Bob Black

A Mentira no Estado...e em outros lugares

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Precisamos de uma fenomenologia da mentira. Como essência imanente e onipresente da nossa sociedade, a mentira não merece menos; e já é hora de ela ter o que merece. Vamos ser honestos, sobre a desonestidade. Como eles nos enganam? Deixe-me contar as formas. Algumas formas de fraude , especialmente aquelas exercidas cara a cara, são altamente refinadas. Uma névoa fina desce sobre pessoas usando qualquer uma de várias expressões idiomáticas compartilhadas, que supõem estar dizendo algo quando estão apenas emitindo sinais , barulhos, que provocam reações similares. Na verdade, não passam de ruído. A publicidade, o lenga-lenga New Age, a conversinha mole pra pegar mulher em barzinho e os jargões do marxismo são exemplos familiares. Muito mais expressão do que comunicação, na melhor das hipóteses eles dizem menos do que parecem dizer, e a melhor das hipóteses é rara, nesses casos. A maioria das "lacunas" nas fitas de Nixon não esta faltando. A epítome da enganação consensual é a autocontradição transformada em jargão especializado, por exemplo: Casamento aberto Governo revolucionário Lei e ordem Direito ao trabalho Teologia da libertação Escolas livres ...e assim por diante No
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outro

extremo

(general

Jaruzelski1,

por

Primeiro-ministro da pôlonia de 1981 a 1985, chefe do Conselho de Estado de 1985 a 1989 e presidente de 1989 a 1990.

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exemplo) da engambelação sofisticada está a prevaricação pura e simples. Como cigarros, mas sem mensagens de advertência, essas mentiras costumam vir em pacotes. Políticos e padres permitem os exemplos mais claros - exemplos aos quais não podemos nos igualar. O mundo dos negócios (existe outro?) também contém ocupações inteiras de profissionais da falsidade, como vendedores e advogados. Há ramos, como da energia nuclear e o da "defesa", que pressupõem mais do que confundir de leve o consumidor comum: eles sapecam mentiras gigantescas sobre uma população ludibriada por questão de necessidade profissional. Ainda sim, políticos são os mentirosos ideais. É para mentir ( além de dar ordens) que nós lhes pagamos, ou melhor, que eles se pagam com nossos impostos. A diplomacia, por exemplo, é apenas, o engôdo em traje de gala. Quando dizemos que alguém esta sendo "diplomático", queremos dizer que ele está contando mentiras para aquietar algum conflito. Mas na diplomacia os governos estão lidando com monopólios da violência iguais a eles, portanto, mentem com mais cuidado do que em geral têm com as populações que controlam. Políticos frequentemente são ambíguos, mas raramente são sutis. Por que não deixar as sutilezas de lado, quando você tem a maioria dos homens armados de um país sob seu comando? Uma Grande Mentira original e exemplar, por exemplo, está embutida em quase toda referência pública ao "terrorismo". A verdadeira acepção da palavra é o uso de violência contra não-combatentes para fins políticos. Os esquadrões da morte na América Central ou a distribuição de "brinquedos" explosivos feitos por soviéticos a crianças afegãs, para que elas se mutilem, são exemplos. A idéia é impor a própria vontade, não pela coerção direta daqueles a serem controlados, mas infundindo neles o medo, isto é , "terror". Não há mal nenhum em ter uma palavra para denominar uma atividade que, sejam quais forem seus prós e contras,

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difere em alguns aspectos da guerra, do crime, da desordem civil etc. São precisamente essas distinções que os políticos e seus seguidores acadêmicos e jornalísticos ocultam usando a palavra. Para eles, toda violência política, vandalismo ou até um mero tumulto é " terrorismo, a menos que os terroristas estejam usando uniforme. Governos , portanto, não praticam o terrorismo, haja o que houver, enquanto a violência contra o Estado e sempre terrorismo, mesmo se consistir em ataques de uma força militar contra outra. Os massacres conduzidos pelos salvadorenhos auxiliares dos EUA; os bombardeios israelenses de campos de refugiados palestinos ou o sequestro de reféns libaneses; até o holocausto em Camboja e no Afeganistão, lamentados de maneira tão hipócrita, ou os assassinatos em prisões sul-africanas, por serem todos chacinas santificadas pelo Estado, não constituem atos terroristas. O terrorismo não é tanto uma questão de destruição e morte quanto de correção indumentária. Soldados são terroristas que tiveram o cuidado de se vestir para o sucesso. Isso basta que os gerentes da opinião pública durmam tranquilamente, embora não necessariamente tanto quanto o presidente Reagan, quando, apesar do bombardeio de pacientes psiquiátricos em Granada e do fuzilamento de operários cubanos da construção civil, ele relatou que, como de costume, dormira bem. É notável como esse esquema é eficaz. Os outrora perseguidos sandinistas eram terroristas até o momento mágico em que suplantaram Somoza. O presidente Robert Mugabe era um "terrorista" negro até se transubstanciar em estadista Zimbabwiano. Quando xiitas tomam reféns americanos, eles são terroristas. Quando israelenses tomam reféns xiitas, trata-se de uma violação da lei internacional, talvez, motivo para uma crítica contida mas de modo algum é terrorismo. Apesar de sua crueza hipócrita, a farsa do terrorismo tem sido bem aceita. O bonequinho dos comandos em ação ,

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aposentado por alguns anos depois da Guerra Que Não Ousa Dizer Seu Nome, está de volta. Agora ele combate terroristas. Que as autoridades, como os autoritários que as invejam, mentem sistematicamente não é nenhuma novidade. Karl Kraus e George Orwell o disseram. Mas elas refinaram, ou ao menos aumentaram, seus embustes. Nossa complexa sociedade, baseada no consentimento por coerção, criou modos de manipulação tão avançados que a falsidade pode ser minimizada, até eliminada sem, que a verdade venha à tona. O sistema simplesmente nos inunda com informações tão triviais que chega a merecer o nome desgastado de "dados", até que os poucos assuntos de importância real sejam expulsos da mente. A escala e a estrutura da sociedade evitam que as pessoas experimentem imediatamente a ela ou umas às outras. O conhecimento é fragmentado em ilhas artificiais e confiado a especialistas endógamos. No mundo acadêmico, essas exclusividades merecem as conotações sadomasoquistas da denominação que recebem, "disciplinas". A divisão social da mão-de-obra - estilhaçando uma vida que deveria ser experimentada integralmente em "papéis" padronizados a força -, estendida a consciência, se reproduz ao mesmo tempo que oculta sua passagem. Regras e papéis nos tornam tão intercambiáveis quanto os bens cuja produção é a nossa destruição. Não admira que, como Karl Marx observou uma vez antes de se tornar um político, a única linguagem compreensível que temos é a linguagem das nossas posses conversando entre si. Precisamos de outra. E precisamos de ocasiões sem pressa e sem pressões para um repouso sem palavras. A revolução requer uma expressão idiomática anti idiotia que expresse o até agora indizível. O amor que não ousa dizer seu nome tem vantagens sobre o outro, caluniado por rótulos, cujo nome é tomado em vão

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e nunca devolvido aos seus donos legítimos. A corrupção da linguagem promove a corrupção da vida. É na verdade o seu pré-requisito. Um primeiro passo rumo à paz e a liberdade impossível agora, sob a sociedade de classes e sua arma, o Estado - é chamar as coisas por seus verdadeiros nomes. Assim, a diferença entre os agentes do complexo militar-industrial-político-jornalistico e a arraia-miúda que a mídia difama como "terroristas" é apenas a diferença entre o atacado e o varejo. Guerra é assassinato. Imposto é furto. Conscrição é escravidão. Laisse-faire é totalitarismo. E (diz Debord), "num mundo realmente de ponta-cabeça, o verdadeiro é um momento falso".

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Será a Guerra – contra a droga – a Saúde do Estado?

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Neste momento, nos Estados Unidos da América, 2.700.000 pessoas estão presas (o maior índice per capita do mundo). Todas as semanas são mais 1.600 as pessoas que entram na prisão para além das que saem. Mais de 40% dos presos estão lá por crimes não-violentos relacionados com drogas. Nas políticas da maioria dos governos do mundo o combate à droga assume crescente protagonismo. O seguinte artigo, escrito por Bob Black – anarquista e advogado de profissão –, lança uma visão diferente sobre este fenômeno. Ainda que baseada no contexto norte-americano, com ajustes de pormenor e de escala, a argumentação poderá ser extrapolável a outros países. Ninguém alguma vez fez observação mais importante em sete palavras do que Randolph Bourne: “A guerra é a saúde do estado” (Resek, 1964 :71). A guerra tem sido o motor principal da extensão do poder estatal na Europa ao longo de 1000 anos, e não só na Europa. A guerra alarga o estado e aumenta a sua riqueza e os seus poderes. Promove obediência e justifica a repressão sobre dissidentes, redefinida como deslealdade. Serena tensões sociais dirigindo-as para fora, para um estado inimigo que simultaneamente faz, claro, exatamente o mesmo com semelhantes consequências. Da perspectiva do estado há só uma coisa errada nas guerras: elas terminam. Que as guerras terminam é, em última análise, mais importante do que o facto de elas terminarem em vitória ou derrota. Ocasionalmente a derrota tem como consequência a destruição do estado, como aconteceu com os impérios Otomano e Austro-húngaro após a Primeira Guerra Mundial, mas não frequentemente, e mesmo quando isso sucede, esses estados dão origem a outros estados. O sistema estatal não só dura, como prevalece. Normalmente a guerra vale bem o risco — não para os combatentes ou para os civis sofredores, claro, mas para o estado. A paz é, mais uma vez, um outro assunto. A

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consequência imediata poderá ser a recessão ou a depressão, como após a Revolução Americana ou a Primeira Guerra Mundial, cujas dificuldades são tão mais humilhantes quando recaem sobre a população que “ganhou” a guerra e que ingenuamente supõe ir partilhar os frutos de uma vitória que pertence ao estado, não ao povo. O regime pode prolongar artificialmente o clima de repressão e sacrifício, como fizeram os Estado Unidos fabricando o Red Scare (Pânico Vermelho) após a Primeira Grande Guerra, mas cedo o povo suplicaria por aquilo que Warren Harding lhe prometera, o regresso à normalidade. Os vencidos, é certo, raramente se saem tão bem como o Japão ou a Alemanha ocupadas se saíram após a Segunda Guerra Mundial, mas mesmos os alemães inicialmente conheceram a fome. Houve épocas em que alguns estados estavam quase sempre em guerra, como acontecia na Roma republicana, cujas oligarquias, tal como Livy (1960) repetidamente demonstrou, estavam bem conscientes de como a guerra consistia numa válvula de escape para dissipar conflitos de classe. As guerras coloniais servem bem este fim já que são travadas longe de casa e normalmente empreendidas contra antagonistas que, apesar de corajosos, são largamente inferiores em termos militares. O império britânico nos séculos dezoito e dezanove é um bom exemplo. Congestionados com a riqueza do capitalismo comercial (em breve inimaginavelmente engrandecida pela revolução industrial), seguros pela sua insularidade, escudados pela maior armada do mundo, com uma robusta e desumana classe dirigente, sábia da arte de governar, o estado britânico poderia suportar uma guerra quando dela precisasse. Existiam, no mercado, completos mercenários, tais como os Hessianos. E os inimigos de ontem eram as tropas de hoje. Os irlandeses, repetidamente esmagados no século dezassete, eram uma fonte. Começando em 1746, os ingleses

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aniquilariam a sociedade e a cultura dos escoceses, recrutando depois regimentos de entre os que sobreviveram. Viriam a repetir estes “métodos econômicos” na Índia, em África, em todo o lado. E depois existiam as fontes ingleses de dispensáveis: os camponeses expulsos das terras pelo emparcelamento, e os pobres da cidade. Não deixariam saudades, e havia sempre mais de onde estes vieram. Mas os tempos mudaram. Alguns estados possivelmente podem continuar, por algum tempo, agindo à moda antiga – talvez a Sérvia, Coreia do Norte, Iraque – mas os Estados Unidos não, no mínimo por duas razões: somos demasiado escrupulosos, e somos demasiado pobres. Demasiado escrupulosos no sentido em que, enquanto Saddam Hussein se vangloriou antes da segunda Guerra do Golfo*, a América é uma sociedade que não consegue tolerar 10.000 mortos. Ele tinha razão, embora isso não lhe tenha valido de nada já que foi incapaz de infligir 10000 ou mesmo 1000 mortos. Granada e Panamá foram um divertimento, mas mesmo guerras de dois tostões como o Líbano e Somália já não o foram, e ninguém tem mais estômago para uma guerra no Haiti ou na Bósnia. Os americanos estão a perder rapidamente o seu gosto por guerras mediáticas, para já não falar das verdadeiras guerras. E demasiado depauperados para qualquer guerra suficientemente longa para produzir um efeito durável no índice de popularidade de um qualquer presidente. O ataque ao Iraque foi o ponto de viragem. Como habilidosamente a manipulação das massas ocorreu, os americanos somente foram para a frente com a guerra na condição de que os “aliados” pagassem. Mesmo mentes pouco capacitadas estão conscientes que a parte de leão dos seus impostos federais vai para pagar dívidas de guerra e gastos militares dos quais eles nunca colherão quaisquer benefícios. A contrapartida para as vidas numa fotogênica guerra de alta tecnologia é dinheiro. Custa mais, imensamente mais, do que alguma

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vez a guerra custou. Mas os Estados Unidos não têm mais, imensamente mais riqueza do que alguma vez tiveram. Têm progressivamente menos e menos e menos. Mesmo com as forças maciças da ABC, NBC, CBS, CNN e todo o resto dos grandes media por detrás (Black, 1992), e apesar de uma esmagadora vitória que deveu tanto à sorte como ao engenho, George Bush tornou-se o primeiro presidente americano a ganhar uma guerra e a perder uma eleição — para um fumador de erva e mulherengo que não cumpriu o serviço militar. Deste modo o regime é apanhado no que os marxistas costumavam chamar de “contradição”. Precisa de guerra, já que a guerra é a saúde do estado, mas (com efémeras excepções ocasionais) não consegue suportar tanto ganhar como perder guerras. Mas que tipo de guerra é possível travar, com um custo tolerável, que evite esta dupla armadilha — uma guerra que não possa ser ganha ou perdida? A “Guerra Contra a Droga”. Que não é uma verdadeira guerra, claro, mas apenas aquilo que os alemães chamariam um “sitzkrieg”, uma falsa guerra. Antes venderam-nos a guerra para acabar com todas as guerras. Agora vendem-nos uma guerra interminável. Tal é a utilidade, para o estado, da Guerra Contra a Droga. Não pode ser perdida, já que não existe um inimigo a derrotar. E por incontáveis razões não pode ser ganha. O governo não consegue interditar mais do que uma fracção da cocaína, heroína, marijuana e outras drogas que, ao ilegalizá-las, o governo fez subir o seu preço até ao ponto de valer a pena traficá-las. E alguma droga, tal como a marijuana e o ópio, é facilmente produzida dentro dos Estados Unidos. Dezenas de milhões de americanos já se entregaram ao consumo de drogas ilegais, incluindo o Presidente. Os filhos não veem qualquer razão para não experimentar aquilo que os pais já consumiram, independentemente daquilo que os pais agora preguem. As crianças tendem a não prestar

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atenção aos pais quando sabem que estes estão a mentir. Para além disso, há sempre o álcool. E nos subúrbios, tal como nos guetos, ilegalizar as drogas fez disparar o seu preço até níveis tão altos que prendendo vendedores não tem qualquer efeito no lado da oferta. Tirar um vendedor de droga das ruas apenas abre uma vaga para outro empresário. Na verdade, é prática corrente dos vendedores fazer com que os seus competidores sejam presos, com o fim de ganharem uma parcela adicional de competitividade. Mas não faz mais diferença quem trafica a droga ou quem dirige o estado. De facto, até podem ser as mesmas pessoas! A Guerra Contra a Droga é a saúde do estado. Porque apenas é uma falsa guerra, a Guerra Contra a Droga é fiscalmente comportável. O governo pode gastar tanto mais ou tanto menos quanto desejar, já que o resultado será sempre o mesmo. Mesmo os custos para o contribuinte são disfarçados, divididos como são por governos federais, regionais e locais, e confundidos com financiamento ao sistema de justiça. A maior despesa individual, as prisões, é aquela que a maior parte das pessoas erradamente interpretam como a melhor coisa que o governo faz por elas. Suportar este erro é um equívoco acerca sobre qual é o produto do sistema de justiça criminal. Não é o controlo do crime, se é que tal pudesse ser medido com alguma exatidão, não há qualquer prova de que a imposição da lei em geral reduza o crime (Jacob, 1984). O produto são índices de criminalidade (Black, 1970), que são uma função, não do nível de criminalidade, mas do nível de imposição da lei. Daí que as autoridades possam fabricar uma “onda de criminalidade” se quiserem mais dinheiro, ou abrandar o controlo se quiserem obter algum crédito por fazerem exatamente o oposto. Tirando eles próprios e os seus superiores hierárquicos, os únicos beneficiários daqueles 100 000 polícias adicionais que o Presidente Clinton quer colocar nas ruas serão os vendedores de donuts.

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Para além disto, até um certo ponto a Guerra Contra a Droga paga-se a si mesma. Tal como os exércitos que costumavam subsistir largamente “através do terreno”, pilhando as zonas que atravessavam, também os guerreiros da droga amontoam os seus cofres com o saque de bens confiscados. E isto só a nível formal e legal. À margem da lei, claro que a polícia sempre confiscou muito mais droga do que aquela que chega à sala de provas. É improvável que os vendedores ou os drogados protestem (o cenário clássico: um polícia faz uma busca ilegal na rua. Ele encontra algo. Pergunta, com cortesia, “Isto é seu?” e a resposta é sempre “Não”). Alguma droga a polícia vende por sua conta. Alguma consomem-na eles próprios. E alguma utilizam para “tramar” (colocar drogas na posse de suspeitos vendedores ou adicionar mais droga àquela que foi encontrada para converter um delito menor num crime grave) (Knapp Commission, 1973). Ainda de uma outra maneira, a Guerra Contra a Droga oferece um dos benefícios de uma verdadeira guerra sem os seus custos e riscos. Toda a verdadeira guerra é um holocausto de liberdades cívicas (Murphy, 73). Mesmo ao nível formal e legal, a segurança nacional — um chamado “interesse obrigatório do estado” — tende a impor-se aos direitos fundamentais, pelo menos até que o tiroteio pare. Entretanto vigilantes patrióticos levam a cabo as castrações, os linchamentos, e os incêndios — o trabalho demasiado sujo para o estado fazer mesmo numa suposta emergência de guerra, mas não demasiado sujo para o estado não fazer vista grossa depois. Os Estados Unidos durante a Primeira Guerra Mundial e durante o Red Scare é um exemplo; a Itália que os liberais deixaram que os fascistas tomassem, depois de os deixarem, à margem da lei, esmagar socialistas, comunistas e anarquistas, é outro. Mas a paz regressa e o terreno legal perdido é, na sua grande parte, recuperado ou mais terreno ainda é retirado. Uma vez que o estado tenha demolido irreparavelmente a oposição radical,

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pode muito bem repor direitos constitucionais para os impotentes sobreviventes e gozar o calor da sua própria glória anunciada, desfilando a sua tolerância quando esta já não fizer qualquer diferença. A falsa guerra é muito mais eficaz. Não pode ser conduzida sem massivas invasões de propriedade e limitações da liberdade. O mais importante direito individual implicado, e ameaçado pela Guerra Contra à Droga é a Quarta Emenda [da Constituição], que proíbe buscas e apreensões injustificadas. Este corpo legal efetivamente começou durante a Proibição e hoje é, como afirma Fred Cohen, “conduzido pelas drogas.” Os direitos de qualquer pessoa são definidos pelos direitos que a Justiça de má vontade concede aos delinquentes de casos de droga. Outros direitos são, também, reduzidos. Sob a legislação de confisco, propriedade individual é retirada sem um processo ou justa compensação. Aplicada a nativos americanos e outros, a legislação sobre droga interfere com a liberdade de religião; como a prática comum de forçar condutores embriagados a participar em “reabilitações” para os doutrinar com dogmas religiosos dos Alcoólicos Anônimos. Até a campanha contra a posse de armas é uma consequência indireta da Guerra Contra a Droga. A proibição tornou a droga uma comodidade muito valiosa: no interior das cidades, de longe uma das mais valiosas comodidades. Entretanto, os toxicodependentes roubam para suportar o seu vício. O resultado é uma corrida ao armamento e um clamor pelo controlo das armas. Uma proibição conduz a outra. Para o criminoso, o último desafio é o crime perfeito. Para o estado é a legislação perfeita. Será a proibição? Talvez não. A proibição da droga é atualmente muito mais popular do que a proibição do álcool alguma vez o foi, mas dentro da memória viva, a descriminalização foi um séria possibilidade. Poderá tornar-se assim novamente se

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a histeria anti-droga continuar a crescer até chegar a um ponto impossível de suportar. E provavelmente crescerá, porque a Guerra Contra a Droga foi institucionalizada. Várias agências e organizações têm direitos adquiridos sobre a sua ilimitada expansão, embora isso seja, não só impossível, como destituiria o estado da grande vantagem da Guerra Contra a Droga sobre a verdadeira guerra: a sua previsibilidade e exequibilidade. À medida que alguns órgãos governamentais crescem e crescem, sobra menos e menos para os outros. Já que a vitória, tal como a derrota é impossível, não existirão nunca “dividendos de paz” para repartir. O estado está, provavelmente, já a gastar mais fundos da sociedade civil do que seria consentâneo com os seus interesses a longo prazo. Se mais e mais for tirado, o parasita matará o hospedeiro — ou o hospedeiro matará o parasita. Eventualmente o estado poderá sucumbir ao seu próprio sucesso. O estado é gigantesco. E é burocrático. Isto significa que está intrinsecamente subdividido por funções (ou por aquilo que era inicialmente considerada uma divisão do operariado por funções: de facto, jurisdição sobreposta e conflituosa é comum e tende a crescer com o tempo). Mesmo quando a mão esquerda sabe o que a mão direita faz, pode não ser capaz de fazer nada acerca disso. A cooperação entre agências torna-se mais difícil quando que se torna mais frequente e mais necessária. “A complexidade da acção em conjunto frusta a ação ou o seu objectivo” (Pressman & Wildausky, 1984). É muito difícil administrativamente reduzir o orçamento de um gabinete, mas é fácil aumentá-lo. Os gabinetes resistem ferozmente aos orçamentos “zerobased” — isto é, partindo do zero, tem que haver uma rejustificação anual de cada linha do orçamento apresentado — como se tratasse do reinvento da roda. E é difícil as altas autoridades identificarem áreas para redução de custos, se quiserem apenas, já que a própria raison d’être da organização burocrática é a deferência

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para com os peritos institucionais. A maneira fácil é tomar o anterior orçamento como o presumível próximo; são apenas desvios do status quo, não o status quo em si, que necessitam de justificação. O gabinete, preenchido com supostos peritos, é ele próprio a fonte usual de justificação para desvios, e os desvios são sempre na direcção de mais dinheiro e mais poder para o gabinete. O que vai para cada gabinete vai para todos. Daí o governo cresce. Referindo a forma como a competição entre trabalhadores faz descer os salários para todos eles, Fredy Perlman (1969) observou: “A prática diária de todos anula os objetivos de cada um.” Tal como acontece com a competição entre agências pelo dinheiro dos impostos. As implicações a longo termo da Guerra Contra a Droga são, para o estado, ameaçadoras. Quanto mais o estado estende o seu controlo sobre a sociedade, menos controlo ele tem sobre si mesmo, quanto mais o estado absorve a sociedade, mais fraco como entidade responsável por uma colectividade ele se torna. Ele desintegrase num pluralismo autoritário remanescente do feudalismo, ainda que carecendo do seu charme romântico. Algumas agências engordam à custa da Guerra Contra a Droga, mas muitas não. As que engordam são as primeiras a seguirem os seus próprios caminhos. A procuradora-geral Janet Reno não teve controlo sobre o Bureau of Alcohol, Tobacco and Firearms quando este exterminou os Branch Davidians para ganhar o que equivalia a nada mais do que um guerra de “gangs”: mas ela tomou a responsabilidade. A Drug Enforcement Administration é igualmente tão independente como o FBI de Hoover e a CIA de qualquer um. Para o estado, outra consequência adversa inevitável da Guerra Contra a Droga é a corrupção (Sisk, 1982). Não que a corrupção seja necessariamente uma coisa má para o estado. Até certo ponto, as extorsões policiais a vendedores de droga, chulos e outros

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empresários extralegais beneficiam o estado de diversas formas. Quanto mais os polícias recolherem em privilégios e confiscos, menos têm que ser pagos em salário. Os polícias cujos superiores sabem que eles estão envolvidos em extorsão (como decerto sabem já que eles próprios a isso se dedicam também) (Chambliss, 1988) fazem vista grossa a não ser que, por alguma razão, tenham necessidade de se livrar de um polícia em particular. A corrupção é, pois, uma ferramenta de gestão. Mas alguns polícias tornam-se demasiado gananciosos e vão longe de mais. A maioria são “comedores de erva” (subornados) que aceitam aquilo que lhes aparecer, mas alguns são “comedores de carne” (extorsionários) — corrupção ativa — que ativamente buscam ou montam oportunidades de corrupção, como os detectives da Special Investigative Unit retratados no filme Serpico (Daley, 1978; Knapp Commission, 1973). Os comedores de erva dão cobertura aos comedores de carne (o “código de silêncio”) já que todos têm algo a esconder. Até recentemente, os administradores de polícia e os seus aliados acadêmicos julgaram poder manter a corrupção sob controlo através de várias reformas institucionais, a maioria das quais foram inicialmente propostas pela Comissão Knapp (Sherman, 1978). Talvez as reformas resultassem, excepto numa coisa: na Guerra Contra a Droga. A corrupção está de regresso, mesmo na NYPD* reformada por Knapp (Dombrink, 1988). Já que as penalizações são mais severas e os lucros do tráfico de droga são mais altos, a proteção que a polícia vende dita um preço maior (Sisk, 1982). A corrupção motivada pela droga é o sector em maior crescimento nos abusos de conduta da polícia (Carter, 1990). Para o estado, o problema da corrupção descontrolada é que ela não pode ser confinada ao espaço onde os benefícios excedem os custos. O estado necessita da polícia para um bocadinho de imposição seletiva da lei e, mais importante que isso, para controlo

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social — logo que a situação exija furar uma greve, evacuar squatters, suprimir tumultos, reprimir dissidentes e manter o tráfego a circular. Mesmo nestes tempos sofisticados, em que a manipulação é a estratégia de controlo mais em voga, frequentemente não há substituto para a arma e o cassetete. Mas os polícias que impõem leis contra a droga ficam indisponíveis para impor outras leis. Tem havido um expansão tremenda no trabalho de polícias à paisana nos anos recentes (Marx, 1988), inevitavelmente acompanhada de mais corrupção (Girodo, 1991). Os polícias, como trabalhadores, são particularmente difíceis de gerir pois estão normalmente sós, não controlados. Os detectives, especialmente, estão numa posição de poderem ser reservados acerca das suas atividades (Skolnick, 1975; Daley, 1978), e mais controlo do tráfico de droga significa mais trabalho à paisana e de detective. Estes polícias estabelecem a sua própria agenda. Os escândalos de corrupção desmoralizam a polícia a ilegitimam o estado. A maioria das pessoas obedece à lei na maior parte do tempo, não porque receiem ser punidas se não o fizerem, mas porque acreditam no sistema. Assim que deixem de acreditar, deixarão de obedecer — não só às leis que não importam (como “não consuma drogas”) como também àquelas que importam (como “pague os seus impostos”). E, ironicamente, operações anticorrupção comprometem a eficácia policial em outras áreas (Kornblum, 1976). O estado adquiriu um peso tão grande que esse peso começa a quebrar as suas fundações. Não é o tipo de elefantismo que pode ser aliviado através da privatização. Não importa quem recolhe o lixo. O que importa é quem tem as armas. A essência da soberania — os meios para impor a ordem — está deteriorada. O cancro é inoperável. Os estado pode bem morrer de uma overdose.

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Tecnofilia, uma Doença Infantil

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Se o patriotismo é, como disse Samuel Johnson, o ultimo refugio de um canalha, o cientificismo é desde já o primeiro. É a única ideologia que, agora em versão ciberidiota, projeta a aparência e a sensação de futuridade em quanto conserva atitudes e valores essenciais para manter as coisas exatamente como estão. Continue zapeando! A afirmação abstrata de "mudança" é conservadora, não progressista. Ela privilegia toda mudança , aparente ou real, de estilo ou substancia, reacionário ou revolucionário. Quanto mais as coisas mudam - em especial as que mudam - , mas elas continuam iguais. Mais rápido, mais rápido, Speed Racer! ( mas continue andando em círculos). Pela mesma razão , privilegiar o progresso também é algo conservador. O progresso é a noção de que a mudança tende ao aprimoramento, e de que o aprimoramento tende a ser irreversível. Contratempos locais acontece quando a mudança é interrompida ou desviada ( "o éter", "flogisto" ), mas a tendência secular é avante ( e secular). Nada das muito errado por muito tempo , então nunca ha um motivo importante para não continuar fazendo o que se esta fazendo. Vai dar tudo certo. Como um jurista já disse em outro (porém assombrosamente similar) contexto, as rodas da justiça giram devagar, mas moem direitinho. Como o seu pseudônimo sugere Walter Alter é um alto sacerdote consagrado do progresso ( mas será que ele sabe que , na Alemanha, "alter " significa "mais velho"?). Ele desdenha o passado para melhor perpetuálo. Seu jeito de escrever só em minúsculas - que modernista! - era inovador quando e. e. cummings o lançou há oitenta anos. Talvez o próximo avanço de Alter seja abandonar a pontuação, apenas algumas décadas depois que James Joyce o fez. E 3 mil anos depois que os romanos fizeram ambas as coisas, o ritmo do progresso pode ser estonteante. Para Alter , o futuro é um programa que Karl Marx

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e Júlio Verne mapearam num século anterior. A evolução é unilinear, impelida pela tecnologia e, por alguma razão estranha, moralmente imperativa. essas ideias já eram velhas quando Herbert Spencer e Karl Marx as formularam. O positivismo de Alter não implica nenhum melhoramento em relação ao de Conte, que se desmascarou ao fundar um igreja positivista. e se o materialismo mecânico é, na verdade, uma regressão do marxismo para o estalinismo. como ficção científica ruim, só que menos divertido, o alterismo é uma ideologia do século XIX declamada no jargão do século XXI. (Um dos poucos fatos sobre o futuro a um só tempo certo e reconfortante é que ele não falará como Walter Alter, não mais do que o presente fala como Hugo Gernsback. ) Alter não escreveu uma só palavra da qual Newt Gingrish ou Walt Disney, descongelado, discordaria. Os "engenheiros sociais de gabinete" estão do seu lado; ou melhor, ele esta do lado deles. Eles não pensam como ele - algo que mal pode ser chamado de pensamento mas querem que pensemos como ele. O único motivo pelo qual não incluem na sua folha de pagamento é: por que lhe pagar se ele está disposto a fazer isso de graça? "A sobrecarga de informações é relativa a capacidade de cada um " entoa Alter. é certamente relativa à dele. Ele salta da tecnologia à antropologia à historia e vice-versa, como os átomos do modelo do universo " mesa de bilhar" newtoniano, no qual os cientistas , diferentemente de Alter , não acreditam mais. A vastidão de sua ignorância assombra , e o mundo perplexo, pode apenas perguntar, com Groucho Marx : "Há mais alguma coisa sobre a qual você não saiba absolutamente nada?" Se o sindicalismo é (como um tirador de sarro definiu) fascismo sem entusiasmo, o alterismo é empirismo sem provas. Ele exibe a toga da razão sem citar nenhum motivo para fazê-lo. Espera que aceitamos sua rejeição da fé por pura fé. Afirma ferozmente que fatos são fatos , e não menciona nenhum. Alter esta nervoso demais para ser articulado,

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mas pelo menos ofereceu uma lista de inimigos - embora como o senador McCarthy, prefira lançar denuncias vagamente categóricas de dar nomes aos bois. No topo da lista estão os "antropo-românticos" "primitivonostálgicos", que também são, ou estão ajudando e consolando, os "antiautoritários" da "anarco-esquerda". Para o leitor leigo, essas palavras compostas misteriosas são tentativas calculadas de inspirar um vago receio, sem comunicar nenhuma informação a respeito de quem esteja denominando exceto que são lacaios dos engenheiros sociais do gabinete e inimigo da civilização. Mas porque os engenheiros sociais de gabinete iriam querer destruir a civilização na qual prosperam à custa da maioria de nós, o resto? Se religião significa reverencia por algo não entendido, Alter é fervorosamente religioso. Ele confunde ciência com conhecimento codificado (isso era a historia natural, tão decrépita quanto a frenologia há muito tempo). A ciência é uma pratica social com métodos distintos, não uma acumulação de "fatos" oficialmente verificados. Não existem fatos puros, fora de contexto. Os fatos são sempre relativos a um contexto. Os fatos científicos são relativos a uma teoria ou um paradigma ( isto é, a um contexto formalizado). Os elétrons são partículas ou são ondas? Nem uma coisa nem outra, e ambas, de acordo com Niels Bohr - depende de para onde você estiver olhando e por quê. Os postulados e teoremas da geometria euclidiana são "verdadeiros"? Eles correspondem muito bem a boa parte do universo físico, mas Einstein achava que a geometria nãoeuclidiana de Riemann descrevia melhor fenômenos cruciais como a gravitação e a deflexão dos raios luminosos. Cada geometria é internamente coerente; cada uma é incoerente com a outra. Nenhum fato ou fatos concebíveis poderiam resolver essa discrepância. Por mais que desejassem transcender a incoerência, os físicos aprenderam a conviver com as incomensuráveis teorias da relatividade e da física quântica porque ambas

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(quase) funcionam. A física newtoniana ainda é bastante eficaz dentro do sistema solar, onde há alguns "fatos" (como a precessão de Mercúrio) não conformes com a relatividade einsteiniana, mas esta última é , certamente, a teoria preferida para aplicação ao resto do universo. Dizer que uma é verdadeira e outra é falsa é como dizer que um Toyota é verdadeiro e um modelo T é falso. Teorias criam fatos - e os destroem. A ciência é simultaneamente, e necessariamente, progressista e regressista. Diferentemente de Walter Alter, a ciência não privilegia uma ou outra direção. Não existe um universo passivo, preexistente, "organizado, padronizado , previsto e palpável" esperando por nosso toque de Prometeu. Até o ponto onde o universo é ordenado - um ponto que, até onde sabemos, talvez nem fique muito longe - nós é que o tornamos ordenado. Não apenas no sentido óbvio de que formamos famílias e construímos cidades , ordenando nossos próprios meios de vida, mas meramente pelo poder padronizador da percepção, pelo qual resolvemos um amontoado de dados sensoriais numa "tabela" na qual, "na verdade", há apenas uma multidão de partículas ínfimas e principalmente espaço vazio. Alter esbraveja contra a obnose, seu malformado neologismo que significaria ignorar o óbvio. Mas ignorar o óbvio é, "obviamente", o pré-requisito da ciência. Como diz S.F.C. Milson, " as coisas óbvias não podem estar levemente erradas: como o movimento do Sol, elas só podem estar fundamentalmente erradas". Óbvio que o Sol gira ao redor da Terra. Óbvio que a terra é plana. Óbvio que a mesa diante de mim é sólida, e não como os místicos da física atômica alegam , quase que apenas um espaço vazio. óbvio que partículas não podem também ser ondas. Óbvio que os caçadores-coletores trabalham mais do que os assalariados contemporâneos. Óbvio que a pena de morte diminui a criminalidade. Mas nada é mais óbvio, se algo ainda o é, do que o fato de que todas essas afirmações são falsas. OU seja, elas não podem ser

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qualificadas como "fatos" dentro de nenhuma estrutura que até seus próprios defensores reconheçam como sua. Der fato, todos os defensores (já que tais opiniões ainda têm alguns) defendem de forma estridente, como Alter, uma estrutura positivista-empírica na qual sua falsidade é patente. Portanto, para entrar em detalhes, avancemos para o passado. Alter espuma contra o que chama "apego romântico a uma existência 'mais simples' ,' mais pura' no passado, ou em sociedades primitivas ou 'orientais' contemporâneas". Espera aí. Ninguém, que eu saiba, está misturando sociedades primitivas passadas ou presentes com sociedades "orientais" (presumivelmente as civilizações da China e da Índia e suas ramificações no Japão, Coreia, Birmânia, Sudeste da Ásia, Indonésia, e por ai vai). Tais sociedades"orientais" se parecem muito com a sociedade que os "anarcoesquerdistas" querem derrubar - a nossa - , do que com qualquer sociedade primitiva. Ambas têm Estado, mercado, estratificação social e religião controlada por sacerdotes, coisas ausentes em todas as sociedades grupais extrativistas e em muitas sociedades tribais. Se sociedades primitivas e orientais têm características comuns de qualquer importância para sua argumentação ( se ele tivesse se dado ao trabalho de argumentar), Alter não as identifica. Para Alter, é uma "realidade implacável que a direção inata de qualquer cultura senciente, no sentido de ampliar o seu bem-estar, será sempre aumentar a aplicação de extensões às ferramentas disponíveis". Culturas não são "sencientes"; isso é reificála e mistificar sua natureza. Tampouco elas têm necessariamente qualquer "direção inata". Como ex(ou cripto)marxista - ele é um ex-(?) seguidor de Lydon LaRouche em sua fase stalinista, da Congregação Nacional de Comitês trabalhistas - Alter não tem desculpas para desconhecer isso. Embora Marx estivesse interessado principalmente em um modo de produção - o capitalismo - o qual, argumentava, tinha uma direção inata, ele também identificou um "modo der produção

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asiático" que não a tinha; Karl Wittfogel elaborou essa percepção em seu Oriental Despotismo. Nosso visionário profetiza que "se esse aumento cessar, a cultura morrerá". Isso nós sabemos que é falso. Se Alter esta correto, o regresso de uma sociedade a uma tecnologia amais simples é um ato inevitavelmente suicida. Antropólogos discordam. Para Alter, é uma questão de fé que a agricultura seja tecnologicamente superior ao extrativismo. Mas os ancestrais dos índios das planícies eram agricultores sedentários ou semi-sedentários que abandonaram aquele estilo de vida porque a chegada do cavalo tornou possível (não necessária) a opção de uma vida mais simples de caça que eles devem ter considerado qualitativamente superior. Os Kpelle, da Libéria, se recusam a mudar do cultivo seco para o cultivo inundado de arroz, seu principal alimento, como os "especialistas" em desenvolvimento econômico recomendam. Os Kpelle têm plena consciência de que o cultivo inundado (irrigado) de arroz é muito mais produtivo do que o seco. Mas o cultivo seco é conduzido comunalmente, com cantoria, festa e bebidas, de uma forma impossível no cultivo inundado - e é um trabalho muito mais fácil, numa "estação de trabalho" muito mais sadia e confortável. Se a cultura deles "morrer" em decorrência dessa escolha eminentemente ponderada, será um assassinato, não um suicídio. Se progresso, para Alter, significa exterminar pessoas porque nós podemos e porque elas são diferentes, ele pode pegar seu progresso e enfiar naquele lugar. Defendendo da ciência ele a difama. Até a história da civilização ocidental (a única que nosso futurista etnocêntrico leva a sério) contradiz a teoria de Alter da vontade de potência tecnológica. Por bem mais de mil Anos, a civilização clássica floresceu sem nenhuma "aplicação de extensões às ferramentas existentes" significativa. Até mesmo quando a ciência helênica ou romana avançava, isso não se estendia, normalmente , à sua tecnologia. Ela criou o motor a

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vapor e em seguida esqueceu o brinquedinho, como a China (outro exemplo contrário ao alterismo) inventou a pólvora e a usava para espantar os demônios provavelmente seu melhor uso. Claro que as sociedades antigas chegaram ai fim , mas todas chegam: como disse Keynes, a longo prazo estaremos todos mortos. E eu tenho minhas suspeitas quanto à expressão "extensão a ferramenta". Não tem algo a ver com o produto anunciado nas contracapas de revistas pornôs? Alter deve estar mentindo, não apenas enganando, quando reitera o mito hobbesiano de que "a vida primitiva é curta e brutal". Ele não poderia nem mesmo saber da existência daqueles que rotula como antroporomânticos sem saber também que eles demonstraram o contrário disso, convencendo seus colegas cientistas. A palavra " primitivo" é, para muitos fins - inclusive este-, vaga e generalizante demais para ser útil. Pode denominar desde as poucas sociedades sobreviventes baseadas na caça e no extrativismo, até os camponeses de minorias étnicas em vias de modernização nos Estados do Terceiro Mundo (como os índios do México e do Peru). A expectativa de vida é um exemplo. Alter quer que seus leitores suponham que a longevidade é uma função da complexidade tecnológica e social. Não é, e tampouco é o oposto disso. Como Richard Borshay Lee verificou, os Kung San ("homens da floresta"), de Botsuana, têm uma estrutura populacional mais próxima daquela dos Estados Unidos que daquela de um país típico do Terceiro Mundo, com sua maioria camponesa. A vida dos extrativistas não é tão curta assim. Só recentemente a expectativa de vida média das nações metropolitanas privilegiadas ultrapassou os índices préhistóricos. Quanto a vida dos primitivos ser "brutal", trata-se obviamente de um juízo moral, não científico, se comparada à dos habitantes de Detroit, por exemplo. Se a brutalidade se refere a qualidade de vida , os extrativistas, como Marshall Sahlins demonstrou em "As

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primeiras sociedades da afluência", trabalham muito menos e têm muito mais vida social e festas do que nós modernos. Nenhum deles recebe ordens de uma chefe babaca, nem levanta antes do meio-dia, nem trabalha cinco dias por semana, nem... - bem, já deu pra entender. Alter observa, com perversidade, que "bem poucas sociedades aborígines vêm sendo criadas e adotadas por aqueles que a elogiam" Não diga. E dai? Tais sociedades nunca foram criadas, elas evoluíram. As mesmas forças industriais e capitalistas que estão extinguindo as sociedades aborígines existentes contrapõem obstáculos poderosos à formação de outras. O que nós deploramos é justamente termos perdido a capacidade de recriá-las. Alter só está animando a torcida dos porcos. Como eu disse, eles até lhe pagariam (mas não muito bem, provavelmente), se ele já não estivesse fazendo isso de graça. Admita-se que antropólogos e "anarcoesquerdistas" ocasionais romantizam, sob certos aspectos, a vida primitiva de vez em quando, mas nada que se compare à escala em que Alter falsifica dados etnográficos. Richard Borshay Lee e Marshall Sahlins representam hoje a sabedoria convencional em relação a sociedades baseadas na caça e no extrativismo. Eles não romantizam nada. Não precisam. Um romântico ou uma romântica alegaria que a sociedade primitiva que ele ou ela estuda é virtualmente livre de conflitos e violência, como Elizabeth Marshall Thomas fez em seu livro sobre os San/Homens da Floresta, The Harmless People. As observações posteriores e mais minuciosas de Lee estabeleceram índices de homicídio per capita entre os San não muito abaixo daqueles dos Estados Unidos contemporâneos. Sahlins deixou claro que o preço de uma vida folgada e com abundância de alimentos, para os caçadores-coletores, era a impossibilidade de acumular qualquer propriedade que não deixe de ser um grande sacrifício, é um juízo de valor, não uma descoberta cientifica - e Alter é tão cego para essa

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distinção quanto qualquer monge medieval. Alter praticamente só faz referência específica a Margaret Mead, "uma sectária semi-analfabeta especializada em 'alterar amostras' quando elas não s encaixam na sua doutrina preexistente" (jamais especificada). Mead tinha pouca prática antes de sua primeira incursão no trabalho de campo em Samoa, mas chamar a autora de vários livros bem escritos e de sucesso de "semi-analfabeta" fica aquém até do semianalfabetismo, é burrice e pronto. Eu quase diria que Alter é um sectário semi-analfabeto que altera os fatos, mas na verdade ele é um sectário semi-analfabeto que ignora os fatos. As principais conclusões de Mead foram que os samoanos eram sexualmente liberais e, em relação aos americanos do Entre-guerras, mais cooperativos do que competitivos. Mead - pupila bissexual da antropóloga lésbica Ruth Benedict - pode ter projetado seu próprio liberalismo sexual nos nativos. Mas etnografias modernas (como a de Mangaia, de Robert Suggs), bem como fontes históricas da época do capitão Cook em diante, confirmam que a maioria das sociedades insulares do Pacífico estava realmente mais próxima do idílio hedonista relaxado que Mead pensou ter visto em Samoa do que de algum show de horrores hobbesiano. Alter vocifera contra o romantismo, a subjetividade, o misticismo - os suspeitos de sempre - , mas não quer encarar os fatos reproduzidos regularmente sobre a sociedade primitiva. Ele está de contradizendo. Se as descobertas de Mead relativas à sexualidade e ao amadurecimento foram revisadas por trabalhos de campo posteriores, sua caracterização da competição e da cooperação nas sociedades que ela estudou não o foram. Por qualquer padrão, nossa sociedade moderna capitalista e de Estado é o que estatísticos chama de desvio - uma mutação, uma aberração, um monstro - a uma distância extraordinária da maioria das observações, do tipo que joga a variância longe da variação. Não

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existem "padrões duplos fazendo críticas extremas contra todos os fatores burgueses [sic], capitalistas, espetaculares, de mercado" - o distanciamento é apenas tão extremo quanto o distanciamento da comunidade, como foi experimentado pela maioria das sociedades de hominídeos nos últimos milhões de anos. É como se Alter quisesse dizer que uma régua tem preconceitos por que ela estabelece que objetos de um metro ou mais são mais longos do que aqueles que têm menos de um metro. Se isso é ciência, prefiro o misticismo ou a morte. Alter insinua , sem demonstrar, que Mead falsificou provas. Mesmo que ela tenha falsificado, sabendo que muitos cientistas ilustres, entre eles Gallileu e Gregor Mendel, falsificaram ou embelezaram relatos de suas experiências para substanciar conclusões que agora são universalmente aceitas. Mendel, para piorar a situação, era um monge católico, um "místico", de acordo com a demonologia de Alter, e no entanto fundou a ciência da genética. Alter, longe de fundar uma ciência, nem mesmo dá a indicação de começar a entender qualquer uma delas. Os méritos e deméritos da etnografia de Margaret Mead são menos do que periféricos à polêmica de Alter. Não foi Mead quem descobriu e relatou que caçadorescoletores trabalham muito menos do que nós. Há algo muito fora de controle num maníaco por controle que insiste em taxar de fascistas ideias que não aceita ou entende. Nada que eu diga para denunciar esse tipo de oportunismo masturbatório será forte demais. "Fascista" não é, como Alter supõe, um nome de uso geral, sinônimo de "mim não gosta". Uma vez escrevi um ensaio, "Feminism as Fascism", que ocasionou grande indignação, embora continue bastante válido. Mas eu não me incomodei, porque tinha sido bastante cuidadoso e específico ao identificar os paralelos precisos entre fascismo e o chamado feminismo(radical) - cerca de meia dúzia. São meia dúzia de analogias a mais do que aquelas que Alter identifica entre o Fascismo e o anarco-

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esquerdismo ou a primato-nostalgia. Os únicos anarcoesquerdistas com quaisquer afinidade demonstráveis ao fascismo ( ao qual, na Itália, forneceram muitos recrutas) são os sindicalistas, uma seita moribunda, os últimos anarquistas a compartilhar o cientificismo retrógrado de Alter. É Alter, e não seus inimigos, quem pede "um corpo orientador e coeso de conhecimentos e de experiências como estrutura de referência" - apenas uma estrutura de referência repare bem - para "diagramas e manuais", ou seja, para ritmos de marcha. Acontece que existem fascistas de verdade neste nosso mundo imperfeito. Vulgarizando o termo e se dizendo contra os fascistas, Alter (que está longe de ser o único a fazer isso) na verdade os equipa com um sistema de camuflagem. Os artistas , uiva Walter, "não acreditam que a tecnologia seja uma coisa intrinsecamente boa". Eu não ligo muito para aquilo em que os artistas acredita, especialmente se Alter for um exemplo, mas essa suposta opinião deles lhes dá crédito. Eu imaginaria que é óbvio, ignorar o óbvio, acreditar na tecnologia "intrinsecamente ", não vê-la como o meio para um fim, ou fins, para os quais ela é vendida, e sim como uma espécie de fim em si mesmo sem utilidade alguma para ninguém. "Arte pela arte" é um credo discutível, mas pelo menos fornece arte, que agrada alguns por sua beleza. A tecnologia como fim em si mesma não faz sentido algum, como o monstro do dr. Frankenstein. Se "tecnologia pela tecnologia" não é a antítese da razão, então não sei o que é razão, e prefiro não saber. Os caçadores-coletores anarco-comunistas (porque é isso, para ser exato, o que eles são) do passado e do presente são importantes. Não (necessariamente) por suas bem sucedidas adaptações específicas ao habitat, já que por definição elas não são generalizáveis, mas por demonstrarem que a vida já foi, e pode ser, radicalmente diferente. A questão não é recriar aquele estilo de vida (embora possa haver algumas ocasiões de fazê-lo), mas reconhecer que, se uma vida totalmente contraditória à

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nossa é viável a ponto de ter um histórico de milhões de anos, então talvez outros meios de vida contraditórios ao nosso sejam viáveis. Para um esquizofrênico do século XXI, rico e de bom gosto, Alter tem um vocabulário assombrosamente limitado. Ele acredita que palavras infantis como "bem" e "mal" significa algo mais do que "mim gosta" e "mim não gosta", mas se ele vê algum outro sentido nelas não compartilhou essa abundância com o resto de nós. Ele acusa seus inimigos escolhidos de "infantilismo e vingança contras os pais", ecoando o autoritarismo de Lênin (Esquerdismo, Doença Infantil do Comunismo) e Freud, respectivamente. Futurista típico - e os futuristas originais aderiram ao fascismo -, está cerca de um século atrás de Heisenberg, Nietzsche e do resto de nós. O moralismo é retrógrado. Você quer algo? Não me diga que você esta "certo" e eu estou "errado. Pouco me importa do que Deus ou Papai Noel gostam, muito menos se fui bom ou mau menino. Diga-me apenas o que eu tenho que você quer, e por que eu deveria dá-lo a você. Não posso garantir que concordaremos, mas a articulação seguida de negociação é a única maneira possível de resolver uma disputa sem coerção. Como Proudhon disse, "eu não quero nenhuma lei , mas estou disposto a negociar". Alter se apega à "realidade física" objetiva - matéria em movimento - com a mesma fé de uma criança que se agarra à mão de sua mãe. E a fé, para Alter e para crianças de todas as idades, é sempre seguida pelo medo. Alter (para citar Clifford Geertz) "teme que a realidade suma, a menos que acreditemos bastante nela". Ele nunca experimentará uma crise edipiana porque jamais crescerá a este ponto. Um mundo mecânico é o único que ele consegue entender. Ele acha que o sistema solar, na verdade, é um planetário. Não tem tolerância alguma para a ambiguidade, a relatividade, indeterminação - tolerância alguma, de fato, para a tolerância.

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Alter parece não ter aprendido nada da ciência além de um pouco de jargão bastante mal empregado. Ao denunciar o "mau método científico" e a "intuição" quase na mesma exalação de mau hálito , ele explicita o quanto ignora o pluralismo do método científico. Até um positivista tão resoluto quanto Karl Popper distinguia o "contexto de justificação", que ele supunha implicar a aderência a uma ortodoxia demonstrativa um tanto rígida, do "contexto da descoberta", no qual , como Paul Feyerabend alegremente observou, "vale tudo". Alter revela o quão completamente por fora está ao fazer referência casual aos "verdadeiros métodos de descoberta". Não existem verdadeiros métodos de descoberta, apenas métodos úteis. Em princípio, ler a Bíblia ou tomar LSD são práticas tão legítimas, no contexto da descoberta, quanto fuçar publicações técnicas regularmente. Não importa se Arquimedes realmente obteve inspiração pulando na banheira, ou se Newton a conseguiu vendo uma maçã cair. O que importa é que nesses - quaisquer - gatilhos da criatividade são possíveis e, se forem eficazes, são desejáveis. A intuição é importante não como uma faculdade oculta confiável, mas como uma fonte de hipóteses em todos os campos. E também de vislumbres ainda não prontos para serem formalizados, se é que algum dia o serão, mas que são ainda assim significativos e heurísticos no contextos das disciplinas hermenêuticas, as quais com todo o direito se recusam a aceitar que algo não passível de quantificação seja místico. Muitas disciplinas já aceitas no panteão das ciências ( como a biologia, a geologia e a economia) teriam sido abortadas por esse dogma anacrônico. " Considerar a fonte"é o que Alter chama de "método científico ruim ". Ouvimos falar muito (demais)do conflito entre evolucionismo e criacionismo. Basta um conhecimento superficial da história intelectual ocidental para reconhecer que a teoria da evolução é uma secularização da escatologia que distingue o cristianismo de outras tradições religiosas. Mas o fato de que o cristianismo foi o contexto

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da sua descoberta é um motivo bem pouco científico para rejeitar a evolução. Ou, por que não dizer, para aceitá-la. Alter não é o que finge ser, um paladino da razão atacando as hordas irracionalistas. A única coisa que os nomes na sua lista de inimigos têm em comum é o fato de estarem nela. Ayn Rand, cuja defesa histérica da "razão" era o alterismo sem o jargão de ciência popular, tinha um rol de irracionalidades que incluía homossexuais, liberais, cristãos, anti-semitas, marxistas, expressionistas abstratos, hippies, tecnófobos, racistas e fumantes de maconha (mas não de tabaco). A lista de Alter (certamente incompleta) inclui sadomasoquistas, New Agers, antropólogos, esquizofrênicos, antiautoritários, fundamentalistas cristãos, engenheiros sociais de gabinete, fascistas, protocubistas... Intimem suspeitos inesperados. Alter só faz esse jogo de acusação porque não tem extensões às ferramentas em número suficiente. "Quantas vezes por dia você realmente avança em questões importantes, de forma intuitiva?" Palavras sábias - e também um bom argumento para mandar esse cara plantar batatas. Aqui esta outra charada, sr. Leitor ou sra. Leitora: quantas vezes por dia você realmente avança em questões importantes, NÃO IMPORTA DE QUE FORMA? Quantas vezes por dia você "avança em questões importantes" - intuitiva, irônica, intelectual, impulsiva, impassivelmente ou seja lá de que forma for? Ou você sente, um dia após o outro, que um dia vem após o outro, e é só? Que as únicas "questões importantes" que afetam você se é que existem, são decididas,se é que são, pelos outros? Já notou sua falta de capacidade de mapear o seu próprio destino? Já notou que seu acesso à realidade "virtual" aumenta na mesma proporção em que você se distancia (um gesto prudente) da realidade factual? Que fora trabalhar e pagar você não tem absolutamente nenhuma utilidade para esta sociedade, e não pode esperar que ela conserve você, se

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um dia não conseguir fazer uma dessas duas coisas? E , finalmente, por acaso a gritaria tecnofílica e tecnocapitalista de Walter Alter pode ajudar você, de alguma forma, a interpretar o futuro, e muito menos mais importante também - a mudá-lo?

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Ritos da Esquerda

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Na astronomia, "Revolução" se refere a uma volta ao mesmo lugar. Para a esquerda, parece significar mais ou menos a mesma coisa. O esquerdismo é literalmente reacionário. Assim como os generais estão uma guerra atrasados, os esquerdistas estão sempre em busca de uma revolução. Eles veem como bem-vindas porque sabem que já nasceu fracassada. São vanguardistas porque sempre estão atrás de seu tempo. Como todos os líderes, os esquerdistas são menos intragáveis quando seguem seus seguidores, mas, em certas crises, eles tomam a frente para fazer o sistema funcionar. Se a metáfora esquerda/direita tem algum significado, ele só pode ser que a esquerda fica à esquerda da mesma coisa da qual a direita fica à direita. Mas e se "revolução" significar sair da linha? Se não houvesse direita, a esquerda teria que inventá-la - e muitas vezes o fez. (Exemplos: A histeria calculada com os nazistas e a KKK, que concede a esses covardes retardados a notoriedade de que precisam; ou qualquer denunciazinha comum da Maioria Moral¹ que torna inúteis ataques grosseiros às verdadeiras fontes de tirania moralista - A família, a religião em geral e a ética do trabalho adotada tanto pelos esquerdistas como pelo cristãos.) A direita, da mesma forma, precisa da esquerda: sua definição operacional é sempre "anticomunismo" ou seus vários sinônimos baratos. Assim, a esquerda e a direita pressupõem e recriam uma à outra. Um efeito negativo dos tempos difíceis é que eles tornam a oposição fácil demais, como (por exemplo) a atual crise econômica, que é encaixada em categorias marxistas arcaicas, populistas ou sindicalistas. A esquerda, portanto, se posiciona para cumprir seu papel histórico de reformista desses males incidentais (embora agonizantes), os quais, devidamente abordados, escondem as injustiças essenciais do sistema: a hierarquia, o moralismo, a burocracia, a mão-de-obra assalariada, a monogamia, o governo, o dinheiro. (O marxismo poderá ser um dia algo mais do que a maneira

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sofisticada de o capital pensar sobre si mesmo?) Considere o epicentro reconhecido da crise atual: o trabalho. O desemprego é ruim. Mas a isso não se segue, fora do dogma direito-esquerdista, que o emprego seja bom. Não é. O "direito ao trabalho", talvez um slogan adequado em 1848, está obsoleto em 1982. As pessoas não precisam de trabalho. Nós precisamos é da satisfação das necessidades de subsistência, por um lado, e, por outro, de oportunidade de atividade criativa, de convivência, educativa, diversificada e apaixonante. Vinte anos atrás, os irmãos Goodman estimaram que 5% do trabalho existente na época atenderia às necessidades mínimas de sobrevivência, um indicie que deve ser mais baixo hoje; obviamente, ramos inteiros de atividade não servem para nada mais do que atender às finalidades predatórias do comércio e da coerção. Essa é uma infra-estrutura ampla a ser modificada para criar um mundo de liberdade, comunidade e prazer no qual a "produção" de usos-valores seja o "consumo" de atividades gratificantes livres. Transformar o trabalho em brincadeira é um projeto para um proletariado que rejeita essa condição, não para esquerdistas que não têm mais o que conduzir. O pragmatismo, como rápido olhar no seu fundamento torna óbvio, é uma armadilha ilusória. A utopia não passa de senso comum. A escolha entre o "pleno emprego" e o desemprego - escolha à qual a esquerda e a direita colaboram entre si para nos confinar - é a escolha entre Gulag e a sarjeta. Não admira que, depois desses anos todos, uma população sufocada e sofredora esteja cansada da mentira democrática. Há cada vez menos pessoas que querem trabalhar - até entre aquelas que têm motivos para temer o desemprego - e cada vez mais pessoas que querem fazer maravilhas. Por favor, vamos fazer barulho para obter concessões, redução de impostos, amostras grátis, pão e circo - por que não morder a mão que nos alimenta, se seu sabor é excelente? - mas sem ilusões.

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A pérola (sur)racional da verdade dentro da mística ostra marxista é esta: a "classe trabalhadora" é o lendário "agente revolucionário", mas somente se, parando de trabalhar, abolir as classes. "Organizadores" perenes, os esquerdistas não entendem que os trabalhadores já foram definitivamente "organizados" por - e só podem ser organizados para - seus chefes. "Ativismo" é idiotice quando enriquece nossos inimigos e lhes dá poder. O esquerdismo, esse parasita de símbolos doloridos, teme a deflagração do incêndio do Wilhelm Reichstag2, que vai consumir seus partidos e sindicatos junto com as corporações, exércitos e igrejas atualmente controladas por seu ostensivo oponente. Hoje em dia, você precisa ser estranho para ser efetivo. O esquerdismo cinzento, com suas listas de antagonismo obrigatórios (contra ismos, aquilismos, e aquiloutrismos: contra tudo, menos o esquerdismo) não tem nenhum humor, nenhuma imaginação; portanto, não pode preparar revoluções, só golpes, que mudam as mentiras, mas não a vida. Mas o ímpeto de criar é também um ímpeto destrutivo. Mais um esforço, esquerdistas, se quiserem ser revolucionários! Se vocês não se revoltarem contra o trabalho, estarão trabalhando contra a revolta.

2 Brincadeira com o incêndio que destruiu o prédio do parlamento alemão (Reichstag) em 1933 e Wilhelm Reich, psicanalista marxista freudiano.

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Meu Problema com o Anarquismo

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O anarquismo sempre foi problemático, para mim. Ele me ajudou a atingir uma perspectiva antiestatista e anticapitalista incondicional em meados da década de 70, e no entanto minha primeira declaração pública sob aquela perspectiva explicava por que eu não me identificava com o anarquismo. Pela definição do dicionário sou um anarquista, mas o dicionário é só o inicio do saber. Ele não pode levar coerência para onde contradições abundam ou reduzir diferenças a uma unidade, chamando-as pelo mesmo nome. Quando uma idéia é lançada na história, parte cada vez maior de seu significado vem de sua experiência. Apelos saudosistas para retornar aos princípios originais provam isso, porque também fazem parte da historia. E, da mesma forma que nenhuma seita protestante conseguiu realmente recriar a Igreja primitiva, nenhum fundamentalismo anarquista subsequente jamais restabeleceu, ou pôde restabelecer, o anarquismo puro no modelo bakunista, kropotikista ou outros. qualquer coisa que tenha entrado de maneira relevante na pratica dos anarquistas tem lugar no fenômeno processual anarquista, sendo ou não logicamente deduzível dessa história , ou até mesmo contradizendo-a. Sabotagem, vegetarianismo, assassinato, pacifismo, amor livre, cooperativas e greves são todos aspectos do anarquismo que os detratores anarquistas tentam menosprezar como atividades antianarquicas. Chamar a si mesmo de anarquistas significa se predispor à identificação com uma gama imprevisível de associações, um conjunto que raramente significara a mesma coisa para duas pessoas, inclusive para dois anarquistas. (A mais previsível delas é a menos exata: um cara que explode bombas. Mas anarquistas já lançaram bombas, e alguns ainda lançam). O problema dos anarquistas é que eles acham que concordaram sobre aquilo a que todos eles se opõem - o Estado - quando na verdade só estão de acordo sobre o

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nome que lhe dão. Seria possível provar que os maiores anarquistas não eram, em absoluto, anarquistas. Godwin queria que o estado murchasse, mas gradualmente, e não antes que o progresso do esclarecimento preparasse as pessoas pra se virarem sem ele. Isso na verdade, parece legitimar o estatismo existente e culminar na idéia banal de que, se as coisas fossem diferentes, não seriam as mesmas. Proudhon, que serviu na legislatura nacional francesa, acabou chegando a uma teoria do federalismo que nada mais era a devolução da maior parte do poder de estado aos governos locais. As comunas livres de Kropotkin podem não ser naçõesestados, mas certamente parecem cidades-estado. Naturalmente, nenhum historiador deixa de achar ridícula a afirmação de Kropotkin de que as cidades medievais eram anarquistas. Se alguns dos maiores anarquistas, vistos de perto, parecem um tanto aquém de alguma consistência a respeito do próprio princípio definidor do anarquismo a abolição do Estado - é muito surpreendente que alguns dos luminares menos importantes sejam, por sua vez, pouco brilhantes. Para quem o ver de fora, O Grande Sindicato Único - que também defende o dever do trabalho - é um enorme Estado, e totalitário ainda por cima. Algumas "anarcofeministas" são queimadoras de livros. Dean Murray Bookchin abraçou a politica de terceiro partido3 e o estatismo municipal, assustadoramente ao movimento/milícia protofascistas Posse Commitatus4, que quer abolir todo governo acima do nível de condado. E o "governo invisível" dos militantes anarquistas de Bakunin é, na melhor das hipóteses , uma escolha infeliz de palavras, especialmente saindo da boca de um maçom.
3 "third party" , no original, é a forma como são conhecidos nos EUA quaisquer partido políticos que não sejam republicanos ou democratas. 4 Movimento de extrema direita que se opõe ao governo dos EUA e defende um localismo radical. Não há uma organização nacional, e as unidades locais são autônomas.

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Os anarquistas não se entendem sobre trabalho, industrialismo, sindicalismo, urbanismo, ciência, liberdade sexual, religião, e um sem numero de coisas mais importantes, especialmente quando tomadas em conjunto. Há mais pontos discordante do que qualquer coisa que os una. Cada um dos "encontros" anuais do anarquismo norte americano que aconteceram entre de 1986 a 1989 - a primeira vez que a maioria desses anarquistas viu um ao outro frente a frente - , resultou numa hemorragia dos desiludidos. Ninguém quer saber de organizar o próximo, embora alguns encontros regionais tenham dado bons resultados. Mas apesar dos demagogos, doutrinários e débeis mentais, parte da imprensa anarquista, conseguiu ventilar um pouco o movimento, para alegria não só dos cabeças-de-vento, e o oxigênio é antiséptico. Os anarquistas, ou melhor, os anarquistas marginais, muitas vezes sabem o que carregar e o que deixar para trás . Uma familia de heteroxias que denominei anarquismo "Tipo 3" ou "watsoniano" abriu muito espaço entre os tradicionalistas nos últimos anos. Os Tipo 3, a categoria dos inclassificáveis, enriquecem seu anarquismo (ou seja la o que for) com empréstimos do neoprimitivismo ( ou então do neofuturismo!), do surrealismo, do situacionismo, das religiões piadistas (discordiana, ciência mooreana, Sub-Genius), da cultura punk, da cultura da maconha e da cerveja e da cultura beat. Alguns anos atrás , os proletaristas, em minoria, lançaram uma campanha de ódio aos Tipo 3, entre outros - pendurando neles ( ou devo dizer lumpendurando?) a pecha imbecil de "neo-individualistas". nós somos parasitas sociais, místicos, masturbadores e de maneira geral, selvagens sem moral. Sim, mas eles são universitários com capacetes de construção de grife. Os anarquistas... ruim com eles, pior sem eles. Como informei uma vez a Demolition Derby, os anarquistas podem ser péssimos camaradas, mas são ótimos clientes. Em 1985 fiquei tão enojado de todos eles

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que rompi meus laços de vez. Com o passar dos anos, isso perdeu o sentido, porque ficou difícil de dizer exatamente o que era " anarquista" o suficiente para merecer ser boicotado. Agora eu faço uma analise caso a caso. Este texto é uma galeria de vilões. A alguns dos anarquistas que eu respeito, como Ed Lawrence e Hakim Bey , mostrei minha estima em outros artigos. enquanto isso , eu retomo a luta contra a terminologia. Sou anarquista ou não sou? Como Feral Faun e outros, eu me viro contrapondo " anarquia " a "anarquismo". Mesmo se essa distinção " pegar", como chamar os respectivos partidos? Eu sugiro o seguinte: que os "anarquia-istas" se autodenominem anarcos5, uma palavra cuja primeira ocorrência conhecida - em Paraíso Perdido - de Milton! antecede anarquista em nove anos. é melhor porque, como a distinção corresponde monarca e monarquista, ela designa não aquilo em que nós acreditamos, mas o que somos , até onde nosso poder permite: poderosos em nós mesmos. Por vezes demais os anarquistas me passaram sermão pedindo que eu evitasse as "rivalidades" e "conflitos internos" para combater melhor "o verdadeiro inimigo", expressão com que se referem a alguma abstração convenientemente remota como o capitalismo ou o Estado. Que arrogante, para pessoas que me acusam de ser arrogante, me dizer que elas enxergam meus verdadeiros inimigos melhor do que eu. Já refutei o argumento quando me foi apresentado na sua forma mais sedutora - a lisonjeira sugestão de que meus inimigos não são dignos de mim. Posso dispensar a versão padrão , mais tosca dele, como uma trama cínica e egoísta para escapar das minhas criticas, redirecionando-as. Embora possa ter sido proposto de boa fé, é bobagem. Zorro e Tonto estão cercados pelos índios. Zorro
5 "anarchs" no original.

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diz : " Parece que desta nós não escaparemos, velho amigo". E Tonto diz: " Nós quem, cara pálida? " O verdadeiro inimigo é a totalidade dos limites físicos e mentais com os quais o capital, a sociedade de classes, o estatismo ou a sociedade do espetáculo desapropriam o dia-a-dia, do nosso tempo de vida. O inimigo verdadeiro não é um objeto separado da vida. É a organização da vida por poderes distanciados dela e voltados contra ela. O aparato , não o seu quadro de funcionários, é o inimigo verdadeiro. Mas pelos apparatchiks, e mediante eles, e todos os outros que participam do sistema, que a dominação e a falsidade se tornam manifestas. A totalidade é a organização de todos contra cada um e de cada um contra todos. Ela inclui todos os policiais, todos os assistentes sociais, todos os funcionários de escritórios, todas as freiras, todos os colunistas de segunda pagina, todos os chefões do trafico de drogas , de Medellin a UpJohn6, todos os sindicalistas e situacionistas. Isso não é retórica, para mim , é algo que inspira as minhas escolhas. Implica que posso esperar encontrar ações e, opiniões e personalidades autoritárias entre os anarquistas como em qualquer outro lugar. "Camaradas" não são meus camaradas - nem eu sou, nos meus piores momentos, meu próprio camarada - quando eles, ou eu, nos comportamos como " o inimigo verdadeiro". Não existe inimigo verdadeiro fora das açoes humanas. E que lugar melhor para os autoritários se aninharem do que entre os anarquistas, tão facilmente absorvidos por rótulos, tão facilmente deslumbrados por valores chamativos de produção, e tão facilmente confundíveis perante os fatos? Embora ela seja só um tipo ideal, a personalidade autoritária esta quase que completamente realizada em anarquistas como Jon bekken, Michael Kolhoff, Chaz Bufe, Fred Woodworth e
6 Gigante farmacêutica criada em 1886, cujos ativos foram adquiridos recentemente pela Pfizer.

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Chris Gunderson, e em antiautoritários como Caitilin Manning, Chris Carlsson, Adam cornford e Bill Brown. ( Antiautoriatario, que historia essa palavra poderia contar. Como disse Bill Knot, "Se antisséptico bucal falasse...") Se os anarquistas são capazes de atitudes autoritárias e de incoerência ideológica, eu não devo chamá-los cegamente de camaradas, mas do que chamaria de camarada um guarda rodoviário ou um vendedor de carros usados. O rotulo não é uma garantia. Um motivo importante para minha dissociação do anarquismo em 1985 foi impedir qualquer reivindicação da minha lealdade ou isenção de critica , baseada no farto de que "nós" estamos do mesmo lado. Para um verdadeiro camarada as criticas seriam bem-vindas. Falar das minhas rivalidades, em geral, é bobagem. Embora não exista separação definitiva entre o pessoal e o político, especialmente, quando se é uma pessoa tão política quanto eu, rixas predominantemente pessoais não tem lugar neste livro. Um argumento não se torna rivalidade só porque eu o levo além do costumeiro estagio do monólogo ou porque outro cara começa a me xingar. Ideólogos que não têm capacidade ou maturidade para defender com profundidade suas opiniões deveriam guardá-las para si próprios, especialmente quando publicam revistas. Fui acusado de abuso de força pelos atentado contra os editores anarquistas Fred Woodworth e "Spider Rainbow". É difícil dizer. Spider Rainbow de fato secou e morreu, mas a cada minuto nasce outro dele. Woodworth continua agonizando, porque nada que não tenha realmente vivido pode morrer: eu escavei a múmia e suas momices. A medida adequada do valor de minhas palavras não é a envergadura de meus assuntos. Eles não precisam ser importantes para serem úteis, para variar.

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Sobre o Anarquismo e outros Impedimentos para a Anarquia

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Atualmente não há a necessidade de produzir novas definições do que é o anarquismo - seria difícil superar aquelas concebidas há muito tempo por vários eminentes estrangeiros já falecidos. Nem precisamos nos demorar nos bem conhecidos anarco-comunismo e anarco-individualismo, nem nos demais, os livros cobrem tudo isso. Mas o problema é que não estamos hoje mais perto da anarquia do que estavam em seu tempo Godwin, Proudhon, Kropotkin e Goldman. Há muitas razões, mas aquelas que merecem maior reflexão são as que os anarquistas mesmo geram, já que estes obstáculos - se há algum – podem ser removidos. É possível, mas não provável. O que considero, segundo meu julgamento, depois de anos de comprometimento, e em contextos de espantosa atividade no meio anarquista, é que os anarquistas são a principal razão - suspeito, uma razão suficiente - pela qual a anarquia permanece como um epíteto sem uma oportunidade de ser realizada. Muitos anarquistas são, francamente, incapazes de viver de uma maneira autônoma e cooperativa. Uma boa parte deles não são muito brilhantes. Tendem a ler seus próprios clássicos e a literatura produzida pelo próprio grupo, excluindo um conhecimento mais amplo do mundo em que vivem. Essencialmente tímidos, se associam com outros iguais a eles com o conhecimento tácito de que nada medirá as opiniões dos demais nem atuará contra praticamente nenhum estandarte de inteligência crítica; que nada de seu, ou seus, ganhos individuais estará irá muito além do nível prevalecente; e, sobretudo, que nada desafia as regras da ideologia anarquista. O anarquismo não é em grande medida um desafio à ordem existente, anteriormente é uma forma sobre especializada de acomodar-se nela. É um modo de vida, ou um anexo de uma, com sua mistura particular de recompensas e sacrifícios. A pobreza é obrigatória, e pela mesma razão se exclui a pergunta sobre se este anarquista pode ser alguém na vida ou um fracassado,

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apesar da ideologia. A história do anarquismo é uma história incomparável de derrota e martírio, os anarquistas ainda veneram seus antepassados feitos de vítimas, com uma devoção mórbida que levanta a suspeita de que os anarquistas, como todos os demais, pensam que o único anarquista bom é um morto. A revolução – a revolução vencida – é gloriosa, mas pertence aos livros e panfletos. Neste século – a Espanha em 1936 e a França em 1968 são casos sumariamente claros – o arrebatamento revolucionário surpreendeu ao oficial, os anarquistas organizados chegaram tarde e inicialmente não apoiaram as propostas, ou ainda pior. A razão disso não se encontra longe; não é que esses ideólogos foram hipócritas (alguns o eram), mas eles trabalhavam em uma rotina diária de militância anarquista, alguns deles esperavam inconscientemente suportar indefinidamente, já que a revolução não era imaginável realmente no aqui e agora, por isso eles reagiram com medo e em atitude defensiva quando os eventos se distanciaram de sua retórica. Em outras palavras, se lhes permite escolher entre anarquismo e anarquia a maioria dos anarquistas irão optar pela ideologia do anarquismo e sua subcultura ao ter que dar um perigoso salto ao desconhecido, dentro de um mundo de liberdade estatal. Mas desde que os anarquistas são as únicas críticas confessas do estado como tal, estes populares temerosos da liberdade deveriam assumir, inevitavelmente e de maneira proeminente, ou ao menos publicitária, seus lugares em qualquer insurgência que fosse genuinamente antiestatal. Eles são seguidores, encontraram os líderes de uma revolução que ameaçará seus status estabelecidos não menos do que podem fazer os políticos e os proprietários. Os anarquistas podem sabotar a revolução, conscientemente ou de outra maneira, que sem eles poderiam ter abolido o estado, repetindo sem pausa aos antigos debates entre Marx e Bakunin. De fato, os anarquistas que assumiram esse nome

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não tem feito nada para mudar o estado, não com escritos cheios de verborreia ilegível, e sim com o exemplo contagioso de outra maneira de se relacionar com as demais pessoas. Quando os anarquistas conduzem as questões do anarquismo são a melhor refutação das pretensões anarquistas. Na realidade, as duas “federações” de trabalhadores mais organizadas da atualidade na América do Norte têm entrado em colapso por tédio e amargura, e uma coisa boa também, porque a estrutura social informal do anarquismo, que o atravessa, é ainda hierárquica. Os anarquistas se submetem placidamente ao que Bakunin chamou de “governo invisível”, que no caso consiste nos editores (de fato se não no nome) de um maço das maiores e mais duradouras publicações anarquistas. Estas publicações, apesar das diferenças ideológicas aparentemente profundas, de antemão seus leitores têm posições similares de “papai sabe o que é bom” assim como um acordo de cavaleiros para não permitir ataques entre eles que exporiam as inconsistências e por outra parte minaria o interesse da classe comum na hegemonia da gente comum anarquista. Por incrível que pareça, você pode criticar facilmente ao Fifth Estate e o Kick It Over em suas próprias páginas nas quais criticam, digamos, a Processed Wolrd7. Cada organização tem mais em comum com qualquer outra do que têm com qualquer desorganizado. A crítica anarquista do estado, se só os anarquistas as entendem, é sem dúvida um caso especial de crítica contra a organização. E inclusive a certo nível as organizações anarquistas se dão conta disso. Os anti-anarquistas podem concluir que se não há hierarquia e coerção, a deixem sair em público, mostrando claramente como é. Ao contrário dessas autoridades (os direitistas “libertários”, os minarquistas,
7 Nome de diferentes revistas anarquistas dos Estados Unidos, as primeiras de tendência primitivista, no entanto a segunda tem um caráter mais anarco-sindicalista.

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por exemplo) eu persisto obstinadamente em minha oposição ao estado. Mas não porque, como os anarquistas reflexivamente declaram, o estado não seja “necessário”; as pessoas comuns desacreditam essa verdade anarquista e a consideram absurda, como devem fazê-lo. Obviamente, em uma sociedade industrializada como a nossa, o Estado é necessário. O ponto é que o Estado criou as condições nas quais é de fato necessário, desapossando os indivíduos de seu poder, de se associarem voluntariamente no dia a dia. De maneira mais fundamental, as bases do Estado (trabalho, moralismo, tecnologia industrial, organizações hierárquicas) não são necessárias senão como antíteses para a satisfação de nosso desejo e necessidades reais. Desafortunadamente, a maioria das tendências do anarquismo apoia essas premissas, mas opondo-se a sua conclusão lógica: o Estado. Se não houvesse anarquistas o Estado teria que inventá-los. Sabemos que em muitas ocasiões ocorreu exatamente isso. Necessitamos de anarquistas sem as travas do anarquismo. Então, e só então, podemos começar a obter um fomento sério da anarquia.

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Teses sobre o GrouxoMarxismo

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1 Groucho-marxismo, a teoria da revolução cômica, é muito mais que um projeto para a luta de classes: como uma luz vermelha numa janela, ele ilumina o destino inevitável da humanidade, a sociedade desclassificada8. G-Marxismo é a teoria da folia permanente. (Aí, garoto! Até que enfim, eis um ótimo dogma). 2 O exemplo dos próprios Irmãos Marx mostra a unidade da teoria e prática marxista (por exemplo, quando Groucho insulta alguém enquanto Harpo depena sua carteira ). Além disso, o marxismo é dialético (Chico não é o clássico comediante dialético?). Comediantes que fracassam em sintetizar teoria e prática (para não mencionar aqueles que fracassam totalmente em pecar) são não-marxistas. Comediantes posteriores, fracassando em entender que a separação é “o discreto charme da burguesia”, decaíram para meras gafes, por um lado, e mera tagarelice, por outro. 3 Como o G-Marxismo é prático, seus feitos não podem nunca ser reduzidos ao mero humor, entretenimento ou “arte”. (Os estetas, afinal de contas, estão menos interessados na interpretação da arte do que na arte que interpreta.) Depois que um genuíno marxista assiste a um filme dos Irmãos Marx, ele diz para si mesmo: “Se você achou isso engraçado, preste atenção à sua vida!”. 4 G-marxistas contemporâneos devem decididamente denunciar o “Marxismo” vulgar, de imitação, dos Três Patetas, Monty Python, e Pernalonga. Em vez do marxismo vulgar, devemos retornar à
8 No original, déclassé.

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autêntica vulgaridade marxista. Retoficação9. serve igualmente para aqueles camaradas desiludidos que pensam que “a linha correta” é o que o tira faz quando manda eles pararem no acostamento. 5 Marxistas com consciência de classe (isto é, marxistas conscientes de que não possuem nenhuma classe) devem rejeitar a “comédia” anêmica, da moda, narcisista, de revisionistas cômicos como Woody Allen e Jules Feiffer. A revolução cômica já ultrapassou a mera neurose – ela é risonha mas não risível, discriminante mas não discriminatória, militante mas não militar, e aventurosa mas não aventureira. Os marxistas percebem que hoje você deve olhar no espelho de uma casa assombrada de parque de diversões para se ver da forma que você realmente é. 6 Embora não totalmente desprovido de vislumbres de insight marxista, o (sur)realismo socialista deve ser distinguido do G-Marxismo. É verdade que Salvador Dali deu uma vez a Harpo uma harpa feita com arame farpado; no entanto, não há nenhuma evidência de que Harpo alguma vez a tenha tocado. 7 Acima de tudo, é essencial renunciar e execrar todo sectarismo cômico como o dos trotskos eqüinos. Como é bem sabido, Groucho repetidamente propunha o sexo mas se opunha às seitas. Para Groucho, havia uma diferença entre ser um trotsko e estar louco para “trotar”10. Além disso, o slogan trotsko “Salários para o Trabalho Eqüino” cheira a reforma, não a folia. Os esforços trotskos para reivindicar Um dia nas Corridas e
9 “Rectumfication”, neologismo bricalhão que Black inventou a partir de “retificação” e “reto” (rectum, canal do ânus). 10 Trocadilho aqui intraduzível entre “Trots” (trotskistas) e “hot to trot” (excitado para trepar), sem esquecer a brincadeira com os eqüinos pois “to trot” significa trotar.

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Os Gênios da Pelota como de sua tendência devem ser indignadamente rejeitados; na verdade, A Mocidade é Assim Mesmo está mais na velocidade deles11. 8 O assunto mais urgente que os G-Marxistas confrontam hoje é a questão do partido12, que - ao invés do que pensam “marxistas” ingênuos, reducionistas – é mais que apenas “Por que não fui convidado?” Isso nunca foi impedimento para Groucho! Os marxistas precisam de seu próprio partido disciplinado de vanguarda, pois eles são raramente bem-vindos aos de qualquer outro. 9 Guiadas pelos dogmas fundamentais do desbehaviorismo e do materialismo histérico, as massas inevitavelmente abraçarão, não apenas o G-Marxismo, mas também mutuamente uns aos outros. 10 O Groucho Marxismo, então, é o tour de farce da comédia. Como seguramente se diz que Harpo falou: “Em outras palavras, a comédia será revoltosa ou não será!” Tanto por fazer, tantos para fazê-lo! Sobre seus Marx, está dada a largada!13

11 Um dia nas Corridas (A Day in the Races) e Os Gênios da Pelota (Horse Feathers) são filmes dos Irmãos Marx, enquanto A Mocidade é Assim Mesmo (National Velvet) é um velho drama onde Liz Taylor atuou ainda garota. 12 Mais um trocadilho neste texto pleno deles: “party” é tanto partido quanto festa em inglês. Para entender a piada melhor, leia o parágrafo com os dois significados, substituindo onde houver “partido” por “festa”. 13 Outro trocadilho praticamente intraduzível, desta vez com a exclamação que dá início a competições de corrida : “On your marks, get set –go!” aqui trocada por “On your Marx, get set – go!”.

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Teses sobre o Anarquismo depois do Pós-modernismo

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1 Anarquismo, n.1. A doutrina que diz que a sociedade estatal é possível e desejável. Obsoleto. 2. Regra feita pelos anarquistas. 2 Anarquismo, compreendido corretamente, não tem o que fazer com padrões e valores em um sentido moral. Moralidade implica na ideia de que o Estado foi feito para a sociedade: uma limitação alienante na liberdade, e uma inversão de fins e meios. Para anarquistas, os padrões e os valores são melhores compreendidos - isto é, são os mais úteis - como aproximações, atalhos, conveniências. Podem sumariar alguma sabedoria prática ganhada pela experiência social. Então novamente, podem ser os servidores das ordens da autoridade, ou formulação útil que, em outras circunstâncias, já não servem a finalidade do anarquista, ou alguma finalidade boa. 3 Falar de padrões e de valores do anarquista, então, não é necessariamente sem sentido - mas envolve riscos, riscos frequentemente deixados de lado. Em uma sociedade saturada pela cristandade e suas tradições seculares, o risco é que o tradicional uso absolutista destas palavras moralistas impregnará a maneira de como os anarquistas as usam. Você tem padrões e valores ou eles têm você? É geralmente melhor (mas, naturalmente, não necessariamente ou absolutamente melhor) para os anarquistas que evitem o vocabulário traiçoeiro do moralismo e apenas digam diretamente o que querem, porque o querem, e porque querem que todos queiram. Ou seja, pôr as cartas sobre a mesa. 4 Como padrões e valores, os "ismos" anarquistas, velhos e novos, são considerados melhor como recursos, não requisitos. Eles existem para nós, não nós para eles.

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Não importa se eu, por exemplo, possa ter encontrado mais coisas no situacionismo do que no sindicalismo, visto que um outro anarquista encontrou mais coisas no feminismo ou no marxismo ou no Islã. Onde nós já visitamos e mesmo de onde viemos é menos importante do que onde nós estamos e onde, se em qualquer lugar, nós estamos indo - ou se nós estivermos indo ao mesmo lugar. 5 O “tipo 1” se refere ao anarco-esquerdismo. O “tipo 2” se refere ao anarco-capitalismo. O “tipo 3” se refere ao meta-típica. O anarquista “tipo 3” rejeita categoricamente a categorização. Sua “existência precede sua essência” (Sartre). Para ele, nada é necessariamente necessário, e tudo é possivelmente possível. Pensa que o imediatismo é demasiado longo. “Ela voa nas asas estranhas” (Shocking Blue). A esposa de Winston Churchill queixou-se uma vez sobre sua bebedeira. Churchill respondeu que tinha dado mais foras no álcool do que o álcool tinha dado nele. O anarquista “tipo 3” dá mais foras no anarquismo do que o anarquismo nele. E tenta abandonar mais a vida do que a vida abandonar ele. Uma amável, pensativa e autoafirmativa orientação predatória tem mais aplicações práticas que a ingenuidade e a imaginação do “tipo 3” lhe sugerem. 6 Primeiramente, a rejeição dos princípios da aplicação universal tem aplicações universais. Na prática, todo indivíduo tem suas limitações, e a força das circunstâncias varia. Não há nenhuma fórmula para o sucesso, nem mesmo o reconhecimento de que não há nenhuma fórmula para o sucesso. Mas a razão e a experiência identificam determinadas áreas de previsível futilidade. É fácil e aconselhável, por exemplo, os anarquistas se absterem da política eleitoral. É preferível, mas frequentemente não é possível, se abster do

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trabalho, embora seja geralmente possível se engajar em alguma resistência anti-trabalho sem correr riscos. Crime, mercado negro, e sonegação de impostos são alternativas muitas vezes mais reais, ou então se junte à participação no sistema do estado-sancionado. Todos têm que avaliar suas próprias circunstâncias com a cabeça aberta. Faça o melhor que puder e tente não ser pego. Os anarquistas já têm mártires demais. 7 O anarquismo está em transição, e muitos anarquistas estão experimentando a ansiedade. É muito fácil advogar a mudança do mundo. A conversa é fiada. Não é fácil você mudar a pequena parcela que tem contato. As diferenças entre as tendências anarquistas tradicionais são irrelevantes porque as tendências anarquistas tradicionais são elas mesmas irrelevantes. (Para as finalidades atuais vamos negligenciar o “tipo 2”, anarquistas do livre mercado que parecem não ter nenhuma presença visível, exceto nos Estados Unidos, e mesmo lá têm pouco diálogo, e menos influência que o resto de nós.) A rede mundial, irreversível, e o longo declínio da esquerda precipitou a crise atual entre os anarquistas. 8 Os anarquistas estão tendo uma crise da identidade. São ainda, ou somente, a asa esquerda da asa esquerda? Ou são algo mais, ou mesmo alguma coisa? Os anarquistas sempre fizeram muito mais para o repouso da esquerda do que o repouso da esquerda fez para eles. Todo a dívida do anarquista à esquerda foi há muito paga completamente. Agora, finalmente, os anarquistas estão livres para serem eles mesmos. Mas a liberdade é uma briga, prospecto incerto, visto que as velhas manias, os clichês e os rituais esquerdistas, são tão confortáveis quanto um par de sapatos velhos

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(sapatos de madeira inclusive). O melhor é que, desde que a esquerda já não representa qualquer tipo da ameaça, os anarco-esquerdistas não estão em perigo quanto a repressão do estado quando recordam e reativam seus antepassados, glórias míticas. Isso é aproximadamente tão revolucionário quanto um fumante acabado, e o estado tolera ambos pela mesma razão. 9 Quão anárquico é o mundo, então? Por um lado, muito anárquico; por outro, de modo algum. É muito anárquico no sentido que, como Kropotkin argumentou, a sociedade humana, a própria vida humana, sempre depende muito mais da ação cooperativa voluntária do que de qualquer coisa às ordens do estado. Sob um severo regime estadista - a antiga União Soviética ou a cidade de Nova Iorque nos dias atuais - reger a si próprio depende de violações difusas de suas leis para permanecer no poder e manter a vida. Por outro lado, o mundo não é em todo anarquista, porque não existe população humana, qualquer que seja o lugar, que não é sujeita a algum grau de controle pelo estado. A guerra é demasiado importante para ser perdida pelos generais, e a anarquia é demasiado importante para ser perdida pelos anarquistas. Cada tática é válida, por qualquer um que tenha inclinação a fazê-la, embora erros provados - tais como votar, proibir livros (especialmente os meus), violência gratuita, e aliar-se com a esquerda autoritária - são melhor evitados. Se os anarquistas não aprenderam como revolucionar o mundo, esperançosamente aprenderam algumas maneiras de como não fazê-lo. Isto não é bastante, mas é alguma coisa. 10 Falar de prioridades é uma melhoria no discurso dos padrões e dos valores, como a palavra incendiada com os excedentes moralistas. Mas, outra vez, você tem

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prioridades, ou as prioridades têm você? 11 O auto sacrifício é contra revolucionário. Qualquer um capaz de se sacrificar por uma causa é capaz de sacrificar qualquer outra pessoa por esta mesma causa. Consequentemente, a solidariedade onde exista auto sacrifício é impossível. Você não pode confiar em um altruísta. Você nunca sabe quando ele pode cometer algum ato desastroso de benevolência. 12 “A luta contra a opressão” - que frase fina! Uma lona de circo grande o bastante para cobrir cada causa esquerdista, palhaçada de qualquer forma, e o menos relevante é a revolução da vida cotidiana, o melhor. Múmia livre! Independência para Timor Leste! Medicamentos para Cuba! Não às minas terrestres! Não aos livros sujos! Viva Chiapas! Salve as baleias! Nelson Mandela livre! – sem demora, já fizeram, agora são uma cabeça do estado, e irá a vida de todo anarquista ser sempre a mesma? Todos são bem-vindos sob o grandioso, com uma condição: que ele refreie toda e qualquer crítica de todos os outros. Você assina minha petição e eu assinarei o seu… Mantendo a imagem pública de uma luta comum contra a opressão, os esquerdistas escondem, não somente sua fragmentação real, incoerência e fraqueza, mas – paradoxalmente - o que realmente compartilha: aquiescência nos elementos essenciais do estado/sociedade de classes. Aqueles que são satisfeitos com a ilusão de comunidade são relutantes em arriscar perder suas satisfações modestas, e talvez mais, indo para as coisas reais. Todas as democracias industrializadas avançadas toleram uma oposição leal esquerdista, que é cumprida desde que os tolere.

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A Abolição do Trabalho

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Ninguém jamais deveria trabalhar!14 O trabalho é a fonte de quase todos os sofrimentos do mundo. Praticamente qualquer mal que se possa mencionar vem do trabalho ou de se viver num mundo projetado para o trabalho.

Isso não significa que precisamos parar de fazer coisas. Significa criar um novo estilo de vida baseado na brincadeira; em outras palavras, uma revolução lúdica. Com "brincadeira", quero dizer também festividade, criatividade, convívio, comensalidade e talvez até arte. Brincar é mais do que brincar como crianças, por mais que isso tenha seu valor. Eu clamo por uma aventura coletiva de alegria generalizada e exuberância livremente interdependente. Brincar não é algo passivo. Sem dúvida, precisamos de muito mais tempo do que temos agora para o ócio e a folga totais, independentemente de renda ou ocupação; mas, uma vez recuperados da exaustão causada pelo emprego, todos nós queremos agir. A vida lúdica é totalmente incompatível com a realidade existente. Pior para a "realidade", o buraco gravitacional que suga a vitalidade daquele pouco na vida que ainda a distingue da mera sobrevivência. Curiosamente - ou talvez não -, todas as velhas ideologias são conservadoras porque acreditam no trabalho. Algumas delas, como o marxismo e a maioria dos tipos de anarquismo, acreditam no trabalho ainda mais ferozmente porque acreditam em bem pouca coisa além dele.
14 Este ensaio surgiu como discurso em 1980. Uma versão revista e ampliada foi publicada como panfleto em 1985, e na primeira edição de Abolition of Work and Other Essays (Loopanics Unlimited, 1986). Ele também apareceu em muitos periódicos e antologias, entre eles traduções em francês , alemão , italiano, holandês, e esloveno.

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Os liberais dizem que devemos acabar com a discriminação nos empregos. Eu digo que temos que acabar com os empregos. Os conservadores apoiam leis de direito ao trabalho. Seguindo o genro rebelde de Karl Marx, Paul Lafargue, eu apóio o direito à preguiça. Os esquerdistas são a favor de pleno emprego. Como os surrealistas - só que eu não estou brincando -, sou a favor do pleno desemprego. Os trotskistas fazem agitação em nome da revolução permanente. Eu faço agitação em nome do deleite permanente. Mas se todos os ideólogos (como de fato eles fazem) defendem o trabalho - e não apenas porque planejam fazer com que outros trabalhem por eles -, estranhamente eles relutam em dizer isso. Falam sem parar de salários, jornadas, condições de trabalho, exploração, produtividade, rentabilidade. Falam de tudo, menos do próprio trabalho. Esses especialistas, que se oferecem para pensar por nós, raramente divulgam suas conclusões sobre o trabalho, por mais que ele tenha relevância na vida de todos nós. Entre eles, esmiúçam os detalhes. Sindicatos e patrões concordam que devemos vender o auge de nossa vida em troca de sobrevivência, embora discordem quanto ao preço. Os marxistas acham que devemos ser comandados por burocratas. Os liberais acham que devemos ser comandados por homens de negócios. Às feministas não importa qual a forma de comando, contanto que as comandantes sejam mulheres. Está claro que esses traficantes de ideologias têm diferenças sérias sobre como dividir o espólio do poder. Também está claro que nenhum deles tem objeções ao poder em si, e todos querem nos manter trabalhando. Você deve estar se perguntando se estou brincando ou falando sério. Estou brincando e falando sério. Ser lúdico não é ser ridículo. Brincadeiras não precisam ser frívolas, embora frivolidade não signifique trivialidade; muitas vezes, deveríamos levar frivolidade a sério. Eu gostaria que a vida fosse um jogo - mas um jogo de apostas elevadas. Eu quero jogar a sério.

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A alternativa ao trabalho não é apenas inatividade. Ser lúdico não é estar quaalúdico15. Por mais que eu valorize o prazer do torpor, ele nunca é mais recompensador do que quando pontua outros prazeres e passatempos. Tampouco estou promovendo a válvula de escape gerenciada e cronometrada chamada "lazer", longe disso. O lazer é o não-trabalho em nome do trabalho. O lazer é o tempo gasto se recuperando do trabalho e na frenética, porém vã, tentativa de esquecer o trabalho. Muitas pessoas voltam tão esgotadas das férias que ficam ansiosas para voltar ao trabalho e poder descansar. A principal diferença entre o trabalho e o lazer é que trabalhando pelo menos você é pago por sua alienação e exasperação. Não estou fazendo nenhum jogo retórico. Quando digo que abolir o trabalho, quero dizer exatamente isso mas quero dar meu recado definindo termos de forma não idiossincráticas. Minha definição resumida de trabalho é o trabalho forçado, ou seja, a produção compulsória. Ambos os elementos são essenciais. O trabalho é a produção garantida por meios econômicos ou políticos, pela recompensa ou pela punição (um tipo de recompensa que é apenas a punição por outros meios). Mas nem toda criação é trabalho. O trabalho jamais é um fim em si mesmo, ele é feito em prol de algum produto ou resultado que o trabalhador (ou, mais frequentemente, outra pessoa) obtém dele. É isso que o trabalho é, necessariamente. Defini-lo é desprezá-lo. Mas o trabalho, em geral, é até pior do que sua definição determina. A dinâmica da dominação intrínseca ao trabalho tende, com o tempo, a se tornar mais elaborada. Em sociedades avançadas, empesteadas pelo trabalho, aí incluídas todas as sociedades industriais, tanto as capitalistas como as "comunistas", o trabalho invariavelmente adquire outros atributos que acentuam a sua perversão.
15 Quaalude é um dos nomes comerciais da metaqualona, substância utilizada como tranquilizante, de efeito sedativo e hipnótico. Seu uso como droga era bem difundido nos anos 60 e 70.

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De maneira geral - e isso é até mais verdadeiro nos países "comunistas" do que nos capitalistas, já que naqueles o Estado é quase o único empregador e todos são empregados -, trabalho é emprego, isto é, mão-deobra assalariada, o que significa que você se vende a prestações. Portanto, 95% dos trabalhadores norteamericanos trabalham para alguém (ou algo). Em Cuba, na China ou em qualquer outro modelo alternativo que se possa citar, a cifra correspondente beira os 100%. Somente os bastiões camponeses do Terceiro Mundo México, Índia, Brasil, Turquia -, que vivem um clima constante de guerra iminente, abrigam temporariamente concentrações significativas de agricultores que perpetuam o acordo tradicional da maioria dos trabalhadores nos últimos milênios, o pagamentos de impostos (= extorsão) ao Estado, ou de aluguel a latifundiários parasitas, para que eles os deixem em paz em outras questões. Até esse acordo perverso está começando a parecer mais interessante que aqueles que temos hoje no Primeiro Mundo. Todos os trabalhadores industriais e de escritório são empregados e submetidos a um tipo de vigilância que assegura a servilidade. Mas o trabalho moderno tem implicações piores. As pessoas não só apenas trabalham, elas têm "empregos". Uma pessoa desempenha uma única tarefa produtiva o tempo todo sob a ameaça de um "ou senão..." Mesmo quando a tarefa tem algo de intrinsecamente interessante (caso cada vez mais raros nos empregos) a monotonia de sua exclusividade obrigatória drena todo o potencial lúdico. Um "emprego" que poderia mobilizar a energia de algumas pessoas, por um tempo razoavelmente limitado e apenas por prazer, torna-se um fardo para aqueles que têm que fazê-lo 40 horas por semana, sem voz ativa sobre como ele deve ser feito, para enriquecer proprietários que não contribuem em nada para o projeto, e sem oportunidade de compartilhar tarefas ou dividir o trabalho entre aqueles que realmente precisam fazê-lo. Esse é o

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verdadeiro mundo do trabalho: um mundo de incompetência burocrática, de assédio sexual e discriminação, de chefes cabeças-de-bagre explorando e fazendo de bodes expiatórios seus subordinados, os quais - por qualquer critério racional ou técnico deveriam estar dando ordens. Mas o capitalismo, na realidade, subordina a maximização racional da produtividade e do lucro às exigências do controle organizacional. A degradação que a maioria dos trabalhadores sofrem no emprego é a soma de indignidades variadas, que pode ser denominada "disciplina". Foucault faz parecer complexo esse fenômeno, mas ele é bastante simples. A disciplina consiste na totalidade dos controles totalitários no local de trabalho - vigilância, tarefas repetitivas, ritmo de trabalho imposto, cotas de produção, horário para entrar e para sair e por aí vai. A disciplina é o que a fábrica, o escritório e a loja têm em comum com a prisão, a escola e o hospital psiquiátrico. É algo historicamente original e horripilante. Estava além da capacidade de ditadores demoníacos de antigamente como Nero, Gêngis Khan e Ivã o Terrível. Mesmo com todas as suas más intenções, eles não dispunham de mecanismos para controlar seus súditos tão completamente quanto os déspotas modernos. A disciplina é o modo de controle moderno, distintamente diabólico - é uma intrusão inovadora que precisa ser contida na primeira oportunidade. Assim é o "trabalho". A brincadeira é exatamente o oposto. A brincadeira é sempre voluntária. O que poderia ser uma brincadeira se torna trabalho quando é forçado. Isso é um axioma. Bernie de Koven definiu brincadeira como a "suspensão de consequências". Isso é inaceitável se implica que a brincadeira é inconsequente. A questão não é que a brincadeira não têm consequências. isso é desvalorizar a brincadeira. A questão é que as consequências, quando existem, são

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gratuitas. Brincar e dar são ações bem próximas. São duas facetas - comportamental e transacional - do mesmo impulso: o instinto lúdico. Elas têm o mesmo desprezo aristocrático por resultados. Aquele que brinca obtém algo da brincadeira, e é por isso que brinca. Mas a recompensa central é a experiência da atividade em si (seja ela qual for). Alguns estudiosos das brincadeiras, até atentos para outros aspectos como Johan Huizinga (Homo Ludens), definem-nas como jogar, ou seguir regras. Eu respeito a erudição de Huizinga, mas rejeito enfaticamente essa limitação. Existem muitos bons jogos (xadrez, beisebol, Banco Imobiliário, bridge) que são regidos por regras, mas brincar é muito mais do que se divertir com jogos. A conversa, o sexo, a dança, as viagens - essas praticas não t6em regras, mas definitivamente são brincadeiras. E pode-se brincar com as regras tão facilmente quanto qualquer outra coisa. O trabalho ridiculariza a liberdade. A versão oficial é que todos temos direitos e vivemos numa democracia. Outros desafortunados que não são livres como nós têm que viver em Estados policiais. Tais vítimas obedecem a ordens, por mais arbitrárias que sejam, ou sofrem as consequências. As autoridades as mantêm sob vigilância regular. Burocratas do Estado controlam até os menores detalhes do dia-a-dia. Os funcionários que as oprimem respondem apenas a seus superiores públicos ou particulares. De qualquer forma, a discordância e a desobediência são punidas. Informantes relatam tudo regularmente às autoridades. Tudo isso deve ser muito ruim. E é mesmo, embora não seja nada mais do que uma descrição do local de trabalho contemporâneo. Os liberais, conservadores e libertários que se lamentam pelo totalitarismo são fingidos e hipócritas. Há mais liberdade em qualquer ditadura moderadamente "desestalinizada" do que num local de trabalho americano normal. Num escritório ou numa fábrica, encontra-se o mesmo tipo de hierarquia e disciplina que

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existe numa prisão ou num mosteiro. De fato, como Foulcault e outros demonstraram, prisões e fábricas forma criadas maios ou menos ao mesmo tempo, e seus operadores conscientemente emprestaram as técnicas de controle uns dos outros. Um trabalhador é um escravo em meio período. O chefe diz quando ele deve chegar, quando deve ir embora e o que deve fazer durante a jornada. Ele diz quanto trabalho alguém deve fazer, e com que rapidez. Tem liberdade para levar seu controle a extremos humilhantes, regulamentando, se assim desejar, o que alguém deve vestir ou com que frequência deve ir ao banheiro. Com poucas exceções, pode demitir alguém por qualquer motivo, ou sem motivo. Põe dedosduros e supervisores para espionar as pessoas e acumula um dossiê para cada empregado. Retrucar é chamado de "insubordinação", como se o trabalhador fosse uma criança malcriada, e não só leva à demissão da pessoa, como também impede que ela obtenha um segurodesemprego. Sem necessariamente endossar a prática, vale ressaltar que crianças, em casa e na escola, recebem praticamente o mesmo tratamento, justificado, no caso delas, por sua suposta imaturidade. Que argumento usar no caso de seus pais e professores que trabalham? O sistema de dominação humilhante que descrevi rege mais da metade das horas de vigília da maioria das mulheres e da grande maioria dos homens há décadas, durante a maior parte de sua vida. Para certos fins, não é muito enganador chamar nosso sistema de democracia, capitalismo ou -melhor ainda - industrialismo, mas seus verdadeiros nomes são fascismo de fábrica e oligarquia de escritório. Quem disser que essas pessoas são "livres" está mentindo ou é burro. Você é o que você faz. Se você faz um trabalho chato, idiota ou monótono. O trabalho é uma explicação muito melhor para a crescente cretinização que nos cerca do que até mesmo mecanismos claramente imbecilizadores como a televisão e a educação. Pessoas

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que são arregimentadas por toda a vida, entregues ao trabalho pela escola e delimitadas pela família no início e pelo asilo no fim, estão acostumadas à hierarquia e escravizadas psicologicamente. Sua aptidão para a autonomia está tão atrofiada que o medo da liberdade está entre suas poucas fobias embasadas racionalmente O treinamento para a obediência no trabalho contamina as famílias que elas criam, gerando assim outras formas de reprodução do sistema, e contamina igualmente a política, a cultura e tudo o mais. quando se drena a vitalidade das pessoas no trabalho, elas ficam predispostas a se submeter à hierarquia e à especialização em tudo. Estão acostumadas a isso. Estamos tão próximos ao mundo do trabalho que não conseguimos ver o que ele faz conosco. Temos que confiar em quem o vê de fora, de outras épocas e de outras culturas, para entender quão extrema e patológica é a nossa situação atual. Houve uma época, em nosso próprio passado em que a "ética do trabalho" teria sido incompreensível, e talvez Weber estivesse no rumo certo quando associou o aparecimento dessa ética em uma religião, o calvinismo, que, se tivesse surgido hoje e não há quatro séculos, teria sido imediatamente e adequadamente rotulada como seita. Seja como for, só precisamos usar a sabedoria da Antiguidade para pôr o trabalho em perspectiva. Os antigos viam o trabalho como o que ele é, e a visão deles prevaleceu, apesar dos fanáticos calvinistas, até ser deposta pelo industrialismo mas não antes de receber a aprovação de seus profetas. Vamos fingir por um momento que o trabalho não transforma as pessoas em submissos estupidificados. Vamos fingir, desafiando qualquer psicologia plausível e a ideologia de seus propagadores, que ele não tem efeito algum na formação do caráter. E vamos fingir que trabalho não é chato, cansativo e humilhante como todos de fato sabemos que é. Mesmo assim, o trabalho ainda seria um insulto a todas as aspirações humanistas e democráticas, penas porque usurpa tanto de nosso

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tempo. Sócrates dizia que trabalhadores braçais são maus amigos e maus cidadãos porque não tem tempo de cumprir as responsabilidades da amizade e da cidadania. Ele tinha razão. Por causa do trabalho, não importa o que estejamos fazendo, estamos sempre olhando para o relógio. A única coisa "livre" no chamado tempo livre é que ele é livre de custos para o chefe. O tempo livre é dedicado principalmente a se preparar para o trabalho. Tempo livre é um eufemismo para o modo peculiar como a mão-de-obra, como fator de produção, não apenas de transporta sozinha, à sua própria custa, de casa para o trabalho e do trabalho para casa, mas também assume primariamente a responsabilidade pela sua própria manutenção e conserto. O carvão e o aço não fazem isso. Tornos e máquinas de não fazem isso. Não admira que Edward G. Robinson, num de seus filmes de gângster, tenha exclamado: "Trabalho é para otário!" Tanto Platão como Xenofonte atribuem a Sócrates e, obviamente, compartilham com ele a consciência dos efeitos destrutivos do trabalho sobre o trabalhador, como cidadão e como ser humano. Heródoto identificou o desprezo pelo trabalho como um atributo dos gregos clássicos no auge de sua cultura. Para citar apenas um exemplo romano, Cícero disse que "quem troca sua força de trabalho por dinheiro se vende e se coloca na classe dos escravos". Tal franqueza é rara hoje em dia, mas as sociedades primitivas contemporâneas que gostamos tanto de menosprezar forneceram porta-vozes que iluminaram antropólogos ocidentais. Os Kapauku de Irian Ocidental16, de acordo com Pospoli, têm uma noção de equilíbrio na vida e a seguem trabalhando apenas dia sim, dia não, sendo o dia de descanso "para recobrar energia e saúde perdidas". Nossos ancestrais do século XVIII, já a meio caminho andado em direção ao dilema atual, ao menos tinham consciência do que nós esquecemos: o lado negativo da industrialização. Sua
16 Parte ocidental da Nova Guiné, que esta sob controle da Indonésia.

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devoção religiosa à "Santa Segunda" - que estabeleceu, na prática, a jornada de cinco dias entre 150 e 200 anos antes de sua consagração legal - era o desespero dos primeiros proprietários de fábricas. Eles demoraram para se submeter à tirania da campainha, a precursora do relógio de ponto. De fato, durante uma ou duas gerações, foi necessário substituir homens adultos por mulheres, acostumadas a obediência, e crianças, que podiam ser moldadas para se adequar às necessidades industriais. Até os camponeses explorados do ancien régime conseguiam arrancar uma quantidade considerável de tempo do controle dos senhores feudais. De acordo com Lafargue, um quarto do calendário dos camponeses franceses era devotado a domingos e dias santos e as cifras de Chayanov referentes a aldeias da Rússia Czarista - que não era nenhuma sociedade progressistas mostram igualmente que entre um quarto e um quinto dos dias do camponeses eram devotados ao descanso. Controlando em nome da produtividade, obviamente, ficamos muito atrás dessas sociedades retrógradas. Os Mujiques explorados se perguntariam por que ainda trabalhamos. É uma pergunta que também deveríamos nos fazer. Para entender a enormidade da nossa deterioração, todavia, considere a condição humana mais primitiva, sem governo nem propriedade, quando vagávamos como caçadores-coletores. Hobbes supunha que a vida era, naquela época, suja, brutal e curta. Outros presumem que a vida era uma luta desesperada e incessante pela subsistência, uma guerra declarada contra uma natureza impiedosa, em que a morte e a calamidade esperavam os desafortunados ou todos os que não estivessem à altura do desafio da luta pela existência. Na verdade, tudo isso era uma projeção do medo do colapso da autoridade governamental em comunidades desacostumadas a existir sem ela, como a Inglaterra de Hobbes durante a Guerra Civil. Os compatriotas de Hobbes já haviam encontrado formas

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alternativas de sociedade, que ilustravam outros estilos de vida - na América do Norte, em particular -, mas elas já estavam longe demais da experiência deles para serem compreensíveis. (As camadas mais baixas, mais próximas da condição dos índios, as entendiam melhor e muitas vezes achavam atraentes. Durante todo o século XVIII, colonizadores ingleses desertaram para viver em tribos indígenas ou, quando capturados em guerra, recusavam-se a voltar para as colônias. Já os índios desertavam para ir viver em assentamentos dos brancos com a mesma frequência com que alemães ocidentais escalavam o muro de Berlim vindos do lado ocidental.). A versão da "sobrevivência dos mais aptos" - a de Thomas Huxley - do darwinismo descrevia melhor as condições econômicas da Inglaterra vitoriana do que a seleção natural, como o anarquista Kropotkin demonstrou em seu livro Apoio Mútuo (Kropotikin era um cientista - geógrafo que havia tido uma oportunidade grande e involuntária de fazer um trabalho de campo ao ser exilado na Sibéria; ele sabia o que estava dizendo). Como na maior parte da teoria social e política, a história que Hobbes e seus sucessores contavam era, na verdade, uma autobiografia não reconhecida. O antropólogo Marshall Sahlins, pesquisando dados sobre caçadores-coletores contemporâneos, desbancou o mito hobbesiano em um artigo intitulado "The Original Affluent Society" ("Idade da Pedra, Sociedade da Abundância"). Eles trabalham muito menos do que nós, e o trabalho deles é difícil de distinguir do que nós consideramos brincadeira. Sahlins concluiu que "caçadores e extrativistas trabalham menos do que nós, e, em vez de ser uma atribulação contínua, a busca de alimento é intermitente, o lazer é abundante e há uma quantidade maior de sono diurno per capita por ano do que em qualquer outra condição de sociedade". Eles trabalhavam em média quatro horas por dia, isso se estavam mesmo "trabalhando". O "trabalho" deles, como nós o vemos, era especializado e exercitava suas

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capacidades físicas e intelectuais; o uso de mão-de-obra não-especializada em grande escala, como Sahlins diz, é impossível fora do industrialismo. Portanto, ele satisfazia a definição de brincadeira criada por Friedrich Schiller como sendo a única ocasião em que o homem realiza sua completa humanidade pondo "em jogo" ambos os lados de sua natureza bilateral, pensar e sentir. Como ele disse: "O animal trabalha quando a privação é a motivação de sua atividade e brinca quando a plenitude de sua força é essa motivação, quando a vida superabundante é seu próprio estimulo à atividade". (Uma versão moderna e dubiamente desenvolvimentista - é a contraposição de Abraham Maslow entre motivação "para deficiência" e "para crescimento".) A brincadeira e a liberdade são, em relação à produção, co-extensivas. Até Marx, que figura (por mais que tenha boas intenções) no panteão produtivo, observou que "o reino da liberdade começa apenas quando o ponto em que o trabalho, sob a compulsão da necessidade e da utilidade externa, for ultrapassado". Ele não chegou a ser capaz de identificar esta feliz circunstância, a abolição do trabalho, como o que ela é - é um tanto anormal, afinal, ser a favor dos trabalhadores e contra o trabalho. Mas nós podemos fazê-lo. A aspiração de regredir ou progredir para uma vida sem trabalho é evidente em qualquer história social ou cultural séria da Europa pré-industrial, entre elas England in Transition, de M. Dorothy George, e Cultura Popular na Idade Moderna, de Peter Burke. Pertinente, também, é o ensaio de Daniel Bell "O trabalho e Seus Descontentamentos". Foi o primeiro texto, creio eu, a se referir à "revolta contra o trabalho" com todas as letras e que, se tivesse sido entendido, teria sido uma importante correção da complacência normalmente associada ao livro no qual se encontra, O Fim da Ideologia. Nem seus críticos nem seus entusiastas notaram que a tese de Bell para o fim da ideologia não sinalizava o fim da

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turbulência social, mas o início de uma fase nova e não mapeada, não limitada e não formada pela ideologia. Foi Seymour Lipset (em O Homem Político, não Bell, quem anunciou, na mesma época, que os "problemas fundamentais da Revolução Industrial forma resolvidos", apenas alguns anos antes de que os descontamentos pós ou meta-industriais dos estudantes universitários o levassem a trocar a Universidade da Califórnia em Berkley pela relativa (e temporária) tranquilidade em Havard. Como Bell nota, mesmo com todo entusiasmo de Adam Smith pelo mercado e pela divisão de trabalho, ele mostra em A Riqueza das Nações que estava mais alerta para (e era mais honesto sobre) o lado espinhoso do trabalho do que Ayn Rand, os economistas de Chicago ou qualquer um dos imitadores baratos do próprio Smith na atualidade. Como ele observou: "O entendimento da maioria dos homens é formado necessariamente por seus empregos comuns. O homem que passa a vida desempenhando umas poucas operações simples [...] não tem ocasião de exercer o seu entendimento. [...] Em geral, ele se torna tão estúpido e ignorante quanto é possível para uma criatura humana". Aí, em poucas palavras, está a minha crítica ao trabalho. Bell, escrevendo em 1956, na Era de Ouro da imbecilidade de Eisenhower e da auto-indulgência americana, identificou o desorganizado e inarticulável mal-estar da década de 70 e das seguintes, aquele que nenhuma tendência política é capaz de dominar, aquele identificado no relatório do Departamento Americano de Saúde, Educação e Bem-Estar Social, "Work In America", aquele que não pode ser explorado e que, portanto, é ignorado. Esse problema é a revolta contra o trabalho. Ele não aparece nos textos de nenhum economista do Laissezfaire - Milton Friedman, Murray Rothbard, Richard Posner porque, nos termos deles, como se dizia em Perdidos no Espaço, "não tem registro". Se tais objeções modeladas pelo amor à liberdade,

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não convencem humanistas de visão utilitária ou até mesmo paternalista, há outras que eles não podem ignorar. O trabalho faz mal à saúde, para tomar emprestado o título de um livro. De fato, trabalho é extermínio em massa ou genocídio. Direta ou indiretamente, o trabalho vai matar as maiorias das pessoas que leem estas palavras. Entre 14 mil e 25 mil trabalhadores são mortos anualmente, neste país, no trabalho. Mais de 2 milhões ficam inválidos. Vinte a 25 milhões se ferem todo ano. E essas cifras se baseiam numa estimativa bastante conservadora do que constitui um acidente de trabalho. Portanto, ela não contabiliza o meio milhão de casos de doenças ocupacionais por ano. Eu consultei um texto médico sobre doenças ocupacionais que tinha 1.200 páginas. Ele mesmo mal arranhava a superfície. As estatísticas disponíveis contabilizam casos óbvios, como os 100 mil mineiros que contraem pneumoconiose, dos quais 4 mil morrem todo ano. O que as estatísticas não mostram é que dezenas de milhões de pessoas têm suas vidas encurtadas pelo trabalho - o que é a definição de homicídio, no fim das contas. Considere os médicos na casa dos 50 anos que se matam de trabalhar. Considere todos os outros workaholics. Mesmo que você não morra ou fique aleijado enquanto trabalha, isso pode muito bem acontecer enquanto você vai para o trabalho, volta do trabalho, procura trabalho ou tenta esquecer o trabalho. A grande maioria das vítimas dos desastres de automóvel se acidenta enquanto cumpre uma das atividades impostas pelo trabalho, ou então é morta por alguém que desempenha uma delas. A essa contagem adicional de mortos devem ser somados as vítimas da poluição da industria automobilística e do alcoolismo e da dependência de drogas induzidos pelo trabalho. Tanto o câncer como as doenças cardíacas são males modernos normalmente causados pelo, direta ou indiretamente, pelo trabalho.

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O trabalho, portanto, institucionaliza o homicídio como um meio de vida. Todos acham que os cambojanos eram loucos por se exterminarem, mas por acaso somos diferentes? O regime de Pol Pot pelo menos tinha uma visão, ainda que embaçada, de uma sociedade igualitária. Nós matávamos pessoas às centenas de milhares (no mínimo) para vender Big Macs e Cadillacs aos sobreviventes. Nossas 40 ou 50 mil fatalidades anuais nas estradas são vítimas, não mártires. Elas morreram a troco de nada - ou melhor, morreram pelo trabalho. Mas não vale a pena morrer pelo trabalho. O controle da economia pelo Estado não é a solução. O trabalho, na melhor das hipóteses, é mais perigoso nos países socialistas do que aqui. Milhares de trabalhadores russos foram mortos ou feridos construindo o metrô de moscou. Chernobyl e outros desastres nucleares acobertados até recentemente fazem Times Beach17 e Three mile island18 - mas não Bhopal19 parecerem um treinamento antiaéreo numa escola primária. Por outro lado, a desregulamentação da economia, atualmente na moda, não vai ajudar e provavelmente vai atrapalhar. Do ponto de vista da saúde a da segurança, entre outros, o trabalho teve seu pior momento nos dias em que a economia se aproximava mais do laissez-faire. Historiadores como Eugene Genovese argumentavam de forma convincente que - como os defensores do escravagismo insistiam na Pré-Secessão - operários assalariados nos estados americanos do Norte e na Europa viviam pior do que os escravos nas fazendas do Sul. Nenhuma reconfiguração
17 Cidade nos EUA que foi contaminada por dioxina, uma substância tóxica, durante os anos 70, e teve que ser completamente evacuada em 1982 18 Outra cidade norte-americana, sede de uma usina que sofreu um princípio de acidente nuclear em 1979. 19 Cidade da Índia, que em dezembro de 1984, foi contaminada por 40 toneladas de gazes tóxicos, devido a um vazamento na fábrica de agrotóxicos norte-americana Union Carbide Corporation. O episódio, que matou quase 30 mil pessoas e feriu meio milhão , é considerado o pior acidente industrial da história.

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das relações com a entrada em cena de burocratas e homens de negócios parece fazer muita diferença no momento da produção. A implementação séria até padrões um tanto vagos, que a Administração Americana de Segurança e Saúde Ocupacionais teoricamente poderia pôr em vigor, provavelmente levaria a economia a um impasse. Os agentes da lei, aparentemente, têm consciência disso, já que nem tentam flagrar a maioria dos malfeitores. O que eu disse até agora não deveria causar controvérsias. Muitos trabalhadores estão fartos do trabalho. Há índices altos e crescentes de faltas, rotatividade, furtos e sabotagens, greves anárquicas e corpo mole em geral no trabalho. Pode algum movimento rumo a uma consciente, e não apenas visceral, rejeição do trabalho. E, no entanto, a sensação que prevalece, universal entre chefes e seus agentes e também difundida entre os próprios trabalhadores, é que o trabalho é inevitável e necessário. Eu discordo. Agora é possível abolir o trabalho e substituí-lo, nos casos em que ele tem finalidades úteis, por uma variedade de novos tipos de atividades livres. Abolir o trabalho requer atacá-lo em duas frentes, a quantitativa e a qualitativa. Por um lado, o lado quantitativo, precisamos cortar de forma maciça a quantidade de trabalho que está sendo feito. Atualmente, a maior parte do trabalho é inútil ou coisa pior, e deveríamos simplesmente acabar com ela. Por outro lado - e acho que essa é a parte crucial e a novidade revolucionária -, precisamos pegar o trabalho que permanece útil e transformá-lo em uma variedade de passatempos lúdicos e artesanais, indistinguíveis de outros passatempos prazerosos exceto pelo fato de que resultam em produtos finais úteis. Certamente isso não os deveria tornar menos atraentes. Aí, todas as barreiras artificiais do poder e da propriedade poderiam cair. A criação poderia tornar recreação. E todos poderíamos parar de sentir medo um dos outros.

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Não estou sugerindo que a maior parte do trabalho possa ser salva dessa forma. Mas, também, a maior parte do trabalho nem vale o esforço. Somente uma pequena e cada vez menor fração do trabalho tem qualquer propósito útil, independentemente da defesa e da reprodução do sistema trabalhista e de seus apêndices políticos legais. Trinta anos atrás, Paul e Percival Goodman estimavam que apenas 5% do trabalho então realizado - presume-se que essa cifra, se estava certa, deva ser mais baixa agora - satisfaria nossas necessidades mínimas de alimentos, vestimenta e moradia. Era apenas uma estimativa ponderada, mas o argumento centra é bem claro: direta ou indiretamente, a maior parte do trabalho atende aos propósitos improdutivos do comércio e do controle social. De cara, já podemos libertar dezenas de milhões de vendedores, soldados, gerentes, policiais, corretores de ações, sacerdotes, advogados, professores, senhorios, seguranças, publicitários e todos que trabalham para eles. Há um efeito bola de neve, já que, toda vez que se põe algum figurão para descansar, seus lacaios e subalternos também são libertados. Assim, a economia implode. Quarenta por cento da força de trabalho é formada por trabalhadores de colarinho branco, a maioria dos quais tem alguns dos empregos mais tediosos e idiotas que já foram criados. Ramos inteiros, como o securitário, o bancário e o imobiliário, por exemplo, consistem em nada mais do que o gerenciamento da papelada inútil. Não é por acaso que o "setor terciário", o de serviços, está crescendo, enquanto o "setor secundário" (a indústria) está estagnado, e o "setor primário" (a agricultura) quase desaparece. Como o trabalho só é necessário àqueles cujo poder ele garante, trabalhadores são transferidos de ocupações relativamente úteis para outras relativamente inúteis, como medida para garantir a ordem pública. Qualquer coisa é melhor do que nada. Por isso você não pode ir para casa só porque terminou o

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serviço mais cedo. Eles querem o seu tempo em medida suficiente para se apoderar de você, mesmo quando não têm necessidade da maior parte dele. Senão, por que a jornada semanal média não diminuiu mais do que alguns minutos nos últimos 60 anos? A seguir, podemos passar o facão na produção propriamente dita. Chega de indústria bélica, energia nuclear, junk food, desodorante íntimo feminino - e, sobretudo, chega de indústria automotiva. Um Stanley Steamer ou um modelo T20 ocasionais são até aceitáveis, mas o auto-erotismo do qual dependem pocilgas como Detroit e Los Angeles está fora de cogitação. De cara, sem nenhum esforço, virtualmente resolvemos a crise de energia, a crise ambiental e outros variados problemas ambientais insolúveis. Finalmente, precisamos acabar com aquela que é de longe a ocupação com mais funcionários, com a jornada mais longa, o salário mais baixo e algumas das tarefas mais tediosas que existem. Refiro-me às donas de casa que fazem o trabalho doméstico e criam filhos. Abolindo o trabalho assalariado e alcançando o pleno desemprego, sabotamos a divisão sexual do trabalho. O núcleo familiar que conhecemos é uma adaptação inevitável à divisão do trabalho imposta pelo trabalho assalariado moderno. Gostando ou não, do jeito que as coisas estiveram nos últimos 100 ou 200 anos era racional, do ponto de vista econômico, que o homem sustentasse a família, que a mulher de matasse no fogão e no tanque e proporcionasse ao marido um porto seguro num mundo desalmado. Também fazia sentido que as crianças marchassem para os campos de concentração juvenis chamados "escolas", sobretudo para saírem da barra da saia da mamãe - mas de forma que ainda fossem mantidas sob controle - e, de forma secundária, também para que adquirissem os hábitos de obediência
20 Automóveis do início do século XX. O Stanley Steamer foi um dos últimos modelos movidos a vapor e o Modelo T foi o primeiro automóvel produzido em série por John Ford.

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e pontualidade tão necessários aos trabalhadores. Se quiser se livrar do patriarcado, livre-se do núcleo familiar, cujo "trabalho invisível"21 não-remunerado, como diz Ivan Illich, possibilita o sistema de trabalho que torna a família necessária. Ligadas a essa estratégia antinuclear estão a abolição da infância e o fechamento das escolas. Há mais estudantes em período integral do que trabalhadores em período integral neste país. Precisamos das crianças como professoras, não como alunas. Elas têm muito a contribuir para a revolução lúdica porque sabem brincar melhor do que os adultos. Adultos e crianças não são idênticos, mas vão se tornar iguais por meio da interdependência. Somente a brincadeira pode acabar com o conflito de gerações. Eu ainda nem mencionei a possibilidade de diminuir bastante o pouco trabalho que resta automatizando-o e tornando-o cibernético. Todos os cientistas, engenheiros e técnicos libertados das preocupações com a pesquisa bélica e a obsolência programada vão se divertir pensando em meios para eliminar a fadiga, o tédio e o perigo de atividades como mineração. Sem dúvida, eles encontraram outros projetos para ocupar seu tempo. Talvez montem um sistema mundial realmente inclusivo de comunicação multimídia ou fundem colônias espaciais. Talvez. Pessoalmente, não sou louco por bugigangas. Eu não gostaria de viver em um paraíso de botões. Não quero robôs escravos que façam tudo; quero eu mesmo fazer as coisas. Existe, penso eu, lugar para uma tecnologia que economize trabalho, mas um lugar modesto. Os antecedentes históricos e pré-históricos não são muito animadores. Quando a tecnologia produtiva passou da caça e do extrativismo para a agricultura e depois para a indústria, o trabalho aumentou, enquanto as habilidades e a autodeterminação diminuíram . A evolução ulterior do industrialismo acentuou o que Harry
21 "Shadow Work", no original. Título de um livro de Ivan Illich, de 1981.

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Braverman chamou de degradação do trabalho. Observadores inteligentes sempre tiveram consciência disso. John Stuart Mill escreveu que todas as invenções para poupar trabalho já criadas nunca pouparam um único momento de trabalho. Karl Marx escreveu que "seria possível escrever uma história das invenções, surgidas desde 1830, com a finalidade exclusiva de fornecer ao capital armas contra a revolta da classe trabalhadora". Os técnofilos entusiastas - Saint-Simon, Conte, Lênin, B. F. Skinner - sempre foram também autoritários desavergonhados, ou seja, tecnocratas. Deveríamos ser mais do que céticos em relação às promessas dos místicos do computador. Eles trabalham feitos burros de carga; provavelmente, se lhes dermos poder, trabalharemos como eles. Porém, se eles tivessem quaisquer contribuições particulares mais prontamente subordinadas aos propósitos humanos do que à corrida tecnológica, Vamos ouvi-los. O que eu realmente quero ver é o trabalho virar brincadeira. Um primeiro passo é descartar as noções de "emprego" e "ocupação". Até atividades que já têm algum conteúdo lúdico perdem a maior parte dele ao serem reduzidas a empregos que certas pessoas, e somente aquelas pessoas, são forçadas a fazer, excluindo todo o resto. Não é estranho que trabalhadores agrícolas labutem dolorosamente nos campos, enquanto seus patrões saem do ar condicionados de seus escritórios todo fim de semana para fuçar nos jardins de suas casas? Num sistema de deleite permanente, vamos testemunhar uma Era de Ouro do diletantismo que vai pôr o Renascimento no chinelo. Não haverá mais empregos, apenas coisas a serem feitas e pessoas para fazê-las. O segredo de transformar o trabalho em brincadeira, como Charles Fourier demonstrou, é agendar as atividades úteis para tirar vantagens das coisas que várias pessoas, em vários momentos, de fato gostam de fazer. Para que seja possível que algumas pessoas façam coisas de que poderiam gostar, será suficiente erradicar

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as irracionalidades e distorções que sobrecarregam tais atividades quando elas são reduzidas a trabalho. Eu, por exemplo, gostaria de dar algumas ( não muitas) aulas, mas não quer o estudantes forçados e não estou afim de bajular pedantes patéticos por uma cadeira. Segundo, há coisas que as pessoas gostam de fazer de vez em quando, mas não por muito tempo, e certamente não tempo todo. Você pode até gostar de cuidar de crianças por algum tempo para curtir a companhia delas, mas não tanto tempo quanto os pais. Os pais, por sua vez, ficariam profundamente gratos pelo tempo livre que você lhes proporcionaria, embora possam ficar nervosos se passarem tempo demais longe de seus rebentos. Essas diferenças entre indivíduos são o que torna uma vida de brincadeiras livres. O mesmo princípio se aplica a muitas outras áreas de atividade, especialmente as mais primitivas. Assim, muita gente gosta de cozinhar quando pode fazer isso a sério e a seu bel-prazer, mas não quando está apenas abastecendo corpos humanos para o trabalho. Terceiro - se tudo o mais estiver de acordo - certas coisas que são insatisfatórias se você as faz sozinho, em ambientes desagradáveis, ou sob o comando de um superior, são prazerosas, ao menos por algum tempo, quando tais circunstâncias mudam. Isso provavelmente se aplica, em alguma medida, a qualquer trabalho. As pessoas usam sua genialidade tão desperdiçada para transformar em jogo as tarefas menos convidativas da melhor forma que podem. Atividades que atraem alguns nem sempre atraem todos os outros, mas todos, ao menos potencialmente, têm uma variedade de interesses e um interesse pela variedade. Como diz o ditado, "tudo pelo menos uma vez". Fourier era mestre em especular sobre como pendores aberrantes e perversos poderiam se tornar úteis em sociedades pós-civilizadas, no que ele chamava de Harmonia. Ele achava que o ditador Nero teria sido um bom sujeito se, quando criança, pudesse ter extravasado seu gosto pela carnificina trabalhando num

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abatedouro. Crianças que notoriamente adoram rolar na sujeira poderiam ser organizados em "pequenas hordas" para limpar banheiros e esvaziar o lixo, com medalhas para quem se destacasse. não estou defendendo exatamente esses exemplos, mas o princípio subjacente, que para mim faz todo o sentido como dimensão de uma transformação revolucionária geral. Tenha em mente que não precisamos pegar o trabalho que existe hoje, tal como é, e associá-lo às pessoas adequadas, algumas das quais teriam que ser de fato perversas. Se a tecnologia tem um papel em tudo isso, é menos o de automatizar o trabalho até fazê-lo desaparecer e mais o de abrir novos campos para "recriação". Até certo ponto, podemos querer retroceder ao artesanato, o que Willliam Morris considera um provável de desejável efeito da revolução comunista. A arte seria tirada das mão dos esnobes e colecionadores, abolida como departamento especializado que atende a um público de elite, e suas qualidades de beleza e criação seriam devolvidas à vida integral, da qual foram roubadas pelo trabalho. É esclarecedor pensar que as urnas gregas que inspiram odes e que exibimos em museus foram usadas, em sua época, para armazenar óleo de oliva. Duvido que nossos artefatos do dia-a-dia se saiam tão bem no futuro, se ele chegar a existir. A questão é que não existe progresso no mundo do trabalho; na verdade é o contrário. Não deveríamos hesitar em furtar o passado no que ele tem a oferecer: os antigos nada perdem, e nós enriquecemos. A reinvenção do cotidiano significa marchar para além dos limites dos nossos mapas. Existe, é verdade, mais especulação sugestiva do que a maioria imagina. Além de Fourier e Morris - e até sugestões , aqui e ali, em Marx - há os textos de Kropotkin, dos sindicalistas Pataud e Pouget, dos velhos (berkman) e novos (Bookchin) anarco-comunistas. Communitas, dos irmãos Goodman, é exemplar para ilustrar as formas que decorrem de funções específicas (propósitos), e há algo a ser

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aproveitado nos arautos muitas vezes nebulosos da tecnologia alternativa/adequada/intermediária/de convívio, como Schumacher, e especialmente Illich, depois que desligamos suas maquinas de fazer fumaça. Os situacionistas - representados em A Arte de Viver Para as Novas Gerações de Vaneigem, e na Internacional Situacionista - Antologia - são tão impiedosamente lúcidos que chegam a entusiasmar, embora nunca tenham condicionado o apoio às regras dos conselhos de trabalhadores e à abolição do trabalho. Melhor a incongruência deles, entretanto, do que qualquer versão existente de esquerdismo, cujos devotos pretendem ser os últimos campeões do trabalho, já que sem trabalho não haveria trabalhadores, e, sem trabalhadores, quem restaria para a esquerda se organizar? Portanto, os abolicionistas estarão praticamente por conta própria. Ninguém pode dizer no que resultará liberar a energia criativa embotada pelo trabalho. Tudo pode acontecer. O cansativo problema do debate entre liberdade e necessidade, com suas nuances teológicas, se resolve na prática quando a produção de valores de uso é coextensiva à fruição de atividades lúdicas deliciosas. A vida se tornará um jogo, ou melhor, muitos jogos, mas não um jogo sem resultados como é agora. Um encontro sexual bem-sucedido é o paradigma da atividade produtiva. Os participantes potencializam os prazeres um do outro, ninguém faz pontos e todos ganham. Quanto mais você dá, mais você recebe. Na vida lúdica, o melhor do sexo vai se diluir na melhor parte do cotidiano. A brincadeira generalizada leva à libidinização da vida . O sexo, por sua vez, poderá se tornar menos urgente e desesperado, e mais lúdico. Se jogarmos as cartas certas, todos poderemos obter mais da vida do que colocamos nela; mas só se jogarmos a sério. Trabalhadores do mundo... relaxem!

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Bob Black Sobre o Autor: "Bob Black é um sátiro anarquista, corrosivo e subversivo como esta mistura pode ser... Seu humor visionário provocativo tem a ferocidade e o tempero de um Mark Twain ou um Ambrose Bierce." - Booklist "Uma corda esticada sobre o abismo entre Friedrich Nietzsche e Sid Vicious." - David Ramsey-Steele "Black supera qualquer ensaísta politico vivo... o trocadilho mais rápido do Oeste." - Hakim Bey Bob Black rejeitou desde o início os caminhos habituais à 'intelectualidade séria'. Ao invés disso, tornou-se famoso pelos cartazes anarquistas/situacionistas/absurdistas que criou à frente da "Última Internacional", entre 1977 e 1983. Publicou a Abolição do Trabalho e Outros Ensaios (1985), Fogo Amigo (1992), Abaixo do Subterrâneo (1994) e Anarquia Depois do Esquerdismo (1996) sendo um dos pioneiros da divulgação do situacionismo e da crítica a esquerda cizuda nos Estados Unidos. Sua capacidade singular de criar jogos de palavras, aliada ao humor ácido e ao conhecimento teórico faz dele um dos grandes nomes do anarquismo heterodoxo da atualidade.22
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retirados do site Protopia (http://pt-br.protopia.wikia.com). Agradecemos aos tradutores e alimentadores do site.

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