You are on page 1of 94

UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO GRANDE DO NORTE
CENTRO DE CIÊNCIAS HUMANAS, LETRAS E ARTES
DEPARTAMENTO DE ARTES
LICENCIATURA EM TEATRO

NAARA DE OLIVEIRA MARTINS

MOLHARES: PROCESSOS DE SINGULARIZAÇÃO E A CENA RIZOMÁTICA
D’ÁGUA

NATAL/ RN
2016

NAARA DE OLIVEIRA MARTINS

MOLHARES: PROCESSOS DE SINGULARIZAÇÃO E A CENA RIZOMÁTICA
D’ÁGUA

Monografia apresentada como parte das exigências para conclusão do curso de Licenciatura
em Teatro pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN)

Orientadora: Prof. Ms. Heloísa Helena Pacheco de Sousa

NATAL/ RN
2016

.

.Para as Marias da minha vida: das Neves e Martins.

Não admiro a sua ausência nem sou grata de felicidade por ela. que na ausência.Agradecimentos Ler ao som de Feeling Good. transborda! A minha segunda família. tronco. Guga Medeiros. artista e Prof. que desde cedo me levou para a sala de aula. A minha orientadora. dividiu afetos. palavras importantes. empoderamentos. mas foi como aconteceu e mesmo assim sigo admirando as suas palavras-tijolos e a sua sabedoria. foi graças ao seu apoio que resolvi cursar Teatro e foi graças a sua fuga que me experimentei livre para gozar (finalmente!) e fazer poesia. Prof. Heloísa Sousa. Karyne Dias Coutinho. . e que me ensinou que “a maior demonstração de propagação do ser é o eco” e que “com ele meu grito também tem força pra derrubar todos os prédios!”. somando vozes e dançando à distância. pela sua luta – que também é minha. que esteve comigo em todos os momentos e que no presente descubro ser também uma sensível amiga e pessoa. Cyrléa Xavier e Lina Bel Sena. por também estar água e poesia nisso tudo. Sou esquecida. sensibilidade e pelas poucas. A cachaça que me feriu. você foi o motivo de eu ter escolhido tudo isso aqui. Aos silêncios. acabou me fazendo ser forte. Dra. infância. Maria Clara Souza e em especial a André Chacon (a Chaka). Sou apenas gratidão pela sua sensibilidade e inteligência. A Natália. carinho. Sou também apenas gratidão às minhas Marias: das Neves e Martins (in memoriam). por ter abraçado essa pesquisa. Vou esquecer nomes de pessoas importantes. por ter ajudado na minha escrita confusa. amigas para o resto da vida. A banca examinadora: Prof. Ms. obrigada pela disponibilidade. A Maria Helena Melo. Dra. aquela que eu escolhi: Caio Lima. Gratidão pelo jambeiro. mas afiadas conversas que tivemos sobre poesia. Quero sempre que possível trabalhar contigo. Melissa dos Santos Lopes. Ao doce amargo. companheiro que me abraçou. corpo inteiro) e que me dão força. Amo-os imensamente. minha irmã. por vida. Tenho uma admiração enorme pela sua pessoa enquanto educadora e artista. parceiras que seguram minhas mãos (pernas. amiga e professora. da Nina Simone. sorrisos e fumaças. porque até as coisas ruins fizeram parte desse processo. Ao meu pai Moisés. paciência e contribuições. amparou meu choro. pelo balanço na cadeira e pelo pirão. pelos afetos. minha mãe. Ao meu ex- marido. A Vera. É muita água. minhas queridas avós que me criaram. Índias de longos cabelos negros. pelo apoio e pela fuga.

. do curso de Teatro: Prof. Dr. Aos artistas independentes.. Prof. A Ângela. aprendi muito com todas e todos. Aos reencontros. sapatas.1. Pablo Vieira e Pedro Fasanaro. Elze Maria. A Boca Espaço de Teatros e aos tantos outros.. A encenação O som que se faz debaixo d’água.. de escolas. ainda quando eu cursava História. Fernanda Estevão. Jefferson Fernandes Alves (do Centro de Educação . bichas. fervilham e resistem arte nessa cidade: Barracão dos Clowns.UFRN). Maria Emília Monteiro Porto (do curso de História . Ms. Dra. Em especial a Alice Jácome. Marília. Ao longo desses quatro anos fomos lágrimas.UFRN. poesia.A Prof. às manas e monas – resistência e muita “bruxa ria para lutar”. Aos meus amigos e amigas da turma de 2013. Aos espaços independentes que produzem. Ms. As várias mulheres dentro de mim. A vida. Mayra Montenegro por ter sido a minha primeira professora de teatro. Aprendi tanto com vocês. taurino forte e sensível. Antonia Delgado (Vivi). Clarice. poeta e amigo que com suas “palavras de oráculo” me motivaram ainda mais a ser artista. ao teatro. mas aqui enquanto diretora. Makários Maia. Robson Carlos Haderchpek pelas dicas de leitura e pela sensibilidade nesse último semestre. As bruxas.. Cléo Araújo. Não seria sem vocês: Adriel Eduardo Bezerra.UFRN) pelo companheirismo e “olhar”. Lina Bel Sena. Cléo Morais. suor e saliva.. Maria. universidades. A amiga escorpiana Nicole Moreno pelas palavras-desvios e compartilhamento de “ideias esquizos”. Diogo Spinelli e Gustavo Oliveira pelo apoio e ajuda. Aos ocupantes. Priscila Araújo. Dr. São amigos que quero ter para o resto da vida. contigo eu aprendi sobre a vida e no seu abraço eu fiz minha morada. Aos desencontros... Prof. Aos poetas.. Franco Fonseca. A todas as pessoas que se banharam ou quiseram se banhar nas minhas palavras d’água. Fernanda Cunha. Aos professores do Departamento de Artes . Elze Maria Barroso. Helena. Amo-os imensamente! Aos amores e amigos Edivaldo Andrade... Gabriela Marinho. Ao meu querido e amado Franco Fonseca. Matheus Giannini. e mais uma vez. às suas vozes e percepções. Nadja Rossana. Ao Projeto de Extensão Cores Teatro e a todas as pessoas que passaram por ele. aos encontros. Ana. Alice. ao Prof. Moema. ..

enviesado pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995). Essa pesquisa também faz uma correlação dessa “hidropoética” desviante com o conceito de rizoma. Minha pesquisa faz uma relação poética entre o corpo humano e o elemento água. relacionando-as ao conceito de “autopoiesis” (VARELA. Discorro neste trabalho sobre a separação de energias em “femininas” e “masculinas”. a encenação “O som que se faz debaixo d’água”. Contraponho-me a esse autor e discuto sobre a necessidade da fluidez das energias para além dessa lógica binária. 1996). Este trabalho fala sobre as temáticas dentro de um processo que possui discursos sociais e políticos do “feminino” utilizando a linguagem teatral contemporânea. “O som que se faz debaixo d’água”. GUATTARI. GUATTARI: 1992). . dentro de uma “hidropoética” dos corpos que denomino de “molhares”.RESUMO A presente pesquisa discute sobre noções de subjetividade (ROLNIK. relacionando esse conceito com as encenações na contemporaneidade. cena contemporânea. energias binárias. discutindo sobre formas múltiplas e líquidas (HILST: 1990. correlacionadas respectivamente à água doce e água salgada. segundo o filósofo Gáston Bachelard (1998). do projeto de extensão Cores Teatro da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN). Palavras-chave: Processos de singularização. 1992) de pensamentos e existências. MATURANA: 1997. reforçando que rizoma é a própria cena contemporânea de linguagem polifônica.

In this work. 1992) thoughts and ways of existing. discussing about multiple and liquid (HILST: 1990. This research also makes a relation between this deviant "hidropoética" and the concept of rhizome. of the Federal University of Rio Grande do Norte (UFRN). brought to life by the extension project "Cores Teatro". GUATTARI. binary energies. correlated respectively to the fresh water and to the salty water. In the face of this author's way of thinking. utilizing the contemporary theatrical language. . GUATTARI: 1992). contemporary staging. as made by the Philosophers Gilles Deleuze and Félix Guattari (1995).ABSTRACT This research aims to discuss the notions of subjectivity (ROLNIK. relating this concept to the enactments in contemporary times. relating them to the concept of "autopoiesis" (VARELA. "The sound which is made underwater". reinforcing the idea that the rhizome is the very own contemporary scene of polyphonic language. as in a "hidropoética” of bodies. Keywords: Singularization processes. 1996). the staging "The sound which is made underwater". I discuss about the energie's necessity of fluidity which goes beyond this binary way of thinking. This work talks about these themes inside a process which possess social and political discourses of the "feminine". which I call "molhares". as seen by the Philosopher Gáston Bachelard (1998). MATURANA: 1997. I discourse about the separation of energies in "feminine" and "masculine". My research makes a poetic relation between the human body and the water element.

........................... da encenação O som que se faz debaixo d'água. Foto: André Chacon.. da encenação O som que se faz debaixo d'água................................................................. Foto: André Chacon............... da encenação O som que se faz debaixo d'água....... da encenação O som que se faz debaixo d'água.............. da encenação O som que se faz debaixo d'água.... 63 Fotografia 7 .... Foto: André Chacon. da encenação O som que se faz debaixo d'água.. Foto: André Chacon....Cena "Copos" (Hidrato de metano)...................Cena "O parto das borboletas" (Rio intermitente).. Foto: André Chacon... ............... 61 Fotografia 5 ......................... ....Cena "O solo das bucetas" (Água térmica/água que cura)................................................................ 62 Fotografia 6 ..Cena "Espelhos/Jantar" (Pingo de torneira)...........Cena "Gira território" (Cachoeirar)...... ........................ 78 ....................... Foto: André Chacon.......Cena "O solo das bucetas" (Água térmica/água que cura)............... 47 Fotografia 4 ............... da encenação O som que se faz debaixo d'água....................................................... Foto: André Chacon.... 74 Fotografia 8 ........................... ......... 75 Fotografia 10 ....... da encenação O som que se faz debaixo d'água.......... 74 Fotografia 9 .......... Foto: André Chacon................................................Cena "Corpo Cavalgado"................................................. Foto: André Chacon................................... 45 Fotografia 2 ................... Foto: André Chacon........................... ........................... da encenação O som que se faz debaixo d'água................Cena "Desaguar".............. ............Cena "Boneca" (Chuva)........ 46 Fotografia 3 .... LISTA DE IMAGENS Fotografia 1 ......................................................................... .................................. ..... da encenação O som que se faz debaixo d'água.............“Memória ciliar”............................................... .............................................. .........

.

... 48 2..........1.........1 Água-binária?.... 36 2 CAPÍTULO 2: OLHO D’ÁGUA DOCE E SALGADO .........................................................................................2 Molhares: pulsão poética e “autopoiesis” .................................... 79 6 GLOSSÁRIO ............................................................................................................................................................................................ 64 3....1 Processos de singularização ..................................... SUMÁRIO SOBRE MOLHARES ................................2 Eu-rio? Ri-acho! .................. 49 2........................................................................................................... 31 1.................... 26 1.............................1 Subjetividade e modos de subjetivação .................. 65 4 FOZ................................. 14 1 CAPÍTULO 1: NA FONTE DOS GOZOS E DAS AÇÕES.................................................................................................................. 13 NASCENTE ..... 54 3 CAPÍTULO 3: EM ESTADO DE MANGUE ......................... 84 .................................................................................................................................................................... 82 7 ESTUÁRIO ................................................................................................................................... 23 1...........................................................................................................................1 Rizoma hídrico e as encenações contemporâneas ........................................................................... 76 5 LENÇOL FREÁTICO ...........................................................................

Molhares são as criaturas que pulam e se molham! E se molho aqui. A vida ordinária acontece. Me torna outra pessoa. são os olhares poéticos de uma mulher. porque no conhecido. banhados de águas doces. intermitente. me escorro aqui. Sou superfície molhada. a poesia me e(n)stranha. a cada dia renovo. . mijo. Extrapolo a própria vida e o que se conhece. casulo-borboleta. marginal. Aqui neste trabalho me mostro bicho: sou réptil. pulsões de palavras-ideias. O que desabrocha internamente em mim. ando. O espaço molhado da subjetivação. Escrita de uma vida ordinária. Sou estranha de mim a cada dia. Molhares são profundos de devaneios. Fluvi all. Olhares molhados. O que não se pode (fora) temer é o pulo no rio. mas você me lê? Coloco aqui neste trabalho as minhas pesquisas teatrais. velhice e a própria morte. irrestrito. brilhosa e colorida. às avessas. efêmera também. Perdida. resolvi investigar sobre o que me impulsiona. mas não me seque. Você não fala a minha língua. O verbo. me escorro aqui. pulso d’água: meu corpo líquido. in septum: múltipla. ardentes por águas salgadas. molhado. Transito. Água perene. minhas subjetivações vagas. a escuridão da imersão. suo. cotidiana mente acontece. É água lida socialmente como feminina. o que desabrocha de meus poros-buracos. É mistura de gozo e suor de vida ordinária. E dentro dessa escritura fragmentária. vida adulta. poéticas. Sou água desviante. órgãos d’água. É vida! É também teatro. adolescência. que escorre. da criatividade. são os olhares poéticos e pulsantes de um coletivo de mulheres. Existem situações em que me sinto menos ou mais “e(n)stranhada” que ontem. água longe da pureza. 13 SOBRE MOLHARES Olhos d’água. tramita e paralelamente a isso sou tomada de espasmos. o mergulho em direção ao desconhecido. ao que se tem como fixo e referencial. nado. gozo. a subjetivação é vaga lume. etéreas e às vezes dispersas. estou entre -“vida dupla” -. da pulsão. Leia. Infância. e eu diria até múltipla. Bicho que troca de pele . pulsões de poesia. o que impulsiona minha arte. de composição da subjetividade inexplicável. me escorri em poesia.cobra. na superfície. Pingo. O espaço molhado do nascimento. Molho porque estou correnteza.

Estamos sempre em processo(s). além de se encontrar e se concentrar de diversas formas e proporções em nosso planeta. meu delírio. líquido e gasoso). O delírio do verbo estava no começo. está em constante mutação. independente de seu estado. Manoel de Barros É difícil saber onde começo. e às vezes acontece desse coletivo ser expelido para fora num fugaz nascimento aparente na nascente. mangue ou mar. minha imaginação material. meus sonhos. A criança não sabe que o verbo escutar não funciona para cor. os seus canais. formam agora um “coletivo d’água”. os meus processos dentro de outro processo: a encenação O som que se faz debaixo d’água. a nos afetar com o ambiente. marés. minhas subjetivações. lá onde a criança diz: eu escuto a cor dos passarinhos. afluentes. esse pode às vezes começar com o acúmulo das gotículas da água da chuva que escorre. 14 NASCENTE No descomeço era o verbo. ele delira. afunda e permeia a terra. por . oceano. Minha pesquisa faz uma relação poética entre o corpo humano e o elemento água. elas se agrupam. a própria necessidade de se fazer metáfora líquida para querer explicar algo. que é a voz de fazer nascimentos – O verbo tem que pegar delírio. meandros. seguindo assim todo o seu percurso. pulsões. onde nasce meu verbo. mangue e mar. Então se a criança muda a função de um verbo. Mas no caso do rio. E é mais que evidente e translúcido que o sujeito não é “pronto”. Como nasce um corpo d’água? Estar em processo de subjetivação é ser água. Trata-se de um elemento maleável e que passeia por diversos estados (sólido. Coloco aqui corpos d’água em diversos estados: rio. de modo a enviesar metaforicamente os processos pelos quais passamos dentro da criação artística. arte que escorre. por esse ser um dos principais elementos responsáveis pela vida. portanto. Só depois é que veio o delírio do verbo. Somos permeados pelas coletividades sociais. ribeiras. É difícil saber quando um processo de criação começa. com outros sujeitos. E pois. desejos. traçando uma trajetória. estamos sempre a nos compor. Espasmo neste trabalho sobre uma hidropoética dos corpos. Em poesia que é voz de poeta. Concentro minha pesquisa em estado líquido. a imaginação. de fazer poesia. mas para som. seja esse de rio.

Portanto. dois estados de água: o estado de água-rio . nadar em águas doces (rio). onde consequentemente as relacionam de forma estereotipada. mas transito.. portanto.1 1 Mas nem todo rio nasce do subsolo. Somos água . água que se despenca em cachoeira. O rio nos afaga e nos afoga. o rio nasce de um movimento “gangorra”. . ultimamente o estado de rio me abraçou.que por sua vez possui uma energia mais pesada. 22). “É o império da água. dualista e dominante. são paradoxais e ambíguos..]”. fugindo.gl/xJlcxr>. água que lava. desse binarismo que acaba por nos oprimir. 1987. lamacentas (mangue)… Chafurdar n’água. pela energia que o “estar rio” abraça. nos une e separa. existem diversos tipos de rios. água que arranca.em múltiplos estados. Estou rio. respectivamente. água que se oferta cantando. Confronto e contesto essa visão e acabo por trabalhar aqui um masculino e um feminino como estados. sustenta. que em sua obra A água e os sonhos remete a água doce dos rios ao gênero feminino e a água salgada dos mares ao masculino. água que vai [. Realço aqui. Problematizo e contraponho neste trabalho essas associações de cunho superficial.e o estado de água-mar .portador de uma energia mais suave . não sou. O curso de água de um rio corre naturalmente de uma área de relevo mais alta para uma área de relevo mais baixa. Quando esse lençol aflora na superfície dá origem à nascente de um rio. Porém Bachelard liga essas duas energias líquidas a referenciais binários de gênero. 15 processos vivos e provisórios. e que por esse motivo são bastante associados como portadores das energias feminina e masculina. posso me mover. e não como “ser” fixos. p. Água que corre no furor da correnteza. como exemplo fluvial para falar sobre este trabalho. eu que estou rio. Água agave. Esses cursos de água se formam a partir da chuva que é absorvida pelo solo até atingir áreas impermeáveis no subsolo onde se acumula. estamos a mercê de variados acontecimentos e experiências. constituindo o lençol freático. água que leva. Terra fértil e quente inundada por água doce. Acesso em: 04 de setembro de 2016. Pegarei o rio. e por isso sou rotulada como mulher. (MELLO. que transita entre as duas citadas acima: o estado de água-mangue. Rios são seguros e inseguros. salgadas (mar). explorando ainda outra energia. Não são estáveis. desloca. Para exemplificar essas constantes divisões dualistas utilizo o filósofo e poeta Gastón Bachelard (1998). no entanto. Fonte: <goo.

Parto de uma situação autoreferente e autopoiética. mas o seu começo mesmo. arquetipicamente imposta como feminina. Fonte: <http://www.com. uma continuação. Assim sendo. consequentemente. palavra que me apropriei da poesia de Manoel de Barros. isto é. . que não está aparente. prosseguimento. para me prestar à obra. entrega final e leitura (feita por você nesse exato instante). Encontro-me em constante estado de olho d’água: lacrimal e perene. eu posso falar de nascente e estar me referindo a meio de rio. pulsões. Já o início mesmo. parindo palavras- ideias. mas. sobretudo. está no subsolo. Trata-se de uma gestação d’água. do projeto de extensão Cores Teatro. que crer e recria. Aqui eu testo e brinco com as palavras. Água do início ao fim. caminhos e percursos. de modo a não escrever só sobre mim. em seu lençol freático. mar e mangue. fala dos estados de rio. 16 A nascente é o começo aparente de rio. mas sobre coisas universais. Ou seja. poesia gostosa de recreio. afetam o meu trabalho e a minha criação dentro e fora da encenação O som que se faz debaixo d’água. 2 Somente no ano de 2016. caminho. Fala consequentemente de mim como instrumento para a escrita deste trabalho. Sou reconhecida socialmente como mulher e por isso esse jogo de vida (que acaba também sendo de morte) pra mim é tão caro e duplicado. Sou pessoa. O começo aparente do rio é na nascente. artista. Mas posso falar em nascimento e não me referir ao início aparente. porque o rio começa embaixo da terra. Acesso em: 05 de setembro de 2016. do seu descomeço. Coloco neste trabalho as relações que estabeleço com o mundo. os números de vítimas de crime de feminicídio aumentaram – e aumentarão. Onde “descomeça” o meu rio? Começo é o ato ou efeito de começar. Coloco-me aqui crua: como cria. e assim expandindo-se. e até a apresentação deste trabalho. sou cheia de canais. resolvi chamar de “descomeço”. num constante jogo de gestações expelidas.tribunadonorte. A esse real começo ao qual não vemos. A nascente de um rio nesse caso passa a ser o seu meio. o seu surgimento está abaixo do solo onde não o vemos. esse trabalho é o desaguar de um desses canais.br/noticia/rn-registra-19-feminica-dios-sa-este-ano/355090>. 57 mulheres foram assassinadas no Rio Grande do Norte. dessa relação do ser humano com a água. inconstantes e mutáveis subjetividades.2 E é por isso que esse estado (de mulher) afeta tanto as minhas vivências e experiências e. na qual a própria organização lógica produz a estrutura física que cria a si mesma. O presente trabalho fala sobre ser (inconstante e mutável) água. até o mês de agosto. onde me utilizo não apenas como uma mera referência para me expressar.

O figurino é de Elze Maria Barroso. solteiras ou não. a fotografia e a publicidade são de André Chacon. Na dramaturgia os elementos textuais. Criadas. o conceito da iluminação e operação de luz é de Priscila Araújo. O som que se faz debaixo d’água são as vozes das mulheres trans e cisgêneras. Transcendo aqui. Marcos Andruchak. em águas calmas ou tempestuosas. que pintava a si mesma porque era sozinha e porque era o assunto que conhecia melhor3. forte.Frida Kahlo. ele é ouvido de forma bastante diferente do som que se propaga pelo ar. sonoros (ambos autorais) e corpóreos poeticamente discutem o feminino e o feminismo de maneira sensível. coloco-me como material de minha pesquisa. humana e ritualística. Pensado a partir da vida e obra da artista plástica mexicana Frida Kahlo. onde substitui a também atriz Lina Bel Sena. que também foi composta por mim. quando ingressei no curso de Licenciatura em Teatro. do Departamento de Artes da UFRN é coordenado pelo Prof. dentro do universo feminino. O som que se faz debaixo d’água é peculiar. Franco Fonseca. Acabo desaguando neste trabalho sobre a potência criativa que emerge da realidade social e que busca transformar essa realidade também. estou no elenco juntamente com Antônia Delgado. a obra cênica procura trazer a angústia humana na contemporaneidade. isto é. Fernanda Estevão e Adriel Bezerra – os dois últimos também são responsáveis pela direção musical. que no seu mergu(o)lhar percebe a presença de uma entidade sagrada acompanhando sua trajetória. responsável também pela capa deste trabalho e por todas as fotografias presentes nele. pinto-me aqui. A encenação O som que se faz debaixo d’água é o segundo trabalho do projeto e trata da rede da vida e seu caminho d’água na trajetória de uma mulher. mas constante correnteza. assim como a dramaturgia. A encenação envolve ao todo nove pessoas. escrito e dirigido por Lina Bel Sena. propagação normativa. . O referido espetáculo foi o meu segundo trabalho como atriz e o meu primeiro contato com o projeto de extensão Cores. O seu primeiro trabalho foi o espetáculo intitulado As cores avessas de Frida Kahlo (2009). brancas . Pela fé. E assim como Frida. no ano de 2013. 17 Este projeto de extensão. ameríndias. pela recriação e por sua existência líquida. pans ou lésbicas). mães ou não. trata-se de potência que acaba sendo consequência e agente ao mesmo tempo. monodissidentes (bissexuais. pelo abandono. desde o ano de 2009.de toda e qualquer 3 “Pinto a mim mesmo porque sou sozinha e porque sou o assunto que conheço melhor” . as cenas intimistas buscam remeter aos sentimentos universais humanos. pelo amor. Dr. afrodescendentes. a direção é de Lina Bel Sena.

A minha gengiva é ramificação. que mesmo depois de estrear nos dias 19 e 20 de novembro de 2016. constituída por partículas subatômicas. que estiver mais próxima em um volume menor. e é por isso que a tomo aqui como propulsora para essa escrita. a 4 “A velocidade do som na água foi determinada em 1 435 m/s durante experiências realizadas em um lago na Suíça. No ar. 5 A encenação se identifica com a expressão work in process. francês. desses sons profundos que borbulham até a emersão. artes plásticas.br/ciencia/por-que-o-som-se-propaga-mais-depressa-na-agua/>. a arte que faço. e Daniel Colladon. O som que se faz debaixo d’água se propaga quatro vezes mais rápido do que no ar. tem mais elasticidade). dos povos de terreiro. Acesso em: 04 de setembro de 2016. música). Lanço por debaixo da água (por ser mais veloz) dos meus afluentes as minhas reverberações que surgiram durante o processo. As ondas (sonoras) são maiores dentro d’água. o som feito dentro d’água reage mais rápido do que no ar. tanto do âmbito social. esfíncter. . sua velocidade depende basicamente da elasticidade do meio”. ou de água. a velocidade das ondas sonoras é maior dentro dela. por tratar sobre a sexualidade. que conceitualmente carrega a noção de “trabalho em processo” e implica a presença do encenador/autor/roteirista (. ao nível do mar. continua em processo5. essa velocidade fica em torno de 331 m/s. por fazermos um teatro contaminado pela palavra-movimento. repetem o processo. cinema. movimento- poesia. A encenação trata dessas vozes. reage bem mais rápido que o ar (ou seja. performance. em 1826. em seguida. tomo-a como átomo. um teatro que partilha múltiplas linguagens em cena (dança. é ramificação de rio. Como a água.) em todas as etapas da encenação ou criação cênica.. quando comprimida. É como comparar a velocidade da reverberação da puxada de um elástico com a de um barbante. suíço. as urgências e as rotinas do cotidiano lido como feminino.com. 18 mulher. Quais os meus afluentes? Afluente é o nome dado aos rios pequenos que deságuam em rios principais. no sentido de descrever todo o processo cênico e o meu processo enquanto atriz e intérprete criadora.abril.. Aqui eu reverbero sobre temáticas urgentes que me atravessaram antes e durante o processo da encenação. “Como a onda sonora se transmite por compressão e descompressão.4 A encenação deságua reverberações urgentes. quanto do âmbito teatral. meu cóccix.” Fonte: <http://mundoestranho. Não falo diretamente neste trabalho sobre a encenação e os artistas que a compõem. Reverberações latentes. diz o físico Cláudio Furukawa. da USP. Aí o meio reage: ele expande novamente e se choca com as moléculas mais próximas. Ver mais em Work in Progress na Cena Contemporânea (2006) de Renato Cohen. latentes. tem mais elasticidade. Este trabalho se identifica com as urgências da encenação O som que se faz debaixo d’água. É esse “estica-e-puxa” que faz o som caminhar. partilha uma experiência cênica com demarcações fluídas. pelos físicos Jacques Sturm. ou seja. O que uma fonte sonora faz é comprimir a massa de ar. que.

porém uso como referência latente esta última. 2007). estar-atriz. Mas quais são os sentidos desses caminhos. Aqui eu trato da água em processo cênico e em processo de vida: metaforicamente. é rio que se desemboca no mar. Esse primeiro capítulo é lençol freático. Para tanto uso como referencial teórico as pesquisas e devaneios de Hilda Hilst (1990. . Mas não existe uma separação. dessas ramificações? Quais os cursos? Quais os meandros? É meandro abandonado? É corpo. Aqui eu falo dos meus caminhos molhados. são afluentes interrelacionados. Francisco Varela e Humberto Maturana (1997). eu tenho que mergulhar também noutros mais. Félix Guattari (1995. estuário. assim como as águas que já serão outras. sob um viés artístico-poético. germina e produz mais vida. Esse texto acaba por desaguar nessa introdução. Molhares! E assim como "ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez”6. poeticamente. que se finda 6 "Ninguém entra em um mesmo rio uma segunda vez. híbrido e mutável. pois quando isso acontece já não se é o mesmo. Suely Rolnik (1996)." Frase do filósofo Heráclito de Éfeso. Na primeira parte do trabalho – intitulada de Na fonte dos gozos e das ações – dialogo sobre noções de subjetividade e modos de subjetivação. falo também sobre alguns dos caminhos da encenação O som que se faz debaixo d’água. O rio dessa pesquisa abre com uma pré-introdução intitulada de Molhares. Existe? Como disse antes. 1992). fisicamente. arte. 1996). imaginativamente. eu em contato com a referida encenação me mutei. são inter-relações: é rio que borbulha. estar-corpo-condutor. 19 poesia que brota em mim. a Nascente aparente de nosso rio. que às vezes pára em mangue. Esse trabalho trata sobre alguns de meus afluentes. utilizando o conceito de pulsão e desejo. assim como uma folha de papel depois de molhada não é mais a mesma. Rosane Preciosa Sequeira (2010). nele expresso expectativas e pulsões poéticas. 1996. subjetivamente e pulsionalmente. É rio-múltiplo. Mas para falar deles. encenação abandonada? Sei que são questões: várias. Gilles Deleuze (1995. deságuei. 7 A subjetividade e os modos de subjetivação dentro da filosofia foram estudados por filósofos como Michel Foucault e Gilles Deleuze. pois não tenho como dissociá-los. texto poético onde introduzo essa palavra que encorpa todo o trabalho. este que por sua vez utilizo como referência neste trabalho. alagando na pulsão poética e na “autopoiesis”. São conceitos que estão presentes de múltiplas formas em pesquisas realizadas principalmente no campo da psicologia e da filosofia7. e assim sendo.

bem como também costumam ser os detentores de espaço e de legitimidade na produção do conhecimento. pois. Na segunda parte. Em estado de mangue é a terceira parte do trabalho e nela faço uma correlação dessa hidropoética desviante com o conceito de rizoma.8 Esse é o caso do próprio Bachelard. retomo a ideia de sujeito múltiplo e discorro sobre a separação de energias em femininas e masculinas. sem linearidade ou narratividade em muitos casos. explano todas as referências bibliográficas no Lençol freático. relaciono esse conceito com as encenações na contemporaneidade. pilares dos privilégios da classe dominante e geralmente opressora. Para tanto utilizo como principal referência a pesquisadora Silvia Fernandes (2010) e os pesquisadores Renato Cohen (2006) e Hans-Thies Lehmann (2013). pois ela ratifica opressões de gênero. Dentro desse assunto. enviesado pelos filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari (1995). reforçando que rizoma é a própria cena contemporânea. porém a escolha de sua referida obra deve-se por esta trazer uma concepção diferente das águas. o que se aproxima um pouco da minha pesquisa. trabalhando-as numa abordagem metafórica. retomo. porém não dou o devido destaque e os problematizo como faço com Bachelard e Jung. de linguagem polifônica. compartilho todos os termos referentes à 8 Torna-se importante destacar que faço uso neste trabalho de outros autores igualmente privilegiados e que utilizam esse binarismo dentro de suas produções de conhecimento. Problematizo autores como o próprio Bachelard e o psiquiatra Carl Gustav Jung (2000). Para finalizar o trabalho abranjo minhas considerações finais na Foz. 20 momentaneamente no texto que transcorre sobre a gestação das minhas pistas de artista. cisgêneros. a palavra molhares. Tratam-se em sua maioria de autores homens. Escorro nesse capítulo sobre como as temáticas dentro de um processo que possui discursos sociais do feminino se hibridiza rizomaticamente na linguagem teatral da cena contemporânea. essa abordagem se distancia e distingue-se do que essencialmente trabalho aqui. da “sujeita atriz”. da produção do “si” e de uma obra poética. intitulada de Olho d’água doce e salgado. No entanto. Utilizo também como principal referencial teórico neste capítulo a socióloga Berenice Bento (2014) e o diretor e pesquisador Eugenio Barba (2012). simbólica e poética. imbuídas em nossa sociedade patriarcal. . Neste capítulo escoo sobre binarismo e a importância da fluidez das energias. segundo o filósofo Gáston Bachelard (1998). poderia utilizar diversos autores para exemplificar a ambivalência de energias e os estereótipos associados a elas. utilizado por este primeiro como base teórica para suas afirmações. como exemplo utilizo a encenação O som que se faz debaixo d’água. correlacionadas respectivamente à água doce e água salgada. brancos e heterossexuais.

necessariamente. que não me toca no meio (que é nascente)? Por que alimentar ainda mais a medusa acadêmica com sons que não se propagam no vácuo? Meu som vai por debaixo d’água. deságuo o anexo deste trabalho. para soma e não apenas reprodução. e por último.. mangue horizontal. pra chegar mais rápido. Eu existo. Elas resistem. Coloco também de antemão a dificuldade que tive em acessar dentro da academia sobre mulheres pesquisadoras nas áreas das artes e da filosofia (entre outras tantas áreas do conhecimento). Ouça. Aqui é espaço horizontal: rio. que consiste na ficha técnica e na dramaturgia da encenação O som que se faz debaixo d’água. ela infelizmente – ainda – não é igualitária. Torna-se necessário debater também (para além deste trabalho) sobre a promoção de debates e reflexões que possam provocar mudanças na cultura e nos costumes de nossa sociedade. Repito: resisto.. mar. e geralmente possuem como campos de pesquisa questões pautadas nas relações de gênero e representação feminina na produção do próprio conhecimento. Neste trabalho resolvi desenvolver uma escrita poética. eu deixo de lado “o sufoco de ter que [. para só então existir” (SEQUEIRA. que me instigam e me pulsionam enquanto artista. Basta olhar a própria bibliografia deste trabalho.. que toca apenas as arestas. mas ainda não são tão divulgadas e “acessíveis” quanto a produção masculina (que se firmou ao longo de séculos). 21 “anatomia” de um rio no Glossário. p. a fim de contribuir para que as mulheres pesquisadoras se identifiquem como detentoras de espaço e de legitimidade na produção do conhecimento. beba.] explicar o tempo todo e de fazer referências a uma origem. tateie. pessoas que aprecio e que somam vozes e sons. E pra quê engessar ainda mais a academia com um trabalho de conclusão de curso “marginal”. Aqui é espaço igualitário.. coloco-me em pé de igualdade. mas comparativamente ainda são poucas. existo (resisto) aqui. pra pegar/sentir pulsão. 10). e por mais que use como referencial teórico a força das palavras-lâminas das/dos autoras/autores já citadas/os. Tal avanço passa. mastigue. digira e mije o meu som! . 2010. Elas existem. de suma importância para a compreensão de muitos termos utilizados neste trabalho. intitulado de Estuário. por mais uma efetiva inserção de mulheres nos espaços acadêmicos.

vó... pra remoer saudade do'cê! (marginália) . o descomeço: abraço gigante... pó de aresia. 22 Introdutoriamente.. dos seus cabelos longos e negros. do seu pirão. cê é índia? .vó. você me ouvia atentamente... olhos que sorriem: são poucos. olha o que eu sei fazer. são raros. meninava. . hoje bateu saudade daquele jambeiro. das mordidas cheias de açúcar.me conta uma história? naara para maria: . tô com fome! .vó. mar rosa no chão.. .

(marginália) . então lhe surge uma lembrança vaga. até ver estrelas. ali se aflora choveu de madrugada. mas aqui dentro a chuva aflora”. “choveu aqui dentro? estou ensopada”… alice tentou lembrar o que tinha acontecido. casulos e borboletas. formigas. com água até na poça de seu umbigo. bolhas. sobre o quanto ela tinha chegado pra lavar os seus problemas de fuligem. mas a chuva já tinha partido. o lume acende… lembra de ter visto um coelho e de tê-lo seguido… correu até não ter mais fôlego. dormindo depois de um dia prensado. escorrendo a essência que lhe foi sempre negada. lagartas. todos cá fora comentavam sobre a chuva. alice acordou molhada sim. de peito exposto. estava mergulhada e molhada de suor em sua cama. a essência-parida: a essência. mas leve… empoderada. acordou nua. ela se sentia amazona. de espada e escudo afogados na poça de lama em que estava deitada. bamba-bamba… ali se fauna e alice disse (sem cobranças dessa vez): “choveu lá fora. esgotada. naquele quarto abafado. parecia que tinha lutado numa batalha. mas Alice não estava acordada. ali respirou calmamente enquanto se levantava. ostras. a essência-gosma: líquida. ali sorriu felina. a fauna em seu corpo inteiro! e ali se viu molhada em mangue. ali se viu cansada… tão cansada. a flora em pelo. 23 1 CAPÍTULO 1: NA FONTE DOS GOZOS E DAS AÇÕES 1. a poça de suor era sugada pelo seu colchão.

de doçuras e iras. Se a coloca num bule. salobra – água de aparência turva. através da chuva ou de forma artificial. E devido à sua maleabilidade9. suamos. Ver em <https://www. à sua capacidade de transitar por diversos estados e se concentrar de diversas formas e proporções na atmosfera. Te amo. poluída. é que ela se torna um elemento rico também em metáforas. Antes de nossa existência material externa. A água pode fluir. Seja como a água. ou pode esmagar.youtube. lagos e ribeiras. ela é continuidade. 24 A superfície do planeta em que vivemos é constituída em sua maior parte por água. depois somos gerados em meio ao líquido amniótico e passamos uma vida inteira em constante processo de hidratação. elemento transitório que se metamorfoseia. A escritora Hilda Hilst em sua obra Alcoólicas (1990) derrama e adentra na essência líquida da Vida. bebemos H2O – fórmula da água – substância química composta por moléculas formadas por dois átomos de hidrogênio e um de oxigênio. “crua” e “generosa”. Se você coloca água numa xícara ela se torna a xícara. Além de existirem vários tipos de água: doce – água encontrada em rios. mijamos. Não sobreviveríamos sem ela. que possui grande quantidade de substâncias dissolvidas e é encontrada facilmente em regiões de mangue. Acesso em: 9 de agosto de 2016. ela se torna a garrafa. salgada – água do mar. A água também é o maior constituinte dos fluidos dos seres humanos. não tenha forma. Se a coloca numa garrafa. São duas senhoras a conversar intensamente: a Vida e ela. litosfera.com/watch?v=vBT36Td- GuY>. destilada – água onde se encontra altas concentrações de hidrogênio e oxigênio. percebendo-a como um dos principais elementos responsáveis pela vida. podendo ser produzida pela natureza. Convulsiono aqui sobre uma hidropoética dos corpos. hidrosfera e na biosfera terrestre. mineral. teu trançado rosado Salpicado de negro. como a água. A água (nos) permeia por três estados físicos principais: líquido. Vida. nós somos um possível encontro entre um óvulo e um espermatozóide mergulhado no sêmen. sólido e gasoso. A água é resistência. Porém.” Bruce Lee em entrevista realizada em 1965 por John Little. Líquida. líquida esteira onde me deito Romã baba alcaçuz. seja maleável. . essa analogia se concentra dentro do universo da hidrosfera. e assim esquecendo Fomes País O riso solto A dentadura etérea 9 “Esvazie sua mente. gozamos. descendo escorrida Pela víscera. onde a segunda nos coloca em sua poesia escorrida a liquidez e transitoriedade da primeira: Te amo. meu amigo. ela se torna o bule. Neste trabalho faço uma analogia poética entre os corpos e a água. e numa última tentativa de permanência faz amizade com ela. Cuspimos.

mangue e mar. a subjetividade do autoconhecimento. diz que estamos envoltos e conectados numa rede. em uma conversa sobre o "autoconhecimento" no programa Filosofia Pop10. já não é mais.. Esse processo de autoconhecimento não é mais abarcado pela contemporaneidade líquida. Conhecemo-nos. com a Profa. Conhecimento é ação e pensar é um comportamento. a criação da encenação O Som que se faz debaixo d’água. 25 Bola Miséria. uma autorepresentação. reflexo do que os outros também são. E uma vez identificado. E é importante. Conhecemo-nos novamente. mudamos. Interdita. Ou como diria o filósofo 10 Vídeo “Filosofia Pop: Autoconhecimento”: <https://www. a busca pela resolução das questões existenciais e por uma identidade do eu. um Mais Conquistando um fulcro potente na garganta Um látego. a própria necessidade de se fazer metáfora. A filósofa e escritora Márcia Tiburi. comida E um Mais que se agiganta. Mas é possível autoconhecer-se? O autoconhecimento é uma questão que sempre retorna e que faz parte de nossa cultura. no que realmente gostamos. Vida. identificar nessa rede quais são as nossas potências individuais. A rede está em constante mudança. uma chama. a imaginação. os meus processos dentro de outro processo. . de modo a colocar metaforicamente os processos pelos quais passamos dentro da criação artística. Ela nos diz que talvez agora a urgência maior não seja a da descoberta do nosso próprio eu. Esses processos nos atravessam e o que nos atravessa é de extrema importância para as nossas subjetivações. assim como nós. Fica difícil nessa estruturação pensarmos individualmente em quem somos.. Susane Garrido e com o Prof. invento casa. A busca por ele e por uma transcendência. pela própria “autopoiesis”.. Dra. pois estamos em constante transformação. Eduardo Guerreiro. ou seja. Amo-me. dentro dessas mutações.youtube. potência. um canto. Dr. arte. Ama-me.com/watch?v=JR2vmyG1K5I> Acesso em: 27 de outubro de 2016. inclusive artísticas. somos um “eu virtualizado”. ele pode ser substituído por processos de autodescobertas. conhecer nossos modos de ação e reação perante o mundo. mudamos. No entanto. Sou menos Quando não sou líquida. Bebendo. de fazer poesia. Embriagada.. Brincarei com a liquidez da vida e com corpos-água em diversos estados: rio. autoprodução. mas sim a de identificar dentro dessa rede as nossas potências e as potências da própria rede.

Por isso. Mas singelo. Penso. ele germina. ou seja. inclusive. algo coletivo. . A singeleza não exclui a necessidade de potência. fazem parte desse processo. afetam-me. deságuo nesse primeiro capítulo esses conhecimentos processuais subjetivos a fim de conhecer os meus próprios. afetos. bem como os modos de subjetivação – isto é. O conhecimento advindo dessas relações é múltiplo. Podemos nos descobrir através das nossas potências afetivas. os nossos processos íntimos também são resultados de algo maior. Usar-se como instrumento para pensar é anticolonizar o conhecimento. o pensamento é imanente. Mas como falar em subjetividade e não escorrer? Como falar em subjetividade e não me entregar ao próprio devaneio? Como falar de afeto e não me afetar? O que pulsa? O que o pulso deseja? 1. de uma “descoberta” por caravelas. pois quero sim fugir de uma escrita estritamente acadêmica.1 Subjetividade e modos de subjetivação A subjetividade na contemporaneidade se tornou um potente objeto de estudo por ser múltipla e mutante. Usar-se como instrumento. cultura. além de não estar condicionada a um local. 26 Baruch de Espinoza (apud NEGRI. Explano neste capítulo um singelo e suave ensaio sobre a subjetividade.. através dos encontros. é repertório que origina outras criações. não deve ser lido como um processo egóico. sociologia e psicologia. seus funcionamentos e entender (ou brincar de entender) o embrião da minha criação artística. e a subjetividade. emaranham-se aí. dentro dos campos de conhecimentos. da banda Secos e Molhados para o primeiro álbum do grupo (1973). criar e produzir também os meus processos internos. pulsão. é empoderar-se e é também falar da/o outra/o. os modos de subjetivação. Ela está sempre transitando e sendo transitada. sistema econômico ou a um determinado tempo.. “Suave coisa nenhuma”11. como a filosofia. 11 Trecho da canção Amor. Ela também é constantemente contaminada pelas tecnologias e mídias digitais. produzo mais afetos. na verdade. sou afetada. nesse caso. O conhecimento não é passivo. pois os nossos processos de descobertas individuais. escrevo e atuo pra poder inventar. é uma forma de afetar e de ser afetado. esses que geram relações de reforço mútuo. o ato de produzir subjetividades. ele é inerente aos seres humanos. ele não fica à espera de uma colonização. O conhecimento é a própria criação. Enlaço vozes que não são minhas para falar sobre tais temas e modos de existir. Afetam-me. desejo. 2003).

biológicos. Perpasso aqui por algumas dessas noções e sigo a linha argumentativa proposta por tais autores. Para Guattari (1996. grupo restrito ou classe 12 O contexto que coloco aqui é o meu. A filósofa Suely Rolnik e o psiquiatra e também filósofo Félix Guattari abordam no livro Cartografias do Desejo (1996) as diversas noções de subjetividade. . infrapessoal – que diz respeito aos sistemas de percepção. estar. andróides padronizados com ações estratificadas. existir. nascida e criada no nordeste do Brasil. no que remete às múltiplas formas de se afetar. Formando uma teia diversa de afetos. imagens. enfim. icônicos. representação. Afetar e ser afetado. enfim. onde nenhum fio possui a mesma simetria e característica que o outro. tecnológicos. ecológicos. são uma produção de massa. pois tanto implicam uma natureza extrapessoal/extra-individual – no caso. infrapsíquica. são máquinas produtoras de clichês. terceiro-mundista. fisiológicos etc. orgânicos. uma subjetividade que é essencialmente fabricada e modelada no registro social. linguística. ética. desejo. com alguns pontos de intersecção. bem como as compreensões da sua essencialidade. visual. a noção de subjetividade deve ser desvinculada da noção de indivíduo. nesse caso. econômicos. 27 Nesse sentido. nesse caso. o de mulher cisgênera. eles são descentrados na prática. sistemas que não são ligados à origem e desenvolvimento dos seres humanos. econômico e social que vivemos12. sistemas de inibição e de automatismos. visando tratar sobre o conceito da sua produção. sistemas corporais. sociais. visto que os indivíduos que vivem o recorte temporal. uma teia assimétrica. pois é possível encontrá-la em diferentes estados na natureza do ser humano. dependendo do seu meio social. os processos de subjetivação não são centrados em um único sujeito e nem em agentes grupais. Os sujeitos são tidos como totalizados dentro desse modelo de subjetividade. Será através dessa subjetividade que esse sujeito irá se relacionar com as outras pessoas. modos de memorização e de produção idéica. que diz respeito aos sistemas maquínicos. sentir. de mestiçagem estética. de mídia. Ou seja. 31). é sinônimo de “totalitarismo” que é o sistema de governo em que o Estado normalmente está sob o controle de uma determinada pessoa. valor. são fabricados e modelados desde cedo e reproduzem uma subjetividade manufaturada. dentro do contexto do capitalismo. do ambiente em que se encontra e como se desenvolve. ver. p. etológicos. racializada como parda. ou seja. além de problematizarem a dinâmica dos processos de assujeitamento e singularização da subjetividade. política e epistêmica. quanto uma natureza infra-humana. feminista interseccional. Totalização. podemos comparar a subjetividade à água. afeto. sul-americana. de sexualidade monodissidente. sensibilidade. segundo o autor (1996).

deixou um bilhete sincero. diana!” moema tinha um certo vício: por conchas. o colou com saliva na porta de seu quarto. diana. veraneios e desejos de que tudo melhore. moema escreveu para diana. Pois essa individuação durante essas atividades desaparece no processo de automatização. E dentro desse modelo social. shhhh! em silêncio de uma… shhhh! acordar cedo. nas miragens. se sentir. sim! porque aqui.não o fazemos enquanto indivíduos.as medianeras. nas pontadas. naquela semana ela estava sentindo mais dores que o normal: o seu útero doía. o acaso decidiria. inundo! e tudo vai melhorar. com memórias de quintal.entre . tudo faz mais sentido! aqui. ir ao trabalho. cozinhar e partir. Dentro desta perspectiva.acordar. diana moema viu na solidão um silêncio de concha. ver vídeos de baleias antes de dormir. pequenos frames da vida coti. ela queria pensar na dialética. travada. sua lombar doía. diana. Durante . mas sacana. num piche calmo. e se esse caísse seria apenas mais uma obra do acaso. e na nota estelar. sem perspectivas. moema queria mergulhar em silêncio. sair de casa e caminhar até a parada de ônibus. pegar a condução. (marginália) Nas várias atividades que fazemos durante o dia . é como se esse modelo de subjetivação se centrasse apenas no indivíduo. mergulhar no meu umbigo. puxei o ar e apenas mergulhei: fundo. Para deixar esse pensamento mais translúcido. apenas me deixe fazer silêncio. enquanto totalidade do ego. voltar para casa. tomar banho. quando esse é resultado/efeito/consequência do coletivo. moema só queria silêncio. in flamas. diana. rimas e notas… e a saliva ficou. cortar seus cabelos. tomar café da manhã. fundir… vir ar concha: partir. jantar. 28 social. quando nós totalizamos os sujeitos. korpo em chama. sair para a pausa do almoço. alimentar seu gato. mergulhei nas dores que tenho sentido ultimamente. aberto. seu peito e as juntas… moema-moída. queria dizer tudo apenas sem represálias. isso! contemplar o horizonte ruivo na sua varanda ordinária. é aqui que quero ficar: em mim. retornar e continuar laborando. tomar banho. trago aqui o caso da vida cotidiana em forma de devaneio: coti. acabamos por boicotá-los. mergulhei nas sarradas de mim. assistir TV e dormir . disse: “mergulhei num silêncio de concha… mergulhei no novelo de contas. na hermenêutica e no que tudo isso podia significar. pois tolhemos e podamos as diferenças e os modos de existir e de criar. enquanto se esquenta na xícara e no baseado. se por entre e de vez em quando .

36) não intervém. Construímo-nos dentro de um acervo de prescrições e de hábitos. recusá-los para construir. Portanto. a mutações de universos de valor e de universos históricos. sexualidades e etnias. a uma multiplicidade de processos de produção maquínica. mesmo que falemos de um coletivo ou de um indivíduo. p. 33) chamam de “singularização”. a produção do desejo não se cola absolutamente a essa representação do indivíduo. Mas esse indivíduo acaba sendo consumidor dos (e consumido pelos) sistemas de representação de subjetividade. das imagens. de um período histórico social das condições econômicas.] uma maneira de recusar todos esses modos de endocodificação preestabelecidos. sempre há a pretensão do ego de se afirmar numa continuidade e num poder. Às vezes esse indivíduo consegue construir pontos de fuga mediante uma situação de perigo ou numa situação extraordinária. modos de sensibilidade.. tanto no que remete a esses componentes citados acima. E por essa subjetivação partir do social. que é: [.. 29 a feitura dessas atividades a “consciência do cogito cartesiano” (GUATTARI e ROLNIK. 1996.17). p. das mídias. Sobre isso. . 31). quanto no que diz respeito às relações com o outro. p. p. p. Mas a produção da fala. (idem. Félix Guattari (1996. de certa forma.. trata-se de um movimento sempre plural. tecnológicas. na qual o indivíduo se submete a ela tal como a recebe ou pode ser manifestada por meio de uma relação de expressão e de criação. modos de criatividade que produzem uma subjetividade singular. Essa produção é adjacente a uma multiplicidade de agenciamentos sociais. a relação do sujeito com o pensamento (idem. Essa subjetividade pode ser manifestada através de uma relação de alienação e opressão. Tornamo-nos corpo protocolado. modos de produção. isto é. p. Somos causa e efeito de uma cultura. todos esses modos de manipulação e de telecomando. “Despejamos em nossa vida. fórmulas entravadas que espantam outras de qualidade mais rara” (SEQUEIRA. Tudo isso entrelaça e movimenta a nossa subjetividade que antes de ser individual é coletiva. sempre se reencontra a nome próprio do indivíduo. da sensibilidade. envoltos em teias que integram gêneros. modos de relação com o outro.] claro que sempre se reencontra o corpo do indivíduo nesses diferentes componentes de subjetivação. antes de irmos ao mais específico. 31) diz que: [.. diminuindo essa automatização maquínica que o referido filósofo nos traz. de partirmos para o indivíduo e explanarmos sobre modos de individuação da subjetividade. 2010. 5). devemos partir de uma definição ampla do que é subjetividade. ou seja. onde o sujeito se reapropria dos componentes da subjetividade produzindo um processo que Guattari e Rolnik (1996. entendendo-a numa forma coletiva.

101). a ideia de que somos água em constantes ciclos de estados. água nunca parada. da qual o sujeito é um efeito provisório. Não temos como fugir dessas reproduções e contenções. mantém-se em aberto uma vez que cada um. 30 Estamos em constante mudança. modificados e reinventados em um movimento de misturas e conexões que não cessa” (MANSANO. açudes e represas para conter e modificar nossas correntezas e/ou canais. Ou seja. 101). que podem “ser abandonados. os costumes. mas existem formas de não fortalecê-las. água-mangue. Desenvolvo aqui. 47) denomina de “processos de singularização”. E quando isso acontece. Muitas vezes tentarão fixar e direcionar os movimentos. um direcionamento da água de nosso rio/mar/mangue. água-ribeira. . fazendo dessas trocas uma construção coletiva viva. E quando ele não acontece. água-mar. nunca a mesma água. visto que está permeado em nossos modos de subjetivação) os registros de referência dominantes. podemos resistir fazendo fluir novos canais ou aumentando a força de nossa correnteza. existem formas de resistência. sempre água-múltipla e diversa: água-rio. os acontecimentos também estão. Complementando esse pensamento com a ideia de Sonia Mansano (2009. p. a construção e reprodução desses componentes desqualificam as ações que colocam a vida/nossas águas em movimento. p. essa produção de subjetividades. A esses “desvios”. Guattari (1996. Mas nessa correnteza vão existir diversas vezes automatizações de subjetividades reproduzidas pela própria coletividade. Acontece uma contenção. E esses componentes de subjetividade que também são água misturam-se e engendram-se no meio social formando uma correnteza sempre em movimento. 2009. portanto. pois a sociedade. que se dão através do desvio. os nossos processos de singularização são evaporados. quando essas referências dominantes são fortalecidas e não existe nenhum movimento de tentativa de quebra. p. E o cotidiano de cada ser é permeado por esses componentes. mas sem deixar de lado (até porque seria impossível. ao mesmo tempo em que acolhe os componentes de subjetivação em circulação também os emite. e para isso criarão barragens. elas estão em nossa sociedade.

o que estudamos (se estudamos). seja separado de sua potência. ou seja. aquilo que poderíamos chamar de ‘processos de singularização’: uma maneira de recusar todos esses modos de encodificação preestabelecidos. que nada mais são que desvios. eles assistem perplexos ao desmanchamento de seus modos de vida. por exemplo. 31 1. modos de relação com o outro. p. o que consumimos. formas de escapar das “tentativas de traduzir a existência pelo crivo dominante do capital” (MANSANO. mas resumidamente posso citar aqui dois: o nível que remete a gênero e sexualidade e o nível que diz respeito às relações socioeconômicas. 2009. Peter Pál Pelbart Podemos romper a subjetividade manufaturada/represada com fluxos de processos de singularização. são os nossos processos individuais. Eu oporia a essa máquina de produção de subjetividade a ideia de que é possível desenvolver modos de subjetivação singulares. e como reconectar um corpo com sua potência? Questões cartográficas e estratégicas da maior importância. Segundo Suely Rolnik (1996. interligados. recusá-los para construir modos de sensibilidade. deixa de funcionar como referência para a criação de modos de organização do cotidiano. modos de produção. modos de criatividade que produzam uma subjetividade singular. 22). os processos de subjetivação são laços. A experiência. múltiplos laços. normaliza-o. . É importante discernir esse processo de singularização da noção de indivíduo (egóico) desaguado no item acima. (GUATTARI e ROLNIK. as pessoas por quem sentimos atração sexual.1. os lugares que frequentamos. p. manufaturados. e da maior complexidade.1 Processos de singularização É intolerável que um corpo. quanto ganhamos. individual ou coletivo. O caráter processual e de vida de suas existências vão sendo insensibilizados (veladamente. os sujeitos são reduzidos à condição de suporte de valor. Esses processos de individuação. 38). p. porém não podemos centrar os nossos processos de subjetivação apenas em nós. E como recusar o intolerável. diga-se de passagem). segundo a autora. Ou seja. que passam a se organizar segundo padrões universais onde são serializados. 1996. os processos de singularização são barrados/interrompidos. Existem vários processos dentro da individuação do sujeito que ao mesmo tempo em que o integra à sociedade. as pessoas de que gostamos. 112). Eles também são parte da nossa subjetividade. são múltiplos e se dividem hegemonicamente em vários níveis. com quem nos relacionamos. onde vivemos… Tudo isso diz respeito a quem somos enquanto indivíduos. todos estes modos de manipulação e de telecomando.

E para ele. 36). eles são. de culpabilização. E precisamos somar linhas de rupturas a esses processos singulares. de um nada. Para isso se faz necessária a conscientiz-ação da ruptura e do desvio. p. p. nunca se saberá por quê. nem a nível extrapessoal. A uma dessas linhas. p. esses processos de subjetivação e de singularização tem mais relação com o tempo/espaço. na vida. nem unicamente em agentes grupais. Para Guattari e para o também filósofo Gilles Deleuze (1996. É o desvio. Somos compostos por segmentos que nos constituem. num âmbito mais geral. Nós estamos prisioneiros de uma espécie de individuação da subjetividade colocando o “eu” na frente desses processos. . Outras nascem um pouco por acaso.. etc. 1996. que são compostos também por linhas que se entrelaçam e compõem nossos territórios. “a criação é sempre dissidente. transindividual. algumas nos são impostas de fora. do que com o indivíduo. 32 Tendemos a pensar que a subjetividade coletiva (essa rede de subjetividades que nos conecta) é a soma desses processos individuais que cada sujeito tem e passa. com o social e com o coletivo e como nos relacionamos com tudo isso. transcultural” (GUATTARI. não se centrando unicamente num indivíduo. descentrados e ao mesmo tempo conectados uns com/nos outros. que envolvem esses sujeitos numa falsa premissa de ordem e segurança. nesse caso. como no da criação artística. um fenômeno de reificação social da subjetividade com todos os seus contra-efeitos de repressão. por exemplo. 76): [. portanto. sem nenhum modelo ou acaso: devemos inventar nossas linhas de fuga se somos capazes disso. os processos de singularização são canais de resistência e luta. já que para isso é necessário se conectar com o exterior. Segundo Guattari (1996. instituições que controlam totalmente os processos criativos de forma não colaborativa. mas não é sempre que isso ocorre na prática. pelo menos em parte. Apesar de que nesses variados campos nós podemos encontrar também sistemas de centralização hegemônica. Outras devem ser inventadas. Guattari chama de fuga ou ruptura.. Essa articulação de linhas de fuga ocorre de maneira fértil em diversos campos. são os sons que se fazem debaixo d’água. traçadas. Para ele. e só podemos inventá-las traçando-as efetivamente.] de todas essas linhas. a questão não é nos resgatarmos em nível de nossa individualidade girando em torno de nós mesmos (num processo de autoconhecimento). Essencialmente e teoricamente. 38) ocorre. sem poder desencadear processos de singularização a nível infrapessoal. mas o processo de singularização da subjetividade concentra dimensões de diferentes espécies. dentro de uma lógica burguesa e capitalista. pois em meio a uma sociedade que produz subjetividades normalizadas e manufaturadas.

é calma. bacia ou numa lagoa de captação. enfim. ● Corpo d’água: possui água em onda. com múltiplas fissuras. não se encaixam no padrão. unhas. podendo assim transbordar. Um pode também dar lugar a outro – num movimento incessante. O co(r)po pode se tornar corpo através de linhas de fuga. tempestade. que recua pra pegar impulso. para a vida em si. Essa quebra. por estes constituírem partes importantes das suas vidas. modos de criação que fortalecem a nossa correnteza. coloco aqui como exemplo esses dois processos: ● Co(r)po d’água: possui água de foco de mosquito. que se joga e quebra. Partindo disso. que é o mundo que temos. Esses processos estão interligados e podem ser simultâneos. Esses corpos podem transitar e não são de forma alguma estáticos e imutáveis. portanto. os sujeitos podem optar em nadar a favor e/ou contra a corrente. podem inclusive optar por não nadar. em calmaria suave. que ora possui movimentos sísmicos. é corpo preso. sem fissuras. É um corpo seguro. Para tornar a ideia mais translúcida. que evita sacudidas. Que foge de abalos. pode se dá de múltiplas formas e se adequar de acordo com as necessidades e/ou possibilidades dos sujeitos. Percebemos aqui corpos em constantes estados: corpos d’água.pra pegar impulso novamente. calmaria falsa da rotina. água quebradiça. presa num copo. Tratam-se de corpos contaminados pelo social e pelo seu tempo. O corpo todo… fluído. e volta . mas às vezes é também tempestade. Água maleável e solta. cheia de rupturas. isto é. ora é água que movimenta dedos. Esse corpo se acostumou com a uniformidade. pés e bunda. mas ainda em movimento. água em ondas. . pois existem diversos modos de pensar. epilépticos. O corpo pode voltar a estar co(r)po também. Esses sujeitos podem escolher também por não desconsiderar de todo os processos de individuação. podendo na prática fortalecer suas correntezas desviantes criando assim novos canais. 33 Utilizo a água como metáfora para o fluxo das subjetivações. Pois fissuras lhe são feias. que é maremoto. escorrer. transitando! Trabalho aqui a noção e a percepção de uma subjetividade viva e mutante (corpo d’água). por processos extra e infrapesssoais. num jarro. água parada. numa tentativa de desviar da constância de uma subjetividade petrificada (co(r)po d’água). e parte deste. Estes novos canais poderão servir para desviar os sujeitos dessa subjetividade manufaturada e morta de poesia e assim quebrar a/o barreira/açude: seja de dentro pra fora ou de fora pra dentro.

podemos elaborar e compor novas maneiras de experimentar e perceber os encontros. Tomo o co(r)po d’água e me embriago – ressignifico – Sou corpo d’água! Podemos. a pesquisadora Rosane Preciosa Sequeira (2010. elas exigirão de nós outras referências sígnicas. O sentido da vida são esses constantes estados de invenção. está em constante transição. vivem distraídos de si. seus modos libertinos. E ao fazermos isso entraremos em colapso. parecem nada trocar com o meio em que circulam. 69). diferentemente. sempre em estados múltiplos. Podemos inventar infinitos estados de si. 2010. nos desviar. portanto. porém a sua existência não exclui a possibilidade de múltiplos despertares e desvios. fala sobre esse processo desviante por meio de uma escrita viva. p. o corpo deseja recobrar sua sonoridade. nós podemos ser desejantes de vida. A carne confia em sua forma tosca. não existe um mar. o antes das formas. exigirão de nós linhas de fuga. É construir uma ‘câmara de ecos’. sua condição embrionária. Embora fragilizado. sua indisciplina. Podemos nos desarticular. sua impermanência. nos jogar no inesperado. valor e duração históricos. Portanto. recusam a platitude da paisagem. pois a subjetividade petrificada. que discute sobre intercessões e modos de subjetivação no contemporâneo. Inventar não é colorir o mundo. Esse corpo d’água não pode ser mapeado fixamente. nunca a mesma água. . precipitando movimentos que insistem em suas misturas e desvios (MANSANO. da anestesia. mas corar-se de mundos” (SEQUEIRA. Podemos experimentar e inventar maneiras diferentes de perceber e agir no mundo. p. pois como já disse. que convulsiona. 34 está em nós e faz parte da nossa correnteza. 2009. maquínica de outrora dará lugar a uma subjetividade epiléptica. que derivam de um destino pessoal. da toalete desnecessária. Novos componentes são recorrentemente inventados e abandonados tendo. tão exemplarmente polifônica. Potências antes não vistas e sentidas formigarão pelo nosso corpo. que ressoe o vivo e você junto. da água parada do cotidiano. mas que tem também seus momentos de calmaria. ou seja. desta forma. pulsante e cheia de devaneios: Uns. e com isso fazer conexões díspares e inesperadas. Outros. 55). enquanto seres-água. p. 111). Sobre esse despertar de corpos. numa inconstante nuança. Mas não existe um caminho feito e pronto. sair da monotonia. “Invenção é intervenção na existência movido por uma profunda necessidade. Uma subjetividade "pária da família humana". Despem-se da tepidez. Vivem como se nele tivessem sido depositados.

de ironia.desacreditada .. não quero ser gado. efervescência de banda e eu tô serena. não sou pia. mas o que .tá cá gota. até a barriga. sentir suprema. cansada. de selvageria. não quero sabe? com pressa ser gota mas não desisto no ventre.. comer com a mão.. observando.. tentando me as pernas.tá cá bixiga.. já disse. remoída. te convencer.te afoga. de sorriso não mais unha ferve.. encarnada. soando na debandando.. e não. ré presa com tesão. julgada por inconformada.. todo bendito mês! pia só a gota não preciso e sigo sangrando. falei assim suprimido. sou bixo. sou gota! mas cansei de ser gado.. . . in cisto! sangro sim. não quero ser pia! carniça amanhecida. buceta.. meu copo pingando! quase voando. e tu . bixo em contensão.. me chamam de me disse: não mais prensada. e a represa? tão canis. corro-como-fodo correndo frouxa.. me cortando (marginália) pronta pra ser mar. orelha.. mimastur_ pirei fundo: a vida azia: andando_em_bando..quero ser gota livre. debandando... do ânus . cansei! assim tão triste? . animalia: sinto é carcaça: não cede! . mas pia. e nem me engano: cheia de despesas. tá cheio.. contida.. sou solta. 35 [poesia onda] sangro todo mês: não. represa em contensão. a nuca ferve. rachando. pra onde vai oceânica.

casulo.. E com a finalidade de melhor abarcar o que se processa em nós durante esse desvio. Segundo o filósofo Baruch de Espinoza (Ética III. esse subcapítulo tem como objetivo compreender algumas das relações dos dispositivos da subjetividade e das implicações destes na condição desejante. Ele é revolucionário e essencial. o desejo nunca é cego. por isso Espinoza nos diz que o desejo é a essência humana. Ele é a causa que move as nossas ações. paixões e vontades. 36 1. A cegueira em questão não diz respeito ao objeto do desejo. passamos por processos de subjetivações porque desejamos. Pensando assim sobre as relações que se criam entre os indivíduos e dentro desse contexto pensar também sobre proposições como a pulsão. e o desejo. é a conquista. ou seja. grifo meu). Dentro dessa perspectiva nós somos movidos pela necessidade do desejo. 2008. ou seja.. (SOUZA. o filósofo Elton Luiz Leite de Souza (2008) nos diz que: Todo homem segue seu desejo. a sua relação com a poesia e o conceito de autopoiesis. p.2 Molhares: pulsão poética e “autopoiesis” Corpo-viscoso Corpo-caminho Corpo-latência Corpo-onda Corpo-arrepio Aperreio Um segundo antes da revolução. borboleta… Existe no desejar autêntico uma potência metamorfoseante. O desejo é a pulsão criadora. pois a essência do homem é a essência mesma do desejo. “Definição dos Afetos”. I). Sobre o tema. ele possui uma . a revolução desviante. o meu corpo pré-sente a pulsão Meu corpo conduíte amarelo Meu corpo cansou de ser migalha. Os processos de singularização nascem do desvio. A pulsão tem a mesma fonte. nada tem a ver com a “desmedida”. Segundo Espinoza. ela concerne ao que é o desejo: quando o desejo ignora a si mesmo. somos humanos porque afirmamos a nossa natureza desejante. embora cego possa estar o homem que deseja. nesse sentido. ele é uma força criadora. embora pouquíssimos sigam a si mesmos quando seguem o que imaginam ser seu desejo. isto tem por causa a ignorância do homem acerca de sua essência. 1. O desejo é metamorfose: é lagarta. Cansou de ser farelo. o desejo é a própria essência do ser humano.

rios. [. “Uma vez ultrapassada esta fase (do esgotamento físico). 1985:31). um desejo onde há somente pontecialização. intensas. e é o que assinala o filósofo Amauri Ferreira (2009. diria até que ela atravessa córregos. O desejo é formado dentro dessa multiplicidade do real. “Quando o ator atinge o estado de esgotamento. 37 conexão direta com a existência. 2013. o desejo está a céu aberto. Ele faz com que 13 Sobre o treinamento energético. afluentes. (idem. Ao confrontar e ultrapassar os limites de seu esgotamento físico. em campo. atravessa oceanos. mas sim ter a única certeza de que tudo que foi possível criar foi efetivamente distribuído ao mundo. por assim dizer. 249) também desenvolveram uma concepção de desejo que permeia a produção e que corresponde à pulsão de criar. estamos em constante movimento. comportada num copo d’água. trancafiado. p. provoca-se um “expurgo” de suas energias primeiras. físicas. conjuntos. limiares zonas profundas. criamos fluxos. Luis Otávio Burnier (Apud Renato Ferracini.. Somos seres desejantes. mais profundas e orgânicas. O desejo é potência… É essa a concepção de desejo que Espinoza oferece. psíquicas e intelectuais.] O desejo é a causa dessa metamorfose: as asas que nascem são a expressão de um pensar e agir livres”. tenha como única preocupação não a morte mesma.. ele não é fechado. 4). sua foz. uma organicidade rítmica própria . E essa passagem entre a essência e a existência não é linear. mangues. p. no prólogo de sua introdução à filosofia de Espinoza: Contra todo dever ser. p. ao perceber que está muito próximo da morte. ocasionando o seu encontro com novas fontes de energias. e extremamente dinâmico. p. construindo agenciamentos. correndo. que visa trabalhar com energias potenciais do ator. já que através dela podemos avaliar as nossas atividades cotidianas sempre do ponto de vista do favorecimento ou do obstáculo à fruição da vida. ela atravessa fronteiras. Eis a revolução: o desejo nos desestrutura. ele é a própria existência. é inevitável que. 2014. p. contra todo modelo de perfeição. funciona apenas como mais um estímulo para tornar-se cada vez mais fecundo e para não desviar-se do seu caminho. Como o criador é movido por um desejo contínuo de distribuir seus filhos ao mundo. Por isso que o pensamento da morte. Os filósofos Gilles Deleuze e Félix Guattari (apud ANTUNES. “A passagem para a essência do desejo é uma metamorfose. ele está nadando livre. 92). ele (o ator) estará em condições de reencontrar um novo fluxo energético. o sentimento de felicidade é a nossa maior arma no combate ao esmagamento contínuo da vida humana. a ferida não estanca. quando nele surge. ele não é estático. seus canais. e se vê no ponto de encontrar um novo fluxo energético mais ‘fresco’ e mais ‘orgânico’ que o precedente” (Burnier. de onde podemos alcançar uma vontade de criação. Criar é uma resistência à submissão. 8 apud OLIVEIRA. ‘limpar’ seu corpo de uma série de energias ‘parasitas’. e a felicidade que provém do ato criativo passa a nos guiar cada vez mais. Experimento desejo quando estou num treinamento energético13: o meu corpo convulsiona. 2000. Ele é múltiplo. 95) diz que: “Trata-se de um treinamento físico intenso e ininterrupto. ele conseguiu.

Você pode arrancar poemas com banhos De imersão. de deslocar o tecido social”15..com/2013/02/08/deleuze-desejo/> Acesso em: 2 de outubro de 2016. 15 DELEUZE & GUATTARI. tumores.” (Burnier. inserindo-se no campo social. Buchas vegetais. Tempo derretido é poema Você pode arrancar poemas com pinças. pedras são palavras calcificadas. espinhas.. devem agora. com uma agulha. o devaneio pulsa do desejo. a seu corpo e à sua pessoa.1994:33). “Anti-Édipo” Apud “Razão Inadequada” . E dentro desse olhar. .). de deixar os impulsos ‘tomarem corpo’. são capazes de fazer saltar algo. Raiva endurecida é tumor. Disponível em: <https://razaoinadequada. diminuindo o lapso de tempo entre o impulso e ação. ser dinamizados. Lágrima é raiva derretida. Mesmo cravos pretos. Se eles existem em seu interior. com as unhas. Com as pontas dos dedos. Prisão de ventre poderia um dia ter sido poema. Trata-se. cabelo encravado. Idem. óleos medicinais. Mas não. A maioria das doenças que as pessoas têm são poemas presos. Alegria endurecida é tumor. 1985:35) in (Burnier. ele “constrói máquinas que. a fim de assumirem uma forma que modele o corpo e seus movimentos para estabelecer uma novo tipo de comunicação (. 38 passe “estranhos fluxos que não se deixam armazenar numa ordem estabelecida”14.“Deleuze e o Desejo”. Lágrima é pessoa derretida. Pessoa endurecida é tumor. “Mil-Platôs”. Lágrima é alegria derretida. Palavra boa é palavra líquida Escorrendo em estado de lágrima Lágrima é dor derretida. Abscessos. Poemas sem vazão. Pessoas às vezes adoecem da razão De gostar de palavra presa. portanto. Tempo endurecido é tumor. nódulos. Dor endurecida é tumor.” 14 DELEUZE & GUATTARI. com o pente.

Uma forma de soltá-los. . dessa superfície refletora padrão. Das dobras dos dedos dos pés. [. os poema peito. nem fica abismado diante de seus inúmeros paradoxos. “fazer razão”. essa vigorosa máquina da clandestinidade. a lembrança revê.]. Com massagens e hidratação. convencer. Não se protege de suas ininteligibilidades. que se [. no viver. Ela tem que fluir. Mas não use bisturi quase nunca. no pulsar. do cantor e compositor Chico César. Endurecidos do corpo. 18). os poemas virilha. e sim nos provocar. Alicate de cutículas. a palavra. Não devemos deixar os poemas presos. 39 Com pomada basilicão. Os processos de singularização desconstroem os padrões em que nos acomodamos. extirpamos poemas do corpo através da pulsão. bagunçar nosso coreto” (SEQUEIRA. Os poema olho. Precisamos em nossos processos de singularização produzir uma subjetividade poeta18. das axilas. 17 Apropriação do verso de Manoel de Barros: “O olho vê. se não se acomodará novamente. mostramos assim que estamos vivos. o sentido. Viviane Mosé. que é via torta. p. 18 Para melhor entender o termo.] expõe ao mundo e aguenta o tranco. e a imaginação transvê. com ela nós caímos e voltamos a subir. São eles “quem nos estimula a existir de outro jeito.. desviando- se. 2010. fazemos a revolução no pulsar da poesia. Que nos desconserta.. é com ela que “transvemos o mundo”17. ser desviante. A subjetividade ao ser desviada desse modelo padrão dentro desses processos. Os poema sexo. os poema cílio. das vértebras. 16 Receita para arrancar poemas presos. É preciso transver o mundo”. Em caso de poemas difíceis use a dança..16 Indo na contramão dos “poemas presos”.. A dança é uma forma de amolecer os poemas. construindo processos de singularização. e caímos e voltamos a subir. ouvir o álbum Estado de poesia (2015). São os poema cóccix. não pode ser asfixiada ou moldada novamente numa forma familiar. Não quer explicar. Dos punhos. do quadril. pois não há estabilidade no criar.

Só? É.. por uma estereofonia que vai aos poucos sintonizando nossas regiões longínquas. poesia derretida. no sexo. discute-grita-confessa. ritmos e imagens. 21). na condução. (SEQUEIRA. 19). impulso de autocriação. esgota lágrimas. recreio! me torna simples feiticeira.. me engata. poesia- rizoma. poesia-líquida. e que começam a derreter”. p. é fim de tarde. atravessa-cospe. na fila. seja na palavra. Existe poesia seca. Poesia é composição em versos. se desdobrando. Err… Só? A poesia19 por si só não é isenta de uma padronização. estratificada. nos nós: “Pensar a poesia como ‘plataforma de lançamento’ das ideias. trabalho aqui a “autopoiesis”. é poesia-caminhos. com associações harmoniosas de palavras. mas a bala da poesia que me atravessa. existe sim poesia sem alma. (SEQUEIRA. refiro-me à poesia que não cessa nascimento. bifurcando. 2010. na imagem. na ferida. no suor. a poesia por essas bandas é inteira! (marginália) . 40 Vai misturando todos os ingredientes que recolhe em seu desitinerário a céu aberto e os devolve constelação de inventos. 2010. escorrendo no ralo. de estados. o pó da aresia me tira do meio. p. escorrendo no mijo. convoca represas. que está sempre se construindo. Só? Poesia é composição com o corpo. é rebuliço. estável. glaciais. na curva. Esse tipo de poesia não me interessa tratar aqui. conceito a priori proposto pelos biólogos Francisco Varela e 19 a rima aqui por essas bandas até pode ser fraca. gatilha-mira-encoxa. no corpo. Você sendo tragado por um redemoinho de sensações. definindo vida como potência. reconstruindo. Dentro dessa perspectiva viva.

ou seja. trabalho esse conceito por um viés filosófico. 2012. (ANDRADE. p. por relações hierarquizadas. Eles falam justamente sobre o processo biológico que acontece no corpo com relação ao meio e como o corpo e o meio vão se transformando diante dos estímulos que um gera no outro. Referem-se ao fato de que existe vida no vivo. Félix Guattari (1992) foi um dos autores interessados em ampliar o alcance da teoria da “autopoiesis” para o domínio das ciências humanas. 41 Humberto Maturana (1997). 2012. Cada indivíduo é um sistema autopoiético. coletivas e institucionais e adverte que falar em produção não significa falar em determinação por uma instância dominante. às máquinas econômicas e até mesmo às máquinas incorporais da língua. a ser usado por áreas do conhecimento como a sociologia e a filosofia. da criação estética. que se caracteriza por uma mudança estrutural contínua (que não cessa enquanto houver vida) e. Maturana e Varela propõem uma dinâmica que faz com que o ser humano possa ser criador de sua própria realidade. trabalhando com a perspectiva de vida como impulso de autocriação. Esse termo passou. devido à sua interação com o meio. juntamente com Deleuze. Segundo ele. . ele participa de um movimento criador. p. como capacidade de autorreprodução de uma estrutura ou de um ecossistema. de seu ambiente e conservação. Estamos permeados por redes de subjetividades e essas redes estão em um processo autoreferente. 1992. pois a forma como ocorre esse processo depende do meio e do contexto em que se vive. ao invés de estarem implacavelmente encerradas nelas mesmas” (Idem. que engloba também o campo ético e cultural e que estuda desde a dinâmica interna do ser vivo. Parece-me que sua noção de autopoiese. Guattari.. da teoria. de “autopoiesis”. coletivas e que mantêm diversos tipos de relações de alteridade. enquanto unidade (autopoiética) até a importância de sua interação com o mundo em que vive. poderia ser proveitosamente estendida às máquinas sociais. foi na condição de biólogos que os referidos autores formularam o conceito de máquina autopoiética para definir os sistemas vivos. 50). Segundo Humberto Maturana e Francisco Varela.] a produção da subjetividade por instâncias individuais. Trata-se de uma teoria epistemológica. pela conservação dessa recíproca relação de transformação entre o organismo (unidade) e o meio. Sobre isso. O autor diz também que “a autopoiese mereceria ser repensada em função de entidades evolutivas. ao mesmo tempo. 108). (ANDRADE. 99). p. 99).. portanto. Dentro dessa abordagem. e é nessa última que irei me focar. utilizaram esse conceito para pensar o problema da produção da subjetividade. Guattari pensa: [. A subjetividade sobre a qual escrevo aqui é uma subjetividade autopoiética. (GUATTARI. p. ou seja. todos os organismos funcionam devido a seu acoplamento estrutural.

br/2010/01/autopoiese-e- subjetividade-virginia. que se adaptam e se encontram em constante processo de mutação. não é individual. interior-exterior. . o contato com o que lhe é exterior. a ênfase na subjetividade enquanto processo.22 A subjetividade vem antes. vetores heterogêneos. que são os dispositivos sociais. pulsões e “autopoiesis” hidrícas. E de modo a pensar numa construção de subjetividades. que passam por diversos estados. sem garantia de universalidade ou de transcendência e que não abole. portanto. criado de modo a abraçar essa fluidez de pensamentos e criações. corpo-psiquismo. técnicos. Autopoiese e subjetividade . o que é o mesmo que falar em sua produção a partir de múltiplos componentes heterogêneos. etc. ocorre nesse caso. Portanto. físicos e semiológicos. ou seja. Guattari. Disponível em: <http://evolucaocriadora. o que garante a continuidade de sua existência enquanto processo. pelo contrário. sobre o território. todas elas caras à abordagem tradicional. contingente e temporário. indivíduo-sociedade. saberes. pessoal.20 Recusa-se a concepção tradicional dos processos de individuação. 22 Idem. mas é um conceito que visa exatamente embaralhar as dicotomias sujeito-objeto.com. natureza-artifício. A subjetividade não se confunde com o sujeito. Trata-se de uma pré-subjetividade. 21 Idem. A transversalidade substitui a hierarquia: a subjetividade é atravessada por diversos fatores de subjetivação como instituições.Sobre o uso da autopoiese por G.html>. que é constituída de múltiplos vetores. objetos técnicos. 42 Concebe a subjetividade em sua dimensão maquínica. é entendida como uma espécie de fechamento da subjetividade sobre si mesma. portanto.blogspot. homem-natureza. no espaço e no tempo. e dentro de um território existencial pode emergir um sujeito. o apoderamento da "relação entre o sujeito e o objeto pelo meio"21. a partir dos quais pode ganhar consistência. Fechamento pragmático. Virginia. o sujeito se desenvolve na construção de subjetividades. Destrinchar a palavra: molhar / olhares / (m)ares múltiplos olhares / olhares molhados estado de molhar 20 KASTRUP. Mas é importante notar que o acento não recai sobre o sujeito. mas sobre o processo de subjetivação. posto que a emergência concreta do sujeito. Acesso em 14 de setembro de 2016. utilizo a partir daqui o conceito de molhares. a subjetividade não nasce do sujeito. Deleuze e F. porém isso não significa que a existência do sujeito é negada.

Por forma que ele enxergava as coisas por igual como os pássaros enxergam. dessa pulsão de poesia verbo-corporal. As palavras eram livres de gramáticas e podiam ficar em qualquer posição. não podemos identificá-la materialmente. Podia dar as pedras costumes de flor. pulsões sem represas ou com represas mínimas. e coincidentemente (apesar de não acreditar no acaso) eu falava sobre mar. Quando criança. Foi a minha primeira poesia. Água não era ainda a palavra água. E tal. mas ela tem a ver com o ato de escorrer através dessa singularização de pensamentos. 43 escorrer correr és é Molhares é uma vontade. aportações e colonizações. Ela é a hidropoética em si. Mal sabia ela que o lençol freático infantil é cheio de fruições. Podia dar ao canto formato de sol. porque para ela poesia devia ser coisa de gente adulta. a professora de português da sexta série pediu que fizéssemos poesias para serem publicadas no jornal da escola. A professora não acreditou que eu tivesse escrito aquilo. “Como pode uma criança ser poeta?” deve ter pensado. era só abrir . Por forma que o menino podia inaugurar. Manoel de Barros transvia essas fruições: Por viver muitos anos dentro do mato moda ave O menino pegou um olhar de pássaro - Contraiu visão fontana. barcos. se quisesse caber em um abelha. alienígena. E. Pedra não era ainda a palavra pedra. água. As coisas todas inominadas. meu primeiro e(s)coar.

mar. E se possuímos subjetividades tão múltiplas. p. antes um sem teto ou aquele “cujo teto [.. criar e escorrer. nem fica abismado diante de seus inúmeros paradoxos. Como se fosse infância da língua. a poesia.. é estado de rio.. . 44 a palavra abelha e entrar dentro dela. p.] é a metamorfose”.. 23 Poemas rupestres. Não me parece que um poema exista pra fixar residência na morada confortável de um poeta. com energias fluídas.. que: [. onde tiver onda. Vai misturando todos os ingredientes que recolhe em seu desitinerário a céu aberto e os devolve constelação de inventos. coisa líquida. Siga por onde estiver molhado. retomo aqui a noção de subjetividade. é água não binária24. mas não qualquer subjetividade. uma subjetividade poeta. 2010. Molhares é repleto de devaneios.] se expõe ao mundo e aguenta o tranco. É “autopoiesis” escorrida. Rio de Janeiro: Record. os movimentos que faço são molhares meus. Não se proteje de suas ininteligibilidades. E meu itinerário prossegue. por que nos serializar por gêneros tão estereotipados e fixos? Por que secar? Esse trabalho é molhar meu. portanto fora da cisnormatividade. Molhares é subjetividade poeta. é o ato de germinar.23 E dentro dessa perspectiva pueril do poeta. 2007. para identidades de gênero que não sejam exclusivamente homem nem mulher. 11. a arte. estando. mangue. 21). (SEQUEIRA.. 24 Trata-se de um termo que embarca várias identidades diferentes dentro de si. pulsão escorrida.

. 45 Fotografia 1 .Cena "Gira território" (Cachoeirar). Foto: André Chacon. da encenação O som que se faz debaixo d'água.

da encenação O som que se faz debaixo d'água. 46 Fotografia 2 . . Foto: André Chacon.“Memória ciliar”.

47 Fotografia 3. .Cena "Espelhos/Jantar" (Pingo de torneira). da encenação O som que se faz debaixo d'água. Foto: André Chacon.

dói ainda. mar ia. doeu no dia! doeu? . mas se perdeu: afogada em cuspe. só o mar abraçou maria: o mar de tons e festins…o seu nome era maria martins. 48 2 CAPÍTULO 2: OLHO D’ÁGUA DOCE E SALGADO 2. perdeu o que lhe doía. vi o balde. o bicho comeu? doeu? . amar ia maria vai ao mar pra ver se ele vaia ela. o que maria não sabe é que o seu molejo de ressaca faz com que o mar sambe até ela… o cuspe. disseram que era loucura. pois veja! do meu terceiro olho eu vi você ser estuprada… vi seu vômito.amar ia sou eu! (marginália) .o que foi.comeu sua língua? doeu! . a onda… cheiro de mijo e cerveja. afogada em esperma. a gota. mas ela se perdeu. afogada em vaias. senti o cheiro da água sanitária. maria.

não é “apenas” água potável. 1998. Para tratar sobre a estereotipização recorrente desses dois estados irei pegar como exemplo (discordar e problematizar) a poética elementar do filósofo Gastón Bachelard (1998) que nos diz que a água doce é água “feminina”. no hay puentes. água não estritamente material. mas as águas que Bachelard escorre em sua obra elementar possuem tons de sons e de cores. trabalhando a imaginação em primeiro plano.1 Água-binária? Neste capítulo discorro e problematizo sobre dois estados da água: o estado de rio. que estão vinculadas aos arquétipos do inconsciente coletivo. (CÂMARA. cada um deles é já profundamente. devido ao seu caráter arquetípico. 2012. com todos os seus significados. assim um mundo se forma nos devaneios. se hace puentes al andar. portanto. a imaginação como seu referencial de análise. a uma realidade orgânica primordial. Bachelard nos propõe em sua escrita uma análise da água por uma perspectiva que descubra o seu temperamento artístico. remetido ao “feminino”. que Bachelard . A sua filiação com os quatro elementos. Essa última que é afluente da visão. Sugerem confidências secretas e mostram imagens resplandecentes. como princípio de excitação direta do dever psíquico. mas metafórica e sinestésica. ou. e que por sua vez. a um temperamento onírico fundamental. Todos os quatro têm seus fiéis. 5). 49 Caminante. mais exatamente. 230). em que Bachelard escreve sobre uma concepção diferente de água. (BACHELARD. Bachelard traz. a seus contornos e formas. acreditamos ser fiéis a uma imagem favorita. e o estado de mar. um sistema de fidelidade poética. trata-se do fio que conecta nosso psiquismo ao cosmos. p. Todos os demais elementos prodigalizarão semelhantes certezas ambivalentes. Bachelard contrapõe dois modelos ou paradigmas da imaginação: a imaginação material e formal. cheiros e gostos. Já a imaginação material produz imagens de profundidade. Introdutoriamente ele fala sobre imaginação e matéria. Gloria Anzaldua 2. Acostumamos-nos com a ideia de que águas (no plural) devem ser insípidas. Neste trabalho utilizo o livro dedicado às águas. incolores e inodoras. Ao cantá-los. remetido ao estado “masculino”. a água salgada é a “masculina”. ponto central de sua concepção estética elementar. materialmente. segundo o autor. intitulado A Água e os Sonhos - Ensaio sobre a imaginação da matéria (1998). restrita aos caracteres superficiais do mundo. p. quando na verdade estamos sendo fiéis a um sentimento humano primitivo.

fala sobre supremacia da água doce. p. em discorrer e discordar sobre a naturalização da disjunção de gêneros. faz uso de características associadas naturalmente aos gêneros para tratar das águas. as águas compostas. Por isso. bem como na relação que esse sancionamento binário de gêneros influencia no nosso pensar e agir social. 1998. retomadas pelas práticas alquímicas. enquanto a matéria é uma condutora da produção de imagens. E em seguida ele classifica essas águas como: águas claras. 481). No entanto. enfim. filosófico. Essa cólera. (BACHELARD. Todavia. nos nossos modos de subjetivação e “autopoiesis”. . A imaginação material não é inerte. A água violenta para o referido autor. conhecido por ser o criador da teoria cosmogênica dos quatro elementos clássicos. por exemplo.faz uso desse binarismo para falar sobre energias bem específicas. e por fim trata sobre a água violenta. a moral da água. Bachelard . E apesar de concordar sobre a multiplicidade e transitoriedade das águas que este trabalha. Tornando-se má. ou seja. passiva e desenergizada. a água violenta é logo em seguida a água que violentamos. dentro também dessa configuração arquetípica que o próprio Bachelard trabalha. muda de sexo. O sonhador bachelardiano é engajado e comprometido com as matérias do mundo e nesse caso. torna-se masculina. bem como "a água pesada" no devaneio do poeta Edgard Allan Poe. através de um viés hídrico. 25 Filósofo e pensador pré-socrático grego. dormentes. artístico. Segundo a socióloga Berenice Bento (apud DIAS. em sua violência. identificam o masculino como algo atribuído ao homem e a feminilidade como um atributo da mulher. as águas amorosas. é colocada como “masculina”: A princípio. os arquétipos são uma espécie de imagem da matéria. Um duelo de maldade tem início entre o homem e as ondas. a água maternal e a água feminina. procuro investigar essas noções de masculinidade e feminilidade longe de qualquer referente biológico. incluindo os referenciais feministas. fala sobre as condições objetivas do narcisismo. a água recebe facilmente todas as características psicológicas de um tipo de cólera. ocupo-me. 2014. primaveris e as águas correntes. A água assume um rancor.homem branco e cis . o homem se gaba rapidamente de domá-la. 226). p. colocados numa lógica binária e como esses se relacionam com as energias. (CÂMARA. 50 identifica com os quatro elementos das intuições primitivas de Empédocles25. o complexo de Ofélia. 2012. p. as águas profundas. a água assume uma cólera específica. discorre sobre o complexo de Caronte. o nosso léxico é extremamente pobre e binário e que o que chamamos de masculinidade talvez pudesse ter outro nome. fala-nos sobre pureza e purificação. Em muitas bibliografias. ainda hegemônicos em larga medida. não procuro investigar nesse trabalho sobre a subjetividade pictórica de Bachelard. as águas mortas. 20).

“feminina”: Quando tivermos compreendido que toda combinação dos elementos materiais é. mas a imagem de uma determinada mulher. toda vez que me referir ao feminino ou ao masculino. e o lado masculino da personalidade da mulher. para o inconsciente. examinada a fundo. os arquétipos são imagens incrustadas profundamente no inconsciente coletivo da humanidade. poderemos perceber o caráter quase sempre feminino atribuído à água pela imaginação ingênua e pela imaginação poética. é um precipitado que se formou de todas as impressões causadas pela mulher. Jung também delimita energias às estereótipos binários: Cada homem sempre carregou dentro de si a imagem da mulher.ou melhor . Ou seja. Portanto. isto é. A fonte é um nascimento irresistível. p. é uma massa hereditária inconsciente. que no nosso sistema social hegemônico são sancionadas e fixadas como “femininas” e/ou “masculinas”. indicar como uma mulher deveria ser dotada do . 19) Aqui procuro investigar as energias. o lado feminino da personalidade do homem. gêneros com referenciais biológicos. como sonhos e até mesmo narrativas. A visão arquetípica é um conceito explorado em diversos campos de estudo. que no inconsciente coletivo são. ligando gênero a energias bastante específicas. de imagens universais que existiram desde os tempos mais remotos". que constrói e escorre essa imaginação material através de imagens de profundidade. psiquiatra e psicoterapeuta que fundou a psicologia analítica. não é a imagem desta determinada mulher. refletindo-se (e projetando-se) em diversos aspectos da vida humana. e que "no concernente aos conteúdos do inconsciente coletivo. estamos tratando de tipos arcaicos . 16). como transparece em boa parte das bibliografias pesquisadas e na obra do próprio Bachelard. a qualquer tempo. A água é uma matéria que vemos nascer e crescer em toda parte. é um “tipo” (“arquétipo”) de todas as experiências que a série dos antepassados teve com o ser feminino. Bachelard faz uso dos arquétipos segundo a visão de Carl Gustav Jung (2000). Essa imagem. mas dentro da psicologia analítica. significa a forma imaterial à qual os fenômenos psíquicos tendem a se moldar. Se já não existissem mulheres. é um sistema de adaptação transmitido por hereditariedade. e não aos gêneros binários. que estão vinculadas aos arquétipos do inconsciente coletivo. Para Jung (2000. gravada no sistema vital e proveniente de eras remotíssimas. Veremos também a profunda maternidade das águas. portanto. 51 Bem como a água doce é colocada como maternal e pura e. de acordo com a lógica binária e biológica dos gêneros. um casamento. (BACHELARD. que por sua vez também estão vinculadas à intuições primitivas que naturalizam e ressaltam binarismos. A água faz incharem os vermes e jorrar e as fontes. seria possível. Essas imagens primordiais para Jung desmembram-se em anima (que no latim significa “alma”) e animus (“espírito”). estarei me referindo à energias bastante específicas e transitáveis. 1998.primordiais. p. um nascimento contínuo. respectivamente.

.. A experiência. para manipular energias e organizar um discurso físico no tempo e no espaço. 26 “Energia: do grego enérgeia. este trabalho vai na contramão.). A essa imagem denominei anima. Vigor físico. com a sua força nervosa e muscular.. anima e animus tratam-se dos aspectos inconscientes de um indivíduo. pois defendo aqui a liberdade da existência para além dessa lógica binária. pactuo com a posição do filósofo Guattari (1992. p. potência ativa do organismo (. pois também ela carrega igualmente dentro de si uma imagem inata do homem.. liberado dos grilhões familialistas. mais do que inconsciente de estrutura e de linguagem. então. o corpo da/o artista é um corpo em “estado de representação”. de Eugênio Barba26. a capacidade de um sistema de realizar um trabalho”. 2015. 23) que diz ter optado: [. firmeza de caráter e resolução na ação (. 2012. mais voltado para práxis atuais do que para fixações e regressões em relação ao passado. p. (BARBA. de extensão e de consistência maiores ou menores.. 2009. além de discordar que esses estereótipos estejam ligados e fixados ao nosso inconsciente. (JUNG.. nos ensina a sermos mais exatos: é uma imagem de homens. um corpo preparado tecnicamente para “dizer”. Inconsciente. Essa energia da/o artista possui relação direta com a vida. Inconsciente de Fluxo e de máquinas abstratas. que faz uso dessa abordagem. p. p.72 apud HADERCHPEK. porém. estritamente metafísico.] por um inconsciente que superpõe múltiplos estratos de subjetivações. Em relação ao consciente-inconsciente. também a emprego no sentido utilizado no Dicionário de Antropologia Teatral. mais “esquizo”.. Ambos os autores fixam os seres em dois tipos bastante taxativos. enquanto que no homem se trata de uma imagem da mulher.72 apud HADERCHPEK.). inconscientemente. ela constitui uma das razões importantes para a atração passional ou para a repulsa. que se manifesta como vontade e capacidade de agir (. Para Jung e consequentemente para Bachelard. energia de um sistema. . 2015. força dinâmica do espírito. Visto esta imagem ser inconsciente. o termo “energia” que emprego neste trabalho não possui um significado arquetípico. 120). 120). que deriva de érgon (obra. E o fato de estarem ligados ao nosso consciente são por motivos meramente sociais e culturais. (BARBA. 2012.). O mesmo vale também para a mulher. opostos aos aspectos do consciente de sua personalidade e que são utilizados frequentemente como polos energéticos. estratos heterogêneos. nem tampouco.. especialmente dos nervos e dos músculos. Na física. trabalho). 52 ponto de vista psíquico. Já em relação aos pólos energéticos. Mais especificamente dentro das artes cênicas. que influenciam também os nossos modos de subjetivação. na pessoa amada. p. 210). será sempre projetada. p. possui relação direta com a potência ativa quando essa pessoa está em “estado de representação”. tomando como ponto de partida essa imagem inconsciente.

Então. é se “recompor” em sua singularidade individual e coletiva. p. O nascimento. no vazio de uma modernidade exangue. com as formas vivas e com as formas inanimadas são. grifo meu). É ao mesmo tempo empoderar minorias e aqui não me refiro apenas às minorias de gênero. maquínicas de todas as formas. religiosas. 1996 apud BRITO. às quais as desterritorializações técnico-científicas. de mar. Mas o que podem esperar é reconstruir uma relação particular com o cosmo e com a vida. de mangue. polifônicas. buscando novos tipos de vida (GUATTARI e ROLNIK. Essa subjetividade em estado nascente – o que o psicanalista americano Daniel Stern denomina “o si mesmo emergente” –. O gênero nesse enredo social que vivemos produz opressões. panela de pressão. Ela forma uma espécie de singularização existencial ligada ao desejo de viver. (GUATTARI. seria instaurar e assinalar um modo padrão de ser. 53 Essa energia. minorias sociais que carregam em seu seio (seja ele seco ou cheio) também problemas relacionados a gênero. para além dos estratos organicistas. o amor. com suas combinações heterogêneas. mas às minorias étnicas. a “subjetividade desterritorializada” torna-se uma máquina de guerra. tornando-se uma trama e ao mesmo tempo quebrando toda e qualquer binaridade. outras sexualidades possíveis. a relação com o tempo. urbanas. cabe a nós reengendrá-la constantemente. 1992. o desejo. Re-singularizar as finalidades da atividade humana. fazê-la reconquistar o nomadismo existencial tão intenso quanto o dos índios da América pré- colombiana (sic)! Destacar-se então de um falso nomadismo que na realidade nos deixa no mesmo lugar. também é energia hídrica. para aceder às verdadeiras errâncias do desejo. a morte. A ideia não é demolir gênero. dentro dessas divisões. é ser água livre. Colocá-las como energias primordiais. mas da restauração de uma “Cidade subjetiva” que engaja tanto os níveis mais singulares da pessoa quanto os níveis coletivos. inesperados. pois ela é aquilo que está em descentramento. de subjetivações livres. trata-se de todo o porvir do planeta e da biosfera. ao controle. . que vejo como caldeirão borbulhando. São energias complementares que se inter-relacionam e dividi-las em categorias de gênero seria empobrecê-las. novos. conduíte amarelo de eletricidade. ela passa por diversos estados: estado de rio. 170. de existência. miraculosos. saltando para além dos modos significado e significante. A vida de cada um é única. de construir outros modos possíveis de mundo. fissurando os corpos disciplinados. também! Poderiam os homens restabelecer relações com suas terras natais? Evidentemente isso é impossível! As terras natais estão definitivamente perdidas. nos incitam. 21). que escapa ao dado. ou seja. Não se trata mais aqui de uma “Jerusalém celeste”. De fato. O filósofo Guattari entende que essa a desterritorialidade apresenta novos modos de vida. mas sim de não ter a obrigação de corresponder a um estereótipo de gênero. é energia transitória e não fixa. como a do Apocalipse. 2012. para um olhar depurado. com os elementos.

Assim como pela minha cama Vejo questões de cor e gênero. enfim. Mas eu. icônicos. ecológicos. que tem a possibilidade de fluir para todos os espaços e direções. de mídia.. de valor. Isso ou aquilo. os processos que não são centrados nesse único sujeito e nem em agentes grupais. 54 Menino ou menina. A árvore da raiva possui tantas raízes Que os galhos despedaçam Antes que se sustentem. para além da individuação da subjetividade. quanto uma natureza infra-humana. de imagens. de afeto.correr na fluidez… Estar… Molhares para além do binário. no caso diz respeito aos sistemas maquínicos. infrapsíquica. tecnológicos. E as mulheres não notam nem rejeitam Os pequenos prazeres de sua escravidão. ou seja. que sou limitada pelo espelho. És . feminino ou masculino. econômicos. sistemas de percepção. de sensibilidade. Uma balconista quase branca Passa e atende os irmãos primeiro. macho ou fêmea. Audrey Lorde 2. Ser poesia hídrica… Fazer (também) arte hídrica. etológicos. “OU” riscado… “E” em aberto… Ir em aberto… Além. E sento aqui me perguntando Quem vai sobreviver a todas Essas Libertações. “Autopoiesis” molhada. infrapessoal. de representação. que tanto implicam uma natureza extrapessoal/extra-individual. sociais.. modos de . Sentadas em Nedicks As mulheres se agrupam antes de marchar Conversando sobre as garotas problemáticas Que são contratadas para libertá-las. homem ou mulher.2 Eu-rio? Ri-acho! Mesmo se tratando de energias superficialmente denominadas de “femininas” e “masculinas” não podemos excluir os processos de subjetivação dos indivíduos que escoam por trás dessas denominações. de desejo. sistemas que não são mais imediatamente antropológicos.

pessoa do gênero feminino… fêmea! E essa leitura influencia a forma como me afeto. 55 memorização e de produção idéica. é complicado. eu também não. Os temas relacionados às populações são sempre tratados em função da ideia do masculino/homem e feminino/mulher. E ao contestarmos. Eu não sei se poderíamos falar em pós-gênero. por exemplo. pois sem uma população não há Estado. sistemas de inibição e de automatismos. considero esse sistema de gênero falho.. para as mulheres negras.. essa afirmação possui uma força impressionante na nossa sociedade. A biopolítica tem como alvo o conjunto dos indivíduos. Porém. é uma máquina de produção em série de seres humanos. eu não sei. orgânicos. como me represento. como me veem. o que deve ser feito? Em relação a isso Berecine Bento (apud DIAS. se tem vagina. periféricas. ele serve para construir corpos. qual o problema? Estamos ainda no campo das demarcações. Talvez fosse melhor falar em um conceito de gênero renovado. Existe dentro dessa teia um conjunto de dispositivos linguísticos. médicos. um modo de exercer várias técnicas em uma única tecnologia. As práticas disciplinares utilizadas antes visavam governar o indivíduo. As coisas têm nomes. Mas se o menino quer brincar com coisas de meninas. terceiro-mundistas. pois significa que “eu não sou um homem”. 485) nos diz que “nós temos alguma coisa que chamamos de gênero e algo novo só poderá ser produzido a partir desse velho esquema conceitual”. ele não me serve. religiosos que se retroalimentam desse binarismo. “sapatas masculinas”. 2014. (. a população. Ou seja. Ele permite o .. Se tem pênis. estar numa e depois estar noutra. Eu proponho a ideia de "libertar o conceito de gênero do biopoder". sistemas corporais. mas o que vem depois ela não sabe. Quando afirmo: “sou uma mulher”.. Mas afinal. p. Mas não é simples.) Biopoder é uma tecnologia de poder. que se organizam e se estruturam a partir de uma afirmação sobre o “ser”. E enquanto “ser” lido como mulher. com minhas naturezas extra e infrapessoais serão lidos como mulher. p. O gênero é um elemento que fundamenta a política do Estado. enfim. posso falar dessa energia lida como feminina. 485). temos que partir do que temos. para as “bixas afeminadas”. travestis. para que serve o gênero? Segundo Berenice Bento (apud DIAS. marginalizadas. para os homens trans. Como seria uma era pós-gênero. é mulher. Dentro dessa perspectiva biopolítica27 a questão de gênero é central. mas o meu eu-social. ele só produz exclusão e sofrimento. Ou seja. há coisas de meninos e coisas de meninas. biológicos também e fisiológicos. posso transitar entre essas energias. (idem).] O que temos hoje não serve. como seria o gênero. 2014. [. problematizarmos e desnaturalizarmos essas 27 “É o termo utilizado por Foucault para designar a forma na qual o poder tende a se modificar no final do século XIX e início do século XX. não serve para as mulheres trans. é homem. E para ambos o casos você deve ser heterossexual.

se é masculino ou feminino. na regulação do corpo. p. 56 questões. que inclusive. o que é uma identidade de gênero? Uma forma de sentir/viver o mundo como homem e como mulher? O que é um campo emotivo feminino ou masculino? É um jeito de controle de populações inteiras. sistemas reprodutores. buscando libertar o gênero do biopoder que produz identidades a partir de um processo extremamente violento. esse gênero foi determinado antes mesmo do nascimento da criança. Posso brincar de gênero. . determinam para a sociedade o nosso gênero. mais doce). Trata-se de um protocolo de gênero e sexualidade que temos que cumprir. posso brincar com as energias. 483): Essa luta. da alimentação. A nossa biologia. na proteção de outras tecnologias. um discurso claramente racista atualmente é punido como crime. de acordo com a nossa biologia. Da mesma forma como se defendia que a cor da pele predispunha as pessoas a pensarem e agirem de determinada maneira (claro. da sexualidade. O gênero ainda é um marcador de diferenças que produz opressões. o masculino é mais forte que o feminino. sistemas hormonais. na medida em que essas se tornaram preocupações políticas”. para dizer que os/as negros/as não pensavam). dos costumes. Ora. justificando-a com um discurso de “naturalidade”. aliás. Em uma era onde o poder deve ser justificado racionalmente. penso em ficarmos com a dimensão da fluidez e combater as supostas determinações biológicas para explicação de nossas subjetividades e desejos. Fonte: <http://www. Desde crianças somos ensinadas/os a agirmos e a termos uma determinada aparência de acordo com o gênero que nos é designado no nascimento. Acesso em: 09 de novembro de 2016. posso ser água livre nesse rizoma hídrico. dialoga intensamente com a experiência histórica da luta pelo fim do racismo e da escravidão. da natalidade. o biopoder é utilizado pela ênfase na proteção de vida. está intimamente ligado às identidades sexuais. e consequentemente. estaremos e estamos. Os biopoderes se ocuparão então da gestão da saúde. porém esse nível de comportamento muda de acordo com cada cultura. ou seja. nossos órgãos genitais.ufrgs. Desde então se inicia a doutrinação de gênero. a meu ver. que por sua vez é mais frágil. Caso tenham feito uma ultrassonografia.br/e-psico/subjetivacao/espaco/biopolitica. 2014. da higiene. não posso deixar de lutar pelo esvaziamento do seu discurso opressor (homem sobrepõe mulher. Existe hoje uma luta (ainda pequena) pelo fim do gênero no sentido binário que vigora há séculos. Para Berenice Bento (apud DIAS. nesse contexto. Embora saibamos que a cor da pele é um operador para distribuição dos corpos na estratificação social. nosso comportamento.html>. Isso pode nos colocar diante de novos desafios para pensarmos que. não terá muito sentido falarmos de identidade de gênero. Não posso deixar de lutar pela abolição dos estereótipos de gênero. nós estaremos defendendo o radical direito à autodeterminação de gênero. Quando penso na abolição do gênero. etc.

Visto isso é muito comum associações de energias mais passivas (yin .ebanataw. tratam-se de comparações grosseiras e equivocadas. desde que duas substâncias elementares se unem. Segundo os chineses. que tem como fundamento o diagnóstico e o tratamento.. tratando-as respectivamente como rio e mar. Essa divisão transpassa até outros elementos quando ele discorre sobre as complexas combinações dos elementos imaginários. a claridade. conceito fundamental da Filosofia e da Medicina Tradicional Chinesa. Essas energias ambivalentes.com. o mundo é composto por forças opostas e achar o equilíbrio entre elas é essencial. Partindo dessa ideia.que aqui coloco como mar) ao masculino. desde que se fundem uma na outra. pois o Yin-Yang trata do equilíbrio de energias. erroneamente representados por muitos autores como a lua e o sol ou como o feminino e o masculino. mas também de seus movimentos perpétuos. torcermos.] é que tal mistura constitui sempre um casamento. dentro da sua poética elementar das águas. Energias e devires que se cruzam e se cruam nesse rizoma hídrico. estão presentes em diversas culturas.. elas se sexualizam.br/roberto/fengshui/fsr9. como é o caso do Yin e Yang. independente de gênero pode transitar por esse rizoma. contorcermos a noção de gênero e de identidade de gênero. ser contrárias para duas substâncias é ser de sexos opostos. Se a mistura se operar entre duas matérias de tendência feminina.que aqui coloco como rio) ao feminino e energias mais ativas (yang .C. como é o caso da água e do fogo ou da água e da terra. a partir de agora não irei mais tratar essas duas energias catalogadas como “feminina” e/ou “masculina”. em seu livro A água e os sonhos (1998) faz essa divisão de gêneros de cunho dualista e dominante. Com efeito. Só sob essa 28 Fonte: <http://www. Na ordem da imaginação. molharei-as. ele diz que para esse cunho dualista da mistura de elementos pela imaginação material existe uma razão decisiva: [. As primeiras referências de Yin e Yang se encontram no I Ching (O Livro das Mutações) escrito aproximadamente em 700 a. que parte da premissa de que todos os fenômenos podem ser reduzidos ao Yin-Yang. pois qualquer pessoa. como a água e a terra. veremos que essa categoria tem cumprido o mesmo papel da noção de raça: produção incessante de hierarquias assimétricas e desiguais.28 Porém neste trabalho não trato apenas do equilíbrio entre essas energias. O próprio Gastón Bachelard. mas complementares. O yin representa a escuridão e o yang. .htm>. pois bem! — uma delas se masculiniza ligeiramente para dominar sua parceira. Sobre essa última combinação. colocando a água maternal e doce como feminina (o rio) e a água violenta como masculina (o mar).. 57 atuar na vida? Se tensionarmos. Acesso em: 02 de novembro de 2016.

enfim. 1998. cisgêneros e ocidentais. que em geral são brancos. . tanto para homens quanto para mulheres. Dentro dessa estratificação social outros gêneros (que não o masculino cisgênero). Utilizo esse extrato da obra de Bachelard como exemplo. antropólogos. dramaturgos. é dominante e estratificadora. héteros e cisgêneros possuem a supremacia sobre outros gêneros e sobre outras orientações sexuais. Essa associação de sobreposições de forças masculinas é subjugadora e opressiva. onde sistematicamente essas pessoas são classificadas hierarquicamente. 58 condição a combinação é sólida e duradoura. mitológica. cultural. só sob essa condição a combinação imaginária é uma imagem real. e está presente no modo de pensar social. outras orientações sexuais (que não a hétero). histórico. e consequentemente filosófico da nossa sociedade que ainda é androcêntrica29 e heteropatriarcal30. ela foi fundamentada ao longo de séculos de opressão de gêneros. e a depender da nossa localização geográfica. entretanto. 100). porém existe uma lista vasta de filósofos. (BACHELARD. o patriarcado tem-se manifestado na organização social. 30 Trata-se de um sistema sociopolítico em que homens adultos. pois ele fala diretamente sobre a poética das águas em cima de uma sustentação de binarismos e opressões. outras etnias (que 29 Trata-se da tendência quase universal de se reduzir a raça humana ao termo "o homem". exemplo clássico excludente que demonstra um comportamento androcêntrico. Historicamente. político e econômico de uma gama de diferentes culturas. mas também à forma com a qual as experiências masculinas são consideradas como as experiências de todos os seres humanos e tidas como uma norma universal. que majoritariamente são homens. autoridade moral. Ela ocorre quando as diferenças dominantes levam um determinado grupo a um status de poder ou privilégio em detrimento de outros. Essa associação da água dominada feminina e da água dominante masculina. e que perpetuam esse tipo de opressão (das mais escrachadas às mais veladas) em suas obras. pensadores. Esse termo está intimamente ligado à noção de patriarcado. cientistas. sem dar o reconhecimento completo e igualitário à sabedoria e experiência lida como feminina. privilégio social e controle das propriedades. toda união é casamento e não há casamento a três. p. que carrega confortavelmente sua posição de privilégio em nossa sociedade. Pode ocorrer de aparecer um ou outro fora desse padrão mencionado. eles mantêm o poder primário e predominam em funções de liderança política. bem como dessa separação por energias não é arquetípica. alquímica. ancestral ou primária. legal. mas ainda assim continua sendo um homem. No reino da imaginação material. não se refere apenas ao privilégio dos homens. econômico. protagonistas da nossa história ao longo de séculos .

outros desejos: o rizoma é esta produção de inconsciente mesmo”. Principalmente quando esta se propôs a usar “energias femininas” em seu processo de montagem. E essas arborificações estão presentes nos modos de subjetivação. e consequentemente. comportamentos associados com a masculinidade e feminilidade. . mas em quase toda a bibliografia pesquisada neste trabalho (de forma direta ou indireta). Essa divisão de energias está diretamente ligada aos padrões sociais e orientações subjetivas de gênero que dividem num conjunto. com ele. Ou quando esta. inscrevem-se nas próprias criações artísticas. GUATTARI. novos enunciados. econômicos. por uma necessidade do coletivo composto em sua maioria por mulheres (As atrizes Antonia Delgado e Fernanda Estevão – que é uma das responsáveis pela 31 São as religiões monoteístas cuja origem comum é reconhecida na figura de Abraão ou possuem um reconhecimento de uma tradição espiritual identificada com ele. 27). não só na obra de Gáston Bachelard. cristianismo e islamismo. O que destaco aqui são as dinâmicas de mudanças. Eles dizem que o inconsciente não precisa ser arborificado. culturais. (DELEUZE. 1995. p. p. A água permeando o inconsciente para se materializar. com raízes presas. a questão não é nunca reduzir o inconsciente. entrelaçados em nossos meios sociais. 32 Os filósofos Deleuze e Guattari (1995.. É como se o devaneio. Exemplos de religiões abraâmicas: judaísmo.] para os enunciados como para os desejos. 59 não a branca caucasiana). caule que cresce livremente para todas as direções. permeia a (re)construção de novas subjetividades. divididas entre “femininas” e “masculinas”. A questão é produzir inconsciente e. com ele. em maior ou menor escala. a “verdadeira” poesia despertada viessem dos sonhos. ou seja. do inconsciente coletivo binário. A questão é produzir inconsciente e. ele pode ser rizoma. históricos. contemplando também as energias. a questão não é nunca reduzir o inconsciente. interpretá-lo ou fazê-lo significar segundo uma árvore. nos arquétipos. Mesmo que esses comportamentos e componentes que distinguem os gêneros variem de uma sociedade para outra. eles são apartados com características bem definidas e padronizadas. e consequentemente ligado a uma polarização de energias. 27) dizem que “[. outras religiões (que não as de origem abraâmicas 31) são subjugadas. grupo ou sistema social. As críticas ao binarismo encontrado. outros desejos: o rizoma é esta produção de inconsciente mesmo. interpretá-lo ou fazê-lo significar segundo uma árvore. Desconstrução e desnaturalização do que se é feminino e/ou masculino. Bachelard em sua obra relaciona o “despertar” imaginativo a algo que considera ser inerente ao ser humano. presente no inconsciente coletivo. desconstrução e desnaturalização que ocorrem nessas teias socioculturais e subjetivas.. surgiram de inquietações minhas durante o próprio processo da encenação O som que se faz debaixo d’água. e os padrões sociais de gênero as acompanha. Ele nos arborifica32. novos enunciados. Para os enunciados como para os desejos.

sobre violência. atuando. o corpo feminino passando por violências. existir. Ela é transitória e não fixa. seja no corpo ou numa poesia feita na noite anterior ao ensaio. mangue. Escrevo porque é urgente. decidiu falar em sua dramaturgia sobre o “sagrado feminino” tocando em assuntos como a fertilidade. percebia também a necessidade dessa afirmação.. rotina. é poliforma. o ventre feminino (o útero). uma perspectiva hídrica rizomática. que no todo ou em parte. sobre mulheres.. pois não cabe aqui. Essa bifurcação passou a me incomodar. é energia hídrica. importante ou não. na masturbação. que homens podem ser “afeminados”. Escrevo muito sobre ser mulher. no contexto social e histórico em que estamos inseridas. do corpo nu à mostra.. mas também homens trans. Porém. galopando. Escrever para além de gêneros. mesmo em espaços que consideramos “libertários”. canto e poesia. Molhares surgiu desse exercício cotidiano. correndo e caindo. Eliminar os estereótipos de gênero possui uma ligação direta com o meu trabalho artístico. As minhas inquietações foram sendo levadas para o processo. porque preciso vomitar. que mulheres podem ser “viris”. desse grito em voz. levantando. horizontal e não possui uma . não mais reforçando. que passa por diversos estados: rio. Mas espero o dia em que eu apenas escreva e pulse com minha arte sobre o estar. Espero o dia que isso não mais importe. pelo menos tentando não mais reforçar. quando percebia que mulheres também tem pênis. que nos oprime. quando percebia que as energias que transitam. com energias fluídas. pois percebia que o sagrado. possui um crescimento polimorfo. pois percebi que essa divisão estratifica ainda mais os nossos processos de singularização. pode ser visto ainda assim de múltiplas formas. de uma imaginação rizomática. ribeira. como o estupro. a buceta. correndo – de si. a iluminadora Priscila Araújo e a figurinista Elze Maria Barroso) – e dirigido por uma também (Lina Bel Sena). o nascimento. seja na fala cotidiana. opressão masculina. dos outros. Mas espero pesquisando. pois infelizmente ainda a tratamos como assunto delicado. e às vezes eu sei que escapa. as energias em cena não precisavam ter gênero. necessário. de “autopoiesis”. a gravidez. dessa perda de controle. gofo – conceitual ou não. horizontal e fluída. o corpo feminino descobrindo a sexualidade. 60 parte musical da encenação. mas é exercício diário. Incorporo a partir daqui o conceito de rizoma. relações abusivas. para se falar de algo tão urgente. Me oprime.. mar. quando o olhamos por um viés mitológico. E que precisa fluir para além deste trabalho. que na botânica é um caule subterrâneo. quando percebia que a buceta não contempla apenas mulheres cis. E as minhas questões sobre binarismo de início também foram sendo levadas timidamente ao processo.

a partir de agora tomarei esse conceito emprestado para a criação em arte contemporânea.Cena "O parto das borboletas" (Rio intermitente). Fotografia 4 . 61 direção definida. da encenação O som que se faz debaixo d'água. . No entanto. Foto: André Chacon.

da encenação O som que se faz debaixo d'água. 62 Fotografia 5 . .Cena "Boneca" (Chuva). Foto: André Chacon.

63

Fotografia 6 - Cena "Desaguar", da encenação O som que se faz debaixo d'água.
Foto: André Chacon.

64

3 CAPÍTULO 3: EM ESTADO DE MANGUE

3. helena escorrida
helena tinha alguns problemas de represa, dava pra chorar toda vez
que refletia. e numa noite, que não essa, helena sonhou que estava
sentada num cavalo, galopando na lama, chafurdando a sua alma-
espírito-suíno.
ela-helena evitava pensar, eviestava em qualquer lugar. tinha
problema com a tristeza do rio que corria dentro de si. com seu reflexo
n’água. helena tinha medo de escorrer, de se sentir. por isso se
permitia apenas sonhar, e sonhava...
sonhava que galopava em círculos até toda a terra-lama afundar.
helena então galopava, pra longe de si.
e num dia, que não hoje; numa tarde, que não essa, helena refletiu
n’água barrenta.
- o que dói desce...
e numa manhã, que não a de agora, helena acordou diferente. e numa
poesia, que não essa, helena doída se viu caindo de tróia: escorreu.
(marginália)

65

3.1 Rizoma hídrico e as encenações contemporâneas

O conceito botânico de rizoma exemplifica o conceito aberto proposto por Félix
Guattari e Gilles Deleuze (1995). Na botânica ele é a extensão de um caule que une
sucessivos brotos, como é o exemplo da grama, do bambu, da bananeira e da cana-de-açúcar.
Mas para os filósofos, o rizoma é precisamente um caso de sistema em aberto, eles o usam de
modo a construir uma inter-relação entre os conceitos. Deleuze e Guattari (apud
ZOURABICHVILI, 2004) trabalharam esse/a substantivo/definição dentro de um conceito
para pensá-lo na filosofia, de modo a pensar numa horizontalização do próprio conhecimento
filosófico.
Um sistema é um conjunto de conceitos. Um sistema aberto é quando
os conceitos são relacionados a circunstâncias e não mais a essências.
Mas por um lado os conceitos não são dados prontos, eles não
preexistem: é preciso inventar, criar os conceitos, e há aí tanta
invenção e criação quanto na arte ou na ciência. (DELEUZE, 2007, p.
45).
Se materializássemos o pensamento tradicional, poderíamos colocá-lo aqui como uma
árvore, que fixa o verbo “ser”, já o pensamento rizomático institui a conjugação “e...”
“e...”
“e...”
“e...” “e...”
“...e”
“e...” múltiplos...
Essa árvore, segundo Deleuze e Guattari (1995) está plantada na cabeça de muitas
pessoas, tanto no que remete à busca de raízes ou de ancestralidade, também no que diz
respeito à chave de uma existência na infância mais próxima ou até mesmo no que diz
respeito ao pensamento do culto da origem e do nascimento.
Enfoco aqui nesse caso, o rizoma como conceito que não limita um ponto de origem
ou de princípio primordial comandando todo o pensamento. Portanto, nada de avanço
significativo que não se faça por ramificação, encontro imprevisível, reavaliação do conjunto
a partir de um ângulo inédito; tampouco princípio de ordem ou de entrada privilegiada no
percurso de uma multiplicidade. (ZOURABICHVILI, 2004).
Dentro dessa perspectiva, as estruturas dominantes são capazes de quebrar o rizoma,
pois os aprisionam, prendem a sua multiplicidade. Sobre isso Deleuze e Guattari (1995, p. 11)

Para sintetizar melhor o seu conceito. p. “O teatro pós- dramático é um teatro de estados e de composições cênicas dinâmicas” (LEHMANN. ou do autor). políticas e outras. Esses debates confirmam a ideia de teatro pós-dramático como um laboratório para se imaginar. p. Segundo Lehmann (2013. 66 dizem que: “Toda vez que uma multiplicidade se encontra presa numa estrutura. (FERNANDES. usando uma série de elementos que compõem no palco uma escritura cênica ou um . Em seu livro Teatralidades contemporâneas (2010). Esse rizoma d’água é a própria cena contemporânea. Isso pode com certeza constituir seu caráter verdadeiramente político.] o teatro pós-dramático não perde sua dimensão estética como arte quando abandona sua noção de autonomia e negocia alinhamentos híbridos com as práticas sociais. ação e imitação – o que acontece em escala considerável nas décadas finais do século XX. Lehmann observa que totalidade. criada em pluralidade de vozes e que possui uma pedagogia múltipla. ou seja. inventar e investigar outros tipos de relações humanas através da exploração de novos tipos de espectador e pela invenção de tipos diferentes de posição para os espectadores. o que confirma o lugar desse tipo de teatro como um laboratório para a imaginação. em que o encenador passou a construir um discurso autônomo em relação ao texto dramático. Esse teatro possui uma linguagem hibridizada com as práticas sociais e políticas. Hans-Thies Lehmann (2007) organiza vetores de leitura dos processos cênicos multifacetados que caracterizam especialmente o teatro que vai dos anos 1970 aos 1990. (idem. seu crescimento é compensado por uma redução das leis de combinação”. não se submete apenas a se organizar de forma textual ou segundo a vontade da figura de uma/um diretora/diretor. do século XX. sendo assim não centralizador. dentro dessa configuração de uma nova etapa da cena brasileira. porém os seus processos se produzem na prática. a autora Sílvia Fernandes destaca encenadores como Gerald Thomas. mesmo que a intenção do trabalho individual não seja conscientemente política. 43). além de seguir por múltiplas direções. 874). Essa “dinâmica cênica” é para ele a própria multiplicidade da linguagem teatral. 877).. ilusão e reprodução do mundo constituem o modelo do teatro dramático. 2010. p. Por sua vez. p. o Teatro Pós-dramático não trata simplesmente da morte do drama (ou do texto. Na exaustiva cartografia da cena contemporânea que é o livro Teatro Pós-Dramático. E que a realidade do novo teatro começa justamente com a desaparição do triângulo: drama. ele também possui múltiplos estados. ele é ressonador. pesquisa e invenção. mas de uma mudança de ponto de vista das realidades teatrais contemporâneas. 2007. O novo teatro para o autor se liberta de um ordenamento que tenha como centro a razão. o rizoma que trabalho aqui é enviesado de forma hídrica. 114). Para ele: [..

são linhas (e não formas). companhia teatral brasileira. XVII) A epifania na cena é. para Deleuze e Guattari (apud ZOURABICHVILI. e como tal. performance. hibridizando-os com a inserção da iluminação. ele pode fugir. houve concomitantemente a isso. o desenvolvimento de novas formas de atuação capazes de enfrentar os desafios da dramaturgia que escapa aos moldes convencionais. e que traz em sua linguagem forte hibridismo. como é o caso do Teatro da Vertigem33. compunham as vicissitudes necessárias de uma arte que recusa a forma acabada e faz sua ontologia no território obscuro da subjetividade. transformando tudo num só fluxo. a meta do criador. que surgiu no ano de 1991 como um projeto experimental de pesquisa de linguagem da expressão representativa. São caminhos em aberto. Pois um rizoma não possui uma direção definida de crescimento e de trajetória. ramificar. misturando teatro. de instalações. o gesto avesso. O diretor. (COHEN. 2004).com. associando-os às novas formas de representação teatral contemporâneas. p. música. “uma nova imagem do pensamento destinada a combater o privilégio secular da árvore que desfigura o ato de pensar e dele nos desvia” (ZOURABICHVILI. 37). a cena assimétrica e disjuntiva. As linhas do rizoma podem ser vistas. . 2010.teatrodavertigem. pois não sabemos o caminho que ele vai percorrer “ao certo”. 52). onde fez uso da multimídia. performer e teórico Renato Cohen (2006) foi um artista brasileiro que também transitou em sua obra por várias experiências de fronteira. É importante frisar que nem todo sistema conceitual aberto é um rizoma. a colagem estranha. 2004. confundir. gestos da atriz/ator. mas todo rizoma é um sistema conceitual aberto. a dança e as artes plásticas como operadores de uma prospecção mais funda. utilizando também o teatro. ele é livre e não definido. tecnologias. (FERNANDES. seguem caminhos diversos. Rizoma é um manifesto. pois elas escapam da tentativa dominante e fazem contato com outras raízes. para ele. Houve uma renovação estética da cena fora e dentro do Brasil. enfim. p. podemos tomar esse conceito emprestado 33 Fonte: <http://www.br/sobre>. o rizoma é um modelo de resistência ético-estético-político. artes visuais. nesse sentido. Acesso em: 28 de novembro de 2016. p. projeção de imagens. ele é livre. Nesse sentido. movimentações coreográficas. “numa cena só”. 2006. dança. interferências musicais. em qualquer dos casos. A fala disforme. marcadas também pelo hibridismo e hipertextualidade. como linhas de fuga. 67 “texto espetacular”. Portanto. A autora traça um breve histórico de Thomas no Brasil e em seguida aborda os principais processos formativos de seu trabalho.

floresçam. o objetivo passa ser a transversalidade. que é atravessado por linhas de intensidade. flores. é Corpo d’água. às vezes caóticas. 36. “um movimento transversal que as carrega uma e outra. o movimento desembaraçado e inédito pelo território do saber. conexões e ritmos. capaz de criar novos sentidos. portanto. a pluralidade e o não binarismo. que não se feche sobre si. Refiro-me a uma luta poética. os contextos sociais. Esse panorama se aproxima bastante do que proponho como molhares. as subjetivações. 1995. Dentro do panorama rizomático da cena. que imbricam-se numa teia onde esse indivíduo múltiplo é também inserido num modo de criação e fazer artístico múltiplos. São “linhas” que se cruzam e que podem facilmente se conectar no âmbito ideológico e prático das artes: a pluralidade do indivíduo. ele é espalhado. comportado num Co(r)po d’água. grifo meu). o hibridismo. que seja aberta para nadar em qualquer direção. as interligações. diferentemente e contrapondo-se ao modelo dramático convencional. múltiplo. p. a “autopoiesis” e a cena contemporânea rizomática estão n’O som que se faz debaixo . Ela propõe uma imagem indeterminada para realçar a diferença. seguindo a mesma lógica das energias fluídas e não binárias trabalhadas no segundo capítulo deste trabalho. germinem… Jardim d’água múltiplo. Trata-se. frutos. São diversas multiplicidades em contato. Trata-se de uma criação voltada para as artes que não seja linear. GUATTARI. sem linearidade ou narratividade. como a multiplicidade. E mais do que criar modelos e impor soluções. criem. culturais e históricos de suas vidas. que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio” (DELEUZE. pulsante de arte. riacho sem início nem fim. O desejo seguindo por múltiplas direções. 68 para falar sobre a própria cena contemporânea. Esse rizoma hídrico não é cartesiano. com diversas espécies de plantas. criada em pluralidade de vozes. “os fora do meio”. com dramaturgias múltiplas. as outras/os outros. seus processos de singularização e autopoiesis. mar ou mangue. de um fazer artístico rizomático que é aberto para experimentações. a multiplicidade dos modos de subjetivação. que pulsam… Sístole… Diástole… Sístole… Diástole… Sístole… Diástole… Que cresçam. seja num rio. E os devaneios. trata-se de uma cena múltipla e plural. ela produz intensidades e experimentações. Existem semelhanças entre esses dois conceitos. Jardim confuso. a viabilização de conexões criativas e criadoras.

caminhos d’água na trajetória de uma mulher. quando mescla elementos do teatro. da banda As Bahias e a Cozinha Mineira e a música Mulher. taças. performance. O som que se faz debaixo d´água é a segunda encenação do projeto de extensão Cores Teatro. Este que possui uma dinâmica que se constitui.. que lembram algas e pelos pubianos ao mesmo tempo). este que é marcado por tons terrosos “de pele” e por sobreposições (vestidos transparentes e corpetes. É rizoma hídrico em estado de mangue. arco de violino.. espelho. trata de rizoma hídrico. outras vezes presentes em movimentos. O caos. outras vezes cantadas. com dramaturgia e sonoplastia próprias. energias fluídas. nesse caso. Trata-se de uma montagem autoral. texto-poesia e poesia-movimento. de corpos fluídos. Os elementos mais “organizados” da encenação são a iluminação e o figurino. tampinhas imitado búzios. ano em que ingressei no curso de Licenciatura em Teatro. com rendas pretas.Todo esse trabalho é a mesma água. saquinhos de pano com poeira colorida. e também são contaminadas pelas artes visuais. Águas calmas ou tempestuosas. é (des)conexa. ouvir o álbum Mulher (2015). artes visuais. da cantora e compositora Mc Linn da Quebrada. não-binários. e muitas vezes caótica. dança. meio e fim marcados.. presente na cena teatral potiguar desde o ano de 2009 e que carrega como eixo condutor um trabalho pautado na linguagem contemporânea de cena. A encenação possui um hibridismo em cena. E assim nasce. O hibridismo também está presente na divisão metodológica que o grupo escolheu para o desenvolvimento da encenação. porém foi retomada com a formação atual e dramatúrgica apenas em 2016. performance. é uma escolha estética. Trata-se de uma encenação marcada pela não linearidade e narratividade. borboletas de papel. música. leque. mulheres 34. Porém ambas as linguagens possuem referências híbridas. Antes de tudo é água lamacenta de cena. muita poeira colorida). que no seu mergu(o)lhar percebe a presença de uma entidade sagrada (afroameríndia) acompanhando sua trajetória. como bem elucidado por Antônio Araújo 34 Para melhor entender o termo. . São coisas inter-relacionadas. tanto em sons quanto em elementos cênicos distribuídos entre as cenas e no espaço (rede de pesca. O som que se faz debaixo d’água é uma encenação que fala de minorias sociais. a musicalidade é trabalhada concomitante a dramaturgia e faz parte dela. 69 d’água. redes usadas nas cabeças. os seus textos são em boa parte poesias – às vezes faladas. mas constante correnteza.. música etc. ela não possui um início. A encenação O som que se faz debaixo d’água “descomeçou” em 2013. que foi a de desenvolver um processo colaborativo.

pelos seres que se constituem no processo. Fala- se sobre uma energia lida como feminina. o que irá gerar consequentemente relações de alteridade e aumento de empatia entre os membros do processo. visto que nenhum dos integrantes do grupo conhecia tão bem as prerrogativas do processo colaborativo. vai ser alvo de sugestões. que cambia para mangue. mas que é uma energia em estado de rio. diretor do Teatro da Vertigem e um dos maiores expoentes pesquisadores do assunto/método: [. trabalhando sem hierarquias – ou com hierarquias móveis. “o feminino” e suas relações simbólicas e políticas ficaram mais latentes. visto que as apropriações de direção-dramaturgia-atuação são abertas.. Essas experimentações levam sempre em conta a estética. 2006. a partir de suas funções artísticas específicas. Julia Varley (2010). têm igual espaço propositivo. O processo começou a se desenrolar de forma bastante orgânica e intuitiva. bem como trata da relação deste com a sociedade. vai ser contaminada pelo outro. destaca que é importante que se tenham pessoas responsáveis por todas as áreas necessárias na criação cênica. 35 Em entrevista para Stela Fischer. portanto. p. 1). só que essa criação vai sofrer alterações. 48. quando diz que no nosso trabalho de atriz “a dramaturgia é o instrumento que ajuda a organizar o comportamento cênico. fluídas e transitáveis. pelo contrário. as experiências e memórias de cada atuante. realizada dia 1 de dezembro de 2002 e publicada na sua dissertação de mestrado (UNICAMP). direção. E como o elenco. Identifico-me com a atriz e pesquisadora do Odin Teatret. portanto de uma encenação feminista. onde se torna necessário apropriar-se da função do outro. 70 (2006). pois ela aborda social e politicamente sobre a mulher e o seu próprio corpo. é a técnica para agir de modo real na ficção” (VARLEY. ou seja. figurino. grifo meu). Araújo não desvaloriza as funções. Trata-se. que cambia para mar. . é a lógica com a qual concateno (concatenamos) as ações. A sua montagem se deu e se dá por meio de decisões tomadas mediante pesquisas. 2010. Trata-se de uma espécie de caos criativo organizado (ou não) e participativo. é importante que se tenha alguém incubido pela direção. p.. pela luz.35 O processo colaborativo implica. A encenação O som que se faz debaixo d’água se (des)formata em um processo colaborativo. (SILVA. iluminação e figurino são compostos em sua maior parte por mulheres.] numa metodologia de criação em que todos os integrantes. a depender do momento do processo – e produzindo uma obra cuja autoria é compartilhada por todos. 2003. experimentações e discussões coletivas. em uma contaminação.

o rizoma se faz presente até mesmo dentro da organização plural e híbrida do grupo. narrativo – que corresponde à interpretação do tema. nessa perspectiva. porém a marca mais ou menos visível e assumida da palavra coletiva” (PAVIS. Nesse ponto. 71 O afluente de atriz é. “a encenação não representa mais a palavra de um autor (seja este autor dramático. não se trata de uma criação coletiva. Nesse processo multipliquei minhas vozes. porém diferente do processo colaborativo. Segundo Pratice Pavis (1999). Cênica e a Sociedade Cênica Trans (Sociedade T). mostra como a arte contemporânea pulsou e ainda pulsa (fortemente) dentro e fora dos muros da universidade através de grupos teatrais. torna-se importante destacar a presença marcante da direção na estética da encenação. no trabalho coletivo ocorre o que Brecht denomina “socialização do saber”. p. A encenação O som que se faz debaixo d’água é ruptura em processo. esse campo é plural. localizado no nordeste do país. E juntamente com outros trabalhos e grupos. isto é: orgânico (ou dinâmico) – que diz respeito à presença. circuitos artísticos . bairro de resistência artística da cidade). como é o caso d’A Boca Espaço de Teatros (localizada no bairro da Ribeira. Nessa perspectiva. p. imaginação e impulsividade” (idem). onde atualmente residem dois grupos de teatro. ou seja. 199. E normalmente a dramaturgia é ligada e pensada em relação ao texto ou narrativa. onde o processo é centrado na figura do encenador e o grupo se forma por afinidade com o projeto (TROTTA. teve um olhar estético da diretora Lina Bel Sena. Na criação coletiva. encenador ou ator). porém a experienciei dentro do trabalho do Cores Teatro como algo simultâneo e numa sucessão coerente de eventos em níveis distintos. a sua escrita corporal dramatúrgica. a Bololô Cia. este que garante a especificidade de cada função artística. mas também me fiz dramaturga e musicista. que no caso d’O som que se faz debaixo d’água. região fortemente relacionada às tradições da “cultura popular”. 2008. o grupo se forma por afinidade entre os participantes e as funções se estabelecem no processo. As criações coletivas e colaborativas se confundem bastante. ou seja. de dança. é desvio. no estado do Rio Grande do Norte. do texto e do personagem. fui atriz dentro dele. Na criação coletiva o campo autoral é coletivo. 87). A coletiva é semelhante. pois também foi feita na cidade de Natal. espaços culturais. 80). diferente da criação colaborativa. e evocativo – que diz respeito “a um universo pessoal feito de necessidade e rigor. enquanto que no processo colaborativo. principalmente por causa da semelhança das suas metodologias de criação.

Carol Piñeiro41. que suporta a fome e se alimenta de todo tipo de matéria. mas também mapear os cenários onde a performance é discutida promovendo um diálogo entre artistas de diferentes realidades. Acesso em: 28 de novembro de 2016. e produzir e difundir conhecimento sobre esta.com. Ver mais em: <http://disfunctorium.blogspot. CyberArtivista e Curadora. Vive em Natal/RN.br/>. é ator da Cia.com. tanto artística quanto pedagógica e política.blogspot. Realizado em Natal. exposições e apresentações no campo da performance arte.html>. performers e pesquisadores como Jota Mombaça ou Monstrx. O Circuito BodeArte se tornou em 2011. multiartista. Arte-Ações e Oficinas Criativas. de couro duro. Brasil e Trabalha no Mundo com Exposições. 42 Graduado em Licenciatura em Teatro da UFRN. e principalmente. O projeto nasceu em janeiro de 2008. Acesso em: 28 de novembro de 2016. Performer. na sua terceira edição. bailarina. apresentar e pensar esse cenário num contexto latino americano e brasileiro. tomando forma em fevereiro com a estreia do primeiro trabalho em março do mesmo ano. como Prof. Na música é vocalista e compositor do Ak-47. com o campo da arte contemporânea. sobretudo no que diz respeito às artes do corpo (Dança. Acesso em: 30 de novembro de 2016. Fonte: < https://teatrointerrompido. além de performances de cerca de nove estados do nordeste e de fora dele na figura de performers como Mary Vaz (AL). No ano de 2013. o Bode foi “extinto”. projetos e artistas para além de notas de rodapé. Dr. não conseguiu nenhum patrocinador. Acesso em: 28 de novembro de 2016. Paulista. para tanto realiza um ciclo de palestras. projetos como o Disfunctorium37. artistas que passaram pela cidade. Ver mais em: < http://coletivoes3. Charlene Sadd (RJ/AL) e Maicyra Leão (SE) e coletivos como o Projeto CadaFalso (CE) e o Grupo TOTEM (PE) dentre vários outros. 37 O Disfunctorium é um projeto que envolve as artes performáticas bem como. Atualmente o “Bode” encontra-se em extinção na cidade. pois embora tenha sido aprovado por uma lei de incentivo à cultura estadual. animal-alimento-roupa da paisagem do nordeste. e é produzido pelo Coletivo ES3 e o Grupo Facetas.blogspot. oficinas. K- trina e Erratik40. é atriz da Cia. como Marcos Bulhões44. Possui graduação em Licenciatura em Teatro (2012) e é Mestre pelo Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas ambas pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte – UFRN.br/p/producao.wordpress. residente na cidade de Natal (RN) desde o ano de 2006. Fonte: <http://coletivoes3.br/>.com/jotamombaca/Jota-Mombaca>. Acesso em: 28 de novembro de 2016. oficinas. body art. Juão Nin42. cujo intuito passa a ser não apenas propiciar espaços de apresentação de performance. *BodeArte: o nome brinca com o termo da língua inglesa. Rio Grande do Norte. Wellington Jr. Dr. mas trouxe artistas e pesquisadores. Teatro e Performance Arte).com/about/>. o Coletivo ES3é um coletivo artístico com grande preocupação. e Prof. 36 O Circuito BodeArte* é um evento voltado a performance arte que busca discutir. Ramilla Souza43. O bode é então uma figura crua. o Coletivo ES338. 40 Mais informações em: <http://cargocollective. um circuito regional de palestras. na atuação de artistas como Civone Medeiros39. 38 Formado por dois artistas atuantes na cidade do Natal (André Bezerra e Chrystine Silva). Lucio Agra. figura dionisíaca e marginal. atriz e diretora que estuda e se interessa pela hibridização de linguagens. 39 Poeta Multiartista. o desejo de se expressar independente de uma pré-classificação artística. De Arte de Teatro Interrompido. São eventos. 72 como BodeArte36. e joga com essa perspectiva de um evento que se localiza no nordeste do Brasil.com. De Arte de Teatro Interrompido (Natal-RN) e Estopô Balaio (São . fóruns e apresentações de performances. Mutretas e Outras Histórias. banda (atualmente em hiato) que se apropria de variados subgêneros do rock para criar a própria identidade. 41 Performer.

br/tycho/CurriculoLattesMostrar?codpub=37A30C3518F3>. Carioca com formação em Natal (graduação e especialização na UFRN) e em São Paulo (mestrado e doutorado na ECA-USP).com. 44 Diretor.br/p/sobre-mim. mas sim a sua abordagem temática. incluindo Natal-RN. apresentada em mais de 30 cidades no Brasil. a minha abordagem temática. da necessidade de abordar sobre o feminino. Ultimamente. este trabalho não trata de nenhuma delas. realizou consultorias em propostas curriculares para cursos de Teatro/Artes Cênicas. ministra cursos. Barcelona. Acesso em: 30 de novembro de 2016. além de New York. artista visual e fotógrafa.wordpress.usp. Amsterdam. Fonte: <https://teatrointerrompido. co-ministrando Oficinas de Intervenção Urbana Brasileira em mais de 15 capitais brasileiras e um dos autores e diretores da Performance CEGOS. pois também são múltiplos). É um dos diretores artísticos do Desvio Coletivo. onde reside há 18 anos. Acesso em: 30 de novembro de 2016. escoou daí. palestras e oficinas de Aprendizagem da cena contemporânea. Fonte: <https://uspdigital. Paulo-SP). Co-criador do projeto de extensão Cidades em Performance. rede de criadores. realiza trabalhos artísticos como performer. Paris. Pois essa monografia surgiu da necessidade de entender os meus processos de subjetivação dentro do teatro (ou teatros.. Atualmente. o empoderamento feminino como resistência às diversas opressões que sofro enquanto pessoa lida como mulher pela sociedade.html>. Performance e intervenção Urbana. Parte dos meus processos de subjetivação. não pretende discutir o seu processo cênico. ator e pesquisador em cena contemporânea e intervenção performativa urbana. Funchal. atriz. . Acesso em: 30 de novembro de 2016. Fonte: < http://ramillasouza.. 43 Formada em Comunicação Social com habilitação em jornalismo pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte desde 2010.com/about/>. 73 A encenação possui suas fragilidades e potências.blogspot.

da encenação O som que se faz debaixo d'água. 74 Fotografia 7 .Cena "O solo das bucetas" (Água térmica/água que cura). da encenação O som que se faz debaixo d'água.Cena "O solo das bucetas" (Água térmica/água que cura). Foto: André Chacon. Fotografia 8 . . Foto: André Chacon.

Cena "Copos" (Hidrato de metano). 75 Fotografia 9 . da encenação O som que se faz debaixo d'água. Foto: André Chacon. .

Às vezes não sei o que fazer do que vivi.. na cidade de Natal-RN. 45 Manguezal é uma zona úmida. vivi uma outra? A isso quereria chamar desorganização. Sei que este trabalho é um “presente over”.. Não quero ficar com o que vivi. se misturar. mas tenho firmeza nos meus passos. Cresci numa rua chamada “Rua da Lama”46.. pois bem. Estou procurando. Aconteceu-me alguma coisa que eu. e teria a segurança de me aventurar. Manguezal ecossistema entre a terra e o mar.] estou procurando. Eu nasci numa zona cercada por mangue45. porque tudo muda todo dia.. Não sei o que fazer do que vivi. com o corpo. compartilhar. és… corre.. transencontrar. mesmo que o chão seja arredio. 76 4 FOZ [. característico de regiões tropicais e subtropicais. com palavras. Não confio no que me aconteceu.. com uma embalagem cintilante. p.. bairro periférico da Zona Norte. mas não quero ficar com o que vivi. transborda. Precisa seguir pra algum lugar. Estou tentando entender. sujeito ao regime das marés” (SCHAEFFER-NOVELLI... caixa decorada e caótica: muita informação! Sei que o é. São Paulo: Caribbean Ecological Research. 7). Então vou partir do “descomeço”. definida como “ecossistema costeiro. porque saberia depois para onde voltar: para a organização anterior. tenho medo dessa desorganização profunda. laços coloridos. quero encontrar. Y. E o que isso significa? Para mim: que tudo que pulsa desce. popularmente conhecido como Vale Dourado. Clarice Lispector Estou procurando.. Tento me organizar. 1995. 46 Localizada no bairro Nossa Senhora da Apresentação. estou procurando. e na minha desorganização escrevo. Não confio. tento organizar essas ideias e forças. de transição entre os ambientes terrestre e marinho. porque não tenho apego. . Fluir pra algum canto. Estou tentando entender. porque quero trocar. pelo fato de não a saber como viver. concatená-las. desencontrar. da cidade de Natal-RN. Tentando dar a alguém o que vivi e não sei a quem. reencontrar. tenho lama (mistura viscosa de água e terra) escorrendo até hoje entre as minhas pernas e no meu fazer artístico.

ecossistema em aprendizado. das mais fáceis de se pegar. E diante disso. difusa ainda é muito confusa. pois tudo pulsou dela: como nasce um afluente? Afluente é curso d’água menor que deságua num rio principal. autopoiese escorrida. assim como as águas da encenação que atuo. . e até comer. é a lama que criei com suor. Estou mulher. pseudônimo que uso para assinar boa parte das poesias presentes aqui. eu sei. E na fusão da confusão fica a dúvida: É uma escrita acadêmica? É uma escrita poética? É uma escrita? É necessária? Para mim é necessáRIO! É o que me pulsa. O que tem dentro da caixa. Dra. a importância do fazer artístico e autopoiético para as/os estudantes do curso de Licenciatura em Teatro. ainda é turva para mim. 77 Esta pesquisa traz subjetivações escorridas. Traz os molhares de Marginália. é início de jornada. Aqui é início de pesquisa. no ano de 2010. estão lamacentas. durante esses quatro anos de graduação. A encenação O som que se faz debaixo d’água é confluência. porque toquei numa gota do teatro num trabalho em uma disciplina de História do Brasil Colônia I. para um seminário da Prof. passar na pele. com todos os meus fluidos. tentativas de organizações de pensamentos nessa escrita viscosa. retomo uma questão. mas ela possui caminhos e trajetórias rizomáticas. do meu estado de rio com meu afluente de atriz. É lama! Das mais simples.. talvez a mais importante para este trabalho. Zona úmida de paredes transitórias. Entendo que os meus pensamentos. e a essa junção chamam de confluência. Um afluente não flui diretamente para o mar ou oceano.. se quiser. São águas que de relance são estereotipadas como sujas e confusas. barrentas. água “exagerada”. Maria Emília Monteiro Porto... pulso escorrido. Estar lama é às vezes como estar mulher. ele flui apenas para um rio maior. lama em fauna. assim como este trabalho. atuando no espetáculo Calabar. depois de desistir do curso de História (Licenciatura . A encenação.UFRN) estando no décimo período. As minhas águas. é começo aparente de rio. Quero prosseguir a partir daqui. Água barrenta em aprendizado. caminhando para esse estado de mangue. esporas. E defendo aqui a importância de suas existências. Aflorando por todos os poros. água “louca”. lama em flora.

. Escorra. Fotografia 10 . aqui comigo. da encenação O som que se faz debaixo d'água. Foto: André Chacon. se puder. e se quiser. 78 Leia.. mas não me seque. .Cena "Corpo Cavalgado"...

recepção. . Stela Regina. Processo colaborativo: experiências de companhias teatrais brasileiras nos anos 90. Petrópolis: Vozes. Sílvia. San Francisco: Aunt Lute Books. GUATTARI. Caosmose: um novo paradigma estético. 1995. 2012. Teatralidades contemporâneas. FISCHER. Work in progress na cena contemporânea: criação. O livro das ignorãças. FERNANDES. Griot Vol. Rio de Janeiro: Record. Ana Chistina Vieira Zarco. 2013. Félix. 2006. Disponível em: <http://dx.doi. Borderlands/La Frontera: The New Mestiza. ed. Trad. ROLNIK. nº 6.Cartografias do Desejo. Félix. Aurélio Guerra neto e Celia Pinto Costa. 4. Claudia Castro de. 1987. Dialogando com Gilles Deleuze e Félix Guattari sobre a ideia de subjetividade desterritorializada. Dissertação orientada por Renato Cohen.1590/0104-8333201400430475>. 1996.1. Revista Escritos.org/10. GUATTARI. julho-dezembro de 2014: 475-497. Capitalismo e esquizofrenia. Micropolítica . BRITO. uma conversa com Berenice Bento (ENTREVISTA). Instituto de Artes.SP. Universidade de Évora – Departamento de Filosofia. Gáston. BARROS. Miguel Ângelo Olival de Sande Lemos Correia. 34. Diego Madi. Ano 6. COHEN. Rio de Janeiro: Ed. O Treinamento Energético e Técnico do Ator. 1992. A água e os Sonhos – Ensaio sobra a imaginação da matéria. 79 5 LENÇOL FREÁTICO ANZALDÚA. Cadernos Pagu (43). 6. encenação. Gilles. N.Universidade Estadual de Campinas/LUME – Núcleo Interdisciplinar de Pesquisas Teatrais – Campinas. Suely. 2001. CÂMARA. São Paulo: Ed. Maria dos Remédios de. Campinas . Conversações. A Fenomenologia da Percepção a partir da autopoiesis de Humberto Maturana e Francisco Varela. DIAS. ANDRADE. 2003. n° 3. São Paulo: Perspectiva. 2. DELEUZE. UNICAMP . FERRACINI. 2007. 2014.jun/2012. Brincar de gênero. Editora Perspectiva. Mil Platôs. GUATTARI. Rio de Janeiro: Ed. 1972-1990. Martins Fontes: São Paulo. Doutoramento em Filosofia. São Paulo. DELEUZE. Félix. Manoel. In Revista do Lume. set. 2000. 34. 34. ALEGRAR nº09 . O desejo maquínico em Gilles Deleuze. A subjetividade e a estética pictórica de Bachelard. Universidade Estadual de Campinas . Gloria. BACHELARD. Gilles. 1998.UNICAMP. V. 2012. ANTUNES. Renato. Renato.

O ator. JUNG. 1992. Deleuze e Guattari: o gosto filosófico. subjetividade e modos de subjetivação na contemporaneidade. 2008. Petrópolis: Vozes. 1998. Robson Carlos. O desenvolvimento da personalidade. Pedro Süssekind. LISPECTOR. NIKOLAS. 3. Tradução Juan Acuña Llorens.acadêmica multidisplinar . Elton Luiz Leite de. Rio de Janeiro: Vozes. 80 HADERCHPEK. Antônio C. 2006.html>. 2007.com. SILVA. de Araújo. In: Sala Preta. Deleuze e F. Os arquétipos e o inconsciente coletivo. SEQUEIRA. De Máquinas e Seres Vivos — Autopoiese: A organização do vivo. 3. 1997. OLIVEIRA. Sonia Regina Vargas. Virginia. MANSANO. v. the quantum body and the collective unconsciousness. São Paulo: Sulina. Araújo Leonardo. Rose. . Revista de Psicologia da UNESP. São Paulo. Dicionário de Teatro. Clarice. SOUZA. MATURANA. Guattari. RABINOW. Paul. n. HILST. o corpo quântico e o inconsciente coletivo.DCS/UEM N. Abril de 2006 . The actor.blogspot. Trad. Rosane Preciosa. Revista de Ciências Sociais.p. ________________. Tese (Doutorado em Teatro) – Centro de Letras e Artes da UNIRIO. 2009. Carl Gustav. 2000. KASTRUP. A paixão segundo G. Rosyane. PAVIS. 2009. V. Rumores discretos da subjetividade. Guinsburg e Maria Lúcia Pereira. ___________. São Paulo: Maison de vins.. Revista do Programa de Pós Graduação em Artes Cênicas – ECA-USP.br/2010/01/autopoiese- e-subjetividade-virginia. 6 N. São Paulo: Cosac & Naify. 6. Revista Trágica: estudos de filosofia da imanência – 3º quadrimestre de 2015 – Vol. 2012/abr. TROTTA. 2010. 24. João Pessoa. Do Desejo. 27 . Alcoólicas. Disponível em: <http://evolucaocriadora. LEHMANN. 2008. ed. São Paulo: Perspectiva. O conceito de biopoder hoje. A filosofia prática de Spinoza: uma ética da imanência contra a moral transcendente. 2013 – Semestral. 27-57. Hans-Thies. 1990. Tradução para a língua portuguesa sob a direção de J. 1. A autoria coletiva no processo de criação teatral. 2007. ed.nov. 8 (2). Sujeito. Autopoiese e subjetividade .H. Hilda. O processo colaborativo no Teatro da Vertigem.18-37. Humberto & Francisco Varela. Campinas: Pontes. Teatro pós-dramático.Sobre o uso da autopoiese por G. Patrice. Revista Urutágua . POLÍTICA & TRABALHO. Porto Alegre: Artes Médicas. n. 1 jan- jun/2015. Rio de Janeiro: Rocco. 8 – nº 3 – p.

Rio de Janeiro IFCH-UNICAMP. Brasília: Teatro Caleidoscópio. O vocabulário de Deleuze. 81 VARLEY. Julia. . François Zourabichvili. Traduçao: André Telles. Pedras d’água: blocos de notas de uma atriz do Odin Teatret. 2010. 2004. ZOURABICHVILI.

. Drenagem: ato de escoar a água. Estuário: são zonas alagáveis onde se encontram águas do rio e do mar. Nascente: onde o rio nasce. Foz: é o local onde irá desaguar um rio podendo dar em outro rio em um oceano ou no lago. Confluência: termo que define a junção de dois ou mais rios. misto ou complexo (água de chuva e do derretimento). minadouro. Acesso em 20 de agosto de 2016. borbotão. Olho d’água: nascente de água no solo. O curso de um rio define sua drenagem. lacrimal.html>. Talvegue: é a linha que se encontra no meio da região mais profunda de um rio. como áreas calcárias (grutas). Subafluente: é o nome dado para pequenos rios que deságuam em um afluente. . tais como a desembocadura de um rio. Arréica: o rio não possui uma direção certa. Meandro abandonado: quando o rio muda seu curso. Endorréica: o rio corre para dentro do continente. Jusante: é qualquer ponto do rio que se localize depois em direção a foz. Margem: as laterais do curso do rio que delimitam sua largura.br/2014/05/partes-de-um-rio. médio ou inferior. Tipos de drenagem: . estuário e mista ou complexa. Meandro: curva de rio. olho. que pode ser curso superior. fonte perene. Criptorréica: característica por rios subterrâneos. Regime: pluvial (água da chuva). Montante: é qualquer ponto do rio que se localize antes em direção a nascente. . Tipos de foz: delta. simplesmente desaparece por evaporação ou infiltração (existem rios que desaparecem no meio do deserto. Leito: onde o rio corre. 47 Fonte: <http://geoconceicao. nival (derretimento de neve).blogspot. 82 6 GLOSSÁRIO47 Afluente: nome dado aos rios pequenos que deságuam em rios principais. Curso: caminho percorrido por um rio.com.

Efêmeros: são os que se formam por um curto período. . . Perenes ou permanentes: são aqueles que estão sempre fluindo água em seu leito. 83 Tipos de rios devido ao seu volume de água: . Temporários ou intermitentes: são rios que secam na estiagem. . são resultantes das chuvas intensas.

Franco Fonseca e Naara Martins. Músicas: Lina Bel Sena e Naara Martins. senta. não pensa e dorme (O som debaixo d’água sou eu) . sofre (O som debaixo d’água sou eu) Ri. Iluminação: Priscila Araújo. saudade/entidade/mulheres. Correntezad’água. vasa. morte/sagrado/intersecção de mundos. Sonoplastia: Adriel Bezerra e Fernanda Estevão. Antônia Delgado. Duração: 55 minutos Indicação: 18 anos Dramaturgia: (PRÓLOGO) – Início do ritual. Mergulhar. 84 7 ESTUÁRIO O som que se faz debaixo d'água Ficha Técnica: Intérpretes criadores: Adriel Bezerra. Figurino: Elze Maria Barroso. ama. Fotografia e Publicidade: André Chacon. Dramaturgia: Lina Bel Sena e Naara Martins. Anunciação Algas/Águas Marinhas Cascas são minhas lágrimas Lágrimas são minhas dádivas O som debaixo d’água sou eu O som debaixo d’água sou eu Samba. Fernanda Estevão. pensa. Direção: Lina Bel Sena. beija.

morre. Passagens. encruzilhadas. caga. Entre sonhos e feridas. Guias e borboletas brancas. . pacifica e cospe (O som debaixo d’água sou eu) Acessa. Você me colonizou Você Você me colonizou Você Você me colonizou Você Gota a gota Boca a boca Fiquei Oca O som debaixo d’água sou eu O som debaixo d’água sou eu Memória ciliar Está tudo aqui. assiste TV.. reza. amores. Brincadeira de gota. correndo. Na gota de chuva. tudo. Perfuma. tudo. Está tudo aqui. lamenta e fode! (O som debaixo d’água sou eu). E fora também. Eu lembro. no meu cabelo. Mas está tudo aqui. todas as cores. na minha fé ancestral. O meu amor. Na minha voz. estradas. 85 Vacila. Algumas fotografias se quebraram no espelho. que molhou o meu peito escarlate. bebe. gira. (O som debaixo d’água FUI eu). tudo. pulsando. na pele. viaja.. Alta no salto e na bebida. me indicando caminhos. copos e selvageria. corpo cavalo. Dentro. Falanges. no tambor. na língua. se desmancharam na mágoa. vagando.

86

Está tudo aqui, tudo.

Gira Rosas; Orvalho
Tem uma coisa que eu nunca trouxe para você. Desde pequena eu giro rosas enquanto durmo.
E sinto o cheiro do sonho enquanto cotidiano simples e complexo. Vejo os cabelos, sinto o
vento da sua presença e a menor gota de toda a sua água. Ela transborda em mim e me abraça
enquanto sou lamento. Minto aquela verdade, desde sempre. Mas ela me estendia a mão,
sabia a minha mentira e me fazia beber seus cantos, feito leite em peito de mãe, para me
adormecer e adormecer também aquelas dores de menina, que não entendia a razão de se ver
mulher. E no meio de toda tempestade, poeira colorida ela me chegou.

(INFÂNCIA) - Chuva
Boneca
Se os pingos de chuva fossem pingos de morango, que chuva gostosa seria! Eu correria com a
boca aberta! Ha ha ha ha ha ha ha ha!

(ADOLESCÊNCIA)
Casulo - Mangue
Larva, lama, ama
Fado interrompido
Fato cantado
Borboletear faz sentido
Entre jardins, quintais e pés de manga
Casulo
Novo mundo aqui dentro
De olhar corrompido
fado contado
borboletear faz sentido
Entre almas perdidas, livros e camisetas de banda.
Casulo
Sou poesia neste quarto
gosmento e vencido
Borboletear faz sentido
Entre pelos, dedos e minha dança

87

Casulo
Não te devo aluguel ou fiança
Sou o tempo líquido
Borboletear faz sentido
Entre o portão, esquinas e a minha desconfiança.

Tem uma coisa que eu nunca trouxe pra você!

(COTIDIANO)
Pingo de torneira
Espelhos/Jantar
- Atenue os vestígios das sombras com aqueles tecidos absurdos, aqueles que você detesta,
mas que ficam tão bem em você combinam com seu tom de evidência.

- Quarta-feira...
- Ruídos misteriosos, mas é só água!
- Foi o dia em que ganhei alforria.
- Sonhos, musicalidade nada fechada... Só...
- Ardia, naquele dia quando a primeira palavra brotou...
- Água! Água pra matar a fome, água pra curar a mágoa. Água!
- Nasceu do estômago. Fodia! Meu peito, meu ânus, garganta!
- Escorrendo por todas as rachaduras úmidas.
- Era o dia, nem sabia...
- Mas a parede é quente.
- Que aquela vida de merda acabou!
- Água que ecoa o canto das sereias baleias e que vibra com meu batucar! E os encantos de
cada canto tem gotas ocas e quentes...
-Não ria, não ria...
- Rachei até os dentes ao me escorrer por aquele ralo...
- Demorou, mas me acostumei à ideia de não mais te odiar todos os dias ao acordar, ao comer,
ao foder, ao deitar.
- Engasgo!
- Ardia antes e eu nem sentia.
- Rachei a cabeça...

88

- E agora o que sinto não é mais pesar é alegria!
- A boceta.
- Foi o dia... mais feliz da minha vida!
- Rachei de tanto rir e vir.
- Pois eu falo bem sério... E se rio é lembrando do tédio que sentia quando fodia com você.
- Rachei até meus olhos se encherem d'água!

(DESCOBERTA DO CORPO)

Desaguar
É muita água
Em tantos e em todos os seus estados.
Meu corpo também é.
Correnteza, forte e leve.
Água cristalina, turva,
Banho de chuveiro, de chuva
Olho que chora, deságua homem ou mulher?
Sou pingo de suor e orvalho.
Em mim mesmo, naufragado
Rio, trajetória sede, nadar
Esperneia, esperma peixe
Foge do barro, da rede
Voando longe, juntos "cachoeirar"
Na porta, na poça, no poço,
Não importa, se moça ou moço
Não mais margem, vou mergu(olhar).

(EMPODERAMENTO DO CORPO)

Água térmica/água que cura
O solo das bucetas
Der Mösentanz
Carmina of cunts
Seiki no dansu

o mantra Consagrado ventre. consagra e sangra Estrela molhada Entre pernadas Gemido. Universo menstrua Universo canta Consagrado ventre. andança. consagra e sangra Lábio que fala à vida Enquanto sede sacia Enquanto sede chama Consagrado ventre. consagra e sangra Porta de entrada Eterna morada Pêlos em dança Consagrado ventre. amor. 89 O solo das bocetas! Consagrado Ventre Consagrado ventre. Consagrado ventre consagra e sangra Consagrado ventre consagra e sangra Consagrado ventre consagra e sangra Consagrado ventre consagra e sangra . consagra e sangra Sacerdotisa a lua. consagra e sangra Em si cria Outro corpo vigia: Luz.

. do segundo eternizado e a inquietação que me chama a continuidade.. Uma resposta que inquieta e se multiplica pergunta. . continua. Suas veias são labirintos Profundos Me afundo em seu mar Astros e búzios Te busco Em conchas e copos Mar de corpos Meu mar Suas são labirintos Profundos Me afundo em seu mar Vitrolas e discos Te sigo Em fossas e praças Mar de traças Seu mar Suas veias são labirintos. Mas sim. A exceção é o melhor presente! Presente conjugado em tantos tempos e naquele segundo das coisas infinitas.. O tempo eterno do momento perfeito. procuramos.. no desconforto. outras respostas dessas que. Assim o instável é o meu único e certeiro lugar. Ou o meu não lugar.. E desconforta... continua. pouco tempo. Mesmo assim mudança. E Viva! Ambiguamente falando. viva o desconforto! Mas ficamos nele. continua. Ela sempre acontece.. ENQUANTO MÃE.. continua! Algumas coisas são perguntas.. devo crer que foi uma resposta. E a única coisa estável realmente é a mudança.. aquela sensação de estabilidade. Do corpo indo para a velhice ou atropelado abruptamente e morrendo jovem. Contínua. como muita gente espalhada no sofá. bem rápido. continua Rio perene Continua. continua. continua. 90 (RELACIONAMENTOS: ENQUANTO MULHER. ENQUANTO CORPO) Continua. a estável..

labirintos. Universo menstrua Universo canta Consagrado ventre. amor.. consagra e sangra Sacerdotisa a lua. consagra e sangra Porta de entrada Eterna morada Pêlos em dança Consagrado ventre. andança. consagra e sangra Estrela molhada Entre pernadas Gemido. labirintos. Consagrado ventre consagra e sangra Consagrado ventre consagra e sangra Consagrado ventre consagra e sangra . labirintos. o mantra Consagrado ventre. consagra e sangra Lábio que fala à vida Enquanto sede sacia Enquanto sede chama Consagrado ventre. O parto das borboletas Rio intermitente Consagrado Ventre Consagrado ventre.. consagra e sangra Em si cria Outro corpo vigia: Luz. 91 .

E você sempre me olha com aquele olhar de espuma. para tocar fogo. meu mal hálito pela manhã. da sua formatura. relâmpago e do mundo. me perdoe. Hoje cedo o vento soprou. suspeito. Os copos. solitários e infelizes. os livros de Paulo Coelho (que até hoje. Tem um vinho chileno. Só lamento pelos copos. embaraçado . eu sei. o sofá está no quintal. com as outras coisas. aquela camisa verde de algodão. amarelos. aquele que você ama. E aquele sofá velho.. você odeia minha voz. Copos! Juntei aquelas minhas coisas que você odiava. Mas o sofá. Juntei tudo num saco plástico. 92 Consagrado ventre consagra e sangra A GOTA D´FOGO Hidrato de metano. às vezes. Me perdoe pelo isqueiro. TRANSGRESSÃO DO CORPO Oráculo Nascente de cachoeira Oráculo pele. poros percorro Cabelo seguido penteado Crespo. os comprei ontem. as calcinhas que eu penduro no banheiro e minha capacidade de liderança (que você nunca teve). O CD de Madredeus. já estou me preparando. ouvi o seu recado. Você odeia minha voz. você ainda me manda recados pelo vento. Eu sei. viscerais e de veludo. Vou queimá-lo lá fora. apaixonados. aquele sofá com texturas de sonhos. 1968 na geladeira. obscenos. daquele seu aniversário que eu cantei para você “Paloma Negra”. você não vai esperar muito. vazios. minha desorganização. depois de tanto tempo. coube. minha segurança. você nunca leu). Infelizmente seu isqueiro. Gosto de lhe contar como crescem as novas fontes. liso. acredita? O plástico fica bonito. Apaguei minha voz de todos os vídeos. (Suspiro). vai ser queimado. porque a casa você ama e não quero que ela seja queimada. Copos Gosto de conversar com você. formamos juntos. quando arde queimado. que um dia. Se você os tivesse visto.. É.

vai girar Gira o caderno . novas portas. se lambem em lida Novos caminhos. presente emprestado Missão. vai girar. noite Escrava sujeita. Outros olhos. criação efêmera de voz e cuidado De Deus e meus delírios naufragados Deusa. gira Vai girar. novo território e a própria queda Semeando-se abrem-se feridas Que se cruam. se cruzam. felina. outras mãos. novas partidas. semente. imóvel em ação no silêncio Respira luzes. do coração açoite Móvel. ressurgem vidas! Gira território “Cachoeirar” Gira Orum Gira Nossa Senhora Águas mudam tudo Ao redor do sol Ao redor do sol Gira o sonho Gira a poesia Gira o asfalto Gira o dia Gira mainha Gira o despacho Gira a melodia Gira o cansaço Gira Maria Mulambo Padilha Gira quadril assanhado da menina Gira a deusa. se alimenta de tempo Voa sem tirar os pés da terra Vira asa. 93 Sou eu. gira.

gira Vai girar. 94 Gira o compasso Gira o eterno Gira o passado Gira o ventre A fé também gira Gira o inverno Gira a vida Gira prego. Vai girar. RITUAL Aumento dos níveis d´água Equilíbrio dos níveis d’água Corpo Cavalgado É só um corpo cavalgado É só um corpo É só um É só É .. filosofia Gira a deusa. Vai girar. pó e padaria Gira bar.. mercado. gira.