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O que é filosofia?1 quanto vagos.

O importante é o seguinte: tanto Husserl
como Hegel entendem a filosofia, primeiro, como ciência
(este, pois, é o conceito superior), e, em seguida,
Ernst Tugendhat
distinguem-na das demais ciências quanto (1) ao
conteúdo e (2) ao método. Quanto ao conteúdo: ela é,
I como diz Husserl, universal; de algum modo ela visa o
todo. Quanto ao método: o ponto de vista da
Apesar de todas as dúvidas quanto à possibilidade fundamentação é radicalizado.
de se chegar a um acordo relativo a um conceito unitário Se voltarmos bem atrás na história, até Platão e
de filosofia, devo agora fazer uma tentativa de esboçar o Aristóteles, encontraremos em Aristóteles, nos dois
que se quer dizer com esta palavra. É inevitável que nem primeiros capítulos da Metafísica, uma determinação
todos possam se pôr de acordo acerca do mesmo. O bastante semelhante: uma ciência mais alta que as
critério decisivo deve ser aqui que o máximo possível do demais e, [8] isso deve significar uma ciência que
que historicamente se considerou filosofia caia sob tal contenha na mais alta medida as propriedades
conceito. O que é então filosofia? características das ciências: universalidade e
Talvez a maneira menos capciosa possível de fundamentação.
proceder consista em partir de algumas determinações Façamos, contudo, mais uma amostragem: Kant.
do conceito de filosofia fornecidas por reconhecidamente Aqui as coisas ficam um pouco mais complicadas. Kant
grandes filósofos. Uma maneira muito concisa de fazê-lo faz, na Crítica da Razão Pura (B 866), uma distinção entre
encontramos em Husserl (Meditações Cartesianas): a um “conceito da escola” (Schulbegriff) e um “conceito do
filosofia é designada como uma “ciência universal a mundo” (Weltbegriff) de filosofia. O “conceito da escola”
partir de uma fundamentação absoluta”. Uma diz: a filosofia é “o sistema (...) dos conhecimentos
determinação semelhante encontramos em Hegel no racionais a partir de conceitos”. O que isso deve
começo de sua Enciclopédia, embora em Hegel tanto o significar não é, sem mais, compreensível. Devo retornar
conceito de universalidade quanto o de fundamentação a esse tema na próxima seção. De todo o modo, Kant
absoluta sejam entendidos de forma bastante diferente quer com isso caracterizar o lado metódico da filosofia,
de Husserl. Faz perfeitamente sentido deixar a princípio acerca do qual até aqui ouvimos dizer que está de uma
os conceitos que ocorrem em tal determinação um tanto forma especial voltado para a fundamentação. No que
diz respeito ao chamado conceito do mundo, Kant
1 O presente artigo corresponde às duas primeiras aulas do curso
esclarece que entende por essa expressão “o que
“Vorlesungen über Methode der Philosophie” ministrado pelo Prof. interessa necessariamente a todos”. Com base nessa
E. Tugendhat na Universidade Livre de Berlim em 1982. O texto é elucidação ele diz que a filosofia, segundo o “conceito do
inédito e a tradução do alemão para o português, de responsabilidade mundo”, é a “ciência dos fins últimos da razão humana”.
de Maria Clara Dias, foi feita a partir do manuscrito, não revisado,
Ao invés dos fins últimos da razão humana, Kant
cedido pelo autor. – In: M. C. Dias (org.), O que é filosofia? Ouro Preto:
IFAC/UFOP, 1996, p. 7-33. poderia também simplesmente ter falado dos fins

últimos do ser humano, e o que ele considerava como grandes filósofos também sempre tiveram em vista em
fins últimos poderia ser compreendido sob o título da suas auto-reflexões, e poderíamos exprimir isso da
felicidade e da moral, e estes últimos, por sua vez, seguinte maneira: se a filosofia, distintamente das outras
poderiam ser colocados o sob o título do bem. A filosofia ciências, deve visar o todo, então por esse todo já se tem
de acordo com o conceito do mundo refere-se, portanto, sempre em vista o todo entendido em termos práticos, de
àquilo que é bom para nós; ela é agora distinguida das nossa autocompreensão e de nossa compreensão do
outras ciências na medida em que estas, em termos mundo. Poder-se-ia, portanto, entender o “conceito do
práticos, podem apenas fornecer o meio para um fim mundo” de filosofia em Kant como tendo o objetivo
dado, ao passo que certamente podemos também ter em particular de lembrar que, ao se falar aqui do todo, ou,
vista algo como um saber acerca daquilo que é bom para como em Aristóteles, do mais universal, não se deve
nós, não enquanto meio, mas como fim. O que Kant tem entendê-lo em termos simplesmente teoréticos - como
em vista aqui como tema da filosofia é algo que pode ser seria o caso se falássemos do mundo como o domínio
também descrito, no jargão atual, como a questão acerca total das experiências teóricas - mas, sim, precisamente
do sentido da vida. Com a expressão “o sentido da vida” também em termos práticos. Também em termos
se quer dizer aproximadamente também o que podemos práticos ou, quem sabe, até mesmo em termos
descrever como o seu fim ou finalidade (Zweck). Kant faz primeiramente (primär) práticos? Para Kant havia um
referência aqui explicitamente também ao significado primado do prático. O mesmo já ocorria também para
corrente da palavra filosofia, segundo o qual Platão, que foi o ponto de partida de Aristóteles. Aquele
descrevemos como filósofo alguém que sabe viver saber especial que é almejado pela filosofia e que não é
corretamente, e isso quer dizer também: alguém que é um saber de uma ciência particular é, para Platão, não
capaz de aconselhar corretamente, pois isso pressupõe: apenas também, mas, sobretudo, referido ao bem.
alguém que saiba o que é bom. Kant retoma com isso O que se segue de tudo isso para o conceito de
explicitamente um sentido que a palavra “sophia” já filosofia? O mais razoável, parece-me aqui, é admitir a
possuía com os gregos. indicação de Wittgenstein de que muitos conceitos
Como se relaciona, então, essa determinação do devem ser compreendidos no sentido das “semelhanças
tema da filosofia com a que encontramos anteriormente de família”. Como exemplo Wittgenstein toma o conceito
em Husserl, Hegel e Aristóteles, aquela, portanto, de “jogo”. É necessário que todos os jogos possuam algo
segundo a qual a filosofia deve, de alguma maneira, em comum? Ele responde: não:
visar o todo? Para Husserl e Hegel o bem também
pertence essencialmente a esse todo. E também “Vemos uma complicada rede de semelhanças que se
Aristóteles reflete explicitamente, no começo da envolvem e se cruzam... Não posso caracterizar melhor
Metafísica, sobre o fato de que o bem também deve tais semelhanças do que através da expressão
pertencer enquanto princípio (Grund) supremo do agir ‘semelhança de família’; pois assim se envolvem e
aos princípios supremos. Poder-se-ia, pois, dizer: a [9] cruzam as diversas semelhanças que existem entre os
caracterização kantiana apenas torna explícito o que os membros de uma família: estatura, traços fisionômicos,

separar as contrário. por assim dizer. que abarque todo o privilegiada? Tomemos como exemplo uma concepção possível e assim também oculte possíveis encruzilhadas. o andar. designar como filosofia o que várias pessoas designam É. plausível deixar que se recubram a como tal. de fibras. Para ele a questão O que importa é antes tornar clara a relação das fundamental da filosofia é a questão do ser. isto condiz diferentes concepções entre si. universal. Wittgenstein. o temperamento etc. como uma sub-região. Mas existem naturalmente diferentes “jogos” formam uma família. no qual tudo se universalidade e a da fundamentação privilegiada não passa. ser a determinação primária. Todas as caracterizações estiverem mais simplesmente sobrepostas. cor de olhos. falar. não poderíamos mais regiões que até aqui. E a robustez do fio não está no fato de que uma já também em Aristóteles. podemos agora também levar em conta a determinado saber. de acordo com Kant e Platão.E digo: os determinado saber. segundo Aristóteles. filosóficas. Por que chamamos algo de domínio do saber? Para isso acabamos de ver três “número”? Ora. torcemos fibra por conceito de filosofia é introduzido em Husserl e Hegel e fibra. as espécies de número. O que. essa coisa adquire um ao todo ou que seja especialmente geral. prosseguir e. ainda coincidiam.com muitas coisas que até agora foram chamadas de número. como Wittgenstein. Philosophische Untersuchungen. o mais universal. portanto. há de privilegiar a filosofia no formam uma família. Do mesmo fornecidas até agora concordam que a filosofia seja um modo. Ao invés de fundamentação absoluta. a do bem. na medida em que o ser já de apresentar as coisas é como se tivéssemos diante de é também. Mas se pode-se dizer que elas constituem uma família. Devemos considerar os conceitos de central que não aparece na elucidação precedente. por exemplo.”2 as duas regiões do saber universal e do saber privilegiadamente fundamentado coincidem e Também acerca das diversas concepções de filosofia compreendem. por exemplo. Do modo como o mesmo modo que. [10] filosofia como uma família de conceitos. 66/7. pode-se dizer. porque caso Podemos. mas sim em que em semelhanças de família. Heidegger abandonou a idéia de uma províncias que se recobrem parcialmente. mas que não esteja 2 L. por isso. então. em larga medida. Naturalmente não queremos também ter um região do saber universal e a da fundamentação conceito indeterminado de filosofia. Por nós um mapa no qual inscrevemos determinadas outro lado. não precisaríamos falar aqui fibra o percorre em toda sua longitude. talvez porque tenha um parentesco - determinações: (1) que o saber se refira de algum modo direto . chamarei saber. de filosofia como a de Heidegger. E estendemos nosso conceito de número do (3) que o saber se refira ao bem. assim. ou melhor. Só podemos. Ao continente. Ao contrário. se as regiões da regiões. a aspiração a um possibilidade de que alguém assuma uma concepção de filosofia que se refira ao bem. então. necessariamente associada nem a uma orientação para o . A maneira mais simples com o modelo visto até agora. sem rodeios. dogmaticamente. (2) parentesco indireto com outras que chamamos também que se trate de um modo privilegiado de fundamentação. Vocês agora. . falarei pois em inscrever sua concepção em nosso mapa. nesses filósofos muitas fibras estão trançadas umas com as outras. o saber do bem deve poderiam temer que isso nos conduza a uma imprecisão. surge aqui então um ponto mas não é o caso. formas de saber e de ciências que não são descritas como E do mesmo modo. para tecer um fio.

não mais sejam entendidas como Einzelwissenschaften gibt” (nota do tradutor). essencialmente a um na seção seguinte. conceito de filosofia avance além da fronteira do saber Coloca-se agora a questão se devemos separar ainda para dentro do domínio da arte e da religião. Hegel produção de um mapa que fixe o teor descritivo de cada tomou com isso uma decisão conceitual que não deixa o determinação conceitual em sua relação com as demais. então. ou a ambos. amplamente. no que concerne agora à saber ou opinar e isso. ou ao filosofia. Mas o que positivamente significaria isto? Naturalmente todo filósofo que entenda sua Aqui uma referência a Hegel pode prosseguir nos concepção de filosofia. filosofia poética ou uma filosofia religiosa.3 Disso tratarei fundamentação remete. Resta. Para Hegel três saberes se referem ao absoluto. “O que mais os resultados até agora obtidos. desprovido de qualquer sentido.poder-se-ia retrucar. quais sejam: a arte. em parte. que só denominamos filosofia a relação ao todo quando Não deveríamos. contudo. Dessas A filosofia se distingue dos outros dois precisamente razões não tratarei agora. seja mais logo. estar preparados para a a consideram como uma ciência? Isto significaria. dass es nicht die in den bisherigen Bestimmungen regiões até aqui mencionadas: a referência ao todo e a vorausgesetzte scharfe Grenze zwischen der Philosophie und den referência ao bem. ou melhor. mas que ao mesmo tempo implica que uma das chegar a um acordo acerca do conteúdo de suas regiões que deve ser igualmente definitória para o concepções. que. pressuposto nas determinações feitas até aqui dimensão do saber não teria sentido algum. saber. nem para uma fundamentação privilegiada. têm ocorrido na história semelhantes Teríamos. a religião e a filosofia. indicado ou de uma outra maneira qualquer. de fato.” Devemos. “Vemos exatamente obtivemos até agora repousa sobre o pressuposto de que esse parentesco e podemos ao mesmo tempo estabelecer se trate sempre de um saber. tal como é compreendido. [11] Contento-me pelo fato de referir-se ao absoluto. no meio constituído simplesmente em apresentar o ponto de partida para a pelo pensamento. ao todo. tem razões para tais delimitações. com efeito. no entanto. conceito de filosofia estender-se além do conceito de de tal sorte que as partes possam. tanto mais para dentro do oceano que banha esse continente. Por que não três regiões parcialmente coincidentes no continente do deveríamos deixar aberta a possibilidade de uma saber. seria. levar em conta a possibilidade ela se situa no meio constituído pelo saber ou pela de que existam também concepções de filosofia que não opinião. o limite Falar de uma fundamentação privilegiada fora da nítido. pois falar em entre a filosofia e as ciências particulares. antes de mais nada. Tudo o que importa?” . mas faríamos com que ele avançasse. assim. ou precisamente pelo saber. devemos deixar aberto também um outro lado: bem. contudo. Mas. porém não mais sob a forma do saber. fora dessa região. . a possibilidade de que ao menos duas das 3A frase correspondente do manuscrito alemão é a seguinte: “es ist ja durchaus denkbar. possibilidade de não haver um limite nítido entre as que não mais inscreveríamos todo o complexo de nossas regiões que delimitamos mutuamente. de uma ciência.todo. como ajudando. saber. é perfeitamente [12] pensável que não haja. levado em conta a possibilidade de criações? Para manter aberta a possibilidade dessas poder também chamar filosofia um empreendimento que delimitações contidas nas concepções tradicionais de estivesse de algum modo relacionado ao todo. seja mais estreitamente.

por exemplo. A religião e o mito.. estão de fato muito próximo um do declarativa é a chamada frase indicativa.) não poderiam ser causados por nada senão um 6 Nicht zu hinterfragend. esbarramos então com a questão relacionado com a sua pretensão de verdade. Neste caso a percepção é acrescentada como um correspondente em alemão para o termo latino assensus. por um lado. neste caso o fundamento é indireto. O que Tugendhat aqui designou como crença no sentido “de mesmo vi o camundongo. e eu direi: “É claro que não . que também está ligada à gênese histórica fundamentação é precisamente o que legitima a da filosofia. e ela pode ter mentido ou ter-se 4 No alemão há uma única palavra para designar crença e fé. e verdadeiro” é o que a crença e a ciência têm em comum e também que haja tais indícios. Isso está denominado filosofia. como se sabe. Como constitutivo do mito e da religião profere um enunciado correspondente também possa pode-se certamente considerar o que gostaria de fundamentá-lo suficientemente ou não. como por exemplo. (N. sem dúvida alguma. (N. frases imperativas ou que ser tratada. “Você acha apenas ou sabe verdadeiro”5 específico. não apenas acho. O suporte gramatical normal de uma frase e filosofia. e com cada um incompatíveis. A da motivação. Eu posso então responder: não pode ser recolocado em questão. mas questionamento regressivo. em um processo de emancipação a partir do mito e Conforme a pessoa que toma algo por verdadeiro e da religião. literalmente: que não admite um camundongo”. Em todo caso.tr). em seus detalhes. não no pessoa em questão não apenas opina. Ou eu posso dizer: “Embora não tenha português: assentimento. Aquilo que denominamos filosofia e ao qual pretensão de verdade.C. Depois que todas as determinações destes “é assim” exprime-se uma pretensão de verdade. sei disso apenas por minha mulher. a saber: enganado. é característico de um enunciado e do “tomar algo no vazio. Eu acho. separadamente. de ter toma por verdadeiro. os indícios deixam bem claro que verdade erguida para uma proposição no juízo ou asserção. a. sua fundamentação.tr) ao mesmo tempo suficiente. mas exatamente por isso eles me parecem através da qual dizemos: é assim e assim. mas sobe o que sentido. se referem as determinações conceituais mencionadas até Com isso. penso que existem fortes o que distingue a ambas da arte. que há um confiança. frases optativas. mas sei ter confiança” é o que em português designamos como fé. por estarem associados a uma pretensão Começarei pela religião. por outro. dizemos que a designar como crença. há apenas alguns indícios disso. (N. sendo que entendo crença. uma frase outro. chego a um complexo de problemas que agora surge. 5 Fürwahrhalten (literalmente: “tomar por verdadeiro”) é o termo disso”. a saber: um assentimento que disso?” podem retrucar. sim.tr. conceituais que mencionei até aqui caíram de certo modo Ora.fronteira com a religião e a arte.6 O “tomar algo por “Bem. eu Glaube. [13] ou legitimação.” Mas posso também responder: “Claro. Distinguimos enunciados de A problemática no tocante à religião e à arte tem outras frases. a saber: o assentimento dado à pretensão de visto o camundongo. que é na religião igualmente importante. saber eu não sei. enunciados (Aussagesätze). não tendo ficado de modo algum visível por como verdade” nele expresso que possamos indagar por que se deva abraçar um empreendimento assim definido. na Grécia dos séculos VI e V ainda nos ocupará consideravelmente. no sentido de um “tomar por camundongo na cozinha. O critério lingüístico do razões para não a deixar aberta. é “tomar algo por verdadeiro” é o fato de se exprimir em importante dar-se conta do que está em questão aqui. em fundamento.4 mas. de verdade.

dúvida. como em geral ocorre decisão e de coragem para se servir do entendimento sem com as demais opiniões. porque é alvo o estado de coisas acima descrito. isso quer dizer: verdadeiras porque foram transmitidas por uma tradição com autonomia. O que se crê Com o conceito de menoridade acertamos bem no neste sentido vale como fundamentado. O contraste de que juridicamente capazes. um saber baseado na autoridade. da qual é ele próprio culpado. O homem é o próprio culpado dessa menoridade quando a causa da como há pouco. sim. mas. de tal sorte que ela. O conceito apresentado como verdadeiro por uma autoridade da jurídico de menoridade segundo o qual as pessoas qual não é lícito duvidar. quem todo enunciado. o lema do colocada em questão. Algumas vezes a empregamos praticamente no mesmo sentido que “O esclarecimento é a saída das pessoas de sua opinar. Esbarramos aqui na menos pensamos não poder mais duvidar. O que fazemos quando outros que são afirmados como verdadeiros). suposto quando não consideramos não reside no conteúdo daquilo que é tomado por que alguém tenha desenvolvido entendimento e verdadeiro. E ligado a isso está o fato de estar sempre envolto em mas insiste em que este conteúdo (tanto quanto todos os uma aura de possíveis dúvidas. destacou em seu pequeno escrito: O Que é Esclarecimento? Retornemos ‘então ao “tomar por verdade” Vocês talvez conheçam a famosa passagem com a qual o especificamente religioso. mas acerca da qual não se admite esclarecimento”. entendimento sem o governo de outrem. comporta-se fundamental pode ser descrito também dizendo que filosoficamente. eu sei. Como uma menoridade. caso contrário não seria informativo. deve poder ser eliminar a dúvida. uma opinião não suficientemente mesma não está na falta de entendimento. sim. pode ser não aceita como fundamentação última a fundamentação verdadeiro ou falso. Em contraposição. portanto. Pode-se chamar a essas abaixo de uma determinada idade não são consideradas autoridades intangíveis de sagradas. que é. Quem toma determinadas coisas por por si próprio as decisões de sua vida e. Eu o caracterizei antes como artigo começa: crença. segundo o seu sentido. que a sabemos. o contraste Kant. da qual somos ou [14] revelação sagrada intangível comporta-se nós mesmos culpados descreve Kant aquela forma de . remete precisamos aqui entre a religião e a filosofia não consiste para o conceito psicológico de menoridade utilizado por em que a religião se refira a algo de divino. nos convida a colocá-la em o governo de outrem. mas. em face dos mesmos conteúdos. Sapere aude! Tem coragem de dúvida. quando fundamentamos uma opinião ou uma proposição (Satz) é não deve ser colocado em dúvida.” Esse estado de coisas religiosamente. Mas quando falamos menoridade é a incapacidade de servir-se do de uma crença religiosa não temos em mente apenas.apenas acho isso. eu poderia então ter dito: “Creio que há um menoridade. necessitando de um tutor. mas na falta de fundamentada. que estamos relação entre esclarecimento e emancipação que Kant certos dela. é. Nós nos fiamos nela como se já constituísse um saber. A palavra crença é ambígua. A camundongo em minha cozinha”. uma opinião que em si poderia servir-te de teu próprio entendimento. oriunda de uma instância particular que diz ser assim. e por isso dizemos então que ao fundamentado por nós mesmos. na maneira de tomar por capacidade de julgar suficientes para que possa tomar verdadeiro. pois.

como característica geral da sociedade humana antes da diz Kant em seguida. mas. logo com o esclarecimento os lados vê-se radicalizado e universalizado o que já era grego propriamente dito e com Sócrates. modo referido ao todo do mundo e. passado pela dúvida. que o indivíduo esteja em condições de. Um tal processo de radicalização e . nos foi deixado por esses primeiros que tal saber era um saber aparente. E agora se diz: ou podemos também alcançar sentido da transmissão de uma sabedoria. Esta é surgiu entre os gregos é o que chamamos a questão. pois. pois. intrínseca (innere Begründetheit) das normas dadas de sim. em suas reflexões. e retrospectivamente de ciências particulares e também o essa questão passou então a ser central. a respeito desses sentido de um processo de crítica e exame. enquanto o ocorrência do esclarecimento que sua coesão seja conceito jurídico de emancipação pressupõe apenas que mantida por um saber-entre-aspas que está de algum alguém tenha a capacidade de incluir. Esse saber-entre-aspas tem o caráter anteriormente jurídicas acarretam para ele. mas no um saber autônomo. a seguinte: parece ser uma sociedades míticas. Trata-se.menoridade que não advêm de incapacidade. em estados de coisas fundamentais. e a isso retorno consciente à menoridade não existe. pois. a saber: no cotidiano. que está relacionado à idéia do verdadeiro” que na prática atua como um saber. esclarecimento é mais abrangente. Karl Popper bem. ou compreenderemos termos de conteúdo. ele não se apóia em uma fundamentação. quer morais.. ao contrário. quando o que então foi denominado filosofia se seguinte: já que aparentemente não podemos existir sem destacou em face da atitude mítico-religiosa. pecaminosa. quer se trate de normas jurídicas. somos levados agora a reivindicar também para o ressaltou. Ora. que chamamos de filosofia em sentido estrito. fundamentado. mas. o conceito fundamental de mencionado da crença. Em sua de algum modo saber como nos relacionar ao todo e ao coletânea Conjectures and Refutations. em uma autoridade. mas. O com base em autoridades aceitas de antemão. ao as conseqüências que o rompimento das normas bem. de um “tomar por emancipação psicológica. acerca do bem. De ambos com os chamados sofistas. no artigo sobre os pré-socráticos. no século VI. O que naquela época questões que dizem respeito ao Direito e à Moral. colocar em questão também a fundamentação saber. a dúvida não é e isso quer dizer: não aceitá-los como válidos ou bons consentida. que ela justamente não era uma fundamentação que sempre valeram para o saber escola no sentido usual do termo até então. anteriormente mencionada.C. há quando provavelmente desde muito cedo se associavam também muito um retorno inconsciente. ao mesmo tempo. O que. um estrutura da totalidade da natureza. e isso significa concretamente o a. porque ele pressupõe Julgamos poder confiar nele sem questionamento. ele é. como característica da [15] primeira escola de guarda da crença exatamente os critérios de filosofia em Mileto. e preparado distintamente daquilo que cotidianamente chamamos de para. a proclamação da autonomia precisamente o ocorrido na Grécia nos séculos VI e V intelectual dos homens. A situação também cotidianamente chamado de saber nas histórica parece ser. ao meu ver saber acerca daquilo que até então se encontrava sob a com razão. Não é um saber que tenha antemão. Ela é indevida. do comodismo. O que esclarecimento é então o rompimento com esta sujeição à Kant aqui descreve como esclarecimento caracteriza autoridade. e aí teremos de ver filósofos são teses que dizem respeito sobretudo à como será possível seguir vivendo sem esse saber.

na defesa judicial de Sócrates. pode haver um saber destacado porque acabamos de ver que também a crença acerca do todo e do bem. tem crença. afinal. Desse pensar que esta possibilidade. ver como se pode viver o saber passa a ser buscado de maneira sistemática e com base nesse reconhecimento. é de todo possível chegar formação de algo como uma ciência. das assim chamadas ciências delimitação com a crença mostrou que não é possível particulares e dessa ciência especial. (3) devemos qualificar essa determinação da filosofia como essa idéia do saber vê-se agora também estendida ao [16] saber. fosse uma razão adicional para deixa manifestar expondo-se à dúvida. de dizer que revelar insuperável. saber se. mas hoje se tornou mais claro. é que a filosofia se fundamentação. na prática atua como um saber. apreender o que é o característico da ciência dizendo aconteceu. de forma mais ou menos simultânea. não vejo bem como alguém possa. fundamental para a aquisição sistemática de saber. que se encontram interesse explícito pelo saber. até mesmo nada possamos saber. de todo o modo. a que pertencia ao domínio da crença. Mas creio que isso também relacionado o fato de que a dúvida possa se seria um equívoco. e isso quer dizer. a diferença decisiva com relação à crença só se nada para se conhecer. A conseqüência especificamente. quanto à sua capacidade de realmente fundamentar o que se supõe forma está tão orientada para o saber natural como as saber. [17] Nesse caso. ou seja. o aspecto crítico já pertencente ao filosofia que esta deva ser um saber. o qual. principalmente quando se é de opinião que a domínio da crença. que se desloca para o centro no dos temas especificamente filosóficos. Acabo. precisamente. saber que está dado com a além das ciências particulares. é verdade. acerca conceito natural de saber. isso tão somente em saber que não sabemos A maioria de em todo caso não se segue do reconhecimento de que vocês saberá que esta era a concepção que Sócrates tinha nada sabemos sobre tais coisas no sentido natural e. eu havia particulares. o saber a ser alcançado consistiria retornar à crença. ou seja. prestar contas. portanto. Isso deve ser a um saber. pois. ou ainda. como foi dito. É esse aspecto. mas. a pergunta pela claro. . e a isso está agora deixar aberta a fronteira com o mito. mais que talvez não haja nada para se saber. apenas que se trata de um saber. Quanto ao conteúdo.em latim peculiar. A dúvida se. conscientemente. Mas quer seja possível quer não. E a questão é. (2) a passagem pela dúvida é explicitamente partido da questão se devemos estabelecer para a buscada. a capacidade do lógon didónai . da filosofia. tal como é descrita de maneira talvez. a filosofia. independentemente de contextos tecno-práticos Ao tratar da delimitação com a religião. pois. O surgimento daquilo que chamamos fronteira com a crença não deve ser deixada aberta. porque a pode haver um saber especificamente filosófico. que talvez aqui não haja modo. já se encontra no ciências particulares. se de todo pode ser descrita como um saber-entre-aspas. está mais voltada para o traduzido por rationem reddere. ou como Sócrates classicamente encontra propriamente em um domínio intermediário formulou. de particularmente explícita na Apologia de Platão.universalização apresenta as seguintes caraterísticas: (1) correta seria então. As reflexões que sentido cotidiano do saber é reconhecido agora como percorri até agora mostram que. A ciência em geral. Poder-se-ia daquilo que se crê. embora não possa prestar contas com autonomia desde sempre acompanhado a filosofia. Aí. O que temos em mente O que no começo da história da filosofia não estava é bem mais a aspiração crítica ao saber.

na realidade não sabiam. transição contínua. Creio que deve ter ficado plausível que mas então seria necessário ao menos ter clareza acerca do devemos conceber nosso conceito de filosofia de maneira ponto em que a fronteira é transgredida. Devo tirar agora uma conclusão acerca da questão contudo. seres porque considero esta fronteira especialmente humanos. como não podiam fundamentar dizer: é falso chamar isto ou aquilo de filosofia. fundamentalmente diferentes. Esta não era. e por este suficientemente abrangente. e como se tem clareza atividade de Sócrates tenha levado à sua condenação à acerca do modo pelo qual essa maneira de fixar conceitos morte é bastante coerente. de forma a englobar todas motivo faz sentido traçá-la nitidamente. enquanto ele. Cada qual é a crença se vê solapado em suas bases normativas. mas possa abarcar também a À concepção socrática está associada também a crença baseada na autoridade. naturalmente livre para compreender a palavra filosofia quando o que se crê acerca do bom e do justo passa a com tal amplitude [18] que ela não permaneça limitada poder ser colocado em dúvida e a exigir fundamentação. Antes de mais nada. gostaria respeito aos possíveis métodos da filosofia e. a concepção de Hegel. um saber nesse domínio é possível. exigindo deles lógon estreitamente empregamos uma palavra não é nunca didónai. No contexto desta preleção tenho. de filosofias cristãs. A questão quão ampla ou quão fundamentos de seu pretenso saber. e até menos estar claro que não há aqui. O que apresentado na Apologia de Platão é o embate entre a deve ser exigido é unicamente que se preste contas com pretensão de saber filosófica autônoma e o saber exatidão do modo como se emprega uma palavra. O que é o conceito de filosofia foi fixado como tal e tal. se Sócrates. Trata- exemplo. e se alguém não reconhece a partir de uma fundamentação absoluta. como eu faço. no meio. passo a passo. em todo caso. e sua tese é a de que nós. uma que ponto. ainda uma razão adicional para traçar sobre o sentido de deixar aberta a fronteira com a nitidamente essa fronteira: nossa questão aqui diz religião. mas. e é até mesmo um fato significação especial que Platão fornece à palavra histórico a existência. já Husserl situou-se. a crença e o mito. e o fato de que essa do modo como o conceito é fixado. Talvez esta seja uma posição possível. pois um Estado fundado sobre se relaciona com outras maneiras possíveis.Sócrates apresenta a tarefa de sua vida interrogando seus de fazer uma importante observação metodológica que concidadãos (que acreditavam todos eles saber algo vale de modo muito geral para maneira de fixar os sobre as coisas essenciais da vida) acerca dos limites de um conceito. ao menos sabia que não sabia. logo. era para ele aqui a fronteira. Não se pode nunca acreditavam saber. apenas com referência ao bem podemos importante. mas da qual poderíamos nos aproximar para outra não. para a . portanto. por de uma decisão sem tê-la propriamente tomado. em se. por exemplo. é o que me parece. filosofia em seus primeiros diálogos: filosofia significa Quando essa extensão não é permitida. apenas dizer: é falso chamar isto ou aquilo de filosofia. de duas atitudes certo sentido. Creio que quem a suprime passa por cima aspirar ao saber. tradicionalista baseado na crença. isso redunda em reconhecer critérios de uma mera idéia que não se podia realizar fundamentação para uma parte de seus enunciados e completamente. A idéia de uma ciência universal. pode-se o que diziam. é “amor à sabedoria”. a sabedoria. ficando claro todas as vezes que eles apenas uma questão acerca da verdade. ao saber fundamentado. Parece-me ao essas diferentes concepções acerca da questão se.

de alguma maneira. a novela. ou em tudo questão perderia o seu sentido se a colocássemos para a aquilo que inequivocamente mereça esse título: o crença. mas com uma modificação na um conceito de filosofia que abarca também enunciados . tenha a. quer dizer “tomar algo por verdadeiro”. portanto. isso. não consiste absolutamente em um bem. quero Aqui há portanto um comportamento genuinamente indagar pelos possíveis métodos de filosofia. Eu considero religioso ou filosófico. a epopéia. precisaremos brigar por palavras: ele admitirá que a portanto. diferentemente das em um texto religioso e também em um filosófico. rudemente. não está claro como se pode afinal fundamentar (Deus ordenou) e a fundamentação natural. mas não podem . não diz: é assim. um equívoco acerca do que supomos ser um questão que aqui está sendo colocada. não faz E o que dizer agora da fronteira com a arte? Há sobre isso nenhum enunciado e. autônoma. de todo. Para as artes não-lingüísticas. acerca das texto literário se envolvêssemos o autor em possibilidades de fundamentação de enunciados argumentações acerca da verdade de suas frases filosóficos. autoridade. Já indiquei moral. Embora também ele conceito de filosofia em sentido estrito. fantasia ou uma quasi modificação. por conseguinte. por exemplo. Um escritor apresenta algo que não carece conceito amplo de filosofia que coincide com o meu nem é passível de fundamentação. A questão se a filosofia tem um enunciados. Enunciados morais podem ser isto falso. Na arte que se expressa fundamentar enunciados filosóficos. que será percebido de forma mais clara em compreender essa palavra no seu sentido mais próximo. pode ocorrer que o problema especial da filosofia. O escritor não ou seja. é verdade que questão: como é. possível a filosofia? Esta ocorrem enunciados. idêntica à questão: como se pode compreende por si mesmo. A fronteira com a arte é muito mais clara do fundamentados religiosamente por recurso a uma que a com a crença. ao contrário. a legitimação religiosa vista. e isto se manifesta mais precisamente indagar se nesse domínio é possível um uma vez lingüisticamente na medida em que esta não faz saber no sentido natural. A dificuldade de traçar uma autoridade. e isso redunda na lingüisticamente.que não exprime com seus enunciados nenhuma opinião. relação aos enunciados morais. visam o todo e o arte. um “tomar algo por verdadeiro” . A enunciados que. Essa exatamente porque ela não é um modo de conhecimento. e aqui ciências particulares. só é relevante para aquela parte de seu enunciativas. “não se deve matar”. naturalmente. consiste em que. de acordo com o que foi dito. e podemos também tentar fundamentá-los fronteira entre a filosofia e a crença consistia em que filosoficamente. os enunciados não são pretensão alguma de fundamentação. quero concorrencial. como métodos de fundamentação. mas no gênero literário. não se pessoas que pensam que não se deve traçar entre a coloca em uma relação de concorrência com um texto filosofia e a arte nenhuma fronteira nítida. é constitutivo que ela não siga método algum. nesta preleção. ele não erguem qualquer pretensão de fundamentação.crença. Um mesmo enunciado qual seja. na literatura (Dichtung). Se alguém adotar visados singelamente.ver com questões acerca do bem viver. ambas são modos de tomar por verdadeiro. logo à primeira então se defrontam. simplesmente porque a crença não ergue romance. mas descreve possibilidades. portanto. isto se método é. característica [19] se manifesta lingüisticamente na mas simplesmente toma suas verdades de uma medida em que ambas se exprimem em enunciados. Na medida em que. Seria.

ao menos no contexto da questão que está quanto a sua plausibilidade. mas. de alguma maneira. O artista. enunciados ou de uma maneira superior ou mais radical. ao contrário. qualquer que seja o filosófica se excluem mutuamente porque elas. absoluta. por oposição à crença religiosa. o que. tal como o crente. as questões por ela forma distinta. que de alguma maneira existe um domínio de então já se trataria de filosofia. parece-me valer para a delimitação com a superiores aos das demais ciências. não fundamenta levantadas. segundo a qual ela não artística. alguém pode tanto filosofar como especial. fazem os mesmos uma tese possível. não porque ele.assim deve ser nada. e isso para este tipo de filosofia a questão de como quer dizer. A atitude “autoritativa” e a argumentativa. Insisto. com as pretensões de origem religiosa da filosofia. e isso. não há uma que a filosofia paire. dúvida. a “crente” e a ou de uma outra maneira. no que chamei sentido conhecimentos aquém ou além da experiência. mas frente aos mesmos se comportam de filosofia pode fundamentar. Há portanto. e não de uma obra literária. mas. no especial não seja senão um resíduo secularizado da círculo do pensamento científico. serem todas elas ciências empíricas. existência de modos de fundamentação filosóficos que Talvez esse contraste seja problemático. ciências particulares. modos de fundamentação específicos? Esta é a de modo algum incita a dúvida. estrito do termo. tenha banido a formulada a questão . nesse saber filosófico. Tomemos isso tão somente como em parte. em geral. então. obra literária (Dichtung) o mesmo que para a delimitação O que quero fazer neste curso é examinar as com a crença. no sentido teórico desse questão mais geral e abarca a questão acerca da termo. à exceção da que tem em vista uma filosofia literária. deve tratar-se fundamentação características para o conceito natural de de um saber autonomamente fundamentado.ser fundamentados artisticamente. nos soa extraordinariamente estranho. Nosso problema deve ser como a enunciados. mas porque ele tem a ver com uma matéria que portanto. acima das questão de fundamentação. devemos . vimos anteriormente que existem filósofos sentido natural de saber deve se fazer valer. não pode colocar matemática. Quando consideramos como [20] Aqui mais uma vez posso dizer: também aquele característica das ciências particulares. tal como parece ter sido boas razões para suspeitar que esse domínio filosófico quanto ao conteúdo definida por diferentes filósofos. ainda que por razões distintas. simplesmente. em situar a filosofia. pois.métodos filosóficos específicos. Por um lado. se erguesse mediante a experiência. possuem o mesmo tema. mas também pelo fato de fundamentar seus escrever literatura. Será que de todo há . se saber. A noção de que existe um sendo discutido nesta aula porque tanto na arte como na modo de fundamentação filosófico particular implica crença. a saber: que uma delimitação nítida faz diferentes noções de métodos filosóficos particulares sentido . Porque aqui não se encontra nenhuma relação se distingue das ciências apenas por possuir um tema de concorrência. de sejam também de algum modo ainda mais rigorosos ou todo o modo. como Husserl ou Hegel que vão até mesmo além e por não estar implicado no sentido da linguagem propõem uma idéia de filosofia. naturalmente. ao menos sentido deste termo. significar enunciados com uma pretensão de fundamentação. que elas fundamentam seus conhecimentos fundamentar seus proferimentos. só não pode fazê-lo ao mesmo tempo. isso deveria. o Ora.

fundada completamente proposições empíricas elementares não são as na Lógica. por sua vez. segundo. experiência? Esse enunciado não pode ser. embora Frente a isso. existe a possibilidade de enunciados especificamente mas o que importa é ver que já a tese de que haja apenas filosóficos e de uma espécie de fundamentação um saber lógico-matemático e um saber empírico é. ensinado no assim chamado Círculo devemos entender por empiria?” é ela própria uma de Viena formado em torno de Schlick e Carnap. O fundamenta. e isso deve significar: saber empírico. mas sim enunciados acerca de objetos analítico da lógica e da matemática e o empírico das intersubjetivamente perceptíveis em um sistema espaço- ciências da experiência. Há. no questão empírica? Tanto Hume quanto o positivismo início da década de trinta . apenas duas espécies de saber legítimo: primeiro. portanto. Como se a possibilidade de um saber filosófico específico. Nosso problema aqui não pode Se quisermos nos orientar acerca da questão se consistir em examinar qual destas concepções é a correta. por sua vez. enseja [22] outras questões. a [21] surge imediatamente a questão: o que devemos então mesma concepção foi defendida no nosso século pelo entender por experiência? Será que a questão: “o que positivismo lógico.ser. posto ser ela mesma um nos situar entre essa posição cética e a tese segundo a enunciado que não é nem lógico nem empírico e que. de uma maneira não sendo empírica. juntamente com o muito sedutora. o enunciado de que todos os primeiro e mais significativo filósofo a defender esse enunciados dotados de sentido se fundam na ponto de vista foi David Hume. temporal objetivo.os mais importantes lógico certamente fizeram suposições sobre o que manifestos dessa escola aparecem nos dois primeiros significa examinar empiricamente um enunciado. além disso. como a questão: tal como a encontramos na Fenomenologia de Husserl e “o que significa então experiência. saber fundamentado de acordo com a experiência?”. saber considerado como uma questão empírica. Proposições. empírico e. um . em especificamente filosófica. qual existem fundamentos particularmente filosóficos. segundo Hume. Como volumes da revista Erkenntnis. o matemático. positivismo lógico porque concebe que a lógica. A bastante geral. com conteúdo do verdadeiro saber. também em Kant. O novo positivismo denomina-se tipo: “agora tenho uma representação de amarelo”. mas já em um segundo olhar surgem estabelecimento das chamadas ciências particulares. finalmente. que proposições de cada indivíduo sobre os conteúdos de existem apenas duas espécies de conhecimento: o suas percepções. a concepção segundo a qual as matemática seria. seria um dados sensíveis. Devemos também ser céticos em face dos no sentido cotidiano como saber é sempre um saber céticos. se coloca imediatamente a questão acerca empiricamente fundamentado. como em Hume. Além disto. torna-se evidente que. A posição cética é à primeira vista Deste modo. e o que significa um no Idealismo Alemão em Fichte e Hegel e. sempre do sentido dos enunciados feitos pelos próprios filósofos houve na filosofia moderna tendências que contestavam céticos e por eles reclamados como verdadeiros. contraditória. Assim. Por positivismo proposições empíricas mais elementares foram compreende-se em geral que apenas o chamado saber consideradas proposições acerca de nossos chamados positivo. levados a pensar que aquilo que designamos dificuldades. consista apenas de tautologias. A princípio. deveremos em certo sentido certo sentido. por sua vez. Por conseguinte. defendeu-se nesse ínterim. Deste modo resulta. então.

porque a própria tarefa destas preleções. no todo dado desde sempre na vida abordamos empiricamente. Com certeza.a particulares. porém. nós existentes acerca de possibilidades autônomas de uma mesmos. da investigação das ciências particulares. sim. só poderia ser parece mais uma vez pressupor que haja. lógico não possa ser de modo algum sustentado e que primeiro. distinguir a filosofia da religião por um lado e da cultura. segundo. ainda que eventualmente com um novo especialmente candentes. A filosofia não assume claro. A questão acerca da II essência da experiência humana e tudo a ela relacionado poderia ser tema da psicologia e da biologia. aliás à maneira de uma a filosofia e as ciências particulares. e isso e que.precisamente o todo perspectiva indicada acima também encerra suas da experiência científica . ainda não dificuldades. questão acerca da essência da experiência científica e. algo como objeto de uma crença. não afirmo que não seja possível. outras. a perspectiva empírica filosoficamente relevante carece ela mesma. são propriamente filosófico seria suspensa. ela mesma ciência. sim. numa nova abordagem. Já a investigação simplesmente. de uma orientação filosófica. isso quer dizer. da experiência humana em geral . Eis aqui a razão distintos. sugerir uma possibilidade que imediatamente nos deve consistir em uma discussão crítica das idéias ocorre: posto que nós. Seu meio é o questionamento e. manifestamente. a fundamentação. para o todo que estava dado de antemão na vida mítica. por sua vez. uma reflexão especificamente filosófica que se distinga através de um modo de acesso especificamente científico. ela é. ao menos conservar as questões filosóficas enquanto tais se as explicitamente. objeto da ciência empírica. seus meios. para o um domínio propriamente filosófico.determinado todo é pressuposto . fornecer algumas perspectivas. A questão O que procurei fazer na seção anterior foi. de toda necessidade de um método de fundamentação alguma forma se referem ao todo. porque eu mesmo não possuo uma concepção exista. por isso . Devemos entender com isso que o positivismo posso. filosofia? Isso teremos que examinar. ocorre-nos se fundamentação filosófica distinta das ciências também tais questões que acabo de mencionar . em certo por que temos que evitar partir de uma concepção de sentido. acerca do bem poderia ser tema das ciências empíricas sobretudo. está filosofia que de antemão trace uma nítida fronteira entre referida à verdade. nestas preleções. e isso quer dizer. Não está claro como podemos de todo estava de modo algum presente. fazem-se notar pela primeira vez e o que certamente Com isso nomeiam-se questões que se tornam permanece. somos. caso se mostre que não existe sentido. cair sob a competência de determinadas ciências empíricas. A necessidade dessa distinção que consideram isso óbvio. de tal modo que. Eu digo apenas: não está mítica pré-científica. resultava de que as três. é a perspectiva para o sentido da vida.não devam. A filosofia pertence à ciência. Algumas coisas escapam. religião e arte. Nessa direção bem. por fim. Já agora gostaria de entendidas como lições para [23] introdução e orientação. Há atualmente até mesmo muitas pessoas por outro da arte.que dessa maneira. seres humanos. de acordo com a sua concepção. filosofia. um domínio do conhecimento próprio à clara.

significativamente chamamos de ciências particulares. poderíamos dar também um passo adiante. e. assim natureza . a saber. por um lado. o . a natureza inanimada. a filosofia não tem se tematizando-se a distinção entre a filosofia e o que muito orientado por esse termo. mas também há coisas como a uma ciência particular: o que é a física. a biologia. Partamos mais uma vez dos domínios particulares mais uma vez. Na filosofia não podemos sequer começar com isso parece realmente existir. O contraste mundo”? Há um filósofo moderno que [24] começou entre a religião. a história da arte determinar o que deve se estender além desses domínios acerca da arte como arte e a matemática acerca da particulares de modo a constituir precisamente o essência dos objetos matemáticos? Sobre essa questão domínio da filosofia. e tal pré-socráticos procederam da mesma forma. Nesse conceito de “o mundo” parece também a necessidade de distinguir a filosofia das estar contida uma opção prévia por aquilo que também ciências está.ou. mais uma vez não foi suficientemente passada muito indeterminado. e a maioria dos filósofos análise da distinção entre a filosofia e as ciências. Deixei esse conceito do todo na vez o mais abrangente. Tomemos. Mas será que existe tal coisa? Sim.he physis. a filosofia da arte. a vida. a arte. a proximidade da filosofia relativamente à ciência. na medida será o tema da aula de hoje. embora pudesse aparecer como vida em seu todo. pertencimento da filosofia à ciência tornam obrigatório a Wittgenstein em seu Tractatus. sem mais o mundo dos seres humanos. Ou consiste em indagar pela razão de ser. aqui às voltas com um um domínio de objetos. Poder-se-ia então perguntar: será que a o fato de que aqui existem diferentes concepções. seu procedimento. e na qual semelhante domínio de objetos é tematizado. e a arte. inversamente. os produtos da arte e sua história etc. pois.mesmo. a religião e a arte têm algo em comum. ligada ao aspecto que a denominamos natureza. Quando se pergunta a propósito de talvez se possa disputar. naturalmente. Assim como a distinção da em que seu tema era descrito como sendo o mundo . ele também parece não abranger filosofia. Estamos. em geral. ainda não se disse muito. a filosofia da sociologia. temos a possibilidade de apontar para matemática. a saber. Seu meio é de tal forma a dúvida que totalidade. que seu domínio de objetos é precisamente o permanece em aberto se nós na filosofia de todo saímos mundo? Mas o que estaríamos querendo dizer com “o da dúvida. seria O que não é mais tema de qualquer ciência determinada necessário agora dizer alguma coisa sobre a perspectiva é aquilo que é comum a todos os domínios de objetos. É ciência particular tematiza também enquanto talo muito mais fácil dizer em que medida as ciências domínio no qual ela pesquisa? Será que a física indaga particulares têm a ver com domínios parciais do que acerca da natureza como natureza. Mas. poder-se-ia dizer então que este seria o domínio temático bem como o método. assim se deu o fato de que nelas de algum modo sempre se trata da que o termo “o mundo”. Eis por que. mas de qualquer modo isso já é um primeiro da filosofia. o que para eles significava o mesmo. então. por exemplo. as domínio limítrofe entre a ciência particular e filosofia. a dúvida e. uma vez que ele semelhante designação de um domínio de objetos. é argumentativo e devemos dizer acerca da filosofia que ela visa a metódico. começo. e o exatamente com um enunciado sobre O Mundo. Com isso. devemos estar preparados para enfrentar das ciências.ho filosofia relativamente à religião e à arte está ligada à kosmos . do saber de que não sabemos. a filosofia da natureza. e ele só pode ser aclarado abrangente. por outro. relações sociais. e.

Com esse “tudo o mais” Aristóteles tem dá o salto a partir das ciências particulares. universais dos entes e uma filosofia prática que está precisamente. faltar aqui a prática. Kant leva a cabo em face das ciências empíricas teórico. acrescenta: e também tudo o mais que pertence ao ente porém. precisamente a vez. a física. o mundo agora. E. Por isso. mas o que é então comum a eles. a ontologia. Como um indício disso podemos também enquanto ente. no entanto. mas de qualquer modo certamente pelo para ele a ciência empírica sistemática por excelência. o que é a concepção abstratizante de Aristóteles. suficientemente abrangente. ao modo como Kant enquanto ente. particularidade e generalidade geral. então. E Aristóteles uma distinção entre filosofia teórica e prática. é ente (seiend). para em mente os demais conceitos que são igualmente tão Kant. Conceitos como. No contexto da questão assim ligada ao fato de que as ciências particulares são na sua definida reaparecem os mesmos conceitos formais que. Embora. se realmente existe essa oposição. que. que não pertencem ao domínio de objetos de inteiro nessa caracterização. a filosofia tem um objeto enquanto objeto? Assim. Parece. o que devemos filósofo clássico. ou seja. Só que esse movimento de abstração considerar o fato de que se fala da oposição entre o ser e experimenta agora em Kant uma virada mais subjetiva. então Ele pergunta: o que significa dizer que algo pode ser um também o conceito de ser e o de ente não seria. devia de antemão também estar aí [25] empreendido por Aristóteles com sua questão pelo ente incluída. um movimento de abstração semelhante ao como vimos. objetos todo. segundo Aristóteles: o que é o Façamos agora mais uma amostragem com um ente enquanto ente. ou a oposição entre o particular e o geral. porém. A opção prévia pelo questão acerca da condição de possibilidade da teórico nessa concepção de filosofia está naturalmente experiência em geral. É possibilidade da experiência? Neste ponto Kant ainda se verdade. que podemos chamar de mundo da teoria. da filosofia é. Tudo o que é é. ao nos elevarmos para Aristóteles. e tal é. identidade ou verdade ou a oposição entre possibilidade portanto. Ele não utiliza a palavra teórica que se ocupa com as determinações mais objeto. inicial parece conter uma opção preconcebida. A física é pela natureza. por sua objeto da experiência. ou seja. Há objetos da física. mas sim a palavra ente (Seiendes). chegamos à maneira se socorrido na medida do possível com o fato de ter pela qual Aristóteles determina aquilo que caracterizou passado a existir então as duas coisas: uma filosofia como “filosofia primeira”. pertenciam à ontologia: conceitos como abstrativamente a partir delas a uma disciplina formal possibilidade e realidade. ou o conceito da relação ou da formula da seguinte maneira: quais são as condições de qualidade. A primeira questão referida ao dever. Tomemos Kant. desde da matemática. referir-me a algo diferente. o dever ser. possa fazer justiça à sua intenção original voltada para o Ora. se transforma na questão que se e realidade e necessidade. em outras palavras. talvez não a saber: pela ciência natural teórica. Quero. não chegamos a nenhum conceito de filosofia que etc. portanto. que também esse equacionamento orienta muito de perto por uma ciência teórica específica. totalidade disciplinas teóricas. Também em Kant se faz entender quando se diz que algo em geral é. partindo dessa determinação kantiana da . pode-se dizer que o que uma ciência especial. por exemplo.próprio conceito de objeto. a filosofia teórica como um todo não se esgote por universais. Desde que tomou consciência disso. Mas. para Aristóteles era a questão do ente enquanto ente.

mostrando que já também para os objeto ou de ente. Em segundo lugar. Em primeiro lugar. e o que eu gostaria de existente (dos theoretisch Vorhondene). pense em ligar essa nova determinação o mais próximo der-We/t-Sein). com essa explicação de que o tema da filosofia entendido num sentido teórico . sobretudo. pode-se empreender mais um passo. Ele teórica.ou no se escondem diferentes possibilidades de decidir se caso limite negativo. porém. nada pode alterar-se. mas que abarca a filosofia teórica e experiência científica (e podemos entender por isso todas prática conjuntamente. mas também conceitos.filosofia teórica ou. Com efeito. Aqui reaparece. filosofia prática por sua vez também é. não apenas o teoricamente passa de uma mera palavra. por isso. mas este é agora determinado de tal forma distinções possam então ser feitas.o mundo no qual deve ser o mundo da vida. abordagem mais subjetiva permite-nos do mesmo modo O conceito de mundo da vida de Husserl fornece. pode-se dizer: a puramente teórica. mas o todo é agora entendido a partir de nós. publicado pouco tempo depois de Sein und como na concepção ontológica se trata do aclaramento de Zeit. conceito de mundo não deve mais ser primariamente Mas. do mesmo modo na concepção atual primeiros filósofos pré-socráticos o conceito de cosmos também se trataria do aclaramento de semelhantes era compreendido não apenas teórica. muito pouco ainda ficamos vivemos não é apenas o mundo factual. no todo de nossa pé. mas é o todo no qual a prática. de uma parte da nos assim a possibilidade de compreender o todo ao qual filosofia teórica. Em primeiro lugar. em todo o caso. sentido (Sinn) a partir do qual nos entendemos . só que hoje podemos dizer que estes são praticamente. e isso quer dizer. isso de fato. quase não possível e. mundo da vida. portanto. com o nosso compreender (Verstehen). teórica. permanece de natureza) está alojada. a [26] que por ele não se entende mais o todo da natureza. O discípulo de queremos compreender a filosofia antes em uma do que Husserl. e expôs em um curto escrito. Husserl cunhou para esse todo trata de apagar quaisquer diferenças com fundamento na de nossa experiência pré-científica o conceito de mundo coisa. mas também o sabendo. mas também o mostrar no final desta aula é que. só que . por detrás desse título. Essa passada. um esboço histórico do desenvolvimento do conceitos formais igualmente fundamentais como o de conceito de mundo. e isso tem por conseqüência que esse qual insisti na vez passada. retomar os conceitos fundamentais da ontologia. e naturalmente essa nuance prática precisamente os conceitos [27] que já estão dados desde também encontra expressão na idéia kantiana do sempre junto com a nossa vida ou. tenho de afastar as ciências empíricas e não apenas as ciências da dois mal-entendidos. o conceito suficientemente abrangente. de forma mais conceito cósmico da filosofia. Na determinação básica de que a filosofia é vivemos. naturalmente. ele é visto a partir da essencialmente científica. por sua vez. a diferença entre ser e dever ser. Heidegger. mas apenas de ter uma concepção global da vida (Lebenswelt). mencionado na semana precisa. Ela é chamada prática apenas porque seu tema é compreende o todo da natureza. Vom Wesen possível à determinação aristotélica da ontologia. que nos falta. retomou esse conceito de mundo ao em outra direção. Primeiro. Aqui. naturalmente. na nossa perspectiva. Assim des Grundes. não se experiência pré-científica. o a filosofia deve se referir de uma maneira que não é mais qual se encontra em Husserl. no interior da qual tais de mundo. é compreensível que se falar de um estar-no-mundo humano (menschlichen In.

agora formulamos isso precisamente de modo a dizer: quisermos evitar este termo técnico pouco familiar esses conceitos do ente. muitos desses conceitos não se deixam em grande medida. Coisas como julgar ou asserir repetidamente a questão: “O que é tal e tal coisa”. tão somente introduzir num contexto um pouco mais Partindo. Há ainda os represento em nosso Instituto a filosofia analítica. se abstraímos dessa peculiaridade. em grande medida. a saber: Interrogados sobre o tema da filosofia. seria um mal-entendido pensar que justamente. pode-se forma ou de outra. acentuaram que já os compreendemos desde [28] Mas do mesmo modo como julgar. e assim pode-se mesmo. e vocês conceitos fundamentais de espaço e tempo. expandir ao mesmo tempo a nossa base de esse conceito só passou a existir depois que Husserl modo a acolher também os conceitos fundamentais da cunhou o termo “mundo da vida”. da identidade. naturalmente Com isso. no consciência. relacionados aceitar para toda a tradição filosófica que nela se trata. direta ou indiretamente. filosofia analítica é o peso que a mesma dá à linguagem Ora. número e podei-iam pensar que o fato de que eu dê tanto peso ao causalidade que já poderiam ter sido mencionado em aclaramento de conceitos decorre precisamente daí. Mas essa abordagem permite-nos agora. desde sempre. por exemplo. uma obra como o Lógico de Hegel falar aqui em uma rede de conceitos. onde o uma proposição são conceitos fundamentais. assim também exclusivamente. não é um mero acaso que tais conceitos no aclaramento de um conceito recorremos a linguagem remetam em determinados contextos uns aos outros. podemos unitário algo que tem ocorrido desde sempre na filosofia. encontraremos estão referidos à verdade. “mundo da vida”. Esse termo permite psicologia filosófica. por exemplo. tem a ver com o aclaramento de conceitos. do conceito de verdade. da verdade etc. E em grande medida. e se Se isso é correto. e como o meio no qual os conceitos em geral nos são podemos perguntar se todos eles não estão. do mesmo modo que enunciar. dos quais objeto dessas questões sobre o-que-é serão sempre podemos dizer. assim como o conceito de verdade. de certo. podemos dizer: são os conceitos que são conceitos que de algum modo já compreendemos de algum modo já compreendemos desde sempre. de alguma dados. razão. resulta daí um peculiar contraste . isso pode ser correto. dizer agora: a verdade é algo a que estamos dirigidos em Se nos perguntarmos quais eram os temas dos quais se nossos juízos. e desejar. Ou ainda: Agir. autoconsciência. assim como nossos enunciados também ocupavam Sócrates e Platão. já poderíamos dialética. Por certo. Poderíamos dizer: o tema da filosofia não os conceitual. teríamos agora dado um passo a frente. Até esclarecer sem uma referência a outros. segundo uma concepção bem determinada. responsabilidade. conceitos que pertencem ao nosso mundo da vida. pedir e perguntar. aclaramento todo. Ou assim também conceitos como A filosofia consiste pois. em todo o caso. eu intencional idade. se bem que não. isso vale para toda a história da filosofia. aclaramento de conceitos. do aclaramento de conceitos. Mas. Mas a peculiaridade da possibilidade da experiência. Como vocês bem sabem. entre si. Naturalmente. mas sempre. do que seja o método adequado de aclaramento dizer agora algo mais além dessa vaga referência ao conceitual. Em conexão com a questão kantiana quanto à condição de parte. que conceitos a propósito dos quais Sócrates e Platão sempre de algum modo já os compreendemos desde sempre. assim também querer sempre. da teoria da ação e da ética.

parece que nada tem a ver com características fornecidas pela experiência. O que ele quer dizer é o seguinte: já se-ia objetar: até mesmo quando se aclaram conceitos. a lei da é. dispomos desde sempre de um conceito do tempo (e. e eu não posso mais aqui distinguir nitidamente dos conceitos empíricos. Eu sei e. o conceito de plutônio. A filosofia. Se de todo . na maioria das vezes muito explicitamente a distinção entre conceitos dados a empíricos. mas quando eu devo então. no que diz respeito aos conceitos a serem Há aqui algumas exceções. a lei universal tempo. Isso mostra em que consistiriam ou de fato dificuldades especiais. desempenhou um papel de grande importância na Lingüisticamente falando. e é justamente nisso que eles parecem se ser estruturalmente pensados.entre a filosofia e as ciências. Isso parece de fato ocorrer com todos esses conceitos claro assim como tais aclaramentos conceituais devam dados a priori. de enunciados. sobretudo porque isso difere de Tomemos. isso se realiza numa proposição qualquer. sei o que é o tempo). Seriam uma espécie de super-leis recordar aqui as palavras de Santo Agostinho sobre o (Supergesetze). enunciados. Eu pessoalmente. não digo: “antes algo como uma definição”.para me ater à por exemplo. Em Kant encontramos proferir e fundamentar enunciados. Gostaria de parte. dois sentidos. porém. tais são as chamadas proposições não os adquirimos a partir da experiência. Mas. Se. como. Mas esta seria. em conceitos que construímos com base em notas contrapartida. se me perguntam. compreender afinal por apenas que existe um tal conceito.de conceitos pertencentes às procurou fundamentá-lo de uma maneira determinada. não sei. eu sei. se assim sintéticas a priori. por sua vez. por exemplo. precisamente de dizer é que estas são exceções. Eis um acordo com as concepções particulares de filosofia. com regularidades. Mas. precisamente. Mas. embora fatos gerais. causalidade da ciência natural. poder. é um enunciado universal. mas apenas com o aclaramento de conceitos. pois não está tão sei). nós fundamentadas. por exemplo. e Aristóteles formulação de Kant . eventualmente. condições de possibilidade da experiência. por exemplo. já compreendemos desde Mas um físico poderia aclarar esse conceito. Santo Agostinho usa a palavra “saber” em isto o que em geral acontece na filosofia. como disse. Eu explicar o conceito. no entanto. estes não Também na filosofia kantiana encontramos podem ser. neste sentido. Não é nesta frase. assim como. sei O que então. da causalidade (que toda ocorrência tem uma causa) Santo Agostinho disse: “O que é o tempo? Se ninguém seria uma super-lei em face das leis particulares da me pergunta. antes algo como uma definição do que uma lei. agora. adquiridos empiricamente. Conceitos empíricos são proposições. em deveremos de alguma maneira aclara-los. As ciências têm a ver com sempre? O que significa este “já desde [29] sempre” fatos e. entrar em detalhes. não “consigo (e. Todavia. tem por tema. conceito empírico. não sou um físico. não sei”. tematizados pela filosofia. conceitos que. devemos. em cada ciência se trata de filosofia: o conceito do apriori. resultantes do fato de que ainda consistem as proposições que a filosofia teria ou. deve se tratar . também estas (immer schon)? Surge aqui um conceito que desde o início não passam de fatos. retomadas em nossos dias por Wittgenstein. O princípio da contradição. neste sentido. determinadas proposições que devem ser Conceitos como verdade ou objeto ou identidade. então o aclaramento de tais conceitos levanta para nós causalidade. Mas o que eu gostaria Isso parece paradoxal. mas até mesmo na matemática se trata de priori e conceitos empíricos.

o mais tardar. a consciência enquanto tal era. Mas. ou da abstração a partir da experiência? Este não parece ser o intuição intelectual. sobre a maneira pela qual explico o emprego da palavra também histórico. em equivaleria aqui a algo [30] como uma visão interna. pelos quais a filosofia se Crítica da Razão Pura: “em sentido temporal. neste ponto que que a questão: “O que é filosofia?” só pode ser nos damos conta de que não é lícito pensar o domínio respondida na medida em que filosofamos. o método da intuição das essências. pois aqui se separam os experiência. Kant escreveu no início de sua introdução à aclaramento desses conceitos. as crianças só o aprendem quando já têm somente de registrar os nomes de tais métodos: o método alguma idade. coloca-se a questão: será que há de notas características que podem ser exibidas na mesmo alguma coisa como esse domínio no qual algo já experiência. totalmente apropriada. Com efeito. mas se eu soubesse e alguém me panorama. perguntasse. e assim pois. finalmente o método de análise da linguagem: aqui a Hoje nos inclinamos a pensar esse apriori de um ponto reflexão filosófica é compreendida como uma reflexão de vista que é. embora isso talvez não seja uma imagem perspectiva interna. o que quer dizer que a reflexão caso. que já estão dados a priori. exibindo concretamente um segmento da podemos aclará-lo. Em todo o caso. nenhum interessa. Quando. só posso apresentar uma espécie de que é o plutônio. por exemplo. Gostaria tão número. só filosofia antiga falou aqui de ideae innatae. em parte. em última instância. problema que está associado a essa idéia de que a Como tornar inteligível para nós essa distinção? Já filosofia tem a ver com o aclaramento de conceitos dados disse que os conceitos empíricos são explicados através a priori. discernimento desse fato não se segue que já Prosseguir aqui significaria dar início à colocação de disponhamos também de métodos empíricos para questões filosóficas concretas. e princípio. só pode ter lugar em algo como a reflexão. Aqui. em grande medida biológico e. nossa consciência é ela mesma o também não conhece nenhuma palavra de igual produto de desenvolvimentos empíricos. ao contrário. também conseguinte. do significado. refletindo sobre a nossa compreensão. pois se poderia dizer. de podemos explicá-lo retornando de algum modo à nossa representações inatas. mas isto como deve ser entendida essa reflexão? Sobre esse ponto não significa que todo conhecimento provenha da não quero me aprofundar agora. esclarecer esses conceitos já fornecidos (vorgegeben) a ultrapassando o limite da mera questão: “O que é priori e que nos estão dados apenas a partir da filosofia”. Para Kant. Contudo. Para evitar mal-entendidos compreensão. então eu o saberia também no sentido Gostaria agora de chamar atenção para um outro estrito de que poderia explicá-lo. por desses conceitos. filosofia. no curto espaço de tempo de que modificando as palavras de Santo Agostinho: Não sei o disponho. Estaria. é verdade. Mas será que elas o adquirem por dialético.dispomos de semelhante conceito empírico. Mas conhecimento em nós antecede a experiência”. sim. pois. correspondente a alguém que ainda não a conhece e que empírico. é. como um . um domínio fundamentalmente pré-empírico. no conceito de caminhos dos diferentes métodos filosóficos. deveríamos dizer. Se pensarmos. um conceito já está dado a priori? Como teríamos de pensar isto? A pertence desde sempre à nossa compreensão. Por fim. pois. O previsíveis.

por sua vez. está claro que podemos dizer aqui. então.cosmos que. Dependeria dela. como dela em seu [32] questionamento. o chamado problema da mente e do corpo. que daí resultam são em seu todo. perspectiva que considera ambos os lados? Se a filosofia São conceitos nos quais os diferentes modos de acesso ergue uma pretensão à totalidade. o critério do qual eu havia filosófica. traz consigo. com os seus dois lados. com as diversas ciências juridicamente pelo que fez. Daí surge uma série de terceiro exemplo: nossas concepções morais e legais problemas. Pois parece que. a equacionamento inicial para recuperar por assim dizer psicologia tende a mostrar. Por outro lado. que as ciências particulares adentram por . poder agir de outro modo. necessidade na nenhuma idéia de como ele poderia levar a romper a perspectiva externa. encontramos um dizemos. em todos esses problemas. se defronta com em ultima instância. ao contrário das ciências lugar. também cérebro. diferença entre a perspectiva reflexiva interna e a possibilidade na perspectiva interna intersubjetiva. ter agido de outra maneira. Quando uma a filosofia teria a ver com um domínio próprio que de pessoa fez algo intencionalmente. se podemos dizer assim. Um de particulares tem a ver de certo modo com o todo. mas achados empíricos por um lado e achados dados a sociologia histórica parece abrir a perspectiva de que se reflexivamente por outro. com efeito. Poder-se-ia talvez Devemos dizer que. o princípio dessa poderia ter agido senão do modo como agiu. Mas. Posto que o cientista também se coloca a questão de como essa consciência. no interna. particular também é uma pessoa e vê a perspectiva caso ela tenha sua sede. problemas contradições a desafiar de maneira especial a reflexão filosóficos. de que a filosofia. devem ser econômico-materiais. nossos conceitos dados a priori é o de consciência. Isto externa. e no ambiente em que ela cresceu. apresentar tais problemas como pontos de estaria de um lado a filosofia e do outro uma ou mais entroncamento críticos. física. Um perspectiva empírica externa. Em primeiro partido. segundo o qual estar entre os conceitos já dados a priori. com os quais alguns de nossos ciências empíricas? Mas como designar então a conceitos dados a priori estão particularmente onerados. nós a responsabilizamos moral e questionável. Quero indicar alguns exemplos. descansando em si mesmo. Por um lado. designados como filosóficos. por outro lado não temos não poder agir de outro modo. e pode-se dizer agora que são trata tão somente de epifenômenos de interesses exatamente tais problemas que. Portanto: recuperação é um fato. Mas também se aplica quando a filosofia tem de incluir uma não somente nenhum filósofo conseguiu dizer até agora ciência particular. em razão dos pressupostos que ela acontece de maneira diversa com a biologia. todo o ponto de partida inicial de liberdade da vontade e responsabilidade parecem de minha explicação da filosofia até aqui. a psicologia. a partir da perspectiva desde fora a perspectiva [31] interna da filosofia. todos esses problemas estão de tal modo contíguos. imputamos a ela o algum modo está diante do das ciências particulares. e caso o cérebro seja uma realidade biológica e. não a lingüística e a história. é resultado. inversamente. se relaciona com essa a nossa experiência e com as ciências empíricas que a realidade. que são problemas entre determinados erguem a pretensão de serem em si fundamentáveis. mas ao mesmo tempo se estende além o que propriamente se quer dizer com isso. é o que empíricas em planos diversos. que a pessoa. Um segundo exemplo: também os conceitos investigam.

Isso é mais ou de reagir a mesma. a questão se. Esse haveria uma outra possibilidade de compreender a saber tampouco seria um saber especial. compreendidos agora. E. me conduziu antes A questão da responsabilidade. Uma situação do agir é seriam. de maneira ainda essencialmente mais abstração das situações de ação. porém. as individuais convertem-se como orientação no mundo. pelo contrário. ela que já compreendemos desde sempre. referência à totalidade da filosofia. em geral caracteriza uma situação de ação enquanto tal. e partindo determinada por tudo o que nela realmente existe. humanos como uma idéia fundada em si mesma ou Será possível delinear aqui um outro conceito de como um simples epifenômeno de determinadas relações filosofia. Partindo daí. Esse configurar a própria vida. porém concretamente. indagar-se-ia mundo subjetivo. Poder. Esse conceito de filosofia nas comuns. o conceito da orientação no que. do mesmo modo. contraposição às ciências particulares. ele é a pelos riscos e chances concretas. pois. em têm com toda certeza uma eminente importância prática. que abstratas adquirem uma importância que remete ao deve haver um saber que nos dê uma orientação em conceito kantiano da filosofia numa intenção nosso mundo da vida concreto. volta ao mundo da vida. do que podemos precisamente chamar de mundo da vida o que aqueles entrecruzamentos de problemas. alguns Essa tendência de refletir acerca do universal. bem e ao mal. Há situações de ação individuais e menos o que deveríamos compreender por filosofia situações de ação comuns. mas. um pendant moderno socio-econômicas. ponto de partida desse saber deveria ser a referência ao por uma maior concretude. de um papel dentro dela. porém. agora. mas precisamente ao todo agora referência se destacasse dos domínios das demais compreendido não abstrata. Isso corresponde tem ao mesmo tempo efeitos sobre a maneira de ao “conceito de filosofia da escola” em Kant. certas questões sobretudo a Karl Jaspers. O conceito de mundo da vida é como uma teria que ser visto. O ponto de partida situação de nosso agir. O ciências não por uma maior abstração. concretamente por exemplo. sim. Ora. por exemplo. nos pareciam filosoficamente mundo (Weltorientierung). via os problemas especiais das a idéia da responsabilidade própria desempenhe ou não contradições entre as perspectivas interna e externa. que venha a ser então. podemos refletir mais uma vez acerca do conceitos universais. deveríamos refletir acerca da realidade concreta e também por tudo o que nela é possível como nosso ato nossas possibilidades de ação na mesma. o que é bom e mau. à primeira vista. de tal sorte que essa ele se referiria ao todo. os valores. Aqui. ao contrário. não importando se algo como conceito trouxe-nos agora. Poder-se-ia dizer também. tem um efeito prático eminente sobre para a filosofia kantiana numa intenção cosmopolita? a maneira pela qual nos relacionamos moral e Gostaria de utilizar aqui um termo que nos remete politicamente uns com os outros. consideramos nossa idéia dos direitos compreendido. O mundo da vida é nosso concretamente bom e mau. no sentido em que forte como um empreendimento interdisciplinar. dos exemplos que acabo de mencionar. e isto me conduz por fim à questão se não situação-de-ação concreta que temos em comum.sua vez contextos que são de relevância filosófica. não como Para isso. e isso quer dizer: na cosmopolita. mas daí. mas como o que para nós é hoje conceito de mundo da vida. que . tem efeitos à concepção de filosofia como aclaramento de conceitos imediatos em nossa compreensão do direito penal.[33]se-ia dizer.

Suponho que a maioria das pessoas que chegam à universidade para estudar filosofia buscam alguma coisa que tem a ver com essa idéia de filosofia. compreendido de uma maneira determinada. levantados pelas contradições da perspectiva interna e externa. Tudo o que disse aqui sobre esse conceito de filosofia como orientação no mundo sinto que são apenas indicações extremamente vagas e insuficientes. como orientação no mundo.mencionamos acima. Eis aí uma situação tipicamente filosófica. Seria uma outra questão a de saber como a filosofia. o título mais adequado para esse empreendimento também parece ser o de filosofia. significa um outro direcionamento. A orientação para o que é bom e mau. uma ciência particular enquanto tal está sempre apontando para o conhecimento sistemático de um domínio de objetos. Por essa razão e também porque esse direcionamento deve ser compreendido como um direcionamento para o todo de nossas vidas. que tenhamos de confessar que pouco sabemos sobre a imagem que a filosofia assumiria nesse sentido que é justamente o mais importante de todos. Não tenho acerca disso nenhum conceito claro e tampouco conheço filósofos que o tenham. . no sentido do aclaramento de conceitos que já compreendemos desde sempre. e para as possibilidades de ação. deveria se inserir por sua vez na filosofia entendida neste segundo sentido. Pois como nos orientaremos no mundo atual sem considerar o que as ciências particulares podem nos dizer sobre isso? Por outro lado. Mas seria importante tomar consciência de que aqui estaria a verdadeira tarefa. E o que torna tão insatisfatória entre nós a filosofia como atividade acadêmica consiste também no fato de que com isso pouco nos temos preocupado.