Superior Tribunal de Justiça

HABEAS CORPUS Nº 419.367 - MT (2017/0258402-8)

RELATOR : MINISTRO RIBEIRO DANTAS
IMPETRANTE : PEDRO CORREA PERTENCE E OUTROS
ADVOGADOS : CLAUDIO DEMCZUK DE ALENCAR - DF024725
PEDRO CORREA PERTENCE - DF033919
MARINA ANTUNES LIMA - DF055700
IMPETRADO : TRIBUNAL DE JUSTIÇA DO ESTADO DE MATO GROSSO
PACIENTE : PAULO CESAR ZAMAR TAQUES (PRESO)

DECISÃO

Trata-se de habeas corpus , com pedido de liminar, impetrado em benefício de
PAULO CESAR ZAMAR TAQUES contra decisão de Desembargador do Tribunal de
Justiça do Estado do Mato Grosso, que decretou sua prisão cautelar nos autos do Inquérito n.
87.132/2017, pela suposto cometimento dos delitos tipificados nos arts. 2º e § 1º, ambos da
Lei n. 12.850/2013 e 344 do Código Penal.
Segundo se infere dos autos, referida peça investigativa busca apurar a
existência de organização criminosa voltada à prática de diversas interceptações telefônicas
ilegais, na modalidade "barriga de aluguel", com fins políticos e pessoais, bem como de delito
de coação exercida contra servidor público militar.
Os impetrantes alegam manifesto constrangimento ilegal imposto ao paciente,
pois o decreto de prisão impugnado neste habeas corpus contraria, sem a ocorrência de fato
novo e fundamento jurídico, decisão proferida pelo Ministro Reynaldo Fonseca no HC
410.767/MT, a mim redistribuída por prevenção, que deferiu-lhe a substituição da custódia
provisória por medidas cautelares alternativas. Afirmam que o ato reprochado busca
represtinar a prisão preventiva revogada por esta instância superior, sem ouvir o Ministério
Público e fundada em inferências, "ainda na fase pré-processual, da existência de uma
organização criminosa, muito embora admita não ser possível indicar o papel e as condutas
específicas de cada um dos integrantes do suposto esquema". Sustentam que a determinação
de recolhimento do paciente decorre de mera suposição de ter sido beneficiado do suposto
esquema criminoso de finalidade incerta. Ressaltam que a única mudança de cenário é "o
depoimento colhido de um oficial da Polícia Militar, escrivão do respectivo inquérito
policial-militar, que diz ter sido persuadido pela esposa de outro oficial envolvido na
investigação a gravar ou filmar a autoridade coatora em atitudes suspeitas ou que revelassem
sua parcialidade". Destacam, por fim, que o decreto constritivo não atribuiu ao paciente
conduta concreta alguma que demonstre ter ele continuado a delinquir após ser solto por
ordem desta Corte, mas apenas ilação incoerente de que somente ele conhecia os segredos
constrangedores utilizados para coagir o escrivão.
Requer, em liminar, a concessão da ordem para suspender a decisão atacada,
revogando-se a prisão preventiva do paciente e mantendo-se vigentes as cautelares diversas
fixadas pela decisão desse Superior Tribunal de Justiça.
É o relatório.
Decido.
A concessão de liminar em habeas corpus constitui medida excepcional, uma
vez que somente pode ser deferida quando demonstrada, de modo claro e indiscutível,
ilegalidade no ato judicial impugnado.
Na espécie, sem qualquer adiantamento do mérito da demanda, não vislumbro,
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ao menos neste instante, a presença de pressuposto autorizativo da concessão da tutela de
urgência pretendida.
Conforme relatado, a autoridade policial formulou nova representação pela
prisão preventiva do paciente e de outros averiguados, diante do surgimento do depoimento
prestado pelo escrivão do inquérito policial militar respectivo, dando conta de que ele teria
sido coagido, por integrantes do grupo criminoso, a não ter revelada sua dependência
química e a prática de atividade empresarial incompatível com o cargo militar, desde
que monitorasse a autoridade coatora e as investigações em andamento. Em um segundo
momento, consta que o referido depoente foi subornado, mediante a promessa de promoção
na carreira militar, para permanecer no cometimento do ilícito.
Ao decretar a custódia provisória, o Desembargador Relator dispensou a prévia
manifestação da acusação, por entender ser imprescindível o sigilo total e absoluto das
diligências, haja vista as informações sobre o possível envolvimento de alguns membros do
Ministério Público estadual na organização criminosa. Foi considerada, ainda, a necessidade
de se garantir a integridade física e moral da testemunha Ten. Cel. José Henrique Costa
Soares – depoente – e seu filho, alegadamente ameaçados por membros do grupo criminoso.
Por fim, destacou o teor do disposto no art. 311 do Código de Processo Penal acerca da
possibilidade de, em qualquer fase da investigação policial ou do processo penal, ser
decretada, de ofício, a prisão cautelar.
Os indícios de participação do paciente, em tese, na organização criminosa
responsável pelas escutas clandestinas, supostamente datam da criação do "Núcleo de
Inteligência" da Polícia Militar, em meados de setembro de 2014, como assim disposto no ato
constritivo:

"O primeiro deles, o que podemos considerar a mola propulsora de todas as
investigações deflagradas [investigação matriz], diz respeito aos fatos
ocorridos na Comarca de Cáceres, com a inclusão de pessoas estranhas a
investigação, introduzidas como se criminosas fossem, para o fim de se
quebrar sigilos telefônicos de forma oculta.
Esta situação veio à tona após veiculação de matéria jornalística em rede
nacional, em 14/5/2017, cujos grampos, ao que tudo indica, eram praticados
por meio do simulado Núcleo de Inteligência da Polícia Militar do Estado
do Mato Grosso.
Também podemos mencionar aqui a situação ocorrida durante as eleições de
2016, no município de Lucas do Rio Verde, onde, igualmente, há notícia da
prática do crime de interceptação telefônica clandestina, que também está
sob apuração em procedimento investigatório próprio [Inquérito Policial n.
87.131/2017].
Há, ainda, segundo notícia-crime apresentada pela OAB/MT, possível
quebra de sigilo telefônico, na modalidade "barriga de aluguel', ocorrida na
'Operação Ouro de Tolo', processo código 414652, onde foi incluído o
terminal pertencente ao ex-governador Silval Barbosa, mesmo ele não sendo
investigado naqueles autos Inquérito Policial n. 71.814/2017).
Por derradeiro, citamos a prática do crime de interceptação telefônica, com
objetivos não autorizados em lei por parte do representado Paulo Taques,
nas operações 'Forti' e 'Querubim' onde teria exigido o grampo do telefone
de sua ex-amante e de sua ex secretária, apurado no Inquérito n.
78323/2017.
Vamos consignar aqui apenas estes quatro fatos concretos, sem descurar os
demais que estão em andamento e outros possíveis que hão de ser
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descortinados ao longo das investigações.
O primeiro fato concreto, verificado na Comarca de Cáceres, foi praticado
mediante apresentação de relatório pelo espúrio Núcleo de Inteligência da
Polícia Militar do listado de Mato Grosso, aparentemente criado pelo Cel.
PM Zaqueu Barbosa, cujo principal operador era o Cb. PM Gerson Luiz
Ferreira Corrêa Junior, contando com a participação incisiva do
ex-Secretário-Chefe da Casa Militar, Cel. PM Evandro Alexandre Ferraz
Lesco e de seu Adjunto Cel. PM Ronelson Jorge de Burros, além do Cel.
PM Airton Benedito de Siqueira Júnior, como se viu alhures.
No atinente ao segundo fato, há indícios de participação do Cel. PM Airton
Benedito Siqueira Júnior, atual Secretário de listado de Justiça e Direitos
Humanos, bem como há noticias de envolvimento direto do escritório de
advocacia de Paulo César Zamar Taques, ainda que este insista em afirmar
que na verdade figura como vitima de trama criminosa.
Quanto no terceiro fato, conquanto acontecido nas barbas do GAECO, o
relatório de inteligência que subsidiou a inclusão de terminal telefônico do
ex-governador Silval Barbosa - em procedimento criminal em que não
figurava como investigado -, foi subscrito pelo Cb. PM Gerson Luiz Ferreira
Correu Júnior, ou seja, o mesmo operador do ilegítimo Núcleo de
Inteligência, responsável pela escuta ilegal da ex-amante do então
Secretário-Chefe da Casa Civil, Paulo Taques, nas interceptações levadas a
efeito no juízo criminal de Cáceres.
Alias, convém pontuai que o Cb. PM Gerson se apresenta como uma das
figuras centrais de quase todos os crimes em apuração, especialmente
aqueles ligados as escutas telefônicas clandestinas.
Ele foi o vaso comunicante entre muitos dos crimes em apuração, visto ter
sido o operador principal dos sistemas Wytron e Sentinela usado pelo
Núcleo de Inteligência — bijuteria criada pela organização para
cometimento de crimes.
Por fim, o próprio Paulo Taques, apresentando uma 'história cobertura',
praticamente exigiu das autoridades responsáveis pela segurança pública do
Estado a interceptação telefônica de sua ex-amante e de sua ex secretária,
situação essa apurada no Inquérito n. 78.323/2017.
Outro acontecimento que evidencia, de modo irretorquível, o elo entre Paulo
Taques e a organização criminosa que se instalou no seio da cúpula da
Policia Militar de Mato Grosso, diz respeito ao fato de que, nas eleições
estaduais de 2014, o Núcleo de Inteligência da Polícia Militar, espuriamente
formado, efetuou a escuta, dentre outros, de dois advogados.
Os alvos em questão foram os causídicos José Antônio Rosa e José
Patrocínio de Brito Júnior.
O detalhe de suma relevância é que ambos, assim como Paulo Taques,
atuaram na campanha eleitoral de 2014, patrocinando, contudo, candidatos
adversários do atual Governador do Estado, Pedro Taques.
José Antônio Rosa era advogado da candidata Janete Riva, e José Patrocínio
de Lúcio Cabral, enquanto Paulo Taques representava os interesses de Pedro
Taques, principais candidatos ao Governo do Estado de Mato Grosso.
Ocorre que, por meio do inventado Núcleo de Inteligência, na operação
policial realizada na Comarca de Cáceres, a partir da qual foi produzida a
matéria jornalística que ensejou a instauração de todas as investigações
atinentes aos grampos ilegais, os dois advogados, que trabalhavam para
candidatos adversários ao defendido por Paulo Taques, foram grampeados.
Dentre os principais candidatos ao Governo, a única banca que não leve

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advogado grampeado foi justamente a do Paulo Taques.
Ademais, não podemos olvidar, ainda, que o nome da Deputada Estadual
Janaína Riva, filha da então candidata ao Governo do Estado, Janete Riva, e
opositora declarada do grupo ligado ao atual Chefe do Poder Executivo
Estadual, também foi alvo de interceptação telefônica clandestina realizada
na comarca de Cáceres.
[....]
O registro desses fatos, feitos ad colorandum [porque já expostos em
decisão anterior que decretou a prisão do investigado Paulo César Tamar
Taques] prestam a confirmar que, inicialmente, a trama delituosa sempre
girava em torno de alguns nomes: Paulo Cesar Zamar Taques, Cel. Zaqueu,
Cel. Lesco, Cel. Barros e o Cb. Gerson.
Entrementes, com o depoimento do Ten. Cel. José Henrique Costa Soares,
desvelou-se novos participantes do grupo criminoso: o Delegado Rogers
Elizandro Jarbas, o Major Michel Ferronato e o Sgt. Soler, dentre outros,
como se verá a frente.
Não há base empírica, até este momento, para afirmar, com segurança, a
individualizarão da conduta [e seus lugares na hierarquia] dos principais
integrantes da possível organização criminosa que se instalou no coração do
Governo do listado de Mato Grosso, nem as suas finalidades principais,
visto que as interceptações telefônicas clandestinas, certamente, era meio
para a prática de outros crimes."

Na decisão impugnada, a prisão cautelar está fundada na garantia da ordem
pública e da instrução criminal, conforme se pode ver do trecho a seguir transcrito:

"De fato, a partir dos depoimentos prestados pelo Policial Militar, Ten-Cel.
PM José Henrique Costa Soares, em 16, 18 e 22/9/17, descortinou-se um
sórdido e inescrupuloso plano no intuito não apenas de interferir nas
investigações policiais, mas, principalmente, de macular minha reputação
em todos os inquéritos instaurados para se investigar os crimes de
interceptação telefônica, com o nítido propósito de me afastar da condução
dos respectivos feitos.
E o mais lamentável, para não se dizer repugnante, é que para colocar em
prática o ardiloso projeto, o grupo criminoso contou não apenas com a
participação de seus integrantes já revelados, mas, também, de outras
pessoas, dentre elas, advogado, esposa de investigado em prisão domiciliar,
policiais militares e, segundo eles próprios, até mesmo de promotor de
justiça, que teria aderido ao pérfido e maquiavélico plano.
Faço questão de registrar, aqui, excertos do depoimento prestado pelo
Ten-Cel. José Henrique Costa Soares, até então Escrivão do Inquérito
Policial Militar n. 66673/2017, prestado em 16/19/2017 aos delegados Ana
Cristina Feldner e Flávio Henrique Stringuetta:
'DECLAROU QUE após assumir o cargo de escrivão para atuar no Inquérito
Policia Militar foi procurado pelo advogado do CEL. LESCO e do CB.
GERSON, DR. MARCIANO, na Corregedoria da Policia Militar, e disse que
a esposa do CEL LESCO, HELEN gostaria de falar com o depoente em
razão de já ter informações a respeito do depoente e que a SECRETARIA
DE SEGURANÇA PÚBLICA já teria essas informações [...]
[...] Prossegue o Ten. Cel Soares na sua inquirição extrajudicial:
'Que isso aconteceu na primeira semana une assumiu as funções de escrivão,
QUE então o depoente ligou para HELEN, via WhatsApp, no mesmo dia, e
já combinaram de encontrar no POSTO DE GASOLINA BOM CLIMA,
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QUE o
encontro ocorreu, salvo engano, no dia seguinte; QUE o depoente esclarece
que conhece o CEL. LESCO por serem da mesmo turma, porém não tinha
amizade com HELEN; QUE neste contato já desconfiou que o assunto fosse
relacionado a sua atuação no Inquérito Policial Militar; QUE encontraram no
POSTO BOM CLIMA, sendo que o depoente foi em seu veiculo (Cross Fox
branco, e HELEN em um veiculo tipo SUV; QUE ao estacionarem no pátio o
depoente entrou no veiculo da HELEN; QUE então o depoente foi bastante
receptivo, dizendo que estaria disposto a ajudar, porém precisava saber o que
ela tinha contra o mesmo; QUE então ela disse que a SECRETARIA DE
SEGURANÇA PÚBLICA tinha posse de interceptações e vídeos dos quais
revelam sua dependência química; QUE também mencionou que haveria
outras situações supostamente criminosas, das quais PAULO TAQUES tinha
conhecimento, QUE o depoente supõem que seriam referentes a situação de
uma empresa que o depoente teria tido sociedade e que PAULO TAQUES
foi seu advogado, tendo conhecimento de todos os fatos, inclusive sua
dependência química foi revelada a PAULO TAQUES nessa oportunidade:
Que naquele momento o depoente apenas pensou o quanto essa informação
referente a sua condição de usuário o iria expô-lo na Corporação, encerrando
definitivamente sua carreira, bem como da sua preocupação com eventuais
crimes militares por ter mantido a sociedade, todos de conhecimento do
advogado PAULO TAQUES, a quem confidenciou referidos Jatos '.
[...]
Detalhe de suma importância é que nessa época, ou seja, quando Helen
procurou pelo Ten-Cel. Soares, seu esposo, Cel. PM Evandro Alexandre
Ferraz Lesco, encontrava-se cautelarmente segregado.
[...]
Asseverou, ainda, o Ten-Cel. PM Soares:
'Que esclarece o depoente que a SECRETARIA DE SEGURANÇA, assim
como a POLÍCIA MILITAR, não sabia dessa sua situação pessoal do
contrário já teria aberto procedimento contra si, nem teria lhe conferido a
missão de atuar na Corregedoria e Ouvidoria da Policia Militar, bem como
escrivão no IPM; Que, desse modo, o depoente acredita que essas
informações possam ter sido passadas por PAULO TAQUES para que
fossem usadas para coagi-lo '
[...] Ad nunc modo , tudo aponta para uma única e provável direção a de que
as informações provieram mesmo do representado Paulo Cesar Zamar
Taques.
Cabe gizar o lugar de destaque do investigado Paulo Cesar Zamar Taques na
provável organização criminosa, com quem o grupo tinha preocupações
redobradas com a manutenção da prisão que se decretou contra ele, como se
vê nesta passagem do depoimento:
'Que também eles diziam da importância da soltura de Paulo Taques, do
quanto era necessário para o grupo que Paulo Taques continuasse solto'.
É incontestável mesmo que o investigado Paulo César Zamar Taques se
apresenta - pelo menos diante dos elementos informativos até agora obtidos
- como um dos principais protagonistas do grupo criminoso, e maior
beneficiário das escutas telefônicas clandestinas.
[...]
Contudo, por incrível que pareça, o estratagema montado foi mais longe,
pois, não satisfeitos com a escuta ambiental ilegal captada pelo Ten.Cel.
Soares, o grupo queria mais, queria o monitoramento audiovisual deste
Relator.
'QUE então o CEL. LESCO foi solto; QUE então HELEN ligou para o
depoente solicitando um encontro do mesmo com o CEL. LESCO, dizendo
'LESCO quer te ver'; QUE o depoente dirigiu-se à residência deles,[...] QUE
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nesse encontro LESCO agradeceu e voltaram a reafirmar sua parceria, QUE
LESCO perguntou sobre a prisão do CEL. SIQUEIRA; QUE também
LESCO solicitou que não houvesse novos indiciamentos, que dizia que isso
iria fragilizar o grupo: QUE o depoente disse que o CEL CATARINO havia
pedido para começar a fazer essa representação de prisão, tendo LESCO dito
que essa prisão não poderia ocorrer de forma alguma; QUE dizia 'faça o que
tiver que ser feito, mas não deixe acontecer'; QUE o depoente acredita que há
nos autos elementos pura requerer a prisão do CEL SIQUEIRA porém em
razão dessa coação sofrida não concluiu essa representação da prisão; QUE
depois voltou a encontrar com o CEL LESCO por mais umas 03 vezes, [...]
QUE então num dos encontros [...] o CEL LESCO solicita que o depoente
faça o monitoramento audiovisual do DESEMBARGADOR ORLANDO
PERRI; QUE diziam claramente que queria que o depoente gravasse
qualquer parte de uma conversa que pudesse comprometer o
DESEMBARGADOR ORLANDO PERRI; QUE dizia que o
DESEMBARGADOR ORLANDO PERRI estava atrapalhando o
grupo; QUE insistiam que queria desacreditar a pessoa do
DESEMBARGADOR ORLANDO PERRI que queria qualquer tipo
de expressão que eventualmente o DESEMBARGADOR ORLANDO
PERRI falasse; QUE a intenção era utilizar de qualquer frase ou
palavra para solicitarem a suspeição do DESEMBARGADOR
ORLANDO PERRI; [...] QUE então em uma das reuniões, na terceira
ou quarta, o SGTO SOLER aparece com um equipamento em mãos;
QUE o SGTO SOLER é investigado nos autos do INQUÉRITO
POLICIAL MILITAR. QUE então o depoente é comunicado que
aquele equipamento deve ser colocado em sua farda, pois precisava
de uma imagem do DESEMBARGADOR ORLANDO PERRI: QUE
reforça que esse encontro foi também na casa do CEL. LESCO; QUE
diziam que apenas o áudio gravado pelo depoente não era suficiente;
QUE então o SGTO SOLER ensinou o depoente a manusear o
equipamento; QUE então combinaram do depoente levar suas duas
fardas para que o SGTO SOLER verificasse qual das duas seria
melhor para instalar o equipamento; [...] Que depois umas 24hs CEL
LESCO manda mensagem via WhatsApp de HELEN dizendo que o peixe
está pronto"; QUE esse foi o código para avisar que a farda com o
equipamento estava pronta; [...] QUE justificou que só foi possível instalar
em uma das fardas em razão da costura da outra e dos breves serem
metálicos; QUE ele ensinou como funciona, entregou também o carregador;
QUE foi informado que a bateria tem autonomia para 3h ininterruptas de
gravação e orientou a realizar como fazer o carregamento. [...] QUE apôs
essa entrega não houve nenhum encontro com o DESEMBARGADOR
ORLANDO'.
[...] No caso dos autos, duvidas não há quanto à imprescindibilidade da
prisão cautelar para garantia da ordem pública.
Não se pode menosprezar o poderio do grupo criminoso formado, em sua
grande maioria, por autoridades pertencentes à alta cúpula do Governo do
Estado do Mato Grosso, e responsável por arregimentar policiais, advogado,
membro ou membros do Ministério Público Estadual, dentre outros
participantes, diuturnamente desvendados com o andamento das
investigações, não sendo possível, neste momento, conjecturar, com
precisão, a extensão da ramificação ou das ramificações da suposta
organização criminosa.
Contudo, o que não se discute, é a desfaçatez e a ousadia com a qual a
provável organização criminosa vem agindo, que chegou ao absurdo de
aliciar servidor público, no caso, o Escrivão do IPM, cooptando o para
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obtenção de favores, informações e provas indevidas, mediante coação e
suborno.
E o pior de tudo isso.
A atitude do grupo criminoso de exigir dele a obtenção de gravações,
inclusive visual, com o propósito de suscitar minha suspeição nos inquéritos
policiais instaurados, assim como na ação penal deflagrada, demonstra,
indene de dúvidas, atrevimento e destemor, indicativo da periculosidade dos
seus integrantes.
Não podemos olvidar, ainda, que dois dos membros da provável organização
criminosa, a saber, Paulo Cesar Zamar Taques e Cel. Evandro Alexandre
Ferraz Lesco, já estiveram presos provisoriamente em outros inquéritos
policiais, e mesmo depois de colocados em liberdade, continuaram, em tese,
a praticar infrações penais, demonstrando, com tais comportamentos, que
possuem personalidades distorcidas e voltadas a cometimento reiterados
delitos.
[...]
Além do risco concreto de reiteração da prática de delitos, entendo que a
prisão preventiva dos envolvidos se patenteia igualmente imprescindível
para assegurar a integridade física e moral não só da testemunha Ten-Cel.
José Henrique Costa Soares, como também de sen filho, porquanto há base
empírica a comprovar que o "grupo" sabe que ela não esta mais interessada
em dar continuidade ao plano outrora arquitetado, consoante se extrai de seu
depoimento gravado pelo sistema áudio visual, em 18/9/2017:
[...]
Momento depois [...] eles ligam do telefone da Dra. Samira. Primeiro a
Samira liga, conversa comigo, depois a Helen, eles pedem a localização de
casa, pergunta se estou casa, pede o localização, ato continuo também o
Lesco liga para mim e fala: 'olha, não sei se você pegou meu celular, porque
só pode ter sido você, os dois celulares daqui sumiram, eu não sei se foi você,
mas só pode ter sido você, porque só você esteve aqui. Eu não sei se você
pegou por má-fé ou se você pegou por destração. Eu só quero saber seguinte,
devolva, porque seu filho está correndo risco de vida".
[...]
Somados aos fundamentos que autorizam a prisão cautelar para garantia da
ordem pública, a medida extrema também se afigura imprescindível para a
conveniência da instrução criminal.
De tudo o quanto visto c fundamentado acima, este pressuposto da prisão
cautelar até pela própria natureza dos crimes imputados aos investigados,
ora representados, dispensa maiores digressões.
Se os crimes agora praticados objetivavam atrapalhar as investigações de
outros em apuração, salta aos olhos a imprescindibilidade da custódia
cautelar.
Nesse desígnio, não titubearam, nem tremelicaram, um segundo sequer, em
coagir e corromper o Ten-Cel. Soares no abominável e ignominioso plano
de alijar-me das investigações a golpes de espada.
A estultice engendrada pôs em relevo e destaque a capacidade de
atrevimento do grupo criminoso.
Se ele se mostra com destemor para achacar, acovardar e constranger um
membro desta Corte de Justiça, que dizer dos cidadãos comuns, das pessoas
que foram suas vítimas, como as interceptadas ilegalmente?
[...]
Importante destacar que muitas das testemunhas já declararam o temor e
receio por suas vidas, como o Cb. PM Torezan e a Sgt. Andréa e agora, mais
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recentemente, o próprio Ten-Cel. Soares.
Por certo, e com maior razão, as testemunhas e vítimas não sentirão mesmo
confortável em revelar os fatos dos quais tem conhecimento, se os suspeitos
estiverem em liberdade.
Não se pode perder de vista que se tratam de pessoas com grande poder de
influência dentro das forças do Estado, uma vez que ocupam, por si e por
longo monus, cargos de maior relevância no atinente à segurança pública.
Estamos a falar de Secretário de Segurança Pública, de Secretário de Justiça
e Direitos Humanos, ex-Secretário-Chefe da Casa Militar
ex-Secretário-Chefe da Casa Civil, ex-Comandante da Policia Militar,
pessoas ligadas ao GAECO, etc.
A força de intimidação é clara e manifesta.
[...]
Como se vê, mesmo preso preventivamente, por outro crime, em outra
investigação, e libertado por conta de liminar concedida pelo STJ, nos autos
do Habeas Corpus n. 410.767. Paulo Cesar Tamar Taques continua atuando
ativamente em benefício tia possível organização criminosa, o que põe em
destaque que a segregação cautelar outrora imposta não inibiu o ímpeto
criminoso.
Outras razões existem para mantê-lo segregado cautelarmente.
Afora todas as situações já demonstradas - que, de per si, justificariam a
aplicação da medida cautelar extrema - sua força e sua influência no alto
escalão do Governo é inconteste, até pela condição de primo do Chefe do
Poder Executivo e de ter exercido o poderosíssimo cargo de Secretário
Chefe da Casa Civil.
Prova disso são as incontáveis visitas á sua residência de pessoas e
autoridades do Governo que lá estiveram apôs ter deixado a Casa Civil.
Secundo provam os registros de entrada e saída do Condomínio Florais
Cuiabá Residencial, recolhidos nos autos do Inquérito II. 7832.1/2017,
desde 11/5/2017 até 9/8/2017, somente o atual Secretário Chefe da Casa
Civil, José Adolpho de Lima Avelino Vieira, lá esteve por quatro vezes, sem
falar no Superintendente de Assuntos Estratégicos da Casa Civil, Sergio
Walmir Monteiro Salles (três vezes); no assessor especial da Casa Civil,
Selmo Antônio [três vezes); na Secretária-Adjunta de Gestão Integrada da
Casa Civil, Ana Paula Cardoso; no assessor parlamentar Jorge Luiz Lisboa,
Oficial e Graduado da PM, investigador de polícia, etc."

Como é cediço, a teor do disposto no art. 312 do CPP, a prisão do réu antes do
trânsito em julgado da condenação, por ser medida excepcional, é cabível apenas quando,
presentes indícios suficientes de autoria e prova da materialidade, for necessária ao resguardo
à ordem pública, à instrução criminal ou à aplicação da lei penal.
De uma análise perfunctória dos autos, observa-se que há dados que
demonstram o vínculo do paciente com o grupo criminoso, desde a criação do "Núcleo de
Inteligência" da Polícia Militar, responsável pelos início dos grampos ilegais. Como posto no
decreto constritivo, "é incontestável mesmo que o investigado Paulo César Zamar Taques se
apresenta - pelo menos diante dos elementos informativos até agora obtidos - como um dos
principais protagonistas do grupo criminoso, e maior beneficiário das escutas telefônicas
clandestinas".
Verifica-se, ademais, que, em princípio, a custódia provisória está fundada na
garantia da ordem pública e na instrução criminal, diante dos fatos gravíssimos ora apurados,
que estariam, em tese, a demonstrar "o poderio do grupo criminoso" e a vislumbrada tentativa
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de atrapalhar a investigação e a condução do feito, mediante a coação e o suborno do escrivão
do Inquérito Policial Militar originário, a fim de que ele gravasse e filmasse o Desembargador
Relator deste feito no Tribunal de Justiça do Estado do Mato Grosso para forjar sua suposta
parcialidade no julgamento da causa, tendo como objetivo o seu afastamento do processo.
No mesmo sentido, confira-se:

"PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS SUBSTITUTIVO DE
RECURSO ORDINÁRIO. NÃO CABIMENTO. ASSOCIAÇÃO
CRIMINOSA, PECULATO, FALSIDADE IDEOLÓGICA, USO DE
DOCUMENTO FALSO, PREVARICAÇÃO E COAÇÃO NO CURSO DO
PROCESSO. PRISÃO PREVENTIVA. GARANTIA DA ORDEM
PÚBLICA. MODUS OPERANDI . HABEAS CORPUS NÃO CONHECIDO.
[...]
II - A segregação cautelar deve ser considerada exceção, já que tal medida
constritiva só se justifica caso demonstrada sua real indispensabilidade para
assegurar a ordem pública, a instrução criminal ou a aplicação da lei penal,
ex vi do artigo 312 do Código de Processo Penal.
III - No caso, o decreto prisional encontra-se devidamente fundamentado em
dados extraídos dos autos, que evidenciam que a liberdade do ora paciente
acarretaria risco à ordem pública, notadamente se considerada sua
participação em associação criminosa, "voltada para o desvio e
comercialização de produtos de origem ilícita apreendidos no exercício da
função policial". Não se pode olvidar, ainda, que a prisão preventiva
imposta ao paciente também se justifica pela conveniência da instrução
criminal, uma vez que "atuaram no sentido de violar o sigilo absoluto
tramitavam os pedidos de suas prisões preventivas e de expedição de
mandados de busca e apreensão em suas residências" e em "face a
probabilidade concreta de que atuem novamente para perturbar a
investigação e a instrução criminal, com sério risco para a regular produção
de provas incriminadoras".
Habeas Corpus não conhecido."
(HC 395.468/PR, Rel. Ministro FELIX FISCHER, QUINTA TURMA,
julgado em 12/9/2017, DJe 21/9/2017).

Sob tal contexto, não se identifica, por ora, o manifesto constrangimento ilegal
sustentado pelos impetrantes.
Assim, indefiro o pedido de liminar.
Solicitem-se informações à autoridade coatora. Após, encaminhem-se os autos
ao Ministério Público Federal para parecer.
Cumpridas as diligências acima referenciadas, tornem-me conclusos.
Publique-se. Intimem-se.
Brasília (DF), 04 de outubro de 2017.

Ministro RIBEIRO DANTAS
Relator

Documento: 77221445 - Despacho / Decisão - Site certificado - DJe: 10/10/2017 Página 9 de 9