HUMANIZAÇÃO DOS DESLOCAMENTOS DOS PEDESTRES NAS CALÇADAS DA AVENIDA JOÃO NAVES DE ÁVILA HUMANIZACIÓN DE LOS DISLOCAMIENTOS DE LOS

PEATÓNES EN LAS VEREDAS DE LA AVENIDA JOÃO NAVES DE AVILA AMARO, Fernanda Ribeiro feramaro@gmail.com
RESUMO A reflexão sobre a otimização dos fluxos urbanos dos pedestres da Avenida João Naves de Ávila presente neste estudo, compreende as calçadas enquanto espaços de informação, onde se ressalta: poluição, principalmente visual; apropriação dos espaços públicos pelo uso privado; irregularidades no pavimento e arborização. A metodologia utilizada foi a experiência empírica de caminhada na avenida, a análise da legislação do município de Uberlândia, acompanhada de uma revisão bibliográfica interdisciplinar aplicada ao planejamento urbano. Os resultados obtidos foram a apreensão da realidade das calçadas na situação atual, por um ensaio fotográfico e vídeo, no qual denunciamos sua degradação e oferecemos subsídios para uma ação crítica e eficiente para a humanização dos deslocamentos do pedestre na Avenida João Naves de Ávila. Palavras-chaves: espaço público, lugar, percepção. RESUMEN La reflexión a respecto de la mejor utilización de los flujos urbanos de los peatones en la avenida João Naves de Ávila presente en este estudio, comprende las veredas mientras espacios de información, donde si resalta: polución, principalmente visual; apropiación de los espacios públicos para el uso privado; irregularidades en el pavimento y arborización. La metodología utilizada fue la experiencia empírica de caminada en la avenida, el análisis de la legislación del municipio de Uberlândia, además de la revisión bibliografica interdisciplinaria aplicada al planeamiento urbano. Los resultados obtenidos fueron la aprehensión de la realidad de las veredas en la situación actual, por un ensayo fotográfico y vídeo, en las cual delatamos su degradación y ofrecemos subsidios para una acción crítica y eficiente para la humanización de los desplazamiento del peatón en la avenida João Naves de Ávila. Palabras-llaves: espacio público, lugar, pecepción

Introdução As cidades brasileiras apresentam inúmeras carências em relação ao pedestre, parecem serem planejadas para máquinas e automóveis e não para o homem em si, apelando para uma urgente humanização das estruturas necessárias para os deslocamentos urbanos de qualidade. O ritmo das cidades sugere uma “artificialização da natureza e por vezes, uma naturalização do artificial” (CÔRREA e ROSENDAHL, 2001, p. 56). Vemos isto expresso nas ruas, nas calçadas, nas vitrines, nos anúncios de publicidade em todos os espaços que alcançam nossos olhares no espaço urbano.

Estamos imersos a essas informações, que são assimiladas com passividade, sem um possível tempo de crítica para aceitação ou negação da mensagem. No entanto existem informações que são por excelência, banalizadas no cotidiano, por exemplo, as calçadas. Segundo Maffesoli, “são essas ‘banalidades’ que é útil analisar no momento em que tendo falido as grandes causas ideológicas é urgente voltar aos problemas essenciais da vida sem qualidade” (1995, p.14). Conscientizamos-nos da existência das calçadas quando tropeçamos em uma raiz de árvore ou em um pavimento mal colocado, ou quando nos vemos obrigados, por uma obstrução no caminho, a nos deslocarmos para a rua e depois retornarmos a calçada, correndo riscos de sofrer ou causar acidentes. Cidades são divididas em sistemas de rede de infra-estruturas, que buscam civilizar os espaços e disciplinar as ações de seus usuários, na conformação de uma funcionalidade que perpassem todas as esferas do espaço urbano. As classificações de redes mais comuns são referentes ao Sistema Viário, Sanitário, Energético e de Comunicações. As calçadas estão inseridas no Sistema Viário, que se compõe de vias de circulação, que atende diferentes meios de locomoção, de acordo com o tipo de espaço urbano. De acordo Mascaró (1987, p. 41), de todos os sistemas de infra-estrutura urbana, o viário é o mais delicado e é o que merece estudos mais cuidadosos, porque:
1. É o mais caro do conjunto de sistemas urbanos, abrangendo mais de 50% do custo total de urbanização; 2. Ocupa uma parcela importante do solo urbano (entre 20 e 25%); 3. Uma vez implantado é o sistema que mais apresenta dificuldade para aumentar sua capacidade pelo solo que ocupa, pelos custos que envolve e pelas dificuldades operativas que cria sua alteração; 4. É o subsistema que está mais vinculado aos usuários (os outros sistemas conduzem fluidos; este, pessoas) pelo que os acertos e erros de projeto e execução são mais evidentes para quem dele faz uso.

As vias exclusivas para pedestres, ou seja, calçadas ou passeios - como alguns denominam - devem ser sempre coordenadas com ruas, estradas ou sistemas de ciclovias, pois todos os sistemas de transporte formam um complexo único, indispensável para integração de localidades e circulação de pessoas, mercadorias e outros. As calçadas da Avenida João Naves de Ávila encontram-se deterioradas pelo seu longo uso e por apropriações indevidas segundo a Legislação Urbana de Uberlândia, apresentada no Código de Posturas do Município na Lei nº4744 de 04 de julho de 1988 e Lei Ambiental Complementar nº017 de 04 de dezembro de 1991. Os principais problemas elencados para o presente trabalho foram: o desnivelamento do pavimento, a poluição visual e residual (lixo), a instalação de objetos de ordem privada ao longo

da via pública, a disputa de espaço entre pedestres e aqueles que esperam ônibus em pontos ou abrigos e a pouca arborização. Sabe-se que outros problemas de ordem social também são de alta relevância para uma humanização dos deslocamentos dos pedestres na avenida, por exemplo: a mendicância, a prostituição e a violência dos assaltos. No entanto, nos restringiremos a discutir aqueles de ordem física, pois, assumimos a nossa fragilidade em desenvolver temas delicados para a realidade não só de Uberlândia, mas também de todo o país. Por meio de registro audiovisual e fotográfico retomaremos aos itens ressaltados, que é o objeto de interesse do estudo, no qual denunciamos a situação atual que as calçadas se encontram e forneceremos subsídios para possíveis ações e críticas para a melhoria da qualidade de vida do pedestre de Uberlândia. Incentivar a presença do pedestre no cenário urbano a partir de uma renovação no revestimento do pavimento das calçadas, arborização e limpeza dos elementos indevidamente presentes e muros a elas adjacentes é também uma tentativa de tornar a cidade, no caso específico, a Avenida João Naves de Ávila, menos fria e mais receptiva aos usuários, principalmente os pedestres, logo, mais humanizada. Além dos pés: o olhar por onde se pisa As grandes massas dos pedestres automatizam1 suas caminhadas pela cidade, enquanto condição para um fim determinado e não enquanto um fim em si. Tornar agradável as caminhadas é uma forma de resgatar o caráter de encontro das ruas e calçadas, colocar as pessoas para exercitar corpo e mente, economizar combustível, preservando o ar atmosférico, além da possibilidade de produzir novas percepções e conhecimentos a cerca de onde moram ou mesmo de onde passeiam. Crianças e velhos são os que mais fazem usos das calçadas:
Tanto os primeiros contatos na infância, como os últimos na velhice, estão, quase sempre, ligados à vizinhança; portanto, ao uso da calçada e à eventual travessia da rua. A rua, em frente à residência, é o espaço natural de sociabilização Enquanto o homem maduro consegue segmentar sua vida e seus horários, por necessidade ou por opção, idosos e crianças não o fazem. Os espaços na residência e na rua próxima são de esportes, lazer e sociabilização. Quanto mais pobres mais dependentes são desses espaços e das suas características. (DAROS, 2000, P.18)

Podemos nos integrar ao belo presente no sistema viário, tais como a vegetação, os monumentos, as construções, pois este nos desperta a uma percepção mais sensível e poética da realidade, pois não percebemos o real tal ele é, mas a partir de um mecanismo perceptivo

imposto pelo meio simbólico. Dessa forma a realidade é uma construção que se transforma a cada informação e experiência inserida na memória de nossa existência. Pequenos fragmentos cotidianos, como as calçadas, influenciam diretamente na qualidade de vida dos moradores da cidade, principalmente aqueles que não dispõem de automóveis ou outros meios de locomoção. A atitude de desviar dos obstáculos na calçada – mobiliário indevidamente disposto nos espaços de circulação de pedestres - utilizando a via de trafego de automóveis é muito perigosa, uma vez que a Avenida João Naves de Ávila é uma das vias com maior fluxo de automóveis e possui o maior índice de acidentes da cidade de Uberlândia, sendo 134 dos 7.742 acidentes de trânsito registrados no ano de 2004, segundo os dados fornecidos pela SETTRAN e sistematizado por Denise Labrea Ferreira em 2005. A partir destes valores, identificar-se a importância desta avenida para a mobilidade urbana, exigindo uma melhoria urgente de sua infra-estrutura. As irregularidades no pavimento (degraus, buracos e outros) dificultam os fluxos urbanos dos pedestres, principalmente daqueles que possuem mobilidade reduzida, como idosos, gestantes e deficientes, sendo indispensável um pavimento plano, com baixa inclinação e que não seja escorregadio. A poluição nas calçadas e muros dependem da educação dos usuários do espaço urbano disponibilidade de caixas coletoras de lixo ao longo da via - o que verificamos haver poucas. Por isso, campanhas educativas que incentive uma nova cultura de comportamento na cidade, onde o pedestre merece prioridade e respeito são sempre bem vindas, uma vez que pedestres somos todos nós e que condutores ou passageiros é uma condição temporária. O excesso de informação visual ao invés de estimular a produção de conhecimento, pode induzir um efeito contrário, como a alienação e o fetichismo da vida cotidiana, além da inibição da criatividade. A complexidade de um fragmento cotidiano De acordo com a corrente da fenomenologia 2, podemos pensar as calçadas como um fenômeno, que nos é apresentado à consciência a partir de um estimulo à percepção. Este estímulo pode ser a surpresa, como nos sugere a arquiteta Lucrecia D’Alessio Ferrara em sua coletânea de artigos “Ver a Cidade”, 1988 e depois em “O Olhar Periférico”, 1993. Portanto, surpreender-se é dar voz aos signos opacos do espaço geográfico, vivenciando-os e produzindo conhecimentos, pois não acreditamos na existência de um

dualismo entre sentir e entender, logo, “percepção é informação” (FERRARA, 1993, p. 153). Entendemos o espaço geográfico de acordo com a definição de Milton Santos, que o estabelece como um sistema indissociável de objetos e ações. (apud CORREIA; ROSENDAHL, 1999, p. 11). Estes podem, em partes, serem impostos pelo planejamento, no entanto, também são concebidos como uma ressonância da dimensão subjetiva de seus usuários, que transforma o espaço geográfico em lugar. A fragmentação do espaço em lugar é necessária para fazê-lo comunicar, pois, parafraseando FERRARA: o lugar se concretiza na informação que guarda. O espaço das calçadas muitas vezes é descartado da sua categoria de lugar e atribuído um simples instrumento ou objeto, no qual os pedestres deslocam-se de uma localidade a outra, sem tampouco perceberem os acontecimentos presente ao redor. O sentido utilitário das calçadas sobressai sobre o de lugar de comunhão social. Este utilitarismo é impregnado pela modernidade, na qual todos os elementos do espaço são “coisificados” a fim de servir à motivos individuais. Esta coisificação que citamos origina-se da ignorância de algumas pessoas em assimilar os conceitos de bem público, transferindo a responsabilidade dos mesmos os para órgãos regulamentadores, ou pior ainda, pessoas que nem se dão conta destas instâncias e que ao invés de atribuir a expressão “aquilo que é de todo mundo”, preferem adotar “aquilo que não é de ninguém”, estando estes espaços sujeitos a todos os tipos de degradação e maus usos. O ideário romântico de natureza intocada imposto culturalmente, a partir do Iluminismo, construindo um imaginário coletivo de que as cidades são inóspitas à seus moradores, exercendo apenas um papel utilitário que muito distancia-se do belo, suprime a apreciação do olhar no espaço geográfico urbano, inibindo a busca por novas referências e informações. A impressão que temos de anterioridade da cidade em relação ao homem, desestimula a intenção de (re)descobrir o já conhecido, de uma forma mais atenta às estéticas e informações que outrora eram julgadas banais, reconfigurando assim também, a própria experiência e repertorio de imagens mentais do homem, ou seja, sua memória. Camille Sitte expunha idéias que permeia concepções afetivas da natureza humana, nas quais a cidade ordenada, saneada e embelezada propicia um bem-estar na população e o sentimento de pertencimento e segurança nos lugares. Sobre este aspecto a padronização do pavimento e a retirada de seus equipamentos ilegais, lixo e poluição visual não só garantem melhorias paupáveis nos fluxos dos pedestres, sobretudo àqueles com mobilidade reduzida, mas também proporciona uma transformação imaterial na aceitação, identidade e qualidade de vida de seus usuários.

As Calçadas: lugares simbólicos Tomando o espaço como um fenômeno com linguagem própria, podemos fazer inúmeras conjecturas e associações úteis ao planejamento urbano. Caminhando pela Avenida João Naves de Ávila, estamos em contato com todos os atributos das calçadas: com os sentidos atentos, podemos produzir uma meta-experiência capaz de assimilar informações novas sobre a situação encontrada e assim, propor críticas e diretrizes para melhoria de sua infra-estrutura e conseqüente humanização na qualidade dos deslocamentos dos pedestres. Ao promovermos o encontro dos estudos geográficos com métodos de apreensão do espaço urbano, enquanto processo de formação da identidade almejamos uma nova abordagem sobre o tema das calçadas: a escala do corpo é resgatada enquanto fonte de informação contextual e representação social, pois “a historia de como se vê (ou representa) um corpo é inseparável de sua própria história no fluxo de vida” (GREINER, 2005, p. 20). O corpo pode ser observado nas suas nuances cotidianas como um instrumento metodológico midiático, que viabilizaria entender como um fenômeno específico torna-se um fato identificável e significativo. No entanto, sua observação possui caráter efêmero e diferente em cada pessoas, pois tudo no espaço geográfico encontra-se em movimento. Desta forma, os registros audiovisuais e fotográficos veiculam-se com a dupla função de documentar e denunciar o real, através de uma representação que nos aproxima e nos faz surpreender com a realidade das calçadas. O corpo e o comportamento humano também devem ser tomados como signos, pois a partir da observação empírica de suas necessidades e deficiências físicas e das reações produzidas ao defrontar com um obstáculo, uma irregularidade ou excesso de informações visuais podemos tirar algumas conclusões para atuação da equipe de planejamento. Segundo Takarashi, “as cidades não são apenas lugares: nela está encorpada uma complexidade que envolve a pele, as dimensões do entorno, e também a instancia de dentro com sua rede de subjetividades, percepções, estados corpóreos e sombras” (apud GREINER e AMORIM, 2003, p. 142). Os planejadores a partir de constatações sensíveis e conhecimentos teóricos ficam incumbidos de estabelecer a ordem nos espaços, estabelecendo os usos adequados e programando os lugares destinados a comunicação visual dentro do contexto das cidades.

No entanto, o hábito sobrepõe o projeto urbanístico, o atribuindo resignificações, que consistem em novas percepções, apreensões, representações, territorialidades e símbolos, ou seja, mune os espaços de identidade traduzindo-os em lugar, logo, hábito e identidade se caracterizam como uma forma de apropriação de um espaço público. A tentativa de estabelecer a ordem e a homogeneidade das características da cidade por parte dos planejadores choca-se com a identidade que particulariza e diferencia o espaço geográfico em lugar. Uma pergunta que devemos nos fazer é quem se identifica com esses lugares? Aqueles que se identificam com determinado lugar - conjunto de símbolos referenciais sentem-se territorializados, em detrimento daqueles que não. No entanto, uma sociedade que dispõe de mesma língua e sistema de poder, identifica mesmo que superficialmente com os seus símbolos, pois o consegue reconhece-los como informação. “O símbolo torna sensível os valores compartilhados” (CLAVAL, 2001, p. 157). Em toda sociedade há contradições e há símbolos diferenciados para cada modo de vida. Portanto, ao invés de imbricar todos eles no planejamento das calçadas formando um mosaico caótico de referências; preferimos uma homogeneidade com estética limpa e branda, composta por símbolos que não pertencem a um ou a outro grupo social e sim, atentem a todos, democraticamente, pois se constituem de símbolos urbanos universais. Um lugar que converge muitos fluxos pode ficar saturado de informações visuais, inclusive impedindo o uso e a assimilação de seus signos por emaranhado de objetos, imagens e textos sobrepostos comuns à sociedade de consumo, que reduz a cognição e aliena o usuário de sua própria realidade. Não há ninguém que certa hora do dia não seja interpelado com um anuncio, uma informação, um estereótipo e intimado a tomar partido a respeito de minúcias pré-fabricadas que cuidadosamente obstruem todas as fontes de criatividade cotidiana. Chamaremos estas minúcias de poluição visual. A Lei Ambiental Complementar nº. 017 de 04 de dezembro de 1991, no capítulo II, seção II, considera poluição visual como:
A colocação indevida de faixas, cartazes, out-doors, placas, e outros instrumentos, bem como, a colocação de materiais de qualquer natureza, inclusive o acúmulo de lixo em lotes vagos, que alterem o visual de vias, logradouros públicos, canteiros centrais e praças, o que poderia até, dependendo da disposição, prejudicar o desenvolvimento normal do tráfego e segurança da população; ou a interferência visual significativa em monumentos históricos, devidamente resguardados por lei.

Os comerciantes utilizam as calçadas como uma extensão de seus estabelecimentos, colocando as mercadorias em exposição no local destinado ao fluxo dos pedestres. Esta atitude dos comerciantes é ilegal de acordo com o Código de Posturas do município de Uberlândia, e gera riscos àqueles que passam pela avenida e são obrigados a desviarem dos “obstáculos” utilizando a avenida. É fundamental ressaltar que a Avenida João Naves de Ávila é uma das vias de maior movimento de automóveis de Uberlândia, inclusive ônibus coletivos, correspondente a 38 veículos por hora, segundo informações da (VERTRAN, 2005); além de ser um eixo estrutural do crescimento da cidade, estabelecido pelo Plano Diretor de 1994, que comporta uma diversidade de estabelecimentos comerciais, institucionais e serviços e algumas residências ao longo de seu trajeto. Outro problema encontrado nas calçadas da Avenida João Naves de Ávila é a irregularidade dos pavimentos, este fato se explica principalmente, devido a não padronização dos materiais, seu tempo de utilização e espécies arbóreas de grande porte, que arrebentam as calçadas com suas raízes. De acordo com o Código de Posturas do município de Uberlândia, no capítulo III, seção I, referente à ocupação das vias públicas, fica estabelecido os critérios de permissão para colocar mesas, cadeiras ou outros objetos (Artigo 61); caixas coletoras de correspondência, caixas bancários eletrônicos, relógios, estátuas, monumentos – desde que comprovada a necessidade ou seu valor artístico ou cívico, postes de iluminação, hidrantes, linhas telegráficas ou telefônicas (Artigo 62). O Artigo 64 refere-se à infração de qualquer dispositivo da Seção será imposta multa correspondente ao valor de um terço a quatorze vezes a UFPU, aplicando-se a multa em dobro na reincidência especifica, seguindo-se a apreensão de bens, interdição, cassação de licença de funcionamento e proibição de transacionar com as repartições municipais, conforme o caso. O Artigo 63 apresenta um aspecto importante, pois estabelece que no caso de paralisação ou mau funcionamento de relógio instalado em logradouros públicos, seu mostrador deverá permanecer encoberto. Isto vem a demonstrar o respeito pelo cidadão que o utiliza como referencial do tempo. A Avenida João Naves de Ávila: um eixo estrutural do crescimento de Uberlândia A Avenida João Naves de Ávila era definida como via arterial pela Lei Complementar nº. 374 de 27 de agosto de 2004, que estabelece o Sistema Viário. Dessa forma, a avenida

inserida na Lei de Uso e Ocupação do Solo (Lei Complementar nº. 245 de 30 de novembro de 2000) permite os usos residenciais; os usos comerciais; os usos de serviços e os usos industriais de pequeno porte. Ao longo do período 1989/1999 a estrutura se consolidou sob a vigilância dessas restrições urbanísticas, que, contudo, não se mostraram capazes de subsidiar um crescimento ordenado e uma forma urbana mais adequada aos padrões de vida esperados. A elaboração e aprovação do Plano Diretor de 1994 trouxeram novas perspectivas funcionais para a Avenida João Naves de Ávila e seu entorno. O papel da via estrutural estabelecido para a referida via e seu entorno requer, no entanto muito mais do que critérios estabelecidos por uma Lei, estendendo-se aos campos de investimentos públicos e parcerias com os demais segmentos da população. A Lei complementar nº224/99, que dispõe sobre o parcelamento e zoneamento do uso e ocupação do solo urbano, estabelece novos usos para a Avenida João Naves de Ávila e entorno, baseando-se em seu papel de grande macro-eixo da cidade, por exemplo o direito ao solo criado - mecanismo que permite o cidadão construir uma área maior que a permitida na Lei de Uso e Ocupação do Solo, mediante pagamento ao Poder Público Municipal. Dessa forma, espera-se um adensamento em curto prazo, uma vez que a Avenida possui infra-estrutura significativa, principalmente após a implementação do Corredor Estrutural João Naves de Ávila. Um eixo estrutural consiste de vias troncais que orientam a expansão do centro urbano e o crescimento da cidade. As linhas troncais formam a estrutura do sistema de transporte coletivo e operam com grande capacidade de demanda e de deslocamento de veículos. O Corredor de Transportes da Avenida João Naves de Ávila é utilizado mensalmente por 652.475 passageiros (SETTRAN, 2005), constituindo-se na principal via de transporte de Uberlândia, e também via de acesso á saída de grandes centros urbanos como São Paulo e Rio de Janeiro. Além disso é o único corredor que divide e integra o Setor Sul do Setor Leste e atende também ao Setor Central. A ligação do Hipercentro com o Center Shopping, o Centro Administrativo e o Campus da Universidade Federal de Uberlândia, tornaram esta avenida estratégica para o processo de deslocamento das atividades comerciais e de prestação de serviços no sentido Hipercentro Campus da UFU (ver Mapa 1). A definição deste segmento como corredor de transporte coletivo, com tratamento especial para a circulação dos ônibus contribuirá de maneira positiva para o crescimento ordenado desta região de Uberlândia.

Corredor Estrutural João Naves de Ávila: um novo conceito de sistema viário O Corredor Estrutural João Naves de Ávila é um empreendimento que visa melhorar o sistema viário da Avenida como um todo, assim como das ruas perpendiculares a ela, favorecendo os deslocamentos sejam de ônibus, carros ou mesmo pedestres. Dentro de uma visão sistêmica, o Projeto do Corredor Estrutural João Naves busca tratar a via de forma a minimizar os problemas de coexistência de diversas modalidades de transporte. A segurança é um fator preponderante quando se implanta Corredores de Transporte. Dessa forma são propostas medidas tranqüilizadoras para os deslocamentos dos pedestres, tais como a implantação de elevação do pavimento nos cruzamentos de maior volume de pedestres, “traffic calming”, sinalização semafórica dirigida, avanços na calçada, entre outros tratamentos.

Os pedestres não disputarão mais espaços com os cidadãos que esperam ônibus nos pontos ou abrigos, pois estes irão ser extintos em função das estações questão sendo construídas no canteiro central, trazendo mais proteção e conforto para o usuário do Sistema Integrado de Transporte. O objetivo maior do Corredor Estrutural João Naves de Ávila é desenvolver o trinômio: acessibilidade, mobilidade e transporte, que é a base de planejamento de transportes adaptados ás necessidades humanas de deslocamento. Além destas preocupações, o Corredor contempla também o conforto térmico de seus pedestres, por meio de um projeto paisagístico que além de valorizar a paisagem urbana melhora o micro-clima das calçadas e canteiros centrais. Foram plantadas 1000 árvores da espécie Oiti nas calçadas. A opção por uma única espécie destina-se a proporcionar unidade ao corredor de transportes, além de que esta espécie apresenta ótima adaptação, com crescimento rápido e apreciação da população, pelo seu potencial ornamental e por ser perenifólia, ou seja, não perde as folhas, sujando as calçadas e entupindo bueiros. Também foram utilizadas algumas espécies do Cerrado características, tal como a Eretrina. Árvores de porte médio dispostas nas calçadas atrapalham os fluxos dos pedestres, além de não oferecer sombra. Pretende-se com o paisagismo a formação de uma grande massa verde que contribua para diminuir os impactos produzidos pela fumaça e ruídos dos veículos, amenizar o calor acentuado pelo asfalto e também aumentar a drenagem, diminuindo o escoamento superficial da chuva, pois o impacto das gotas da água com as calçadas causam estragos que podem ser imediatos ou que podem contribuir para o desgaste e quebra do pavimento. As espécies arbóreas foram distribuídas de forma a permitir a formação de grupos floridos na Avenida, em diversas épocas do ano e aumentar a área permeável do solo urbano. Portanto, o Corredor Estrutural João Naves é a continuidade da implementação do Plano Diretor de Uberlândia, aprovado em 1994 pela comunidade uberlandense, conhecido e discutido durante a realização do mesmo. A valorização da paisagem urbana através de intervenções que possuam qualidade estética e padrões funcionais de qualidade é a ação do Corredor Estrutural da João Naves de Ávila para a humanização dos deslocamentos do pedestre nas suas calçadas.

Registros de um caminhante: um ensaio de imagens e movimento Todo objeto só tem sentido para nós quando em cumplicidade com nossa consciência perceptiva, portanto, para que algum elemento do espaço comunique, produzindo informação é necessária uma interação sensível e um processo cognitivo-associativo que permita uma tentativa de apreensão de sua essência. Esta que se constitui da infinidade de relações que estabelecidas a partir do objeto, necessariamente proporcionam aprendizado e mudanças de comportamento. Assim, espaço de informação é que aquele que estabelece um comportamento, um modo de vida, que é estabelecido pelos os usos e hábitos que fazemos nos espaços. As heterogeneidades dos modos de vida no urbano constroem as diversas imagens que se podem fazer dos espaços, singularizando-os em lugares a partir de uma relação social estabelecida. O projeto urbanístico dos espaços somado aos usos e hábitos de um determinado grupo social formam a imagem dos lugares da cidade. Segundo Ferrara:
A imagem corresponde á informação solidamente relacionada com um significado que se constrói numa síntese de contornos claros que faz única e intransferível. A imagem tem um e apenas um significado, corresponde a um dado solidamente codificado no modo de ser daquela sintaxe. É um código urbano e impõe uma leitura e fruição que estão claramente inscritos na cidade como espaço construído. (apud PESAVENTO; SOUZA, 1997, p. 194)

Contudo, o conceito de imagem não se restringe a uma só definição, podemos falar em imagem mental, imagem tempo, imagem pulsão, imagem percepção, imagem movimento, etc. Para resumir: a imagem é sempre uma “dupla realidade perceptiva: é percebida a um só tempo como bidimensional e tridimensional” (AUMONT; MARIE, 2003, p.160). Inúmeras associações são feitas a partir de uma imagem, produzindo diversos outros significados a partir de um significado primeiro. Este processo corresponde ao de produção do conhecimento e não possui um limiar definido. Através de uma acumulação de imagensreferências dispostas na memória do individuo, este nutre seu repertório de imagens, que constitui o imaginário. Este estudo utiliza-se a imagem enquanto representação da realidade das calçadas apreendida em ensaio fotográfico e vídeo. Ensaios sempre têm caráter de pesquisa e julgamos ambos como um ótimo método para o desenvolvimento do imaginário do receptor, pois fornecem informações diretas para associação com as já armazenadas anteriormente. Para produção do ensaio fotográfico e vídeo foram realizadas caminhadas ao longo da Avenida João Naves de Ávila, registrando os problemas ressaltados pelo estudo – apropriação dos espaços públicos pelo uso privado; irregularidades no pavimento; arborização e poluição,

sobretudo visual - em peripécias cotidianas, que aconteceram em determinados momentos em lugares da avenida. A velocidade das situações e de imagens observadas no vídeo se desenvolve conforme o ritmo da caminhada. A efemeridade dos momentos foi registrada para uma profunda análise e crítica da situação atual e para possíveis ações transformadoras que envolvam a infra-estrutura das calçadas ou mesmo a atitude em relação a elas. Espera-se uma educação que compreenda a dimensão dos espaços públicos, contemplando a não apropriação e a não poluição dos mesmos. Quanto à arborização e a irregular topografia das calçadas, o Corredor Estrutural João Naves de Ávila se responsabiliza. Cabe então, aos usuários a conservação das calçadas na esfera que os possibilitem. Considerações Finais Contudo, acredita-se que a construção do conhecimento, o aprimoramento do olhar e acima de tudo da percepção são processos que nunca devem encerrar. A educação no trânsito, incluindo o trânsito de pedestre nas calçadas é fundamental para melhoria da qualidade de vida urbana. Uma vez que, não só os espaços físicos como também as relações sociais presentes nos mesmos encontram-se saturadas, todas as iniciativas que contemplem a humanização da imagem que fazemos da cidade são válidas. As calçadas são, portanto, estruturas físicas indispensáveis para a funcionalidade do espaço urbano, além de serem lugares simbólicos de sociabilização, interação e troca de informações do pedestre com a cidade. Deste modo, é sempre importante lembrar que qualquer uso que não seja deslocamentos por meio de caminhadas à pé nas calçadas, vão de encontro com sua real intenção e causam impactos de grandeza material e principalmente imaterial, que afetam a percepção que é feita das calçadas, assim como o sentimento de identidade com estes lugares, que desemboca no respeito e no cuidado que tem-se com os mesmos. O ensaio fotográfico e o vídeo serão dados para surpreender os olhares, divulgando imagens que irão compor o arsenal de nossa memória com fragmentos cotidianos ora julgados banais, atribuindo-os sentidos imagéticos (objetivos) e também imaginativos (subjetivos) que irão subsidiar um deslocamento mais eficiente e poético pelas calçadas da Avenida João Naves de Ávila.

Notas

1

Do substantivo automatismo, ou seja, interiorização de uma seqüência de gestos simples memorizados e apreendidos pela repetição.
2

Corrente da filosofia que não faz distinção entre o papel atuante do sujeito que conhece e a influência do objeto conhecido. A consciência é sempre consciência de alguma coisa e o objeto é sempre um objeto para uma consciência. O objeto é um fenômeno, algo que se manifesta tal como é não é uma representação, mas introduz signos culturais, os quais pode-se identificar em sua apresentação. Para a fenomenologia a questão não é a realidade do mundo visível, mas o modo como o conhecimento do mundo é expresso.

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