D. Sebastião. História e Mito em Portugal e Espanha, por Maria Helena Buescu 0 ratings 0% found this document useful (0 votes)
27 views
13 pages click to expand document information Description: A estudiosa analisa os principais elementos biográficos do rei D. Sebastião e foca o tratamento literário que a figura do monarca tem junto de alguns cronistas, o que adensa a sua 'mitologia'.
Date uploaded Sep 18, 2017
Copyright © © All Rights Reserved
Available Formats PDF or read online from Scribd
Did you find this document useful? Description: A estudiosa analisa os principais elementos biográficos do rei D. Sebastião e foca o tratamento literário que a figura do monarca tem junto de alguns cronistas, o que adensa a sua 'mitologia'.
Copyright: © All Rights Reserved
Available Formats Download as PDF or read online from Scribd
0 ratings 0% found this document useful (0 votes)
27 views 13 pages
D. Sebastião. História e Mito em Portugal e Espanha, por Maria Helena Buescu Description: A estudiosa analisa os principais elementos biográficos do rei D. Sebastião e foca o tratamento literário que a figura do monarca tem junto de alguns cronistas, o que adensa a sua 'mitologia'.
Copyright: © All Rights Reserved
Available Formats Download as PDF or read online from Scribd
Save Save D. Sebastião. História e Mito em Portugal e Espanh... For Later
0% 0% found this document useful, Mark this document as useful
0% 0% found this document not useful, Mark this document as not useful
Embed
Print Em Louvor da Linguagem
Homenagem a Maria Leonor Carvalhao Buescu
ay
eI
bois
Colibri; D. SEBASTIAO.
HISTOR MITO EM PORTUGAL E ESPANH:
Maria Leonor Machado de Sousa
Universidade Nova de Lisboa
Hi anos atrés escrevi um ensaio intitulado “Encoberto sim, mas Dese-
407”. Nele estudei as razSes € a veracidade desses cognomes de D. Sebas-
, mitificados por uma nagdo enfraquecida e submetida a um pafs estra-
mmias que s6 aceitava a ideia de “Desejado” por no ter alternativa que a
ertasse do jugo estrangeiro.
Filho de um principe j4 morto e da Infanta D. Joana, irmé de Filipe Tl,
SebastiGo foi desejado, talvez mais que nenhum outro principe em Portu-
| aclamado com extraordinério jébilo, como garante da independéncia do
Jno e do Império. Mas, diz um cronista da época', as felicidades todas que
parecia prometer logo se desfizeram: “murchou-se brevemente a flor das
‘suas esperancas, porque tanto o Rei se viu absoluto, nao sonhava mais que
nconquistas”.
| Se bem que esta tendéncia de vencer 0s infigis e expandir 0 impétio A
systa da sua derrota estivesse fortemente enraizada ¢ tenha tido eco inelusi-
famente em Cam®es, que, por outro lado, se mostrou pessimista relativa-
mente 3 expansio ultramarina, a verdade € que os conselheiros mais velhos
assisados o tentaram demover da empresa afticana. Nao estava preparado
para ela um pais pequeno como Portugal, a quem o império absorvera as
forcas militares, deixando apenas os jovens inexperientes ¢ os idosos demais
para tal empreendimento.
Mas D. Sebastido no ouviu nenhum conselho que o contrariasse, nem
mesmo o do seu inimigo principal, ‘Abd al-milic, que Ihe escreveu sugerin-
* ste texto foi apresentado em 1997 no Curso de Férias da Universidade de Oviedo, em
Gijon
1 Francisco da Fonseca, Evora Gloriosa, §193, p. 113.
Em Louvor da Linguagem ~ Homenagem a M. Leonor Buescu (Lishoa: Edigbes Colibri,
2003), pp. 223-234.Maria Leonor Machado de Sousa
do um entendimento com algumas cedéncias de ambos os lados, de modo a
evitar as perdas tao grandes que se avizinhavam,
Para D. Sebastido, a empresa tinha um significado que ultrapassava a
derrota dos mouros ¢ 0 alargamento do Império, que desde o reinado de sea
avo, D. Jodo IIL ia perdendo territérios que a sua demasiada extensto nig
tinha permitido defender. Nos finais do século XVI, ele sonhava ainda com,
Os ideais e as proezas da Cavalaria, no ambiente de religiosidade em que
cresceu
D. Sebastido concentrou em si os tltimos ecos da cruzada que seu avo,
0 Imperador Carlos V, proclamara em 1535, ao dizer-se “‘cavaleiro de Deu?
antes de embarcar para a expedicao contra os infigis de Tunes. Voltando as
Costas ao presente, em que as conquistas portuguesas se perdiam, procurou
os seus modelos nos tempos gloriosos em que os seus antepassados no
feceavam coisa alguma e pareciam invenciveis, Atrafam-no particularmente
D. Afonso I, fundador do reino e vencedor de cinco reis mouros numa tnies
batalha, © D. Afonso IIL, que expulsara os tltimos infigis de Portugal. Com a
cabega cheia de ideais cavalheirescos, numa época em que se pode dizer que
i estavam ultrapassados na Europa, levou consigo a espada de D. Afonso 1,
mas no chegou a utilizé-la na batalha
Desde muito novo pedia a Deus que o fizesse scu “‘capitéo”, Queria a
cruzada ¢ a conquista, mas no soube aguardar a ocasiio mais propicia, nem
Preparar-se a si e ao seu exército. Empenhou a sua palavra imprudentemen-
te, ¢ a honra impunha-The que a cumprisse. Prometeu auxilio 4 um principe
ue se apresentou como tendo sido despojado dos seus direitos, sem com.
render claramente a situago, que ndo era realmente a da justiga, ¢ quis
defendé-la até as dltimas consequéncias. Apenas contaram a sua palavra e
uma vontade absoluta. Para ele, prudéncia significava cobardia, no se
Punha sequer a hipétese de recuar. Com uma nova bula de cruzada, partiu
para Africa, levando consigo os sonhos e as realidades do seu povo.
Mas € preciso compreender o que ele representava para a sua época ¢
sum pais que, em nome da cruzada, fora conquistado ¢ aumentado a0 ponto
de se tomar 0 maior império do mundo. Era um pafs que esperava tudlo do
Stu Tel, que conselheiros, povo e poetas incitavam a guerra santa nacional,
Tuma tentativa de retomar as grandes tradigdes. Era um pais que vivia a rea.
lidade de uma gléria perdida, mas que persistia em sonhar com uma idade de
Ouro que s6 poderia conseguir-se por vitdrias impossiveis,
D. Sebastido era um rei doentio, nao podia corresponder ao que se espe-
rava dele, Educado por um cavaleito (D. Aleixo de Meneses) ¢ um padre
(Frei Lufs Gongalves da Camara), conhecia os mais belos ideais, mes era
bem filho de um pais sonhador e irrealista,
Um soneto de Lope de Vega Carpio fez um resumo do que significou 0
desfecho da batalha:ato
e-
re
ra
D. Sebastiao. Histéria e Mito em Portugal e Espanha 225
O nunca fueras Africa desierta,
En medio de los Tropicos fundada,
Ni por el fertil Nilo coronada,
Te viera el Alva, quando el Sol despierta
Nunca tu arena inculta descobierta
Se viera de Cristiana planta honrada,
Ni abriera en ti la Portuguesa espada,
A tantos males tan sangrienta puerta,
Perdiose en ti, de la mayor nobleza,
De Lusitania, una florida parte,
Perdiose su corona, y su riqueza.
Pues tu que no miravas su estandarte,
Sobre el los pies, levantas la cabega
Cefiida en torno de! laurel de Marte,
Uma florida parte da maior nobreza da Lusitania, a sua coroa e a sua
rigueza, tudo se perdeu em Alc4cer-Quibir. A submissdo 4 Espanha era pra-
ticamente inevitavel, porque D. Anténio, Prior do Crato, 0 tinico pretendente
portugués, era bastardo nao tinha exército que o apoiasse. Filipe Il, tio do
Rei, herdava o trono com legitimidade, depois de ter preparado a opiniao
europeia através de um relato da batalha escrito por sua ordem por Frei Luis
Nieto traduzido em vérias linguas, e a opiniéo portuguesa com as cinzas
trazidas de Fez € sepultadas no Mosteiro dos Jerénimos, como sendo as do
Rei. Assim mesmo fica a davida, registada nas palavras no timulo no inicio
do século XVIII: “Si vera est fama”.
E curioso verificar que os relatos espanhéis descrevem, embora com
algumas diferencas, a morte do Rei, cuja garantia era fundamental para a
Espanha. Por seu lado, os relatos portugueses contam o seu afastamento,
geralmente ao longo do rio, mas néo falam da sua morte. Mais do que um
argumento, pouco consistente por falta de provas, esta incerteza favorecia a
esperanga e alimentava o tipo de messianismo que em Portugal se chamou
“sebastianismo””
O Sebastianismo, alimentado na época pela interpretagio tendenciosa
de profecias que vinham de h4 muitos anos, era sobretudo anacrénico por-
que desejava um rei que no chegara a ter tempo de se afirmar como um
bom rei. Por isso, 0 epiteto “Desejado” recuperava as circunstncias em que
viera a0 mundo ¢ era-lhe aplicado porque nao havia outra hipéteses que
garantisse a independéncia nacional. O rei dos sebastianistas uma criagao
totalmente desligada da realidade do principe que destruiu o seu reino na
aventura louca de Alcdcer-Quibir. Uma vez encoberto 0 verdadeiro
D. Sebastido, 0 povo desventurado recusou emotivamente a realidade queMaria Leonor Machado de Sousa
conhecia e de que era vitima para retomar a atitude de e
rodeara 0 nascimento daquele principe tao desejado.
A mitologia criada em tomno de um rei desaparecido (mas vivo, embora
“encoberto”) ndo é caso tinico na histéria europeia. Para no falar no irteal
Rei Artur, temos os casos histéricos de Ricardo Corago-de-Ledo e Fredes
Fico Barbarossa, por exemplo. Estas situagGes eram possiveis nos paises que
travavam guerras distantes, como foram a Reconquista ibérica e as Cruza.
das. A batalha de Alcécer-Quibir foi um acontecimento que tinha todos os
elementos necessérios & elaboragao de davidas quanto ao desaparecimento
dos cadaveres nao recuperados. Havia sempre a hipétese de que aquele que
ndo aparecia fosse um dos muitos cativos dos mouros vitoriosos. Esta pro-
blematica dew origem aquele que seré talvez 0 mais perfeito drama trégico
portugués, Frei Luts de Sousa, de Almeida Garrett, 1843,
O facto de os relatos portugueses nao testemunharem a morte do Rei
tem algumas explicagGes, para além de poderem corresponder A realidade,
Uma delas, como jé disse, radicava na esperanca, Outra, mais consistente,
tinha a ver com os e6digos de honra cavalheirescos. O fidalgo que tivesse
visto morrer 0 seu rei podia incorrer na acusacio de cobardia, pois sobrevi-
vera sem conseguir defendé-lo.
Por outro lado, as declaragdes dos portugueses que foram chamados a
teconhecer um cadaver despido como sendo o de D. Sebasti io tém uma
razo I6gica: mesmo nfo tendo a certeza de quem se tratava, a declaragio de
que era o Rei faria os mouros desistir de o procurar e daria maiores possibi-
lidades a que ele se pusesse a salvo, no caso de estar vivo.
O mesmo cronista que jé citei, Francisco da Fonseca, definiu bem 0
misto de sentimentos que envolvia esta problemitica:
Xpectativa que
Os portugueses, que amavam excessivamente a El Rei, ¢ esperavam dele 0
seu remédio, por carinho, por saudade e por afecto sempre o contemplaram
vivo e, como 0 conheceram her6i, esperavam-no imortal.?
“Por carinho, por saudade ¢ por afecto” — aqui est, dita em termos
simples, a verdadeira raiz do mito, Carinho por aquele principe cuja vida
fora ansiosamente segnida dia a dia, saudade por um tempo que se imaginara
cheio de promessas a realizar num longo reinado de prosperidade, afecto por
aquele jovem bem-parecido que seguira até ao sacrificio total os seus ideais
ue tinham norteado os construtores da grandeza que todos tinham esperado
recuperar. A medida da perda deu-a 0 cronista que disse:
2 Op. Cit, § 197, p. 114.D. Sebastido. Historia e Mito em Portugal e Espanha
Se fizeram com universal luto as mais fiinebres exéquias que nunca viu a
sen Corte, porque nas outras se chorava a morte do Rei, nestas a do
Reino, ada Gléria e a da Baronia, que tudo em Sebastido acabava.
Para desgraga tdo definitiva s6 podia buscar-se um conforto sobrenatu-
ral, o que se encontrava nas profecias:
a promessa de Cristo, que na décima sexta geragio [recordemos que
D.Sebastito foi o décimo sexto rei de Portugal] nos tinha profetizado 0 ]
|
castigo e prometide o remédio?
superstigio, tendéncias atavicas propicias & eriagio de mistério, predis- }
posigio psicol6gica para resolver num plano sobrenatural as dificuldades de
pov realidade desagradével, para uma atitude de esperanga passiva, do Pre-
Fargnoia a busca activa de uma solugio, tudo isto poderd ajudar a explicar 0 |
Sebastianismo. |
Esta espécie de passividade foi registada pelo
D’Ablancourt, que esteve em Portugal na segunda meta
exprimiu esta opinio sobre 0 povo portugues
embaixador francés
de do século XVII e
Baste € um pats onde todas as coisas se fazem por milagres, € os portuauests ]
fomam como certas as coisas que desejam, sem outra garantia para além do |
exemplo de uma felicidade semelhante.*
pois de Alcdcer-Quibir nio se perdeu o esp- |
rito sebastianista, a atitude de esperar que uma personagem superior VicSS®
resolver as ctises dos momentos dificeis da nossa histéria. Ainda hoje se nao 1
perdcu a ideia de que haveré sempre alguém predestinado para salvar 0 povo
eanacao.
Rei nenhum
origem a tantos relatos,
No decorrer dos séculos de
foi assunto de tantas crénicas, nenhum acontecimento dew
‘a tantas justificagées. As crGnicas, praticamente todas |
touritas depois da derrota africana, foram movidas pelas emogées excessivas
cafomo da figura do Rei, transformando-o no heréi quase perfeito, que
mor se imaginava porque estava “encoberto”. Desde uma deserigao fisica |
“maior coragem que jamais se ouviu
que implicava beleza e majestade até &
falar em outro principe” referida pelo espanhol Luis Nieto na Refacion de las
Guerras de Berberia, as crénicas falaram da sua religiosidade, do seu brio, dos
seus “grandes pensamentos”, das suas excelentes qualidades, de uma alma sem \
qualquer vicio. Estes louvores nfio safram apenas das descrigaes portuguesas. ]
srasae ratores espanhiis, como Antonio de San Roman, Juan Batista Morales
¢ Antonio de Buena Parada, tragaram retratos entusidsticos.
aise ee ]
3 As duas citagdes, Op. Cit., § 199, p. 115. \
4 Apud Sarupaio Bruno, O Encoberto, p61Maria Leonor Machado de Sousa
Até as varias baladas espanholas exprimiram desgosto por t40 grande
Tragedia, a tragédia que Fernando de Herrera descreveu numa cangao ints
lada “Por la Pérdida del Rei D. Sebastian”:
Voz de dolor, i canto de gemido,
i espirito de miedo, embuelto en ira,
hagan principio acerbo a la memoria
d’aquel dia fatal aborrecido,
que Lusitania misera suspira,
desnuda de valor, falta de gloria.
Herrera termina o seu poema com uma acusago violenta aos vencedo-
es e uma ameaca de alguma forma também sebastianista
Tu, infata Libia, en cuya seca arena
murio el vencido Reino Lusitano,
i s'acabé su generosa gloria,
no estés alegre i d’ufania Ilena,
Porque tu temerosa i flaca mano,
tubo sin esperanga tal vitoria,
indina de memoria
que si el justo dolor mueve a venganga
alguna vez el Espafiol corage,
despedacada con aguda langa,
compensaris muriendo el hecho ultrage;
i Luco amedrentado, al mar immenso
pagara d’ Africana sangre el censo.
Mas nio foram s6 os historiadores que fizeram um retrato atraente de
D. Sebastido. Luis Velez de Guevara, nas primeiras décadas do século XVI,
fez uma das suas “comédias famosas” intitulada “Del Rey Don Sebastian,
que pode chamar-se uma crénica dramatizada. Nela faz uma descrig&o ent.
sidstica do Rei, mas posta na boca de um portugués:
: sus afios
serén poco mis de veinte.
Es de proporcion hermosa,
tiene el rostro grave y bello,
crespo y aspero el cabello,
ancha frente y espaciosa;
verdes los ojos y grandes,
la nariz, de fuerte y sabio,
belfo y partido el un labio,
por lo que tiene de Fléndes.
Ancho de espalda y de pecho,D. Sebastido. Histéria e Mito em Portugal e Espanha 29
donde el corazon valiente,
con estar tan anchamente,
parece que vive estr
De piés, y piernas, y brazos
hermosamente compuesto;
€ dadivoso, es honesto;
si salta, es viento, si corre,
al viento ligero admira.
+ YY para decir quicn es,
En estilo mas sucinto,
es nieto de Carlos Quinto
yen efecto Portugués.
Também Maw! bd al-Milik, que aparece neste drama, como na
generalidade dos textos, como “Maluco”, faz. um retrato favordvel:
Muestra extrafia y fuerte tiene,
tiene belleza exquisita
y es feroz con la belleza;
grande valor pronostica
Este retrato me ha dado
extraiia melancolia;
cbrele y guardale all
su ferocidad me admira.
© drama segue rigorosamente a Hist6ria, ou aquilo que foi apresentado
como Hist6ria, com a passagem do cometa, 0 encontro de D. Sebastido com
© eeu tio Filipe I, a vinda do Xarif a Portugal, o envio de Francisco Aldana
para acompanhar a empresa, as tentativas dos fidalgos mais experionies St
procuram travar os {mpetos do Rei de modo a preparar melhor a batalha
contra os drabes:
Dicenle todos los suyos
viendo el poder del contrario,
que suspenda la batalla
por algun tiempo & espacio,
el Lusitano.
Uma mulher reforga este pedido:
( No dés la batalla, Rey,
vuélvete al mar, alza el campo,
que importa 4 tu vida hacello,
y al honor de tus vassallos.Maria Leonor Machado de Sousa
Acela responde 0 Rei:
srrnetenneeen EXE ARIO
Prodigio! En mi vida tuve,
sino es hoy temor y espanto,
] Estas son hechicerias
destes perros afticanos,
Para ponerme temor:
su cobarde intento alcanzo,
No os valdrén, perros, conmigo
Nigroménticos engafios,
que soy Portugués, y soy
estampa del quinto Carlos,
‘No me amendrentan visiones,
no me dan sombras espantos,
venganza soy de Rodrigo,
¥ teliquias de Pelayo,
A questo das genealogias aparece com frequencia:
i Ah mi prior, ah mi tio,
ho veis que soy Portugués,
Y Carlos fue agiielo mio!
{4 em plena batalha, D. Sebastiao ditige-se aos espanh6is, comandados
Por Aldana:
Mirad que sois Espaiioles
Venced contrarias fortunas,
}
| No eclipse Africa las gloria
| de Espafia, mirad que you
| soy nieto del qui midié
Sus arenas com victorias,
40 fim da batalha, Hamet mistura Portugal ¢ Espanha:
Rey de Portugal famoso,
invencible y temerario,
casi apenas te conozco,
i Celebre ef mundo tu fama
| desde el uno al outro polo;
lore Espafia tu desdicha,
rama del ceséreo tronco!D. Sebastido. Histéria e Mito em Portugal ¢ Espanha
Para os autores de fora da Peninsula Ibérica, havia um distanciamento
desta visio positiva. Para eles a hist6ria deste Rei foi sempre totalmente tré-
gica, como homem, como rei, como guerreiro, mesmo como s{mbolo. A
constatagdo da forca do mito era apenas uma forma de embelezamento, e, no
fundo, a sugestdo de que tao louco era o rei como 0 seu povo.
O mito implicava a esperanga de que o Rei no tivesse morrido. Se
assim fosse, qual teria sido o seu destino? Uma das hipéteses é 0 encontro
‘com uma princesa na casa de um mouro bondoso que o recolhera ferido.
Cutra hip6tese do encontro com a princesa moura é a tradigao de que ela
teria vindo a Portugal com seu parente Mawlay Muhammad, a quem muitos
autores chamaram simplesmente Xarif, pedir auxilio a D. Sebastido. Em
alguns casos, como na tragédia inglesa de 1690, de John Dryden, chega a
haver casamento.
Mas a tradig&io mais forte e que correu a Europa a partir das obras que
dedicados sebastianistas, D. Jodo de Castro e Frei José Teixeira, publicaram
em Franca, é a do seu esforgo para expiar os crimes que cometera contra a
pitria, primeiro combatendo os infiis no Préximo Oriente, depois acolhen-
do-se a um convento no deserto, onde fizera longa peniténcia.
Varios impostores apareceram entretanto em Portugal, proclamando-se
6 Rei desaparecido. Todos foram desmascarados e tiveram um fim trégico,
As mios da justica. Mas em 1598, vinte anos depois da batalha, apareceut em
Veneza um homem que, por dizer que era D. Sebastido, foi preso e julgado,
sendo-lhe concedida a liberdade com a condigio de sair da cidade dentro de
24 horas ¢ dos Estados da Senhoria dentro de trés dias. Entretanto, a plausi-
bilidade das coisas que contava e o seu grande conhecimento das pessoas e
do que se passava em Portugal congregaram em seu redor os fidalgos portu-
gueses exilados, que todos reconheceram como sendo o Rei. O Embaixador
espanhol em Veneza, D. Francisco de Vera y Aragon, escreveu ao seu Rei
em 1601, narrando os factos ¢ © reconhecimento de D. Sebastido pelos
nobres portugueses. Tao pormenorizado foi este relato que nao deixa davi-
das quanto a existéncia de um traidor entre os portugueses, que se veio a
saber ser Nuno da Costa. O resultado das diligéncias do Embaixador foi
nova pristio, em Florenca, e a entrega do prisioneiro ao Vice-Rei de Népo-
les, 0 espanhol Conde de Lemos, por proposta do Conselho de Estado de
Filipe III, que entendeu ainda que ele nao deveria ser condenado a morte,
mas a “galeras perpetuas”, vindo depois a Espanha, a fim de que “en todas
partes sea visto y com esse se desengafien deste falso rumor”. Toda esta
documentagao se encontra no Arquivo de Simaneas. O Conde de Lemos, que
conhecera D. Sebastiio em Portugal, néo viu o Rei portugués neste prisio~
neiro, embora tenham corrido noticias de conversas irrefutaveis com ele &
sua mulher. A verdade € que 0 “prisioneiro de Veneza”, como ficou conhe-
cido na Hist6ria, foi declarado impostor, sendo um calabrés que se fazia
passar pelo Rei, Marco Tilio Catizone. Entregue & Espanha, foi julgado ¢232 Maria Leonor Machado de Sousa
enforcado em San Lucar de Barrameda, em 23 de Setembro de 1603, Pela
tottura confessara ser Marco Tullio “dijo que el diablo le engaiio y metia en
cabeza a que dissesse muchas cosas y sefiales del Rey de Portugal.”
Mas mais uma vez levantou uma dtivida nunca esclarecida. Seria o
fomem sentenciado em San Lucar o prisioneiro de Veneza ou alguém que os
leais portugueses tinham conseguido trocar por aquele que consideravam
seu Rei? Em 1904 foi publicado um texto de Jac-Rémi-Antoine Texier
(1813-1859), arqueslogo especialista de arte e monumentos de Limoges,
cidade onde nasceu © morreu, que narra a descoberta feita num timule do
mosieito agostinho de uma medalha de ouro, representando uma estitua
Pedestre em traje de monge, com a inscrigao Sebastianus primus Portuga-
lige rex. A medalha foi encontrada junto de uma ossada bem conservada,
mas 0 operatio que estava encarregado do trabalho de destruir esses timulo,
nio a cedeu a Texier, por querer conseguir o dinheiro que ela valia
Texier acha que o esqueleto e a medalha s6 podiam ser de D. Sebastifo.
No caso de estar certo, ter-se-ia conseguido cumprir o pedido do prisioneiro
de Veneza, de ser levado para um convento em Franca onde terminasse os
seus dias em siléncio.
Todos os autores que escreveram sobre este episédio, acreditando ou
no, deram-Ihe um relevo especial. Isso no nos dé qualquer certeza, mas é
curloso verificar como se criaram dividas nunca resolvidas em torno de dois
Momentos essenciais na histéria de D. Sebastido: o desaparecimento na |
batalha e o seu reaparecimento em Veneza,
Baseando-se nas declaragdes do “prisioneiro de Veneza” que D. Jodo
de Castro ¢ Frei José Teixeira amplamente divulgaram, um dramaturgo
inglés recentemente falecido, Jonathan Griffin, escreveu 0 que € talver 0
mais belo texto sobre D. Sebastiio, a tragédia The Hidden King (O Rei
Encoberto). Nela se retrata o Rei imaturo que levara 0 seu exército 4 perdi-
sio. Era, ao reaparecer, uma personage que expiara a sua loucura 6 que
Seria, apés tantos anos de meditacdo, um homem diferente. Tal situagio pos-
€ aos fidalgos portugueses que procuravam o caminho certo:
Se nao é 0 Rei, é ele um rei?
E se € 0 Rei, tornou-se rei?
Ha um rei oculto em cada um de nés
E somos todos impostores. Que € ele? '
E original e psicologicamente correcta a nota que aqui encontramos ‘
pela primeira vez: tal era a desgraca da pétria que talvez valesse a pena
arriscar a aclamago de um impostor, se ele se revelasse a verdadeira ima, \ ‘
gem do Desejado. Que interessava afinal que fosse D. Sebastiio? As
brofecias anunciavam um rei salvador, por algum tempo encoberto, capaz de
dirigir para a gléria os destinos patrios. D. Sebastido, que talvez nao trvesse. Sebastido. Histéria e Mito em Portugal ¢ Espanha 233
sorsido, era aparentemente a personagem mais légica. Todavia, dada a sua
nadequagio as exigéncias do mito, era frégil.
(O proprio Rei sabe que € culpado ¢ que 56 so vélidas as suas reinvi-
dincagdes porque, depois de ter conhecido todas as misérias, regressa bem
diferente do que partiu:
E foi entio,
S6 entio,
Que me tornei rei, sendo homem:
Verdadeiramente ungido com 0 santo 6leo
Das légrimas comuns e da sede,
Feito real pelas provagoes.
Nas palavras de um dos portugueses que o rodeavan exprime-se 0
grande dilema: hesitam porque tém esperanga OW ‘medo de que seja de facto
ara? Nao seria mais amargo o desfazer da promesse do mito do que man-
ter viva a ilusdo? A nagao escrava tinha algo a que se agarrar; provado falso
19 somho, s6 Ihe restava 0 desespero.
Tbe destino fatal do homem, que todos criam jd ser o Ret, ressalta a tra-
gédia humana de D. Sebastido, de quem, por culpa da sua loucura, mito
fez um her6i que de facto nfo era ele.
Quanto aos textos que divulgaram este episédio, terme que distinguir
60s histéticos e 0s literdrios. Muitas vezes se confundiram, pois os histéricos
‘nclufram frequentemente elementos de romance
Na literatura portuguesa encontramos sobretudo posmts saudosistas,
que mitificaram 0 rei e expressaram o desejo de um povo por alguém que 0
vViesse libertar do jugo estrangeiro.
Em Espanha, encontramos sobretudo 0 lamento pela morte de um rei,
Rey de Portugal famoso,
invencible y temerario,
como diz, Guevara,
‘Mas fora da Peninsula e sobretudo a partir do Romanisaie D. Sebas-
tigo sobreviveu A batalha, chamada a “batatha dos és reis”, € foi herdi de
variadas peripécias romanescas, centralizadas principalmente no “prisioneiro
va Venena”, Sobre ele pouco se falou em Portugal, talvez porque no século
seguinte, época da submissio a Espanha € da Guerra da Restauragio, seria
complicado tratar este assunto, $6 em meados do século XIX apareceram
come rama e um romance sobre ele, além da tradugso do romance francés
que difundiu na Europa o drama do Rei de regresse a patria
‘A literatura portuguesa cantou D. Sebastido, & espanhola lamentou-o, @
Iiteratura europeia romanceou a sua vida antes ou depois de Aledcer-Quibir.
Em grande parte julgou-o, ao apresenté-lo sujeito aos remorsos pelo mal queMaria Leonor Machado de Sousa
Fizera a sua pétria. Mas vérios autores souberam captar ¢ transmitir © senti-
mento nacionalista ¢ heréico que entre nés, reconhecida embora a insensatez
da Jomada de Alcécer, nunca deixou de estar associado ao Rei, An ser tr
fado em culturas estranhas, D. Sebastiio perdeu a forga dos ideais naciona-
listas e religiosos, mas ganhou o valor dos simbolos humanos que poderia
ter incamado,
More From Marisa Henriques
Much more than documents.
Discover everything Scribd has to offer, including books and audiobooks from major publishers.
Cancel anytime.