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HIPOTECA JUDICIÁRIA

Fábio dFábio de Possídio Egashira*

No lapso temporal entre a condenação efetiva e a propositura do processo de execução, é muito freqüente o vencido
dilapidar o patrimônio, deixando o vencedor impossibilitado de ressarcir-se do direito originário de eventual sentença
condenatória.
Para oferecer maiores garantias ao titular do direito material, de modo a protegê-lo de eventual fraude praticada pelo
vencido, o legislador infraconstitucional instituiu o Artigo 466 do Código de Processo Civil (CPC), que trata da hipoteca
judiciária.
Embora a hipoteca convencional (origina-se em razão da vontade das partes), a hipoteca legal (decorre da Lei – art.
1489 do Novo Código Civil) e a hipoteca judiciária tenham por escopo tomar bens do devedor para garantia do credor,
elas guardam as suas peculiaridades.

Como esse trabalho se propõe a abordar a hipoteca judiciária, passemos à análise do texto da Lei Instrumental(1):
Art. 466. A sentença que condenar o réu no pagamento de uma prestação, consistente em dinheiro ou em coisa, valerá
como título constitutivo de hipoteca judiciária, cuja inscrição será ordenada pelo Juiz na forma prescrita na Lei de
Registros Públicos.
Parágrafo único. A sentença condenatória produz a hipoteca judiciária: I – embora a condenação seja genérica; II –
pendente arresto de bens do devedor; III – ainda quando o credor possa promover a execução provisória da sentença.
Observe-se que a sentença deve condenar o réu em quantia consistente em dinheiro ou entrega de coisa(2). Por outro
lado, há ações (anulatórias, revocatórias, declaratórias etc.) que, em princípio, não permitem a constituição de hipoteca
judiciária, mas, quando impõem qualquer tipo de condenação referente a custas e honorários de sucumbência, podem
ensejar a inscrição da garantia no Registro Público(3) nesta parte do decisum para efeito de proteger o credor.
Portanto, não é preciso que a sentença seja preponderantemente de condenação, basta que tenha eficácia de
condenação mediata ou imediata.(4) No que se refere à sentença condenatória arbitral, esta tem efeito executivo, tanto
que foi inserida entre os títulos executivos judiciais.(5)Assim, entendemos que, a partir dela, pode ser constituída
hipoteca judiciária, porquanto a sentença arbitral produz os mesmos efeitos da sentença proferida pelos Órgãos do
Poder Judiciário.(6)
Quanto à sentença estrangeira, seja judicial, seja arbitral, é necessária a homologação pelo Supremo Tribunal Federal
para que possa valer como título constitutivo de hipoteca judiciária, conforme as regras estampadas na alínea h do
inciso I do Artigo 102 da Constituição Federal, Artigo 483 do Código de Processo Civil e artigos 34 e 35 da Lei nº
9.307/96.
Na interpretação do Artigo 466 do CPC, o conceito de “réu” não pode ser encarado de forma restrita, devendo equivaler
ao vencido, ou melhor, aquele que sofre condenação. O motivo é simples: prestigiar o Artigo 125 do Código de
Processo Civil, explicitador do princípio constitucional da isonomia previsto no caput e inciso I do Artigo 5º da
Constituição Federal, e respeitar a finalidade da norma, que é garantir a execução estabelecida pela sentença.(7)
Devemos destacar também que não se trata de faculdade do Juízo. Publicada a sentença(8), ao Juízo não cabe avaliar
se há periculum in mora ou fumus boni iuris, tampouco se o vencido está em situação financeira difícil, de forma que a
constituição da hipoteca judiciária é imediata.
Como efeito secundário, anexo, externo da sentença, a hipoteca judiciária não precisa de menção no corpo da
sentença, nem se exige prévio requerimento da parte na petição inicial ou na reconvenção. A hipoteca judiciária nasce
da existência fática da própria sentença condenatória.(9)
Vê-se que o dispositivo legal do art. 466 do CPC permitiu a hipoteca judiciária independente de trânsito em julgado(10)
da sentença. Pouco importa se há recurso de apelação(11)ou outra medida judicial com efeito suspensivo. No tocante a
este particular, ressalte-se que a menção do inciso III do parágrafo único do Artigo 466 do CPC (ainda quando o credor
possa promover a execução provisória da sentença) significa que a hipoteca judiciária garante, principalmente, as
sentenças que não são passíveis de execução imediatamente, em que os recursos são recebidos com efeito suspensivo,
mas também aquelas que podem ser executadas desde logo, em que os recursos são recebidos com efeito meramente
devolutivo.
A constituição da hipoteca judiciária independe de prévia liquidação de sentença, sob pena de divergência acerca da
finalidade precípua do instituto, que é resguardar a eficácia da decisão judicial condenatória. Na hipótese de sentença
ilíquida, entendemos que o Juízo deve tomar como parâmetro o valor da causa, uma vez que este é suscetível de
impugnação pela parte adversa no momento oportuno ou corrigido ex officio(12) pelo Juiz, o que evita certos absurdos
e distorções.
Entretanto, há entendimento doutrinário(13) no sentido de que, quando a sentença for ilíquida, a constituição da
hipoteca judiciária seria instituída por arbitramento judicial, levando em conta os princípios da razoabilidade, da
finalidade e da proporcionalidade. Segundo tal posicionamento, a atuação do Juiz seria podada pela via recursal.
O direito de preferência é prestigiado na doutrina (14)tão logo haja a inscrição da hipoteca judiciária. Porém,
entendemos que somente o direito de seqüela estaria resguardado com a inscrição do bem imóvel no Registro
Imobiliário(15), enquanto se perfaz a especialização da hipoteca judiciária.(16)Isso porque nenhum credor poderia
adquirir preferência sobre bens do devedor em virtude de dívida comum, em que o patrimônio deste serve de garantia
a todos os credores, e também pelo fato de a hipoteca judiciária surgir de uma sentença de condenação, sem garantia
real. Apenas existiria direito de preferência se o crédito fosse garantido por hipoteca legal ou convencional.

Comentários ao CPC. (1)Vide também arts. – Rel. com redação conferida pelo art. 100 da CF. Janeiro de 2004. 587 a 590. abrangendo.821-00/8 – 12ª C. Comentários ao Código de Processo Civil. se houver a reforma da sentença em sede de recurso ou por qualquer medida judicial. ob. garantir o cumprimento da sentença. 259 do CPC.8. 730 do CPC e art. STJ. cit. p. Min. 3º. 1997. 463 do CPC. 09. Min. ob. A possibilidade imediata de constrição judicial do bem pela penhora não impede a formação da hipoteca judiciária.. Pontes.12. Marçal. Antonio Carlos de Araújo Cintra. Apesar da posição acima apontada. p.11. Pargendler. p. desde que presente a inscrição.290. Miranda.764-00/5 – 3ª C. Juiz Romeu Ricupero – DOESP 28. 2º TACSP – AI 691. (14)Justen Filho. Pontes. (20)Cf. Tomo V. da Lei nº 6. TJRJ – AC 16232/1999 – (22022000) – 16ª C. ob. conforme dispõem o art.. (9)Não há afronta ao art. por conseqüência. por ser a hipoteca judiciária ato de execução. nos termos do parágrafo 4º do Artigo 659 do Código de Processo Civil. p. cit. 91. portanto. Ovídio Baptista da Silva. externo. 137.05.2001.. Sérgio Gilberto. Resp nº 158015. caberia embargos de terceiros. Coord. (5)Vide inciso VI do art. p. Juiz Aclibes Burgarelli – DOESP 03. Ari. Resp nº 154991. 31 da Lei nº 9. p. ob. Postas essas rápidas considerações a respeito do tema. DJU 16. raciocínio este também trilhado pela jurisprudência(20). (12)Cf.09.015/73. 2000.10. DJU 8. 3ª Turma.. p. o gravame sobre bem de família. ou até mesmo o mandado de segurança. Como a hipoteca origina-se de uma sentença. 444 a 495. (4)Miranda. o cancelamento da referida hipoteca. o cancelamento da inscrição da hipoteca judiciária deve ser procedido. cit.96. (16)Cintra. desde que configurada a hipótese do parágrafo 4º do art. 444 a 475.A inscrição da hipoteca judiciária no registro imobiliário é restrição ao poder de dispor e se realiza por mandado judicial. Rel. Cintra. AI nº 1999. 584 do CPC. STJ. (15)Miranda. p. o Oficial de registro deve submeter ao Juiz que determinou a inscrição o exame do cancelamento. DJU.2000.02. gerando. Antonio Carlos de Araújo. entendemos que. qual seja. por exemplo. 4. 110. Rel. ob.307/96. ob.009/90.2002. arts. Rio de Janeiro: Forense. – Rel. Marçal. 95. (8)Entenda-se “sentença” como qualquer decisão terminativa capaz de constituir direitos no Juízo a quo e no Juízo ad quem. Qualquer excesso em relação aos bens de terceiros ou do próprio devedor deverá ser dirimido com a utilização do agravo de instrumento. no caso específico. 88. (3)Vide art. Pontes de Miranda(19) chega a afirmar que. porquanto inexiste alteração da sentença. Observamos que o interessado deve submeter ao Juiz e pleitear a diminuição ou ampliação da hipoteca judiciária(18). “Sobre a Hipoteca Judiciária”. GO. 6. (13)Justen Filho. 135. 4ª Turma. Já a especialização é a identificação do bem imóvel e a menção ao valor da garantia hipotecária.. que não fica suscetível aos efeitos da sentença condenatória. ed. pode-se dizer que a hipoteca judiciária não representa uma solução para o cumprimento das decisões judiciais em favorecimento do vencedor. – Relª Desª Ely Barbosa – J. Juíza Maria Helena. 521. do CPC. e julgado do 2º TACSP – AI 709. cit. 306. 91/92. Porto. 41 da Lei nº 9. São Paulo: Revista dos Tribunais. 523 do CPC. o qual é pouco utilizado pelos advogados no resguardo dos interesses de seus clientes. embora posteriormente à sentença. Agora. in Revista Ajuris (78/154). (11)Cf.1999. 167. Comentários ao Código de Processo Civil. cit. SP. Miranda. A medida correta para coibir eventuais excessos em relação aos bens imóveis objeto de hipoteca judiciária seria o agravo de instrumento. (2)Exceção é estabelecida em favor da Fazenda Pública.01. 2000. 9. 813 a 821. para afastar. sendo a hipoteca judiciária meio de formalização e efeito anexo. Rel. uma vez que aquela garantia já pode ser oposta contra terceiros. mas significa um importante instituto processual. também acórdão. TRF 2ª R. vol. p. Vide art. Rio de Janeiro: Forense. ob. p. vol. a hipoteca judiciária seria apenas inútil e ofenderia a proteção estabelecida na Lei nº 8. para podar excessos e preservar a finalidade do instituto.291. . RJ. este fato não autoriza o cancelamento da inscrição. Pontes. (18)Nesse sentido. I.. cit. (10)Cf. inscrita e especializada a hipoteca judiciária no Registro Público.cit.1998. cit. Salvador. resta desnecessário o registro da penhora. arts. 2. por estabelecer-se procedimento próprio para execução dos seus débitos. Sérgio Gilberto.2000.307/96.032973-3. não podendo ser atacada por meio de embargos de terceiros porque ainda não existiria penhora constituída no processo. (7)Justen Filho. obedecidas as exigências do parágrafo 4º do art. 332 a 475.(17) Resta evidente que.. caso a reforma da sentença que originou a hipoteca seja parcial.Cív. 3ª Turma. A cautela é imprescindível porque. p. atualização legislativa de Sérgio Bermudes. Barros Monteiro. Marçal. para que haja uma análise formal. (6)Vide art. arts. (19)ob. (17)Porto.. Pontes. 523 do CPC.