leitor não ter mais certeza da identidade das personagens. Isso é. os acontecimentos se dão de forma bastante nebulosa e a cada página isto vai se tornando cada vez mais confuso.

e. o eu só 4 . pois.. pois Tieck indica logo no início da narrativa o aspecto ilusório da realidade ou do polo da parecença.) kaum von mittler Größe. o que indica um nível literário muito mais profundo. A descrição de Eckbert. Em contrapartida “bemerkte man an ihm eine gewisse Verschlossenheit. daß der Himmel ihre Ehe mit keinen Kindern segnen wolle. ele está submetido a outras forças e mecanismos. No decorrer do conto. de sair de sua atmosfera silenciosa. é delineada por um conflito entre o que está na superfície. de pouco contato com outras pessoas. dando a impressão de que ela não possuiria nenhum papel de importância na vida de Eckbert. do prosaico. O fantástico não eclode na narrativa. apresentada no texto como o céu (“. há também as características que são conotadas a Eckbert. permite que se presuma que o conflito que se dá entre ambos estaria calcado numa relação de culpa perante essa força celestial. nomeadamente no que diz respeito a sua inclinação por comunicar-se. haja vista que se crê que o ser humano não pode ser aquele que inicia o seu ato. tudo aquilo que se refere à sua qualidade de cavaleiro... por um lado.”. Assim. será quase impossível estabelecer uma diferenciação entre parecença ou aparência e realidade. portanto um dualismo essencial conquanto a seu comportamento. ou mais. ou seja. eine stille. A denegação da geração de crianças por parte de uma instância extraterrena.. sua ação só existe porque existe outro que a valida. antecipando a própria fragilidade desta relação. inovadora. sob esta perspectiva.”). und kurze hellblonde Haare lagen schlicht und dicht an seinem blassen eingefallenen Gesichte.. nur klagten sie gewöhnlich darüber. como: “Er war (. por exemplo. Eckbert vivia “ruhig für sich und war niemals in den Fehden seiner Nachbarn verwickelt” e é. Isso está em plena consonância com os ideais “modernos”. É interessante notar aqui o emprego do verbo scheinen. a descrição das personagens contradiz o que se esperaria de um dito conto de fadas. A caracterização de sua esposa. zurückhaltende Melancholie”. a sua trama. Tieck tematiza ainda outro aspecto do conflito de Eckbert. A esposa adquire importância de narração quando se aventa sobre a relação do casal. por outro lado. considerado “heiter und aufgeräumt”. é demasiadamente sucinta.”). Bertha. isto é: “sie schienen sich von Herzen zu lieben”. pois este momento literário irá embeber justamente nessas histórias da tradição popular. elemento bastante comum no Romantismo. de forma tão surpreendente ou não crível. perturbador (das Unheimliche) surge como algo da ordem do cotidiano.típica dos contos populares (“In einer Gegend des Harzes wohnte ein Ritter. porém o fará de forma revitalizadora. que esta esconderia algo atroz que deve ser silenciado. havendo. Essa contradição se faz presente no comportamento de Eckbert. portanto.. se não que aquilo que causa estranhamento ou que é inquietante.

Em compensação. e este. na tentativa de sair deste isolamento. sendo isso também um princípio bastante verificável nos contos de tradição popular. que segundo Neumann. hielt sich aber oft über ein halbes Jahr in der Nähe von Eckberts Burg auf. Não há nenhuma declaração neutra com relação a esta personagem se não que apenas projeções da parte de Eckbert: “Niemand kam so häufig auf die Burg als Philipp Walther. a narração desta história parece ser feita de modo a unir e não a distinguir os dois planos da narrativa. em que se está excluído das relações humanas. mas que simbolizam mais as diferenças entre Eckbert e Walther no percurso narrativo. weil er an diesem ohngefähr dieselbe Art zu denken fand. de forma que. por sua vez. A vida de Walther está em harmonia com a natureza enquanto a de Eckbert espelha o modo de existência isolado (pois sem Walther não haveria comunicação) moderno.. especialmente no que concerne à bruxas. Não há assim possibilidade de 5 . Este “amigo” é revestido de atributos. Eckbert. A história hedionda de Bertha parece atormentar a alma de Eckbert. são pertencentes à tradição dos contos populares. O que também pode ser percebido na narração da história de Bertha é uma espécie de reflexão por parte do autor. e é digno de menção de que esta está totalmente submetida à perspectiva de Eckbert. mas esta punição não recai sobre a “bruxa”. que promove uma quebra substancial com os conhecidos contos de fadas. Isso pode ser percebido na colheita de plantas/ ervas e de pedras: “Dieser wohnte eigentlich in Franken. o pecado é de fato punido. sie in Ordnung zu bringen”) revela uma natureza diferente à de isolamento de Eckbert. o compartilhamento desta com o amigo seria uma forma de transferir a culpa também a Walther.”.. mas sim como vaticínio das desgraças e tormentos. der auch er am meisten zugetan war. Walther teria um vínculo mais íntimo com o casal (“damit er um so mehr unser Freund werde”). Assim. O fato de Walther conseguir colocá-las em ordem (“und beschäftigte sich damit. uma vez que ao contar a história/ o segredo. o que em si já coloca esta amizade sob dúvidas. mas sim sobre aquele que não possui culpa efetivamente. dem sich Eckbert angeschlossen hatte. deseja livrar-se desse peso. sammelte Kräuter und Steine. religiosas e com a natureza. Além disso. A caracterização de Philipp Walther é ainda mais genérica do que a de Bertha. a menina que a muito custo foge de casa e consegue sair da situação adversa anterior deseja após algum tempo retornar ao local de onde viera.existe porque há outro que valida este eu. pois o pássaro que entoa a canção Waldeinsamkeit não a canta para efeitos de felicidade. A verdadeira identidade de Walther permanece obscurecida. vale ressaltar que há uma relação de conveniência entre Eckbert e Walther. ein Mann.”. busca por um interlocutor.

und mit jedem Jahre entspann sich zwischen ihnen eine innigere Freundschaft. Com essa advertência que transmuta a história de quadro narrativo a acontecimento pessoal. O instrumento estilístico de narração romântico da “hora das bruxas” não é autoexplicável e também não parece ser o objetivo real da descrição se não que tal ilustração serve como elemento crucial de exposição do conflito mental interno das protagonistas. Retrocedendo-se. Haja vista que o relato de Bertha encerra um papel-chave. ambos os planos num mesmo nível de narração. Tieck modifica o estilo narrativo centrado numa “autoralidade” para um estilo centrado no “eu” das personagens. Tieck utiliza manifestamente temas literários correntes. ambas as realidades. mas sim precisa ser primeiramente construída (“Niemand kam so häufig auf die Burg als Philipp Walther. ser creditado de forma abstrata ao sistema ou doxa social de então. pois a culpa é um estado de espírito que pode ser comutado entre as personagens e não está diretamente atrelada aos atos praticados. por sua vez. Se perseguir-se os fatos conquanto à questão da culpa. so sonderbar sie auch klingen mag.. para o ambiente externo (“die Bäume draußen schüttelten sich vor nasser Kälte”). o desespero psíquico das personagens. e isso poderia. de forma que o prenúncio ameaçador se transfigura simbolicamente na neblina do fim de tarde outonal. Faz-se ainda necessário ressaltar que Tieck motiva a narração de Bertha por meio de uma transformação do meio.”). atesta-se a negligência por parte dos pais. qual seria sua proposição principal. A narração da história de Bertha finda com uma convicção de culpa. por exemplo. A opressão mental. à questão da fuga de Bertha. é posto literalmente para fora. adverte que o que os fatos que serão narrados são de grande singularidade e esquisitice. se terá a passagem desta culpa de uma geração para outra.” / “Eckbert begleitete ihn oft auf seinen einsamen Spaziergängen. 6 . ou seja. com o chegar do que popularmente é conhecido como “hora das bruxas” (hora tardia) e com a degustação do vinho como meio de entretenimento. Deste ponto pode-se transferir a culpa dos pais para os condes que entregaram a criança ilegítima para que os pastores a criassem. porém os emprega com fins que ultrapassam os modelos usuais. por sua vez. Bertha relativiza a ficcionalidade e termina por colocar ambos os mundos de experiência.. A relação de confiança entre Eckbert e Walther também não é dada de antemão.”). Bertha. mas que não devem ser encarados como um conto de fadas (“Nur haltet meine Erzählung für kein Märchen. pode-se conjecturar no que consistiria o sentido central deste. emprestando àquilo que soa improvável um forte caráter de imediatismo e assaz carga dramática. é relacionado com o fogo da lareira. que por sua vez.salvação. Com esta transição para o “mundo dos contos de fadas” ou “mundo dos contos populares”.

fazendo menção a Cohen. 235 7 ibidem. elementos mais imanentes das personagens e da própria história. Pág. Neste. Essas considerações permitem que se erija uma ponte de relação com Der blonde Eckbert. algo que está atrelado diretamente às configurações sociais. o autor ainda disserta sobre o individualismo moderno. portanto. se não que uma punição de ordem mais mundana. Watt distingue sete tipos de mitos já estudados por outros autores e aponta que o termo “mito” é pós-romântico. ou seja. a narrativa tem uma qualidade sagrada.gerando assim uma cadeia interminável de culpados. a comunicação sagrada se dá de forma simbólica. 1997. Tieck utiliza Bertha. a simbologia na narrativa é fundamental. o que gera um efeito literário dramático. Assim. com o Renascimento e com a Reforma há a preponderância do indivíduo sobre os 6 WATT. revelando aspectos primordiais do romantismo alemão. não há um julgamento divino. a não ser o dos próprios mitos. como já discutido. mais atrelada ao meio social. Pág. tem sua eclosão com “a aplicação secular da doutrina protestante”7 e do consequente “capitalismo individualista”8. uma vez que o individualismo é tópico empregado frequentemente nesse momento literário. Retornando às reflexões de Watt. de certa forma. de forma que não há mais distinção temporal. pois não há uma trama em que as personagens estão estritamente submetidas aos desígnios de Deus. mas um tanto quanto confuso para o leitor. 236 7 . mas mais do que isso. alguns dos eventos e objetos que ocorrem e estão presentes no mito não ocorrem nem estão presentes em qualquer outro mundo. como um exemplo arquetípico do pecado original do homem. é de extrema valia lançar luz sobre as considerações de Ian Watt em seu famoso livro “Mitos do Individualismo Moderno”. uma vez que. a narração da história de Bertha “ancora o presente no passado”. Pág. Sobre este ponto é relevante abordar a questão do individualismo que permeia substancialmente o eixo narrativo. de alguma forma. O autor elucubra que “uma das funções mais importantes do mito é ancorar o presente no passado” e. pois é a partir desse construto simbólico que se pode depreender. destacando que a concepção do termo não deve ser entendida com base psicológica. Além disso. amalgama o presente e o passado. Para isso. por extensão como egoísmo. pois as ações acabam precipitando-se. afinal. que o mito: trata-se de uma narrativa de acontecimentos. mas o faz de forma secularizada. e que. por sua vez. 236 8 idem. mas sim como uma “especificação social”6.

Em sentido óbvio. de forma que o leitor é forçado a lançar mão de outros parâmetros de abordagem e análise. são fracassos emblemáticos. espaço e individualidade. os quatro heróis em questão alimentam ideais indefinidos. Portanto. verifica-se nesses mitos revitalizados que “diferem dos primitivos por dedicarem menos atenção à ‘solidariedade cósmica’.aspectos coletivos ou sobre a coletividade.Pág. Portanto. o conflito ou convivência de concepções secularizadas e religiosas. ao lançar-se um olhar mais acurado sobre a atitude de Bertha ao fugir de casa e depois de roubar a senhora que a acolhera tão afavelmente. 1997. Dessa maneira.] só sobrevivem numa existência póstuma. 234 10 Ibidem. Tieck emprega diversos elementos considerados como pertencentes ao momento literário do Romantismo alemão como o individualismo. e que [. que embebe fortemente dos princípios românticos.. 233 8 . pelo contrário. parecendo haver uma fragmentação do indivíduo ao ponto de suceder-se uma espécie de transfiguração das categorias de tempo. apesar de aproveitar-se dos elementos temáticos da tradição popular. a de conseguir uma ascensão social para si própria. isto é claro. testifica-se essa atitude individual. Além disso. 9 WATT. inusitado e inquietante. erigindo-se assim um texto singular.10 Isso é exatamente o que se pode atestar na história de Bertha. a natureza como canal simbólico de expressão do mundo interior das personagens ou como prenúncio de acontecimentos narrativos. Sem esquecermos de que vêem punidos pelas tentativas de alcançar suas aspirações. a utiliza como catalisadora de rupturas substanciais e transgressoras do próprio gênero “conto de fadas”. e não são capazes de torná- los realidade. Tieck. Em contrapartida.”9. mesmo que se escolhendo caminhos escusos. Ademais. como deve ocorrer a quase todos nós. a partir daí há apenas um sentimento de repugnância e inconformidade. mas ao mesmo tempo antecipa procedimentos e elementos significativos da “modernidade”. eles não são vencedores. previamente para Eckbert e posteriormente para Walther comprova essa questão da reconsideração culposa do passado. a narração da história. até o momento que o roubo e o abandono do cachorro são revelados. desprovida de acontecimentos. pois há uma identificação muito grande do leitor com relação à pobre menina que tanto sofre e apenas fracassa.. bem como os elementos fantásticos tão caros ao mito que servem como mola propulsora de uma narrativa com maior carga dramática. Pág. na qual se dedicam a lamber as feridas da lembrança. a narrativa não parece ter por intento recuperar a unicidade do indivíduo por meio da Poesia. tão presente naqueles do que aos esforços para alcançarem seus objetivos individuais. Porém Watt aponta que: Outro motivo para a nossa identificação com eles [os heróis] é o fato de que.

Dom Quixote.. Unterwegs zu den Inseln des Scheins. 1991. WATT. Berlin und Weimar. Friedrich: Progressive Universalpoesie: Fragment 116. Organizado por: Nationale Forschungs. 1985. 9 . Stuttgart: Reclam. Tieck. In: Tiecks Werke. Aufbau Verlag. 1997. Dom Juan. Kunstbegriff und literarische Form in der Romantik von Novalis bis Nietzsche. 1984.M.Auflage. Frankfurt a. Michael. Robinson Crusoe. Novalis: Blüthenstaub-Fragment. 1978. München und Wien: Carl Hanser Verlag. Mitos do Individualismo Moderno: Fausto. Ian. Ludwig: Der blonde Eckbert. Rio de Janeiro: Jorge Zahar. Schlegel. 3. In: Werke in einem Band.Bibliografia Neumann.und Gedenkstätten der klassischen deutschen Literatur.