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REFERÊNCIA 4

SANTAELLA, Lucia. Navegar no ciberespaço: o perfil cognitivo
do leitor imersivo. . São Paulo: Paulus, 2004. Cps. 1 à 3.

TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO, O
MOVENTE E O IMERSIVO

D esde o surgimento dos novos suportes e estruturas
para o texto escrito, notadamente o CD-Rom e a
estrutura hipermídia, a história do livro e da leitu-
ra tem despertado grande interesse em pesquisadores de áreas
diversas do conhecimento. Esse interesse intensificou-se com a
proliferação crescente das redes de telecomunicação, especial-
mente a internet, ligando rizomaticamente todos os pontos do
globo. Nesse contexto, junto com as promessas de universalidade
e intercâmbio internacional de idéias pregadas pelos utopistas,
tem surgido também muita angústia diante das incertezas quanto
ao desaparecimento da cultura do livro (ver Beiguelman, 2003;
Chartier, 2002: 101-124). Será que o livro no seu formato atual,
feito de papel, está fadado a desaparecer como desapareceram os
rolos de papiro?
Afinal, o livro, como o conhecemos hoje, está longe de ser um mero
objeto. Ele foi instaurador de formas de cultura que lhe são próprias, que
incluíram, desde o Renascimento, nada menos do que o desenvolvimento da
ciência moderna e a constituição do saber universitário. Além disso, desde a
revolução industrial, o incremento das técnicas de impressão e sua fusão com
as imagens fotográficas levaram ao aparecimento e multiplicação dos meios
impressos de massa: os jornais e as revistas. Que futuro está reservado também
a esses meios? Sofrerão o mesmo destino do livro?

NAVEGAR NO CIBERESPAÇO

Diante de cantas incertezas, nada poderia ser mais natural do que a
recuperação da história do livro e seus suportes, dos leitores e suas práticas,
numa busca de determinações passadas que possam ajudar a compreender os
vetores do presente. Figura proeminente entre os pesquisadores da história e
cultura do livro e de seus leitores é, sem dúvida, Roger Chartier. Em seus
escritos sobre a história da leitura, Chartier tem buscado reconstituir tanto
"as redes de práticas e as regras de leituras próprias às diversas comunidades
de leitores (espirituais, intelectuais, profissionais etc.)’’, quanto as relações da
história da leitura com os três conjuntos de mutações: tecnológicas, formais e
culturais (Chartier, 1998a: 14, 24; ver também Chartier, 1996; 1998b; 1999,
Cavallo e Chartier, 1997; Foucambert, 1994; e, no Brasil, ver Kleiman, 1999;
Lajolo, 1997; Lajolo e Zilberman, 1996; Zilberman, org., 1998).
Embora esteja inserido nesse contexto muito amplo de preocupações
históricas, culturais e até mesmo arqueológicas relativas à leitura, este
capítulo está marcado por um objetivo muito específico. Não há aqui a
intenção explícita de fornecer diretamente nenhuma resposta sobre o passado
ou futuro do livro e de seus leitores. O interesse que move este trabalho está
voltado para as novas formas de percepção e cognição que os atuais suportes
eletrônicos e estruturas híbridas e alineares do texto escrito estão fazendo
emergir. Que novas disposições, habilidades e competências de leitura estão
aparecendo? Enfim, que novo tipo de leitor está surgindo no seio das
configurações hipermidiáticas das redes e conexões eletrônicas?
Para refletir sobre essa questão, o método a ser aqui utilizado será
classificatório e comparativo. Antes de entrarmos na explicitação desse
método, entretanto, é necessário notar que, para praticar tal método,
precisamos dilatar sobremaneira nosso conceito de leitura, expandindo esse
conceito do leitor do livro para o leitor da imagem e desta para o leitor das
formas híbridas de signos e processos de linguagem, incluindo nessas formas
até mesmo o leitor da cidade e o espectador de cinema, TV e vídeo, também
con

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siderados neste trabalho como um dos tipos de leitores, visto que as
habilidades perceptivas e cognitivas que eles desenvolvem nos ajudam a
compreender o perfil do leitor que navega pelas infovias do ciberespaço,
povoadas de imagens, sinais, mapas, rotas, luzes, pistas, palavras, textos e
sons. Se, de um lado, minha proposta é muito específica, a saber, delinear o
perfil cognitivo desse novo leitor, de outro lado, para delinear esse perfil, é
necessário ampliar a concepção mesma do que seja a prática da leitura.
É certo que há, entre os estudiosos da leitura, uma reação contrária à
expansão no emprego do termo “leitura”, quando alegam que são equivocadas
as generalizações da idéia de “leitura” que só contenham alusões metafóricas a
processos que guardam pouca ou nenhuma relação com a prática de decifração
letrada suposta nela (ver Pécora, 1996: 14; Bourdieu e Chartier, 1996: 234-
235). Entretanto, desde os livros ilustrados e, depois, com os jornais e
revistas, o ato de ler passou a não se restringir apenas à decifração de letras,
mas veio também incorporando, cada vez mais, as relações entre palavra e
imagem, desenho e tamanho de tipos gráficos, texto e diagramação. Além
disso, com o surgimento dos grandes centros urbanos e com a explosão da
publicidade, o escrito, inextricavelmente unido à imagem, veio
crescentemente se colocar diante dos nossos olhos na vida cotidiana por meio
das embalagens de produtos, do cartaz, dos sinais de trânsito, nos pontos de
ônibus, nas estações de metrô, enfim, em um grande número de situações em
que praticamos o ato de ler de modo tão automático que nem chegamos a nos
dar conta disso. Tendo isso em vista, não há por que manter uma visão purista
da leitura restrita à decifração de letras. Do mesmo modo que o contexto
semiótico do código escrito foi historicamente modificando-se, mesclando-se
com outros processos de signos, com outros suportes e circunstâncias distintas
do livro, o ato de ler foi também se expandindo para outras situações. Nada
mais natural, portanto, que o conceito de leitura acompanhe essa expansão.
É por isso que, antes mesmo do advento do ciberespaço, conforme já
chamei atenção para isso há algum tempo (Santaella,

NAVEGAR NO CIBERESPAÇO

1981), fora e além do livro, há uma mulciplicidade de tipos de leitores;
multiplicidade, aliás, que vem aumentando historicamente. Há, assim, o leitor
da imagem, no desenho, pintura, gravura, fotografia. Há o leitor do jornal, de
revistas. Há o leitor de gráficos, mapas, sistemas de notações. Há o leitor da
cidade, leitor da miríade de signos, símbolos e sinais em que se converteu a
cidade moderna, a floresta de signos de que já falava Baudelaire. Há o leitor-
espectador da imagem em movimento, no cinema, televisão e vídeo. A essa
multiplicidade, mais recentemente veio se somar o leitor das imagens
evanescentes da computação gráfica e o leitor do texto escrito que, do papel,
saltou para a superfície das telas eletrônicas. Na mesma linha de
continuidade, mas em nível de complexidade ainda maior, hoje, esse leitor das
telas eletrônicas está transitando pelas infovias das redes, constituindo-se em
um novo tipo de leitor que navega nas arquiteturas líquidas e alineares da
hipermídia no ciberespaço.
Tendo em vista a análise e não simplesmente a descrição das
características dessa diversidade de leitores, nosso ponto de partida deve ser
conduzido em direção a um esforço de generalização, um esforço
classificatório. Ora, para assumir um ponto de vista classificatório, isto é, um
ponto de vista que busca agrupar as diferenças singulares dos fenômenos nos
traços comuns por eles apresentados, é preciso haver um critério orientado
pelas finalidades que a análise visa atingir. No caso deste capítulo, como já foi
anunciado, o interesse está voltado para a revelação das características
perceptivo-cognitivas apresentadas por essa diversidade de leitores. Quais são
as habilidades perceptivas e cognitivas implicadas na leitura de livros? E na
leitura de jornais? Que tipo de cognição está implicada na leitura da cidade?
Quais são as habilidades cognitivas envolvidas na imersão nas infovias do
ciberespaço? Tendo por base o critério classificatório estabelecido em função
dos perfis cognitivos que se busca delinear, a aplicação do princípio de
generalização nos permite extrair, da multiplicidade de leitores acima
elencada, crês cipos principais de leitores: o leitor contemplativo, o leitor
movente e o leitor imersivo, cujos

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modelos perceptivo-cognitivos este livro buscará explicitar, com ênfase nesse
mais recente tipo de leitor, o imersivo.
Trata-se aí, portanto, de uma tipologia que, para diferenciar os processos
de leitura, não tomou como ponto de partida as distinções entre tipos de
linguagens ou processos de signos, tais como a linguagem verbal escrita do
livro, a linguagem diagramá- tica, verbal e imagética dos jornais, a linguagem
das imagens em movimento no cinema etc. Também não tomou como ponto de
partida as espécies de suportes ou canais que veiculam as mensagens: livro,
jornal, TV, computador etc. Tomou por base, isto sim, os tipos de habilidades
sensoriais, perceptivas e cognitivas que estão envolvidas nos processos e no
ato de ler, de modo a configurar modelos cognitivos de leitor. Disso
resultaram três tipos de leitores com modelos cognitivos que lhes são
próprios.
O primeiro, como já foi mencionado acima, é o leitor contemplativo,
meditativo da idade pré-industrial, o leitor da era do livro impresso e da
imagem expositiva, fixa. Esse tipo de leitor nasce no Renascimento e perdura
hegemonicamente até meados do século XIX. O segundo é o leitor do mundo
em movimento, dinâmico, mundo híbrido, de misturas sígnicas, um leitor que
é filho da Revolução Industrial e do aparecimento dos grandes centros
urbanos: o homem na multidão. Esse leitor, que nasce com a explosão do
jornal e com o universo reprodutivo da fotografia e do cinema, atravessa não
só a era industrial, mas mantém suas características básicas quando se dá o
advento da revolução eletrônica, era do apogeu da televisão. O terceiro tipo
de leitor é aquele que começa a emergir nos novos espaços incorpóreos da
virtualidade. Vejamos cada um desses tipos em mais detalhes.
Antes disso, no entanto, vale dizer que, embora haja uma seqüencialidade
histórica no aparecimento de cada um desses tipos de leitores, isso não
significa que um exclui o outro, que o aparecimento de um tipo de leitor leva
ao desaparecimento do tipo anterior. Ao contrário, não parece haver nada
mais cumulativo do que as conquistas da cultura humana. O que existe, assim,
é uma convivência e reciprocidade entre os três tipos de leitores,

copiados e difundidos (Febvre e Martin. aliás. elas podiam existir em um espaço interior: passando rapidamente ou apenas se insinuando plenamente decifradas ou ditas pela metade. A partir do século XII. nem pelo movimento de manducação muscular. entretanto. enquanto se formava uma classe burguesa. permitindo comparações de memória com outros livros deixados abertos para consulta simultânea. O leitor tinha tempo para considerar e reconsiderar as preciosas palavras . habilidades perceptivas. 1. 0 LEITOR CONTEMPLATIVO. 1998a: 23). os altos funcionários de toda espécie e também os ricos negociantes. exigindo. os mosteiros e outros estabelecimentos eclesiásticos conservaram o monopólio da cultura livresca e da produção do livro. Com a leitura silenciosa. sendo irredutível ao outro. 1991: 22). enquanto os pensamentos do leitor as inspecionavam à vontade. Ao contrário. Com a instauração obrigatória do silêncio nas bibliotecas universitárias na Idade Média central. intervieram modificações intelectuais e sociais provocadas especialmente pela fundação das universidades e pelo desenvolvimento da instrução entre leigos. desconhecida durante milênios” (Certeau apud Chartier. de fato. capaz ela também de aceder à cultura: os jurisconsultos. Tudo isso repercutiu nas condições em que os livros eram compostos. como antes. pelo rumor de uma articulação vocal. sensório-motoras e cognitivas distintas. MEDITATIVO Nos sete séculos que decorreram da queda do Império Romano até o século XII. os conselheiros leigos dos reis. retirando novas noções delas. que não precisavam mais ocupar o tempo exigido para pronunciá-las.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO embora cada tipo continue. escritos. Ler sem pronunciar em voz alta ou a meia-voz é uma experiência moderna. o leitor podia estabelecer uma relação sem restrições com o livro e com as palavras. "não mais acompanhada. a leitura se fixou definitivamente como um gesto do olho.

por milhares. 1997: 68). Além de permitir a comunicação sem testemunhas entre o livro e o leitor (Manguei. hoje. TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. Como foi bem lembrado por Chartier (1998a: 17-19). E o próprio texto. o efeito que o texto é capaz de produzir em seus receptores não é independente das formas materiais que o texto suporta. novos hábitos de trabalho intelectual (Febvre. Essas formas materiais e o contexto em que se inserem contribuem largamente para modelar o tipo de legibilidade do texto. Graças aos tipos móveis. tornava-se posse do leitor. autores não escrevem livros. para concentrar o pensamento que. a matéria de que o livro passou a ser feito foi bastante nova: uma película de natureza vegetal. 1999: 24). a transformação do manuscrito em livro impresso pode muito bem ser comparada à mutação propiciada pela invenção da escrita no terceiro milênio antes da nossa era.ele sabia agora . Ora. pois o livro do século XV assemelhava-se ao livro manuscrito. 1991: 15). protegido de estranhos por suas capas. eles escrevem textos que se tornam objetos escritos. os livros podiam ser reproduzidos com rapidez e facilidade. manuscritos. ao mesmo tempo que assegurava. o livro impresso foi um poderoso instrumento para conferir toda eficácia à meditação individual. informatizados. sem ele. podia ser fabricada em grandes quantidades. fosse na azáfama do scriptorium. Se. em um tempo mínimo. nos primeiros tempos da impressão. . gravados. Segundo Paul Chalus (1991: 9). entre os pensadores. ibid. O MOVENTE E O IMERSIVO cujos sons . estaria disperso. a aparência do livro mudou pouco. de ler mais e de ler textos mais complexos” (Chartier.podiam ecoar tanto dentro como fora. a difusão de idéias. Retrospectivamente. de uma só vez. Os exemplares apareciam por centenas. no mercado ou em casa (Manguei. pode-se perceber que todas essas modificações só estavam preparando o terreno para o advento do livro impresso.: 68). Longe de ter sido mera realização técnica cômoda. “a leitura silenciosa criou a possibilidade de ler mais rapidamente e. portanto. criando. o papel. conhecimento íntimo do leitor. impressos e.

. a produção do livro não tinha ainda a dimensão que viria adquirir no século XIX e início do século XX com a industrialização da atividade gráfica e com a proliferação das tiragens graças aos livros de bolso. 1998a: 23). Essas diferentes formas do livro também funcionam como índices de práticas distintas de leitura. pouco cuidadas e pouco custosas. Entre os séculos XVI e XVIII. Também existem nítidas distinções que separam a leitura intensiva da leitura extensiva. sem conferir nenhuma sacralidade à coisa lida” (Chartier. O conjunto dessas coleções e séries veio dar impulso à multiplicação dos livros garantida pela invenção de Gutenberg. tornam a ordem do discurso imedia- tamente mais legível.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO Assim. Há ainda leituras eruditas e leituras vacilantes. “o triunfo dos brancos sobre os pretos". da decifração do código das letras impressas. Enquanto a primeira. comunicar o texto aos que não sabem decifrar. cimentar as formas de sociabilidade em espaços comunitários. e que reencontra. reverenciai e respeitosa. passa com desenvoltura de um a outro. leitura como intelecção abstrata e leitura como engajamento do corpo etc. entre idas e vindas à linha. 1998a: 18-19). junto com as formas mais nobres de livros. produziu um tipo de leitura que fragmenta os textos em unidades separadas. na articulação visual da página. Desde o século XVI. Mesmo quando se trata da leitura de livros. continuaram existindo leituras em voz alta com sua dupla função: de um lado. Mesmo depois de fixada a genealogia da nossa maneira contemporânea de ler em silêncio e com os olhos. as conexões intelectuais ou discursivas do raciocínio (Chartier. vendidas por mascates e destinadas àqueles que não queriam entrar nas livrarias. começaram a surgir publicações precárias. a segunda “consome muitos textos. a prática da leitura não é um ato monolítico. que. isto é. de outro lado. e aquela das alíneas. a aeração da página pela multiplicação dos parágrafos que quebram a continuidade ininterrupta do texto. Mesmo assim. a impressão em papel por meio de tipos móveis trouxe consigo uma maneira específica de ler o texto. apoiada na escuta e na memória. confronta- se com livros pouco numerosos.

Mas esse aparente abandono não deve nos levar a minimizar o fato de que a leitura também é trabalho: por trás da aparente imobilidade. 1997: 49. ou seja. Segundo Wittrock (apud Manguei. TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. em retiro voluntário. lidos em uma relação de intimidade. labiríntico. unitário. pois o ato de ler letras é um processo complexo que “envolve não apenas a visão e percepção. o perfil cognitivo do leitor do livro. pois. então. Trata-se.: 54). 54). solitária. . leitura do manuseio. “ler não é um fenômeno idiossincrático. julgamento. há a produção silenciosa da atividade leitora. em abandono.] Ler. não é um processo automático de capturar um texto como um papel fotossensível captura a luz. reconhecimento. [. conhecimento. mas um processo de reconstrução desconcertante. desprendidos das circunstâncias externas. trata-se de um processo generativo que reflete a tentativa disciplinada do leitor de construir um ou mais sentidos dentro das regras da linguagem”. Esse tipo de leitura nasce da relação íntima entre o leitor e o livro. comum e. pois o espaço de leitura deve ser separado dos lugares de um divertimento mais mundano. que tem na biblioteca seu lugar de recolhimento. a leitura individual. anárquico. que pretendo aqui delinear. ibid. É uma atividade de leitores sentados e imóveis. eclesiásticas ou familiares. num espaço retirado e privado. da intimidade. toma como paradigmática a prática que se tornou dominante a partir do século XVI... mas inferência. Mesmo quando se dá em tais lugares. silenciosa e individualmente. silenciosa. O MOVENTE E O IMERSIVO Sem desconsiderar codas as variações das práticas de leitura tão caras a Chartier. no qual apenas um significado está correto. leitura laicizada em que as ocasiões de ler foram cada vez mais se emancipando das celebrações religiosas. Mas também não é um processo monolítico. pessoal” (Manguei. de foro privado. Ao contrário. leitura de numerosos textos. o leitor se concentra na sua atividade interior. memória. experiência e prática”. separando-se do ambiente circundante. de uma imobilidade plena de energia mental que faz adivinhar uma animação interior. contudo. uma tensão pacífica.

mapas. Um mesmo livro pode ser consultado quantas vezes se queira. sempre comparativa. 1996: 113). leitura que pode voltar as páginas. O livro na estante. em meados do século passado. “Ler é cumulativo e avança em progressão geométrica: cada leitura nova baseia-se no que o leitor leu antes” (Manguei. a memória de livros anteriores e de dados culturais (Goulemot. um mesmo quadro pode ser visto tanto quanto possível. FRAGMENTADO Inspirado na obra de Walter Benjamin. manuseá- veis: livros. esse primeiro tipo de leitor é aquele que tem dian- te de si objetos e signos duráveis. Sendo objetos imóveis. A leitura do livro é. pinturas. retornos. essencialmente contemplação e ruminação. partituras. re-signifi- cações. a leitura é também hábito e. Embora a leitura da escrita de um livro seja seqüencial. Santos (1998: 10) informa-nos que. a visão reina soberana. gravuras. esses signos podem ser contínua e repetidamente revisitados. não é acossado pelas urgências do tempo. Entre os sentidos. Um livro. a solidez do objeto livro permite idas e vindas. imóveis. 2. escolhe-os e delibera sobre o tempo que o desejo lhe faz dispensar a eles. a imagem exposta. Em resumo. 1997: 33). Uma vez que estão localizados no espaço e duram no tempo. as transformações urbanas de cidades como Paris e Londres foram . Esse leitor não sofre. repetidas vezes que pode ser suspensa imaginativamente para a meditação de um leitor solitário e concentrado. um quadro exigem do leitor a lentidão de dedicação em que o tempo não conta. Um leitor que contempla e medita. complementada pelo sentido interior da imaginação. grande leitor de Poe e Baudelaire e um dos maiores teóricos da modernidade. por fim. 0 LEITOR MOVENTE. que faz emergir a biblioteca vivida.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO Além disso. é o leitor que os procura. à altura das mãos e do olhar. localizáveis. É o mundo papel e do tecido da tela. por isso mesmo é a leitura de muitos livros.

nessas cidades. serviam de marcos reais para a cidade. as diver- . de outro. os jornais. TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. e os donos do capital. a elite industrial. Para a melhor administração do capital e dos grandes centros urbanos. próprias de cidades com excesso de informação. As locomotivas e as estações ferroviárias. o Estado aparece como instituição legal e fiscal para garantir a ordem das transformações. À luz de Berman (1989). carregando seus sonhos de confraternização de uma humanidade inteira ligada por trilhos. Com a chegada das redes de eletricidade. sob efeito das luzes. Devido ao incremento que a Revolução Industrial havia trazido para o capitalismo. camponeses e artesãos eram forçados a abandonar suas terras e a fechar seus estabelecimentos. submetidos à lógica da produção serial. o tráfico de pessoas crescia para atender ao fluxo do capital em expansão. Santos (ibid. encontros e desencontros (ibid. A conjuntura econômica demarca de forma clara duas classes: os operários. de um lado. Com o declínio do campo e do artesanato. progressiva e racionalizada. o telefone e. sem poder competir com a produção capitalista. consolidando a nova lógica de desenvolvimento econômico. O MOVENTE E O IMERSIVO modelos de grandes transformações que vieram trazer conseqüências profundas no modo de viver das pessoas. As máquinas a vapor já submergiam os trabalhadores em rígidos horários nas fábricas. surgiram o telégrafo. os centros urbanos começaram a se iluminar e a expor. Tudo isso acontecia em um novo cenário e em um novo ambiente: o das cidades que cresciam no ritmo das novidades. a consolidação das redes de opinião.: 11). nesse universo que crescia em complexidade. depois. especialmente dos homens que estavam no comando dos negócios e de sua administração. O capital ia se concentrando cada vez mais nos centros urbanos. além de exibirem o avanço tecnológico. grande número de migrantes pobres chegavam à cidade para se transformarem em proletários ou em uma legião de miseráveis que o capital não arregimentou. Para permitir a comunicação entre os homens. com notícias rápidas e imediatas.: 10) afirma também que.

cujos cenários e personagens. do seu perto e do seu longe. Nas construções arquitetônicas. só pode encontrar sua identidade o flâneur. Na sensorialidade alucinógena que o excesso de estímulos produz. tipos. em constante superação. detentor de todas as significações urbanas. seguido depois pelas análises de Kracauer (cf. do saber integral da cidade. e . Conforme foi lucidamente perscru. reconhecendo-a sempre em seu verdadeiro rosto . parques.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO sas configurações materiais da metrópole. “um mundo aberto e cênico. o espaço urbano foi se refazendo no movimento contínuo e na proximidade física quase promíscua de corpos que se esbarram em espaços exíguos de calçadas tumultuosas. a febril imaginação moderna ia se forjando. Na cidade-luz. que causam “um aumento radical na estimulação nervosa e no risco corporal” (Singer apud Charney e Schwartz. no seu ensaio pioneiro de 1903. “A metrópole e a vida mental" (apud Singer. aquele que passeia pela cidade com olhar contemplativo. principalmente nos novos objetos produzidos pelo progresso técnico.lante e aberto à vertigem das alteridades. estilos e perfis urbanos. das lanternas a gás. nos cassinos. O mundo público moderno foi se marcando pela lógica do consumo e da moda que estabelece um novo estatuto para a percepção e imaginação. em que ela é natureza. e principalmente na moda. a identidade do homem moderno se desconstrói em uma multiplicidade infinita de imagens e registros. nos grandes magazines. do seu presente e do seu passado. com seus boulevards. nos museus de cera. nas galerias. nos traçados urbanísticos das ruas. na cidade- vitrina. cafés. Alegorista da cidade. ondu. Nesses deslocamentos rápidos. da eletricidade e do néon. os olhares das pessoas não se cruzam e as almas não se entregam.vendo em todos os momentos seu lado de paisagem. nas exposições. 2001: 1 1 6 ).um rosto surrealista . galerias.tado por Simmel. desfilam e desaparecem” (Carvalho 1997: 132-135). 2001: 25). Hansen 2001: 497-558) e de Benjamin. museus e teatros. na cidade-passarela que estetiza as aparências e os gostos.

pessoas. foi se dando a proliferação abundante de imagens e mensagens visuais. O espetáculo do luxo. O MOVENTE E O IMERSIVO em seu lado de interior. da necessidade de se adaptar ao novo. devolvendo ao mundo cenas. da decoração. O ser humano passou a se preocupar muito mais com a vivência do que com a memória. 1993: 23). TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. surgiu a publicidade. bazares e galerias. ao mesmo tempo que as mercadorias são substituídas constantemente por novos produtos. aquilo que realmente deu forma à experiência da modernidade foi a destituição crescente de todas as coisas de sua aura de valor. cada vez mais voltada para a proximidade. lugares. expostos ao desejo que nasce no olhar. nada muda significativamente (ibid. nova forma de comunicação pública. o livro. Contudo. ibid. das vitrinas. o médico. mundo no qual tudo vira mercadoria.: 14). até as próprias imagens que são feitas para .: 22). ao diferente imposto pelo mercado: o novo da mercadoria. para a segurança contra os riscos da cidade grande. em que ela é quarto. da sofisticação e da moda alimenta os prazeres do consumo. O passado também foi destituído de seu valor diante da necessidade de se proteger das surpresas e choques da metrópole. filha dileta de um mundo que transformou tudo em mercadoria. das ruas cuja única função é aumentar o consumo. Isso só se tornou possível graças à reprodutibilidade técnica. A roupa. o flâneur assume sua condição de viajante da modernidade e resolve contar-nos o que viu em sua perambulação (Rouanet. para o imediato. em um mundo de produtos à venda. paisagens. que dilata a visão humana. No cenário volátil da cidade. que são duplos dele mesmo. Para alimentar a ilusão de que há mudanças. da novidade. tudo foi se transformando em mercadoria e com ela nascia um novo tipo de percepção do mundo. da moda. inaugurada pelas técnicas de impressão e pela fotografia. convertida em “arena para a circulação de corpos e mercadorias” (Charney e Schwartz. Para a oferta de produtos em lojas. a cidade começou a ser povoada de imagens. Com a publicidade. o advogado e o poeta.

Viver passou a significar adaptar-se à congestão de imagens na retina. espécies de anúncios e síntese das construções de seu tempo: imagens que fascinam e prendem a visão para. revistas. panfletos. as imagens precisam se des- sacralizar. morrer prematuramente ao serem substituídas por outras imagens. da constante troca de mercadorias. O espectador moderno é um ser submetido ao frêmito . Elas podem ser reproduzidas à exaustão e encontradas em qualquer parte — jornais. pois essas imagens fazem parte de uma cultura organizada sob o signo do choque. para exercer esse poder. elas mesmas também se transformam em mercadorias. logo em seguida. com a reposição contínua de imagens nas ruas. Por isso mesmo. Uma das características mais particulares do cidadão moderno está na agilidade com que dá e recebe estocadas. As imagens são. sob pena de não conseguir gravar tudo em sua mente.: 18). jornais e revistas. o ser humano passou a substituir o fetiche da mercadoria pelo fetiche da imagem. as imagens. Como tudo o mais. o cinema e. vitrinas. pois viver na grande cidade implica conviver com a fugacidade dos contatos sociais. De fato. acabou forta- lecendo sua memória com aparelhos externos. mais tarde. os modernos encontraram na fotografia e no cinema o que lhes era mais contemporâneo: a velocidade da reprodução e substituição incessante de imagens. não passam de poeira fugidia que se desmancha no ar. Ao mesmo tempo que exercem poder sobre os modernos. além de ajudarem a vender mercadorias. Com o tempo. "No meio do tráfego urbano. Com isso. vitrinas. letreiros e esquinas das cidades. esse cidadão tem mais consciência do que memória porque os choques do cotidiano na grande cidade mudam sua sensibilidade. a TV e o vídeo” (Santos ibid. A vida cotidiana passou a ser um espectro visual. no consumo exagerado de produtos e imagens. de indivíduos que se acostumaram com os desencontros da metrópole. máquinas oculares como a fotografia.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO vender mercadorias. um jogo de imagens que hipnotizam e seduzem. o homem. um desfile de aparências fugidias. assim.

1997: 135). primeiro grande rival do livro. aquele que nasce com o advento do jornal e das multidões nos centros urbanos habitados de signos. TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. se sob efeito do transitório. “época em que as formas de experimentar e sentir a realidade e a vida sofreram inflexões agudas". tanto na escrita quanto na imagem. Por tudo isso. As palavras. fatos e pessoas da cidade se transformam e atravessam a consciência para logo desaparecerem “na correnteza caótica de homens e coisas" (Carvalho. a do jornal. Um leitor que precisa esquecer. as imagens cresceram. com a reprodução fotográfica. o leitor fugaz. O MOVENTE E O IMERSIVO urbano e à superexposição perceptiva da velocidade com que imagens. cenas. personagens atravessam a retina do mesmo modo que as coisas. É nesse ambiente que surge o nosso segundo tipo de leitor. a cidade começou a se povoar de signos. Sinais para serem vistos e decodifica . novidadeiro. de intensidades desiguais. o leitor apressado de linguagens efêmeras. numa profusão de sinais e mensagens. agigantaram-se e tomaram conta do ambiente urbano. e na falta do tempo para retê-los. com o jornal. a velocidade. de memória curta. Com a sofisticação dos meios de reprodução. as coisas fragmentam. fadada a durar o tempo exato daquilo que noticia. É o leitor que foi se ajustando a novos ritmos da atenção. leitor de tiras de jornal e fatias de realidade. o superficialismo. tudo isso convergindo para a experiência imediata e solitária do homem moderno.: 127). enfim. pelo excesso de estímulos. híbridas. É o leitor treinado nas distrações fugazes e sensações evanescentes cuja percepção se tornou uma atividade instável. a efemeridade. Aparece assim. Nessa nova realidade. A impressão mecânica aliada ao telégrafo e à fotografia gerou essa linguagem híbrida. a modernidade corresponde a um novo estágio da história humana. É. Mistura que está no cerne do jornal. testemunha do cotidiano. misturadas. do excessivo e da instabilidade que marcam o psiquismo humano com a tensão nervosa. para Carvalho (ibid. mas ágil. ritmos que passam com igual velocidade de um estado fixo para um móvel. a hiperestesia. Um leitor de fragmentos.

em uma escala histórica. Há uma isomorfia entre o modo como esse leitor se move na grande cidade. De fato. o cinema tornou-se a arte definidora da experiência temporal da modernidade. A rapidez do ritmo cinematográfico e sua fragmentação audiovisual de alto impacto constituíram um paralelo aos choques e intensidades da vida moderna. ibid. no movimento do trem. tenha se apossado [. massas. superabundância visual e choque visceral. "Em um filme”.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO dos na velocidade. provido de férteis faculdades imaginativas.. simul- taneidade. aprende assim a conviver com o leitor movente.} do cinema como um emblema da descontinuidade e da velocidade modernas” (Singer. e. em uma escala individual. do bonde. oscilação entre a intensidade de um instante sensório e sua evanescência igualmente potente. meditativo.. interações de forças.: 137-138). leitor de formas. leitor sem urgências. [. leitor de direções. . a sensibilidade adaptada às intensidades fugidias da circulação incessante de estímulos efêmeros é uma sensibilidade inerentemente cinematográfica. observador ancorado. leitor cujo organismo mudou de marcha. os diagramas. continua Benjamin. Por isso mesmo. os sinais. pelo homem na rua.] ao reconhecer o poder do cinema para transmitir velocidade. movimentos. Aquilo que determina o ritmo de produção em uma esteira rolante é a base do ritmo de recepção do cinema” (apud Singer. por qualquer cidadão dos dias de hoje". dos ônibus e do carro e o movimento das câmeras de cinema. como sobreviver na grande cidade sem as setas. leitor de luzes que se acendem e se apagam. sincronizando-se à aceleração do mundo. cores. a avaliação imediata da velocidade do movimento e do burburinho urbano? O leitor do livro. no tráfego da cidade grande. atraída pela intensidade das emoções da modernidade.. “Não é de surpreender que a vanguarda modernista. volumes.. traços. 2001: 137). Como orientar-se.tivo — mudanças que são experimentadas. “o cinema corresponde a mudanças profundas no aparelho apercep. “a percepção na forma de choques foi estabelecida como um princípio formal. Para Benjamin.

movimentos e ritmos na tela se confundem e se mesclam com situações vividas. está no poder dos dígitos para tratar toda e qualquer informação — som. se não levarmos em conta as mudanças na estrutura mesma da senso-motricidade. signos que vêm ao seu encontro. uma espécie de esperanto das máquinas. imagem. fora e dentro de casa. programas informáticos — com a mesma linguagem universal. Esbarrando a todo instante em signos. trazidas pelo leitor movente. intermediário entre o leitor do livro e o leitor imersivo do ciberespaço. 3. De fato. esse leitor aprende a transitar entre linguagens. bites de 0 e 1. Graças à digitalização e à compressão dos dados. uma outra maneira de interagir com o mundo. Isso se acentua com o advento da televisão: imagens. flutuando entre a distração e a intensidade da penetração no instante perceptivo. 0 LEITOR IMERSIVO. passando dos objetos aos signos. na aceleração da percepção. sons. VIRTUAL O aspecto sem dúvida mais espetacular naquilo que vem sendo chamado de “era digital". ruídos. como será visto a seguir. que navega entre nós e conexões alineares pelas arqui- teturas líquidas dos espaços virtuais. na entrada do século XXI. falas. no entanto. todo . O MOVENTE E O IMERSIVO que transformou a estrutura mesma da experiência e criou novas formas de sensibilidade e de pensamento. esteve preparan- do a sensibilidade perceptiva humana para o surgimento do leitor imersivo. Não é por acaso que essa estrutura expe- riencial inédita tenha criado as condições para a emergência de um tipo de leitor radicalmente distinto do leitor do livro. Onde termina o real e onde começam os signos se nubla e mistura como se misturam os próprios signos. texto. Esse segundo tipo de leitor. do som para a imagem com familiaridade imperceptível. TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. fica muito difícil compreender o perfil desse tipo radicalmente novo de leitor que está se deline- ando nos processos de navegação no ciberespaço. da imagem ao verbo. do ritmo da atenção.

no clique de um mouse. de reunir textos que são inscritos na mesma memória eletrônica: todos esses traços indicam que a revolução do livro eletrônico é uma revolução nas estruturas do suporte material do escrito assim como nas maneiras de ler (Chartier. o índice. conectando numa mesma rede gigantesca de transmissão e acesso. estocado. via computador.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO e qualquer tipo de signo pode ser recebido. aqui. tratado e difundido. a possibilidade para o leitor de embaralhar. o texto corre verticalmente. potencialmente qualquer ser humano no globo. Diferentemente do leitor do livro. uma organização. ao ser desdobrado manualmente. Não . esses signos de todos os signos estão disponíveis ao mais leve dos toques. distinto dos anteriores. moderno e contemporâneo do livro manuscrito ou impresso. folhas e páginas. 0 fluxo seqüencial do texto na tela. no interior de sua encadernação ou de sua capa. Tendo na multimídia seu suporte e na hipermídia sua linguagem. de entrecruzar. que tem diante de si um objeto manipulável. na tela que corre sob a pressão de um botão. uma estruturação do texto que não é de modo algum a mesma com a qual se defrontava o leitor do livro em rolo da Antigüidade ou o leitor medieval. onde o texto é organizado a partir de sua estrutura em cadernos. Aliada à telecomunicação. A inscrição do texto na tela cria uma distribuição. continentes. Como no livro em rolo. hemisférios. o fato de que suas fronteiras não são mais tão radicalmente visíveis. o leitor imersivo pode utilizar referências como a paginação. Também como o leitor do livro impresso. a continuidade que lhe é dada. imediatamente pelo leitor imersivo. ibid. o recorte do texto (Chartier. como no livro que encerra. um leitor imersivo. o texto que ele carrega. É certo que o leitor da tela guarda certos traços de semelhança com o leitor da Antigüidade. 1998b: 12-13).: 13). a informática permite que esses dados cruzem oceanos. lá. Nasce aí um terceiro tipo de leitor. a tela sobre a qual o texto eletrônico é lido não é mais manuseada diretamente.

de um leitor implodido cuja subjetividade se mescla na hipersubjetividade de infinitos textos num grande caleidoscópico tridimensional onde cada novo nó e nexo pode conter uma outra grande rede numa outra dimensão. dada sua novidade. num universo de signos evanes. Nessa medida. TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. as semelhanças não podem nos levar a menosprezar o fato de que se trata de um modo inteiramente novo de ler. o leitor imersivo é obrigato- riamente mais livre na medida em que. do leitor do livro já foram sobejamente mapeadas na vasta bibliografia existente sobre leitura. ainda foram pouco exploradas. materiais. o que se tem aí é um universo novo que parece realizar o sonho ou alucinação borgiana da biblioteca de Babel. mas também do leitor movente.sa. Diferentemente dos dois primeiros tipos de leitores. aliás. contanto que não se perca a rota que leva a eles. esbarra em signos físicos. como é o caso desse segundo tipo de leitor. que sintomaticamen- .centes e eternamente disponíveis. mas de um leitor que navega numa tela. multisseqüencial e labiríntico que ele próprio ajudou a construir ao interagir com os nós entre palavras. imagens. mas que funciona como promessa eterna de se tornar real a cada “clique” do mouse. literatura esta. virando páginas. As características do leitor da linguagem verbal escrita. percorrendo com passos lentos a biblioteca. Trata-se. vídeo etc. conectando-se entre nós e nexos. O MOVENTE E O IMERSIVO obstante esses traços de semelhança. sem a liberdade de escolha entre nexos e sem a iniciativa de busca de direções e rotas. pois não se trata mais de um leitor que tropeça. manuseando volumes. A proposta deste livro de se aprofundar na investigação desse tipo de leitor. num roteiro multilinear. virtual. músicas. programando leituras. documentação. mas um leitor em estado de prontidão. nasceu dessa lacuna. uma biblioteca virtual. Enfim. Não é mais tampouco um leitor contemplativo que segue as seqüências de um texto. que chamo de leitor imersivo. as características cognitivas desse terceiro tipo de leitor. na verdade. a leitura imersiva não se realiza. distinto não só do leitor contemplativo da linguagem impres.

também transformações de sensibilidade. parti da hipótese de que a navegação interativa entre nós e nexos pelos roteiros alineares do ciberespaço envolve transformações sensórias.. Este livro visa atender a esse apelo. conforme foi apontado por Walter Benjamin no que diz respeito ao segundo tipo de leitor. bandeiras” (Caetano Veloso).mel. perceptivas e cognitivas que trazem conseqüências também para a formação de um novo tipo de sensibilidade corporal.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO te começou a crescer justamente a partir do advento do terceiro tipo de leitor. perceptivas. uma espécie de esgrimista que se safa dos golpes do coditidano nos grandes centros urbanos. métodos de busca e de solução de . é o do terceiro tipo de leitor. os olhos cheios de cores. Ficaram bastante conhecidas as características daquilo que Benjamin chamou de estética do choque como definidora da modernidade perceptiva a partir de suas leituras de Poe e Bau- delaire. Essas transformações devem muito provavelmente estar baseadas em: a) tipos especiais de ações e controles perceptivos que resultam da decodificação ágil de sinais e rotas semióticas. Quanto ao segundo tipo de leitor. Esse crescimento produz a suspeita de que a onda atual de livros voltados para a reflexão sobre o livro de papel esteja sendo movida por sentimentos nostálgicos e ansiedade diante da possibilidade de seu desaparecimento. física e mental. ainda permanece quase virgem. em dentes. o leitor imersivo. os traços deste leitor podem ser extraídos dos trabalhos de Sim. cognitivas e. conseqüentemente. b) de comportamentos e decisões cognitivas alicerçados em operações inferenciais. “por entre fotos e nomes. Assim também. reclamando por estudos específicos. Kracauer e Walter Benjamin. A hipótese fundamental que norteou este trabalho é a de que a passagem de um tipo de leitor a outro envolve grandes transformações sensórias. lançando olhares distraídos. pernas. por ser muito jovem. com relação ao leitor imersivo. O campo que..

nas telas da hipermídia. que naturalmente nosso cérebro pratica para constituir suas imagens. qual o campo teórico que apresentava mais proximidade com o objeto a ser estudado? Conforme será apresentado no capítulo 4. isto é. elas devem estar ligadas à polissensorialidade e senso-motricidade. Justificativa para essas hipóteses encontra-se no fato de que. a realização da pesquisa seguiu duas rotas simultâneas e interatuantes. É com ela que o leitor interage por meio do movimento nervoso do mouse. usuários do ciberespaço. tornou-se possível fora do cérebro. foi nas ciências cognitivas. TRÊS TIPOS DE LEITORES: O CONTEMPLATIVO. na sua capacidade sensorial sinestésica e sensório-motora. a combinatória plurissensorial. O MOVENTE E O IMERSIVO problemas. Quer dizer. por meio de uma pesquisa de campo que me pusesse em contato com os leitores imersivos. na medida em que essa combinatória é encenada na própria tela. Com base nesses pressupostos. A outra rota foi a da prática. no envolvimento extensivo do corpo na sua globalidade psicossensorial. especialmente nos modelos cognitivos de resolução de problemas e na neurociência cognitiva que encontrei a fundamentação teórica mais sintonizada com as questões levantadas. a rota teórica que visou à seleção de um campo conceitual apropriado àquilo que se buscava responder. Embora essas funções percepcivo-cognitivas só sejam visíveis no toque do mouse. Os passos dessa pesquisa serão relatados no capítulo 3- . De um lado. que teve por finalidade levantar dados para confronto com os pressupostos teóricos.

é preciso conhecer o ambiente em que esses processos cognitivos são performatizados: o ambiente do ciberespaço. Quais são as suas características? Para conhecê-las. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMÍDIA orteando este trabalho está a hipótese de que a navegação interativa no ciberespaço envolve transformações perceptivo- cognitivas por parte desse novo tipo de leitor que chamo de “leitor imersivo”. c) Na ligação das funções perceptivo-cognitivas à polissenso. aquele que navega entre nós e nexos construindo roteiros não lineares.rialidade e senso-motricidade do corpo na sua globalidade psicossensorial. Entretanto. b) Em tipos de comportamentos e decisões cognitivas alicerçados em processos inferenciais. Uma vez que se trata aí de hipóteses que se referem a questões fundamentalmente cognitivas. para colocá-las em discussão. Como já mencionei no capítulo 1. antes disso. métodos de busca e de solução de problemas. apresentarei a seguir um traçado geral desse espaço . não seqüenciais. essas transformações devem estar baseadas: a) Em tipos especiais de ações e controles perceptivos que resultam da decodificação ágil de sinais e rotas semióticas. alguns pressupostos conceituais advindos das ciências cognitivas são necessários.

Inteirar-se da natureza palinódica da semiose na hipermídia. no qual a distância não conta (Baylon e Mignot. que se expressa na sua estrutura reticular. elas mesmas conectadas a redes chamadas de “espinhas dorsais” ou “redes federati- . áudio ou vídeo — em um sistema de comunicação integrado. As duas forças principais da informática. Nessa teia. Isso quer dizer que a mesma tecnologia básica pode ser usada para transmitir todas as formas de comunicação — seja na forma de textos. pois ela não se constrói segundo princípios hierárquicos. nodal. 1999: 376).0 QUE ÉO CIBERESPAÇO Cada vez mais crescentemente processos de comunicação são criados e distribuídos em forma digital legível no computador. mas da comunicação que se institui entre eles por meio da conexão em rede. pode-se dizer. comunicações eletrônicas caminham na velocidade da luz (300 mil km/s). Quais são os componentes dessa teia? Ela se compõe de um número de dezenas de milhares de sub-redes. Como a internet funciona? Seu funcionamento depende não apenas do papel capital desempenhado pela informática e pelos computadores.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO cibernético. em um “tempo real”. acompanhado de comentários sobre a linguagem que é própria desse novo ambiente de comunicação: a hipermídia. a palavra “rede” deve ser entendida em uma acepção muito especial. capacidade de armazenamento e processamento da informação. mas como se uma grande teia na forma do globo envolvesse a terra inteira. 1. sem bordas nem centros. multiplicam-se imensamente na medida em que as máquinas podem se beneficiar umas das outras. As linguagens do ciberespaço são linguagens hipermidiáticas. tal como aparece na internet. Forma digital significa que quaisquer fontes de informação podem ser homogeneizadas em cadeias de 0 e 1. constitui porta de entrada para o conhecimento do ciberespaço. Na internet.

a execução dos protocolos da rede é até certo ponto fácil. indicando os endereços na rede tanto da parte emissora quanto da parece receptora. 1997: 22). de redes privadas de empresas. Cada pacote tem bits adicionais. os protocolos têm um método de transmissão que é comum a muitos outros tipos de redes de dados: a comutação de pacotes. muito menos como funcionam os programas computacionais e a máquina em que esses programas são processados. O futuro da tecnologia de comutação de pacotes será aumentar a velocidade de transmissão em várias ordens de magnitude por meio da fibra óptica. Por meio da informação dos endereços e das seqüências dos números. a mensagem é recondicionada no seu ponto de chegada. de centros de informação de . Isso significa que as transmissões digitais são quebradas em pequenas parcelas de dígitos. na medida cm que não é necessário saber o que está por baixo da interface na cela. E por isso que crianças de cinco anos já são capazes de se conectar a partir da memorização de uma pequena seqüência de ícones. chamados de pacotes. a mais empregada é a WWW {World Wide Web). A chave para conectar a rede está no seu conjunto subjacente de regras de comunicação ou protocolos. a internet converteu-se em uma mescla inacreditável de infra-estruturas subsidiadas e dedicadas à investigação. Se o usuário não tiver muitas pretensões exploratórias. Para o usuário. como correio eletrônico (Straubhaar e LaRose. poderão receber tratamento preferencial sobre aplicações que aceitam algum atraso. como nos diz Nora (1997: 77). 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMÍDIA vas”. Assim sendo. Deverá haver priorização de pacotes de modo que pacotes de voz e vídeo. basta memorizar um plano técnico de indicações sumárias para que ele possa entrar na rede. que exigem entrega imediata. Por trás da tela. A vantagem disso é que muitas mensagens podem simultaneamente compartilhar um único circuito. a seqüência do número de cada pacote e um código para a verificação de erros. Dentre as sub-redes. O universo virtual das redes alastrou-se exponencialmente por todo o planeta fazendo emergir um universo paralelo ao universo físico no qual nosso corpo se move.

nem censores. ao mesmo tempo. com a convergência das mídias. uma miríade de lugares? Consiste de uma realidade multidirecional. 1993: 116). ciência. de fato. não conhece regras de jogo universais. chegamos a ele. pronunciando-a. em um dado . Tal qual uma língua. o universo paralelo. que tem sua matriz na internet. cuja consistência interna não depende de que os seus falantes estejam. com os meios de comunicação múltiplos. físico. sustentada por computadores que funcionam como meios de geração e acesso. De que se constitui isso que existe em um lugar sem lugar e que é. vem sendo chamado de ciberespaço. os objetos vistos e ouvidos não são nem físicos nem.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO todo tipo e um sem-fim de grupos de discussão etc. inclui a todos. independente de como se acede a ele e como se navega nele. negócios e cultura (Benedikt. com a visualização da informação. Nessa medida. mas têm a forma. E certamente uma realidade que deriva em parte do funcionamento do mundo natural. com a hipermídia? Ele se relaciona com todos. “O ciberespaço é como Oz — existe. e uma infinidade de portais e sites de todas as espécies. artificial ou virtual incorporada a uma rede global. o ciberespaço deve ser concebido como um mundo virtual global coerente. mas que se constitui de tráfegos de informação produzida pelos empreendimentos humanos em todas as áreas: arte. que abriga megalópolis. da qual cada computador é uma janela. apenas uma “netiqueta”. representações de objetos físicos. pois eles podem estar todos dormindo. com as redes. Desde a imaginativa sugestão de Marcos Novac ([1991] 1993). com as interfaces gráficas dos usuários. caráter e ação de dados. informação pura. necessariamente. Como o ciberespaço se relaciona com a realidade virtual. Não tem donos. 1993: 54). Nessa realidade. Onde está o ciberespaço? Não há resposta fácil para essa pergunta. mas não tem ubiquação” (Stenger. ou bancos de dados comerciais. Por ser um gigante descentralizado. pois tem a capacidade de reunir e concentrar todas essas faces em um objetivo comum. Trata-se de uma estrutura associativa em cujo seio abrigam-se competidores econômicos selvagens.

Benedikt (ibid. passando pela tecnologia da realidade virtual. há várias maneiras de se entrar no ciberespaço. eleger como dimensões extrínsecas — como espaço e tempo — aquele conjunto de (duas. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMlDIA momento imaginário. como uma virtualidade disponível. O viajante deve arcar com os custos proporcionais da distância percorrida. que visa recriar o sensório humano tão plenamente quanto possível. Os usuários individuais no e do ciberespaço deveriam ser visíveis.: 162) estabelece sete princípios para o designa e a natureza do ciberespaço: a) O princípio da exclusão: duas coisas não podem ocupar o mesmo lugar ao mesmo tempo. até os eletrodos neurais diretos. sem importar a rapidez (salvo quando se tratar de uma velocidade infinita). f) O princípio da visibilidade pessoal. d) O princípio de escala. A distância entre dois pontos do ciberespaço deverá ocorrer fenomenicamente através de todos os pontos que intervêm nele. e) O princípio do trânsito. ou três. monotônica da complexidade do mundo visível para ele. de alguma . A velocidade máxima (de espaço) de movimento do usuário no ciberespaço é uma função inversa. Além disso. ou quatro) dimensões que minimizarão o número de violações do princípio de exclusão. A realidade sentida de qualquer mundo depende do grau de sua indiferença quanto à presença de um usuário particular e de sua resistência ao desejo dele. independe das configurações específicas que um usuário particular consegue extrair dele. o ciberespaço. b) O princípio da máxima exclusão. Dado qualquer estado n-dimensional de um fenômeno e todos os valores — reais e possíveis — de n dimensões. junto com a identidade máxima do objeto. Pelas animações sensíveis de imagens no monitor do vídeo controlado pelo mouse. c) O princípio da indiferença.

e imediatamente implementada pela Silicon Graphics.. a empresa mais potente em infografia no planeta. A gente pode recordar as metáforas do mundo real porque têm sentido. apresentada pela primeira vez em Orlando. que já haviam criado um primeiro ambiente virtual telemático.e necessitamos transferir essa mesma técnica para a internet se. g) O princípio da comunidade recomenda que os espaços virtuais sejam objetivados de maneira circunscrita por uma comunidade de usuários definida. queremos usar a rede de acordo com todas as nossas capacidades. Logo depois. e os usuários individuais podem escolher por suas próprias razões se desejam ou não.pense em sua coleção de discos . ver qualquer usuário vizinho ou todos eles. sons. Veio daí a idéia de criar uma interface sensorial na WWW. Para operacionalizar as propostas de Pesce e seus seguidores. com metáforas procedentes do mundo real.. no SIGGRAPH 1994. pois foi só em 1993 que a WWW se difundiu mundialmente a partir da consolidação da língua franca da internet. baseada em vínculos hipertextuais entre palavras.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO forma não trivial. “Imaginem”. pudessem ser representados de maneira natural. de fato. . [. 1997: 171): uma interface de internet onde as fontes de dados . Quando Benedikt editou o seu livro antológico Ciberespaço. vídeos. e em todo momento.livros. de onde as informações acima foram extraídas. e seus protocolos derivados. a linguagem HTML (Hypertext Mark-up Language). as redes estavam engatinhando. É impressionante o poder premonitório dos prognósticos contidos nesse livro. da qual procede a VRML. e em que medida. Primeiros Passos (1991).] Organizamos nossa vida sensorialmente . Marc Pesce inventou uma nova linguagem informática. a todos os demais usuários vizinhos. dizia Pesce (apud Reid. como são no mundo real. o Labyrinth. a VRML (Virtual Reality Modelling Language).

reagiam aos movimentos e sons emitidos por outras imagens. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMlDIA .la ao Explorer. Hoje. nos serviços que disponibiliza. apresenta alguns tipos de comunicação já estratifi. o ambiente ciberespacial codificou-se em rotas e sítios sinalizados com uma organização interna que.1 Silicon adquiriu o ambiente de programação Open Inventor. Além disso. apesar de suas insuficiências. essas entidades virtuais. ao imprimir-lhe uma gestualidade e uma voz específica. 2000: 90- 92). Assim surgiu a versão VRML 1.cados. Pode até modificá. não obstante o grande número de opções que se abrem ao usuário. à maneira de desenhos animados no ciberespaço.la. que se converteu prontamente no principal padrão da internet para a transmissão de imagens tridimensionais.0. tais como: . criado por Rick Carey. Cada usuário que entra nesses ambientes virtuais pode criar seu próprio avatar. atuar e inter-relacionar-se com outras máscaras digitais em um mundo virtual tridimensional.0. ao eleger uma máscara em um guarda-roupa digital disponível. Embora tenha tentado lançar uma linguagem alternativa. Em 1996. mediante técnicas de vida artificial. Estava assim inventado o teatro virtual interativo que se desenvolveu vertiginosamente a partir de 1997 (Echeverría. providas de sensores. Com isso. Com isso. como. que teve grande impacto sobre os internautas interessados na transmissão de imagens. os navegadores já estavam em plena ação e o Netscape incorporou rapidamente a VRLM 2. e construiu o portal Web Space.0. por exemplo. uma linguagem ideográfica aparecia como uma nova linguagem para a rede. Nessas alturas. Com a VRLM surgiram os lugares virtuais nas redes e os avatares. essas insuficiências foram superadas na versão 2. Também era possível incorporar sons procedentes de tais imagens. especificamente desenhado para a nova linguagem. a Microsoft acabou por incorporá. Estes são figuras gráficas que podem movimentar-se. o que possibilitou criar representações de sujeitos falantes nos lugares virtuais. o caráter estático das imagens e sua incapacidade para incorporar o som. as imagens podiam então se mover em cenários virtuais representáveis na própria rede.

c) A busca de informações na internet. a face das linguagens do ciberespaço cuja chave de compreensão está na hipermídia. todos controlados por . contudo. que exige mais esforço. que se tornou uma das vias privilegiadas para a pesquisa científica. a cultura do ciberespaço ou cibercultura (ver Lévy. Antes disso. para a publicação de revistas on-line e para uma série inumerável de outros serviços de disponibilização de informações. trata. é necessário alertar para o fato de que não há um consenso quanto ao sentido que se dá para o ciberespaço. Internet Relay Chats. 2000. 2002. Batchen. na medida em que os objetos se movem de acordo com os movimentos e o ponto de vista do participante.se estritamente de um sinônimo de realidade virtual (RV). 2003). quando navega manipulando seus objetos. b) Os grupos de discussão que se constituem tanto nos fóruns que congregam grupos reunidos em torno de interesses comuns. Santaella. por exemplo. Trata-se de um sistema que permite simular as percepções humanas. quanto nos grupos de discussão em tempo real. Não obstante a importância dessa questão. Costa. Lemos. a saber. 1998: 273). para os objetivos do presente capítulo.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO a) O correio elecrônico que pode também conduzir a voz mais rapidamente do que a escrita. Esta pode ser definida como um sistema informático capaz de criar um mundo simulado paralelo dentro do qual o usuário tem a impressão de estar. 2002. d) O comércio e a publicidade eletrônicas que igualmente povoam esses ambientes. gerando um ambiente virtual que produz a sensação de realidade. devemos nos concentrar em uma das faces fundamentais da cibercultura. As comunidades virtuais do ciberespaço têm crescido e se diferenciado com cal intensidade que produziram o aparecimento de uma nova forma de cultura. Para alguns (ver. que tanto pode estar manifesta no design de um suporte CD-Rom quanto nas estruturas em movimento dos nós e conexões de um usuário da WWW.

constitua-se no ponto mais alto da imersão de um participante no mundo simulado. permite a este o acesso. Contemporaneamente. a transformação e o intercâmbio de seus fluxos codificados de informação. portanto. Um mundo virtual da comunica . a manipulação. é um meio muito mais sofisticado para a criação de ambientes simulados que incorporam. de modo que a RV é apenas a extensão última desse processo até o ponto de produzir um grau de imersão sensória total no ambiente simulado. Trata-se. Assim sendo. ciberespaço será considerado como todo e qualquer espaço informacional multidimensional que. esse espaço também inclui os usuários dos aparelhos sem fio. a cave. Conclusão. Na verdade. de um espaço informacional. em tempo real. a RV é apenas uma das dimensões possíveis do ciberespaço. Os recursos mais comuns para produzir esse tipo de experiência são os capacetes e as luvas de dados e um sistema informático que gera o ambiente virtual e transmite ordens do usuário mediante um sistema de controle. de fato. Se é certo que não há um consenso sobre o sentido a ser dado a ciberespaço. o ponto de vista do participante (para mais informações sobre isso. Embora a RV. no qual os dados são configurados de tal modo que o usuário pode acessar. o ciberespaço é o espaço que se abre quando o usuário conecta-se com a rede. o conceito de ciberespaço é mais amplo do que o de RV. movimentar e trocar informação com um incontável número de outros usuários. ver Cantoni). portanto. ciberespaço é um espaço feito de circuitos informacionais navegáveis. dependente da interação do usuário. Por isso mesmo. Em síntese. talvez a mais sofisticada. ele se refere a um sistema de comunicação eletrônica global que reúne os humanos e os computadores em uma relação simbiótica que cresce exponen. cialmente graças à comunicação interativa. caverna digital. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMÍDIA computadores. a maioria dos autores concorda quanto ao fato de que. todas as modalidades de uso que as redes possibilitam. na medida em que esses aparelhos permitem a conexão e troca de informações. O ciberespaço inclui. neste livro. no seu sentido mais amplo.

na imersão representativa. “O usuário vê. o participante se vê representado no ambiente virtual. feito de bits de dados e partículas de luz. 1997: 203). obtida nos lugares virtuais construídos pela linguagem VRML. que a imersão se limita à RV. toca e move-se pela locação fisicamente distante graças aos elos com os sensores dos robôs (câmaras. . podendo caber até mesmo na palma de nossa mão. imergir nesse espaço. através de uma parte remota do mundo físico. contudo. entrar no ciberespaço é.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO ção informática. microfones. agindo no cenário virtual. é aquele que se dá quando o usuário se conecta com a rede. c) através de uma simulação virtual do mundo físico. é possível navegar: a) através de uma base de dados textuais. Um quarto grau de imersão. Isso não significa.) e atuadores (braços de robôs)’’ (Biocca. Assim sendo. em ordem decrescente. A imersão é tanto mais profunda. b) através de um elenco de imagens animadas. Há ainda o grau de imersão representativa. como é o caso da RV. o participante tem a sensação de estar dentro. como quer Rheingold (1991: 101). sine qua non. imaterial. por menor que esta seja. Enquanto na RV. Assim. sensores de toque etc. Entrar na rede significa penetrar e viajar em um mundo paralelo. d) ou via controle telerrobótico. o limite máximo da imersão encontra-se na imersão perceptiva da RV. um universo etério que se expande indefinidamente mais além da tela. Também de acordo com o ponto de vista que defendo. mas não está envolvido tridimensionalmente por ele. Um outro grau de imersão é aquele que se dá mediante telepresença. o conceito de navegação transcende o tipo particular de tecnologia que se usa para a manipulação da informação. Esta ocorre quando a tecnologia de RV é conectada a um sistema robótico fisicamente presente em alguma locação à distância. Transcende também a forma particular da informação. Há graus decrescentes de imersão. Por isso mesmo. quanto mais o espaço é capaz de envolver o usuário tridimensionalmente.

mas aos traços gerais que a configuram como linguagem. filmes). não se referem aos possíveis conteúdos das hipermídias. de um leitor. como será visto abaixo. Trata-se. de fato. quer dizer. que serão discutidos abaixo. trata-se. É. sinestesia reverberante que ela é capaz de . obras de referência (dicionários. e obras artístico-literárias. códigos e mídias que a hipermídia aciona e. um tipo especial de leitor. Os traços caracterizadores. que me levou a concluir que há pelo menos quatro traços definidores fundamentais da hipermídia. passo a passo. enciclopédias. na sen. 2001: 389-412) desenvolvi um estudo sobre a linguagem hipermídia. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMÍDIA Em todos esses casos. O primeiro traço encontra-se na hibridização de linguagens. processos sígnicos. atlas. produtos de "eduversão” ( edutainment). conseqüentemente. na mistura de sentidos receptores. educação + diversão. não obstante a diferença no grau de imersão de cada um deles. considerando o comportamento que eles adquirem no ambiente das redes. É nesse sentido que o adjetivo “imersivo” está qualificando o novo tipo de leitor que este livro tem por tarefa caracterizar. 2. visuais e textuais — que são próprios da hipermídia. Apresentarei esses traços no que se segue para ir. A LINGUAGEM HIPERMÍDIA Tomando por base o suporte CD-Rom. sorialidade global. o imersivo. Há muitos tipos de CD-Roms: de entretenimento (esportes. em um outro livro (Santaella. aventuras. no entanto. aquele que navega através de dados informacionais híbridos — sonoros. guias) produtos ludo-educativos. ao fim e ao cabo. de modo que são aplicáveis a qualquer tipo específico de hipermídia. na medida em que se entenda a palavra “leitor” como designando aquele que desenvolve determinadas disposições e competências que o habilitam para a recepção e resposta à densa floresta de signos em que o crescimento das mídias vem convertendo o mundo. de navegação. produtos educativos.

Tanto isso é verdade que nelas encon- tram-se as novas versões digitais do rádio. levará a convergência das mídias ao seu ápice. contudo. De fato. o segundo traço da linguagem hipermídia está na . imagens. os toca-discos digitais etc. a televisão. do jornal etc. de companhias telefônicas e de software. Entretanto. 2000). Dizard. com o advento da televisão interativa. envolvendo a fusão de grandes empresas de entretenimento. ao abarcar. sem essa convergência. sons. ou seja. ruídos e vozes em ambientes multimidiáticos. em uma definição sucinta e precisa. o computador. que é comu- mente referida como convergência das mídias. em um único aparelho. 1997.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO produzir. 1995: 4). hipermídia significa “a integração sem suturas de dados. o computador pessoal. Isso não significa. vídeos. que a convergência das mídias já não esteja operando nas redes. Por isso mesmo. não seria possível. a hipermídia. sons. há certa sutileza na compreensão dessa expressão que merece ser levada em conta. como linguagem híbrida. imagens fixas e animadas. podemos passar para o segundo traço definidor da hipermídia. a digitalização também permite a organização reticular dos fluxos informacionais em arquiteturas hipertextuais. Além de permitir a mistura de todas as linguagens. na medida mesma em que o receptor ou leitor imersivo interage com ela. essa tão esperada integração que está implicando atualmente investimentos vultosos. 2003: 244). Por isso mesmo. De resto. É essa mescla de vários setores tecnológicos e várias mídias anteriormente separadas e agora convergentes em um único aparelho. A hibridização de tecnologias e linguagens vem sendo chamada de convergência das mídias.dman. só haverá uma verdadeira convergência das mídias quando houver a integração entre a televisão e as redes. (cf. Nora. Entretanto. Castells. cooperando na sua realização. textos. ruídos em um todo complexo. A hipermídia mescla textos. Esclarecido esse ponto. as máquinas de jogos. textos. imagens de todas as espécies e sons dentro de um único ambiente de informação digital” (Fel. para alguns (ver. prototípica do mundo digital. por exemplo. como um canal comum de alta tecnologia.

Um artigo se estrutura em parágrafos de transição. vídeos etc. . seqüências de vídeos ou de áudios. gráficos. uma nota de rodapé. por isso mesmo. não é uma idéia de medida. seja este analógico. Do mesmo modo. mas estão integrados em tecnologias que são capazes de produzir e disponibilizar som. Cada vez menos os hiperdocumentos estão constituídos apenas de texto verbal. ruído. a hipermídia também tem um sistema de conexões que lhe é próprio. multidimensionai que dá suporte às infinitas opções de um leitor imersivo. É muito justamente a combinação de hipertexto com multimídias. fala. em rede. não seqüencial. Nós de informação. um outro tijolo básico da construção hipermidiática está nos nexos ou conexões. uma seção. o hipertexto quebra essa linearidade em unidades ou módulos de informação. também chamados de molduras. transmutar-se em incontáveis versões virtuais que vão brotando na medida mesma em que o receptor se coloca em posição de co-autor. fotos. Dado o caráter descontínuo dos nós. uma coreografia imagética. assim como um livro se organiza em capítulos. A idéia de nó. no livro particularmente. os nós de informação podem aparecer na forma de texto. uma tabela. chamando-se de hipermídia. um vídeo. mas modular. tópicos e subtópi. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMÍDIA sua capacidade de armazenar informação e. desenhos. gráficos. Nós e nexos associativos são os tijolos básicos de sua construção. multilinguagens. Um nó pode ser um capítulo. Isso só é possível devido à estrutura de caráter hiper.cos. O propósito básico desse sistema é conectar um nó a outro de acordo com algum desenho lógico. arbóreo. Os nós são as unidades básicas de informação em um hipertexto. dependendo de sua funcionalidade no contexto maior de que faz parte. Que estrutura é essa? Para compreendê-la é necessário entender melhor o sistema hipertexto. Assim. Um discurso verbal arma-se em um todo coeso graças aos conectores gramaticais. por meio da interação do receptor. ou qualquer outra subestrutura do documento. consistindo de partes ou fragmentos de textos. Essas informações multimídias também constituem os nós. janelas ou de misturas entre eles. consistem em geral daquilo que cabe em uma tela. Em vez de um fluxo linear de texto como é próprio da linguagem verbal impressa.

Para a formação desse mapa. Entre elas. entretanto. Esse percurso de descobertas. para que ele seja possível. Por isso mesmo. de se criar roteiros que sejam capazes de guiar o receptor no seu processo de navegação. Transitando entre informações modularizadas. as opções do caminho a ser seguido são de inteira responsabilidade do leitor. mas sim através de buscas. Ao contrário. leitura em trânsito. sobretudo. que permitem ao leitor da hipermídia mover-se através do documento. São essas conexões. deve estar suportado por uma estrutura que desenha um sistema mul- tidimensional de conexões. a mais importante é aquela que liga um nó a outro no interior do documento. mais opções ficam abertas a cada leitor na criação de um percurso que reflete sua própria rede cognitiva. Mas há as conexões que ligam o texto a nós ou há ainda as conexões lexicais que ligam regiões de texto a nós. entre outras. o leitor salte de um nó para outro. A grande flexibilidade do ato de ler uma hipermídia. Quanto mais rico e coerente for o desenho da estrutura. descobertas e escolhas. basta o instantâneo de um click para que. reticuladas. funciona. A hipermídia em CD-Rom ainda mantém algumas características de “obra”. com uma densa rede de nexos. ele precisa encontrar pegadas que funcionem como sinalizações do desenho. Ela pode se transformar em desorientação se o receptor não for capaz de formar um mapa cognitivo. Hipermídia significa. Vem daí a necessidade. como uma faca de dois gumes. Há uma infinita variedade de conexões possíveis. contudo. A hipermídia não é feita para ser lida do começo ao fim. enorme concentração de informação. nas hipermídias em suporte CD-Rom. Descobrindo e seguindo pistas que são deixadas em cada nó. em um piscar de olhos. enquanto a navegação da hipermídia em suporte . mapeamento mental do desenho estrutural de um documento. contudo. geralmente ativadas por meio de um mouse. enquanto na rede ela é potencialmente extensível. não cai do céu. Ela pode consistir de centenas e mesmo milhares de nós.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO hierárquico etc. A estrutura flexível e o acesso não linear da hipermídia permitem buscas divergentes e caminhos múltiplos no interior do documento.

no hipertexto on-line. nas redes. como são imprevisíveis os caminhos que são seguidos a cada dia pelos usuários de uma grande biblioteca. Atualmente. contudo. depois o esporte. são indicativos do grau de controle de uso que provavelmente estará disponível em todas as mídias daqui a não muito tempo. que permitem ao usuário procurar conteúdos por meio de palavras-chaves. a biblioteca de Babel. por fim. transitar pelas infovias pode produzir desconcerto e frustração se o internauta são conseguir ajustar os alvos pretendidos ao programa estrutural do documento. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMÍDIA CD-Rom depende da criação de roteiros para os possíveis nós e nexos da navegação. entrelaçado não estruturado. Tendo isso em vista. arquiteturas com arestas macias. também não é de se estranhar que as conexões na hipermídia sejam comparadas a fitas de DNA. Os programas de busca na WWW. Quando milhões de usuários fazem milhões de saltos através de milhares de documentos todos os dias.ronais. composta de infinitas galerias hexágonas. tão intercomunicantes quanto as sinapses das redes neu. Assim funcionam os programas de fil . então as notícias. fluidas. a biblioteca é periferia sem centro. mas uma fórmula. 1998: 97). e. um sistema de comando para a organização de proteínas em padrões pré-configurados (sua prescrição). Daí as alusões que a literatura sobre internet não se cansa de fazer à lendária biblioteca borgiana. mas apenas a final do campeonato. atravessando as arquiteturas líquidas da informação. “É uma esfera cujo verdadeiro centro é qualquer hexágono e cujo perímetro é impenetrável” (Wirth. o potencial da hipermídia para a desorientação encontra alguma resolução no desenvolvimento dos portais que permitem a seleção do conteúdo de acordo com aquilo que o usuário deseja (“primeiro me mostre a previsão do tempo. meu correio eletrônico"). Analogamente ao conceito biológico do labirinto rizomático deleuziano. as associações são radicalmente imprevisíveis. cada uma não apenas uma composição de ácidos nucléicos em si mesma (sua descrição). Algumas rádios na internet já incluem um código de formato digital que permite programar as rádios para funções como “procurar heavy metal”.

É o usuário que determina qual informação deve ser vista. a grande inovação da comunicação encontra-se no seu caráter interativo que é inseparável do caráter hiper. de fato. Novas aquisições incluem programas que funcionam como agentes que buscam informações na rede e avatares que permitem a construção de imagens do usuário que interagem com outros avatares (Straubhaar e LaRose. A única reação que os receptores . e a necessidade de mapas para a navegação nos CD-Roms. Comparando-se com as outras mídias. tem um só sentido. Este é o seu quarto traço definidor. O leitor não pode usá-la de modo reativo ou passivo. A hipermídia é uma linguagem eminentemente interativa. a internet é a única inteiramente dialó. mais profunda será a experiência de imersão do leitor. atenção. Quanto maior a interatividade. mas também a encontrar o material que desejamos. mas sua comunicação é assimétrica. 1997: 23). O desenho da interface é feito para incentivar a determinação e a tomada de decisão por parte do usuário. Isso significa que a interatividade em um sistema informacional dá ao receptor alguma influência sobre o acesso à informação e um grau de controle sobre os resultados a serem obtidos (Feldman.textual e hipermidiático de sua linguagem. imersão que se expressa na sua concentração. em que seqüência ela deve ser vista e por quanto tempo. 1995: 6). é preciso escolher para onde seguir. O V. Ao final de cada página ou tela. Também nas redes. compreensão da informação e na sua interação instantânea e contínua com a volatilidade dos estímulos. E agora as páginas da rede estão ganhando novos códigos de conteúdo que não apenas nos ajudam a filtrar o que não queremos receber.gica e interativa (isso será detalhadamente discutido no capítulo 10). Os recursos acima da estrutura hipermidiática na internet.chip também permite filtrar programas de adultos ou de violência na TV. O rádio e a televisão são capazes de colocar milhões de pessoas na sintonia de um único acontecimento. colocam-nos diante do terceiro traço definidor da hipermídia: seu cartograma navegacional.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO tragem que permitem aos pais programar seus computadores para que seus filhos não tenham acesso a certos sites da internet.

O telefone e o fax já são interativos. visual e sonora. mudar de canal. Além disso. O telefone centraliza-se na voz. na mensagem impressa em papel. com grande interferência do sentido tátil-motor na interatividade. são mono-semióticos. especialmente o olho e o ouvido. como será examinado no capítulo 9- . a informação hipermídia é transmitida sob as mais diversas formas de linguagem escrita. dirigindo- se simultaneamente a diversos sistemas sensoriais aptos a perceber a informação à distância. Contrariamente. 0 CIBERESPAÇO E SUA LINGUAGEM: A HIPERMÍDIA podem ter é a de ligar. mas só são capazes de conectar um número limitado de pessoas em cada ligação. e o fax. ou desligar a transmissão. graças à digitalização.

elas não teriam de esperar uma pela outra. que D deu origem a este livro. Para compreender como essa sincronia se dá. uma teórica e uma outra camada de pesquisa de campo. Por isso mesmo. o controle motor exímio.tídão das respostas. fosse trazendo subsídios para a pesquisa teórica. a agilidade e instantaneidade das ligações entre a mente que pensa. a pesquisa dependia de observações bem informadas e de conceitos teóricos muito afinados para que a observação não ficasse no nível do senso comum. a motricidade física expressa na pron. O que me surpreendia nesse modo de ler era a sincronia da cognição com os aspectos sensório-motores. Não me interessava conduzir uma pesquisa quantitativa para medir algumas transformações per- ceptivas e cognitivas dos usuários do ciberespaço. em suma. O LEIGO E O EXPERTO esde a fase de elaboração do projeto de pesquisa. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. Embora em duas camadas. no início um acesso meramente exploratório. na . estava muito certa daquilo que não queria realizar. O que buscava encontrar era um perfil holístico capaz de delinear os traços definidores de um novo modo de ler próprio do cibernauta. de saída. Ao contrário. em certo modo de reagir sensitivo e muscular. a idéia era que o acesso ao usuário. a pesquisa foi pensada para se realizar em duas camadas nitidamente demarcadas. o olho que perscruta e o corpo que reage na extremidade da mão.

tendo em vista as metas da pesquisa: detectar mudanças . Em seguida. viajar um pouco nelas para que meu olhar observador pudesse ficar mais atento. 2. dei início às gradativas e crescentes fases de observação e coleta de dados. A observação era informal e tinha por objetivo desenvolver uma familiaridade com o comportamento exibido pelos usuários no ato de navegar. SEGUNDA FASE: PESQUISA-PILOTO EXPLORATÓRIA Essa pesquisa-piloto teve por objetivo testar os meios de acesso ao usuário.rativamente apropriados para ajudar a compreender a indagação que a pesquisa buscava responder. Foi. busquei conhecer mais profundamente os ambientes do ciberespaço. Para inferir sobre possíveis habilidades cognitivas que estavam por trás do comportamento motor e perceptivo.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO medida em que esta visava selecionar conceitos que fossem ope. o teórico e o empírico. Essa observação tinha por finalidade comparar a presteza motora e perceptiva do usuário dos jogos eletrônicos com a do usuário do ciberespaço. PRIMEIRA FASE: OBSERVAÇÃO POUCO ESTRUTURADA Esta fase caracterizou-se pela observação pouco ou não estruturada. assim que se deu. foram também feitas observações informais do comportamento motor e perceptivo de usuários de jogos eletrônicos. de modo que um pudesse fornecer subsídios para o outro. de fato. A par disso. na modalidade da observação participante. Tratava-se de fazer avançar a pesquisa nos seus dois flancos. a observação era muitas vezes acompanhada por perguntas do tipo: “Por que você clicou nesse lugar? Como sabia que deveria seguir essa rota?” etc. O que se buscava nessa primeira fase era encontrar subsídios para o tipo de abordagem ao usuário a ser adotado pela pesquisa. 1. habitar as arquiteturas líquidas. Antes de tudo.

TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. mas as mentais devem ser inferidas. Essa era a única restrição. Idade e sexo não foram levados em consideração. Ora. num total de 30 usu- ários. A esses dois grupos de usuários. A exigência da escolaridade tinha em vista evitar a interferência de outros tipos de problemas cognitivos. as mudanças perceptivas são até certo ponto obser- váveis. foram aplicados questionários para coleta de informações básicas do tipo: Nome Idade Grau de escolaridade Usa computador? Tem computador em casa? Usa a internet? Há quanto tempo? Qual a freqüência de uso da internet? Que tipos de uso faz da internet? Depois de aplicado o questionário. 15 usuários do grupo (a) e 15 do grupo (b). O usuário do grupo (a) deveria responder à seguinte questão: “Que dicas você daria para uma pessoa que não tem familiaridade com a rede e que deseja começar a navegar?” . que são próprios do usuário de baixa escolaridade. Os procedimentos adotados nessa fase foram os seguintes. foram feitas entrevistas abertas. Todos os usuários deveriam ter escolaridade mínima de segundo grau completo ou em está- gio adiantado. Daí a necessidade de uma pesquisa-piloto para o encontro de um caminho que pudesse levar a equipe de pesquisa às conclusões mais confiáveis quanto às habilidades cognitivas implicadas. O universo de usuários foi dividido em dois grupos: (a) aqueles que tinham familiaridade com o uso do ciberespaço e (b) aqueles que não tinham nenhuma intimidade. O LEIGO E O EXPERTO perceptivas e cognitivas no tipo de leitura que é próprio do cibe- respaço. na questão específica que a pesquisa visava determinar. A pesquisa não visava avaliar esses tipos de diferenças.

a pesquisa." "Entre em contato com a companhia telefônica para verificar a fiação e velocidade de sua linha" etc. de três tipos: o novato. pois esses usuários pareciam não ter nenhuma consciência das dificuldades.piloto parece ter cumprido alguma função. de fato. pois foi por meio dela que se pôde concluir que o universo dos usuários não poderia ser simplesmente dual. até mesmo motoras. Deveria haver um subgrupo de usuários intermediários entre o experiente e o inexperiente. pois este último apresenta tais dificuldades." "Digitar o endereço correto e ter calma e paciência. para o qual tudo é novidade. que uma pessoa inexperiente poderia ter para transitar na rede. Use sempre antivírus. até mesmo em um nível puramente motor. Embora os resultados tenham sido frustrantes." "Visite o site www. Justamente por serem inexperientes. Os usuários do grupo (a) limitaram-se a dar respostas do tipo: "Cuidado com e-mails de pessoas desconhecidas.com. Os usuários do grupo (b) limitaram-se a dar respostas evasivas. Acreditava-se que o nível intermediário dos leigos poderia dar-nos elementos que nem o experto nem o novato poderiam.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO O usuário do grupo (b) deveria responder à seguinte questão: “Que dificuldades você encontra para navegar na rede?" Os resultados dessa pesquisa-piloto foram frustrantes. o leigo e o experto.aisa. por não terem familiaridade com a rede. nem podiam prever as dificuldades que surgiriam. O leigo é . Enfim. tratava-se de respostas que ficavam bem longe da problemática cognitiva que buscávamos. Entendemos que o usuário novato é aquele que não tem nenhuma intimidade com a rede.br" "Cuidado com a internet que é uma porta de entrada de vários vírus. Foi daí que veio a idéia de que os usuários a serem abordados são. que as dificuldades perceptivas e cognitivas nem podiam ser acessadas.

porém. leigo ou experto. 3. uma coleta definitiva. depois da coleta de informações básicas. Os resultados dessa primeira coleta foram cão bons que foi feita. na pesquisa com os usuários. Esses usuários . que conhece os segredos de cada mínimo sinal que aparece na cela. sem meu direcionamento. ele começou a aplicar um tipo de entrevista participativa que me pôs no caminho daquilo que buscava. esse bolsista lhes propunha um problema adequado ao perfil de seu tipo. classificados nos três tipos acima indicados. a pesquisa teórica prosseguia. A cada usuário era proposta uma tarefa de navegação. TERCEIRA FASE: ENTREVISTA PARTICIPATIVA Nessa fase. em vez de lhes fazer perguntas. O LEIGO E O EXPERTO aquele que já sabe entrar na rede. Por conta própria. Enquanto isso. um caminho para a coleta de dados que fizesse avançar a pesquisa. As respostas eram então descritas e analisadas pelo bolsista de um ponto de vista técnico. a resolução de um problema adequado ao nível de dificuldade previsto para a escala em que o usuário se enquadrava: novato. seguindo os protocolos necessários. A solução do problema. ou seja. conforme está relatado no capítulo 4. trazendo-me gradativamence a seleção dos conceitos cognitivos aplicáveis aos processos de navegação no ciberespaço. que então se apresentava. Ora. Ao entrevistar os usuários. não veio de especialistas em pesquisa de campo. já memorizou algumas rocas específicas. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. novato. Faltava-me. a partir daí. como se segue. mas não adquiriu ainda a familiaridade e competência de um experto. o instrumento adotado foi o da entrevista participativa. mas brotou de forma espontânea da sugestão de um dos bolsistas de IC (Iniciação Científica). essa análise técnica era capaz de me fornecer pistas preciosas sobre os processos perceptivos e cognitivos que eram o objeto da pesquisa. leigo ou experto. em lugar de um questionário aberto para ser respondido.

Então. num total de 45 usuários.1. Em seguida. Nesta. em forma de texto. “para não pegar o trânsito infernal”. Obs. havia.: embora não tivesse computador em casa. Problema dado: encontrar informação sobre o campeonato paulista de futebol. Usuário experto Nome: xxx Sexo: masculino Idade: 23 anos Grau de escolaridade: superior incompleto Há quanto tempo usa computador? Perto de um ano Tem computador em casa? Não Usa a internet? Sim Há quanto tempo? Perto de um ano Qual a freqüência de uso da internet? Três vezes por semana Que tipos de uso faz da internet? Sites de casas de show. que tinha o título de .últimos resultados”. resultados de jogos de diferentes esportes realizados recentemente. depois clicou sobre o link “últimos resultados”. Na mesma janela. ele acessava a internet para gastar seu tempo utilmente. estão exemplos de três entrevistas participativas: 3. abriu uma página com o título “Esportes . digitou www. Nesta página. abriu. sites de busca. o motivo principal para seu acesso à rede devia-se ao fato de que. na mesma janela.globo. clicou em “Voltar”. Comportamento do usuário: ele clicou sobre o campo “endereço”. ele clicou no link “esportes”. logo depois. a seguir. a página anterior à atual.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO foram divididos em 3 grupos de 15. saindo do trabalho às 18 horas. Para se ter uma idéia do tipo de dados que foram coletados.com e apertou a tecla “enter”. abriu na mesma janela a página principal do site. Ele deu uma lida no resultado de jogos que o interessavam e. sites de tv a cabo.

Comportamento da usuária: Ela não conhecia nenhum site sobre videoquê. 3. abrindo. Usuário leigo Nome: xxx Sexo: feminino Idade: 17 anos Grau de escolaridade: cursinho Há quanto tempo usa computador? Um ano Tem computador em casa? Sim Usa a internet? Sim Há quanto tempo? 6 meses Qual a freqüência de uso da internet? De duas a três vezes por semana Que tipos de uso faz da internet? Sites de bate-papo. Nessa página. Para tentar resolver o problema dado. havia todos os times inscritos no campe- onato paulista de futebol com seu respectivo número de pontos. tudo em forma de texto. Chegou a entrar no subdi retório da UOL. Não se perdeu. ele clicou no link “Futebol”. entre eles. navega com muito conhecimento. o link “Campeonato paulista”. na parte de e-mail. O LEIGO E O EXPERTO “Esportes”. e-mail. meio sem rumo. Problema dado: entrar em uma home page brasileira e procurar informações sobre videoquê. nem hesitou por nenhum momento. Quando viu que não estava . Avaliação do usuário: esse usuário sabe encontrar o que busca com grande velocidade. número de partidas ganhas. Em seguida. utiliza o recurso das janelas com muita presteza. e aí clicou sobre o link “Competições”. uma página com cinco links. Enfim. ela procurou no menu da UOL se havia alguma coisa sobre videoquê. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. conhece o uso do clique direito do mouse. então. Foi clicando sem orientação.2. na mesma janela. Sabe ir e voltar. Entrou em sites que não tinham nada a ver com o problema. número de partidas perdidas e saldo com gols.

de um outro provedor. até pedir que o entrevistador a ajudasse. não conseguia realizar mais nada. diferente do uol. Não está acostumada com o ambiente da internet. Para ela. entrar na mesma sala de bace-papo que estava acessando há algumas semanas. sem perceber que todas as salas ali eram da UOL. Diante da tarefa proposta. Não conhecia sites de busca. Avaliação da usuária: essa usuária memorizou um único caminho na rede. ficou desesperada. tudo o mais lhe era incompreensível. Muito perdida. ela se limita a fazer sempre as mesmas coisas: bate-papo e e-mails. em seguida. Ela ficou perdida. a internet tinha uma rota única: entrar no site da UOL e.3. Comportamento da usuária: sem sair da UOL. Além disso. Fora dele. Avaliação da usuária: pode-se perceber que. pediu ajuda. Não se aventura a explorar outras realidades. Pediu-se que saísse da uol e procurasse outro provedor em um site de busca. embora usuária da internet há seis meses. que é aquele que ela tem usado há 6 semanas. ela procurou uma sala de bate-papo. depois de algumas tentativas. foi desistindo.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO conseguindo resolver o problema. Usuário novato Nome: xxx Idade: 37 anos Sexo: feminino Escolaridade: 2 o grau completo Há quanto tempo usa computador? Algumas semanas Tem computador em casa? Sim Usa a internet? Sim Há quanto tempo? 6 semanas Qual a freqüência de uso da internet? Todos os dias Que tipos de uso faz da internet? Sites de bate-papo Problema dado: entrar em um site brasileiro de bate-papo. parecia que havia parado de raciocinar e. Com . no fim. 3.

Nem lhe passava pela cabeça a existência de um número enorme de sites que podem ser acessa- dos livremente. a gravação em vídeo foi adotada na pesquisa como meio de aferição das dificuldades motoras dos usuários novatos. foi dado por um outro bolsista. os entrevistadores relatavam sobre as dificuldades no nível motor dos usuários novatos para a manipulação do mouse e do teclado. especialmente para a coordenação entre o uso destes apetrechos. por meio de meras descrições verbais. com os quais tive a sorte de poder contar. 4. Quando vi os primeiros vídeos gravados. não é algo para se pôr em dúvida. Um outro passo adicional na pesquisa. QUARTA FASE: GRAVAÇÕES DE VÍDEOS Na avaliação de muitas entrevistas participativas. Tendo isso em vista. ela disse ao entrevistador que só podia usar o site da UOL porque só era assinante da uol. Seu desconhecimento da rede era quase completo. gravou em vídeo cinco entrevistas participativas com usuários novatos. Seu uso era também muito limitado. A idéia desse bolsista foi mesmo de grande valia. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. a atenção voltada para os signos que aparecem e desaparecem da tela e a reação diante desses signos. e a análise desses vídeos se revelou tão interessante. sem os vídeos. muscular-reativas dos usuários. por sua própria iniciativa. O . as reações sensório-motoras. Com isso. Foram assim gravados mais 15 vídeos. a experteza desses bolsistas de IC. fiquei tão surpreendida com os resultados. que acabei por incorporar à pesquisa também uma coleta de material em vídeo. De fato. pois. O LEIGO E O EXPERTO inocência. ficava muito difícil avaliar. um dos bolsistas. Com os dados dessa coleta. que foram de importância fundamental especialmente para visualizar as dificuldades motoras dos usuários novatos. já pude fazer a avaliação dos níveis de operacionalização dos conceitos teóricos ao confrontá-los com aquilo que os dados me revelavam. completamente inespe- rado.

5. É em razão dessas similaridades que pude tomar por base as pesquisas em solução de problemas para as interpretações dos dados que seguem abaixo. INTERPRETAÇÃO DOS DADOS Todos os usuários expertos entrevistados entram na rede pelo menos uma vez por dia. há similaridades nas habilidades cognitivas que lhes estão subjacentes. Embora haja diferenças entre ambos. 1989) funcionaram como uma bússola de orientação de inestimável valor. evidentemente adaptando seus conceitos e reoperacionalizando-os para as situações específicas da navegação. a incapacidade de coordenação visomotora e de concatenação do mouse com as mudanças visuais dinâmicas na tela ficaram muito evidentes. Soluções de problemas não são processos exatamente iguais aos processos de navegação. Quando todas essas fases gradativas da coleta de dados se completaram. deram seus testemunhos sobre o que pensavam a respeito do processo de navegação.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO desajeitamento para tocar o mouse e manipulá-lo. QUINTA FASE: O TESTEMUNHO DOS USUÁRIOS EXPERTOS Outra complementação dos dados foi realizada por meio da coleta de testemunhos de usuários expertos. quase sempre para realizar os mesmos . a escolha do suporte teórico para a interpretação desses dados pôde se tornar mais seletiva e ajustada. 6. como se cada um deixasse rastros de sua personalidade no ato de navegar. O objetivo da pesquisa lhes foi relatado e os usuários. Aspecto muito interessante na coleta desse material foi a evidência de que cada usuário experto tem um modo muito próprio de navegar. alguns deles desempenhando a função de treinadores de usuários iniciantes na rede. Os leigos apresentam uma média de duas a três vezes por semana. as pesquisas sobre “solução de problemas e aquisição de habilidades cognitivas” (VanLehn. Nesse momento.

ansiedade e insegurança nas operações de navegação. Disso resulta um estado de desconcentração. O LEIGO E O EXPERTO percursos e. mas também “aprender a se virar”. a capacidade de examinar o lugar mais provável para clicar. é muito justamente aquela que é capaz de indicar os traços identiflcatórios do usuário leigo. sem terem realizado ainda a experiência por si mesmos. a confusão e a incapacidade para encontrar um caminho de volta. que. . a primeira impressão que essa entrada parece produzir nos inexperientes é a de estarem diante de um código cifrado com significados misteriosos. De fato. Isso é corroborado pelo testemunho dos expertos quando declaram. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. uma grande incidência de erros. É aquele que examina a situação a cada passo e já sabe eliminar alternativas falsas e escolher as corretas. A maior parte dos entrevistados nessa categoria já sabe retornar. quando percebe ter realizado um avanço equivocado. Isso já funciona como um indicador de que a freqüência de uso das redes e a prática conseqüente é um fator primordial para a aquisição da competência para navegar. Alguns novatos também apresentam impaciência em relação ao tempo e atenção que seriam necessários para tentar compreender os indicadores de navegação. Diante desse quadro não é de estranhar que os entrevistadores tenham concluído com unanimidade que os novatos precisam de assessoramento e suporte presencial para aprender pelo menos os primeiros passos de entrada na rede. Percebe-se. Os principais traços revelados pelo novatos são: desorientação diante da profusão de signos que se apresentam na cela. as dificuldades são reais e naturais e que. quanto aos novatos. para superá-las. outros observaram terceiras pessoas navegando. no início. nesse usuário. é preciso não só obter ajuda. pedindo ajuda. “aprender a se virar”. por exemplo. Este usuário é aquele que já tem um conhecimento específico de algumas rotas e que vai se virando para encontrar outras. alguns tiveram experiências esporádicas com a rede. Essa expressão. avançando por tentativa e erro. Vem daí a grande freqüência com que se desesperam e desistem.

A navegação começa a partir de um estado inicial e a heurística é usada para selecionar um operador entre um conjunto de outros. Encontrar um caminho na hipermídia e na rede depende de se seguir uma seqüência de passos corretos. os operadores funcionam como indicadores de ação. se os passos não forem corretos. Quando o operador se revela inaplicável porque não conduz ao resultado esperado. (b) um conjunto de operadores de navegação. a navegação envolve: (a) um estado inicial. Vejamos como os traços gerais desses três tipos de usuários se revelam à luz de uma análise cognitivista. ser capaz de corrigi-los. Assim. por fim. (d) manipulação dos operadores. Esquematicamente. Os dois processos fundamentais em que se funda a navegação são: a compreensão do estado de coisas e a busca para se chegar a um alvo. barras. índices. (c) compreensão desses operadores. mas também mentais. Nos processos de navegação. a navegação caracteriza-se como um campo de estados no qual há novos estados e estados precedentes. diagramas) que correspondem a regras heurísticas que o usuário usa para passar de um estado a outro. os operadores são notações formais (palavras. Todo processo de resolução de problemas pode ser analisado em dois subprocessos cooperantes: compreensão e busca.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO O experto. Prefiro o termo operador por sua evocação de mecanismos não só manuais. Transita pela rede com familiaridade em função da representação mental clara que tem da estrutura. então um subalvo é formado. Nisto a navegação não difere muito da resolução de problemas. ou. Portanto. O que aqui estou chamando de operador é comumente chamado de ferra- menta. da qualidade e das idiossincrasias dos mecanismos de navegação. A compreensão é responsável pela assimilação dos estímulos e para . (e) mudança de estados como resultado da manipulação dos operadores. Um novo estado é aquele que é produzido pela mais recente aplicação de um operador. ícones. manipulando as ferramentas e os comandos com desenvoltura e velocidade. Este consiste em se encontrar um caminho capaz de mudar o estado atual. tem conhecimento dos aplicativos no seu todo.

nas suas idas e vindas. Tanto isso é verdade que. A compreensão depende de um conjunto de pressupostos. . pois. O usuário leigo é capaz de encetar estratégias de busca porque já passou pelo estágio de compreensão do significado pelo menos de alguns signos e sinais. o processo de compreensão gera a representação interna que a pessoa tem do problema. imagens. sons. o leigo demonstra que seus movimentos em direção à solução são entremeados por breves insights de compreensão. e a estratégia de busca. como entendimento inicial de um estado de coisas e do alvo que se tem em mente. embora alguma compreensão seja necessária antes que a busca se inicie. no caso do leigo. Transferindo essas conclusões para a situação da navegação. no caso do novato. uma dominância da busca sobre a compreensão. há uma dominância da compreensão sobre a busca e. domina no caso do usuário novato. O LEIGO E O EXPERTO produzir estruturas de informação mental que constituem a compreensão que a pessoa tem do problema. no caso do usuário leigo. texturas gráficas. figuras.tivos: a estratégia de retorno e a estratégia de avanço (ibid.: 530). Entre esses pressupostos. mais do que pelo estímulo nele mesmo. estou propondo que. ibid. ruídos e suas respectivas hiper-sintaxes que implicam uma alfabetização semiótica do usuário. entretanto. que esses dois processos sempre caminham juntos. Sem negar isso. enquanto o processo de busca gera a representação interna da solução (VanLehn.: 537). sinais. diagramas. não se pode assumir que é necessário que a compreensão se complete antes que a busca comece. os dados colhidos pela pesquisa nos levam a concluir que o processo de compreensão. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. O processo de busca é conduzido pelos resultados do processo de compreensão. envolvendo uma mistura de signos. sua natureza é híbrida. A passagem do nível do novato ao leigo significa avanços nessa alfabetização. avanços e recuos. O processo de busca localiza-se entre dois processos colabora. Em outras palavras. o processo de compreensão parece depender muito das mídias que se apresentam à percepção e à cognição. É esse conjunto de pressupostos que o novato não domina. No caso da hipermídia. Cumpre lembrar.

mais lentos e hesitantes. isto é. Ao contrário. Assim. eles têm uma compreensão instantânea dos estímulos. faz uso de memória externa. A heurística é também usada para esse processo avaliativo. o que lhe permite tomar prontas decisões em pontos em que escolhas devem ser feitas. neles domina o processo de elaboração. o usuário experto pode ser definido como aquele que possui estratégias globais afinadas e precisas. Por elaboração. ao contrário. Por isso mesmo. recuperam por meio da memória as operações a serem realizadas e chegam rapidamente ao que buscam. erram e se autocor- . aplicá-lo sobre o estado em questão e avaliar o estado resultante.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO No caso da navegação. A estratégia de avanço consiste em escolher um operador. avançam. Estratégias de retorno são determinadas pela memória de que o usuário dispõe para armazenar estados prévios. que. estes substituíram a busca pelo reconhecimento instantâneo. Os leigos. eles parecem reconhecer cada situação como um exemplo de um tipo familiar de situação. muitas vezes. notas escritas em um papel. quando o usuário experto se defronta com situações não familiares. os estágios da compreensão e da busca não são mais as determinantes principais de seus procedimentos. Isso significa que. como aquele que detém o conhecimento do conjunto. e sobretudo. o leigo. são adaptados. ao que tudo indica. Os usuários expertos devem ter encontrado o caminho muitas vezes no passado. realizam repetidamente operações de busca. um reconhecimento deles como um estado de coisas familiar e realizam uma aplicação imediata dos operadores que levam às mudanças de estados desejadas. No caso dos expertos. Tais esquemas são tão poderosos. entende-se aqui a internalização de que o usuário dispõe do esquema geral que está subjacente ao processo de navegação e sua habilidade para ligar os procedimentos particulares ao esquema geral. portanto. a estratégia de retorno refere-se à capacidade de retornar a um estado anterior e escolher um outro operador. para o experto. Essa coleção de conhecimentos que suportam seus procedimentos pode ser chamada de esquema mental de navegação. mas também. Como sua memória não automatizou os passos a serem seguidos.

em todos os níveis. revelam perplexidade diante da tela. uma tendência a abandonar as tarefas no meio do caminho. o experto as realiza com muita rapidez. Embora as estratégias de busca caracterizem predominantemente os procedimentos do leigo. os expertos também realizam esses procedimentos. há a presença do insight. abandono acompanhado de um sentimento de fracasso e de frustração. retornam e tentam outro caminho para encontrar uma solução. enquanto o leigo realiza suas buscas com certas hesitações e mais demora. Na navegação. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. a sincronia do olho. o fazem com base em operações superficiais. parece faltar-lhes compreensão dos signos. O LEIGO E O EXPERTO rigem. nos novatos. esses programas são chamados de programas de busca. Trata-se de procedimentos não-determinísticos na medida em que nem sempre há especificações de como uma escolha deve ser feita. Entretanto. por seu lado. Quando realizam manipulações. este significa a . dos lugares que ocupam. habilidades que podem explicar a presteza que é exibida pelos usuários expertos. isto é. quando estão diante de tarefas para as quais não podem aplicar um esquema já internalizado. Os dados colhidos pela pesquisa revelam. Em razão disso. do tato e da reação motora. isto é. pois os próprios programas se estruturam seguindo uma lógica que é própria dos procedimentos de busca. o dos novatos. por que ocupam esses lugares e do que significam. Os novatos. O novato não é sequer capaz de realizar esses procedimentos. sem nenhuma capacidade de previsão do que pode resultar da operação. Isso ocorre porque aos novatos falta a internalização de esquemas gerais e a conseqüente capacidade de recuperar esses esquemas para adaptá-los às situações em curso. Falta-lhes também destreza para manusear o mouse e controlá-lo. muitos programas de navegação usam critérios simples e eficientes para estreitar o conjunto de escolhas por meio do que é chamado de restrição de domínio. o dos leigos e o dos expertos. Por isso mesmo. Do não-determinismo dos operadores e das escolhas resulta que. falta-lhes especialmente o controle dos objetos representados na tela por meio do movimento do mouse.

que é muito justamente o que caracteriza os procedimentos do usuário experto. É por meio dessas regras situacionais que o leigo resolve os impasses que lhe são característicos. pois uma operação bem- sucedida é tomada. Para resumir. sabe-se que a prática leva esses usuários a uma melhora rápida de desempenho. O leigo já é capaz de usar regras situacionais para diminuir a aleatoriedade das escolhas. descoberta de uma rota eficaz no caminho para um resultado final. Esses insights têm um significado fundamental para o usuário novato. comprovando o poder do aprendizado conduzido pela prática (ibid. Tal transferência por analogia é muito eficaz na navegação porque uma das características fundamentais dos mapas de navegação na hipermídia e dos programas de navegação está na recursividade de suas regras. como modelo e transferida para uma outra situação por analogia. surpreendentes. Para o usuário experto. por isso mesmo. Embora os novatos tenham desempenho trôpego.NAVEGAR NO CIBERESPAÇO capacidade de mudar de estado. por isso mesmo. As mudanças se dão tanto no estado interior do usuários quanto no estado físico da tela. submódulos e subsubmódulos. quanto mais envolve a automatização das inferências mentais e das ações perceptivas e motoras por meio da força do hábito. hesitante e lento. No que diz respeito à memória. pode-se dizer que o usuário experto tem uma visão geral dos meios e fins. o insight é menos freqüente.: 541). pois só entra em ação diante de situações ainda não internalizadas e. O usuário novato navega aleatoriamente. sem compreender quais operadores são aplicáveis a cada estado. A estrutura arbórea subjacente a muitos desses programas leva o usuário a induzir que o todo pode ser decomposto em módulos. por este. enquanto o novato não dispõe de nenhuma memorização dos operadores e das mudanças . aprendizado que é tanto mais rápido. Funcionam como pequenas luzes que se acendem no caminho da compreensão. e os leigos. Os insights ainda são importantes para o leigo. é capaz de realizar todas ou quase todas as operações de navegação sem encontrar nenhum estado insatisfatório.

Memória de longa duração. Entretanto. Quanto mais as operações momentâneas são utilizadas com sucesso. não quer dizer a retenção de uma soma de dados atomizados. Os efeitos da prática e do conhecimento adquirido são visíveis nas habilidades perceptivo-motoras dos usuários. memória que armazena a informação temporariamente para o cumprimento de tarefas que se apresentam no momento. A velocidade do desempenho dessas habilidades perceptivo-motoras só vem comprovar a lei poderosa da prática que. A memorização dos esquemas gerais é realizada em mecanismos de aprendizagem desenvolvidos pela prática. No caso da navegação. quer dizer. neste último exemplo. à sincronia de habilidades perceptivas e moto- .nalização do esquema geral de um processo e a capacidade de inferir. os leigos colocam em uso um tipo de memória que é chamada operativa. é uma lei cujos efeitos não cessam nunca. a partir desse esquema geral. de costura. Eles estão dotados de esquemas mentais. É essa memória de longa duração que o usuário experto possui. Isso é muito visível quando se opera uma máquina. segundo os especialistas (ibid. os procedimentos que devem ser atualizados no momento. assim como a seqüência deles de um estado a outro. Sabe-se que o poder da prática leva à automatização dos gestos. Isso fica evidente na destreza e rapidez com que manipulam os toques do mouse. a sincronia entre a percepção e as reações motoras já se torna mais complexa. TRÊS TIPOS DE USUÁRIOS: O NOVATO. Os expertos demonstram ter uma compreensão instantânea do conjunto e uma capacidade imediata de selecionar o operador correto em cada situação. mais o desempenho se aperfeiçoa.: 555). por exemplo. Quanto mais a prática é executada. mais elas tendem a ser retidas pela memória de longa duração. perceptivos e mentais. O LEIGO E O EXPERTO de estado que eles produzem. É assim que os expertos adquirem conhecimento especializado sobre rotas de navegação. no caso da navegação. o que pode explicar as suas estruturas de memória de longo prazo. Também é visível quando se guia um automóvel. o que funciona como sinal externo da sincronia entre os canais motores. mas a inter.

NAVEGAR NO CIBERESPAÇO ras adicionam-se operações mentais complexas. Isso me conduziu à postulação de que os três tipos de usuários. são os mecanismos lógicos fundamentais que conduzem o pensamento humano: a abdução. a indução e a dedução. que envolvem compreensão. Esse pro- cedimento se acentua nos novatos. Por isso mesmo. estão sob o domínio. aquele que induz. dos leigos e dos expertos levaram-me a perceber conexões muito evidentes entre essas habilidades e os três tipos de raciocínio que C. de acordo com Peirce. seleção. cada um deles. A hesitação que se constitui no traço caracterizador do leigo e seu procedimento típico de se deter em partes específicas da tela demonstra que ele não possui um esquema internalizado das operações a serem realizadas. de operações de raciocínio. aquele que abduz. . o novato. como se essa aproximação dos olhos pudesse revelar segredos escondidos na tela. que buscam sucessivamente aproximar e afastar os olhos da tela. Essas operações dão origem a três graus ou níveis perceptivo- cognitivos que se constituem nas fundações para a construção do modelo cognitivo do leitor imersivo ou navegador: o navegador errante. As interpretações acima das habilidades que são próprias dos novatos. Isso se revela nos seus movimentos de cabeça. S. que tendem a colocar os olhos muito perto da tela na tentativa de decifrar os significado dos signos operadores. o navegador detetive. decisão e avaliação. Peirce longa e detalhadamente estudou. Seu procedimento é ad hoc. o indutivo e o dedutivo. de inferências mentais que. conforme esses níveis serão trabalhados nos capítulos 5. identificação. 6 e 7. o abdutivo. mas é impossível navegar sem estar com a atenção e o pensamento colados nos operadores e nas mudanças dinâmicas que resultam da ação dos operadores. o leigo e o experto. enquanto se pensa em outras coisas. é possível guiar ao longo de uma estrada. aquele que deduz. e o navegador previdente.