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A ECONOMIA BRASILEIRA

no contexto da crise global

Governador do Estado
Geraldo Alckmin

SECRETÁRIO DE GESTÃO PÚBLICA
Waldemir Caputo

Fundação do Desenvolvimento Administrativo (FUNDAP)
Diretor Executivo
Wanderley Messias da Costa
Diretora de Políticas Sociais
Márgara Raquel Cunha

GRUPO DE ECONOMIA DA FUNDAP
Luis Fernando Novais (coordenador)
Luciana Portilho da Silva
Rafael Fagundes Cagnin
José Roberto Rodrigues
Felipe Thiago dos Santos (estagiário)
Matheus Rugno Oliveira (estagiário)
Kleber de Sousa Roque (estagiário)
Revisão Técnica
Rafael Fagundes Cagnin
Marcos Antonio Macedo Cintra

Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap)
Rua Cristiano Viana, 428
054199-902 – São Paulo – SP
Telefone (11) 3066 5640 – Fax (11) 3066 5752
www.fundap.sp.gov.br

Luis Fernando Novais
Rafael Fagundes Cagnin
Geraldo Biasoto Junior
organizadores

A ECONOMIA BRASILEIRA
no contexto da crise global
artigos de
Adriana Nunes Ferreira
Carolina Troncoso Baltar
Daniela Magalhães Prates
Daniela Salomão Gorayeb
Geraldo Biasoto Junior
José Roberto Afonso
Júlio Sergio Gomes de Almeida
Luciana Portilho
Luis Fernando Novais
Marcos Antonio Macedo Cintra
Maria Cristina Penido de Freitas
Marina Sequetto
Maryse Farhi
Rafael Fagundes Cagnin

Fundap
1a. edição
São Paulo, 2014

Coodernação Editorial
Fernando Ortega de Sousa Carneiro
Projeto Gráfico e Capa
Newton Sodré
Edição de Texto e Revisão
Marcos Henrique Monteiro Martins
Maria Eloísa Pires Tavares
Newton Sodré
Vera Carvalho Zangari Tavares
Editoração Eletrônica
Juhmco Hanada
Newton Sodré
Normalização Bibliográfica
Ana Cristina de Souza Leão
Norma Batista Nórcia
Ruth Aparecida de Oliveira
Catalogação na Fonte
Elena Yukie Harada

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)
(Centro de Documentação da Fundap, SP, Brasil)

A economia brasileira no contexto da crise global / Luis Fernando Novais, Rafael
Fagundes Cagnin, Geraldo Biasoto Junior (orgs.). São Paulo : FUNDAP, 2014.
283 p.

ISBN 978-85-7285-151-0

1. Economia brasileira. 2. Política macroeconômica. 3. Conjuntura econômi-
ca. I. Novais, Luis Fernando (org.). II. Cagnin, Rafael Fagundes (org.). III. Biasoto
Junior, Geraldo (org.). IV. Fundação do Desenvolvimento Administrativo - FUNDAP

CDD – 330.981

Sumário

Prefácio, 7
Marcos Antonio Macedo Cintra

Apresentação, 15

Capítulo 1. Gênese da Crise e Evolução Recente das
Economias Avançadas, 19
Maryse Farhi

Capítulo 2. Balanço do Regime de Política Macroeconômica
no Primeiro Biênio do Governo Dilma, 51
Daniela Magalhães Prates
Rafael Fagundes Cagnin
Maria Cristina P. de Freitas
Luis Fernando Novais

Capítulo 3. A Inserção Externa do Brasil no Contexto da
Crise Global, 79
Daniela Magalhães Prates
Carolina Troncoso Baltar
Marina Sequetto

Capítulo 4. A Política Financeira Anticíclica e a Evolução
do Crédito Bancário entre 2009 e 2012, 123
Maria Cristina Penido de Freitas
Rafael Fagundes Cagnin

222 Adriana Nunes Ferreira Luciana Portilho Daniela Salomão Gorayeb Capítulo 8. 193 Júlio Sergio Gomes de Almeida Luis Fernando Novais Capítulo 7. 162 Luis Fernando Novais Capítulo 6. O Mercado de Trabalho Brasileiro no Pós- crise: Uma recuperação com fragilidades.Capítulo 5. 251 Geraldo Biasoto Junior José Roberto Afonso Sobre os Autores. 281 . Indústria e Política Industrial no Contexto Pós-crise. Política Fiscal nos Pós-Crise de 2008: a Credibilidade Perdida. A Dinâmica do PIB Brasileiro no Período Pós- crise: da ilusão do crescimento sustentado à crise da indústria nacional.

2013. abrangendo cerca de 40 1. econômicas e sociais ocorridas no Brasil nas últimas décadas1. com impactos relevantes no consumo das famílias (SANTOS. 2013. AKB (2013). Fiesp (2013). Programa Universidade para Todos. sobretudo a articulação de uma macroeconomia para o crescimento. Estimativas indicam que as “transferências (públicas) de assistência e previdência social” agregadas atingi- ram mais de 15% do Produto Interno Bruto (PIB). FPA (2013).019” (LIMA. transferência de renda (Programa Bolsa Família). Prefácio Marcos Antonio Macedo Cintra Em diferentes instituições. Iedi (2012). tais como Luz para Todos. Vai ficando claro que o processo de transformação do país teve como substrato uma tentativa de promover um “desenvolvimentismo inclusivo”.). Ipea/SAE (2010). e por meio de diversas correntes teóricas. Este livro do Grupo de Economia da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fundap) filia-se a essas tentativas de compreensão da economia política contemporânea. Ver. Perfilha- se também ao debate de proposições para enfrentar os desafios ainda persistentes. Isso implicou um vasto conjunto de políticas públicas direcionadas aos grupos sociais mais po- bres: aumento real do salário mínimo. faz-se um enorme esforço de construção de uma narrativa das transformações políticas. 2013) –. por exemplo. etc. CGEE/MCTI/Rede Desenvolvimen- tista (2013). Ipea/SAE. Tudo isso possibilitou a formação do que alguns chamaram de “nova classe média” – referente ao intervalo de “renda per capita entre R$ 291 e R$ 1. a reorgani- zação da estrutura industrial e o aprofundamento do processo de distribuição da renda e da riqueza – em um cenário internacional mais adverso. a economia brasileira no contexto da crise global 7 . Sader (Org. Mais Médicos. Minha Casa Minha Vida. Bacha e Bolle (Orgs. 2013).). e muitos outros.

SQUEFF e VASCONCELOS.) – denominado de “frugal” pela revista The Economist2 – 2. nas economias asiáticas (China. apud Carta Capital. 2013). favorecendo o agronegócio e a mineração. por um lado. industriais e de serviços. de que a expansão do mercado interno impulsionaria as mudanças na es- trutura produtiva. sem pre- juízo de ampliar as exportações. O saldo da balança comercial da indústria manufatu- reira brasileira tornou-se crescentemente negativo – US$ 105 bilhões em 2013 (IEDI. que montaram “maquiladoras para fora”. AREND. BIELSCHOWSKY. 2013). Todavia. 2010. três ‘motores’ do desenvolvimento. As empresas têm de reduzir custos para atingir mais consumidores. sobretudo do complexo eletroeletrônico (MEDEIROS. e precisam aceitar margens de lucros restritas para ganhar em 8 a economia brasileira no contexto da crise global . The Economist. em certo sentido. sobretudo para a Ásia. foi a emergência de um novo paradigma de organização da produção e de introdução do progresso técnico. um conjunto que poucos países do mundo possuem: (i) um amplo mercado interno de con- sumo de massa – que será tanto mais amplo quanto melhor vier a ser a distribuição da renda – e também uma estrutura produtiva potencialmen- te capaz de vir a realizar localmente boa parte da produção em larga escala correspondente. (ii) uma forte demanda nacional e mun- dial por seus abundantes recursos naturais. em particular a industrial. p. e a reação modernizante e defensiva do setor manufatureiro. Vietnã. a mudan- ça de preços relativos. 40 e 47-48: “a inovação frugal não se restringe ao redesenho de produtos. três poderosas frentes de expansão. Vai ficando claro também que havia uma “aposta”. e (iii) perspectivas favoráveis quanto à demanda estatal e privada por investimentos em infraestrutura (econômica e social)”. Ao contrário do México e. etc. milhões de pessoas. por Singer (2012). uma vez que as exportações de com- modities possibilitariam a geração de recursos em moeda forte. 2013). Assim. resultaram em um vazamento crescente para o exterior. 7). Segundo Bielschowsky (2013. A indústria manufatureira brasileira foi se transformando em uma “maquiladora para dentro” – por meio da importação de peças. p. ao mesmo tempo. também da China. componentes e produtos finais. bem como o fenômeno político denominado de “lulismo”. Índia. 2010. de uma par- te relevante do impulso proveniente da expansão do mercado interno (PINTO. Coreia do Sul. ela exige repensar todos os processos de produção e modelos de negócios. nos setores primários. um dos formuladores do Plano Plurianu- al (PPA 2004-2007): “o Brasil tem o privilégio de possuir. por outro. explicitada no PPA 2004- 2007. 2013a e 2013b.

2013.) A segunda maneira de economizar é usar tecnologias já existentes de formas novas e criativas. a alta da inflação. para atender a essas necessidades. a pressões no setor de serviços e a choques de oferta. Isso pode incluir uma mudança na definição do que é um cliente.). –.. com a participação das empresas estatais. hospitais.. (. discutidas de forma ampla e pro- funda em vários artigos que compõem o livro.. financiadas pelos bancos e pelos fundos de pensão públicos. Banco Central Europeu. aeroportos. A primeira é tercei- rizar cada vez mais. construiu um hotel de 30 andares em apenas 15 dias” (VAITHEESWARAN..que permitiu o aumento do consumo das famílias brasileiras mais pobres. portos.. com as políticas monetárias extremamente expansionistas dos principais bancos centrais (Federal Reserve. Significa cortar custos até o osso e eliminar todas as funções de um produto ou serviço. Porém.. um novo “fordismo” – confi- gurado na miniaturização dos bens – que produz barato para o consumo de traba- lhadores com baixos salários e/ou rendimentos em todo o mundo. de forma a abarcar todo o tipo de gente que até então vivia excluída da economia de mercado. com pa- gamentos de juros de cerca de 5% do PIB) –. taxa de câmbio flutuante (alta volatilidade cambial) e superávit fiscal primário (elevado estoque de dívida pública. Finalmente. a despeito de alguns exemplos bem-sucedidos de concessões (e/ou parcerias público-privadas). escolas. Além disso. Banco do Japão e Banco da Inglaterra). volume. dado o aumento do emprego – predominantemente nos setores de serviços (Mac jobs) –. estão redesenhando produtos e até processos inteiros de fabricação.. (. As cadeias produtivas asiáticas fomentaram. uma vez que não se equacionou nem as estruturas financeiras e pa- trimoniais nem as estruturas gerenciais dos projetos. bem como após a crise financeira sistêmica.) O terceiro caminho para reduzir custos é utilizar técnicas de produção em massa em áreas novas e surpreendentes. Assim como os círculos de qualidade e a entrega just-in-time do Japão fizeram parte de um novo sistema chamado de ‘produção en- xuta’. (. portanto. a inovação às avessas e a produção frugal dos emergentes são parte de uma nova linha de administração de negócios. na África e na Ásia.. ferrovias. possibilitando a construção de arranha-céus rapidamente –. reitera: o BroadGroup – que de- senvolveu novas técnicas de pré-fabricação. sobressaem as limitações do regime macroeconômico brasileiro – metas de inflação (taxas de juros altas). não foi possível solucionar o grande atraso na infraestrutura econômica e social – estradas.) As empresas estão partindo das necessidades de algumas das pessoas mais pobres do mundo e. (. beneficiando as “classes médias” emergentes na América Latina. médio e longo prazos) abundantes durante a Grande Moderação – permitindo a valorização dos ativos financeiros domésticos e da taxa de câmbio. Em outra reportagem. como a medicina. Três formas de reduzir custos vêm sendo consideradas as mais bem-sucedidas. devido. p. a economia brasileira integrou-se aos fluxos de capitais (de curto. da renda e do endividamento (crédito consignado e crédito ao consumo). sobretudo. a economia brasileira no contexto da crise global 9 . 49). “em janeiro de 2012. preservando apenas o essencial”. a redução das taxas de juros reais e a acumulação de reservas internacionais –. etc. No período mais recente. A inovação de negócios no mundo emergente chegou ao ponto em que todos os avanços individuais se transformam em algo maior do que a soma das partes.

etc. há indicações de que os Estados Unidos (mas também a China. dos fluxos de capitais – parece cada vez mais difundido por diversos seg- mentos da sociedade brasileira. reorganizando suas econo- mias e. O elevado déficit em conta-corrente e a desvalorização da taxa de câmbio. por extensão. para nova rodada de inovações tecnológicas (nanotecnologia. seja entre os componentes do “lulismo”. cobrará seu preço. com a melhora relativa das condições de vida das populações mais pobres.) estão. A crise política – a dificuldade de articular uma alternativa –. Nem autonomia decisória relativa do Estado nacional. tiveram impactos nas expectativas sobre os índices de preços.). seja entre os setores empresariais. mas suas vantagens não estão plenamente asseguradas. na estrutura produtiva. 2013). para transformações na matriz energética (shalegas) e para a reconfiguração do comércio internacional (Trans-Pacific Economic Partnership e Transatlantic Trade and Investment Partner- ship). Os Estados Unidos caminham para a normalização das taxas de juros (tapering) e. em uma década de profundas transformações da “ordem mundial”. por conse- guinte. a volatilidade do mercado cambial e. A elevação dos gastos públicos (sobre- tudo sociais) com menor arrecadação (menor crescimento do produto e desone- rações) resultou em queda do superávit primário e dificuldades para se promover a aceleração do investimento público. impôs o aumento da taxa de juros básica. Portanto. A propor- ção do valor adicionado que absorve na participação das cadeias globais de pro- dução ainda é bastante restrita e as exportadoras são predominantemente filiais de empresas transnacionais. novos materiais. o Japão. a economia mundial. os novos planos de ciência. deveriam procurar se 10 a economia brasileira no contexto da crise global . novamente. retro- alimentando a política monetária restritiva. Esse diagnóstico – associado aos impactos da Ásia na balança comercial e. evidentemente. biotecnologia. seguindo os humores do mercado financeiro internacional. neurociência. parecem mais obnubiladas. a Alemanha. portanto. A China reage ao propor o Regional Comprehensive Economic Partnership. Por isso. tecnologia e inovação do país colocam ênfase na “inovação endógena” (JAGUARIBE. a Rússia. simultaneamente. o aumento no patamar dos níveis de preços e a deterioração das contas externas. Suas capacidades adquiri- das para a “inovação secundária” e a absorção de transferência de tecnologia não parecem suficientes para um desenvolvimento econômico sustentável. etc. a partir de seus próprios interesses (ou de seus próprios capitais). portanto. robótica. na construção do futuro. Não há consenso nem força mobilizadora. Diante desses constrangimentos renitentes. para liderar os movimentos. portanto. Os demais países. prevaleceram o baixo dinamismo do produto e do investimento privado e público. As proposições de medidas para avançar na sus- tentação e expansão das conquistas sociais alcançadas e.

bem como no aprofundamento da integração brasileira na América do Sul. que poderiam alavan- car segmentos importantes da estrutura produtiva doméstica. como afirmam Júlio Sérgio Gomes de Almeida e Luis Fernando Novais. seja utilizando essa capacidade empresarial para fomentar outros seto- res. compra de títulos da dí- vida soberana entre os países vizinhos. de maneira a criar uma alternativa aos juros escorchantes praticados pelo sistema financeiro doméstico3. sistemas de pagamentos em moedas locais. Para isso. portanto. como a indústria de equipamentos agrícolas. seria importante desenhar uma estratégia regional de compras governamentais para facilitar e/ou promover a integração das cadeias produtivas na América do Sul e definir o padrão de financiamento dessa integração. tais como as operações de swap de moedas entre os países da região. que o governo. a partir dos depósitos compulsórios e/ou de uma porcentagem dos depósitos à vista (como ocorreu com o crédito agrícola. com tecnologia eletroeletrônica e softwares embarcados (LUCENA.defender e avançar. econômicos e sociais torna-se crucial. Banco de Desenvolvimento da América Latina. etc. Está-se diante de um acirramento da concorrência em diversos planos. ou permanecer no eterno “país do futuro” (ZWEIG. durante muitas décadas). Não se pode esquecer também de internalizar parte expressiva da cadeia do pré-sal. a ousadia de todos os setores políticos. a montante e a jusante. 3 Da mesma forma como a Empresa Brasileira de Pesquisa e Inovação Industrial (Embrapaii) – com atua- ção nas áreas de inovação industrial – procura reproduzir a experiência exitosa da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Espera-se. médias e grandes empresas industriais –. nos novos setores que surgiram na indústria mundial –. em particular. 2013). seja pela implementação do Banco do Sul. bem como de expandir a infraestrutura urbana (mobilidade social. os partidos políticos e a sociedade deci- dam enfrentar a discussão – e este livro proporciona uma contribuição importan- te a esse debate – sobre o “modelo de desenvolvimento brasileiro” – seus avanços e seus limites – e os desafios de se reorganizar a economia industrial capitalista. seja usando a expansão do crédito – de capital de giro para as pequenas. ou correr o risco de sucumbir. fortalecimento do Fundo Latino-americano de Reserva. 2013). Seria importante também aperfeiçoar e/ou aprofundar os mecanismos de cooperação financeiros e monetários regionais. As evidências históricas parecem indicar que isso passaria por uma reinserção nas cadeias produtivas globais – “importar para exportar”. seja pelo fortalecimento da Corporação Andina de Fomento – agora. No caso brasileiro. nesse contexto. a experiência bem-sucedida do agronegócio talvez possa auxiliar na construção de políticas de reestruturação produtiva. habitação e saneamento básico). a economia brasileira no contexto da crise global 11 .

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de Frei- tas e Luis Fernando Novais mostram como se articularam. no capítulo 1. Apresentação Este livro é resultado do acompanhamento da conjuntura econômica do Grupo de Economia da Fundação do Desenvolvimento Administrativo (Fun- dap). desde sua eclosão. Daniela M. Banco Central Europeu e Comissão Europeia). Caracterizam os dois primeiros anos do governo Dilma a maior coordenação en- tre o Ministério da Fazenda e o Banco Central do Brasil na formulação das políti- cas fiscal. É dada especial atenção às medidas adotadas pelos países desenvolvidos na gestão da crise. Seus capítulos retomam. contudo. bem como de contribuições de pesquisadores convidados. Rafael F. evitando que ela tomasse proporções semelhantes à Grande Depressão dos anos 1930. em 2007. as políticas macroeconômicas no esforço de garantir a trajetória de crescimento da economia doméstica. monetária e cambial. bem como o uso de um conjunto de instrumentos a economia brasileira no contexto da crise global 15 . no Brasil. Maria Cristina P. apesar dos desdobramentos adversos provenientes do front externo. com a ruptura do mercado americano de hipotecas de alto risco. cujos argumentos muitas vezes exigiram a análise de tendências em um prazo mais longo. até o resgate de Chipre pela troika (Fundo Monetário Inter- nacional. uma “camisa de força” aos autores. A periodização pro- posta (2009-2012) não significou. analisa as diferentes etapas da crise internacio- nal. No capítulo 2. Prates. Cagnin. sob diferentes perspectivas. o período posterior ao agravamento da crise internacional e seus efeitos sobre a economia brasileira. no início de 2013. Maryse Farhi.

de maneira a compensar. o acirramento da concorrência internacional. gerou questionamentos sobre a sustentabilidade desse padrão de crescimento. Tratou-se. a contração das carteiras de seus congêneres privados. e não de abandonar. ao menos parcialmente. mais diversificados do que aquele que vinha sendo empregado até então (medidas macroprudenciais. a crise da dívida soberana dos países da zona do euro explicitou os limites dessa estratégia de política econômica. Luis F. revertido em função da elevação da aversão ao risco provocada pelo desenrolar da crise da zona do euro. No capítulo 5. Maria Cristina P. A partir de 2011. Novais avalia a dinâmica do produto vis-à-vis a con- dução da política econômica. Do lado comer- cial. Esse movimento só foi amortecido com a adoção progressiva de controles de capitais e medidas de regulamentação prudencial e. Do lado financeiro. Até meados de 2010. o expressivo diferencial da taxa de juros associou-se à avaliação positiva da economia brasileira pelos investidores internacionais. Prates. como agen- tes da política financeira anticíclica do governo federal.). O contínuo “vazamento” da demanda domés- tica para o exterior. No capítulo 3. para a manutenção do crescimento do crédito bancário entre 2009 e 2012. em função de sua resiliência à crise. Daniela M. consequentemente. o diferencial do ritmo de cres- cimento da economia doméstica em relação a seus parceiros e o patamar aprecia- do da moeda nacional (restaurado entre 2009 e 2011) levaram à deterioração do saldo comercial nos anos que sucederam a crise. O artigo resgata os principais determinantes do padrão de crescimento que vigorou no país até a crise global do final de 2008. desonerações fiscais. No capítulo 4. no biênio 2011/2012. As decisões de política monetária e a adoção das medidas macroprudenciais também influenciaram o ritmo de expansão do crédito no período pós-crise. Baltar e Marina Sequetto ava- liam o desempenho das contas externas da economia brasileira. marcando as diferenças em relação à fase posterior. o regime de política macroeconômica. Cagnin chamam aten- ção para a importância do crédito direcionado e dos bancos públicos. a polí- tica econômica pautada pelo incentivo ao consumo e pelo papel ativo dos bancos públicos na oferta de crédito com prazos e juros em melhores condições conse- guiu ativar o consumo doméstico e o investimento produtivo. Carolina T. etc. de Freitas e Rafael F. provocando forte entrada de capitais externos e. 16 a economia brasileira no contexto da crise global . de flexibilizar. apreciação do real. em alguns períodos. baseado nas metas de inflação e de superávit primário e no regime de câmbio flutuante – o chamado “tripé” da política macroeconômica. controles de capitais. en- tão. combinado com a fase de baixa do investimento produtivo.

da formalização. ela teve sua eficácia diminuída por diferentes determinantes “sistêmicos” fora da alçada propriamente setorial ou empresarial. O mais importante deles foi a taxa de câmbio. busca-se. ditaram sua lógica. em particular. de Almeida e Luis F. no período. Ao mesmo tempo. Novais traçam o perfil da indústria brasileira. Gorayeb analisam informações referentes à mudança na dinâmica setorial da geração de emprego após 2009. Ferreira. comparando o seu peso e desempenho para uma amostra de países avançados e emergentes. de alguma forma. Fatores conjunturais influenciaram os resultados nos últimos anos e. Luciana P. da capacidade de negociação salarial e dos ganhos reais de rendimento. Apesar de o dinamismo dessa retomada centrar-se no setor de serviços e na criação de empregos nas menores faixas salariais. são avaliadas as críticas colocadas à gestão da política fiscal no que se convencionou chamar de “contabilidade criativa” e a erosão de credibilidade dela decorrente. de autoria de Geraldo Biasoto Jr. Outro tema abordado é a relação entre a ex- pansão industrial e o desenvolvimento econômico. de fatores “extracomércio exterior”. ocorreu de for- ma tímida e não homogênea. Avalia-se que a desindustria- lização relativa do Brasil decorre não das exportações de commodities. man- teve-se o crescimento. da Silva e Daniela S. sim. Destacam-se o protagonismo do setor de serviços na criação de vagas e a qualidade dos postos de trabalho gerados. diante da crise internacional – o que deman- daria maior distanciamento no sentido de proporcionar a devida perspectiva a economia brasileira no contexto da crise global 17 . O capítulo 8. aqui. Júlio S. Adriana N. Em rela- ção à política industrial. No capítulo 6. G. segundo os autores. que permaneceu va- lorizada e volátil até 2011. a de dar benefí- cios fiscais às empresas para que os custos domésticos pelo menos se igualassem ao padrão internacional. com o aumento do grau de formalização e crescimento do rendimento real dos trabalhadores. e José Roberto Afonso. mas. porém em ritmo menor. No capítulo 7. As autoras mostram que a recuperação do mercado de trabalho. do emprego. Em seu conjunto. qual seja. oferecer ao leitor o registro da evolução da economia brasileira de tal forma que ocupe posição intermediária entre (1) a análise de caráter estrutural do significado das transformações ocorridas recen- temente no país e. Busca-se avaliar os efeitos das medi- das anticíclicas sobre as condições de governabilidade das finanças públicas. à luz de tendências mais estruturais identificáveis desde o início dos anos 2000. trata da política fiscal adotada pelo governo Dilma. As variações do valor da moeda nacional são condicionadas por fatores financeiros (com destaque para a especulação e arbitragem no mercado futuro) e não por fatores “reais” da economia.

que define o debate conjuntural. histórica – e (2) o acompanhamento rotineiro de indicadores econômicos e de medidas de política. Luis Fernando Novais Rafael Fagundes Cagnin Geraldo Biasoto Junior Organizadores 18 a economia brasileira no contexto da crise global .

CAPÍTULO 1 Gênese da Crise e Evolução Recente das Economias Avançadas Maryse Farhi Introdução1 A crise financeira. iniciada em meados de 2007 no segmento de crédito imobiliário nos EUA. estabeleci- do pela União Europeia para avaliar seus aspectos e implicações. a economia brasileira no contexto da crise global 19 . Na primeira seção estão traçadas as origens da crise e sua evolução. Dessa forma. foi grave o suficiente para ser qualificada como “a mais séria e destrutiva desde 1929” pelo comitê de Larosière (2009). em 2013. Ela adqui- riu contornos sistêmicos após a falência do banco de investimentos Lehman Brothers. inú- meras incertezas sobre as trajetórias dessas economias. 1. Pas- sados quase seis anos desde seu início. Este capítulo baseia-se em informações disponíveis no final de abril de 2013. a ter- ceira seção apresenta a discussão sobre suas perspectivas. por fim. e. e analisa os seus desdobramentos recentes nas economias avançadas. em setembro de 2008. A segunda seção aborda a situação recente das economias avançadas e as incertezas que a cercam. Apesar de menor intensidade. desde sua eclosão em 2007. continuavam a pairar. sua abrangência internacional e a incontornável necessidade de voltar a regulamentar o setor financeiro. Este capítulo resgata a evolução dessa crise global. a crise atual apresenta diversas particularidades que a aproximam da Grande Depressão da década de 1930. não parece estranho que ela tenha passado a ser designada como a Grande Recessão. tais como sua duração.

essas lições tinham um importante elemento em comum: todas preconizavam uma intensa intervenção do Estado em oposição às políticas de laissez-faire e às diretri- zes das políticas macroeconômicas recomendadas pelo mainstream econômico e endossadas pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). bem como para incentivar a demanda agre- 2. Foi em nome dessa necessida- de que os países desenvolvidos atuaram maciçamente e de comum acordo para socorrer os bancos comerciais e outras instituições financeiras importantes3. 2000). Importa aqui ressaltar que a crise da década de 1930 não foi um episódio de dez anos de declínio econô- mico contínuo. 4. em diversas fases. enquanto. Essa atuação assumiu formatos distintos conforme os países: os EUA concederam empréstimos aos bancos. tudo parecia indicar que as lições da Grande Depressão tinham sido aprendidas. culminando na falência do banco de investimentos Lehman Brothers. em que pesem as projeções relativamente tranquilizado- ras dos organismos internacionais. Nessa fase. foi insuficiente para impedir que a taxa de desemprego permane- cesse acima dos 10% nos EUA (BERNANKE. com a elevação da inadimplência e a desvalorização dos imóveis e dos ativos financei- ros associados às hipotecas americanas de alto risco (subprime). a crise financeira internacional continua provocando acentuados desequilíbrios macroeconômicos que têm alimentado temores de que a economia mundial possa vir a enfrentar nova recessão (doubledip) semelhante à ocorrida na crise iniciada em 19292. Entre essas duas recessões. mas sim constituída por dois períodos recessivos distintos – agosto de 1929 até março de 1933 e maio de 1937 até a Segunda Guerra Mundial. Apesar de raízes teóricas muito distintas. o Estado assumiu o controle acionário dos bancos. na denominação de MINSKY. 3. entretanto. permitindo evitar a repetição dos equívocos de política econômica que tinham contribuído para seu aprofundamento e sua extensão. 20 a economia brasileira no contexto da crise global . ocorreu um período de recuperação econômica que. As lições da Grande Depressão que foram aplicadas naquele período organiza- ram-se em torno da necessidade de se evitar uma espiral deflacionária (FISHER. As distintas etapas da crise – 2007 a 2013 Em 2013. No caso dos mercados. em setembro de 2008. os mercados financeiros mais sensíveis4. na Inglaterra e na Irlanda. o que lhe conferiu um caráter de ameaça sistêmica. a atuação dos governos foi relativamente uniforme e consistiu essencialmente em garantir a solvência dos títulos privados. 1982). 1933) por meio de intensa atuação do Estado e do banco central (Big Government e Big Bank. A primeira iniciou-se em meados de 2007. À semelhança da Grande Depressão. As relações de causalidade entre a crise financeira e a continuidade desses de- sequilíbrios permitem afirmar que se trata de um mesmo e único episódio. analiticamente. a crise atual também pode ser decomposta.

Grécia. mostrando que eles não são perfeitos”. Estônia. Eslováquia e Finlândia. Inicialmente. Lituânia. logo após a falência do Lehman Brothers. Itália. Holanda. sinalizando a inexistência de solida- riedade financeira entre esses países que compartilham uma mesma moeda. O bom desempenho dos mercados levou os agen- tes financeiros à percepção de business as usual e os bancos passaram a exercer pressões para evitar ou atenuar as mudanças na supervisão e regulação financeira. muitos governos e bancos centrais. Romênia. Ela se carac- terizou por uma recuperação dos preços dos ativos e por expectativas de uma retomada do crescimento econômico. 17 estados membros da União Europeia utilizam o euro como moeda: Bélgica. Luxemburgo. Áustria. agindo isoladamente. Letônia. também conhecida como zona do euro. No mesmo período. Soros (2012) aponta que “o primeiro passo no processo de desintegração da Europa foi dado pela Alemanha. Suécia e Reino Unido. Dinamarca. a economia brasileira no contexto da crise global 21 . Chipre. Hungria. com forte queda do nível de atividade e alta do desemprego. Polônia. Eslovênia. quando. Malta. Os mercados financeiros demoraram mais de um ano para perceber a implicação dessa declara- ção. França. Mas deve ser assinalado que. Repú- blica Checa. De fato. 12 países aderiram à UME. Alemanha. assim. todos os pacotes de assistência foram desenvolvidos. os países emergentes ou ficaram estáveis (Brasil) ou continuaram crescendo sob liderança chinesa. embora os membros da zona do euro (ou União Econômica e Monetária Europeia. Esse descompasso conduziu à cristalização do ressentimento popular em relação aos imensos programas de resgate das instituições financeiras (comparado com os insuficientes recursos destinados a programas sociais) e à falta de mecanismos ou de vontade política para impedir o pagamento de milionários bônus a seus dirigentes. Atualmente.gada e reduzir as taxas de desemprego. Sua atuação anticíclica permitiu evitar que a crise financeira se transformasse em depressão. configurando uma recuperação double-speed da economia mundial. A expansão maciça dos déficits públicos e dos balanços dos bancos centrais para combater a crise era. Irlanda. Foi igualmente no início dessa fase que a crise financeira teve o maior impacto na economia real. então. um formato próprio. desconfortáveis com a 5. finan- ciados e geridos pelas autoridades nacionais. Cada um desses pacotes nacionais de resgate manteve. amplamente considerada como excepcional e temporária. Os estados membros da União Europeia que não adotaram a moeda única são Bulgária. UME5) tenham concordado em seguir orien- tações gerais comuns. Angela Merkel declarou que a garantia estendida às instituições financeiras deveria vir de cada país. e não da Europa em seu conjunto. A segunda fase estendeu-se do final de 2008 ao início de 2010. Portugal. Espanha. em função das políticas fiscais e monetárias adotadas no período anterior.

2012). 22 a economia brasileira no contexto da crise global . não tinha havido dificuldade em financiar tanto os déficits fiscais como os de balanços de pagamentos dos países da zona do euro considerados não muito confiáveis pelos mercados de capitais. decidiram manter e até mesmo reforçar as políticas anticíclicas enquanto pairassem ameaças de deflação. Já os Estados Unidos. A zona do euro e os demais países europeus mostraram-se mais suscetíveis ao ideário conservador. consubstanciadas em elevadas taxas de desemprego. Foi no segundo semestre de 2009 que as convicções conserva- doras voltaram a se afirmar com força. As reversões da política fiscal expansionista provaram ser muito mais com- plexas do que se previa. devido. em 2008. No caso de alguns desses países. onde ocorria o contrário (FARHI. em outros casos. por outro lado. o ressurgimento das ideias conservadoras provocou acentuadas divergências nas políticas econômicas “pós-crise” dos países desenvolvidos. em função de sua própria experiência na década de 1930. Foi. com grande potencial de contagiar o conjunto da economia internacional. perdas de receitas causadas pela recessão e renúncias fiscais discricionárias tomadas para estimular a atividade econômica. A esperada recupe- ração econômica dos países desenvolvidos mostrou-se anêmica. Essa fase caracterizou-se por séria ameaça de nova contração econômica. Desde a criação do euro até a ameaça de crise sistêmica com a falência do Lehman Brothers. Já a terceira fase desenvolveu-se do início de 2010 a meados de 2012. reconhecida em diversas declarações dos princi- pais países da zona do euro. as origens dessa deterioração generalizada do controle fiscal estavam diretamente ligadas à crise financeira: custo fiscal das operações de resgate finan- ceiro. a partir do segundo semestre de 2009. Dessa forma. começaram. com os déficits públicos prosseguindo sua trajetória de ampliação. a discutir uma “es- tratégia de saída”. muito mais preocupada com os dese- quilíbrios fiscais do que com um crescimento econômico sustentável. a revelação da irrealidade dos dados oficiais sobre a dívida pública e a possibilidade de um default. o período de boom ou de bolha anterior havia ocultado muitas ma- zelas econômicas e encorajado o aumento do ritmo dos gastos públicos. e os EUA. nessa fase que as políticas macroeconômi- cas começaram a divergir entre a Europa. No episódio inicial referente à situação grega. longe de consti- tuir um consenso. Mas. diante da forte queda de receitas ocasionada pelo ainda baixo nível da atividade econômica. por um lado. igualmente. levaram abruptamente ao fim da complacência dos mercados. situação. às políticas macroeconômicas contracionistas na Europa e. à necessidade de as instituições financeiras e as famílias prosseguirem no processo de redução de suas dívidas.

No período anterior à crise. Surgiu o acrônimo pejorativo de PIIGS (Portugal. Esse movimento não ocorreu. Irlanda. Gráfico 1. começando pela Grécia. Rendimento dos bônus governamentais de 10 anos (% a. politicamente mais correto. Portugal. além das vendas a descoberto dos especuladores.a. No que concerne o segundo país a ser atingido. como mostra o Gráfico 1. Itália. Em cada um desses episódios. a Irlanda. Es- panha e Itália. posteriormente substituído por GIIPS. A origem desses custos está relacionada às mesmas razões que tinham transformado a Irlan- da num exemplo de sucesso: a opção pela inserção internacional baseada em forte a economia brasileira no contexto da crise global 23 . esses juros passaram a apresentar diferenciais cada vez mais elevados em relação aos pagos pela Alema- nha./2007 a dez. Subitamente. a deterioração da situação fiscal estava diretamente ligada à crise financeira: custo fiscal das opera- ções de resgate dos bancos. realimentando-a./2012 18 35 16 31 14 27 12 23 10 19 8 15 6 4 11 2 7 0 3 jul/07 jul/08 jul/09 jul/10 jul/11 jul/12 jun/07 jun/08 jun/09 jun/10 jun/11 jun/12 nov/07 nov/08 nov/09 nov/10 nov/11 nov/12 abr/07 abr/08 mar/07 out/07 mar/08 out/08 abr/09 mar/09 out/09 abr/10 abr/12 mar/10 out/10 abr/11 mar/11 out/11 mar/12 out/12 fev/07 fev/08 fev/09 fev/10 fev/11 fev/12 jan/07 set/07 jan/08 set/08 jan/09 set/09 jan/10 set/10 jan/11 set/11 jan/12 set/12 mai/07 mai/08 mai/09 mai/10 mai/11 mai/12 ago/07 ago/08 ago/09 ago/10 ago/11 ago/12 dez/07 dez/08 dez/09 dez/10 dez/11 dez/12 França Alemanha Italia Espanha Portugal Reino Unido Grécia (eixo da direita) Fonte: Bloomberg. seguida da Irlanda. de forma sincronizada para todos os países. a desconfiança dos investidores foi acompanhada por rebaixamentos da classificação de risco de crédito desses paí- ses. perdas de receitas causadas pela recessão e renúncias fiscais discricionárias adotadas para estimular a atividade econômica. contudo. atingindo países bastante diferenciados. os juros demandados pelos investidores para ad- quirir títulos da dívida pública dos países menos desenvolvidos da zona do euro tinham convergido para níveis pouco superiores aos dos títulos dos países mais desenvolvidos. Grécia e Espanha) para designar esse conjunto de países. consistindo em diversos episódios de elevadas vendas dos detentores desses títulos.) – jan.

4 -6. tais como as da Irlanda.3 -0. redução de impostos.3 0.0 -0. com base no diagnóstico de que a Europa padecia de um excesso de gastos públicos.0 0. que tiveram de aceitar drásticas medidas fiscais para poder ter acesso aos recursos do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira (European Financial Stability Facility. bem como fluxos de investimento estrangeiro de portfólio. Espanha. Ela se estendeu a outros países não visados pelos mercados.8 1. 24 a economia brasileira no contexto da crise global .1 0.1 1. Tal prioridade não ficou confinada aos países da zona do euro na linha de mira dos mercados.9 1. como a Inglaterra e a Hungria. tanto público como privado.4 0.4 -2.0 -3. por motivos diferenciados. existentes antes da crise. dando origem a bolhas imobiliárias. não aderiram à moeda única. Variação anual (%).5 -8. mas mascarados pelo alto volume de crédito que recebiam do norte europeu. como mostra o Gráfico 2. Gráfico 2. 2009).5 -6.7 0.1 -0.3 0.6 -1. financiados com crescente endividamento bancário externo.1 2.6 2.0 4.4 0.3 . EFSF). Com a livre movimentação de capitais instituída pelo Tratado de Maastricht.2 -4.0 2. Inglaterra. França. 6. marcado pelas dificuldades de financiamento público da Grécia.0 1. Holanda e Grécia (FREITAS.7 2. originários dos países membros superavitários que alimentaram espirais ascendentes de preços de ativos.1 -2. e a acentuada financeirização da economia. bem como a países que.1 4.0 -1.4 -6. Muitos desses já resvalaram para uma segunda recessão. as políticas macroeconômicas contracíclicas fo- ram abandonadas pelos países europeus.1 -2. Já no período inicial da terceira fase da crise.9 -3. como a Alemanha e a França.0 -1. descrito adiante. em 2009. Portugal. A crise provocou forte contração desses créditos6. Na sequência.0 -5.7 1. embora pertencentes à Comunidade Europeia.9 -3. Evolução do PIB dos países europeus: Alemanha.5 1.6 -2. Espanha e Itália entraram na mira dos investi- dores.4 -3. que levaram os ativos dos bancos irlandeses à marca de 913% do PIB.8 -4.7 1.1 -5. GIIPS. para atrair investimentos.4. que definiram como prioritária a volta ao equilíbrio fiscal. em relação ao ano anterior 6.0 Zona do Euro Reino Unido Alemanha França Itália Espanha Portugal Grécia 2008 2009 2010 2011 2012 Fonte: Bloomberg e OCDE. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.0 0.0 3. os países menos desenvolvidos da zona do euro tinham consideráveis déficits em transações correntes.4 -1.0 1.

2012). em outubro de 2012 – após décadas preconizando ajustes baseados na austeridade fiscal –. o Fundo Monetário Internacional passou a apontar. que se “An- gela Merkel e seus colegas estivessem junto com o resto da área do euro [. a situação grega foi enormemente agravada por reiteradas declarações públicas de Angela Merkel e Nicholas Sarkozy. e seus preços desabaram. nos momentos iniciais. Nesse período. os investidores passaram a vender enormes quantidades de títulos dos países mais endividados. em várias ocasiões. afirmou em 2012. ou seja. caso não fosse adotada uma restrição fiscal draconiana. Nicholas Sarkozy – numa aliança que recebeu o nome de “Merkozy”. filmado em câmara lenta. ao acarretar recessão econômica e queda das receitas. na situação presente.] e se comportassem como uma verdadeira união. logo adiante. Reconhecendo os efeitos perversos da contração fiscal num período de crise. e com menor custo. que. a economia brasileira no contexto da crise global 25 . tradicionalmente medidas como proporção do PIB. entretanto. procurar ganhar tempo e adiar a solução. Quando essa aliança deixou claro que não tinha intenção de socorrer os membros mais necessitados da União Econômica e Monetária Europeia... Carvalho (2012) aponta que. presidente da Goldman Sachs Asset Management. recusando- se a prestar-lhe socorro e considerando inclusive a possibilidade de um default. Essa mudança de abordagem do organismo internacional não foi suficiente. Pelo contrário. se o centro de decisões tivesse adotado medidas fortes ao invés de. que contava com o forte apoio do então presidente da França. que. Essa fase da crise na Europa tem sido descrita como um trem desgovernado. elevando o custo de rolagem de suas dívidas para patama- res insustentáveis. Essa perigosa trajetória poderia ter sido precocemente inter- rompida. 7. simplesmente. Tais medidas fortes implicavam a afirmação da solidariedade dos países da UME7. essa crise seria concluída [naquele] fim de semana” (apud PETTIS. ameaçar a própria so- brevivência do euro. as políticas de contração fiscal provocam quedas muito mais acentuadas que as previstas na atividade econômica e acabam deteriorando ainda mais a situ- ação das contas públicas. para provocar uma mudança nos rumos das políticas macroeconômicas na Europa. uma descida extremamente íngreme. que pode acelerá-lo. Dessa forma. o volume de recursos necessários ao resgate da dívida grega pareceu excessivo para o governo alemão de Angela Merkel. A ame- aça de uma nova crise bancária e de forte restrição do crédito constitui esse declive acentuado que pode provocar um descarrilamento. se aproximou do abismo e que tem. o multiplicador fiscal (indicador que mede o impacto da política fiscal na atividade econômica) é bem mais elevado do que as projeções anteriores. por meio do lançamento de títulos europeus (eurobonds) e de compras pelo Banco Central Euro- peu dos títulos públicos dos países atingidos pela desconfiança dos mercados. Jim O’Neill. à Reuters.

As falhas da concepção da moeda única europeia foram denunciadas. 26 a economia brasileira no contexto da crise global . 9. de há muito. A moeda entrou em circulação a partir de 1º de janeiro de 2002. A União Econômica e Monetária Europeia (UME) só passou a afirmar seu compromisso com uma resolução da crise quando a situação se agravou a ponto de a sobrevivência da moeda única ser posta em questão pelos mercados e por economistas. em um episó- dio semelhante aos suddenstops de fluxos de capitais que atingiram as economias emergentes na década de 1990. gradualmente. elas só pioraram as expectativas e suscitaram reações imediatas dos agentes de mercado. por exemplo. o EFSF. Ela foi uma experiência histórica extremamente ambi- ciosa. Mas elas foram amplamente ignoradas pelos agentes de mercado. o que impossibilitava a redução de seus endividamentos. mas também os desequilíbrios estruturais e as diferenças de grau de desenvolvimento entre esses países. Em maio de 2010. dados não só o número de países envolvidos no processo. vários meses após o início dessa fase da crise. ratificado em fevereiro de 19929. seja para bancos. nos 12 países da zona do euro. em função da queda do PIB e das receitas fiscais. numa clara demonstração da fragilidade da arquitetura da moeda única europeia. O EFSF passou a ser o emprestador de última instância da economia europeia. como o ex-presidente do Federal Reserve. transferência bancária ou débito direto. 2010). Paul Volcker (CLARK. que elevaram o euro à condição de segunda moeda reserva internacional. desti- nado a socorrer tanto a Grécia como outras economias europeias também con- sideradas frágeis. sobretudo em função do fato de sua introdução resultar num am- plo espaço financeiro integrado. o euro foi utilizado nos mercados financeiros e. A UME resulta da decisão de diversos países de utilizar uma mesma moeda. e de respeitar regras especificadas no Tratado de Maastricht. Contudo. levando a um forte aumento da percepção de riscos e a uma acentuada elevação das taxas de juros demandadas pelos investidores para financiar a Grécia. cartão de crédito. levando essas economias a uma nova recessão. Até 2002. pelos chamados eurocéticos8. com livre circulação de capitais e elevado PIB. Arestis e Sawyer (2001). seja para outros países. 8. Tais declarações públicas tinham por objetivo não desagradar aos eleitores que se posicionavam claramente contrários a novas despesas fiscais de socorro financeiro. Ver. o euro. a UME decidiu criar um fundo temporário de resgate de € 700 bilhões. Esses auxílios foram condicionados à adoção de medidas de fortíssima contração fiscal. com um volume de recursos previamente delimitado e con- siderado insuficiente caso fosse necessário socorrer a Espanha ou a Itália. como numerário para pagamen- tos: cheque.

9 -2. registrou-se forte agravamento das di- vergências macroeconômicas. déficits da conta financeira e de capitais. passaram a acumular.3 Estados Unidos -5.0 -1.5 -0.7 0. com déficits comerciais.0 -9. custos salariais.6 Portugal -10. o aumento do superávit da Alemanha sig- nificava déficit para os outros países.8 Total OCDE -1.2 -4. Antes da introdução do euro. já existiam no momento da criação do euro e acentuaram-se significativamente ao longo do tempo.1 -4.4 -8. As disparidades resultaram na acumulação de desequilíbrios que beneficia- ram (e continuam beneficiando) os países mais desenvolvidos do norte da Europa.5 6.7 -2. Entre 1998 e 2006.1 -12. Grécia e Itália. em detrimento dos países do sul. Saldos em conta corrente: seleção de países em % do PIB – 2007 a 2012 Países 2007 2008 2009 2010 2011 2012 França -1.2 0.1 -3. 20 anos após o Tratado.4 -14. longe de ocorrer a esperada convergência.7 Fonte: OCDE.5 6.7 -3. a maior parte dos países de sua periferia.9 -2.6 5. além de déficits em transações correntes (Tabela 1). Antes do agravamento da crise na zona do euro.6 -2.6 -3.8 -5. Tabela 1. Portugal. taxa de crescimento econômico.6 Alemanha 7. Na prática. A intenção ao se criar o euro era promover a convergência das economias da União Econômica e Monetária Europeia.3 -5. menos desenvolvidos. Numa união monetária e aduaneira.2 Irlanda -5.1 -2. a indústria alemã mais do que duplicou as suas exportações (que no início dos anos 1990 represen- taram 20% do seu PIB. enquanto os salários aumentaram no resto da região: 15% na França e entre 25% e 35% na Espanha.7 -11.7 5.3 0. Nota: Os valores para 2012 são estimativas. os custos trabalhistas na Alemanha caíram em termos reais.3 Itália -2. balança comercial.2 -0.1 -3. as divergências macroeconômicas eram contraba- lançadas pela taxa de câmbio: países mais competitivos tinham moedas mais fortes que os países menos competitivos.6 -0. além de estreitar as relações entre os países membros e intensificar o comércio intracomu- nitário. em particular a Alemanha.7 3.7 -4.0 Área do Euro 0. taxa de inflação.0 -10.0 0.2 -2.3 -1.2 -3. chegando a 46% em 2010).0 -0.3 5.4 -2. pela abolição das flutuações cambiais. a economia brasileira no contexto da crise global 27 . dentre outros aspectos.5 -0.6 -5.6 -7. Desde a introdução do euro.2 -9.5 -4.9 -2. em particular após 2008.6 -10. Caminhos opostos de produtividade.5 Espanha -10.0 Grécia -14.7 -0. produção industrial.6 5. dívida pública.5 -2.7 -7.

em um peso por dólar” (AGLIETTA.htm 11. sem que as sanções previstas fossem aplicadas. Ele é a única instituição verdadeiramente federativa – numa região monetária fiscal- mente não federada – criada em função da introdução da moeda única europeia. as funções do euro se assemelham muito ao papel do dólar para a Argentina entre 1991 e 2001. To- dos são designados. criado em 1º de junho de 1998. Nesse sentido. o euro é uma moeda estrangeira para todos os países da zona do euro. e priva-os de autonomia monetária. por maioria qualificada. Contudo. Ele impõe taxas de câmbio rígidas. O Conselho Executivo do BCE é composto de presidente. função exclusiva do Conselho do BCE11. constituído pelos chefes de Estado ou de governo dos países membros. independentemente da condição desses países e de suas realidades subjacentes. Sua missão consiste em manter a estabilidade 10. Esses tratados estão disponíveis em: http://europa. 198610). vice-presidente e quatro outros membros. pelo Conselho Europeu. O quadro institucional definido para o BCE pelo Tratado de Maastricht con- sagrou a estabilidade dos preços como objetivo primordial e único dessa institui- ção. incluem-se limites às dívidas e aos déficits públicos. Dentre as regras do Tratado de Maastricht e dos acordos que o antecederam (Tratado de Amsterdã. por exigência da Alemanha. 28 a economia brasileira no contexto da crise global . pela própria Constituição. além de perderem a capacidade de emitir moeda e executar a política cambial. esses ban- cos centrais mantiveram a supervisão e regulamentação de sua própria estrutura financeira nacional.eu/about-eu/basic-information/decision-making/tre- aties/index_pt. O BCE define a política monetária da União por meio do manejo de uma taxa básica de juros comum a todos os países da área do euro. os tetos permitidos para dívidas e déficits públicos passaram a ser desres- peitados desde 2001/2002. ocorreu afrouxamento das regras do Tratado”. os bancos centrais nacionais dos estados mem- bros que aderiram à moeda única perderam a atribuição de formular e executar a política monetária. e goza de personalidade jurídica e de total independência em relação às instituições nacionais e europeias. juntamente com o presidente da Comissão Europeia e do presidente do Conselho Europeu. quando a taxa de câmbio foi fixada. “Essencialmente. 1997. Enquanto essa última tem sido escrupulosamente seguida. 2012). Um dos pilares institucionais fundamentais da União Econômica e Monetária Europeia é o Banco Central Europeu (BCE). bem como a obrigação de respeitar a total liber- dade de circulação de capitais. com transferências fiscais entre os países membros em caso de necessidade. por conta da união monetária. Segundo Freitas (2009). e Ato Único Europeu. “ao invés de a União Monetária ser complementada pela união fiscal e a formulação de uma po- lítica econômica coordenada e comum. quando a Alemanha e a França os ultrapassaram. As- sim.

na tentativa de restaurar a economia. em 2011 (um ano após o primeiro resgate). Até o início da terceira fase da crise. a bancos americanos e japoneses. de se oferecer ao país mais tempo e dinheiro. tendem a reduzir a demanda interna. em um período de fraco crescimento. era considerado atraente. que. por isso. no primeiro semestre de 2012. condicionado não apenas à implementação de um novo pacote de austeridade (combinado com as exigências constantes de privatização e reformas estruturais delineadas no pri- meiro programa). nos bons tempos. se fosse necessário. O pânico desencadeou-se quando se deram conta de que essa expectativa estava longe de corresponder à atuação do BCE. O corte dos gastos públicos e o aumento dos impostos. junto a bancos europeus e. houve a necessidade. Ressalta-se que os credores públicos (essencialmente o BCE e o FMI. subordinando todas as suas demais atribuições a esse objetivo.dos preços. Em outubro de 2011. na posse de pequenos montantes) não foram atingidos por essa reestruturação da dívida grega. e. o BCE não é explicitamente designado como emprestador de úl- tima instância. A desvalorização dos títulos das dívidas desses países causou estragos imen- sos nos balanços dos bancos europeus que tinham acumulado elevadas posições em razão do diferencial de juros em relação à taxa básica. os governos dos países membros passaram a se endividar. implicando juros cada vez mais elevados e insusten- táveis. Em consequência. Estava em marcha o processo de contágio que se estendeu da Grécia à Irlanda e à Portugal e. após a introdução da moeda única e a con- sequente eliminação do risco cambial. contrariamente ao que ocorre em outros bancos centrais de países desenvolvidos. em euros. mas também à concordância de todos os credores privados do governo grego em assinar um acordo pelo qual aceitavam menores taxas de juros e uma perda de 53. além dos bancos centrais nacionais dos países da zona do euro. a economia brasileira no contexto da crise global 29 . assumiram imensas posições em ativos denominados em euro. os líderes da zona do euro concordaram em conceder um segundo empréstimo de € 130 bilhões à Grécia. levando a uma menor arrecadação e a um aumento de empréstimos problemáticos. passou a ameaçar a Espanha e a Itália.5% no valor de face dos títulos que detinham (o que represen- tava uma perda de aproximadamente 60%). os investidores acreditavam que estava implícito que a autoridade monetária da UME agiria como tal. em menor medida. com os investidores vendendo imensos volumes desses títulos ou só aceitando comprá-los a preços cada vez mais baixos. Devido a uma reces- são pior do que a antecipada e ao fato de a Grécia ter encontrado dificuldade para privatizar ativos públicos. Com efeito. O canal condutor desse contágio foi o mercado de títulos públicos.

em todos os sentidos possíveis. Outro risco decorrente do agravamento da crise europeia foram as repercus- sões do descontentamento popular em diversos países. na pequena ilha de Chipre. a partir de meados de 2012. Esse tema será analisado na segunda seção. temerosos de uma saída de seus países do euro. associada a empréstimos a custos relativamente elevados. Segundo o programa. em elevados volumes. para medir sua resiliência em caso de choque adverso. não havendo dúvida de que vários não teriam recursos para voltar. não 12. Ganhar tempo lhes permitiu capitalizarem-se para melhor lidar com a questão. eventualmente. Mas o aspecto mais importante foi o fato de ter-se tornado evidente que os governos nacionais da zona do euro estavam fragilizados. na Alemanha e na Suíça. em 2020. a desvalorização ou a possibilidade de default nos títulos públicos mantidos em carteira. em mãos de credores privados. existiu o risco concreto de uma crise pública transformar-se em nova crise privada. Há anos.5% do PIB. Nesse período. Os stress tests realizados pelo BCE nos principais bancos dos países membros da União Econômica e Monetária Europeia. políticos e investidores vinham se perguntando o que acontece- ria se um país de grande porte da zona do euro. depositantes dos países sob ataque começaram a transferir parte de seus recursos para bancos nos EUA. combinada com a consolidação do orçamento público e com uma significativa entrada de recursos no programa de privatização. a socorrer seus bancos. A reestruturação maciça de dívidas soberanas tem o imenso potencial de pro- vocar nova crise bancária. De acordo com o plano de resgate. que carrega- vam elevados volumes de títulos públicos de países da periferia da zona do euro. O caso grego mostrou que a prescrição europeia de política macroeconômica contracionista. Segundo os cálculos da UME. não incluíram. como ativos sem risco13 –. 13. todavia. e resultaria no pagamento de juros mais baixos nos anos seguintes. que estariam chegando a um ponto crítico. representava 58% da dívida pública total grega. Esse adiamento pôde ser instrumental para os grandes bancos europeus. 30 a economia brasileira no contexto da crise global . essa parcela da dívida. pelos reguladores. Os principais fatores foram a pre- sença. assim como o fato de que. como Espanha ou Itália. conse- guiu apenas adiar a solução do problema. seja por meio de manifestações populares nem sempre pacífi- cas. em particular alemães e franceses. seja por meio do voto. 120. em seus parâ- metros. essa reestruturação. o desconto do valor da dívida pública grega detida por credores privados12 reduziria o peso da dívida pública total em cerca de € 110 bilhões no principal. Tal risco só se concretizou. seria suficiente para produzir o declínio da dívida para um nível mais sustentável. de títulos soberanos dos países do GIIPS nos ativos dos grandes bancos europeus – inclusive porque esses títulos ainda são conside- rados.

Na Espanha. temeroso da imposição de medidas de ajuste fiscal ainda mais drásticas. no plano fiscal. As percepções sobre as perspectivas da zona do euro e sobre a moeda em si tornaram-se cada vez mais negativas. anunciou que o conselho de diretores do BCE decidira. A situação foi-se agravando ao longo do semestre. de forma unânime. considerados insustentáveis nos casos da Grécia. Procurando justificar essa nova abor- dagem do ponto de vista da ortodoxia econômica. “fazer tudo o que fosse necessário para preservar a zona do euro”. porque é uma moeda “irreversível”. queda nas taxas de juros dos títulos públicos espanhóis e italianos. o presidente do BCE também advertiu que era “inútil especular contra o euro”. A proposta do BCE. Em 26 de julho de 2012. levando tanto o BCE como o Fed a decidi- rem adotar novos e ousados programas de afrouxamento monetário. Mario Draghi. centrada na compra de títu- los públicos dos países sob suspeita dos mercados. já que os mecanismos de resgate europeus seriam absolutamente insuficientes para fazer frente a essa situação. pelas dificuldades financeiras das regiões – relativamente autônomas em relação ao governo central – e por uma crise bancária em função do estouro da bolha imobiliária (PLIHON. levantando ameaças concretas sobre a capacidade de refinanciamento das dívidas desses países. em menor medida. a situação foi agra- vada. No primeiro semestre de 2012. o presidente do BCE. essa temida ocorrência se fez presente. da Itália elevaram-se para níveis superiores a 7% ao ano. o governo espanhol. Todavia. 2011). que adotou medidas impopulares de redução de gastos e aumento dos impostos. As taxas de juros demanda- das pelos investidores para os títulos da Espanha e. Ao afirmar “acreditem em mim. vem resistindo a formalizar um pedido de resgate. foi rapidamente alcunhada pela imprensa especializada de “grande bazooka”. A duração relativamente prolongada de tais reações reforça a interpretação de que a emissão monetária para financiar as dívidas públicas e/ou para assegurar o reembolso dos títulos emitidos pelos devedores soberanos está na base da confiança dos investidores. Irlanda e Portugal (Gráfico 1). Mario Draghi declarou que “na medida em que o tamanho do spread soberano dificulta o funcionamento do canal de transmissão da política monetária. que vêm per- durando até o primeiro trimestre de 2013. ele se enquadra no nosso mandato”. piorando ainda mais a situação dos ban- cos. desencadeando forte alta nas bolsas de valores e. mais importante. As reações dos mercados financeiros às declarações de Draghi foram de ex- tremo alívio. temos meios suficientes para isso”. REY. Essa conjunção levou a uma acentuada fuga de capitais do país. a economia brasileira no contexto da crise global 31 .conseguisse tomar empréstimos em grandes quantidades.

por exemplo. a fim de estarem dispostas a contratar e a investir” (KESARIOS. o que vai prover a demanda que as empresas precisam. Somente após duas décadas de deflação. com a queda das taxas de juros de hipotecas jumbo. A va- lorização nominal em janeiro de 2013. em cidades como Los Angeles. a adoção. o que foi plenamente alcançado: os preços dos mais variados ativos su- biram. novo primeiro-ministro. visto não ter horizonte temporal definido para acabar – reforçou ainda mais o otimismo dos mercados financeiros. Dois meses depois. 2012). eleições gerais no Japão deram uma esmagadora vitó- ria ao Partido Liberal Democrático. em particular as bolsas de valores14. Em nome do mandato dual da autoridade monetária americana de perseguir o crescimento econômico e a estabilidade de preços. Essa descrição corresponde ao chamado canal de riqueza da transmissão da política monetária. A principal oposição a esse movimento do BCE veio do banco central alemão. por conta de despesas fiscais e emissão monetária muito mais intensas agora do que anteriormente. apontou o perigo de o “financiamento do BCE transformar-se num vício.5%. 2012). 2012)15. foi de mais de 10% no acumulado em 12 meses. Ademais. o refinanciamento das hipotecas e a redução das execuções. Declaradamente. Mas para que ele possa ter algum efeito. puxados pelas residências de alto valor. Shinzo Abe. San Francisco. cujo presidente. Os preços dos imóveis estão indo na mesma direção. Schaeuble sugeriu que a União Europeia poderia se tornar “irrelevante” se não conseguisse se unir (KOUKOULAS. levando os agentes a elevar seu consumo. Se as pessoas sentem que a sua situação financeira está melhor porque seus (ativos) se valorizam. elas estão mais dispostas a sair e gastar. do programa que tem sido chamado de quantitative easing 3 (QE3) – ou quantitative infinity. o que ainda está longe de ser o caso. Wolfgang Schaeuble. De acordo com a declaração de Ben Bernanke. em forte contraste com a deflação que vem se arrastando por vários anos. comparável às drogas” (REIERMANN. Jens Weidmann. de oposição. pelo Fed. ao anunciar o QE3: “uma das principais preocupações das empresas é que não há demanda suficiente. SEI- TH. declarou que o país adotaria meta de inflação de 2%. 15. O ministro das finanças alemão. SAUGA. Detroit e Phoenix. caso “o nível de desemprego não ceda significativamente” e a taxa de inflação mantenha-se abaixo de 2. também ata- cou o BCE. Em dezembro de 2012. porque se sentem mais ricos. afirmando que a “política monetária não pode resolver os problemas fiscais” e que “falsos incentivos” devem ser evitados na crise do euro. as compras mensais de US$ 40 bilhões de títulos lastreados em hipotecas e de US$ 45 bilhões de títu- los públicos de longo prazo se estenderão. 32 a economia brasileira no contexto da crise global . a combina- 14. é necessário que essa melhora nos preços seja percebida como um ganho permanente. Las Vegas. cuja campanha foi centrada na necessidade de acentuar fortemente o caráter anticíclico das políticas monetária e fiscal. Miami. o Fed tinha como objetivo inicial provocar a valorização dos ativos.

em poucos meses. em resposta às políticas monetárias de ampla injeção de liquidez nos mercados. A primeira reunião do Banco do Japão sob nova presidência. persistem dúvidas e incertezas que poderão levar abruptamente à sua interrupção.ção anticíclica das políticas monetária e fiscal foi adotada. mesmo que seu objetivo primordial seja promover a recuperação econômica. Contudo. a uma desvalorização de 12% da taxa de câmbio do iene e à alta nos preços das ações. os índices de ações subiram para níveis a economia brasileira no contexto da crise global 33 .4 trilhão. As três primeiras fases da crise estão claramente delineadas. Essa combinação tem sido apelidada de “abenomics” (contração de Abe. devido ao fato de que os investidores já consideravam a moeda japonesa muito apreciada. Na Europa. A situação econômica atual das economias avança- das e as ameaças que pairam sobre ela serão analisadas a seguir. É possível que a declaração de Mario Draghi. fazendo com que o período atual não seja uma nova fase da crise. A vitória da oposição levou. Entretanto. com uma meta total de US$ 1. sobrenome no novo primeiro- ministro. a recessão continuou a se aprofundar nas economias europeias. fruto da política macroeconômica contracionista. descritas seja como “guerra cambial”. mas. O otimismo nos mercados financeiros foi acompanhado de sinais relativamente consistentes de melhoria econômica nos EUA e na Ásia. Esse é um montante expressivo. mas apenas um intervalo na terceira fase de agravamento das condições macroeconômicas. Essa fase pode ser a de uma recuperação econômica mais consistente das eco- nomias avançadas. os preços dos ativos das economias avançadas tiveram expressiva valorização. em abril de 2013. promovendo desva- lorizações competitivas. é sem- pre mais difícil periodizar. em julho de 2012. seja como “efeito colateral” do excesso de liquidez. considerando que o Japão tem cerca de um terço do PIB americano. Entretanto. eventos mais recentes. em- bora mesmo sem ataques especulativos. forçoso é reconhecer que essa política monetária tem impacto na taxa de câmbio. definiu compras de ativos no valor de US$ 75 bilhões por mês. Nuvens no horizonte da retomada econômica A partir de meados de 2012. com precisão. e economics) e tem suscitado expectativas positivas tanto no próprio Japão quanto entre investidores internacionais. A reação dos mercados ao desvalorizar o iene japonês foi mais significativa do que as registradas em relação à taxa de câmbio das moedas dos demais países que adotaram o afrouxamento quantitativo. em particular das empresas exportadoras. tenha marcado o início da quarta fase da crise.

França.34 10 20 30 40 50 60 70 80 jan -07 julho de 2007 = 100 fev -07 mar -07 140 190 240 290 40 90 abr -07 mai -07 jun -07 jun -07 jul-07 jul-07 ago -07 ago-07 set -07 set-07 out -07 out -07 nov -07 nov-07 dez -07 dez-07 jan -08 jan -08 fev -08 fev -08 mar -08 mar -08 abr -08 abr -08 mai -08 mai -08 jun -08 jun -08 jul-08 jul-08 ago -08 ago-08 set -08 set-08 Alemanha out -08 out -08 nov-08 VIX nov -08 dez -08 dez-08 jan -09 jan -09 fev -09 fev -09 mar -09 mar -09 abr -09 abr -09 mai -09 mai -09 jun -09 jun -09 França jul-09 jul-09 ago -09 ago-09 set -09 set-09 out -09 out -09 nov -09 nov-09 dez -09 dez-09 jan -10 jan -10 fev -10 fev -10 mar -10 mar -10 Londres abr -10 abr -10 mai -10 mai -10 jun -10 jun -10 jul-10 Fonte: Bloomberg. alcançou. jul-10 ago-10 ago -10 set-10 set -10 out -10 out -10 jun. No Japão./2007 a mar. Ademais./2013 mar -12 abr -12 abr -12 mai -12 mai -12 jun -12 jun -12 jul-12 jul-12 ago-12 ago -12 set-12 set -12 out -12 out -12 nov-12 nov -12 dez-12 dez -12 jan -13 jan -13 fev -13 fev -13 Gráfico 3. Inglaterra. Índices de bolsas de valores: Alemanha. e caíram as taxas de juros dos títulos públicos . fev -12 mar -12 Gráfico 4. seu valor mais baixo desde meados de 2007 (Gráfico 4). VIX (Volatility Index) – jun. os índices Dow Jones e Standard & Poors alcançaram patamares recordes iguais aos verificados antes da crise. Nos (Gráfico 3)./2013 nov -10 nov-10 dez -10 dez-10 jan -11 jan -11 fev -11 Dow Jones média (1990 -2013 ) fev -11 mar -11 mar -11 abr -11 abr -11 mai -11 mai -11 jun -11 jun -11 jul-11 jul-11 ago-11 ago -11 set-11 set -11 out -11 out -11 nov-11 S&P 500 nov -11 dez-11 dez -11 jan -12 jan -12 fev -12 2013. a depreciação do iene tem elevado os preços das ações. observou-se uma acentuada redução da percepção de riscos. EUA. medida pelo índice VIX (Volatility Index). Dow Jones e S&P – que. Fonte: Bloomberg. no início de janeiro de a economia brasileira no contexto da crise global dos GIIPS./2007 a mar.

7 1.7 4. aumento do consumo e das vendas de bens duráveis.6 -4.6 -0.5 -4.0 -20.1 2. em processo de recuperação e com o terceiro grupo. composto essencialmente de países emergentes.7 -1. com um desemprego projetado em 27% para o final de 2013.1 Itália 1.9 Estados Unidos -1.4 Área do Euro 4. Os investimentos mostram essa repartição muito desigual nos países da OCDE (Tabela 2).0 Grécia 5.0 -0.1 -11.7 -25.5 -1.7 -15.7 Portugal 2.6 -2.6 -1.4 5.7 -13. que perderam acesso aos mercados financeiros e tiveram de aceitar um ajuste fiscal draconiano. ainda mer- gulhados na crise.3 Inglaterra 8. na Europa.2 Fonte: OCDE.7 1.4 -6.3 -3.2 -12.2 2.4 -28.9 0. Por outro lado. Irlanda e Portugal. continuam mergulhados em profunda recessão.8 -11.1 -9. boom na produção de gás e óleo de xisto) e na continuidade do crescimento da China e das economias emergentes.6 -6.2 6. do desemprego e melhora acentuada do setor imobiliário em preços.3 -5.1 -8. mas persistente.2 -0.8 -13.4 3.1 -1. Mas esses sinais estão cen- trados nos EUA (redução gradual.1 Espanha 4.1 -15. com o segundo grupo.3 -8. Além da evolução dos preços dos ativos. Formação bruta de capital fixo – variação % sobre o mesmo período do ano anterior – 2007 a 2012 Países 2007 2008 2009 2010 2011 2012 França 6. ou como a Espanha.4 2. os dados revelaram uma queda de Tabela 2. outros sinais macroeconômicos têm apontado na direção de uma retomada econômica.2 -4.6 Alemanha 5.2 -15.4 3.4 -10. formado por EUA e alguns países do norte europeu.8 Total OCDE 2.8 -1.0 3. a economia brasileira no contexto da crise global 35 .3 -12. inexistem indicações de que a economia da região possa voltar a crescer nos próximos anos.2 0.8 -2. Nota: Os valores para 2012 são estimativas. zona do euro e Japão.6 2. Esse cenário está em conformidade com o que o Fundo Monetário Internacio- nal (FMI) vem denominando de “crescimento a três velocidades”.0 -10.1 -10.2 2.4 -5.0 1. pesan- do sobre o desempenho dos outros membros da comunidade europeia. continuando a crescer.7 -16. volume de negócios e início de novas obras.4 Irlanda 2. A diferença no início de 2013 é que o segundo grupo parece estar ganhando em velocidade de recuperação. Em dezembro de 2012.1 -4. com o primeiro grupo.0 -11. Países como Grécia.

como naqueles que têm uma situação menos conturbada.0 jul/07 jul/08 jul/09 jul/10 jul/11 jul/12 out/07 nov/07 out/08 nov/08 out/09 nov/09 out/10 nov/10 out/11 nov/11 out/12 nov/12 f ev/07 set/07 f ev/08 set/08 f ev/09 set/09 f ev/10 set/10 f ev/11 set/11 f ev/12 set/12 jun/07 jun/08 jun/09 jun/10 jun/11 jun/12 jan/07 abr/07 jan/08 abr/08 jan/09 abr/09 jan/10 abr/10 jan/11 abr/11 jan/12 abr/12 ago/07 ago/08 ago/09 ago/10 ago/11 ago/12 mar/07 mai/07 mar/08 mai/08 mar/09 mai/09 mar/10 mai/10 mar/11 mai/11 mar/12 mai/12 dez/07 dez/08 dez/09 dez/10 dez/11 dez/12 Zona do Euro Alemanha Irlanda Grécia Espanha França Itália Portugal Reino Unido EUA Fonte: Eurostat/Bloomberg. que lançou mão de políticas não tradicionais denominadas de “afrouxamento quantitativo”. Só na Espanha esse número já ultrapassava os 5 milhões (Gráfico 5).4%. em contraste. Con- tudo. diante da dificuldade de aprovar novos pacotes fiscais no Congresso. aproximando-se dos 12% – ou seja.0 9. as convicções conservadoras volta- ram a se afirmar com força diante da decisão de se realizarem drásticos ajustes fiscais tanto nos países que enfrentam uma crise da dívida soberana (dificuldades para obter financiamentos nos mercados). sobretudo.0 19. os ajustes fiscais têm sido tão severos que resultaram em fortes quedas da atividade econômica e do nível de emprego. Essas trajetórias estão.0 7.0 23. vendas no varejo. relacionadas à importância e à prioridade dadas à redução do déficit das contas públicas. Nos EUA.0 15. a memória da experiência vivenciada nos anos 1930 favoreceu o diagnóstico segundo o qual continua prematuro o abandono de po- líticas anticíclicas.0 3. constitui um fator que. novamente.0 27. Na Europa. decorrente da divergência das políticas macroeconômicas. Em muitos desses países. Gráfico 5. manter e até mesmo reforçar essas políticas enquanto pairassem ameaças de deflação e de taxas elevadas de desemprego. essa tarefa ficou essencialmente restrita à autoridade monetária.0 11. Elaboração: Grupo de Economia Fundap. 20 milhões de pessoas estão desempregadas.0 21. 36 a economia brasileira no contexto da crise global .0 17. no segundo semestre de 2009. na Europa. A heterogeneidade das trajetórias econômicas. de 3. pode sustar a tênue recuperação da economia mundial e agravar seus desequilíbrios.0 25. então. em si. Taxa de desemprego – países selecionados (em %) 29. enquanto o desemprego na zona do euro bateu. Decidiu-se.0 13.0 5. recorde em janeiro de 2013.

entre os analistas. As eleições gerais na Itália. eventualmente. liderada pelo comediante Bepe Grillo. a cons- tituição de um novo governo. nos países submetidos a políticas macroeconômicas recessivas continuadas. Silvio Berlusconi. mas sua intensidade é. con- tribuindo. com ligeira maioria. o custo político e social é imenso. com alta dos juros dos títulos da sua dívida pública. mesmo após a vitória democrata nas eleições presidenciais em 2012. sentimentos de xenofobia se afirmam a ponto de poderem vir a ter maior expressão nas próximas eleições. em que se confrontam adversários e partidários da austeridade fiscal e. foram emblemáticas dessa situação. reflexo da situação econômica presente e constitui um fator condicionante dos rumos futuros da economia. e a terceira maior dívida pública do mundo. alcançou apenas 10% dos votos. que concentrou o voto de protesto. Esses resultados impediram. preferida dos líderes alemães. da permanência na zona do euro. continua aberto o confronto entre os partidos republicano e de- mocrata. é voz corrente. em meados de feve- reiro de 2013. As eleições tornaram-se momentos tensos. para a elevação do nível de incertezas. estão claramente ligadas às eleições gerais de setembro de 2013 na Alemanha. A chapa de Mario Monti. Em outros países. suscitando públicas pressões dos principais países da união monetária em prol de um “voto correto”. O empate nas eleições da Itália (terceira maior economia do euro. cada um. como a França. a intensidade de tais divergências é muito maior uma vez que. Ainda no plano político. até o final de março. Três partidos obtiveram. que tem se expressado nas ruas e nas urnas. atrás de Alemanha e França. le- vando à intensificação do descontentamento popular. em diversos casos. Longe de constituir um consenso. No contexto atual. Elas decorrem da percepção de que o eleitorado germânico não é favorável ao aumento dos auxílios alemães a outros países da união mone- tária. podem agravar seus desequilíbrios. Esse a economia brasileira no contexto da crise global 37 . o do ex- primeiro-ministro. Divergências políticas são normais em países democráticos. no “pós-crise”. Essas divergências vêm condicionando a evolução da economia mundial e. Já nos EUA. que as duras exigên- cias do governo alemão e as ameaças públicas de quebra de países da zona do euro. atrás apenas dos EUA e do Japão) aumentou a incerteza e provocou fortes reações dos mercados financeiros. Esses fatores são tanto de ordem político-ideológica como de ordem econômica. o ressurgimento das ideias conservadoras nas economias avançadas acentuou as divergências em suas políticas macroeco- nômicas. por meio de diversos fatores. e uma nova aglomeração política chamada “Cinco Estrelas”. cerca de 25% dos votos: o de centro-esquerda. se não as aceitarem. em grande parte.

cortes de US$ 1. A questão fiscal continua em evidência. Às incertezas políticas somam-se incertezas de ordem jurídica. conseguiram aprovar. com isso. previstos. previstas no acor- do de resgate firmado com a troika. o 38 a economia brasileira no contexto da crise global . o governo democrata e a maioria republicana na Câmara dos Representantes chegaram a um acordo mínimo para enfrentar o chamado “abismo fiscal” (fiscal cliff). a política macroe- conômica dos EUA diferencia-se da europeia. devido à discussão sobre o orçamento de 2014 (referente ao ano fiscal que vai de outubro de 2013 a setembro de 2014). a política monetária ficou ainda mais isolada em sua função anticíclica. com o partido republicano exi- gindo cortes.2 trilhão em dez anos (denominados “sequestro”) foram implantados em março. que tem se encarregado das negociações dos auxílios aos países em dificuldades da zona do euro. Banco Central Europeu (BCE) e União Econô- mica e Monetária Europeia (UME). Apesar disso. como demons- tra o recente caso de Portugal. para obter a permissão do Congresso para elevar a dívida pública americana. Mas. deve tornar-se mais rigorosa em 2013. Diante da falta de acordo. se limitado a promessas. em 2011. mesmo nos EUA. esse acordo deve retirar da economia um valor estimado em US$ 646 bilhões. um projeto de lei que acabou com a ameaça de paralisação dos gastos do governo. no final de 2012. tanto em função de sua contração fiscal ser menos exacerbada que no velho continente. finalmente. Os legisladores. no valor de € 1. com os agentes adiando decisões de investimentos e de contratação de pessoal. nome dado ao colegiado que reúne Fundo Monetário Internacional (FMI). Entre aumentos de impostos e cortes de gastos. confronto tem resultado em ajustes fiscais.3 bilhão. boa parte dos cortes de gastos. que já era contracionista desde 2012. como pela atuação muito mais decidida e ampla do Fed. Com efeito. Em decorrência. o que limita seu impacto. dias antes do recesso da Páscoa. resultante do acordo feito. enquanto o BCE tem. A questão voltou à baila em fevereiro de 2013. Essa acentu- ada polarização política tem resultado em uma legislatura disfuncional que pode representar novos empecilhos à recuperação econômica. até o momento. por dois meses. em particular nos benefícios sociais (entitlements). O Supremo Tribunal do país considerou inconsti- tucionais medidas de contração fiscal. mas apenas adiou. Em função dessa decisão. junto com as negociações para aprovar novo aumento do teto da dívida pública. com impactos negativos no crescimento econômico. Esse acordo aumentou as alíquotas de imposto para as famílias com renda anual superior a US$ 450 mil. que até o momento são menos intensos do que na Europa. que se tornaria parcialmente efetiva a partir de 27 de março de 2013. a política fiscal americana. como será detalhado adiante.

ainda não foi posto à prova. o socorro da troika terminaria em julho de 2014. ou transações monetárias diretas). Lançado em outubro de 2012. quando as condições econômicas estiverem reunidas para encerrar a política monetária de afrouxamento quantitativo. Outros fatores de ordem econômica também vêm contribuindo para elevar as dúvidas sobre a situação das economias avançadas. ainda não está claramente delineada e vem provocando viva polêmica. destaca-se o fato de que o plano Dra- ghi. Ademais. Uma disposição a esse tipo de atuação – se for crível – pode acabar significando uma menor necessidade de dinheiro novo. re- tirando a mesma quantidade de moeda emitida para essas compras de títulos “de 16. Em primeiro lugar. descartada. devido aos temores do mercado de enfrentá-la. Nos EUA. ao contrário de intervenções limitadas que costumam ser testadas ao longo de certo tempo. a economia brasileira no contexto da crise global 39 . Sem essa extensão. Na Europa. mas tal solução foi. após o voto favorável da corte constitucional alemã. Mario Draghi detalhou as medidas que acabaram sendo oficialmente ado- tadas – com um voto contrário. essencialmente destinado ao resgate de bancos. ESM). O BCE é a única instituição europeia em que as decisões não precisam ser tomadas por unanimidade. Essa estratégia pode ser comparada à acu- mulação de um arsenal nuclear com a finalidade de dissuadir. que permitiu que as condições monetárias se estabilizassem. compreende a compra de títulos de até três anos dos países que pedirem resgate e aceitarem as condições impostas para lidar com distorções do mercado de títulos e temores “in- fundados” de investidores sobre a sobrevivência do euro. e não com a de desencadear uma ação de extermínio. Chegou-se a estudar a possibili- dade de conceder a esse fundo uma licença bancária que permitiria alavancar seus recursos. a “estratégia de saída” do Fed. O reembolso dos títulos que forem adquiridos pelo BCE não terá prioridade (senioridade). o presidente do BCE anunciou que as compras de títulos serão teo- ricamente ilimitadas. equiparando-os aos que estão nas carteiras privadas. por enquanto. Com efeito. o mecanismo permanente de resgate euro- peu (European Stability Mechanism. que receberam o nome de Outright Monetary Transactions (OMT. incertezas se concentram na atuação dos bancos centrais. após a reunião do comitê diretor do BCE16.primeiro-ministro Pedro Passos Coelho foi obrigado a encontrar novos cortes de gastos para apaziguar os credores e obter a extensão dos prazos de vencimento dos empréstimos anteriormente concedidos. em 6 de setembro de 2012. O programa. presumidamente da Alemanha –. desenhado para ser executado no mercado secundário. Entretanto. também deverá participar dessas compras. existe uma contradição entre esse aspecto do programa e o anúncio de que as compras serão “esterilizadas”.

Na prá- tica. no limite. vigente antes da ruptura dos acordos de Bretton Woods. o tumultuoso resgate de Chipre e os resultados das eleições na Itália levantaram dúvidas quanto à real disposição. a segunda. Assim. de forma a não emitir mais dinheiro novo. para mantê-los funcionando. num momento em que os investidores privados não tinham certeza sobre a sua solvência. os mercados continuariam a comprar esses títulos e tornariam. as compras no mercado secundário de títulos de curto prazo de países da zona do euro estão sujeitas à condicionalidade prévia da realização de um acordo e de tomada de empréstimos do FMI e da comunidade europeia. Com recursos emprestados pelo Banco Central Europeu (BCE). com taxas de juros de 1% ao ano por um prazo de até três anos. dado pelo atual balanço do BCE. A república cipriota localiza-se numa pequena ilha mediterrânea dividida em duas partes: uma de população majoritariamente de origem grega e outra turca. Em dezembro de 2011. Em decorrência de seu anúncio. A primeira rodada foi realizada em 21 de dezembro de 2011. Para alguns analistas. no primeiro semestre de 2013. adquiriram esses títulos. outro lugar no sistema financeiro europeu”. Mas. mediante empréstimos bancários ou da compra de seus títulos pelos bancos nacionais. desnecessários tanto a intervenção do BCE quanto os pedidos de resgate. A crise de Chipre: cenas do próximo capítulo O caso de Chipre é emblemático das estreitas e. a esterilização é principalmente destinada a aplacar as críticas feitas pelo banco central alemão. mesmo. com o objetivo de unir a ilha à Grécia. aceitos como garantia pela autoridade mone- tária. vários países em dificuldades ressuscitaram o mecanismo de financiamento de suas dívidas. Persistindo tal reação. em 28 de fevereiro de 2012. após uma tentativa de golpe de Estado pelos cipriotas gregos nacionalistas e elementos da junta militar grega. com empréstimos de € 529 bilhões a 800 bancos. ou. tortuosas ligações entre política e economia. 40 a economia brasileira no contexto da crise global . por vezes. inclusive os que estão com balanços fragilizados. A divisão ocorreu em 1974.9 trilhões). a autoridade monetária europeia lançou mão das chamadas “operações de refinancia- mento de longo prazo” (Long-term Refinancing Operations. à possibilidade de o BCE fazer “tudo o que fosse necessário” para salvar o euro. isso significa que o BCE deverá reduzir os empréstimos aos bancos feitos no Long-term Refinancing Operations (LTRO)17. os ativos no balanço do BCE registraram significativo aumento – atingindo € 3 trilhões – e ultrapassaram os do balanço do Fed (US$ 2. Os Estados dos GIIPS passaram a depender dos empréstimos bancários. LTRO). por meio das quais emprestou dinheiro aos bancos. Donde a constatação de que existe um limite implícito para essas compras. só haverá liquidez ilimitada se os países se submeterem previamente aos mandos do FMI e da comissão europeia. Por meio deles. os bancos. Com essas operações. o que impeliu a Turquia a invadir a 17. Ou seja. até o final de 2012 os juros dos GIIPS – em particular da Espanha e da Itália – tinham caído de forma consistente. quando 523 bancos tomaram € 489 bilhões.

em 2009. bem antes de sua adesão ao euro. acordos bilaterais contra a bitri- butação e forte segredo bancário. a Europa Central e a Orien- tal. de um lado. Esses quatro países têm um importante traço em comum: optaram por uma tributação muito baixa para ativos financei- Gráfico 6. os da Irlanda. Por imensa que seja essa cifra. o que resultou na divisão da ilha. Nos anos que se seguiram à perestroika. A Grécia reagiu. intitulada República Turca de Chipre do Norte. garantindo a soberania do Chipre e reforçan- do sua aliança com a ilha. Tamanho relativo do setor bancário em 2009: ativos bancários em % do PIB 2500 2000 1500 1000 500 0 Bélgica Suécia França Espanha Áustria Grécia Chipre Luxemburgo Grã-Bretanha Portugal Holanda Irlanda Alemanha Itália Dinamarca Média EU Malta Média Zona do Euro Fonte: BCE e OCDE. Muitas grandes empresas estabeleceram sua sede na ilha para conduzir seus negócios internacionais. Mas após o cessar-fogo. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Chipre ganhou grande popularidade como uma ponte de negócios e investimentos entre.2% do PIB dos países que aderiram ao euro. a economia brasileira no contexto da crise global 41 . ela não é a mais elevada da zona do euro. forças turcas permaneceram no país. A economia cipriota é classificada pelo Banco Mundial como de alta renda. A área controlada pelos turcos. Os ativos do setor bancário de Chipre eram. enquanto os da ilha de Malta são bastante próximos aos de Chipre. a Rússia. Chipre aderiu à União Europeia em 2004 e à zona do euro em janeiro de 2008. a Europa ocidental e. mas o país tem um peso muito pequeno na UME: representa apenas 0. de outro. os ativos do setor bancário de Luxemburgo equivalem a mais de 20 vezes seu PIB. Há mais de três décadas. além do turismo. a 913%. a estrutura econômica do país era baseada. em suas atividades de paraíso fiscal: baixos impostos. cobre 36% da ilha e só é reconhecida pela Turquia.parte norte da ilha. Como mostra o Gráfico 6. equivalentes a 869% do PIB.

em junho de 2012. Mas a dívida pública cipriota.. sua situação como uma das mais impor- tantes praças financeiras do mundo foi reforçada. na sigla em inglês) num montante total de € 100 bilhões. o ministro das Finanças de Chipre. em 2011. a extensão do impacto do contágio da crise grega levou Chipre a solicitar. mas que. Vassos Shiarly. quando a situação dos bancos ainda não estava amplamente deteriorada (WHAT HAPPENED. a reestruturação de sua dívida desferiram um profundo golpe nos balanços desses bancos. quinta colocada no ranking. 2013). a partir de 1986. É por essa razão que. os bancos espanhóis comprometeram-se a embarcar em um rigo- roso programa de austeridade. Tendo aderido ao euro em 2008. Orphanides afirma que. mas admitiu que houvesse “alguma repercussão negativa”. 42 a economia brasileira no contexto da crise global . Nova Galicia. um “teste de estresse” aplicado pelo BCE aos bancos da UE tenha aprovado os bancos cipriotas.. Após obter um empréstimo de € 2. Em dezembro de 2012. embora sua exposição à Grécia já fosse amplamente conhecida por todos. Diversos bancos cipriotas investiram parte substancial desses recursos em títu- los gregos ou no financiamento de empresas gregas. declarou que o pedido de resgate deveria ter sido feito no primeiro semestre de 2011. por exemplo.5 bilhões da Rússia. assinalou ao governo que tal pedido era necessário. em junho de 2011. pelo big bang. no mesmo período. ros. resgate à União Econômica e Monetária Europeia. incluindo reduções no número de funcionários. o que. tornava isso claramente impossível..5 bilhões) foi desembolsada para quatro bancos espanhóis (Bankia. enquanto presidente do BCC. Ao solicitar o resgate. isenção total para não residentes. Causa espanto o fato que. caracterizado por uma desregulamentação bem mais acentuada do que a aplicada em Nova York. fragilizados pelo estouro da bolha imobiliária. os fundos para resgatar os bancos deveriam provir dos recursos fiscais. a decisão foi postergada. O pressuposto na base dessa solicitação de resgate era de que a situação ci- priota seria resolvida nos mesmos moldes daquela dos bancos espanhóis18 que. O aprofundamento da crise da Grécia e. incluindo até. Segundo ele. a primeira parcela desse empréstimo (€ 39. já representava 71% do PIB. rejeitou a possibilidade de que o país fosse forçado a sofrer as medidas de austeridade radicais como as da Grécia. 18. Catalunya Caixa e Banco de Valencia). em outubro de 2011. Quanto à Inglaterra. Athanasios Orphanides. tinham recebido um empréstimo do mecanismo europeu de estabilidade (ESM. em entrevista à revista The Economist. Em contrapartida. presidente do Banco Central de Chipre (BCC) de 2007 a 2012. dado o tamanho do setor bancário cipriota. os ajustes macroeconômicos então necessários não teriam sido de grande monta. por razões políticas. em alguns casos.

chegando a ser comparado à falência do Lehman Brothers em 2008. esses depósitos contam com proteção do Estado. já que. como o que o substituiu. aplicados a Grécia. a economia brasileira no contexto da crise global 43 . A diferença entre os dois planos está no perfil dos correntistas atingidos. Com efeito. o risco do plano a ser discutido e aprovado era o de provocar uma corrida bancária. Chipre decretou feriado bancário. onde ocorreram fortes pressões políticas. a rejeição foi tão geral que oficiais da UME passaram. as negociações do pedido de resgate foram as mais prolon- gadas de todas. No resgate cipriota. Além de acirrados protestos. Irlanda. extremamente tumultuado. 19. De um lado. não fossem as implicações dos desastrosos planos orquestrados e impostos pela troika. típica de paraíso fiscal. No caso de Chipre.9% dos de- pósitos bancários com saldo superior a € 100 mil e de 6. a cláusula do plano referente aos depósitos abaixo de € 100 mil foi objeto de dúvidas legais. foi manchete da imprensa mundial. temendo que o país não pudesse reembolsar essa soma e que os níveis da dívida pública explodissem. porque a troika (FMI. como fator de ameaça sistêmica. BCE e UME) não estava dis- posta a conceder € 17. A demora levou a uma acentuada deterioração da situação dos bancos ciprio- tas. equivalente ao PIB cipriota. Esse plano foi rejeitado pelo Congresso cipriota. Nenhum resgate anterior tinha envolvido diretamente os depositantes do sistema bancário. para condicionar a ajuda à concordância do governo cipriota em reformular a legislação fiscal. para receber ajuda financeira de € 10 bilhões. Essa rejeição sensibilizou a opinião pública. apresentado pela troika. Tanto o plano inicial. Antes da reunião de 16 de março de 2013 para a discussão do plano. num valor total de € 6. além disso. Em verdade. um por um. a condição básica em ambos os planos foi o recolhimento pelo Estado de “contribuições” dos depositantes em bancos cipriotas. O processo.8 bilhões (mais de um terço do PIB). Mas ou- tro obstáculo adveio da Alemanha.5 bilhões. O segundo plano. E. mas também uma parte das figuras de destaque no mundo político e econômico europeu. na UME. Uma repercussão dessa magnitude para o resgate de um país tão pequeno pareceria desproporcional. oito meses após o pedido ini- cial. a negar que tivessem participado em sua elaboração. em 19 de março de 201319. em meio ao processo eleitoral. Dois dias depois. em 25 de março. Portugal e Espanha. o BCE ameaçava retirar seu apoio aos bancos cipriotas se novo plano não fosse aprovado até o início da semana seguinte. apresentavam traços que os diferenciavam radicalmente dos anteriores.75% dos depósitos com saldos inferiores a essa soma. O acordo só foi concluído em março de 2013. O primeiro plano aprovado pela troika compreendia uma retirada de 9. porque estavam previstas eleições gerais no início de 2013.

Em contrapartida. a diferença deverá ser coberta pelos cipriotas e depositantes estrangeiros.5 bilhões deverá ser coberto por novos aumentos de impostos (€ 600 milhões). com outra parcela preferindo votar na Espanha. o governo cipriota anunciou que a conta das necessidades financeiras havia passado dos € 17. no dia seguinte ao da aprovação do plano. isentou de contribuição os de- pósitos inferiores a € 100 mil. o Congresso aprovou medidas de controle dos movimentos de capitais. os ban- cos ainda permaneceram fechados por mais algum tempo. ma- joritariamente. de que o resgate de Chipre serviria como um modelo para outros países. levaram a Comissão Europeia a afirmar que “o caso de Chipre é único por diversas razões” e o próprio Dijsselbloem chegou a emitir um comu- nicado dizendo que “não há modelos para lidar com a crise europeia”. Durante esse período. as- sim. inéditas na União Europeia. A declaração de Jeroen Dijsselbloem. apontado a Eslovênia como sendo o próximo país a ser atingido. Os credores internacionais se comprometeram a emprestar € 10 bilhões (€ 9 bilhões da União Europeia e € 1 bilhão do Fundo Monetário Internacional). compli- cando muito mais a situação de seus bancos. privatizações (€ 1. no montante necessário para cobrir os € 6. visavam a impedir que os haveres bancá- rios fossem sacados em massa e/ou transferidos para outras jurisdições. Mesmo após o plano de resgate ser aprovado pelo Congresso cipriota. O rombo de € 5. não se verificou uma fuga em massa dos bancos cipriotas. Tal rombo pode ser considerado uma medida aproximada da deterioração da situação dos bancos cipriotas no decorrer do processo de negociação. foi recebida com explícitos receios.4 bilhão). O restante ficará a cargo dos depósitos não garantidos dos bancos. Os primeiros cálculos indicavam que o confisco poderia chegar a 60% do mon- tante depositado. como dito acima. Mas continuam persistindo os riscos de que o precedente aberto com o resgate de Chipre leve o próximo país a ser atingido pela crise do euro a sofrer saques preventivos. As reações dos mercados financeiros. cuja aplicação por Chipre foi exigida pela troika. em 11 de abril de 2013.5 bilhões – considerados no resgate decidido no mês anterior – para € 23 bilhões.8 bilhões de “contribuição nacional”. foi o mais prolongado de todos os resgates anteriores. Segundo 44 a economia brasileira no contexto da crise global . o risco de ter confiscado o total de seus haveres monetários. Assim. A imprensa especializada tem. ministro holandês das Finanças e presi- dente do Eurogrupo. Graças a elas. incluiu a liquidação do segundo banco cipriota e um confisco em todos os depósitos bancários acima dessa soma. Essas medidas. que. No entanto. com as fortes quedas dos preços das ações de bancos. venda do ouro em estoque no banco central (€ 400 milhões). Seus titulares correm.

“se possível”. ele parecia estar lendo um manual sobre risco moral (moral hazard). Esse mesmo argumento foi invocado pelas autoridades americanas para explicar por que tinham deixado o Lehman Brothers falir! Mas esses desmentidos têm tido pouca credibilidade. acreditam alguns.  As declarações do presidente do BCE reforçam ainda mais essa preocupação. que pressionaram para se obter tal resultado. Para o FMI e Alemanha. Jens Weidmann. leva os agentes financeiros a adotar comporta- mentos imprudentes. que inclui pressões sobre paraísos fiscais para que flexibi- lizem o segredo bancário – em função da percepção de que. Wolfgang Schaeuble. disse Weidmann. que. Mario Draghi declarou na entrevista coletiva após a reunião do Co- mitê de Política Monetária que “não se deve permitir que os bancos ultrapassem o tamanho da economia em que residem. a Comissão Europeia está preparando orientações para resolver problemas bancários que incluem potenciais prejuízos financeiros para diferentes tipos de investidores. até 2018. a justificativa foi a necessidade de evitar o risco moral”. os investidores em ações seriam os primeiros a enfrentar perdas. O ministro das Finanças alemão. por duas principais ra- zões. A primeira está relacionada ao projeto de união bancária na UME. Segundo o presidente do Banco Central da Ale- manha (Bundesbank). serão socorridos pelo Estado. enquanto os depositantes com recursos de até € 100 mil seriam preservados. A segunda razão está ligada ao combate à evasão fiscal na Europa.Pisany-Ferry (2013). os governos devem conduzir o país e o sistema bancário de forma mais conserva- dora”. as exigências da troika tiveram muito a ver com o fato de a ilha ser percebida como a economia brasileira no contexto da crise global 45 . se der errado. no caso cipriota. após o fracasso de Chipre. também contribuiu para o clima de insegurança ao perguntar-se. se um modelo de cresci- mento demasiadamente dependente dos bancos ainda pode ser visto como viável. O autor acrescenta que “Chipre caminha para uma redução abrupta de seu sis- tema bancário. na certeza que. Declarações dessa ordem são interpretadas como resul- tantes da mesma concepção do plano de ajuda a Chipre que impôs a redução. reavivado por diversos escândalos. mas que os bancos possam ser liquidados de acordo com o princípio causador. a média da área do euro. de seu setor bancário a 3. apoiada pelos países membros e apresentada como sendo uma possível tábua de salva- ção do euro.5 vezes o PIB. sem se tornarem um perigo para o sistema financeiro”. “O objetivo é que não tenhamos de resgatar bancos com o dinheiro dos contribuintes. Com efeito. Os contornos desse projeto têm muitos pontos semelhantes aos do resgate da economia cipriota. em voz alta. Ali onde os bancos são grandes demais. resultando em perda de uma parte muito grande da sua riqueza financeira.

que consistiam em irrigar a economia com moeda para expandir o crédito ao investimento e ao consumo. uma vez que. esse canal pode vir a ser interrompido em função do impacto de expectativas não condizentes com a rea- lidade. As razões que levam o crédito a se manter baixo estão relacionadas tanto à demanda de crédito (cautela das famílias. embora a situação de suas contas públicas seja extremamente tranquila. É forçoso reconhecer que os objetivos traçados na teoria econômica para esse tipo de política (ver. anunciou. com períodos de otimismo seguidos por outros de pessimismo em função de novas expectativas e do surgimento de novas informações. reduzir as taxas de juros de longo prazo. em suas contas reserva. afirmando que “essa decisão não tem nada a ver com a pressão da União Europeia ou dos Estados Unidos”. de outro lado. de um lado. não se concretizaram. Os bancos. Jean-Claude Juncker. em seu discurso anual sobre o estado da nação. Considerações finais As incertezas apontadas exprimem-se na evolução dos preços dos ativos. 1971 e 2008). por precaução. e das empresas. para ser depositado em contas bancárias privadas. Como dito acima. Malta e Aústria – estão em posição defensiva. Resta o canal de transmissão dessa política monetária por meio da valo- rização dos ativos (canal de riqueza). está longe de garantir que essa moeda adentre o circuito financeiro e volte a irrigar os canais de crédito. FRIEDMAN. o otimismo. o que levaria a nova queda dos preços dos ativos. por exemplo. contentaram-se em manter os recursos. receosas de assumir dívidas) como 46 a economia brasileira no contexto da crise global . o primeiro-ministro de Luxemburgo. tal. principais detentores dos títulos adquiridos pelas autoridades monetárias. assim obtidos. Em outras palavras. em virtude da aversão aos riscos. Só existem dois aspectos em que essas políticas monetárias obtêm consenso: seu impacto em. no atual contexto econômico. preocupadas em reduzir seu endividamento. no dia 9 de abril de 2013. Países da zona do euro cujos sistemas bancários apresentam traços semelhan- tes aos de Chipre – Luxemburgo. Assim. que o país iria introduzir a troca de informações bancárias até 1º de janeiro de 2015. Mas mesmo esse último é tratado com certo ceticismo. a cria- ção de dinheiro novo pelo banco central. Assim. Mas tanto um como o outro podem ser excessivos. juros longos mais baixos não resultam em maiores investimentos. só dará origem a uma tendência mais prolongada na hipótese em que as expectativas de recuperação econômica se confirmem. provocar a elevação de preços dos ativos e. que predominou ao longo do primeiro trimestre de 2013.

a economia brasileira no contexto da crise global 47 . Se for bem-sucedida. e o reembolso dessa dívida pode. 2012). foram necessárias quase duas décadas de deflação para que esse tipo de combinação de políticas fosse adotado. a agenda abrangente adotada por ele pode levar o Japão a se tornar um dos poucos raios de luz no sombrio cenário das economias avançadas”. diante do tamanho das dívidas públicas. impede sua implementação. posta em prática desde 2009 nos EUA e na Inglaterra.. Uma dívida pública financiada por recursos domésticos é muito mais estável que as financiadas por recursos externos e. Michel.à postura dos bancos. No caso do Japão. Se bem execu- tada. London. a atuação isolada dessa política mo- netária. Uma atuação conjunta das políticas fiscal e monetária seria necessária. foi decidida apesar de a dívida pública japonesa ser superior a 240% do PIB. ser efetuada por emissão monetária do banco central. Nesse caso. no limite. 15-36. Essa combinação. A visão ortodoxa. New Left Review. mas mostrou-se impotente para promover uma recuperação econômica sustentada. evitou uma de- pressão. Diante da profundidade da crise atual. e com cautelosos elogios. A nova combinação de políticas macroeconômicas do Japão foi recebida com entusiasmo pelos mercados financeiros (alta de 28% do índice Nikkei e depre- ciação de 15% do iene nos três primeiros meses de 2013) e por economistas não ortodoxos. que tem predominado na Europa e no partido republicano nos EUA.. fiscal e estrutural. The European vortex.. 2012. as denominadas em divisas. sobretudo. resta ver quanto tempo será ainda necessário para que as economias hoje mergulhadas em tensões. devido aos severos danos causados pela crise em seus balanços (ROXBURGH et al. May/June. 75. desequilíbrios e riscos ado- tem um modelo semelhante. Os resultados dessa combinação de políticas serão acompanhados de perto nos próximos anos. amplamente financiada por recursos internos20. por outros países da OCDE. que levou à eleição do novo primeiro-ministro em final de 2012. n. inexiste a questão da taxa de câmbio. em busca de desalavancagem. Referências AGLIETTA. p. 20. Stiglitz (2013) escreve que “Abe está fazendo o que muitos economistas (inclusive eu) têm cla- mado para as políticas macroeconômicas na Europa e nos EUA: um programa abrangente que implica políticas monetária. esti- mado como sendo excessivo.

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CAPÍTULO 2 Balanço doRegime de Política Macroeconômica no Primeiro Biênio do Governo Dilma Daniela Magalhães Prates Rafael Fagundes Cagnin Maria Cristina Penido de Freitas Luis Fernando Novais Introdução1 Ao longo dos seus dois primeiros anos de mandato (2011 e 2012).1% do PIB em dezembro de 2010 para 35.a. de 2. monetá- rios e creditícios. introduzidos a partir do segundo semestre de 2011.5% a. Geraldo Biasoto Jr. isentando-os de eventuais erros e omissões. a economia brasileira no contexto da crise global 51 .6% em dezembro de 2012). em razão da queda sistemática da meta da taxa básica de juros a partir de agosto de 2011 (de 12.1% do PIB em dezembro de 2012). resultados negativos também foram verificados.55% em dezembro de 2010 para 2. e os sucessivos estímulos fiscais. a diminuição do déficit fiscal nominal (no acumulado do ano.4% em maio de 2011 para 4.a. Os autores agradecem os comentários de Júlio S. não obstante a nova combinação de preços-chave (juros e câmbio). especialmente. que comprometeu.47% em dezembro de 2012) e da dívida líquida do setor público (de 40. em outubro de 2012). em julho de 2011 para 7. mais favorável ao crescimento. (Uni- camp) e Carlos E. o desem- penho da indústria.87/US$ em dezembro de 2011 e R$ 2. quando 1. G.25% a. a desvalorização do real (R$ 1. Gomes de Almeida (Unicamp). Cavalcanti (Fundap/SP). o governo da presidente Dilma Roussef obteve resultados econômicos positivos. Em compensação. tal como a forte desaceleração do cresci- mento (em relação ao patamar alcançado em 2010). Na sequência de uma vigorosa expansão em 2010. condicionada pela evolução adversa da economia internacional.04/US$ em dezembro de 2012) e a queda da taxa de desemprego (de 6. dentre os quais se destacam a redução do diferencial entre as taxas de juros doméstica e internacional.

com ênfase nas mudanças introduzidas. tomando como ponto de partida a constatação de que. Vale lembrar que as políticas anticíclicas adotadas em resposta ao efeito-contágio da crise financeira global foram eficazes.7%) e praticamente nula em 2012 (0. cambial e fiscal. assim. No pri- meiro período. tais como as medidas macroprudenciais no mercado de crédito. à guisa de conclusão. ocorreu uma alteração qualitativa em sua gestão. conter a aceleração inflacionária3. apresenta-se um balanço das políticas monetária e creditícia. adotadas em dezembro de 2010. resultando num crescimento de 7. Contudo. mas também em pressões inflacionárias. cujo objetivo era reduzir os riscos associados à forte expansão dos empréstimos com recursos livres às famílias. que corresponde ao primeiro semestre de 2011. mesmo utilizando um amplo leque de instru- mentos (além das três políticas macroeconômicas convencionais). regime de câmbio flutuante e metas de superávit primário).9%). creditícia e fiscal foram notadamente restritivas.5% do PIB em 2010. embora tenha sido mantido o tripé de política macroeconômica. com o intuito de arrefecer a atividade econômica e. foram também adotadas medidas macroprudenciais no mercado de câmbio e controles sobre os fluxos de capitais e sobre as operações com derivativos cambiais. para a gestão desse regime. Nesse período. o que contribui- ria para a desaceleração da demanda. Nesse sentido. Após essa breve introdução. procurando ava- liar as implicações. que incluem tanto as políticas monetária e creditícia. controles de capitais e regulamentação dos derivativos cambiais). discutem- se as perspectivas e os limites do atual regime macroeconômico. herdado dos governos anterio- res (meta de inflação.5%. bem como aos instrumentos utilizados para alcançar esses objetivos. as políticas mone- tária. 52 a economia brasileira no contexto da crise global . o PIB registrou uma taxa de crescimento bastante modesta em 2011 (2. o regime de política macroeconômica adotado no primeiro biênio do governo Dilma não obteve somente resultados desejáveis2. esse regime pode eventualmente não atingir os objetivos almejados. O conceito de “regime de política macroeconômica” refere-se aos objetivos e metas da política macro- econômica. com a intenção de conter 2. o viés das políticas do novo governo vinha complementar as iniciativas do final do governo Lula. Balanço das políticas macroeconômicas Ao longo do primeiro biênio do governo da presidente Dilma. das mudanças ocorridas no cenário internacional no primeiro semestre de 2013. Na sequência. cresceu 7. como os instrumentos de regulamentação financeira (no caso do período analisado: medidas de regulamentação financeira prudencial. Este capítulo avalia esse regime. Assim. cambial e fiscal. é possível iden- tificar três períodos distintos na orientação da política macroeconômica. 3.

diante do receio de uma nova enxurrada de fluxos financeiros externos após a expansão de liquidez pelo Banco Central Europeu (BCE). do maior diferencial entre os juros internos e externos. no terceiro período (de julho a dezembro de 2012). Assim. ao boom de consumo de bens duráveis (estimulado pelas políticas anti- cíclicas e pela forte expansão do crédito à pessoa física). especialmente. em dezembro de 2011 e fevereiro de 2012. Para maiores detalhes. Marca esse período a adoção de pacotes de compras governamentais e de investimentos públicos. o governo anunciou contenção adicional de gastos públicos. 5 Sobre os problemas enfrentados pela indústria. Em contrapartida. estímulos creditícios e desoneração tributária. Juros reais elevados e moeda doméstica apreciada nos anos precedentes corroeram a capacidade da indústria de competir nos mercados interno e externo5. traduzindo-se na deterioração das expectativas e na generalização do pessimismo entre as empresas4. no entanto. embora menos intensas que aquelas de 2008/2009: redução da taxa básica de juros. Esse conjunto de medidas. Em primeiro lugar. compondo uma política 4. e ampliou os controles de capitais. num contexto de aprofundamento da crise na área do euro e em resposta ao arre- fecimento mais forte do que o desejado da economia. Em segundo lugar. reforçando seu compromisso com a austeridade fiscal. No segundo período. Essa relativa inefi- cácia tem raízes em fatores de diferentes ordens. associado. o grau elevado de comprometimento da renda das famílias brasileiras com o pagamento das dívidas. ver capítulo 1.a tendência de apreciação do real. com a flexibilização da política fiscal. para garantir estabilidade monetária com taxas de juros menores e câmbio competitivo para o setor industrial. com perda de competitividade e vazamento da demanda interna para o exterior. resultante. a economia brasileira no contexto da crise global 53 . a indústria brasileira passava (e ainda passa) por um momento de acirrada concorrência no mercado internacional. o governo adotou medidas anticíclicas. reduziu a efetividade de uma nova rodada de medidas creditícias e de desoneração que buscasse encorajar o consumo desses bens. além de tentar esti- mular os gastos privados. A piora do cená- rio externo e a desaceleração da inflação abriram espaço para a reorientação dos objetivos da política econômica no sentido de priorizar a redução do diferencial entre a taxa básica de juros brasileira (Selic) e as taxas de juros internacionais his- toricamente baixas. não produziu estímulos suficientes para reativar o nível de atividade e o investimento produtivo. o desenrolar da crise na área do euro continuou ameaçando a evolução da economia mundial. que se estendeu de agosto de 2011 a junho de 2012. o governo optou por atuar diretamente sobre a deman- da. ver capítulo 6. Em terceiro lugar. em grande medida.

o Comitê de Política Monetária (Copom) descartou a convergên- 6. embora não tenha havido ruptura do regime de metas de inflação. ocorreram mudanças substantivas na condução da política monetária pelo BCB. associada à melhor distribuição da renda. o governo se valeu. No que diz respeito à política monetária. O BCB optou por aguardar os efeitos plenos das medidas de natureza macroprudencial de controle do crédito às pessoas físicas7. Política monetária Nos dois primeiros anos do governo Dilma. como uma mudança estrutural de preços relativos. juros negativos na aquisição de máquinas e equipamentos (ver seção sobre a política fiscal). que passou a cobrar. como tinha sido feito em 2008/2009. até dezembro de 2012. à alta dos preços de alguns serviços6). com o propósito de assegurar a con- vergência das expectativas para o centro da meta em um contexto de inflação ascendente e em aceleração. da importância dos bancos públicos (notadamente do BNDES. Ver nota 14. da Caixa Econômica Federal e do Banco do Brasil) para garantir o ritmo de expansão do crédito às empresas e às famílias. mas também para que as reduções da taxa básica de juros chegassem aos tomadores finais por meio das estratégias concorrenciais agressivas dos bancos públicos. devido ao forte dinamismo de alguns setores em 2010. A alta dos preços dos serviços refletiu tanto uma pressão conjuntural. 7. associado à elevação dos preços internacionais das commodities (e. 54 a economia brasileira no contexto da crise global . que se manteve como um dos pilares centrais da política macroeconômica. Essas alterações tiveram duas consequências impor- tantes: possibilitaram a ampliação do grau de liberdade de ação da autoridade monetária ante as flutuações da atividade econômica e produziram uma melhor coordenação da política monetária com as demais políticas macroeconômicas (cambial e fiscal). mediante o Programa de Sustentação do Investimento (PSI). Dessa maneira. em vez de sobrecarregar a política de juros. As últimas medidas também bus- caram estimular o investimento privado. fiscal de estímulo ao crescimento econômico de caráter mais ativo e direto do que a desoneração tributária privilegiada até então. Desde o primeiro semestre de 2011. adotadas em dezembro de 2010 e em abril de 2011. junto com a re- dução da meta da taxa Selic pelo Banco Central do Brasil (BCB). Sobre as medidas de natureza macroprudencial de controle do crédito às pessoas físicas. que se traduziram em pressões em favor da queda dos spreads bancários. a au- toridade monetária trocou a estratégia de elevação tempestiva da meta dos juros pelo gradualismo. em menor medida. ver Fundap (2011).

0% 9.cia rápida para o centro da meta e decidiu elevar gradualmente a meta da taxa Selic em 1. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. então.5% Selic (a. o BCB evitou uma elevação mais acentuada da meta dos juros. “nas atuais circunstâncias.0% Selic (a.0% 5. no segundo semestre foram estabeleci- dos limites às operações especulativas de investidores estrangeiros com derivativos cambiais e lançadas medidas adicionais de austeridade fiscal. Evolução da meta Selic e IPCA – variação acumulada em 12 meses 13.0% 1. Além das medidas de restrição ao crédito ao consumo e de controle dos fluxos de capitais no primeiro semestre de 2011.0% 4.p. O Relatório de Inflação de março de 2011 explicita a estratégia do BCB. atenuando os seus efeitos deletérios sobre o nível de atividade econômica.5% IPCA 10. a autoridade monetária também promoveu o alongamento do horizonte temporal para cumprir a meta de inflação8. cambial e fiscal.5% 3. pelo Minis- tério da Fazenda. Nesse contexto.0% 11. segundo a qual. a economia brasileira no contexto da crise global 55 . a boa prática recomenda buscar uma convergência mais suave da inflação para a trajetória de metas.5% 6.0% 9. Ao lado da adoção dessa estratégia gradualista na gestão da taxa básica de juros.) 11.0% 10.) Selic (a.).a.0% 8.) 7.0% 8.5% 2. a estra- tégia gradualista de combate à inflação foi acompanhada da adoção.5% 7.a. à semelhança de estratégia adotada no passado pelo Banco Central.0% 12.0% 12.0% 0. o Copom ressalta que a estratégia de política monetária será implementada com vistas a conter os efeitos de segunda ordem do choque de oferta e a garantir a convergência da inflação para a meta em 2012”. em cinco reuniões consecutivas entre os meses de janeiro e julho de 2011 (Gráfico 1).a. Ao estabelecer o ano de 2012 como o prazo para a convergência da inflação ao centro da meta. Indicando uma melhor coordenação das políticas macroeconômicas. Gráfico 1.75 ponto percentual (p.0% jul/12 jul/11 jul/10 out/12 nov/12 out/11 nov/11 out/10 nov/10 set/12 set/11 f ev/12 set/10 f ev/11 f ev/10 jun/12 jun/11 jun/10 jan/12 abr/12 ago/12 jan/11 abr/11 ago/11 jan/10 abr/10 ago/10 mar/12 mar/11 mai/12 mar/10 mai/11 mai/10 dez/12 dez/11 dez/10 IPCA Selic (meta) Teto da Meta de Inflação Centro da Meta de Inflação - Fonte: Banco Central do Brasil. de uma série de medidas nas esferas creditícia.0% 7. o custo financeiro da dívida pública e a taxa de câmbio do real. 8.0% 8.

Os controles de capitais. na meta da Selic. em relação ao índice verificado em julho de 2011.5% naquele mês para 7. Essa nova fase correspondeu ao segundo momento da gestão da política mo- netária no período analisado. especialmente como instrumento de política macro- prudencial e de gestão de fluxos de capitais. do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF)9 em operações de crédito para pessoas físicas.5% para 3. que passou a sentir os efeitos da desa- celeração dos preços das commodities no mercado internacional e da demanda interna e se reaproximou do centro da meta. fato que surpreendeu o mercado e impôs per- da aos agentes privados que. no mercado financeiro. Entretanto. O compromisso assumido de controlar as contas públicas. da amplia- ção do esforço fiscal em R$ 10 bilhões em 2011. Essa decisão representou uma mudança significativa na postura da autoridade monetária. em agosto de 2011.5% em agosto de 2012.p. na visão do governo. para aliviar as pressões sobre a política monetária. atenuaram o impacto do aumento do diferencial entre os juros doméstico e externo sobre a taxa de câmbio do real.0%. cuja apreciação vinha afetando seriamente a competitivi- dade da indústria brasileira. títulos da dívida pública pós-fixados por prefixados e indexados a índices de inflação. 9. que condicionaram a recomposição de seus portfólios na direção de substituir. parcialmente. O agravamento da crise do euro. em abril de 2011. 56 a economia brasileira no contexto da crise global .5 p. ver Freitas e Cagnin (2012). consequentemente. por sua vez. tão logo percebeu os sinais de deterioração do cenário externo. passando de 12. de 0. a partir de setembro de 2011. favoreceu a continuidade da política de redução da meta de juros ao longo de todo o segundo semestre de 2011 e em 2012. A meta da taxa Selic foi reduzida em 5 p. de 1. Sobre as diferentes funções desempenhadas pelo IOF. combinado com a trajetória descendente da inflação. a economia com o pagamento de juros foi atenuada pelas estratégias de defesa da rentabilidade dos agentes privados. reiterado com o anúncio. apostaram na manutenção da taxa em vigor. em agosto. que passou a atuar de forma menos rígida e com maior independência em relação ao consenso estabelecido por esses agentes. tanto no mercado internacional como no doméstico (em razão da concorrência dos produtos importados). funcionou como instrumento auxiliar da política monetária ao potencializar o efeito do au- mento gradual da meta da Selic. teria contribuído. com o agravamento da crise das econo- mias da área do euro.p. Essa queda da meta da taxa básica de juros traduziu-se em significativa redução do diferencial entre as taxas de juros doméstica e internacional (Gráfico 2) e. permitindo que o BCB iniciasse uma nova fase de corte da meta da taxa Selic. iniciado com o corte pelo Copom. do serviço da dívida pública mobiliária indexada à Selic (LTN). A elevação.

512.0% 10.5% ao ano. quando essa for igual ou menor a 8. os novos depósitos na caderneta de poupança passaram a ter remuneração equivalente a 70% da meta da taxa de juros Selic. No quadro de incertezas reinante. A Circular n. em paralelo à diminuição da taxa básica de juros.0% 6.563 revogou a exigência de capital adicional para as operações de empréstimos ao consu- mo com prazo máximo de 60 meses (ainda que tenha sido acompanhada de elevação do requerimento de capital para as operações de crédito ao consumo com prazo superior a cinco anos). considerada essencial para que a queda da Selic (abaixo do patamar de 8.0% 0.0% 2. Por meio da Circular n.5% a. determinado em junho de 2011. a autoridade monetária também desistiu de elevar. 3. o percentual mínimo de pagamento das faturas de cartão de crédito. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Gráfico 2.m. para reativar a demanda privada.0% 4. 11. por força da Medida Provisória n. foi revertida parte das medidas restritivas ao crédito de caráter macroprudencial11. A partir de 4 de maio de 2012. Nota: O diferencial de juros equivale à diferença entre a taxa básica de juros de cada país e a soma do risco-país (prêmio do CDS de cinco anos) e da taxa básica de juros dos EUA. Esse foi o caso da alteração nas regras da caderneta de poupança. esse prolongado processo de afrouxamento monetário foi viabilizado por ações complementares das demais autoridades da área econômica do governo. Para maiores detalhes. 567. 3. Entre os meses de novembro e dezembro de 2011. Além de uma mudança de postura do BCB. em maio de 2012.0% Brasil Coreia do Sul Tailândia Turquia Indonesia África do Sul Fonte: Banco Central do Brasil.0% 8. de 15% para 20%.). No caso de patamares superiores a esse percentual. e o Minis- tério da Fazenda reduziu de 3% para 2. ver Fundap (2012b). a economia brasileira no contexto da crise global 57 . Diferencial de juros (em %) 12. os saldos de novos e antigos depósitos continuam sujeitos à regra anterior de remuneração (TR + 0.5%) não resultasse em migração de recur- sos dos fundos de investimento para a poupança10. a política econômica apostou em outros instrumentos.5% a alíquota de IOF sobre as operações 10.

nesse período. Decreto do Ministério da Fazenda n.5% a. neutralizando a desaceleração da contratação de crédito pelos bancos privados (Gráfico 3). a queda dos juros e spreads praticados pelos bancos privados13.5% a.8%. que estava no patamar de 6% a. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. e o pass-through da desvalorização nominal de 12. dentre os quais se destacam a elevação dos preços dos alimentos. desde julho de 2009. 13. a Taxa de Juros de Longo Prazo (TJLP). de dezembro de 2011. pelo mecanismo da concorrência. em julho de 2012.a. Nota: Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Ampliado (IPCA). de crédito ao consumo12. foi reduzida para 5. Ver capítulo 4. Gráfico 3.. Ao longo do segundo semestre de 2012. o governo Dilma utilizou novamente os bancos públicos com carteira comercial (BB e CEF) para forçar. especialmente da soja e do milho) e no Brasil (com efeitos sobre produtos in natura). em vigor desde 2009).632.a. Ademais.a. em janeiro de 2013. notam-se pressões inflacionárias que levaram o IPCA acumulado no ano para o patamar de 5. 7. e para 5% a. de 4.a. O BNDES continuou desem- penhando papel fundamental na implementação da política creditícia. Além da prorrogação até o final de 2013 do Programa de Sustentação do Investimento (PSI. 58 a economia brasileira no contexto da crise global . bastante acima do centro da meta. No primeiro semestre de 2012. desencadeada pela seca nos EUA (impactando o preço de grãos. o governo Dilma incentivou os bancos públicos a atuar de forma anticíclica. Crédito total ao setor privado por natureza do capital: variação real em 12 meses (em %) 25 20 15 10 5 0 -5 ago/10 ago/11 ago/12 dez/10 dez/11 dez/12 fev/10 fev/11 fev/12 jun/10 jun/11 jun/12 set/10 set/11 set/12 nov/10 nov/11 nov/12 jul/10 jul/11 jul/12 jan/10 jan/11 jan/12 abr/10 abr/11 abr/12 mai/10 mai/11 mai/12 mar/10 mar/11 mar/12 out/10 out/11 out/12 SF Público SF Privado SF Estrangeiro Fonte: Banco Central do Brasil.. A origem da aceleração inflacionária do perí- odo pode ser encontrada na interação de diferentes fatores.

por exemplo). Martinez (2012). a autoridade monetária. manteve inalterada ao longo do semestre a meta da taxa Selic. nos últimos anos. entre final de fevereiro e junho de 2012. diante do fraco desempenho da economia brasileira. apesar da alta das cotações de algumas commodities no último trimestre de 2012 (petró- leo e matérias-primas industriais). o BCB impôs um recolhimento compulsório sobre 14. respectivamente. três importantes mudanças interdependentes. Política cambial No âmbito da política cambial – ou seja. Na leitura do BCB. Entretanto. enquanto a terceira concerne à maior coordenação entre o BCB e o Ministério da Fazenda. tem como principal deter- minante o processo de mudança de preços relativos. Ainda que aquecimentos conjunturais de demanda tenham pressionado os preços dos serviços (em 2010. Com isso.mais de 20% da moeda brasileira. A primeira delas refere-se ao leque de objetivos e metas dessa política. Martinez e Cerqueira (2013). ensejado pelas políticas de redistribuição de renda (especialmente a valorização do salário mínimo) e de combate à pobreza. da gestão do regime de flutuação “suja” vigente desde janeiro de 1999 –. A segunda mudança refere-se à ampliação do conjunto de instrumentos utilizados para atingir o novo leque de metas e objetivos (nem sempre compatí- veis entre si). ver. Para uma análise detalhada da dinâmica recente da inflação. Ao lado da imposição ou aumento de alíquotas do IOF em várias modalidades de fluxos de capitais e operações de derivativos cambiais. dentre outros. a exemplo da política monetária. é possível identificar. o patamar elevado da inflação desse setor. além da mitigação da volatilidade cambial (para atingir os objetivos de controle da inflação e estabilidade financeira. como observado ao longo do governo Lula. ainda que sob forte pressão do mercado. pela Fazenda (instru- mentos denominados. além da resiliência da inflação de bens não comercializáveis e serviços14. o cenário internacional ainda indicava um viés deflacionário para a economia global. esse leque passou a incluir como meta o patamar da taxa de câmbio decorrente de um novo objetivo: conter a deterioração da competitividade da indústria brasileira nos mercados externo e interno.a. das incertezas advindas do front externo e do peso de fatores climáticos na evolução da inflação. bem como pela redução do desemprego. a economia brasileira no contexto da crise global 59 . em 7. que deixou de estar subordinada à política monetária. medida pelo Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA). de controle de capitais e regulação dos derivativos cambiais). aqui. objetivos do regime de metas de inflação) e do acúmulo de reservas (voltado para a redução da vulnerabilidade externa e melhoria do rating de crédito soberano). no primeiro biê- nio do governo Dilma.25% a.

de expansão da liquidez nos países desenvolvidos e de melhoria do risco relativo dos países emergentes. em vez de recorrer. com prazo acima 4/12 : O prazo mínimo das 1. no período) diferencial entre os juros internos e exter- nos (Gráfico 3) e o alto grau de abertura financeira da economia brasileira. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Assim.55 29/3 : IOF de 6% sobre 8/7 : Aumento do compulsório 29/2 : IOF de 6% estendido para 1. das operações de carry trade nos mercados à vista e futuro de câmbio. bancos 60 a economia brasileira no contexto da crise global . as posições vendidas dos bancos no mercado à vista em janeiro de 2011.50 captações externas até um ano sobre posições cambiais captações externas de até três anos vendidas 1. ampliando o raio de manobra e a eficácia da política cambial.90 6/1 : anúncio do recolhimento captações externas ampliado de um para cinco anos compulsório sobre posições vendidas de até cinco anos 1.80 4/4 : IOF estendido às 14/6 : IOF volta a incidir captações externas com renovações de captações somente sobre prazo mínimo de um ano. dado o elevado (além de crescente. às intervenções no mer- cado de câmbio à vista e ao acúmulo oneroso de reservas (Gráfico 5). A política cambial valeu-se desse conjunto de instrumentos para interromper ou mitigar a trajetória de apreciação do real (Gráfico 4). esse arsenal de medidas regulatórias foi ajustado em função de mudanças no ambiente financeiro interna- cional que afetaram o ingresso líquido de divisas (Gráfico 4)./2012 2./2011 a dez.70 captações externas até dois anos 27/7 : IOF de 1% sobre 1. associada à retomada. Taxa de câmbio nominal R$/US$ e principais medidas adotadas – jan. diante dos estímulos provenien- tes do ambiente macroeconômico (elevado patamar da taxa básica de juros).65 posições líquidas vendidas em derivativos cambiais 1/3 : Proibiçao de pagamento 1.60 superiores a US$ 10 milhões antecipado de exportações acima de um ano 1.45 03/01/2011 28/01/2011 22/02/2011 19/03/2011 13/04/2011 08/05/2011 02/06/2011 27/06/2011 22/07/2011 16/08/2011 10/09/2011 05/10/2011 30/10/2011 24/11/2011 19/12/2011 13/01/2012 07/02/2012 03/03/2012 28/03/2012 22/04/2012 17/05/2012 11/06/2012 06/07/2012 31/07/2012 25/08/2012 19/09/2012 14/10/2012 08/11/2012 03/12/2012 28/12/2012 Restrição Flexibilização Fonte: Banco Central do Brasil. No contexto internacional de taxas de juros historica- mente baixas.75 externas captações externas com 6/4 : IOF estendido às prazo de até dois anos 1.85 no mercado de câmbio à vista 5/12: IOF de 6% voltou a incidir somente sobre 1. Gráfico 4. como uma medida de regulação financeira prudencial. Contudo. quase que exclusivamente.15 18/12 : aumento de US$ 1 bilhão para US$ 3 bilhões do limite de posição vendida em 2. 1.10 16/3 : Exportadores câmbio dos bancos isento de compulsório isentos de IOF nas operações de hedge 2.00 nos 12 meses anteriores privados. o governo Dilma optou por ampliar o mix de instrumentos regulatórios. a partir do segundo semestre de 2009.05 1/12 : investimentos estrangeiros de portf ólio cambial equivalentes a em ações e em títulos 1.95 de quatro anos isentos de 12/3 : IOF de 6% operações para pagamento IOF estendido para antecipado de exportações f oi 1.2 vez o valor exportado 2. as aplicações em ativos financeiros vinculados ao real despontaram como uma fonte privilegiada de ganhos especulativos. Ademais.

000 15./2011 a dez. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Prates (2010).000 -12. principalmente. Somente com a adoção simultânea e em maior escala dos três instrumentos regulatórios (controles de capitais. o investidor se endivida na moeda de menor taxa de juros e aplica em ativos denominados na moeda de maior taxa de juros (em inglês. não fo- ram suficientes para conter as apostas de apreciação do real mediante. posição dos bancos e intervenções do BCB (em US$ milhões) – jan. sem neutralizar o risco cambial. regulação sobre derivativos cambiais e regulação prudencial) é que essas estratégias foram contidas. respectivamente). moedas funding e target. No primeiro. adotadas em outubro de 2010 (aumento da alíquota do IOF de 0. as primeiras medidas de regulação com derivativos cam- biais. sobretudo.000 mar/11 mar/12 mai/11 mai/12 set/11 fev/11 abr/11 ago/11 fev/12 ago/12 set/12 abr/12 jan/11 jul/11 jan/12 jul/12 nov/11 nov/12 out/11 out/12 dez/11 dez/12 jun/11 jun/12 Posição dos bancos (1) Intervenções BCB . as posições vendidas. Ver. Ventura e Garcia (2009). Assim. Mercado de câmbio à vista: movimento cambial. Gráfico 5.Pronto Intervenções BCB . Kalternbrunner (2010).000 3. denominado de canônico.000 -6. e empresas residentes e investidores não residentes encontraram várias formas de burlar esses instrumentos – estratégia conhecida como arbitragem regulatória –. (1) Os valores positivos refletem a posição comprada. tornando possível interromper a trajetória de apreciação do real. Há dois tipos de currency carry trade.000 -9.000 -15. 16. Vários trabalhos.000 12. a partir de diferentes abordagens teóricas e empíricas. os valores negativos. operações de derivatives carry trade16. No que se refere à regulação dos derivativos cambiais – que têm influência de- cisiva nessa trajetória15 –.Linhas de recompra Saldo do movimento de câmbio Fonte: Banco Central do Brasil.000 0 -3.000 -18. Rossi (2012). Farhi (2010).000 9. como detalhado a seguir.000 6. Essa regulação tornou-se eficaz quando atin- 15. Dodd e Griffth-Jones (2007).38% para 6% sobre as margens de garantia dos contratos futuros de dólar e proibição de cumprimento dessas margens mediante uso de títulos públicos e garantia). num contexto institucional de elevado grau de abertura financeira e mercado finan- ceiro doméstico sofisticado. o canonical carry a economia brasileira no contexto da crise global 61 . concluíram que as operações com derivativos cambiais (com destaque para os contratos de dólar futuro da BMF&Bovespa) exercem influ- ência decisiva na dinâmica da taxa de câmbio do real./2012 18.

Já no derivatives carry trade. Essa interação de fatores externos e internos induziu a desmontagem de posições (à vista e futuras) em ativos financeiros vinculados ao real. uma vez que envolve uma aposta na variação cambial no período da aplicação (que pode ampliar ou anular o ganho proveniente do diferencial de juros). o investidor forma uma posição vendida na moeda funding e uma posição comprada na moeda target no mercado de derivativos cambiais./2011 a dez. suas posições líquidas vendidas em dólar. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.000 -50. Para maiores detalhes.000 -350. (2006). Mercado futuro de dólar: posições líquidas dos investidores (em US$ milhões) – jan. trade (que envolve fluxos efetivos de divisas) diferencia-se de uma operação de arbitragem de juros. essa mudança nas apostas dos investidores estrangeiros no mercado futuro de dólar. por sua vez. Gagnon e Chaboud (2007). esses investidores passaram a alternar posições líquidas vendidas e compradas em volume bem inferior ao vigente antes da regulação (Gráfico 6). a partir de setembro de 2011. sobre os fluxos de capitais para os países emergentes e o apetite por risco em âmbito global. bem como a inversão da posição dos bancos no mercado à vista (de vendida para comprada) e o déficit no movimento financeiro a partir de agosto (Gráficos 5 e 6). do diferencial de juro.000 4/2/2011 7/9/2012 27/1/2012 24/2/2012 23/3/2012 20/4/2012 18/5/2012 15/6/2012 13/7/2012 10/8/2012 5/10/2012 1/11/2012 16/09/2011 07/10/2011 07/01/2011 04/03/2011 01/04/2011 29/04/2011 27/05/2011 24/06/2011 22/07/2011 19/08/2011 04/11/2011 02/12/2011 29/12/2011 30/11/2012 Bancos Investidor Institucional Investidor Nacional Não Residente Pessoa Jurídica Não Financeira Fonte: BMF&Bovespa. em julho de 2011. assim. Depois de zerarem.000 150. giu o valor nocional dos derivativos cambiais por meio da imposição.000 -250. e pela redução da meta da taxa Selic e. o que. resultou na desvalorização da moeda brasileira entre setembro e dezembro de 2011 (Gráfico 4). Todavia. foi condicionada por dois fatores: pelo impacto negativo do aprofundamento da crise na área do euro.000 -150./2012 250. ver Burnside et al.000 50. Gráfico 6. 62 a economia brasileira no contexto da crise global . em setembro de 2011. da alíquota de IOF de 1% sobre as posições líquidas vendidas acima de US$ 10 milhões.

dentre os quais a criação. após a falência do banco Lehman Brothers em meados de setembro de 2008. o efeito deflacionário dessa deterioração sobre os preços das commodi- ties atenuou o impacto da desvalorização cambial sobre a inflação interna. Vale lembrar que um dos principais canais de transmissão da crise financeira global para o mercado financeiro brasileiro. para comprada. Assim. vários avanços na regulação desses contratos foram realizados visando a ampliar sua transparência e o monitoramento das transações. pela Febraban.71. nos quais os bancos eram as contrapartes. Ademais. o BCB manteve-se praticamente ausente do mercado de câmbio à vista. A dificuldade de compatibilizar os múltiplos objetivos da política cambial veio à tona. foi a exposição de várias empresas em contratos de derivativos cambiais negociados no mercado de balcão. pode-se afirmar que a deterioração do ambiente financeiro internacional contribuiu para a eficácia da política cambial no sentido de atingir sua nova meta. ou seja. para evitar a desvalorização. a economia brasileira no contexto da crise global 63 . para evitar uma alta adicional da taxa de câmbio e não sobrecarregar a política cambial. Silva Filho (2013). da Central de Exposição a Derivativos (CED). cuja posição cambial passou de vendida. ao evitarem um acúmulo excessivo de posições especulativas em ativos financeiros vinculados ao real. Do início de janeiro ao final de fevereiro. o governo realizou o primeiro ajuste no mix regulatório. relaxando os controles de capitais ao eliminar o IOF dos investimentos de portfólio em ações e em títulos de renda fixa de longo prazo (debêntures vinculadas a projetos de infraestrutura) (Gráfico 4). na medida em que houve forte redução do risco cambial das empresas e do risco de contraparte dos bancos nas operações com derivativos cambiais. reduzin- do o conflito entre os objetivos “controle da inflação” e “competitividade externa”.88% do real (Gráfico 4). ameaçada por essa desvalo- rização. O excesso de divisas no mercado à vista foi absorvido pelos bancos. as reservas internacionais).86 para R$ 1. qual seja. 17. apesar da retomada do ingresso de divisas após três meses consecutivos de déficit. tal como no último trimestre de 2008. Nesse período. cuja desmontagem poderia trazer pressões também excessivas sobre a taxa de câmbio e colocar em risco o objetivo de controle da inflação e/ ou de redução da vulnerabilidade externa (se. Ver Farhi e Borghi (2009). a taxa de câmbio (R$/US$) deslizou de um patamar de R$ 1. em janeiro e fevereiro (Gráfico 5). Não se pode subestimar a importância das medidas regulatórias adotadas na fase anterior de boom dos fluxos de capitais e de elevado apetite por risco. pela primeira vez. em dezembro. desde 200917. conduzir a taxa de câmbio para um patamar mais competitivo. no primeiro bimestre de 2012. diante dessa deterioração. o que correspondeu a uma apreciação de 8. A manutenção da estabilidade financeira (terceiro objetivo da política cam- bial) não foi. Além da forte redução dessa exposição após a crise. o BCB utilizasse seu colchão de segurança. Ao mes- mo tempo.

que recuou de 6. Por um lado. o objetivo “competitividade externa” voltou a ser priorizado. Em maio. o governo optou por aproveitar a nova fase (de duração incerta) de apetite por riscos para garantir a desaceleração do IPCA acumulado em 12 meses. Essas operações avançaram 48% em relação àquelas feitas no mesmo período em 2012 (de US$ 4. um volume de divisas superior ao saldo do movimento primário (o que ex- plica a redução da posição comprada dos bancos – Gráfico 5).8% em março (Gráfico 1).4 bi- lhões para US$ 8. 64 a economia brasileira no contexto da crise global . absorvendo. Essa iniciativa. no âmbito da política cambial. nesses meses. Esse excesso decorreu. ao que tudo indica. o governo reforçou os controles de capitais no início de março de 2012 (Gráfico 4). essas operações es- tavam concentradas em um número pequeno de empresas.5 bilhões). ao afastar o risco de falência de instituições relevantes (e. O primeiro leilão foi realizado em 21/12/2011. Confirmado o cenário mais benigno para a inflação (para o qual também con- tribuiu a queda dos preços das commodities no mercado internacional). ao objetivo “controle da inflação”. ver capítulo 1. receoso do aumen- to das pressões baixistas sobre a taxa de câmbio do real. 18. que voltaram a assumir posições em ativos de risco. que dependem da oferta de linhas bancárias externas de mais longo prazo20 (Gráfico 5). totalizando cerca de € 1 trilhão. O movimento de câmbio comercial também foi beneficiado pelo alívio das tensões no mercado financeiro internacional.5% em dezembro (teto da meta de inflação) para 5. sua participação no total do câmbio de exportação passou de 15% para 22% no mesmo período. lançada em dezembro de 201118. decorrentes do ‘tsunami’ monetário do BCE. a ameaça de crise sistêmica na área do euro). a leniência em relação ao patamar da taxa de câm- bio verificado em janeiro e fevereiro de 2012 decorreu da maior importância atribuída. com empréstimos de €529 bilhões a 800 bancos. Ver Fundap (2012a). após três meses praticamente ausentes do mercado de derivativos cambiais. Para maiores detalhes. 20. que favoreceu as operações de pagamento antecipado de exportações. da melhoria das condições financeiras internacionais após a expansão da liquidez pelo BCE no âmbito da nova linha de crédito de três anos a juros de 1% ao ano. De acordo com o BCB. quando 523 bancos tomaram €489 bilhões. que utilizavam esse mecanismo para realizar operações de arbitragem de juros. e o segundo em 28/02/2012. principalmente. com isso. a autoridade monetária retomou as intervenções no mercado à vista. assim. em março e abril. Ou seja. Por outro lado. Assim. 19. teve como desdobramento a queda da aversão aos riscos pelos investidores globais. o BCB ampliou as operações de swap reverso (por meio das quais assume uma posição comprada em dólar para atenuar as pressões em prol da apreciação do real) (Gráfico 7). como moedas. títulos e ações de economias emergentes19.

0 -5. que contaminou a aversão aos riscos pelos investidores globais. o que suscitou a interpretação de que o BCB estaria defendendo uma banda estreita de flutuação.0 -15. Nota: Os valores negativos referem-se a colocações ou resgates de swaps reversos. agora com foco na Espanha.0 15. Após as novas medidas de controle de capitais e a retomada das intervenções cambiais nos mercados à vista e de derivativos. contrata com a mesma instituição a compra de dólares com entrega para 32. A partir de março. 62. Nas linhas de recompra.De acordo com informação fornecida pelo BCB.10 (Gráfico 4). com piso em R$ 2.7% (Gráfico 4). em dezembro de 2012. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.00 e teto em R$ 2. parece corroborar essa interpretação21 (Gráfico 5). no final de dezembro – quando a taxa de câmbio do real ameaçou ultrapassar esse teto. Nesse contexto. de mesmo valor).0 5./2012 20. porque existem duas contratações de natureza oposta. os desdobramentos da crise na área do euro condicionaram essa trajetória. ao mesmo tempo. 92 dias. a taxa de câmbio do real seguiu seu movi- mento ascendente até maio. A venda de dólares mediante linhas de recompra.0 0. utilizadas pela primeira vez no último quadrimestre de 2008. iniciou-se uma nova fase de aprofundamento da crise. Até dezem- bro. Do patamar de R$ 1. o BCB contrata uma venda de dólares com entrega para dois dias e.89 no final de abril de 2012. a posição de câmbio do banco não se altera. ou qualquer prazo acordado (assim. Gráfico 7.10. o que significou uma depreciação de 10. devido ao aumento sazonal da demanda por dólares –. Mais uma vez. esse instrumento foi utilizado devido a economia brasileira no contexto da crise global 65 .70 no final de fevereiro. quando atingiu o patamar de R$ 2. essa taxa atingiu o patamar de R$ 1. tornando-se novamente ascendente.0 -10. 21. a trajetória da taxa de câmbio se inverteu.0 ago/2011 ago/2012 jul/2011 jul/2012 jan/2011 fev/2011 jan/2012 fev/2012 abr/2011 dez/2011 abr/2012 dez/2012 jun/2011 jun/2012 set/2011 set/2012 mai/2011 mai/2012 nov/2011 nov/2012 mar/2011 mar/2012 out/2011 out/2012 Colocações Resgates Fonte: Banco Central do Brasil. flutuou entre esse valor e R$ 2.05.0 10./2011 a dez. Colocações e resgates de swaps e swaps reversos (em R$ bilhões) – jan.

que não afetam as reservas internacionais. para defender o piso. a dívida líquida do setor público caiu de 40. de 2.7% do PIB (R$ 149. de estados e municípios. R$ 29. 66 a economia brasileira no contexto da crise global .2% do PIB.8 bilhões do governo federal (79. em dezembro de 2010.5%). bem como o teto.2% do PIB para 38. Para maiores detalhes sobre a evolução das receitas e despesas fiscais no período.4%).9 milhões (0.51%). ver capítulo 8. Houve também.7 bilhões). Ou seja. em agosto de 2011 (Gráfico 8)22.34 bilhões (2. Política fiscal No primeiro semestre de 2011. e das empresas estatais. Em agosto de 2011.5 bilhões (acumulado em 12 meses) foi obtido da seguinte forma: R$ 118. as pressões em prol da apreciação do real foram mitigadas tanto pelas tensões no mercado financeiro internacional como pela redução do diferencial entre os juros internos e externos (Gráfico 2). com o objetivo de contribuir para o arrefecimento da expansão da demanda agregada. e R$ 2.1 bilhões de empresas estatais (1. exclusivamente. o BCB manteve-se ausente do mercado à vista. De maio a novembro. 22. acumulados em dezembro de 2010 pelo setor público – resultou do esforço fiscal conjun- to: do governo federal. à necessidade de liquidez em moeda estrangeira de caráter transitório. no mesmo período. no valor de R$ 519.8% do PIB no acumulado de 12 meses (R$ 101.6 bilhões (20. de modo a abrir caminho para a redução da meta da taxa Selic pela autoridade monetária. responsável pela elevação do superávit primário do setor público. associada ao aumento das remessas de lucros e hedges corporativos no final do ano.5%). para 3.2 bilhões (77. a defesa da banda informal ancorou-se. Ao mesmo tempo.9 milhões do BCB (0. do Banco Central.7 bilhões.93% do PIB23. desonerações tributárias para elevar a produ- tividade de certos setores que ajudaram a conter a elevação de preços. Considerando os fluxos acumulados nos últimos 12 meses. por parte do Ministério da Fazenda. em operações de swaps e swaps reversos (Gráfico 6).44%). A preocupação com esse objetivo também parece explicar a flexibilização dos controles de capitais sobre captações externas. o superávit de R$ 149.1 bilhões de estados e municípios (19. no valor de R$ 79. R$ 601. em junho e dezembro (quando predominaram pressões de depreciação cambial). Em função dessa po- lítica contracionista. no valor de R$ 20. a autoridade optou por atuações no mercado de derivativos cambiais. 23. a política fiscal teve um perfil contracionista. no valor de R$ 2. já que altas adicionais da taxa de câmbio po- deriam comprometer o objetivo “controle da inflação”.5 bilhões). Nessa mesma base de comparação.3%). pelo Ministério de Fazenda. o governo federal (excluídos o BCB e as empresas estatais) respondeu por um aumento do superávit fiscal de 2. Nesse período.16% para 2.9%). o montante do superávit fiscal – de R$ 101.3%).

o capítulo 8 desse livro. a política fiscal assumiu./2010 a dez. Evolução do superávit primário (acumulado 12 meses) e da dívida líquida do setor público (em % do PIB) – dez.4%. 24. aliando os objetivos de reaqueci- mento econômico ao aumento da competitividade da indústria nacional.5 bi- lhões. a meta de superávit fiscal foi cumprida por meio de maior arrecadação. a troca de ativos financeiros entre instituições públicas compôs a “contabilidade cria- tiva” que permitiu o resultado fiscal primário do ano.) Superávit Primário acum. a economia brasileira no contexto da crise global 67 . contudo.7 39 3. com o objetivo de reforçar a confiança dos agentes privados e conceder graus de liberdade à atuação do BCB. Entre o segundo semestre de 2011 e o primeiro semestre de 2012.7 36 2. preju- dicada pela apreciação cambial e pelo acirramento da concorrência nos mercados externo e doméstico. Uma vez garantido o cumprimento da meta de superávit fiscal estabelecida para o ano – devido à expansão das receitas. no mês de agosto. mais do que à contenção de gastos públicos24 –. buscou ratificar seu compromisso com o equilíbrio das contas públicas. Barros e Afonso (2013). graças à elevação da carga tributária de 33.Gráfico 8.2 38 % do PIB % do PIB 37 2. de R$ 125. 25 . Afonso (2011). a elevação da meta de superávit fiscal do setor público. Em 2012.) Fonte: Banco Central do Brasil. para 35.7 ago/11 ago/12 dez/10 dez/11 dez/12 fev/11 nov/11 fev/12 nov/12 jun/11 jun/12 jul/11 jul/12 set/11 set/12 abr/11 abr/12 mai/12 jan/11 mar/11 mai/11 jan/12 mar/12 out/11 out/12 Dívida Líquida do Setor Público (eixo esq./2012 41 4. ver. Dessa forma. 12 meses (eixo dir. um perfil anticíclico que pôde ser adotado sem compro- meter a obtenção da meta de superávit fiscal. em 2010. o governo federal divulgou. Diante das medidas de desoneração fiscal de diversos setores.2 35 34 1. por exemplo. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. A esse respeito. mas que trouxe à baila um conjunto de complexas operações financeiro-fiscais que se tornaram objeto de debate en- tre alguns especialistas25.5 bilhões para R$ 135.5% do PIB.2 40 3. em 2011. em 2012. A desoneração tributária de diversos setores foi um dos principais instrumentos utilizados no período.

desoneração da folha de pagamento de setores intensivos em mão de obra (confecções. 68 a economia brasileira no contexto da crise global . portanto. móveis. calçados. Apesar da redução do superávit.br/. e estabelecimento de um novo regime tributário para o setor automotivo26. instituição do Reintegra (Regime Especial de Reintegração de Valores Tributários para as Empresas Exportadoras). em abril. em razão da política de financiamento da dívida pública que estabeleceu para o período meta de con- tínua redução do endividamento federal. Entre agosto de 2011 e julho de 2012.9% da meta estabelecida para 2012 (R$ 139. tais como: ampliação da desoneração da folha de pagamento. A política fiscal anticíclica anunciada pelo governo previa. exigindo inter- venções mais diretas por parte do governo federal. junto ao BNDES e a outros agentes financeiros internacionais. a dívida líquida do setor público seguiu sua trajetória de queda. Ademais.gov. ampliação do Simples Nacional. passando. como o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento. de 38. o superávit primário do setor público reduziu-se de 3.9% do PIB. a ampliação. diante do cenário internacional de forte incerteza e das expecta- tivas empresariais pessimistas. sem o comprometimento da meta fiscal. inscritas no âm- bito do Plano Brasil Maior.brasilmaior. postergação do recolhimento do PIS/Cofins. 14. Informações recentes podem ser encontradas diretamente em: http://www. lançado em agosto de 2011. softwares). a partir do mês de maio. Dentre elas podem ser citadas: redução do IPI sobre bens de investimento. com a adoção.7% para 2. no final de 2011. cerca de 50. que permite a devolução às empresas de até 3% das receitas de exportação. o governo federal autorizou. Para uma avaliação do Plano Brasil Maior. dos limites de endividamento dos estados. o superávit acumulado chegava a R$ 71. de abril de 2012.mdic. Uma nova rodada de desonerações fiscais foi lançada no segundo trimestre de 2012.8 bilhões).5% do PIB. Entretanto. e redução da alíquota de IOF em operações de crédito a pessoas físicas. então. de medidas complementares. redução gradual do prazo de devolução de créditos referentes ao PIS-Pasep/Cofins sobre bens de capital. A maior parte das medidas de desoneração fiscal integrou o Plano Brasil Maior. 26. o segun- do semestre de 2012.2% para 34. Ainda em julho. para estimular o investimento público.2 bilhões. os estímulos fiscais por meio de desonerações não tiveram o efeito esperado em termos de dinamismo econômico. redução do IPI de bens de consumo. é a implementação de pacotes de ampliação das compras governamentais e dos investimentos públicos. a redu- ção dos tributos (devido às desonerações) e o aumento dos investimentos. entre agosto de 2011 e julho 2012. veja Boletim de Economia da Fundap n. O que marca. em R$ 40 bilhões.

como o automotivo. etc. 600 permitiu ao Tesouro Nacional aumentar a concessão de crédito extraordinário à Caixa Econômica Federal por meio da emissão de títulos. consequentemente. de 5. Para as empresas participantes do PSI. que ficaram conhe- cidas na imprensa especializada como “contabilidade criativa”. o que implica redução do lucro contábil e. que implicaram redução da meta de superávit primário. obtido em 2012. de 2. no caso dos setores de materiais de construção e de bens de capital.5% para 2. como o de móveis e linha branca. Esses gastos. Um conjunto de medidas adotadas no final de dezembro de 2012 permitiu que tais operações se con- cretizassem: a Medida Provisória n.5 bilhões. eram vistos como necessários para o andamento do PAC. como o de máquinas e equipamentos (pela compra de 3. enquanto para outros setores. segundo o Ministério da Fazenda).a. estimulando igualmente alguns setores industriais. contou com a ajuda de operações contábeis atípicas. a cobrança de alíquotas reduzidas foi garantida até o final de 2012 e. de veículos (com a aquisição de 8 mil caminhões. A questão que permanentemente se coloca é a dificuldade de executar investimentos ancorados em recursos do Orçamento Geral da União. Essas operações27 27. No final de agosto de 2012.6 bilhões.43 bilhões. da arrecadação de Imposto de Renda e da Contribuição Social sobre Lucro Líquido (CSLL) (em R$ 586 milhões.6 bilhão) e 2013 (R$ 3.9 bilhões). O resultado primário da União da ordem de R$ 86.1 bilhões. vender recebíveis da Usina de Itaipu ao BNDES (cujo pagamento foi feito com ações de empresas privadas cotadas em bolsa) e ampliar os subsídios associados ao PSI. beneficiando diferentes setores. Em junho de 2012.7 mil ônibus para o Programa Caminho da Escola. A expectativa do governo era que contribuiriam para que o investimento público avançasse. de 8.5% a.. até o final de 2013. foram anunciadas a prorrogação e a definição de novas renúncias fiscais. pro- grama de compras governamentais para o qual estão previstos R$ 8. o governo federal divulgou o PAC Equipamentos. criou-se a possibilidade de acelerar (de 48 para 12 meses) a depreciação de determinados bens (caminhões e vagões). da taxa de juros cobrada no PSI.1 mil ambulâncias e de 3 mil tratores). compras governamentais adicionais (por não estarem previstas no Orçamento) equivalentes a R$ 6. juntamente com a redução.6 mil retroescavadeiras e de 1. O pacote incluiu. de medicamentos (R$ 6 bilhões em vacinas e medicamentos).33 mil motoniveladoras). mas com dificuldades de pagar seus compromissos. 7. ainda. A redução do IPI do setor automotivo foi prolongada para o final do mês de outubro. de 40 blindados e 30 lançadores de mísseis para as Forças Armadas. que fornecem parte dos equipamentos. num total de R$ 5. o que a levou para patamares reais nega- tivos. o Decreto n. divididos entre os anos de 2012 (R$ 1.880 autorizou o aumento de capital da Caixa Econômica a economia brasileira no contexto da crise global 69 .

o BNDES. A capitalização dessas ins- tituições foi realizada. estados. além do resultado do Banco Central e das empresas estatais (das três esferas de poder). mas também cresceram os créditos do governo (os empréstimos às instituições financeiras oficiais contabilizavam 6. desde o aprofundamento da crise internacional em 2008. assim como a antecipação do pagamento de dividendos ao governo. Setor público consolidado considera o esforço fiscal da União (Tesouro Nacional e Previdência Social). no início de 2011. o Tesouro emitiu títulos de dívida que foram posteriormente transferidos aos bancos públicos. com o aumento da participação dos compromissos indexados a índices de preços e a juros prefixados e a queda da participação da Selic como indexador. 70 a economia brasileira no contexto da crise global . . por meio de créditos do Tesouro. a dívida líquida do setor público foi re- duzida de 39%. BARROS e AFONSO. implicando menor comprometimento com o pagamento de juros da dívida30. ajuda a arrefecer esse efeito positivo. municípios.881 permitiu que o Fundo Soberano vendesse suas ações da Petrobras para o BNDES (autorizado desde 28 de dezembro a declarar “dividendos intermediários”). que chegou a 2. essas operações não são isentas de efeitos negativos sobre as finanças públicas. De fato.4% do PIB. Na prática. no final de 2012. uma vez que a taxa de juros que remunera os empréstimos aos bancos públicos (geralmente TJLP) é menor do que aquela que o Tesouro deve pagar (Selic). entretanto.175. Segundo Oreng (2013). do Conselho Monetário Nacional. No longo prazo. a dívida bruta aumentou (de 53. A análise do poder indutor da política fiscal sobre a economia tem mostrado que o estado de expectativas em que o mundo e o Brasil estão inseridos exige Federal por meio de ações da Petrobras e de outras empresas de capital aberto (tais ações tinham sido recebidas pelo Tesouro do BNDES em troca dos recebíveis de Itaipu). o re- sultado primário do setor público consolidado29 de 2012. em 2010. seria apenas de 1. excluídas as receitas não recorrentes. em 2012).2% em 2012).4% do PIB. contudo. A mudança na composição da dívida. 2011. o Decreto n. a Caixa Econômica Federal e o Fundo Soberano do Brasil28. de forma a reforçar contabilmente seu resultado primário. Ademais. na segunda metade de 2011 e em 2012.8% do PIB em 2010 e 9. também contribuíram para a adoção de uma política fiscal anticíclica. e a Resolução n.7%. Denominado oficialmente de Fundo Fiscal de Investimentos e Estabilização. 29. 30. 28. resultantes dessas operações atípicas. a título de concessão extraordinária de empréstimo. exceto Petrobras e Eletrobras. 2013). o suporte financeiro a um dos aspectos-chave da política anticíclica brasileira: a expansão do crédito. 4. o esforço fiscal de 2011 e a trajetória de queda da taxa básica de ju- ros. para 35%. autori- zou o BNDES a não abater de seu lucro as perdas obtidas com a queda do valor de mercado das ações de empresas como a Petrobras e a Eletrobras (AFONSO. Dessa forma. 7. para 58. A dinâmica da dí- vida líquida não capta.8% do PIB. envolveram a troca de ativos financeiros públicos e privados entre a Secretaria do Tesouro Nacional.

estabilidade financeira e competitividade externa). Teixeira e Pinto (2012). sobretudo do setor industrial. dentre os quais os controles de capi- tais. assim. o que sugere certo grau de pragmatismo nas decisões das auto- ridades econômicas. Mesmo não tendo eliminado os conflitos potenciais entre seus múltiplos objetivos (con- trole da inflação. O ambiente de maior regulação dos fluxos de capitais e dos derivativos cam- biais ampliou o grau de autonomia das políticas monetária e cambial. verifica-se que em apenas 18 deles a expansão do PIB superou o percentual de 5% em bases anuais e.políticas anticíclicas de corte distinto das habituais. A trajetória do PIB relaciona-se. Elevação de investimento orçamentário e desonerações em bens de consumo podem ter impactos exíguos e apenas temporários. 32. que se fossem perseguidas resultariam na retração do nível de atividade e em desemprego. melhor coordenação e harmonização das políticas monetária. houve alterações significati- vas na gestão dessa política. O esgotamento das medidas de política fiscal características do período 2008/2009 fica patente na análise da fragilidade do comportamento do nível de atividade recente. a economia brasileira no contexto da crise global 71 . A indústria continua desempenhando um papel bastante relevante na economia brasileira32. o arsenal de 31. Para uma discussão sobre o papel da indústria na economia brasileira. os mecanismos de regulação financeira prudencial e dos derivativos cambiais e a maior utilização da política creditícia e tributária. Constataram-se. regime de câmbio flutuante e metas de superávit primário). Ver. por exemplo. a esse percentual. Balanço e perspectivas Embora o governo Dilma no seu primeiro biênio tenha mantido o mesmo tripé de política macroeconômica vigente desde 1999 (meta de inflação. ver capítulo 6. ou ficou próximo. observou-se uma menor aderência ao cumprimento estrito das metas do tripé. na qual os interesses da indústria ganharam importância ante os interesses estritamente fi- nanceiros. o crescimento da indústria superou. diretamente com os resultados da indústria de transformação: na comparação de 80 trimestres (entre o primeiro trimestre de 1993 e o quarto trimestre de 2012). Esse processo foi ocorrendo de forma gradual. em 2011 e 2012. com am- pliação do leque de instrumentos utilizados. cambial e fiscal e maior flexibilidade nessa gestão. que parecem estar relacionadas à evolução do cenário externo e à mudança na correlação de forças31 que apoia o governo. em todos esses períodos. Em resposta às vicissitudes da conjuntura econômica de bai- xo crescimento.

contudo.00 a R$ 2. a queda dos preços de várias commodities (com exceção dos grãos. e dados os efeitos insatisfatórios dos estímulos fiscais adotados no segundo semestre de 2011(desonerações em um ambiente de forte incerteza e expectativas empresa- riais pessimistas. a ges- tão contracionista das políticas fiscal e monetária (entre maio de 2011 e julho de 2011) parece ter sido excessiva. comprometendo o novo objetivo da política cambial: a manutenção da competitividade externa. De qualquer forma. o BCB mudou a direção da política monetária. contribuindo para a maior eficácia dessas políticas e da política econômica de forma geral.10 por dólar. a manu- tenção dessa taxa de câmbio num patamar mais competitivo é fundamental para conter a invasão de bens importados num ambiente de acirramento da busca por mercados externos. valen- do-se do contexto internacional de taxas de juros em patamares baixíssimos e da tendência de redução dos preços das commodities. Assim. A expectativa era que as medidas de estímulo à demanda interna e as condições mais favoráveis para o investimento 72 a economia brasileira no contexto da crise global . sobre as exportações. além da ampliação das desonerações fiscais. instrumentos regulatórios funciona como um filtro da volatilidade do contexto financeiro internacional. Ao mesmo tempo. A partir de agosto 2011. como o estímulo ao investimento público pelos estados e o aumento dos gastos públicos por meio de compras governamen- tais. devido a quebras de safras. O governo. contribuiu para o desliza- mento da taxa de câmbio até o intervalo de R$ 2. sobretudo. a nova onda de deterioração da crise na área do euro. No âmbito da política fiscal. da taxa de câmbio mais competitiva. No que diz respeito ao desempenho do investimento e do crescimento. bem como para tornar atrativos os investimentos em setores tradables (precondição para a retomada sustentável das exportações num contexto de recuperação da demanda externa). embora a instabilidade do contexto internacional torne ainda mais difícil acertar a dosagem de medidas restritivas e/ou expansivas. agiu com presteza no início do segundo semestre de 2011. sobretudo nos Estados Unidos) e o arre- fecimento da demanda externa reduziram o impacto. o governo acionou outros instrumentos. coordenando a condução das políticas macroeconômicas no sentido de estimular a economia. ironicamente. ao lado da queda da taxa Selic e da sinalização do governo brasileiro de que evitaria um novo movimento de apreciação cambial (mediante a intensificação dos controles de capitais e intervenções cambiais). Contudo. as mudanças nesse contexto ao lon- go do período em tela também auxiliaram as políticas monetária e cambial na perseguição dos seus objetivos. em decorrência. a partir de março de 2012. do cenário internacional adverso).

foi também promovida mudança na forma como se articulava a presença do Estado nas áreas essenciais de logística e infraestrutura. essa aceleração inflacionária. No segundo semestre de 2012. Mudanças nas regras de concessão e de remuneração de alguns setores. e o pass-through da desvalorização cambial de 2012 explicam. no acumulado em 12 meses. inclusive. a demanda externa mais fraca e o acirramento da concorrência internacional –.produtivo pudessem dar início a uma nova fase de crescimento econômico. Sobre a evolução da inadimplência nesse período. Era de se esperar que os efeitos de medidas nessa direção fossem menos expressivos. soma-se um ambiente de maior incerteza. mas serviu para explicitar os limites da estratégia governamental de estimular a demanda. de elevar os preços dos derivados de 33. a economia brasileira no contexto da crise global 73 . Também importante foi a decisão do governo. também contribuíram para a baixa eficácia das medidas de es- tímulo. A esses fatores. tais como o de energia elétrica. Tal ambiente foi resul- tado não apenas das avaliações sobre a evolução das demandas interna e externa. ver capítulo 4. mas possivelmente também da própria ação do governo. O crescimento do PIB. o limite superior da meta de inflação. levando o IPCA. nos anos anteriores. Esse desempenho deveu-se a uma conjunção de diferen- tes fatores – dentre os quais pesaram. que apontavam para algo em torno de 4%. sobretudo de bens duráveis. No que diz respeito à evolução dos preços. A aceleração da inflação no segundo semestre de 2012 e o elevado endividamento das famílias. em março de 2013. O diagnóstico por traz dessa perspectiva era de que a economia brasileira passava por uma quebra da confiança dos empresários diante do esgotamento dos vetores que a impulsionaram após a eclosão da crise de 2008. as pressões inflacionárias verifica- das no segundo semestre de 2012 estenderam-se até o início de 2013. a superar. À medida que anúncios de desoneração fiscal para determinados setores passaram a integrar o modus ope- randi da política econômica. de apenas 0. alguns empresários podem ter preferido adiar seus projetos e intensificar as pressões sobre o governo com o objetivo de obter algum benefício fiscal. também ajudaram a minar a confiança dos empresários. dado o forte crescimento. em 2012. A elevação dos preços de alimentos. condicionado pela seca nos EUA e no Brasil.9% ficou bastante abaixo das expectativas do Ministério da Fazenda para aquele ano. do consumo. em boa medida. cuja inadimplência manteve-se em patamar considerado elevado pelos bancos33. no qual as empresas devem tomar suas decisões de produção e investimento. em janeiro de 2013.

óleo. mantida em 7. manteiga. 605).25% para 0%. todavia. A alíquota de PIS/Cofins de carnes. a usar a apreciação cambial como instrumento auxiliar de combate à inflação. açúcar e papel higiênico foi reduzida de 9. 609) e IPI (Decreto-lei n. de elevar a competitividade do produto nacional. Em março de 2013. Essa decisão contribuiu.25% a. petróleo. A taxa Selic foi. 2013). para que não fos- se abortada a frágil aceleração do crescimento econômico. café. ao menos naquele momento.10 para R$ 1. avolumaram-se as pressões exigin- do a ratificação do compromisso do BCB no combate à inflação. reconhecidos pelo governo fe- deral. vários itens34 da cesta básica foram isentos de tributos federais. quando o real (e a maioria das moedas emergentes) voltou a se depreciar em relação ao dólar – devido às estratégias de recomposição das carteiras pelos 34. no mesmo mês. contornado graças à inversão da tendência verificada na taxa de câmbio a partir do final de maio. Se as medidas de desoneração fiscal e a manutenção da taxa básica de juros sugeriam que havia uma coordenação entre o Ministério da Fazenda e o Banco Central. também passou a vigorar a redução das tarifas de energia elétrica (Medida Provisória n. A de pasta de dentes e sabonete passou de 12. ainda que nem todas elas tivessem como principal objetivo desacelerar a inflação. que geralmente ocorre no mês de janeiro. Esse aparente conflito no âmbito da política cambial foi. O governo federal também conseguiu que as prefeituras de São Paulo e do Rio de Janeiro se comprometessem a postergar o reajuste do preço dos trans- portes. a evolução da taxa de câmbio do real sinalizava o agravamento dos di- lemas da política macroeconômica.5% para 0%. A autoridade monetária contou. Entre novembro de 2012 e março de 2013. tais como PIS/Cofins (Medida Provisória n. voltando. Também foi zerada a alíquota de IPI sobre açúcar e sabonete (que era de 5% antes da isenção) (DIEESE. até o final de março de 2013.a.947). Assim. O reajuste dos preços de derivados de petróleo. e de promover a recuperação da indústria. ficou abaixo das expectativas do mercado. 7. Esse adiamento acabou se trans- formando na suspensão do reajuste diante das manifestações populares de meados de 2013.95). Esse movimento contrapunha-se aos objetivos. com o auxílio de medidas do Ministério da Fazenda. devido às condições financeiras e operacionais fortemente debilitadas da Petrobras. em janeiro de 2013. Esses fatores cíclicos somaram-se a uma inflação de serviços e de bens não comercializáveis resistente à queda. então. iniciada no último trimestre de 2012. tanto no mercado domés- tico como no mercado internacional. para tanto. 74 a economia brasileira no contexto da crise global . o BCB deixou o real se valorizar (a taxa de câmbio passou de R$ 2. contudo.

recentemente. Ainda que a gestão do atual regime de política macroeconômica consiga su- perar seus próprios desafios. isso não garante que a economia brasileira ingresse numa trajetória desejável de desenvolvimento econômico. Em abril de 2013. reduzindo a eficácia da política macroeconômica no sentido de estimular o investimento privado. quais sejam: (i) a excelência nos serviços. o governo trouxe para o primeiro plano o equacionamento da questão inflacionária – já que a própria aceleração dos preços de alimentos ceifou parte importante do poder de compra da nova “classe média”. de defender que houve abandono do crescimento eco- nômico a taxas mais elevadas como objetivo da política macroeconômica. sensível a essa última dimensão. O governo mostrou-se. como em 2009 e 2010. em que o combate à inflação retornou ao topo das prioridades do governo. os gargalos na infraestrutura econômica continuam li- mitando a capacidade de crescimento do país e. por exemplo. assim. após o presidente do Fed. que procurava compatibilizar objetivos antagônicos. (ii) menores preços cobrados pelos serviços prestados. tornando-os mais atrativos ao setor privado. o IPCA. Diante do seu evidente malogro. nesse contexto. como os que fazem parte da chamada “economia ver- de”. naquele momento.investidores internacionais. Embora essa questão ainda não tenha sido enfrentada de forma satisfatória. Não apenas a aceleração do índice oficial de inflação. e (iii) menor valor no custo dos investimentos. Abriu-se. que. diante da conjuntura e dos dilemas enfrentados por essa política. mas também a difusão desse aumento de preços pelos itens que o compõem jus- tificaram a decisão da autoridade monetária. o Inova Empresa e os a economia brasileira no contexto da crise global 75 . o governo federal aceitou elevar a rentabilidade desses serviços. o Copom deu início a uma nova fase de elevação gradual da taxa básica de juros. mas que. entendida como cres- cimento sustentável com distribuição de renda e inclusão social. não respondeu aos estímulos oferecidos pelo governo. com a elaboração de vários programas. como. ancorado no mercado interno e sob liderança dos investimentos – não somente em setores tradicionais da indústria e de infraestrutura. Não se trata. sinalizar que a desaceleração da política de afrouxamento quantitativo poderia ter início ainda em 2013. o governo reviu a estratégia até então utilizada nas licitações e concessões. Nessa nova fase. um novo período da gestão macroeconômica. Ben Bernanke. mas também em setores de ponta em termos tecnológicos. aqui. O episódio ilustra as limitações impostas à estratégia de flexibilização do regime de política macroeconômica ain- da vigente no Brasil.

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A próxima seção dedica- se à inserção comercial. CAPÍTULO 3 A Inserção Externa do Brasil no Contexto da Crise Global Daniela Magalhães Prates Carolina Troncoso Baltar Marina Sequetto Introdução O contexto da crise financeira e econômica global. rendas e transferências unilaterais). Nas considerações finais. dentre os quais se destacam a política macroeconômica e os instrumen- tos de gestão dos fluxos de capitais. teve implicações significativas na dinâmica do setor externo brasileiro. ver Biancareli (2012). o acirramento da concorrência nos mercados internacional e doméstico de bens manufaturados e os recorrentes episódios de aprofundamento e alívio da crise na área do euro. os push factors). são analisados os indicadores de vulnerabilidade externa da economia brasileira no período em tela. a recuperação double-speed sob liderança da China em 2009 e 2010. 1. analisado no capítulo 1. Além desses fatores externos (em inglês. enquanto a inserção financeira (do ponto de vista dos flu- xos líquidos de capitais) é examinada na seção seguinte. Para uma análise da evolução dos demais componentes da conta corrente (serviços. O objetivo desse capítulo é analisar a inserção externa do país. no quadriênio 2009-20121. nas suas dimen- sões comercial e financeira. a economia brasileira no contexto da crise global 79 . alguns fatores internos (os pull factors) também condicionaram essa dinâmica. A resposta inédita da política anticíclica (sobretudo monetária) adotada pelos países avan- çados. afetaram a dinâmica dos fluxos de capitais e comerciais entre o Brasil e o exterior. em 2011 e 2012.

80 a economia brasileira no contexto da crise global . Esse constituiu o primeiro recuo verificado desde 2002.7%. respectivamente. de dois fatores: (i) dos estímulos resultantes das desvalorizações cambiais (de 1999. em relação ao desempenho registrado no biênio anterior. respectivamente) (Gráficos 1 e 2).2% e -22.6%) foi determinado pela maior retração das importações vis-à-vis às exporta- ções (-26. A tendência obser- vada nos primeiros quatro meses após o aprofundamento da crise (de outubro de 2008 a janeiro de 2009) – de deterioração do saldo comercial. 2001 e 2002). Sobre o desempenho do comércio exterior brasileiro de 2003 a 2007. Em 2009. ao longo de 2009. Prates (2009). em termos de volume e de preços (principalmente. após 2003. Baltar e Almeida (2007). Em 2008. respectivamente). Hiratuka. pela maior retração das exportações do que das importações – não se sustentou. Com a eclosão da crise financeira internacional. de US$ 24.8 bilhões e US$ 25. Enquanto os valores das vendas e das compras externas atingiram recordes históricos. e (ii) do crescimento do comércio mundial. A inserção comercial Em 2007. mostrou retração de 13% em relação aos valores de 2006. apesar de ainda elevado. US$ 161 bilhões e US$ 121 bilhões. vários mecanismos de transmissão da crise converteram-se em fatores de estímulo às exportações (principalmente a inversão da trajetória dos preços das commodities). embora os resulta- dos de 2008 e 2009 sejam próximos em termos de valores. o pequeno avanço do superávit (de 1.2%. o comércio exterior brasileiro foi superavitário em US$ 40 bilhões. ano imediatamente anterior à crise.9 bilhões). ver Prates (2006). dois pilares do Plano Real).3 bilhões. ao mesmo tempo em que a recuperação da atividade econômica doméstica e a apreciação do real impulsionaram as importações. seus determinantes foram distintos. sobretudo no 2. Os superávits acumulados a partir de então resultaram. O saldo comercial brasileiro sofreu forte deterioração em 2008 e 2009. Todavia. após um longo período (de 1995 a 2001) de déficits sucessivos (decorrentes da combinação de apreciação real da moeda doméstica e do aprofundamento da abertura comercial. próximos ao patamar alcançado em 2003. o recuo de 37. como resultado de exportações e impor- tações de. Isso porque. esse quadro se reverteu. relativamente às exportações (43. sobretu- do. Esse movimento indica que os impactos da crise global sobre o comércio ex- terior brasileiro alteraram-se na passagem de 2008 para 2009. quando a balança comercial brasileira tornou-se novamente superavitária. das commodities)2.4% e 23.7% do superávit comercial decorreu do maior ritmo de crescimento das importações. o sal- do. mas ainda se manteve positivo (su- perávits de US$ 24. respectivamente.

pois. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Exportações. em 2009. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Gráfico 2. Exportações. segundo semestre. Contudo. no segundo semestre. o efeito líquido da crise sobre a balança comercial. a queda das compras foi maior do que a das vendas externas. Gráfico 1. o perfil da pauta exportadora (concentrada em commodities) contribuiu para atenuar o impacto negativo da crise sobre a balança comercial. a economia brasileira no contexto da crise global 81 . Assim como em 2008. importações e saldo – Variação em relação ao ano anterior (em %) 60 48 43 42 40 32 32 27 24 23 17 20 1 0 -1 -5 -20 -14 -20 -23 -26 -40 -35 -38 -60 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Exportação Importação Saldo Fonte: MDIC. importações e saldo em U$ bilhões 300 256 243 250 226 223 198 202 200 182 173 161 153 138 150 121 128 91 100 46 40 50 25 25 30 20 19 0 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Exportação Importação Saldo Fonte: MDIC. foi positivo (embora em menor intensidade do que a observada no primeiro semestre).

Para uma análise detalhada do efeito-contágio da crise sobre o comércio exterior brasileiro.0 jun./ 11 dez./ 09 jun.5%. a abrupta redução da atividade econômica doméstica4 foi o principal determinante da forte 3. De acordo com os cálculos de Gregory et al. que desestimu- lou as compras no exterior e contribuiu para a maior queda das importações relati- vamente às exportações em 2009 (já que os contratos de importação e exportação antecedem os embarques num prazo médio de seis meses). no período recente.0 14 ./10 jan.0 -16 . associado à recuperação das economias emergentes3. 82 a economia brasileira no contexto da crise global .0 26 ./ 07 dez./ 12 jun. Índice de demanda externa efetiva: variação % em relação ao índice no mesmo mês do ano anterior 32 .0 -10 . Seu impacto sobre as exportações brasileiras trans- parece na taxa de variação do índice de demanda externa efetiva (Gráfico 3)./06 jun./08 jun. Ver capítulo 6. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Contudo./ 07 jun. ver Prates. que atingiu o fundo do poço em maio de 2009 e iniciou um lento movimento de alta somente em junho. Cunha e Lélis (2011)./10 jun. o volume do comércio glo- bal recuou 17.0 -28. O segundo mecanismo de transmissão da crise sobre a balança comercial foi a depreciação real da moeda brasileira no final de 2008 (Gráfico 5). 4. das redes de suprimento global (comércio intrafirmas) e do crédito comercial./ 11 dez. que amplificaram os efeitos da queda da produção industrial e da contração da liquidez internacional sobre o comércio mundial (Gráfico 4)./06 dez.0 8. após a falência do banco Leh- man Brothers (Gráfico 3)./ 09 dez.0 2. O primeiro mecanismo de transmissão refere-se à abrupta contração da de- manda externa quando a crise tornou-se sistêmica.0 20./ 08 dez. (2012).0 -4. entre setembro de 2008 e janeiro de 2009. o que levou alguns analistas a denominarem esse período de great trade collapse devido à maior importância./12 dez. A queda foi sincro- nizada e muito mais intensa do que a registrada em outros momentos de recessão mundial./06 Fonte: Funcex.0 -22 . Gráfico 3.

Elaboração: Grupo de Economia / Fundap./2003 = 100) 80 60 40 jul/06 jul/07 jul/08 jul/09 jul/10 jul/11 jul/12 jan/06 jan/07 jan/08 jan/09 jan/10 jan/11 jan/12 dez/12 Cesta de 13 moedas* (R$/Cesta de 13) Estados Unidos (R$/Dólar) Fonte: Funcex.5 0.2 10.6 -15. respectivamente). principalmente.0 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Fonte: FMI.0 12. Volume do comércio mundial de bens e serviços: variação % em relação ao volume verificado no ano anterior 15. Esse comportamento reflete o fato de a pauta impor- tadora brasileira ter-se concentrado em bens industrializados de maior conteúdo tecnológico. da queda das quantidades importadas.0 8. embora tanto as exportações como as importações tenham alcan- çado cifras recordes (US$ 202 e US$ 182 bilhões. com elevada elasticidade-renda – ou seja. Gráfico 4. contração do valor das importações.5 9.0 -5.0 3. cujas importações guardam alta correlação com a evolução da demanda doméstica. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.0 -10. o superávit a economia brasileira no contexto da crise global 83 . Em 2010.0 6.0 5. Gráfico 5. sobretudo do investimento e do consumo de bens duráveis (conforme analisado na próxima seção). em decorrência. Índice de taxa de câmbio efetiva e bilateral (base: dez.0 -10.1 2.

Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Esse movimento decorreu do di- namismo do mercado interno. 2. num contexto de forte crescimento da economia brasileira. os preços das commodities iniciaram um novo movimento altista.3 5 3.2%) (Gráfico 9).6 2.4 -5 -5.1 0 -2. Ou seja. do patamar apreciado da moeda brasileira e do acirramento da concorrência no mercado internacional de produtos industriais num contexto de baixo dinamismo nos países avançados. Para maiores detalhes. ver Prates (2011).2 bilhões) em decorrência do crescimento mais expressivo das compras em relação às vendas externas.9 5. A diferença desse ritmo de expansão não foi maior em função da evolução favorável dos preços das commodities5. condicio- nado tanto por fatores estruturais (subjacentes do boom de preços anterior à crise global) – financeirização do mercado de commodities e desequilíbrios entre a oferta e a demanda (associados ao efeito-China e à crescente utilização de cereais na produção de biocombustíveis. dada a elevada participação desses produtos na pauta exportadora brasileira. de desaceleração da de- manda externa e de continuidade da trajetória de apreciação cambial (Gráficos 1.9 15 10 7. Gráfico 6. dentre outros fatores) –. No caso das importações. que deu impulso adicional aos preços das exportações e aos termos de troca da economia brasileira (Gráficos 6. Indicador de termos de troca: variação % em relação à variação no ano anterior 20 15.8 -10 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Fonte: Funcex. como por fatores conjunturais. 3 e 5). quais sejam: a política monetária anticíclica nos países avançados e a rápida superação do efeito-contágio pelas economias emergentes. a principal causa do seu expressivo aumento foi a variação do quantum (+33. comercial foi 20% inferior ao de 2009 (US$ 20. 84 a economia brasileira no contexto da crise global . 7 e 8). grande parte do impacto favorável da política tributária e da expansão do crédito sobre a de- 5. No primeiro trimestre de 2009.

As consequên- cias adversas desse processo de forte penetração das importações já transparecem.5 2.3 16. Gráfico 8.3 -22. atualmente. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.2 9. 6.8 23. Índice de preços das commodities 400 350 300 250 200 150 100 50 0 5/1/2004 5/1/2005 5/1/2006 5/1/2007 5/1/2008 5/1/2009 5/1/2010 5/1/2011 5/1/2012 5/1/2013 Todas Commodities Matérias-primas Industriais Alimentos Óleos & Gorduras Têxteis Metais Petróleo (WTI) Fonte: Bloomberg.3 2.7 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Valor 32.6 5.3 16. a economia brasileira no contexto da crise global 85 .9 10. Ver capítulos 5 e 6.7 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Fonte: Funcex. na indústria brasileira6.6 -5.2 1. quantum e valor das exportações (variação % acumulada no ano) Preço Quantum 19.0 26. Gráfico 7.4 -0. Índices de preço.5 -10.2 16. manda doméstica vazou para o exterior por meio das importações.6 0.5 16.5 3.3 -2.

1 -16.9 8. Essa inversão no ritmo de crescimento das vendas e compras externas de- correu de uma conjunção particular de fatores externos e internos.7% e 21.5 -1. um avanço de 48% em relação ao verificado no ano anterior e o maior superávit desde 2007 (US$ 34. mas se mantiveram em patamares acima dos valores observados no período pré-crise (Gráfico 7).7 6.0 16. Índices de preço.2% 86 a economia brasileira no contexto da crise global . impediu uma forte queda nas cotações desses bens.1 24. cifras 27% e 24% superiores às registradas em 2010.0 14. Gráfico 9. sinalizando uma mudança de padrão em relação a 2010.8 37. Esse superávit foi impulsionado pelo maior ritmo de crescimento das exportações relativamente às importações (24.4 42.9 8.4 bilhões) (Gráficos 1 e 2).9 0.9 -2. que rever- teram sua trajetória ascendente em meados do segundo trimestre de 2011.9 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Valor 43.1%.3 32.1 17.1 24. No caso das exportações.3 -11. esse contexto. assim como choques de oferta agrícola (IMF.8 milhões.2 3.4 -26. a desaceleração dos países desenvolvidos destaca-se como fator redu- tor do mercado global no período. que contribuiu para sustentar a demanda externa por exportações brasileiras.3 22. o comércio exterior brasileiro registrou números ainda mais im- pressionantes do que em 2010: as exportações atingiram US$ 252 bilhões e as importações US$ 226 bilhões. os preços das exportações brasileiras aumentaram 23. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Com isso. Dessa forma.2 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Fonte: Funcex. Em 2011. tendência que foi parcialmente compensada pela sustentação de maiores taxas de crescimento nas economias emergentes. sobre- tudo de commodities (Gráfico 3). respectivamente). 2012) e posições especulativas nos mercados de derivativos de commodities. quando as importações cresceram mais do que as exportações (Gráfico 2). o saldo comercial atingiu a marca de US$ 29. quantum e valor das importações (variação % acumulada no ano) Preço Quantum 21. Ademais.

3%). decorrente. Vale lembrar que há sempre uma defasagem temporal entre as variações cambiais e a resposta das quanti- dades exportadas (devido aos prazos dos contratos de exportação e importação. como o Brasil. a economia brasileira no contexto da crise global 87 . Ver o capítulo 1. que variam de seis meses a mais de um ano. 10. e o quantum permaneceu estagnado (0.7% em termos reais efetivos. do estímulo às compras externas. Diante da maior retração das exportações relativamente às importações. o resultado líquido desses fatores em 2012 foi negativo: os preços caíram 4. após dois anos consecutivos de apreciação) sobre a balança comercial ao longo de 20129 foi atenuado pela intensificação da desacele- ração double speed nos países avançados (com recessão em algumas economias da área do euro) e nos países emergentes. so- mente os preços de alguns grãos e alimentos sustentaram a trajetória altista.9%. No mercado de commodities. o primeiro recuo desde 2009. Já o recuo do valor importado foi um pouco menor devido ao avanço de 0. contribuiu para a queda das cotações dos metais e do petróleo (também associada ao aumento da produção de petróleo nos Estados Unidos). O impacto positivo da depreciação do real no segundo semestre de 20118 (de 6. No entanto. o menor nível de ati- vidade global.9% dos preços. e ao tempo necessário para alterar fornecedores. ver capítulo 2. resultando em alta de 7. em função das quebras de safra provocadas por choques climáticos (IMF. o superávit comercial atingiu o menor 7. somado à volatilidade financeira internacional10. o que explica a retração de 5% nas vendas exter- nas em 2012 (em relação aos dados do ano anterior) (Gráficos 1 e 2). A melhora dos termos de troca contribuiu para atenuar o impacto adverso da apreciação do real sobre o saldo comercial (Gráfico 5). o efeito inibidor da depreciação cambial resultou numa queda de 2. para o avanço no valor das vendas externas (Gráficos 6 e 9). 8. devido ao desaquecimento da economia. sobretudo.4% dos termos de troca e contribuindo. o aumento das importações foi muito mais tímido do que no ano anterior. não tendo sido mais intensa devido à forte concorrência entre os países exportadores de produtos manufaturados.(a maior variação após a crise de 2008). Além do seu efeito adverso sobre a demanda externa. decisivamente. No caso da importação. especialmente pela desaceleração da demanda interna por bens de capital7. 9. 2012a e 2012b). que lutam para ampliar suas fatias de mercados nas economias emergentes com demanda interna dinâmica. No caso das exportações brasileiras. Sobre os determinantes da depreciação do real a partir de agosto de 2011.3% do quantum importado (Gráfico 9). assim como a outros fatores). Ver capítulos 5 e 6.

139.87.39 117. fundamentalmente.07 2012 106.71.33 29.87.59 118. exportação e importação de commodities primárias e não commodities.09 165.635.107.08 19. Essa fase se estendeu da falência do banco Lehman Brothers.42 94.39. como do déficit com bens não commodities.217. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.041.332.769.29 135.557. tanto do superávit em commodities primárias.173.347.475. das commodities) e sobre a demanda externa por produtos brasileiros12 (Tabela 1).14 77.652. foi um fenômeno conjuntural decorrente do efeito-contágio da fase mais aguda da crise11 sobre os preços (sobretudo.339.268.320. patamar do período 2009-2012 (US$ 19 bilhões).37 2011 116.05 113.243.33 95.81 84.686. Tabela 1.17 2007 53.73 . a trajetória ascendente observada no período anterior à eclosão da crise financeira e econô- mica global.948.686. que retomou.544.327.768.549.80 25. reduzindo o saldo comercial total do país.36 10.13.09 24. Todavia. em 15 de setembro de 2008.55 11. ao primeiro tri- mestre de 2009 (fundo do poço da recessão nos países avançados). Sobre o efeito-contágio da crise sobre o setor externo brasileiro.32 17.833. Assim. Sobre as fases dessa crise.973.21 .600.500.430.658. com queda de 35% com rela- ção ao percentual verificado no ano anterior.485. mas num ritmo ainda maior. analisa-se. (em US$ milhões) Saldo Comercial Commodities Primárias Não Commodities Período Commodi. ver capítulo 1.58 2009 64. Cunha e Lélis (2009).90 . Para avançar na compreensão da dinâmica do comércio exterior brasileiro no contexto da crise.973.41 53.11 82.745. ver Prates.41 75. o perfil da balança comercial brasileira por intensidade tecnológica. 11.65 103. o déficit do conjunto dos demais produtos da pauta comercial brasileira (registrado a partir de 2007) também aumentou a partir de 2010. Balança comercial por intensidade tecnológica Um estudo mais detalhado da balança comercial brasileira revela que seu su- perávit tem sido preservado.22 .62 83.154. devido ao saldo positivo do co- mércio exterior de commodities primárias.795. 12.294.726.94 46.22 40.93 .028.949.28 16.54 2008 69. em 2010. 88 a economia brasileira no contexto da crise global .46 1.97 18.32 108.010.08 9.402.838.65 123. Saldo comercial.35 14.19 2010 88.811.46 206. a pequena retração. a seguir.73 207.789.463.95 15.63 .49 157.34 120.897.103.346.831.53 Fonte: United Nations Commodity Trade Statistics Database (UN Comtrade).44. apesar do crescimento considerável do superávit comercial com commodities primárias.00 65. Não Total Exportação Importação Exportação Importação ties Primárias Commodities 2006 44.962.

7% maior do que a de 2008. a China intensificou. por exemplo.78 30.40 10. que tem sustentado a demanda mundial por energia. Além disso. China e Resto do Mundo.96 2. Exportação de commodities primárias por região de destino Participação Crescimento Médio Região 2006-2008 2010-1012 2006-2008 2010-2012 Aladi 2.7% na mesma base de comparação). quando as exportações de não commodities primárias avançaram 34.11 5. Consequentemente. Mercosul. no contexto da crise financeira global. Esse superávit.62 37. A exportação de não commodities primárias em 2012. Os dados do período 2010-2012 são comparados com os dos anos 2006-2008. A Tabela 2 mostra o destino das exportações brasileiras de commodities pri- márias. para avaliar se houve mudança no destino das exportações de commodities primárias entre os dois períodos (antes e após a eclosão da crise global).70 4.83 Ásia-China 12.48 5.67 4.32 Ásia 25. Apesar desse crescimento.56 7.97 26. quase que do- brou entre este ano e 2012 (aumento de 96. que já foi muito expressivo em 2008. alimentos e outros insumos primários (FUNDAP.51 23. como salientado por Cunha. como: Aladi. em especial da China.42 China 13. está diretamente associado à manutenção da trajetó- ria de crescimento dos países emergentes nos últimos anos.76 66.23 24.94 Resto do Mundo 26.62 Mercosul 2. o saldo comercial brasileiro total ainda se mantém positivo devido ao expressivo superávit com commodities primárias. O aumento do déficit com bens não commodities decorreu do maior cresci- mento das importações em relação às exportações (Tabela 1).94 Fonte: UN Comtrade. o déficit do comércio exterior com produtos que não são commodities primárias.48 24. Nafta.5% das importações desses bens.45 2. Lélis e Bichara (2012). Ásia menos China.21 19. percentual bem menor do que o registrado na importação de não com- modities primárias (alta de 30. foi apenas 5. 2011) e contribuído para a alta dos preços desses bens. a economia brasileira no contexto da crise global 89 . como uma estratégia para compensar a perda de dinamismo nas regiões centrais.33 14.17 Nafta 8.1%). O mesmo se verifica entre 2006 e 2008.67 13. por sua vez.95 39.83 44.9% em relação ao crescimento de 91. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. União Europeia. como já foi observado.63 2.79 13.29 25. sua presença na periferia capitalista.05 15. separando as regiões em grandes blocos econômicos. Tabela 2.40 União Europeia 33.

Para analisar as exportações e importações dos produtos não commodities primárias em mais detalhe. e Não Classificados. Baixa Intensidade Tecnológica. por exemplo. pode-se afirmar que o superávit comercial brasileiro foi man- tido após 2008 devido. Esse aumento considerável da participação da Ásia ocorreu. seja em produtos ‘Não Classificados’. sobretudo os da União Europeia. entre 1985 e 2000. Alta Intensidade Tecnológica. recebeu quase 40% das exportações brasileiras desses produtos no perí- odo 2010-2012. que é a de ‘Petróleo e Outros Insumos Energéticos’. então. do Instituto de Economia da Unicamp. adota-se a metodologia elaborada pela Unc- tad (1996). dos 33. como. no período analisado pelo autor. e as menores taxas de crescimento dos produtos baseados em recur- sos naturais relativamente aos de alta tecnologia. por exemplo. Nesse último caso. Os produtos manufaturados (não commodities primárias) por intensidade tecnológica são. especialmente para a China. nota-se uma importante mudança nas participações relativas. Média Intensidade Tecnológica. à expansão das exportações de commodities primárias para a Ásia. classificados nesse ar- tigo em: Intensivos em Trabalho e Recursos Naturais. os de baixa e média intensidades cresceram a uma taxa constante e os produtos com vantagens naturais foram os que apresentaram menor dinamismo. A despei- to de os principais destinos das exportações brasileiras serem os mesmos desde 2006. os produtos de alta intensidade tecnológica foram os mais dinâmicos. principalmente. Os produtos pertencentes a essa última categoria encontravam-se. Ásia. embora o superávit comercial total médio de 2011 e de 2012 seja muito semelhante ao de 2008. óleos de petróleo e propano e butano liquefeito. devido ao elevado aumento de participação relativa da China como destino das exportações brasilei- ras de commodities primárias. o déficit comercial com produtos não commodities primárias praticamente duplicou. Assim. A classificação dos produtos por intensidade tecnológica permite aprofundar a análise do dinamismo do comércio do país. que classifica os produtos de acordo com sua intensidade tecnológica. Lall (2003) salienta a importância dos produtos manufaturados para o crescimento das exportações mundiais. quase que exclusivamente. que acrescenta à metodologia da Unctad mais uma cate- goria. Em 2012. Marçal e Novais 90 a economia brasileira no contexto da crise global . Resto do Mundo e União Europeia. Ademais. em relação ao percentual de 26% em 2006-2008. A Ásia. e aperfeiçoada pelo Núcleo de Economia Industrial e da Tecnologia (Neit). Petróleo e Outros In- sumos Energéticos. seja na categoria ‘Alta Intensidade Tecnológica’. na classificação original. Assim. os principais compradores de commodities primárias brasileiras fo- ram. em detrimento dos países desenvolvidos. houve redução de participação relativa. em ordem decrescente.5% do período 2006-2008 para quase 24% das exportações nos anos 2010-2012.

701.33 2012 .749.502.21.62 1.067.44.549.40 2.80 2010 54.6.6.39.07 . as compras externas de bens não commodities primárias mantiveram taxas expressivas de cres- a economia brasileira no contexto da crise global 91 . No que se refere às importações.3.21.51 .88 -1.135.895.70 2.87.451.13. Nos produtos de baixa intensidade tecnológica.23 .945.245.17 1.15.206.99 .24.15.855.12.022.8.115.179. devido ao efeito-contágio da crise).24 .(2009) atualizaram o estudo de Lall. Saldo comercial brasileiro de manufaturados por intensidade tecnológica (em US$ milhões) Intensivas Petróleo e em Trabalho Baixa Média Alta Não Total Período Outros Insumos e Recursos Intensidade Intensidade Intensidade Classificados Manufaturados Energéticos Naturais 2006 6.15 .346.717.881.22.99 .544.73 4.55 .93 .089.02 . deficitária a partir de 2007 (com exceção de 2009.74 .962.11.63 .46 . O déficit em 2012 atingiu quase me- tade do déficit total com bens manufaturados.923.466.598.108. A categoria de média intensidade tecnológica.08 Fonte: UN Comtrade. em 2012. consideravelmente.17.2. cujo déficit.29 .139. No caso dos produtos de alta inten- sidade tecnológica.44 .66 . Nota-se que o au- mento do déficit com esses bens decorre da deterioração do resultado comercial em todas as categorias.386.64 .808. embora o crescimento econômico brasileiro após 2009 tenha sido inferior ao verificado nos anos anteriores à crise. em contraposição ao aumento de peso dos bens intensivos em tecnologia.500.703.80 4.911.154.339.176.67 .747.26.15. A Tabela 3 mostra o saldo comercial do Brasil com bens não commodities primárias nas diferentes categorias de intensidade tecnológica. que era ligeiramente superavitá- ria em 2006. Nos produtos intensivos em trabalho e recursos naturais. comparando os dados dos anos 1990 e 2007. O mesmo ocorreu com petróleo e outros insumos energéticos.31.07 . alta intensidade tecnológica e petróleo e outros insumos energéticos. e concluíram que as commodities primárias e os produtos intensivos em trabalho e recursos naturais perderam participação relativa no total do comércio mundial. esse aumentou.9.547. Tabela 3. que já apresentavam déficit elevado em 2006.775.667. crescentemente.36 .19 .52 .12 7.4.82 .28 2011 .46 .761.44. até 2012.09 7.22 2008 3. tornou-se.74 . as que mais contribuíram para esse aumento foram as de média intensidade tecnológica.27 8.658.600. mas apresentou trajetória descendente ao longo dos anos.922.2.457.10. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.5.93 .58 5.61 .10 .613.0 9 2009 1.4. o superávit comercial foi mantido.94 2007 6.13. os pequenos superávits verificados no início do período foram substituídos por déficits. foi quase o dobro daquele registrado em 2006.43.71.2.87.49 . a partir de 2011.939.72 .877.01 . Porém.056.372.

69 4.135.20 3.71 47.78 27.75 5.49 3.48 24.126.15 Resto do Mundo 8.57 15.60 Ásia (menos China) 2. Ver capítulo 5.32 14.09 14.72 2.467.07 15.72 4.23 3.225.71 13.97 35.27 3. Tabela 4. A deterioração desse saldo. como detalhado a seguir.902. Comércio brasileiro de produtos de média intensidade tecnológica – 2006 a 2012 2006 2008 2010 2012 Exportação (em US$ milhões) 32. Nota- se que o surgimento e o aprofundamento do déficit comercial nessa categoria ocorreram devido à maior taxa de crescimento.86 10. no período.10 Participação por regiões (%) Aladi 29.43 Participação por regiões (%) Aladi 14. afetando negativamente o saldo comercial brasileiro com bens manufaturados.517.84 Mercosul 21.96 Nafta 30. 13.65 1.01 9.75 China 3.33 Fonte: UN Comtrade.10 1.26 União Europeia 15.25 67. Em contrapartida.03 União Europeia 8.38 1.02 20.89 63.82 42.63 3.31 Mercosul 3.46 6.653. apresentou diferenças em termos de destino e origem das exportações e importações nas diferentes categorias de intensidade tec- nológica.50 21.07 10.35 Ásia (menos China) 3.82 24.46 34.08 Nafta 42.86 46.18 16. quando atingiu então um valor semelhante ao verificado em 2008.40 42.59 42. 92 a economia brasileira no contexto da crise global .32 6. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.46 16. das importações re- lativamente às exportações.56 China 1.31 85.04 6.96 24.49 Importação (em US$ milhões) 30.28 Resto do Mundo 13.37 15.15 14.24 4.35 3.69 3.63 29. alcançando em 2012 um valor 184% superior ao registrado em 2006. as importações desses produtos avançaram de forma ininterrupta em todos os anos analisados.43 23. revertida para queda em 2010 e nova elevação em 2012.365. As vendas externas de produtos de média intensidade tecnológica tiveram a seguinte trajetória: apresentaram alta entre 2006 e 2008. cimento devido à apreciação cambial e ao crescimento do consumo doméstico13. Produtos de média intensidade tecnológica A Tabela 4 mostra os resultados do comércio brasileiro com produtos de mé- dia intensidade tecnológica no período compreendido entre 2006 e 2012. todavia.

em 2008. as principais regiões de origem das importações brasileiras de produtos de média intensidade tecnológica. Por um lado. os produtos europeus têm procurado consolidar suas ven- das para países emergentes. Já no caso das exportações.2% em 2012 (Tabela 5). tem atingido os países desenvolvidos. um ganho de participação da União Europeia após 2010. Por outro lado. como o Brasil. com aumento da participação relativa principalmente do Mercosul. em 2012. 14.3%. Produtos de alta intensidade tecnológica O aprofundamento do déficit comercial brasileiro com produtos de alta inten- sidade tecnológica também ocorreu devido ao maior crescimento das importações relativamente às exportações. passou para 16. a política econômica doméstica entre 2008 e 2012 baseou-se em forte estímulo ao consumo. porém. em detrimento do Nafta. para 37. mas nota-se o aumento significativo da participação relativa do Nafta após a eclosão da crise financeira global. Sobre esse contexto. e também da União Europeia em 2012. na pauta de exportação brasileira de bens de média intensidade tecnológica reflete o melhor desempenho econômico desses países no contexto de recuperação e desaceleração double-speedy da econo- mia mundial.4% do total. As importações brasileiras em 2006 tinham. do Resto do Mundo e da União Europeia. Esse processo. que dos 9% de participação relativa. O Nafta e a Aladi continuaram sendo. como principais regiões de origem. O aumento do déficit com bens de média intensidade tecnológica ocor- reu com pouca variação relativa entre as regiões de origem e destino. ver capítulo 1. houve uma mudança de composição das regiões de destino. Houve. desde 2008. resultando no aumento das importações de bens de média intensidade tecnoló- gica. em detrimento da China. em relação aos desenvolvidos. em 2012. que vazou para o exterior (num contexto de apreciação do real em termos reais até meados de 2011 e de acirramento da concorrência no mercado internacional). a China e a União Europeia. ao que tudo indica. passando de uma participação de 54. Esse aumento da participação dos países emergentes. Essa última perde participação relativa nas importações brasileiras de produtos de alta intensidade tecnológica ao longo do tempo. em 2006. nos últimos anos. mas também da Aladi e da Ásia (exclusive da China). diante da demanda reprimida nos seus mercados de origem. a economia brasileira no contexto da crise global 93 . que sucedeu a eclosão da crise global14. está associado à crise global que.

97 Resto do Mundo 0. entre 2006 e 2012.51 China 54.94 Participação por regiões (%) Aladi 1.44 10.58 12.78 3.61 11.06 Resto do Mundo 17.75 0.14 20.88 União Europeia 19. no período 2010- 2012.85 1.97 1.76 15.09 Nafta 31.81 13.74 2.24 9.22 2.35 5. Petróleo e outros insumos energéticos O aprofundamento do déficit comercial brasileiro da categoria petróleo e ou- tros insumos energéticos também decorreu do crescimento mais expressivo das importações relativamente às exportações (crescimento médio.23 30.706.95 Fonte: UN Comtrade.72 37.822.09 35.49 33.88 Participação por regiões (%) Aladi 12.74 19.28 12.700.37 39.77 China 1. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.5% nas exportações).30 Nafta 6.43 47. Apesar do crescimento das exportações brasilei- ras desses produtos. Tabela 5.23 20.780.74 Ásia (menos China) 1.59 13.924. as re- giões de destino são mais diversificadas.80 0.47 1.8% nas importações contra 15.97 Importação (em US$ milhões) 19.98 11.66 11.91 Ásia (menos China) 2. gerando um constante déficit comercial na categoria. ocorreu.55 1.42 37.365.42 4.37 2. O crescimento das exportações.46 16.92 12.92 44.06 3. de 15.628.76 8.69 2. entretanto. 94 a economia brasileira no contexto da crise global .06 29.868. no período.38 29. No caso das exportações de produtos de alta intensidade tecnológica. com baixa participação relativa apenas dos países da Ásia.30 3. as importações continuaram bastante elevadas.16 Mercosul 2.56 27.75 3. Comércio brasileiro de produtos de alta intensidade tecnológica – 2006 a 2012 2006 2008 2010 2012 Exportação (em US$ milhões) 8. com a preservação da alta participação do Nafta e da Aladi nas importações bra- sileiras desses produtos. como aponta a Tabela 6. O crescimento das importações ocorreu sem muita alteração nas regiões de origem desses fluxos.50 41. com o aumento da participação da União Europeia e com a redução da participação relativa do Nafta.30 3.83 10.32 Mercosul 14.38 União Europeia 32.04 15.75 11.

en- tre 2006 e 2012.84 26.69 5.53 24.41 34. Nessa categoria de produto.48 5.590.86 26. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Tabela 6.06 3.43 18.957.05 17.46 6.55 26.18 5.13 23.71 4.842.39 4. Lélis e Bichara (2012) mostram que houve deterioração na qualidade do comércio bilateral entre Brasil e China.95 5.17 14.11 Ásia (menos China) 6.16 5.16 27.98 5.03 4.27 Mercosul 6.50 29.80 46.85 5.62 3.59 45.67 3.71 10.65 26.48 Nafta 22.62 22. A crise global fez diminuir as exportações brasileiras desses produtos. Comércio brasileiro de petróleo e outros insumos energéticos – 2006 a 2012 2006 2008 2010 2012 Exportação (em US$ milhões) 10. decorrente das exportações brasileiras de produtos com menor grau de sofisticação e de suas importações de manufaturados cada vez mais sofisticados.91 40.82 União Europeia 12.71 Importação (em US$ milhões) 17.59 6.287.79 14. apesar da recuperação registrada a economia brasileira no contexto da crise global 95 .25 24.40 6. principalmente após a crise financeira global. Cunha. os mercados de destino são mais diversificados. porém notam-se algumas alterações de participação relativa após a crise global.11 20.80 29.40 Ásia (menos China) 6.71 Resto do Mundo 6.186. Ásia (exclusive a China) e Resto do Mundo perderam participação rela- tiva nas exportações brasileiras.89 China 7.89 9. Produtos de baixa intensidade tecnológica O superávit comercial dos produtos de baixa intensidade tecnológica.134.44 6. simultaneamente ao aumento de participação da China e da União Europeia – o que também reflete os estímulos positivos da de- manda chinesa por recursos naturais e alimentos.21 4.26 19.24 18.93 União Europeia 2.79 6.29 4. apresentou redução ao longo desse período devido.43 Resto do Mundo 28.85 5.28 Mercosul 5.17 Nafta 47.21 Participação por Regiões (%) Aladi 14. ao aumento das importações (Tabela 7). A Aladi.87 5.44 6.88 China 5.469.57 Participação por Regiões (%) Aladi 26. princi- palmente.79 48.93 Fonte: UN Comtrade.689.

o valor atingido naquele ano foi inferior ao verificado em 2008.71 43. em 2006.30 5.57 5.72 5. O mercado de destino dessas exportações brasileiras é bastante diversificado. Entretanto.24 China 1. Comércio brasileiro de produtos de baixa intensidade tecnológica – 2006 a 2012 2006 2008 2010 2012 Exportação (em US$ milhões) 11.07 12.26 16.58 Nafta 33. Resto do Mundo e Aladi.97 14.82 4.16 4.15 11.13 16. houve uma mudança na participação relativa.10 7.22 19. como principais mercados o Nafta. preservando o superávit de comércio no contexto da crise.79 6. 96 a economia brasileira no contexto da crise global .556. tendo. Essas regi- ões permaneceram as mais importantes em 2012. atingindo valores muito superiores aos registrados antes da crise global.80 16.19 12.08 4.85 3. No caso das importações.077.14 Participação por regiões (%) Aladi 13.39 Participação por regiões (%) Aladi 33. o crescimento ocorreu em todos os anos analisados. No caso das importações desses bens.12 4.390.98 5.73 Ásia (menos China) 8.73 20.46 5.28 11.99 Nafta 38.99 China 4.781.28 4.77 Ásia (menos China) 3. mas houve um crescimento expressivo da participação relativa do Nafta em detrimento das duas outras regiões.594.90 14.10 25.00 15. em 2012.04 9.92 46.464.94 31. Apesar desse aumento das importações.18 11.15 União Europeia 17.48 União Europeia 2. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Nafta e Resto do Mundo.53 13.96 Mercosul 8. as principais regiões de origem das compras brasileiras em 2006 foram Aladi.77 Resto do Mundo 13.71 9.85 14.15 5.27 18.90 19.05 5. Tabela 7.26 5. a União Euro- peia. as exportações brasileiras desses pro- dutos ultrapassaram as importações.22 19.52 11.08 40.677.37 Fonte: UN Comtrade.14 11.80 Resto do Mundo 17.17 Importação (em US$ milhões) 3. com a Ásia e o Mercosul ganhando participação relativa em detrimento do Nafta e do Resto do Mundo.49 8. Após 2008.01 16.56 19.99 20.628.21 11.00 Mercosul 5.

47 3.85 15.094.760.23 Mercosul 12.47 12.87 4. em detrimento de uma queda das exportações de 0.33 11. Comércio brasileiro de produtos intensivos em trabalho e recursos naturais – 2006 a 2012 2006 2008 2010 2012 Exportação (em US$ milhões) 11. Já o aumento das importações desses produtos refletiu o aumento das compras externas do Nafta e. da China. a economia brasileira no contexto da crise global 97 .06 29.58 1.78 6.34 12.99 5.201.57 13.61 4. en- tre 2006 e 2012 (Tabela 8).56 Ásia (menos China) 1.80 6.75 26.04 13. a União Europeia.100. no período 2010-2012. reflexo das estratégias agressivas de aumento das fatias de mercado nos países com mercados consumidores mais dinâmicos (dentre os quais o Brasil) no contexto da crise global.399.71 3.35 Resto do Mundo 4.37 19.642. que ampliaram suas participa- ções relativas no total.05 1.63 23.87 3.27 Participação por regiões (%) Aladi 6. foi de 16%. Produtos intensivos em trabalho e recursos naturais O déficit comercial com produtos intensivos em trabalho e recursos naturais ocorreu devido ao aumento nas importações e à redução nas exportações.53 China 3. Tabela 8.68 27.85 22.43 12. O crescimento médio das importações.46 3.73 União Europeia 14.55 Resto do Mundo 10.83 7.90 China 28.147. refletindo os efeitos da crise atual nesses países.88 3.66 2.05 Fonte: UN Comtrade.73 13.75 2.55 52.85 10.67 10. em menor medida. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.29 5.010.74 43.21 8.84 15. Aladi e Resto do Mundo perderam participação relativa nas importações brasileiras des- ses bens no mesmo período.12 10.05 Nafta 35.40 4.49 4.72 7.75 13.37 51.53% no mesmo período.47 Participação por regiões (%) Aladi 9.23 17.90 18. A redução das exportações ocorreu com queda de partici- pação relativa do Nafta e da União Europeia.97 Ásia (menos China) 5.41 União Europeia 21.26 Importação (em US$ milhões) 4. Em contrapartida.33 Nafta 39.61 23.41 21.77 24.91 4.09 Mercosul 4.

caracterizado por um movimento ascendente na conta financeira e no ingresso líquido de capitais estrangeiros (mesmo padrão ob- servado no período 2006-2007). e que corresponde ao saldo entre o ingresso líquido de capitais estrangei- ros e a saída líquida de capitais brasileiros. É possível identificar três fases distintas da inserção financeira. apesar do recuo de 16% desse ingres- so. Em 2012. Sobre esse efeito. o efeito-contágio da fase mais aguda da crise sobre a conta financeira. que se con- centrou no último trimestre de 2008. 15. A segunda ocorre em 2011. o superávit da conta financeira avançou 12%. a deterioração dessa conta foi mais intensa (33% contra 21%) devido à maior saída de capitais brasileiros para o exterior (+41% em relação aos índices de 2011) (Gráfico 10). mas com sinal invertido. 98 a economia brasileira no contexto da crise global . O retrato dessa inserção é a conta financeira do balanço de pagamentos. em função da menor saída de capitais brasileiros para o exterior (que diminuiu 64% em relação ao percentual obtido em 2010). ver Prates. Conta financeira (em US$ bilhões) – 2005 a 2012 200 158 150 132 114 111 99 104 100 88 86 70 75 52 52 50 28 15 0 -1 -10 -9 -16 -21 -25 -24 -30 -50 -37 -59 -100 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Conta Financeira Ingresso líquido de capitais estrangeiros Saída líquida de capitais brasileiros Fonte: Banco Central do Brasil. A primeira abrange o biênio 2009-2010. A inserção financeira A inserção financeira da economia brasileira também sofreu mudanças rele- vantes no período 2009-201215. os superávits da conta financeira e do ingresso líquido de capitais estrangeiros diminuíram na comparação com os dados do ano anterior – todavia. já que. aqui. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Gráfico 10. Não será analisado. que registra os fluxos líquidos de capitais entre o país e o exterior. Prates (2012). ou seja. Bichara e Cunha (2009). esse movimento foi novamente observado. quando esse movi- mento sincrônico deixou de ocorrer.

2% do total em 2012.273 % Total n.1.22. em 2012 – Tabela 1A. A composição da conta financeira.5 bilhões. ao final deste capítulo)16.011 35.4% do superávit dessa conta.d.131 2.390 1. o investimento direto respondeu por somente 37. parece mais apropria- da a comparação do resultado obtido nas transações correntes com fluxo líquido de investimento direto (em vez do investimento direto externo).127 15. Ademais. esses fluxos perderam participação.601 36.297 70.172 98. Devido ao elevado grau de abertura financeira da economia brasileira17.300 .d. 69.133 50.639 Investimento Direto 12. a economia brasileira no contexto da crise global 99 . Vale ressaltar que. em 2010.4 61.081 48.7 63.0 7. Tabela 9. nos dois anos.9 51.2 .9 8. contra 62.9 10. cada vez mais os dois tipos de flu- xos são influenciados (em menor ou maior grau) pelos mesmos fatores.520 % Total n.1 Outros Investimentos .d.793 110.024 7. no que diz respeito ao perfil dos fluxos líquidos de capitais.1. 2006). Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.2 48. 14. n.008 33.518 24.7 14. em 2012.d.d.9.2 86. que atingiu 91.753 % Total n.093 % Total n.2.311 8. com o avanço da internacionalização dos capitais brasileiros (sobretudo do investimento direto). em 2011.636 24.8 31.688 13. n.522 4.380 27.689 68.7 38.9 11. Dado o aumento da internacionalização das empresas brasileiras.d. sua evolução passou a exercer maior influência no resultado da conta financeira.3 37. Composição da conta financeira (em US$ milhões) – 2005 a 2012 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Conta Financeira .283 63.804 . 17. em 2011 e. Se.0 71. nos últimos anos. nos últimos anos.23.550 .7% dos fluxos financeiros (que abrangem os investimentos de portfólio e os outros investimentos). e US$ 54. com a unificação do mercado de câmbio. 31.3 Fonte: Banco Central do Brasil. n. Nesse critério.4 62.7 Investimentos de Portfólio 4.115 6. essa modalidade de capital foi mais do que suficiente para financiar o déficit em conta corrente (US$ 52.d.d.769 61.875 . 16.2 .983 61.10.986 43. chamam a atenção as mudanças ocorridas entre 2010 e 2012 (Tabela 9).8 4. foram eliminadas as restrições ainda existentes à saída desses capitais (PRATES.1.885 9.1 91. As mudanças sintetizadas na tabela resultaram da interação de um conjunto de fatores externos e internos que condicionaram tanto o ingresso líquido de capitais es- trangeiros como a saída líquida de capitais brasileiros para o exterior.0 . Em 2005.033 36.521 15.27.2 Fluxos Financeiros .807 74.2 bilhões. simultaneamente ao avanço do investimento dire- to. também não se manteve estável entre 2009 e 2012. do Anexo Estatístico.330 28. embora ainda menor do que a dinâmica dos capitais estrangeiros. 54.430 88.16. n.919 67. sobretudo.

com a crise asiática. uma operação de hedge cambial. os Estados Unidos. enquanto no currency carry trade o investidor se endivida na moeda de menor taxa de juros e aplica em ativos denominados na moeda de maior taxa de juros (em inglês. a dimensão inédita das ações anticíclicas (monetária e fiscal) conseguiu evitar a depressão. (ii) o ciclo verificado nos anos 1990. bancos e governos dos países emergentes (dentre os quais o Brasil). 20. 2011). Ademais. além de alavancada. da mesma for- ma que nos episódios anteriores de money chasing yield. Para maiores detalhes sobre os dois últimos ciclos. até o ano de 2002. a abrupta retração dos fluxos de capitais para as economias emergentes no último trimestre de 2008 – desencade- ada pela fase mais aguda da crise financeira global – foi efêmera (Gráfico 11). ao quarto boom de fluxos de capitais desde o colapso do regime de Bretton Woods. Ou seja. Nesse contexto. os pull factors (os fatores internos) fomentaram os fluxos de capitais para as economias emergentes. em especial. contribuindo para a rápida redução da aversão global ao risco. cuja fase baixista estendeu-se de meados de 1997. no qual o investidor forma uma posição vendida na moeda funding e uma posição comprada na moeda target. por conta da saída bem-sucedida da crise. Assim. esses ciclos foram: (i) o ciclo que emerge em meados dos anos 1970. moedas funding e target. esses fluxos começaram a fluir novamente para essas economias em busca de ganhos especulativos num contexto de taxas de juros historicamente baixas. 2011a). nas operações de arbitragem de juros realiza-se. 2011). há também o derivatives carry trade. foram os chamados push factors (fatores externos). Sobre as diversas fases da crise financeira global. Contudo. 2011. em 197319 (AKYÜZ. as operações de currency carry trade e arbitragem de juros20 ressurgiram com toda 18. outro condicionante fundamental da dinâmica desses capitais. num curto período de tempo. tem um perfil especulativo. Ambas as operações buscam usufruir o diferencial de juros entre aplicações denominadas em duas moe- das distintas e têm impacto sobre os fluxos de capitais e o balanço de pagamento. que envolve fluxos efetivos de divisas (denominado de canônico). No final do primeiro trimestre de 2009. Relembrando. Todavia. com a reversão da fase altista por conta do choque de juros de 1979 e da crise da dívida externa de 1982. a partir do final do primeiro trimestre de 2009. ver capítulo 1. essa última operação. no país emissor da divisa-chave. No que se refere aos condicionantes externos. Assim. A diferença entre os juros interno e externo tornou-se maior após a crise devido ao patamar das taxas de juros nos países centrais. que teve seu pico em 2007 e sua fase de baixa no último trimestre de 2008 (AKYÜZ. sobretudo as condições monetárias frouxas nos países centrais e. respectivamente). pois envolve uma aposta na variação cambial no período da aplicação (que pode ampliar ou anular o ganho proveniente do diferencial de juros). 100 a economia brasileira no contexto da crise global . bem como à redução do risco relativo dos ativos emitidos por empresas. sem neutralizar o risco cambial. simultaneamente. (iii) o ciclo de 2003-2008. os principais determinantes do retorno dos capitais estrangeiros para as economias emergentes. IMF. 19. como nos ciclos precedentes. a respos- ta (anticíclica) de política à crise deu origem. Além dessa tipo de currency carry trade. expansão da liquidez nos países centrais e redução da aversão aos riscos em âmbito global18 (IIF. ver Biancareli (2012).

084 1. a economia brasileira no contexto da crise global 101 . o vale alcançado em 2010 (recorde. O relatório do McKinsey Global Institute (2013) destaca também que. Gráfico 11. segundo as projeções do Institute of Interna- tional Finance. crédito de fornecedores e investimentos de portfólio em renda fixa nos mercados domésticos. estimulando os investimentos de portfólio em ações e os fluxos de investimento direto externo (Gráfico 11). no caso dos fluxos globais de capitais. 2011b).400 1. do ciclo pós-crise) foi somente 10. de 355% para 312%. Fluxos de capitais de não residentes para os países emergentes (em US$ bilhões) – 2005 a 2012 1.237 1. pico pré-crise).1 trilhões) foi cerca de 50% menor do que o pico alcançado em 2007 (US$ 11. em- bora a taxas bem menores (atingindo US$ 225 trilhões contra US$ 206 trilhões em 2007. apesar de o estoque de ativos financeiros globais ter mantido uma trajetória de crescimento após a eclosão da crise financeira global.força (IMF.000 775 800 679 647 649 600 400 200 0 -200 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011* 2012** 2013** Total Portfólio em ações IDE Dívida com não residentes (1) Fonte: IIF.118 1.4% inferior àquele pico. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. em porcentagem do PIB. Vale ressaltar que. até o momento. segundo dados do McKinsey Global Institute (2013). 21. A rápida retomada do crescimento econômico (a taxas bem mais elevadas do que nos países centrais) também fomentou expectativas de valorização dos ativos e de apreciação cambial nas economias emergentes.200 1.8 bilhões). um recuo de 43 pontos percentuais. Assim.108 1. embora os fluxos de capitais de não residentes para as eco- nomias emergentes não tenham atingido o pico do ciclo pré-crise. atraídos pelo diferencial de juros. houve. Em contrapartida. IIF). (1) Dívida no exterior (bancária e securitizada). impulsionando os fluxos de dívida. o valor recorde (até o momento) registrado em 2010 (US$ 6. esses dados revelam que as economias emergentes ampliaram sua participação nesses fluxos em função da interação dos fatores externos e internos mencionados acima21. observado em 2007 (e não o atingirão até 2013.080 1.

as quais superaram rapidamente o efeito-contágio da fase mais aguda da crise (graças à menor dependência das exportações como fonte de demanda e/ou às políticas anticíclicas adotadas) ou mantiveram suas taxas de juros domésticas em patamares relativamente elevados (caso do Bra- sil. a seletividade foi substituída pela não diferenciação dos riscos (mais uma semelhança com as condições observadas nas fases altistas dos ciclos anteriores) devido. economias (em sua maioria. o retorno dos fluxos foi seletivo. mais uma vez. Contexto esse que teria resultado na currency war. (ii) a segunda rodada da política de afrouxamento quantitativo (quantitative easing) adotada pelo Federal Reserve. como destacado a seguir). da alta de preços das commodities. Portugal e Espanha). e. 102 a economia brasileira no contexto da crise global . o conjunto de divisas e ativos emergentes (inclusive de países com maior fragilidade externa e fiscal). A partir de então. a partir de novembro de 2010. com a queda adicional da aversão ao risco. Itália. Adicionalmente. bem como desestimulou os investimentos no exterior (e/ou estimulou a repatriação de recursos) por parte de grupos econômicos brasileiros que atuam nesses setores. o movimento ganhou impulso e. A partir do segundo semestre de 2009. passando a envolver. que estimularam a especulação financeira nos mercados de derivativos de commodities e a recuperação double-speed. a partir do primeiro trimestre de 200922. Desde o início de 2010. fomentada pela mesma conjuntura macroeconômica subjacente ao novo ciclo de fluxos de capitais. além de beneficiar as exportações de commodities. Irlanda. sobretudo. que beneficiou os ativos emergentes ao elevar o risco de um grupo relevante de países avançados (os chamados GIIPS. por sua vez. em vários mercados). a nova conjuntura macroeconômica das economias emergentes também deu impulso ao boom. qual seja: juros baixos e liquidez abundante. propiciada pelas condições mais favoráveis nos mercados financeiros globais. Essa alta foi. esse novo boom de preços atraiu fluxos de investimento direto estrangeiro (IDE) para os setores agrícola e extrativista. No início da fase de alta. de forma praticamente indiscrimi- nada. so- bretudo. essa mesma recuperação assimétrica 22. ao longo de 2010. Grécia. principalmente. beneficiando. termo lançado pelo ministro da Fazenda Guido Man- tega. asiáticas e latino-americanas) com situação externa e fiscal mais robusta. sob liderança da China (que reforçou os desequilíbrios estruturais entre oferta e demanda. se generalizou. os bancos centrais de vários países começaram a elevar suas taxas de juros básicas em resposta às pressões inflacionárias decorrentes do sobreaquecimento econômico e. em setembro de 2010. aos impulsos adicionais vindos do centro: (i) a crise soberana do euro. No caso do Brasil. Ademais.

esse aprofundamento teve como desdobramentos o aumento da volatilidade nos mercados financeiros internacionais e a intensificação da desaceleração nas economias avançadas. 24. a economia brasileira no contexto da crise global 103 . novamente. em comparação com os países de origem das empresas transnacionais (ETs)24 contribuíram para sustentar o fluxo líquido de investimento direto em 2011 e 2012. contudo. consequentemente. em inglês). em função do seu im- pacto positivo sobre os fluxos de IDE e impacto negativo sobre os investimen- tos diretos brasileiros no exterior. pela oferta de liquidez às instituições bancárias. com o aprofundamento da crise na área do euro. ver capítulos 5 e 7. Apesar da desaceleração do crescimento da economia brasileira em 2011 e 2012. Ao resultar numa forte deterioração das expectativas dos agen- tes. os fluxos de capitais para as economias emergentes) alternaram períodos de melhoria (após ações ou pronunciamentos de autoridades europeias) e de retrocesso. após uma saída líquida de US$ 11. a realocação dos portfólios globais em direção a ativos de maior retorno e risco. a ameaça de uma nova crise sistêmica) foi afastado.5 23. que registraram valores positivos (refletindo a repatriação de recursos). No final de dezembro. em grande parte. o mercado de consumo sustentou um ritmo de expansão significativo. A partir de então. os mercados financeiros internacionais (e. os recursos dessa linha foram direcionados. a aversão aos riscos diminuiu. também contribuiu para essa volatilidade as incertezas em relação ao desempenho da economia americana devido à ameaça do chamado “abismo fiscal” ( fiscal cliff. estimulando. os dois booms (de fluxos de capitais e de preço das commodities) perderam fôlego. No segundo semestre de 2012. Nesse contexto.fomentou os fluxos de IDE para setores não comercializáveis da economia bra- sileira. Para maiores detalhes. para moedas. Ao longo do segundo semestre de 2011. Na realidade. assim. como destacamos anteriormente. Essa desaceleração e o dinamismo do mercado consumidor brasileiro. quando a insuficiência dessas iniciativas veio à tona23. feita pelo Banco Central Europeu (BCE) no âmbito de uma nova linha de crédito com condições de prazo e custo extremamente favoráveis. bolsas de valores e títulos de renda fixa de economias emergentes. O biênio 2011-2012 também foi marcado pela desaceleração double-speed da economia mundial. diante do potencial de expansão do mercado doméstico (Tabela 2A. como uma solução definitiva para essa crise ainda não foi ar- quitetada. do Anexo Estatístico). em 2011 e 2012. em vez de serem di- recionados para a compra de títulos soberanos dos países europeus em crise. o risco de falência de instituições financeiras relevantes com alta exposição aos GIIPS (e.

sobretudo. 104 a economia brasileira no contexto da crise global . de forma ainda mais intensa. De acordo com o IMF (2011b). resultou na ampliação do diferencial entre os juros interno e externo. tornando-o um destino privilegiado para as operações de currency carry trade26. Isso distanciou. 25. do ingresso líquido de capitais estrangeiros. ver capítulo 2. Nota: Diferencial de juros equivale à diferença entre a taxa básica de juros de cada país e a soma do risco-país (prêmio do CDS de cinco anos) e da taxa básica de juros dos EUA. Esse diferencial foi o principal determinante da trajetória de apreciação do real até julho de 2011. Para uma análise detalhada dessa gestão. em 2009 e 2010. Todavia. a dinâmica dos fluxos de investimento direto (estrangeiros e brasileiros) – sobretudo dos empréstimos intercompanhias – so- freu também influência de fatores internos. No que se refere à política monetária. bilhões em 2010 – quando várias empresas aproveitaram a situação pós-recessão para comprar ativos a preços deprimidos nos países avançados (ver Tabela 1A. entre abril de 2009 e julho de 2011. Gráfico 12. O pri- meiro foi a gestão macroeconômica nas áreas monetária e cambial25. a elevação da meta da taxa Selic. Diferencial de juros (países selecionados) – jan. ainda. no final deste capítulo). 26./2011 a dez. o Brasil e os países emergentes considerados no Gráfico 2 absorveram a maior parte dos fluxos de capitais direcionados para as economias emergentes. o qual ampliou ainda mais a rentabilidade das aplicações financeiras no Brasil por não residentes (Gráficos 12 e 13). os fluxos financeiros. num contexto de estabilidade ou ligeira queda do risco- país. Dois fatores internos exerceram influência na dinâmica dos fluxos líquidos de capitais e. o Brasil dos demais países emergentes. que afetaram. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap./2012 12% 10% 8% 6% 4% 2% 0% jul/12 jul/11 nov/12 nov/11 out/12 out/11 set/12 set/11 f ev/12 f ev/11 jun/12 jun/11 jan/12 abr/12 ago/12 jan/11 abr/11 ago/11 mar/12 mai/12 mar/11 mai/11 dez/12 dez/11 Brasil Coreia do Sul Tailândia Turquia Indonésia África do Sul Fonte: Banco Central do Brasil.

A trajetória da taxa de câmbio nesse contexto de- penderá da política cambial adotada. que diz respeito aos objetivos./2009 a dez. os 27. A segunda fase teve início em outubro de 2009. principalmente. a equipe econômica do governo Lula optou por perseguir a mesma estratégia adotada no período pré-crise27./2012 13% 12% 11% 10% 9% 8% 7% 6% 5% 4% 3% 2% 1% 0% jul/11 jul/09 jul/10 jun/11 jul/12 jun/09 jun/10 jun/12 out/09 out/10 out/12 jan/09 jan/10 jan/12 nov/09 nov/10 out/11 nov/12 jan/11 fev/11 nov/11 fev/09 mai/09 set/09 fev/10 mai/10 set/10 fev/12 mai/12 set/12 abr/09 abr/10 abr/12 mai/11 set/11 mar/11 abr/11 ago/09 ago/10 ago/12 ago/11 mar/09 mar/10 dez/11 mar/12 dez/09 dez/10 dez/12 Diferencial de juros CDS Selic . Ou seja.Meta Selic neutra de arbitragem Prêmio CDS Federal Fund rate Fonte: Banco Central do Brasil. na política cambial. vigente antes da falência do Lehman Brothers. Nesse período. também foi afetada pelo segundo fator interno que condicionou o ingresso líquido de capitais estrangeiros.9%. no âmbito de um regime de flutuação suja. em 15 de setembro de 2008. que reconduziu a taxa de câmbio R$/US$ para o patamar de R$ 1. Nesse período. Brasil: diferencial de juros (composição) – jan. Essa rentabilidade. essa gestão ancorou-se. com a adoção de um controle de capital – o IOF de 2% sobre investimentos de portfólio em ações e renda fixa (Quadro 1) –. Gráfico 13. Contudo. mas em alta – Gráficos 12 e 13). a maior no âmbito dos países emer- gentes. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. contudo.1%) e. não é incompatí- vel com a tendência de apreciação da moeda doméstica. que optou pelo acúmulo de reservas (+5. pela reversão da forte depreciação do real no último trimestre de 2008. Na primeira fase.77. de janeiro a setembro de 2009. às metas e à estratégia de intervenção da autoridade monetária no mercado de câmbio. esse controle foi muito tímido diante do fator de atração da economia brasileira (diferencial de juros. É possível distinguir três fases dessa gestão ao lon- go do ciclo de fluxos de capitais que emergiu em 2009 (Gráfico 14). qual seja: a estratégia de gestão dos fluxos de capitais. estendendo-se até setembro de 2010. exclusivamente. a apreciação cambial foi de 23. A aquisição de moeda estrangeira pelo BCB. não somente elevado. a economia brasileira no contexto da crise global 105 . ver Prates (2010). Para maiores detalhes.

o que explica a participação recorde do Brasil nos fluxos de capitais de não residentes para as economias emergentes em 2010 (15. Taxa de câmbio (final de período) e reservas cambiais (em US$ bilhões) – jan.20 300 2. 28. Gráfico 14.40 350 2.2%./2009 a dez. a gestão monetária e cambial doméstica tornou o mercado financeiro brasileiro um dos principais lócus de valorização desses capitais. Já a apreciação cambial foi bem menor (4.7%). fluxos financeiros (acumulados em 12 meses) traçaram uma trajetória ascendente. e a estratégia de acúmulo de reservas foi mais agressiva (aumento de 24%). Elaboração própria.00 US$ bilhão 250 R$/US$ 1. voltando a superar os fluxos de IDE a partir de novembro de 2009 (Gráfico 15). de que a economia brasileira foi o destino privilegiado do capital estrangeiro searching for yield no contexto de metamorfose da crise global. entre abril e agosto de 2010.60 400 Fase 1 Fase 2 Fase 3 2. Cálculos próprios a partir dos dados de fluxos de capitais de não residentes do IIF e de ingresso líquido de capital estrangeiro para o Brasil. em 200728) e atesta a afirmação feita acima.40 1.2% contra 9. os fluxos financeiros atingiram valores superiores aos observados no pico do boom pré-crise no acumulado de 12 meses (Gráfico 15).60 150 1. disponibilizado pelo BCB.80 200 1. Ademais./2012 2. 106 a economia brasileira no contexto da crise global . em função da expressiva valorização ocorrida na fase anterior (que levou o BCB a intensificar suas intervenções a fim de conter a queda da taxa de câmbio) e das turbulências no mercado financeiro internacional decorrentes da crise dos GIIPS.20 100 jul/11 jul/09 jul/10 jul/12 jun/09 jun/10 out/11 jun/12 fev/11 jun/11 nov/09 nov/10 nov/12 out/09 out/10 out/12 jan/09 set/09 nov/11 fev/09 jan/10 set/10 fev/10 jan/12 set/12 fev/12 jan/11 set/11 abr/09 abr/10 abr/12 ago/11 abr/11 mai/11 mar/11 ago/09 ago/10 ago/12 mai/09 mai/10 mai/12 dez/11 mar/09 mar/10 mar/12 dez/09 dez/10 dez/12 Reservas cambiais Taxa de câmbio nominal . Enquanto esse contexto criou as condições para um boom de fluxos de capitais para as economias emergentes – relativamente mais intenso do que o observado antes da crise.final de período Fonte: Banco Central do Brasil.

Elaboração: Grupo de Economia / Fundap./2009 A DEZ. MÉDIA MÓVEL DE 12 MESES (JAN. não incluem as iniciativas direcionadas ao mercado de derivativos cambiais. conjuntamente. integram os instrumentos de gestão dos fluxos de capitais. instrumentos de regulação dos derivativos cambiais. Esses instrumentos referem-se somente às medidas que têm impacto no fluxo de divisas. envolvendo controles de capitais e instrumentos de regulamentação prudencial (Quadro 1 no final deste capítulo) que./2006 A DEZ. da perspectiva aqui adotada./2012) 160 110 60 10 -40 jan-06 jan-07 jan-08 jan-09 jan-10 jan-11 jan-12 nov-09 nov-06 nov-10 mai-07 nov-07 mai-08 nov-08 nov-11 nov-12 mai-06 mai-09 mai-10 mai-11 mai-12 mar -06 mar -07 mar -08 mar -09 mar -10 mar -11 mar -12 jul-07 jul-09 jul-06 jul-08 jul-10 jul-12 jul-11 set-09 set-12 set-06 set-07 set-08 set-10 set-11 Ingresso líquido IDE Investimentos de portfolio Outros investimentos Fluxos financeiros MÉDIA MÓVEL DE TRÊS MESES (JAN. Grabel e Jomo (2003)29. nos termos de Epstein. Devido ao papel fundamental desse mercado na formação da taxa de câmbio brasileira. Ingresso líquido de capitais externos (em US$ bilhões). A terceira fase. Após a eleva- 29./2012) 20 15 10 5 0 -5 -10 jan -12 jul -12 jan -11 jul -11 nov -12 jan -10 jul -10 nov -11 jan -09 jul -09 nov -10 nov -09 mai -12 mai -11 mai -10 mai -09 mar -12 mar -11 mar -10 set -12 mar -09 set -11 set -10 set -09 Ingresso líquido IDE Investimentos de portfolio Outros investimentos Fluxos financeiros Empréstimos intercompanhias Fonte: Banco Central do Brasil. que constituem. que se inicia em outubro de 2010. somente após a imposição do IOF sobre o excesso de a economia brasileira no contexto da crise global 107 . Assim. teve como principal caracte- rística a adoção de uma regulação mais ampla dos fluxos de capitais. Gráfico 15.

logo em seguida (no início de abril de 2011) estendido para operações com maturidade de até dois anos. Assim. Isso quer dizer que a estratégia mais ampla de gestão dos fluxos de capitais não afetou. o BCB decidiu impor. ver capítulo 2. o recolhimento compulsório sobre as posições vendidas dos bancos (elevado em julho). consequentemente. ção. até julho de 2011. inclusive. estruturalmente. o grau de abertura financeira da economia brasileira – que teria sido reduzido se medidas qualitativas (como proibição de algumas transações por parte de não residentes e residentes) tivessem sido adotadas. que afetam o custo e. Todavia. Para uma análise detalhada dessas mudanças. No final de março. 30. seu impacto foi mais expressivo sobre a composição desse ingresso do que sobre o seu volume. a lucratividade das operações. tinha como principal objetivo conter a apreciação cambial mediante o desestímulo ao ingresso de fluxos financeiros atraídos pelo diferencial de juros30. em outubro de 2010. abrangendo. aos mecanismos utilizados por agentes residentes e não residentes para burlar as regulações31. Essa nova estratégia de gestão dos fluxos de capitais – que chegou com atraso. O FMI (IMF. foi imposto um IOF sobre cap- tações externas com prazo de até um ano. Ademais. o processo de apreciação cambial foi conti- do. Assim. 108 a economia brasileira no contexto da crise global . 31. devido ao movi- mento de arbitragem regulatória – ou seja. empresas (brasileiras e estrangeiras) e investi- dores não residentes encontravam formas alternativas para lucrar com o diferen- cial entre os juros internos e externos32. Assim. o impacto das técnicas de gestão dos fluxos de capitais sobre a trajetória de apreciação cambial foi atenuado pelas operações com derivativos cambiais. foram utilizados somente dois instrumentos (IOF e recolhimento compulsório) quantitativos (ou price-based). no início de janeiro de 2011. ver capítulo 2. que somente foram efetivamente atingidas em julho de 2011. A cada medida adotada. depois de a taxa de câmbio do real já ter atingido o patamar de R$ 1. 32. no mês de outubro. quando foi adotado o IOF sobre posições vendidas excessivas.69 – integrou uma mudança mais ampla na política econômica no governo Dilma (iniciada timidamente no final do governo Lula). que incluiu o patamar da taxa de câmbio (devido ao seu impacto sobre a competitividade externa) como uma das metas da política cambial. bancos. empréstimos intercompanhias. a ampliação das posições vendidas no mercado de câmbio à vista tornou-se um dos principais posições vendidas em derivativos cambiais. após o aumento do IOF sobre os investimentos de portfólio em renda fixa. em julho de 2011. do IOF sobre investimentos de portfólio em renda fixa (medida tomada pelo Ministério da Fazenda). 2011) descreve alguns mecanismos de arbitragem regulatória utilizados após as medidas de outubro de 2010. mitigando o impacto das regulações sobre o ingresso líquido de capitais estrangeiros. Para maiores detalhes.

em vez de pagar o IOF de 6% sobre o total do capital para aplicações de renda fixa ou 2% para ações. Com a imposição do recolhimento compulsório sobre essas posições em janeiro. foi exatamente o forte crescimento desses empréstimos a partir de setembro de 2010 (Gráfico 15) que condicionou a decisão de incluí-los. O investidor externo pode abrir uma sociedade anônima a fim de aplicar os recursos em fundos de investimento em cotas (FIC).canais utilizados pelos bancos para realizar operações de currency carry trade ou de arbitragem de juros. no início de abril de 2011. Para argumentos contrários a essa hipótese.38% na entrada do “investimento direto”35. o in- vestidor paga somente um IOF de 0. no final deste capítulo)36. com isso. a economia brasileira no contexto da crise global 109 . 34. bancos e empresas residentes substituíram-nas por títulos e empréstimos de maior prazo de duração. Nessa estrutura. o que pode ser reflexo. De forma geral. Quando essas captações foram taxadas em março e abril. Há indicações de que os investidores estrangeiros passaram a montar estruturas com- plexas utilizando a Lei n. Ao que tudo indica. contornar o IOF sobre essas aplicações33. obtendo. 36. entre as modalidades de captação externa com prazo máximo de dois anos sujeitas ao IOF (Quadro 1A. 35. Vale lembrar que a linha divisória entre investimentos de portfólio e IDE é muito tênue: são classificadas como “investimento direto” as aquisições por não residentes que resultem na propriedade de 10% ou mais das ações com direito a voto de empresas residentes. A arbitragem regulatória também parece ter envolvido os fluxos de IDE. o movimento de arbitragem regulatória contamina as seguintes atividades de destino do IDE: Serviços financeiros e atividades auxiliares. (2012) mostram o aumento da volatilidade dos fluxos de IDE após a adoção dos controles de capitais. realizando teoricamente um IDE34. já que nos dois casos a empresa pode interna- lizar o total dos recursos. estratégia que foi bem-sucedida devido ao ambiente internacional de liquidez abundante e demanda aquecida por papéis de economias emergentes (Tabela 1A. 4. previdência complementar e planos de saúde. da contaminação desses fluxos por operações de natureza financeira. 33. resseguros. assim. exatamente. o elevado diferencial entre os juros internos e externos foi um fator adicional de atração tanto dos aportes de IDE em participação de capital como dos empréstimos intercompanhias. Corrêa et al. e Atividades imobiliárias. uma rentabilidade financeira que eleva o retorno final do investimento. enquanto as participações abaixo desse percentual são consideradas “investimento em portfólio” (ações). Seguros. no final deste capítulo). ver Dib (2011).131 (que regula os capitais estrangeiros no Brasil) para realizar aplicações financeiras em ações ou em renda fixa e. as captações externas de curto prazo tornaram-se a válvula de escape. Ademais. aplicá-lo num fundo de renda fixa e efetuar a liberação ao longo da execução do projeto.

sobretu- do. Os instrumentos de gestão dos fluxos de capitais tornaram-se eficazes em re- duzir. 37. por sua vez. concluíram que esses ins- trumentos regulatórios contribuíram para mudar. sobre essa trajetória. a composição da entrada de capitais externos. em relação aos dados de 2011. Ademais. e a mudança na gestão macroeconômica doméstica (queda da meta da taxa Selic. Os fluxos financeiros foram. resultando numa mudança na composição do in- gresso líquido de recursos externos. Essa mudança (positiva) na composição dos fluxos de capitais estrangeiros foi o principal determinante do novo perfil da conta financeira em 2011 e.5% – e atingiu 62. considerando os fluxos acumulados em 12 meses. após a expansão de liquidez pelo BCE. Contudo. efetivamente. no final deste capítulo). que esses controles tiveram efeito em termos de seg- mentação dos mercados – o que transparece nos diferenciais entre os preços de ativos similares negociados nos mercados onshore e offshore –. o aumento da aversão aos riscos no mercado financeiro internacional. quando a participação do investimento direto atingiu mais de 91%. o ingresso líquido de fluxos financeiros (e não somente alon- gar o prazo da dívida externa) apenas a partir de agosto de 2011 (quando o IDE superou os fluxos financeiros pelo critério da média móvel trimestral). 38. ações e moedas de economias emergentes – como no primeiro bimestre desse ano. atraídos pelo diferencial de juros e por essa apreciação. em 2012. ver capítulo 2. 110 a economia brasileira no contexto da crise global . interrupção da trajetória da apreciação cambial e menor volatilidade da taxa de câmbio)38 desestimularam os fluxos de capitais voláteis. mantiveram-se em patamares bem inferiores aos vigentes nos anos anteriores pelo critério da média móvel semestral. mas com um impacto limitado na trajetória da taxa de câmbio do real. as diversas medidas adotadas possivelmente ampliaram o impacto da queda da taxa de juros básica. Baumann e Gallagher (2012). quais sejam. No segundo semestre de 2011. sem no entanto afetar o volume dos fluxos de capitais externos.5% contra 49. do curto para o longo prazo. a participação do IDE no ingresso líquido de fluxos de capitais estrangei- ros superou ligeiramente aquela dos fluxos financeiros em 2011 – 50. em um estudo econométrico sobre o impacto dos controles de capitais adotados pelo governo brasileiro entre outubro de 2009 e dezembro de 2011. decorrente do aprofundamento da crise do euro. a partir de agosto de 2011. Pelo critério anual. a partir de janeiro de 2012. a partir de testes econométricos. superados pelo IDE. Para maiores detalhes sobre essa mudança. o contex- to financeiro internacional e a gestão macroeconômica doméstica37. em função da sua interação com outros condicionantes desse ingresso. o que resultou numa queda de 21% desse ingresso em 2012. Já Chamon e Garcia (2013) concluem.6% em 2012 (Tabela 1A. mesmo nos momentos de alívio da crise do euro e aumento da demanda por títulos. não foi totalmente compensada pela entrada de IDE. A redu- ção desses fluxos.

os fatores exter- nos (volatilidade financeira internacional e desaceleração double-speed). Isso porque as menores oportunidades de ganhos de curto prazo devido à nova combinação de preços-chave (juros e câmbio) desencoraja- ram. Os instrumentos de gestão dos capitais e a política macroeconômica doméstica moldaram a composição desses fluxos. contribuíram para trazer uma mudança na composição dos fluxos de capitais estrangeiros. sobretudo. e o prazo mínimo das operações de pagamento antecipado de exportações foi ampliado de um para cinco anos (Quadro 1A. a partir de agosto de 2011 e. a favor do IDE vis- à-vis os fluxos financeiros. no final deste capítulo). a eficácia desses controles aumentou devido à nova combinação de preços-chave (taxas de juros próximas das vigentes nas demais economias emergentes e taxa de câmbio menos volátil). ao menos até 2006. ao lado do dinamismo do mercado consumidor brasileiro. alguns instrumentos de gestão dos fluxos de capitais foram flexibilizados: no início de dezembro. as exportações brasileiras (de commodities e de bens manufaturados exportados para países produtores de commodities) registraram taxas expressivas de crescimento (PRATES. a repatriação de investimentos brasileiros de portfólio (Tabela 1A. a qual deixou de ser indutora de operações de arbitragem regulatória. o que contribuiu para a inversão de sinal das transações correntes. superiores àquelas das importações. Ademais. igualmente. em 2012. apesar da preservação de um resultado superavitá- rio. o IOF de 6% voltou a incidir somente sobre captações externas com prazo mínimo de um ano (como vigente até março de 2011). beneficiadas pelo aumento do preço e da demanda externa por commodities. a economia brasileira no contexto da crise global 111 . 2006). sucedendo a eclosão da crise financeira global. Considerações finais A inserção comercial e financeira brasileira sofreu importantes alterações no período 2009-2012. Vale lembrar que no quinquê- nio 2003-2007. Assim. ao desestimular as opera- ções especulativas de curto prazo. e afetaram a dimensão dos capitais externos de natureza financeira. Nesse contexto. o que re- sultou em superávits comerciais sucessivos e crescentes. No que diz respeito à inserção comercial. o comércio exterior mostrou uma redução expressiva relativamente ao perí- odo pré-crise. induzindo o alongamento do prazo da dívida externa (securitizada e bancária).Já o superávit da conta financeira sofreu retração ainda mais intensa (33%) que o ingresso líquido de capitais estrangeiros. devido à maior saída de capitais brasi- leiros para o exterior. no final deste capítulo). que se tornaram novamente deficitárias em 2008.

com isso. ancorada em políticas de estímulo da demanda. de patamar ainda apreciado (em termos reais) da moeda brasileira e de deficiências na infraestrutura e no sistema tributário. depende dos contextos internacional e macroeconômico doméstico. Duas principais características despontam na análise da pauta comercial bra- sileira no período em tela. Isso porque o impacto desses instrumentos sobre os fluxos líquidos de capitais estrangeiros dependerá do seu efeito sobre a rentabi- lidade esperada das operações financeiras. A primeira é a continuidade da trajetória de aumento considerável das exportações. a experiência brasileira no período analisado revela que a eficácia de uma estratégia de gestão dos fluxos de capitais. inclusive de maior prazo de duração. Foi jus- tamente o bom desempenho da venda externa desses bens que permitiu ao Brasil manter o superávit comercial entre 2009 e 2012. a redução progres- siva desse patamar (e. Num contexto de apetite dos investidores globais por ativos dos países emer- gentes. especialmente do consumo. o custo das medidas governamen- tais e dos mecanismos de arbitragem regulatória (quando utilizados). que contribuem. teve efeito negativo. do diferencial entre os juros interno e externo). direto e indireto. igualmente. como fatores internos. de um lado. para essa maior eficácia. ancorada em instrumentos quantitativos. de outro lado. tais como o patamar apreciado da moeda doméstica vigente antes da crise (que ero- diu a competitividade da indústria brasileira). de dinamismo do consumo doméstico. 112 a economia brasileira no contexto da crise global . que envolve a contraposição entre. o diferencial de juros e. A segunda é o aumento expressi- vo do déficit com produtos não commodities primárias. o excepcional patamar da taxa de juros básica brasileira (somado à trajetória de apreciação cambial) mais do que compensou esse custo até meados de 2011. sobre os fluxos financeiros de natureza especulativa. ao desestimular (ou tornar inviáveis) os meca- nismos de arbitragem regulatória. A maior estabilidade da taxa de câmbio a partir do segundo semestre de 2011 contribuiu. Essa deterioração do saldo comercial brasileiro refletiu tanto as mudanças no cenário mundial provocadas pela crise global (sobretudo o acirramento da compe- tição internacional no mercado de bens manufaturados). a retomada da apreciação cambial entre 2009 e meados de 2011 e a própria resposta anticíclica ao efeito-contágio da crise. No que diz respeito à inserção financeira. Esse déficit foi consequência das taxas muito superiores de crescimento das importações brasileiras relativa- mente às exportações num contexto de busca de mercados pelos produtores glo- bais desses produtos. para reduzir a competitivi- dade da indústria brasileira. que foi o responsável pela redução no saldo comercial brasileiro após a crise. Em contrapartida. a partir de agosto desse ano. igualmente. sob liderança das commmodities primárias.

em função. Embora o grau de liberdade na adoção de políticas comerciais seja menor em função dos compromissos no âmbito da OMC. Essa mudança positiva na inserção financeira e negativa na inserção comercial brasileira no período após a crise também pode ser evidenciada pela evolução dos indicadores de vulnerabilidade externa – seja no curto prazo (liquidez externa). bem como dos deriva- tivos cambiais. se as diversas me- didas tivessem sido adotadas simultaneamente. da mudança na gestão dos fluxos de capitais. esses canais teriam sido fechados e as diversas modalidades de fluxos teriam sido atingidas pela estratégia. ao mesmo tempo em que a inserção financeira tornou-se mais favorável. o governo brasileiro ainda tem espaço para ampliar o uso da política comercial no sentido. seja no âmbito de acordos de livre comércio e tratados de investimento bilaterais. todavia. porque os sucessivos governos brasileiros não firmaram compromissos seja no Gats (General Agreement on Trade in Ser- vices). principalmente. não deveria ser descartada. em dezembro de 2007. respondendo prontamente às inovações financeiras introduzidas pelos agentes privados. mas poderia ter sido mais dinâmica. acertar no timing e na “dose” ideal de medidas é praticamente impossível. de mitigar o efei- to deletério da concorrência das importações sobre a indústria doméstica. ao deixar abertos canais alternativos para a realização de opera- ções de arbitragem de juros ou carry trade. No que se refere à liquidez externa. em dezembro de 2012. Em suma. o indicador mais amplo – a razão entre o passivo externo de curto prazo40 e as reservas – recuou de 3. Sobre a relação entre o sistema de comércio internacional e os controles de capitais. envolvendo controles de capitais e regulação prudencial. O passivo externo de curto prazo é a soma da dívida externa de curto prazo com o estoque de investimen- to de portfólio (em ações e renda fixa) no mercado financeiro doméstico. pois os efeitos dos diversos instrumentos utilizados são incertos. seja no médio e longo prazos (solvência externa) (Gráficos 16 e 17). ainda mais num con- texto internacional turbulento. a economia brasileira no contexto da crise global 113 . 40. especialmente. embora esse passivo 39. como a adotada pelo governo brasileiro.5. Isso quer dizer que. A adoção de uma estratégia mais ampla de gestão desses fluxos. para 1. ver Gallagher e Stan- ley (2013). A implementação gradual dos instrumentos de gestão dos fluxos de capitais também pode ter contribuído para reduzir seu efeito sobre o ingresso total de recursos externos. Contudo. a análise realizada nas seções anteriores revela que a inserção externa da economia brasileira no contexto da crise financeira global sofreu uma deterio- ração em sua dimensão comercial. uma estratégia gradual. O caso brasileiro é analisado em Paula e Prates (2013). Assim. que restringiriam os graus de liberdade dessa estratégia39. só foi possível.7. Em outras palavras.

ao reforçar as correias de transmissão da instabilidade gerada nos mercados financeiros inter- nacionais (que condicionam as decisões de alocação de portfólio dos investidores não residentes) para o mercado financeiro doméstico. contudo. Do ponto de vista da solvência externa. no caso dos investimentos de portfólio no mercado doméstico (em ações e títulos de renda fixa). essa mudança (viabilizada pelo aprofundamento da abertura financeira após o ano de 2000) teve efeito colateral negativo. com maior elasticidade-renda da demanda. menos as reservas internacionais. substitui-se no denominador as exportações pelas receitas em conta corrente. divulgadas na Nota para Imprensa do Setor Externo pelo BCB.7 vez superior às reservas (ou seja. necessárias para amorti- zar esse passivo e fazer frente às remessas de juros. foi zerada em dezembro de 2011 (como reflexo do alongamento do prazo da dívida externa em resposta ao controle de capitais). ao colchão de segurança que pode ser mobilizado no curto prazo para fazer frente a esse passivo). como o Brasil. como destacam Medeiros e Serrano (2001)42. 114 a economia brasileira no contexto da crise global . Por um lado. lucros e dividendos43. bens menos sujeitos às oscilações de preços nos mercados internacionais e. que se tornou mais favorável. Esse é o critério utilizado pela agência Standard & Poors de classificação de risco de crédito. respectivamente). que possuem superávits permanentes e expressivos nas demais sub- contas das transações correntes (como serviços e rendas de investimento). o valor em moeda estrangeira dessa modalidade de passivo externo diminui em função tanto da queda dos preços dos ativos em moeda doméstica como da depreciação cambial provocada pela saída de capitais. No caso de alguns países centrais. Essa desvalorização do estoque de ativos financeiros de não residentes no país explica a queda dos indicadores de liquidez e solvência externa (em 2009 e 2008. hoje. Também foi construído um indicador alternativo. Ademais. o PEL é a dife- rença entre o passivo externo bruto e o ativo externo bruto. Ou 41. que considera somente as exportações de não commodities. 42. Por outro lado. as exportações são a fonte de geração autônoma de divisas. utilizam o termo ‘sustentabilidade externa’ em vez de ‘solvência’. que gera compromissos em divisas (juros e amortizações) e envolve descasamento de moedas. nos países periféricos. subtraídos dos estoques de investimento direto e de portfólio de brasileiros no exterior). a dívida de curto prazo. o indicador fundamental é a relação entre o passivo externo líquido (PEL)41 e as exportações anuais. às posições internacionais (passiva e ativa) de investimento. que equivalem. Em outras palavras. O passivo externo líquido (PEL) equivale à soma da dívida externa líquida com os estoques líquidos de investimento externo direto e de portfólio (ou seja. ainda seja 1. nos momen- tos de liquidação de posições dos investidores estrangeiros em moeda doméstica num regime de câmbio flutuante. como ressalta Biancareli (2012). Todavia. é preciso con- siderar a composição desse passivo. 43. respectivamente. Isso porque. muito maior do que antes da crise. Esses autores. de forma geral. seu grau de cober- tura cambial é.

a trajetória dos dois indicadores foi divergente: enquan- to o indicador tradicional manteve-se praticamente estável (próximo a 3). passando de 4. no caso do Brasil. Ou seja. o fato de grande parte do IDE ter-se direcionado para setores não comercializável (serviços) ou para indústrias com foco. mas também pelos efeitos dinamizadores das exporta- ções de bens manufaturados sobre a produtividade da indústria doméstica. Embora essas exportações tenham crescido no período anali- sado. a taxa de crescimento foi inferior àquela do PEL. A desvalorização do investimento de portfólio. um fenômeno efêmero. Aqui é importante lembrar a ressalva feita por Kregel (1996): independentemente de adicionarem ou não capacidade produtiva ao país. dado que a queda de seu valor em moeda estrangeira é. com o aumento da participação dos passivos denominados em moeda doméstica (IDE e portfólio) vis-à-vis a dívida externa (contabilizada em ‘Outros investimentos’) dolarizada. Esse resultado é preocupante não somente em função das diferenças em termos de volatilidade de preços e elasticidade-renda da demanda entre essas duas categorias de produto. tal indicador procura captar a mudança de composição na pauta de expor- tação brasileira. o problema do descasamento de moedas). Em contrapartida. não se pode esquecer que esse passivo tam- bém resulta em remessas de rendas de investimento (lucros e dividendos). no mercado doméstico (por exemplo. Ademais. Ou seja. analisada na seção anterior. adicionalmente. Ou a economia brasileira no contexto da crise global 115 . os investimentos externos diretos embutem uma lucratividade bastante elevada. em 2012. cujos reflexos incidem sobre aquela capacidade. No contexto da crise. automobilística e alimentos) cria um descompasso estrutural entre essas remessas e a geração de divisas pelas empresas transnacionais presentes no país. que se reverte com a emergência de uma nova fase de abundância de fluxos de capitais para os países emergentes – como confirma a experiência brasileira após 2008 (Gráfico 16). em 2006 e 2007. pois têm uma liquidez menor e envolvem maior ris- co do que as demais modalidades de capital externo. resultando em remessas significativas de lucros e dividendos. devido às dificuldades de ope- ração num país estrangeiro.72. alivia a situação de liquidez externa. o indi- cador alternativo sofreu deterioração. em geral.40 e 5. para 6. sobretudo. o prêmio de risco associado ao investimento direto pode ser maior do que o relacionado às outras modalidades. a composição do PEL (o numerador) tornou-se mais fa- vorável. em momentos de aversão aos riscos pelos investidores globais. mas tem um efeito menos relevante no caso da solvência externa. não necessariamente inferiores às associadas ao endividamento externo (que traz consi- go.78. Todavia. o PEL é três vezes superior às exportações totais e quase sete vezes maior que as exportações de não commodities.seja.

como preferem alguns autores44) é a relação passivo externo líquido/exportações.00 6.78 Indicadores de solvência 500 Estoques 5.00 5.51 3. Indicadores de solvência externa e passivo externo líquido do Brasil – 2006 a 2012 9.82 200 2. o indicador fundamental na análise da situação de solvência externa de um país (ou de sustentabilidade.8 bilhões nas transações correntes.43 3.00 600 6. é rele- vante mais do ponto de vista da liquidez do que da solvência externa. se considerarmos um período de maior amplitude temporal. Finalmente. seja à realização de lucros nos mercados acionário e de renda fixa.93 300 3.4 bilhões no mesmo período de 2012) e para o déficit de US$ 24. recorde da série histórica do BCB.totais PEL/Export.68 2.72 7. Isso porque.56 6.00 800 8. Assim. necessárias para amortizar esse passivo.00 7. por exemplo.00 2.00 1.40 400 4. Fonte: Banco Central do Brasil. que se inicia em 1947. esse estoque também resulta numa demanda significativa por divisas. composto exclusivamente pelo investimento de portfólio no país.1 bilhões (contra um superávit de US$ 2. Como essa vulnerabilidade depende da evolução do passivo externo líquido e da capacidade da economia em questão de gerar divisas. que reflete a vulnerabilidade externa no médio e longo prazos (ver Gráfico 17). 44. as exportações são a fonte de geração autônoma de divisas. vale destacar que o novo perfil do passivo externo bruto de curto prazo. seja.00 3. Gráfico 16.43 100 0.13 2. como o Brasil.00 1. deve ser motivo de pre- ocupação a perda adicional de dinamismo das exportações no primeiro trimestre de 2013.29 3. Medeiros e Serrano (2001).00 0 jan-06 jan-07 jan-08 jan-09 jan-10 jan-11 jan-12 Estoque IDE Estoque portfólio Estoque Outros Investimentos PEL/Export.73 700 6. que contribuiu para o déficit comercial de US$ 5. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. nos países periféricos.00 4. Ver. 116 a economia brasileira no contexto da crise global .manuf. associadas seja às remessas de dividendos e juros (no caso dos títulos de renda fixa).

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A medida entrou em vigor em 4/4/2011. Recolhimento de depósito compulsório (em reais) de 60% do valor das posições vendidas em Regulamentação câmbio. sujeita a IOF de 6%). 6/4/2011 Controle de capital sobre repactuação e assunção de dívidas. Renovações de empréstimos externos devem realizar câmbio simultâneo (devem contabilizar os fluxos cambiais “fictícios” referentes ao pagamento da dívida. por 18/10/2010 Controle de capital investidores não residentes. Anexo Estatístico Quadro 1. e à 4/4/2011 Controle de capital nova captação. A migração./2012 Controle de capital IOF voltou a incidir somente sobre operações com prazo de até dois anos a partir de junho IOF de 6% voltou a incidir somente sobre captações externas com prazo mínimo de um ano Dez. A alíquota de IOF sobre aplicações em ações. Também foi zerada a alíquota de IOF (até então de 6%) sobre 1/12/2011 Controle de capital aplicações por não residentes em títulos privados de longo prazo com duração acima de quatro anos. Percentual de 60% passa a incidir sobre o montante que exceder o menor dos seguintes prudencial valores: US$ 1 bilhão ou o patrimônio de referência (Nível I). Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Instrumentos de gestão dos fluxos de capitais Data Tipo de medida Medida Aumento da alíquota de IOF de 2% para 4% sobre a aplicação de estrangeiros em fundos de 4/10/2010 Controle de capital renda fixa e títulos do Tesouro. Fonte: Banco Central do Brasil. Jun. assumidas pelos bancos. Em Ato Declaratório publicado no Diário Oficial. em vigor desde outubro de 2008. a Receita esclareceu que a alíquota de 6% 2/8/2011 Controle de capital do IOF incidente sobre os empréstimos com prazo médio de até 720 dias incide sobre as operações de empréstimos intercompanhias. Mudança nas regras de recolhimento compulsório (em reais) sobre posições vendidas em câm- Regulamentação 8/7/2011 bio. Alíquota de IOF sobre investimentos estrangeiros de portfólio de ações (2% desde outubro de 2009) volta ao patamar de 0%. Prazo mínimo das operações de pagamento antecipado de exportações foi ampliado de um Dez. Bloqueia-se. de aplicações em renda variável e ações para aplicações em renda fixa está sujeita ao fechamento de novo contrato de câmbio (câmbio 7/10/2010 Controle de capital simultâneo). por investidores não residentes./2012 Controle de capital (como vigente até março de 2011) . agora de 4% para 6%.38%. um instrumento de evasão da medida precedente. Imposição de IOF de 6% sobre as captações externas de até 360 dias (as captações externas 29/3/2011 Controle de capital com prazo inferior a 90 dias já eram tributadas com alíquota de IOF de 5./2012 Controle de capital para cinco anos.38%). assim. e sobre empréstimos intercompanhias sob o mesmo prazo. Nova elevação da alíquota de IOF. para aplicações em renda fixa. a economia brasileira no contexto da crise global 121 . que exceder o menor dos seguintes valores: US$ 3 bilhões 6/1/2011 prudencial ou o patrimônio de referência (Nível I). impedindo que os investidores deixem de pagar a nova alíquota de IOF para renda fixa. sujeito a IOF de 0. foi mantida em 2%. IOF de 6% passa a incidir também sobre empréstimos externos com prazo de até dois anos. Objetivo: trazer a posição vendida dos bancos no mercado à vista para US$ 10 bilhões.

060 Outros passivos LP e CP (líquido) 3.930 .127.580 Importação de bens .3.6.573 .719 Crédito comercial .300 .30.52.42.995 201.119 1.097 24.377 Investimento estrangeiro direto (IDE) 25.713 21.838 Empréstimo intercompanhia 6.76.322 .846 Conta Capital e Financeira 71.705 .084 .453 16.600 Negociados no país 32.926 41.260 Investimento estrangeiro em carteira 46.934 Negociados no país LP e CP (líquido) 10.301 99.39.11 2012/dez.567 .288 31. Tabela 1.958 2 .1.1.85.989 15.040 242.272 Participação no capital 19.912 112.1.689 68.272 7.753 Outros investimentos brasileiros (líquido) .809 22.1.042 8.149 Serviços e Rendas .092 966 .278 10.762 Conta Capital (líquido) 1.24.821 Participação no capital .525 Crédito comercial .434 Investimento em Carteira (líquido) 50.338 2.920 Negociados no exterior (Depositary Receipts) 4.52. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.4.473 .005 .794 19.09 2010/dez.24.431 Exportação de bens 152.245 5.076 41.639 Investimento Direto (líquido) 36.70.807 74.671 7.7.290 20.051 Negociados no exterior LP e CP (líquido) .458 Crédito comercial .246 Balança comercial 25.782 52.651 49.024 7.902 2.311 8.fornecedores LP e CP (líquido) 4.523 11.555 Empréstimo intercompanhia 14.315 .223.637 18.229 930 .919 67. 122 a economia brasileira no contexto da crise global .077 14.741 10.029 2.195 20.339 5.533 .045 .251 .16 10 Resultado do Balanço 46.900 Fonte: BCB.147 29.177 Empréstimos e fincanciamentos LP e CP (líquido) 4.148 52.858 .564 15.1.19.562 10.782 .124 11.855 Demais setores LP e CP (líquido) 4.61 5.878 12.249 22.629 15.47.246 .071 37.159 67.033 36.101 58.376 .125 .117 54.11.660 65.588 1.fornecedores LP .26.166 .534 Ações e títulos negociados no país 47.734 Moeda e depósito (líquido) 1.145 .535 .114 10.855 Empréstimos e financiamentos .883 Outros investimentos (líquido) .793 110.282 .915 256. Balanço de pagamentos (em US$ bilhões) Contas 2009/dez.601 .741 10.10 2011/dez.380 72.949 48.926 41.112 2.442 6.4.226.545 .506 66.543 46.784 16.651 Ações de companhias brasileiras 37.1.54.906 40.093 Investimento brasileiro direto 10.273 .129 1.283 63.011 35.273 Investimento brasileiro em carteira 4.795 18.804 .320 Títulos de renda fixa LP e CP 9.390 11.974 13.278 Outros investimentos estrangeiros (líquido) 14.2.523 Transferências unilaterais correntes 3.302 .16.984 2.291 31.8.087 30.12 Transações Correntes .178 22.100 .877 Conta Financeira 70.181.399 14.172 98.768 .fornecedores CP (líquido) 5.174 5.demais setores CP (líquido) .

Esse capítulo está baseado em notas técnicas elaboradas pelos autores no âmbito do Grupo de Economia da Fundap e contempla informações até o final de fevereiro de 2013. o que contribuiu de maneira fundamental para a reativação mais rápida da atividade econômica. em disputa por clientes e fatias de mercado. Finalmente. não obstante os efeitos adversos na economia brasileira do agravamento (em setembro de 2008) da crise financeira global. cujos pilares são as instituições públicas federais – Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). monetária e macroprudencial. 1. a economia brasileira no contexto da crise global 123 . Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF) –. das estratégias operacionais das instituições bancá- rias criadoras de moeda. o sistema de cré- dito direcionado garantiu a oferta de crédito a setores de maior risco ou de baixa rentabilidade e elevado retorno social. A evolução do crédito bancário nesse período pós-impacto da crise global foi condicionada pelos efeitos combinados da existência do sistema de crédito dire- cionado. houve crescimento do volume de crédito concedido pelo sistema finan- ceiro nacional. De outro lado. as autoridades governamentais buscaram influenciar de maneira bastante ativa o comportamento dos bancos na concessão de crédito para alcançar objetivos de política econômica. ou seja. notadamente políticas financeira. CAPÍTULO 4 A Política Financeira Anticíclica e a Evolução do Crédito Bancário entre 2009 e 2012 Maria Cristina Penido de Freitas Rafael Fagundes Cagnin Introdução1 Entre janeiro de 2009 e dezembro de 2012. aquelas que captam depósitos. os quais raramente são atendidos pelas instituições financeiras privadas. e da ação das políticas governamentais. De um lado.

e novamente expansionista a partir do mês de agosto daquele ano. marcado.5%.3%. tanto o BB como a CEF seguiram orientação governamental para forçar a queda dos juros e spreads e promover o alongamento dos prazos nas operações de crédito com recursos livres. no cenário internacional. a recuperação parcial do 124 a economia brasileira no contexto da crise global .5% em dezembro de 2012 (ante 39. Em estratégia adotada no primeiro semestre de 2009 e repetida em 2012. por forte incerteza. Ao longo do período analisado.4% (taxa média real anual equivalente a 13. como também nas reações dos seus concorrentes (públicos e privados). em porcentagem do PIB. ora foi contracionista. deflacionado pelo IPCA. manteve sua trajetória de expan- são iniciada em dezembro de 2003. Todavia. Nesse período. como no primeiro semestre de 2011. Em termos de volume. Nos momentos de forte desaceleração do crédito. como instrumento de política anticíclica ex- pansionista potencializou a influência das decisões governamentais sobre as ins- tituições bancárias privadas. o saldo total de crédito bancário do Sistema Financeiro Nacional.1%. reagiram às decisões de política com base não só em suas próprias expectativas sobre o ci- clo dos negócios. saltou de R$ 1. para 6. quatro fases podem ser identificadas: a forte desaceleração que persis- tiu até novembro de 2009. em dezembro do mesmo ano). em particular as privadas. Igualmente. fortemente influenciado pelas estratégias dos bancos na gestão de suas carteiras e pelas mudanças de direção da política financeira anticíclica. o estoque de crédito total. que se viram obrigadas a reagir ao avanço dos rivais públicos. notadamente BB e CEF. porém. a utilização dos bancos públicos federais criadores de moeda. o papel dos bancos públicos como instrumento de política financeira foi além da ação anticíclica de contrabalançar a retração do crédito pri- vado. importantes alterações ocorreram tanto no perfil como na composição do crédito ao setor privado. alcançando 53. as instituições financeiras.53 trilhão para R$ 2. e 40.1%. ampliando a oferta de crédito em algumas modalidades e/ou segmentos e desacelerando (ou contraindo) em outras. como no final de 2008 e em 2009. considerando-se a trajetória do crescimento real do crédito em 12 meses.36 trilhões. em setembro de 2008. em dezembro de 2008. em razão da aversão a riscos dos bancos privados e a despeito da ativa postura anticíclica dos bancos públicos. O ritmo de crescimento do crédito foi. associada à maior aversão ao risco das instituições privadas. cujo estoque em proporção do PIB saltou de 2. com destaque para o aumento da participação do sistema financeiro público e para a forte ampliação do crédito à habitação. em dezembro de 2012. por seu turno. um aumento real de 54.2%). que ora foi ex- pansionista.

A seção seguinte centra-se na segunda fase do período pós-crise. acarretou a emergência de posições financeiras instáveis no segmento do crédito ao consumo. a nova desaceleração em 2011. e. de expressiva queda da taxa básica de juros e de baixo dinamismo da economia. além dessa breve introdução e das considerações finais. Freitas (2009). guiada pelo acirramento da concorrência bancária que. impôs perdas importantes a operações entre empresas e bancos nacionais2 nos mercados de derivativos cambiais. a fase que se inicia no final de 2011 e abrange o ano de 2012. bem como no grau de inadimplência. quando houve reativação do crescimento econô- mico e forte ampliação do crédito ao consumo das famílias nas carteiras de bancos privados e públicos. A desvalorização da taxa de câmbio do real. das políticas monetária. por fim.final de 2009 ao final de 2010. em setembro de 2008. em um contexto de recuperação do crescimento econômico. A quarta seção examina os efeitos da reorientação. colaborando para a disseminação da aversão ao risco e o “empoçamento” de liquidez no sistema financeiro doméstico. A primeira seção tem como foco a ação anticíclica dos bancos públicos em resposta à reação dos bancos privados aos impactos da crise global. Ver. a partir do segundo semestre de 2011. Com o propósito de examinar a dinâmica do crédito e seus condicionantes. a partir de dezembro de 2009. Farhi e Borghi (2009). Reações ao aprofundamento da crise global e o papel dos bancos públicos A forte desaceleração do crédito até novembro de 2009 foi capitaneada pe- los bancos privados. os bancos retraíram o crédito tanto para as empresas e pessoas físicas como para outros bancos. devido às medidas restritivas tomadas pelo Banco Central do Brasil (BCB) e pelo Ministério da Fazenda. por exemplo. financeira e macroprudencial no volume. custo e prazo do crédito ao setor privado em 2012. este capítulo foi organizado em quatro seções. em que medi- das de incentivo à expansão do crédito foram combinadas com ações voltadas à redução dos juros e spreads bancários. quando ocorreu a reativação do crédito ao setor privado. a economia brasileira no contexto da crise global 125 . A terceira seção analisa as respostas das autoridades governamentais à expansão excessiva do crédito e os impactos dessas medidas restritivas na evolução e composição do crédito. em reação ao aprofundamento da crise financeira interna- cional devido à falência do banco Lehman Brothers. Por desconhecer o grau de exposição dos demais participantes ao risco de perdas nessas operações. que sucedeu esse evento. 2. em um contexto de elevada inadimplência.

em 26 de março de 2009. Ao su- prir a necessidade de capital de giro das empresas nos diversos setores de atividade econômica e garantir o financiamento do consumo das famílias. 5. uma vez que não contam com base ampla de depositantes e dependem da captação de recursos no interbancário e da cessão de crédito para dar conti- nuidade às suas operações ativas3. pelo Conselho Monetário Nacional (Resolução n. do depósito bancário com garantia especial do Fundo Garantidor de Crédito (FGC) em até R$ 20 milhões por 3. 2. característico da administração ativa dos balanços pelos bancos. além de baixíssimo risco. O prazo relativamente curto do crédito bancário no Brasil favoreceu esse movimento de realocação de portfólio. também não passaram ilesos pelo período de turbulência. O efeito defasado da elevação continuada da meta da taxa Selic. o setor bancário privado reagiu com excesso de prudência à reversão das expectativas associada ao agravamento da crise e suas repercussões na economia. como os bancos públicos e os grandes bancos privados. aproveitando a liquidez diária dos CDBs. Esses últimos. a regulamentação. Os bancos exerceram preferência pela liquidez adquirindo títulos públicos federais que. para a rápida desaceleração da ativi- dade econômica4. foi fundamental. além da ação anticíclica dos bancos públicos. Os bancos pequenos e médios também foram afetados pela fuga para segurança dos investidores institu- cionais e dos grandes investidores individuais que. mantiveram a expansão de suas carteiras de crédito a taxas positivas e bastante superiores àquelas de seus congêneres privados. Além de privilegiar os títulos públicos. Os bancos pequenos e médios foram os mais afetados pelo “empoçamento” da liquidez. transferiram suas aplicações para instituições consideradas mais seguras. Para normalizar a concessão de crédito às famílias. as concessões de crédito a pessoas físicas nesses segmentos do mercado foram fortemente afetadas. ver Freitas (2009). lhes asseguraram alta rentabilidade. O cenário só não foi mais grave porque os bancos públicos. entre abril e setembro de 2008. contribuindo. assim. Enquanto Itaú e Unibanco se fundiram no final de 2008. seguindo orien- tações do governo federal. a ação dos ban- cos públicos contribuiu para uma mais rápida reativação da demanda doméstica e consequente retomada da atividade econômica.692). Bancos como Itaú. que realizaram operações de derivativos de câmbio com as empresas. e das medidas de baixa efetividade na gestão da crise de liquidez tomadas pelo BCB contribuíram para que a postura conservadora dos bancos privados perdurasse ao longo de praticamente todo o ano de 20095. Para uma análise crítica da gestão da crise de liquidez pelo BCB. o banco Votorantim vendeu participação no capital para o Banco do Brasil. em janeiro de 2009. 126 a economia brasileira no contexto da crise global . os bancos privados aumentaram a seletividade na concessão e na renovação de crédito às pes- soas físicas e às empresas. Em um comportamento pró-cíclico típico. Como os grandes bancos pararam de adquirir carteiras de financiamento de veículos e de crédito consignado originadas pelos bancos menores. sofreram elevada pressão de caixa devido às chamadas de margens de garantia na Bolsa de Mercadorias e Futuros (BM&F). Unibanco e Votorantim. entretanto. 4.

no valor de R$ 3 bilhões. a elevação da inadimplência e a prolongada reestruturação das dí- vidas das empresas. a CEF. Com recursos da ordem de R$ 6 bilhões. de capital nacional e estrangeiro. devido à deterioração das expectativas –. alguns esclarecimentos sobre a metodologia empregada pelo BCB até dezembro de 2012. em particular daquelas envolvidas com derivativos de câmbio. As modalidades de crédito às empresas (sobretudo às pequenas e médias em- presas industriais) foram. O PEC foi lançado em dezembro de 2008. todavia. ajudaram a garantir as necessidades de capital de giro das empresas. lançado em abril de 2009. Em maio de 2009. 8. justificaram a contração do crédito corporativo por parte dos bancos privados. Essa medida de política fi- nanceira viabilizou o “desempoçamento” da liquidez e permitiu reativar a concessão de crédito consignado e para aquisição de veículos pelos bancos de menor porte. uma vez que as infor- mações segundo a nova metodologia. Já o Procer. Para maiores detalhes. Segundos as estatísticas do BCB8. cobrem apenas o período posterior ao ano de 2007. ver Fundap (2009). o PEC forneceu empréstimos de até R$ 50 milhões por CNPJ para micro. Sobre a evolução do crédito corporativo após o aprofundamento da crise internacional. duas linhas de crédito para capital de giro ao setor de construção. foi essencial para suprir a necessidade de capital de giro das empresas6. serviço e comércio7. melhoradas. então. O volume total de crédito do Sistema Financeiro Nacional inclui operações de a economia brasileira no contexto da crise global 127 . Embora tenha diminuído a demanda das empresas por crédito – em linha com o arrefecimento do nível da atividade e com o adiamento dos planos de investimento. apresentada em fevereiro de 2013. que vinha se acelerando desde o início de 2008.investidor (Quadro A1. com recursos de R$ 10 bilhões. ampliou significativamente as linhas de financiamento às empresas ao longo de 2009. as que mais sentiram o impacto da crise. Prates e Freitas (2010) e Freitas (2011). no final de 2008. pequenas e médias empresas dos setores da indústria. até o limite de R$ 200 milhões por CNPJ ou 20% da receita operacional bruta. Dois programas do BNDES. o crescimento do saldo de crédito contrata- do pelos bancos públicos. de máquinas e equipamentos agrícolas e de cooperativas agropecuárias. com recursos oriundos da caderneta de poupança. atin- 6. Ao longo de 2009. por exemplo. ante a maior aversão ao risco do sistema bancá- rio privado. com vigência prevista de seis meses. 7. em anexo ao final do capítulo). destinava- se ao financiamento do capital de giro das empresas do setor agroindustrial. o pro- grama teve sua vigência prorrogada até dezembro de 2009 e suas condições de prazo e juros. Este artigo utiliza a antiga metodologia do BCB para divulgação dos dados de crédito. Continuam válidos. a ação anticíclica dos bancos públicos. que havia criado. ver Fundap (2008). Ademais. uma vez que nesses casos a regulamentação vigente exige maiores provisões e base de capital. em 2009: o Programa Especial de Crédito (PEC) e o Programa de Crédito Especial Rural (Procer).

remetem a uma amostra identificada como “crédito com recursos livres em operações referenciais de taxas de juros”. O crédito total do Sistema Financeiro Nacional ao setor privado (incluindo crédito livre e direcionado) é classificado pelo BCB segundo a ótica setorial do tomador: indústria. a crédito ao setor privado e ao setor público. em setembro de 2008.). 9.66 trilhão (deflacionado pelo IPCA) (Gráfico 1). pode ser classificado segundo o tipo do tomador (pessoa física ou pessoa jurídica). em 12 meses. O crédito direcionado à pessoa física refere-se. ao crédito direcionado à habitação. habitação. comércio. Em 2009.2%. compreendendo aquelas operações denominadas de “crédito com recursos livres” – em que as condições do contrato são livremente pactuadas pelas partes – e de “crédito com recursos direcionados” – cujas condições estão sujeitas a regras definidas pelo Estado. cheque especial. cartão de crédito. O crédito com recursos livres também é classificado segundo o tipo de tomador (pessoa física e pessoa jurídica). O crédito com recursos direcionados. rural e pessoa física. A partir dessa amostra (que representa mais de 90% do crédito livre total) são colhidas informações a respeito das taxas de juros cobradas e dos spreads praticados. D e E. taxas reais superiores às dos bancos privados nacionais. com a indústria e o comércio absorvendo mais da metade dos créditos concedidos ao setor corporativo (10%. como é o caso das modalidades de crédito consignado e de financia- mento à aquisição de veículos no segmento de pessoas físicas. o BB avançaram em diferentes segmentos do cré- dito bancário com recursos livres. mas as classificações mais detalhadas. No último trimestre de 2008 e no primeiro bimestre do ano seguinte. com forte atuação no financiamento ao consumo das classes C. habitação e outros. Os bancos privados estrangeiros já tinham sido ultrapassados no mês de maio. Cabe mencionar que. alguns até então dominados por instituições privadas. quando atingiu o montante de R$ 1. sempre superiores a 30% ao mês. em 2008). conquistando e/ou ampliando fatias de mercado9. Na CEF. posteriormente. em novembro de 2009. por sua vez. giu. a CEF e. etc. ou da seguinte forma: BNDES-direto. a ação anticíclica do BB e da CEF foi mais evidente no segmento de crédito para o setor corporativo. para essa instituição. apesar de sua desaceleração. financiamento da aquisição de bens. sobretudo. a participação das empresas na car- teira de crédito ao setor privado elevou-se a 25%. Aliando as diretrizes governamentais com suas próprias estratégias operacio- nais. assim como do prazo e do nível de inadimplência das operações. o saldo de crédito dos bancos públicos apresentou taxas reais de crescimento.6%. a partir de outubro desse mesmo ano. a CEF adquiriu 49% do capital votante do Banco PanAme- ricano. em 2008). em 2009 (ante 19%. em dezembro de 2009. outros serviços. enquanto os bancos privados desaceleraram bruscamente a contrata- ção de crédito. Cabe ressaltar que. rural. BNDES-repasse. a contração do crédito pelos bancos privados de controle estrangeiro e a quase estagnação dos saldos de crédito dos bancos privados nacionais (com contrações no segmento corporativo) continuavam sendo contrabalançadas pelo crescimento das carteiras dos bancos públicos. 128 a economia brasileira no contexto da crise global . para 10. a taxa de crescimento real em 12 meses do crédito total do sistema financeiro foi reduzida de 26. de acordo com o tipo de crédito (crédito pessoal. Assim. No final de 2009.

em outubro de 2008. em setembro de 2008. passando de 73%. 11. aversão ao risco dos bancos privados representou uma janela de oportunidade para a ampliação e diversificação da base de cliente. Freitas (2010) e Hermann (2010). o crescimento real do crédito livre total do sistema finan- ceiro desacelerou-se. contudo. o crédito de capital de giro. Sobre a importância dos bancos públicos e do crédito direcionado. passando de 29.5%. 2009 e 2010). Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. ver. A taxa de crescimento da principal modalidade de crédito livre à pessoa jurídica. para 18. tanto às grandes 10. para 1. Já o BB expandiu fortemente suas operações de crédito aos setores de comércio e serviço (FUNDAP. Cintra (2007). Cintra e Prates (2010). destacou-se a atua- ção do BB mediante repasses de recursos do BNDES à indústria. a taxa de crescimento do crédito corporativo com recursos livres despencou de 45. Gráfico 1. Diante dessa evolução do crédito livre.7%. em dezembro de 2009. Apesar da atuação dessas duas instituições.3% para 14. viu-se reduzida seguidamente. favorecido pela desaceleração mais suave do crédito à pessoa física. a economia brasileira no contexto da crise global 129 . reflexo do impacto menos intenso e transitório da crise no mercado de trabalho10./2003 a dez. em %) 35 30 25 20 15 10 5 0 -5 -10 -15 -20 ago/04 ago/05 ago/06 ago/07 ago/08 ago/09 ago/10 ago/11 ago/12 dez/03 dez/04 dez/05 dez/06 dez/07 fev/04 fev/05 fev/06 fev/07 fev/08 dez/08 dez/09 dez/10 dez/11 dez/12 fev/09 fev/10 fev/11 fev/12 jun/04 jun/05 jun/06 jun/07 jun/08 jun/09 jun/10 jun/11 jun/12 out/04 out/05 out/06 out/07 out/08 out/09 out/10 out/11 out/12 abr/04 abr/05 abr/06 abr/07 abr/08 abr/09 abr/10 abr/11 abr/12 SF Público SF Privado SF Estrangeiro Crédito Total do SFN Fonte: Banco Central do Brasil. na comparação em 12 meses (Gráfico 2). em abril de 2010. passando de 22. dentre outros. Dentre os bancos com operações de varejo. em novembro de 2008./2012 (variação real em 12 meses. para 5%. Esse desempenho foi. Evolução do crédito bancário total e segundo a propriedade de capital dos bancos – dez. fica evidente a importância do crédito direcionado para evitar uma desaceleração mais expressiva do crédito total do sis- tema financeiro11. ver capítulo 7. A respeito da evolução do mercado de trabalho. Com isso.2% no mesmo período.5%.6% em dezembro de 2009.

0 2. Gráfico 2. em maio de 2008. que aprofun- daram a trajetória de desaceleração iniciada já em maio de 2008.0 7. o PSI foi prorrogado até dezembro de 2013.5 10.5 30. lançado em junho de 2009.2%.0 [Em %] 12. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. 130 a economia brasileira no contexto da crise global . sob influência da expansão do fi- 12.7%./2003 a dez. para 61. com vistas a elevar a competitividade da indústria brasileira. à postura mais conserva- dora dos bancos privados. em julho de 2009 (Gráfico 3). em agosto de 2008. Uma vez que o BB sozinho seria incapaz de compensar a retração dos bancos privados no repasse de recursos do BNDES. atuando como agentes financei- ros. mantendo um ritmo de crescimen- to elevado até meados de 2010. a evolução da modalidade BNDES- repasse12 foi condicionada pela aversão a riscos dos bancos privados. avaliam e carregam os riscos subjacentes às operações de repasse dos recursos aos tomadores finais. o crédito direcionado também apresentou de- sempenho bastante superior ao do crédito livre. como às pequenas empresas. livre e direcionado – dez. Por esse motivo. A taxa de crescimento real dessa modalidade de crédito. o PSI reduziu o custo final para o tomador dos financia- mentos de investimentos em inovação. tecnologia e na compra bens de bens de capital. assim como o crédito livre. na comparação em 12 meses.5 0. 9.0 27. Financiado com recursos do Tesouro Nacional. A menor taxa real de crescimento em 12 meses foi obtida em julho de 2009. (1) Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA).5%.6%. Ainda assim.5 25. Nas operações à pessoa física. que opera- cionalizou o Programa de Sustentação ao Investimento (PSI)13. sob influência da elevação das incertezas no front externo. o saldo BNDES-repasse esteve sujeito. expandiu-se fortemente desde então. são os bancos públicos e privados que. a ação direta do BNDES.5 20. saltou de 16. 13. Criado em 2009.5 ago/04 ago/05 ago/06 ago/07 ago/08 ago/09 ago/10 ago/11 ago/12 dez/03 dez/04 dez/05 dez/07 fev/04 fev/05 fev/06 dez/06 fev/07 fev/08 dez/08 fev/09 dez/09 dez/10 dez/11 fev/10 fev/11 fev/12 dez/12 jun/04 jun/05 jun/06 jun/07 jun/08 jun/09 jun/10 jun/11 jun/12 abr/04 abr/05 abr/06 abr/07 abr/08 abr/09 abr/10 abr/11 abr/12 out/04 out/05 out/06 out/07 out/08 out/09 out/10 out/11 out/12 Recursos livres Recursos Direcionados Total Fonte: Banco Central do Brasil.0 17.0 22. em %) 32. Evolução do crédito total. contra 20./2012 (variação real1 em 12 meses.0 -2. Na modalidade BNDES-repasse.5 5.5 15.

dinamizar a geração de emprego e renda por meio da construção civil. a fatia do BB no mercado de crédito atingiu 21./2012 (variação real1 em 12 meses. passando de 16. Gráfico 3. Vale lembrar que a CEF – principal credor do segmento habitacional – constitui-se no agente central da operacionalização do programa Minha Casa Minha Vida. ocorreu a incorporação integral da Nossa Caixa. nesse mesmo ano. em %) 65 60 55 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 -5 -10 fev/ 08 out/ 10 fev/ 12 dez/ 11 jun/ 09 ago/ 10 abr/ 09 set/08 set/09 set/10 set/11 set/12 nov/08 nov/09 nov/10 nov/11 nov/12 jul/08 jul/09 jul/10 jul/11 jul/12 jan/08 jan/09 jan/10 jan/11 jan/12 ago/08 ago/09 ago/11 ago/12 dez/08 dez/09 dez/10 fev/09 fev/10 fev/11 dez/12 jun/08 jun/10 jun/11 jun/12 out/08 out/09 out/11 out/12 abr/08 abr/10 abr/11 abr/12 mai/08 mai/09 mai/10 mai/11 mai/12 mar/08 mar/09 mar/10 mar/11 mar/12 BNDES Direto BNDES Repasse Rural Habitação Outros Fonte: Banco Central do Brasil. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. De fato. com o duplo objetivo de reduzir o déficit habitacio- nal do país e. A combinação de ação anticíclica com estratégias de conquista de parcelas do mercado pelos bancos públicos. Evolução do crédito com recursos direcionados – jan. o financiamento habitacional foi a única modalidade de crédito que manteve sua trajetória de aceleração ao longo de 2009.3 pontos percentuais. sobretudo. Mesmo considerando que. foi bem-sucedida e se traduziu no au- mento expressivo da participação relativa dessas instituições no Sistema Financeiro Nacional. para 23./2008 a dez. depois de ter atingido o pico de 28. (1) Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). enquanto a participação da CEF ampliou-se 14. a economia brasileira no contexto da crise global 131 .7%. as taxas de crescimento do crédito direcionado total apresentaram aumento. com ganho de participação dos bancos públicos. lançado em abril de 2009.8%. ver Cagnin (2012).5%.2% no mês de agosto de 2009 (Gráfico 2). em dezembro de 2009. nanciamento habitacional. com elevação de 3. passando de uma taxa de crescimento real em 12 meses de 37. para 45. Influenciado pelo desempenho do financiamento habitacional e da modalidade BNDES-direto.8%.2% em dezembro de 200914. em 2009. Sobre a evolução do financiamento habitacional entre 2005 e 2011. em outubro de 2008. em agosto de 2008.

Dada a exigência do cumprimento da regra de Basileia – que na versão brasileira im- põe capital mínimo equivalente a 11% dos ativos ponderados pelos riscos –. Em maio. CEF e BNDES) elevou sua participação no estoque total de crédito de 35%. Entre janeiro e julho de 2009. em dezembro de 2009. com a colocação de bônus perpétuos no valor de US$ 1. com a emissão de letras financeiras no valor de US$ 1 bilhão. que havia elevado os seus juros no último trimestre de 2008. também. sob a forma de títulos públicos. reorientou suas estratégias no primeiro semestre de 200917. o fato de que. a partir de janeiro de 2009. 2. os bancos públicos federais cortaram os juros das suas operações ativas. aportes de capital nos bancos públicos fizeram-se necessários. o BB recorreu. várias vezes ao longo de 2009. sob o co- 132 a economia brasileira no contexto da crise global . a captações no exterior. essa solução evitou impacto fiscal para o caixa do governo federal. a CEF pôde considerar a operação como parte de seu capital e. Para essa decisão contribuiu. O mesmo tipo de procedimento foi adotado em 2012. além de Afonso (2011) e Barros e Afonso (2013). nos limites impostos pela regulamentação bancária. Na média. com a demissão de Antônio Francisco de Lima Neto da presidência do banco. em outubro de 2009. Para mais detalhes sobre os instrumentos de capitalização dos bancos públicos e suas relações com as finanças públicas. como será visto adiante. contudo.2% para 29. a CEF promoveu.8%. já que o empréstimo é uma transa- ção dentro do próprio setor público. Seguindo a diretriz da política financeira governamental. 17.5%. 16. em outubro de 2009. em outubro de 2008. pelas regras do BCB.5 bilhão e. O conjunto dos bancos públicos (espe- cialmente BB. forçando assim a reação dos bancos privados. bem como nos financiamentos habitacionais. Por sua vez. Também o BB. o que permitiu manter o Índice de Basileia próximo de 20%. Por outro lado. fosse repassada aos tomadores finais de crédito16. ver capítulo 8. O empréstimo foi realizado em condições compatíveis com o enquadramento da operação como instru- mento híbrido de capital e dívida. o governo federal promoveu a troca de comando no BB. Em março de 2009. em razão da sua resistência em cumprir a diretriz de redução dos juros e spreads definida pelo controlador. em março de 2010. portanto. incluir esses recursos no patrimônio de referência que serve de base de cálculo dos limites de empréstimo.5%. além de promover a elevação do limite 15. A CEF também recebeu do governo federal um empréstimo de R$ 6 bilhões. os spre- ads praticados pela instituição caíram de 34. Seguindo orientação do governo federal. a União concedeu empréstimo da ordem de R$ 100 milhões para o BNDES. os bancos públicos desempenharam um papel essencial como instrumento da po- lítica financeira voltada para forçar a queda dos spreads e assegurar que a redução da meta Selic. insatisfeito com a manutenção dos spreads bancários em níveis elevados. A utilização dos bancos públicos como instrumento da política financeira an- ticíclica esbarrava. Em abril. a redução das taxas de juros em algumas das suas linhas comerciais. Além de sustentar a oferta de crédito para auxiliar a recuperação da economia. sob a forma de instrumento híbrido de capital e dívida15. alcançando 9. para 41. a meta da Selic foi reduzida em cinco pontos percentuais pelo BCB. De um lado.3 pontos percentuais.

o BB optou por não assumir o controle do Votorantim no início de janeiro de 2009. as taxas de juros para os em- préstimos nesse segmento. no anexo ao final deste capítulo). em razão do baixo crescimento e da inadimplência elevada. dessa vez em diversas linhas do segmento das pequenas e médias empresas18. em um total de R$ 13 bilhões.4 pontos percentuais. Nesse segmento. adquirindo 49. Em consequência. diferentemente do que vaticinavam os seus críticos. Gráfico 4. em média. A utilização dos bancos públicos como instrumento de política financeira anticíclica não se traduziu./2008 a dez./2012 (em %) 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 fev/ 11 jun/ 08 jun/ 12 mar/ 11 set/ 08 set/ 12 nov/ 09 mai/ 11 jan/ 10 out/ 09 jul/ 08 jul/ 12 ago/08 ago/09 ago/10 ago/11 ago/12 dez/08 dez/09 dez/12 fev/08 fev/09 fev/10 dez/10 dez/11 fev/12 jun/09 jun/10 jun/11 set/09 set/10 set/11 nov/08 nov/10 nov/11 nov/12 jul/09 jul/10 jul/11 jan/08 jan/09 jan/11 jan/12 abr/08 abr/09 abr/10 abr/11 abr/12 mai/08 mai/09 mai/10 mai/12 mar/08 mar/09 mar/10 mar/12 out/08 out/10 out/11 out/12 Spread PF Spread PJ Spread Geral Fonte: Banco Central do Brasil. Em junho. a economia brasileira no contexto da crise global 133 . em deterioração da qualidade da carteira dessas insti- tuições. os bancos privados precisavam elevar o volume das operações de crédito e alongar o prazo para manter suas participações de mercado e sua lucratividade.de crédito de 10 milhões de clientes pessoas físicas. Em contraste. o BB reduziu em 9. 18. mando de Lima Neto. Desse modo. mas a queda foi mais lenta e relati- vamente menor. com consequente perda de receita nas aplicações de títulos públicos. os spreads bancários recuaram em 2009. que reagiram abaixando os juros e os spreads. os spreads só começaram a diminuir no segundo semestre. em particular no segmento de pessoas físicas (Gráfico 4). no segmento de crédito à pessoa jurídica. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Evolução dos spreads para o crédito à pessoa física e à pessoa jurídica – jan. os juros médios e os spreads foram reduzidos continuamente ao longo do ano. novo corte das taxas de juros foi praticado.99 % do capital da instituição. a ampliação do crédito a um custo mais baixo pelos bancos públicos representava uma real ameaça à posição dos bancos privados. Em contexto de redução da taxa básica de juros. A participação dos créditos com qualidade de risco normal vem crescendo desde junho de 2009 (ver Gráfico A2.

entre janeiro de 2009 e abril de 2010 – cujos efeitos defasados puderam ser sentidos em 2010.75% a. bem como 19. 134 a economia brasileira no contexto da crise global . quando chegou a registrar taxa média real da ordem de 24%. para 14. os bancos privados começaram a reagir ao avanço dos seus concorrentes públicos e volta- ram a atuar como agentes financeiros nos repasses do BNDES.. sob a influência determinante da menor inadimplência das operações de crédito a pessoas físicas (de 8%.5%.1% (Gráfico 2). passando de uma taxa real de crescimento em 12 meses de 10. para em torno de 4%. para 5. a expansão do saldo total de crédito do Sistema Financeiro Nacional acelerou-se.9% para 21. de 22. registrando taxas reais de crescimento acima da média do SFN. Nessa conjuntura mais favorável. Nesse mesmo período.9%. em novembro de 2009. As medidas fiscais de sustentação da demanda associaram-se a sucessivos cortes da meta da taxa Selic – que trouxe- ram os juros básicos de 13. após outubro de 2009. A reativação do crédito privado e o crescimento explosivo do crédito ao consumo No período que se estende de dezembro de 2009 até o final de 2010. a taxa de crescimento das operações de crédito com recursos livres saiu de 5. No segmento de crédito corporativo. não houve retorno ao padrão de elevado crescimento observado entre agosto de 2007 e setembro de 2008. em boa parte. a inadimplência das operações de crédito às pessoas jurídicas pouco se reduziu. impacto positivo sobre a evolução dos níveis de inadimplência. então. as instituições privadas nacionais foram bem-sucedidas em sua reação à concorrência das instituições públicas. essa mudança de patamar. em um esforço para recuperar fatias de mercado perdidas para os bancos públicos. Embora a ampliação do crédito ao setor privado tenha voltado a ganhar ímpeto. e pela pressão da concorrência exercida pelo comportamento agressivo dos bancos públicos sobre seus congêneres privados. que assumiram uma trajetória de queda mais sistemática a partir de novembro de 2009. Em evidente compor- tamento procíclico. passando de 1. O crescimento da par- ticipação de pequenas empresas nessa modalidade de crédito explica. diferentemente da inadimplência do crédito às pessoas físicas.75% para 8. na manutenção do emprego e da geração de renda. em novembro de 2008. A recuperação da atividade econômica e a manutenção do emprego e da renda tiveram. em novembro 2009. Com a retomada do crescimento e dos planos empresariais de investimentos. impulsionada pela eficácia das medidas anticíclicas. mas mudou de patamar ao longo do primeiro semestre de 2009.7%. Nota-se que.7%.3% e a do crédito direciona- do. em novembro de 2010.2% para 10. houve uma recuperação moderada da trajetória de expansão do crédito. as instituições privadas nacionais aceleraram a concessão de cré- dito ao setor privado.a. em dezem- bro de 2010)19.

2%. observa-se. o crescimento do BNDES-direto seria ultrapassado pelo BNDES-repasse. em novembro de 2010.1% do BNDES-direto (Gráfico 3). alavancada por modalidades tais como: conta garantida e aquisição de bens (que mostraram taxas positivas de crescimento a partir do segundo semestre de 2010). em novembro de 2010). verificou-se a manutenção de taxas elevadas de crescimento do BNDES-direto no primeiro semestre de 2010. em dezembro de 2009. Desde fevereiro de 2010.7%.9%. que registrou taxas reais de crescimento superiores a 40%. 20. o grupo privado nacional elevou sua participação de 37. para 16%.1% para 39. enquanto o crédito às pessoas físicas chegou até mesmo a se desacelerar entre dezembro de 2009 e maio de 2010 (Gráfico 6). Embora não tenham conseguido recuperar a liderança. a forte aceleração do financiamento habitacional. Entre as modalidades do crédi- to direcionado. ainda que tenha apresentado desaceleração ao longo de 2010.6%. para 14. Já os estoques destinados ao setor industrial se retraíram em termos reais entre dezembro de 2009 e abril de 2010 (Gráfico 6). a modalidade BNDES-repasse atingiu expansão real em 12 meses de 39. Na evolução do crédito total ao setor privado por atividade. ao mesmo tempo em que a mo- dalidade BNDES-repasse ratificava sua trajetória de aceleração. setor que foi atingindo pela crise de forma intensa20.9%. passando de 22.das estrangeiras. Os efeitos da crise sobre a indústria são discutidos no capítulo 6. enquanto os saldos das operações de crédito destinados aos setores de comércio e serviços cresceram em ritmo mais forte. a economia brasileira no contexto da crise global 135 .5% do total do crédito do SFN a pessoas jurídicas. no mês de dezembro de 2009. os saldos de crédito destinados aos setores terciários registravam taxas reais de crescimento em 12 meses da ordem de dois dígitos. Em relação ao crédito de capital de giro. contudo. foi mais suave que no ano anterior. perdida em dezembro de 2008 para o subsistema público. em 12 meses) (Gráfico 5). Já a evolução do crédito livre à pessoa jurídica acelerou-se de um patamar (em termos reais. na mesma intensidade em termos dos setores de atividades. em 2010 (45. absorveu menos créditos do SFN na retomada do crescimento. destaca-se o comportamento de algumas modalidades de crédito ao consumo. igual- mente. A partir de julho. A indústria. Em novembro de 2010. Todavia. ao se examinar o desem- penho do crédito com recursos livres. em 12 meses) de 1. adiantamento de contrato de câmbio (ACC) e repasses externos (cuja contração se arrefeceu a partir do segundo trimestre do ano). A retomada do crédito corporativo não se deu. A evolução do crédito corporativo do período foi resultado da expansão tanto do crédito direcionado como do crédito livre. contra 13. em dezembro de 2010 (em termos reais.

/2008 a dez. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Gráfico 5. imobiliário Aquisição de bens ACC Repasses externos Fonte: Banco Central do Brasil. em %) 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 -5 set/ 11 nov/ 08 set/ 09 jan/ 09 nov/ 12 jan/ 11 fev/ 08 out/ 08 fev/ 10 out/ 10 fev/ 12 out/ 12 jul/ 11 jun/ 09 dez/ 09 dez/ 10 jun/ 11 ago/ 08 ago/ 09 ago/ 12 abr/ 08 mar/ 10 abr/ 11 abr/ 12 mai/ 08 mai/ 10 mai/ 12 set/08 set/10 set/12 nov/09 nov/10 nov/11 jul/08 jul/09 jul/10 jul/12 jan/08 jan/10 jan/12 ago/10 ago/11 dez/08 fev/09 fev/11 dez/11 dez/12 jun/08 jun/10 jun/12 out/09 out/11 abr/09 abr/10 mai/09 mai/11 mar/09 mar/08 mar/11 mar/12 Indústria Habitação Rural Comércio Pessoas físicas Outros serviços Fonte: Banco Central do Brasil. voltando a acelerar apenas no último trimestre do ano. em torno de 18% ao mês na comparação em 12 meses./2012 (variação real1 em 12 meses. Crédito total ao setor privado por setor de atividade – jan. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. em %) 90 70 50 30 10 -10 -30 -50 -70 set/ 10 nov/ 09 nov/ 11 jan/ 08 jan/ 12 fev/ 09 out/ 11 jul/ 08 jul/ 12 dez/ 08 jul/ 10 dez/ 10 dez/ 12 jun/ 10 ago/ 09 ago/ 11 abr/ 08 mar/ 09 abr/ 10 mar/ 11 abr/ 12 mai/ 09 set/08 set/09 set/11 set/12 nov/08 nov/10 nov/12 jul/09 jul/11 jan/09 jan/10 jan/11 ago/08 ago/10 ago/12 fev/08 dez/09 fev/10 fev/11 dez/11 fev/12 jun/08 jun/09 jun/11 jun/12 out/08 out/09 out/10 out/12 abr/09 abr/11 mai/08 mai/10 mai/11 mai/12 mar/08 mar/10 mar/12 Desconto de duplicatas Capital de giro Conta garantida Financ./2012 (variação real1 em 12 meses./2008 a dez. Ainda que as operações com recursos livres tenham apresentado uma tendên- cia relativa de arrefecimento do ritmo de expansão ao longo do primeiro semestre de 2010. (1) Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). Gráfico 6. (1) Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). em termos 136 a economia brasileira no contexto da crise global . as taxas de cresci- mento desse tipo de crédito mantiveram-se em patamar elevado ao longo de todo o período. Evolução do crédito com recursos livres referenciais para pessoas jurídicas – jan.

bens ./2008 a dez. as taxas reais de crescimento em 12 meses estiveram. Gráfico 8. a ampliação dos volumes de crédito. Evolução do crédito livre às pessoas físicas – jan. Evolução do crédito consignado – jan. próximas de 28%. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. %) 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 -10 -20 -30 -40 set/ 09 set/ 10 nov/ 11 jan/ 08 nov/ 09 jan/ 12 jan/ 11 fev/ 08 out/ 08 out/ 11 fev/ 09 out/ 09 fev/ 12 out/ 12 fev/ 10 out/ 10 fev/ 11 jul/ 12 jul/ 08 jul/ 10 jun/ 08 dez/ 10 jun/ 12 jun/ 09 jun/ 10 jun/ 11 ago/ 09 abr/ 08 abr/ 12 mar/ 09 mar/ 11 mai/ 08 mai/ 12 mai/ 09 set/12 set/08 set/11 nov/08 nov/10 nov/12 jul/09 jul/11 jan/09 jan/10 ago/12 ago/08 ago/10 ago/11 dez/08 dez/11 dez/12 dez/09 abr/09 abr/10 abr/11 mai/10 mai/11 mar/08 mar/12 mar/10 Cheque especial Crédito pessoal Cartão de crédito Financ. No crédito consignado. (1) Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). Esses foram os casos do crédito consignado e do financiamento da compra de veículos (Gráficos 7 e 8). a economia brasileira no contexto da crise global 137 . Gráfico 7. imobiliário Aquisição de veículos Aquis. imobiliário Aquisição de veículos Aquis. em algumas modalidades no segmento de pessoas físicas. em média./2012 (variação real1 em 12 meses e participação no crédito pessoal.Outros Outros Fonte: Banco Central do Brasil./2012 (variação real1 em 12 meses. bens .Outros Outros Fonte: Banco Central do Brasil./2008 a dez. Com a concorrência acirrada e os esforços dos bancos privados em recuperar fatias de mercado perdidas para os bancos públicos. (1) Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA). deu-se em rit- mo acelerado ao longo de 2010. em %) 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 -10 -20 -30 -40 set/ 09 set/ 10 nov/ 09 nov/ 11 jan/ 08 out/ 08 jan/ 11 jan/ 12 fev/ 08 fev/ 09 out/ 09 fev/ 10 out/ 10 fev/ 11 out/ 11 fev/ 12 out/ 12 jul/ 08 jul/ 12 jul/ 10 dez/ 10 jun/ 08 jun/ 09 jun/ 10 jun/ 11 jun/ 12 ago/ 09 abr/ 08 mar/ 09 mar/ 11 abr/ 12 mai/ 08 mai/ 12 mai/ 09 set/08 set/12 set/11 nov/08 nov/10 nov/12 jul/09 jul/11 jan/09 jan/10 ago/08 ago/12 ago/10 ago/11 dez/08 dez/09 dez/11 dez/12 abr/09 abr/10 abr/11 mai/10 mai/11 mar/08 mar/10 mar/12 Cheque especial Crédito pessoal Cartão de crédito Financ.reais. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.

Essas elevadas taxas de crescimento do crédito acenderam. Ainda que o objetivo principal das medidas macroprudenciais seja a estabili- dade do sistema financeiro. No final de 2010.8%. de modo a reduzir o valor das prestações e a viabilizar o aumento do endividamento das famílias. de outro lado. os bancos vinham. em vigor desde 2002. porém. ampliando os prazos das operações de crédito ao consumo. No que diz respeito ao financiamento de veículos. para minimizar os efeitos da crise financeira internacional na liquidez do sistema bancário brasileiro. essa taxa chegou a atingir o extraordinário patamar de 40. 2011). os bancos passaram a conceder crédito sem entrada para a aquisição de veículos. FREITAS e PRA- TES. De um lado. deu-se continuidade ao processo de retirada gradual dos incentivos introduzidos. o BCB definiu o cronograma de extin- ção dos depósitos a prazo com garantia especial do FGC. além de ampliar excessivamente os prazos das operações. entre o último trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009. com a elevação dos percentuais (de 15% para 20%) e a redução do limite máximo de dedução (de 45% para 36%) das compras de carteiras de crédito e dos depósitos interfinanceiros da exigibilidade do compulsório sobre os depósitos. Na mesma ocasião. para 16. o BCB identificou risco potencial de instabilidade financeira associado ao endividamento das famílias. dos 11%. 2007. de financiamento habitacional e de financiamento para a aquisição de veículos de carga e os empréstimos consignados com prazos superiores a 36 meses22. Assim. desde 2003. 22. e do capital mínimo para as operações de crédito às pessoas físicas com prazo superior a 24 meses. ver Fundap (2011). é verdade que elas também auxiliam a política mone- tária (MORENO.5% do valor da operação. movidos pela pressão concorren- cial. de 8% para 12%. determi- nou a recomposição dos níveis de recolhimento compulsório sobre os depósitos a prazo. então vigentes. Replicando uma prática do comércio varejista. Sobre as medidas macroprudenciais. Foram excluídas da exigência de maior requerimento de capital as operações de crédito rural. em 3 de dezembro de 2010. ao desequi- líbrio entre o volume de crédito e o valor das garantias no caso do financiamento para a aquisição de veículos e ao descasamento de prazo das operações ativas e passivas do sistema bancário – condicionado pela ampliação dos prazos do crédito à pessoa física que vinha ocorrendo desde 200321. o BCB anunciou a elevação do adicional do compulsório sobre depósitos à vista e a prazo. em dezembro de 2010. 2009). a despeito das elevadas taxas de juros (FREITAS. a adoção de tais medidas pelo BCB permitiu 21. De fato. Ademais. 138 a economia brasileira no contexto da crise global . sem a devida contrapartida do alongamento do funding dos bancos. o alarme das autoridades econômicas.

elevou-se a alíquota do IOF sobre as operações de empréstimo e de arrendamento mercan- til.75% a. para 10. 23. influenciada pelo comportamento dos re- passes e das operações diretas do BNDES que. a taxa de crescimento real em 12 meses caiu de 13. condicionou uma nova desaceleração do crédito bancário em 2011. puxado pela desaceleração do crédito ao setor corporativo. as operações de financiamento habitacional permaneceram isentas de IOF.75 ponto percentual. também teve início a tendência de desaceleração do financiamento habitacional. a perda de ímpeto da expansão do segmento de crédito com recursos livres às pessoas físicas. apesar do contexto de pressões inflacionárias crescentes.manter a meta da taxa Selic em 10. associado a uma postura menos agressiva dos ban- cos públicos. entre os meses de janeiro e julho de 2011.9% em novembro. por me- didas do Ministério da Fazenda nessa mesma direção. então. já a partir do mês de maio de 2011.a. Do lado da a economia brasileira no contexto da crise global 139 . levando a meta da taxa Selic para 12. cuja taxa real de crescimento em 12 meses caiu de 21. Já o crédito livre desacelerou-se a partir do mês de março de 2011. seguiu sua trajetória de desaceleração. em agosto de 2011. Como o alvo era o crédito ao consumo – financiamento para a aquisição de bens. tal con- tribuição não evitou a gradual elevação da meta da taxa básica de juros em 1. no mês de julho. em dezembro de 2010. Esse conjunto de medidas.a.5% para 3% (Quadro A1. para 11. ainda. e. em função da acomodação do mercado imobiliário residencial das principais ca- pitais do país23. rotativo do cartão de crédito.6% entre dezembro de 2010 e outubro de 2011.1% para 13. alvo das medidas de contenção.9%. inclusive consignado –.4%. Em razão da defasagem tem- poral. A política monetária contracionista do BCB foi acompanhada. retrocedeu em seu papel anticíclico. Para o saldo total do crédito. no anexo ao final deste capítulo). Em abril de 2011. A desaceleração do financiamento habitacional tem origem em processos tanto do lado da demanda como do lado da oferta que sinalizam uma relativa acomodação do mercado imobiliário residencial. somente se intensificou a partir do mês de agosto. cheque especial e crédito pessoal. como será visto a seguir. passado o período de maior risco ao crescimento econômico. ao longo do segundo semestre de 2010. de 1.5% a. Todavia. O crédito direcionado. Nesse período. Os impactos das medidas restritivas O efeito combinado das medidas contracionistas das políticas financeira e monetária resultou no arrefecimento do ritmo de expansão do crédito total do sistema financeiro ao setor privado.

Ainda que tenha sido compensada por outras formas de crédito pessoal. então. puxada pela alta dos alimentos e dos serviços. consequentemente. da demanda. para 16%. Como resultado. a respeito.3% (em termos reais e em 12 meses). Cagnin e Novais (2013). redução do nível de lançamentos de projetos. é importante notar o efeito estatístico ocasionado pelo forte crescimento do financiamento habitacional entre 2008 e 2010. ante as taxas de -2. Instalou-se. uma dinâmica cumulativa entre a elevação dos juros de empréstimos. que a deterioração do perfil de endividamento das famí- lias. em dezembro de 2011. e levando à contração do crédito para a aquisição de outros bens. em dezembro de 2011. inclusive porque parte dos imóveis dos grandes centros urbanos ultrapassou o limite de preço imposto às operações regulamentadas do Sistema Financeiro da Habitação ou pelo programa Minha Casa Minha Vida. para chegar a 7. o volume de crédito à pessoa física com recursos livres teve sua taxa de crescimento real em 12 meses reduzida de 12. No agregado. A inflação ascendente ao longo de 2011. a taxa de inadimplência das pessoas físicas saiu de 5. assim. cuja taxa de crescimento caiu de 6.4%. para 8. Do lado da oferta.1% para 9. Além disso.8%.1%. em fevereiro de 2011. respectivamente. o que redundou na elevação da inadimplência em todas as moda- lidades da carteira de crédito bancário às pessoas físicas. reduzindo sua taxa de crescimento real em 12 meses de 11. As medidas contracionistas sobre o crédito ao consumo foram eficazes. em maio de 2012 (Gráfico 9). de 41. influenciada pelo aumento sucessivo das metas da taxa Selic. tem raízes nas próprias medidas adotadas pelo BCB e pelo governo federal. em dezembro de 2010. redu- zindo a taxa de crescimento do financiamento à aquisição de veículos. saindo de 28. ocorrida em 2011.7%. o crescimento dos preços imobiliários bastante acima da expansão da renda contribuiu para re- duzir a capacidade de compra das famílias. Chama a atenção o fato de que parte da desaceleração (ou contração) dessas modalidades de crédito à pessoa física foi compensada pelo crescimento de formas de crédito rotativo. a desaceleração do crédito consignado também foi expressiva. Ver. Fundap (2013). gerando aumento do estoque de unidades residenciais e. em dezembro de 2011. Os saldos de crédito de cheque especial e cartões de crédito encerraram o ano de 2011 com uma taxa real de expansão de 9. uma vez que a diminuição no poder de compra das famílias resultou na diminuição da renda disponível para pagamento das dívidas bancárias contraídas. para chegar a 9. em outubro desse ano.3% e 14.7%. modalidades que se caracterizam pela cobrança de taxas de juros extorsivas. o ano de 2011 explicitou inconsistências das estratégias de expansão das maiores incorporadoras do país.5%. em dezembro de 2010.7%. Constata-se. também contribuiu para esse aumento. 140 a economia brasileira no contexto da crise global .3% verificadas em dezembro de 2010 (Gráfico 7). na mesma comparação.5% para -15%. em janeiro de 2011.9%.7% e 7.

2%). ainda no primeiro semestre de 2011./2012 (em % da carteira) 10 08 06 04 02 00 fev/ 09 fev/ 11 dez/ 10 dez/ 11 jun/ 08 jun/ 10 jun/ 12 ago/ 09 ago/ 10 mar/ 08 abr/ 08 mar/ 09 abr/ 09 mar/ 10 set/ 09 mar/ 11 mar/ 12 abr/ 12 nov/ 09 nov/ 10 nov/ 11 nov/ 12 mai/ 08 nov/ 08 mai/ 12 jan/ 11 out/ 09 out/ 11 jul/ 08 jul/ 09 jul/ 10 jul/ 11 jul/ 12 ago/08 ago/11 ago/12 dez/09 dez/12 fev/08 dez/08 fev/10 fev/12 jun/09 jun/11 set/10 set/08 set/11 set/12 jan/08 jan/09 jan/10 jan/12 abr/10 abr/11 mai/09 mai/10 mai/11 out/10 out/08 out/12 Pessoa jurídica Pessoa física Total Fonte: Banco Central do Brasil. Para romper com essa dinâmica perversa. pois os juros cobrados pelos bancos embutem a previsão de inadimplência. a alta da inadimplência acaba servindo como justificativa para a rigidez dos juros cobra- dos das pessoas físicas nos momentos de redução da taxa básica de juros./2008 a dez. Evolução da taxa de inadimplência1 nas operações de crédito com recursos livres2 – jan. dos spreads e da inadimplência. a qual termina por acontecer. utilizando os bancos públicos como instrumento de concorrência para forçar a reação dos bancos privados. (1) Consiste na participação das operações de crédito com atraso superior a 90 dias. sem dúvida. houve. atingindo o seu patamar mais baixo no mês de outubro (7. um forte arrefecimento no ritmo de expansão do crédito. so- bretudo nas operações com recursos direcionados. o que resulta na elevação dos spreads e no consequente aumento dos lucros dos bancos. como será visto na próxima seção. sem dú- vida. Gráfico 9. que vinha crescendo a uma taxa real média de 27. o governo voltou a fazer uso da política financeira em prol da redução dos juros. Já nos segmentos de crédito às pessoas jurídicas. Além disso. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. registrou taxas reais decrescentes a partir de março de 2011. inadimplência e dos spreads bancários. um círculo vicioso na elevação das taxas de juros. O saldo do crédito nessas ope- rações. pois os juros exorbitantes tornam-se impagáveis diante de qualquer redução na renda disponível das famílias ou no fluxo de caixa das empresas.7% em 2010. Há. o principal motor da forte desaceleração observada no segmento do crédito a economia brasileira no contexto da crise global 141 . A diminuição da concessão de crédito com recursos do BNDES foi. (2) Refere-se às operações de crédito com recursos livres referenciais a taxas de juros.

o BNDES tornou público o seu propósito de manter o volume de desembolso.5%. Houve arrefecimento tanto na modalidade BNDES-direto como na modalidade BNDES-repasse.3%.1% em janeiro de 2011). a desacelera- ção teve início no mês de maio. o banco alterou suas políticas operacio- nais no início de 2011. o BNDES reduziu em 10 pontos percentuais sua participação máxima nos financiamentos. portanto. Em segundo lugar. Ante as condições financeiras extremamente favoráveis dos mercados interna- cionais. A redução do crescimento foi mais intensa na modalidade BNDES-repasse que. a política monetária restritiva elevou o custo de todas as principais modalidades de crédito. em torno de R$ 145 bilhões.3%. declinou para ape- nas 8. No segmento de crédito com recursos livres ao setor corporativo. que já vinha mantendo ritmo de cres- cimento moderado desde o último trimestre de 2010. próximo. Com o propósito de abrir espaço para o setor privado. Essa desaceleração foi mais acen- tuada no segundo semestre. Finalmente.8%. de uma taxa real de expansão em 12 meses da ordem de 33. em razão da deterioração das expectativas e maior aversão a riscos dos bancos. aprofundando-se no bimestre outubro-novembro (Gráfico 5). em condições de se financiarem nos mercados pri- vados de crédito no Brasil e no exterior24. atraídos pela ampliação do diferencial entre juros domésticos em elevação e juros internacionais em patama- 24. 142 a economia brasileira no contexto da crise global . em dezembro de 2011 (Gráfico 3). teve uma expansão real em 12 meses de 0. não obstante as medidas de controle adotadas pelo Ministério da Fazenda ao longo do primeiro semestre de 2011. Essa evolução é indicativa da ação anticíclica desse banco. pelos agentes financeiros a uma empresa. com consequente redução na demanda por crédito. associadas à liquidez abundante. as iniciativas para a con- tenção do crédito ao consumo e a desaceleração da atividade econômica frustra- ram as expectativas empresais e se traduziram em revisão de planos de produção. direcionado às pessoas jurídicas ao longo de 2011. voltando a se acelerar no segundo semestre e encerrando o ano com crescimento de 13. em 2011. Igualmente. sobretudo das empresas de grande porte. O saldo da modalidade BNDES-direto. em um cenário de baixo dinamismo da economia doméstica e de aprofundamento da crise na área do euro. em junho de 2011 (ante 5. o forte influxo de capitais externos. que registrou moderação no ritmo de crescimento em 2011. e elevou de R$ 10 milhões para R$ 20 milhões o teto do valor dos projetos que poderão ser repassados. em um ano. Essas mudanças foram introduzidas com a clara e explícita intenção de reduzir sua participação no financiamento de longo prazo. A alta da meta da Selic e as medidas de contenção do crédito ao consumo afetaram igualmente o comportamento das operações de crédito ban- cário ao setor corporativo. do patamar observado em 2010. em janeiro. Em primeiro lugar.

o grupo de instituições privadas nacionais diminuiu significativamen- te o ritmo de concessão de crédito. em 12 meses. nota-se que a redução no ritmo de crescimento do crédito ao longo de 2011 também não se deu de maneira homogênea e sincronizada (Gráfico 1). que estabeleceu alíquota de 6% para as captações exter- nas (novas e repactuações) com prazo de até 720 dias. Nas instituições privadas de capital nacional. inclusive os repasses de recursos do BNDES. A partir de agosto de 2011. Esse arrefecimento foi liderado pelo BNDES. sustentar a ampliação do crédito para recuperar as fatias de mercado perdida para os bancos públicos em 2009 –. Em contrapartida. os bancos privados endureceram as exi- gências e desaceleraram a expansão do crédito. também aceleraram a con- cessão de crédito ao longo de todo o primeiro semestre de 2011. assim. Em contraste. que retraiu a oferta de crédito na modalidade direta. neutralizada pelo gover- no por meio do Decreto n. resultando em aumento da inadimplência. com isso. notadamente a partir de maio. a apreciação cambial reduziu o custo do endividamento externo. da ordem de 15%. como para a queda de suas receitas operacionais – sobretudo nos setores das cadeias intermediárias de produção –. e no mercado doméstico mediante emissão de letras financeiras. a taxa de crescimento 25. As instituições estrangeiras. 7. resultou na apreciação do real e no aumento da penetração de produtos importados no mercado doméstico. sobretudo ao setor privado. principal fonte de crédito doméstico de longo prazo para o setor empresarial. que só a partir de maio de 2010 voltaram a registrar taxas positivas no crédito. sustentando taxas reais de crescimento do estoque de crédito. de abril de 2011. contudo. diante da desaceleração do nível da atividade eco- nômica muito mais forte do que a esperada e da deterioração das expectativas em um cenário internacional de grande incerteza – devido ao agravamento da crise das economias da área do euro e perspectivas de baixo crescimento da economia mundial –. de modo a encarecer o funding externo dos bancos. Para escapar do adicional de compulsório sobre os depósitos à vista e a prazo – e.res próximos de zero. o grupo das instituições financeiras públicas foi o único que diminuiu o ritmo da expansão do crédito ainda no primeiro semestre de 2011. ampliando as operações de crédito com repasses externos e ACC. as instituições privadas nacionais intensificaram a captação de recursos no exterior mediante a emissão de bônus e notas25. dando continuidade a um movimento iniciado em setembro de 2010.457. Em termos de propriedade de capital das instituições financeiras. Temendo a elevação da inadimplência. Essa arbitragem regulatória com a captação de recursos no exterior foi. o ritmo manteve-se praticamente inalterado até o mês de julho. o que contribuiu tanto para a diminuição na demanda por crédito por parte das empresas. a economia brasileira no contexto da crise global 143 .

Essa nova linha de crédito. No mês de dezembro. 27. e. fogão e lava- dora) e para massas (até 30 de junho de 2012) e prorrogou a desoneração de PIS/Cofins sobre trigo. em dezembro. o governo federal concedeu. como será visto a seguir. Em janeiro de 2012. 7. foi permitida a utilização de recursos do FGTS para a aquisição de material de construção. assim. dentre outras ações de estímulo27. Essa perda de ritmo. efetuou-se a reversão parcial das medidas restritivas impostas ao crédito ao consumo (Quadro A1. Assim. Porém.632). os seus efeitos sobre o nível de atividade econômica foram excessivos.a. foi mais intensa nas operações de crédito destinadas aos setores da indústria e do comércio do que nos empréstimos ao consumo das famílias (Gráfico 6). Para estimular o consumo. Ficou claro então que. Iniciou- se. farinha de trigo e pão comum. 3. Além disso. tenham sido eficazes em seu intento de moderar o crescimento do crédito ao consumo das famílias e con- ter as pressões inflacionárias. uma nova fase de cortes da meta Selic. no anexo ao final deste capítulo). entre agosto de 2011 e outubro de 2012. cujo limite individual é de R$ 20 mil.4%. entre janeiro e julho. indicando que a redução da demanda de crédito foi motivada pela deterioração das expectativas desses setores empresariais. A eliminação da exigência de capital adicional para as operações de empréstimos ao consumo com prazo de até cinco anos (60 meses) foi acompanhada da elevação do requerimento de capital para as operações de crédito ao consumo com prazo superior a cinco anos. o Ministério da Fazenda reduziu de 3% para 2. desoneração fiscal por qua- tro meses (até 31 de março de 2012) para os produtos da chamada “linha branca” (geladeira. em dezembro de 2011.7%. o BCB eliminou a exigência de capital adicional para operações de crédito ao con- sumo com prazos inferiores a 60 meses26 e desistiu de elevar o percentual mínimo de pagamento das faturas de cartão de crédito de 15% para 20%. real em 12 meses do saldo de crédito desse grupo declinou de 14. que havia sido determinado em julho de 2011 (Circular n. em novembro de 2011. para 7. a concessão de crédito ao setor privado só voltou a ganhar ímpeto com a ação anticíclica das instituições financeiras públicas. 144 a economia brasileira no contexto da crise global .5% para 7. a política monetária começou a ser afrouxada a partir do mês de agosto. embora as medidas de contenção do crédito e a eleva- ção gradual da meta da taxa Selic.25% a. levando-a de 12. no último trimestre do ano. terá custo efetivo total de no máximo 12% ao ano (incluindo juros e encargos) e prazo de pagamento de até 120 meses. contudo.5% a alíquota do IOF sobre as operações de crédito ao consumo (Decreto n. 26. em julho. A retomada da política financeira expansionista A flexibilização da política monetária no final de agosto de 2011 já sugeria a preocupação com a intensidade da desaceleração da atividade econômica.563).

como pela continuidade do processo de redução da meta Selic. Essa dinâmica foi interrompida no primeiro bimestre de 2012. superior ao patamar da meta da Selic. igualmente. notadamente do BNDES e da CEF. 29. A Medida Provisória n. introduzidas em resposta ao fraco crescimento do PIB no primeiro trimestre de 201228. 12.9% verificado no mês de fevereiro (Gráfico 2). as condições de crédito ficaram menos restritivas nos meses finais de 2011. acima de R$ 30 mil (exceto crédito rural) implicava o recolhimento de imposto de renda 28. promovesse uma migração generalizada dos recursos dos fundos mútuos de investimento para os depósitos de poupança. de abril de 2012. contabilizados como prejuízo. Essa pequena aceleração foi impulsionada tanto pelas medidas de estímulo à economia. em setembro.5 p. que foi facilitado pela alteração na regra da remuneração dos depósitos de poupança no mês de maio29.703/2012. Assim. a economia brasileira no contexto da crise global 145 . esse último influenciado pelos atrasos nos pagamentos dos financia- mentos à aquisição de veículos. caso contrário. dificultando a rolagem da dívida mobiliária federal.715. aquisição de outros bens e de cheque especial. que baixou de 6% para 5. 567. 563. A regra de remuneração da poupança foi alterada pela Medida Provisória n.a. Assim. Entre os meses de março e junho de 2012. com reflexos no nível de inadimplência. impulsionadas por essas iniciativas e pela queda da taxa Selic. de 4 de maio de 2012. em junho de 2012. a adoção de iniciativas do governo federal no sentido de facilitar a gestão dos créditos com pagamentos em atraso e de potencializar o impacto da queda da taxa básica de juros sobre as taxas de juros dos empréstimos. convertida na Lei n. bem como a redução em 0. pelo qual sempre que a meta anual para a taxa Selic for menor ou igual a 8. Ao longo desse período.5% a. mediante a queda dos spreads praticados pela CEF e pelo BB. nesse período. Houve recru- descimento da inadimplência tanto no segmento de crédito com recursos livres para pessoas jurídicas como no segmento com recursos livres para pessoas físicas (Gráfico 9). iniciada em agosto de 2011. a remuneração adicional da poupança será de 70% da taxa Selic. que sofriam os efeitos negativos da apreciação cambial. 12. Testemunhou-se. Até então. e o estoque de crédito voltou a crescer com maior intensidade. da taxa de juros de longo prazo (TJLP).. contra o percentual de 10.5% ao mês a ser acrescido à remuneração básica. manteve-se apenas levemente superior a 12%. reduziu o custo tributário da renegociação de dívidas em atraso. 2012a). a taxa de crescimento real.5%. estabeleceu-se um gatilho.p. a renegociação desses empréstimos. em função dos efeitos do aprofundamento da crise europeia nas expectativas empresariais e no nível de atividade. o crédito se expandiu em ritmo moderado. dada pela TR (FUNDAP. sob a liderança das instituições financeiras públicas. na comparação em 12 meses. Essa modificação foi realizada porque se temia que a remuneração da poupança. convertida na Lei n. esse adicional permanece em 0. O governo voltou a promover a redução seletiva de imposto mediante a concessão de desoneração fiscal a vários setores da indústria.

e posteriormente pelos grandes pri- vados nacionais (Bradesco e Itaú-Unibanco)30. O governo federal orientou igualmente o BB e a CEF a realizarem campanhas de educação financeira. A medida provisória. Esse aspecto impunha.p. como foram os casos dos juros médios cobrados no cheque especial de pessoas físicas (-40. as taxas médias de aplicação e os spreads médios reduziram-se continuamente entre fevereiro e dezembro de 2012 (Gráfico 10)31. 31. o governo federal também passou a coibir essa prática usando os bancos públicos como instrumento de pressão.). passou a estimular a prática de renegociação das dívidas em atraso. tanto pelos bancos públicos como pelos privados. 146 a economia brasileira no contexto da crise global . pelos bancos privados de controle estrangeiro (sobretudo Santander e HSBC). Os cortes expressivos nas taxas de juros finais de diversas modalidades de cré- dito a empresas e. que se somava ao elevado recolhimento de capital sobre o novo empréstimo. Gráfico 10. Evolução do spread./2012 (em %) 50 45 40 35 30 25 20 15 10 5 0 fev/ 09 fev/ 11 dez/ 09 jun/ 08 dez/ 10 jun/ 10 dez/ 11 jun/ 12 ago/ 08 ago/ 09 ago/ 10 ago/ 12 abr/ 08 abr/ 09 mar/ 10 set/ 09 mar/ 11 abr/ 11 abr/ 12 mai/ 08 nov/ 08 nov/ 09 set/ 11 mai/ 10 nov/ 12 jan/ 09 mai/ 12 out/ 09 jan/ 11 out/ 11 jul/ 08 jul/ 11 jul/ 12 dez/08 ago/11 fev/08 fev/10 dez/12 fev/12 jun/09 jun/11 set/08 set/10 set/12 nov/10 nov/11 jul/09 jul/10 jan/08 jan/10 abr/10 jan/12 mai/09 mai/11 mar/08 mar/09 mar/12 out/08 out/10 out/12 Taxa de captação Taxa de aplicação Spread Fonte: Banco Central do Brasil. Ao identificar essa compensação. um custo fiscal importante à renegociação das dívidas. Em consequência./2008 a dez. explicando o custo e as opções de crédito disponíveis no mercado. segundo os bancos. cuja probabilidade de reembolso continuava in- certa. É verdade que os cortes iniciais nos spreads bancários foram parcialmente compensados pela elevação de determinadas tarifas bancárias.p. no crédito 30. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. mesmo que em menor intensidade.3 p. no cheque especial de pessoas jurídicas (-15. no ato da operação. a pessoas físicas pelo BB e CEF foram acom- panhados. especialmente. Em algumas modalidades de crédito. da taxa de captação e da taxa de aplicação para o crédito livre referencial – jan. ao definir o recolhimento do imposto na quitação do empréstimo. as taxas ativas caíram significativamente.).8 p.

ampliando agressivamente seu market share no mercado de crédito.7 p. O primeiro. em média.p. traduziu-se na ampliação da participação das instituições públicas no SFN. de 5. no final de agosto de 2012.6% do estoque total do crédito (45.).1% em junho de 2012). Em dezembro de 2012. a carteira de crédito dos ban- cos privados nacionais e estrangeiros cresceu. no mesmo período e na mesma comparação (Gráfico 1).2% no primeiro semestre.p. Essa diferença no ritmo de concessão de crédito.) e no capital de giro com prazo superior a um ano (-5. esses bancos públicos mais uma vez aliaram as diretrizes governamentais às suas próprias estratégias operacio- nais. tendência iniciada em 2008 (Gráfico 11).7 p.5 bilhão. no desconto de duplicatas (-11.7 p. Para viabilizar a atuação anticíclica dos bancos públicos. da ordem de US$ 1. o spread médio caiu 7. Em 20 de a economia brasileira no contexto da crise global 147 .p. Gráfico 11. ocorreu no final de 2011 e o segundo. Enquanto a carteira de crédito das instituições financeiras públicas registrou crescimento real médio em 12 meses de 18. Na atuação em prol da redução dos juros e spreads.pessoal não consignado (-11.p. Crédito segundo o controle de capital (em % do total do SFN) 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 0 dez/07 dez/08 dez/09 dez/10 dez/11 dez/12 jun/08 jun/09 jun/10 jun/11 jun/12 Instituições privadas estrangeiras Instituições privadas nacionais Instituições públicas Fonte: Banco Central do Brasil. em média.p.1% e 11. a parcela das instituições públicas atingiu 47. 6.).3%. em 2012. no valor de R$ 500 milhões. respecti- vamente. A CEF recebeu dois aportes de capital sob a forma de transferência de ações de empresas. a diminuição do spread foi. o governo federal vol- tou a reforçar o capital dessas instituições em 2012. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. que aumentou no segundo semestre.2 p.2 p. Nas operações com taxas de juros prefixadas ao setor corporativo. sobretudo da Petro- bras e da Vale. enquanto nas operações de crédito destinadas a pessoas físicas.

Alterada. No caso do BNDES. a Medida Provisória n. 33. os bancos públicos federais atra- íram clientes de outras instituições. O avanço dos bancos públicos foi facilitado pela portabilidade das operações de crédito. a CEF realizou sua primeira emissão de bônus no exterior. Portabilidade das operações de crédito (média móvel trimestral) – dez. 600 e finalmente convertida na Lei n. em 28 de dezembro./2012 800 50 45 700 40 600 35 500 Valor financeiro (R$ milhões) 30 Número de contrato (mil) 400 25 20 300 15 200 10 100 5 0 0 Valor Financeiro (eixo esquerdo) Número de contrato Fonte: Banco Central do Brasil. setembro de 2012. e para o financiamento rural. captando US$ 1. No dia 7 de novembro de 2012.1 bilhões para o Banco do Brasil. no caso da CEF. em 2 de abril de 2013. chegou a R$ 280 bilhões. e o restante com prazo de dez anos. o que se traduziu no aumento substancial do volume e da quantidade das operações de crédito transferidas ao longo de 2012 (Gráfico 12). Esses recursos serão utili- zados para o financiamento de projetos de infraestrutura e para o consumo das famílias. pela Medida Provisória n.293. sob a forma de instrumento de capital e dívida. Gráfico 12. Base de dados do Relatório de Estabilidade Financeira. que possibilita ao cliente de uma instituição transferir suas dívidas para outra instituição que ofereça condições de prazo e custo mais favoráveis. Com a redução significativa dos juros e spreads. iniciada em 2009. 58132 autorizou a União a conceder crédito de até R$ 13 milhões para a CEF e de até R$ 8. 1. 148 a economia brasileira no contexto da crise global . Desse total. a capitalização do banco sob a forma de empréstimos de títulos do Tesouro.5 bilhão33. 32. março de 2013./2007 a dez. em dezembro de 2012. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. no caso do BB. US$ 1 bilhão foi captado com prazo de cinco anos.

Em maio de 2012, o governo deu um impulso adicional à portabilidade, dessa
vez com foco nos financiamentos habitacionais. A Medida Provisória n. 567,
convertida na Lei n. 12.703, determinou a simplificação de procedimentos e a
redução do custo cartorial da portabilidade dos financiamentos habitacionais.
Dentre as medidas tomadas, destacaram-se a transferência da alienação fiduci-
ária, que garante o financiamento, por meio de simples averbação e a supressão
do termo de quitação do empréstimo junto ao credor que se deseja substituir.
Estima-se que sob os novos procedimentos haja uma economia de 60% dos cus-
tos de transferência dos financiamentos habitacionais de um credor para outro.
É importante levar em conta, contudo, que o ambiente de forte concorrência já
pode ter impulsionado os bancos a cobrir parte dos custos de transferência dos fi-
nanciamentos como forma de conquistar o mercado de seus concorrentes, ou, em
contrapartida, a reduzir as taxas de juros dos financiamentos contratados diante
do risco de perda de clientes34 (FUNDAP, 2012b).
A partir do segundo semestre de 2012, entretanto, o crédito voltou a se de-
sacelerar, exigindo novas medidas por parte do governo federal, cujos efeitos
não podem ser captados pelas estatísticas do BCB para 2012. Em setembro, por
exemplo, a Circular n. 3.609 zerou, com aplicação imediata, a alíquota de 6%
do compulsório adicional sobre os depósitos à vista e reduziu de 12% para 11%
a alíquota do compulsório adicional sobre os depósitos a prazo, que entrou em
vigor em 29 de outubro de 2012. A parte principal do compulsório (44% para
depósitos à vista e 20% para depósitos a prazo) manteve-se inalterada, mas houve
maior flexibilização. Desde então, 50% desses recursos (e não mais 36%) do com-
pulsório principal sobre depósitos a prazo podem ser usados no financiamento de
motocicletas35 e na compra de carteiras de crédito e letras financeiras dos bancos
que respeitavam, em junho de 2012, todos os seguintes critérios: patrimônio de
referência inferior a R$ 2,2 bilhões, relação entre ativos de crédito36 e ativo total
de, no mínimo, 20% e participação de depósitos a prazo de, no mínimo, 20%
do passivo total. Em 8 de novembro, a Circular n. 3.613 ampliou o conjunto
de bancos favorecidos pelas novas regras do compulsório ao elevar o patrimônio
de referência mínimo para R$ 3,5 bilhões. Adicionalmente, as letras financeiras
34. A ausência de regulamentação adicional pelo CMN acabou limitando a transferência de contratos de
financiamento habitacionais.
35. A Circular n. 3.609 manteve a possibilidade de parte dos recursos do compulsório principal sobre depó-
sitos a prazo ser utilizado no financiamento de motocicletas, mas retirou a possibilidade de usá-los para o
financiamento de automóveis, em vigor desde maio de 2012 (Circular n. 3.594).
36. Os ativos de crédito em questão incluem operações de crédito, de arrendamento mercantil e coobrigações
em cessões de crédito.

a economia brasileira no contexto da crise global 149

também passaram a ser somadas aos depósitos a prazo para a obtenção da relação
mínima de 20% do passivo total.
As mudanças nas regras do compulsório foram importantes não apenas para
liberar recursos adicionais para as operações de crédito e para a redução dos spreads,
mas também para melhorar as condições de captação dos bancos médios e peque-
nos, vários deles especializados no financiamento ou arrendamento mercantil de
veículos e em crédito consignado. O acesso desses bancos a fontes de captação
vinha sendo restringido pelos episódios de falência associados a práticas contábeis
fraudulentas37. Para assegurar o alongamento dos prazos de captação dos bancos
de menor porte e a melhor distribuição da liquidez no sistema, o CMN já havia
também realizado, em julho de 2012, alterações no depósito a prazo com garantia
especial (DPGE), reduzindo custos e tornando-o um instrumento permanente de
captação à disposição dos bancos de menor porte, que não contam com a capilari-
dade de rede de agências para a captação de depósitos.
Em relação ao crédito direcionado, a desaceleração no primeiro bimestre do
ano deu lugar a um ritmo de crescimento mais ou menos constante entre os
meses de março e junho, em torno de 16,5% (na comparação de 12 meses, em
termos reais), para em seguida se desacelerar. As operações diretas do BNDES
e aquelas decorrentes de repasses apresentaram tendências divergentes ao lon-
go do ano. O saldo da modalidade BNDES-repasse manteve sua trajetória de
desaceleração, ainda que em ritmo menor do que aquele verificado em 2011.
Em termos reais, os repasses cresceram 7,3%, em dezembro de 2011, na com-
paração de 12 meses, caindo para apenas 0,9%, no mês de dezembro de 2012
(Gráfico 3).
Essa evolução pode ser explicada pelo comportamento mais conservador dos
bancos ante a elevada inadimplência das empresas, que permaneceu estabiliza-
da em torno de 4% ao longo de 201238. Como na modalidade BNDES-repasse

37. A elevação, no final de 2010, do requerimento de capital mínimo de 11% para 16,5% nas operações de
crédito a consumo contribuiu para explicitar práticas fraudulentas em diversas instituições, como a suba-
valiação das provisões para a cobertura de inadimplência e a manipulação contábil em relação às cessões
de carteiras de crédito. Depois do caso do Banco PanAmericano, em outubro de 2011, o BCB decretou a
intervenção no Banco Cruzeiro do Sul, no início de junho de 2012, e sua liquidação no mês de setembro.
No mês de outubro de 2012, foi a vez de o Banco BVA sofrer intervenção. Todos esses casos têm dificulta-
do a captação de recursos no mercado pelos bancos de pequeno e médio portes.
38. Na nova série de inadimplência divulgada pelo BCB em fevereiro de 2013, a inadimplência média veri-
ficada nas operações de crédito ao setor corporativo com recursos livres subiu de 3,4 % em dezembro de
2011 para 3,7% em maio de 2012 e oscilou em torno desse patamar até o mês de dezembro. Já nas ope-
rações com recursos direcionados, em 2012, o patamar máximo de inadimplência de 0,7% ocorreu nos
meses de abril, outubro de novembro, retornado a 0,5% no final do ano.

150 a economia brasileira no contexto da crise global

são os bancos que assumem o risco de crédito das operações de financiamento,
a alta da inadimplência teve efeitos negativos sobre a evolução dos saldos des-
sa modalidade39. Contribuiu igualmente para a reticência dos bancos em atuar
como agentes financeiros do BNDES a falta de clareza sobre os procedimentos da
complementação de suas comissões pelo governo. No final de agosto de 2012, o
governo patrocinou a redução de 5,5% para 2,5% das taxas de juros das linhas de
crédito do Programa de Sustentação do Investimento (PSI), sem, contudo, alterar
a comissão dos agentes financeiros, a qual foi mantida em 3%. Essa diferença de
0,5 p.p. seria assumida pelo governo. Porém, a operacionalização da cobertura
desse diferencial não havia sido definida até o final de 2012.
Em contrapartida, o saldo da modalidade BNDES-direto, além de crescer a
taxas superiores ao saldo dos repasses desde dezembro de 2011, mostrou acelera-
ção entre março e agosto de 2012 e, desde então, desaceleração, respondendo à
demanda de crédito mais fraca das empresas. Dentre os fatores que incentivaram
a expansão dessa modalidade está o perfil das empresas que tomam emprésti-
mos diretamente junto ao BNDES: geralmente de grande porte e com menor
risco de crédito, implicando uma exposição menor ao crescimento dos níveis de
inadimplência que afetou as operações de repasse em 2011 e 2012. Além disso,
alterações no PSI40 também influenciaram positivamente a expansão da modali-
dade BNDES-direto, suavizando, em alguma medida, a queda da demanda das
empresas dos setores da indústria e do comércio por financiamentos em razão
do baixo dinamismo da atividade econômica em 2012. Já no caso do setor de
infraestrutura, os grandes projetos de investimento em curso no país sustentaram
a ampliação do crédito em ritmo de crescimento a dois dígitos, em média, ao
longo do ano, como mostra o desempenho de Outros Serviços (Gráfico 6), cuja
demanda é atendida basicamente pelo BNDES.

39. Ver Valor Econômico de 7/11/2012 “Com medo de calote, bancos desaceleram repasses do BNDES”.
40. No início de abril, o governo federal anunciou um reforço do orçamento do PSI de R$ 10 bilhões, prorro-
gando-o até dezembro de 2013, e o aporte de R$ 45 bilhões ao capital do BNDES. Na mesma ocasião, dentre
outras medidas tomadas, foram reduzidas as taxas de juros dos financiamentos do setor automotivo (ônibus
e caminhões), de 10% para 7,7% a.a., e foram elevados os prazos (de 96 para 120 meses) e a participação
do valor do bem financiado (para 100%, para pequenas e médias empresas, e para 90%, no caso de grandes
empresas). Para o setor de bens de capital, as taxas de juros dos financiamentos caíram de 8,7% para 7,3%
para empresas de grande porte, e de 6,5% para 5,5%, para pequenas e médias empresas, e também foi elevada
a participação máxima do financiamento. No segundo semestre, novas medidas foram tomadas para reduzir
os custos do financiamento de longo prazo e, assim, incentivar os investimentos: em julho, a TJLP, referência
para os empréstimos do BNDES, foi reduzida de 6% para 5,5% a.a.; no final de agosto, a taxa de juros inci-
dente sobre as linhas do PSI caiu de 5,5% para 2,5% a.a., levando-a, em termos reais, a um patamar negativo.

a economia brasileira no contexto da crise global 151

O crédito com recursos livres, por sua vez, manteve uma taxa real de cresci-
mento, em 12 meses, em torno de 10,5% entre os meses de março e junho de
2012, mas teve desaceleração no segundo semestre, chegando a dezembro com
uma taxa de 7,9%. Todavia, observa-se, a partir de março, uma importante mu-
dança no padrão de evolução desse segmento, qual seja, o maior dinamismo do
crédito ao setor corporativo, que voltou a registrar taxas de crescimento superiores
à do crédito a pessoas físicas. Na média, as operações de crédito com recursos
livres às empresas registraram expansão real da ordem de 10,7% entre março e de-
zembro de 2012, enquanto as operações com recursos livres destinadas a pessoas
físicas cresceram, em média, 8% no mesmo período. Esse movimento parece re-
fletir o avanço dos bancos públicos no segmento de pequenas e médias empresas,
com oferta de linhas de crédito com prazos maiores e juros menores (Gráfico 13).

Gráfico 13. Crédito com recursos livres por tomador – jan./2008 a dez./2012
(variação real1 em 12 meses, em %)
40

35

30

25

20

15

10

5

0

-5
set/ 09

set/ 11
nov/ 08

nov/ 09

nov/ 11

nov/ 12
jan/ 09

jan/ 11

out/ 11
fev/ 09

out/ 09

fev/ 11
jul/ 08

jul/ 10

jul/ 11

jul/ 12
dez/ 08

dez/ 09

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mar/12

Pessoa Física Pessoa Jurídica Total

Fonte: Banco Central do Brasil. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.
(1) Os valores foram deflacionados pelo Índice Nacional de Preço ao Consumidor Amplo (IPCA).

A redução dos spreads bancários para as operações com pessoa jurídica, ainda
que tenha sido um pouco mais tímida, teve impactos positivos sobre a expansão
dos saldos de crédito livre. Uma das modalidades beneficiadas foi o crédito para
capital de giro. Na comparação em 12 meses, sua taxa real de crescimento saiu
de 9,9%, em fevereiro, para 14,3%, em junho, justamente no período de maio-
res cortes nas taxas de juros dos empréstimos, para, em seguida, se desacelerar
(12,2%, em dezembro de 2012) (Gráfico 5). A desvalorização cambial, verificada
a partir do final de fevereiro, contribuiu, entretanto, para expandir os saldos re-

152 a economia brasileira no contexto da crise global

ferentes a repasses externos (de -5,4%, em fevereiro, para 34,3%, em junho, e,
então, para 21%, em dezembro, na comparação de 12 meses), cujas operações são
firmadas em moeda estrangeira, e das operações de ACC (de 13,7% para 29% e,
então, para 11,5%, na mesma comparação).
Em relação às operações com pessoas físicas, praticamente todas as modali-
dades sofreram desaceleração em 2012, considerada a evolução em 12 meses em
termos reais (Gráfico 10). Essa desaceleração foi, contudo, atenuada pela estraté-
gia de conquista de mercado do BB e da CEF, mediante a oferta de linhas de cré-
dito com prazos maiores e juros menores. O corte dos juros e spreads contribuiu
igualmente para frear o aumento da inadimplência das famílias, a qual, contudo,
permaneceu em níveis elevados (em torno de 7,9%)41. A alta inadimplência e o
elevado grau de endividamento das famílias afetaram negativamente a evolução
do crédito à pessoa física em geral, em 2012.
O crédito pessoal, que representa a modalidade de maior peso no crédito livre
à pessoa física, teve expansão de 8,5%, em dezembro de 2012, contra 11,9%, em
dezembro de 2011. Já as operações de financiamento para a aquisição de veículos,
responsáveis, em boa medida, pela escalada da inadimplência, encerraram 2012 com
uma taxa de expansão real em 12 meses de 2,2%, ante 16%, em dezembro de 2011. A
desaceleração desse tipo de crédito vinha ocorrendo desde o ano anterior e manteve-se
em 2012, resultado de um posicionamento mais conservador por parte dos credores
que tentaram melhorar a qualidade de suas carteiras de crédito (Gráfico 7).
O movimento de redução dos spreads e dos juros finais contribuiu, contudo,
para uma pequena aceleração de algumas modalidades de crédito à pessoa físi-
ca, como o crédito consignado e cheque especial, cujos cortes das taxas de juros
foram alvo das estratégias concorrenciais dos bancos públicos. No segmento do
crédito consignado, as taxas ativas caíram de 27,5% para 23,3% a.a., entre janeiro
e dezembro de 2012. Já na modalidade de cheque especial, cujas taxas ativas são
extraordinariamente altas e se situam acima de 140% a.a., o corte de juros foi
expressivo, atingindo 43,1 p.p., entre janeiro e dezembro de 2012, enquanto o
spread diminuiu 40,3 p.p., na mesma base de comparação.

Considerações finais

A evolução do crédito no Brasil, entre 2009 e 2012, exemplifica a dinâmica
da concorrência bancária e evidencia a importância da existência de circuitos de
41. Na nova série de inadimplência divulgada pelo BCB, a inadimplência no segmento de crédito com recur-
sos livres às pessoas físicas, em 2012, oscilou em torno de 8,1%.

a economia brasileira no contexto da crise global 153

Como instrumentos de política financeira anticíclica – quando a economia entra em fase de desacele- ração. em particular nas modalidades de crédito com taxas ativas mais elevadas. conciliando rentabilidade com a liquidez dos investimentos financeiros. sempre com o objetivo de obter continuamente os maiores lucros possíveis – dado o ambiente institucional e ju- rídico –. no financiamento habitacional. Finalmente. Sem a ameaça de perda de fatias de mercado para os bancos públicos – que promoveram. houve recuo expressivo nas taxas ativas e nos spreads pra- ticados no SFN. difi- cilmente as instituições financeiras privadas teriam revisto suas estratégias opera- cionais e diminuído os spreads praticados. no financiamento do setor rural. os bancos públicos atuam de modo a compensar a retração dos bancos privados ante a deterioração das expectativas. o que se traduziu em menor receita nas aplicações com os títulos pú- blicos federais. como instrumento da política financeira para estimular a concor- rência no mercado de crédito bancário. cortando igualmente os spreads. os bancos públicos su- prem as necessidades de financiamento de setores e atividades prioritárias como nos casos do BNDES. expressiva redução dos juros em suas operações ativas com recursos livres –. aos tomadores finais. da CEF. os bancos privados (em particular. na sustentação do investimento de longo prazo dos setores produtivo e de infraestrutura. Em contexto de taxa básica de juros no seu mais baixo patamar histórico. Além do êxito em influenciar a dinâmica concorrencial bancária em prol da queda dos juros e dos spreads. em 2009 e em 2012. com efeito positivo para os níveis de inadimplência. como o verificado em 2012. os bancos públicos criadores de moeda são uma importante arma para forçar as instituições privadas a repassarem. Como constatado. Como a evolu- ção do crédito é condicionada pelas estratégias adotadas pelos bancos privados na administração diligente de seus ativos e passivos. garantindo a oferta de crédito para o giro dos negócios das empresas e financiando o consumo das famílias. crédito direcionado e de bancos públicos bem posicionados para servirem como instrumentos de uma política financeira ativa em prol do crescimento e da me- lhoria das condições de financiamento das empresas e das famílias. a política financeira foi bem-sucedida ao mitigar 154 a economia brasileira no contexto da crise global . Como peças-chave do sistema de crédito direcionado. 1997 e 2010). os grandes varejistas) foram forçados a defender suas fatias de mercado. e do BB. independente da fase em que se encontra o ciclo econômico. é fundamental contar com instituições financeiras públicas que atuem de forma complementar ao sistema bancário privado (FREITAS. como ilustra a experiência brasileira recente –. garantindo estabilidade na concessão de crédito. o corte do custo de captação.

o comportamento procíclico do sistema financeiro privado. Na fase de retoma-
da do crescimento da economia, a expansão do crédito ao consumo em ritmo
extremamente elevado, além das pressões inflacionárias, favorecia a emergência
de estruturas patrimoniais instáveis, tanto no âmbito das instituições financeiras
como no das famílias. Esse risco foi afastado pela ação combinada de medidas
restritivas de política financeira, monetária e macroprudencial, ainda que a dose
da elevação das taxas de juros em um cenário de deterioração das expectativas e
de incerteza crescente, associado ao agravamento da crise global, tenha resultado
em uma desaceleração da economia muito mais forte do que a esperada e desejada
pelas autoridades econômicas.
As sucessivas medidas introduzidas pelas políticas de reativação do crescimen-
to, a partir do segundo semestre de 2011 e ao longo de 2012, surtiram efeito, com
a ampliação do crédito com recursos livres ao setor corporativo, com intensidade
maior do que a do crédito livre às pessoas físicas.
Seria importante, contudo, dar prosseguimento às ações coordenadas das po-
líticas macroeconômicas no sentido de promover tanto a desindexação financeira
como a desindexação dos preços e, assim, tornar possível a redução da taxa básica
de juros para patamares ainda mais baixos do que o alcançado em outubro de
2012 (7,25% a.a.). Em tal contexto, novas rodadas de corte das taxas ativas e dos
spreads por parte do BB e da CEF contribuiriam para diminuir o custo do crédito
tanto das famílias como das empresas, dado que acarretaria a reação defensiva dos
seus concorrentes privados.

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158 a economia brasileira no contexto da crise global

Anexos

Gráfico A1. Evolução da taxa de juros (em % a.a.) e do prazo médios (em dias corridos) do crédito
livre – pessoa física e pessoa jurídica – jan./2008 a dez./2012

60,0 700

650
55,0
600
50,0
550
45,0
500

40,0 450

400
35,0
350
30,0
300
25,0
250

20,0 200
set/ 09

jan/ 11
fev/ 08

out/ 10

fev/ 12
jun/ 09
mai/ 08

mai/ 12
set/08

set/10

set/11

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nov/08

nov/09

nov/10

nov/11

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jul/09

jul/10

jul/11

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jan/08

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ago/09

ago/10

ago/11

ago/12
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dez/09

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jun/08

jun/10

jun/11

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out/09

out/11

out/12
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abr/09

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abr/12
mai/09

mai/10

mai/11
mar/08

mar/09

mar/10

mar/11

mar/12
Prazo médio PF (eixo da direita) Prazo Médio - PJ (eixo da direita)
Taxa de juros PF (eixo da esquerda) Taxa de Juros - PJ (eixo da esquerda)

Gráfico A2. Evolução do perfil de risco da carteira de crédito
95 12

94 10

93 8
Risco Elevado- %
Risco Normal- %

92 6

91 4

90 2

89 0
dez/07 jun/08 dez/08 jun/09 dez/09 jun/10 dez/10 jun/11 dez/11 jun/12 dez/12

Público- risco elevado Priv. Nacional- risco elevado Priv. Estrang.- risco elevado
Público- risco normal Priv. Nacional- risco normal Priv. Estrang.- risco normal

Fonte: Banco Central do Brasil.

a economia brasileira no contexto da crise global 159

12.5% do valor da operação. 3/12/2010 Resolução n. com a elevação dos percentuais de 15% para 20% e redução do limite máximo de dedução de 45% para 36% das compras de carteiras de crédito e depósitos interfinanceiros de exigibili- dade do compulsório sobre depósitos a prazo. com prazo superior a 24 meses. por meio do Fundo Garantidor de Crédito (FGC).75% para 11. 30/6/2009 Medida Provisória n.25% para 10. no mínimo. 3. sem liquidez diária.514 Elevou o adicional do compulsório sobre depósitos à vista e a prazo. que estabeleceu medidas de convertida na Lei n.25% ao ano. 3.25% para 10. 21/7/2010 152ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 10.25% para 8. para os recibos de depósito bancário de até R$ 20 milhões por aplicador./2012 e jan. 3. 23/4/2009 Resolução n.5% para 12% ao ano. 7/4/2011 Decreto n. 10/6/2009 143ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 10.25% ao ano. estabelecendo redução gradual de volume em 20% ao ano entre jan. Circular n. 19/10/2011 162ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 12% para 11.75% para 11.75% para 12.25% ao ano. emitidos com prazo de.75% ao ano.75% ao ano. 3. 9/6/2010 151ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 9.25% ao ano.5% ao ano. 11/11/2011 Circular n.5% para 11% ao ano.25% para 6% ao ano. 22/7/2009 144ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 9. em vigor desde 2002.512. 3. 3. 3/12/2010 Circular n. 3515 Elevou o capital mínimo para operações de crédito a pessoas físicas. 3. Lançou o Programa de Sustentação do Investimento (PSI). 3. 3. Quadro A1.5% para 3%.5% ao ano. 29/4/2009 142ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 11.5% ao ano. que havia sido decidida em 25/11/2010 pela Circular n.096.5% para 10.931 Definiu o cronograma de extinção dos depósitos a prazo com garantia especial do Fundo Garantidor de Crédito (criados pela Resolução n.75% para 12% ao ano. 465 autorizou a União a de 24/11/2009 conceder subvenção econômica ao Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES).692 Instituiu o Depósito a Prazo com Garantia Especial (DPGE).717 Além dos RDB. 28/4/2010 150ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 8. A Medida Provisória n. de 8% para 12%.692/2009). dos 11% então vigentes para 16. 20/4/2011 158ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 11. 19/1/2011 156ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 10. 30/11/2011 163ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 11. 2009-2012 21/1/2009 140ª Reunião do Copom Reduziu da meta Selic de 13. 29/6/2009 Resolução n. 465. 26/3/2009 Resolução n./2016.25% ao ano. 160 a economia brasileira no contexto da crise global . 3/12/2010 Circular n. 3. com teto para as captações por instituição financeira no valor máximo de R$ 5 bilhões. 31/8/2011 161ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 12.515) com prazos inferiores a 60 meses e suspendeu a elevação do percentual mínimo de pagamento das faturas de cartão de crédito de 15% para 20%. seis meses e no máximo cinco anos.743 Reduziu a taxa de juros de longo prazo (TJLP) de 6.75% ao ano.75% para 9. definido como o maior valor entre o dobro do patrimônio de referência de nível 1 (em 31/12/2008) e o montante de R$ 5 bilhões para cada instituição financeira.25% ao ano.25% para 11.513 do CMN Determinou a recomposição dos níveis de recolhimento compulsório sobre depósitos a prazo. 8/6/2011 159ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 12% para 12. incentivo ao investimento em bens de capital.25% para 12. 7. 2/3/2011 157ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 11. 20/7/2011 160ª Reunião do Copom Aumentou a meta Selic de 12.25% para 9.75% ao ano.458 Elevou a alíquota de IOF sobre operações de empréstimo e de arrendamento mercantil de 1. Principais medidas de política monetária e creditícia.563 Eliminou a exigência de capital adicional para as operações de crédito ao consumo (Circular n. o Conselho Monetário Nacional (CMN) autorizou a inclusão das letras de câmbio no cálculo do limite de captação. 11/3/2009 141ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 12. em operações de financiamento no âmbito do PSI.

632 Reduziu de 3% para 2. em julho de 2012. 28/6/2012 Resolução n. 3. 12. 1/12/2011 Decreto n. Flexibilizou. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. bens de capital. 7/3/2012 165ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 10. que entrou em vigor em 29/10/2012. 12.5% ao ano. exportação de bens de capital.5% ao ano. que permitiu às instituições financei- ras.703 Converteu em lei a Medida Provisória n. 20/12/2012 Resolução n.609 Zerou a alíquota de 6% do compulsório adicional sobre os depósitos à vista e reduziu de 12% para 11% a alíquota do compulsório adicional sobre os depósitos a prazo. que determinou a simplificação de procedimentos e a redução do custo cartorial da portabilidade dos financiamentos habitacionais.5% ao ano.2 bilhões e relações crédito/ativo total e depósito a prazo/passivo total de. mantendo o prazo mínimo de 24 meses.5% ao ano.75% ao ano. a economia brasileira no contexto da crise global 161 .5% para 8% ao ano. 594 Ampliou os limites de financiamento do PSI. 30/5/2012 167ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 9% para 8. 14/9/2012 Circular n. a parte principal do compulsório sobre depósitos a prazo: até 50% (e não mais 36%) desses recursos podem ser usados para o financiamento de motocicletas e a compra de carteiras de crédito e letras financeiras dos bancos que.5% para 2.5% ao ano para 1. de 3/5/2012.5% para 5% ao ano. no mínimo. Fonte: Banco Central do Brasil e Ministério da Fazenda.115 Alterou as regras de funcionamento do DPGE. de 2.173 Reduziu a TJLP de 5. 4.5% para 7. 4. ainda. 29/8/2012 Reduziu de 5. Ampliou o prazo de até 96 meses para até 120 meses para aquisição de caminhões. 20%. 21/5/2012 Reduziu o IOF para o crédito ao consumo para pessoa física. tinham patrimônio de referência menor que R$ 2. nos casos de renegociação de dívida. 29/8/2012 169ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 8% para 7. 4.5% as taxas de juros das linhas de crédito do PSI.5% ao ano.715 Converteu em lei a Medida Provisória n. 4. 563.5% a alíquota de IOF sobre as operações de crédito ao consumo. aperfeiçoando e ampliando esse instrumento de captação. 23/8/2012 Resolução n. de 3/4/2012.123 Alterou as condições de emissão das letras financeiras.25% ao ano. o reconhecimento da receita para fins de incidência de imposto sobre a renda e da Contribuição Social sobre o Lucro Líquido no momento do efetivo recebimento do crédito. 17/9/2012 Lei n. 18/1/2012 164ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 11% para 10. 11/7/2012 168ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 8. 21/5/2012 Reduziu as taxas de juros cobradas pelo BNDES nas linhas de crédito do PSI para aquisição de caminhões e ônibus.094 do CMN Reduziu a TJLP de 6% para 5. 6/12/2012 Medida Provisória n.75% para 9% ao ano. 7.5% para 9. 567. conferindo maior flexibilidade ao instrumento. 18/4/2012 166ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 9. 26/7/2012 Resolução CMN n. 7/8/2012 Lei n. 10/10/2012 170ª Reunião do Copom Reduziu a meta Selic de 7.

25%. configuraram um novo arranjo de política econômica. ante as alterações da conjuntura. Nessa fase. expansão da classe média e mudanças demográficas. nas condições de prazo e de taxas de juros na oferta pública de crédito e nos modelos de concessão dos serviços públicos e de inves- timento em infraestrutura. atingindo 7.p. As autoridades econômicas. CAPÍTULO 5 A Dinâmica do PIB Brasileiro no Período Pós-crise: da ilusão do crescimento sustentado à crise da indústria nacional Luis Fernando Novais Introdução O Brasil passa por apreensões e dúvidas próprias de um período de construção das condições micro e macroeconômicas para o desenvolvimento em novas bases produtivas e sociais. a política econômica desconsiderou que a expectativa de inflação estava ascendente e bem acima do centro da meta e.. regime de câmbio flutuante e metas de inflação) até então vigente. com a flexibilização do tripé (metas de superávit primário. melhor distribuição de renda. Em agosto de 2011. ainda assim. resgate da indústria. em setembro de 2012 (menor patamar dos últimos 15 anos). A taxa básica de juros (Selic) caiu 5. 162 a economia brasileira no contexto da crise global . não responde- ram. rebaixou a Selic. nota-se mudança na gestão da política econômica. no seu conjunto. Combinadas com essas alterações ocorreram inúmeras inovações nas políticas de incentivo fiscal.25 p. com o objetivo explícito de recuperar a competitividade da indústria. A política cambial passou a ser ativada no sentido de manter certo grau de des- valorização do real. com os mesmos remédios de outrora. desde meados de 2011. as quais. com modernização e ampliação da infraestrutura econômica.

para marcar as diferenças entre aquele período e a fase posterior. Este capítulo busca detalhar o desempenho do principal indicador da ati- vidade econômica. fator crucial na estabilização das expectativas. verificando a hipótese de que aquele momento não tenha passado de uma “ilusão” de expansão mais robusta antes da eclosão da crise da zona do euro. vis-à-vis a condução da política econômica. e que permitiu uma gestão da política econômica sem sobressaltos. Passada a fase inicial de baixo dinamismo. foi um sintoma de que a nova estratégia de política econômica ainda não havia conseguido. A segunda seção traz uma análise da aceleração do crescimento econômico em 2010. num contexto internacional de acirramento da concorrência. assim como não havia conseguido afetar positivamente os parâmetros estruturais – altos custos de produção. Cabe ressaltar que esse resultado contou com um cenário internacional extremamente favorável. a última seção traça algumas perspectivas e ressalvas para a economia brasileira. O desempenho claudicante da atividade econômica no biênio 2011-2012. num cenário internacional de lenta recuperação. o colapso do investimento e a desa- celeração do setor de serviços. tomando 2013 como o ano em que a política econômica – especialmente o patamar mais baixo de taxa básica de juros e o câmbio desvalorizado em relação ao padrão observado no biênio 2009-2010 – poderá ou não se consolidar. os efeitos deletérios do apa- gão elétrico de 2001/2002 e da crise de confiança no governo Lula. a economia brasileira voltou a crescer em ritmo acelerado: o PIB se expandiu 4. a economia brasileira no contexto da crise global 163 . como veremos a seguir. na primeira seção. mas com menor risco de ruptura na zona do euro. câmbio desfavorável e cunha fiscal elevada – que corroem a competitividade da economia brasileira. resgatar os principais deter- minantes do padrão de crescimento que vigorou no país até a crise global do final de 2008. o Produto Interno Bruto (PIB). que começava o seu mandato. incerte- zas ante a crise na zona do euro e dúvidas sobre a capacidade de recuperação da economia americana. es- pecialmente a queda da produção industrial. até o início de 2013.8% ao ano no primeiro mandato do governo Lula até o terceiro trimestre de 2008. no início da década de 2000. Procura-se. Por fim. Do período de auge até a crise global de 2008 O Brasil vivenciou. reverter a atual fase de baixa do ciclo de investimento produtivo. A posterior transformação desse quadro para um cenário de baixo cres- cimento e crise da indústria nacional é tratada na terceira seção.

o salário mínimo aumentou 172. estimulando o consumo de massas. Entre 2003 e 2007.5%. à política de reajuste real do salário mínimo2 e ao contínuo processo de formalização do emprego – combinada com medidas na área do crédito (por exemplo. que representa um fluxo mais estável e relacionado aos negócios no país. afetando positivamente o risco- país – que caiu de um patamar de 837 pontos (média de 2003) para a faixa de 180 pontos (média de 2007). em 2002. Entre 2002 e 2012. percentual bem superior ao da inflação daquele período. em relação à dos países avançados e emergentes.3 bilhões em dezembro de 2007. tenha se mantido elevado ao longo do período. a internalização de recursos externos.3 bilhões. somou in- gressos de US$ 141. era de 34. que gerou um superávit comercial acu- mulado de US$ 190 bilhões – valor mais do que suficiente para cobrir os gastos do país em Rendas e Serviços (US$ 162 bilhões). a conta de transações correntes do balanço de pagamen- tos do Brasil acumulou superávit da ordem de US$ 45 bilhões. em parte. no mesmo período. deixou de constranger a política econômica no governo Lula. para 180. Ver capítulo 3 para mais detalhes sobre a vulnerabilidade externa no pós-crise.8 bilhões. Nesse contexto. A recuperação dos rendimentos dos assala- riados – devido. o alargamento dos prazos e os menores juros nos empréstimos consignados em folha) e com o programa de transferência de renda 1. o setor público zerou a sua dívida externa e o setor privado passou a ter acesso a recursos financeiros a custos inferiores. Assim. o peso da vulnerabilidade externa.7%). em dezembro de 2003. facilitando a gestão do sistema de metas de inflação e a acumulação de reservas internacionais1. Esse pano de fundo e as expectativas favoráveis de crescimento da economia mundial até a crise global no final de 2008 foram fundamentais para que a ex- pansão do consumo doméstico e do investimento produtivo fosse sustentada com taxas de juros cadentes. medido pelo IPCA (98. em 2008.3%. As reservas internacionais brasileiras tornaram-se quase quatro vezes maiores e passaram de US$ 49. avançou no país a visão de que era necessário impor um novo padrão de distribuição de renda. a conjuntura de elevada liquidez no mercado financeiro global favoreceu. câmbio valorizado e inflação sob controle. que influenciou a dinâmica econômica no período anterior. 2.3% – passou a ser de apenas 0. irrigada por um ciclo de alta dos preços das commodities. embora o dife- rencial da taxa básica real de juros brasileira. Além disso. 164 a economia brasileira no contexto da crise global . fatores que permi- tiram a redução do endividamento externo e a ampliação do investimento pro- dutivo: a relação entre a dívida externa líquida e o PIB – que. Livre dos constrangimentos da vulnerabilidade externa. O Investimento Direto Externo (IDE).

a partir de 2004. O PIB cresceu 6. embora ainda extremamente elevados para o padrão mundial. os quais. o consumo das famílias e o volume de produção da indústria de transformação apresentaram variação de. As operações de crédito no Brasil como proporção do PIB passaram de 24. com peso de aproximadamente 60% no PIB.8%. respectivamente. 6.7%. para 37.a. foi de 6. Em situações como essa. No limiar da eclosão da crise global. em 2008. O setor de serviços. em 2003. A Tabela 1 mostra que o índice de preços do atacado da indústria de transformação a economia brasileira no contexto da crise global 165 . os empresários conviviam com uma po- lítica econômica que mantinha elevada a taxa básica de juros: a taxa Selic (final de período) em termos reais. o quadro benigno do mercado de trabalho estimulou o aumento da oferta de crédito. e (ii) o alongamento dos prazos de pagamento dos financiamentos. Além disso. repetindo o bom resultado de 2007. contexto que impulsiona a taxa de investimento da economia. no período. Havia um ciclo de alta dos preços das commodi- 3. caíram da faixa de 71% a. e de 7. também evoluiu positivamente e cresceu 6%.6% no acumulado do ano até o terceiro trimes- tre de 2008. Combinavam-se crescente expansão da demanda agregada e alta do consu- mo de bens e serviços.9%. Outros fatores se destacaram como indutores da ampliação da capacidade pro- dutiva. sendo que a formação bruta de capital fixo. em 2008. dois fatores determinaram esse movimento: (i) a redução paulatina dos juros cobrados nos empréstimos. As companhias recompuseram as margens de lucro por meio da elevação das receitas operacionais3. descontado o IPCA acumulado em 12 meses. Um movimento de elevação da lucratividade das empresas foi registrado entre 2002 e 2008. em 2008. com expectativas favoráveis em relação à rentabilidade das empresas e dos negócios. Concomitantemente à melhoria das condições macroeconômicas. dados a re- dução do risco cambial e o retorno dos fluxos de capitais voluntários. esse movimento de recomposição das margens da indústria deu-se em parte via preços.2%. e 6. para 51. em um ambiente propício para a ampliação do investi- mento produtivo.1%.a.8%.5%. na mesma base de comparação (Tabela 1). É interessante destacar que.para a população mais carente alavancaram o consumo doméstico e o mercado interno de bens e serviços. Os dados do PIB evidenciam claramente que o Brasil estava em uma trajetória de expansão consistente e equilibrada nos momentos que antecederam a crise de 2008.5% a. há a percepção de que o estoque de capital disponível para aumentar a produção não está compatível com a tendência de alta da demanda efetiva. 16. Ficou evidente que esse patamar de taxa básica real de juros não inibiu as decisões das empresas de imobilizar capital para aumentar a capacidade produtiva. em 2007.

de máquinas e equipamentos.9 -3.9 6.82 1.57 1. 1.6 -3. A taxa de câmbio média situou-se na faixa de 1.9 21.75 2011 2. o aprofundamento da crise financeira in- ternacional acarretou uma forte diminuição da liquidez no mercado financeiro internacional.7 -8.91 1.8 5.0 4. 4.67 1º trim.4 1.8 8.8 0.3 4. (2) Selic real do último mês de cada período.2 -3.5 1.04 2.74 1.3 2.5 4. 0.5 -2.96 2012 3º trim.94 2.9 3. em setembro de 2008.8 7.0 3. Ipeadata.41 2.7 2.34 1.4% em relação ao [índice de 2007). Nota: IT = Indústria de Transformação.1 -1.9 3.2 2.4 4. a paralisia nas linhas de crédito e a queda drástica no fluxo de (IPA .8% até o terceiro trimestre de 2008 sem que isso impactasse o IPCA.69 2008 2008 5.6 3.50 1.4 4.9 7.2 4.4 4.7 1.5 4. mesmo com o acirramento da concorrência dos bens importados.9 7.1 13. 1. inflação.1 5.1 6. o que abriu espaço para as indústrias utilizarem ainda mais sua capacidade instalada e aumentarem a escala de produção. Esse quadro foi fortemente afetado após a falência do Lehman Brothers.5 10.2 5. substituindo a produção local4.8 6.5 -3.0 4. 166 a economia brasileira no contexto da crise global .2 0.6 6.1 4. Jacob e Novais (2009). De imediato.0 6.1 2.9 6. re- duzir custos e impulsionar a modernização do parque produtivo por meio da aqui- sição.9 5.33 2.9 2. a função de complementar a oferta doméstica.1 4.7 4.0 -2.5 5.9 1. que se manteve próximo ao centro da meta (4.4 -6.2 1.1 -4.06 2012 Fonte: IBGE.69 naquele período (valorização de 12.4 10. fator que ajudou a conter a inflação.88 1. porém.9 3. naquele momento.87 2.4 1.8%).6 3.indústria de transformação) subiu 10.3 6.1 6.02 1. no período.03 2012 4º trim.22 1.2 6.7 -2.6 -4.6 6.99 2010 7.29 1.5 9.0 10.25 1.3 10.4 3.2 -2.1 -9.7 7. no exterior.7 16. Banco Central do Brasil.1 5.77 1.2 6.5 6.9 -2. veja o artigo de Almeida.3 6.7 13.6 6.83 2009 -0.6 7. já começavam também a competir no mercado doméstico. 0. juros reais e taxa de câmbio – 2007 a 2012 FORMAÇÃO SELIC REAL FINAL TAXA DE CÂMBIO CONSUMO PIB I T ¹ PRODU- BRUTA DE PIB IPCA IPCA IPA DE PERÍODO (DE- PERÍODO PIB ¹ DAS ÇÃO FÍSICA CAPITAL SERVIÇOS¹ TOTAL ¹ SERVIÇOS¹ I T¹ FLACIONADA PELO FAMÍLIAS¹ DA I T¹ FINAL DE MÉDIA DO FIXO ¹ IPCA 12 MESES) ² PERÍODO PERÍODO 2007 6.4 -3.3 5.3 4.1 2.1 1. Para outros detalhes sobre os resultados financeiros das empresas. produção industrial. (1) Variação acumulada no ano.10 1. ties e a economia doméstica estava aquecida. As importações cumpriam.2 3.66 1. Indicadores econômicos: PIB.2 2.93 3º trim.77 2012 2º trim.03 2. Tabela 1. 6.8 5.

em função do acúmulo de reservas e da expressiva redução da dívida pública externa e da dívida mobiliária inter- na indexada ao dólar. uma vez que: (i) a situação do balanço de pagamentos era favorável em relação às crises anterio- res. exatamente quando os impactos da crise global – restrição ao crédito externo e contração da demanda mundial – atingiram a economia brasileira. respectivamente. a chamada “marolinha”. A convicção sobre essa visão traduziu-se no diagnóstico de que as pressões in- flacionárias vigentes advinham do descompasso entre o ritmo de crescimento da demanda e da oferta internas.75% a. de. -9. (iv) o governo tornou-se credor em dólar. descontados os efeitos sazonais).7%. os impactos econômicos e financeiros poderiam ser pequenos no Brasil. (iii) as contas fiscais. a economia brasileira encerrou 2009 com queda de 0. Do lado da oferta. a diminuição das exportações e importações de bens e serviços também foram expressivas. Os efeitos da crise global e a política monetária restritiva vigente no último tri- mestre de 2008 fizeram com que a magnitude da queda do PIB. no setor externo. Na visão do governo. relativamente equilibradas. Nesse contexto. Com base nessa avaliação. a taxa de juros básica (Selic). Da perspectiva do Banco Central do Brasil (BCB).comércio global. a formação bruta de capital fixo assina- lou uma retração de 6. estavam em ordem. naquele momento. o ciclo de crescimento não se sustentou: de uma alta do PIB de 6. o crescimento econômico não deveriam sofrer reveses graves pela crise. Já da perspectiva da demanda.7%). e. Apesar de todos os aspectos que diferenciaram a situação de 2008 das crises anteriores. a maior retração ocorreu na indústria de transformação (-8. No primeiro trimestre de 2009. caracterizada como um fenômeno externo ao país. A recessão que se instalou no Brasil entre o final de 2008 e o início de 2009 e as dificuldades financeiras dos bancos de pequeno e médio portes mostraram que a tese governamental não foi respaldada pelos fatos. (ii) o nível elevado das reservas cambiais dotava o país de um “colchão” de segurança.2% em relação ao do período imediatamente anterior.3%. fosse grande no período (-4. caracterizando o período como recessivo (Tabela 1 do Anexo Estatístico). entre junho e setembro de 2008. até então.6% (Gráfico 1). principal parâmetro do BCB. a economia brasileira no contexto da crise global 167 .6% no acumulado em quatro trimes- tres até setembro de 2008. para mo- nitorar a conjuntura econômica. e a manteve nesse nível até dezembro daquele ano. o BCB elevou para 13.1% e -7.. o fenômeno empurrava para cima as expectativas do mercado para o IPCA acu- mulado em 12 meses. a retração foi menor (-1.a. os vetores que vinham garantindo. na margem.7%) na mesma base de comparação.

1 .4%). queda brusca ou rele- vante desaceleração.2 16.0.0 .0 3. de outro.8%.1 3.2 6.3.0 19.6 . foram fechados. PIB: Variação trimestral acumulada em quatro trimestres (em relação ao percentual registrado no mesmo período anterior) – 2008/2009 (em %) 25. O colapso das expectativas dos empresários resultou numa quase paralisia da produção em alguns setores econômicos e na eliminação de postos de trabalho. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. 765 mil postos formais de trabalho.9 4.7 -15. O setor automotivo deu férias coletivas no último trimestre de 2008.6 pontos percentuais de contribuição negativa dos estoques ao crescimento do PIB na média dos trimestres – Gráfico 3) e.4 3. todos os setores levantados nas Contas Nacionais do lado da oferta e da demanda apresentaram.1 .6 7. entre o terceiro trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009.0 . descontados os efeitos sazonais. No imediato pós-crise.9.6. que tinham acumulado estoques ao longo de 2008. o impacto foi o de um “tsunami” na indústria – particularmente nos setores mais dependentes das exportações e do crédito – e nos investimentos produtivos. As empresas. descontados os efeitos sazonais.0 16.3 .7 6. Gráfico 1.6 20. com destaque para: importações (-20. a indústria de transformação acumulou. com a perspectiva de ter continuidade a expansão da economia.2 .3 3.6 15. as empresas reduzi- ram os inventários ao longo de 2009 (-2.6 -10.0 10. IBGE.7 5. De fato.0 FBCF Construção Civil Serviços Consumo das Famílias Transformação Agropecuária PIB Preços de Mercado Consumo do Governo Indústria Exportações Extrativa Mineral Importações I/2008 II/2008 III/2008 IV/2008 I/2009 II/2009 III/2009 IV/2009 Fonte: Contas Nacionais.0 . entre o terceiro trimestre de 2008 e o primeiro trimestre de 2009.7 -5. foram surpreendidas pela eclosão da crise. em termos líquidos (admitidos – desligados).0.5.8. O ajuste foi instantâneo: de um lado.7 .3.9 5. Cabe ressaltar que. formação bruta 168 a economia brasileira no contexto da crise global .1 2. o emprego formal apresentou forte retração: entre outubro de 2008 e janeiro de 2010.3 6. uma retração de 17.6 5.0 8.1 0.7.

-1.9%).de capital fixo (-20. no entanto.1% (Gráfico 1). e transporte. o crédito com recursos livres às pessoas físicas ganhou maior fôlego com o aumento dos prazos e com 5. Adicionalmente. foi a preservação do mercado interno. construção civil (-9. O pilar de sustentação do setor de serviços.0%). Nota-se que. respectivamente.0% (Tabela 1 do Anexo Estatístico). que havia perdido dinamismo desde o aprofunda- mento da crise. Segundo o Caged. foi pouco afetado pela crise. Do lado produtivo. cerca de um milhão de postos de trabalho no mercado formal. com retração muito inferior de. em termos líquidos (admissões – desli- gamentos). O fortalecimento da despesa pública e o baixo impacto da crise no mercado de trabalho deram sustentação ao setor de serviços. comércio (-10.5%). embora os desembolsos não tivessem crescido de forma expressiva. mitigando a forte retração das exportações de bens manufaturados. A partir de abril de 2009. exportações (-16. o saldo líquido do emprego formal passou a se expandir de forma mais consistente. a política de transferências de renda para a população de baixo poder aquisitivo também ajudou a preservar o mercado interno. a economia brasileira no contexto da crise global 169 . fazendo melhorar as expectativas5. Já o setor de serviços como um todo e o consumo das famílias praticamente permaneceram no mesmo patamar.9% e -1. que praticamente não sentiu a recessão e fechou o ano de 2009 como o único. uma vez que a combinação de reajustes reais do salário mínimo e a desaceleração da inflação fez com que a massa de rendimento mantivesse em um nível razoável sua taxa real de expansão no primeiro semestre de 2009. O terceiro e fundamental fator de preservação do mercado interno foi a reto- mada do crédito às famílias. resultante de vários fatores. A sinalização do governo federal de que os programas de investimento público (PAC) não iriam ser descontinuados em função da crise. o desemprego cresceu. armazenagem e correios (-8. especialmente de automóveis e de bens duráveis da linha branca. em primeiro lugar. especialmente devido às demissões na indústria.7%). os incentivos fiscais adotados pelo governo federal bene- ficiaram importantes cadeias produtivas e estimularam. entre abril e dezembro de 2009. do lado da oferta. de 2. porém. e a confiança dos consumidores caiu. Cabe destacar. O ren- dimento recebido pelos trabalhadores. a dinâmica do mercado de trabalho: no auge da crise (final de 2008). impediu que a taxa de investimento da economia caísse ainda mais. foram criados. via preços. superando as perdas ocorridas no auge da crise.6%). e o desemprego recuou. que praticamente não sentiu a crise. o consumo doméstico de bens industriais. a partir de março de 2009. a apresentar resultado positivo.

o que contribuiu para que. dando credibilidade aos fundamentos da política econômica. em 2009. Os empresários. fatores que permitiram a sustentação do gasto público e criaram “espaço fiscal” para a implementação de medidas anticíclicas. queda da taxa de juros básica (embora essa medida tenha sido tomada tardiamente. Mês a mês. A “exuberante” saída da crise em 2010 No plano mais geral. a partir de janeiro de 2009) e avanço do crédito como proporção do PIB. já no primeiro se- mestre de 2009. com superávits primários em torno de 4% do PIB. as condições de expansão.39 (média mensal). O país enfrentou a crise com medidas fiscais de incentivo ao consumo doméstico. em dezembro de 2008 (desvalorização de 48. as expectativas do mercado sobre a inflação se situassem abaixo do centro da meta. e a trajetória de queda das dívidas públicas bruta e líquida em relação ao PIB. em dezembro de 2009. principalmente os in- dustriais. no último trimestre de 2008. tiveram uma reação negativa muito forte.4% em relação à verificada em agosto daquele mesmo ano). Diferentemente dos períodos nos quais a turbulência do cenário internacional ocasionava a deterioração do balanço de pagamentos e exercia forte pressão sobre a taxa de câmbio. diminuindo a vulnerabilidade externa do país. a taxa de câmbio tinha voltado para a faixa de R$ 1. Mesmo assim. o real se desvalorizou quando houve saída maciça de capitais de investidores estrangeiros para cobrir prejuízos sofridos com o aprofundamento da crise nos países centrais. menores taxas de juros. em 2010. A taxa de câmbio atingiu o patamar de R$ 2. Dois outros fatores ajudaram a blindar a economia brasileira. mantendo-se numa trajetória ascendente como proporção do PIB a partir desse período. como atenuadores dos impactos da crise global e alicerçaram. demitindo em massa e para- lisando os projetos de investimento. percebe-se que pelo menos três condicionantes agiram. O terceiro elemento que diferenciou o Brasil dos países centrais foi a relativa proteção das institui- ções financeiras locais contra os ativos “tóxicos” que caracterizaram o ciclo de 170 a economia brasileira no contexto da crise global . O principal efeito-contágio dessa crise global foi a interrupção do círculo vir- tuoso – renda-consumo-produção-investimento – que até então ditava o ritmo de crescimento. esse movimento foi-se revertendo e. o acúmulo de reservas no período pré-crise serviu como um seguro. A paralisia quase que completa do sistema de crédito internacional e a gravidade da crise global afetaram a confiança dos agentes econômicos a partir do último trimestre de 2008 e em 2009.75. A relativa solidez das contas públicas no imediato pré-crise.

o volume de IDE e de investimentos em portfólio atingiu o montante de. US$ 48.exuberância financeira no mercado financeiro global.1% e volume de US$ 41. a demanda mundial por ati- vos brasileiros tornou-se maior. Esse quadro externo mais positivo e o sucesso das medidas anticíclicas. também se intensificaram.8 bilhões. em relação aos montantes de 2009. naquele momento. Também foi importante a manutenção do ritmo de ex- pansão do financiamento habitacional. Um traço marcante do movimento de recuperação da crise foi a busca de oportunidades de negócios no mercado financeiro brasileiro. ampliaram a oferta e. os prazos dos em- préstimos tenham caído e as taxas de juros tenham se elevado. Do ponto de vista do crédito. tornaram o ambiente econômico mais propício à expansão. ainda que o ritmo de crescimento dos estoques de crédito tenha se desacelerado. aliado ao papel ativo dos bancos públicos para fornecer financiamento ao consumo e às empresas. em 2010. em uma trajetória sustentada de expansão com retorno da rentabilidade. a política de elevação real do salário mínimo e a atualização dos valores das transferências de renda para famílias pobres (com o programa Bolsa Família) deram suporte ao mercado interno. toma- das pelo governo nos meses posteriores à eclosão da crise. com expansão de 86. Esse fato. numa atuação anticíclica. Os empréstimos e financiamentos em moeda estrangeira.9% (IDE) e 46. as reservas internacionais do país haviam chegado a US$ 288. que. amorteceram o impacto da desaceleração da oferta pelos bancos privados. assim.6 bilhões. devido à perspectiva de o país estar. com alta de 195. A rapidez e a intensidade com que a economia brasileira saiu da crise cau- saram euforia no mercado financeiro internacional. respectivamente. atraídos pela elevada rentabilidade dos títulos públicos e pela valorização da bolsa de valores. Ao final de 2010. o que resultou no crescimento exponencial do volume de recursos financeiros aplicados no país por estrangei- ros. lastreado pelos recursos direcionados dos depósitos de poupança. O mercado escolheu o Brasil como a “bola da vez” dentre os países que tendem a oferecer elevada rentabilidade aos investidores. Ao longo de 2009. a economia brasileira no contexto da crise global 171 . assegurou o crescimento do setor de construção civil. amorteceu os impactos da desaceleração da oferta de crédito dos bancos privados e permitiu manter a expansão do crédito que já estava em curso na economia brasileira antes da crise. a crise financeira internacional não foi capaz de reverter a fase de expansão iniciada em 2003. Sem risco de ruptura no sistema financeiro global. Essa evolução do crédito contou com o suporte dos bancos públicos que.5 bilhões e 67. Os fluxos de capitais estrangeiros voltaram com for- ça em 2010.5 bilhões. que haviam minguado em 2009.9% (portfólio).

dando mais amparo aos traba- lhadores demitidos. num contexto externo que afugentava investidores estrangeiros. como automóveis. foi importante também no sentido de dar apoio financeiro a grandes grupos nacionais que adquiriram parte dessas empresas em dificuldades. Essas medidas de proteção social e de ampliação do gasto público foram com- plementadas por políticas anticíclicas de renúncia de impostos federais na compra de bens duráveis. Ocorreram quebras de empresas nacionais de porte nos setores de celulose. linha branca e móveis. maior oferta de crédito ao consumo. nesse sentido. 7. O programa “Minha Casa Minha Vida” estimulou o setor de construção civil – im- portante gerador de emprego e renda para segmentos do mercado de trabalho menos qualificados –. no ime- diato pós-crise. para alavancar a capacidade de concessão de novos empréstimos6. e (ii) o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) manteve-se prioritário. a política ativa do BNDES auxiliou as empresas que sofreram elevadas perdas financeiras em apostas arriscadas no mercado de derivativos cambiais7. tornaram mais relevante a participação do setor público na saída da crise: (i) o Ministério do Trabalho ampliou. o sistema de seguro-desemprego. magnificado pelo aprofundamento da crise no final de 2008. O PSI reduziu para 4. Adotado na área de investimento e concebido como um item a mais na política de crédito. especialmente. É de se notar. o Pro- grama de Sustentação ao Investimento (PSI) garantiu melhores condições para as empresas realizarem inversões mais “leves” com taxas de juros mais baixas.5% ao ano a taxa de juros dos financiamentos do BNDES para a compra de bens de capital. a importância que o governo deu ao mercado de crédito. ao ampliar a oferta de novas moradias. fazendo com que o investimento público não caísse ao longo de 2009 e de 2010. 172 a economia brasileira no contexto da crise global . aliás. na aposta de que a taxa de câmbio fosse permanecer apreciada. Além disso. O excepcional crescimento do PIB em 2010 (+7. associada (1) aos prejuízos que as empresas tiverem com operações vinculadas a derivativos cambiais e (2) ao descasamento entre ativos e passivos. logrando evitar uma iminente crise de liquidez. 6. desnudaram-se as dificuldades financeiras de várias grandes empresas brasileiras. O papel do BNDES. Dois segmentos cruciais foram incentivados por programas então criados. como resultado de operações de arbitragem das suas receitas em dólar em derivativos de operações de hed- ge. Com a eclosão da crise. A esse respeito. Duas ações do governo. dentre outras. Crescente bancarização. pela indústria. A desvalorização do real gerou vultosos prejuízos para muitas dessas companhias. alimentos processados e açúcar e álcool. A expansão do Fundo Garantidor de Crédito aos depósitos a prazo emitidos para os bancos de menor porte serviu. pelo qual passaram os pequenos e médios bancos.5%) refletiu o sucesso das medidas adotadas. ver o capítulo 4. materiais de construção.

A variação anualizada da taxa trimestral na margem com ajuste sazonal do consumo das famílias.3 5.0 21. segun- do as Contas Nacionais.p.1% no terceiro trimestre de 2010.4 p. A força e a composição dessa recuperação demonstraram como é possível sair de uma situação de quase paralisia nas decisões de imobilização de capital em 8. adiante.elevação dos prazos de financiamento e aceleração do processo de formalização da força de trabalho (em 2010. procuraram rapidamente recompor os seus esto- ques de matérias-primas e de bens finais. Em 2010. o Gráfico 3). Nesse contexto. de contribuição ao crescimento a cada trimestre (ver.3 20.4 10. Gráfico 2. as firmas voltaram a criar capacidade produtiva adicional. O de- sempenho da economia brasileira mostrou que foi possível. a economia brasileira no contexto da crise global 173 . na comparação do acumulado em quatro trimestres. já que o PIB de 2009 havia se retraído (Gráfico 2). As empresas. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.0 13.2 5. que cresceram.0 -5.5 4.3%.0 25. uma trajetória auspiciosa para o mercado interno.0 35. Entre 2009 e 2010. respectivamente. redinamizar a formação bruta de capital fixo e a produção da indústria de trans- formação. vislum- brando.1 10. em parte devido à baixa base de comparação.6 11. o consumo das famílias avançou 6. ultrapassou 10% nos segundo e terceiro trimestres de 2009 (11. no curto e médio prazos.8 35.5 6.0 FBCF Construção Civil Serviços Consumo das Famílias Transformação Indústria Agropecuária PIB Preços de Mercado Consumo do Governo Exportações Extrativa Mineral Importações I/2010 II/2010 III/2010 IV/2010 Fontes: Contas Nacionais.6% na média) e atingiu 10.14 bilhões de empregos formais) fizeram com que o consumo das famílias crescesse a taxas expressivas8. foram criados 2.0 6. IBGE.9%.5 10.6 11. naquele momento.3% e 10. a variação dos estoques acrescen- tou 1. ao perceberem que havia espaço para voltar a crescer e premidas pela maior concorrência das importações. PIB: Variação trimestral acumulada em quatro trimestres (em relação aos índices do mesmo período do ano anterior) – 2010 (em %) 40. 21.0 30.0 0.9 7.0 15.

Parte desse processo respondeu à expressiva valorização do real. de elevação dos investimentos à frente da demanda. embora o patamar atingido tenha sido inferior ao observado antes da crise (6%. enquanto as exportações de bens e serviços. uma vez que ajudou a conter os reajustes de preços. no último trimestre de 2010 (na comparação do acumulado em quatro trimestres).9%. no primeiro trimestre de 2007. avançaram consi- deravelmente menos (11. na comparação com os dados do mesmo período de 2009. segundo as contas nacionais. no quadro de recuperação da economia mundial. Excluindo-se o ano de 2009 – quando as importações caíram de forma mais intensa.1%). O PIB do setor de serviços também se dinamizou com alta de 5. O Gráfico 3 mostra a evolução da contribuição das demandas interna. re- lativa tranquilidade para o financiamento do balanço de pagamentos. a aceleração do consumo doméstico. com ampliação do grau de substituição da produção local por importações9. No arranque de 2010. em 2010. Um fator estrutural que ganhou força nessa retomada foi o alastramento dos bens importados na economia brasileira e a perda de competitividade dos pro- dutos nacionais no mercado externo. do PIB nos segundo e terceiro trimes- tres. 174 a economia brasileira no contexto da crise global .66. a demanda externa chegou a subtrair 3. 36.5%. em grande medida. Segundo informações da Funcex. na média dos três primeiros trimestres de 2008).6 p. 9. ao estimular a entrada de dólares no país. passou a contar com mais bens importados para compor a oferta inter- na. entre 2009 e 2010.6%. especialmente da China. A apreciação cambial teve efeitos diferenciados na economia: garantiu alguns graus de liberdade à política econômica centrada no sistema de metas de inflação.7%). para o crescimento do PIB. reflexo. Para as exportações. As importações de bens e serviços cresceram. ocorrida ao longo do período: excluída a desvalorização do final de 2008.91 para o patamar de R$ 1. externa e dos estoques. Esse quadro refletiu um cenário internacional mais competitivo por mercados de consumo dinâmicos e revelou o processo de valorização do real. no curto e médio prazos. de 18.4% para 14. e a contribuição tendeu a ficar neutra – a demanda externa contribuiu para reduzir o crescimento econômi- co desde o ano de 2006 . e assegurou. Dessa perspectiva. mesmo ancoradas na recuperação dos preços das commodities. o coeficiente de penetração das importações na indústria de transformação passou de 13.1%. em média.p. entre o terceiro trimestre de 2008 e o final de 2010 (valorização de 13. Percebe-se que não é de hoje que a de- manda externa não ajuda a economia brasileira a crescer. o movimento foi inverso. da “avalanche” de recursos financeiros externos internalizados. a taxa de câmbio (final de período) recuou da faixa de R$ 1. devido à forte retração da atividade econômica.4% a cada trimestre em 2010. direção ao outro extremo. para 19.

con- seguindo.3 -2.00 2002 2003 2004 2005 2006 2007 I/2008 I/2009 I/2010 II/2008 II/2009 II/2010 IV/2008 IV/2009 IV/2010 III/2008 III/2009 III/2010 Ano trimestre (acumulado no ano) Demanda Interna Demanda externa Estoques Fonte: Contas Nacionais. Contribuição da demanda interna.3 1.5 -1.6 -2.2 0. A valorização cambial também estimulou a compra.9 1.5 -3.5 2. a manutenção.4 -1.7 1. As empresas a readequaram suas escalas produtivas. A ma- nufatura de bens de consumo também se beneficiou desse barateamento de peças e matérias-primas compradas no exterior e utilizadas na cadeia produtiva. manter em parte sua competitividade no mercado doméstico.0 7.6 -5.9 -2.8 1.4 0.2 -3. de bens de capital tecnologi- camente sofisticados.6 5. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.2 -1.4 0.0 9.00 8.1 0.0 -3. Gráfico 3. no exterior. veículos e máquinas e equipamentos) –.7 -2.0 -1. Porém.0 -2.2 1. Com a perda de mercados externos conquistados nos anos anteriores – espe- cialmente nos segmentos acometidos pela concorrência predatória da China e nos setores cuja parcela importante da produção é voltada para o exterior (por exemplo.7 3.2 7. de um ambiente de baixa rentabilidade das exportações e de aumento do peso das importações na estrutura de produção das empresas acabou por influenciar as decisões microeconômicas.00 4.00 0.4 0.3 0.8 -3.1 1.0 0.5 0. reduziram o emprego e deslocaram o foco para o mercado interno.2 -1.00 11. externa e estoques ao crescimento do PIB – 2002 a 2010 (em %) 13.0. num movimento de difícil reversão e com custos elevados para o país. assim.6 10. A débil retomada das economias avançadas manteve contidos os preços dos bens manufaturados. permitindo que o processo de investimento da economia brasileira contasse com equipamentos importados mais baratos.9 1.00 -2.00 2.2 -1.8 11.00 6.2 9. abrindo-se à maior importa- ção de produtos e à menor produção para exportação.2 .0 -3.0 -1.5 3.00 10.1 7.3 5.8 1. as empresas diminuíram seus investimentos.2 7.6 0.0 0. IBGE. fatores que reduziram os elos intraindustriais das cadeias produtivas no país. geradores de importantes ganhos de produtividade.1 0. a economia brasileira no contexto da crise global 175 .00 -0. por um período prolongado.4 0.7 0.9 -1. Esse é o lado benigno da valorização cambial.

ante o recrudescimento do processo inflacionário – que. Dentre os vetores de expansão que haviam atuado. Porém. de 1. em 2010. foi condicionada pela política econômica. percebe-se. O PIB iniciou 2011 com expansão. após o atípico ano de 2010. a elevação dos custos de produção e a resistên- cia à queda dos preços dos serviços) que definiram o movimento ascendente dos preços. a inflação.8% no primeiro trimestre. 176 a economia brasileira no contexto da crise global . e não um excesso da demanda agregada.1% para -2. Tabela 1 do Anexo Es- tatístico). em comparação com o índice verificado no trimestre imediata- mente anterior. tinha um componente de inflação de demanda e um choque externo.5%) até o final de 2011. Desaceleração da atividade econômica no governo Dilma: qual é o padrão de crescimento da economia brasileira? A deterioração do ambiente econômico doméstico. por critérios rígidos na gestão do sistema de metas de inflação. no final de 2010. do lado da demanda. manifestado com força no biênio 2011/2012. com a justificativa de conter o ritmo de alta das concessões de crédito. o consumo 10. na margem. fruto da elevação dos preços das commodities –. de medidas macroprudenciais na área do mercado de crédito. Os dados da atividade econômica mostram claramente que o objetivo de es- tancar o crescimento da demanda doméstica foi plenamente alcançado. Ver capítulo 2. que ainda se pautava. a deterioração do ambiente dos negócios na indústria. Esse ritmo desacelerou para um patamar de quase estagnação no segundo semestre (na faixa de 0. creditícia e fiscal mantiveram-se restritivas com um mix diferenciado. A novidade foi a tomada. Nesse contexto. ao longo de 2011. de 0. Naquele momento. em 2010. demonstrando que foram outros fatores (o choque de oferta. descontados os efeitos sazonais. especialmente no segmento de veículos10.1% de variação trimestral. medida pelo IPCA (acumulada no ano). e a im- portância assumida pelas importações no tecido industrial revelam a perda de competitividade da economia brasileira diante da valorização da moeda domés- tica em um contexto de maior concorrência no mercado mundial. excluída a sazonalidade. A variação trimestral na margem do volume da in- dústria de transformação inverteu o sinal entre o primeiro e quarto trimestres de 2011. O peso negativo da demanda externa na expansão do PIB. em mea- dos de 2010 e início de 2011.7%. manteve-se pressionada no teto da meta (6. as políticas mo- netária. na leitura do BCB.

nota-se desaceleração relevante de 16. sendo que o quantum dos bens importados caiu de 37% para 10%.7%. o PIB desacelerou de 6. O consumo das famílias perdeu o ritmo de expansão (de 6. No setor de serviços. a pesquisa Focus do BCB projetava uma expansão do PIB na faixa de 3. e a taxa acumulada em quatro trimestres caiu pela metade (de 9% para 4.9% para 2. o volu- me do comércio mundial desacelerou-se de 12. na mesma base de comparação.2%) e na construção civil (de 9.7% para 6.3% para 3. Do lado da oferta.6%. Na comparação do acumulado em quatro trimestres.3% para 6.8%.3% para 2.1% na mesma base de comparação (ver Tabela 1 do Anexo Estatístico). havia a expectativa de que a economia bra- sileira obteria um crescimento superior – no final de 2011.8% para 0. o ritmo altista do quantum das exportações brasileiras sofreu redução de 9. Nesse contexto. a perda de ritmo foi menor (de 4. mas conseguiu encerrar o ano com uma expansão razoável (Gráfico 4) . Da perspectiva da demanda. na extrativa mineral (de 10. enquanto o das economias emergentes diminuiu da faixa de 7. elevado e bem acima do volume das exportações. média dos trimestres).5%).5% para o ano seguinte. Já a formação bruta de capital fixo desacelerou de forma mais intensa. Segundo o FMI.das famílias até conseguiu terminar 2011 com uma variação positiva no quarto trimestre (+1. a queda na variação foi ainda mais expressiva. a forte queda da for- mação bruta de capital fixo e das importações de bens e serviços: no caso da formação bruta de capital fixo. as maiores quedas ocorreram na indústria de transformação (de 6.2%.8% para 9. Na mesma direção. entre 2010 e 2011 o crescimento das economias avançadas caiu pela metade (de 3.7% (quarto trimestre). Um fator que jogava a favor dessa previsão era o novo arranjo da política econômica do governo Dilma.1%). com queda mais pro- nunciada da indústria em 2011. porém. mas com ritmo inferior ao observado no ano anterior (1. o ímpeto das importações foi barrado com a retração da atividade econômica.4% para 4.7%).).7%.2% para 1.1%).6%).8% para 3. entre os dois anos. A flexibilização da gestão da política monetária explicitou-se a economia brasileira no contexto da crise global 177 . sobressaiu-se. de 28.4% para -0.5% para 2.3% (pri- meiro trimestre) para 4. O volume de importações ao final de 2011 manteve-se. As exportações de bens e serviços seguiram o mesmo padrão. Consequentemente. no caso das importações de bens e serviços.9%.9%. também decorreu da deterioração do cená- rio externo. em 2011. entre o primeiro e o último trimestres de 2011 (Gráfico 4). Na passagem de 2011 para 2012.0%). Esse cenário de fraco crescimento econômico do PIB. de 2.

9 3. especial- mente observado no setor industrial. mesmo com inflação ascendente e acima do centro da meta.1 0.1 3.4 5.3 15.3 9. O PIB apre- sentou forte redução de seu ritmo de crescimento.7 1.0 9. PIB: Variação trimestral acumulada em quatro trimestres (em relação aos dados verificados no mesmo período do ano anterior) – 2011/2012 (em %) 30. de 2.. mas manteve elevada a incerteza sobre a recessão em vários países da Euro- pa. em julho de 2011.8 6. o ritmo de crescimento do setor de serviços registrou queda e o saldo da balança 178 a economia brasileira no contexto da crise global .9 2.5 0.7 4. A atividade econômica no primeiro biênio do governo Dilma registrou um desempenho bem diferente daquele observado nos anos anteriores.p.8 25.1 3. de maneira correta.8 10.9 1.0 -4. O cenário internacional não avançou no sentido da ruptura na zona do euro.0 16. saindo do patamar de 12. quando o BCB surpreendeu o mercado reduzindo a taxa básica de juros em 0.5 p.7 3.8 6.9 4. anteviram um viés deflacionário na economia mundial e um aprofundamento da crise na zona do euro.25%.5 5.p.4 4. A partir de então.7 0. em setembro de 2012.2 0.2 3.0 10. IBGE. fatores estruturais da perda de competitividade da economia brasileira se sobressaíram e se amplificaram por conta dos efeitos conjunturais negativos do ajuste nos estoques no período de dois anos (2011-2012).3 6.0 FBCF Construção Civil Serviços Consumo das Famílias Transformação Indústria Agropecuária PIB Preços de Mercado Consumo do Governo Exportações Extrativa Mineral Importações I/2011 II/2011 III/2011 IV/2011 I/2012 II/2012 III/2012 IV/2012 Fonte: Contas Nacionais.4 1.9% em 2012. Internamente. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.1 -2. para 7. Os gestores da política econômica. Gráfico 4. Nesse período. Apesar da queda da taxa básica de juros.0 20.9 0.5%.0 3. em agosto de 2011..7% em 2011 para ape- nas 0. a crise da indústria nacional se explicitou.9%.3 -2.8 -1.6 1. o Copom reduziu a taxa básica de juros (Selic) em 5.6 4.25 p.0 28.0 -0. o que significou uma taxa básica real de juros (descontado o IPCA acu- mulado em 12 meses) na faixa de 1.7 7. a economia brasileira não reagiu em 2012.0 9.2 2.5 -5.

7%). resultado inferior ao observado no perí- odo 2002-2003 (2%).8%. A média de crescimento do governo Dilma nesse biênio situou-se na faixa de 1. que resultou no aumento da inadimplência e na maior seletividade dos bancos na concessão de crédito – seja a quitação de dívidas passadas por parte dos consumidores endivi- dados. o começo de uma recuperação do consumo das famílias: nesse período. no quarto trimestre de 2012.3%) e no governo Lula (4%). no período recente. O grau de endividamento das famílias cresceu.1%. não signifi- cou a redução das taxas de juros e o alongamento dos prazos de financiamento. 1. atua como limitador da maior demanda por crédito é a expansão do comprometimento médio da ren- da das famílias com amortizações e juros das dívidas. Nota-se. é natural que o primeiro efeito da queda da taxa de juros ao consu- midor – após um ciclo de alta de consumo de bens duráveis. Em primeiro lugar.2% em 2005 para 43. a política dos bancos públicos de forçar a queda dos spreads a economia brasileira no contexto da crise global 179 . porém. Diante desse quadro de anemia da atividade econômica. quando as exportações sustentavam a baixa expansão do PIB e a economia passava pela crise do apagão de energia elétrica. Naquele período. logo no início de 2012. móveis e veí- culos foram mantidos e prorrogados até o final do ano (dezembro). assim como para res- taurar a competitividade das exportações e conter o excesso de importações. Assim.8% – Tabela 1 do Anexo Estatístico). As medidas foram espaçadas no tempo.2% em 2012. mas o principal fator que. Alguns aspectos devem ser considerados. nos últimos três meses de 2012. patamar inferior às médias verificadas em 2009 (4. as famílias consumiram.9% em dezembro de 2012. o governo lançou várias medidas para reanimar o consumo e o investimento. que atingiu o patamar de 21. na comparação com os resultados obtidos na saída da crise global de 2008.2% acima do nível observado no terceiro trimestre. os incentivos de redução do IPI para bens duráveis da linha branca. isso. a variação acumulada em quatro trimestres subiu para 3. Esse resultado também ficou abaixo das médias anuais obtidas no governo FHC (2.4%) e em 2011 (4. o que significou uma suave ace- leração em relação à expansão trimestral média do primeiro semestre de 2012 (0. de 20. para que se compreenda a menor efetividade das medidas de incentivo ao consumo.comercial acusou redução expressiva. a concor- rência no sistema bancário se ampliou para capturar os consumidores que tinham voltado às compras. em 2012. após um ano de menor confiança. Na comparação na margem com ajuste sazonal. Os efeitos positivos dessas medidas no consumo não apareceram de modo consistente e na velocidade esperada. Nesse sentido.

A desoneração da folha de salários de 40 setores. do sistema bancário é profícua. Do mesmo modo que no período pré-crise de 2008. (ii) o cenário internacional inspirava cuida- dos redobrados e havia perspectivas de um período prolongado de baixo cresci- mento econômico. retardando a reversão do ciclo. a partir de 2013. Fica evidente que alguns fatores minaram a confiança das empresas em 2012. quais sejam: (i) a reaceleração do consumo das famílias não estava garantida após o vencimento dos incentivos fiscais concedidos pelo governo federal. o governo avançou novas medidas na tentativa de reanimar o animal spirit dos empresários. não foi verificado em 2012. e a desoneração do investimento também são medidas que tentam dotar o país de maior competitividade. como. as empresas que atingirem determinado percen- tual de conteúdo de produção nacional e o melhor desempenho do consumo de combustível nos modelos fabricados no país. ao reduzir sua capacidade de se beneficiar do acréscimo do consumo doméstico. entretanto. por si só não alterou. continuavam restringidas pelas medidas protecionistas (Argentina) 180 a economia brasileira no contexto da crise global . quando a elevada taxa de juros real vigente na economia não impediu que o investimento privado avan- çasse. dado o elevado comprometimento da renda disponível em pagamento de juros e amortizações. alavancando um novo ciclo de crédito. As autoridades econômicas anunciaram que as isenções de IPI sobre bens duráveis. com a substituição dos encargos trabalhistas por uma alíquota sobre o faturamento. o cálculo empresarial para alavancar um ciclo sustentado de ampliação da capacidade produtiva. o que. no sentido de preservar uma taxa de câmbio mais favorável às exportações e inibir a alta das importações e de trazer a taxa básica de juros para patamares próximos dos vigentes nos demais países emergentes. (iii) o maior grau de penetração das importações no período recente afetava a produção local. o setor privado bancário passou a ser mais exigente na concessão dos financiamentos. que premiará com redução do IPI. a proposta do novo regime para o setor automotivo. é clara a mudança na gestão da política econômica. Dada a lentidão da retomada do crescimento econômico e a explicitação dos problemas de competitividade da indústria brasileira. Do lado macroeconômico. até o final de 2012. por exemplo. Além disso. (iv) as exportações. especialmente de bens ma- nufaturados. que hoje estão vigentes na economia brasileira. a queda da Selic. foram prorrogadas até o final de 2013. na conjuntura atual. fator que limita a capacidade de expansão da oferta de crédito. Um vetor que se contrapõe a essa tendência é a saturação do consumo de bens duráveis após a retirada dos incentivos fiscais. especialmente automóveis.

em função da retração da atividade industrial e da desaceleração do consumo doméstico. externa e estoques ao crescimento do PIB (trimestre acumulado no ano) – 2011 e 2012 (em %) 5. A con- tribuição da demanda interna ao crescimento recuou de um patamar de 5.9 1.7 -0. Ver capítulo 3.3 -0.0 -0. Isso significa dizer que para o retorno do crescimento econômico se dar sem pressões inflacionárias seria neces- sária a aceleração das imobilizações de capital produtivo.4 -0.7 1. além de sofrerem com a perda de competitivi- dade da indústria nacional.4 3. Percebem-se dois movimentos: as im- portações de bens e serviços perderam força. Gráfico 5. e permaneceram estagna- das.0 -0.4 -0.8 5.9 0. As expor- tações mantiveram-se contidas. a demanda externa em relação à participação no resultado do PIB tendeu à neutralidade.1 0. no primeiro trimestre de 2011.6%.7 -1.9 -1. Na passagem de 2011 para 2012.0 I/2012 I/2011 II/2011 II/2012 III/2012 III/2011 IV/2011 IV/2012 Demanda Interna Demanda Externa Estoques Fonte: Contas Nacionais. qual seja: o consumo das famílias e o consumo do governo foram os únicos vetores de dinamismo.e pelo baixo crescimento mundial. Contribuição da demanda interna. em virtude da baixa expansão da economia mundial11.1 -1.1 -0. IBGE. a economia brasileira no contexto da crise global 181 .1 -1. notam-se as seguintes tendências na comparação interanual do PIB (Gráfico 4): (i) a indústria de transformação manteve-se retraí- 11.5 4. e no caso das famílias houve razoável desaceleração no período. já que o investimento se retraiu sobremaneira desde o final de 2011 (Gráfico 5).8 1. O resultado do PIB em 2012 é o retrato do quadro acima traçado. para a faixa de 1.8% em 2012.8 -0.7 1.3 -0.6 -0. A composição da expansão mostrou uma situação delicada. no mesmo patamar elevado observado em 2011. especialmente o quantum de bens manufaturados e semimanufaturados. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Do ponto de vista da oferta. ao final de 2012.

6 19.7 19. (ii) a construção civil também não se sustentou e. e (iv) a agropecuária apresentou retração de 2. soja.8 18.2 19. subtraiu 0. a preços de 2006. a taxa de investimento da economia recuou. Agora.4 20.7%. Dados o grau de incerteza reinante no cenário internacional e as dúvidas so- bre o quadro doméstico.5 19.7 17.5 19.7 19.6% (Gráfico 6).6 a preços correntes 19. Um dos fatores que impactou negativamente o setor industrial foi o longo processo de ajuste nos estoques. ao final de 2012. (iii) o setor de serviços perdeu dinamismo e encerrou 2012 com expansão de apenas 1. cana-de-açúcar e laranja. no primeiro trimestre.8 17.3 18.6 18.9% da expansão do PIB (Gráfico 5).0 17. as construtoras avançaram em lançamentos de imóveis novos.7 17. Evolução trimestral da taxa de investimento (em % do PIB) – 2010 a 2012 22 21 20 19 18 17 16 15 14 I/2010 II/2010 III/2010 IV/2010 I/2011 II/2011 III/2011 IV/ 2011 I/2012 II/2012 III/ 2012 IV/2012 a preços do ano anterior 19.0 18.0%. situou-se em 17.1 18.2 20.9 19.2 a preços de 2006 17.5 18. 182 a economia brasileira no contexto da crise global .5 18. finalizando o ano com queda de 2. patamar bem inferior à variação média observada no primeiro semestre de 2011 (4.5%. o que significou uma pequena melhora em relação ao resultado do terceiro trimestre (-3.7 17.5 17. IBGE.2 18. o mercado dá sinais de ajuste.9 18. depois de ter crescido 3. da em todos os trimestres de 2012.2 19.7%). A formação bruta de capital fixo. uma vez que os preços dos imóveis subiram exponencialmente e as empresas estão vendendo os estoques com descontos.6 18.4%. dadas a alta da oferta de crédito imobiliário e a demanda ascendente. em 2012.4 20. no acumulado nos quatro trimestres de 2012.4 Fonte.1%.5%).8 20.1 18. para o menor patamar registrado desde o primeiro trimestre de 2010: a preços correntes. especialmente nas safras de arroz. Nos últimos anos. que.5 18.9 18. no último trimestre de 2012. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. recuou para uma variação de 1.8 21. na média do primeiro semestre. para uma queda de Gráfico 6.3% em 2012 devido as adversidades climáticas. Contas Nacionais.4 18. saiu de uma variação positiva de 2. atingiu 17.4%.

e das propostas de PPP (Parceiras Público- Privadas).2% (Gráfico 4). Além disso. Segundo o IBGE. o BNDES cortou os juros de seu Programa de Sustentação do Investimento (PSI) – em alguns casos. 12.1% no quarto trimestre12.9% na construção civil (peso de 43%). Na comparação trimestral na margem. do IBGE.1% das imo- bilizações em máquinas e equipamentos (peso de 50%). Na tentativa de alterar essa tendência do investimento. e (iii) diminuição de 0. com normas técnicas mais eficientes (me- nor emissão de poluentes) para os motores a diesel. sobretudo em virtude dos incentivos do BNDES. desde a perda de ânimo dos empresários ante as incertezas da crise global e a desaceleração da demanda doméstica. Por fim. com expansão de 0.7% em outros investimentos (plantações permanentes. (ii) aumento de 1. o fraco investimento na economia brasileira no biênio 2011-2012 respondeu a um conjunto de fatores. A entrada em vigor. os gestores da política econômica adotaram uma política fiscal anticíclica. assim. alguns fatores extemporâneos causaram “ruídos” na série de formação bruta de capital fixo. a formação bruta de capital fixo foi “inflada” em 2011 e artificialmente diminuída ao longo de 2012. descontados os efeitos sazonais. Com resultado disso. a economia brasileira no contexto da crise global 183 . o resultado da formação bruta de capital fixo deveu-se a: (i) retração de 9. fez crescer entre 15% e 20% os preços dos ônibus e caminhões. A interrupção dessa trajetó- ria no final de 2012.4. nesse mesmo período. até o con- fuso cenário das concessões de serviços públicos.5% entre o terceiro e o quarto trimestres. lançadas pelo governo federal na área de infraestrutura econômica. as empresas passaram a pagar taxas negativas de juros – e o governo lançou o programa de compras go- vernamentais. para privilegiar a produção nacional com garantia de margens de lucro. ampliando as condições de depreciação acelerada da compra de bens de capital e restringindo o benefício ao ano de 2012. em função da retração das vendas de ônibus e caminhões. notam-se quatro trimestres consecutivos de redução da formação bruta de capital fixo desde o último trimestre de 2011. peso de 7%). em janeiro de 2012. do padrão Euro 5. De fato. trajetória que já se reverteu em 2013. fechando o ano de 2012 com expansão de 3. Segundo o IBGE. dentre outros. mas não significa que o ciclo de baixa do investimento já tenha sido revertido (Tabela 1 do Anexo Estatístico). sinaliza que a letargia pode ter sido rompida. o consumo do governo mostrou trajetória ascendente. especialmente com as mudanças ocorridas no setor de energia elétrica. antecipando. por meio de programas para aquisição desses bens de capital. o pacote de concessões no setor de transportes e de aumento da capacidade de endividamento de 21 estados deve potencialmente elevar os investimentos em infraestrutura. para o segundo semestre de 2011 a produção e a aquisição desses ativos de capital. gado. Nessa linha.

p para -5. A novidade foi a am- pliação do leque de instrumentos utilizados para frear o processo de valorização do real e manter uma taxa de câmbio que. nos úl- timos anos. além disso. e que a indústria regrediu na mesma base de comparação.p. Nota-se. o retorno da valoriza- ção pode atrapalhar as decisões de investimento. caso o movimento se aprofunde e se transforme em uma tendência de política econômica. a se valorizar (+3.4 p. de -4. pois a reversão. Em sentido oposto.9 p. Concomitantemente a essas medidas. A comparação dos componentes da oferta e da demanda entre o trimestre imediatamente anterior à crise global de 2008 (terceiro trimestre daquele ano) e os trimestres de 2012 indicam que o PIB está. pelo menos. hoje. Apesar da menor volatilidade da taxa de câmbio atual. no início de março de 2013.p. por meio do aumento do recolhimento de compulsório sobre as posições vendi- das dos bancos no mercado à vista e da elevação do IOF sobre as operações com derivativos cambiais.3 p. que a situação na indústria de transformação piorou entre o primeiro e o quarto tri- mestres de 2012. de estratégias empresariais para estruturar fornecedores no exterior e/ ou apenas montar bens finais no território nacional com peças importadas – tanto para substituir a produção local dos bens comercializáveis e. as autoridades na área econômica avan- çaram uma política cambial proativa com o objetivo de reverter as expectativas diante da perda de competitividade da economia brasileira. a taxa de câmbio do real voltou.6%). assim. em relação aos dados de dezembro de 2012.06 (média do período) no quarto trimestre de 2012 (desvalorização de 16. Fica claro que as medidas para recompor a competitividade da indústria brasileira ainda não surtiram efeito. com ampliação da queda. Nesse contexto. aci- ma do nível verificado antes da eclosão da crise. a influência desse preço-chave na estrutura de custos e nas decisões de investimento na economia depende do grau de confiança dos agentes econômicos em manterem essa tendência daqui para a frente. 184 a economia brasileira no contexto da crise global .4% em relação à média de 2011). Todavia. A síntese do padrão atual de crescimento da economia brasileira pode ser vi- sualizada no Gráfico 7. o real se desvalorizou e a taxa de câmbio (R$/US$) deslizou para R$ 2. em relação ao terceiro trimestre de 2008. melhorar a rentabilidade das exportações. como para competir no mercado doméstico – não acontece de uma hora para a outra e demanda uma taxa de câmbio mais compe- titiva e políticas setoriais bem definidas e abrangentes. recompusesse parte da rentabilidade das exportações. Medidas de regulação financeira prudencial passa- ram a atuar no sentido de reduzir o apetite dos investidores em relação ao Brasil. 9.

9 p.4 .3 .0.9 9. acima do inves- timento observado no período imediatamente antes da crise global.9 4.6 p.7 p.0 35. como já foi pontuado. acima do verificado no terceiro tri- mestre de 2008. 11. acima do observado no terceiro trimestre de 2008. Essas perdas podem ser observadas pela discrepância entre o patamar das importações e das expor- tações de bens e serviços entre o terceiro trimestre de 2008 e o ano de 2012. O consumo do governo destacou-se pela trajetória de expansão ao longo de 2012.0 FBKF PIB Serviços Indústria Comércio Exportações Agropecuária Importações Transformação Extrativa Mineral Consumo das Famílias Consumo do Governo I/2012 II/2012 III/ 2012 IV/2012 Fonte: Contas Nacionais.8 35. está 19.2 9.9 -10. no final de 2012.0 0. nota-se expressivo aumento do seu grau de penetração na estrutura produtiva do país.1 5.8 p.7 20.0 3.0 19. Com relação às importações de bens e serviços.0 11.p.p. Do lado das exportações.4. hoje. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. elevando-se para 5. que também se situ- aram em nível superior ao verificado em 2008 (respectivamente. Diferença entre o patamar dos índices (com ajuste sazonal) do terceiro trimestre de 2008 e os trimestres de 2012 (em pontos percentuais) 40.5.7 5. Já a formação de capital fixo perdeu dinamismo ao longo do ano e terminou o quarto trimestre de 2012 com um patamar de apenas 6.p.p.1 . cujo patamar. IBGE.3 15.p e 10.6 9.0 . A posição do setor externo mostra que parcela considerável do acréscimo da demanda doméstica continuou “vazando” para o exterior em 2012 e que houve expressiva redução da competitividade da produção nacional. acima do observado no período pré-crise de 2008 (terceiro trimestre).6 10. no quarto trimestre de 2012.0 8.0 16.9 p.p.6 6.8 p. período no qual o real se depreciou.0 .1 2.1 p.p). Essa expansão impulsionou o setor de serviços e o comércio.3 9. situando-se em um nível 11.8 11. Gráfico 7.0 25. Apesar de a desvalorização ter melhorado o faturamento e a lucrati- a economia brasileira no contexto da crise global 185 .p.5 10.3 34.5.0 30. acima na mesma base de comparação.2. a situação é outra: o seu nível se situou apenas 1. e o seu patamar está.0 8.5 10. A fonte de dinamismo da economia brasileira é o consumo das famílias.1 10.2 p. 34.

0 0. da taxa básica de juros (Selic) e o papel ativo dos bancos públicos na oferta de crédito com prazos e juros em melhores condições con- 186 a economia brasileira no contexto da crise global . a posição da economia brasileira é preocupante. Japão e Austrália).0 -4. vidade das empresas exportadoras. a redução.0 6. embora tardia. O Gráfico 8 mostra a variação anual do PIB de um importante conjunto de países avançados e emergentes. as medidas tomadas pela política econômica para incentivar o consumo.0 -6. o baixo crescimento das economias avançadas e a desaceleração das economias emergentes ainda estão inibindo a retomada do quantum das exportações brasileiras.0 -2. baixo investimento e desaceleração nas exportações – está afetando a economia brasileira é comparar o seu desempenho recente no cenário mundial. estão em recessão.0 8. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Gráfico 8.0 2.0 10.0 2012 2011 Fonte: Bloomberg. na sua maioria. EUA. uma vez que o seu desempenho só foi superior ao de países da zona do euro que.0 4.0 12. com algumas exceções (México. Percebe-se um movimen- to geral de desaceleração entre 2011 e 2012. Considerações finais O olhar pelo retrovisor evidencia que a economia brasileira conseguiu pas- sar relativamente bem pela primeira fase da crise econômica global do final de 2008. Outro modo de ver como esse perfil – centrado no consumo doméstico e com maior participação das importações. Todavia. Variação percentual interanual do PIB de um conjunto de países avançados e emergentes – 2011 e 2012 China Indonesia Chile Índia México Rússia Austrália Turquia África do Sul EUA Coreia do Sul Japão Canada Brasil Alemanha Inglaterra França Zona do Euro Espanha Itália Portugal Grécia -8.

dado o baixo pa- tamar de imobilização em ativos produtivos e a falta de investimento em infraes- trutura econômica. o consumo doméstico e o investimento produtivo. que privilegia a despesa corrente e não conse- gue destravar a modernização da infraestrutura. gerou questionamentos sobre a sustentabilidade desse padrão de crescimento centrado exclusivamente no consumo doméstico. isso não quer dizer que o país esteja passando por um esgotamento estrutural do modelo centrado no consumo.seguiram ativar. cada vez mais em linha com o respeito ao meio ambiente. espe- cificamente uma desaceleração mais acentuada do investimento produtivo em relação ao consumo das famílias. porém. especialmente às grandes multinacionais americanas e europeias. com o surgimento dos problemas das dívidas soberanas de um conjunto de país da zona do euro. que atuam hoje em dia nas economias em desenvolvimento. Parcela considerável dessas empresas. e vendem commodities e matérias-primas a preços elevados. na passagem do primeiro para o segundo semestre de 2011. até meados de 2010. A questão importante a ser discutida é: qual inserção na economia global o Brasil pretende ter nos próximos anos? Para responder essa indagação é preciso ter claro o que está acontecendo hoje na economia mundial. a situação se inverteu. A eclosão da segunda fase da crise mundial. Além disso. Até então. no biênio 2011/2012. reflexo do processo de in- a economia brasileira no contexto da crise global 187 . Todavia. para alcançar padrões de expansão e crescimento mais sustentáveis. tem sede nas economias centrais. De fato. Agora. O contínuo “vazamento” da demanda doméstica para o exterior. há um grau de verdade nessa análise: notam-se deficiências na composição do gasto público. e economias em desenvolvimento e aquelas mais atrasadas adquirem e produzem bens manufaturados a preços rela- tivamente reduzidos. especialmente a da indústria aqui instalada. O principal argumento levantado é que nos últimos anos o potencial de expansão do Brasil diminuiu. combinado com o ciclo de baixa do investimento produtivo. O Brasil dependerá da contribuição do consumo das famílias. os países desenvolvidos compravam matérias-primas a preços baratos e colocavam no mercado produtos manufaturados a preços que geravam elevada margem de lucro. há uma alteração estrutural em andamento com a ascensão da China e de países do leste asiático. esses dois componentes da demanda agregada cresceram após a crise global de 2008 e estão em patamares superiores quando comparados aos do início dos anos 2000. o fraco crescimento dos últimos anos caracteriza-se por ser uma fase de baixa do ciclo econômico. De certo modo. atingiu a economia brasileira em um período difícil em que fatores internos agiam minando a competitividade.

e (v) lançou em 2013 (março) um novo sistema de incentivo à inovação (Inova-Empresa). o governo federal abriu várias frentes de ação. que se deslocaram para essas regiões devido às melhores condições locais de competitividade. o país permanece à margem dos centros mais avançados de produção tecnológica voltada aos setores industrial e de serviços (devido a fatores como o elevado custo Brasil. o Brasil – país heterogêneo com um grande merca- do interno consumidor de bens e serviços e que mistura. consequente- mente. tanto na capacidade do mercado interno de manter o seu dinamismo. Mais grave. nos seus aspectos micro e macro. Obtém vantagens na balança comercial de produtos básicos. é importante ver se a política econômica. de outro. O resultado obtido até agora. produção mineral e agronegócio de alta produtividade – sofre efeitos contraditórios. para forçar o rebaixamento dos spreads bancários. que já implicaram mudanças em áreas sensíveis para o desenvolvimento do país. indústria. do custo das empresas. após a saída exitosa da crise global de 2008. no entanto. mas sofre as consequências do processo de valorização do real. o menor grau de capacitação dos recursos humanos e a descontinuidade e pouco foco das políticas industriais). está atuando no sentido de trilhar um caminho de recuperação da confiança dos empresários. na sua estrutura produti- va. tais como: (i) impôs um novo modelo do setor elétrico. que solapa a competitividade da indústria brasileira e estimula o consumo doméstico de bens importados. medido pelo enorme esforço que o governo vem fazendo para estimular a econo- mia e para aumentar a sua competitividade. que procura baixar o preço da energia e. (iii) promoveu a competição no sistema financeiro via bancos públicos. Diante desse novo padrão. ferrovias e aeropor- tos). A forte desaceleração do ritmo de crescimento é um dos reflexos desse processo. ternacionalização das grandes corporações. o biênio 2011- 2012 pode ser caracterizado como uma etapa de “transição inacabada”. indica que o processo está no começo e dependerá. do desenlace da crise da zona do euro e das suas consequências. o que reduz a vulnerabilidade externa via fluxo de exportações de commodities. (ii) mudou o discurso e aprofundou a proposta de um sistema de concessões no setor de transporte (rodovias. em última instância. Diante desse quadro de grande complexidade. que premia componentes fabricados no Brasil (Inovar-Auto). Nesse sentido. como na recuperação dos mer- cados externos de bens de maior valor agregado. com recursos da ordem de R$ 32 bilhões e duração 188 a economia brasileira no contexto da crise global . (iv) implementou um novo sistema de incentivos no setor automobilístico. Transição por quê? De um lado. o Banco Central oscilou e mudou a forma de conduzir a política econômica. embora ainda no âmbito do sistema de metas de inflação.

fato que implicaria rebatimentos na inflação doméstica (cuja intensidade dependerá da evolução dos preços das commodities). manter metas de superávit primário elevados. Mas por que transição inacabada? Essas alterações representam uma guinada de 180º sem que o governo federal tivesse definido como esses novos elementos institucionais/operacionais se articulam em um projeto maior de desenvolvimen- to no médio e longo prazos. Os autores avaliam que o ajuste fiscal em nada ajudou a reduzir o processo inflacionário em 2011 e. etanol. está na coordenação das políticas monetária. A sua fraqueza está na falta de articulação entre as atuais medidas do governo federal para enfrentar os problemas estruturais do país e a construção de um projeto de desenvolvimento nacional. mas manteve a política fiscal apertada com a hipótese de que a queda da taxa básica de juros depende da manutenção de um superávit primário elevado. defesa e aeroespacial. 13. ancorada no eleva- do nível de reservas internacionais e na menor dívida externa. hoje. nos últimos anos. A força da política econômica para contra-arrestar esse cenário mais adverso. Há uma análise crítica sobre o papel da política fiscal. O canal que pode se manifestar com mais intensidade com o agrava- mento da crise será a retração da demanda externa. integrando os mecanismos já existentes para simplificar o acesso à inovação e descentralizar a demanda das pequenas empresas. Argumenta-se que diante da desaceleração da economia. A despeito da menor vulnerabilidade externa do país. em 2011. que realmente dê segurança para as empresas. a economia brasileira no contexto da crise global 189 . iniciarem um novo e mais longo ciclo de investimento. caso ele se confirme. uma deterioração mais expressiva do cenário internacional pode reverter a perspectiva de crescimen- to econômico sustentado na gestão mais flexível do sistema de metas de inflação. em razão da quebra de confiança dos agentes nos parâmetros que guiam suas decisões. cambial e fis- cal. Porém. energias reno- váveis. não é possível descar- tar pressões adicionais sobre a taxa de câmbio. por meio de editais por setores (petróleo e gás. especialmente as industriais. e tecnologia da informação e comunicações). desvalorização cambial e política fiscal anticíclica sem comprometimento da meta fiscal) não impactou positivamente o investimento privado e proporcio- nou queda do investimento público. O artigo também faz uma avaliação crítica dos argumentos a favor do ajuste fiscal permanente nas suas versões de fluxos e de estoques. saúde.de dois anos. o mix de política econômica (manutenção do afrouxamento monetário. levando-se em conta que o contexto mundial conti- nuará muito difícil e muito competitivo nos próximos anos. dentre outras medidas. Essa postura do governo federal de manter as metas fiscais apertadas mesmo no cenário de baixo dina- mismo é discutida no artigo de Serrano e Summa (2012). mesmo em períodos de forte retração da atividade econômica13. apesar do fato de a diretriz fiscal ter sido. o governo flexibilizou a política monetária. posteriormente ao longo de 2012.

Somente a partir do último trimestre de 2012 e início de 2013. o regime de taxa de juros mais baixa e moeda doméstica desvalorizada em relação ao padrão anterior ainda não está totalmente consolidado e os seus impactos na atividade econômica ainda não apareceram de forma consistente. de outro. Luis Fernando. M. Um fator de risco é a reação da indústria nacional e os efeitos concretos das medidas governamentais de combate à perda de competitividade. F. os quais. dentre ou- tras iniciativas. P. Cabe salientar que está em curso uma mudança de concepção sobre a ges- tão da política econômica.. estratégia explicitada com mais ênfase pelas autoridades econômicas no final de 2012. embora na direção correta. NOVAIS. um modelo diferente de atuação do governo. novas concessões em áreas estratégicas (aeroportos). a distribuição da renda na economia. FREITAS. assim. Do ponto de vista da política econômica.. In: BIASOTO JR. pacote de investimentos em infraestrutura.. NOVAIS. as empresas necessitam redu- zir os custos de produção e elevar as margens de lucro. 190 a economia brasileira no contexto da crise global . são até agora pontuais. A consolidação desse modelo e a efetivação dos investimentos necessários à infraestrutura serão cruciais na construção de novas bases para o desenvolvimento do país. a fim de reativarem planos mais ousados de investimento e. sem um arranjo mais estrutu- rante de longo prazo. Júlio Sergio G. assumirem riscos no campo da inovação. JACOB. De um lado. Percebe-se também que nas fases de baixa do ciclo econômico há uma tendência a utilizar a política fiscal para estimular a demanda agregada (consumo e investimento) e a manter os programas sociais de transferência de renda. trabalhadores tentam elevar os salários nominais para compensar a perda de poder aquisitivo com a desvalorização do real e. L. Cláudio.. por exemplo. com mecanismos mais abrangentes de ajuste nos preços-chave (juros e câmbio). sem o que o Brasil dificilmente entrará no rol dos países difusores de conhecimento e protagonistas da dinâmica econômica global. O de- sempenho econômico-financeiro das companhias abertas entre 2002-2007 e no ano de 2008. Sem dizer que tal mudança gera ganhos e perdas entre os agentes econômicos e afeta. Referências ALMEIDA. G. assim. Há clara vontade política de cortar custos no sistema econômico com o objetivo de dotar o país de maior competitividade por meio de: menores juros e spreads bancários. queda nos preços de energia elétrica. notam-se indicadores que sinalizaram a retomada do nível de atividade. C.

Acesso em: 14 agosto 2013. com/2012/08/desacelerac3a7c3a3o_rudimentar__brasil_summa_serra- no_2012_28_0-8_2012.pdf >. Disponível em: < http://franklinserrano. 172-197 SERRANO.files. versão preliminar. SUMMA. p. Ricardo.). Franklin.wordpress. (Org. a economia brasileira no contexto da crise global 191 . 2009. Panorama das economias internacional e brasileira: dinâmica e impactos da crise global. São Paulo: Fundap. A desaceleração rudimentar da eco- nomia brasileira desde 2011. (Texto para Discussão do IE/UFRJ). 2012.

9 -3. água 2.1 0.2 0.0 1.4 1.7 Inter.2 12.0 0.4 4.1 -7.6 1.1 8.0 1.5 1.8 -1.3 0.6 0.5 0.9 0.0 -9. previdência 1.2 -1.6 1.8 -1.0 1.5 0.9 3.1 5.9 0.5 0.0 0.0 1.0 2.8 1.4 0.2 -2.5 -15.3 4. armaz.0 2.8 -1.6 -7.1 0.5 1.0 Outros serviços 0.9 0.2 -2.9 3.0 0.1 -5.9 1.1 -1.7 1. Finan.3 0.5 -5.6 0.1 0.4 0.4 0.8 0.8 -0.5 1.0 4.9 1.1 2.4 0.4 -0.6 2.8 -0.9 3.8 3.8 3.2 -0.6 0.6 0.7 0.3 0.8 Formação Bruta de Capital Fixo 4.3 0.5 1.1 -0.7 -10.8 1.5 2.7 1.9 1.1 3.2 1.8 -0.9 8.9 1.8 9.1 4.3 4.7 1.3 -12.1 1.7 1.9 0.6 0.3 Transporte.4 1.7 0.4 1.5 -0.9 0.0 -0.3 3.1 -0.5 0.5 -1..0 -1.3 3.0 -0.4 -0.5 1.4 2.3 3.2 0.8 -0.7 1.0 0.2 Indústria 2.7 -3.4 0.8 -0.5 -0.1 0.4 DEMANDA Consumo das Famílias 1.7 4.2 -5.3 1.0 0.5 3.9 0.7 1.1 9.5 Construção civil 3.0 -1.6 -2. PIB .1 0.1 4.7 -0.6 -2.6 0.7 2.7 -0.7 1.5 6.5 2.9 -1.7 -2.3 2.4 -5.1 0.1 2.1 -0.7 0.6 3.9 7.0 0.3 0.7 -10.5 -0.8 0.0 1.7 3.0 -4.3 -2.5 2.3 0.9 1.4 1.7 -1.BRASIL: Variação em relação aos dados do trimestre imediatamente anterior (com ajuste sazonal) PERÍODO 3T/08 4T/08 1T/09 2T/09 3T/09 4T/09 1T/10 2T/10 3T/10 4T/10 1T/11 2T/11 3T/11 4T/11 1T/12 2T/12 3T/12 4T/12 PIB (Preços de Mercado) 1.9 0.6 0.4 0.1 Comércio 2.4 0.5 8.9 0.0 0.4 0.0 2.2 1. e dist.3 0.2 0.9 5.3 1. IBGE.4 2.3 0.4 1.8 1.4 0.6 -5.4 1.4 0.6 OFERTA Agropecuária 2.9 0.1 0.5 0.8 -8.0 1.4 0.9 2.7 0.6 1.1 0.7 2.4 0.3 4.4 0. saúde e educação públicas 0.1 1.6 1.0 1.5 -3.1 0.4 1.6 2. e correio 0.8 1.2 0.1 0.7 0.8 -0.0 -4.1 0.5 3.7 1.9 4.5 Importações 3.1 Serviços de informação 2.8 -0.8 0.1 -0.6 -0.3 2.4 Transformação 1.9 -1.6 0.8 Atividades imobiliárias e aluguéis 0.6 1.9 0.2 -0. .3 4.0 3.9 0.4 0.9 0.7 -0.3 -0.3 -1.3 1.8 0.5 0.1 1.1 0. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.2 Consumo do Governo 3.1 2.6 0.8 1.3 5.4 1.3 -7. eletr.5 Prod.7 -0.4 0.8 0.7 4.1 6.6 0.2 0.5 1.0 1.1 1.4 1.5 0.0 1.4 Extrativa mineral 0.5 0.4 0.4 -0.8 -3.3 1.0 -6.7 -1.4 -3.9 11.1 a economia brasileira no contexto da crise global Anexo estatístico Fonte: Contas Nacionais.7 -2.9 1.7 -7.9 0.7 1.3 0.8 4.1 0.7 3.7 0.6 1.6 1.1 1.192 Tabela 1A.7 2.4 0.8 8.7 0.9 0.8 -1.2 0.9 0.6 0.3 -4.9 0.2 1.1 0.6 -0.2 -2.7 -0.9 -0.7 1.5 0.2 0.2 0.6 5.8 Serviços 1.6 0.4 0.3 -0. gás.5 -1.8 4.5 0.5 1.6 1.8 -8.7 0.8 2.4 Adm.3 2.5 Exportações -0.0 0.6 1.3 1.8 0..4 0.3 4.2 1.1 0. seguros.2 -7.5 -4.2 0.4 -0.7 1.2 0.2 0.1 -1.2 0.1 1.9 1.2 1.9 2.5 2.5 -0.6 1.

Esse raciocínio pode ser válido para algumas economias avançadas. diferencian- a economia brasileira no contexto da crise global 193 . na qual o setor de serviços possa vir a assu- mir a dianteira do crescimento econômico. O relatório da Unctad (UNITED NATIONS. no contexto em que os avanços da produtividade da indústria se espalhem pelos demais segmentos. disseminam progresso técnico e proporcionam novos padrões de consumo. os Estados Unidos e o Reino Unido. o papel da indústria tenderia naturalmente a diminuir. 1. Uma ideia em voga hoje é que há “natural” evolução da estrutura produtiva em países com renda em ascensão. Países populosos que alcançaram níveis superiores de renda per capita passaram inequivocamente pela industriali- zação e ainda mantêm importante participação da indústria em suas economias. que ainda não atingiram o patamar de renda per capita dos países avançados1.. ao serem suplantados estágios no processo de desenvolvimento econômico. como.. Assim. CAPÍTULO 6 Indústria e Política Industrial no Contexto Pós-crise Júlio Sergio Gomes de Almeida Luis Fernando Novais O papel da indústria no desenvolvimento: o peso do setor industrial brasileiro na economia global Vários estudos sobre o papel da indústria no desenvolvimento econômico já demonstraram com clareza que o setor tem a capacidade de multiplicar empregos de qualidade e apresenta rendimento médio maior do que o de outros setores. por exemplo. mas não é válido para o Brasil nem para muitos países emergentes. 2002) discute a inserção dos países em desenvolvimento no comércio mundial e traça comparações com o processo de industrialização entre os países. Os encadeamentos gerados a partir das decisões de criar novos produtos industriais e métodos produtivos estimulam serviços modernos..

0 ALEMANHA FILIPINAS -8.00 3.0 COREIA DO SUL 24. O National Accounts Main Aggregates Database da ONU homogeneizou os dados do PIB e do valor adicionado setorial de um abrangente número de países.0 16.asp?docid=1966&in tItemID=2510&lang=1&mode=highlights > 2. e a variação (em pontos percentuais) do peso do VA da indústria de transformação no total do valor adicionado nesse período (eixo do y) para uma amostra de 31 importantes países avançados e emergentes com boa representati- vidade.0 INDONÉSIA VARIAÇÃO DA PROPORÇÃO DO VA DA INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO NO TOTAL DO VA 22.0 CHILE REINO UNIDO -10.00 10.0 CANADA PERU PORTUGAL ARGENTINA BRASIL -6.0 IRLANDA CHINA 20. o setor industrial se transformou na principal força motriz do crescimento econômico para a superação do subdesenvolvimento.00 7.00 8.00 9.00 5. entre 1970 e 2011 (eixo do x).. da ONU.0 TURQUIA 8.00 4. Esses estudos foram reunidos na publicação Contribuições para uma agenda de desenvolvimento do Brasil (INSTITUTO DE ESTUDOS. nesse lon- go período de avanço da globalização. da América Latina e da Ásia2.00 6.0 -12..0 26.0 AUSTRÁLIA -14.00 CRESCIMENTO MÉDIO ANUAL DO VA DA INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO ENTRE 1970 E 2011 Fonte: National Accounts Main Aggregates Database.00 1.0 28.0 VENEZUELA EUA ÁFRICA DO SUL -2. Nota: Dados em US$ a preços constantes de 2005. Disponível em: < http://archive. De fato.0 6.00 2. Este capítulo utilizou como base de referência um conjunto de estudos do Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Iedi) voltados a uma agenda para o desenvolvimento brasileiro.0 POLÔNIA MALÁSIA (1970 X 2011). Ver: < http://retaguarda. a indústria se constituiu como a principal alavanca para o desenvolvi- mento em diversos países nas últimas quatro décadas. 2012).00 11. as informações da série histórica chegam até 2011 e estão em dólares (US$) constantes de 2005.pdf > 194 a economia brasileira no contexto da crise global .0 10.0 GRÉCIA FRANÇA ESPANHA COLÔMBIA -4. Na última atualização.0 0. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.unctad.0 18. Crescimento industrial e peso da indústria de transformação no valor adicionado total – 1970 a 2011 30.0 JAPÃO MUNDO ITÁLIA MÉXICO 0.iedi.org/Templates/webflyer..0 -16.0 TAILÂNDIA 12. Gráfico 1. O Gráfico 1 combina o crescimento médio anual do valor adicionado (VA) da indústria de transformação.0 SINGAPURA 4.org.br/midias/artigos/5088640611078c37. Fica evidente que. EM PONTOS PERCENTUAIS 14.0 EQUADOR ÍNDIA 2. do mercados mais nobres (manufaturas de maior valor agregado) em relação à produção e às exportações de produtos básicos.

(Gráfico 1). Por exemplo. mas com menor ganho em termos de participação da in- dústria de transformação no VA total: na faixa de 4 a 5 p. são produtos industriais na medida em que são construídos em linhas de produção com insumos tipicamente da indústria. e o VA da indústria aumentou 20. Na média mundial. à concorrência intercapitalista no contexto da globalização e às políticas nacionais de desenvolvimento. e de 15 p. O crescimento de 3. Mesmo nesses casos.1% ao ano do valor adicionado da indústria mundial nesse período e a manutenção de sua participação na agregação global de valor desabilitam a visão de que o setor já não tem capacidade de alavancar o crescimento mundial. e expressivas altas do peso da indústria de transformação na economia nacional. na Turquia.p.p. em 2011.9%.9 p.3%. O fato de alguns países terem diminuído o peso da indústria em sua estru- tura produtiva relaciona-se mais às condições macroeconômicas específicas. esse ganho foi um pouco menor: 14 p.p. A participação do VA da indústria no total do valor adicionado desses países superou. A partir dos anos 1970. para 17. como iPhones e iPads. Na Malásia.p. passando de 16. essa diminuição não significa necessa- riamente perda do caráter indutor da indústria. China. Observou-se uma tendência de deslocamento da atividade industrial para os países em desenvolvimento (PED). entre 1970 e 2011. entre 1970 e 2011. Esse movimento global refletiu uma profunda reestruturação da indústria mun- dial. na Índia e Cingapura. o valor adicionado da indústria de transformação no total da economia permaneceu praticamente constante.p.p. Há um subconjunto de países que também apresentou expansão anual média elevada (superior a 5%). A análise dos dados permite observar que não houve diminuição da participa- ção da indústria de transformação na geração global de valor adicionado. Indonésia. mas só ganham valor agregado quando associados a modernos softwares de gerencia- mento de informação e conexões de internet. o cenário foi de acirramento da concorrência intra e intercapitalista. Coreia do Sul e Malásia obtiveram taxas de crescimento anual do VA industrial superiores a 8%. em 2011 (a preços constantes em US$ de 2005) (Tabela 1A do Anexo ao final do arti- go). de maior instabilidade macroeconômica (com liberação crescente dos fluxos de comércio e de capital) e de menores taxas de crescimento nas economias maduras. de 8 p. em 1970. Ao contrário. o patamar de 1970 em mais de 20 p. na Polônia. na estrutura produtiva do país. a economia brasileira no contexto da crise global 195 . A Irlanda obteve crescimento médio anual de 6. a relação entre a indústria de ponta. resultante das estratégias de internacionalização das cadeias produtivas e de valores das grandes multinacionais.6%. e o setor de serviços mais sofisticado se acentuou nos últimos anos. os produtos da Apple. especialmente a do segmento de eletroeletrônica.

dado o grau de maturidade dessas economias. 4. particularmente a China. praticamente a mesma participação do setor industrial no VA total. A maior participação do complexo eletrônico na indústria global espelhou esse movimento ao longo do período. a colocação do Brasil caiu para a 17º posição. em relação ao peso do VA da indústria. o país apresen- tou situação de maior perda. Em 1970. Outro aspecto a ser considerado é a busca constante por ativos intangíveis e novos paradigmas tecnológicos que permitam ganhos monopolísticos às grandes corporações. a evolução da Alemanha. O desempenho do Brasil foi superior ao de todos os países desenvolvidos da amostra (EUA. especialmente em relação aos EUA. Reino Unido. Itália. 2010)3. há um subconjunto que se situou no quadrante inferior esquerdo do Gráfico 1: trata-se dos países com crescimento médio anual do VA industrial abaixo de 5%. Os demais países da amostra (Argentina.13%) caindo para o 11º lugar em 2010 (20. Na comparação com os países da América Latina (Equador. entre 1970 e 2011. Japão e Espanha) no que- sito ritmo de crescimento.p. Da amostra de países aqui levantados. Colômbia e o México).5% do total do valor adicionado no país. A China saiu da 22º colocação em 1970.5 p. ou seja. Peru. que mantiveram. a indústria de transformação brasileira respondia por 22. 196 a economia brasileira no contexto da crise global .3%) um pouco superior à média mundial e com redução do peso da indústria de transformação no cômpu- to da distribuição do VA total apurado. Cabe destacar. esse percen- tual baixou para 16%. também. 6. entre 1970 e 2011. Porém. o Brasil ocupava a quinta colocação dentre os 31 países da amostra. na mesma base de comparação. a menos4. Alemanha. Austrália. e com manuten- ção ou perda de participação da indústria na agregação de valor na economia. nota-se que os indicadores se situaram em nível superior ao do Brasil nas duas dimensões (crescimento médio anual e variação da participação do VA industrial no total). O Brasil se inseriu nesse grupo com crescimento anual (3. coordenado pelos Institutos de Economia da UFRJ e da Unicamp. Venezuela. A publicação traz os resultados do projeto PIB (Perspectivas do Investimento no Brasil). Chile. Para uma discussão mais detalhada sobre o processo – causas e consequências – de internacionalização das grandes corporações mundiais. em 2011. apesar de o país ainda ter baixa renda per capita. o que era de se esperar. A Tabela 1 do Apêndice traz o ranking de maiores participações do VA da indústria de transformação sobre o VA total. Na média. Nesse contexto. França. que ocupava a primeira posição em 1970 (com 29. Portugal e Grécia) apresentaram ritmo de expan- são inferior ao do Brasil entre 1970 e 2011. em 2011. como líder regional da produção fabril (SARTI e HIRATUKA. ver: Sarti e Hiratuka (2010). para o 1º lugar em 2011. no período 1970-1980. Itália e Japão.78%). mas somente os VAs das indústrias 3. África do Sul. despontaram as economias asiáticas.

Sua representatividade no valor adicionado da indústria de transformação mundial.98 1.35 1.26 2. Indústria Valor Transportes.28 2.82 1.84 2. Esses países trilharam um caminho de transformação da estrutu- ra produtiva.38 2. como.50 2009 1.37 2.9 p.20 1.17 1.16 1.76 1. que chegou a atingir 2. a indústria brasileira vem perdendo peso relativo.80 2. caiu para 1..89 2.90 2. China.81 3.14 2. No âmbito mundial – ou seja. resultantes dos investimentos em pesquisa e desenvolvi- a economia brasileira no contexto da crise global 197 .73 2. cuja dinâmica incorporou a elevação da produtividade e a construção de setores inten- sivos em capital e tecnologia (INSTITUTO DE ESTUDOS. 2013).25 Média 1980-89 1.57 1.09 1. Malásia e Tailândia).80 1.82 1.66 2.90 1.87 3.83 1.17 2. Inicialmente regiões exportadoras centradas em recursos naturais.43%.81 1..59 2.98% na média da década de 1970 para 3. Divisão de Estatística das Nações Unidas.43 2.53 2. por períodos) – 1970 a 2011 Agropecuária.52 Média 1990-99 1.02 2.93 1.chilena e australiana perderam mais peso na estrutura produtiva (-7.50 Média 2000-10 1.04% em 2011.18 2.92 2. em meados da década de 1980.48 2008 1.56 2010 1.10 1. passaram então a ter na manufatura diversificada a base das suas economias. extrativas e Transformação Civil Total e Comunicação NEA Pesca Siup) Média 1970-79 1.47 1. Tabela 1.85 2.8 p.77 2.34 2.78 1. da ONU. por exemplo. O aumento da área plantada e a espetacular elevação da produ- tividade da agricultura.p.90 1.59 Fonte: National Accounts Main Aggregates Database.03 1. Participação do Brasil no valor adicionado mundial (total e por setor de atividade.70 1. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.40 2. considerada a participação do VA industrial no agregado global dos países acompanhados pela estatística da ONU –.90 2. Nota: Dados em US$ a preços constantes de 2005.78 1.07 1.16 1.04 1..57 2.57 2011 1. em 2011 (Tabela 1).31 1.43 1.49 1.70%. A indústria brasileira não acompanhou o desenvolvimento observado em vá- rios países. e -11.89 3. na comparação com o resultado obtido pela indústria de transformação brasileira.p.26 1. Coreia do Sul e Cingapura e os NICs (países recentemente industrializados) da segunda geração (Indonésia. Outros Produção (inclui Indústria de Construção Adicionado Serviços Armazenamento Serviços Florestal. O único setor no Brasil que ampliou consistentemente sua participação no VA setorial global foi a agropecuária – de 1. respectivamente).

observou-se também a alta contínua das importações substitutas da produção nacional. Existem também situações que indicam problemas setoriais graves na indús- tria brasileira. especialmente no caso da soja e do complexo sucroalcooleiro. uma reprimarização da pauta exportadora. o aço que está presente em 198 a economia brasileira no contexto da crise global . na me- dida em que o peso e a diversidade das exportações de bens manufaturados de maior valor agregado diminuíram de importância e as vendas externas de produtos primários cresceram sobremaneira. o agronegócio exportador prosperou. ela conserva uma estrutura di- versificada. a indústria nacional ainda mantém expressão em nível mundial. que também contou com crescimento das exportações de manufaturados. Embora a queda da indústria de transformação brasileira no VA mundial e a redução de sua participação no PIB do país constituam sintomas de enfraqueci- mento e empobrecimento da industrialização brasileira (ou de desindustrialização relativa). mesmo fragilizada e perdendo oportunidades. e se faz presente no “mapa industrial mundial”. que supre o dinâmico mercado doméstico. queda do investimento. Percebe-se. reduzir a vulnerabilidade externa. hoje. o que afeta as exportações brasileiras. (ii) o setor siderúrgico passa atualmente por dois constrangimen- tos: de um lado. as empresas convivem com a chamada importação implícita de aço. com fases de baixa confiança. o que impôs à indústria brasileira um processo de desadensamento das cadeias produtivas. de acumular reservas internacionais e. no Brasil. o que debilita a inserção do país nas cadeias produtivas de maior valor agregado na fase atual de globaliza- ção produtiva. de outro. que disponibilizaram novas tecnologias de produção. os exemplos são a Ambev e a JBS. claramente nos períodos de impulso do mercado doméstico no Plano Real (em 1994) e no ciclo expansivo pós 2003. players mundiais). como é o caso do setor automobi- lístico e da indústria de alimentos (neste setor. retração das exportações e perda de competitividade como a observada na crise global em 2009 e no biênio 2011-2012. mento ao longo do período. A indústria brasileira alternou períodos de expansão significativa. No Brasil. Podem-se destacar três casos: (i) importantes setores do complexo eletroeletrônico e as suas cadeias intrassetoriais nunca tiveram papel relevante na industrialização e no posterior desenvolvimento do país. determinaram o ganho de peso no agronegócio brasileiro no valor adicionado mundial. dotando o país de importan- te capacidade de gerar recursos em moeda estrangeira. Ao lado desse movimento. e. Ou seja. assim. sendo destino de investimento direto estrangeiro (IDE) e plataforma de produção de produtos globais. e consequentemente. há excesso de capacidade produtiva mundial e forte aumento dos estoques. isto é.

0 AUSTRÁLIA BRASIL VENEZUELA INDONÉSIA VARIAÇÃO DA PROPORÇÃO MALÁSIA -3. forte aumento das importações e.0 11. Gráfico 2. construções metálicas e automóveis importados.0 - CANADA -4. um conjunto de países asiáticos (Co- reia do Sul.0 3.máquinas e equipamentos.0 12.0 9.0 -6. que obtiveram queda do valor adicionado.0 13.0 8. Crescimento industrial e peso da indústria de transformação no valor adicionado total – 2005 a 2011 6.0 6. em 2011 e 2012. Essa tendência foi seguida por mais três países (Canadá.0 2005 X 2011.0 MUNDO EQUADOR ALEMANHA TURQUIA PERU 0. Nota: Dados em US$ a preços constantes de 2005.0 COREIA DO SUL 4.0 -3. que atingiu o patamar de US$ 28 bilhões em 2012.0 4. Grécia.0 CRESCIMENTO MÉDIO ANUAL DO VA DA INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO ENTRE 2005 E 2011 Fonte: = da ONU.0 SINGAPURA JAPÃO 1. comparando-se os dados de 2005 com os de 2011. entre 2005 e 2011. cujos grandes projetos de investimento não conseguiram avançar dentro da programação inicial. a crise financeira global.0 CHINA 3. transfigurada em crise das dívidas soberanas de países da Europa. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.0 2. A despeito dos efeitos negativos do cenário global para a agregação de valor adicionado industrial. consequentemente. mas o corte temporal é mais recente. afetou sobremaneira o resultado da indús- tria.0 -2. EM PONTOS PERCENTUAIS 2. com base nas infor- mações do National Accounts Main Aggregates Database da ONU.0 GRÉCIA FRANÇA CHILE PORTUGAL REINO UNIDO FILIPINAS ESPANHA COLÔMBIA -2.0 -1. Austrália e Reino Unido). explosão do déficit comercial do setor. como é o caso do Complexo Petroquími- co do Rio de Janeiro (Comperj). especialmente no caso de cinco países da zona do euro (Espanha. afetando o produtor nacional. que cresceu significativamente nos últimos anos. O terceiro exemplo setorial de desequilíbrios na estrutura industrial é (iii) o setor de química e petroquímica.0 TAILÂNDIA ÍNDIA EUA ITÁLIA MÉXICO ARGENTINA -1.0 7. De modo geral. a economia brasileira no contexto da crise global 199 .0 1. em associação com o câmbio valori- zado.0 5. causando.0 -4. Itá- lia.0 -5.0 10. China e Cingapura) e a Polônia (que não faz parte da zona do euro) conseguiram expandir. o VA acima de 6% ao ano. Portugal e França). como visto acima. em média.0 0.0 POLÔNIA DO VA DA INDÚSTRIA DE TRASNFORMAÇÃO NO TOTAL DO VA 5. O Gráfico 2 traz as mesmas variáveis do gráfico anterior.

Corroborando essa perspectiva. O patamar de produção industrial. com expansão anual do VA de apenas 1. Ademais. Outra forma de avaliar a importância da indústria de transformação na econo- mia brasileira é pela análise da evolução do PIB a cada trimestre. A pior posição da indústria de transformação da Malásia e da Indonésia entre 2005 e 2011.p. Tomando como referência a série de 80 trimestres (entre o primeiro trimestre de 1993 e o quarto trimestre de 2012) de crescimento do PIB do Brasil e da indústria de transforma- ção acumulados em quatro trimestres. Os anos de 2011 e 2012 marcaram o aprofundamento da crise de competitividade da indústria brasileira. e ampliar a participação da indústria na composição de suas economias. o desempenho recente da indústria de transforma- ção foi decepcionante. cuja indústria permaneceu praticamente estagnada en- tre 2005 e 2011. nesse período. indicador de que encolheu o espaço da indústria de transformação no cenário internacional de desaceleração do comércio mundial5. pode estar refletindo o inicio da reversão do processo de deslocamento da atividade industrial para os países em desenvolvimento (PED) dentro das estratégias das grandes multinacionais. torna-se inequívoca a associação entre o crescimento da indústria de transformação e a expansão do PIB. na comparação entre o quadrante superior à direita dos Gráficos 1 e 2). de melhoria dos indicadores do mercado de trabalho e de redução da desigualdade social. 200 a economia brasileira no contexto da crise global . Cabe destacar que houve redução do número de países com essa trajetória (de oito para quatro países. no caso brasileiro.9% inferior ao nível do terceiro trimestre de 2008 (período imediatamente anterior à eclosão da crise global) e seu déficit co- mercial explodiu. A relação entre expansão industrial e crescimento econômico Após a crise global de 2008.7% e perda de participa- ção no total da ordem de 2. O preocupante. Esse resultado. é que esse desempenho se deu em um contexto de ampliação do mercado interno e da classe média. abaixo da média mundial. só é superior ao da Venezuela. foi 5. 5. Constata-se que em apenas 18 trimestres o PIB teve um aumento superior a 5% em bases anuais. em termos de mercados e de competitividade. a posição do país se situou no limite inferior. que agora estariam alterando a gestão de suas cadeias produtivas e de valores. a indústria brasileira. fatores que acenderam a luz vermelha no sentido de configurar uma situação de maior gravidade e risco de aprofundamento de perdas irreversíveis para a indústria nacional. no quarto trimestre de 2012.1 p. se enqua- drou no grupo de países que apresentou baixo crescimento do VA e redução do peso da indústria na estrutura produtiva. na comparação com o resultado do período longo (1970-2011). dada a redução das vantagens comparativas em relação aos países de origem.

Em todos esses trimestres. Isso quer dizer que a obtenção de um crescimento mais elevado para a economia brasileira. da ocupação e do rendimento do trabalho assalariado6.0 7. em relação aos anos anteriores.0 2.0 8. consequentemente. O debate sobre as vicissitudes do padrão de crescimento econômico do Bra- sil deve considerar um ponto com grande atenção: para quem concebe que o 6.0 5.0 6.0 . a indústria de transformação.0 PRODUTO INTERNO BRUTO (PIB) 4. que os resultados do PIB em 2011 e 2012 foram tão ruins (respectivamente.0 9.9%).0 INDÚSTRIA DE TRANSFORMAÇÃO Fonte: Contas Nacionais.0 .0 .0 4.0 5. excluindo-se o quarto trimestre de 2008. ver capítulo 5.1.7% e 0.0 3.0 . quais sejam: a expansão do crédito.0 .0 7. requer um dinamismo ainda maior da indústria de transformação.7.0 0. a evolução da indústria situou-se entre 6% e 13% (Gráfico 3). Crescimento acumulado em quatro trimestres do PIB e da indústria de transformação – 1993 a 2012 (80 trimestres) 9.0 .9. Em nove desses trimestres.0 . cresceu em percentuais próximos ou superiores a esse percen- tual.0 .0 . IBGE.0 10.8.10. na comparação do acumulado em quatro trimestres.0 2. e (iii) a redução do ritmo de alta dos vetores que até então estavam impulsionando a demanda doméstica.1%) e retraiu-se (-2.0 . Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. estagnada em 2011 (+0.4.0 .12.0 .2.11. então.0 13.5%) em 2012.6.0 3.0 . Ao menos três fatores atuaram para isso: (i) a prolongada diluição dos estoques formados na passagem de 2010 para 2011.3. devido ao enfraquecimento das economias avançadas e.0 6.0 8.5. (ii) o acirramento da concorrência externa no mercado doméstico.0 11.0 . Gráfico 3.0 . Para maiores detalhes da evolução do PIB. entendido como a evolução de longo prazo da economia em bases superiores a 5% ao ano.4.0 0.0 1.3.0 1. A indústria de transformação permaneceu. da redu- ção da demanda mundial por produtos made in Brasil.0 12.2. 2.0 . Não é por acaso.1. a economia brasileira no contexto da crise global 201 .

de fatores extraco- mércio exterior. mas. dinamismo industrial se manteve limitado no passado e se mantém ainda mais restringido agora por uma valorização do câmbio. Mas não nos parece que a valorização do real. por exemplo. caso sua utilização não for acompanhada de extremo cuidado. não é o saldo comercial do agronegócio e da mineração que determinou a valorização da moeda. Em outras palavras. causado pelas exportações de produtos primários. O diferencial de juros. como precondição para o desenvolvi- mento da indústria. que há muito tempo é excessivamente elevado. claro. As variações do valor da moeda nacional são condicionadas sobretudo por fatores financeiros e/ou por especulação com arbitragens no mercado futuro e não por fatores “reais” da economia. pelo menos por enquanto. não há oposição entre agricultura e indústria ou entre a eco- nomia industrial e a economia de commodities e muito menos a necessidade de o país optar por uma especialização pendente para um ou para o outro lado. podem de fato ocorrer no caso de grande preponderância de uma riqueza mineral. Os recursos em dólares gerados. sim. apesar do forte dinamismo do mercado internacional de produtos básicos até 2008. o reerguimento do crescimento industrial do país esbarraria em enorme dificuldade. ocorrida até o final de 2012. O êxito simultâneo da indústria e dos demais setores é perfeitamente possível. especialmente nos EUA (quantitative easing) e na Europa. ver capítulo 2. mantendo-se uma taxa de câmbio competitiva. A mudança na gestão da política econômica na direção de uma atitude mais pró-ativa na área cambial7. Nesse sentido. do nosso ponto de vista. 7. tenha aí. a estratégia de não permitir um processo de apreciação como o ocorrido no passa- do recente e de manter esse preço-chave (taxa de câmbio) em um patamar mais favorável à indústria. sua origem. Situações como essa são conhecidas como “doença holandesa” e. que de fato limita o crescimen- to da indústria. é um dos elementos fundamentais para resgatar o papel da indústria no desenvolvimento do país. Uma interpretação mais correta seria que a desindustrialização relativa do Bra- sil é decorrente não das exportações de commodities. pois requereria alguma forma de bloquear a influência das commodities sobre a taxa de câmbio. ou seja. 202 a economia brasileira no contexto da crise global . pela exploração do pré-sal brasileiro podem representar um desequilíbrio no mercado de divisas. enseja as ondas de movimentos de capitais e de especu- lações com moedas em um contexto em que há ampla liquidez internacional – em grande parte decorrente da política de expansão monetária adotada pelos países centrais. Para uma análise detalhada sobre a política macroeconômica do governo Dilma em 2011 e 2012.

Como evidenciado pela experiência dos países asiáticos. nos estágios posteriores. a introdução de inovações (para enfrentar a concor- rência. é caracterizado pela capacidade de ino- var e pelos rendimentos crescentes de escala e. crescimento da produção e do emprego. É sabido que as exportações de bens manu- faturados são importantes elos de difusão das inovações tecnológicas e de ganhos de produtividade. nos estágios iniciais de crescimento. Mais especificamente. que perdem mercado e reduzem o investimento em ampliação da oferta. o desempenho médio da indústria brasileira tem sido muito baixo. crescia 7. nos mercados externos) e. cresci- mento das exportações. nos quinze anos que vão de 1994 até 2008.3%.1% (Tabela 2).7%) puxou para baixo a evolução da indústria como um todo. O crescimento da produção industrial. (ii) o crescimento dessa produção gera crescimento da produtividade no setor indus- trial (também conhecida como Lei de Verdoorn). cria-se um círculo virtuoso entre exportações industriais. foi. caracterizado pela aguda recessão devido aos efeitos da crise internacional. assim. simultaneamente. pela capacidade de gerar valor agregado e ganhos de produtividade na própria indústria e na economia como um todo (as chamadas três leis de Kaldor9). de apenas 3. ganhos de va- lor agregado e de produtividade. liderada por petróleo e minério de ferro. em média. 2002). as exportações industriais têm papel funda- mental na indução do crescimento da indústria nos estágios mais avançados de desenvolvimento8. enquanto a produção do setor extrativo. Como destacou Kaldor (1994). crescimento da indústria. a capacidade exportadora da indústria de transformação é declinante e isso afeta negativamente as cadeias produtivas. As exportações estimulam. Acompanhou o baixo crescimento médio uma ampli- 8. A trajetória da indústria brasileira: do plano real à crise global Descartando-se o ano de 2009. Segundo esse autor. 9. reduzem a dependência das empresas em relação ao comportamento desse mercado e ajudam a financiar aquelas importações necessárias à complementaridade da matriz industrial e à inovação tecnológica do país. por sua vez. em geral mais acirrada. 2005). (iii) a taxa de crescimento do setor manufatureiro gera aumento de produtividade nos demais setores (Thirwall. a agricultura seria a fonte autônoma de demanda da indústria e. e assim sucessivamente (Unctad. no caso de uma econo- mia como a brasileira. as exportações. Esse setor. com um amplo mercado interno. as três leis de Kaldor são: (i) o crescimento da produção manufatureira gera cresci- mento do produto. Hoje. A indústria de transformação (+2. a economia brasileira no contexto da crise global 203 .

7 -5.6 -1.9 3.9 2.5 2010 10.8 -0.2 1996 1.2 -0.8 -7.9 1995 1. e em 2002. como a ocorrida em 1999.9 6.3 -1.7 -0.7 9.8 -1.9 7.8 3.0 6. diante das incertezas acerca das diretrizes econômicas do país com a eleição de Lula.7 6.2 2. ensejados pelo próprio crescimento econômico e combatidos com elevação das taxas de juros.1 6.1 0.1 11.4 -19.0 Fonte: Pesquisa Mensal da Indústria (PIM-PF) / IBGE.0 2.5 0.2 3.5 4.4 2.6 1.3 4.6 -9.7 9.5 1.6 3.5 20.1 13.3 2.2 3. associadas a eventos notórios e “externos” à dinâmica in- dustrial.4 10.1 10.6 -0.7 1.6 2002 2.4 7.5 -0.6 -0. Em 2000 e no- vamente em 2004.4 15.4 10. O setor registrou taxas elevadas apenas em períodos breves.0 2005 3. Tabela 2.6 1.1 7.8 -2.1 4.0 12.2 6.8 4. Produção industrial.1 1. Em nenhum dos casos vistos acima o crescimento se sustentou. que chegou a 7.2 2.6 2006 2.7 3.7 2007 6.3 3.8 18.3%.5 2008 3.7 7.6 1.4 -8.5 19. % média 3.9 2004 8.1 3.0 0.4 0.5 13.1 1.8 1.6 -0.1 14.5 1.2 14.1 3. corresponderam à saída de crises cambiais.3 1.2 2000 6.3 0.8 2.4 2001 1. os aumentos pronunciados de 6.6 5.1 0.5 4.9 2.4 4.7 6.8 7.4 -8. em ambos os casos.1 -14.8 1.7 1997 3.8 -3. o que elevou a capacidade de exportação do produto manufa- turado no Brasil.3 6.5 5.5 1998 -2.4 2003 0.4 6.6% e 8. Assim.2 3. seja devido ao aumento da inflação ou ao agravamento da situação das contas externas.6 4.7 0.9 11. foi a desvalori- zação da moeda.9 6.3 -1.4 -1.9 -2.7 0.0 19.1 2. seja devido à frequente ocorrência de crises externas no período – sobretudo entre 1995/2001 –.0 -2.6%.7 9. o crescimento industrial.2 2. Variações anuais e médias por períodos (em %) Indústria de Bens de Bens Bens de Bens Bens não Período Geral Extrativa Transformação Capital Intermediários Consumo Duráveis Duráveis 1994 7. respectivamente.0 3.4 -3.0 -3.3 11.9 5.2 1.4 10.3 -17.8 4.3 20.2 0.3 1.7 2.0 5.8 -9.8 3.5 1994-2008 2009 -7.3 -0.8 3.7 -11. em 1994.3 5.6 11.6 4.4 -2.4 2. decorreu do estímulo à demanda doméstica proporcionada pelo Plano Real.1 3.3 5.1 2012 -2.5 -1.0 4.7 7.3 8.7 -6.1 1999 -0.1 -1.1 1.3 21.8 3. tude muito curta dos ciclos industriais.4 13.4 Var. O motor para a recuperação industrial.4 -2. 204 a economia brasileira no contexto da crise global .3 2011 0.

dado o elevado nível de reservas internacionais.1%. Convém ressaltar que uma dinâmica toda peculiar começava a se formar no biênio 2007/2008. a produção física da indústria de transformação retraiu-se fortemente entre 2008 e 2009 (-7.4%.5% e 14. que se converteu em uma crise econômica global ao longo de 2009. da crise internacional. Trata-se do grande impulso do setor de bens de capital. a uma taxa acumulada em 12 meses. diminuiu a oferta de crédito. Mas. assim.3%. a indústria crescia 6. capaz de dotar de maior autonomia o crescimento da indús- tria e da própria economia brasileira. ano em que a produção industrial aumentou 6%. modificou completamente esse cenário. fruto.8%). paralisaram os investimentos e demi- tiram grande número de empregados. A indústria de bens de capital au- mentou sua produção em 19. A blindagem do país. a economia brasileira no contexto da crise global 205 . A eclosão da crise financeira no terceiro trimestre de 2008. movida pelo maior poder de compra da população.4%) e os bens intermediários (-8. os consumidores diminuíram o ritmo de compras e o sistema financeiro passou a não contar mais com fontes externas de funding e.42 no final de novembro de 2008 voltou para o patamar de R$ 1. Todas as categorias de uso apresentaram queda. especialmente os industriais. o crescimento médio baixou para 3. sim.78 no final do primeiro semestre de 2009. essa valorização atingiu a competitividade da indústria de transformação em um cenário de acirramento da concorrência mundial. Isso significou que o canal de contágio da crise não foi via mercado de divisas. De fato. No ano seguinte. resultante do aumento da massa de rendimentos e do crédito para as famílias. Nesse contexto. antes. na demanda interna. permitiu que a forte desvalorização do real observada após a falência do Lehman Brothers fosse rapidamente revertida: a taxa de câmbio (R$/US$) que chegou a R$ 2. a crise afetou fortemente as expectativas dos agentes econômicos: os empresários. refletindo o que se apresentava como sendo um boom de investimentos que a economia não assistia há muito tempo. Talvez tão somente no período 2007/2008 (até o agravamento da crise interna- cional). nos três primeiros trimestres de 2008. com destaques para os bens de capital (-17. nos anos de 2007 e 2008 (Tabela 2). Porém. portanto. do impacto mais forte da crise sobre o setor. mostrando que fecharia o ano com uma pequena aceleração com relação a 2007 se não fosse o agravamento da crise inter- nacional com a falência do Lehman Brothers. a começar pelo fato de que em 2007. mas. a indústria brasileira tenha conhecido um crescimento forte e sustentado. exclusiva- mente.3%). a retomada da expansão industrial não se apoiou na demanda de exportações. com pressões sobre o financiamento do balanço de pagamentos. As diferenças com relação aos padrões que vigoraram até então são notórias.

o crescimento médio anual da produtividade do trabalho na indústria (relação entre produção física e horas pagas) foi de 2. no período. Como parte do pano de fundo desse baixo desempenho da indústria brasi- leira.7 e expressiva redu- ção da produção de bens de capital (-11. No período de seis anos compreendidos entre 2004 e 2009. Salvo em ocasiões muito específicas e notabili- 10. por sua vez.4%. trouxe consigo um fator estrutural. O PIB cresceu 7. 12. A política econômica.3%).3%. a produção física permaneceu prati- camente estagnada (+0. Ver capítulos 2 e 6. A combinação dessas medidas com a baixa vulnerabilidade externa do país. o cenário econômico doméstico e internacional se deteriorou em 2011 e em 2012 fazendo a economia reduzir bruscamente seu ritmo de crescimento12. o aumento da penetração dos bens importados na economia brasileira e a perda de competitividade dos produtos nacionais no mercado externo e in- terno. ver o capítulo 5 deste livro. 206 a economia brasileira no contexto da crise global .5% (recorde desde o ano de 1986) e a produção física da in- dústria de transformação avançou 10. as medidas anticíclicas11 de estímulo ao consumo e a manutenção da rede de proteção social representada pelos programas de transferência de renda. nota-se queda de 2. Cabe destacar a excepcionalidade da expansão do PIB e da produção indus- trial em 2010. respectivamente.3% entre 2009 e 2010. As categorias de uso de bens de capital e de bens intermediários. 20. A indústria de transformação brasileira protagonizou forte desaceleração: em 2011. ver capítulo 4. A retomada do crescimento. A respeito da evolução do crédito entre 2008 e 2012. Parte desse processo respondeu à expressiva valorização do real ocorrida entre o final de 2008 e 2010. Para detalhes sobre os efeitos da política econômica mais restritiva em 2011 e da deterioração do cená- rio internacional. já em 2012. Concomitantemente à ocorrência desse fator. 11. utilizou um leque de medidas para con- trarrestar a crise global. com a formalização da força de trabalho e com a política de aumento real do salário mínimo proporcionou intenso crescimento econômico em 2010. em 2010. qual seja. que restabeleceu a expansão do crédito10. deve ser destacado o comportamento da produtividade industrial nos anos 2000. cresceram. no segundo semestre de 2011 e em 2012 sobre a atividade econômica no Brasil. Destacaram-se a atuação ativa dos bancos públicos com carteira comercial (Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil) e do BNDES. Tal resultado deve ser interpretado dentro do contexto da crise e não garantiu um novo padrão de crescimento para a economia brasileira.8%).9% e 11.

Após a crise e com a gradativa retomada do comércio mundial. Gráfico 4.0 5.0 10. o quadro de variação da média em 12 meses das vendas externas do país.6% para bens semimanufaturados e de -1.zadas por processos muito intensos de crescimento ou de declínio da produção – como no ano de 2004.5% para manufaturados (Gráfico 4). assim como a média de todo o período. as vendas externas desses bens industriais já vinham perdendo força. no sentido oposto –. Competitividade e o comércio exterior de produtos industriais Um ponto importante a ser destacado no cenário da indústria é a evolução da competitividade do produto fabricado no Brasil. mas foi notório o atraso no caso dos manufaturados. Exportações – variação % do quantum acumulado em 12 meses. segundo os fatores agregados no mês que antecedeu o agravamento da crise internacional (agosto de 2008). O ápice da ex- pansão do quantum das exportações de manufaturados foi o mês de dezembro de 2010 (+8. fato que demonstra a perda gradativa de competitividade mesmo em um quadro de intensa evolução do volume do comércio mundial. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.9%). cresceram as exportações brasileiras. por fator agregado 20.0 0. Avaliado em ter- mos de quantum de exportação. Antes mesmo da crise inter- nacional de 2008.0 -20. a economia brasileira no contexto da crise global 207 .0 15.0 -10.0 -25. no qual os produtos básicos cresceram 11. podem ser considerados baixos e são impeditivos para proporcio- nar uma expansão mais sustentada da indústria.0 ago/10 ago/07 ago/08 ago/09 ago/11 ago/12 ago/13 fev/07 fev/08 fev/09 fev/10 fev/11 fev/12 fev/13 abr/07 abr/09 abr/10 dez/10 abr/13 dez/07 abr/08 dez/08 dez/09 abr/11 dez/11 abr/12 dez/12 jun/10 jun/07 jun/08 jun/09 jun/11 jun/12 jun/13 out/10 out/07 out/08 out/09 out/11 out/12 Total das exportações Básicos Semimanufaturados Manufaturados Fonte: Funcex.0 -15.8% para produtos básicos. no sentido ascendente. Esses percentuais. e 2009. 0. a produtividade evoluiu entre 2% e 4%. Brasil.4%.0 -5. pode ser resumido da se- guinte forma: o crescimento chegava a 3.

843 44.798 -7.862 3. ao longo desse período.3 bilhões. em 2012 – e os de média- 13.000 -48.000 36.601 21.437 -2. o que revela um processo intenso e rápido de deterioração da competitividade do setor.000 -54.059 31. transf.714 13.141 -8.000 -18.000 0 -6.000 42.431 Fonte: Ministério do Desenvolvimento. A falta de competitividade da indústria de transformação pode ser ilustrada pelos resultados do comércio exterior em valores (US$ milhões FOB). Conjuga- da a um crescimento da economia mais forte nos anos de 2007 e 2008. -5.202 24.000 6.000 -12.1 bilhões. Balança comercial (em US$ milhões FOB) 84. ocorreu nos segmentos de bens semimanufaturados (-2.978 46.797 6. Esse movimento se acentuou no biênio 2011 e 2012. atingindo crescimento zero no segundo semestre de 2012.1 bilhões. o quantum das exportações brasileiras desacelerou-se.232 8.886 33.028 78.000 -30. na faixa de US$ 30 bilhões em 2006.761 -48.000 -42.000 72.000 18.412 40.000 48. Essa transição da balança comercial da indústria de transformação foi liderada por bens de alta intensidade tecnológica13 – cujo déficit passou de cerca de US$ 12 bilhões.599 -6.118 29.717 4.899 33.357 2.000 30.485 -4.282 -720 2. antes do agravamento da crise externa.970 16.000 -36.170 9.537 70.079 Bens ind. Gráfico 5.6%) e manufaturados (-0. Em 2010.693 55. Para mais informações. 208 a economia brasileira no contexto da crise global .347 20.053 -10.000 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Demais produtos 1.000 60.624 -1. respectivamente (Gráfico 5).368 -6.740 -50.729 24. e o pior desempenho (contração).000 54.282 3.028 24.3 bilhões em 2009.230 31.000 66.083 6.860 16.000 12. ver capítulo 3. para a faixa de US$ 29.346 -34.5 bilhões e de US$ 70.648 Total -3. a perda de competitividade industrial se traduziu em rápida mudança de uma condição de saldo comercial confortável.902 454 3.1 bilhões em 2008 e de US$ 8.753 -6.267 29.466 -5. em função do aprofundamento da crise da zona do euro e a lenta recuperação das economias avançadas. Indústria e Comércio Exterior (MDIC).784 13. em 2006.034 -10.000 -24.000 78.3%). Nesse contexto.638 -3.746 25. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.000 24. Brasil. No biênio 2011/2012. quando o déficit da indústria de transformações atingiu o montante de US$ 78.796 19.811 18. as condições do comércio mundial se deterioraram. para déficits de US$ 7. o déficit chegou a US$ 55.

229 -4.500 -8.599 32.034 -10.083 6.000 -96.266 11. Equi- pamentos de rádio. Borra- cha e produtos plásticos. Máquinas e equipamentos mecânicos. para US$ 40. Brasil.846 -6.141 -8.370 -2.867 42. na medida em que daí decorre um crescente desequilíbrio das contas externas do país.000 -84.203 -9.000 -18. e bens reciclados.220 15.437 -2.798 -7. Farmacêutica.935 38. em 2006. TV e comunicação. Indústria de média- alta tecnologia: Máquinas e equipamentos elétricos.015 -8.520 449 -899 -10. papel e celulose.9 bi- lhão para US$ 54. Gráfico 6.742 9.000 -12.000 1995 1996 1997 1998 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Baixa 8.000 -60.740 -50.000 -72. Produtos químicos.638 -3.494 8. Veículos automotores. Alimentos.107 2.659 -18. Madeira e seus produtos.859 25.970 16.000 -48. apresentava superávit comercial da ordem de US$ 10. em 2012.000 42. com o déficit passando de um valor muito baixo de US$ 0.000 12.811 18.762 39.917 40. é grave.003 11.485 -4.346 -34.258 -8. excl. o superávit comercial aumentou de US$ 31.e.723 31.810 9.9 bilhões.328 -11.alta tecnologia. O único segmento da indústria que manteve alguma vantagem comparativa no comércio mundial foi o de baixa intensidade tecnológica.828 -21. Indústria de baixa tecnologia: Produtos manufaturados n.752 -6. farmacêuticos.000 0 -6. Instrumentos médicos de ótica e precisão.318 -7.5 bilhões. Carvão.880 10.219 488 678 3.059 31.000 -66.924 34.200 28.729 24. couro e calçados. em 2012. transformação Fonte: Ministério do Desenvolvimento.905 Média -baixa 3.559 9.000 -90.976 -29.000 30.370 -30.602 -8. Equipamentos para ferrovia e material de transporte.450 -10. em 2006. por si só.242 -26.000 18.773 -14.164 -26. Produtos metálicos.060 -12.692 9.6 bilhões. a economia brasileira no contexto da crise global 209 . bebidas e tabaco.000 -54. em 201214 (Gráfico 6).275 10. Indústria de média-baixa tecnologia: Construção e reparação naval.000 24. invertendo a tendência para um déficit de US$ 7.719 -39. Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. A agregação da balança comercial por intensidade tecnológica tem a seguinte composição: Indústria de alta tecnologia: Aeronáutica e aeroespacial.491 Alta -7.263 -52.000 -24.361 1. Produtos da indústria de transformação por intensidade tecnológica – Balança comercial (em US$ milhões FOB) 48. Têxteis. Outros produtos minerais não metálicos.781 -10.000 36. transformação -5.508 -5.000 -78.848 -12.761 -48. ind.118 29. Nesse caso.178 847 1.053 -10.648 Baixa Média-baixa Média-alta Alta Prods. esse desequilíbrio foi mitigado até 2010 pela evolução 14.288 Prods. Material de escritório e informática. produtos de petróleo refinado e combustível nuclear. ind.000 6.000 -30.364 -54.8 bilhões.254 -7.000 -42.959 -3. também sofreu perda razoável de mercado e de competitividade.774 Média -alta -10. Cabe destacar que o segmento de média-baixa tecnologia que.234 5. Em parte.371 19.368 -6.281 14.066 5.149 -6.163 -29. reboques e semirreboques.161 3.045 -8.000 -36.894 -8.424 -6.240 -9. Esse quadro de deterioração da balança comercial da indústria brasileira.

a indústria brasileira retardou os investimentos em ampliação da capacidade produtiva diante da conjuntura de menor demanda externa. positiva dos preços e do quantum das exportações de commodities. devido. De outro. o menor ritmo de expansão da China e a perspectiva de a economia brasileira se expandir quase que exclusivamente pelo dinamismo do mercado interno compu- seram um cenário que introduziu um vetor redutor do crescimento da indústria local – fato que expôs. sustentou a expansão do PIB. em um contex- to de demanda ainda favorável por parte da China. Sobre a evolução do mercado de trabalho brasileiro no período pós-crise. em que se 15. não conseguiu recuperar taxas de cresci- mento na faixa entre 5% e 6% do período pré-crise. 210 a economia brasileira no contexto da crise global . De um lado. Breve retrospecto das políticas industriais dos anos 2000 O tema da política industrial (PI) no debate econômico é vasto e polêmico. quando os custos dessas falhas forem superiores aos benefícios da PI. são utilizados conceitos schumpeterianos e evolucionistas. por fim. ver capítulo 7. Outras correntes de pensamento econômico de caráter mais heterodoxo ado- tam a perspectiva de uma PI abrangente e focada em setores ou atividades indus- triais indutoras de avanços tecnológicos. a alta do mercado consumidor doméstico estimulou a impor- tação de bens de consumo e de matérias-primas. de modo evidente. o momento de dificuldade do modelo de crescimento do país. a PI compreende medidas horizontais e reativas. para a adoção ou não das políticas industriais. E. ou seja. no âmbito desse arcabou- ço teórico. Nessa concepção.8%. Ao contrário. As visões de cunho mais liberal aceitam a adoção de uma política industrial com o objetivo de corrigir falhas de mercado e imperfeições nas informações dos agentes econômicos. o setor de serviços. A partir de 2011. que. a média de expansão do setor de serviços no biênio 2011-2012 foi de apenas 1. não é recomendado que se adotem medidas de política industrial. em parte. A ressalva. no auge da crise de 2008. dadas as condições macroeco- nômicas favoráveis (real valorizado). diz respeito às falhas de governo e ao rent-seeking. maior concorrência global. e perda de competitividade no mercado interno. a lenta e incerta recuperação das economias avançadas. Dessa perspectiva. que procuram levar a economia de volta a um novo ponto de equilíbrio ótimo. ao menor dinamismo do mercado de trabalho15. além de medidas que alterem o ambiente econômico/institucional no qual atuam as empresas e as cadeias industriais.

com a adoção de pressupostos mais realistas em relação ao comportamento dos agentes econômicos (racionalidade li- mitada e condicionada pelo grau de conhecimento tácito das empresas). (ii) ações horizontais para estimular a inovação e o desenvolvimento tecnológico. deu ênfase à promoção das exportações. que se insere na primeira das estratégias mencionadas. o governo. calçados e mobiliário. além dos setores que. vinham sendo fortemente prejudica- dos. Indústria e Comércio Exterior. siderurgia e mineração. 2006). A Pitce. Indústria e Comércio Exterior e composto de 12 ministros. nanotecnologia e energias renováveis) para o desenvolvimento tecnológico nacional. se aponta o papel estratégico da inovação no desenvolvimento econômico. por meio do Ministério do Desenvolvimento. a partir de diretrizes divulgadas em 2003. Cabe ressaltar o mérito da decisão de recolocar a questão da necessidade de se ter uma política industrial no país. Todavia. pelo presidente do BNDES e representantes das empresas e dos trabalhadores. cuja criação seguiu a lógica de serviço social autônomo e integrante do 16. foram criados. O CNDI é presidido pelo ministro do Desenvolvimento. o Conselho Nacional de Desenvolvimento Industrial (CNDI)16 e a Agência Brasileira de Desenvolvimento Industrial (ABDI). em virtude da forte concorrência estrangeira. como agroindústria. para atuar como seu braço executivo. por meio de programas específicos. tais como. acoplada a políticas comerciais promovidas por uma diplomacia mais atuante. a economia brasileira no contexto da crise global 211 . Em fevereiro de 2005. e. software. do estímulo à internacionalização de empresas e da desoneração do investimento produtivo –. Tecnológica e de Comércio Exterior (Pitce). no início de 2005. semicondutores. bem como se trabalha com a ideia de formação de um sistema nacional de inovação (SUZI- GAN e FURTADO. (iii) priorização de três áreas “portadoras de futuro” (biotecnologia. têxtil. lançou oficialmente a Política Industrial. a inserção externa via exportações e a modernização industrial e do ambiente institucional – por meio de programas de incentivo à pe- quena empresa combinados em Arranjos Produtivos Locais (APLs).descartam as hipóteses de equilíbrio geral. A política industrial brasileira dos últimos anos foi na direção dessa última concepção e oscilou entre dois tipos de estratégias: a de priorizar setores de alta tecnologia e a de escolha de campeões nacionais em setores com vantagens com- parativas. Com vistas a articular os instrumentos e as medidas necessárias para a efetivação da política industrial. fármacos e medicamentos). a capacidade de coordenação da política industrial ficou comprometida pelo formato institucional da ABDI. Três eixos foram definidos: (i) incentivos a setores estra- tégicos (bens de capital.

pode refletir a expan- são de setores que já têm vantagens comparativas. a colaboração entre as empresas privadas e os organismos públicos fica a desejar e compromete o alcance das metas programadas. contudo. Por estar fora da estrutura governamental. As metas do PDP eram. dentre outras. nos moldes dos adotados na Coreia do Sul. em 2008. (ii) elevação do gasto privado em P&D de 0. especialmente aqueles segmentos mais intensivos em mão de obra. podem ter influenciado a decisão do governo de lançar. Senac. 212 a economia brasileira no contexto da crise global . Senai. Uma crítica de cunho mais geral ao PDP refere-se à ausência de mecanismos de reciprocidade. como corretamente assinalaram Suzigan e Furtado (2010) e Almeida (2009)18.8 bilhões) em 2010. (iii) ampliação da participação das exportações brasileiras nas exportações mundiais de 1. No Brasil. o que inviabilizou a articulação dos mecanismos e instrumentos. A alta da participação das exportações brasileiras no comércio mundial.65% do PIB (R$ 18. Assim. Sesi e Sebrae. 19. valor das expor- tações e patamar de investimentos). o planejamento e a coordenação ex-ante das ações tornou-se difusa e se perdeu na teia de relações entre os ministérios. a ABDI não teve poder convocatório sobre as instituições governamentais. Outra crítica endereçada à Pitce diz respeito às políticas horizontais. de curto prazo e não exprimiam de modo adequado o sucesso ou o fracasso da política industrial.25% (US$ 208. “Sistema S”17. ou seja.792 empresas).51% do PIB (R$ 11. bem como dos agentes beneficiários do processo. nesse arranjo de política industrial. ver Almeida (2009). em ra- zão da ausência de clareza e de objetivos mais articulados aos demais setores. por exemplo.18% (US$ 160 bilhões) em 2007 para 1.6% do produto interno bruto – PIB (R$ 450 bilhões) em 2007 para 21% do PIB (R$ 620 bilhões) em 2010. de contrapartes dos grupos/empresas que receberam os benefícios.2 bilhões) em 2010. a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP). criar novos elementos de coordenação das expectativas na economia brasileira e permitir o acompanhamento dos resul- tados da política. (iv) crescimento do número de micro e pequenas empresas (MPE) exportadoras em 10% em relação ao número de MPEs exportadoras de 2006 (11. como Sesc. como é o caso das commodities e produtos de menor sofisticação – fato que vem acontecendo nos últimos anos na pauta da balança comercial brasileira. Para uma avaliação crítica de cada uma dessas metas. Compre- ende 11 instituições. Nome pelo qual é conhecido o conjunto de instituições de interesse de categorias profissionais.5 bilhões) em 2005 para 0. mas são os grupos privados individuais que 17. o governo optou por estabelecer metas para 201019 com o objetivo de mostrar o sentido e o alcance da PDP. Essas críticas. De acordo com esses autores. as metas foram definidas para os setores (por exemplo: valor de gasto em P&D. As principais metas do PDP eram as seguintes: (i) aumento da taxa de investimento da economia bra- sileira de 17. Isso significa que os efeitos desejados da PDP não foram alcançados no sentido de alterar a composição da produção industrial e aumentar as exportações de maior valor agregado. Na linha de maior pragmatismo. 18. segundo Almeida (2009).

recebem os incentivos oferecidos. A ideia que está por trás dessa afirmação é a de que quanto maior for a participação das empresas na cadeia produtiva. WEG. Totvs. De outro lado. como fornecedores de empréstimos e/ou aumento da participação acionária.pdf > a economia brasileira no contexto da crise global 213 . que viabilizam a expansão desses grupos econômicos mediante aquisições e fusões.mdic. como é o caso especialmente das empresas voltadas ao setor de alimentos. com o aprofundamento da crise da dívida soberana dos países da zona do euro e seus impactos negativos na economia brasileira.brasilmaior.gov.br/publicacao/ recursos/arquivos/biblioteca/pbm2_medidas_03_abril_2012_revisado_13abril. o governo lançou o Programa Brasil Maior (PBM). especialmente na indústria de transformação. JBS/Friboi. a formulação de metas setoriais baliza as empresas/grupos líderes.brasilmaior. igualmente. a segunda estratégia de política industrial acima mencionada está consubstanciada no objetivo de internacionalizar as grandes em- presas nacionais com competitividade comprovada no mercado internacional. ao receberem benefícios. justifica-se o fortalecimento de grandes grupos líderes nacionais em setores nos quais a competitividade é elevada. Stefaninni. Ver documento inicial no site: < http://www. Esse modelo de política industrial que incentiva a criação de “grandes multi- nacionais brasileiras” pode. influenciou o governo federal no sentido de aprofundar a política industrial. também maior será o ganho obtido por essas empresas na participação do comércio mundial. se desenvolvem de forma mais competitiva gerando efeitos benéficos intra e intersetorialmente. percebe-se certo grau de incompatibilidade dessa estratégia com o desejo de incentivar setores mais intensivos em tecnologia. na medida em que se fortalece o padrão de inserção internacional do Brasil em produtos de menor valor agregado. Brasil Foods. em agosto de 2011. Os incentivos programados foram organizados em medidas legais divulgadas em abril de 201220. cabe mencionar que dentro da lógica da globalização produtiva.gov. que. De um lado.mdic. Independentemente da falta de exigências de reciprocidades. Isso porque. Por meio de um documento inicial de referência. Alguns grupos se destacaram nesse movimento: Bertin. Dentro das diretrizes da PDP.pdf. A mudança do cenário mundial em 2011 e 2012. esses grandes grupos reduzem o poder de barganha de seus fornecedores nacionais. ter o efeito adverso de ampliar a concen- tração das cadeias de produção domésticas. EBX. ao trazer para dentro do país a lógica de competição global das empresas estrangeiras.br/wp-content/uploads/cartilha_bra- silmaior. O BNDES e os fundos de pensão são os principais agentes públicos nesse processo. 20. ver documento da fase 1 do PMB no site: http://www.

Os países em condição semelhante à do Brasil normal- mente adotaram medidas dessa natureza para amortecer o impacto da crise. Como se sabe. Diante da velocidade do processo de penetração do produto importado no mercado brasileiro. custos sistêmicos elevados e moeda sobrevalorizada – como externos. Outras ações contribuíram mais com a mudança estrutural. o impasse vivido pela indústria reflete fatores tanto internos – baixo crescimento da produtividade. fatores que levaram a uma redobrada disputa por mercados escassos ao redor do mundo por parte das po- tências industriais. assim. mas a mudança permitiu que o recolhimento fosse excluído das exportações e incluído nos impostos cobrados na importação. para a isonomia tributária entre a produção realizada no país e no estran- geiro. O “pacote” adotado no âmbito do Programa Brasil Maior atuou nessa dire- ção ao tomar medidas de aperfeiçoamento da defesa comercial (maior controle e vigilância das importações irregulares). Medidas conjunturais visaram a dar aos setores mais afetados pela crise da indústria capacidade de defesa ou de reação diante da concorrência do produto importado. ampliação do crédito a juros favorecidos do BNDES e postergação de pagamento de impostos dos setores mais atingidos (os setores de autopeças. ainda que temporariamente. tornou-se indispensável a adoção de medidas compensatórias para minimizar o impacto na produção doméstica. calçados e móveis tiveram prazo até novembro e dezembro de 2012 para recolher o PIS/Cofins de abril e maio). Colabora. por- tanto. O pacote anunciado em abril de 2012 procurou articular objetivos conjun- turais e estruturais. têxtil. 214 a economia brasileira no contexto da crise global . Isenções de im- postos para a produção nacional de bens de tecnologia de informação e comu- nicações devem outorgar impulso a esse segmento inovador e disseminador de 21. A chamada “desoneração da folha” consistiu em eliminar a contribuição previdenciária de 20% sobre a folha para empresas de 15 setores industriais e instituir o recolhimento de um valor correspondente entre 1% a 2% sobre o faturamento líquido (dependendo do setor) para o INSS. na produtivi- dade e no emprego. confecções. permitir que os setores mais atingidos adotassem novas estratégias empresariais e promovessem ajustes na produção. A desoneração da folha21 de salários se inseriu nesse contexto. embora a avaliação é que seja de pequena magnitude diante do enorme diferencial de custos que se acumulou contra o produto nacional. Não é particularmente expressivo o benefício de redução do recolhimento empresarial ao INSS na passagem da base “folha de salários” para a base “faturamento”. enquanto ações de maior al- cance não surtiam efeito. e. o que tende a dar maior igualdade de condições com o produto importado. mas o alcance previsto seria maior.

25%. 7. De acordo com o Decreto n. insumos. as margens vigorarão até 2015 e foram es- tabelecidas em 18% e 20%. o governo definiu margens de preferência de preços em concorrências públicas. e para biofármacos. essa margem é de 15%. As medidas que beneficiam a produção de equipamen- tos de telecomunicações. respectivamente. para medicamentos.08% menos combustível do que atualmente. fica estabelecido que a fabricante deverá requerer à Secretaria de Política de Informática (Sepin). que regulamentou o benefício à produção nacional. a margem estabelecida foi de 8%. de acordo com os requisitos e critérios estabelecidos na Portaria MCT n. tais como o Programa Nacional de Banda Larga e o programa “Um Computador por Aluno” (reeditado para vigorar até 2015). No do- cumento.903. de outubro de 2012. porque vêm acopladas a programas governamentais de grande envergadura. a média dos veículos dos beneficiários do regime comercializados a partir de 2017 terá de consumir 12. Por exemplo. a economia brasileira no contexto da crise global 215 . beneficiando a produção local e definindo prazos para o benefício. pretende estimular a pesquisa para produção de veículos mais modernos. 7.903/2013. A portaria dos ministérios da Ciência. ferramentas e capacitação de fornecedores. 22. o Programa de Incentivo à Inovação Tecnológica e Adensamento da Cadeia Produtiva de Veículos Automotores (Inovar-Auto) compôs o novo re- gime automotivo proposto pelo governo federal no Decreto n. 950/2006. com duração até dezembro de 2017. para fármacos. Para retroescavadeiras e motoniveladoras. O programa. do MDIC. a ser utilizada em licitações realizadas pela administração pública federal. Dentre outros estímulos está o crédito sobre o recolhimento do Im- posto sobre Produtos Industrializados (IPI). tecnologia. Para produtos com PPB (Processo Produtivo Básico). Em fevereiro de 2013. foi editado o Decreto n. o reconhecimento da con- dição de produto manufaturado nacional desenvolvido no país. Quando aplicada. desenvolvimento.819. computadores portáteis e semicondutores têm maiores chances de obter êxito. a margem de preferência adicional precisaria atender a requisitos e critérios definidos em ato conjunto dos dois ministérios. 20%. seguros e benéficos ao meio ambiente. a alíquota adicional de 10% eleva para 25% a margem de preferência. Para alguns segmentos. Esse desconto é concedido com base nos gastos das empresas com pesquisa. Uma das principais metas previstas no decreto para habilitação ao Inovar-Auto é a de eficiência energética para auto- móveis e veículos comerciais leves movidos a gasolina e/ou etanol. que estabeleceu margem de preferência de 15% para bens e equipamentos destinados ao PNBL22.ganhos de produtividade. e à Secretaria do Desenvolvimento da Produção (SDP). Indús- tria e Comércio Exterior (MDIC) regulamenta a margem de preferência adicional para equipamentos de tecnologias da informação e comunicação que tenham sido desenvolvidos. que será comprovado mediante portaria. valendo por até cinco anos. bens e serviços utilizados na infraestrutura de internet em banda larga. Finalmente. Tecnologia e Inovação (MCTI) e do Desenvolvimento. Pelo decreto. do MCTI. 7.

Esta última. com recursos da ordem de R$ 32. (ii) criar o programa de fomento à Inovação na Cadeia de Pe- tróleo e Gás Natural (Inova Petro – Plano Conjunto BNDES-Finep-Petrobras). integrou os meca- nismos já existentes para simplificar o acesso à inovação e descentralizar a demanda das pequenas empresas. Por meio de editais setoriais (petróleo e gás. quatro anos de carência e 12 anos para pagamento. foi lançado. Com o objetivo de elevar a competitividade das empresas brasileiras.2 bilhões) e crédito para empresas. assim. o governo federal a ampliar o PBM. que possibilita a restituição/compensação de créditos tributários residuais nas cadeias produtivas para exportações.2 bilhões). com novo aporte de recursos de R$45 bilhões do Tesouro para o BNDES. oferecerá empréstimos com taxas de juros subsidiadas (2.5% a 5% ao ano). demarcando uma nova fase23. As principais medidas foram na direção de: (i) adicionar 25 novos setores na desoneração da folha de pagamentos.brasilmaior. devido à crise financeira internacional.2 bilhão). (v) reduzir para 50% o percentual que caracteriza empresa preponderantemente exportadora e. com disponibi- lidade de R$ 20.mdic. (iii) prorrogar o prazo do Programa de Sustentação do Investimento (PSI) até 31/12/2013. um novo programa de incentivo à inovação (Inova-empresa). em novembro de 2012.9 bilhões. (iv) instituir o Reintegra. desenvolvimento e inovação (P. fomento de projetos em parceria entre instituições de pesquisa e empresas (R$ 4. A rápida deterioração das condições de competitividade levou. em março de 2013.9 bilhões e duração de dois anos (2013 e 2014). saúde e tecnologia da informação e comunicações). PIS e Cofins sobre aquisição de insumos. ampliar o universo de empresas com benefício de suspensão de IPI. inclusive o setor de varejo.pdf 216 a economia brasileira no contexto da crise global .br/images/data/201211/2f197bbf 4dfd7e05c57703fd75673ec2. defesa e aeroespacial. Conclusões Ao longo do capítulo. O programa apresenta quatro linhas de financiamento a atividades de pesquisa. mas de uma estrutura produtiva capaz de concorrer no mercado internacional. Visualiza-se um setor industrial estimulado 23. participação acionária em empresas de base tecnológica (R$ 2. defendeu-se a tese da importância da indústria para o desenvolvimento do Brasil. Para detalhamento das medidas ver: http://www. etanol. energias renováveis.gov. O desenrolar da crise da indústria brasileira atropelou a implementação das medidas do Programa Brasil Maior – como havia ocorrido no caso da PDP. Não só de uma indústria fornecedora de bens de consumo para o mercado doméstico.D&I): subvenção econômica a empresas (R$ 1.

Ideal quase unânime dos diagnósticos sobre o futuro do setor no Brasil. hoje o perfil de desempenho das principais economias na saída da crise global indica um processo com outros determinantes. pode se tornar mais irregular no curto prazo na medida em que seu rebalanceamento alterar os atuais vetores de dinamismo. Esses dois fatores afetam a economia brasileira. a demanda por matérias-primas oriundas do Brasil deve ter seu ritmo de expansão diminuído. Assim. com destaque para o lançamento da Picte (em 2005) pelo Mi- nistério do Desenvolvimento. a China apresenta um movimento de mudança na composição do seu crescimento no sentido de o mercado interno ganhar maior relevância. Controles dos fluxos de capitais são relevantes. com a transferência da atividade industrial para os países em desenvolvimento (PED). que alavancou as exportações de commodities brasileiras. Nesse caso. Diferentemente do padrão das últimas três décadas do século passado. pelo fraco e oscilante desempenho recente da indústria de transformação e pela baixa eficácia das políticas industriais. do gasto público para o gasto privado. Já o crescimento chinês. como ficou demonstrado neste trabalho. O mais importante deles foi a taxa de câmbio. quan- do se observou uma trajetória de reconfiguração da indústria mundial. a Política de Desenvolvimento Produtivo (PDP) de 2008 e o Programa Brasil Maior fase 1 (2011) e fase 2 (2012). porém de difícil realização. mas podem ter a economia brasileira no contexto da crise global 217 .a inovar e exportar dentro das principais cadeias de valor hoje presentes na eco- nomia mundial. com maior ou menor intensidade. De um lado. A retomada da expansão da maior economia global – os EUA – recoloca o mercado americano como poten- cial de exportações brasileiras desde que a indústria nacional consiga recuperar sua competitividade. Indústria e Comércio Exterior (MDIC). algumas cadeias produtivas poderão voltar a se localizar nos EUA. que permaneceu extremamente va- lorizada até 2011. fica claro que nos próximos anos a economia brasileira enfrentará um mundo diferente e mais competitivo. mesmo que o processo de urbanização em curso na Chi- na ainda se mantenha por um período mais longo. é alta a probabi- lidade de os EUA entrarem em um processo de reindustrialização centrado em uma renovada matriz energética. com destaque para a participação do xisto na geração de energia. De outro lado. que deverão passar do investimento para o consumo. Nos últimos anos. o governo federal. Essas políticas industriais tiveram sua eficácia diminuída por diferentes de- terminantes “sistêmicos” fora da alçada propriamente setorial ou empresarial. tem apresentado um conjunto de medidas de po- lítica industrial. Nesse contexto.

permitindo um patamar menor da taxa de juros básica. dimensão provisória e de curto prazo. Os pa- íses emergentes que mais se beneficiaram do crescimento do comércio mundial combinaram essa perspectiva com acordos internacionais que não se esgotam em reduções de tarifas. As estatísticas do setor externo não com- provam essa afirmação. Não resta dúvida de que essa abordagem passa pela questão tarifária e por acordos internacionais. esse sim é o vínculo que torna a abertura às importações um instrumento da industrialização e do desenvolvimento. de maior competitividade dentro do contexto das cadeias globais de valor. a política industrial não se configurou. contrarrestando os efeitos negativos da cri- se do biênio 2011-2012. que aborde uma política clara de inserção nas cadeias globais de valor. pode ser obtida com uma maior articulação das políticas macroeconômicas. a de dar benefícios fiscais às empresas para que os custos domésticos pelo menos se igualassem ao padrão internacional. sem a qual não atrairemos as grandes empresas internacionais. qual seja. onde era possível desenvolver vantagens competitivas. Assim. o índice de quantum das exportações permaneceu praticamente estagnado (+0. como um projeto de longo prazo. Além do câmbio e da política industrial.1%. Fica claro que. não foi por falta de importações que a indústria brasileira deixou de ser competitiva. torna-se imprescindível construir uma estratégia de comércio exte- rior mais ampla e abrangente. crian- do condições de a política industrial avançar. que explicitasse quais mudanças estruturais são necessárias para dotar o país.3%) e o mesmo indicador das importações cresceu 21. Nota-se que. outra questão é decisiva para a indús- tria brasileira: elevação da produtividade. O argumento se baseia na alegação de que a economia brasileira apresenta baixo grau de abertura medida pela relação de comércio ex- terior (exportação + importação)/PIB. De fato. nos seus diferentes setores. entre 2008 e 2012. importar para exportar. cujo objetivo foi potencializar exportações. atores principais dessas cadeias. mas é muito mais ampla e requer a construção de toda uma estrutura de produção industrial e de serviços asso- ciados. não basta abrir-se unilateralmente às im- portações. Na nossa visão. até o momento. Ou seja. Fatores conjunturais influenciaram os resultados da política industrial bra- sileira nos últimos anos e de alguma forma ditaram sua lógica. Alguns analistas apostam que somente uma nova rodada de abertura comercial conseguiria gerar um choque de concor- rência nos empresários. Uma taxa de câmbio mais favorável. nesse contexto. falta ao Brasil articular a equação externa do setor industrial. 218 a economia brasileira no contexto da crise global .

mar. 1994. 2013.br/midias/ artigos/5088640611078c37. 2013. Acesso em: 8 out. Fernando. 2012. v. 2013. ao contrário do que ocor- reu em muitas outras ocasiões – e a maturidade que a política industrial alcançou nos últimos anos.html >. formam um contexto favorável à retomada do crescimento industrial. HIRATUKA. Disponível em: <http://www. SARTI. Acesso em: 8 out.iedi. ipea. 2009.org. Causes of the slow rate of economic growth of the United Kingdon. DF: Ipea. Mansueto. as diretrizes de política econômica e de política industrial precisam responder algumas questões para avançar na construção de um plano de desenvolvimento de caráter mais estrutural e sustentado.br/cartas/carta_iedi_n_565. 565. Cambridge: Edward Elgar. Contribuições para uma agenda de desenvolvimento do Brasil. ______.org.iedi. São Paulo. (Texto para discussão.php?option=com_content&view=article&id=4988>. Disponível em: < http://www.eco.unicamp. Desafios da real política industrial brasileira do século XXI. Rio de Janeiro: Instituto de Economia da Universidade Federal. p. Contudo. In: KING. INSTITUTO DE ESTUDOS PARA O DESENVOLVIMENTO DA INDÚS- TRIA – IEDI. A oportunidade para que a economia brasileira conviva com uma taxa de câmbio competitiva – que não pode ser desperdiçada. Acesso em: 8 out.pdf>. 279-318. Acesso em: 8 out. Perspectivas do investimento no Brasil. br/neit/images/stories/arquivos/pib_sintese-industria_vfinal. A relevância da indústria de transformação: as experiências dos Senics e do Brasil comparadas. n. 2). Disponível em: < http://www. Carta Iedi.br/portal/index. 2013. São Paulo. SP: Instituto de Economia da Unicamp.456). Brasí- lia. 2013.gov.). Célio (Coords. Campi- nas. a economia brasileira no contexto da crise global 219 . (Projeto PIB – Perspectiva do Investimento no Brasil. Economic growth in theory and practice: a Kaldorian perspective. Quais serão o conteúdo e as articulações da política externa de acordos internacionais no contexto da atu- al fase da globalização? Como será o perfil da economia brasileira daqui a 20 anos? A capacitação dos recursos humanos está compatível com as alterações estruturais esperadas pela política industrial? Como se articularão os investimentos em infra- estrutura no planejamento desse desenvolvimento econômico pretendido? Referências ALMEIDA. J.pdf>. Nicholas. KALDOR. 2010. Disponível em: <http://retaguarda. E. 1. n.

FURTADO.2002. 163-185. Disponível em: < http://www.pdf>. João. SUZIGAN. 2005. 2006. Disponível em: < http://www. A natureza do crescimento econômico. Política industrial e desenvolvimento. p.scielo.org >. Revista Cepal. DF: Ipea.eclac. Política industrial e desenvolvimento. São Paulo. 2013.pdf>. 100. ______.unctad. abr. 2013. (Edição especial em português). 220 a economia brasileira no contexto da crise global . THIRWALL.br/pdf/rep/v26n2/a01v26n2. 2010. 2. n. Disponível em: <http:// www. Acesso em: 8 out. v. Wilson.cl/publi- caciones/xml/5/39555/RVPSuziganFurtado. Trade and development report . n. Revista de Economia Política. Brasília./jun. Anthony P. abr. Acesso em: 8 out. Acesso em: 8 out. UNITED NATIONS CONFERENCE ON TRADE AND DEVELOPMENT – UNCTAD. 26. 2013.

da ONU.99 23º 13.97 Portugal 11º 18.62 Brasil 5º 22.30 Grécia 25º 11.04 10º 22.10 25º 13.9 17.67 12º 20.67 5º 28.12 Filipinas 2º 28.82 4º 29.21 Malásia 26º 11.33 Japão 9º 19.54 Fonte: National Accounts Main Aggregates Database.6 China 22º 14.07 Itália 17º 15.98 27º 11.75 28º 11.85 Irlanda 27º 10.74 Coreia do Sul 30º 6.51 8º 23.97 Peru 8º 19.04 África do Sul 12º 17.02 1º 35.45 Indonésia 31º 6.68 Canadá 16º 15.21 24º 13.30 Venezuela 21º 14.13 Equador 29º 7.65 26º 11.84 México 14º 17.70 Alemanha 1º 29.65 7º 25.14 Polônia 28º 8.16 Chile 6º 21.90 16º 16. a economia brasileira no contexto da crise global 221 .79 Argentina 3º 27.12 20º 14.52 EUA 20º 14.23 22º 13.03 Colômbia 13º 17.49 31º 8.11 14º 18.10 17º 15.72 Índia 24º 11.55 19º 15.52 Reino Unido 10º 19.17 30º 9. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Participação do valor adicionado (va) da industria de transformação no total do valor adicionado (dados em US$ a preços constantes de 2005) Peso do Valor Adicionado da Peso do Valor Adionado da Indústria de Transformação Indústria de Transformação Países no Total do VA – 1970 no Total do VA – 2011 Ranking Ranking (%) (%) 1970 2011 Mundo 16.67 França 19º 14.84 15º 17. Anexo Tabela 1A.88 9º 23.92 3º 31.12 6º 25.74 Cingapura 4º 22.78 Turquia 23º 12.95 21º 14.86 2º 31.59 Austrália 7º 21.33 Espanha 15º 17.01 13º 19.84 18º 15.61 Tailândia 18º 15.13 11º 22.57 29º 10.

A crise internacional. se não foi capaz de inverter a tendência de melhora das variáveis mais gerais do mercado de trabalho brasileiro. em 2009. O objetivo deste texto é retratar a evolução do mercado de trabalho brasi- leiro após o impacto da crise financeira internacional no país. As carac- terísticas positivas alcançaram tal expressão que ensejaram um debate acerca de uma eventual situação de pleno emprego verificada na economia brasileira em fins dos anos 2000. podendo-se utilizar como exemplos a queda da taxa de desemprego. especialmente na geração de empregos formais. As discussões concernentes ao mercado de trabalho voltavam-se mais à qualidade dos empregos gerados do que à capacidade da economia brasileira de criar novas ocupações. Para tanto. Afinal. para 222 a economia brasileira no contexto da crise global . recuperam-se os principais indicadores desse mercado desde 2006. retirou a segurança dos estudiosos de que os números positivos alcançados seriam uma conquista que persistiria no curto prazo. o aumento do grau de formalização dos empregos e a elevação do rendimento médio real dos ocupados. era patente a escassez de mão de obra (especializada e não especializada). em algumas regiões e para algumas atividades produ- tivas. CAPÍTULO 7 O Mercado de Trabalho Brasileiro no Pós-crise: Uma recuperação com fragilidades Adriana Nunes Ferreira Luciana Portilho Daniela Salomão Gorayeb A retomada do crescimento da economia brasileira na primeira década do século XXI foi um elemento fundamental para explicar o bom desempenho de alguns indicadores gerais do mercado de trabalho. A principal fonte de indagação passou a residir na capacidade do setor industrial brasileiro e dos serviços produtivos diretamente vinculados a ele de manterem os bons resultados.

Brasil. a partir dos dados da Pesquisa Mensal de Emprego (PME). Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Na primeira delas. O mercado de trabalho brasileiro: dinamismo apesar da crise Nesta seção.0 7. por sua vez. antes e depois de 2009. apresentará indicadores sobre a qualidade dos postos de trabalho gerados: a posição na ocupação – com vistas a avaliar o movimento de formalização dos ocupados. do Instituto Brasileiro de Geografia e Gráfico 1.0 5. O Gráfico 1 mostra a evolução do rendimento médio real.0 2.5 4.5 3.5 8.5 7.0 8.0 4.0 jul/06 jul/07 jul/08 jul/09 jul/10 jul/11 jul/12 nov/06 nov/07 nov/08 nov/09 nov/10 nov/11 nov/12 jan/06 set/06 jan/07 set/07 jan/08 set/08 jan/09 set/09 jan/10 set/10 jan/11 set/11 jan/12 set/12 mai/06 mai/07 mai/08 mai/09 mai/10 mai/11 mai/12 mar/06 mar/07 mar/08 mar/09 mar/10 mar/11 mar/12 Rendimento médio real Ocupação Massa rendimento real Fonte: PME-IBGE. o que nos propiciará compreender as mudanças na dinâmica setorial da geração de emprego. ocupação e massa de rendimento no período entre 2006 e 2012. A terceira seção.5 9.0 6.0 1.5 0.5 6. ano em que os efeitos da crise internacional se refletem mais intensamente na atividade econômica brasileira. a economia brasileira no contexto da crise global 223 .que seja possível a comparação com o cenário pré-crise. ocupação e massa de rendimento real das 6 RMs – variação acumulada em 12 meses 9.5 1. será tratada a distribuição setorial das ocu- pações. Evolução do rendimento médio real. O artigo está dividido em três seções.0 3. Na segunda seção.5 2. será realizada uma comparação entre dois períodos.5 (Em %) 5. a taxa de desemprego e seus determinantes. analisam-se informações referentes ao di- namismo mais geral do mercado de trabalho: a massa de rendimentos e seus componentes – a ocupação e a renda real média. Sempre que possível. apresentam-se as informações sobre o mercado de trabalho brasi- leiro que permitem definir a sua dinâmica geral no período recente (2006-2012).0 0. a geração de vagas formais por faixa salarial e a taxa de rotatividade do mercado de trabalho brasi- leiro nos últimos anos.

5%) do que era no início (10% na média do ano de 2006). São Paulo e Porto Alegre. Após esse período de queda. Gráfico 2. Estatística (IBGE).0 4. no final do período analisado. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.0 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Fonte: PME-IBGE. Belo Horizonte. Nesse momento de declí- nio. a queda é muito significativa (a taxa atinge 6. pode-se observar a manutenção da taxa de crescimento da massa de rendimentos reais em elevado patamar (em torno de 6% em 12 meses). a taxa de crescimento das ocupações se recupera. com uma breve queda no final de 2009 e início de 2010. 224 a economia brasileira no contexto da crise global .0 10.3 (Em %) 7. porém.0 9. No entanto.0 2. Em 2009.7 6. a taxa de crescimento da massa real de ren- dimentos alcança. visivelmente se detecta a queda do ritmo de crescimento das ocupações ocorrendo antes do que a diminuição da taxa de crescimento do rendimento médio real. Rio de Janeiro. em 2010. Nele.0 5. apesar de se estabelecer em um nível inferior ao período 2007- 2008 (2% versus 3%).5 6. Taxa de desocupação das 6 regiões metropolitanas – 2006 a 2012 12.0 6.0 0. No final do período analisado (2012). a taxa de desemprego é quase a metade (5.7% da População Eco- nomicamente Ativa (PEA). Brasil. Salvador. mesmo com a desaceleração do crescimento econômico. Por conta da contribuição do aumento significativo do rendimento médio. que capta as informações de seis regiões metropolitanas do Brasil1. no período mais recente (2011-2012). o movimento de diminuição da taxa de desocupação permanece. o ritmo de crescimento do rendimento médio real é maior do que o observado no pré-crise de 2009 (5% versus 4%).9 8. 1.0 10. O crescimento persistente do número de ocupados se reflete na queda da taxa de desocupação (Gráfico 2). Em 2011 e 2012. As regiões metropolitanas (RMs) são: Recife. um patamar bastante elevado (7% em 12 meses).1 8. ocorre um leve aumento na taxa média anual.

tanto das ocupações como do rendimento médio. e (2) o aumento da população não economicamente ativa. que o elevado ritmo. a taxa foi de 90% da PEA e. nota-se uma visível de- saceleração da sua queda no final de 2011 e em todo o ano de 2012. se- paradamente: (1) o aumento da taxa de ocupação. o crescimento do emprego oferece vagas às pessoas à procura de ocupação e. apresentando apenas um pequeno decréscimo em 2009. em 2012. conforme Tabela 1. chegou a 94. Gráfico 3. Brasil. A Tabela 2 mostra o a economia brasileira no contexto da crise global 225 . quando comparadas ao mesmo mês do ano anterior.4% nesse período. O crescimento da taxa de ocupação deve-se ao aumento gradativo do número de ocupados em todo o período analisado (desde 2006 e. Mesmo que as taxas de desocupação mensais permaneçam diminuindo. A variação média anual de crescimento foi de 2. Taxa de desocupação das 6 regiões metropolitanas – 2006 a 2012 11 10 2006 9 2007 8 (Em %) 2008 7 2009 6 2010 5 2011 4 2012 3 Jan Fev Mar Abr Mai Jun Jul Ago Set Out Nov Dez Fonte: PME-IBGE. neste trabalho. período no qual as taxas mensais se aproximam muito das referentes ao ano anterior (Gráfico 3). Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. seja a causa responsável pela queda da taxa de desocupa- ção. A taxa de ocupação (participação da população ocupada no total da po- pulação economicamente ativa) cresceu gradualmente ao longo do período (2006-2012). até mesmo.5% (Gráfico 4). em 2009). a elevação do rendimento médio permite a sustentação da renda familiar em um nível suficiente para postergar a entrada dos jovens no mercado de trabalho ou possibilitar a aposentadoria dos mais velhos. Defende-se. Vale atentar-se para as duas causas da diminuição da taxa de desemprego. De um lado. Outro fator que afeta a queda da taxa de desemprego diz respeito ao incre- mento da População Não Economicamente Ativa (Pnea). de outro. Em 2006.

040 16.409 17. Taxa de ocupação (PO/PEA) das 6 regiões metropolitanas – 2006 a 2012 94.3 2012 11. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.494 17.435 2.019 3.2 Var. Elaboração: Grupo de Economia/Fundap. Brasil.7 (Em %) 91 90.6 2008 21.549 6.4 2009 11.0 90 89 88 87 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Fonte: PME-IBGE. Tabela 2.318 63. média anual 2.473 2.753 63. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Gráfico 4.183 17.9 0.3 2011 11. População não economicamente ativa – 2006 a 2012 (em mil pessoas) Part.4 Fonte: PME-IBGE. Tabela 1.7 2008 11.806 64.3 93 92.085 63. Número de pessoas ocupadas em 6 regiões metropolitanas (em milhares de pessoas) População Ano Var.9 1.441 17. 226 a economia brasileira no contexto da crise global .2 2010 11.766 6.491 6. Brasil.536 18.9 1. Ano Mulheres Homens Total Mulher Var.901 6.9 92 90.699 63.957 2.5 2011 22. (%) Ocupada 2006 19.926 2007 20.243 17.7 2010 22.258 6.0 94 93.9 0.6 Fonte: PME-IBGE.1 91.344 6.276 0.122 3.085 63.6 2. Brasil.985 63. (%) (%) 2006 10.074 6.5 94.4 2009 21.1 2007 10.8 1.1 2012 22.

Ademais.aumento contínuo dessa variável ao longo do período analisado (em média. os mais idosos deixam o mercado de trabalho ao encontrarem essa oportunidade para. entre as mais jovens) e participavam de formas de ocupação mais precárias do que as dos homens. autoconsumo. A explicação para esse fenômeno reside no incremento mais expressivo das ocupações das mulheres. principalmente.0 76 .0 set/ 11 set/ 12 set/ 09 set/ 10 set/ 06 set/ 07 set/ 08 jan/ 12 jan/ 10 jan/ 11 jan/ 08 jan/ 09 jan/ 06 jan/ 07 mai/ 12 mai/ 09 mai/ 10 mai/ 11 mai/ 06 mai/ 07 mai/ 08 Fonte: PME-IBGE.0 Em % 84 . Ademais. Assim.. Essa informação é coerente com o aumento da participação da faixa etária de maior idade na Pnea. já que uma das atividades cujas vagas mais cresceram nesse período foi a da construção civil. segundo (BALTAR et al. Brasil. verifica-se que o ritmo de crescimento das mulheres na Pnea é um pouco menor do que o dos homens.0 88 . Participação da Pnea que não gostaria de trabalhar no total da Pnea das 6 regiões metropolitanas – 2006 a 2012 92 0 90 . as mulheres ainda apresentavam taxa de desemprego mais alta do que a dos homens (em qualquer faixa etária. de fato.0 78 . majoritariamente ocupada por homens. visto que. as atividades de serviços domésticos. mas. Mesmo assim. como empregos não formais. Gráfico 5. Ou seja.4% ao ano). Esse dado causa. empregos domésticos e trabalho não remunerado. se aposentarem. 2010). surpresa.0 86 . uma das hipóteses levantadas é a de que as vagas em alguns setores de comércio e de serviços atraíram as mulheres. Pode-se afirmar que o aumento da Pnea não está relacionado ao crescimento da desocupação por desalento ou pelo trabalho precário. apresentaram redução no número de ocupa- ções.0 82 .0 80 . conforme mostra o Gráfico 5. em 2008. houve elevação da parcela da Pnea que não gostaria de traba- lhar (em torno de 83% em 2006 e de 88% em 2012). sobretudo as mais jovens. à primeira vista. ao contrário da construção civil. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. tipicamente ocupada por mulheres. 1. a economia brasileira no contexto da crise global 227 .

79 14. reduz-se o número de pessoas consideradas desempregadas. Assim. nota-se que a queda da taxa é generalizada nesse período.4 -46.43 4. Confron- tando esse dado com as informações da Pnea (Gráfico 6).03 13. Brasil.84 7. Pessoas não economicamente ativas.72 2007 31. Brasil.99 19.65 17.58 2.50 2.26 2012 22.94 5.21 3.5 -41. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Mais uma vez.23 2008 28.69 6. 228 a economia brasileira no contexto da crise global . por grupos de idade nas 6 regiões metropolitanas – 2006 a 2012 – Participação (%) 50 % 45 % 40 % 35 % 30 % 25 % % 20 % 15 % 10 % 5% 0% mai/ 06 mai/ 07 mai/ 08 mai/ 09 mai/ 10 mai/ 11 mai/ 12 set/ 06 set/ 07 set/ 08 set/ 09 set/ 10 set/ 11 set/ 12 jan/ 06 jan/ 07 jan/ 08 jan/ 09 jan/ 10 jan/ 11 jan/ 12 10 a 14 anos de idade 15 a 17 anos de idade 18 a 24 anos de idade 25 a 49 anos de idade Fonte: PME-IBGE.42 4. com menos pessoas procurando por ocupação. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.2 Fonte: PME-IBGE. pode-se afirmar que a diminuição do desemprego nesta última faixa etária deve-se mais ao fato de que essas pessoas optaram por sair do mercado de trabalho e menos porque aumentou o seu grau de ocupação.79 2009 28. com especial ênfase para as pessoas com mais de 50 anos de idade (Tabela 3).28 2. Taxa de desocupação por grupos de idade – 2006 a 2012 50 anos ou Ano 15 a 17 anos 18 a 24 anos 25 a 49 anos mais 2006 32.01 12.0 -39.33 6.57 3.00 Var.00 2010 25. Gráfico 6.62 21. Se analisada a taxa de desocupação por gru- pos de idade. Tabela 3.61 3.06 7. (%) -32.43 2011 23.85 2. é possível atribuir esse movimento ao crescimento da renda familiar. que permite a aposentadoria dos mais velhos.80 16.

8 Fonte: PME-IBGE.4 -45. (%) -49.08 12.30 Var.48 5. a diminuição da taxa de desocupação está relacionada ao aumento das vagas e.54 9. a diminuição deve-se à saída das mulheres dessa forma de ocupação para outras menos precárias (como o co- mércio e outros serviços).27 2007 8. no terceiro. comércio e nos servi- ços domésticos. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.53 7. Conforme Baltar e Leone (2012).2 -42. a melhora do mercado de trabalho assala- riado tem proporcionado uma oportunidade alternativa ao emprego doméstico remunerado. mesmo com rendimentos elevados.52 2011 4. ex- tremamente baixos). Pela baixa taxa de desocupação nas atividades de construção e de serviços domésticos é que se podem contextualizar alguns argumentos a respeito de uma possível situação de pleno emprego no Brasil. observa-se que a queda da taxa de desocupa- ção também ocorreu de forma generalizada (Tabela 4).76 10.05 5. a economia brasileira no contexto da crise global 229 .55 2009 6. deve-se salientar. Taxa de desocupação das pessoas de 10 anos ou mais de idade por anos de estudo – 2006 a 2012 Sem instrução e 8 a 10 11 anos Anos menos de 8 anos anos ou mais 2006 8. como será visto a seguir. A Tabela 5 mostra que há uma queda muito intensa da taxa de desocupação entre aquelas pessoas que trabalharam na construção civil.68 7. perante o histórico recente de ganhos nessas atividades (que são. Tabela 4. De fato. principalmente.94 13. Em termos do grau de instrução. A diminuição um pouco mais pronunciada do desemprego entre as pessoas na menor faixa de instrução provavelmente está relacionada ao grande dinamismo que tiveram os setores de construção civil e de comércio na geração de empregos nesse período. Nos dois primeiros setores. em empregos formais de estabelecimento.60 8.75 2012 4. houve uma clara dificuldade para obter mão de obra e mantê-la nessas atividades.82 2008 6. sobretudo em algumas regiões do país. na próxima seção deste capítulo.53 7. o que tem causado a di- minuição.64 10.96 2010 5.07 6. Brasil. das mulheres mais jovens no emprego doméstico.66 9.95 8.

43 2. seja na renda real do trabalho.27 1.97 1.5 -32.52 3. Indústria.02 2012 3.1 -56. social.95 3. rep. Os Gráficos 7 e 8 exibem. Esse dinamismo foi o responsável.1 -30.96 4.18 2.09 4.56 4.97 4.40 3.39 1. e de Serviços Outros Ano distribuição de eletri. Brasil.76 3. o crescimento da PO em cada período pela par- ticipação do subsetor no total da ocupação. pela sustentação do ciclo de crescimento fortemente centrado no consumo doméstico.8 -48.33 1.08 3.18 1. financ. Nas próximas seções.75 4. seguridade de veíc.93 4.57 2009 4. Compreender a dinâmica setorial da geração de emprego permite encontrar explicações para a superação de alguns desafios. são analisados os dados em nível setorial. A contribuição é obtida ponderando.30 2. à empresa.17 2011 3. de- Comércio. Construção aluguéis.02 2010 3. educ. A análise mais geral do mercado de trabalho brasileiro revela um grande di- namismo antes da crise. ocorre um arrefecimento do ritmo de crescimento das ocupações. Púb. seja no quantum de ocupações. Taxa de desocupação das pessoas de 10 anos ou mias de idade por setor – 2006-2012 Adm.48 4.01 Var (%) -29. para cada subsetor. fesa. gás e água e interm.97 3.09 2008 3.73 3. objetos pessoais domésticos serviços cidade.61 3.76 4. Tabela 5. saúde e serviços e domésticos sociais 2006 4. Distribuição setorial das ocupações: dinamismo centrado nos serviços Uma das formas de aprofundar a análise do mercado de trabalho consiste na abertura dos dados em nível setorial.67 5.33 3.16 3.98 3.54 4.63 3.85 3. ativ.82 4.19 2. em grande parte.28 2.5 Fonte: PME-IBGE.40 4.46 2007 4. 230 a economia brasileira no contexto da crise global .7 -28.1 -34.. ainda que não se verifiquem um aumento das taxas de desemprego ou queda do rendimento médio real. a contribuição dos subsetores IBGE para o crescimento da população ocupada (PO) e as taxas médias de cres- cimento da PO de cada subsetor no período 2006-2012.71 1. respectivamente. imob. No pós-crise.26 2. bem como informações que nos dão indicação acerca da qualidade dos postos de tra- balho gerados no período entre 2006 e 2012.23 2. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.75 4. bem como constatar a permanência de algumas fragilidades do mercado de tra- balho brasileiro.88 3.. produção e Serv.50 4.96 1.

Gráfico 7. tiveram uma contribuição inquestionável para o crescimento da população ocupada nas seis regiões metropolitanas do Brasil no período 2006-2012. seg 40 % 20. As atividades que compõem o setor de serviços. rep de veíc autom e de objetos … 1. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Brasil.9 Outros serviços 3.0 21.8 3. 7 .5 29. excetuando-se a ca- tegoria dos serviços domésticos. rep de veíc autom e de 4.1. educ.5 7.2 objetos pessoais e domésticos 0% .4 13.0 0.6 social. 3 Construção .0 Interm finan e ativ imob. saúde e … 3. transf e prod e distrib de 2006 2009 2012 2006 .4 16.0 4.0 Total 2.4 Comércio.46. como atestam os dados referentes ao ano de 2012 e a média do período 2006-2012 (Gráfico 7). de uma forma geral.0 Serviços domésticos -1.2 Comércio. Nesse subsetor. Gráfico 8. Taxa de crescimento médio anual da população ocupada das 6 regiões metropolitanas – 2006 a 2012 (em %) Interm finan e ativ imob.6.2012 el.0 3.4 .2 . saúde e serv sociais 40. al e serv 20.4 60 % 16.40 % Fonte: PME-IBGE.3 -2. gás e água . Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.0 2. defesa.0 Outras atividades -1. Enquanto a taxa de crescimento médio total da po- a economia brasileira no contexto da crise global 231 . Contribuição dos subsetores para o crescimento da população ocupada nas 6 regiões metropolitanas – 2006.2 30.9 34.0 Fonte: PME-IBGE. educ.4 20.8 Serviços domésticos 52.2 12.9 80 % Outros serviços 10.5 14. Brasil.0 .0 22.2 19.5 Construção 3.9 11.0 -1. 2009 e 2012 100 % Outras atividades 20. transf e prod e distrib de el. gás e água 1.2 Adm pública. defesa.1 Adm pública. al e serv pres à empresa 4.2 12. houve até diminuição no número absoluto de pessoas ocupadas.9 20 % pres à empresa 12.20 % Ind extr. seg social.0 1. As atividades de serviços e as de comércio corresponderam a 80% das ocupa- ções geradas nesse período.0 5.6 Ind extr.

1 80 % Outros serviços 23 .20 % Fonte: PME-IBGE. seg social. não apresentam uma contribuição para o crescimento da massa de rendimentos tão significativa quanto para o crescimento da população ocupada (Gráfico 9).6 45. Gráfico 9.8 2 . rep de veíc autom e de objetos 20 % 4 .0 16 . em função de apresentarem rendimento médio baixo – visto que a grande maioria da população ocupada nessas categorias recebe remuneração de 1 salário mínimo (Gráfico 10) –. respectivamente. al e serv pres à empresa 8 .2 20. educ. As atividades de serviços domésticos. a contribuição dos subsetores para a massa de rendimentos (rendimento médio multiplicado pela população ocupada) e o rendimento médio real de cada subsetor.1 0% 2 .5 Interm finan e ativ imob.5% ao ano.4 e serv sociais 40 % 24. transf e prod e distrib de el.4% ao ano entre 2006-2012. construção civil e comércio.0 8 .2% das ocu- pações criadas nesse período (Gráfico 8). no ano de 2012. Brasil– Contribuição dos subsetores para o crescimento da massa salarial real nas 6 regiões metropolitanas (em %) 100 % 4 .7 22.0 13 . Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.9% ao ano). pulação ocupada foi de 2. as maiores contribuições para o crescimento da massa de rendimento vieram de 232 a economia brasileira no contexto da crise global .7 13.5 pessoais e domésticos 9 . apresentou uma contribuição significativamente superior à desse setor (12.9 Construção 18. embora tenha na população ocupada um peso bem menor que o da indústria.1 27. situando-se atrás apenas de “intermediação financeira e atividades imobili- árias e serviços prestados às empresas”.8 12.9 Serviços domésticos 60 % Adm pública.0% ao ano (Gráfico 7). gás e 2006 2009 2012 2006 .6 Outras atividades 4 .1 24. Os Gráficos 9 e 10 trazem. A atividade de construção civil.2012 água . em média. contribuindo com 7. que apresentou uma taxa de 4.3 2 . defesa. a preços de janeiro de 2013.2%. saúde 25 . A taxa de crescimento médio das ocupações nesse setor foi a segunda maior do período analisado (3.5 Comércio. a da indústria (extrativa e transformação) foi de 1.9 11.6 11. no período) para o total do crescimento da ocupação.0 10.7 16.5 Ind extr. As maiores contribuições aparecem naqueles setores de serviços para os quais o núme- ro de pessoas ocupadas é importante e o rendimento médio se estabelece próximo ou superior ao da média total das atividades produtivas: no período 2006-2012.5 4 .9 15.

que nem mesmo o impacto da crise econômica no Brasil conseguiu a economia brasileira no contexto da crise global 233 . com os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) (que englobam os municípios dos estados brasileiros.00 3. observando que esses são os dois subsetores que exibem os maiores rendimentos por pessoa ocupada. Os dados reforçam o argumento de que o ciclo recente de crescimento da economia brasileira beneficiou mais.437 . A Tabela 6.85 sociais 0. sobretudo aqueles que utilizam mão de obra menos qualificada. armazenagem e comunicação (com 4% a. traz as variações médias anuais da ocupação.9% ao ano) e transporte.876 .00 R$ a preços de 2013 Fonte: PME-IBGE. al e serv pres à empresa 2.2% a. O setor de construção civil também apresentou um crescimento dos ocupados bastante acima da média geral (5. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. tem uma contribuição maior para a massa de rendimentos (12.00 2. os setores de serviços. por apresentar rendimentos superiores à média.62 domésticos Construção 1. defesa. transf e prod e distrib de el.93 Interm finan e ativ imob.66 Comércio. por grupamento de atividade. Um fator que pode ter contribuído para isso foi o forte crescimento do financiamento habitacional desde o início de 2005. saúde e serviços sociais (24.504 .67 Ind extr.529 . em 2012 (em R$ preços de jan. além dos das regiões metropolitanas). seg social. seguridade social.306 . educ.000 .000 ./2013) Serviços domésticos 733 . superiores aos da indústria (Gráfico 10).2%).a.71 Outras atividades 1.06 Adm pública. rep de veíc autom e de objetos pessoais e 1.810 .17 Total 1.9% entre 2003 e 2011).a. Esse crescimento pode estar relacionado a considerável elevação do consu- mo de bens e serviços pelas famílias.).89 Outros serviços 1. defesa. Brasil – Rendimento médio real nas 6 regiões metropolitanas.000 .). no período em análise. gás e água 1.586 .9%) e intermediação financeira e atividades imobiliárias e serviços prestados às empresas (22. como alojamento e alimentação (com uma taxa de variação média anual de 5.4% do total).Gráfico 10. educação.593 . administração pública. em termos de geração de novos postos de trabalho. saúde e serv 2.1% no período 2006- 2012) do que apresenta para o crescimento da população ocupada (7. outras atividades de serviços (4. A indústria.00 1.

9 Construção 5.540 5.7%.537. a evolução da relação crédito/PIB do segmento habi- tacional quase quadruplicou.3 9.4 Outras atividades 5.154.1 3.989 5.982.652.2 -4.938 1.8 Outras atividades industriais 645.265.569.083.2 -13.858 -5. por sua vez.628 16.1 7. mostrou um resultado ruim em termos de geração de vagas.0 0.119.274 7.9 4.7 Atividades maldefinidas 198.5 0.277 1.0 1.014 4.595.989.8 Comércio e reparação 14.775 6.481 92.530. Ressalte-se que esse setor é responsável por 12% das ocupações.626.523.5 Administração pública 3.940 4.7 Transporte. 234 a economia brasileira no contexto da crise global .603 129.682.878 3.2 17.786.394.846 2. sociais e pessoais 2.2 Outros serviços coletivos.3 0.570 11.5 -3.156 16. passando de 1. saúde e serviços sociais 7. entre os anos 2003 e 2011.1 Agrícola 16.9 12.048 2.814.493. ofertante de empregos de altos salários.632 4.627. o seu desempenho após a crise foi negativo.0 15. Interessante sublinhar.622 16. em novembro de 20112.420 200.606 5. em janeiro de 2005.067 1.3%. Sobre a evolução do crédito habitacional.568.144 3.892.232 14.585 93.343 8. com relativo alto nível de formalização.740 7.0 -3.712 722. a movimentação que ocorreu na categoria de atividades de serviços domésticos.9 0.882 8. em termos do aumento das ocupações (-3.092.0 3.724.8 Indústria de transformação 10.877.4 4.215.371 5. Grupamentos de atividade principal do empreendimento do trabalho principal da semana de referência para pessoas de 10 anos ou mais de idade – Classificados por ordem decres- cente de variação – 2003 a 2011 Pessoas ocupadas % ao ano Part.402 13. Tabela 6. para 4.0 Fonte: Pnad-IBGE. Pelos dados da Pnad.001 6.621 6. Entre 2005 e 2011.404 729.9 8.100 4.6 5. reverter. Brasil.4 -0.) e foi quase nulo (0.4 100.1% das ocu- pações totais brasileiras.7 3. o crescimento médio durante o período analisado foi menor do que a média do país (1% a.843 4.134. Representando 7.100.538.163.2 8.1%) no período entre 2.018 2. e usualmente demandante de mão de obra mais qualificada. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.6 Serviços domésticos 6.2 4.109.904.4 Educação.131 4.219. principalmente considerando o período após 2008. ver Fundação do Desenvolvimento Administrativo (2012b).592.896 1.9 5. apesar de esse setor ter apresentado um crescimento médio de 1% ao ano. armazenagem e comunicação 3.081. (%) Grupamento de Atividade 2003 2008 2011 2011/2003 2011/2008 2011 Alojamento e alimentação 2.4 8.091 -1.3 0.a.9% ao ano).660.171.164 8.424 3.1 Total geral 80. A indústria de transformação. pelos dados da Pnad.

a sociedade brasileira esteve pronta para ampliar os direitos trabalhistas dessa categoria de ocupação.250 786.865 485. que a situação de relativo maior poder de bar- ganha em que se encontram os empregados domésticos ante seus empregadores (obtendo registro da carteira de trabalho.755 197.609 587. em 2008.185 254.984 17.178 148. maiores rendimentos e condições de trabalho mais decentes) constitui uma evidência importante a respeito da dinâmi- ca positiva do mercado de trabalho brasileiro no período analisado. com informações advindas do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).238 Agropecuária. A análise da distribuição setorial dos empregos formais pelo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged) e pela Relação Anual de Informações Sociais (Rais).965 4.868 177. ano em que os efeitos da crise internacional atingem com mais vigor a estrutura produtiva brasileira.566.752 7.136.627 11. Talvez.028 174.258 500.488 -24.5 milhão por ano de empregos celetistas).498 -1.960 70. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Em 2009.036 16.570 270.052 9.854 7. Pelos dados do Caged (Tabela 7). Considerando que a demanda por esse tipo de trabalho cresceu.232 -15.946 50. principal- mente em algumas regiões do país.584 178. Brasil.794 405.347 501.393 Serviços 521. como a geração de 400.103 648.218 297.111 2.343 17. ainda que deva ser registrado saldo Tabela 7.617.253 15.574 21. compreende-se a relativa escassez de oferta para esse tipo de atividade.157 519.796 176. extr. e 650 mil empregos formais no setor de serviços.686 1.000 vagas na indústria de transformação.392 1.682 Indústria de transformação 250. em 2007.177 864.228.671 2. a diminuição de criação de vagas é patente.613 368.675 10.762 8.075 5. como o FGTS e pagamento de horas extras. até então alijada de direitos básicos do trabalhador brasileiro. Alguns números saltam aos olhos nesse período.452. observa-se que os anos de 2006. vegetal.836 9.091 382.2008 e 2011.533 Administração pública 8. reforça as conclusões alcançadas a partir dos dados da Pnad. a economia brasileira no contexto da crise global 235 .368 -25.239 394.316 18.369 7. 2007 e 2008 foram pródigos na criação de empregos formais (quase 1.896 Comércio 336. por esse motivo.252 10. muito provavelmente por conta da migração dessas trabalhadoras para outras atividades de serviços pessoais que demandassem certo grau de qualificação.564 Total 1.670 8.674 33. caça e pesca 6.203 995.222 Serviços industriais de utilidade pública 7.947 1.043 868. neste trabalho.093 18. Defende-se.317 Construção civil 85. Criação líquida de vagas – 2006 a 2012 IBGE Setor 2006 2007 2008 2009 2010 2011 2012 Extrativa mineral 12.241 Fonte: Caged-MTE.

por Almeida e Novais. de 5. mesmo nesse curto espaço de tempo. o que poderia ter postergado os efeitos da segunda fase da crise econômica mundial no mercado de trabalho brasileiro. 236 a economia brasileira no contexto da crise global . Nos anos 2007 e 2008. A indústria de transformação. sendo retomado em 2010 (10. bastante impactada em 2009. Nos anos seguintes.000 empregos formais cele- tistas). so- bretudo na indústria de transformação e construção civil. o ritmo de crescimento da produção industrial se reduziu. líquido positivo em todos os setores. Os sinais de desaceleração na criação de vagas só aparecem em 2012. sobretudo no ano de 2010. em 2011 e 2012 o setor industrial observou uma forte desaceleração. que a taxa de crescimento dos empregos no primeiro período. irrompida em finais de 2008. atingindo 3. pelo crescimento da demanda interna. se mantém no período pós-crise (6% ao ano). 4. A primeira diz respei- to à recuperação das ocupações formais após a crise internacional. indús- tria de transformação e administração pública). principalmente. a também desaceleração da criação de vagas. neste último ano. e inclui os trabalhadores sob regime estatutário). os setores de comércio. enquanto os demais mostraram taxas inferiores (notadamente.9% ao ano no total do estoque da Rais. Isso porque. Sobre a importância do crescimento do consumo das famílias para o crescimento do PIB. com efeito.3%). A segunda constatação está relacionada ao ritmo destoante de aumento das vagas formais entre os diversos setores. implicando. No entanto. com um saldo positivo de mais de 2 milhões de vagas. Observa-se. por ano e por setor. Conforme indicado no capítulo 6 deste livro. ver: Fundação do Desenvolvimento Administrativo (2011 e 2012). há uma pequena mudança na composição setorial do emprego 3. apresenta nesse ano de 2010 um desempenho extraordinário (quase 500. é possível extrair duas considerações importantes (Tabela 8). impul- sionada pelo aumento tanto da massa de rendimentos como do crédito para as famílias4. por conta de um novo arranjo da política econômica do governo Dilma. movida. apesar de setores como comércio e serviços também terem apresentado desempenho inferior aos anos anteriores3. com a exceção do setor primário. durante todo o período (2006-2011). Se forem analisados os dois períodos – pré-crise (2006-2008) e pós-crise (2009-2011) – pela Rais (que traz os estoques de emprego formal em 31 de de- zembro.1%. nota-se uma evolução grande e sustentada. No ano seguinte. construção civil e serviços apresentaram taxas de crescimento significativamente maiores do que a média total. a recuperação na geração de postos formais de trabalho foi vigorosa. com aumento da produção industrial de 6%. Sendo assim. O capítulo 5 deste livro aponta que havia uma expectativa de retomada da economia brasileira. o setor industrial apresentou altos e baixos no período pós-crise.

9 6. Analisando os subsetores mais detidamente (Tabela 9).5 Serviços industriais de utilidade pública 4.8% do total das vagas em 2006. que atualmente já englobam a maior parte das vagas formais brasileiras.0 5. pelo lado da importação ou das exportações. reduz sua participação para 17. Taxa média de variação anual e participação do emprego formal (em %) Variação Anual Média (%) Participação (%) IBGE Setor 2008/2006 2011/2009 2006 2011 Extrativa mineral 5.7 e 4.2 Administração pública 3. ainda apresentam ganho de participação nesse período (de 31. formal no Brasil.2 13. Os subsetores com melhor dinamismo em termos de geração de emprego formal foram: indústria mecânica (7.3 5.6 7. por- tanto.5 0.5 Indústria de transformação 5.8 5.9 Construção civil 17.9 Comércio 7.0 100.5% e se situa com uma im- portância menor do que o comércio (19.2%). veterinários e perfumaria (6.9% para 33. Brasil.9 33.2% versus 5. Tabela 8.9 22. que compreendia 18. aparecia atrás desse setor.7%). contribuindo.2% do total). os subsetores da indústria de transfor- mação apresentaram desempenho heterogêneo no que tange à criação de vagas formais. a economia brasileira no contexto da crise global 237 .8 31. indústria da borracha. similares. portanto. é possível encontrar algumas mudanças importantes na composição do emprego no interior dos gran- des setores.4 3. caça e pesca 2.1%). São estes subsetores: indústria da madeira e do mobiliário (1.6% ao ano).6 4. com 18. em 2006.0 Fonte: Rais-MTE. indústria do material de transporte (6. farmacêutica.2 Total 5.7 Agropec.1 Serviços 5.1 e 3.0 19.3 1.0 100.0 18.0 0. foram afetados pela valorização cambial brasileira desse período e pela devastadora concorrência chinesa. Nesse período (2006-2011).4%) e indústria de produtos minerais não metálicos (6. indústria química.3 0.0 19.9%). que. para o baixo crescimento do emprego formal da indústria nesse período.9 3. que. fumo.3%).9 3. couros. peles..2 18.0% do emprego total.7 1. A indústria de transformação. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. Poder-se-ia afirmar que os subsetores com pior dinamismo foram aqueles fa- bricantes de produtos tradables e.8 17.5 1. extração vegetal.8 7. As atividades de serviços. Os dois setores mais empregadores (o de alimentos e bebidas e o têxtil e vestuário) tiveram crescimento médio anual abaixo da média total e da média da indústria de transformação (3.

951. fumo.230 1.401 261. editorial e gráfica 360. reparação.460 2.247 4.488 955.503 41.406.388.173 14.053 4.8 Indústria de produtos minerais não metálicos 321.259 3.288 2.. Transportes e comunicações 1.249 39.324 1.913.024.1 Comércio e administração de imóveis.082 4.310.132.6 Comércio varejista 5.645 479.775 515.970 9.441.8 Total 35.594.324 408.514 1.483.103.185 1. 673.7 Construção civil 1.649 1.9 Instituições de crédito.106 920.587 715.764 1.9 Indústria de materiais elétricos e de comunicações 243.555 386.2 Indústria de produtos alimentícios.108.353.422 1..370 385.378 3. Brasil.573.575 1.188.515 730.841 300.379 412.396 6.341 7. silvicultura.263 811.594.8 Administração pública direta e autárquica 7.936 208. Indústria têxtil do vestuário e artefatos de tecidos 874.461.016 7.7 Fonte: Rais-MTE.741 3.805 4.960 3.831.482 6. valores mobiliários.6 Indústria do papel.3 Serviços de alojamento. couros.763.362 6.1 Ensino 1.565 375.518 2..692.237 7.529 306.6 Comércio 6.008.785.367 385.310.393. alimentação.446 1.132 2.869 369.793 304.364.111.904 1.207.6 Indústria do material de transporte 437.330.790 1.2 Serviços industriais de utilidade pública 344.209 6.045 4. criação de animais.0 Indústria mecânica 415. odontológicos e veterinários 1. extrativismo vegetal.100 1.951 8.712 1.420.914.596 2.7 Indústria da madeira e do mobiliário 443. veterinários.034 439.071 269.389 4.361.113. seguros e capitalização 663. similares.584 319.616.147 735.272. peles.359 24.280.440 6. indústrias 298.063 609.9 diversas Indústria química de produtos farmacêuticos.174 342.310. 1.240 5.631 5.016.994 720.246 1.291.999.084 8.321.175 1.448 6.188 204.148 741.935 1.736 436.783 7.846 432.476.102 6. manutenção.357.553 21.507..979 1.454.324.335 746.427. Estoque de empregos formais em 31 de dezembro – Subsetores IBGE – 2006 a 2011 2006/2011 Subsetor IBGE 2006 2008 2009 2011 Var.763 327.968 824. (%) ao ano Extrativa mineral 183..218 2. 3. papelão. bebidas e álcool etílico 1.791 306.812 1.3 Indústria metalúrgica 647. 238 a economia brasileira no contexto da crise global .842.891.857.677 6.840 7.192 7.404 3.420.546 46.395.293 524.1 Indústria de transformação 6...379 502.5 Indústria da borracha.155.312.177 358.815 8.544 513. Tabela 9.3 Serviços – Total 18.326 606.227 1.451 3.244 4. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap.120.408 966.336 1.973.108 7.601 3.8 Comércio atacadista 1.696 20.750..721.215 2.2 Indústria de calçados 306.4 perfumaria.215.136 8.836 231.245 7.042 5.930.759.056 5. 2.9 serviços técnicos.261 3.2 Agricultura.6 Serviços médicos.444 7.873.

07 2009 . papelão.07 2008 . especialmente naqueles setores com mais facilidades de importação de máquinas e equipamentos. As importações. Elaboração: Grupo de Economia / Fundap. editorial e gráfica (2.01 2008 . A relação câmbio-salário é tomada como um indicador da competitividade das exportações dos países: uma relação baixa.01 2010 . o que nos interessa aqui são os efeitos de uma queda na relação câmbio-salários sobre o mercado de trabalho.10 2007 .2%).10 2011 .2%). No entanto.01 2006 . O Gráfico 11 mostra a queda substantiva da relação câmbio/salário de 2006 a 2012.01 2011 . Pelo menos quatro se destacam e causam preocupação: • a partir de certo ponto da relação câmbio-salário.04 2007 .10 2009 .07 2010 . especialmente para os setores intensivos em mão de obra. indica uma economia em que as exportações carecem de competitividade: uma unidade de divisas compra poucas unidades de salários. em compensação.04 2010 .1%).04 2009 . começa a ficar mais interessante para a indústria loca