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cangar seu nivel tematico. Se um leitor ingénuo, ao ler o primeiro tex- to apresentado no inicio desta ligio, permanecesse apenas no nivel fi- gurativo, poderia dizer que o texto ndo passa de uma grosseira menti- ra, pois os asnos nao tém indecisées. Um leitor mais avisado, porém, procuraria logo um significado mais amplo para o texto, que fosse além desses fatos concretos e mentirosos. Um texto figurative sempre joga com dados concretos para, por meio deles, revelar significados mais abstratos. Na préxima ligdo, veremos como se faz para achar um tema de um texto figurativo. TEXTO COMENTADO O cururu Tudo quieto, o primeiro cururu surgiu na margem, molhado, relu- zente na semi-escuridao. Engoliu um mosquito; baixou a cabegor- ra; tragou um cascudinho; mergulhou de novo, e bum-bum! Soou uma nota soturna do concerto interrompido. Em poucos instantes, 5 o barreiro ficou sonoro, como um convento de frades. Vozes rou- cas, foi-ndo-foi, tas-tas, bum-buns, choros, esgiielamentos finos de rs, acompanhamentos profundos de sapos, respondeiam-se. Os bi- chos apareciam, mergulhavam, arrastavam-se nas margens, abriam grandes circulos na flor d'agua. (...) Dai a pouco, da bruta escuri- 10 do. surgiram dois olhos luminosos, fosforescentes, como dois va- galumes. Um sapo cururu grelou-os e ficou deslumbrado, com os olhos esbugalhados, presos naquela boniteza luminosa. Os dois olhos fosforescentes se aproximavam mais e mais, como dois pequenos ho- lofotes na cabeca triangular da serpente. 0 sapo ndo se movia, fas- 15 cinado. Sem duvida queria fugir; previa o perigo, porque emudece- ra; mas ja nao podia andar, imobilizado; os olhos feiissimos, agarra- dos aos olhos luminosos e bonitos como um pecado. Num bote a ca- bega triangular abocanhou a boca imunda do batraquio. Ele nao po- dia fugir Aquele beijo. A boca fina do réptil arreganhou-se desme- 20 suradamente; envolveu o sapo até os olhos. Ele se baixava décil en- tregando-se a morte tentadora, apenas agitando docemente as pa- tas sem provocar nenhuma reagdo ao sacrificio. A barriga disforme e negra desapareceu na goela dilatada da cobra. E, num minuto, as perninhas do cururu [a se foram, ainda vivas, para as entranhas fa- 25 mélicas. 0 coro imenso continuava sem dar fé do que acontecia a um dos seus cantores. LIMA. Jorge de. Calunga; 0 anjo. 3. ed. Rio de Janeiro, Agir, 1959. p. 160-1 iz