Sociedade do Lixo
AnAlúciA neves JuliAno schiAvo lucAs clAro

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Ficha Catalográfica
N518 NEVES, Analúcia Sociedade do lixo / Analúcia Neves; Juliano Schiavo; Lucas Claro. – Limeira: s.d.e., 2008. 120 p. Ilust. 1. Schiavo, Juliano. 2.Claro, Lucas. I. Título. CDD. 070

Trabalho de Conclusão de Curso Curso de Jornalismo do Isca Faculdades Diretora geral do Isca Faculdades Profa. Rosely Berwerth Pereira Coordenadora do Curso de Jornalismo Profa. Milena de Castro Silveira Professora Orientadora Profa. Milena de Castro Silveira Autores Analúcia Neves, Juliano Schiavo, Lucas Claro Projeto Gráfico Juliano Schiavo Editoração Eletrônica Juliano Schiavo Fotografias Analúcia Neves, Brigitte Luiza Guminiak, Edivaldo da Silva Alves, Juliano Schiavo, Lucas Claro Foto de Capa Edivaldo da Silva Alves

em suas linhas. que esse livro surgiu. esse rejeito se converte em dinheiro.Apresentação L ixo. duas sílabas e vários desdobramentos. Para uns é apenas algo que não tem utilidade. seis histórias reais revelam. algo que pode e deve ser reutilizado. E é para mostrar os desdobramentos que o lixo possui numa sociedade. Palavra de quatro letras. Fruto de um trabalho de conclusão de curso de jornalismo. Para outros. o retrato 7 . Depende do ponto de vista. arte.

sempre com um pano de fundo tecido com lixo.de uma sociedade que. E de renda. . Ou ainda. é possível encontrar personagens que trazem a história dos que lutam para ser reconhecidos como vítimas de um acidente com lixo radioativo. Boa leitura. há quem entenda: o lixo pode criar impérios. Já na questão da consciência ambiental. deixada de lado: a Sociedade do Lixo. Nesse mundo. vive esquecida. E nessa linha. ele contracenará com o pôr-do-sol? É parar para pensar. um saco plástico não é necessariamente algo que deve ser jogado fora: ele pode se transformar numa bolsa e gerar renda. paciência e criatividade. É uma sociedade invisível. ver que do lixo de uns. Basta uma boa dose de vontade. sem lugar para “esconder” o lixo da visão humana. Outras personagens revelam que um eletrodoméstico quebrado pode ser transformado em algo útil. histórias se revelam e se abrem em reportagens com dados atuais e que deixam alguns questionamentos: por que não diminuir o consumo desenfreado dos recursos naturais? Chegará o momento em que. que se expõe em forma de reportagens jornalísticas. E ler também. Um olhar mais apurado permite observar um ciclo: da xepa das feiras ao prato de uma criança. basta visão e investimento. costumeiramente. há famílias que sobrevivem e conseguem melhores condições de vida.

.... a kombi...................95 Fontes de consulta .47 Vida no lixo ..................119 9 ..61 A Casa.............27 Xepa nossa de cada dia ......................................................................13 Campo estelar no chão terrestre .....................................................................................109 Agradecimentos ...................................................................................................................................................... dois cães e um vegetariano ..........................................77 Lixo é dinheiro .............Sumário Em oficina improvisada... lixo vira ajuda ................

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Carioca. sua oficina e os eletroeletrônicos salvos do lixo .Brotas/SP Analúcia Neves .

o motorista do velho caminhão azul da coleta de lixo não passa de mais um residente. lixo vira ajuda Com criatividade. morador de Brotas/SP transforma lixo em alternativa de renda para ong do câncer AnAlúciA neves P ara a maioria dos moradores da pacata cidadezinha do interior paulista. da Rua Angelo Piva. entre tantos que se misturam aos 22 mil habitantes do lugar. tem todas as manhãs a mesma rotina. Sabe que será mais um dia de trabalho.Em oficina improvisada. O morador do número 455. o que de certa forma o conforta. o sustento 13 .

de uma infância sem estudo e muito trabalho. bem lavado e passado cheirando a amaciante de roupas. É fácil de perceber que. Afinal. igual a tantos cidadãos brasileiros. quem é esse? Sergio Roberto do Amaral Menezes. pai de três filhos. 64 anos. possui cabelos encaracolados já grisalhos. quando fala da importância de ser um ser humano responsável pelas ações ambientais e do cuidado que cada pessoa deveria ter com o lugar que escolhe para viver. Quando o assunto é natureza. já desbotado pela ação do sabão da lavagem. porém. há dez dirige o caminhão que recolhe o lixo em Brotas. É de estatura alta. que ajudam a família a completar a renda. Calça as botinas igualmente surradas pelo uso diário. sua expressão é séria e marcada pelo cansaço do cotidiano. em suas respostas. Com a ajuda do despertador. Homem simples que gosta de fixar seu olhar dentro dos olhos das pessoas quando conversa. tudo está na ponta da língua. Faz sua higiene pessoal e se mete dentro do uniforme verde esmeralda opaco. se despede de todos e segue para a labuta diária. Os olhos verdes brilham facilmente. carinho da companheira de anos. se esconde um homem preocupado com o meio ambiente e em especial com os rumos que o consumo está tomando. Casado. mãos grossas e calejadas. mas palavras que revelam os sentimentos de um observador atento a tudo o que é ligado ao meio ambiente. simplesmente Carioca. para os mais chegados. tanto em Brotas como no mundo. não está somente uma opinião formada sobre as questões ambientais.Sociedade do Lixo da família estará garantido. cidade a aproximadamente 250 km da capital paulista. É fácil 14 . funcionário público. Por trás da humildade e simplicidade de uma pessoa de poucas letras. até poucos anos atrás castanhos escuros. o funcionário público levanta às cinco horas. Rapidamente toma seu café. magro.

Para entender melhor a estratégia de venda das indústrias é só observar a quantidade e a diversidade de lixos gerados nos dias de hoje e constatar que. que configura não só o estilo de vida adotada numa cultura que tem o modelo e potencial econômico como sua identidade. pois seu trabalho o coloca diariamente frente-a-frente com essa cruel realidade. rios. O consumismo é o motor da economia. e a Mata Atlântica.Em oficina improvisada. além de ser prejudicial ao meio ambiente. Um exemplo do que está nas mídias brasileiras. lixo vira ajuda compreender o motorista. mares e lençóis freáticos. inclusive no que diz respeito à destinação final dos resíduos sólidos. porém. o custo para o meio ambiente tem sido danoso pela falta de ausência de políticas públicas. também é um potencial econômico e energético que está sendo desperdiçado. que são ‘sonhadoras’ e acabam adquirindo produtos necessitando ou não deles. A mídia e publicidade seduzem. como os mangues. a Amazônia. manipulam os desejos das pessoas. hoje fragmentada (com aproximadamente 15% 15 . As pessoas são induzidas estrategicamente a gastar em ritmo frenético. A inquietação de Carioca é fundamentada na coleta do lixo de Brotas. mas também uma ferramenta importante para a construção dos conhecimentos. a sociedade moderna desenvolveu uma capacidade de consumir em proporções alarmantes. Ong’s e universidades brasileriras dizem a todo momento que quase não há mais espaço para depositá-lo e o seu acúmulo contamina os solos. O desejo de ver o Brasil como potência mundial favorece a farra das indústrias no quesito ‘propaganda’. De fato. quase que diáriamente. é a devastação dos biomas (diversidade de ecossistemas). Mas a realidade é ainda mais preocupante.

A outra parte vai para o aterro Delta A. reativos ou atraem doenças. como rocha. que está proibido pela Cetesb (Companhia de Tecnologia d Saneamento Ambiental) desde o início de Setembro. a ABNT (Asociação Brasileira de Normas Técnicas). são inflamáveis. É o resultado do consumo desenfreado. Na cabine do caminhão. Santa Bárbara. tijolos.Sociedade do Lixo da cobertura original). Apesar da pouca atenção dos governantes com relação ao assunto de lixo. fornece a base necessária ao desenvolvimento tecnológico que. que estimula a extração de matéria prima-bruta. como Paulínia. Carioca tem razão em se preocupar. Parte dos resíduos é enviada para os aterros sanitários de cidades vizinhas. Outro exemplo vem dos jornais de Campinas. solubilidade ou combustão. São as matérias orgânicas e papéis entre outros. Mesmo sem tomar conhecimento dessas classificações. corrosivos. O relatório que trata do assunto responsabilidade socioambiental traz a classificação do lixo: norma ABNT NBR 10004. Por fim o Lixo Classe III são as substâncias inertes. entre outros assuntos. cidade com mais de um milhão de habitantes. exemplo disso é o lixo hospitalar. com potencial de risco à saúde pública e ao meio ambiente. Já o Lixo Classe II são substâncias não-inertes e apresentam propriedades como biodegradabilidade. tem participação importante para o processo de forma sustentável. fala 16 . que vive essa realidade de não ter onde depositar suas 800 toneladas/dia de lixo coletado. classificação de resíduos sólidos. vidros e certos plásticos e borrachas que não são decompostos prontamente. por apresentar capacidade máxima e danos ao meio ambiente. que segue o critério dos riscos potenciais ao meio ambiente. Cosmópolis e o Lixão da Pirelli. sem pensar na degradação do meio ambiente. tóxicos. orgão responsável pela normatização técnica no País. Ela classifica o Lixo Classe I como resíduos sólidos perigosos.

Em oficina improvisada. Agora. por habitante. Segue o caminho. Sem desviar a atenção do trajeto que está sendo percorrido. quase um saco de um quilo de feijão. acelera. Mas. ele dispara: — Tudo hoje é diferente! É bom que as pessoas possam ter de tudo. com o braço direito. Me assusto com a quantidade de aparelhos que as pessoas jogam fora. no quesito ‘aterro sanitário’ Brotas foge das demais do seu porte. A mão esquerda segura o volante e. A conversa prossegue: —Tem gente que só quer o mais moderno. ou mandam para aterros das cidades maiores da redondeza. O aterro sanitário impede que as águas subterrâneas e o solo sejam contaminados pelo chorume (líquido altamente tóxico produzido pela decomposição dos resíduos sólidos). engata a primeira marcha. olha para os lados. gesticula fortemente com a mão fechada. O motorista pára o caminhão no cruzamento de duas ruas. infelizmente. a maior parte ainda vira lixo. Brotas tem muita gente assim: louca por coisas novas. nem se distrair do trabalho. E coloca lixo nisso! Dois caminhões recolhem em Brotas 15 toneladas diárias. Ele é coletado e encaminhado à estação de tratamento de esgoto. a rapidez das fábricas para produzir esses aparelhos eletrônicos é incrível! Mais incrível ainda é a rapidez com que eles ficam ultrapassados. lixo vira ajuda com voz forte e convicta das facilidades que o comércio atual oferece na compra de qualquer aparelho eletrônico. pois a maioria deposita seus dejetos em lixões. Por ser uma cidade de pequeno porte do interior de São Paulo. Brotas tem 17 . um dos únicos do estado de São Paulo totalmente limpo. o que dá aproximadamente 700 gramas. pois é preciso parar em frente de quase todas as casas e lojas das ruas centrais. que depois de tratado e lançado no Rio Jacaré-Pepira. Alguns até doam ou vendem os aparelhos antigos.

nós na cabine e os demais trabalhadores na carroceria. Ainda não são dez horas e a metade do trajeto da coleta da área central da cidade já está cumprida.Sociedade do Lixo 100% de seu esgoto coletado e tratado. Nos primeiros dias. novamente seriam utilizados. mas isso não faz parte da sua índole. Junto às 18 . É preciso ainda levar todo o lixo recolhido até o aterro e depois voltar para continuar a coleta até a hora do almoço. que. De volta ao trajeto. somente no plano das idéias. lixo é mais do que dinheiro: pode ajudar alguém. o motorista desce do caminhão e ajuda os companheiros a acomodar toda a carga recolhida nas valas. o suor desce pelo rosto. Até então. tudo estava bem arquitetado. O porão seria transformado em oficina. tudo era fácil. liquidificadores e outros tantos) descartados. todos se acomodam. dessa atitude que já completa dez anos. E que belas idéias tinha Carioca. A decisão de consertar os aparelhos foi tomada. Afinal. tanquinhos. entendeu que o lixo tem a ver com a vida de todos. Como é motorista. poderia esperar sentado na cabine do caminhão. O sol está quente. Carioca ficou impressionado com a quantidade de eletrodomésticos (ferros elétricos. O trabalhador não se queixa. Retomamos o assunto: logo que Carioca começou a trabalhar na coleta. O próximo passo foi tarefa difícil: convencer a mulher a aceitar que os tais aparelhos encontrados no ‘lixo’ fossem levados para casa. a pele fica avermelhada. Nasceu então a idéia de consertá-los e doá-los ao Grupo Voluntários do Câncer de Brotas. e passou a refletir sobre o valor de tudo que é jogado fora. organização não-governamental que ajuda os doentes de câncer carentes da cidade. Em sua mente. Chegando ao aterro. Tomamos o rumo da cidade. com poucos reparos. para Carioca.

senhora de estatura média. Para ela. com riqueza de detalhes. gosta de receber o marido. pois ferramentas não lhe faltavam. Só lhe faltava tomar coragem para a tão esperada conversa. ainda não estava convencida o suficiente para aceitar a proposta do marido. Tudo foi levado e acomodado no porão. lixo vira ajuda paredes construiria prateleiras. fala do assunto demonstrando acanhamento. Vergínia olhou assustada para o caminhão. magra. Depois da conversa o motorista respirou aliviado. Vergínia Aparecida Menezes. visivelmente estampada nos olhos. olhos escuros. todos aqueles equipamentos não passavam de lixo. as horas demoraram a passar. dona de casa dedicada. Com a voz embargada. ouviu um barulho. Afinal. De repente. cabelos curtos e lisos. pele clara. Também dá a impressão de queria esconder a desaprovação da atitude do marido. mas para fazer o bem. logo imaginou que não adiantava contrariá-lo. Tomou coragem. Aquela atitude não seria em vão. Vergínia conhece bem o marido. No dia do acerto com a companheira.Em oficina improvisada. um espremedor de laranjas e dois ferros de passar roupas. Falou com a esposa. tinha falado! A companheira achou que demoraria até o projeto inusitado começasse a tomar forma. Ela iria se interessar pelo assunto? Se importar que ele utilizasse o porão? Carioca lembra que respirou fundo. tira o sorriso do rosto e reclama: 19 . por causa da bagunça segundo ela que se instaurou no porão. Precisaria arrumar o porão para receber os “lixos”. com umas poucas rugas no rosto. depois do dia de trabalho cansativo com a casa limpa e arrumada. Os colegas de coleta do marido tirava da carroceria um tanquinho. apesar das olheiras salientes que denunciam seus 58 anos. Vergínia. um liquidificador. Pronto. Ao cair da tarde já não conseguia esconder a ansiedade.

ao ser tocado e inalado. Quase não dá pra abrir a porta. seborréia. sumir com tudo de lá. Como. provoca asfixia. distúrbios renais e neurológicos. justamente aqueles que seu marido não deixa serem abandonados na natureza. se inalado. causa vômitos. Vergínia pára um instante. os danos da decomposição das sucatas eletrônicas são terríveis. Seus olhos se enchem d’água. eletroeletrônicos e celulares. quando se acumula no organismo. diarréias e problemas pulmonares. morde os lábios e não permite que nenhuma lágrima role pelo rosto. provoca dores reumáticas e problemas pulmonares. Todos esses equipamentos possuem metais pesados.Sociedade do Lixo — Às vezes tenho vontade de limpar o porão. ao falar do companheiro de tantos anos. pode causar alterações genéticas. afeta o sistema nervoso. e o cloreto de amônia. o chumbo afeta diretamente o sistema nervoso central. — Mas aí penso que esse trabalho do meu marido é por uma boa causa. Desvia o olhar. o manganês pode resultar em anemia. as plantas e animais fazem parte da alimentação do ser humano. descartados no lixo comum. que. Pisca demoradamente. além do mais. dores abdominais. são os chamados e-lixo. o zinco. entram em contato com lençóis freáticos e contaminam plantas por meio da água. entram em decomposição e as substâncias químicas penetram no solo. A feição da esposa dedicada aparece novamente. impotência. o cadmo é um agente cancerígeno. abre um sorriso aberto e carinhosamente: — Não precisa ter curso de faculdade para cuidar da na20 . Trata-se de produtos químicos altamente tóxicos o mercúrio. perturbações emocionais e tremor nas mãos. O que a esposa do motorista não imagina é que qualquer lixo derivado de eletrodomésticos.

que as vendem como sucatas. Desse total de resíduos 54. Ele sabe bem da importância do seu gesto em prol do meio ambiente e fala com serenidade: — A natureza pede muito pouco do ser humano. — Meu marido conserta tudo aquilo que ninguém mais quer.5 milhões de toneladas de resíduos urbanos nos 5. Nesses momentos. Carioca está certo. Preocupado com os outros e curioso. É uma questão de educação. que fica sempre pendurada atrás da porta do quarto do casal. lixo vira ajuda tureza. O marido. é fácil perceber tal virtude dele. depois da missa. anualmente são produzidas 61. De acordo com a Abrelpe (Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais). Tem princípios. o marido. As demais são acomodadas numa caixa e doadas os catadores. Meu marido é um homem simples. Basta mudar os hábitos. é uma pessoa abençoada e. Separar as peças. Carioca coloca uma roupa velha. bom. aprendeu tudo sozinho. na visão de Vergínia. mas 21 . ajuda pessoas doentes. deixa de ser o pai. assim.4 milhões de toneladas são coletados. As que têm utilidade e podem ser aproveitadas são limpas. Carioca passa horas em sua oficina improvisada. o motorista.Em oficina improvisada. nas tardes de sábado e aos domingos. O sol da tarde que penetrava pela janela da sala trouxe um ar de melancolia. porque sabe que. Sei bem que esses valores. O brilho dos olhos negros saltava-lhe da face avermelhada. Vira voluntário de uma boa causa. e desce para trabalhar nos consertos. Vergínia conta que. esse jeito dele é a melhor herança que nossos três filhos já receberam do pai. Um ambientalista que ainda não se deu conta desse título. Na sua opinião a consciência ecológica não depende só do governo. Faço o que posso e acredito que a reciclagem pode também dar emprego para muita gente.563 municípios brasileiros.

alumínio e cobre. — Isso acontece por falta de uma cooperativa e de esclarecimento à população. A Associação Brasileira de Alumínio (ABAL) observa de perto a importância desse trabalho e.Sociedade do Lixo não têm destinação adequada em 3. É fácil fazer isso. Isso significa que só essa entidade contribui com a retirada 3. Já em Brotas são recolhidos. matéria-prima da alumina. como papelão. o índice de reciclagem no Brasil vem aumentando consideravelmente. por sua vez.406 municípios. Outros recicláveis.971 cidades brasileiras que contam com 100% de coleta seletiva. Controlar o lixo de casa faz muita diferença. iniciativa privada e o Poder Público. apenas 5% são reciclados. composto químico de alumínio e oxigênio que dá origem ao alumínio.5 toneladas por dia do solo da cidade. mas as pessoas também precisam prestar atenção. Exemplo disso é que a reciclagem de latinhas chega a 95% das que são colocadas no mercado brasileiro para serem vendidas. Na oficina. ao falar que os catadores de Brotas valorizam somente os materiais nobres. de acordo com a entidade. Algumas já usufruem de parcerias entre cooperativas de catadores. é responsável pela economia de 700 mil toneladas de bauxita. são deixados de lado e enterrados. Ele demonstra expressão séria. De uma boa administração por parte dos políticos. Destes. Cerca de 800 mil pessoas sobrevivem da catação de reciclados. Além disso. garrafas PET. Só na cidade de São Paulo. em média. quinze toneladas/dia de resíduos sólidos. Hoje a catação é uma atividade econômica instalada no país. quando o assunto é ecologia. 22 . a APAE do município recicla em torno de15% no centro de triagem montado na sede da entidade. são geradas doze mil toneladas/ dia de lixo e. Brotas também faz parte das 1. com renda média de um a um e meio salários mínimos. Carioca está entre seus equipamentos.

ferram de passar roupas e um liquidificador são algumas das suas aquisições. Pelo tom de sua voz não esconde o orgulho e gratidão que sente pelo motorista. chuveiro. baterias etc. A procura é grande. Resta agora o bom senso para colocá-lo na pauta ser debatido e votado. E propõe que fabricantes ou importadores sejam os responsáveis por todo esse processo e pelo destino final de seus equipamentos. Rita Flávia Brino Cassaro. eletrônicos e componentes (pilhas. A sede da ONG fica em frente à casa de Carioca. fala mansa e pausada. inclusive financeira para os exames e remédios.) que não podem ser reutilizados. Basta atravessar a rua. Ele é exemplo de desenvolvimento sustentável. Cliente fixa da loja da ONG é Silvia de Abreu. lixo vira ajuda Carioca lembra do projeto de lei número 2061/07 que tramita na Câmara dos Deputados. Sérgio trabalha muito bem. desde janeiro de 2007. de restaurar os utensílios para vender. tudo que tenho está como novo! E o que é melhor: pago bem pouco! 23 . que já comprou vários utensílios do lugar. esposa do ex-prefeito. Tanquinhos. em Brasília. Dificilmente alguém reclama. não lhe poupa elogios. — A contribuição do Sergio é fundamental para o grupo. Ela estabelece critérios para a coleta. também prepara até mesmo os que as pessoas doam. pois tira o lixo da natureza e presta ajuda voluntária.Em oficina improvisada. Além de reduzir o volume do lixo. As pessoas de Brotas se referem ao Carioca com orgulho. Sugere preços de venda. — Não tenho do que reclamar. goza de credibilidade na cidade. A vice-presidente da ONG Grupo Voluntários do Câncer de Brotas. O conserto fica ótimo. Pratica cidadania em favor da população carente. dona de casa de classe média. cuja renda vem principalmente da solidariedade da população e dos voluntários. Senhora de cabelos brancos. reciclagem e descarte de aparelhos eletrodomésticos.

mas cobram por esse serviço. em muitos casos. É possível. celular e computador antigo. ainda. ao descartá-los não há muitas alternativas. Assim lucra o ambiente e a geração futura. que será beneficiada por ações responsáveis do presente. São poucas as empresas no Brasil que fazem a reciclagem. Hoje. a obtenção de peças de reposição inviável. doar a geladeira usada. Só assim poderá não se tornar um grande lixão! 24 . Se não for dessa maneira é puro consumismo! O mundo precisa de mais “sérgios cariocas”. Porém. pois infelizmente o descarte ainda é um problema para os consumidores. tornando com tempo. Já os fabricantes. quando alguém opta pelo consumo responsável desses produtos eletrônicos. Além disso. Pensar como será o descarte futuro do aparelho adquirido é dever de cada consumidor.4 milhões de toneladas de e-lixo no Brasil por ano. tiram da linha de produção os modelos com menos recursos em relação aos novos lançamentos. esses equipamentos só são aceitos se estiverem em bom estado de uso e se o modelo ainda for atual. o custo do conserto geralmente é alto em relação a um aparelho novo.Sociedade do Lixo Calcula-se que até 2016 serão gerados 7.

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Montanha de lixo radioativo: rejeitos do acidente em Goiânia/GO (1987) Brigitte Luiza Guminiak .

com seus 25 anos. O jovem. que lhe recobria todo o corpo. As calças. Vestia uniforme azul-petróleo. Nascia um novo dia e com ele uma história. eram abraçadas por um cinto 27 . azuis também. mal sabia o que era o elemento césio-137 e nem imaginava os problemas que lhe causariam no futuro.Campo estelar no chão terrestre A história do soldado que luta pelo reconhecimento como vítima do césio-137 JuliAno schiAvo A cordou e encheu os pulmões de ar.

Com o nome de Shelton Sn 1987A. Vai.Sociedade do Lixo preto. Como toda criança que descobre 28 . — Titia vem cá ver a pedra alumiante que o papai trouxe. Pátria amada – rumou ao seu desígnio. Era setembro! Mais precisamente 1987. Santos! Vai! Chegou a hora de arcar com a Pátria. abocanhavam os pés. Com uma agulha hipodérmica invisível. Era a antropofagia em pessoa: a autoridade engolia o civil. essa Supernova foi a virgem que ajudou os astrônomos de todo mundo a fortalecer ou eliminar as teorias que estudam a expansão do universo. a Pátria amada! Está na hora de servi-la. só o Santos sobrevivia. que traçava uma linha divisória entre o tronco e as pernas. E ele. Seis horas da matina. como um bom soldado – o soldado que serve e morre por ti. O próprio nome já se mascarava com um ar de autoridade: de Santos Francisco de Almeida. Pobre Leide das Neves Ferreira. Uma estrela azul e mortal. Os coturnos negros e luzidios. O dia ia ser duro. tocou a estrelinha. que. como duas grandes bocas abertas e sedentas de fome. lhe era injetada a função: soldado da Polícia Militar. por desconhecer o perigo. acrescido daquele termo dos iniciantes: recém-formado. menina sorridente. Leide agarrou a tia Luísa Odete Mota dos Santos. que deveria ser conhecido como o ano das estrelas. Isso mesmo: foi a primeira vez que uma Supernova (nome dado aos corpos celestes surgidos após as explosões de estrelas) era estudada com aparelhagem moderna. Com suas pequeninas mãos. Mas era no Brasil que a primeira pessoa segurava uma outra estrela diminuta. o quartel já o esperava.

Nem mesmo Roberto dos Santos e seu amigo Wagner Mota. no Setor Central.Campo estelar no chão terrestre algo novo. no chão. tão surpreendente. O calor. as marretas entraram em ação. no centro de Goiânia. sua luz azul-mortal. a Caixa de Pandora. os dois ergueram uma das partes do aparelho. daquela tarde. Apagou a luz e. Tudo parecia ser a mesma coisa em Goiânia. Talvez barulhos agudos. tof. foi serelepeando até o quarto. Lá funcionara. Com a força dos dois sucateiros. A vida continuava a mesma. 13 de setembro de 1987. Partia também a janela de irídio. Com a força que brotava de seus músculos. até 1985. Mas nenhum dos dois sucateiros sabia do perigo. capital de Goiás. sucateiros. o sol era o mesmo. abafados. foi cambaleante pelas ruas. Naquela tarde de domingo. As estrelinhas jogavam sobre os olhares ávidos de Leide. uma clínica de radioterapia que agora estava abandonada. até repousar na moradia de Roberto. tof. O carrinho de mão. que cabia na palma da mão. Eram apenas barulhos de ferramentas. também. 29 . Tof. que protegia a cápsula mortal. No quintal da singela casa. Quem poderia imaginar que podia existir uma coisa daquela? Ninguém imaginava. Número 68 da Rua 57. de seis anos de idade. que iam liberando. não há como saber. com sua rodinha que girava sua volta de 360 graus e sustentava uma peça com mais de cem quilos. pedaço a pedaço. o céu se abria como num tapete persa das mil e uma noites. exceto o dinheiro que viria com a venda de chumbo proveniente de um aparelho de teleterapia encontrado entre as avenidas Tocantins e Paranaíba. as partes se partiam. podiam imaginar isso. onde repousavam 19 gramas de césio-137 – algo tão pequeno.

retirado do quintal da casa de Roberto. suas asas azuis-mortais debatiam-se silenciosamente. mais tarde. tomou a si a peça que emanava um brilho. quando o proprietário do local. Nos três dias seguintes à descoberta. Aí pegamos os 1.800 cruzados [equivalente a cerca de 70 reais]. “Deu 128 quilos. o material foi aberto por dois funcionários e deixado de lado. os sucateiros Roberto e Wagner já sentiram os sinais de corpos debilitados: náuseas.Sociedade do Lixo Era como se uma borboleta. carregada nos corpos. com a liberdade. quando. Wagner acompanhou a transação comercial. tivesse sido libertada ao mundo. mas ele [Devair] só pagou 120. Hospedava. tonturas e vômitos. maravilhado com 30 . no dia 18 de setembro. o inimigo dentro de casa. como se participassem de uma dança que. assim. No mesmo dia. medo e morte. tão bem protegida por seu casulo. Tudo ocorreu silenciosamente e numa rapidez tão grande multiplicou-se. A contaminação expandiu-se. Atraído. o material foi transferido para o ferro-velho I. Até aquelas pessoas que foram irradiadas pelos raios alfa e beta do material radiativo tornaram-se expoentes da contaminação. No ferro-velho I. o homem pensou estar diante de um material sobrenatural e o levou para sua residência. vestes e calçados daqueles que tiveram contato com suas partículas. como que por magnetismo. E. Setor Aeroporto. chegamos lá fora e repartimos o dinheiro. na Rua 26-A. Esse ferro-velho pertencia a Devair Alves Ferreira. Devair. ao perceber algo diferente. Eu fui pra minha casa e Roberto foi pra dele”. traria tristeza. Seu brilho encantador e mortal só se revelaria à noite.

fazendo festa. assim. sua cunhada. cujo canto traduzido visualmente encantava a todos. brincando com o material e o passando no pescoço e ombro de Luísa Odete. o dono do ferro-velho. Era o pai entregando um pedaço do céu reluzente. Maria Gabriela Ferreira. um mimo para alegrar a família. 31 . Foi dessa maneira que o pozinho chegou às mãos de Ivo Alves Ferreira. Estava preparada a ceia mortal: Leide. brincadeira. toda feliz. também dono de um ferro-velho. mimetizava a morte em sua forma azulada. ignoravam até então o fato de apresentarem cefaléias e vômitos. carregando sua tia ao quarto e mostrando seu novo brinquedo. sintomas iniciais da contaminação. seu tapete de estrelinhas. O césio-137. irmão de Devair. Na casa de Ivo. naquele momento. não sabia o perigo que carregava consigo. festividades: sua beleza era encantadora demais para parecer mortífera. Muitos passavam o pó no rosto. espalhava seu mal por meio de sorrisos. o material foi posto na mesa. engolindo fragmentos radioativos. a pequena parcela de pó repousou no bolso de sua calça e. socializou o pó oriundo da cápsula com amigos. O brilho azul era uma sereia. o material radioativo fazia sua peregrinação. vizinhos e parentes. e depois comeu um ovo com as mãos sujas. Com seu esplendor. com o auxílio de uma chave de fenda. Devair vendeu o chumbo retirado da fonte radioativa para Joaquim. foi levada para casa. No dia 25. Estava feliz. a filha. — É hoje que a Odete vai ficar bonita – disse Ivo. comemorando. Era Leide.Campo estelar no chão terrestre seu “brinquedo” de luz brilhante. Devair e sua mulher. Enquanto isso. brincou com poeira do césio-137. De suas mãos.

No dia 28 ela foi até o ferro-velho e pegou uma amostra do material. As suspeitas dela aumentaram à medida que mais pessoas ficavam doentes. foi investigar o caso. O funcionário. os passageiros foram contaminados. assim. feito por meio de ônibus. nada podia ser feito. que era veterinário. a mulher colocou o saco com o material em cima da mesa e disse a um funcionário: — É isso que tá matando as pessoas. foram encaminhados para hospitais. Enquanto isso.começaram a suspeitar que as lesões poderiam ter sido originadas por contaminação radioativa. partiu para a Vigilância Sanitária. Ao chegar ao local. Maria Gabriela. Os profissionais de saúde. Afinal. tonturas. colocou em meio aos pedaços do chumbo a cápsula que guardava o pó. lote 4. — É esse trem que está fazendo mal pra nós. médicos do Hospital de Doenças Tropicais . alertado. medicando os doentes em conformidade com os sintomas descritos. de onde vinham aquelas sensações de mal-estar? As drogarias eram procuradas como auxílio. Sem que o marido soubesse. pensaram tratar-se de algum tipo de doença contagiosa. já desconfiada. No percurso. Todas as vítimas que tiveram contato com o material passaram mal. Junto com um empregado de seu marido.onde muitos doentes estavam internados . Náuseas. O físico Walther Mendes.Sociedade do Lixo na rua P 19. Mas mesmo nos hospitais. Munido com um monitor usado em medições geológicas 32 . vômitos e diarréias tornaram-se algo comum na localidade. levou o conteúdo para o pátio. Outros procuraram postos de saúde e. observando os sintomas. Marília Gabriela cismou que esses problemas que afetavam as pessoas tinham relação com aquele troço que brilhava no escuro.

Campo estelar no chão terrestre de resposta rápida a estímulos. Respondendo chamadas às sete e meia da manhã. evitou que a cidade toda fosse contaminada. Santos entrou em ação. No quartel.GO. conseguiu impedir que bombeiros. VRUMMMMMMM demonstrava que 33 . a Secretaria de Saúde do Estado foi avisada e. uma prova válida para o campeonato mundial. a Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEM) entrava em cena. A Rua 57 foi interditada. tudo passava despercebido para o grande público. no dia 29 de setembro (16 dias após o equipamento/material radioativo ter sido encontrado na clínica de radioterapia abandonada). Até mesmo a imprensa. o primeiro Grande Prêmio Brasil de Motovelocidade 500 cilindradas. chamados pelo veterinário. Chegando à Vigilância. cobria. naqueles dias. Achou tudo aquilo muito estranho e providenciou outro medidor. o pelotão do qual fazia parte foi escalado. Até então. antes de tomar qualquer iniciativa. Salvou a cidade de algo pior. pensando que o primeiro aparelho estivesse estragado. junto com grande parte do efetivo de Goiânia. se dirigiu ao prédio da Vigilância. Dito e feito. para isolar as localidades acidentadas por um “acidente de gás”. seu revólver calibre 38 e cassetete de madeira. No caminho. em Goiânia . O ronco dos motores VRUMMMMMMM. jogassem o material no rio Meia Ponte. Disse que era preciso conhecer o problema primeiro. Ele se certificou do fato. sempre tão atenta. viu que em segundos era acusado um elevado grau de contaminação radioativa. Começaram as movimentações para isolar a área e separar as pessoas contaminadas. Imediatamente. com seu uniforme azul-petróleo. ao ligar seu aparelho. ou seja. Cerca de trinta mil pessoas se aglomeravam no evento.

Sociedade do Lixo

as motos rasgavam o asfalto e o grito da platéia EHHHHHHHHHHHHH se mesclava com toda aquela velocidade. O australiano Wayne Michael Gardner, de 28 anos, seguia tranqüilo, tranqüilo no retão, mas o ar, quente e seco, fez com que um rodamoinho incrível levantasse muitas folhas de jornal. Remoinho de informação? Sem problemas! O incidente foi contornado e Wayne Michael Gardner manteve a liderança. Naquele ano o jovem já havia subido dez vezes ao pódio, vencido seis grandes prêmios e pontuado em todas as etapas. Ele liderava e ia faturar o título. Foi o mais regular de todo o campeonato. Ele merecia!!! E lá ia Gardner com seu uniforme azul e branco, cruzando a linha de chegada, com sua moto número dois, que estava em primeiro: melhor volta da prova: um minuto, 28 segundos e 79 centésimos. Velocidade média de 155,49 quilômetros por hora! Wayner Gardner conquistava sua 7ª vitória. Atrás dele, Eddie Lawson e, logo em seguida, Randy Mamola. Tudo era festa! Do lado de fora do evento, os acontecimentos seguiam seu percurso. O césio-137, com seu brilho encantador, ia fazendo cada vez mais vítimas. O soldado Santos partia para o ofício. Era soldado e oferecia a vida pela Pátria, que tantas vezes abandona essas vidas. Normal? Não deveria ser... O soldado, devidamente fardado, chegou com seu pelotão. Outras equipes escaladas anteriormente já haviam socorrido, de certa forma, os civis. Santos deparou-se com pessoas desesperadas no Centro de Triagem do Estádio Olímpico de Goiânia, local que abrigava provisoriamente as vítimas do acidente com o césio-137 e onde era feito o monitoramento do grau de radiação pela Comissão Nacional de Energia Nuclear (CNEN).
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Lá havia astronautas, com macacões impermeáveis, luvas, botas descartáveis, máscaras com filtros. Tinham detectores de radioatividade, equipamentos de proteção individual (EPI), máquinas e equipamentos necessários à missão! Tudo isso para, o que se dizia, um acidente de gás. Por que os militares e servidores públicos, que ajudavam a isolar as localidades contaminadas e evitar o trânsito a pé e motorizado das pessoas desavisadas, não podiam ter essa roupa especial? O soldado se questionou. Porém, questionar de nada adiantava àquela altura. Ele percebeu que corria perigo, mas como estava no mesmo barco que seus amigos de profissão, e com o dever solene de ter jurado defender a Pátria, a sociedade – mesmo com o risco da própria vida – pôs-se a cumprir o dever com cabeça erguida. Antes de se deparar com “astronautas”, ou melhor, muito antes disso, Santos tinha prestado cinco anos, sete meses e sete dias de serviços ao (extinto) 42º Batalhão de Infantaria Motorizada. Submeteu-se a uma bateria de exames de saúde para ingressar nas fileiras do Exército Brasileiro. Detalhe: foi julgado “apto”, sem problemas de saúde. Seu desempenho físico era tamanho que, na época, participou de marchas de dois até 42 quilômetros. Na semana da infantaria, percorreu 14 quilômetros na Corrida do Infante. Bota fôlego nisso! Licenciou-se do Exército em 10 de setembro de 1986 e, no dia 1 de dezembro do mesmo ano, ingressou na Polícia Militar de Goiás, após aprovação no concurso e exame de saúde. Matriculou-se na 13ª turma do curso de formação de soldados, no Quartel do Regimento de Polícia Montada (RPMON). Aguardava sua movimentação e era empregado no serviço administrativo na (extinta) seção de ensino do quartel da Polícia Montada. Em 1987,
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teve contatos imediatos de primeiro grau com os astronautas terrestres. Goiânia parecia tornar-se um campo estelar. Antes eram as estrelinhas azuis, agora eram os astronautas. O que mais faltava??? No estádio olímpico, óbvio!, a competição parecia ser mais a de quem estava menos contaminado, pois esses eram logo liberados. Em três meses de trabalho da CNEN, de 30 de setembro a 21 de dezembro, foram monitoradas 112.800 pessoas, das quais 249 apresentaram significativa contaminação interna e/ou externa; 120 delas contaminadas apenas em roupas e calçados. Essas pessoas, após passarem por um processo de descontaminação, foram liberadas. As outras 129 passaram a receber acompanhamento médico regular. Destas, 79 contaminadas externamente receberam tratamento ambulatorial. Das outras 50 radioacidentadas e com contaminação interna, 30 foram assistidas em albergues, em semi-isolamento, e 20 foram encaminhados ao Hospital Geral de Goiânia. Desse grupo de 20 pessoas, 14 estavam em estado de contaminação interna grave e foram transferidas para o Hospital Naval Marcílio Dias, no Rio de Janeiro. A rotina de descontaminação era dura, sofrida, dolorosa. Os contaminados passavam por inúmeros banhos com água, sabão e vinagre para eliminar resíduos presentes na pele. As áreas mais afetadas recebiam uma pasta com dióxido de titânio e, depois, mais e mais banhos com sabão, permanganato de potássio ou hipocloreto de sódio a 0,5%. Tudo para eliminar o pó-azul-encantador-e-infelizmentemortal. Para a recuperação das radiolesões, eram utilizadas so36

Houve casos em que o bisturi teve que entrar em ação e extirpar cirurgicamente tecidos necrosados. entravam em cena os diuréticos. ti37 . Os corpos. os contaminados abriam a boca e engoliam doses de três a dez gramas de ferrocianeto férrico. Eram pessoas. para serem enterrados no Cemitério Parque. beirando duas mil pessoas. parecia uma onda furiosa. A população não queria que os corpos fossem enterrados lá e. Quem diria que um pozinho que cabia na palma da mão poderia causar tanta dor e sofrimento? Porém. colocados dentro de caixões de chumbo. que por falta de informação. Para retirar o césio-137 do corpo. mas numa academia onde não se buscava a estética: o objetivo era fazer com que as vítimas transpirassem à força. agora salvava vidas. A caminhonete blindada que transportava os caixões chegou a ser atacada. pedaços de concreto. No enterro. os tratamentos médicos foram em vão. chegaram a Goiânia no dia 26. também com a mesma função de eliminar os resíduos mortais. o soldado Santos dava cobertura policial. para eliminar os resíduos radioativos pelo suor. se armavam com cruzes de madeira.Campo estelar no chão terrestre luções analgésicas e antissépticas. e tudo mais que pudesse ser arremessado contra os caixões. Após algumas horas foi a vez de Leide. Naquela ocasião o hospital também se transformava numa academia de ginástica. esposa do dono do ferro-velho. pedras. tijolos. que vinha rebentar em gritos de protesto. como forma de protesto. mais conhecido como “Azul da Prússia” – ou seja. a mesma cor azul que matava. No dia 23 de outubro falecia a primeira vítima do acidente: Maria Gabriela. Ao invés de complementos vitamínicos. A multidão. para tanto. Os tratamentos seguiam.

que estava internado no Rio de Janeiro. Durante o dia. 38 . purificadas pelo líquido vivificador. Entulhos de casas demolidas. era embalado. Fazia turnos de 24 horas. Ivo. animais domésticos sacrificados. sem ser agredida. asfalto retirado de ruas contaminadas. Sônia Santillo. Com o apoio da primeira-dama do Estado na época. conseguiu se aproximar do caixão da filha. telhados. O trabalho de descontaminação prosseguia mobilizando centenas de pessoas. viaturas ou motos.Sociedade do Lixo nham medo e se uniam para evitar que o cemitério se tornasse um depósito de lixos radioativos. Abrandado pelas luzes artificiais. árvores cortadas. compareceu ao enterro sem o marido. Não deram a ela o direito de velar sua parente. micro-ônibus. todo material que não tinha condições de reaproveitamento. o sol iluminava o trabalho desse soldado. Ia do quartel ao Centro de Triagem no Estádio Olímpico com carros de choque. Ela só pôde observar o rosto de Leide pelo vidrinho do caixão. a mãe de Leide. o breu muitas vezes era sinônimo de trabalho. sucatas dos ferros-velhos. Triste e dopada por calmantes. digno de filme de ação. a vinte quilômetros de Goiânia. A dor que sentia jamais seria apaziguada. a escuridão não lhe dava motivo para adormecer. fazia sua via-crúcis de serviço. nem chorar pela filha. sendo considerado lixo radioativo. Goiânia parecia um campo de guerra. máquinas e ferramentas de trabalho eram lavadas. À noite. calçadas. transportado e condensado no depósito provisório de Abadia de Goiás. Lourdes das Neves Ferreira. durante mais ou menos quatro meses. Com o uso de jatos fortes de água. O soldado Santos.

Nuclebras e Nuclei. Defesa Civil do Estado do Rio de Janeiro e voluntários locais. Para prestar assistência médica e social às vítimas direta e indiretamente atingidas e desenvolver atividades relacionadas ao acidente. constituídos por 1. universidade. por sua vez. Esse órgão separou as vítimas por grupos. Abadia de Goiás recebia em suas terras uma montanha radioativa. E o grupo III.Campo estelar no chão terrestre Em Abadia de Goiás nasciam dois depósitos de superfície em concreto. assegurando a blindagem radiológica e a contenção do material. todo esse processo originou seis mil toneladas de rejeitos radioativos. medo. infelicidade. 26 contêineres (com 14 tambores de 200 litros). formado por trabalhadores do acidente. a Fundação Leide das Neves Ferreira (FUNLEIDE). O tempo passou. fruto de projetos de engenharia específicos para armazenagem de rejeitos radioativos. com contaminação interna e radiolesões e 35 descendentes. paren39 . preconceito e morte. que por 300 anos guardaria em seu interior. sem risco de escape para o meio ambiente. pelo Governo do Estado de Goiás. O grupo I possui 51 pessoas que foram expostas diretamente. Em 1999 houve uma mudança e a FUNLEIDE foi extinta. e 300 pessoas do governo de Goiás. contabiliza 44 pessoas e 28 filhos e netos. 669 pessoas. Com um custo estimado em 10 milhões de reais. Exército. foi criado em dezembro de 1987. lacrado. Foram mobilizados 244 profissionais da CNEN. 125 da Marinha. Já o grupo II. de acordo com dados da CNEN.357 caixas metálicas. caos. Em seu lugar surgiu a Superintendência Leide das Neves Ferreira (SULEIDE). formado por vítimas com contaminação menor e sem lesões. Tudo isso totalizou. empresas contratadas. o dano originado por 19 gramas de césio-137: destruição. oito cilindros de concreto. Furnas.

me sobram apenas 500. sem contabilizar os parentes. E. é o mais numeroso e conta com 548 pessoas. hipertensão arterial severa. de maratonas hospitalares. Antes. mas de nada adiantaram. Após sua atuação na descontaminação. trabalhava. precisou abortar seus planos devido a problemas de saúde e financeiros. que é cerca de três mil reais. agora era abandonado. praticava esportes sem nenhum problema. ainda luta por seus direitos. estudava. passeava. teve contato com o material. Era saudável. agora. insônia. estresse. atestados. passou a colecionar problemas de saúde: diabetes. Durante anos. vizinhos sem exposição ou contaminação detectável. que sonhava ser oficial da Polícia Militar e bacharel em Direito. depressão. laudos e papéis que demonstravam estado de saúde debilitado. que são para mim e mi40 . Também tenho encargos previdenciários. — Devido ao divórcio e a separação judicial. onde Santos está inserido. empréstimos e refinanciamentos bancários. Santos juntou calhamaços de receitas médicas. os grupos I e II tinham direito de assistência até a terceira geração. Ele. tão normal. teve dois casamentos desfeitos: — Foi o preconceito – diz. Para ajudar. dislipidemia. nessa história toda. ruía. que havia trabalhado noite e dia para ajudar as pessoas. No final de meu pagamento. Já o grupo III. lesões na pele. Ao invés de medalhas. tinha uma vida em família. parecia que seu mundo.Sociedade do Lixo tes. Como não havia recebido roupagem apropriada para atuar na área. A contaminação também foi responsável por causar transtornos financeiros. O soldado. foi arbitrada partilha de bens e pagamento de 30% de meus vencimentos líquidos de pensão alimentícia. participava de maratonas de corrida.

Jose. em 2004. o soldado tem que arcar com os tratamentos de seus filhos. Eliaquim. As reuniões nem sempre eram freqüentes. No rol de problemas destacam-se alergias crônicas. Claudio. Suelimar. surgia o edital de convocação. cuja assembléia geral ordinária realizou-se na sede da Associação dos Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar de Goiás. fundaram a Associação dos Militares Vítimas de Césio-137 (AMVC-137). Gecimar. Manoel. Ricardo. Valdecir. teriam que lutar pelo direito de serem reconhecidos oficialmente como vítimas da tragédia? Mas tinham de lutar. que mora comigo. tendo em vista que o grupo se mantinha organizado e os integrantes interagiam entre si. Ele explica que sua filha Kamila nasceu com seqüelas físicas. Nos blá-blá-blás das reuniões eram discutidos os assuntos relevantes da entidade. Zoroastro e Elvio. Esse valor mal cobre despesas mensais com meu tratamento de saúde. Quem poderia supor que seus amigos Juvenal. Fabian. Diurivê. em Minas Gerais – vivem debilitados pela gripe. Cleyton. aquela embalagem que o configurava como especial e importante. Ciro. Robson. Em 2004. uniu-se a outros militares. vítimas da mesma contaminação. Sandro. herdadas por legado genético. Pedro. e para isso. hérnia inguinal à direita e gripes com tosses alérgicas.Campo estelar no chão terrestre nha filha Kamila. elaboravam-se pautas sobre o que ia ser debatido e também as atas. soldados anônimos. Jesuel. Seus outros dois filhos – de outro casamento e que moram com a mãe. Ciro. Além de ter dificuldades financeiras e de saúde. Mas quando o assunto trazia aquele brilho. percebendo que sozinho não chegaria a lugar nenhum. Era preto no branco! 41 . Antonio. em Goiânia.

em casa mesmo. para ele. o anoitecer. ABCcâncer. como o Greenpeace. primeiro-secretário da associação. enfim. que finalmente saiu no dia 9 de setembro de 2008. em Portugal. nem o ajuda a ninar. o policial deve ter se cansado de contar carneirinhos. A noite não o embala. de todos os cantos do Brasil. Nesses anos. Para otimizar seu tempo. até mesmo de Coimbra. Soube aproveitar as facilidades do mundo da informática e. assim. mas ele não se cansa de responder. não é sinônimo de sono. Vítima de insônia. Recebe e-mails e os responde com a devida rapidez. lembra o soldado. está na net. Mas isso não significou que ele pudesse colocar seu chinelo e descansar. que mantém atualizado com notícias sobre a associação. que querem saber sobre a história de luta desses militares. Santos entrou com três meses de licença especial e um mês de férias. Como a AMVC-137 não possui sede própria. Associação das Vítimas do Césio-137. Com a saúde debilitada (e mais de 30 anos de trabalhos prestados à Polícia Militar de Goiás). aguardava a publicação da tão sonhada aposentadoria em Diário Oficial. o acidente e suas conseqüências. Antes de vencer a licença. Em abril de 2008. precisa se mobilizar para ajudar nas reuniões. abre a boca e os engole com um gole de água. Pega os remédios. São jornalistas. E o soldado Santos. entre outras. liga o computador e. se aconchega na cadeira. criou um blog.Sociedade do Lixo — Recebemos o apoio de organizações não-governamentais. buscou sua aposentadoria por tempo de serviço. estudantes universitários. As perguntas meio que se repetem. geralmente utiliza as sedes das entidades de classe da Polícia Militar. É remédio para PRESSÃO ALTA e para controle de 42 .

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ansiedade. A fada dos sonhos, se é que existe, aparece só tarde da noite ou, às vezes, quando está meio afobada, pelas três da madrugada. Bate a varinha na cabeça de Santos e ele finalmente adormece – o remédio de ansiedade é o pó mágico que o faz apagar. O que se passa em seus sonhos? São nove horas da manhã. Com o regime militar que segue, acorda, faz o café para a filha Kamila, de onze anos. Mais uma vez toma remédio contra PRESSÃO ALTA e para combater a diabetes, enfermidade muda que deixa seu sangue doce. Tantos problemas de saúde, mas a maratona não termina. Faz almoço para a filha e para ele. Às vezes, quando não está tão disposto a cozinhar, varia o cardápio num restaurante. De novo toma o remédio para controle de diabetes. Satisfeita, devidamente alimentada, Kamila pega o transporte escolar, que segue até o Colégio da Polícia Militar, Unidade Hugo de Carvalho Ramos. Sai de casa às quinze para o meio dia, retorna às seis e meia da tarde. No período sem a filha, o soldado segue a rotina: — Assisto televisão, leio jornais, visito meus amigos nos quartéis da capital. Vou ao centro da cidade pagar contas ou fazer compras. Nessas tardes a solidão, variadas vezes, se transmuta num sentimento de vazio: — Quando estou deprimido e muito ansioso, fico em casa sem sair ou vou ao médico para acompanhamento. O soldado Santos, que há 21 anos se preparava para trabalhar “num vazamento de gás” em Goiânia, com seu uniforme azul-petróleo, cinto preto, coturnos negros e luzidios, agora, com 46 anos, se transforma num soldado aposenta43

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do. Veste uma camiseta invisível chamada luta, tecida com a esperança de ser reconhecido oficialmente como vítima do acidente com césio-137, um acontecimento que marcou e ainda deixa marcas em todos os que tiveram, de alguma forma, algum tipo de contato com a tal estrelinha azul.

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Alimentos recolhidos no final da feira Lucas Claro .

ela arruma com entusiasmo os alimentos doados por colaboradores ao lar espírita Ernesto Külh. boa vontade e solidariedade dos feirantes lucAs clAro ome eu nunca passei. Já tive dificuldade porque antes. não tinha acesso a muitos benefícios da cidade. 55 anos. como morava em sítio. popular Lar do Moço. em Limeira.Xepa nossa de cada dia Limeirenses driblam a fome com inteligência. avental cinza e calça preta. Essa é a afirmação de Domingas Tiago Martins. Com tênis simples. A cozinheira tra— 47 F .

muito bem vestidas. abrem suas sombrinhas para proteger-se não de chuva. No trabalho deles agilidade e força são pré-requisitos. Aumento da temperatura é sinal de mais dinheiro no bolso. Alguns deles como frutas. macarrão. óleo. Os garotos do Lar do Moço não perdem tempo. em maioria negros. Todos os domingos. a sobra das feiras. À frente da arrecadação. Finalizado o serviço de montagem das cestas é hora de aguardar a chegada da xepa. Várias senhoras. Um ado- 48 . feijão e leite são os principais ingredientes. Arroz. Quem trabalha na entidade tem direito a uma cesta básica.Sociedade do Lixo balha há 14 anos no local e já está habituada a mexer com os alimentos. 87 anos. Motivo: satisfação em ajudar o próximo. conta Carlos Mian. verduras e legumes são doados por feirantes para incrementar a popular xepa. todos da periferia de Limeira. O vendedor de raspadinha. está Hélio Mian. dona Domingas separa as cestas básicas que serão destinadas aos 15 funcionários da instituição. Enquanto isso na feira três garotos assistidos pela entidade recolhem as mercadorias doadas. Tarde de domingo de intenso calor. passando as diretrizes aos adolescentes. exceto quando tem compromisso pessoal ou problema de saúde. mais de oito décadas de existência. Faço isso há muito tempo e para mim é um prazer enorme. — É muito bom poder ajudar as pessoas. mistura de gelo raspado com groselha ou outros sabores agradece. esse senhor de cabelo grisalho presta solidariedade. mas dos raios intensos do sol que proporcionam um calor desgastante.

vem subindo. A barraca dela é uma das primeiras. No caixote que puxa traz frutas e verduras. conversas esporádicas a respeito da economia e. ainda vazia.Xepa nossa de cada dia lescente moreno. fica logo no início da feira. 15 anos. os locais mais populosos são as barracas de pastéis e a de frutas e verduras. Vou separando algumas verduras aos poucos nessa caixa e quando vejo. Roseli Feola é feirante há oito anos. caminhando em direção a perua que carrega os alimentos. Centenas de pessoas. principalmente. Prosas sobre política. dois deles vividos dentro do Lar do Moço. próximo ao portão principal do estádio do Pradão. O esporte é o bate-papo especial. time que disputa a série B do futebol paulista. do Independente Futebol Clube. — É importante. É Diego Firmino Chaves. camiseta vermelha e shorts. Seu prato predileto é lingüiça com arroz e bastante feijão. uma colaboração muita válida. E no domingo jogadores do campeonato amador da cidade mostram as habilidades e lambanças no campo. Segundo ela. Na feira. ela já está cheia. Aproxima-se das 11 horas da manhã. A caixa fica ao lado da barraca e os produtos separa49 . crianças e idosos confraternizam-se num ambiente agradável e familiar. todos os finais de semana. A feira acontece na avenida Comendador Agustinho Prada e é a maior do final de semana. A peixaria também é disputada: jovens e idosos buscam as promoções. Eles precisam e pra mim não faz falta. do esporte rolam entre quem anda pelo local. A senhora de camiseta branca e calça jeans relata que doa em média cerca de 20 quilos de alimentos para o Lar do Moço. porque ao lado da feira está o estádio Pradão.

segurou na mão a cabeça do peixe cru e começou a devorá-lo. a verdureira conta que é constante a procura de pessoas por sobras de alimentos. O sol parece agir com maior intensidade. Dona Roseli pegou. Relata que a busca acontece principalmente perto do meio dia. E a pequena menina. por exemplo. algumas frutas e entregou à mulher e à menina que as engoliu rapidamente. A movimentação na feira é bem menor.Sociedade do Lixo dos por ela são aqueles que possivelmente irão estragar nos próximos dias. Entre um atendimento e outro. então. Agora o som que ecoa é dos caminhões da peixaria. No final da feira. o cheiro de fritura mistura-se ao de frutas cítricas laranja e tangerina. A feirante passa a mão no rosto e dispara: — Infelizmente jamais vou mudar o mundo. aparentemente de oito anos de idade aproximou-se dos restos de comida. Especulada sobre alguns fatos que lhe despertaram a atenção. existem também relógios de pulso e de parede. O barulho das conversas não é mais tão audível. Em marcha ré. Eles ficam ali até serem levados pelos garotos do Lar do Moço que ainda não passaram pelo local. com pouquíssima roupa. Uma mulher com uma criança pequena. milhares de crianças passam pela mesma situação em outros lugares. Roseli lembra-se de um sábado muito frio. Numa das barracas que há diferentes produtos. Mesmo assim. como roupas. Eles mostram que já é quase meio dia. Ajudo no que posso. bolas de futebol e basquete e camisas de clubes futebolísticos. horário de término da feira. um deles vem lentamen- 50 . o caminhão da peixaria recolheu os peixes das duas barracas. A mãe nada fez. enquanto isso. Os restos ficaram jogados ao chão.

Eles vão voltar para câmara fria. Com fome. Após o serviço é hora de partir. os garotos param para saborear os pastéis. Os dois meninos carregam e colocam a doação em um carrinho de ferro. Mas antes. A feirante Roseli acena com o braço o local onde está o caixote cheio de produtos. de 17 anos. porque as funcionárias já estão esperando no Lar do Moço. afinal. Quando chegam à perua entra em cena uma prática circense: os meninos e o motorista realizam um verdadeiro malabarismo para que tudo caiba no veículo sem estragar as doações. Agora. frutas e verduras que estão estragados. No trajeto rumo à entidade. E precisam manter a educação. seu colega do Lar do Moço. — É. hoje a perua está pesada. quando o vento passa pelas janelas entreabertas. que iriam para o lixo caso não fossem doados. dona? pergunta Robson. sim.Xepa nossa de cada dia te buscar os peixes que não foram vendidos. é hora de voltar ao Lar do Moço. estão com a boca cheia de pastel de carne ou de frango. Diego Oliveira e Robson Rocha. continuam recolhendo as doações e chegam à barraca de dona Roseli: — Tem alguma coisa pro Lar do Moço hoje. meninada. Diego prova uma banana bem madura. o odor é de alguns produtos. O cheiro na perua é forte. Percorrem as últimas barracas ainda não visitadas ou que não tinham doações na primeira passada. também doados. o motorista voluntário Arlindo Leite brinca com os meninos. 51 . Em alguns momentos. com uma pequena corda para puxá-lo. Os garotos não dão muita trela. estudante do ensino médio. empilham as caixas de alimentos. Com cuidado.

Todo esse material auxilia também os próprios funcionários. Pelo contrário. verduras e frutas. está bem desgastada. Um portão azul se abre e a perua adentra para descarregar os alimentos. Ele é novo na função. comenta: — Não tem muito tempo que eu faço esse serviço. que podem desfrutar do benefício de levarem um pouco para casa. Imediatamente elas. não esconde a satisfação em prestar a solidariedade ao Lar do Moço. Nelas há tomates. 52 .Sociedade do Lixo O motorista Arlindo de Oliveira. Não é um veículo novo. Dirigindo e comendo pastel. aquela que arrumava as cestas básicas. É muito bom. A solidariedade dos feirantes limeirenses é muito grande. A geladeira vazia aos poucos fica totalmente preenchida. senhor de 57 anos. Depois de cerca de cinco minutos no tranqüilo trânsito de Limeira (estamos em um domingo) chegamos ao Lar do Moço. mesmo assim ela é de enorme utilidade. Ela é de propriedade da entidade. São poucas horas e eu me sinto muito bem em poder ajudar Espremido ao lado de Diego e do motorista. Quando passa por lombadas. Segundo eles. o barulho de ferro aumenta. a auxiliar geral Cícera Guedes e a também ajudante Sheila Pierrotti. A porta traseira por onde entram os alimentos às vezes fica enguiçada. os meninos e o motorista descarregam toda a mercadoria. Mesmo assim. Três ajudantes estão à espera no local: a cozinheira Domingas. na maioria das vezes fica. Algumas caixas permanecem do lado de fora. legumes. aos finais de semana. trabalha semanalmente com entregas e. dirige a perua com amor para a instituição. há apenas dois meses. pergunto se o veículo sempre fica lotado. A perua segue seu trajeto.

está em perfeitas condições – afirma a cozinheira Domingas. Quando temos eventos na casa.Xepa nossa de cada dia — Nossa. Cerca de 70% dos alimentos arrecadados na xepa são reaproveitados. Dessa mercadoria que é pega na feira. quilos de tomates estão fervendo e permanecem assim por um longo tempo. Em poucos minutos. presidente da entidade. como você pode ver. nós fazemos a seleção. Seu Fernando recorda como o trabalho de arrecadação da xepa começou: 53 . O fruto vermelho é separado assim que chega. calvo e de olhos verdes. Na sala do presidente há um quadro com o rosto de Cristo e sobre a mesa o livro O Evangelho Segundo o Espiritismo. de acordo com Fernando Aparecido Cardoso.ressalta O lar espírita existe há 37 anos e já atendeu 275 crianças e adolescentes menores de idade. É lavado e colocado no fogo para virar o especial molho de tomate. a comida servida para os garotos é de alta qualidade nutricional. Um marcador de páginas indica que um terço do livro já foi lido. os diretores e os voluntários almoçam ou jantam da mesma comida que é dada aos meninos. de Alan Kardec. Aquilo que não presta a gente joga fora e aquilo que é aproveitável a gente reaproveita . — A comida que os nossos meninos tem aqui é a mesma que nós comemos. de camisa de manga curta verde-clara. dada pelos feirantes. Ao invés de comprar. o mesmo que dá aquele realce ao sabor da macarronada e da salsicha. Ajuda muito. eu e todos os outros ganhamos produtos como esse tomate. O presidente. que. mas. explica que o Lar se mantém de doações e de eventos realizados pelo menos uma vez por mês.

notou que no final os feirantes jogavam muita coisa fora e que muitos alimentos poderiam ser aproveitados. Quando um voluntário nosso. Certo dia. Domingas explica como é o realizado o trabalho na cozinha com a xepa: — Eu separo o que está bom. quando se deram conta. — Quando comecei a trabalhar aqui um antigo funcio- 54 . diz que trabalhar lá é um prazer. porque aqui sempre estou fazendo alguma coisa. que foi diretor da casa. em agradecimento a ele. — Eu acho bom o serviço que faço. tem dado muito certo – conclui o presidente. a cozinheira relata que a massa de tomate é preparada com um carinho especial. De acordo com essa mulher. cinco viagens. às vezes. A mais antiga delas. Com simplicidade no agir e nas palavras. Domingas. Agora a parte ruim. quatro. ele já estava fazendo três. de lá para cá. é dada para lavagem. — Então. conversando com algum menino – frisa a cozinheira. um advogado chamado Antonio Alves Montezuma. ia todo domingo à feira. Lavo muito bem. Seu Fernando conta que o advogado arrumou uma caixa de plástico e começou a trazer sobras da feira para a entidade. que está podre. que começou a trabalhar como auxiliar geral. Depois cozinho e sirvo como refogado e outras coisas.Sociedade do Lixo — Faz mais de 20 anos. tanto que nos finais de semana sinto falta. montamos um esquema e. o extrato de tomate preparado aqui não faz mal para a saúde. no mesmo domingo. As funcionárias que trabalham no Lar sentem-se satisfeitas.

Por exemplo. De pele morena e cabelo raspado. alimenta-se diariamente. 15 anos. uma sopa só com macarrão. Motivo: Jéferson teve de fazer uma cirurgia no joelho. Para uma alimentação ser saudável. a variedade no cardápio é fundamental. é necessário que tenha pelo menos um item de cada grupo. Não vai conter nenhum conservante. 55 . Mas se ele provasse algum alimento com molho de tomate no restaurante ficava com uma coisa ruim no estômago. é menos nutritiva. porque levou um chute durante uma partida. Por esse motivo. É da variedade do cardápio do Lar do Moço que o adolescente Jéferson. uma pirâmide mostra três grupos básicos de alimentos: energéticos. o jovem não tem no futebol seu esporte favorito. porque tem um produto no molho para não estragar – explicou dona Domingas. Apesar da semelhança. — É mais nutritivo um prato com variedade de alimentos. do que outra com mais legumes e verduras – explica. nem passar por qualquer industrialização. Segundo a nutricionista Regina Alves. Segundo ele. Daí pra frente perdeu o interesse pelo esporte mais popular do país. reguladores e construtores.Xepa nossa de cada dia nário (do Lar) me falou que quando ele comia nossa macarronada com o molho não fazia mal. a cozinheira está com razão: — Esse tomate vai ficar no calor que mata as bactérias. Está inabilitado para jogar. o sorridente e tagarela garoto tem a fisionomia que lembra o jogador Robinho. Na mesa do consultório da nutricionista.

tem auxílio médico. Além do garoto. no Brasil. Se diz feliz dentro do Lar do Moço. Estudam. — Coisa do passado? — Perdi o interesse. Jeferson sonha em ser administrador de empresa. De acordo com ele. de 30% a 40% dos alimentos produzidos vão parar no lixo. vídeosgame. infelizmente. Eles moram na instituição. Em países desenvolvidos esse número não passa de 10%. pois muitas coisas são irreversíveis. fazem as refeições diárias. que ganhei no primeiro ano que comecei a treinar. O pai revende sucatas e tem mais três filhos: — Apesar de tudo.Sociedade do Lixo Mesmo assim Jeferson tem uma história peculiar. É vicecampeão brasileiro de hipismo. odontológico e. O Lar do Moço atende apenas meninos. ainda. Boa parte do 56 . apesar do seu sofrimento com a ausência dos pais. que são orientados desde cedo pelos funcionários sobre a importância do amor ao próximo e. Agora eu quero é jogar basquete! Brinca o garoto. que o ser humano não deve desperdiçar nada. Mas agora isso é coisa do passado. idolatra o jogador de basquete norte-americano Kobe Brayan. que é realizado de diversas formas: futebol. Apesar de todo esse trabalho desenvolvido no Lar do Moço. Pode ver a família só uma vez por semana. também. filmes ou jogos de tabuleiro. sobra uma parcela do dia para o lazer. outros sete meninos são assistidos no Lar do Moço. esse é o fato mais marcante de sua década e meia de vida: — Minha maior alegria é ter esse título. basquete. sou uma pessoa linda e maravilhosa – Jéferson encerra a conversa.

quantidade suficiente para alimentar . por exemplo. em apenas um ano. na qual reina o desperdício. Ao todo. Uma informação gritante: o brasileiro joga fora mais comida do que leva à mesa.Xepa nossa de cada dia desperdício acontece logo na colheita e no transporte. enquanto a ingestão desses vegetais não passa dos 35 quilos no mesmo período.com café-damanhã. Os outros 30%. dezenas de quilos de ali57 . nos sítios de Limeira. o Lar do Moço reaproveita 70% dos alimentos doados pelos feirantes. quase os cinqüenta milhões que ainda passam fome no país. servem para a refeição dos suínos. Mais impressionante é pensar que quase 33 milhões de reais em comida vai para o lixo em míseras 24 horas. são 39 milhões de toneladas de alimentos por dia. naquele dia. por este motivo terão um diferente destino que não é o latão de lixo. É simples: já que não podem ir para a mesa das crianças do Lar do Moço. Todas as segundas-feiras. são monstruosos 12 bilhões de reais que o País despeja nas lixeiras. estavam estragados. almoço e jantar – 39 milhões de pessoas. no trajeto até o Lar do Moço. o cheio forte dentro da perua. Um estudo da Embrapa Agroindústria de Alimentos mostra que só em hortaliças. em Limeira. mas os consumidores não ficam ausentes no mutirão dos alimentos perdidos. de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Nesse momento entra em ação outra iniciativa de extrema valia. Em contraste com essa realidade nacional. Esses 30% restantes viram comida. o total de perdas é de 37 quilos por habitante. No total. que exalavam.

o que hoje é lixo para muitos torne-se alimento para milhões de pessoas num futuro próximo. seu Fernando resume o clico final dos 30% dos alimentos que alimentam os porcos: — Os sitiantes que nos doam a carne de porco aproveitam os restos de comida que iriam para o lixo. Fecha-se então um ciclo do alimento e do lixo. O que não é aproveitado pelas cozinheiras tem seu destino: a lavagem dos porcos. que mais tarde servem para alimentar os meninos. Mas infelizmente é uma entidade isolada. O presidente do Lar do Moço. com inteligência e força de vontade. 58 . que existe em Limeira. Recapitulemos: os feirantes praticam a boa ação de doar a xepa para o Lar do Moço. E alguns desses porcos alimentam as crianças e jovens.Sociedade do Lixo mentos vão direto para a lavagem dos porcos. proprietários desses sítios doam leitoas para o Lar do Moço. É necessário que outros “Lares” como esse surjam em dezenas de cidades. porque. nas festas e quermesses de final de ano. e ajudam na arrecadação de fundos para essa entidade. O Lar do Moço é um exemplo de solidariedade e consciência. E nós ajudamos a engordar os porcos. para que. nos finais do ano.

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Edivaldo com seu irmão em lixão de Campinas/SP Edivaldo da Silva Alves .

No presente.Vida no lixo No passado. Numa ponta estão seres humanos. Correm em direção ao caminhão da coleta. Mais parecem bichos-homens. Bus61 . Alucinados. mãe e filho foram catadores. a superação e a melhoria de vida AnAlúciA neves O s filhos da sociedade contemporânea têm mundos totalmente opostos. quando ele chega para despejar sua carga. Competem com gaviões e urubus circundando o céu. Travam ali uma luta feroz. tiram o que podem do amontoado descarregado todos os dias. vestidos para uma batalha nos aterros sanitários e lixões.

Mexem. ainda bebê. a competição se dá entre homens que. mas. gritam num desvaire exacerbado. com um Lexotam para aliviar as tensões. A ex-catadora lembra que toda manhã aparecia bem cedo com o filho. nas Bolsas de Valores de toda a aldeia global. mas sim num lixão clandestino. ao contrário. Atentos ao que procuram. Na década de 1960. Parecia até um sinal de que a história da menina seria cheia de dificuldades. preocupada somente com o crescimento econômico. nos braços em busca de materiais recicláveis e alimento para aquele dia. em busca de lucro e poder. que começava quando terminava o quintal da sua casa construída de tábuas feitas restos de construções. Como não tinha com quem dei62 . por ironia. interior do Paraná. ainda existem lixões para servir de palco de tais cenas corriqueiras. Ao final do dia podem comemorar pelos lucros obtidos com uma taça de vinho francês ou. um desses lixões clandestinos serviu de cenário principal da história da ex-catadora Maria Ferreira Alves da Silva. aos doze anos de idade.Sociedade do Lixo cam comida e lugar para viver e procriar. Maria teve seus momentos de corre-corre. Casou-se ainda na adolescência. Para os engravatados das bolsas. agitam. ela fala com orgulho de tudo que passou para sobreviver. Na outra ponta. Não numa bolsa de valores. Nos dias de hoje. não desviam o olhar. Com treze anos foi mãe. está aquela encontrada. em Mandaguari. recolhem e espalham as sobras. foi registrada como se tivesse nascido em 1947. por exemplo. O passado de Maria não lhe causa vergonha. Ela e o marido vieram para Campinas em busca de uma vida melhor. Nasceu no ano de 1950. apesar dos apelos para que os municípios construam aterros sanitários. paralelo a essa situação.

Maria não teve essa orientação que os catadores têm no presente. Reflete e. cachorros e gatos alucinados. Por um instante ela pára. papéis e caixas. a não ser levandoos para o trabalho. em 2008. Ela só sabia que os sucateiros compravam vidros. nem local para trabalhar. fala: — Hoje é comum as pessoas se encontrarem com catadores de recicláveis. A face rosada de Maria brilha e os lábios sorriem. contrastando com as histórias que saem da sua boca. eles não escolhem nem hora. Como se precisassem de ajuda para empurrar o que lhe pesa. para apanhar tudo que pudesse ser útil. tirando o que podem dos amontoados descarregados todos os dias nos lixões. algo seria diferente? Pesquisadores e ativistas em favor do meio ambiente defendem que tudo o que se descarta pode ser transformado em matéria-prima. o levava em seus braços. para remexer sacolas. papelão e latinhas. As mães catadoras de materiais recicláveis ainda sofrem com a falta de creches ou escolas em tempo integral. e se multiplicavam como células em evolução. Param o carrinho em qualquer lugar. Competia com as gaivotas e urubus circundando o céu. Como nos outros. Recolhem de tudo. pernilongos. da guerra com os mosquitos. Ela podia ser comparada a um bichohomem. Esse problema persiste. até na calçada. que sugam o sangue sem piedade. a competição no lixão da Maria era feroz nos anos de 1960. viviam a mãe e seu bebê Edivaldo. ao falar da guerra com as ratazanas que se divertiam cavando buracos.Vida no lixo xar seu filho. Andam praticamente no mesmo ritmo. Nessas condições adversas. Será que se a história de Maria fosse hoje. não vêem alternativas para cuidar dos filhos. Tendo que trabalhar muitas horas. Que naquele tempo 63 .

que funcionam como depósitos. Quem não se lembra das manifestações dos ativistas do Greenpeace pelo mundo? No que diz respeito a coleta e reaproveitamento do lixo 64 . A população ainda está engatinhando no que diz respeito à reciclagem. papelão e garrafa pet. Por sua vez. através da CBO (Classificação Brasileira de Ocupações). Por outro lado. Independente se o município faz ou não a coleta seletiva. Inclusive os lixos mais valiosos. são muito poucas as pessoas que separam seus lixos domésticos. os olhos cautelosos dos catadores enxergam bem mais do que se pensa. Isso. Desse total. depois que algumas ongs passaram a cobrar dos governantes atuações concretas em favor da natureza. sem a conscientização das pessoas. Depois. como alumínio. Em 2003. Ainda que a sua participação e conscientização são peças fundamentais para o sucesso de qualquer programa que favoreça o meio ambiente. antes mesmo de serem vendidos às indústrias. infelizmente. Estudos apontam que hoje existe cerca de 800 mil catadores em atividades no Brasil. papel branco. os catadores se organizam em cooperativas. o Ministério do Trabalho. sob a nomenclatura “Catador De Materiais Recicláveis”. No caso da coleta seletiva. Atualmente. Os governos municipais apenas ensaiam algumas ações através da criação de diretorias ou secretarias de meio ambiente. eles repassam o lixo para as empresas de reciclagem. postos de triagem da coleta feita nas ruas. ela corre o risco de não sair do papel. classificou o catador como trabalhador. 7% estão estabelecidos nas cooperativas e associações de catadores.Sociedade do Lixo pouco era reciclado. Além disso. as empresas se anteciparam ao Poder Público e têm procurado enquadrar-se em planos de responsabilidade social e preservação ambiental.

Mas já é alguma coisa! E a Natureza? — Ah! Essa segue agonizante! Prova disso é a declaração da ONG canadense Global Print Network. existem1. A voz embarga. Os olhos castanhos escuros escondem o seu passado de catador. Além do mais. sendo que apenas 46% desse total recebem destinação adequada. de que são consumidos mais recursos naturais do que o planeta pode repor. esses lixões.Vida no lixo no País. calvo. Campinas registra casos de caminhões de lixo depredados. Relatórios comprovaram que a resposta destes grupos ao fechamento dos lixões pode ser violenta. As mudanças em prol do meio ambiente são pífias. pele amorenada.5 mil lixões espalhados por todo o seu território. A prova disso no Brasil é que mais de 158 mil toneladas de lixo são coletadas por dia no país. Tem restrições para falar de sua origem. foi o máximo que conseguiram até aqui. Gosta das funções que exerce no presente: fotógrafo profissional. com prêmios nacionais e internacionais. também é conhecido como Didi. Esses depósitos constituem a forma mais rudimentar no armazenamento dos detritos. Edivaldo da Silva Alves. hoje com 43 anos de idade. Pois o seu fechamento interrompe um fluxo importante de receita paras para a comunidade. aparenta um homem magro. agenciador de talentos 65 . servem de habitat para seres humanos que ainda moram em torno deles. clandestinos ou não. Uma vez que para o fechamento de um lixão é preciso avaliar o futuro dos catadores que aí vivem. Embora essas pessoas ocupem a posição de desafiantes políticos e sociais para as prefeituras brasileiras. ao tentar entrar numa área de lixão transformada em aterro. de outubro (2008). como se algo atrapalhasse a dicção. Edivaldo. O filho de Maria.

a associação em parceria com a Unicamp se prontificou para criar uma cooperativa de catadores. A mesma opinião tem Margarida Rosa Junqueira. mostra que é ligado a tudo referente aos catadores. ele apenas fixa o olhar para o infinito e demora a responder. Ao contar as experiências no lixo. Fui catador. e conta que. não gosta de lembrar-se dos tempos da catação. Pegava o que era dinheiro certo. Didi argumenta que não é só porque vive do lixo que a pessoa é lixo. uma vez 66 . em Campinas. No entanto. Apesar das roupas elegantes. batia na roupa para tirar a sujeira e. Está sempre bem vestido. sempre ausente. Para ele o pai. sim! Mas catador de embalagens. quase nada. Também nunca gostei de ser confundido com mendigo. sem titubear. entre uma palavra e outra. mesmo sem condições financeiras para realizar o que julga querer. que de certa forma camuflam o seu passado. apesar da pouca idade que tinha. imediatamente colocava na boca. Sentia o gosto e demorava a engolir. Quando achava algo de comer que lhe parecia saboroso. Não garimpava qualquer coisa. Ela é moradora e membro da Associação de bairro do Jardim Nova Europa. não faz muito tempo. Devorava ali mesmo. Só revela que quando recolhia embalagens procurava as mais valiosas. não tinha o direito de privá-los de tanto! Ao contrário de Maria. Começa meio sem jeito. O ruim é que ficava exposto a tudo! A todo tipo de material. Didi fala bem pouco. o filho primogênito. Não vacila para afirmar: — Acredito que já fiz muito nessa minha vida.Sociedade do Lixo e está cursando o último ano de Publicidade e Propaganda. a sua retórica domina o ressentimento de quem sabe que a vida poderia ser mais bem aproveitada. Fala muito pouco do passado.

que se limitou a ceder o terreno para a cooperativa. Aquele igualzinho ao que Didi sentiu na sua adolescência de catador. esclarecimento da comunidade e boa vontade por parte do Poder Público Municipal. Eles trariam a desvalorização dos seus imóveis e roubos. Margarida acha que as pessoas não procuram se informar direito sobre o assunto. ao mesmo tempo. Só se preocupam consigo mesmas. Mostrou também que o lixo é uma grande problemática. Margarida lembra que nas reuniões para exibir o plano iam leões de chácara. quando o projeto foi colocado aos moradores. a rejeição foi unânime. Para aquelas pessoas desinformadas. Também daria o suporte necessário até que os membros começassem a andar com suas próprias pernas. A elite desinformada venceu – disse Margarida. é uma alternativa de geração de empregos. para surpresa da associação. Ficavam no fundo da sala com os braços cruzados. Eles são fator causador de acidentes entre esses profissionais. 67 . que precisa ser observado pelo Poder Público. Eles passaram a freqüentá-las vestidos de roupa preta.Vida no lixo que a região conta com muitas empresas. com tristeza nos olhos e revolta nas palavras. o projeto foi engavetado. É um problema ambiental e social e. homens fortes e desconhecidos do bairro. Mas pode ser a grande solução. o bairro ficaria exposto à ação de “marginais e mendigos “. Outra questão importante. Mas. fixando os expositores. Numa cidade como Campinas é comum ver os lixos totalmente misturados. — Por falta de apoio. A experiência dessa mulher com relação ao projeto da cooperativa confirmou o preconceito das pessoas. é a falta de equipamento adequado para os catadores.

do total comercializado em 2007. são usadas como matéria-prima para produzir sacos plásticos de descarte e incineração de lixo hospitalar. foram enviadas para reciclagem ou incineração mais de 20 mil toneladas dessas embalagens vazias. O que vestíamos e calcávamos eram tirados do lixo. as empresas produtoras e comercializadoras são responsáveis pela destinação dessas embalagens. foram recolhidas 80% das embalagens primárias. dispara: — Também não nos precavíamos com luvas.Sociedade do Lixo O fotógrafo Didi sabe bem disso. o governo sancionou. Eu era tão pequeno! E quer saber? Tinha até embalagem de agrotóxico. Sim veneno mesmo! Pesquisa de 2008 do Instituto Nacional de Processamento de Embalagens Vazias (INPEV) mostra o Brasil no topo do ranking dos países que recolhem e reciclam as embalagens de agrotóxicos (substâncias químicas usadas no combate a pragas e doenças de animais e vegetais). é a contaminação dos rios. Esse levantamento indica que. com as 68 . Com o aumento das exportações dos produtos agrícolas. O resultado desse crime ambiental é uma população inteira doente. sapatos fechados. Na sua maioria das vezes. aquelas que não entram em contato com o produto químico.974. Entre janeiro e dezembro de 2007. a lei 9. em junho de 2000. córregos e o lençol freático. Além disso. camisas de manga e calças compridas. que determina que os usuários desses produtos devem efetuar a devolução dessas embalagens vazias em qualquer uma das 365 unidades de recebimentos espalhadas pelo território nacional. O estudo ainda mostra que um dos grandes problemas no descarte indevido desse tipo de lixo tóxico. Com expressão séria e sacolejando o dedo da mão direita.

Em Campinas. é a situação das sacolas plásticas. Dados da Secretaria Estadual do Meio ambiente de São Paulo mostram que 18% do lixo dos paulistas correspondem aos sacos plásticos. tramita na Câmara Municipal um projeto de lei que prevê a proibição do uso desse produto. peças decorativas. considerada. Elas são levadas principalmente dos supermercados e servem para ser entupidas de resíduos domésticos e levadas pela coleta municipal de lixo. entre outros recicláveis. o lixo das 300 maiores cidades brasileiras podem produzir 69 . vassouras. Diferente das embalagens de agrotóxicos são as garrafas pet que podem ser bem aproveitadas. no comércio varejista. O volume do consumo desses materiais cresceu vertiginosamente. reduzindo totalmente as chances de reciclagem. Por exemplo. como na confecção de móveis. No Brasil. brinquedos. o que representa 10% do lixo do País. derivado de petróleo. podem inclusive voltar a ser uma garrafa de refrigerantes. Já as garrafas pet podem ser reaproveitadas na confecção de móveis. etc. e menos de 1% disso reciclado. uma fonte alternativa e renovável que trará resultados benéficos. peças decorativas e inclusive voltar a ser garrafas de refrigerante. nos últimos estudos sobre tratamento térmico e geração de energia a partir dos resíduos urbanos. A intenção é substituir a força produzida a partir de combustíveis fósseis pela gerada a partir do lixo. brinquedos. a produção anual de sacolas plásticas chega a 210 mil toneladas. Não menos preocupante que as embalagens de agrotóxicos. Esse tipo de energia já é realidade em alguns paises da Europa. entre os pesquisadores.Vida no lixo mais variadas patologias. Aparecem. desde uma simples alergia a um câncer. cuja capacidade dos aterros e lixões está no limite.

Basta-lhe ser uma mulher daquelas de conversa agradável. Dados do IBGE de 2000 indicam que 63. a transformação de lixo em energia apresenta outros dois resultados favoráveis. que fala das privações por que passou. O sorriso sempre presente no rosto se mistura com as idéias que defende: 70 . que passam a ser matéria-prima. Os anos de catadora fizeram dela uma pessoa intensa e segura nas suas emoções. que não se preocupa com pesquisas. Mostram que nos braços fortes há a mesma eficácia de antes. o lixo pode gerar créditos de carbono e beneficiar o Brasil nas negociações sobre mudanças climáticas. mas diferentemente dele. A expressão de Maria mostra o caráter e a energia da dona de casa. Orgulhosa de tudo que fez na vida. Ela sabe dos sentimentos do filho. vive sem rancor do que teve que suportar na vida. garante que não se abate por pouco. O primeiro impulsiona a armazenagem correta dos resíduos.3% dos municípios brasileiros tratam o lixo de forma errada. O assunto energia. Além disso. revela o Plano Decenal de Produção de Energia 2008/2017. A geração de créditos se deve à queima do metano. Os cabelos castanhos escuros escondem-se numa touca de cozinheira. O outro benefício está na esfera econômica: assim como outras fontes de energia renovável. estudos etc.Sociedade do Lixo 15% da energia elétrica consumida no País. não despertou ainda o interesse de Maria. do Ministério de Minas e Energia. Sua face rosada brilha junto com seus olhos castanhos. É assim que ela ganha o seu sustento hoje em dia. Esse gás é mais nocivo ao aquecimento global. produto natural da decomposição orgânica. As mãos a denunciam: são de uma trabalhadora braçal. sem sentir dó de si. Normalmente só indicam o local onde os detritos devem ser jogados.

mas também traz consigo doenças — pronuncia balançando a cabeça. Tenho reumatismo e um problema que os fizeram ficarem tortos por causa da tanta friagem. Ia dormir às duas. pelo contrário. Vejo o mundo diferente. encarava e via o lixo apenas como sua principal fonte de renda.Vida no lixo — No meu coração não há lugar pra raiva. A pouca idade que tinha quando começou a viver a dura realidade de catadora. A resposta para a dúvida de Maria não é boa. — Não sei se agora esse problema diminuiu. porque tinha que deixar tudo pronto. Maria lembra que. O Mo71 . é grande o número de pessoas com verminose. Doenças de pele são igualmente comuns. pois sempre fui feliz. mas também gostava de ver a noite. pneumonia. muitas vezes vencido. não a influenciou negativamente para tocar a vida. sempre soube da importância do meio ambiente. Mas também como um agente de degradação da natureza. Por causa das raízes rurais. Acho que tinha um sentimento que misturava ódio e felicidade. Penso que sim. quando se está descalço. Mas não me lembro direito. Do contrário todo mundo que vai pro lixão tira seu pão. de sandálias e sem luvas. além dos acidentes. e gostava de ver o sol nascendo. bronquite e outras doenças respiratórias. Os problemas intestinais vêm do consumo de alimentos encontrados em condições precárias. inclusive restos que chegam de feiras livres e supermercados. — Levantava às seis horas da manhã. entre os catadores. Naquela época eu pensava que aquele lixo todo estragava as plantas que Deus tinha deixado pra humanidade. — O lixo me deixou essa herança nos dedos. apesar de tudo. A trabalhadora olha para as mãos doentes.

Usando os sentidos. Coletar material reciclável não requer nenhum tipo de exigência física e técnica. Acabam vendendo os materiais coletados a preços irrisórios para intermediários.Sociedade do Lixo vimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) levantou a situação desses trabalhadores brasileiros. não têm acesso a equipamentos que possam gerar escala na produção. perante os demais 72 . na maioria. Davi Amorim. A garrafa pet é um exemplo: em São Paulo. só o paladar lhes importava. o filho fez parte da estatística de exploração de trabalho infantil. vende-se por 90 centavos o quilo. Maria nem pensava que. individualmente e na informalidade. em decorrência da falta de equipamentos de proteção e do trabalho escravo não possuem capacitação e seguem expostos a doenças infecto-contagiosas. gera indignação e revolta. A invisibilidade social. do setor de comunicação do MNCR. seguida da indiferença. e abrange um mercado dinâmico e matéria-prima abundante misturada ao lixo comum. além da falta de proteção. torna esses servidores. Ele mostra a diferença enorme de preços com que os produtos são vendidos. Mãe e filho contavam com o olfato e a visão. As pequenas mãos que remexeram o lixo iam nuas. em 2006. São desprovidos de higiene e moradia digna. driblavam as dificuldades do serviço. além da privação de condições sociais para ter uma vida digna como a de qualquer trabalhador. Além disso. A discrepância dos preços denuncia que a catação revela a degradação humana. já na Bahia. vivem normalmente próximos a lixões. por trabalharem. por 15 centavos a mesma quantidade. Em relatório afirma que a categoria encontra-se em condições de vida precárias. confessa que essa atividade econômica é totalmente desorganizada. muitas vezes.

A certeza da dignidade aparece na fala: — Eu olhava pro lixão e via um serviço como outro qualquer. até hoje eu cato as coisas na rua. não quer nem pensar no trajeto que precisou percorrer sem poder optar sobre o rumo que gostaria de seguir. Saíram denifitivamente da condição de catadores. prestes a conquistar o diploma de publicitário. automaticamente. para Maria. é o consumismo: o 73 . Eu e meus filhos sempre usamos tudo o que as pessoas jogavam no lixo. tanto para os domicílios quanto para a indústria. haverá a seleção prévia desse lixo. vai para a reciclagem. Era assim mesmo. como fotógrafo. quantas contradições existem por aí nas ruas. Catava de tudo e não tinha vergonha de nada. buscaram oportunidades de trabalho. ao contrário. O resultado disso: o que não vai para o aterro. pois o que é levado para a coleta é um volume muito pequeno. Achava as roupas e reformava pra mim. O filho Edivaldo. Apesar de tantas diferenças. Ela segue como cozinheira. Mas igualmente ao que aconteceu com eles. Se for interpretada como uma política institucional de redução na produção de resíduos. Os catadores não têm hora nem dia para labutar. cada um à sua maneira. diante dos lixos que são fuçados por seres humanos explorados nas mesmas proporções das fábricas desde o século XIX? Muitos bichos-homens permanecem fuçando lixos.Vida no lixo trabalhadores. Está mais do que provado que o grande predador do meio ambiente. todo trabalho é digno. Aliás. ninguém. causado pelo homem. Ele. Mãe e filho. Maria guarda carinhosamente as lembranças na memória. O Brasil precisa urgente de uma política de redução da produção de lixo. o que era melhorzinho consultava pros dois filhos.

Sociedade do Lixo gerador de lixos! O que faz do ser humano uma peça. uma máquina a usufruto do capital. como descrito. no filme Tempos Modernos. o dinheiro ainda é o domador da base composta dos muitos cidadãos. Nele a personagem dá duro numa linha de montagem. por Charles Chaplin. mostrando. a exploração da força do trabalho. Sendo assim a indústria do lixo não poderia ser diferente das demais. que encontram na catação a única oportunidade para seguir com a vida. Filme esse que nunca deixou de ser atual. Mas e os catadores? Esses são só catadores! Até quando? 74 . Enquanto os catadores padecem mexendo e remexendo nos lixos das ruas. os engravatados das bolsas de valores são os ‘trabalhadores’ que ditam as regras. de 1936. assim. até ser engolida pela engrenagem. Trabalhador e máquina se misturam como se fossem o mesmo objeto.

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Maurício Vegan no escritório da Casa do Estudante Juliano Schiavo .

logo se choca com um terreno que destoa dos restantes. quem passa pela rua Carioba. de quebra. Se as lojinhas daquela área se estrebucham logo na calçada. consciência ambiental JuliAno schiAvo o centro de Americana. como num vácuo. e segue reto. E 77 N . como se tivessem a intenção de puxar os futuros clientes para dentro. há um muro. Seguida dessa área. surge. dois cães e um vegetariano Ong trabalha geração de renda e. uma área vazia. vira à esquerda na rua Francisco Manuel.A Casa. a kombi.

quando se abre o portão. Nesse cenário. Rejeitos são separados e ordenados em grandes sacos ou até mesmo em caixas de papelão.Sociedade do Lixo nesse muro. O local recebe o nome de Metareciclagem e pertence à organização não governamental Casa do Estudante. que ficam eriçadas. Aqueles resíduos guardados pelos cães são uma pequena parcela do que muitos consideram lixo. faz barulho de trovão. É o marketing que busca a doação de lixo. ou “Resíduo têxtil. De vegetariano. que. azul e preto. TRUMMMMM. Em seu interior há frases e palavras como “Vida pessoal: transforme-se em um cidadão sustentável”. ou melhor. há quatro retângulos tatuados. quando aberto ou fechado. metal. uma entidade sem fins lucrativos. vermelho. E lá dentro.. protegem os resíduos. Em Americana. O portão também tem cabelo espetado: são pontas bem afiadas. não poderia faltar um cão. de cor amarelada. plástico. Maurício Vegan. dois rotwaillers: Pandora e Thor. ou até mesmo dentes afiados. a quantidade de lixo domiciliar é 78 . ficam guardados os lixos. para atrapalhar o pulo de um possível ladrão. é produzido diariamente 173 mil quilos de lixo. É um portão cinzaenferrujado. presidida por Maurício de Melo. os equipamentos eletroeletrônicos (como computadores descartados) e tudo que está no barracão. Com seus ladros. cidade com população estimada em aproximadamente 200 mil habitantes (2008). Passos à frente e lá está um portão. que cedo ou tarde vão sofrer algum processo de seleção. nas cores verde. Já no Brasil. Aquele é um muro que se comunica com quem joga olhares curiosos. ou melhor.. Doe seu lixo”.

São cerca de 40 milhões de toneladas anuais descartadas. haveria uma fila de 16. dez milhões de equipamentos novos chegam às lojas todos os anos e. dois cães e um vegetariano de 115 mil toneladas por dia. Desse lixo todo. E a reciclagem de 100 toneladas de plástico evita o uso de uma tonelada de petróleo. essa fila ultrapassaria a distância entre São Paulo e Rio de Janeiro.A Casa. Se esses rejeitos fossem colocados de uma só vez em caminhões. Só no Brasil. sem leis que regulamentem o destino do lixo tecnológico. O presidente da ong explica que. Estamos nessa dependência de resolver a questão financeira – destaca Vegan. estão entre as categorias de detritos com o maior crescimento no mundo. ao obser79 . Em três dias. Nesse cenário. — Uma das propostas da Metareciclagem é a recuperação de máquinas eletroeletrônicas e computadores. Já os resíduos eletrônicos que a Metareciclagem recolhe. Pegue-se como exemplo uma lata de alumínio reciclada: economiza energia elétrica suficiente para manter uma lâmpada de 60 watts acesa por quatro horas. plástico e latas. a Metareciclagem consegue captar o lixo de 70 famílias. a kombi. como vidro. Separar esses resíduos e reciclá-los traz uma série de vantagens. cerca de 30% é composto de materiais recicláveis. papel. Daí vamos abrir uma sala que vai servir para a comunidade ter acesso à internet e também aprender a mexer nos computadores. a começar pela redução do consumo de recursos naturais e de energia. cerca de um milhão de computadores são jogados fora anualmente.400 deles ocupando 150 quilômetros de estrada. como peças de computador.

não aconteceu mais nada. pois há pedaços de massa cinza e também manchas de sol em sua pele metálica. Além disso. você tem que trocar o sistema. — A gente estava numa rampa. eu não achei o freio. Por ser temperamental. é movida a gasolina e tem alguns problemas circulatórios: o freio é antigo. Vegan já a levou a especialistas mecânicos. então. uma vez. e pumba. quando era colocada dentro de um abrigo. A sorte foi que ela andava a cerca de 20 ou 30 quilômetros por hora. tenta ser branca. Perdemos um vaso de planta que estava frente. resolveu aplicar os conhecimentos adquiridos. ou melhor. Fora isso. Segundo Vegan. a enumerar junto com sua mulher o seu círculo de influência (parte da metodologia aprendida) e. cutucando. Quando há dinheiro para comprar fluído de freio. é temperamental: funciona e breca quando quer. quando ela caiu dentro da vaga. mas cansou-se de ouvir: — Olha. ham-ham. apesar de parecer bem amigável. decidiu não brecar. Começou. isso é caso perdido. Nascida no ano de 1972. esguicha e vaza óleo. Dorothy Dorothy é uma Kombi branca. Como o sistema custa caro. feito de burrinhos. Quando se pisa neles. suas veias recebem o soro vivificador e garantem a viagem.Sociedade do Lixo var a metodologia de algumas empresas. Dorothy permanece com problemas em sua frenagem. Mas 80 . ela destruiu. conseguiu 70 casas para que pudesse captar o material reciclável com a ajuda de Dorothy. tem várias flores estilizadas e coloridas fixadas na lataria. dentro desse grupo.

nove. a kombi. E é essa Kombi. dois cães e um vegetariano quando não há.A Casa. com verme81 . eu não posso fugir dela também. Vira e mexe Dorothy está nas ruas. mas não está nem aí. não. Justamente por conta disso. Porque as cores são chamativas. Mas como boa companheira. após a devida separação. Você nunca vai ver a Dorothy de manhã. ela permanece em estado dormente: assim evita um possível acidente. Se a minha realidade é essa. Esses resíduos. Você vai vivendo de acordo com sua realidade. — Procuro até manter o itinerário meio que estreito. Tem cheiro de incenso de sândalo. de veículos da cidade. Segue rumo a um itinerário curto. O dinheiro ajuda a manter em dia as contas da Casa do Estudante. Ninguém pode deixar de se maravilhar com suas paredes. ela consegue dar conta do recado. Porque na casa há até um rádio (encontrado no lixo) que serve de “espanta ladrão”. que faz a peregrinação em busca de materiais recicláveis para serem levados à Metareciclagem. Ninguém consegue deixar de reparar nela. do bendito freio. para cumprir seu ofício de transportar os recicláveis. que permite a coleta dos resíduos. dez horas ou duas ou três da tarde por causa da muvuca de carros. com o adorável nome de Dorothy. A Casa A Casa do Estudante é muito engraçada. por conta do transporte. que são encaminhados para a Metareciclagem. móbiles de mulheres semi-peladas. É chamativa com suas flores e frases espalhadas pela lataria. Os dias em que a Kombi ganha vida são geralmente às quintas-feiras e domingos. são vendidos.

Mas é feita com muito esmero. existe a produção de barras de cereais. Não importa tanto o material. mais especificamente. que foram pintadas com restos de tintas. feito de pedaços de tecido e com pelúcia.Sociedade do Lixo lho. Vegan e sua história Na mão esquerda de Vegan. há um fio negro que ocupa o lugar de uma aliança de tucumã. há quadros feitos com venezianas recicladas. Quem entra pela primeira vez nela. número 441. que trazem fotos ora de líderes de esquerda. Para que essas ações possam ser realizadas. Além dessa profusão de cores. A entidade começou cerca de 15 anos atrás e um dos idealizadores foi Maurício Vegan. se choca com paredes coloridas. feitas com calças jeans – que parecem com imensas bundas – dividem lugar com manequins. Para quem não sabe. entre outras atividades que priorizam a proteção do meio ambiente. mas seu significado. que elevam seus braços finos para expor roupas produzidas com retalhos. ora imagens contra o consumo de carne. São Paulo. uma aliança feita a partir de uma palmeira da Amazônia. Mas para que tudo aconteça. confecção de carteirinhas estudantis. Algumas cadeiras. não poderiam faltar as mãos de Maurício Vegan. A aliança de tucumã. o presidente. Americana. há um pingüim azul. Na rua Presidente Vargas. que por se quebrar cedeu 82 . Ong com gestão anarquista tem como vocação a geração de trabalho e renda e a transformação social. Numa sala mais reservada. como no setor urbano. preto e verde. venda de chás e garrafadas afrodisíacas como a “Tesudinha”. que envolve a tela de um computador. tanto no campo.

lia. bandeiras. — Todo jovem. dois cães e um vegetariano lugar a um fio. No esquerdo. tudo se mesclava na luta dos movimentos sociais. que vieram ao Sudeste. populares. também não era para menos: ele era fruto do sistema. engajamento.. sabe? Enfim. tinha a obrigação de se engajar nos movimentos sociais. discursos.A Casa. sindicalistas. Seus irmãos. opressão. seus irmãos. que emergiam de uma sociedade oprimida pelo governo militar. Greves. é fruto de um “processo”. 15 anos. policiais. que precisa ser finalizado. não tinha nem como ficar fora do processo – lembra.. Com os braços meio encolhidos pendurados no corpo esguio. Ele. gritos. diagnostica-os com seu olhar militante: — Eles realmente são assim. traz embutida uma camiseta preta com os dizeres “AMIGO DO CATADOR DE MATERIAIS RECICLÁVEIS”. foi criando uma ideologia apoiada no que via. algazarra. uma aliança social. vivenciava exuberância social. Vegan também tem uma tatuagem do Che Guevara no ombro direito. aquele que cumpre carga horária. no presente. o jovem Maurício. correria. 14. 83 . nos seus 13. um “A” de anarquismo. multidões. Se no final da década de 1980 os movimentos sociais tomavam cor e forma na Grande São Paulo. brigas. aquele que não procura sequer seus direitos trabalhistas. Ah. sendo operário. filho de pais nordestinos. representa o que Vegan define como elo com os mais necessitados. a kombi. lutas. Maurício. como qualquer outra pessoa. na sua ânsia por mudar o mundo. ouvia. E o processo o consumiu. A pele queimada pelo sol contrasta com a barba por fazer. O garoto. cores. operário padrão mesmo.

naquela idade mesmo. e rumaram para o sul do País.Sociedade do Lixo Volta ao tempo de juventude.. meu? – destaca. ele enfim “abriu outras possibilidades na consciência política. da luta de classes”. toda a efervescência era a maconha. Consciência. Seus pais eram o retrato de uma realidade social: tinham em suas veias o sangue nordestino e a história que se confundia com milhares de rostos anônimos devido à busca de uma vida melhor. Teve companheiros que se meteram com bebida alcoólica e droga sintéticas. antes mesmo de ter consciência. de George Orwell. e Maurício. nessa camaradagem. recebia diante de seus olhos um admirável mundo novo que se abria num leque perigoso. A Cannabis sativa. Maurício chegou à Americana. transgressor e ilegal chafurdava-se numa explosão química. naquela década de 1980. E. cidade onde se casou com sua companheira 84 . Embora tivessem fartura. Palavras que se misturavam num mundo tão íntimo do jovem e que se traduziam na luta de tantos outros. social.. E Maurício já vinha desse turbilhão. É do vocabulário deles”. Mas. Luta. Classe. E no desenrolar de toda essa história. A ervinha do diabo. Era algo novo para ele e o adolescente tinha só duas coisas a fazer: — Ou eu ficava junto com a camaradagem toda ou adquiria consciência e me libertar. né. É a saga já conhecida. “eles falam muito isso. quiseram romper com aquela história de ficar numa casinha de sapé e permanecer por décadas e mais décadas até encerrar a severina vida. O mundo psicodélico. conheceu algumas pessoas que apresentaram os livros A Revolução dos Bichos e 1984. Em transe com o barato que essas leituras o proporcionavam. Saíram de Pernambuco.

quando militava no Partido dos Trabalhadores. a Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (CNUMAD). Cães. Preparativos para o casório Foi um “casamento” diferente. que frutificou sua forma ambiental de pensar e agir. uma vez. Pandora e Thor e. no Rio de Janeiro. ongs. Também mudou seu padrão alimentar e tornou-se vegetariano. Devido a isso. dois cães e um vegetariano Ângela e teve três filhos. tudo que fosse vivo. se deu com a Rio-92. A noiva. assim. Mas a florada mesmo. Se 2006 ocorreram 889. E tudo aconteceu na Metareciclagem. — Ali eu comecei a me engajar mais na questão ambiental – suspira. Sua consciência verde começava a germinar por volta de 1988 e 1989. ou seja. esse não entraria para a estatística de 2008 do IBGE. realizada entre 3 e 14 de junho de 1992. onde viu de perto vários chefes de Estado.828 casamentos civis no Brasil. a kombi. comunidades. o vegetariano também desenvolveu grande empatia por animais. entidades nacionais e internacionais. ser mestre de cerimônia de um casamento canino. O objetivo era buscar meios de conciliar o desenvolvimento socioeconômico com a conservação e proteção dos ecossistemas da Terra. E Vegan teve a oportunidade de estar lá. demarcava 85 . Tanto é que. ele teve que ajudar na conciliação de dois rotweillers. recebeu o apelido de Maurício Vegan. Pandora. com seu latido trovejante. em meio aos materiais recicláveis.A Casa. Nessa história toda. lá estava Vegan para defender. gatos.

Vegan. o cachorro foi apresentado para sua companheira. Com dois anos. um padre sem crença religiosa. Ou melhor. cansou-se e.Sociedade do Lixo o território. E surgiram duas focinheiras. AU. o “padre”. Thor chegou. prensou as grossas patas no chão e partiu ao 86 . AU. friozinho por sinal. Mesmo assim. seu rosto canino recebeu uma máscara. Se Pandora não adorava Thor por bem. Não triunfantemente. AU. Com a boca amordaçada pela focinheira. tinha apenas um toquinho de rabo.. mas a proteção o domou. Pandora estufou o peito. Como saber o que se passava na cabeça dela? Com dentes afiados de fera canina. nem tão feminina assim: ela não gostou daquele colar que lhe foi colocado e fez um jogo de cintura. Mas naquele domingo. ela se contorcia e se melindrava portão adentro. menino não tão rebelde resistiu no começo. que agia como um “padre conciliador”. Thor. cor de ébano brilhante. uma vez que ele se confessa ateu convicto. mas enfim. de plástico. As focinheiras eram as alianças que representariam a formação de um novo casal de rotweiller. finalmente.. pelagem negra luzidia. Vegan não desistiu. Ah. olhos miúdos numa cabeça gigante. Pandora era dona da Metareciclagem e não se falava mais nisso. Pandora! Com seus olhinhos miúdos e brilhantes. Seria amor à primeira vista? Não. decidida. Pandora. Mexia a cabeça para cá e para lá. Nervosismo? Talvez. Robusta. Garota forte. numa atitude de má menina. revolveu-se entre as pernas Vegan. Era. o mexia para lá e para cá. o amor viria por canseira. Os olhares esfuziantes se trocaram e os ladros dos cães ecoaram pelas ruas. mas surgiu como um moleque levado e ainda com medo.

Com a força possante de uma menina má. visto que seus donos iam se mudar para apartamento. aquela grande árvore de raízes aéreas e folhas verde-escuras. e as grossas patadas no chão de pedrisco podiam ser ouvidas de longe. mas não havia escolha: Thor tinha que arranjar um lar. libertos. voava em cima. Foi necessária outra ação orquestrada pelo “padre ateu”: um passeio de coleira pelas redondezas da Metareciclagem. uma profusão de cores e materiais diversos. Thor desacelerou.A Casa. 87 . a kombi. Tanto correram. correu. Passavam pelas raízes de um imenso pé de seringueira. dois cães e um vegetariano encontro do “invasor” da Metareciclagem. eles entraram pelo portão e foram soltos das guias. Thor se jogava para trás. plástico. potentes. num dado momento. Pandora não. Talvez ela não gostasse de casamentos arranjados. foi para cima: não havia se adaptado à idéia de dividir seu espaço com um forasteiro. entravam por entre os materiais recicláveis: era papel. Pandora tombou. Uma baba viscosa e grudenta escorria da boca dos dois cachorros. Às vezes se trombavam e. apostando uma corrida. TOF. TOF. caminhavam vagarosamente pelos pedriscos. Após um percurso que deixou os cães mais exaustos. Ofegantes. Pareciam dois cavalos. Um vento cortava o caminho. Estavam realmente exaustos. que não era bobo nem nada. mas ainda não havia resquícios de amor. lutariam entre si? A expectativa era grande. Os pêlos negros refletiam a luz do sol. tanto lutaram. que. A noiva. Thor. enfurecida. Será que os animais. papelão. TOF. com medo. não tinham nem forças para a perseguição e para a fuga. A apreensão era geral. sem focinheiras. como um leão: mas estava amordaçava.

lado a lado. Abaixou a cabeça e cheirou a parte de trás de Pandora. na Câmara Municipal de Americana. Oriel da Rocha Queiroz.Sociedade do Lixo Andaram um pouco. deu uma olhada como quem perguntava “o que tá fazendo. Marco Antônio de Paula. O protesto obrigou a presença de soldados do Corpo de Bombeiros e do então promotor de Meio Ambiente de Americana. E também como seguranças dos materiais recicláveis e eletrônicos existentes no local. Contra a retirada dos ipês Tudo ocorreu numa manhã ensolarada de quarta-feira. Capivara. e Thor se aproximou mais. Assim que os portões se abriram. Os dois lutavam para que as árvores não fossem transplantadas do local. participou de um protesto. Certa vez. corpo robusto e olhar infantil animou-se. Ela virou o pescoço. Prensou as patas dianteiras no chão e desafrouxou as traseiras. meu?”. cidadão comumente encontrado nas ruas da 88 . O casamento canino orquestrado por Vegan é apenas uma de suas ações. Dessa forma. Vegan sorriu. O cachorro de pelagem brilhante. Pandora estava receptiva e Thor enturmado. os dois se aceitaram e passaram a viver como marido e mulher na Metareciclagem. Num movimento de vai-e-vem-vem-e-vai. A partir daquele dia. dia 16 de outubro de 2007. conhecido popularmente como Capivara. e Maurício Vegan treparam nos dois pés de ipê que ficavam no estacionamento da Câmara. ele não mediu esforços para evitar que pés de ipê fossem transplantados. Thor remexeu seu traseiro numa dança engraçada de acasalamento. A apreensão aumentou.

sob a exigência de que não fossem presos. desde às nove e meia da manhã. como se fôssemos responsáveis por meia dúzia de árvores queimadas – relata. consumia parte da vegetação próxima à linha férrea. da região de Americana. na ocasião vestia uma roupa camuflada e tinha um megafone à mão. Por volta das 10 da manhã. Na outra árvore. os ipês foram transplantados. onde registraram um Termo Circunstanciado de Ocorrência (TCO). Como o protesto foi algo que chamou a atenção. a kombi. Acatado o pedido. sem sucesso. enquanto os soldados do Corpo de Bombeiros tentavam retirá-los das árvores. um incêndio. gritava: — Não quero medir forças com ninguém aqui em cima. os dois foram até o 1º Distrito Policial. O movimento social sempre é criminalizado pela imprensa. enquanto policiais tentavam convencer os dois manifestantes. No final. por sua vez. se tivessem um documento oficial em que o presidente da Câmara se responsabilizasse pela mudança dos ipês. Capivara. dois cães e um vegetariano cidade com uma perna de pau. no outro lado na cidade. mas não resisti89 . no bairro Bela Vista. exigia a presença do promotor do Meio Ambiente. Maurício afirmava que os dois desceriam. Ao ser lembrado do caso apresentado no jornal. ISSO É CONVERSA. o promotor foi até a Câmara e os dois ambientalistas aceitaram descer da árvore. a imprensa não poderia deixar de jogar suas objetivas sobre o acontecimento. E tentaram nos criminalizar. Cada vez que os bombeiros ameaçavam subir no ipê para retirá-los. o ambientalista aumenta seu tom de voz: — ISSO É CONVERSA. a descer das árvores. De acordo com o jornal Todo Dia.A Casa.

a luta de Vegan não esmoreceu. a moda ecológica da Casa engloba outras peças utilitárias. apenas 26. Por si só. Em bom português: 8. roupas e ursinhos de pelúcia No Brasil. Uma das alternativas encontradas na Casa do Estudante para reutilizar esses pneus é o chinelo Lep-lep. E isso se 90 . das 12 mil toneladas de lixo geradas diariamente. Só no município de São Paulo. — Você pega um molde de papelão. Vira e mexe. mil são de plásticos.Sociedade do Lixo ram. ou ainda 1 milhão por minuto.5 bilhão por dia. Por sorte.6 milhões de pneus sujando a natureza. Chinelos. ou seja. É uma produção muito pequena. Entre elas.2% são inservíveis. não podem mais ser reformados para uso em veículos. Se estivessem carecas. 8. Ele continua em sua jornada.6%. coloca em cima do pneu e corta com faca. estima-se que. ela ainda possui pneus em bom estado. mas o que deixa o problema muito mais sério é que eles demoram cerca de 400 anos para se decompor. A cordinha é feita com lona de caminhão – explica Vegan. feitas com sacos de ração de cachorro. isto é. cerca de 22 milhões de pneus são trocados anualmente. Desses. Porém. este já é um dado alarmante. Além dos chinelos. ou 1. vai recolher materiais recicláveis com Dorothy. artesanal. já teriam virado produto ecológico da Casa do Estudante. a Kombi temperamental. dos quais 53. costumo usar retalhos de confecção. para não ter contato direto com o pé. tendo em vista que no mundo são consumidos 500 bilhões de sacos plásticos por ano. Na parte de acabamento.5% têm destinação ambientalmente correta. bolsas feitas a partir de banner de propagandas e sacolas estilizadas.

que só produzia peças únicas e exclusivas. Somado a isso. ele se armou com os equipamentos necessários e se aventurou pelo labirinto energético. pernas. Separava a parte desse material e produzíamos roupas alternativas. — Eu ia nas indústrias têxteis recolher o lixo. esses pedaços eram unidos e se transformavam em bichinhos prontos para serem abraçados (e também vendidos). Nesse local. também havia uma oficina de moda alternativa. Nem por isso Maurício desanimou. Como o barracão precisava de remodelagem na fiação elétrica. Certa vez Vegan deu uma de eletricista. A Casa do Estudante também contava com uma fabriquinha de bichos de pelúcia. barrigas e cabeças felpudas. em menores proporções. Sem local coberto para guardar as poucas máquinas que restaram do incêndio. uma vez se deparou com um sapato. — Como não sei calcular amperagem. dois cães e um vegetariano repete. Nenhuma peça ficava igual à outra.A Casa. em cada um dos demais 645 municípios paulistas. acabou pegando fogo na rede. Perdemos o pouco que construímos. um barracão. Na linha de montagem. mas não tinha tecido para fazer uma segunda peça. tiveram de se mudar. a chuva e o sol fizeram a festa e causaram prejuízo. criando os mesmos problemas ambientais. linhas e agulhas. Caminhando pelas ruas da cidade. Um 91 . Com a ajuda de máquinas de costura. queimando máquinas e os nossos pertences. que recebiam pedrarias. bordado. por que você fazia uma. como o imóvel era locado. retalhos de tecido tomavam forma de braços. a kombi. serigrafia.

a kombi. eles desfilavam em seus pés. dois. Ao lado de sua companheira Ângela. se questionou: — Quantos caminhos esses calçados percorreram? De tanto utilizar os sapatos. 92 . os dois cães e Vegan caminham.Sociedade do Lixo não. um personagem para ser usado em intervenções urbanas. acabou por finalmente descartá-los. Mas queria fazer algo diferente. Criei. Por isso me propus a fazer essa caminhada – finaliza Vegan. a Casa do Estudante. — Aqui vale cada minuto. assim. um ritual diferenciado. Lá até o lema é positivista: “Na nossa Casa é permitido tropeçar e cair. desde que seja para frente”. pegou alguns olhos de bichinho de pelúcia e mais algumas generalidades e começou seu processo criacionista: — Coloquei olhos no sapato e fiz bigode. Tempos depois. E nessas pequenas ações. Eu entendo que um ser humano completo deve trabalhar pela transformação. número 43. Segurou-os nas mãos.

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Ecocoletora separa lixo em Limeira/SP Lucas Claro .

uma bem-sucedida empresária que leva o codinome de 95 — S . E com ela não foi diferente. Ainda mais porque entrou num ramo de domínio masculino. mas com o mesmo objetivo: retirar do lixo a fonte de renda lucAs clAro er empresária. De um lado você vai conhecer a história de Melissa. Diferentes classes sociais. Todo início de carreira é complicado.Lixo é dinheiro Rainha da Sucata de Itatiba e ecocoletores de Limeira. Aos 35 anos de idade. mãe e mulher ao mesmo tempo não é fácil. Melissa Biajoni recorda-se do passado difícil.

não restos desprezíveis. em entrevista ao site da Cempre. Em 2002. Histórias opostas financeiramente. ainda mais benéficas. com significativo aumento de 20% por ano. No mundo de ambos. Prova disso. Para o diretor executivo da Cempre. Somente em meia década. Na contramão dessa história. Por mais que o desperdício seja constante no País. que deram qualidade e produtividade à indústria – afirma André. A 96 . que ganham a vida coletando materiais recicláveis. a conscientização dos brasileiros parece crescer dia-a-dia.Sociedade do Lixo Rainha da Sucata. o faturamento do setor dobrou. a movimentação financeira foi de 5 bilhões de reais. são os dados divulgados por um estudo realizado pelo Compromisso Empresarial para Reciclagem (Cempre). que descobriram oportunidades de novos negócios. a vida dos ecocoletores de Limeira. Em Limeira. mas que convergem-se num aspecto: a sobrevivência e a renda gerada através do lixo. e das empresas. trata-se de um círculo vicioso: — Há uma conscientização maior das pessoas. o trabalho não pode parar. que hoje estão mais atentas à necessidade do reaproveitamento dos materiais. Além do mais desenvolveram-se novas tecnologias. André Vilhena. o pensamento é único: lixo é dinheiro. Já no final de 2007 esse valor saltou para 10 bilhões de reais. a reciclagem conta com fortes e valentes aliados: os ecocoletores. quando o assunto é reciclagem. que mostra que essa indústria experimenta o melhor momento no Brasil. Pessoas simples. E para que esses dados ganhem proporções.

Silvana de Oliveira. — Eles não são simples catadores de materiais recicláveis. Prefeitura Municipal de Limeira e Fundo Social Municipal. desenvolvido pelo Centro de Promoção Social Municipal (CEPROSOM). e realiza esse trajeto diariamente há quase dois anos. são 170 pessoas que sobrevivem com a reciclagem ou a utilizam para complementar renda. A iniciativa é de caráter socioambiental e começou em junho de 2007. Em Limeira. 70% são mulheres. As seis da manhã tem início o trabalho de campo. bares. como explica a Coordenadora do Projeto de Educação Ambiental de Limeira. Os ecocoletores fazem parte do projeto Reciclar Solidário. O nome “ecocoletor” tem um motivo.Lixo é dinheiro rotina deles é exaustiva. e explica que a maior adversidade é o preconceito de algumas pessoas: — O mais difícil é quando pessoas que têm o rei na barriga pensam que somos sujos. Também ajudam e orientam a comunidade na preservação do meio ambiente. porcos e diferentes. Quando começa a amanhecer eles já estão de pé. Dos coletores. numa reunião em que elas são as protagonistas. Ela que tem como única fonte de renda a coleta de recicláveis. Ruas. esquinas. igrejas e quase duas centenas de pessoas passam por esses locais e ficam para trás. Dona Maria do Amparo Diniz é uma das ecocoletoras. O comentário acontece num dia especial para essas pessoas. A idade média é de 45 anos e 27% declaram que a atividade é a sua única fonte de 97 .

Sociedade do Lixo renda. Dos 170 ecocoletores. dramas. O primeiro a se pronunciar é justamente o seu Francisco. e Terezinha Correa. Mostra anotações feitas por ele: a quantidade de material reciclável que o casal conseguiu coletar durante uma quinzena de trabalho. serve também de depósito dos objetos coletados. 12 estão reunidos no Centro Comunitário do bairro da Cecap. apenas um mora com os pais. local que serve também de depósito de recicláveis. Os filhos são casados. A casa deles. 74 de vidro. Criativo. dificuldades. 54. periferia de Limeira. 61 anos. abre uma agenda antiga e tira um papel surrado. para uma conversa sobre a rotina de trabalho deles. área periférica de Limeira. São 487 quilos de papelão. e eles contam as experiências. 124 de sucata. Um círculo se fecha. nas ruas de Limeira. No Centro Comunitário. Francisco colocou uma rede no teto para armazenar e 98 . Mas o que não tem nada de mínimo é o trabalho. O valor arrecadado com os recicláveis é menos da metade dos 415 reais equivalentes ao salário mínimo. após separação minuciosa dos materiais. Pai de 12 filhos. Renda que supri as necessidades básicas da família. fala sobre o dia-a-dia de trabalho e a casa onde mora com a esposa. Um exemplo disso é o casal Francisco José Correa. O faturamento mensal não passa de 200 reais para cada um. que começa às seis da manhã e termina depois das cinco da tarde. Seu Francisco e dona Terezinha moram no Jardim Santina II. como já foi dito. sonhos e objetivos na vida. 227 de plástico e 22 de caixas de leite.

que sofre com problema de saúde. traz um sonho. tanquinho de lavar. baixa estatura e peso elevado. televisor preto-e-branco. mas nem chegaram aqui – diz sorrindo. A esposa Terezinha. entre outros. caixas de leite e latinhas de alumínio. São quase onze horas da manhã. Cerca de dez minutos depois. durante a reunião realizada na sala de aula do Centro Comunitário. o desgastado chapéu azul. como aconteceu com dona Terezinha. Pensamento que vem à cabeça todas as vezes que sai para coletar com seu “amigo inseparável”. garrafas de vidro. de pele morena. Francisco arruma os materiais e mostra objetos que já encontrou no meio do lixo: ferro de passar roupa. 99 . às vezes muitos objetos “nem conhecem a casa deles”. quando encontram materiais de fácil comercialização já vendem no caminho de volta para casa. A brincadeira quer dizer que. Procura mais materiais. é uma prevenção contra animais peçonhentos: — Afinal. ela chega com o carrinho lotado. também há veneno para rato e barata. sobrancelha forte. De acordo com o dono da casa. plásticos. tenho vizinhos e minha casa não pode ser um criadouro desses animais – conta ele. No chão próximo a muito papelão. ainda não voltou para casa. o que agrava o seu problema de saúde. Apesar das inúmeras dificuldades. De acordo com os ecocoletores. que serve para protegê-la do sol. Retira uma nota de dez reais do bolso e entrega ao marido: — Achei dois pneus.Lixo é dinheiro separar lixo. essa ecocoletora de 54 anos.

Sol a pino e suor que escorre pelo rosto.Sociedade do Lixo — Meu maior sonho é que as pessoas deixem de poluir e machucar o meio ambiente. mexi no lixo de uma mansão. Ele é maior do que dinheiro e poder. Consciência que sobra na simplicidade dessa mulher. No dedo polegar. três deles vivenciados nas ruas recolhendo materiais. fardo leve se comparado ao peso da fome. Nas mãos que empurram o pesado carrinho. o sinal de um acidente sofrido enquanto coletava materiais. Organização e empenho também são fatores preponderantes nessa profissão. Estava tudo misturado. seu Pedro rasgou um saquinho e um caco de vidro entrou sob a unha dele. 49 anos. Com a falta de conscientização das pessoas. Risco eminente que eles enfrentam todos os dias. surpreendentemente. mas ainda falta a muitas pessoas que detêm maior poder aquisitivo. e acidentes acontecem. o aposentado Pedro Alves dos Santos caminha por uma rua do Jardim Santina. o trabalho dos ecocoletores torna-se mais difícil. Na ocasião. Essa é a opinião de outra ecocoletora. Maria de Jesus. — Pra recolher lixo exige coragem – conta seu Pedro. mais organizadas na separação do lixo: — Um dia. Uma das regras é que jamais um 100 . É onde vivemos – diz Terezinha. calos e rachaduras. Ela e outros colegas contam que as pessoas menos favorecidas são. Roupas novinhas no meio de restos de arroz e feijão. Uma sujeira. Garrafas junto com papel higiênico.

Isso significa que cada limeirense produz.Lixo é dinheiro catador pode bagunçar o lixo das pessoas. sofreu um acidente e foi afastada do serviço. Jovem senhora. olhar se têm objetos de seu interesse e. João Guizard. de boa aparência. Valor que corresponde a 173 mil quilos diários. Segundo o coordenador do aterro sanitário dessa cidade. o trabalho dessas pessoas é importante para a cidade de Limeira. existem também pessoas que completam a renda. Deve abri-lo com cuidado. por dia. meio quilo de lixo. quem a vê nem imagina que ela também retira do lixo uma parte da renda da família. O último levantamento divulgado pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) mostra que Limeira possui 273 mil habitantes. por diversos motivos. ajudam o meio ambiente e também são ajudados – ressalta Vanderléia. fechá-lo e colocá-lo no mesmo lugar. Para a superintendente do CEPROSOM. Entre os coletores citados pela superintendente do CEPROSOM. Vanderléia Aparecida Diogo. Portanto. ela produz em média 5200 toneladas de lixo por mês. Raquel Bariolo era representante comercial. Muitos deles sobrevivem apenas da reciclagem. Na capital do Estado esse valor é maior: 800 gramas. Do lixo que cada cidadão de Limeira descarta os ecocoletores tiram o sustento. resolveu trabalhar coletando materiais recicláveis. 101 . Para não desfalcar o orçamento familiar. — Grande quantidade de materiais deixa de saturar ainda mais nosso aterro sanitário graças ao trabalho desenvolvido pelos ecocoletores. logo depois.

montamos um escritório. Sobrevive do que o homem joga fora. 60% das embalagens de folha de flandres foram recicladas e no Japão. Assim. enfrentou lutas e desafios. Muita gente no país tem o mesmo objetivo da Raquel. ser ecocoletora é uma terapia gratuita. mas hoje é respeitada e admirada no ramo de sucata de aço e inox. sorridente. número auditado por empresa independente. Mesmo assim. Em 2003. só que diferentemente dos ecocoletores de Limeira. — É importante porque me ajuda e eu contribuo com o meio ambiente.Sociedade do Lixo Para Raquel. o Brasil vai apresentando dados positivos sobre reciclagem. Tudo começou aos 18 anos de idade: a jovem morena vendia frete numa transportadora. Já nos Estados Unidos. Quando vejo uma tampinha no chão corro pra pegar – conta. Faço novos amigos. A iniciativa permitiu à embalagem de bebida carbonatada atingir o índice de 78% de reciclagem. um privilégio incondicional. quando uma amiga teve a mirabolante idéia: montar um depósito de sucatas. E por causa do aço. interior de São Paulo onde mora a Rainha da Sucata. 47% das latas de aço consumidas no país foram recicladas. vamos até a cidade de Itatiba. É uma bem-sucedida empresária. Melissa Biajoni tem 35 anos de idade. — Não tínhamos a mínima noção de mercado. 86%. Como tínhamos alguns 102 . No começo da carreira. o mundo recicla 385 milhões de toneladas de aço. A cada ano. Esse índice vem aumentando graças à ampliação de programas de coleta seletiva municipais e de reciclagem pós-consumo.

em Itatiba.Lixo é dinheiro contatos. O passo seguinte foi garimpar mais empresas. fomos perguntando como era vendido o material gerado por elas – comenta Melissa. 103 . aço. Bem-sucedida no ramo da reciclagem. Nela. quando um terrível acidente aconteceu. por causa da transportadora. um funcionário foi abrir um tambor de produto químico com uma máquina semelhante a um maçarico. após o falecimento dele. a Rainha da Sucata de Itatiba também enfrentou vários problemas. Na vida real. escrita por Sílvio de Abreu. sem a sócia. a “Maria do Carmo”. entre outros. papelão. cobre. sonharam e tiveram pesadelos juntas. ferro fundido. Montou negócio próprio. recebeu o apelido em homenagem à personagem vivenciada por Regina Duarte. Melissa mudou de cidade e quis tornar-se ainda mais independente. Recorda-se que. Na cidade você tem duas opções para encontrá-la: pelo nome Melissa Biajoni ou por “Rainha da Sucata”. choraram. trabalhando com todos os tipos de materiais recicláveis: plástico. vidro. A sociedade venceu uma década. foi um grande sucesso da década de 1990. logo no início do empreendimento. alumínio. Foram 11 anos. Sorriram. carbono. na tela da Rede Globo de televisão. onde vive até hoje. a personagem fez fortuna dando continuidade a um ferrovelho do pai. Ele foi arremessado pela força da explosão e feriu-se com a gravidade. Melissa e a amiga ganharam confiança no setor. no horário nobre. A novela Rainha da Sucata. bronze. Aos poucos. inox. Depois de casar-se.

Ele quase morreu. ter maior engajamento da população e aumentar o índice de embalagens reaproveitadas. Isso acontece com todas as poucas mulheres que trabalham com sucata. A maioria das pessoas me chama assim. nem de espaço físico muito grande – explica. desenvolveu métodos próprios nos últimos anos para incrementar essa atividade e. e não acontece apenas com ela: — É uma brincadeira saudável. Ela se diz realizada na profissão. A nação do futebol sonha um dia tornar-se uma das maiores potências da reciclagem. o que gera maior benefício para a população e meio ambiente: — As pessoas se mostram mais interessadas com a reciclagem. Fez várias cirurgias plásticas. O Brasil. Ficou meses no hospital. mesmo comparado a alguns países desenvolvidos. Segundo ela. na empresa até hoje – relembra a empresária.Sociedade do Lixo — O equipamento funcionou como uma bomba. apresenta elevados índices de reciclagem. Sabem a importância da coleta seletiva de lixo e 104 . o apelido é encarado de forma bem-humorada. Não precisa de muita mão-de-obra. porque se identifica com esses materiais: — Trabalhar com aço e inox é menos desgastante. Para isso. mas está bem. A Rainha da Sucata conta que optou pelo aço e inox. Atualmente tem oito funcionários. a conscientização das pessoas quanto à reciclagem está mais ampla. conseqüentemente. Trabalho que é muito rentável. Para a Rainha da Sucata de Itatiba. pois faz o que gosta.

a correria ficou mais intensa. só que de aço e inox. tarefa que não é fácil. essa mulher também precisa ser mãe e dona-de-casa. Em média. Segundo ela. aqueles que recolhem tudo que é reciclável pelas ruas de Limeira. e ela teve que tirar a parte da manhã para ser mãe: — Ajudo meu filho de oito anos nas lições de casa. Além de ser popular na cidade. Mas tanto a endinheirada Rainha da Sucata como os simples ecocoletores limeirenses ganham a vida de forma 105 . como Rainha da Sucata. Por isso. consigo um lucro equivalente ou até superior a de empresas de 50 ou 60 empregados que trabalham com todos os tipos de materiais. Vejo pelos meus funcionários. Além disso. O mais novo necessita de um cuidado especial: fralda. a renda da Rainha da Sucata é bem satisfatória. Enquanto um empresário do ramo de materiais recicláveis como o plástico consegue vender um caminhão fechado por seis ou sete mil reais. a empresária tem um lucro de 30% a 40% do valor do material recolhido. É ótimo saber que estamos contribuindo para melhorar o mundo e ainda ganhando dinheiro com isso – explica. a vantagem de trabalhar com aço e inox é justamente o faturamento: — Com apenas oito funcionários.Lixo é dinheiro colaboram cada vez mais. banho. leite. tenho que voltar à infância e brincar com eles. O orçamento da Rainha da Sucata é extremamente superior ao dos ecocoletores. o preço da mesma carga. é dez vezes maior. Com a chegada do segundo filho.

ambos são personagens dignos de respeito e admiração. Portanto.Sociedade do Lixo honesta. em Itatiba. seja na sala confortável com ar condicionado. independentemente da diferença de classe social. seja derramando o suor que escorre pelo rosto e cai no asfalto das ruas de Limeira. Retiram do lixo sua fonte de renda e ajudam o meio ambiente. Portanto. 106 . não se esqueça: seu lixo pode se transformar em dinheiro para essas pessoas. fazendo cálculos de despejas e altos faturamentos.

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Em especial: Anália das Neves Santana Brigitte Luiza Guminiak Daíza de Carvalho Lacerda Gessoni Fátima Schiavo Hélio Aparecido da Cunha Claro João Francisco Foganholi João Miguel Santana Foganholi Jovino Fagundes Santana Julio Schiavo de Carvalho Lucas Flávio Porto Coelho Luzia Aparecida Schiavo 119 .Agradecimentos Agradecemos a todos que. colaboraram para a elaboração desse livro-reportagem. de alguma forma.

Sociedade do Lixo Maria do Socorro Furtado Veloso Maria Egnória de Oliveira Cunha Claro Milena de Castro Silveira Osvaldo de Jesus Sussi Rosemary Bars Mendez Rosemeire Zambini Sérgio Luis Simionato Tiago de Oliveira Cunha Claro Vilma Ana Schiavo Sussi 120 .

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