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A Fclcliao das Massas
Josc Oricga y Cassci
Ediçao
Fidcndo Casiigai Morcs

Vcrsao para cDool
cDoolsDrasil.con

Fonic Digiial
www.jaIr.org
CopyrigIi ©
Auior. Josc Oricga y Cassci
Traduçao. Hcrrcra FilIo
Ediçao clcirónica.
Ed. Fidcndo Casiigai Morcs
(www.jaIr.orgi
ºTodas as olras sao dc accsso graiuiio. Esiudci scnprc por conia
do Esiado, ou nclIor, da Socicdadc quc paga inposios; icnIo a
olrigaçao dc rciriluir ao ncnos una goia do quc cla nc
proporcionou." ÷ Nclson JaIr Carcia (1947-2002i
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ÍNDICE
Apresentação ÷ 6
Ncíson JuI) Gu)cíu
BIograIIa do autor ÷ 9

PRÕLOGO PARA FRANCESES ÷ 12

PRIMEIRA PARTE
A REBELIÃO DAS MASSAS ÷ 57
I - O Iato das agIomerações ÷ 58
II - A ascensão do n¡veI bIstórIco ÷ 69
III - A aItura dos tempos ÷ 80
IV - O crescImento da vIda ÷ 92
V - Um dado estat¡stIco ÷ 103
VI - Começa a dIssecação do bomem-massa ÷
112
VII - VIda nobre e vIda vuIgar, ou esIorço e
InércIa ÷ 121
VIII - Porque as massas Intervêm em tudo e
porque só Intervêm vIoIentamente ÷ 130
IX - PrImItIvIsmo e técnIca ÷ 142
X - PrImItIvIsmo e bIstórIa ÷ 154
XI - A época do ºmocInbo satIsIeIto" ÷ 165
XII - A barbárIe do ºespecIaIIsmo" ÷ 177
XIII - O maIor perIgo, o Estado ÷ 187

SEGUNDA PARTE
QUEM MANDA NO MUNDO? ÷ 199
4
XIV - Quem manda no mundo? ÷ 200
XV - Desemboca-se na verdadeIra questão ÷
283
EPÍLOGO PARA INGLESES ÷ 288
Quanto ao pacIIIsmo ÷ 297
DINÅMICA DO TEMPO
As vItrInas mandam ÷ 341
Juventude ÷ 349
MascuIIno ou IemInIno? ÷ 364
NOTAS ÷ 379
5

A REBELIÃO DAS MASSAS

José Ortega y Gasset
6

APRESENTAÇÃO
Nclson JaIr Carcia

A Fclcliao das Massas", olra prina dc Josc
Oricga y Cassci, concçou a scr pullicado cn
1926 nun jornal nadrilcnIo (ºEl Sol"i.
Fciraia as grandcs iransfornaçõcs do scculo
XX, cspccialncnic na Europa, con cnfasc no
proccsso Iisiorico dc crcscincnio das nassas
urlanas. Nao sc rcfcrc às classcs sociais nas às
nuliidõcs c agloncraçõcs. Tcndo cssc conic×io
cono pano dc fundo, Oricga discuic icnas,
aparcnicncnic conirarios cnirc si, nas quc sc
fundcn (ou dcvcn fundir-sci nuna unidadc dc
scniido. É assin quc conirapõc individualisno c
sulnissao ao colciivo; conunidadc, naçao c
csiado; Iisioria, prcscnic c porvir; Ioncns culios
c cspccialisias; podcr arliirario c rcspciio à
opiniao pullica; juvcniudc c vclIicc; gucrra c
pacifisno; nasculino c fcninino.
Sao iopicos quc, incviiavclncnic, nos
induzcn à rcflc×ao críiica. En alguns casos sao
aprcscniados dc forna c×ircnancnic
provocaiiva.
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Fcfcrindo-sc ao podcr do dinIciro, nininiza
scu significado c afirna.
ºÉ, ialvcz, o unico podcr social quc ao scr
rcconIccido nos rcpugna. A propria força
lruia quc Ialiiualncnic nos indigna acIa
cn nos un cco uliino dc sinpaiia c
csiina. Inciia-nos a rccIaça-la criando
una força paralcla, nas nao nos inspira
asco. Dir-sc-ia quc nos sullcvan csics ou
os ouiros cfciios da violcncia; porcn cla
ncsna nos parccc un siniona dc saudc,
un nagnífico airiluio do scr vivcnic, c
conprccndcnos quc o grcgo a divinizassc
cn Hcrculcs."
Discuiindo o faio dc quc os aniigos grcgos
c×prcssavan un ccrio dcsprczo pclas nulIcrcs,
acala por concluir quc csias acalaran sc
nasculinizando.
ºA Vcnus dc Milo c una figura nasculo-
fcninil, una cspccic dc ailcia con scios. E
c un c×cnplo dc cónica insinccridadc quc
icnIa sido proposia ial inagcn ao
cniusiasno dos curopcus duranic o scculo
XIX, quando nais clrios vivian dc
ronaniicisno c dc fcrvor pcla pura,
c×ircna fcninilidadc. O canonc da aric
grcga ficou inscriio nas fornas do noço
8
dcsporiisia, c quando isio nao lIc lasiou
prcfcriu sonIar con o Icrnafrodiia."
Solrc a gucrra, cIcga a afirnar.
ºO pacifisno csia pcrdido c convcric-sc cn
nula lcaicria sc nao icn prcscnic quc a
gucrra c una gcnial c fornidavcl iccnica
dc vida c para a vida."
Sua inicrprciaçao do nodclo cscravisia c
lasianic sugcsiiva.
ºDo ncsno nodo, cosiunanos, scn nais
rcflc×ao, naldizcr da cscravidao, nao
advcriindo o naravilIoso progrcsso quc
rcprcscniou quando foi invcniada. Porquc
anics o quc sc fazia cra naiar os vcncidos.
Foi un gcnio lcnfciior da Iunanidadc o
princiro quc idcou, cn vcz dc naiar os
prisionciros, conscrvar-lIcs a vida c
aprovciiar scu lalor."
Sao cssas aparcnics coniradiçõcs quc
csiinulan nosso cspíriio críiico. Oricga dcfcndcu
suas conccpçõcs con vigor, fundancnios solidos
c una logica irrcprcnsívcl. En poucos noncnios
foi ioialncnic conclusivo, nas dci×ou una
cnornc alcriura para quc possanos rcpcnsar as
idcias quc dcfcndcu cn scus dias, adapiando-as
ao nosso icnpo c ao quc vivcrcnos no fuiuro.
9

BIOGRAFIA DO AUTOR

Josc Oricga y Cassci nasccu cn Madrid, a 9
dc naio dc 1883. A fanília dc sua nac cra
propriciaria do jornal nadrilcnIo ºEl Inparcial" c
scu pai jornalisia c dircior dcssc ncsno diario.
Essa rclaçao con o jornalisno foi csscncial
para o dcscnvolvincnio dc sua fornaçao
iniclcciual c scu csiilo dc c×prcssao liicraria.
Crandc paric dc scus cscriios filosoficos foran
produzidos a pariir do coniaio con a inprcnsa.
Oricga, alcn dc considcrado un dos naiorcs
filosofos da língua cspanIola ianlcn c lcnlrado
cono una das naiorcs figuras do jornalisno
cspanIol do scculo XX.
Tcndo adquirido as princiras lciras cn
Madrid foi cnviado a cursar o lacIarclado cn un
colcgio jcsuíia dc Malaga. Enlora rcconIcccndo
o valor da cducaçao jcsuíiica rccclida, rcagiu
conira os icnucs fundancnios da cicncia
adquirida, fornulando un projcio pcssoal dc
rcforna da filosofia curopcia.
10
Tcrninando os csiudos cn Malaga iniciou
scus csiudos univcrsiiarios cn Dcusio c dcpois
na Univcrsidadc dc Madrid, ondc sc douiorou cn
Filosofia. Duscando una fornaçao iniclcciual
nais solida coniinuou scus csiudos cn
Marlurgo, na AlcnanIa, ondc prcvalccia o
ncolaniisno. Acalou por adoiar una aiiiudc
críiica cn rclaçao aos scus ncsircs c a Kani, quc
sc rcflciiu na afirnaçao. ºDuranic dcz anos vivi
no nundo do pcnsancnio laniiano. cu o rcspirci
con a una ainosfcra quc foi, ao ncsno icnpo,
ninIa casa c ninIa prisao (...i Con grandc
csforço, conscgui cvadir-nc da prisao laniiana c
cscapci dc sua influcncia ainosfcrica."
A pariir dc 1910 iniciou una vida pullica
rcpariida cnirc a doccncia univcrsiiaria c
aiividadcs políiicas c culiurais c×ira acadcnicas.
Con o início da gucrra civil cspanIola, cn
julIo dc 1936, Oricga dccidiu andar pclo nundo,
viajando à França, Holanda, Argcniina, Poriugal,
paíscs ondc profcriu inuncras confcrcncias.
Suas olras sc rcvcsicn dc un caraicr
c×ircnancnic críiico, as nais polcnicas das
quais foran. ºMcdiiacioncs dcl Ouijoic", ºOuc cs
filosofia?", ºEn iorno a Calilco", ºHisioria cono
sisicna", ºFclclion dc las nasas", ºOlras
Conplcias". Foi ianlcn co-fundador do diario
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ºEl Sol" c fundador c dircior da ºFcvisia dc
Occidcnic".
Falcccu cn Madrid no dia 18 dc ouiulro dc
1955.
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PRÓLOGO PARA FRANCESES
I
Esic livro ÷ supondo quc scja un livro ÷
daia... Concçou a scr pullicado nun jornal
nadrilcnIo cn 1926, c o assunio dc quc iraia c
dcnasiado Iunano para quc pudcssc cscapar à
açao do icnpo. Ha solrciudo cpocas cn quc a
rcalidadc Iunana, scnprc insiavcl, sc prccipiia
cn vclocidadc vcriiginosa. Nossa cpoca c dcssa
classc porquc c dc dcscidas c qucdas. Daí quc os
faios ulirapassaran o livro. Muiio do quc nclc sc
cnuncia foi logo un prcscnic c ja c un passado.
Alcn disso, cono csic livro circulou nuiio
duranic csics anos fora da França, nao poucas dc
suas fornulas cIcgaran ao lciior franccs por vias
anóninas c sao puro lugar conun. Tcria sido,
pois, c×cclcnic ocasiao para praiicar a olra dc
caridadc nais adcquada a nosso icnpo. nao
pullicar livros supcrfluos. Eu fiz iudo quc nc foi
possívcl cn ial scniido ÷ vai para cinco anos a
Casa Siocl nc propós a sua vcrsao ÷; nas nc
fizcran vcr quc o organisno das idcias
cnunciadas ncsias paginas nao corrcspondc ao
lciior franccs, c quc, accriada ou crroncancnic,
scria uiil sulncic-lo a sua ncdiiaçao c a sua
críiica.
13
Nao csiou convcncido disso, nas nao Ia
noiivo para fornalisno. Inporia-nc, cnircianio,
quc nao cnirc na sua lciiura con ilusõcs
injusiificadas. Consic, pois, quc sc iraia
sinplcsncnic dc una scric dc ariigos pullicados
nun jornal nadrilcnIo dc grandc circulaçao.
Cono quasc iudo quc cscrcvi, csias foran
paginas cscriias para uns quanios cspanIois quc
o dcsiino colocou à ninIa frcnic. Nao c
solrcnodo inprovavcl quc ninIas palavras,
nudando agora dc dcsiinaiario, consigan dizcr
aos franccscs o quc clas prcicndcn c×prinir. Nao
posso cspcrar nclIor soric quando csiou
pcrsuadido dc quc falar c una opcraçao nuiio
nais ilusoria do quc sc supõc, ccriancnic, cono
quasc iudo quc o Ioncn faz. Dcfininos a
linguagcn cono o ncio dc quc nos scrvinos para
nanifcsiar nossos pcnsancnios. Mas una
dcfiniçao, sc c vcrídica, c irónica, cnccrra iaciias
rcscrvas, c quando nao a inicrprcianos assin,
produz funcsios rcsuliados. Assin csia. O dc
ncnos c quc a linguagcn sirva ianlcn para
oculiar nossos pcnsancnios, para ncniir. A
ncniira scria inpossívcl sc o falar prinario c
nornal nao fossc sinccro. A nocda falsa circula
apoiada na vcrdadcira. No final das conias, o
cngano vcn a scr un Iunildc parasiia da
ingcnuidadc.
Nao; o nais pcrigoso daqucla dcfiniçao c o
acrcscino oiinisia con quc cosiunanos cscuia-
14
la. Porquc cla ncsna nao nos asscgura quc
ncdianic a linguagcn possanos nanifcsiar, con
suficicnic jusicza, iodos os nossos pcnsancnios.
Nao sc arrisca a ianio, nas ianpouco nos faz vcr
francancnic a vcrdadc csiriia. quc scndo ao
Ioncn inpossívcl cnicndcr-sc con scus
scnclIanics, csiando condcnado à radical
solidao, csgoia-sc cn csforços para cIcgar ao
pro×ino. Dcsscs csforços c a linguagcn quc
conscguc às vczcs dcclarar con naior
apro×inaçao algunas das coisas quc aconicccn
dcniro dc nos. Apcnas. Mas, Ialiiualncnic, nao
usanos csias rcscrvas. Ao conirario, quando o
Ioncn sc põc a falar, isio faz porquc crc quc vai
podcr dizcr iudo quc pcnsa. Pois lcn, isso c o
ilusorio. A linguagcn nao da para ianio. Diz,
nais ou ncnos, una paric do quc pcnsanos c
põc una larrcira infranqucavcl à iransfusao do
rcsio. Scrvc lasianicncnic para cnunciados c
provas naicnaiicas; ja ao falar dc física concça a
scr cquívoco c insuficicnic. Porcn quanio nais a
convcrsaçao sc ocupa dc icnas nais inporianics
quc csscs, nais Iunanos, nais ºrcais", ianio
nais auncnia sua inprccisao, sua incpcia c scu
confusionisno. Doccis ao prcjuízo invcicrado dc
quc falando nos cnicndcnos, dizcnos c ouvinos
con iao loa fc quc acalanos nuiias vczcs por
nao nos cnicndcrnos, nuiio nais do quc sc,
nudos, procurasscnos adivinIar-nos.
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Esquccc-sc dcnasiadancnic quc iodo
auicniico dizcr nao so diz algo, cono diz algucn a
algucn. En iodo dizcr Ia un cnissor c un
rcccpior, os quais nao sao indifcrcnics ao
significado das palavras. Esic varia quando
aquclas varian. Duo si idcn dicuni non csi idcn.
Todo vocalulo c ocasional(li. A linguagcn c por
csscncia dialogo, c iodas as ouiras fornas do
falar dcsiiiucn sua cficacia. Por isso cu crcio quc
un livro so c lon na ncdida cn quc nos iraz un
dialogo laicnic, cn quc scniinos quc o auior salc
inaginar concrciancnic scu lciior c csic pcrcclc
cono sc dcnirc as linIas saíssc u'a nao
ccioplasiica quc iaicia sua pcssoa, quc qucr
acaricia-la ÷ ou lcn, nui coricsncnic, dar-lIc
un nurro.
Alusou-sc da palavra c por isso cla caiu cn
dcsgraça. Cono cn ianias ouiras coisas, o aluso
aqui consisiiu no uso scn prcocupaçao, scn
conscicncia da liniiaçao do insiruncnio. Ha
quasc dois scculos quc sc acrcdiia quc falar cra
falar urli ci orli, isio c, a iodos c a ningucn. Eu
dcicsio cssa nancira dc falar c sofro quando nao
sci concrciancnic a qucn falo.
Conian, scn insisiir dcnasiado solrc a
rcalidadc do faio, quc quando sc cclclrou o
julilcu dc Vicior Hugo foi organizada una grandc
fcsia no palacio do Elísco, da qual pariiciparan,
lcvando suas Ioncnagcns, rcprcscniaçõcs dc
16
iodas as naçõcs. O grandc pocia acIava-sc na
grandc sala dc rcccpçao, cn solcnc aiiiudc dc
csiaiua, con o coiovclo apoiado no rclordo dc
una cIaninc. Os rcprcscnianics das naçõcs
adianiavan-sc ao pullico c aprcscniavan sua
Ioncnagcn ao vaic da França. Un poriciro, con
voz csicniorica, anunciava-os.
ºMonsicur lc Fcprcscniani dc l'Anglaicrrc!" E
Vicior Hugo, con voz dc dranaiico ircnulo,
virando os olIos, dizia. ºL'Anglaicrrc! AI,
SIalcspcarc!" O poriciro coniinuou. ºMonsicur lc
Fcprcscniani dc l'Espagnc"! E Vicior Hugo.
ºL'Espagnc! AI, Ccrvanics!" O poriciro. ºMonsicur
lc Fcprcscniani dc L'Allcnagnc!" E Vicior Hugo.
ºL'Allcnagnc! AI, CociIc!"
Mas cniao cIcgou a vcz dc un scnIor lai×o,
aiarracado, lalofo c dc andar dcsgracioso. O
poriciro c×clanou. ºMonsicur lc Fcprcscniani dc
la Mcsopoianic!"
Vicior Hugo, quc aic cniao pcrnancccra
inpcricrriio c scguro dc si ncsno, parcccu
vacilar. Suas pupilas, ansiosas, fizcran un
grandc giro circular cono procurando cn iodo o
cosnos algo quc nao cnconirava. Mas logo sc viu
quc o acIara c quc rccolrara o donínio da
siiuaçao. Efciivancnic, con o ncsno ion
paiciico, con a ncsna convicçao, rcspondcu à
17
Ioncnagcn do roiundo scnIor dizcndo. ºLa
Mcsopoianic! AI, L'Hunaniic!"
Conici isso a fin dc dcclarar, scn a
solcnidadc dc Vicior Hugo, quc nao cscrcvi ncn
falci à Mcsopoiania, c nunca nc dirigi à
Hunanidadc. Essc cosiunc dc falar para a
Hunanidadc, quc c a forna nais sullinc, c,
porianio, a nais dcsprczívcl da dcnagogia, foi
adoiada aic 1750 por iniclcciuais dcsajusiados,
ignoranics dc scus proprios liniics c quc scndo,
por scu ofício, os Ioncns do dizcr, do logos,
usaran dclc scn rcspciio c prccauçõcs, scn
pcrcclcrcn quc a palavra c un sacrancnio dc
nui dclicada adninisiraçao.

II

Esia icsc quc susicnia a c×iguidadc do raio
dc açao cficazncnic conccdido à palavra, podia
parcccr invalidada pclo faio ncsno dc quc csic
volunc icnIa cnconirado lciiorcs cn quasc iodas
as línguas da Europa. Eu crcio, iodavia, quc csic
faio c dc prcfcrcncia siniona dc ouira coisa, dc
ouira gravc coisa. da pavorosa Ionogcncidadc dc
siiuaçõcs cn quc vai caindo iodo o Ocidcnic.
Dcsdc o aparccincnio dcsic livro, pcla nccanica
quc nclc ncsno sc dcscrcvc, cssa idcniidadc
18
crcsccu dc nodo angusiioso. Digo angusiioso
porquc, rcalncnic, o quc cn cada país c scniido
cono circunsiancia dolorosa, nuliiplica ao
infiniio scu cfciio dcprincnic quando qucn o
sofrc advcric quc apcnas Ia lugar no coniincnic
ondc nao aconicça csiriiancnic o ncsno,
Ouirora podia vcniilar-sc a ainosfcra confinada
dc un país alrindo-sc as janclas quc dao para
ouiro. Mas agora cssc c×pcdicnic nao scrvc dc
nada, porquc cn ouiro país a ainosfcra c iao
irrcspiravcl cono no proprio. Daí a scnsaçao
oprcssora dc asfi×ia. Jol, quc cra un icrrívcl
pincc-sans-rirc, pcrgunia a scus anigos, os
viajorcs c ncrcadorcs quc rodaran pclo nundo.
Undc sapicniia vcnii ci quis csi locus
iniclligcniiac? ºSalcis dc algun lugar do nundo
ondc a inicligcncia c×isia?"
Convcn, cnircianio, quc ncssa progrcssiva
assinilaçao das circunsiancias disiinganos duas
dincnsõcs difcrcnics c dc valor coniraposio.
Esic cn×anc dc povos ocidcniais quc alçou
vóo solrc a Iisioria dcsdc as ruínas do nundo
aniigo, caracicrizou-sc scnprc por una forna
dual dc vida. Pois aconicccu quc à ncdida quc
cada un ia fornando scu gcnio pcculiar, cnirc
clcs ou solrc clcs sc ia criando un rcpcriorio dc
idcias, nanciras c cniusiasnos. Mais ainda. Esic
dcsiino quc os fazia, a par, progrcssivancnic
Ionogcncos c progrcssivancnic divcrsos, Ia dc
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cnicndcr-sc con ccrio supcrlaiivo dc parado×o.
Porquc nclcs a Ionogcncidadc nao foi alIcia à
divcrsidadc. Pclo conirario. cada novo princípio
unifornc fcriilizava a divcrsificaçao. A idcia crisia
cngcndra as igrcjas nacionais; a lcnlrança do
Inpcriun ronano inspira as divcrsas fornas do
Esiado; a ºrcsiauraçao das lciras" no scculo XV
inpclc as liicraiuras divcrgcnics; a cicncia c o
princípio uniiario do Ioncn cono ºrazao pura"
cria os disiinios csiilos iniclcciuais quc nodclan
difcrcncialncnic aic as c×ircnas alsiraçõcs da
olra naicnaiica. Finalncnic c para cunulo. aic
a c×iravaganic idcia do scculo XVIII, scgundo a
qual iodos os povos Iao dc icr una consiiiuiçao
idcniica, produz o cfciio dc dcspcriar
ronaniicancnic a conscicncia difcrcncial das
nacionalidadcs, quc vcn a scr cono csiinular cn
cada un sua vocaçao pariicular.
E c quc para csscs povos cIanados
curopcus, vivcr scnprc foi ÷ clarancnic dcsdc o
scculo XI, dcsdc Óion III ÷ novcr-sc c aiuar cn
un cspaço ou anliio conun. Isio c, quc para
cada un vivcr cra convivcr con os dcnais. Esia
convivcncia ionava indifcrcnicncnic aspccio
pacífico ou conlaiivo. As gucrras inicr-curopcias
nosiraran quasc scnprc un curioso csiilo quc
as faz parcccr nuiio con as alicrcaçõcs
doncsiicas. Eviian a aniquilaçao do ininigo, c
sao vcrdadciros ccriancs, luias dc cnulaçao,
cono as dos jovcns nuna aldcia ou dispuias dc
20
Icrdciros pcla pariilIa dc un lcgado faniliar. Un
pouco dc ouiro nodo, iodos vao ao ncsno.
Eadcn scd aliicr. Cono Carlos V dizia dc
Francisco I. ºMcu prino Francisco c cu csianos
dc pcrfciio acordo. anlos qucrcnos Milao".
É dc soncnos inporiancia quc a cssc cspaço
Iisiorico conun, ondc iodos os povos do
Ocidcnic sc scniian cono cn sua casa,
corrcsponda un cspaço físico quc a gcografia
dcnonina Europa. O cspaço Iisiorico a quc aludo
ncdc-sc pclo raio dc cfciiva c prolongada
convivcncia ÷ c un cspaço social. Ora,
convivcncia c socicdadc sao icrnos cquivalcnics.
Socicdadc c o quc sc produz auionaiicancnic
pclo sinplcs faio da convivcncia. Dc sua csscncia
c incluiavclncnic csia scgrcga cosiuncs, usos,
línguas, dirciio, podcr pullico. Un dos nais
gravcs crros do pcnsancnio ºnodcrno", cujas
salpicaduras ainda padcccnos, icn sido
confundir a socicdadc con a associaçao, quc c,
apro×inadancnic, o conirario daqucla. Una
socicdadc nao sc consiiiui do acordo das
voniadcs. Ao conirario, iodo acordo dc voniadcs
prcssupõc a c×isicncia dc una socicdadc, dc
pcssoas quc convivcn, c o acordo nao podc
consisiir scnao cn prccisar una ou ouira forna
dcssa convivcncia, dcssa socicdadc prcc×isicnic.
A idcia da socicdadc cono rcuniao coniraiual,
porianio jurídica, c o nais inscnsaio cnsaio quc
sc fcz dc pór o carro adianic dos lois. Porquc o
21
dirciio, a rcalidadc ºdirciio" ÷ nao as idcias solrc
clc do filosofo, jurisia ou dcnagogo ÷ c, sc nc
pcrniicn a c×prcssao larroca, sccrcçao
csponianca da socicdadc c nao podc scr ouira
coisa. Oucrcr quc o dirciio rcja as rclaçõcs cnirc
scrcs quc prcviancnic nao vivcn cn cfciiva
socicdadc, parccc-nc ÷ pcrdoc-sc-nc a
insolcncia ÷ icr una idcia nuiio confusa do quc
c o dirciio.
Nao dcvc csiranIar, por ouira paric, a
prcpondcrancia dcssa opiniao confusa c ridícula
solrc o dirciio, porquc una das na×inas
dcsdiias do icnpo c quc, ao ioparcn os povos do
Ocidcnic con os icrrívcis confliios pullicos do
prcscnic, sc cnconiraran aparclIados con
insiruncnial arcaico c incficicnic dc noçõcs solrc
o quc c socicdadc, colciividadc, indivíduo, usos,
lci, jusiiça, rcvoluçao, cic. Doa paric da
inquiciaçao aiual provcn da incongrucncia cnirc
a pcrfciçao dc nossas idcias solrc os fcnóncnos
físicos c o airaso cscandaloso das ºcicncias
norais". O ninisiro, o profcssor, o físico ilusirc c
o novclisia socn icr dcssas coisas concciios
dignos dc un larlciro sulurlano. Nao c
pcrfciiancnic naiural quc scja o larlciro
sulurlano qucn dc a ionalidadc do icnpo?(2i
Mas volicnos a nossa roia. Oucria insinuar
quc os povos curopcus sao Ia nuiio icnpo una
socicdadc, una colciividadc, no ncsno scniido
22
quc icn csias palavras aplicadas a cada una das
naçõcs quc a inicgran. Essa socicdadc nanifcsia
iodos os airiluios possívcis. Ia cosiuncs
curopcus, usos curopcus, opiniao pullica
curopcia, dirciio curopcu, podcr pullico curopcu.
Mas iodos csscs fcnóncnos sociais sc dao na
forna adcquada ao csiado dc cvoluçao cn quc sc
cnconira a socicdadc curopcia, quc nao c,
cvidcnicncnic, iao avançado cono o dc scus
ncnlros conponcnics, as naçõcs.
Por c×cnplo. a forna dc prcssao social quc c
o podcr pullico funciona cn ioda socicdadc,
inclusivc naquclas priniiivas cn quc nao c×isic
ainda un organisno cspccial cncarrcgado dc
nancja-lo. Sc a cssc orgao difcrcnciado a qucn sc
cnircga o c×crcício do podcr pullico sc qucr
cIanar Esiado, diga-sc quc cn ccrias socicdadcs
nao Ia Esiado, nas nao sc diga quc nclas nao Ia
podcr pullico. Ondc Ia opiniao pullica, cono
podcra faliar un podcr pullico sc csic nao c nais
quc a violcncia colciiva susciiada por aqucla
opiniao? Ora lcn, quc Ia scculos c con
inicnsidadc crcsccnic c×isic una opiniao pullica
curopcia c aic una iccnica para influir ncla ÷ c
incónodo ncga-lo.
Por isso, rcconcndo ao lciior quc poupc a
nalignidadc dc un sorriso ao dcparar quc nos
uliinos capíiulos dcsic volunc sc faz con ccrio
dcnodo, anic o cariz oposio das aparcncias
23
aiuais, a afirnaçao dc una possívcl, dc una
provavcl unidadc csiaial da Europa. Nao ncgo
quc os Esiados Unidos da Europa sao una das
faniasias nais nodicas quc c×isicn c nao nc
solidarizo con o quc os ouiros pcnsaran sol
csscs signos vcrlais. Mas, por ouira paric, c
sunancnic inprovavcl quc una socicdadc, una
colciividadc iao nadura cono a quc ja fornan os
povos curopcus, andc longc dc criar para si scu
aricfaio csiaial ncdianic o qual fornalizc o
c×crcício do podcr pullico curopcu ja c×isicnic.
Nao c, pois, dclilidadc anic as soliciiaçõcs da
faniasia ncn propcnsao a un ºidcalisno" quc
dcicsio, c conira o qual Ici pugnado ioda a
ninIa vida, o quc nc lcva a pcnsar assin. Foi o
rcalisno Iisiorico quc nc cnsinou a vcr quc a
unidadc da Europa cono socicdadc nao c un
ºidcal", nas un faio dc vclIíssina coiidianidadc.
Ora lcn, una vcz quc sc viu isso, a
prolalilidadc dc un Esiado gcral curopcu inpõc-
sc ncccssariancnic. A ocasiao quc lcvc
suliiancnic a icrnino o proccsso podc scr
qualqucr, por c×cnplo, a colcra dc un cIincs quc
aparcça pclos Urais ou una sacudida do grandc
nagna islanico.
A figura dcssc Esiado supcr-nacional scra, c
claro, nuiio difcrcnic das usadas, cono, scgundo
ncsscs ncsnos capíiulos sc icnia nosirar, foi
nuiio difcrcnic o Esiado nacional do Esiado-
cidadc quc os aniigos conIcccran. Eu procurci
24
ncsias paginas pór cn franquia as ncnics para
quc sailan scr ficis à suiil conccpçao do Esiado c
socicdadc quc a iradiçao curopcia nos propõc.
Nunca foi facil ao pcnsancnio grcco-ronano
concclcr a rcalidadc cono dinanisno. Nao podia
dcsprcndcr-sc do visívcl ou scus succdancos,
cono un ncnino nao cnicndc do livro scnao as
ilusiraçõcs. Todos os csforços dc scus filosofos
auiocioncs para iransccndcr cssa liniiaçao foran
vaos. En iodos os scus cnsaios para
conprccndcr aiua, nais ou ncnos, cono
paradigna, o oljcio corporal, quc c, para clcs, a
ºcoisa" por c×cclcncia. So conscgucn vcr una
socicdadc, un Esiado ondc a unidadc icnIa
caraicr dc coniinuidadc visual; por c×cnplo, una
cidadc. A vocaçao ncnial do curopcu c oposia.
Toda coisa visívcl lIc parccc, cono ial, sinplcs
nascara aparcnic dc una força laicnic quc a csia
consianicncnic produzindo c quc c sua
vcrdadcira rcalidadc. Ali ondc a força, a dynanis,
aiua uniiariancnic, Ia rcal unidadc, cnlora à
visia sc nos aparcçan cono nanifcsiaçao dcla
apcnas coisas divcrsas.
Scria rccair na liniiaçao aniiga nao dcscolrir
unidadc dc podcr pullico apcnas ondc csic
ionou nascaras ja conIccidas c cono
solidificadas dc Esiado; isio c, nas naçõcs
pariicularcs da Europa. Ncgo rcdondancnic quc
o podcr pullico dccisivo aiuanic cn cada una
25
dclas consisia c×clusivancnic cn scu podcr
pullico inicrior ou nacional. Convcn cair dc una
vcz na conprccnsao dc quc Ia nuiios scculos ÷
c con conscicncia disso Ia quairo ÷ vivcn iodos
os povos da Europa sulnciidos a un podcr
pullico quc por sua propria purcza dinanica nao
iolcra ouira dcnoninaçao quc a c×iraída da
cicncia nccanica. o ºcquilílrio curopcu" ou
lalancc of Powcr.
Essc c o auicniico govcrno da Europa quc
rcgula cn scu vóo pcla Iisioria o cn×anc dc
povos, solíciios c pugnazcs cono alclIas,
cscapados às ruínas do nundo aniigo. A unidadc
da Europa nao c una faniasia, nas dc faio a
propria rcalidadc, c a faniasia c prccisancnic a
crcnça dc quc a França, a AlcnanIa, a Iialia ou a
EspanIa sao rcalidadcs sulsianiivas c
indcpcndcnics.
Conprccndc-sc, cnircianio, quc ncn iodo o
nundo pcrccla con cvidcncia a rcalidadc da
Europa, porquc a Europa nao c una ºcoisa", nas
un cquilílrio. Ja no scculo XVIII o Iisioriador
Folcrison qualificou o cquilílrio curopcu dc iIc
grcai sccrci of nodcrn poliiics.
Scgrcdo grandc c parado×al, scn duvida!
Porquc o cquilílrio ou lalança dc podcrcs c una
rcalidadc quc consisic csscncialncnic na
c×isicncia dc una pluralidadc. Sc cssa
26
pluralidadc sc pcrdc, aqucla unidadc dinanica sc
dcsvancccria. A Europa c, con cfciio, cn×anc;
nuiias alclIas c un so vóo.
Essc caraicr uniiario da nagnífica
pluralidadc curopcia c o a quc cu cIanaria loa
Ionogcncidadc, a quc c fccunda c dcscjavcl, a
quc fazia Monicsquicu dizcr. L'Europc n'csi
qu'unc naiion conposcc dc plusicurs,(3i c Dalzac,
nais ronaniicancnic, falava da grandc fanillc
coniincnialc, doni ious lcs cfforis icndcni à jc nc
sais qucl nysicrc dc civilisaiion.(4i

III

Esia nuliidao dc nodos curopcus quc
lroian consianicncnic dc sua radical unidadc c
rcvcric a cla nanicndo-a, c o naior icsouro do
Ocidcnic. Os Ioncns dc calcças ioscas nao
conscgucn congcninar una idcia iao acrolaiica
cono csia cn quc c prcciso saliar, scn dcscanso,
da afirnaçao da pluralidadc ao rcconIccincnio
da unidadc c vicc-vcrsa. Sao calcças pcsadas
nascidas para c×isiir sol as pcrpciuas iiranias do
Oricnic.
Triunfa Iojc solrc ioda a arca coniincnial
una forna dc Ionogcncidadc quc ancaça
consunir conplciancnic aquclc icsouro. Ondc
27
qucr quc icnIa surgido o Ioncn-nassa dc quc
csic volunc sc ocupa, un iipo dc Ioncn fciio dc
prcssa, noniado iao soncnic nunas quanias c
polrcs alsiraçõcs c quc, por isso ncsno, c
idcniico cn qualqucr paric da Europa. A clc sc
dcvc o irisic aspccio dc asfi×ianic nonoionia quc
vai ionando a vida cn iodo o coniincnic. Essc
Ioncn-nassa c o Ioncn prcviancnic dcspojado
dc sua propria Iisioria, scn cniranIas dc
passado c, por isso ncsno, docil a iodas as
disciplinas cIanadas ºinicrnacionais". Mais do
quc un Ioncn, c apcnas una carcaça dc
Ioncn consiiiuído por ncros idola fori; carccc dc
un ºdcniro", dc una iniinidadc sua, inc×oravcl c
inalicnavcl, dc un cu quc nao sc possa rcvogar.
Daí csiar scnprc cn disponililidadc para fingir
scr qualqucr coisa. Tcn so apciiics, crc quc so
icn dirciios c nao crc quc icn olrigaçõcs. c o
Ioncn scn nolrcza quc olriga ÷ sinc noliliiaic
÷ snol.(5i
Esic univcrsal snolisno, quc iao clarancnic
aparccc, por c×cnplo, no opcrario aiual, ccgou as
alnas para conprccndcr quc, cnlora ioda
csiruiura dada da vida coniincnial icnIa dc scr
iransccndida, iudo isso Ia dc sc fazcr scn pcrda
gravc dc sua inicrior pluralidadc. Cono o snol
csia vazio dc dcsiino proprio, cono nao salc quc
c×isic solrc o plancia para fazcr algo
dcicrninado c inpcrnuiavcl, c incapaz dc
cnicndcr quc Ia nissõcs pariicularcs c
28
ncnsagcns cspcciais. Por cssa razao c Iosiil ao
lilcralisno, con una Iosiilidadc quc sc
asscnclIa à do surdo cn rclaçao à palavra. A
lilcrdadc significou scnprc na Europa franquia
para scr o quc auicniicancnic sonos.
Conprccndc-sc quc aspirc a prcscindir dcla qucn
salc quc nao icn auicniico nisicr.
Con csiranIa facilidadc iodo o nundo sc
colocou dc acordo para conlaicr c injuriar o
vclIo lilcralisno. A coisa c suspciia. Porquc as
pcssoas nao cosiunan pór-sc dc acordo a nao
scr cn coisas un pouco vclIacas ou un pouco
iolas. Nao prcicndo quc o vclIo lilcralisno scja
una idcia plcnancnic razoavcl. cono podc scr sc
c vclIo c sc c isno! Mas sin pcnso quc c una
douirina solrc a socicdadc nuiio nais profunda
c clara do quc supõcn scus dciraiorcs
colciivisias, quc concçan por dcsconIccc-lo.
Adcnais, Ia nclc una iniuiçao do quc a Europa
icn sido, aliancnic pcrspicaz.
Ouando Cuizoi, por c×cnplo, conirapõc a
civilizaçao curopcia às dcnais fazcndo noiar quc
ncla nao iriunfou nunca cn forna alsoluia
ncnIun princípio, ncnIuna idcia, ncnIun
grupo ou classc, c quc a isso sc dcvc o scu
crcscincnio pcrnancnic c scu caraicr
progrcssivo, nao podcnos dci×ar dc pór o ouvido
aicnio(6i. Esic Ioncn salc o quc diz. A c×prcssao
c insuficicnic porquc c ncgaiiva, nas suas
29
palavras cIcgan-nos carrcgadas dc visõcs
incdiaias. Cono do ncrgulIador cncrgcnic
iransccndcn olorcs alisnais, vcnos quc csic
Ioncn cIcga cfciivancnic do profundo passado
da Europa ondc soulc sulncrgir. É, con cfciio,
incrívcl quc nos princiros anos do scculo XIX,
icnpo rciorico c dc grandc confusao, sc icnIa
conposio un livro cono a Hisioirc dc la
Civilisaiion cn Europc. Todavia o Ioncn dc Iojc
podc aprcndcr ali cono a lilcrdadc c o pluralisno
sao duas coisas rccíprocas c cono anlas
consiiiucn a pcrnancnic cniranIa da Europa.
Mas Cuizoi icvc scnprc pcssina pullicidadc,
cono cn gcral, os douirinarios. Nao nc
surprccndo. Ouando vcjo quc para un Ioncn ou
grupo sc dirigc facil c insisicnic o aplauso, surgc
cn nin a vccncnic suspciia dc quc ncssc
Ioncn ou ncssc grupo, ialvcz junio a doics
c×cclcnics, Ia algo solrcnodo inpuro. Talvcz isio
scja un crro cn quc incorro, nas dcvo dizcr quc
nao o procurci, quc o foi dcniro dc nin
dccaniando a c×pcricncia. Dc qualqucr nancira,
qucro icr a coragcn dc afirnar quc csic grupo dc
douirinarios, dc qucn iodo o nundo riu c fcz
nofas iruancscas, c, a ncu vcr, o nais valioso
quc Iouvc na políiica do coniincnic duranic o
scculo XIX. Foran os unicos quc viran
clarancnic o quc Iavia quc fazcr na Europa
dcpois da Crandc Fcvoluçao, c foran alcn disso
Ioncns quc criaran cn suas pcssoas una
30
aiiiudc digna c disianic, no ncio da rusiicidadc c
da frivolidadc crcsccnic daquclc scculo. Foias c
scn vigcncia quasc iodas as nornas con quc a
socicdadc prcsia una coniincncia ao indivíduo,
nao podia csic consiiiuir-sc una dignidadc sc
nao a c×iraía do fundo dc si ncsno. Mal podc
fazcr-sc isso scn alguna c×agcraçao, ainda quc
scja soncnic para sc dcfcndcr do alandono
orgiasiico cn quc vivia scu coniorno. Cuizoi
soulc scr, cono Dusicr Kcaion, o Ioncn quc
nao ri(7i. Nao sc alandona janais. Condcnsan-sc
nclc varias gcraçõcs dc proicsianics nincscs quc
Iavian vivido cn alcria pcrpciuo, scn podcr
fluiuar à dcriva no anlicnic social, scn podcr
alandonar-sc. Havia cIcgado a convcricr-sc nclcs
cn un insiinio a inprcssao radical dc quc c×isiir
c rcsisiir, fincar os calcanIarcs no cIao para sc
opor à corrcnicza. Nuna cpoca cono a nossa, c
lon ionar coniacio con os Ioncns quc nao ºsc
dci×an lcvar". Os douirinarios sao un caso
c×ccpcional dc rcsponsalilidadc iniclcciual; qucr
dizcr, do quc nais icn faliado aos iniclcciuais
curopcus dcsdc 1750, dcfciio quc c, por sua vcz,
una das causas profundas do prcscnic
dcsconccrio
Mas cu nao sci sc, ainda quc nc dirigindo a
lciiorcs franccscs, Posso aludir ao douirinarisno
cono a una nagniiudc conIccida. Pois sc da o
faio cscandaloso dc quc nao c×isic un so livro
ondc sc icnIa icniado prccisar o quc aquclc
31
grupo dc Ioncns pcnsava,(8i cono, ainda quc
parcça incrívcl, nao Ia ianpouco un livro
ncdianancnic fornal solrc Cuizoi ncn solrc
Foycr-Collard(9i. É vcrdadc quc ncn un ncn o
ouiro pullicaran janais un soncio. Mas, cnfin,
pcnsaran profundancnic, originalncnic, solrc
os prollcnas nais gravcs da vida pullica
curopcia, c consiiiuíran o douirinal políiico nais
csiinavcl dc ioda a ccniuria. Ncn scra possívcl
rcconsiruir a Iisioria dcsia sc nao sc csialclccc
iniinidadc con o nodo cn quc sc aprcscniaran
as grandcs qucsiõcs anic csics Ioncns(10i, Scu
csiilo iniclcciual nao c so difcrcnic cn cspccic,
nas o c dc ouiro gcncro c dc ouira csscncia cn
facc dc iodos os dcnais iriunfanics na Europa
anics c dcpois dclcs. Por isso nao os cnicndcran,
apcsar da sua classica lucidcz. E, iodavia, c
nuiio possívcl quc o porvir pcricnça a icndcncias
dc iniclccio nuiio scnclIanics às suas. Pclo
ncnos, asscguro a qucn sc proponIa fornular
con rigor sisicnaiico as idcias dos douirinarios,
prazcrcs dc pcnsancnio nao cspcrados c una
iniuiçao da rcalidadc social c políiica ioialncnic
difcrcnic das usadas. Pcrdura nclcs aiiva a
nclIor iradiçao racionalisia cn quc o Ioncn sc
conproncic consigo ncsno a procurar coisas
alsoluias; nas difcrcnicncnic do racionalisno
linfaiico dc cnciclopcdisias c rcvolucionarios, quc
cnconiran o alsoluio cn alsiraçõcs lon narcIc,
dcscolrcn clcs o Iisiorico con o vcrdadciro
32
alsoluio. A Iisioria c a rcalidadc do Ioncn. Nao
icn ouira. Ncla cIcgou a fazcr-sc ial c cono c.
Ncgar o passado c alsurdo c ilusorio, porquc o
passado c ºo naiural do Ioncn quc volia a
galopc". O passado nao csia prcscnic c nao icvc o
iralalIo dc aconicccr para quc o ncgucnos, nas
para quc o inicgrcnos(11i. Os douirinarios
dcsprczavan os ºdirciios do Ioncn" porquc sao
alsoluiancnic ºnciafísicos", alsiraçõcs c
irrcalidadcs. Os vcrdadciros dirciios sao os quc
alsoluiancnic csiao aí, porquc foran aparcccndo
c sc consolidando na Iisioria. iais sao as
ºlilcrdadcs", a lcgiiinidadc, a nagisiraiura, as
ºcapacidadcs". Sc alcniasscn Iojc rcconIcccrian
o dirciio dc grcvc (nao políiicai c o coniraio
colciivo. A un inglcs iudo isso parcccria olvio;
nas os coniincniais ainda nao cIcganos a cssa
csiaçao. Talvcz dcsdc o icnpo dc Alcuino
icnIanos vivido cinqucnia anos pclo ncnos
airasados a rcspciio dos inglcscs.
Igual dcsconIccincnio do vclIo lilcralisno
scnicn os colciivisias dc agora quando supõcn,
ncn nais ncn ncnos, cono coisa inqucsiionavcl,
quc cra individualisia. En iodos csics icnas
andan, cono cu dissc, as noçõcs solrcnodo
iurvas. Os russos dcsscs anos passados
cosiunavan cIanar a Fussia dc ºo colciivo". Nao
scria inicrcssanic avcriguar quc idcias ou
inagcns sc csprcguiçavan à invocaçao dcsic
vocalulo na ncnic un ianio gasosa do Ioncn
33
russo quc iao frcqucnicncnic, cono o capiiao
iialiano dc quc falava CociIc, lisogna avcr una
confusionc nclla icsia? Dianic disso iudo cu
rogaria ao lciior quc ionassc cn conia, nao para
acciia-las, nas para quc scjan discuiidas c
passcn dcpois à scnicnça, as scguinics icscs.
Princira. o lilcralisno individualisia pcricncc
à flora do scculo XVIII; inspira, cn paric, a
lcgislaçao da Fcvoluçao franccsa, nas norrc con
cla.
Scgunda. a criaçao caracicrísiica do scculo
XIX foi prccisancnic o colciivisno, É a princira
idcia quc invcnia apcnas nascido c quc ao longo
dc ccn anos nao fcz scnao crcsccr aic inundar
iodo o Iorizonic.
Tcrccira. csia idcia c dc origcn franccsa.
Aparccc pcla princira vcz nos arquircacionarios
dc Donald c dc Maisirc. No csscncial c
incdiaiancnic acciia por iodos, scn ouira
c×ccçao quc nao scja Dcnjanin Consiani, un
ºairasado" do scculo anicrior. Mas iriunfa cn
Saini-Sinon, cn DallancIc, cn Conic c pulula
por ioda a paric(12i. Por c×cnplo. un ncdico dc
Lyon, M. Anard, falara cn 1821 do collcciivisnc
cn facc do pcrsonnalisnc(13i. Lcian-sc os ariigos
quc cn 1830 c 1831 pullica L'Avcnir conira o
individualisno.
34
Mais inporianic, porcn, quc iudo isso c
ouira coisa. Ouando, avançando pcla ccniuria,
cIcganos aos grandcs icorizadorcs do lilcralisno
÷ Siuari Mill ou Spcnccr ÷ surprccndc-nos quc
sua suposia dcfcsa nao sc lascia cn nosirar quc
a lilcrdadc lcncficia ou inicrcssa a csic, nas
pclo conirario, cn quc inicrcssa c lcncficia à
socicdadc. O aspccio agrcssivo do iíiulo quc
Spcnccr cscolIc para scu livro ÷ O indivíduo
conira o Esiado ÷ icn sido causa dc quc o nao
cnicndan icinosancnic os quc nao lccn dos
livros scnao os iíiulos, Porquc indivíduo c Esiado
significan ncssc iiiulo dois ncros orgaos dc un
unico sujciio ÷ a socicdadc. E o quc sc discuic c
sc ccrias ncccssidadcs sociais sao nclIor
scrvidas por un ou pclo ouiro orgao. Nada nais.
O fanoso ºindividualisno" dc Spcnccr lo×cia
coniinuancnic dcniro da ainosfcra colciivisia dc
sua sociologia. O rcsuliado, no final, c quc ianio
clc cono Siuari Mill iraian os indivíduos con a
ncsna crucldadc socializanic con quc os
icrniias a ccrios dc scus congcncrcs, os quais
ccvan para dcpois cIupar-lIcs a sulsiancia. Aic
cssc ponio cra a prinazia do colciivo o fundo por
si ncsno cvidcnic solrc o qual ingcnuancnic
dançavan suas idcias!
Dc ondc sc infcrc quc ninIa dcfcsa
loIcngrincsca do vclIo lilcralisno c,
conplciancnic, dcsinicrcssada c graiuiia. Porquc
o caso c quc cu nao sou un ºvclIo lilcral". O
35
dcscolrincnio ÷ scn duvida glorioso c csscncial
÷ do social, do colciivo, cra dcnasiado rcccnic.
Aquclcs Ioncns apalpavan, nais do quc vian, o
faio dc quc a colciividadc c una rcalidadc
difcrcnic dos indivíduos c dc sua sinplcs sona,
nas nao salian lcn cn quc consisiia c quais
cran scus cfciivos airiluios. Por ouira paric, os
fcnóncnos sociais do icnpo canuflavan a
vcrdadcira ccononia da colciividadc, porquc
cniao convinIa a csia ocupar-sc cn ccvar lcn os
indivíduos. Nao cIcgara ainda a Iora da
nivclaçao, da cspoliaçao c da pariilIa cn iodas as
ordcns.
Daí quc os ºvclIos lilcrais" sc alrisscn scn
suficicnics prccauçõcs ao colciivisno quc
rcspiravan. Mas quando sc viu con clarcza o quc
no fcnóncno social, no faio colciivo,
sinplcsncnic c cono ial, Ia por un lado dc
lcncfício, porcn, por ouiro, dc icrrívcl, dc
pavoroso, so sc podc adcrir ao lilcralisno dc
csiilo radicalncnic novo, ncnos ingcnuo c dc
nais dcsira lcligcrancia, un lilcralisno quc csia
gcrninando ja, pro×ino a florcsccr, na linIa
ncsna do Iorizonic.
Ncn cra possívcl quc scndo csics Ioncns,
cono cran, fariancnic pcrspicazcs, nao
cnircvisscn dc quando cn quando as angusiias
quc scu icnpo nos rcscrvava. Conira o quc soi
acrcdiiar-sc icn sido nornal na Iisioria quc o
36
porvir scja profciizado(14i. En Macaulay, cn
Tocqucvillc, cn Conic, cnconiranos prc-
dcscnIada nossa Iora. Vcja-sc, por c×cnplo, o
quc Ia nais dc oiicnia anos cscrcvia Siuari Mill.
ºÀ paric as douirinas pariicularcs dc pcnsadorcs
individuais, c×isic no nundo una foric c
crcsccnic inclinaçao a csicndcr cn forna c×ircna
o podcr da socicdadc solrc o indivíduo, ianio por
ncio da força da opiniao cono pcla lcgislaiiva.
Ora lcn, cono iodas as nudanças quc sc
opcran no nundo icn por cfciio o auncnio da
força social c a dininuiçao do podcr individual,
csic dcslordancnio nao c un nal quc icnda a
dcsaparcccr csponiancancnic, nas, ao conirario,
icndc a fazcr-sc cada vcz nais fornidavcl. A
disposiçao dos Ioncns, scja cono solcranos,
scja cono concidadaos, a inpor aos dcnais cono
rcgra dc conduia sua opiniao c scus gosios, sc
acIa iao cncrgicancnic susicniada por alguns
dos nclIorcs c alguns dos piorcs scniincnios
incrcnics à naiurcza Iunana, quc quasc nunca
sc rcprinc scnao quando lIc falia podcr. E cono
o podcr nao parccc acIar-sc cn via dc dcclinar,
nas dc crcsccr, dcvcnos cspcrar, a ncnos quc
una foric larrcira dc convicçao noral nao sc
clcvc conira o nal, dcvcnos cspcrar, digo, quc
nas condiçõcs prcscnics do nundo csia
disposiçao nada fara scnao auncniar"(15i.
Mas o quc nais nos inicrcssa cn Siuari Mill
c sua prcocupaçao pcla Ionogcncidadc dc na
37
classc quc via crcsccr cn iodo o Ocidcnic. Isso o
faz acolIcr-sc a un grandc pcnsancnio cniiido
por Hunloldi na sua juvcniudc. Para quc o
Iunano sc cnriqucça, sc consolidc c sc apcrfciçoc
c ncccssario, scgundo Hunloldi, quc c×isia
ºvaricdadc dc siiuaçõcs"(16i. Dcniro dc cada
naçao, c ionando cn conjunio as naçõcs, c
prcciso quc sc dccn circunsiancias difcrcnics.
Assin, ao falIar una rcsian ouiras
possililidadcs alcrias. E inscnsaio pór a vida
curopcia nuna so caria, nun so iipo dc Ioncn,
nuna idcniica ºsiiuaçao". Eviiar isso icn sido o
sccrcio accrio da Europa aic Iojc, c a conscicncia
dcssc scgrcdo c a quc, clara ou lallucianic,
novcu scnprc os lalios do pcrcnc lilcralisno
curopcu. Ncssa conscicncia sc rcconIccc a si
ncsna cono valor posiiivo, cono lcn c nao
cono nal, a pluralidadc coniincnial. Inporiava-
nc csclarcccr isso para quc nao sc icrgivcrsc a
idcia dc una supcraçao curopcia quc csic volunc
posiula.
Tal c cono vanos, con a níngua progrcssiva
da ºvaricdadc dc siiuaçõcs", caninIanos cn
linIa rcia para o Dai×o Inpcrio. Tanlcn foi
aquclc un icnpo dc nassa c dc pavorosa
Ionogcncidadc. Ja no icnpo dos Anioninos sc
noia clarancnic un csiranIo fcnóncno, ncnos
sullinIado c analisado do quc dcvcra. os Ioncns
iornaran-sc csiupidos, O proccsso vinIa dc
icnpos airas. Dissc-sc, con alguna razao, quc o
38
csioico Possidónio, ncsirc dc Cíccro, c o uliino
Ioncn aniigo capaz dc sc colocar anic os faios
con a ncnic porosa c aiiva, disposio a invcsiiga-
los. Dcpois dclc, as calcças sc olliicran, c salvo
os Alc×andrinos, nao farao ouira coisa scnao
rcpciir, csicrcoiipar.
Mas o sisicna c docuncnio nais icrrívcl
dcsia forna, a un icnpo Ionogcnca c csiupida
÷ c una cquivalc à ouira ÷ quc adoia a vida dc
un a ouiro c×ircno do Inpcrio, csia ondc ncnos
sc podia cspcrar c ondc iodavia, quc cu saila,
ningucn o procurou. no idiona. A língua, quc
nao nos scrvc para dizcr suficicnicncnic o quc
cada un dc nos quiscranos dizcr, rcvcla pclo
conirario c griia, scn quc o quciranos, a
condiçao nais arcana da socicdadc quc a fala. Na
porçao nais Iclcnizada do povo ronano, a língua
vigcnic c a quc sc cIanou ºlaiin vulgar", nairiz
dc nossos ronanccs. Nao sc conIccc lcn csic
laiin vulgar c, cn loa paric, so sc cIcga a clc
ncdianic rcconsiruçõcs. Mas o quc sc conIccc
lasia c solra para quc nos cspanicn dois dc
scus caracicrcs. Un c a incrívcl sinplificaçao do
scu nccanisno granaiical cn conparaçao con o
laiin classico. A salorosa conplc×idadc indo-
curopcia, quc conscrvava a linguagcn das classcs
supcriorcs, ficou suplaniada por una fala
plclcia, dc nccanisno nuiio facil, porcn, ao
ncsno icnpo, ou por isso ncsno, pcsadancnic
nccanico, cono naicrial; granaiica lallucianic
39
c pcrifrasiica, dc cnsaio c rodcio cono a infaniil.
E, cfciivancnic, una língua pucril ou gaga quc
nao pcrniic a fina arcsia do raciocínio ncn líricas
canlianics. É una língua scn luz ncn
icnpcraiura, scn cvidcncia c scn calor dc alna,
una língua irisic, quc avança às ccgas. Os
vocalulos parcccn vclIas nocdas dc colrc,
inundas c scn roiundidadc, cono farias dc rolar
pclas ialcrnas ncdiicrrancas. Ouc vidas
cvadidas dc si ncsnas, dcsoladas, condcnadas à
cicrna coiidianidadc sc adivinIan airas dcssc
scco aricfaio linguísiico!
O ouiro caraicr aicrrador do laiin vulgar c
prccisancnic sua Ionogcncidadc. Os linguisias,
quc sao ialvcz, dcpois dos aviadorcs, os Ioncns
ncnos disposios a assusiar-sc con coisa alguna,
nao parcccn adnirar-sc anic o faio dc quc
falasscn da ncsna nancira paíscs iao dísparcs
cono Cariago c Calia, Tingiiania c Dalnacia,
Hispania c Funania. Eu, pclo conirario, quc sou
lasianic iínido, quc ircno quando vcjo cono o
vcnio faiiga uns caniços, nao posso rcprinir anic
cssc faio un csircnccincnio ncdular. Parccc-nc
sinplcsncnic airoz. E vcrdadc quc iraio dc nc
rcprcscniar cono cra por dcniro isso quc olIado
dc fora nos aparccc, iranquilancnic, cono
Ionogcncidadc; procuro dcscolrir a rcalidadc
vivcnic dc quc cssc faio c a quicia narca. Consia,
c claro, quc Iavia africanisnos, Iispanisnos,
galicisnos. Mas ao consiar isio qucr dizcr-sc quc
40
o iorso da língua cra conun c idcniico, apcsar
das disiancias, do cscasso inicrcanlio, da
dificuldadc dc conunicaçõcs c dc quc nao
coniriluía para fi×a-lo una liicraiura. Cono
podian vir à coincidcncia o ccliilcro c o lclga, o
norador dc Hipona c o dc Luiccia, o nauriianio c
o dacio, scnao cn viriudc dc un acIaiancnio
gcral, rcduzindo a c×isicncia à sua lasc,
nulificando suas vidas? O laiin vulgar csia aí nos
arquivos, cono un arrcpianic cnpcdcrnincnio,
icsicnunIo dc quc una vcz a Iisioria agonizou
sol o inpcrio Ionogcnco da vulgaridadc por
Iavcr dcsaparccido a fcriil ºvaricdadc dc
siiuaçõcs".

IV

Ncn csic volunc ncn cu sonos políiicos. O
assunio dc quc aqui sc fala c prcvio à políiica c
pcricncc a scu sulsolo. Mcu iralalIo c olscuro
lalor sulicrranco dc ninciro. A nissao do
cIanado ºiniclcciual" c, cn ccrio nodo, oposia à
do políiico. A olra iniclcciual aspira, con
frcqucncia laldada, a csclarcccr un pouco as
coisas, cnquanio a do políiico soi, pclo conirario,
consisiir cn confundi-las nais do quc csiavan.
Scr da csqucrda c, cono scr da dirciia, una das
infiniias nanciras quc o Ioncn podc cscolIcr
41
para scr inlccil. anlas, con cfciio, sao fornas
da Icniplcgia noral. Adcnais, a pcrsisicncia
dcsics qualificaiivos conirilui nao pouco a
falsificar nais ainda a ºrcalidadc" do prcscnic, ja
fala dc pcr si, porquc sc cncrcspou o crcspo das
c×pcricncias políiicas a quc rcspondcn, cono o
dcnonsira o faio dc quc Iojc as dirciias
proncicn rcvoluçõcs c as csqucrdas propõcn
iiranias.
Ha olrigaçõcs dc iralalIar solrc as qucsiõcs
do icnpo. Isio, scn duvida. E cu o fiz duranic
ioda a ninIa vida. Scnprc csiivc na csiacada.
Mas una das coisas quc agora sc dizcn ÷ una
ºcorrcnic" ÷ c quc, incluso a cusio da claridadc
ncnial, iodo o nundo icn dc fazcr políiica scnsu
siricio. Dizcn-no, c claro, os quc nao icn ouira
coisa quc fazcr. E aic o corroloran ciiando dc
Pascal o inpcraiivo d'alciisscncni. Mas Ia nuiio
icnpo quc aprcndi a ficar cn guarda quando
algucn ciia Pascal. E una cauicla dc Iigicnc
clcncnial.
O poliiicisno inicgral, a alsorçao dc iodas as
coisas c dc iodo o Ioncn pcla políiica, c una c
ncsna coisa con o fcnóncno dc rclcliao das
nassas quc aqui sc dcscrcvc. A nassa cn
rclcldia pcrdcu ioda a capacidadc dc rcligiao c dc
conIccincnio. Nao podc icr dcniro nais quc
políiica c×orliiada, frcnciica, fora dc si, posio quc
prcicnda suplaniar o conIccincnio, a rcligiao, a
42
sagcssc ÷ cnfin, as unicas coisas quc por sua
sulsiancia sao apias para ocupar o ccniro da
ncnic Iunana ÷. A políiica dcspoja o Ioncn dc
solidao c iniinidadc, c por isso c a prcdicaçao do
poliiicisno inicgral una das iccnicas quc sc
usan para socializa-lo.
Ouando algucn nos pcrgunia o quc sonos
cn políiica, ou, aniccipando-sc con a insolcncia
quc pcricncc ao csiilo dc nosso icnpo, nos
adscrcvc sinuliancancnic cn vcz dc rcspondcr
dcvcnos pcrguniar ao inpcriincnic quc pcnsa clc
quc c o Ioncn c a naiurcza c a Iisioria, quc c a
socicdadc c o indivíduo, a colciividadc, o Esiado,
o uso, o dirciio. A políiica aprcssa-sc a apagar as
luzcs para quc iodos csics gaios scjan pardos.
É prcciso quc o pcnsancnio curopcu
proporcionc solrc iodos csics icnas nova
claridadc. Para isso csia aí, nao para fazcr o lcquc
do pavao rcal nas rcuniõcs acadcnicas. E c
prcciso quc o faça proniancnic ou, cono dizia
Danic, quc cnconirc a saída,
siudiaic il passo
Mcnirc quc l'Occidcnic non s'anncra.
(Purg. XXVII, 62-63i
Isso scria o unico dc quc podcria cspcrar-sc
con alguna prolalilidadc a soluçao do ircncndo
prollcna quc as nassas aiuais avcnian.
43
Esic volunc nao prcicndc, ncn dc longc,
nada parccido. Cono suas uliinas palavras
fazcn consiar, c so una princira apro×inaçao ao
prollcna do Ioncn aiual. Para falar solrc clc
nais scriancnic c nais profundancnic nao
Iavcria nais rcncdio scnao pór-sc cn roupa
alissal, vcsiir o cscafandro c dcsccr ao nais
profundo do Ioncn. Inporia fazcr isso scn
prcicnsõcs, nas con dccisao, c cu o icnici nun
livro pro×ino a aparcccr cn ouiros idionas sol o
iíiulo El Ionlrc y la gcnic.
Una vcz quc nos afiguranos lcn dc cono c
cssc iipo Iunano Iojc doninanic, c quc cu
cIanci o Ioncn-nassa, c quando sc susciian
as inicrrogaçõcs nais fcricis c nais dranaiicas.
Podc-sc rcfornar csic iipo dc Ioncn? Oucro
dizcr. os gravcs dcfciios quc Ia nclc, iao gravcs
quc sc nao os c×iirpanos produzirao dc nodo
inc×oravcl a aniquilaçao do Ocidcnic, iolcran scr
corrigidos? Porquc, cono vcra o lciior, sc iraia
prccisancnic dc un Ioncn Icrnciico, quc nao
csia alcrio dc vcrdadc a ncnIuna insiancia
supcrior.
A ouira pcrgunia dccisiva, da qual, a ncu
juízo, dcpcndc ioda possililidadc dc saudc, c
csia. podcn as nassas, ainda quc quiscsscn,
dcspcriar a vida pcssoal? Nao calc dcscnvolvcr
aqui o ircncndo icna, porquc csia dcnasiado
virgcn. Os icrnos con quc dcvc scr lcvaniado
44
nao consian na conscicncia pullica. Ncn scqucr
csia csloçado o csiudo da disiinia nargcn dc
individualidadc quc cada cpoca do passado
dci×ou à c×isicncia Iunana. Porquc c pura
incrcia ncnial do ºprogrcssisno" supor quc
confornc avança a Iisioria, assin crcscc a folga
quc sc conccdc ao Ioncn para podcr scr
indivíduo pcssoal, cono cria o Ionrado
cngcnIciro, nas nulo Iisioriador, Hcrlcri
Spcnccr. Nao; a Iisioria csia cIcia dc rciroccssos
ncsia ordcn, c ialvcz a csiruiura da vida cn
nossa cpoca inpcça supcrlaiivancnic quc o
Ioncn possa vivcr cono pcssoa.
Ao conicnplar nas grandcs cidadcs cssas
incnsas agloncraçõcs dc scrcs Iunanos, quc
vao c vcn por suas ruas ou sc conccniran cn
fcsiivais c nanifcsiaçõcs políiicas, incorpora-sc
cn nin, olscdanic, csic pcnsancnio. Podc Iojc
un Ioncn dc vinic anos fornar un projcio dc
vida quc icnIa figura individual c quc, porianio,
ncccssiiaria rcalizar-sc ncdianic suas iniciaiivas
indcpcndcnics, ncdianic scus csforços
pariicularcs? Ao icniar o dcscnvolvincnio dcsia
inagcn cn sua faniasia, nao noiara quc c, scnao
inpossívcl, quasc inprovavcl, porquc nao Ia a
sua disposiçao cspaço cn quc possa aloja-la c cn
quc possa novcr-sc scgundo scu proprio diianc?
Logo advcriira quc scu projcio iropcça con o
pro×ino, cono a vida do pro×ino apcria a sua. O
dcsanino o lcvara con a facilidadc dc adapiaçao
45
propria dc sua idadc a rcnunciar nao so a iodo
aio, cono aic a iodo dcscjo pcssoal c luscara a
soluçao oposia. inaginara para si una vida
siandard, conposia dc dcsidcraia conuns a
iodos c vcra quc para conscgui-la icn dc soliciia-
la ou c×igi-la cn colciividadc con os dcnais. Daí
a açao cn nassa.
A coisa c Iorrívcl, nas nao crcio quc c×agcra
a siiuaçao cfciiva cn quc sc vao acIando quasc
iodos os curopcus. En una prisao ondc sc
anonioaran nuiio nais prcsos dos quc calcn,
ningucn podc novcr un lraço ou una pcrna por
iniciaiiva propria, porquc cIocaria con os corpos
dos dcnais. En ial circunsiancia, os novincnios
icn dc sc c×ccuiar cn conun, c aic os nusculos
rcspiraiorios icn dc funcionar a riino dc
rcgulancnio. Isio scria a Europa convcriida cn
forniguciro. Mas ncn scqucr csia crucl inagcn c
una soluçao. O forniguciro Iunano c
inpossívcl, porquc foi o cIanado
ºindividualisno", quc cnriqucccu o nundo c a
iodos no nundo c foi csia riqucza quc prolificou
iao falulosancnic a plania Iunana. Ouando os
rcsios dcssc ºindividualisno" dcsaparcccsscn,
faria sua rcapariçao na Europa o csfoncancnio
giganicsco do Dai×o Inpcrio, c o forniguciro
sucunliria cono ao sopro dc un dcus iorvo c
vingaiivo. Fcsiarian nuiio ncnos Ioncns, quc o
scrian un pouco nais.
46
Anic o fcroz paiciisno dcsia qucsiao quc,
quciranos ou nao, csia visívcl, o icna da ºjusiiça
social", apcsar dc iao rcspciiavcl, cnpalidccc c sc
dcgrada aic parcccr rciorico c insinccro suspiro
ronaniico. Mas, ao ncsno icnpo, oricnia solrc
os caninIos accriados para conscguir o quc
dcssa ºjusiiça social", c possívcl c c jusio
conscguir, caninIos quc nao parcccn passar por
una niscravcl socializaçao, nas dirigir-sc cn
linIa rcia para un nagnanino solidarisno. Esic
uliino vocalulo c, alcn do nais, inopcranic,
porquc aic Iojc nao sc condcnsou nclc un
sisicna cncrgico dc idcias Iisioricas c sociais,
pclo conirario rcssuna so vagas filaniropias.
A princira condiçao para un nclIorancnio
da siiuaçao prcscnic c pcrcclcr lcn sua cnornc
dificuldadc. So isio nos lcvara a aiacar o nal nos
csiraios fundos dc ondc vcrdadcirancnic sc
origina. É, con cfciio, nuiio difícil salvar una
civilizaçao quando lIc cIcgou a Iora dc cair sol o
podcr dos dcnagogos. Os dcnagogos icn sido
apcnas os grandcs csiranguladorcs dc
civilizaçõcs. A grcga c a ronana sucunliran nas
naos dcsia fauna rcpugnanic, quc fazia
Macaulay c×clanar. ºEn iodos os scculos, os
c×cnplos nais vis da naiurcza Iunana dcparan-
sc cnirc os dcnagogos"(17i. Mas un Ioncn nao c
dcnagogo soncnic porquc sc ponIa a griiar anic
a nuliidao. Isso podc scr cn ocasiõcs una
nagisiraiura sacrossania. A dcnagogia csscncial
47
do dcnagogo csia dcniro dc sua ncnic, radica cn
sua irrcsponsalilidadc anic as idcias ncsnas
quc nancja c quc clc nao criou, nas rccclcu dos
vcrdadciros criadorcs. A dcnagogia c una forna
dc dcgcncraçao iniclcciual, quc cono anplo
fcnóncno da Iisioria curopcia aparccc na França
cn 1750. Por quc cniao? Por quc na França? Esic
c un dos ponios ncvralgicos do dcsiino ocidcnial
c cspccialncnic do dcsiino franccs.
Isso c o quc, dcsdc cniao, crc a França, c por
sua irradiaçao, quasc iodo o coniincnic, quc o
nciodo para rcsolvcr os grandcs prollcnas
Iunanos c o nciodo da rcvoluçao, cnicndcndo
por ial o quc ja Lcilniiz cIanava una ºrcvoluçao
gcral"(18i, a voniadc dc iransfornar dc cIofrc iudo
c cn iodos os gcncros(19i. Craças a isso cssa
naravilIa quc c a França cIcga cn nas
condiçõcs à difícil conjuniura do prcscnic. Porquc
cssc país icn ou crc quc icn una iradiçao
rcvolucionaria. E sc scr rcvolucionario c ja coisa
gravc, quanio nais sc-lo, parado×alncnic, por
iradiçao! É vcrdadc quc na França fcz-sc una
Crandc Fcvoluçao c varias iorvas ou ridículas;
nas, sc nos aicnos à vcrdadc nua dos anais, o
quc cnconiranos c quc cssas rcvoluçõcs scrviran
principalncnic para quc duranic iodo un scculo,
salvo uns dias ou unas scnanas, a França icnIa
vivido nais quc ouiro qualqucr povo sol fornas
políiicas, cn naior ou ncnor cscala, auioriiarias
c conira-rcvolucionarias. Solrciudo, a grandc
48
dcprcssao noral da Iisioria franccsa quc foran
os vinic anos do Scgundo Inpcrio, dcvcu-sc lcn
clarancnic à c×iravagancia dos rcvolucionarios
dc 1848(20i, grandc paric dos quais confcssou o
proprio Faspail quc Iavian sido anics clicnics
scus.
Nas rcvoluçõcs icnia a alsiraçao sullcvar-sc
conira o concrcio; por isso c consulsiancial às
rcvoluçõcs o fracasso. Os prollcnas Iunanos
nao sao, cono os asironónicos ou os quínicos,
alsiraios. Sao prollcnas dc na×ina concrcçao,
porquc sao Iisioricos. E o unico nciodo dc
pcnsancnio quc proporciona alguna
prolalilidadc dc accrio cn sua nanipulaçao c a
ºrazao Iisiorica". Ouando sc conicnpla
panoranicancnic a vida pullica da França
duranic os uliinos ccnio c cinqucnia anos, salia
à visia quc scus gcónciras, scus físicos c scus
ncdicos sc cquivocaran scnprc cn scus juízos
políiicos, c quc conscguiran ao conirario, accriar
scus Iisioriadorcs. Mas o racionalisno físico-
naicnaiico icn sido na França dcnasiado
glorioso para quc nao iiranizc a opiniao pullica.
MalclrancIc ronpc con un anigo scu porquc
viu solrc sua ncsa un Tucídidcs(21i.
Esics ncscs passados, inpclindo ninIa
solidao pclas ruas dc Paris, conprccndi quc cu
nao conIccia ningucn na grandc cidadc, salvo as
csiaiuas. Algunas dcsias, cnircianio, sao vclIas
49
anizadcs, aniigas inciiaçõcs ou pcrcncs ncsircs
dc ninIa iniinidadc. E cono nao iinIa con
qucn falar, convcrsci con clas solrc grandcs
icnas Iunanos. Nao sci sc algun dia sairao à
luz csias Convcrsacioncs con csiaiuas, quc
dulcificaran una ciapa dolorosa c csicril dc
ninIa vida. Nclas sc raciocina con o narqucs dc
Condorcci, quc csia no Ouai Conii, solrc a
pcrigosa idcia do progrcsso. Con o pcqucno
lusio dc Conic quc Ia cn scu dcpariancnio da
ruc Monsicur-lc-Princc falci solrc pouvoir
spiriiucl, insuficicnicncnic c×crcido por
nandarins liicrarios c por una Univcrsidadc quc
ficou conplciancnic c×ccnirica dianic da cfciiva
vida das naçõcs. Ao ncsno icnpo iivc a Ionra dc
rccclcr o cncargo dc una cncrgica ncnsagcn
quc cssc lusio dirigc ao ouiro, ao grandc, crigido
na praça dc Sorlonnc, c quc c o lusio do falso
Conic, do oficial, do dc Liiirc. Mas cra naiural
quc nc inicrcssassc solrciudo cn ouvir una vcz
nais a palavra do nosso suno ncsirc Dcscarics,
o Ioncn a qucn a Europa nais dcvc.
O puro acaso quc ciranda ninIa c×isicncia
fcz quc cu rcdija csias linIas icndo à visia o lugar
da Holanda cn quc Ialiiou cn 1642 o novo
dcscolridor da raison. Esic lugar, cIanado
Endagccsi, cujas arvorcs dao sonlra a ninIa
jancla, c Iojc un nanicónio. Duas vczcs ao dia
÷ cn adnocsiadora vizinIança ÷ vcjo passar os
50
idioias c os dcncnics quc arcjan por noncnios à
inicnpcric sua nalograda Iunanidadc.
Trcs scculos dc c×pcricncia ºracionalisia"
olrigan-nos a rcncnorar o csplcndor c os liniics
daqucla prodigiosa raison caricsiana. Esia raison
c so naicnaiica, física, liologica. Scus falulosos
iriunfos solrc a naiurcza, supcriorcs a quanio
pudcra sonIar-sc, sullinIan ianio nais scu
fracasso anic os assunios propriancnic Iunanos
c convidan a inicgra-la cn ouira razao nais
radical, quc c a ºrazao Iisiorica"(22i.
Esia nos nosira a vaidadc dc ioda rcvoluçao
gcral, dc iudo quanio scja icniar a iransfornaçao
suliia dc una socicdadc c concçar dc novo a
Iisioria, cono prcicndian os confusonarios do
89. Ao nciodo da rcvoluçao opõc o unico digno
da larga c×pcricncia quc o curopcu aiual icn
airas dc si. As rcvoluçõcs iao inconiincnics cn
sua prcssa, Iipocriiancnic gcncrosa, dc
proclanar dirciios, violaran scnprc, cspczinIado
c csfarrapado, o dirciio fundancnial do Ioncn,
iao fundancnial quc c a dcfiniçao ncsna dc sua
sulsiancia. o dirciio à coniinuidadc. A unica
difcrcnça radical cnirc a Iisioria Iunana c a
ºIisioria naiural" c quc aqucla nao podc nunca
concçar dc novo. KöIlcr c ouiros nosiraran
cono o cIinpanzc c o orangoiango nao sc
difcrcncian do Ioncn pclo quc, falando
rigorosancnic, cIananos inicligcncia, nas
51
porquc icn nuiio ncnos ncnoria quc nos. Os
polrcs aninais cada nanIa csqucccn quasc
iudo quc vivcran no dia anicrior, c scu iniclccio
icn dc iralalIar solrc un nínino naicrial dc
c×pcricncias. ScnclIanicncnic, o iigrc dc Iojc c
idcniico ao dc scis nil anos, porquc cada iigrc
icn dc concçar dc novo a scr iigrc, cono sc nao
Iouvcssc ouiro anics. O Ioncn, pclo conirario,
ncrcc dc scu podcr dc rccordar, acunula scu
proprio passado, possui-o c o aprovciia. O
Ioncn nao c nunca un princiro Ioncn.
concça dcsdc logo a c×isiir solrc ccria aliiiudc
dc prcicriio anonioado. Esic c o icsouro unico do
Ioncn, scu privilcgio c sua narca. E a riqucza
ncnor dcssc icsouro consisic no quc dclc parcça
accriado c digno dc conscrvar-sc. o inporianic c
a ncnoria dos crros, quc nos pcrniic nao
concicr os ncsnos scnprc. O vcrdadciro icsouro
do Ioncn c o icsouro dos scus crros, a c×icnsa
c×pcricncia viial dccaniada goia a goia cn
nilcnios. Por isso NicizscIc dcfinc o Ioncn
supcrior cono o scr ºdc ncnoria nais
dcscnvolvida."
Fonpcr a coniinuidadc con o passado,
qucrcr concçar dc novo, c aspirar a dcsccr c
plagiar o orangoiango. Apraz-nc quc scja un
franccs, Duponi-WIiic, quc cn 1860 sc aircvcssc
a clanar. ºLa coniinuiic csi un droii dc l'Ionnc;
cllc csi un Ionnagc à ioui cc qui lc disiinguc dc
la lcic"(23i.
52
Dianic dc nin csia un jornal cn quc acalo
dc lcr o rclaio das fcsias con quc a Inglaicrra
cclclrou a coroaçao do novo rci. Diz-sc quc Ia
nuiio a Monarquia inglcsa c una insiiiuiçao
ncrancnic sinlolica. Isso c vcrdadc, nas
dizcndo-o assin dci×anos cscapar o nclIor.
Porquc, cfciivancnic, a Monarquia nao c×crcc no
Inpcrio lriianico ncnIuna funçao naicrial c
palpavcl. Scu papcl nao c govcrnar, ncn
adninisirar a jusiiça, ncn nandar o E×crciio.
Mas ncn por isso c una insiiiuiçao vazia, carcnic
dc scrviço. A Monarquia da Inglaicrra c×crcc una
funçao dcicrninadíssina c dc alia cficacia. a dc
sinlolizar. Por isso o povo inglcs, con dclilcrado
proposiio, dcu agora inusiiada solcnidadc ao riio
da coroaçao. Anic a iurlulcncia aiual do
coniincnic quis afirnar as nornas pcrnancnics
quc rcgulan sua vida. Dcu-nos nais una liçao.
Cono scnprc ÷ ja quc a Europa scnprc parcccu
un iropcl dc povos ÷, os coniincniais, cIcios dc
gcnio, nas iscnios dc scrcnidadc, nunca
naduros, scnprc pucris, c ao fundo, airas dclcs,
a Inglaicrra... cono a nursc da Europa.
Esic c o povo quc scnprc cIcgou anics ao
porvir, quc sc aniccipou a iodos cn quasc iodas
as ordcns. Praiicancnic dcvcríanos oniiir o
quasc. E cis aqui quc csic povo nos olriga, con
ccria inpcriincncia do nais puro dandysno, a
prcscnciar scu vciusio ccrinonial c a vcr cono
aiuan ÷ porquc nao dci×aran nunca dc scr
53
aiuais os nais vclIos c nagicos uicnsílios dc sua
Iisioria, a coroa c o cciro quc cnirc nos rcgcn
apcnas a soric do laralIo. O inglcs faz cnpcnIo
dc nos fazcr consiar quc scu passado,
prccisancnic porquc passou, porquc lIc passou,
coniinua c×isiindo para clc. Dcsdc un fuiuro ao
qual nao cIcganos nosira-nos a vigcncia louça
dc scu prcicriio(24i, Esic povo circula por iodo o
scu icnpo, c vcrdadcirancnic scnIor dc scus
scculos, quc conscrva cn aiiva possc. E isso c scr
un povo dc Ioncns. podcr Iojc coniinuar no scu
onicn scn por isso dci×ar dc vivcr para o fuiuro,
podcr c×isiir no vcrdadciro prcscnic, ja quc o
prcscnic c so a prcscnça do passado c do porvir,
o lugar ondc prcicriio c fuiuro cfciivancnic
c×isicn.
Con as fcsias sinlolicas da coroaçao, a
Inglaicrra opós, nais una vcz, ao nciodo
rcvolucionario o nciodo da coniinuidadc, o unico
quc podc cviiar na narcIa das coisas Iunanas
cssc aspccio paiologico quc faz da Iisioria una
luia ilusirc c pcrcnc cnirc os paralíiicos c os
cpilciicos.

V

54
Cono ncsias paginas sc faz a anaionia do
Ioncn Iojc doninanic, proccdo pariindo dc scu
aspccio c×icrno, por assin dizcr, dc sua pclc, c
dcpois pcnciro un pouco nais cn dircçao a suas
vísccras. Daí por quc scjan os princiros
capíiulos os quc nais caducaran. A pclc do
icnpo nudou. O lciior dcvcria, ao lcr csscs
capíiulos, rciroccdcr aos anos 1926-1928. Ja
concçou a crisc na Europa, nas ainda parccc
una dc ianias. As pcssoas ainda scnicn-sc cn
scgurança. Ainda gozan os lu×os da inflaçao. E,
solrciudo, pcnsava-sc. aí csia a Ancrica! Era a
Ancrica da falulosa prospcriiy.
O unico do quc vai diio ncsias paginas quc
nc inspira algun orgulIo, c nao Iavcr incorrido
no inconcclívcl crro dc oiica quc sofrcran cniao
quasc iodos os curopcus, inclusivc os proprios
ccononisias. Porquc nao convcn csqucccr quc
cniao sc pcnsava nui scriancnic quc os
ancricanos Iavian dcscolcrio ouira organizaçao
da vida quc anulava para scnprc as pcrpciuas
pragas Iunanas quc sao as criscs. Eu nc
cnvcrgonIava dc quc os curopcus, invcniorcs do
nais clcvado quc aic agora sc invcniou ÷ o
scniido Iisiorico ÷, nosirasscn carcccr dclc
conplciancnic. O vclIo lugar conun dc quc a
Ancrica c o porvir Iavia nullado por insianics
sua pcrspicacia. Tivc cniao a coragcn dc nc opor
a scnclIanic dcslizc, susicniando quc a Ancrica,
longc dc scr o fuiuro, cra, na rcalidadc, un
55
rcnoio passado porquc cra priniiivisno. E,
ianlcn conira o quc sc crc, cra-o c o c nuiio
nais a Ancrica do Noric do quc a Ancrica do
Sul, a Iispanica. Hojc a coisa vai scndo clara c os
Esiados Unidos nao cnvian ja ao vclIo
coniincnic scnIoriias para ÷ cono nc dizia una
naqucla ocasiao ÷ ºconvcnccr-sc dc quc na
Europa nao Ia nada inicrcssanic"(25i.
Violcniando-nc isolci ncsic quasc-livro, do
prollcna ioial quc c para o Ioncn c
cspccialncnic para o Ioncn curopcu scu
incdiaio porvir, un so faior. a caracicrizaçao do
Ioncn ncdio quc Iojc sc vai apodcrando dc
iudo. Isio nc olrigou a un duro ascciisno, à
alsicnçao dc c×prcssar ninIas convicçõcs solrc
iudo quanio ioco dc passagcn. Mais ainda. a
aprcscniar frcqucnicncnic as coisas cn forna
quc sc cra a nais favoravcl para aclarar o icna
c×clusivo dcsic csiudo, cra a pior para dci×ar vcr
ninIa opiniao solrc csias coisas. Dasia assinalar
una qucsiao, cnlora fundancnial. Mcdi o
Ioncn ncdio quanio a sua capacidadc para
coniinuar a civilizaçao nodcrna c quanio a sua
adcsao à culiura. Dir-sc-ia quc cssas duas coisas
÷ a civilizaçao c a culiura ÷ nao sao para nin
qucsiõcs. A vcrdadc c quc clas sao prccisancnic
o quc ponIo cn qucsiao quasc dcsdc ncus
princiros csiudos. Mas cu nao dcvia conplicar os
assunios. Oualqucr quc scja nossa aiiiudc anic a
civilizaçao c a culiura, csia aí, cono un faior dc
56
princira ordcn con quc sc dcvc coniar, a
anonalia rcprcscniada pclo Ioncn-nassa. Por
isso urgia isolar cruancnic scus sinionas.
Nao dcvc, pois, o lciior franccs cspcrar nais
dcsic volunc, quc nao c, no final das conias,
scnao un cnsaio dc scrcnidadc cn ncio à
iorncnia.

JOSE OFTECA Y CASSET.
ºHci Wiiic Huis". Ocgsigccsi-Holanda, naio,
1937.
57

PRIMEIRA PARTE
A REBELIÃO
DAS
MASSAS
58

I. O FATO DAS AGLOMERAÇÕES(26)

Ha un faio quc, para lcn ou para nal, c o
nais inporianic na vida pullica curopcia da Iora
prcscnic. Esic faio c o advcnio das nassas ao
plcno podcrio social. Cono as nassas, por
dcfiniçao, nao dcvcn ncn podcn dirigir sua
propria c×isicncia, c ncnos rcgcr a socicdadc,
qucr dizcr-sc quc a Europa sofrc agora a nais
gravc crisc quc a povos, naçõcs, culiuras, calc
padcccr. Esia crisc solrcvcio nais dc una vcz na
Iisioria. Sua fisiononia c suas conscqucncias
sao conIccidas. Tanlcn sc conIccc scu nonc.
CIana-sc a rclcliao das nassas.
Para a inicligcncia do fornidavcl faio convcn
quc sc cviic dar, dcsdc ja, às palavras ºrclcliao",
ºnassas", ºpodcrio social", cic. un significado
c×clusivo ou prinariancnic políiico. A vida
pullica nao c so políiica, nas, ao ncsno icnpo c
ainda anics, iniclcciual, noral, cconónica,
rcligiosa; conprccndc iodos os usos colciivos c
inclui o nodo dc vcsiir c o nodo dc gozar.
Talvcz a nclIor nancira dc apro×inar-sc a
csic fcnóncno Iisiorico consisia cn rcfcrir-nos a
una c×pcricncia visual, sullinIando una fciçao
dc nossa cpoca quc c visívcl con os olIos da
cara.
59
Sinplicíssina dc cnunciar, ainda quc nao dc
analisar, cu a dcnonino o faio da agloncraçao,
do ºcIcio". As cidadcs csiao cIcias dc gcnic. As
casas cIcias dc inquilinos. Os Ioicis cIcios dc
Iospcdcs. Os ircns, cIcios dc viajanics. Os cafcs,
cIcios dc consunidorcs. Os passcios, cIcios dc
iranscunics. As salas dos ncdicos fanosos,
cIcias dc cnfcrnos. Os cspciaculos, dcsdc quc
nao scjan nuiio c×icnporancos, cIcios dc
cspcciadorcs. As praias, cIcias dc lanIisias. O
quc anics nao cra prollcna, concça a sc-lo
quasc dc coniínuo. cnconirar lugar.
Nada nais. Ha faio nais sinplcs, nais
noiorio, nais consianic, na vida aiual? Vanos
agora puncionar o corpo irivial dcsia olscrvaçao,
c nos surprccndcra vcr cono dclc lroia un
rcpu×o incspcrado, ondc a lranca luz do dia,
dcsic dia, do prcscnic, sc dcconpõc cn iodo o
scu rico cronaiisno inicrior.
Ouc c o quc vcnos c ao vc-lo nos surprccndc
ianio? Vcnos a nuliidao, cono ial, possuidora
dos locais c uicnsílios criados pcla civilizaçao.
Apcnas rcflciinos un pouco, nos surprccndcnos
dc nossa surprcsa. Mas quc, nao c o idcal? O
icairo icn suas localidadcs para quc sc ocupcn;
porianio, para quc a sala csicja cIcia. E do
ncsno nodo os asscnios o vagao fcrroviario c
scus quarios o Ioicl. Sin; nao Ia duvida. Mas o
faio c quc anics ncnIun dcsics csialclccincnios
60
c vcículos cosiunavan csiar cIcios, c agora
iranslordan, fica fora gcnic afanosa dc usufruí-
los. Enlora o faio scja logico, naiural, nao sc
podc dcsconIcccr quc anics nao aconiccia c
agora sin; porianio, quc Iouvc una nudança,
una inovaçao, a qual jusiifica, pclo ncnos no
princiro noncnio, nossa surprcsa.
Surprccndcr-sc, csiranIar, c concçar a
cnicndcr. E o csporic c o lu×o cspccífico do
iniclcciual. Por isso sua aiiiudc grcnial consisic
cn olIar o nundo con os olIos dilaiados pcla
csiranIcza. Tudo no nundo c csiranIo c c
naravilIoso para unas pupilas lcn alcrias.
Isso, naravilIar-sc, c a dclícia vcdada ao
fuiclolisia c quc, ao conirario, lcva o iniclcciual
pclo nundo cn pcrpciua cnlriagucz dc
visionario. Scu airiluio sao os olIos cn pasno.
Por isso, os aniigos dcran a Mincrva a coruja, o
passaro con os olIos scnprc dcslunlrados.
A agloncraçao, ou cIcio, anics nao cra
frcqucnic. Por quc o c agora?
Os conponcnics dcssas nuliidõcs nao
surgiran do nada. Apro×inadancnic, o ncsno
nuncro dc pcssoas c×isiia Ia quinzc anos.
Dcpois da gucrra parcccria naiural quc cssc
nuncro fossc ncnor. Aqui iopanos, cnircianio,
con a princira noia inporianic. Os indivíduos
quc inicgran csias nuliidõcs prcc×isiian, nas
61
nao cono nuliidao. Fcpariidos pclo nundo cn
pcqucnos grupos, ou soliiarios, lcvavan una
vida, pclo visio, divcrgcnic, dissociada, disianic.
Cada qual ÷ indivíduo ou pcqucno grupo ÷
ocupava o lugar, ialvcz o scu, no canpo, na
aldcia, na vila, no lairro da grandc cidadc.
Agora, dc rcpcnic, aparcccn sol a cspccic dc
agloncraçao, c nossos olIos vcn por ioda a paric
nuliidõcs. Por ioda a paric? Nao, nao;
prccisancnic nos lugarcs nclIorcs, criaçao
rcalncnic rcfinada da culiura Iunana,
rcscrvados anics a grupos ncnorcs, cn dcfiniiiva,
a ninorias.
A nuliidao, dc rcpcnic, iornou-sc visívcl, c
insialou-sc nos lugarcs prcfcrcnics da socicdadc.
Anics, sc c×isiia, passava inadvcriida, ocupava o
fundo do ccnario social; agora adianiou-sc aic às
ganliarras, cla c o pcrsonagcn principal. Ja nao
Ia proiagonisias. so Ia coro.
O concciio dc nuliidao c quaniiiaiivo c
visual. Traduzano-lo, scn alicra-lo, à
icrninologia sociologica. Eniao acIanos a idcia
dc nassa social. A socicdadc c scnprc una
unidadc dinanica dc dois faiorcs. ninorias c
nassas. As ninorias sao indivíduos ou grupos dc
indivíduos cspccialncnic qualificados. A nassa c
o conjunio dc pcssoas nao cspccialncnic
qualificadas. Nao sc cnicnda, pois, por nassas so
62
ncn principalncnic ºas nassas opcrarias".
Massa c ºo Ioncn ncdio". Dcsic nodo sc
convcric o quc cra ncrancnic quaniidadc ÷ a
nuliidao ÷ nuna dcicrninaçao qualiiaiiva. c a
qualidadc conun, c o nosircngo social, c o
Ioncn cnquanio nao sc difcrcncia dc ouiros
Ioncns, nas quc rcpcic cn si un iipo gcncrico.
Ouc ganIanos con csia convcrsao da
quaniidadc para a qualidadc? Muiio sinplcs. por
ncio dcsia conprccndcnos a gcncsc daqucla. E
cvidcnic, aic acaciano, quc a fornaçao nornal dc
una nuliidao inplica a coincidcncia dc dcscjos,
idcias, dc nodo dc scr nos indivíduos quc a
inicgran. Dir-sc-a quc c o quc aconiccc con iodo
grupo social, por sclcio quc prcicnda scr. Con
cfciio; nas Ia una difcrcnça csscncial.
Nos grupos quc sc caracicrizan por nao scr
nuliidao c nassa, a coincidcncia cfciiva dc scus
ncnlros consisic cn algun dcscjo, idcia ou
idcal, quc por si c×clui o grandc nuncro. Para
fornar una ninoria, scja qual scja, c prcciso quc
anics cada qual sc scparc da nuliidao por razõcs
csscnciais, rclaiivancnic individuais. Sua
coincidcncia con os ouiros quc fornan a ninoria
c, pois, sccundario, posicrior a Iavcr-sc cada
qual singularizado, c c, porianio, cn loa paric
una coincidcncia cn nao coincidir. Ha casos cn
quc cssc caraicr singularizador do grupo aparccc
a ccu dcscolcrio. os grupos inglcscs quc sc
cIanan a si ncsnos ºnao confornisias", isio c,
63
a agrupaçao dos quc concordan so cn sua
dcsconfornidadc a rcspciio da nuliidao iliniiada.
Esic ingrcdicnic dc juniarcn-sc os ncnos
prccisancnic para scparar-sc dos dcnais vai
scnprc nisiurado na fornaçao dc ioda ninoria.
Falando do rcduzido pullico quc ouvia un
nusico rcfinado, diz graciosancnic Mallarnc quc
aquclc pullico salicniava con a prcscnça dc sua
cscasscz a auscncia nuliiiudinaria.
A rigor, a nassa podc dcfinir-sc, cono faio
psicologico, scn ncccssidadc dc cspcrar quc
aparcçan os indivíduos cn agloncraçao. Dianic
dc una so pcssoa podcnos salcr sc c nassa ou
nao. Massa c iodo aquclc quc nao sc valoriza a si
ncsno ÷ no lcn ou no nal ÷ por razõcs
cspcciais, nas quc sc scnic ºcono iodo o
nundo", c, cnircianio, nao sc angusiia, scnic-sc
à voniadc ao scniir-sc idcniico aos dcnais.
Inaginc-sc un Ioncn Iunildc quc ao icniar
valorizar-sc por razõcs cspcciais ÷ ao pcrguniar
dc si para si sc icn ialcnio para isio ou para
aquilo, sc solrcssai cn alguna ordcn ÷ advcric
quc nao possui ncnIuna qualidadc c×cclcnic.
Esic Ioncn scniir-sc-a ncdíocrc c vulgar, c nal
doiado; nas nao sc scniira ºnassa".
Ouando sc fala dc ºninorias sclcias", a
vclIacaria Ialiiual cosiuna icrgivcrsar o scniido
dcsia c×prcssao, fingindo ignorar quc o Ioncn
sclcio nao c o pciulanic quc sc supõc supcrior
64
aos dcnais, nas o quc c×igc nais dc si quc os
dcnais, cnlora nao consiga cunprir cn sua
pcssoa cssas c×igcncias supcriorcs. E c
induliiavcl quc a divisao nais radical quc calc
fazcr na Iunanidadc, c csia cn duas classcs dc
criaiuras. as quc c×igcn nuiio dc si c acunulan
solrc si ncsnas dificuldadcs c dcvcrcs, c as quc
nao c×igcn dc si nada cspccial, nas quc para
clas vivcr c scr cn cada insianic o quc ja sao,
scn csforço dc pcrfciçao cn si ncsnas, loias quc
vao à dcriva.
Isio nc lcnlra quc o ludisno oriodo×o sc
conpõc dc duas rcligiõcs disiinias. una, nais
rigorosa c difícil; ouira, nais frou×a c irivial; ou
MaIayana ÷ ºgrandc vcículo" ou ºgrandc carril"
÷ c o Hinayana ÷ ºpcqucno vcículo", ºcaninIo
ncnor". O dccisivo c sc ponos nossa vida nun ou
no ouiro vcículo, a un na×ino dc c×igcncias ou a
un nínino.
A divisao da socicdadc cn nassas ou
ninorias c×cclcnics nao c, porianio, una divisao
cn classcs sociais, nas cn classcs dc Ioncns, c
nao podc coincidir con a jcrarquizaçao cn
classcs supcriorcs c infcriorcs. Claro csia quc nas
supcriorcs, quando cIcgan a sc-lo c cnquanio o
forcn dc vcrdadc Ia nais vcrossiniliiudc cn
acIar Ioncns quc adoian o ºgrandc vcículo",
cnquanio as infcriorcs csiao nornalncnic
consiiiuídas por indivíduos scn qualidadc. Mas,
65
a rigor, dcniro dc cada classc social Ia nassa c
ninoria auicniica. Cono vcrcnos, c caracicrísiico
do icnpo o prcdonínio, ainda nos grupos cuja
iradiçao cra sclciiva, da nassa c do vulgo. Assin,
na vida iniclcciual, quc por sua propria csscncia
rcqucr c supõc a qualificaçao, advcric-sc o
progrcssivo iriunfo dos pscudo-iniclcciuais
inqualificados, inqualificavcis c dcsclassificados
por sua propria conic×iura. O ncsno nos grupos
solrcvivcnics da ºnolrcza" nasculina c fcninina.
A scu iurno, nao c raro cnconirar Iojc cnirc os
olrciros, quc anics podian valcr cono o c×cnplo
nais puro disio quc cIananos ºnassa", alnas
cgrcgiancnic disciplinadas.
Ora lcn. c×isicn na socicdadc opcraçõcs,
aiividadcs, funçõcs da ordcn nais divcrsa, quc
sao, por sua ncsna naiurcza, cspcciais, c,
conscqucnicncnic, nao podcn scr lcn
c×ccuiadas scn doics ianlcn cspcciais. Por
c×cnplo. ccrios prazcrcs dc caraicr ariísiico c
lu×uoso, ou lcn as funçõcs dc govcrno c dc juízo
políiico solrc os assunios pullicos. Anics cran
c×crcidas csias aiividadcs cspcciais por ninorias
qualificadas ÷ qualificadas, pclo ncnos, cn
prcicnsao ÷. A nassa nao prcicndia inicrvir
nclas. pcrcclia-sc quc sc qucria inicrvir icria
congrucnicncnic dc adquirir csscs doics
cspcciais c dci×ar dc scr nassa. ConIccia scu
papcl nuna saudavcl dinanica social.
66
Sc agora rciroccdcrnos aos faios cnunciados
a princípio, clcs nos aparcccrao incquivocancnic
cono nuncios dc una nudança dc aiiiudc na
nassa. Todos clcs indican quc csia rcsolvcu
avançar para o princiro plano social c ocupar os
locais c usar os uicnsílios c gozar dos prazcrcs
anics adsiriios aos poucos. É cvidcnic quc, por
c×cnplo, os locais nao csiavan prcncdiiados
para as nuliidõcs, posio quc sua dincnsao scja
nuiio rcduzida c o povo iranslordc
consianicncnic dclcs, dcnonsirando aos olIos c
con linguagcn visívcl o faio novo. a nassa, quc,
scn dci×ar dc sc-lo, suplania as ninorias.
Ningucn, crcio cu, dcplorara quc as pcssoas
gozcn Iojc cn naior ncdida c nuncro quc
anics, ja quc icn para isso os apciiics c os ncios.
O nal c quc csia dccisao ionada pclas nassas dc
assunir as aiividadcs proprias das ninorias, nao
sc nanifcsia, ncn podc nanifcsiar-sc, so na
ordcn dos prazcrcs, nas quc c una nancira
gcral do icnpo. Assin ÷ aniccipando o quc logo
vcrcnos ÷, crcio quc as inovaçõcs políiicas dos
nais rcccnics anos nao significan ouira coisa
scnao o inpcrio políiico das nassas. A vclIa
dcnocracia vivia icnpcrada por una dosc
alundanic dc lilcralisno c dc cniusiasno pcla
lci. Ao scrvir a csics princípios o indivíduo
olrigava-sc a susicniar cn si ncsno una
disciplina difícil. Ao anparo do princípio lilcral c
da norna jurídica podian aiuar c vivcr as
67
ninorias. Dcnocracia c Lci, convivcncia lcgal,
cran sinóninos. Hojc assisiinos ao iriunfo dc
una Iipcrdcnocracia cn quc a nassa aiua
dirciancnic scn lci, por ncio dc prcssõcs
naicriais, inpondo suas aspiraçõcs c scus
gosios. É falso inicrprciar as siiuaçõcs novas
cono sc a nassa sc Iouvcssc cansado da políiica
c cncarrcgassc a pcssoas cspcciais scu c×crcício.
Pclo conirario. Isso cra o quc anics aconiccia,
isso cra a dcnocracia lilcral. A nassa prcsunia
quc, no final das conias, con iodos os scus
dcfciios c vícios, as ninorias dos políiicos
cnicndian un pouco nais dos prollcnas
pullicos quc cla. Agora, por sua vcz, a nassa crc
quc icn dirciio a inpor c dar vigor dc lci a scus
iopicos dc cafc. Eu duvido quc icnIa Iavido
ouiras cpocas da Iisioria cn quc a nuliidao
cIcgassc a govcrnar iao dirciancnic cono cn
nosso icnpo. Por isso falo dc Iipcrdcnocracia.
O ncsno aconiccc nas dcnais ordcns, nuiio
cspccialncnic na iniclcciual. Talvcz concia cu
un crro; nas o cscriior, ao ionar da pcna para
cscrcvcr solrc un icna quc csiudou
inicnsancnic, dcvc pcnsar quc o lciior ncdio,
quc nunca sc ocupou do assunio, sc o lc, nao c
con o fin dc aprcndcr algo dclc, nas, pclo
conirario, para scnicnciar solrc clc quando nao
coincidc con as vulgaridadcs quc csic lciior icn
na calcça. Sc os indivíduos quc inicgran a
nassa sc acrcdiiasscn cspccialncnic doiados,
68
icríanos nao nais dc un caso dc crro pcssoal,
nas nao una sulvcrsao sociologica. O
caracicrísiico do noncnio c quc a alna vulgar,
salcndo-sc vulgar, icn o dcnodo dc afirnar o
dirciio dc vulgaridadc c o inpõc por ioda a paric.
Cono sc diz na Ancrica do Noric. scr difcrcnic c
indcccnic. A nassa airopcla iudo quc c difcrcnic,
cgrcgio, individual, qualificado c sclcio. Oucn
nao scja cono iodo o nundo, qucn nao pcnsc
cono iodo o nundo, corrc o risco dc scr
clininado. E claro csia quc cssc ºiodo o nundo"
nao c ºiodo o nundo". ºTodo o nundo" cra,
nornalncnic, a unidadc conplc×a dc nassa c
ninorias discrcpanics, cspcciais. Agora iodo o
nundo c so a nassa.
69

II. A ASCENSÃO DO NÍVEL HISTÓRICO

Esic c o faio fornidavcl do nosso icnpo,
dcscriio scn oculiar a lruialidadc dc sua
aparcncia. É, adcnais, dc una alsoluia novidadc
na Iisioria dc nossa civilizaçao. Janais, cn iodo
o scu dcscnvolvincnio, aconicccu nada
scnclIanic. Sc icnos dc acIar algo scnclIanic,
icríanos dc pular fora dc nossa Iisioria c
sulncrgir-nos cn un orlc, cn un clcncnio
viial, conplciancnic difcrcnic do nosso; icríanos
dc insinuar-nos no nundo aniigo, c cIcgar a sua
Iora dc dcclinaçao. A Iisioria do Inpcrio ronano
c ianlcn a Iisioria da sulvcrsao, do inpcrio das
nassas quc alsorvcn c anulan as ninorias
dirigcnics c sc colocan cn scu lugar. Eniao sc
produz ianlcn o fcnóncno da agloncraçao, do
cIcio. Por isso, cono olscrvou nuiio lcn
Spcnglcr, foi prcciso consiruir, cono sc faz agora,
cdifícios cnorncs. A cpoca das nassas c a cpoca
do colossal(27i.
Vivcnos sol o lruial inpcrio das nassas.
Pcrfciiancnic; ja cIananos duas vczcs ºlruial" a
csic inpcrio, ja paganos nosso iriluio ao dcus
dos iopicos; agora, con o lilIcic na nao,
podcnos alcgrcncnic ingrcssar no icna, vcr por
dcniro o cspciaculo. Ou supunIa-sc quc cu ia
70
conicniar-nc con cssa dcscriçao, ialvcz c×aia,
nas c×icrna, quc c so a facIada, o froniispício
sol os quais sc aprcscnia o faio ircncndo
quando c olIado dcsdc o passado? Sc cu dci×assc
aqui csic assunio c csirangulassc ncu prcscnic
cnsaio, ficaria o lciior pcnsando, nuiio
jusiancnic, quc csic faluloso advcnio das
nassas à supcrfícic da Iisioria nao nc inspirava
ouira coisa scnao algunas palavras displiccnics,
dcsdcnIosas, un pouco dc aloninaçao c ouiro
pouco dc rcpugnancia; a nin, dc qucn c noiorio
quc susicnio una inicrprciaçao da Iisioria
radicalncnic arisiocraiica(28i É radical, porquc cu
nao dissc nunca quc a socicdadc Iunana dcva
scr arisiocraiica, nas nuiio nais quc isso. Eu
dissc c coniinuo crcndo, cada dia con nais
cncrgica convicçao, quc a socicdadc Iunana c
arisiocraiica scnprc, qucira ou nao, por sua
propria csscncia, aic o ponio dc quc c socicdadc
na ncdida cn quc scja arisiocraiica, c dci×a dc
sc-lo na ncdida cn quc sc dcsarisiocraiizc. Dcn
cnicndido quc falo da socicdadc c nao do Esiado.
Ningucn podc acrcdiiar quc dianic dcsic faluloso
cncrcspancnio da nassa, scja o arisiocraiico
conicniar-sc con fazcr un lrcvc ircjciio
anancirado, cono un fidalgoic dc VcrsalIcs.
VcrsalIcs ÷ cnicndc-sc cssc VcrsalIcs dos
ircjciios ÷ nao c arisiocracia, c o scu oposio. c a
noric c a puircfaçao dc una nagnífica
arisiocracia. Por isso, dc vcrdadcirancnic
71
arisiocraiico so rcsiava naquclcs scrcs a graça
digna con quc salian rccclcr cn scu pcscoço a
visiia da guilIoiina; acciiavan-na cono o iunor
acciia o lisiuri. Nao. a qucn sinia a nissao
profunda das arisiocracias, o cspciaculo da
nassa o inciia c aviva cono ao csculior a
prcscnça do narnorc virgcn. A arisiocracia
social nao sc parccc nada a cssc grupo
rcduzidíssino quc prcicndc assunir para si
ínicgro o nonc dc ºsocicdadc", quc sc cIana a si
ncsno ºa socicdadc" c quc vivc sinplcsncnic dc
convidar-sc ou dc nao convidar-sc. Cono iudo no
nundo icn sua viriudc c sua nissao, ianlcn
icn as suas dcniro do vasio nundo csic pcqucno
ºnundo clcganic", nas una nissao nuiio
sulalicrna c inconparavcl con a faina Icrculca
das auicniicas arisiocracias. Eu nao icria
inconvcnicnic cn falar solrc o scniido quc possui
cssa vida clcganic, cn aparcncia iao scn scniido;
nas nosso icna c agora ouiro dc naiorcs
proporçõcs. Ccriancnic quc cssa ncsna
ºsocicdadc disiinia" csia dc acordo con o icnpo.
Muiio nc fcz ncdiiar ccria danazinIa cn flor,
ioda juvcniudc c aiualidadc, csircla dc princira
grandcza no zodíaco da clcgancia nadrilcnIa,
porquc nc dissc. ºEu nao iolcro un lailc ao qual
icnIan sido convidadas ncnos dc oiioccnias
pcssoas". Airavcs dcsia frasc vi quc o csiilo das
nassas iriunfa Iojc solrc ioda a arca da vida c sc
72
inpõc ainda naquclcs uliinos rincõcs quc
parccian rcscrvados aos Iappy fcw.
Fcpilo, pois, igualncnic, ioda inicrprciaçao
dc nosso icnpo quc nao dcsculra a significaçao
posiiiva oculia sol o aiual inpcrio das nassas c
das quc o acciian, lcaiancnic, scn csircncccr
dc cspanio. Todo dcsiino c dranaiico c iragico cn
sua profunda dincnsao. Oucn nao icnIa scniido
na nao palpiiar o pcrigo do icnpo, nao cIcgou à
cniranIa do dcsiino, nao fcz nais scnao acariciar
sua norlida facc. No nosso, o ingrcdicnic icrrívcl
c posio pcla airopclanic c violcnia sullcvaçao
noral das nassas, inponcnic, indonavcl c
cquívoca cono iodo dcsiino. Para ondc nos lcva?
É un nal alsoluio, ou un lcn possívcl? Aí csia,
colossal, insialada solrc nosso icnpo cono un
giganic, cosnico sinal dc inicrrogaçao, o qual icn
scnprc una forna cquívoca, con algo,
cfciivancnic, dc guilIoiina ou dc forca nas
ianlcn con algo quc quiscra scr un arco
iriunfal!
O faio dc quc ncccssiianos sulncicr a
anaionia podc fornular-sc sol csias duas
rulricas. princira, as nassas c×crciian Iojc un
rcpcriorio viial quc coincidc, cn grandc paric,
con o quc anics parccia rcscrvado
c×clusivancnic às ninorias; scgunda, ao ncsno
icnpo as nassas iornaran-sc indoccis dianic das
ninorias; nao lIcs olcdcccn, nao as scgucn, nao
73
as rcspciian, nas, pclo conirario, as puscran dc
lado c as suplanian.
Analiscnos a princira rulrica. Oucro dizcr
con cla quc as nassas gozan dos prazcrcs c
usan os uicnsílios invcniados pclos grupos
sclcios c quc anics so csics usufruían. Scnicn
apciiics c ncccssidadcs quc anics sc qualificavan
dc rcfinancnios, porquc cran pairinónios dc
poucos. Un c×cnplo irivial. cn 1820 nao Iavia
cn Paris dcz quarios dc lanIo cn casas
pariicularcs; vcjan-sc as Mcnorias da conicssc
dc Doignc. Mais ainda. as nassas conIcccn c
cnprcgan Iojc, con rclaiiva suficicncia, nuiias
das iccnicas quc anics so os indivíduos
cspccializados nancjavan.
E nao apcnas as iccnicas naicriais, nas, o
quc c nais inporianic, as iccnicas jurídicas c
sociais. No scculo XVIII, ccrias ninorias
dcscolriran quc iodo indivíduo Iunano, pclo
ncro faio dc nasccr, c scn ncccssidadc dc
qualificaçao alguna, possuía ccrios dirciios
políiicos fundancniais, os cIanados dirciios do
Ioncn c do cidadao, c quc, a rigor, csics dirciios
conuns a iodos sao os unicos c×isicnics. Todo
ouiro dirciio inposio a doics cspcciais ficava
condcnado cono privilcgio. Isio foi, princiro, un
puro icorcna c idcia dc uns poucos; dcpois, csscs
poucos concçaran a usar praiicancnic dcssa
idcia, a inpó-la c rcclana-la. as ninorias
74
nclIorcs. Nao olsianic, duranic iodo o scculo
XIX a nassa, quc sc ia cniusiasnando con a
idcia dcsscs dirciios cono con un idcal, nao os
scniia cn si, nao os c×crciiava ncn fazia valcr
scnao dc faio, sol as lcgislaçõcs dcnocraiicas,
coniinuava vivcndo, coniinuava scniindo-sc a si
ncsna cono no aniigo rcginc. O ºpovo" ÷
scgundo cniao cra cIanado ÷, o ºpovo" salia ja
quc cra solcrano; nas nao acrcdiiava nisso. Hojc
aquclc idcal convcricu-sc nuna rcalidadc, nao ja
nas lcgislaçõcs, quc sao csqucnas c×icrnos da
vida pullica, nas no coraçao dc iodo indivíduo,
quaisqucr quc scjan as suas idcias, inclusivc
quando as suas idcias sao rcacionarias; qucr
dizcr, inclusivc quando csnaga c iriiura as
insiiiuiçõcs ondc aquclcs dirciios sc sancionan.
A ncu juízo, qucn nao cnicndc csia curiosa
siiuaçao das nassas nao podc conprccndcr nada
do quc Iojc concça a aconicccr no nundo. A
solcrania do indivíduo nao qualificado, do
indivíduo Iunano gcncrico c cono ial, passou,
dc idcia ou idcal jurídico quc cra, a scr un csiado
psicologico consiiiuiivo do Ioncn ncdio. E noic-
sc lcn. quando algo quc foi idcal sc faz
ingrcdicnic da rcalidadc, inc×oravclncnic dci×a
dc scr idcal. O prcsiígio c a nagia auiorizanic,
quc sao airiluios do idcal, quc sao scu cfciio
solrc o Ioncn, sc volaiilizan. Os dirciios
nivcladorcs da gcncrosa inspiraçao dcnocraiica
75
convcricran-sc, dc aspiraçõcs dc idcais, cn
apciiics dc suposios inconscicnics.
Ora lcn. o scniido daquclcs dirciios nao cra
ouiro scnao iirar as alnas Iunanas dc sua
inicrna scrvidao c proclanar dcniro dclas ccria
conscicncia dc scnIorio c dignidadc. Nao cra isio
quc sc qucria? Ouc o Ioncn ncdio sc scniissc
ano, dono, scnIor dc si ncsno c dc sua vida? Ja
csia conscguido. Por quc sc quci×an os lilcrais,
os dcnocraias, os progrcssisias dc Ia 30 anos?
Ou c quc, cono os ncninos qucrcn una coisa,
nas nao suas conscqucncias? Oucr-sc quc o
Ioncn ncdio scja scnIor. Eniao nao csiranIc
quc aiuc por si, quc rcclanc iodos os prazcrcs,
quc inponIa dccidido sua voniadc, quc sc ncguc
a ioda scrvidao, quc nao coniinuc docil, quc
cuidc dc sua pcssoa c scus ocios, quc conponIa
sua induncniaria. sao alguns dos airiluios
pcrcncs quc aconpanIan a conscicncia dc
scnIorio. Hojc os acIanos rcsidindo no Ioncn
ncdio, na nassa.
Julganos pois, quc a vida do Ioncn ncdio
csia agora consiiiuída pclo rcpcriorio viial quc
anics caracicrizava so as ninorias culninanics.
Ora lcn. o Ioncn ncdio rcprcscnia a arca solrc
quc sc novc a Iisioria dc cada cpoca; c na
Iisioria o quc c o nívcl do nar na gcografia. Sc,
pois, o nívcl ncdio sc acIa Iojc ondc anics so
iocavan as arisiocracias, qucr dizcr-sc lisa c
76
lIanancnic quc o nívcl da Iisioria asccndcu dc
rcpcnic ÷ dcpois dc largas c sulicrrancas
prcparaçõcs, nas cn sua nanifcsiaçao, dc
rcpcnic ÷, dc un salio, nuna gcraçao. A vida
Iunana, cn ioialidadc, asccndcu. O soldado do
dia, diríanos, icn nuiio dc capiiao; o c×crciio
Iunano sc conpõc ja dc capiiacs. Dasia vcr a
cncrgia, a rcsoluçao, o dcscnlaraço con quc
qualqucr indivíduo luia Iojc pcla c×isicncia,
agarra o prazcr quc passa, inpõc sua dccisao.
Todo o lcn, iodo o nal do prcscnic c do
incdiaio porvir icn ncsic asccnso gcral do nívcl
Iisiorico sua causa c sua raiz.
Mas agora nos ocorrc una advcricncia
inprcncdiiada. Isso, quc o nívcl ncdio da vida
scja o das aniigas ninorias, c un faio novo na
Iisioria; nas cra o faio naiivo, consiiiucional, da
Ancrica. Pcnsc o lciior, para vcr clara ninIa
inicnçao, na conscicncia dc igualdadc jurídica.
Essc csiado psicologico dc scniir-sc ano c scnIor
dc si c igual a qualqucr ouiro indivíduo, quc na
Europa so os grupos prccnincnics conscguian
adquirir, c o quc dcsdc o scculo XVIII,
praiicancnic dcsdc scnprc, aconiccia na
Ancrica. E nova coincidcncia, ainda nais
curiosa! Ao aparcccr na Europa cssc csiado
psicologico do Ioncn ncdio, ao sulir o nívcl dc
sua c×isicncia inicgral, o ion c nanciras da vida
curopcia cn iodas as ordcns adquirc dc rcpcnic
77
una fisiononia quc fcz nuiios dizcr. ºA Europa
csia sc ancricanizando". Os quc isio dizian nao
davan ao fcnóncno inporiancia naior;
acrcdiiavan quc sc iraiava dc una lcvc nudança
nos cosiuncs, dc una noda, c, dcsoricniados
pclo parccido c×icrno, o airiluían a nao sc salc
quc influ×o da Ancrica na Europa. Con isso, a
ncu juízo, lanalizou-sc a qucsiao, quc c nuiio
nais suiil c surprccndcnic c profunda.
A galanicria icnia agora sulornar-nc para
quc cu diga aos Ioncns dc Uliranar quc, con
cfciio, a Europa sc ancricanizou c quc isio c
dcvido a un influ×o da Ancrica na Europa. Mas
nao. a vcrdadc cnira agora cn colisao con a
galanicria, c dcvc iriunfar. A Europa nao sc
ancricanizou. Nao rccclcu ainda influ×o grandc
da Ancrica. Tanio un cono ouiro,
cvcniualncnic, inician-sc agora ncsno; nas nao
sc produziran no pro×ino passado, dc quc o
prcscnic c lroio. Ha aqui un cunulo
dcscspcranic dc idcias falsas quc nos csiorvan a
visao ianio aos ancricanos cono aos curopcus. O
iriunfo das nassas c a conscguinic nagnífica
asccnsao dc nívcl viial aconicccu na Europa por
razõcs inicrnas, dcpois dc dois scculos dc
cducaçao progrcssisia das nuliidõcs c dc un
paralclo cnriquccincnio cconónico da socicdadc.
Mas isso c quc o rcsuliado coincidc con o iraço
nais dccisivo da c×isicncia ancricana; c por isso,
porquc coincidc a siiuaçao noral do Ioncn
78
ncdio curopcu con a do ancricano, aconicccu
quc pcla princira vcz o curopcu cnicndc a vida
ancricana, quc anics lIc cra un cnigna c un
nisicrio. Nao sc iraia, pois, dc un influ×o, quc
scria un pouco csiranIo, quc scria un rcflu×o,
nas do quc ncnos sc suspciia ainda. iraia-sc dc
una nivclaçao. Dcsdc scnprc sc cnircvia
olscurancnic pclos curopcus quc o nívcl ncdio
da vida cra nais alio na Ancrica quc no vclIo
coniincnic. A iniuiçao, pouco analíiica, nas
cvidcnic dcsic faio, dcu origcn à idcia, scnprc
acciia, nunca posia cn duvida, dc quc a Ancrica
cra o porvir. Conprccndcr-sc-a quc idcia iao
anpla c iao arraigada nao podia vir do vcnio,
cono dizcn quc as orquídcas sc crian scn raízcs
no ar. O fundancnio cra aqucla cnircvisao dc un
nívcl nais clcvado na vida ncdia dc Uliranar,
quc conirasiava con o nívcl infcrior das ninorias
nclIorcs da Ancrica conparadas con as
curopcias. Mas a Iisioria, cono a agriculiura,
nuirc-sc dos valcs c nao dos cuncs, da aliiiudc
ncdia social c nao das cnincncias.
Vivcnos cn icnpo dc nivclaçõcs. nivclan-sc
as foriunas, nivcla-sc a culiura cnirc as
difcrcnics classcs sociais, nivclan-sc os sc×os.
Pois lcn. ianlcn sc nivclan os coniincnics. E
cono o curopcu sc acIava viialncnic nais lai×o,
ncsia nivclaçao nao fcz scnao ganIar. Porianio,
olIada dcsic lado, a sulvcrsao das nassas
significa un faluloso auncnio dc viialidadc c
79
possililidadcs; iudo ao conirario, pois, do quc
ouvinos iao aniudc solrc a dccadcncia da
Europa. Frasc confusa c iosca, ondc nao sc salc
lcn dc quc sc fala, sc dos Esiados curopcus, da
culiura curopcia ou do quc csia sol iudo isso c
inporia infiniiancnic nais quc iudo isio, a
salcr. da viialidadc curopcia. Dos Esiados c da
culiura curopcia dircnos algun vocalulo nais
adianic ÷ c ialvcz a frasc supradiia valIa para
clcs ÷; nas quanio à viialidadc, convcn dcsdc
logo fazcr consiar quc sc iraia dc un crro crasso.
Diia dc ouiro nodo, ialvcz ninIa afirnaçao
parcça nais convinccnic c ncnos invcrossínil;
digo, pois, quc Iojc un iialiano ncdio, un
cspanIol ncdio, un alcnao ncdio, sc
difcrcncian ncnos cn ion viial dc un ianquc ou
dc un argcniino quc Ia irinia anos. E csic c un
dado quc os ancricanos nao dcvcn csqucccr.
80

III. A ALTURA DOS TEMPOS

O inpcrio das nassas aprcscnia, pois, un
aspccio favoravcl cnquanio significa una sulida
dc iodo o nívcl Iisiorico, c rcvcla quc a vida
ncdia sc novc Iojc cn aliura supcrior à quc
onicn pisava. O quc nos faz conprccndcr quc a
vida podc icr aliiiudcs difcrcnics, c quc c una
frasc cIcia dc scniido a quc scn scniido soi
rcpciir-sc quando sc fala da aliura dos icnpos.
Convcn quc nos dcicnIanos ncsic ponio, porquc
clc nos proporciona a nancira dc fi×ar un dos
caracicrcs nais surprccndcnics dc nossa cpoca.
Diz-sc, por c×cnplo, quc csia ou a ouira
coisa nao c propria da aliura dos icnpos. Con
cfciio. nao o icnpo alsiraio da cronologia, quc c
iodo clc cIao, nas o icnpo viial, o quc cada
gcraçao cIana ºnosso icnpo", icn scnprc ccria
aliiiudc, clcva-sc onicn solrc Iojc, ou sc
nanicn a par, ou cai por lai×o. A inagcn dc
cair, cnlainIada no vocalulo dccadcncia,
proccdc dcsia iniuiçao. Do ncsno nodo cada
qual scnic, con naior ou ncnor claridadc, a
rclaçao cn quc sua propria vida sc cnconira con
a aliura do icnpo ondc iranscorrc. Ha qucn sc
sinia nos nodos da c×isicncia aiual cono un
naufrago quc nao conscguc sair a fluiuar. A
81
vclocidadc do icnpo con quc Iojc narcIan as
coisas, o ínpcio dc cncrgia con quc sc faz iudo,
angusiian o Ioncn dc icnpcra arcaica, c csia
angusiia ncdc o dcsnívcl cnirc a aliura do scu
pulso c a aliura da cpoca. Por ouira paric, qucn
vivc con plcniiudc c a gosio as fornas do
prcscnic, icn conscicncia da rclaçao cnirc a
aliura dc nosso icnpo c a aliura das divcrsas
idadcs prcicriias. Oual c cssa rclaçao?
Fora crrónco supor quc scnprc o Ioncn dc
una cpoca scnic as passadas, sinplcsncnic
porquc passadas, cono nais lai×as dc nívcl quc
a sua. Dasiaria rccordar quc, ao parcccr dc Jorgc
Manriquc,
Oualqucr icnpo passado
foi nclIor.
Mas isso ianpouco c vcrdadc. Ncn iodas as
idadcs sc scniiran infcriorcs a algunas do
passado, ncn iodas sc supuscran supcriorcs a
quanias foran c rccordan. Cada idadc Iisiorica
nanifcsia una scnsaçao difcrcnic anic cssc
csiranIo fcnóncno da aliura viial, c nc
surprccndc quc nao icnIan rcparado nunca
pcnsadorcs c Iisioriografos cn faio iao cvidcnic c
sulsiancioso.
A inprcssao quc Jorgc Manriquc dcclara icn
sido ccriancnic a nais gcral, pclo ncnos sc sc
iona grosso nodo. À naior paric das cpocas nao
82
lIcs parcccu scu icnpo nais clcvado quc ouiras
idadcs aniigas. Ao conirario, o nais Ialiiual icn
sido quc os Ioncns suponIan cn un vago
prcicriio icnpos nclIorcs, dc c×isicncia nais
plcnaria. a ºidadc dc ouro", dizcnos os cducados
por Crccia c Fona; a AlcIcringa, dizcn os
sclvagcns ausiralianos. Isso rcvcla quc csscs
Ioncns scniian o pulso dc sua propria vida nais
ou ncnos falio dc plcniiudc, dccaído, incapaz dc
cncIcr por conplcio o canal das vcias. Por csia
razao rcspciiavan o passado, os icnpos
ºclassicos", cuja c×isicncia sc lIcs aprcscniava
cono algo nais anplo, nais rico, nais pcrfciio c
difícil quc a vida dc scu icnpo. Ao olIar para iras
c inaginar csscs scculos nais valiosos, parccia-
lIcs nao donina-los, nas, ao conirario, ficar
dclai×o dclcs, cono un grau dc icnpcraiura, sc
iivcssc conscicncia, scniiria quc nao conicn cn
si o grau supcrior; nas anics, quc Ia ncsic nais
calorias quc nclc ncsno. Dcsdc ccnio c
cinqucnia anos dcpois dc Crisio csia inprcssao
dc cncolIincnio viial, dc dininuiçao, dc dccair c
pcrdcr pulso, crcscc progrcssivancnic no Inpcrio
Fonano. Ja Horacio Iavia caniado. ºNossos pais,
piorcs quc nossos avos, nos cngcndraran ainda
nais dcpravados, c nos darcnos una progcnic
iodavia nais incapaz". (Odcs, Livro III, 6.i
Acias parcniun pcior avis iulii
nos ncquiorcs, no× daiuros
progcnicn viiiosorcn.
83
Dois scculos nais iardc nao Iavia cn iodo o
Inpcrio lasianics iialicos ncdianancnic
valorosos con os quais prccncIcr as praças dc
ccniuriõcs, c foi ncccssario alugar para csic ofício
dalnaias, c dcpois, larlaros do Danulio c do
Fcno. Enquanio isso, as nulIcrcs iornaran-sc
csicrcis c a Iialia sc dcspovoou.
Vcjanos agora ouira classc dc cpocas quc
gozan dc una inprcssao viial ao parcccr a nais
oposia a cssa. Traia-sc dc un fcnóncno nuiio
curioso quc nos inporia nuiio dcfinir. Ouando
Ia nao nais dc irinia anos os políiicos pcroravan
anic as nuliidõcs, soían rccIaçar csia ou ouira
ncdida dc govcrno, ial ou qual dcsnando,
dizcndo quc cra inpropria da plcniiudc dos
icnpos. É curioso rccordar quc a ncsna frasc
aparccc cnprcgada por Trajano na sua fanosa
caria a Plínio, ao rcconcndar-lIc quc nao sc
pcrscguisscn os crisiaos cn viriudc dc
dcnuncias anóninas. Ncc nosiri sacculi csi.
Houvc, pois, varias cpocas na Iisioria quc sc
scniiran cono cIcgadas a una aliura plcna,
dcfiniiiva. icnpos cn quc sc crc Iavcr cIcgado ao
icrnino dc una viagcn, cn quc sc cunprc un
afa aniigo c plcnifica una cspcrança. É a
ºplcniiudc dos icnpos", a conplcia nadurcza da
vida Iisiorica. Ha irinia anos, con cfciio,
acrcdiiava o curopcu quc a vida Iunana Iavia
cIcgado a scr o quc dcvia scr, o quc dcsdc nuiias
gcraçõcs sc vinIa anclando quc fossc, o quc icria
84
ja quc scr scnprc. Os icnpos dc plcniiudc sc
scnicn scnprc cono rcsulianic dc nuiias ouiras
idadcs prcparaiorias, dc ouiros icnpos scn
plcniiudc, infcriorcs ao proprio, solrc os quais vai
noniada csia Iora lcn granosa. Visios dc sua
aliura, aquclcs pcríodos prcparaiorios aparcccn
cono sc nclcs sc Iouvcsscn vivido dc puro afa c
ilusao nao lograda; icnpos dc so dcscjo
insaiisfciio, dc ardcnics prccursorcs, dc ºainda
nao", dc conirasic pcnoso cnirc una civilizaçao
clara c a rcalidadc quc nao lIc corrcspondc.
Assin vc a Idadc Mcdia o scculo XIX. Por fin
cIcga un dia cn quc cssc vclIo dcscjo, às vczcs
nilcnario, parccc cunprir-sc; a rcalidadc o
rccolIc c lIc olcdccc. CIcganos à aliura
cnircvisia, à ncia aniccipada, ao cunc do icnpo!
Ao ºainda nao" succdcu o ºpor fin".
Esia cra a scnsaçao quc dc sua propria vida
iinIan os nossos pais c ioda a sua ccniuria. Nao
sc csqucça disio. nosso icnpo c un icnpo quc
vcn dcpois dc un icnpo dc plcniiudc. Daí quc,
irrcncdiavclncnic, qucn coniinua adscriio à
ouira nargcn, a cssc pro×ino plcnario passado,
c o olIc iodo sol sua oiica, sofrcra o cspclIisno
dc scniir a idadc prcscnic cono un cair dcsdc a
plcniiudc, cono una dccadcncia.
Mas un vclIo afciçoado à Iisioria,
cnpcdcrnido ionador dc pulso dc icnpos, nao sc
85
podc dci×ar alucinar por cssa oiica da suposia
plcniiudc.
Scgundo cu dissc, o csscncial para quc c×isia
ºplcniiudc dos icnpos" c quc un dcscjo aniigo, o
qual sc vinIa arrasiando ancloso c qucrulanic
duranic scculos, por fin un dia fica saiisfciio. E,
con cfciio, csscs icnpos plcnos sao ianlcn
saiisfciios dc si ncsnos; às vczcs, cono no
scculo XIX, arquisaiisfciios(29i. Mas agora
conprccndcnos quc csscs scculos iao saiisfciios,
iao fruídos, csiao norios por dcniro. A auicniica
plcniiudc viial nao consisic na saiisfaçao, na
possc, na cIcgada. Ja dizia Ccrvanics quc ºo
caninIo c scnprc nclIor quc a pousada". Un
icnpo quc saiisfcz scu dcscjo, scu idcal, c quc ja
nao dcscja nada nais, quc sc lIc sccou a fonic do
dcscjar. Isio c, quc a fanosa plcniiudc c cn
rcalidadc una conclusao. Ha scculos quc por nao
salcr rcnovar scus dcscjos norrc dc saiisfaçao,
cono norrc o zangao aforiunado dcpois do vóo
nupcial(30i.
Daí o dado surprccndcnic dc quc cssas
ciapas dc cIanada plcniiudc icnIan scniido
scnprc no scdincnio dc si ncsnas una
pcculiaríssina irisicza.
O dcscjo iao lcniancnic gcsiado, c quc no
scculo XIX parccc finalncnic rcalizar-sc, c o quc,
rcsunindo, sc dcnoninou a si ncsno ºculiura
86
nodcrna". Ja o nonc c inquicianic. quc un
icnpo sc cIanc a si ncsno ºnodcrno", qucr
dizcr, uliino, dcfiniiivo, dianic do qual iodos os
dcnais sao puros prcicriios, nodcsias
prcparaçõcs c aspiraçõcs para clc! Scias scn lrio
quc crran o alvo!(31i.
Nao sc sonda ja aqui a difcrcnça csscncial
cnirc nosso icnpo c cssc quc acala dc prcicrir,
dc iranspor? Nosso icnpo, con cfciio, nao sc
scnic ja dcfiniiivo; ao conirario, cn sua raiz
ncsna cnconira olscurancnic a iniuiçao dc quc
nao Ia icnpos dcfiniiivos, scguros, para scnprc
crisializados, nas quc pclo conirario cssa
prcicnsao dc quc un icnpo dc vida ÷ o cIanado
ºculiura nodcrna" ÷ fossc dcfiniiivo, parccc-nos
una olcccaçao c csirciicza invcrossíncis do
canpo visual. E ao scniir assin pcrcclcnos una
dcliciosa inprcssao dc nos Iavcrnos cvadido dc
un rccinio csirciio c Icrnciico, dc Iavcr
cscapado, c sair dc novo sol as csirclas ao
nundo auicniico, profundo, icrrívcl, inprcvisívcl
c incsgoiavcl, ondc iudo, iudo c possívcl. o
nclIor c o pior. A fc na culiura nodcrna cra
irisic. cra salcr quc ananIa ia scr cn iodo o
csscncial igual a Iojc, quc o progrcsso consisiia
so cn avançar con iodos os scnprcs solrc un
caninIo idcniico ao quc ja csiava sol nossos
pcs. Un caninIo assin c a lcn dizcr una prisao
quc, clasiica, sc alarga scn nos lilcriar.
87
Ouando nos concços do Inpcrio algun fino
provinciano cIcgava a Fona ÷ Lucano, por
c×cnplo, ou Scncca ÷ c via as najcsiosas
consiruçõcs inpcriais, sínlolo dc podcr
dcfiniiivo, scniia conirair-sc scu coraçao. Ja nada
novo podia Iavcr no nundo. Fona cra cicrna. E
sc Ia una nclancolia das ruínas, quc sc lcvania
dclas cono a cvaporaçao das aguas norias, o
provinciano scnsívcl pcrcclia una nclancolia
nao ncnos pcnosa, ainda quc dc signo invcrso. a
nclancolia dos cdifícios cicrnos.
Dianic dcssc csiado cnoiivo, nao c cvidcnic
quc a scnsaçao dc nossa cpoca sc parccc nais à
alcgria c alvoroço dc ncninos quc cscaparan da
cscola? Agora ja nao salcnos o quc vai Iavcr
ananIa no nundo, c isso sccrciancnic nos
rcgozija; porquc isso, scr inprcvisívcl, scr un
Iorizonic scnprc alcrio a ioda possililidadc, c a
vida auicniica, c a vcrdadcira plcniiudc da vida.
Conirasia csic diagnosiico, ao qual falia, c
ccrio, sua ouira nciadc, con o quci×unc dc
dccadcncia quc cIoraninga nas paginas dc
ianios conicnporancos. Traia-sc dc un crro oiico
quc provcn dc nuliiplas causas. Ouiro dia
vcrcnos algunas; nas Iojc qucro aniccipar a
nais olvia. provcn dc quc, ficis a una idcologia,
cn ninIa opiniao pcrigosa, olIan da Iisioria so
a políiica ou a culiura, c nao advcricn quc iudo
isso c so a supcrfícic da Iisioria; quc a rcalidadc
88
Iisiorica c, anics quc isso c nais fundo quc isso,
un puro afa dc vivcr, una poicncia parccida às
cosnicas; nao a ncsna, porianio, nao naiural,
nas sin irna da quc inquicia o nar, fccunda a
fcra, põc flor na arvorc, faz ircncluzir a csircla.
Dianic dos diagnosiicos dc dccadcncia cu
rcconcndo o scguinic raciocínio.
A dccadcncia c, claro csia, un concciio
conparaiivo. Dccai-sc dc un csiado supcrior
para un csiado infcrior. Ora lcn. cssa
conparaçao podc fazcr-sc dcsdc os ponios dc
visia nais difcrcnics c varios quc caila inaginar.
Para un falricanic dc loquilIas dc anlar, o
nundo csia cn dccadcncia porquc ja nao sc
funa apcnas con loquilIas dc anlar. Ouiros
ponios dc visia scrao nais rcspciiavcis quc csic,
nas, a rigor, nao dci×an dc scr parciais,
arliirarios c c×icrnos à propria vida cujos
quilaics sc iraia prccisancnic dc avaliar. Nao Ia
nais quc un ponio dc visia jusiificado c naiural.
insialar-sc ncssa vida, conicnpla-la dc dcniro c
vcr sc cla sc scnic a si ncsna dccaída, isio c,
ninguada, dcliliiada c insípida.
Mas, cnlora olIada por dcniro dc si ncsna,
cono sc conIccc quc una vida sc scnic ou nao
dccair? Para nin nao calc duvida a rcspciio do
siniona dccisivo. una vida quc nao prcfcrc ouira
ncnIuna dc anics, dc ncnIun anics, porianio,
89
quc sc prcfcrc a si ncsna, nao podc cn ncnIun
scniido scrio cIanar-sc dccadcnic. Toda a ninIa
c×cursao solrc o prollcna da aliiiudc dos
icnpos pcrscguia csia conclusao. Pois aconiccc
quc prccisancnic o nosso goza ncsic ponio dc
una scnsaçao csiranIíssina; quc cu saila, unica
aic agora na Iisioria conIccida.
Nos salõcs do uliino scculo cIcgava
indcfcciivclncnic una Iora cn quc as danas c
scus pocias ancsirados fazian cnirc si csia
pcrgunia. En quc cpoca quiscra vocc Iavcr
vivido? E cis aqui quc cada un, cncarnando a
figura dc sua propria vida, sc dcdicava a vagar
inaginavclncnic pclas vias Iisioricas cn lusca
dc un icnpo ondc cncai×ar a gosio o pcrfil dc
sua c×isicncia. E c quc, cnlora scniindo-sc, ou
por scniir-sc cn plcniiudc, cssc scculo XIX
ficava, con cfciio, ligado ao passado, solrc cujos
onlros acrcdiiava csiar; via-sc, con cfciio, cono
a culninaçao do passado. Daí quc ainda
acrcdiiassc cn cpocas rclaiivancnic classicas ÷
o scculo dc Pcriclcs, o Fcnascincnio ÷, ondc sc
Iavian prcparado os valorcs vigcnics. Isio
lasiaria para nos fazcr suspciiar dos icnpos dc
plcniiudc; lcvan a cara voliada para iras, olIan
o passado quc nclcs sc cunprc.
Pois lcn. quc diria sinccrancnic qualqucr
Ioncn rcprcscniaiivo do prcscnic a qucn sc
fizcssc una pcrgunia parccida? Eu crcio quc nao
90
c duvidoso. qualqucr passado, scn c×cluir
ncnIun, lIc daria a inprcssao dc un rccinio
angusiioso ondc nao podia rcspirar. Isio c, quc o
Ioncn do prcscnic scnic quc sua vida c nais
vida quc iodas as aniigas, ou diio às avcssas, quc
o passado ínicgro ficou pcqucno para a
Iunanidadc aiual. Esia iniuiçao dc nossa vida
dc Iojc anula con sua claridadc clcncnial ioda
luculraçao solrc dccadcncia quc nao scja nuiio
cauiclosa.
Nossa vida scnic-sc, cnircianio, dc naior
iananIo quc iodas as vidas. Cono podcra scniir-
sc dccadcnic? Pclo conirario. o quc aconicccu c
quc, dc ianio scniir-sc nais vida, pcrdcu iodo o
rcspciio, ioda a aicnçao ao passado. Daí quc pcla
princira vcz nos cnconircnos con una cpoca
quc faz ialua rasa dc iodo classicisno, quc nao
rcconIccc cn nada prcicriio possívcl nodclo ou
norna, c solrcvinda ao calo dc ianios scculos
scn dcsconiinuidadc dc cvoluçao, parccc, nao
olsianic, un concço, una alvorada, una
iniciaçao, una infancia. OlIanos para iras c o
fanoso Fcnascincnio nos parccc un icnpo
angusiiosíssino; provincial, dc aiiiudcs vas ÷
por quc nao dizc-lo? ÷, dc nau gosio.
Eu rcsunia, Ia icnpos, ial siiuaçao na forna
scguinic. ºEsia gravc dissociaçao dc prcicriio c
prcscnic c o faio gcral dc nossa cpoca c ncla vai
incluída a suspciia, nais ou ncnos confusa, quc
91
cngcndra a inquiciudc pcculiar da vida ncsics
anos. Scniinos quc dc rcpcnic ficanos sos solrc
a icrra os Ioncns aiuais, quc os norios nao
norrcran dc lrincadcira, nas conplciancnic;
quc ja nao nos podcn ajudar. O rcsio do cspíriio
iradicional cvaporou-sc. Os nodclos, as nornas,
as pauias nao nos scrvcn. Tcnos dc rcsolvcr
nossos prollcnas scn colaloraçao aiiva do
passado, cn plcno aiualisno ÷ scjan dc aric, dc
cicncia ou dc políiica ÷. O curopcu csia so, scn
norios vivcnics pcrio dc si; cono Pcdro
ScIlcInil, pcrdcu sua sonlra. E o quc aconiccc
scnprc quc cIcga o ncio-dia(32i
Oual c, cn rcsuno, a aliura dc nosso icnpo?
Nao c plcniiudc dos icnpos, c cnircianio,
scnic-sc solrc iodos os icnpos sidos c por cina
dc iodas as conIccidas plcniiudcs. Nao c facil
fornular a inprcssao quc dc si ncsna icn nossa
cpoca. crc scr nais quc as dcnais, c ao ncsno
icnpo scnic-sc cono un concço, scn csiar
scgura dc nao scr agonia. Ouc c×prcssao
cscolIcrcnos? Talvcz csia. nais quc os dcnais
icnpos c infcrior a si ncsna. Foriíssina c ao
ncsno icnpo inscgura dc scu dcsiino. OrgulIosa
dc suas forças c ao ncsno icnpo icncndo-as.
92

IV. O CRESCIMENTO DA VIDA

O inpcrio das nassas c o asccnso dc nívcl, a
aliiiudc do icnpo quc clc anuncia, nao sao por
sua vcz nais quc siniona dc un faio nais
conplcio c gcral. Esic faio c quasc groicsco c
incrívcl cn sua sinplcs cvidcncia. É,
sinplcsncnic, quc o nundo, dc rcpcnic, crcsccu,
c con clc c nclc, a vida. A vida nundializou-sc
cfciivancnic; qucro dizcr quc o conicudo da vida
no Ioncn dc iipo ncdio c Iojc iodo o plancia;
quc cada indivíduo vivc Ialiiualncnic iodo o
nundo. Ha pouco nais dc un ano, os scvilIanos
aconpanIavan, Iora a Iora, cn scus jornais
popularcs, o quc csiava aconicccndo con uns
Ioncns junio ao Polo; qucro dizcr, quc solrc o
fundo ardcnic da canpina lciica passavan
llocos dc gclo à dcriva. Cada pcdaço dc icrra nao
csia ja rccluído cn scu lugar gconcirico, nas
para nuiios cfciios viiais aiua nos dcnais ponios
do plancia. Scgundo o princípio físico dc quc as
coisas csiao ali ondc aiuan, rcconIcccrcnos Iojc
a qualqucr ponio do glolo a nais cfciiva
uliquidadc. Esia pro×inidadc do longínquo, csia
prcscnça do auscnic, auncniou cn proporçao
falulosa o Iorizonic dc cada vida.
93
E o nundo crcsccu ianlcn icnporalncnic.
A prc-Iisioria c a arqucologia dcscolriran
anliios Iisioricos dc longiiudc quincrica.
Civilizaçõcs iniciras c inpcrios dos quais ncn o
nonc sc suspciiava, foran anc×ados a nossa
ncnoria cono novos coniincnics. O jornal
ilusirado c o cincna irou×cran csics
rcnoiíssinos pcdaços dc nundo à visao incdiaia
do vulgo.
Mas csic auncnio cspacio-icnporal do
nundo nao significaria por si nada. O cspaço c o
icnpo físicos sao o alsoluiancnic csiupido do
univcrso. Por isso c nais jusiificado do quc soi
crcr-sc o culio à vclocidadc quc iransiioriancnic
c×crciian nossos conicnporancos. A vclocidadc
fciia dc cspaço c icnpo nao c ncnos csiupida quc
scus ingrcdicnics; nas scrvc para anular aquclcs.
Una csiupidcz nao sc podc doninar a nao scr
con ouira. Era para o Ioncn qucsiao dc Ionra
iriunfar no cspaço c no icnpo cosnicos(33i, quc
carcccn por conplcio dc scniido, c nao Ia razao
para csiranIar dc quc nos produza un pucril
prazcr fazcr funcionar a vazia vclocidadc, con a
qual naianos cspaço c jugulanos icnpo. Ao
anula-los, vivificano-los, iornanos possívcl scr o
aprovciiancnio viial, podcnos csiar cn nais
lugarcs quc anics, gozar dc nais idas c nais
vindas, consunir cn ncnos icnpo viial nais
icnpo cosnico.
94
Mas, cn dcfiniiivo, o crcscincnio sulsianiivo
do nundo nao consisic cn suas naiorcs
dincnsõcs, nas cn quc inclua nais coisas. Cada
coisa ÷ ionc-sc a palavra cn scu nais anplo
scniido ÷ c algo quc sc podc dcscjar, icniar,
fazcr, dcsfazcr, cnconirar, gozar ou rcpclir; noncs
iodos quc significan aiividadcs viiais.
Tonc-sc qualqucr una dc nossas aiividadcs;
por c×cnplo, conprar. Inagincn-sc dois Ioncns,
un do prcscnic c ouiro do scculo XVIII, quc
possuan foriuna igual, proporcionalncnic ao
valor do dinIciro cn anlas as cpocas, c
conparc-sc o rcpcriorio dc coisas cn vcnda quc
sc ofcrccc a un c a ouiro. A difcrcnça c quasc
falulosa. A quaniidadc dc possililidadcs quc sc
alrcn anic o conprador aiual cIcga a scr
praiicancnic iliniiada. Nao c facil inaginar con
o dcscjo un oljcio quc nao c×isia no ncrcado, c
vicc-vcrsa. nao c possívcl quc un Ioncn inaginc
c dcscjc quanio sc acIa à vcnda. Dir-nc-ao quc,
con foriuna proporcionalncnic igual, o Ioncn
dc Iojc nao podcra conprar nais coisas quc o do
scculo XVIII. O faio c falso. Hojc podcn conprar-
sc nuiias nais, porquc a indusiria laraicou
quasc iodos os ariigos. Mas finalncnic nao nc
inporiaria quc o faio fossc ccrio; pclo conirario,
sullinIaria nais o quc icnio dizcr.
A aiividadc dc conprar conclui cn dccidir-sc
por un oljcio; nas c ianlcn anics una clciçao,
95
c a clciçao concça por pcrcclcr as possililidadcs
quc ofcrccc o ncrcado. Dc ondc rcsulia quc a
vida, cn scu nodo ºconprar", consisic
princirancnic cn vivcr as possililidadcs dc
conpra cono iais. Ouando sc fala dc nossa vida
soi csqucccr-sc disio, quc nc parccc
csscncialíssino. nossa vida c cn iodo insianic c
anics quc nada conscicncia do quc nos c possívcl.
Sc cn cada noncnio nao iivcsscnos à nossa
frcnic nais quc una so possililidadc, carcccria
dc scniido cIana-la assin. Scria apcnas pura
ncccssidadc. Mas ai csia. cssc csiranIíssino faio
dc nossa vida possui a condiçao radical dc quc
scnprc cnconira anic si varias saídas, quc por
scrcn varias adquircn o caraicr dc possililidadcs
cnirc as quais Iavcnos dc dccidir(34i. Tanio valc
dizcr quc vivcnos cono dizcr quc nos
cnconiranos cn un anlicnic dc possililidadcs
dcicrninadas. A csic anliio cosiuna cIanar-sc
ºas circunsiancias". Toda vida c acIar-sc dcniro
da ºcircunsiancia" ou nundo(35i. Porquc csic c o
scniido originario da idcia (nundoi. Mundo c o
rcpcriorio dc nossas possililidadcs viiais. Nao c,
pois, algo à paric c alIcio a nossa vida, nas quc c
sua auicniica pcrifcria. Fcprcscnia o quc
podcnos scr; porianio, nossa poicncialidadc
viial. Esia icn dc sc concrciizar para rcalizar-sc,
ou, diio dc ouira nancira, cIcganos a scr so
una paric nínina do quc podcnos scr. Daí quc
nos parccc o nundo una coisa iao cnornc, c
96
nos, dcniro dclc, una coisa iao pcqucna. O
nundo ou nossa vida possívcl c scnprc nais quc
nosso dcsiino ou vida cfciiva.
Mas agora inporia-nc so fazcr noiar cono
crcsccu a vida do Ioncn na dincnsao dc
poicncialidadc. Conia con un anliio dc
possililidadc falulosancnic naior quc nunca. Na
ordcn iniclcciual cnconira nais caninIo dc
possívcl idcaçao, nais prollcnas, nais dados,
nais cicncias, nais ponios dc visia. Enquanio os
ofícios ou carrciras na vida priniiiva sc nuncran
quasc con os dcdos dc u'a nao ÷ pasior,
caçador, gucrrciro, nago ÷, o prograna dc
nisicrcs possívcis Iojc c supcrlaiivancnic
grandc. Nos prazcrcs aconiccc coisa parccida, sc
lcn ÷ c o fcnóncno icn nais gravidadc do quc
sc supõc ÷ nao c scu clcnco iao c×ulcranic cono
nos dcnais aspccios da vida. Enircianio, para o
Ioncn dc vida ncdia quc Ialiia as urlcs ÷ c as
urlcs sao a rcprcscniaçao da c×isicncia aiual ÷,
as possililidadcs dc gozar auncniaran, no quc
vai dc scculo, dc una nancira faniasiica.
Mas o crcscincnio da poicncialidadc viial nao
sc rcduz ao diio aic aqui. Auncniou ianlcn cn
un scniido nais incdiaio c nisicrioso. É un faio
consianic c noiorio quc no csforço físico c
csporiivo sc cunpran Iojc pcrfornanccs quc
supcran cnorncncnic quanias sc conIcccn do
passado. Nao lasia adnirar cada una dclas c
97
rcconIcccr o rccord quc laicn, nas advcriir a
inprcssao dc quc o organisno Iunano possui
cn nosso icnpo capacidadcs supcriorcs às quc
nunca icvc. Porquc coisa sinilar aconiccc na
cicncia. En un par dc lusiros iao soncnic, csia
anpliou c invcrossinilncnic scu Iorizonic
cosnico. A física dc Einsicin novc-sc cn cspaços
iao vasios, quc a aniiga física dc Ncwion ocupa
nclcs apcnas un soiao(36i E csic crcscincnio
c×icnsivo sc dcvc a un crcscincnio inicnsivo na
prccisao cicniífica. A física dc Einsicin csia fciia
aicndcndo às níninas difcrcnças quc anics sc
dcsprczavan c nao cniravan cn conia por
parcccr scn inporiancia. O aiono, cnfin, liniic
onicn do nundo, Iojc incIou aic sc convcricr cn
iodo un sisicna planciario. E cn iudo isio nao
nc rcfiro ao quc possa significar cono pcrfciçao
da culiura ÷ isso nao nc inicrcssa agora ÷, nas
ao crcscincnio das poicncias suljciivas quc iudo
isso supõc. Nao rcssalio quc a física dc Einsicin
scja nais c×aia quc a dc Ncwion, nas quc o
Ioncn Einsicin scja capaz dc naior c×aiidao c
lilcrdadc dc cspíriio(37i quc o Ioncn Ncwion; do
ncsno nodo quc o canpcao dc lo×c da Iojc
nurros dc naior calilrc quc janais sc dcran.
Cono o cincnaiografo c a ilusiraçao põcn
anic os olIos do Ioncn ncdio os lugarcs nais
rcnoios do plancia, os jornais c as convcrsaçõcs
lIc fazcn cIcgar a noiícia dcsias pcrfornanccs
iniclcciuais quc os aparclIos iccnicos rcccn-
98
invcniados confirnan dcsdc as viirinas. Tudo
isso dccania cn sua ncnic a inprcssao dc
falulosa prcpoicncia.
Nao qucro dizcr con o diio quc a vida
Iunana scja Iojc nclIor quc cn ouiros icnpos.
Nao falci da aiualidadc da vida prcscnic, nas
apcnas dc scu crcscincnio, dc scu avanço
quaniiiaiivo ou poicncial. Crcio con isso
dcscrcvcr rigorosancnic a conscicncia do Ioncn
aiual, scu ion viial quc consisic cn scniir-sc
con naior poicncialidadc quc nunca c parcccr-
lIc iodo o prcicriio afciado dc pcqucncz.
Era ncccssaria csia dcscriçao para olviar as
luculraçõcs solrc dccadcncia, c, cn cspccic,
solrc dccadcncia ocidcnial quc pulularan no ar
do uliino dcccnio. Fccordc-sc o raciocínio quc cu
fazia, c quc nc parccc iao sinplcs cono cvidcnic.
Nao valc falar dc dccadcncia scn prccisar quc c o
quc dccai. Fcfcrc-sc o pcssinisia vocalulo à
culiura? Ha una dccadcncia da culiura
curopcia? Ha soncnic una dccadcncia das
organizaçõcs nacionais curopcias? SuponIanos
quc sin. Dasiaria isso para falar da dccadcncia
ocidcnial? Dc nodo algun. Porquc sao csias
dccadcncias dininuiçõcs parciais, rclaiivas a
clcncnios sccundarios da Iisioria ÷ culiura c
naçõcs ÷. So Ia una dccadcncia alsoluia. a quc
consisic nuna viialidadc ninguanic; c csia so
c×isic quando sc scnic. Por csia razao nc dciivc a
99
considcrar un fcnóncno quc soi dcsaicndcr-sc. a
conscicncia ou scnsaçao quc ioda cpoca icn dc
sua aliiiudc viial.
Isio nos lcva a falar da ºplcniiudc" quc
scniiran alguns scculos dianic dc ouiros quc,
invcrsancnic, sc vian a si ncsnos cono
dccaídos dc naiorcs aliuras, dc aniigas c
dcslunlranics idadcs dc ouro. E concluía cu
fazcndo noiar o faio cvidcniíssino dc quc nosso
icnpo sc caracicriza por una csiranIa
prcsunçao dc scr nais quc iodo o icnpo passado;
nais ainda. por dcscnicndcr-sc dc iodo prcicriio,
nao rcconIcccr cpocas classicas c nornaiivas,
scnao vcr-sc a si ncsno cono una vida nova
supcrior a iodas as aniigas c irrcduiívcl a clas.
Duvido quc scn sc afiançar lcn ncsia
advcricncia sc possa cnicndcr o nosso icnpo.
Porquc cssc c prccisancnic scu prollcna. Sc sc
scniissc dccaído, vcria ouiras cpocas cono
supcriorcs a clc c isio scria una c ncsna coisa
con csiina-las c adnira-las c vcncrar os
princípios quc as infornaran. Nosso icnpo icria
idcais claros c firncs, ainda quc fossc incapaz dc
rcaliza-los. Mas a vcrdadc c csiriiancnic o
conirario. vivcnos cn un icnpo quc sc scnic
falulosancnic capaz para rcalizar, nas quc nao
salc o quc rcalizar. Donina iodas as coisas, nas
nao c dono dc si ncsno. Scnic-sc pcrdido cn sua
propria alundancia. Con nais ncios, nais
100
salcr, nais iccnicas quc nunca, o nundo aiual
vai cono o nais infcliz quc icnIa Iavido.
purancnic ao acaso.
Daí cssa csiranIa dualidadc dc prcpoicncia c
inscgurança quc sc aninIa na alna
conicnporanca. Aconiccc-lIc cono sc dizia do
Fcgcnic duranic a infancia dc Luiz XV ÷ quc
iinIa iodos os ialcnios, ncnos o ialcnio para
usar dclcs. Muiias coisas parccian ja inpossívcis
ao scculo XIX, firnc cn sua fc progrcssisia. Hojc,
dc ianio nos parcccr iudo possívcl, prcsscniinos
quc c possívcl o pior. o rciroccsso, a larlaric, a
dccadcncia(38i. Por si ncsno nao scria isio un
nau siniona. significaria quc volianos a ionar
coniaio con a inscgurança csscncial a iodo vivcr,
con a inquiciudc a un icnpo dolorosa c dcliciosa
quc vai cnccrrada cn cada ninuio sc salcnos
vivc-lo aic o scu ccniro, aic sua pcqucna vísccra
palpiianic c crucnia. Ccralncnic, rccusanos
ionar cssa pulsaçao pavorosa quc faz dc cada
insianic sinccro un niudo coraçao iranscunic;
csforçando-nos por ganIar scgurança c
inscnsililizar-nos para o dranaiisno radical do
nosso dcsiino, vcricndo solrc clc o cosiunc, o
uso, o iopico ÷ iodos os clorofornios ÷ .É, pois,
lcncfico quc pcla princira vcz dcpois dc quasc
ircs scculos nos surprccndanos con a
conscicncia dc nao salcr o quc vai aconicccr
ananIa.
101
Todo aquclc quc sc coloquc anic a c×isicncia
nuna aiiiudc scria c sc faça dcla plcnancnic
rcsponsavcl, scniira ccrio gcncro dc inscgurança
quc o inciia a pcrnancccr alcria. A aiiiudc quc a
ordcnança ronana inpunIa à scniincla da lcgiao
cra nanicr o indicador solrc os lalios para cviiar
a sonolcncia c nanicr-sc aicnia. Nao csia nal
cssc adcnanc, quc parccc inpcrar un naior
silcncio ao silcncio noiurno, para podcr ouvir a
sccrcia gcrninaçao do fuiuro. A scgurança das
cpocas dc plcniiudc ÷ assin na uliina ccniuria
÷ c una ilusao oiica quc lcva a dcsprcocupar-sc
do porvir, cncarrcgando dc sua dircçao a
nccanica do univcrso. O ncsno quc o
lilcralisno progrcssisia c o socialisno dc Mar×,
supõcn quc o dcscjado por clcs cono fuiuro
oiino sc rcalizara, inc×oravclncnic, con
ncccssidadc parclIa à asironónica. Proicgidos
anic sua propria conscicncia por cssa idcia,
soliaran o lcnc da Iisioria, dci×aran dc csiar
alcria, pcrdcran a agilidadc c a cficacia. Assin, a
vida sc lIcs cscapou dcnirc as naos, fcz-sc por
conplcio insulnissa, c Iojc anda solia, scn
runo conIccido. Sol sua nascara dc gcncroso
fuiurisno, o progrcssisia nao sc prcocupa do
fuiuro; convcncido dc quc nao icn surprcsa ncn
scgrcdos, pcripccias ncn inovaçõcs csscnciais;
ccrio dc quc ja o nundo ira cn linIa rcia, scn
dcsvios ncn rciroccssos, rcirai sua inquiciudc do
porvir c sc insiala nun dcfiniiivo prcscnic. Nao
102
podcra csiranIar quc Iojc o nundo parcça vazio
dc projcios, aniccipaçõcs c idcais. Ningucn sc
prcocupou dc prcvcni-los. Tal icn sido a dcscrçao
das ninorias dirigcnics, quc sc acIa scnprc ao
rcvcrso da rclcliao das nassas.
Mas ja c icnpo dc quc volicnos a falar dcsia.
Dcpois dc Iavcr insisiido na vcricnic favoravcl
quc aprcscnia o iriunfo das nassas, convcn quc
nos dcslizcnos por sua ouira ladcira, nais
pcrigosa.
103

V. UM DADO ESTATÍSTICO

Esic cnsaio quiscra vislunlrar o diagnosiico
dc nosso icnpo, dc nossa vida aiual. Vai
cnunciada a princira paric dclc, quc podc
rcsunir-sc assin. nossa vida, cono rcpcriorio dc
possililidadcs, c nagnífica, c×ulcranic, supcrior
a iodas as Iisioricancnic conIccidas. Mas assin
cono scu fornaio c naior, iranslordou iodos os
caninIos, princípios, nornas c idcais lcgados
pcla iradiçao. É nais vida quc iodas as vidas, c
por isso ncsno nais prollcnaiica. Nao podc
oricniar-sc no prcicriio(39i. Tcn dc invcniar scu
proprio dcsiino.
Mas agora c prcciso conplciar o diagnosiico.
A vida, quc c, anics dc iudo, o quc podcnos scr,
vida possívcl, c ianlcn, c por isso ncsno,
dccidir cnirc as possililidadcs o quc cn cfciio
vanos scr. Circunsiancias c dccisao sao os dois
clcncnios radicais dc quc sc conpõc a vida. A
circunsiancia ÷ as possililidadcs ÷ c o quc dc
nossa vida nos c dado c inposio. Isso consiiiui o
quc cIananos o nundo. A vida nao clcgc scu
nundo, nas vivcr c cnconirar-sc, incdiaiancnic,
cn un nundo dcicrninado c insulsiiiuívcl.
ncsic dc agora. Nosso nundo c a dincnsao dc
faialidadc quc inicgra nossa vida. Mas csia
104
faialidadc viial nao sc parccc à nccanica. Nao
sonos arrcncssados para a c×isicncia cono a
lala dc un fuzil, cuja irajcioria csia
alsoluiancnic prcdcicrninada. A faialidadc cn
quc caínos ao cair ncsic nundo ÷ o nundo c
scnprc csic, csic dc agora ÷ consisic cn iodo o
conirario. En vcz dc inpor-nos una irajcioria,
inpõc-nos varias c, conscqucnicncnic, nos
força... a clcgcr. Surprccndcnic condiçao a dc
nossa vida! Vivcr c scniir-sc faialncnic forçado a
c×crciiar a lilcrdadc, a dccidir o quc vanos scr
ncsic nundo. Ncn un so insianic sc dci×a
dcscansar nossa aiividadc dc dccisao. Inclusivc
quando dcscspcrados nos alandonanos ao quc
qucira vir, dccidinos nao dccidir.
É, pois, falso dizcr quc na vida ºdccidcn as
circunsiancias". Pclo conirario. as circunsiancias
sao o dilcna, scnprc novo, anic o qual icnos dc
nos dccidir. Mas qucn dccidc c o nosso caraicr.
Tudo isio valc ianlcn para a vida colciiva.
Tanlcn ncla Ia, princiro, un Iorizonic dc
possililidadcs, c, dcpois, una rcsoluçao quc clcgc
c dccidc o nodo cfciivo da c×isicncia colciiva.
Esia rcsoluçao cnana do caraicr quc a socicdadc
icnIa, ou, o quc c o ncsno, do iipo dc Ioncn
doninanic ncla. En nosso icnpo, donina o
Ioncn-nassa; c clc qucn dccidc. Nao sc diga
quc isio cra o quc aconiccia ja na cpoca da
dcnocracia, do sufragio univcrsal. No sufragio
105
univcrsal nao dccidcn as nassas, scnao quc scu
papcl consisiiu cn adcrir à dccisao dc una ou
ouira ninoria. Esias aprcscniavan scus
ºprogranas" ÷ c×cclcnic vocalulo ÷. Os
progranas cran, con cfciio, progranas dc vida
colciiva. Nclcs convidava-sc a nassa a acciiar un
projcio dc dccisao.
Hojc aconiccc una coisa nuiio difcrcnic. Sc
sc olscrva a vida pullica dos paíscs ondc o
iriunfo das nassas avançou nais ÷ sao os paíscs
ncdiicrrancos ÷, surprccndc noiar quc nclcs sc
vivc poliiicancnic ao dia. O fcnóncno c
solrcnancira csiranIo. O Podcr pullico acIa-sc
cn naos dc un rcprcscnianic dc nassas. Esias
sao iao podcrosas, quc aniquilaran ioda possívcl
oposiçao. Sao donas do Podcr pullico cn forna
iao inconirasiavcl c supcrlaiiva, quc scria difícil
cnconirar na Iisioria siiuaçõcs dc govcrno iao
prcpoicnics cono csias. E, cnircianio, o Podcr
pullico, o Covcrno, vivc ao dia; nao sc aprcscnia
cono un porvir franco, nao significa un anuncio
claro dc fuiuro, nao aparccc cono concço dc algo
cujo dcscnvolvincnio ou cvoluçao scja
inaginavcl. En suna, vivc scn prograna dc vida,
scn projcio. Nao salc aondc vai porquc, a rigor,
nao vai, nao icn caninIo prcfi×ado, irajcioria
aniccipada. Ouando cssc podcr pullico icnia
jusiificar-sc, nao aludc para nada ao fuiuro,
scnao, pclo conirario, fccIa-sc no prcscnic c diz
con pcrfciia sinccridadc. ºSou un nodo anornal
106
dc govcrno quc c inposio pclas circunsiancias".
Oucr dizcr, pcla urgcncia do prcscnic, nao por
calculos do fuiuro. Daí quc sua aiuaçao sc
rcduza a cviiar o confliio dc cada Iora; nao a
rcsolvc-lo, nas a cscapar dclc incdiaiancnic,
cnprcgando os ncios quc scjan, ainda à cusia
dc acunular con scu cnprcgo naiorcs confliios
solrc a Iora pro×ina. Assin icn sido scnprc o
Podcr pullico quando o c×crccran dirciancnic as
nassas. onipoicnic c cfcncro. O Ioncn-nassa c
o Ioncn cuja vida carccc dc projcio c caninIa
ao acaso. Por isso nao consiroi nada, ainda quc
suas possililidadcs, scus podcrcs, scjan
cnorncs.
E csic iipo dc Ioncn dccidc cn nosso
icnpo. Convcn, pois, quc analiscnos scu
caraicr.
A cIavc para csia analisc cnconira-sc
quando, rciroccdcndo ao concço dcsic cnsaio,
nos pcrgunianos. dc ondc vicran iodas csias
nuliidõcs quc agora cncIcn c iranslordan o
ccnario Iisiorico?
Ha alguns anos dcsiacava o grandc
ccononisia Wcrncr Sonlari un dado
sinplicíssino, quc c csiranIo nao consic cn ioda
calcça quc sc prcocupc dos assunios
conicnporancos. Esic sinplicíssino dado lasia
por si so para csclarcccr nossa visao da Europa
107
aiual, c sc nao lasia, põc na pisia dc iodo
csclarccincnio. O dado c o scguinic. dcsdc quc
no scculo VI concça a Iisioria curopcia aic o ano
1800 ÷ porianio, cn ioda a longiiudc dc dozc
scculos ÷, a Europa nao conscguc cIcgar a ouira
cifra dc povoaçao scnao a dc 180 nilIõcs dc
Ialiianics. Pois lcn. dc 1800 a 1914 ÷
porianio, cn pouco nais dc un scculo, a
populaçao curopcia asccndc dc 180 a 460
nilIõcs! Prcsuno quc o conirasic dcsias cifras
nao dci×a lugar a duvidas a rcspciio dos doics
prolíficos da uliina ccniuria. En ircs gcraçõcs
produziran giganicscancnic nassa Iunana quc,
lançada cono una iorrcnic solrc a arca
Iisiorica, a inundou. Dasiaria, rcpiio, csic dado
para conprccndcr o iriunfo das nassas c quanio
nclc sc rcflcic c sc anuncia. Por ouira paric, dcvc
scr acrcscido cono o sonando nais concrcio ao
crcscincnio da vida cono anics fiz consiar.
Mas ao ncsno icnpo nos nosira cssc dado
quc c infundada a adniraçao con quc
rcssalianos o crcscincnio dc paíscs novos cono
os Esiados Unidos da Ancrica. MaravilIa-nos
scu crcscincnio, quc nun scculo cIcgou a 100
nilIõcs dc Ioncns, quando o naravilIoso c a
prolifcraçao da Europa. Eis aqui ouira razao para
corrigir o cspclIisno quc supõc una
ancricanizaçao da Europa. Ncn scqucr o iraço
quc pudcra aparcccr nais cvidcnic para
caracicrizar a Ancrica ÷ a vclocidadc dc
108
auncnio cn sua povoaçao ÷ lIc c pcculiar. A
Europa crcsccu no scculo passado nuiio nais
quc a Ancrica. A Ancrica csia fciia con a solra
da Europa.
Mas ainda quc nao scja iao conIccido cono
dcvcra o dado calculado por Wcrncr Sonlari, cra
dc solra noiorio o faio confuso dc Iavcr
auncniado considcravclncnic a povoaçao
curopcia para insisiir nclc. Nao c, pois, o
auncnio dc populaçao o quc nas cifras
iranscriias nc inicrcssa, scnao quc ncrcc a scu
conirasic põc cn rclcvo a inpciuosidadc do
crcscincnio. Esia c a quc agora nos inporia.
Porquc csia inpciuosidadc significa quc icn sido
projciados a nagoics solrc a Iisioria noniõcs c
noniõcs dc Ioncns cn riino iao acclcrado, quc
nao cra facil saiura-los da culiura iradicional.
E, con cfciio, o iipo ncdio do aiual Ioncn
curopcu possui una alna nais sa c nais foric
quc as do passado scculo, porcn nuiio nais
sinplcs. Daí quc às vczcs produza a inprcssao dc
un Ioncn priniiivo surgido incspcradancnic
cn ncio a una vclIíssina civilizaçao. Nas
cscolas quc ianio orgulIavan o passado scculo,
nao sc podc fazcr ouira coisa scnao cnsinar às
nassas as iccnicas da vida nodcrna, nas nao foi
possívcl cduca-las. Dcran-sc-lIc insiruncnios
para vivcr inicnsancnic, nas nao scnsililidadc
para os grandcs dcvcrcs Iisioricos; inoculou-sc-
109
lIcs airopcladancnic o orgulIo c o podcr dos
ncios nodcrnos, nas nao o cspíriio. Por isio nao
qucrcn nada con o cspíriio, c as novas gcraçõcs
dispõcn-sc a ionar o conando do nundo cono
sc o nundo fossc un paraíso scn rasiros
aniigos, scn prollcnas iradicionais c conplc×os.
Corrcspondc, pois, ao scculo passado a gloria
c a rcsponsalilidadc dc Iavcr soliado solrc a facc
da Iisioria as grandcs nuliidõcs. Por cssa razao
ofcrccc csic faio a pcrspcciiva nais adcquada
para julgar con cquidadc cssa ccniuria. Algo
c×iraordinario, inconparavcl, dcvia Iavcr ncla
quando na sua ainosfcra sc produzcn iais
colIciias dc fruio Iunano. É frívola c ridícula
ioda prcfcrcncia dos princípios quc inspiraran
qualqucr ouira idadc prcicriia sc anics nao
dcnonsira quc sc cncarrcgou dcsic faio nagnífico
c icniou digcri-lo. Aparccc a Iisioria inicira cono
un giganicsco laloraiorio ondc sc fizcran os
cnsaios inaginavcis para olicr una fornula dc
vida pullica quc favorcccssc a plania ºIoncn". E
ulirapassando ioda possívcl sofisiicaçao,
cnconirano-nos con a c×pcricncia dc quc ao
sulncicr a scncnic Iunana ao iraiancnio
dcsics dois princípios, dcnocracia lilcral c
iccnica, nun so scculo, iriplicassc a cspccic
curopcia.
Faio iao c×ulcranic força-nos, sc nao
prcfcrirnos scr dcncnics, a iirar csias
110
conscqucncias. princira, quc a dcnocracia lilcral
fundada na criaçao iccnica c o iipo supcrior dc
vida pullica aic agora conIccido; scgunda, quc
cssc iipo dc vida nao scra o nclIor inaginavcl,
nas o quc inagincnos nclIor icra dc conscrvar
o csscncial daquclcs princípios; icrccira, quc c
suicida iodo rciorno a fornas dc vida infcriorcs à
do scculo XIX.
Una vcz rcconIccido isio con ioda a
claridadc quc dcnanda a claridadc do proprio
faio, c prcciso rcvolvcr-sc conira o scculo XIX. Sc
c cvidcnic quc Iavia nclc algo c×iraordinario c
inconparavcl, nao o c ncnos quc dcvcu padcccr
ccrios vícios radicais, ccrias consiiiuiivas
insuficicncias quando cngcndrou una casia dc
Ioncns ÷ os Ioncns-nassa rclcldcs ÷ quc
põcn cn pcrigo inincnic os princípios ncsnos a
quc dcvcran a vida. Sc cssc iipo Iunano
coniinua dono da Europa c c dcfiniiivancnic
qucn dccidc, lasiarao irinia anos para quc nosso
coniincnic rciroccda à larlaric. As iccnicas
jurídicas c naicriais sc volaiilizarao con a
ncsna facilidadc con quc sc pcrdcran ianias
vczcs scgrcdos dc falricaçao(40i. A vida ioda sc
coniraira. A aiual alundancia dc possililidadcs
sc convcricra cn cfciiva níngua, cscasscz,
inpoicncia angusiiosa, cn vcrdadcira
dccadcncia. Porquc a rclcliao das nassas c una
c ncsna coisa con o quc FaiIcnau cIanava ºa
invasao vcriical dos larlaros".
111
Inporia, pois, nuiio conIcccr a fundo csic
Ioncn-nassa, quc c pura poicncia do naior
lcn c do naior nal.
112

VI. COMEÇA A DISSECAÇÃO DO HOMEM-MASSA

Cono c csic Ioncn-nassa quc donina Iojc
a vida pullica ÷ a vida políiica c a nao políiica?
Por quc c cono c, qucro dizcr, cono sc produziu?
Convcn rcspondcr conjuniancnic a anlas
as qucsiõcs, porquc sc prcsian nuiuo
csclarccincnio. O Ioncn quc agora icnia pór-sc
à frcnic da c×isicncia curopcia c nuiio difcrcnic
daquclc quc dirigiu o scculo XIX, nas foi
produzido c prcparado no scculo XIX. Oualqucr
ncnic pcrspicaz dc 1820, dc 1850, 1880, podc,
por un sinplcs raciocínio a priori, prcvcr a
gravidadc da siiuaçao Iisiorica aiual. E, con
cfciio, nada novo aconiccc quc nao icnIa sido
prcvisio Ia ccn anos. ºAs nassas avançan!"
dizia, apocalípiico, Hcgcl. ºScn un novo podcr
cspiriiual, nossa cpoca, quc c una cpoca
rcvolucionaria, produzira una caiasirofc",
anunciava Augusio Conic.
ºVcjo sulir a prcanar do niIilisno!", griiava
dc un pcnIasco alcaniilado da Engadina o
ligodudo NicizcIc. É falso dizcr quc a Iisioria
nao c prcvisívcl. Inuncras vczcs icn sido
profciizada. Sc o porvir nao ofcrcccssc un flanco
à profccia, nao podcríanos ianpouco
conprccndc-la quando logo sc cunprc c sc faz
113
passado. A idcia dc quc o Iisioriador c un
profcia pclo avcsso rcsunc ioda a filosofia.
Siiuaçao dc ial nodo alcria c franca iinIa
por força quc dccaniar no csiraio nais profundo
dcssas da Iisioria. Ccriancnic quc so calc
aniccipar a csiruiura gcral do fuiuro; por isso
ncsno c o unico quc, cn vcrdadc,
conprccndcnos do prcicriio ou do prcscnic. Por
isso, sc o scnIor qucr vcr lcn sua cpoca, olIc-a
dc longc. A quc disiancia? Muiio sinplcs. à
disiancia jusia quc o inpcça vcr o nariz dc
Clcopaira.
Ouc aspccio ofcrccc a vida dcssc Ioncn
nuliiiudinario, quc con progrcssiva alundancia
vai cngcndrando o scculo XIX? Dcsdc ja, un
aspccio dc onninoda facilidadc naicrial. Nunca
podc o Ioncn ncdio rcsolvcr con iania folga scu
prollcna cconónico. Enquanio cn proporçao
dininuían as grandcs foriunas c sc iornava nais
dura a c×isicncia do opcrario indusirial, o Ioncn
ncdio dc qualqucr classc social cnconirava cada
dia nais franco scu Iorizonic cconónico. Cada
dia ajuniava un novo lu×o ao rcpcriorio dc scu
siandard viial. Cada dia sua posiçao cra nais
scgura c nais indcpcndcnic do arlíirio alIcio. O
quc anics sc Iouvcra considcrado conun
lcncfício da soric quc inspirava Iunildc graiidao
ao dcsiino, convcricu-sc nun dirciio quc nao sc
agradccc, nas quc sc c×igc.
114
Dcsdc 1900 concça ianlcn o opcrario a
anpliar c asscgurar a sua vida. Enircianio, icn
dc luiar para conscgui-lo. Nao sc cnconira, cono
o Ioncn ncdio, con un lcn-csiar posio dianic
dclc soliciiancnic por una socicdadc c un
Esiado quc sao un poricnio dc organizaçao.
A csia facilidadc c scgurança cconónica
ajunian-sc as físicas. o confori c a ordcn
pullica. A vida narcIa solrc cónodos carris, c
nao Ia vcrossiniliiudc dc quc inicrvcnIa ncla
nada violcnio c pcrigoso. Tal inagcn liniia-sc a
incuiir nas alnas ncdias una inprcssao viial,
quc podia c×prcssar-sc con a pcrífrasc, iao
graciosa c aguda, dc nosso vclIo povo. ºanpla c
Casicla". Oucr dizcr quc cn iodas cssas ordcns
clcncniarcs c dccisivas a vida sc aprcscniou ao
Ioncn novo iscnia dc inpcdincnios. A
conprccnsao dcsic faio c sua inporiancia
surgcn auionaiicancnic quando sc rccorda quc
cssa franquia viial faliou por conplcio aos
Ioncns vulgarcs do passado. Foi, pclo conirario,
para clcs a vida un dcsiino angusiianic ÷ no
cconónico c no físico ÷. Scniiran o vivcr a
naiiviiaic cono un cunulo dc inpcdincnios quc
cra forçoso suporiar, scn quc coulcra ouira
soluçao quc nao fossc adapiar-sc a clcs, alojar-sc
na csirciicza quc dci×avan.
Mas c ainda nais clara a coniraposiçao dc
siiuaçõcs sc do naicrial passanos ao civil c
115
noral. O Ioncn ncdio, dcsdc a scgunda nciadc
do scculo XIX, nao acIa anic si larrciras sociais
ncnIunas. Oucr dizcr, ianpouco nas fornas da
vida pullica cnconira-sc ao nasccr con cniravcs
c liniiaçõcs. Nada o olriga a conicr sua vida.
Tanlcn aqui ºanpla c Casicla". Nao c×isicn os
ºcsiados" ncn as ºcasias". Nao Ia ningucn
civilncnic privilcgiado. O Ioncn ncdio aprcndc
quc iodos os Ioncns sao lcgalncnic iguais.
Janais cn ioda a Iisioria Iavia sido posio o
Ioncn nuna circunsiancia ou coniorno viial quc
sc parcccssc ncn dc longc ao quc cssas
condiçõcs dcicrninan. Traia-sc, con cfciio, dc
una inovaçao radical no dcsiino Iunano, quc c
inplaniada pclo scculo XIX. Cria-sc un novo
ccnario para a c×isicncia do Ioncn, novo no
físico c no social. Trcs princípios fizcran possívcl
cssc novo nundo. a dcnocracia lilcral, a
c×pcrincniaçao cicniífica c o indusirialisno. Os
dois uliinos podcn rcsunir-sc nun. a iccnica.
NcnIun dcsscs princípios foi invcniado pclo
scculo XIX, nas proccdcn das duas ccniurias
anicriorcs. A Ionra do scculo XIX nao csirila cn
sua invcnçao, nas cn sua inplaniaçao. Ningucn
dcsconIccc isso. Mas nao lasia con o
rcconIccincnio alsiraio, c assin c prcciso
conprccndcr pcrfciiancnic suas inc×oravcis
conscqucncias.
116
O scculo XIX foi csscncialncnic
rcvolucionario. O quc icvc dc ial nao dcvc scr
luscado no cspciaculo dc suas larricadas, quc,
sinplcsncnic, nao consiiiucn una rcvoluçao,
nas quc colocou o Ioncn ncdio ÷ a grandc
nassa social ÷ cn condiçõcs dc vida
radicalncnic oposias às quc scnprc a Iavian
rodcado. Virou pclo avcsso a c×isicncia pullica. A
rcvoluçao nao c a sullcvaçao conira a ordcn
prcc×isicnic, nas a inplaniaçao dc una nova
ordcn quc icrgivcrsa a iradicional. Por isso nao
Ia c×agcraçao ncnIuna cn dizcr quc o Ioncn
cngcndrado pclo scculo XIX, c, para os cfciios da
vida pullica, un Ioncn à paric dc iodos os
dcnais Ioncns. O do scculo XVIII sc difcrcncia,
csia claro, do doninanic no XVII, c csic do quc
caracicriza ao XVI, nas iodos clcs sao parcnics,
sinilarcs c ainda idcniicos no csscncial sc sc
confronia con clcs csic Ioncn novo. Para o
ºvulgo" dc iodas as cpocas, ºvida" Iavia
significado, anics dc iudo, liniiaçao, olrigaçao,
dcpcndcncia; nuna palavra, prcssao. Sc sc qucr,
diga-sc oprcssao, conianio quc nao sc cnicnda
por csia so a jurídica c social, csqucccndo a
cosnica. Porquc csia uliina c a quc nao faliou
nunca aic ccn anos cicniífica ÷ física c
adninisiraiiva ÷, praiicancnic iliniiada. Ao
conirario, aic ncsno para o rico c podcroso, o
nundo cra un anliio dc polrcza, dificuldadc c
pcrigo(41i
117
O nundo quc dcsdc o nascincnio rodcia o
Ioncn novo nao o novc a liniiar-sc cn ncnIun
scniido, nao lIc aprcscnia vcio ncn conicnçao
alguna, nas pclo conirario fusiiga scus apciiics,
quc, cn princípio, podcn crcsccr
indcfinidancnic. Pois aconiccc ÷ c isio c nuiio
inporianic ÷ quc cssc nundo do scculo XIX c
concços do XX nao icn apcnas as pcrfciçõcs c
anpliiudcs quc dc faio possui, nas quc alcn
disso sugcrc a scus Ialiianics una scgurança
radical cn quc ananIa scra ainda nais rico, nas
pcrfciio c nais anplo, cono sc gozassc dc un
csponianco c incsgoiavcl crcscincnio. Todavia
Iojc, apcsar dc alguns signos quc inician una
pcqucna lrccIa ncssa fc roiunda, iodavia Iojc
nuiio poucos Ioncns duvidan dc quc os
auionovcis scrao dcniro dc cinco anos nais
conforiavcis c nais laraios quc os do dia.
Acrcdiia-sc nisio iao firncncnic cono na
pro×ina saída do sol. O sinal c fornal. Porquc,
con cfciio, o Ioncn vulgar, ao cnconirar-sc con
cssc nundo iccnica c socialncnic iao pcrfciio,
crc quc o produziu a naiurcza, c nao pcnsa
nunca nos csforços gcniais dc indivíduos
c×cclcnics quc supõc sua criaçao. Mcnos ainda
adniiira a idcia dc quc iodas csias facilidadcs
coniinuan apoiando-sc cn ccrias difíccis
viriudcs dos Ioncns, dos quais o ncnor nalogro
volaiilizaria rapidissinancnic a nagnífica
consiruçao.
118
Isio nos lcva a aponiar no diagrana
psicologico do Ioncn-nassa aiual dois princiros
iraços. a livrc c×pansao dc scus dcscjos viiais,
porianio, dc sua pcssoa, c a radical ingraiidao a
iudo quanio iornou possívcl a facilidadc dc sua
c×isicncia. Un c ouiro iraço conpõcn a
conIccida psicologia da criança ninada. E, con
cfciio, nao crraria qucn uiilizassc csia cono una
quadrícula para olIar airavcs dcla a alna das
nassas aiuais. Hcrdciro dc un passado
c×icnsíssino c gcnial ÷ gcnial dc inspiraçõcs c dc
csforços ÷, o novo vulgo icn sido ninado pclo
nundo circunsianic. Minar nao c liniiar os
dcscjos, dar a inprcssao a un scr dc quc iudo
lIc csia pcrniiido c a nada csia olrigado. A
criaiura sulnciida a csic rcginc nao icn a
c×pcricncia dc suas proprias liniiaçõcs. À força
dc cviiar-lIc ioda prcssao cn rcdor, iodo cIoquc
con ouiros scrcs, cIcga a crcr cfciivancnic quc
so clc c×isic, c sc acosiuna a nao coniar con os
dcnais, solrciudo a nao coniar con ningucn
cono supcrior a clc. Esia scnsaçao da
supcrioridadc alIcia so podia scr-lIc
proporcionada por qucn, nais foric quc clc, lIc
Iouvcssc olrigado a rcnunciar a un dcscjo, a
rcduzir-sc, a conicr-sc. Assin icria aprcndido
csia csscncial disciplina. ºAí icrnino cu c concça
ouiro quc podc nais do quc cu. No nundo, pclo
visio, Ia dois. cu c ouiro supcrior a nin". Ao
Ioncn ncdio dc ouiras cpocas cnsinava-lIc
119
quoiidianancnic scu nundo csia clcncnial
salcdoria, porquc cra un nundo iao ioscancnic
organizado, quc as caiasirofcs cran frcqucnics c
nao Iavia nclc nada scguro, alundanic ncn
csiavcl. Mas as novas nassas cnconiran una
paisagcn cIcia dc possililidadcs c alcn disso
scgura, c iudo isso prcsio, a sua disposiçao, scn
dcpcndcr dc scu prcvio csforço, cono acIanos o
sol no alio scn quc nos o icnIanos sulido ao
onlro. NcnIun scr Iunano agradccc a ouiro o
ar quc rcspira, porquc o ar nao foi falricado por
ningucn. pcricncc ao conjunio do quc ºcsia aí",
do quc dizcnos ºc naiural", porquc nao falia.
Esias nassas ninadas sao suficicnicncnic
pouco inicligcnics para crcr quc cssa organizaçao
naicrial c social, posia a sua disposiçao cono o
ar, c dc sua propria origcn, ja quc ianpouco
falIa, ao quc parccc, c c quasc iao pcrfciia cono
a naiural.
MinIa icsc c, pois, csia. a propria pcrfciçao
con quc o scculo XIX dcu una organizaçao a
ccrias ordcns da vida, c origcn dc quc as nassas
lcncficiarias nao a considcrcn cono organizaçao,
nas cono naiurcza. Assin sc c×plica c dcfinc o
alsurdo csiado dc anino quc cssas nassas
rcvclan. nao lIcs prcocupa nais quc scu lcn-
csiar c ao ncsno icnpo sao insolidarias das
causas dcssc lcn-csiar. Cono nao vccn nas
vaniagcns da civilizaçao un invcnio c consiruçao
prodigiosos, quc so con grandcs csforços c
120
cauiclas sc podc susicniar, crccn quc scu papcl
sc rcduz a c×igi-las pcrcnpioriancnic, cono sc
fosscn dirciios naiivos. Nos noiins quc a
cscasscz provoca socn as nassas popularcs
luscar pao, c o ncio quc cnprcgan soi scr
dcsiruir as padarias. Isio podc scrvir cono
sínlolo do conporiancnio quc cn nais vasias c
suiis proporçõcs usan as nassas aiuais anic a
civilizaçao quc as nuirc(42i.
121

VII. VIDA NOBRE E VIDA VULGAR,
OU ESFORÇO E INÉRCIA

Sonos aquilo quc nosso nundo nos convida
a scr, c as fciçõcs fundancniais dc nossa alna
sao inprcssas ncla pclo pcrfil do coniorno cono
por un noldc. Naiuralncnic. vivcr nao c nais
quc iraiar con o nundo. O scnllanic gcral quc
clc nos aprcscnia scra o scnllanic gcral dc nossa
vida. Por isso insisio ianio cn fazcr noiar quc o
nundo dc ondc nasccran as nassas aiuais
nosirava una fisiononia radicalncnic nova na
Iisioria. Enquanio no prcicriio vivcr significava
para o Ioncn ncdio cnconirar a sua volia
dificuldadcs, pcrigos, cscasscz, liniiaçõcs dc
dcsiino c dcpcndcncia, o nundo novo aparccc
cono un anliio dc possililidadcs praiicancnic
iliniiadas, scn duvida, ondc nao sc dcpcndc dc
ningucn. À volia dcsia inprcssao prinaria c
pcrnancnic vai sc fornar cada alna
conicnporanca, cono cn volia da oposia sc
fornaran as aniigas. Porquc csia inprcssao
fundancnial sc convcric cn voz inicrior quc
nurnura scn ccssar unas cono palavras no
nais profundo da pcssoa c lIc insinua
icnazncnic una dcfiniçao da vida quc c, ao
ncsno icnpo, un inpcraiivo. E sc a inprcssao
iradicional dizia. ºVivcr c scniir-sc liniiado c, por
122
isso ncsno, icr dc coniar con o quc nos liniia",
a voz novíssina griia. ºVivcr c nao cnconirar
liniiaçao alguna; porianio, alandonar-sc
iranquilancnic a si ncsno. Praiicancnic nada c
inpossívcl, nada c pcrigoso c, cn princípio,
ningucn c supcrior a ningucn".
Esia c×pcricncia lasica nodifica por
conplcio a csiruiura iradicional, pcrcnc, do
Ioncn-nassa. Porquc csic sc scniiu scnprc
consiiiuiivancnic condicionado a liniiaçõcs
naicriais c a podcrcs supcriorcs sociais. Isio cra,
a scus olIos, a vida. Sc lograva nclIorar sua
siiuaçao, sc asccndia socialncnic, airiluía-o a
un golpc da soric, quc lIc cra noninaiivancnic
favoravcl. E quando nao a isio, a un cnornc
csforço c clc salia nuiio lcn quanio lIc Iavia
cusiado. En un c ouiro caso iraiava-sc dc una
c×ccçao à índolc nornal da vida c do nundo;
c×ccçao quc, cono ial, cra dcvida a alguna causa
cspccialíssina.
Mas a nova nassa cnconira a plcna franquia
viial cono csiado naiivo c csialclccido, scn
causa cspccial ncnIuna. Nada dc fora a inciia a
rcconIcccr ncla propria liniics c, porianio, a
coniar cn iodo noncnio con ouiras insiancias,
solrciudo con insiancias supcriorcs. O lalrcgo
cIincs acrcdiiava, aic Ia pouco, quc o lcn-csiar
dc sua vida dcpcndia das viriudcs privadas quc
possuíssc o scu Inpcrador. Porianio, sua vida cra
123
consianicncnic rcgulada por csia insiancia
suprcna dc quc dcpcndia. Mas o Ioncn quc
analisanos Ialiiua-sc a nao apclar dc si ncsno
a ncnIuna insiancia fora dclc. Esia saiisfciio ial
cono c. Ingcnuancnic, scn ncccssidadc dc scr
vao, cono a coisa nais naiural do nundo,
icndcra a afirnar c considcrar lon iudo quanio
cn si acIa; opiniõcs, apciiics, prcfcrcncias ou
gosios. Por quc nao, sc, scgundo vcnos, nada
ncn ningucn o força a conprccndcr quc clc c un
Ioncn dc scgunda classc, liniiadíssino, incapaz
dc criar ncn conscrvar a organizaçao ncsna quc
da à sua vida cssa anpliiudc c cssc
conicniancnio, nos quais lascia ial afirnaçao dc
sua pcssoa?
Nunca o Ioncn-nassa icria apclado a nada
fora dclc sc a circunsiancia nao lIc Iouvcssc
forçado violcniancnic a isso. Cono agora a
circunsiancia nao o olriga, o cicrno Ioncn-
nassa, conscqucnic con sua índolc, dci×a dc
apclar c scnic-sc solcrano dc sua vida.
Conirariancnic, o Ioncn sclcio ou c×cclcnic
csia consiiiuído por una íniina ncccssidadc dc
apclar dc si ncsno a una norna alcn dclc,
supcrior a clc, a cujo scrviço livrcncnic sc põc.
Lcnlrc-sc dc quc, no início, disiinguíanos o
Ioncn c×cclcnic do Ioncn vulgar dizcndo. quc
aquclc c o quc c×igc nuiio dc si ncsno, c csic, o
quc nao c×igc nada, apcnas conicnia-sc con o
quc c c csia cncaniado consigo ncsno(43i. Conira
124
o quc soi crcr-sc, c a criaiura dc sclcçao, c nao a
nassa, qucn vivc cn csscncial scrvidao. Sua vida
nao lIc apraz sc nao a faz consisiir cn scrviço a
algo iransccndcnic. Por isso nao csiina a
ncccssidadc dc scrvir cono una oprcssao.
Ouando csia, por infclicidadc, lIc falia, scnic
dcsassosscgo c invcnia novas nornas nais
difíccis, nais c×igcnics, quc a oprinan. Isio c a
vida cono disciplina ÷ a vida nolrc ÷. A nolrcza
dcfinc-sc pcla c×igcncia, pclas olrigaçõcs, nao
pclos dirciios. Nollcssc olligc. ºVivcr a gosio c dc
plclcu. o nolrc aspira a ordcnaçao c a lci"
(CociIci. Os privilcgios da nolrcza nao sao
originariancnic conccssõcs ou favorcs, nas, pclo
conirario, sao conquisias, c, cn princípio, supõc
sua conscrvaçao quc o privilcgiado scria capaz dc
rcconquisia-las cn iodo insianic, sc fossc
ncccssario c algucn sc lIo dispuiassc(44i. Os
dirciios privados ou privilcgios nao sao, pois,
possc passiva c sinplcs gozo, nas rcprcscnian o
pcrfil ondc cIcga o csforço da pcssoa.
Conirariancnic, os dirciios conuns, cono sao os
ºdo Ioncn c do cidadao", sao propricdadc
passiva, puro usufruio c lcncfício, iao gcncroso
do dcsiino con quc iodo Ioncn sc cnconira, c
quc nao corrcspondc a csforço algun, cono nao
scja o rcspirar c cviiar a dcncncia. Eu diria, pois,
quc o dirciio inpcssoal sc icn c o pcssoal sc
nanicn.
125
É irriianic a dcgcncraçao sofrida no
vocalulario usual por una palavra iao
inspiradora cono ºnolrcza". Porquc ao significar
para nuiios ºnolrcza dc sanguc" Icrcdiiaria,
convcric-sc cn algo parccido aos dirciios
conuns, nuna qualidadc csiaiica c passiva, quc
sc rccclc c iransniic cono una coisa incric. Mas
o scniido proprio, o ciino do vocalulo ºnolrcza" c
csscncialncnic dinanico. Nolrc significa o
ºconIccido", cnicndc-sc o conIccido dc iodo o
nundo, o fanoso, quc sc dcu a conIcccr
solrcssaindo solrc a nassa anónina. Inplica un
csforço insoliio quc noiivou a fana. Nolrc, pois,
cquivalc a csforçado ou c×cclcnic. A nolrcza ou
fana do filIo ja c puro lcncfício. O filIo c
conIccido porquc scu pai conscguiu scr fanoso.
É conIccido por rcflc×o, c, con cfciio, a nolrcza
Icrcdiiaria icn un caraicr indircio, c luz
cspclIada, c nolrcza lunar cono fciia con
norios. So fica ncla dc vivo, auicniico, dinanico,
a inciiaçao quc produz no dcsccndcnic a nanicr
o nívcl dc csforço quc o anicpassado alcançou.
Scnprc, ainda ncsic scniido dcsviriuado,
nollcssc olligc. O nolrc originario olriga-sc a si
ncsno, c ao nolrc Icrcdiiario olriga-o a
Icrança. Ha, dc qualqucr nodo, ccria
coniradiçao na iransfcrcncia da nolrcza, dcsdc o
nolrc inicial a scus succssorcs. Mais logicos os
cIincscs, invcricn a ordcn da iransnissao, c
nao c o pai qucn cnolrccc o filIo, nas o filIo
126
qucn, ao conscguir a nolrcza, a conunica a scus
anicpassados, dcsiacando con o scu csforço sua
csiirpc Iunildc. Por isso, ao conccdcr os nívcis
dc nolrcza, graduan-sc pclo nuncro dc gcraçõcs
passadas quc fican prcsiigiadas, c Ia qucn so
iorna nolrc scu pai c qucn alonga sua fana aic o
quinio ou dccino avó. Os anicpassados vivcn do
Ioncn aiual, cuja nolrcza c cfciiva, aiuanic; cn
suna. c; nao, foi(45i.
A ºnolrcza" nao aparccc cono icrno fornal
aic o Inpcrio ronano, c prccisancnic para opó-lo
à nolrcza Icrcdiiaria, ja cn dccadcncia.
Para nin, nolrcza c sinónino dc vida
csforçada, posia scnprc a supcrar-sc a si ncsna,
a iransccndcr do quc ja c para o quc sc propõc
cono dcvcr c c×igcncia. Dcsia nancira, a vida
nolrc fica coniraposia à vida vulgar c incric, quc,
csiaiicancnic, sc rcclui a si ncsna, condcnada à
pcrpciua inancncia, caso una força c×icrior nao
a olriguc a sair dc si. Daí quc cIancnos nassa
a csic nodo dc scr Ioncn ÷ nao ianio porquc
scja nuliiiudinario, quanio porquc c incric.
À ncdida quc sc avança pcla vida, vanos nos
fariando dc advcriir quc a naior paric dos
Ioncns ÷ c das nulIcrcs ÷ sao incapazcs dc
ouiro csforço quc o csiriiancnic inposio cono
rcaçao a una ncccssidadc c×icrna. Por isso
ncsno fican nais isolados, c cono
127
nonuncnializados cn nossa c×pcricncia, os
pouquíssinos scrcs quc conIcccnos capazcs dc
un csforço csponianco c lu×uoso. Sao os Ioncns
sclcios, os nolrcs, os unicos aiivos c nao so
rcaiivos, para os quais vivcr c una pcrpciua
icnsao, un inccssanic ircinancnio. Trcinancnio
÷ aslcsis. Sao os asccias(46i.
Nao surprccnda csia aparcnic digrcssao. Para
dcfinir o Ioncn-nassa aiual, quc c iao nassa
cono o dc scnprc, nas qucr suplaniar os
c×cclcnics, c prcciso conirapó-lo às duas fornas
puras quc nclc sc ncsclan. a nassa nornal c o
auicniico nolrc ou csforçado.
Agora podcnos caninIar nais dcprcssa,
porquc ja sonos donos do quc, a ncu juízo, c a
cIavc ou cquaçao psicologica do iipo Iunano
doninanic Iojc. Tudo quc vcn dcpois c
conscqucncia ou corolario dcssa csiruiura radical
quc podcria rcsunir-sc assin. o nundo
organizado pclo scculo XIX, ao produzir
auionaiicancnic un Ioncn novo, inironcicu
nclc fornidavcis apciiics, podcrosos ncios dc
ioda ordcn para saiisfazc-los ÷ cconónico,
corporais (Iigicnc, saudc ncdia supcrior à dc
iodos os icnposi, civis c iccnicos (cnicndo por
csics a cnornidadc dc conIccincnios parciais c
dc cficicncia praiica quc Iojc o Ioncn ncdio
possui c dc quc scnprc carcccu no passadoi ÷.
Dcpois dc Iavcr csialclccido nclc iodas csias
128
poicncias, o scculo XIX o alandonou a si ncsno,
c cniao, scguindo o Ioncn ncdio sua índolc
naiural, fccIou-sc dcniro dc si. Dcsia soric,
cnconirano-nos con una nassa nais foric quc a
dc ncnIuna cpoca, nas, a difcrcnça da
iradicional, Icrnciica cn si ncsna, incapaz dc
aicndcr a nada ncn a ningucn, acrcdiiando quc
sc lasia ÷ cn suna. indocil(47i. Coniinuando as
coisas cono aic aqui, cada dia sc noiara nais cn
ioda a Europa ÷ c por rcflc×o cn iodo o nundo
÷ quc as nassas sao incapazcs dc sc dci×ar
dirigir cn ncnIuna ordcn. Nas Ioras difíccis quc
cIcgan para nosso coniincnic, c possívcl quc,
suliiancnic angusiiadas, icnIan un noncnio a
loa voniadc dc acciiar, cn ccrias naicrias
cspccialncnic angusiiosas, a dircçao dc ninorias
supcriorcs.
Mas ainda cssa loa voniadc fracassara.
Porquc a disposiçao radical dc sua alna csia fciia
dc Icrnciisno c indocilidadc, porquc lIc falia dc
nasccnça a funçao dc aicndcr ao quc csia alcn
dcla, scjan faios, scjan pcssoas. Oucrcrao
aconpanIar a algucn, c nao podcrao. Oucrcrao
ouvir, c dcscolrirao quc sao surdas.
Por ouira paric, c ilusorio pcnsar quc o
Ioncn ncdio vigcnic, por nuiio quc icnIa
asccndido scu nívcl viial cn conparaçao con o
dc ouiros icnpos, podcra rcgcr, por si ncsno, o
proccsso da civilizaçao. Digo proccsso, nao ja
129
progrcsso. O sinplcs proccsso dc nanicr a
civilizaçao aiual c supcrlaiivancnic conplc×o c
rcqucr suiilczas incalculavcis. Mal podc govcrna-
lo csic Ioncn-nassa quc aprcndcu a usar
nuiios aparclIos dc civilizaçao, nas quc sc
caracicriza por ignorar dc raiz os princípios
ncsnos da civilizaçao.
Fciicro ao lciior quc, pacicnic, icnIa lido aic
aqui, a convcnicncia dc nao cnicndcr iodos csics
cnunciados airiluindo-lIcs, incdiaiancnic, un
significado políiico. A aiividadc políiica, quc c dc
ioda a vida pullica a nais cficicnic c nais visívcl,
c, conirariancnic, a dcrradcira, rcsulianic dc
ouiras nais íniinas c inpalpavcis. Assin, a
indocilidadc políiica nao scria gravc sc nao
provicssc dc una nais profunda c dccisiva
indocilidadc iniclcciual c noral. Por isso,
cnquanio nao icnIanos analisado csia, faliara a
uliina claridadc ao icorcna dcsic cnsaio.
130

VIII. POR QUE AS MASSAS INTERVÊM EM TUDO
E POR QUE SÓ INTERVÊM VIOLENTAMENTE

Ficanos cn quc aconicccu algo solrcnodo
parado×al, nas quc cn vcrdadc cra
naiuralíssino. dc ianio sc nosirarcn alcrios
nundo c vida ao Ioncn ncdíocrc, a alna
fccIou-sc para clc. Pois lcn. cu susicnio quc
ncssa olliicraçao das alnas ncdias consisic a
rclcldia das nassas cn quc, por sua vcz,
consisic o giganicsco prollcna Iojc lcvaniado
para a Iunanidadc.
Ja sci quc nuiios dos quc nc lccn nao
pcnsan cono cu. Tanlcn isio c naiuralíssino c
confirna o icorcna. Pois ainda quc cn dcfiniiivo
ninIa opiniao fossc crrónca, scnprc ficaria o faio
dc quc nuiios dcsics lciiorcs discrcpanics nao
pcnsaran cinco ninuios solrc iao conplc×a
naicria. Cono podcrian pcnsar cono cu? Mas ao
supor-sc con dirciio a icr una opiniao solrc o
assunio scn prcvio csforço para forja-la,
nanifcsian scu c×cnplar scnIorio ao nodo
alsurdo dc scr Ioncn quc cu cIanci ºnassa
rclcldc". Isso c prccisancnic icr olliicrada,
Icrnciica, a alna. Ncsic caso iraiar-sc-ia dc
Icrnciisno iniclcciual. A pcssoa cnconira-sc
con un rcpcriorio dc idcias dcniro dc si. Dccidc
131
conicniar-sc con clas c considcrar-sc
iniclcciualncnic conplcia. Nao scniindo nada dc
ncnos fora dc si, insiala-sc dcfiniiivancnic
naquclc rcpcriorio. Eis aí o nccanisno da
olliicraçao.
O Ioncn-nassa scnic-sc pcrfciio. Un
Ioncn dc sclcçao, para scniir-sc pcrfciio,
ncccssiia scr cspccialncnic vaidoso, c a crcnça
na sua pcrfciçao nao csia consulsiancialncnic
unida a clc, nao c ingcnua, nas cIcga-lIc dc sua
vaidadc c ainda para clc ncsno icn un caraicr
ficiício, inaginario c prollcnaiico. Por isso o
vaidoso ncccssiia dos dcnais, lusca nclcs a
confirnaçao da idcia quc qucr icr dc si ncsno.
Dc soric quc ncn ainda ncsic caso norlido ncn
ainda ºccgado" pcla vaidadc, conscguc o Ioncn
nolrc scniir-sc cn vcrdadc conplcio.
Conirariancnic ao Ioncn ncdíocrc dc nossos
dias, ao novo Adao, nao sc lIc ocorrc duvidar dc
sua propria plcniiudc. Sua confiança cn si c,
cono dc Adao, paradisíaca. O Icrnciisno naio
dc sua alna lIc inpcdc o quc scria condiçao
prcvia para dcscolrir sua insuficicncia.
conparar-sc con ouiros scrcs. Conparar-sc scria
sair un pouco dc si ncsno c irasladar-sc ao
pro×ino. Mas a alna ncdíocrc c incapaz dc
iransnigraçõcs ÷ csporic suprcno.
Enconirano-nos, pois, con a ncsna
difcrcnça quc cicrnancnic c×isic cnirc o iolo c o
132
pcrspicaz. Esic surprccndc-sc a si ncsno scnprc
a dois passos dc scr iolo; por isso faz un csforço
para cscapar à inincnic iolicc, c ncssc csforço
consisic a inicligcncia. O iolo, ao conirario, nao
suspciia dc si ncsno. julga-sc discrciíssino, c
daí a invcjavcl iranquilidadc con quc o ncscio sc
asscnia c insiala cn sua incpcia. Cono csscs
inscios quc nao Ia nancira dc c×irair do orifício
cn quc Ialiian, nao Ia nodo dc dcsalojar o iolo
dc sua iolicc, lcva-lo dc passcio un pouco alcn
dc sua ccgucira c olriga-lo a quc conirasic sua
visao grosscira Ialiiual con ouiros nodos dc vcr
nais suiis. O iolo c viialício c inpcrncavcl. Por
isso dizia Anaiolc Francc quc o ncscio c nuiio
nais funcsio quc o nalvado. Porquc o nalvado
dcscansa algunas vczcs; o ncscio, janais(48i.
Nao sc iraia dc quc o Ioncn-nassa scja iolo.
Pclo conirario, o aiual c nais cspcrio, icn nais
capacidadc iniclcciiva quc o dc ncnIuna ouira
cpoca. Mas cssa capacidadc nao lIc scrvc dc
nada; a rigor, a vaga scnsaçao dc possuí-la
apcnas lIc scrvc para fccIar-sc nais cn si
ncsno c nao usa-la. Dc una vcz para scnprc
consagra o soriincnio dc iopicos, prcjuízos, ou,
sinplcsncnic, vocalulos ocos quc o acaso
anonioou no scu inicrior, c con un audacia quc
so sc c×plica pcla ingcnuidadc, inpó-los-a por
ioda a paric. Isio c o quc no princiro capíiulo
cnunciava cu cono caracicrísiico cn nossa
cpoca. nao quc o vulgar crcia quc c dcsiacado c
133
nao vulgar, nas quc o vulgar proclanc c inponIa
o dirciio da vulgaridadc, ou a vulgaridadc cono
un dirciio.
O inpcrio quc solrc a vida pullica Iojc
c×crcc a vulgaridadc iniclcciual, c ialvcz o faior
da prcscnic siiuaçao nais novo, ncnos
assinilavcl a nada do prcicriio. Pclo ncnos na
Iisioria curopcia aic Iojc, nunca o vulgo Iavia
crido icr ºidcias" solrc as coisas. TinIa crcnças,
iradiçõcs, c×pcricncias, provcrlios, Ialiios
ncniais, nas nao sc inaginava dc possc dc
opiniõcs icoricas solrc o quc as coisas sao ou
dcvcn scr ÷ por c×cnplo, solrc políiica ou solrc
liicraiura ÷. Parccia-lIc lcn ou nal o quc o
políiico projciava c fazia; dava ou rciirava sua
adcsao, nas sua aiiiudc rcduzia-sc a rcpcrcuiir,
posiiiva ou ncgaiivancnic, a açao criadora dc
ouiros. Nunca sc lIc ocorrcu opor às ºidcias" do
políiico ouiras suas; ncn scqucr julgar as ºidcias"
do políiico do irilunal dc ouiras ºidcias" quc cria
possuir. A ncsna coisa cn aric c nas dcnais
ordcns da vida pullica. Una c inaia conscicncia
dc sua liniiaçao, dc nao csiar qualificado para
icorizar(49i, vcdava-o conplciancnic. A
conscqucncia auionaiica disio cra quc o vulgo
nao pcnsava, ncn dc longc, dccidir cn quasc
ncnIuna das aiividadcs pullicas, quc cn sua
naior paric sao dc índolc icorica.
134
Hojc, pclo conirario, o Ioncn ncdio icn as
ºidcias" nais ia×aiivas solrc quanio aconiccc c
dcvc aconicccr no univcrso. Por isso pcrdcu o uso
da audiçao. Para quc ouvir, sc ja icn dcniro dc si
o quc ncccssiia? Ja nao c cpoca dc ouvir, nas,
pclo conirario, dc julgar, dc scnicnciar, dc
dccidir. Nao Ia qucsiao dc vida pullica cn quc
nao inicrvcnIa, ccgo c surdo cono c, inpondo
suas ºopiniõcs".
Mas nao c isio una vaniagcn? Nao
rcprcscnia un progrcsso cnornc quc as nassas
icnIan ºidcias", qucr dizcr, quc scjan culias? Dc
nancira alguna. As ºidcias" dcsic Ioncn ncdio
nao sao auicniicancnic idcias, ncn sua possc c
culiura. A idcia c un ×cquc-naic à vcrdadc.
Oucn qucira icr idcias ncccssiia anics dispor-sc
a qucrcr a vcrdadc c acciiar as rcgras do jogo quc
cla inponIa. Nao valc falar dc idcias ou opiniõcs
ondc nao sc adniic una insiancia quc a rcgula,
una scric dc nornas às quais na discussao calc
apclar. Esias nornas sao os princípios da
culiura. Nao nc inporia quais sao. O quc digo c
quc nao Ia culiura ondc nao Ia nornas. A quc
nossos pro×inos possan rccorrcr. Nao Ia culiura
ondc nao Ia princípios dc lcgali5àdc civil a quc
apclar. Nao Ia culiura ondc nao Ia acaiancnio
dc ccrias uliinas posiçõcs iniclcciuais a quc
rcfcrir-sc na dispuia(50i. Nao Ia culiura quando
as rclaçõcs cconónicas nao sao prcsididas por
un rcginc dc irafico sol o qual possan anparar-
135
sc. Nao Ia culiura ondc as polcnicas csiciicas
nao rcconIcccn a ncccssidadc dc jusiificar a
olra dc aric.
Ouando falian iodas cssas coisas, nao Ia
culiura; Ia, no scniido nais csiriio da palavra,
larlaric. E isio c, nao icnIanos ilusõcs, o quc
concça a Iavcr na Europa sol a progrcssiva
rclcliao das nassas. O viajanic quc cIcga a un
país larlaro, salc quc naquclc icrriiorio nao
rcgcn princípios aos quais possa rccorrcr. Nao Ia
nornas larlaras propriancnic diias, a larlaric c
auscncia dc norna c dc possívcl apclaçao.
O nais c o ncnos dc culiura ncdc-sc pcla
naior ou ncnor prccisao das nornas. Ondc Ia
pouca, rcgulan csias a vida so grosso nodo; ondc
Ia nuiia, pcnciran aic o porncnor no c×crcício
dc iodas as aiividadcs. A cscasscz da culiura
iniclcciual cspanIola, isio c, do culiivo ou
c×crcício disciplinado do iniclccio, nanifcsia-sc,
nao cn quc sc saila nais ou ncnos, nas na
Ialiiual falia dc cauicla c cuidados para ajusiar-
sc à vcrdadc quc socn nosirar os quc falan c
cscrcvcn. Nao, pois, cn quc sc accric ou nao ÷ a
vcrdadc nao csia cn nossa nao ÷, nas na falia
dc cscrupulo quc lcva a nao cunprir os rcquisiios
clcncniais para accriar. Coniinuanos scndo o
cicrno padrc dc aldcia quc rclaic iriunfanic o
naniqucu, scn Iavcr procurado anics avcriguar
o quc pcnsa o naniqucu.
136
Oualqucr pcssoa podc pcrcclcr quc na
Europa, Ia alguns anos, concçaran a aconicccr
ºcoisas csquisiias". Para dar algun c×cnplo
concrcio dcsias coisas csquisiias ncncionarci
ccrios novincnios políiicos, cono o sindicalisno
c o fascisno. Nao sc diga quc parcccn csquisiios
sinplcsncnic porquc sao novos. O cniusiasno
pcla inovaçao c dc ial nodo ingcniio no curopcu,
quc o lcvou a produzir a Iisioria nais inquicia dc
quanias sc conIcccn. Nao sc airilua, pois, o quc
csics novos faios icn dc csquisiio ao quc icn dc
novo, nas à csiranIíssina liiola dcsias
novidadcs. Sol as cspccics dc sindicalisno c
fascisno aparccc pcla princira vcz na Europa un
iipo dc Ioncn quc nao qucr dar razõcs ncn qucr
icr razao, nas quc, sinplcsncnic, sc nosira
rcsolvido a inpor suas opiniõcs. Eis aqui o novo.
o dirciio a nao icr razao, a razao da scn-razao.
Eu vcjo nisso a nanifcsiaçao nais palpavcl do
novo nodo dc scr das nassas, por Iavcrcn
rcsolvido dirigir a socicdadc scn icr capacidadc
para isso. En sua conduia políiica rcvcla-sc a
csiruiura da alna nova da nancira nais crua c
coniundcnic, nas a cIavc csia no Icrnciisno
iniclcciual. O Ioncn ncdio cnconira-sc con
ºidcais" dcniro dc si, nas carccc da funçao dc
idcar. Ncn scqucr suspciia qual c o clcncnio
suiilíssino cn quc as idcias vivcn. Oucr opinar,
nas nao qucr acciiar as condiçõcs c suposios dc
iodo opinar. Daqui quc suas ºidcias" nao scjan
137
cfciivancnic scnao apciiics ou palavras, cono as
ronanças nusicais.
Tcr una idcia c crcr quc sc possucn as
razõcs dcla, c c, porianio, crcr quc c×isic una
razao, un orlc dc vcrdadcs inicligívcis. Idcar,
opinar, c una ncsna coisa cono apclar a ial
insiancia, sulncicr-sc a cla, acciiar scu Codigo c
sua scnicnça, crcr, porianio, quc a forna
supcrior da convivcncia c o dialogo cn quc sc
discuicn as razõcs dc nossas idcias. Mas o
Ioncn-nassa scniir-sc-ia pcrdido sc acciiassc a
discussao, c insiiniivancnic rcpudia a olrigaçao
dc acaiar cssa insiancia suprcna quc sc acIa
fora dclc. Por isso, o ºnovo" c na Europa ºacalar
con as discussõcs", c dcicsia-sc ioda forna dc
convivcncia quc por si ncsna inpliquc
acaiancnio dc nornas oljciivas, dcsdc a
convcrsaçao aic o Parlancnio, passando pcla
cicncia. Isso qucr dizcr quc sc rcnuncia à
convivcncia dc culiura, quc c una convivcncia
sol nornas, c rciroccdc-sc a una convivcncia
larlara. Suprincn-sc iodos os iraniics nornais
c sc vai dirciancnic à inposiçao do quc sc
dcscja. O Icrnciisno da alna, quc, cono vinos
anics, propclc a nassa para quc inicrvcnIa cn
ioda a vida pullica, lcva-a ianlcn,
inc×oravclncnic, a un proccdincnio unico dc
inicrvcnçao. a açao dircia.
138
O dia cn quc sc rcconsirua a gcncsc dc
nosso icnpo, advcriir-sc-a quc as princiras noias
dc sua pcculiar nclodia soaran naquclcs grupos
sindicalisias c rcalisias franccscs por volia dc
1900, invcniorcs da nancira c da palavra ºaçao
dircia". Pcrpciuancnic o Ioncn icn rccorrido à
violcncia. às vczcs csic rccurso cra sinplcsncnic
un crinc, c nao nos inicrcssa. En ouiras cra a
violcncia o ncio a quc rccorria a qucn Iavia
csgoiado iodos os dcnais para dcfcndcr a razao c
a jusiiça quc cria icr. Scra nuiio lancniavcl quc
a condiçao Iunana lcvc volia c ncia a csia forna
dc violcncia, nas c incgavcl quc cla significa a
naior Ioncnagcn à razao c à jusiiça. Tal
violcncia nao c ouira coisa scnao a razao
c×aspcrada. A força cra, con cfciio, a uliina
raiio. Un pouco csiupidancnic icn sc cnicndido
con ironia csia c×prcssao, quc dcclara nuiio lcn
o prcvio rcndincnio da força às nornas
racionais. A civilizaçao nao c ouira coisa scnao o
cnsaio dc rcduzir a força a uliina raiio. Agora
concçanos a vcr isio con lasianic clarcza,
porquc a ºaçao dircia" consisic cn invcricr a
ordcn c proclanar a violcncia cono prina raiio;
a rigor, cono unica razao c cla a norna quc
propõc a anulaçao dc ioda norna, quc suprinc
iudo quc ncdcia cnirc nosso proposiio c sua
inposiçao. É a CIaria nagna da larlaric.
Convcn rccordar quc cn iodos os icnpos,
quando a nassa por un ou ouiro noiivo, aiuou
139
na vida pullica, o fcz cn forna dc ºaçao dircia".
Foi, pois, scnprc o nodo dc opcrar naiural às
nassas. E corrolora cncrgicancnic a icsc dcsic
cnsaio o faio paicnic dc quc agora, quando a
inicrvcnçao dircia das nassas na vida pullica
passou dc casual c infrcqucnic a scr o nornal,
aparcça a ºaçao dircia" oficialncnic cono norna
rcconIccida.
Toda a convivcncia Iunana vai caindo sol
csic novo rcginc cn quc sc suprincn as
insiancias indircias. No iraio social suprinc-sc a
ºloa cducaçao". A liicraiura, cono ºaçao dircia",
consiiiui-sc no insulio. As rclaçõcs sc×uais
rcduzcn scus iraniics.
Traniics, nornas, coricsia, usos
inicrncdiarios, jusiiça, razao! dc quc vcio
invcniar iudo isso, criar iania conplicaçao? Tudo
isso sc rcsunc na palavra ºcivilizaçao", quc,
airavcs da idcia dc civis, o cidadao, dcscolrc sua
propria origcn. Traia-sc con iudo isso dc fazcr
possívcl a cidadc, a conunidadc, a convivcncia.
Por isso, sc olIanos por dcniro cada un dcsscs
insiruncnios da civilizaçao quc acalo dc
cnuncrar, acIarcnos una ncsna cniranIa cn
iodos. Todos, con cfciio, supõcn o dcscjo radical
c progrcssivo dc cada pcssoa coniar con as
dcnais. Civilizaçao c, anics dc iudo, voniadc dc
convivcncia. É sc incivil c larlaro na ncdida cn
quc nao sc conic con os dcnais. A larlaric c
140
icndcncia à dissociaçao. .E assin iodas as cpocas
larlaras icn sido icnpo dc cspalIancnio
Iunano, pululaçao dc níninos grupos scparados
c Iosiis.
A forna quc na políiica rcprcscniou a nais
alia voniadc dc convivcncia c a dcnocracia
lilcral. Ela lcva ao c×ircno a rcsoluçao dc coniar
con o pro×ino c c proioiipo da ºaçao indircia". O
lilcralisno c o princípio dc dirciio políiico
scgundo o qual o Podcr pullico, nao olsianic scr
onipoicnic, liniia-sc a si ncsno c procura, ainda
à sua cusia, dci×ar cspaço no Esiado quc clc
inpcra para quc possan vivcr os quc ncn
pcnsan ncn scnicn cono clc, qucr dizcr, cono
os nais forics, cono a naioria. O lilcralisno ÷
convcn Iojc rccordar isio ÷ c a suprcna
gcncrosidadc. c o dirciio quc a naioria ouiorga à
ninoria c c, porianio, o nais nolrc griio quc soou
no plancia. Proclana a dccisao dc convivcr con o
ininigo; nais ainda, con o ininigo dclil. Era
invcrossínil quc a cspccic Iunana Iouvcssc
cIcgado a una coisa iao loniia, iao parado×al,
iao clcganic, iao acrolaiica, iao aniinaiural. Por
isso, nao dcvc surprccndcr quc iao rapidancnic
parcça cssa ncsna cspccic dccidida a alandona-
la. E un c×crcício dcnasiado difícil c conplicado
para quc sc consolidc na icrra.
Convivcr con o ininigo! Covcrnar con a
oposiçao! Nao concça a scr ja inconprccnsívcl
141
scnclIanic icrnura? Nada acusa con naior
clarcza a fisiononia do prcscnic cono o faio dc
quc vao scndo iao poucos os paíscs ondc c×isic a
oposiçao. En quasc iodos, una nassa
Ionogcnca pcsa solrc o Podcr pullico c csnaga,
aniquila iodo o grupo oposiior. A nassa ÷ qucn
o diria ao vcr scu aspccio conpacio c
nuliiiudinario? ÷ nao dcscja a convivcncia con
o quc nao c cla. Odcia dc noric o quc nao c cla.
142

IX. PRIMITIVISMO E TÉCNICA

Inporia-nc nuiio rccordar aqui quc csianos
sulncrsos na analisc dc una siiuaçao ÷ a do
prcscnic ÷ sulsiancialncnic cquívoca. Por isso a
princípio insinuci quc iodos os iraços aiuais c,
cn cspccic, a rclcliao das nassas, aprcscnian
duplo aspccio. Oualqucr dclcs nao so iolcra, nas
aic rcclana una dupla inicrprciaçao, favoravcl c
pcjoraiiva. E csic cquívoco nao rcsidc cn nosso
juízo, nas na propria rcalidadc. Nao c quc possa
parcccr-nos por un lado lcn, por ouiro nal, nas
c quc cn si ncsna a siiuaçao prcscnic c poicncia
lifronic dc iriunfo ou dc noric.
Nao c coisa dc lasircar csic cnsaio con ioda
una nciafísica da Iisioria. Mas c claro quc o vou
consiruindo solrc a lasc sulicrranca dc ninIas
convicçõcs filosoficas, c×posias ou aludidas cn
ouiros lugarcs. Nao crcio na alsoluia
dcicrninaçao da Iisioria. Pclo conirario, pcnso
quc ioda vida, c porianio, a Iisioria, sc conpõc
dc puros insianics, cada un dos quais csia
rclaiivancnic indcicrninado con rcspciio ao
anicrior, dc soric quc nclc a rcalidadc vacila,
piciinc sur placc, c nao salc lcn sc sc dccidir
por una ou ouira cnirc varias possililidadcs.
Esic iiiulcio nciafísico proporciona a iodo o viial
143
cssa inconfundívcl qualidadc dc vilraçao c
csircnccincnio.
A rclcliao das nassas podc, con cfciio, scr
iransiio dc una nova c scn par organizaçao da
Iunanidadc, nas ianlcn podc scr una
caiasirofc no dcsiino Iunano. Nao Ia razao para
ncgar a rcalidadc do progrcsso, nas c prcciso
corrigir a noçao quc crc scguro csic progrcsso.
Mais congrucnic con os faios c pcnsar quc nao
Ia ncnIun progrcsso scguro, ncnIuna cvoluçao,
scn a ancaça dc involuçao c rciroccsso. Tudo,
iudo c possívcl na Iisioria ÷ ianio o progrcsso
iriunfal c indcfinido cono a pcriodica rcgrcssao ÷
. Porquc a vida, individual ou colciiva, pcssoal ou
Iisiorica, c a unica cniidadc do univcrso cuja
sulsiancia c pcrigo. Conpõcn-sc dc pcripccias.
É, rigorosancnic falando, drana(51i.
Isio, quc c vcrdadc cn gcral, adquirc naior
inicnsidadc nos ºnoncnios críiicos", cono c o
prcscnic. E assin os sinionas dc nova conduia
quc sol o inpcrio aiual das nassas vao
aparcccndo c agrupavanos sol o iíiulo ºaçao
dircia", podcn anunciar ianlcn fuiuras
pcrfciçõcs. É claro quc ioda vclIa culiura arrasia
no scu avanço iccidos caducos c nao pcqucna
carrcgaçao dc naicria cornca, csiorvo à vida c
io×ico rcsíduo. Ha insiiiuiçõcs norias,
valorizaçõcs c rcspciios solrcvivcnics c ja scn
scniido, soluçõcs indcvidancnic conplicadas,
144
nornas quc provaran sua insulsiancialidadc.
Todos csics clcncnios da açao indircia, da
civilizaçao, dcnandan una cpoca dc frcncsi
sinplificador. A solrccasaca c o plasirao
ronaniicos soliciian una vingança por ncio do
aiual dcsIalillc c o ºcn nangas dc canisa".
Aqui, a sinplificaçao c Iigicnc c nclIor gosio;
porianio, una soluçao nais pcrfciia, cono
scnprc quc con ncnos ncios sc conscguc nais.
A arvorc do anor ronaniico c×igia ianlcn una
poda para quc caísscn as dcnasiadas nagnolias
falsas ccrzidas a scus ranos c o furor dc lianas,
voluias, rciorcincnios c inirincaçõcs quc nao a
dci×avan ionar sol.
En gcral, a vida pullica, solrciudo a políiica,
rcqucria urgcnicncnic una rcduçao ao
auicniico, c a Iunanidadc curopcia nao podcria
dar o salio clasiico quc o oiinisia rcclana dcla sc
anics nao sc dcsnuda, sc nao sc aligcira aic sua
pura csscncialidadc, aic coincidir consigo ncsna.
O cniusiasno quc sinio por csia disciplina dc
nudificaçao, dc auicniicidadc, a conscicncia dc
quc c inprcscindívcl para franqucar o passo a un
fuiuro csiinavcl, nc faz rcivindicar plcna
lilcrdadc dc idcador dianic dc iodo o passado. É
o porvir quc dcvc inpcrar solrc o prcicriio, c dclc
rccclcrnos a ordcn para nossa conduia dianic
dc iudo quanio foi(52i.
145
Mas c prcciso cviiar o pccado naior dos quc
dirigiran o scculo XIX. a dcfciiuosa conscicncia
dc sua rcsponsalilidadc, quc os fcz nao sc
nanicrcn alcrias c cn vigilancia. Dci×ar-sc
dcslizar pcla pcndcnic favoravcl quc aprcscnia o
curso dos aconiccincnios c cnloiar-sc para a
dincnsao dc pcrigo c carranca quc ncsno a Iora
nais jocunda possui, c prccisancnic faliar à
nissao dc rcsponsavcl. Hojc iorna-sc nisicr
susciiar una Iipcrcsicsia dc rcsponsalilidadc
nos quc scjan capazcs dc scnii-la, c parccc o
nais urgcnic sullinIar o lado palnariancnic
funcsio dos sinionas aiuais.
É induliiavcl quc nun lalanço diagnosiico
dc nossa vida pullica os faiorcs advcrsos
supcrcn cn nuiio os favoravcis, sc o calculo sc
faz nao ianio pcnsando no prcscnic cono no quc
anuncian c proncicn.
Todo o crcscincnio dc possililidadcs
concrcias quc a vida c×pcrincniou corrc risco dc
anular-sc a si ncsno ao iopar con o nais
pavoroso prollcna solrcvindo no dcsiino
curopcu c quc dc novo fornulo. apodcrou-sc da
dircçao social un iipo dc Ioncn a qucn nao
inicrcssan os princípios da civilizaçao. Nao os
dcsia ou os daqucla, nas ÷ ao quc Iojc podc
julgar-sc ÷ os dc ncnIuna. Inicrcssan-lIc
cvidcnicncnic os ancsicsicos, os auionovcis c
algunas coisas nais. Mas isio confirna scu
146
radical dcsinicrcssc pcla civilizaçao. Pois csias
coisas sao so produios dcla, c o fcrvor quc sc lIcs
dcdica faz rcssaliar nais cruancnic a
inscnsililidadc para os princípios dc quc nasccn.
Dasic fazcr consiar csic faio. dcsdc quc c×isicn
as nuovc scicnzc, as cicncias físicas ÷ porianio,
dcsdc o Fcnascincnio ÷, o cniusiasno por clas
Iavia auncniado scn colapso, ao longo do
icnpo. Mais concrciancnic. o nuncro dc pcssoas
quc cn proporçao sc dcdicavan a cssas puras
invcsiigaçõcs cra naior cn cada gcraçao. O
princiro caso dc rciroccsso ÷ rcpiio,
proporcional ÷ produziu-sc na gcraçao quc Iojc
vai dos vinic aos irinia anos. Nos laloraiorios dc
cicncia pura concça a scr difícil airair discípulos.
E isso aconiccc quando a indusiria alcança scu
naior dcscnvolvincnio c quando as pcssoas
nosiran naior apciiic pclo uso dc aparclIos c
ncdicinas criados pcla cicncia.
Sc nao fora proli×o, podcria dcnonsirar-sc
scnclIanic incongrucncia na políiica, na aric, na
noral, na rcligiao c nas zonas coiidianas da vida.
Ouc nos significa siiuaçao iao parado×al?
Esic cnsaio prcicndc Iavcr prcparado a rcsposia
a ial pcrgunia. Significa quc o Ioncn Iojc
doninanic c un priniiivo, un NaiurncnscI
cncrgindo cn ncio dc un nundo civilizado. O
civilizado c o nundo, porcn, scu Ialiianic nao o
c. ncn scqucr vc nclc a civilizaçao, nas usa dcla
147
cono sc fossc naiurcza. O novo Ioncn dcscja o
auionovcl c goza dclc, nas crc quc c fruia
csponianca dc una arvorc cdcnica. No fundo dc
sua alna dcsconIccc o caraicr ariificial, quasc
invcrossínil, da civilizaçao, c nao csicndcra scu
cniusiasno pclos aparclIos aic os princípios quc
os iornan possívcis. Ouando nais acina,
iranspondo unas palavras dc FaiIcnau, dizia cu
quc assisiinos à ºinvasao vcriical dos larlaros",
podc julgar-sc ÷ cono c Ialiiual ÷ quc sc
iraiava apcnas dc una ºfrasc". Agora sc vc quc a
c×prcssao podcra cnunciar una vcrdadc ou un
crro, nas quc c o conirario dc una ºfrasc", a
salcr. una dcfiniçao fornal quc condcna ioda
una conplicada analisc. O Ioncn-nassa aiual
c, con cfciio, un priniiivo quc pclos lasiidorcs
dcslizou no vclIo ccnario da civilizaçao.
A ioda Iora sc fala Iojc dos progrcssos
falulosos da iccnica; nas cu nao vcjo quc sc falc,
ncn pclos nclIorcs, con una conscicncia dc scu
fuiuro suficicnicncnic dranaiico. O proprio
Spcnglcr, iao suiil c iao profundo ÷ ainda quc
iao naníaco ÷, parccc-nc ncsic ponio
dcnasiado oiinisia. Pois crc quc à ºculiura" vai
succdcr una cpoca dc ºcivilizaçao", sol a qual
cnicndc solrciudo a iccnica. A idcia quc Spcnglcr
icn da culiura, c cn gcral da Iisioria, c iao
rcnoia da prcssuposia ncsic cnsaio, quc nao c
facil, ncn ainda para rciifica-las, irazcr aqui a
concnio suas conclusõcs. So saliando solrc
148
disiancias c prccisõcs, para rcduzir anlos os
ponios dc visia a un conun dcnoninador,
pudcra csialclcccr-sc assin a divcrgcncia.
Spcnglcr crc quc a iccnica podc coniinuar
vivcndo quando norrcu o inicrcssc pclos
princípios da culiura. Eu nao posso rcsolvcr-nc a
crcr ial coisa. A iccnica c consulsiancialncnic
cicncia, c a cicncia nao c×isic sc nao inicrcssa cn
sua purcza c por cla ncsna, c nao podc
inicrcssar sc as pcssoas nao coniinuan
cniusiasnadas con os princípios gcrais da
culiura. Sc sc cnloia cssc fcrvor ÷ cono parccc
ocorrcr ÷, a iccnica so podc pcrvivcr un pouco
dc icnpo, aquclc quc lIc durc a incrcia do
inpulso culiural quc a criou. Vivc-sc con a
iccnica, nas nao da iccnica. Esia nao sc nuirc
ncn sc rcspira a si ncsna, nao c causa sui, nas
prccipiiado uiil, praiico, dc prcocupaçõcs
supcrfluas, nao praiicas(53i.
Vou, pois, à advcricncia dc quc o aiual
inicrcssc pcla iccnica nao garanic nada, c ncnos
quc nada, o progrcsso ncsno ou a pcrduraçao da
iccnica. Esia lcn quc sc considcrc o iccnicisno
cono un dos iraços caracicrísiicos da ºculiura
nodcrna", qucr dizcr, dc una culiura quc conicn
un gcncro dc cicncia, o qual vcn a scr
naicrialncnic aprovciiavcl. Por isso, ao rcsunir a
fisiononia novíssina da vida inplaniada pclo
scculo XIX, cu ficava con csias so duas fciçõcs.
dcnocracia lilcral c iccnica(54i. Mas rcpiio quc
149
surprccndc a frivolidadc con quc ao falar da
iccnica sc csquccc quc sua vísccra cordial c a
cicncia pura, c quc as condiçõcs dc sua
pcrpciuaçao cnglolan as quc iornan possívcl o
puro c×crcício cicniífico. Pcnsou-sc cn iodas as
coisas quc prccisan coniinuar vigcnics nas
alnas para quc possa coniinuar Iavcndo dc
vcrdadc ºIoncns dc cicncia"? Acrcdiia-sc
scriancnic quc cnquanio Iaja dollars Iavcra
cicncia? Esia idcia cn quc nuiios sc
iranquilizan nao c scnao una prova nais dc
priniiivisno.
Aí c nada a quaniidadc dc ingrcdicnics, os
nais dísparcs cnirc si, quc c nisicr rcunir c
agiiar para olicr coqucicl da cicncia físico-
quínica! Ainda conicniando-sc con a prcssao
nais dclil c sunaria do icna, solrcssai ja o
claríssino faio dc quc cn ioda a anpliiudc da
icrra c cn ioda a do icnpo, a físico-quínica so
conscguiu consiiiuir-sc, csialclcccr-sc
plcnancnic no lrcvc quadrilaicro quc inscrcvcn
Londrcs, Dcrlin, Vicna c Paris. E ainda dcniro
dcsic quadrilaicro, so no scculo XIX. Isio
dcnonsira quc a cicncia c×pcrincnial c un dos
produios nais inprovavcis da Iisioria. Magos,
saccrdoics, gucrrciros c pasiorcs icn pululado
por ioda a paric c à voniadc. Mas csia fauna do
Ioncn c×pcrincnial rcqucr, pclo visio, para sc
produzir, un conjunio dc condiçõcs nais insoliio
quc o quc cngcndra o unicornio. Faio iao solrio c
150
iao nagro dcvia fazcr rcflciir un pouco solrc o
caraicr supcrvolaiil, cvaporanic, da inspiraçao
cicniífica(55i. Dcn arranjado csia qucn crcia quc
sc a Europa dcsaparcccssc podcrian os noric-
ancricanos coniinuar a cicncia!
Inporiaria nuiio iraiar a fundo o assunio c
cspccificar con ioda a ninucia quais sao os
suposios Iisioricos viiais da cicncia c×pcrincnial
c, conscqucnicncnic, da iccnica. Mas nao cspcrc
quc, cnlora csclarccida a qucsiao, o Ioncn-
nassa sc daria por inicirado. O Ioncn-nassa
nao aicndc a razõcs c so aprcndc cn sua propria
carnc.
Una olscrvaçao inpcdc-nc iludir-nc solrc a
cficacia dc iais prcdicas, quc a foro dc racionais
icrian quc scr suiis. Nao c dcnasiado alsurdo
quc nas circunsiancias aiuais nao sinia o Ioncn
ncdio, csponiancancnic c scn prcdicas, fcrvor
supcrlaiivo por aquclas cicncias c suas
congcncrcs as liologicas? Porquc rcparc-sc cn
qual c a siiuaçao aiual. cnquanio cvidcnicncnic
iodas as dcnais coisas da culiura sc iornaran
prollcnaiicas ÷ a políiica, a aric, as nornas
sociais, a propria noral ÷, Ia una quc cada dia
conprova, da nancira nais indiscuiívcl c nais
propria para fazcr cfciio no Ioncn-nassa, sua
naravilIosa cficicncia. a cicncia cnpírica. Cada
dia faciliia un novo invcnio, quc cssc Ioncn
ncdio uiiliza. Cada dia produz un novo
151
analgcsico ou vacina, quc lcncficia cssc Ioncn
ncdio. Todo o nundo salc quc, nao ccdcndo à
inspiraçao cicniífica, sc sc iriplicasscn ou
dccuplicasscn os laloraiorios, nuliiplicar-sc-ian
auionaiicancnic riqucza, conodidadcs, saudc,
lcn-csiar. Podc inaginar-sc propaganda nais
fornidavcl c coniundcnic cn favor dc un
princípio viial? Cono, nao olsianic, nao Ia
sonlra dc quc as nassas pcçan a si ncsnas un
sacrifício dc dinIciro c dc aicnçao para doiar
nclIor a cicncia? Longc disso, o apos-gucrra
convcricu o Ioncn dc cicncia no novo paria
social. E consic quc nc rcfiro a físicos, quínicos,
liologos ÷ nao aos filosofos ÷. A filosofia nao
ncccssiia dc proicçao, ncn dc aicnçao, ncn dc
sinpaiia da nassa. Cuida dc scu aspccio dc
pcrfciia inuiilidadc(56i, c cono isso sc lilcria dc
ioda sulnissao do Ioncn ncdio. Salc quc c por
csscncia prollcnaiica, c alraça alcgrc scu livrc
dcsiino dc passaro do lon Dcus, scn pcdir a
ningucn quc conic con cla, ncn rcconcndar-sc,
ncn dcfcndcr-sc. Sc algucn dc loa ncnic a
aprovciia para algo, rcgozija-sc por sinplcs
sinpaiia Iunana; nas nao vivc dcssc provciio
alIcio, ncn o prcncdiia, ncn o cspcra. Cono vai
prcicndcr quc algucn a ionc cn scrio, sc cla
concça por duvidar dc sua propria c×isicncia, sc
nao vivc nais quc na ncdida cn quc sc conlaia
a si ncsna, cn quc sc dcsvivc a si ncsna?
152
Dci×cnos, pois, dc lado a filosofia, quc c
avcniurcira dc ouiro nívcl.
Mas as cicncias c×pcrincniais ncccssiian da
nassa, cono csia ncccssiia dclas, sol pcna dc
sucunlir, ja quc nun plancia scn físico-quínica
nao sc podc susicniar o nuncro dc Ioncns Iojc
c×isicnics.
Ouc raciocínios podcn conscguir o quc nao
conscguc o auionovcl, ondc csscs Ioncns vao c
vcn, c a injcçao dc paniopon quc fulnina,
nilagrosa., suas dorcs? A dcsproporçao cnirc o
lcncfício consianic c paicnic quc a cicncia lIcs
procura c o inicrcssc quc por cla nosiran c ial,
quc nao Ia nodo dc sulornar-sc a si ncsno con
ilusorias cspcranças, c cspcrar nais quc larlaric
dc qucn assin sc conporiar. Ma×inc sc,
scgundo vcrcnos, csic dcsapcgo pcla cicncia.
cono ial aparccc, ialvcz con naior clarcza quc
cn ncnIuna ouira paric, na. nassa dos iccnicos
ncsnos ÷ dc ncdicos, cngcnIciros, cic., os
quais socn c×crccr sua profissao con un csiado
dc cspíriio idcniico no csscncial ao dc qucn sc
conicnia con usar do auionovcl ou conprar o
iulo dc aspirina ÷, scn a ncnor solidaricdadc
íniina con o dcsiino da cicncia, da civilizaçao.
Havcra qucn sc sinia nais solrccolIido por
ouiros sinionas dc larlaric cncrgcnic quc,
scndo dc qualidadc posiiiva, dc açao, c nao dc
153
onissao, salian nais aos olIos c sc naicrializan
cn cspciaculo. Para nin c csic da dcsproporçao
cnirc o provciio quc o Ioncn ncdio rccclc da
cicncia c a graiidao quc lIc dcdica ÷ quc nao lIc
dcdica ÷ o nais aicrrador(57i. So posso c×plicar-
nc csia auscncia do adcquado rcconIccincnio sc
rccordo quc no ccniro da África os ncgros vao
ianlcn cn auionovcl c sc aspirinizan. O
curopcu quc concça a prcdoninar ÷ csia c
ninIa Iipoicsc ÷ scria, rclaiivancnic à
conplc×a civilizaçao cn quc nasccu, un Ioncn
priniiivo, un larlaro cncrgindo por un alçapao,
un ºinvasor vcriical".
154

X. PRIMITIVISMO E HISTÓRIA

A naiurcza csia scnprc aí. Susicnia-sc a si
ncsna. Ncla, na sclva, podcnos inpuncncnic
scr sclvagcns. Podcnos inclusivc rcsolvcr a nao
dci×ar dc sc-lo nunca, scn nais risco quc o
advcnio dc ouiros scrcs quc nao o scjan. Mas,
cn princípio, sao possívcis povos pcrcncncnic
priniiivos. Ha-os. Drcyssig cIanou-os dc ºos
povos da pcrpciua aurora", os quc ficaran nuna
alvorada csiaiica, congclada, quc nao avança
para ncnIun ncio-dia.
Isso aconiccc no nundo quc c so Naiurcza.
Mas nao aconiccc no nundo quc c civilizaçao,
cono o nosso. A civilizaçao nao csia aí, nao sc
susicnia a si ncsna. É ariifício c rcqucr un
ariisia ou aricsao. Sc o scnIor qucr aprovciiar-sc
das vaniagcns da civilizaçao, nas nao sc
prcocupa dc susicniar a civilizaçao..., o scnIor
csia cnfarado. A ircs por dois o scnIor fica scn
civilizaçao. Un dcscuido, c quando o scnIor olIa
à sua volia iudo sc volaiilizou! Cono sc
Iouvcsscn rccolIido uns iapcics quc iapavan a
pura Naiurcza, rcaparccc rcprisiinada a sclva
priniiiva. A sclva scnprc c priniiiva. E vicc-
vcrsa. Tudo quc c priniiivo c sclva.
155
Os ronaniicos dc iodos os icnpos sc
dcsariiculavan anic csia ccna dc dcsolaçao, cn
quc o naiural c sulunano iornava a oprinir a
palidcz Iunana da nulIcr, c piniavan o cisnc
solrc Lcda, csircnccido; o iouro con Pasifac c
Aniíopc sol o capro. Ccncralizando acIaran un
cspciaculo nais suiilncnic indcccnic na
paisagcn con ruínas, ondc a pcdra civilizada,
gconcirica, sc afoga sol o alraço da silvcsirc
vcgciaçao. Ouando un lon ronaniico divisa un
cdifício, a princira coisa quc scus olIos
procuran c, solrc o acroicrio ou o iclIado, o
ºanarclo saranago". Elc anuncia quc, cn
dcfiniiivo, iudo c icrra; quc por ioda a paric a
sclva rclroia.
Scria csiupido rir do ronaniico. Tanlcn o
ronaniico icn razao. Sol cssas inagcns
inoccnicncnic pcrvcrsas palpiia un cnornc c
scnpiicrno prollcna. o das rclaçõcs cnirc a
civilizaçao c o quc ficou dcpois dcla ÷ a Naiurcza
÷, cnirc o racional c o cosnico. Fcclano, pois, a
franquia para ocupar-nc dclc cn ouira ocasiao c
para scr na Iora oporiuna ronaniico.
Mas agora cnconiro-nc cn faina oposia.
Traia-sc dc conicr a sclva invasora, O ºlon
curopcu" icn dc sc dcdicar agora ao quc
consiiiui, cono c salido, gravc prcocupaçao dos
Esiados ausiralianos. inpcdir quc as figuciras
ganIcn icrrcno c jogucn os Ioncns ao nar. Pclo
156
ano quarcnia c ianios, un cnigranic ncridional,
nosialgico dc sua paisagcn ÷ Malaga? Sicília? ÷,
lcvou para a Ausiralia nun vaso dc larro una
figucirazinIa. Hojc os orçancnios da Occania
solrccarrcgan-sc con vcrlas oncrosas
dcsiinadas à gucrra conira a figucira, quc invadiu
o coniincnic c cada ano ganIa cn coric nais dc
un quilónciro.
O Ioncn-nassa crc quc a civilizaçao cn quc
nasccu c quc usa c iao csponianca c prinigcnca
cono a Naiurcza, c ipso facio convcric-sc cn
priniiivo. A civilizaçao sc lIc aniolIa sclva. Eu ja
o dissc, nas agora c prcciso acrcsccniar algunas
prccisõcs. Os princípios cn quc sc apoia o nundo
civilizado ÷ o quc c prcciso susicniar ÷ nao
c×isicn para o Ioncn ncdio aiual. Nao lIc
inicrcssan os valorcs fundancniais da culiura, c
nao sc faz solidario dclcs. Nao csia disposio a
pór-sc a scu scrviço. Cono aconicccu isio? Por
nuiias causas; nas agora vou dcsiacar apcnas
una.
A civilizaçao, quanio nais avança, iorna-sc
ianio nais conplc×a c nais difícil. Os prollcnas
quc Iojc lcvania sao arqui-inirincados. Cada vcz
c ncnor o nuncro dc pcssoas cuja ncnic csia à
aliura dcsscs prollcnas. O apos-gucrra nos
ofcrccc un c×cnplo lcn claro disso. A
rcconsiiiuiçao da Europa ÷ csia sc vcndo ÷ c
un assunio dcnasiado algclrico, c o curopcu
157
vulgar rcvcla-sc infcrior à iao suiil cnprcsa. Nao
c quc falicn ncios para a soluçao. Falian
calcças. Mais c×aiancnic. Ia algunas calcças,
nuiio poucas; nas o corpo vulgar da Europa
ccniral nao qucr pó-las solrc os onlros.
Esic dcscquilílrio cnirc a suiilcza conplicada
dos prollcnas c a das ncnics scra cada vcz
naior sc nao sc rcncdcia, c consiiiui a nais
clcncniar iragcdia da civilizaçao. Dc ianio scr
fcricis c ccriciros os princípios quc a infornan,
auncnia sua colIciia cn quaniidadc c cn
agudcza aic ulirapassar a rcccpiividadc do
Ioncn nornal. Nao crcio quc isio icnIa
aconiccido janais no passado. Todas as
civilizaçõcs fcncccran pcla insuficicncia dc scus
princípios. A curopcia ancaça sucunlir pclo
conirario. Na Crccia c cn Fona nao fracassou o
Ioncn, nas scus princípios. O Inpcrio ronano
finda por falia dc iccnica. Ao cIcgar a un grau dc
povoaçao grandc c c×igir iao vasia convivcncia a
soluçao dc ccrias urgcncias naicriais, quc so a
iccnica podia acIar, concçou o nundo a involuir,
a rciroccdcr c consunir-sc.
Mas agora c o Ioncn qucn fracassa por nao
podcr coniinuar cnparclIado con o progrcsso dc
sua propria civilizaçao. Causa inquiciudc ouvir
falar solrc os icnas nais clcncniais do dia por
pcssoas rclaiivancnic nais culias. Parcccn
ioscos lalrcgos quc con dcdos grossos c
158
dcsajciiados qucrcn colIcr una agulIa quc csia
solrc una ncsa. Mancjan-sc, por c×cnplo, os
icnas políiicos c sociais con o insiruncnial dc
concciios ronludos quc scrviran a duzcnios
anos para cnfrcniar siiuaçõcs dc faio duzcnias
vczcs ncnos suiis.
Civilizaçao avançada c una c ncsna coisa
con prollcnas arduos. Daí quc quanio naior
scja o progrcsso, ianio nais cn pcrigo csia. A
vida c cada vcz nclIor; nas, lcn cnicndido,
cada vcz nais conplicada. É claro quc ao
conplicarcn-sc os prollcnas, vao-sc
apcrfciçoando ianlcn os ncios para rcsolvc-los.
Mas c nisicr quc cada nova gcraçao sc iornc
scnIora dcsscs ncios adianiados. Enirc csics ÷
para concrciizar un pouco ÷ Ia un lanalncnic
unido ao avanço da civilizaçao, quc c icr nuiio
passado às suas cosias, nuiia c×pcricncia; cn
suna. Iisioria. O salcr Iisiorico c una iccnica
dc princira ordcn para conscrvar c coniinuar
una civilizaçao provccia. Nao por quc dc soluçõcs
posiiivas ao novo aspccio dos confliios viiais ÷ a
vida c scnprc difcrcnic do quc foi ÷, nas porquc
cviia concicr os crros ingcnuos dc ouiros
icnpos. Mas sc o scnIor, alcn dc scr vclIo, c,
porianio, dc quc sua vida concça a scr difícil,
pcrdcu a ncnoria do passado, o scnIor nao
aprovciia sua c×pcricncia, cniao iudo c
dcsvaniagcn. Pois cu crcio quc csia c a siiuaçao
da Europa. As pcssoas nais ºculias" dc Iojc
159
padcccn una ignorancia Iisiorica incrívcl. Eu
susicnio quc Iojc salc o curopcu dirigcnic nuiio
ncnos Iisioria quc o Ioncn do scculo XVIII c
ncsno do XVII. Aquclc salcr Iisiorico das
ninorias govcrnanics ÷ govcrnanics scnsu laio
÷ iornou possívcl o avanço prodigioso do scculo
XIX. Sua políiica csia pcnsada ÷ pclo XVIII ÷
prccisancnic para cviiar crros dc iodas as
políiicas aniigas, csia idcada cn visia dcsscs
crros, c rcsunc cn sua sulsiancia a nais longa
c×pcricncia. Mas ja o scculo XIX concçou a
pcrdcr ºculiura Iisiorica", apcsar dc quc no scu
iranscurso os cspccialisias a fizcran avançar
nuiiíssino cono cicncia(58i. A csic alandono sc
dcvcn cn loa paric scus pcculiarcs crros, quc
Iojc graviian solrc nos. En scu uliino icrço
iniciou-sc ÷ cnlora sulicrrancancnic ÷ a
involuçao, o rciroccsso à larlaric; isio c, à
ingcnuidadc c priniiivisno dc qucn nao icn ou
csquccc scu passado.
Por isso sao lolcIcvisno c fascisno, as duas
icniaiivas ºnovas" dc políiica quc na Europa c
scus confinanics sc csiao fazcndo, dois claros
c×cnplos dc rcgrcssao sulsiancial. Nao ianio
pclo conicudo posiiivo dc suas douirinas, quc,
isolado, icn naiuralncnic una vcrdadc parcial ÷
qucn no univcrso nao possui una porciuncula
dc razao? ÷, cono pcla nancira anii-Iisiorica,
anacrónica, con quc iraian sua paric dc razao.
Movincnios iípicos dc Ioncns-nassa dirigidos,
160
cono iodos os quc o sao, por Ioncns ncdíocrcs,
c×icnporancos c scn ncnoria c×icnsa, scn
ºconscicncia Iisiorica", conporian-sc dcsdc o
início cono sc Iouvcsscn passado ja, cono sc
succdcndo ncsia Iora pcricnccsscn à fauna dc
anianIo.
A qucsiao nao csia cn scr ou nao scr
conunisia c lolcIcvisia. Nao discuio o crcdo. O
quc c inconcclívcl c anacrónico c quc un
conunisia dc 1917 sc aiirc a fazcr una rcvoluçao
quc c cn sua forna idcniica a iodas as quc Iouvc
anics c na qual nao sc corrigcn os níninos
dcfciios c crros das aniigas. Por isso nao c
inicrcssanic Iisioricancnic o aconiccido na
Fussia; por isso c csiriiancnic o conirario dc un
concço dc vida Iunana. É, pclo conirario, una
nonoiona rcpciiçao da rcvoluçao dc scnprc, c o
pcrfciio lugar conun das rcvoluçõcs. Aic o ponio
dc quc nao Ia frasc fciia, das nuiias quc solrc
as rcvoluçõcs a vclIa c×pcricncia Iunana fcz,
quc nao rcccla dcploravcl confirnaçao quando sc
aplica a csia. ºA rcvoluçao dcvora scus proprios
filIos!" ºA rcvoluçao concça por un pariido
nodcrado, a scguir passa aos c×ircnisias c
concça nui rapidancnic a rciroccdcr para una
rcsiauraçao", cic., cic. A csscs iopicos vcncravcis
podian ajuniar-sc algunas ouiras vcrdadcs
ncnos noiorias, porcn nao ncnos provavcis,
cnirc clas csia. una rcvoluçao nao dura nais dc
161
quinzc anos, pcríodo quc coincidc con a vigcncia
dc una gcraçao(59i.
Oucn aspirc vcrdadcirancnic a criar una
nova rcalidadc social ou políiica, ncccssiia
prcocupar-sc anics dc iudo dc quc csscs
Iunílinos lugarcs conuns da c×pcricncia
Iisiorica fiqucn invalidados pcla siiuaçao quc clc
susciia. Dc ninIa paric rcscrvarci a qualificaçao
dc gcnial ao políiico quc nal conccc a opcrar
concccn a ficar loucos os profcssorcs dc Hisioria
dos Insiiiuios, cn visia dc quc iodas as ºlcis" dc
sua cicncia aparcccn caducadas, inicrronpidas c
fciias cisco.
Invcricndo o signo quc afcia o lolcIcvisno,
podcríanos dizcr coisas sinilarcs do fascisno.
Ncn un ncn ouiro cnsaio csiao ºà aliura dos
icnpos", nao lcvan dcniro dc si rcsunido iodo o
prcicriio, condiçao irrcnissívcl para supcra-lo.
Con o passado nao sc luia corpo a corpo. O
porvir o vcncc porquc o dcvora. Sc dci×ar algo
dclc fora csia pcrdido.
Un c ouiro ÷ lolcIcvisno c fascisno ÷ sao
duas falsas alvoradas; nao irazcn a nanIa do
ananIa, nas a dc un arcaico dia, ja usado una
ou nuiias vczcs; sao priniiivisno. E isio scrao
iodos os novincnios quc rccaian na
sinplicidadc dc iravar una luia con ial ou qual
162
porçao do passado, cn vcz dc proccdcr a sua
digcsiao.
Nao Ia duvida dc quc c prcciso supcrar o
lilcralisno do scculo XIX. Mas isso c jusiancnic
o quc nao podc fazcr qucn, cono o fascisno, sc
dcclara anii-lilcral. Por isso ÷ scr aniililcral ou
nao lilcral ÷ c o quc fazia o Ioncn anicrior ao
lilcralisno. E cono ja una vcz csic iriunfou
daqucla, rcpciira sua viioria inuncravcis vczcs ou
sc acalara iudo ÷ lilcralisno c anii-lilcralisno
÷ nuna dcsiruiçao da Europa. Ha una
cronologia viial inc×oravcl. O lilcralisno c ncla
posicrior ao anii-lilcralisno, ou, o quc c o
ncsno, c nais vida quc csic, cono o canIao c
nais arna quc a lança.
Dcsdc ja, una aiiiudc anii-algo parccc
posicrior a csic algo, posio quc signifiquc una
rcaçao conira clc c supõc sua prcvia c×isicncia.
Mas a inovaçao quc o anii rcprcscnia sc
dcsvanccc no vazio adcnanc ncgador c dci×a so
cono conicudo posiiivo una ºaniigualIa". Oucn
sc dcclara anii-Pcdro nao faz, iraduzindo sua
aiiiudc à linguagcn posiiiva, scnao dcclarar-sc
pariidario dc un nundo ondc Pcdro nao c×isic.
Mas isso c prccisancnic o quc aconiccia ao
nundo quando ainda nao Iavia nascido Pcdro. O
aniipcdrisia, cn vcz dc colocar-sc dcpois dc
Pcdro, coloca-sc anics c rciroccdc ioda a pclícula
à siiuaçao passada, ao calo da qual csia
163
inc×oravclncnic o rcaparccincnio dc Pcdro.
Aconiccc, pois, con iodos csics anii o quc,
scgundo a lcnda, aconicccu a Confucio. O qual
nasccu, naiuralncnic, dcpois dc scu pai; nas,
dialo!, nasccu ja con oiicnia anos cnquanio scu
progcniior nao iinIa nais quc irinia. Todo anii
nao c nais quc un sinplcs c vazio nao.
Scria iudo nuiio facil sc con un nao puro c
sinplcs aniquilasscnos o passado. Mas o
passado c pura csscncia rcvcnani. Sc o
nandanos cnlora, volia, volia
irrcncdiavclncnic. Por isso sua unica auicniica
supcraçao c nao nanda-lo cnlora. Coniar con
clc. Conporiar-sc à sua visia para sorica-lo,
cviia-lo. En suna, ºa aliura dos icnpos", con
Iipcrcsicsica conscicncia da conjuniura
Iisiorica.
O passado icn razao, a sua. Sc nao sc lIc da
cssa quc icn, voliara a rcclana-la, c dc passagcn
a inpor a quc nao icn. O lilcralisno iinIa una
razao, c cssa c prcciso da-la pcr saccula
saccculorun. Mas nao iinIa ioda a razao, c cssa
quc nao iinIa c a quc sc dcvia iirar-lIc. A Europa
ncccssiia conscrvar scu csscncial lilcralisno.
Esia c a condiçao para supcra-lo.
Sc falci aqui dc fascisno c lolcIcvisno nao
foi scnao olliquancnic, fi×ando-nc so na sua
fciçao anacrónica. Esia c, a ncu juízo,
164
inscparavcl dc iudo quc Iojc parccc iriunfar.
Porquc Iojc iriunfa o Ioncn-nassa, c, porianio,
so icniaiivas por clcs infornadas, saiuradas dc
scu csiilo priniiivo, podcn cclclrar una
aparcnic viioria. Mas, à paric isso, nao discuio
agora a cniranIa dc un ncn a do ouiro, cono
nao prcicndo dirinir o pcrcnc dilcna cnirc
rcvoluçao c cvoluçao. O na×ino quc csic cnsaio
sc aircvc a soliciiar c quc rcvoluçao ou cvoluçao
scjan Iisioricas c nao anacrónicas.
O icna quc vcrso ncsias paginas c
poliiicancnic ncuiro, porquc alcnia cn csiraio
nuiio nais profundo quc a políiica c suas
disscnsõcs. Nao c nais ncn ncnos nassa o
conscrvador quc o radical, c csia difcrcnça ÷ quc
cn ioda cpoca icn sido nuiio supcrficial ÷ nao
inpcdc ncn dc longc quc anlos scjan un
ncsno Ioncn, vulgo rclcldc.
A Europa nao icn rcnissao sc scu dcsiino
nao c posio nas naos dc pcssoas
vcrdadcirancnic ºconicnporancas" quc sinian
palpiiar dclai×o dc si iodo o sulsolo Iisiorico,
quc conIcçan a laiiiudc prcscnic da vida c
rcpugncn ioda aiiiudc arcaica c silvcsirc.
Ncccssiianos da Iisioria ínicgra para vcr sc
conscguinos cscapar dcla, nao rccair ncla.
165

XI. A ÉPOCA DO "MOCINHO SATISFEITO"

Fcsuno. O novo faio social quc aqui sc
analisa c csic. a Iisioria curopcia parccc, pcla
princira vcz, cnircguc à dccisao do Ioncn vulgar
cono ial. Ou diio cn voz aiiva. o Ioncn vulgar,
anics dirigido, rcsolvcu govcrnar o nundo. Esia
rcsoluçao dc avançar para o princiro plano social
produziu-sc nclc, auionaiicancnic, nal cIcgou a
anadurcccr o novo iipo dc Ioncn quc clc
rcprcscnia. Sc aicndcndo aos dcfciios da vida
pullica, csiuda-sc a csiruiura psicologica dcsic
novo iipo dc Ioncn-nassa, cnconira-sc o
scguinic. 1o., una inprcssao naiiva c radical dc
quc a vida c facil, alasiada, scn liniiaçõcs
iragicas; porianio, cada indivíduo ncdio cnconira
cn si una scnsaçao dc donínio c iriunfo quc,
2o., o convida a afirnar-sc a si ncsno ial qual c,
a considcrar lon c conplcio scu Iavcr noral c
iniclcciual. Esic conicniancnio consigo o lcva a
fccIar-sc cn si ncsno para ioda insiancia
c×icrior, a nao ouvir, a nao pór cn icla dc juízo
suas opiniõcs c a nao coniar con os dcnais. Sua
scnsaçao íniina dc donínio o inciia
consianicncnic a c×crccr prcdonínio. Aiuara,
pois, cono sc soncnic clc c scus congcncrcs
c×isiisscn no nundo; porianio, 3o., inicrvira cn
iudo inpondo sua vulgar opiniao, scn
166
considcraçõcs, conicnplaçõcs, iraniics ncn
rcscrvas; qucr dizcr, scgundo un rcginc dc ºaçao
dircia".
Esic rcpcriorio dc fciçõcs fcz con quc
pcnsasscnos cn ccrios nodos dcficicnics dc scr
Ioncn, cono o ºncnino ninado" c o priniiivo
rclcldc; qucr dizcr, o larlaro. (O priniiivo
nornal, pclo conirario, c o Ioncn nais docil a
insiancias supcriorcs quc janais c×isiiu ÷
rcligiao, ialus, iradiçao social, cosiuncs ÷.i Nao
c ncccssario csiranIar quc cu acunulc dicicrios
sol csia figura dc scr Iunano. O prcscnic cnsaio
nao c nais quc un princiro cnsaio dc aiaquc a
cssc Ioncn iriunfanic, c o anuncio dc quc uns
quanios curopcus vao rcagir cncrgicancnic
conira sua prcicnsao dc iirania. Por cnquanio
iraia-sc dc un cnsaio dc aiaquc. o aiaquc a
fundo vira dcpois, ialvcz nuiio lrcvc, cn forna
nuiio difcrcnic da quc csic cnsaio rcvcsic, O
aiaquc a fundo icn dc vir dc nancira quc o
Ioncn-nassa nao sc possa prccavcr conira clc,
quc o vcja dianic dc si c nao suspciic quc aquilo,
prccisancnic aquilo, c o aiaquc a fundo.
Esic pcrsonagcn, quc agora anda por ioda a
paric c ondc qucr inpor sua larlaric íniina, c,
con cfciio, o garoio ninado da Iisioria Iunana.
O garoio ninado c o Icrdciro quc sc conporia
c×clusivancnic cono Icrdciro. Agora a Icrança c
a civilizaçao ÷ as conodidadcs, a scgurança; cn
167
suna, as vaniagcns da civilizaçao ÷. Cono
vinos, so dcniro da folga social quc csia falricou
no nundo, podc surgir un Ioncn consiiiuído
por aquclc rcpcriorio dc fciçõcs, inspirado por ial
caraicr. É una dc ianias dcfornaçõcs cono o
lu×o produz na naicria Iunana. Tcndcríanos
ilusoriancnic a crcr quc una vida nascida cn
un nundo alasiado scria nclIor, nais vida c dc
supcrior qualidadc à quc consisic, prccisancnic,
cn luiar con a cscasscz. Mas nao c vcrdadc. Por
razõcs nuiio rigorosas c arquifundancniais quc
agora nao c oporiuno cnunciar. Agora, cn vcz
dcssas razõcs, lasia rccordar o faio scnprc
rcpciido quc consiiiui a iragcdia dc ioda a
arisiocracia Icrcdiiaria. O arisiocraia Icrda, qucr
dizcr, cnconira airiluídas a sua pcssoa unas
condiçõcs dc vida quc clc nao criou, porianio, quc
nao sc produzcn organicancnic unidas a sua
vida pcssoal c propria. AcIa-sc ao nasccr
insialado, dc rcpcnic c scn salcr cono, cn ncio
dc sua riqucza c dc suas prcrrogaiivas. Elc nao
icn, iniinancnic, nada quc vcr con clas, porquc
nao vcn dclc. Sao a carapaça giganicsca dc ouira
pcssoa, dc ouiro scr vivcnic, scu anicpassado. E
icn dc vivcr cono Icrdciro, isio c, icn dc usar a
carapaça dc ouira vida. En quc ficanos? Ouc
vida vai vivcr o ºarisiocraia" dc Icrança, a sua ou
a do proccr inicial? Ncn una ncn ouira. Esia
condcnado a rcprcscniar o ouiro, porianio, a nao
scr ncn o ouiro ncn clc ncsno. Sua vida pcrdc
168
inc×oravclncnic auicniicidadc, c convcric-sc cn
pura rcprcscniaçao ou ficçao dc ouira vida. A
alundancia dc ncios quc csia olrigado a
nancjar nao o dci×a vivcr scu proprio c pcssoal
dcsiino, airofia sua vida. Toda vida c luia, csforço
por scr cla ncsna. As dificuldadcs con quc
iropcço para rcalizar ninIa vida sao,
prccisancnic, o quc dcspcria c noliliza ninIas
aiividadcs, ninIas capacidadcs. Sc ncu corpo
nao nc pcsassc cu nao podcria andar. Sc a
ainosfcra nao nc oprinissc, scniiria ncu corpo
cono una coisa vaga, fofa, faniasnaiica. Assin,
no ºarisiocraia" Icrdciro ioda a sua pcssoa vai sc
dcsvancccndo, por falia dc uso c csforço viial. O
rcsuliado c cssa cspccífica parvoícc das vclIas
nolrczas, quc nao sc asscnclIa a nada c quc, a
rigor, ningucn dcscrcvcu ainda cn scu inicrno c
iragico nccanisno ÷ o inicrno c iragico
nccanisno quc conduz ioda a arisiocracia
Icrcdiiaria à sua irrcncdiavcl dcgcncraçao.
ValIa isio iao soncnic para cnfrcniar nossa
ingcnua icndcncia a crcr quc a alundancia dc
ncios favorccc a vida. Pclo conirario. Un nundo
alundoso(60i dc possililidadcs produz
auionaiicancnic gravcs dcfornaçõcs c viciosos
iipos dc c×isicncia Iunana ÷ os quc sc podcn
rcunir na classc gcral ºIoncn-Icrdciro", dc quc o
ºarisiocraia" nao c scnao un caso pariicular, c
ouiro un ncnino ninado c ouiro, nuiio nais
anplo c radical, o Ioncn-nassa dc nosso icnpo
169
÷. (Por ouira paric, calcria aprovciiar nais
dcialIadancnic a anicrior alusao ao
ºarisiocraia", nosirando cono nuiios dos iraços
caracicrísiicos dcsic, cn iodos os povos c icnpo,
sc dao, dc nancira gcrninal, no Ioncn-nassa.
Por c×cnplo. a propcnsao dc fazcr ocupaçao
ccniral da vida os jogos c os csporics; o culiivo do
scu corpo ÷ rcginc Iigicnico c aicnçao à lclcza
do irajc ÷; falia dc ronaniicisno na rclaçao con
a nulIcr; divcriir-sc con o iniclcciual, nas, no
fundo, nao csiina-lo c nandar quc os lacaios ou
os cslirros o açoiicn; prcfcrir a vida sol a
auioridadc alsoluia a un rcginc dc discussao(61i,
cic. cic.i.
Insisio, pois, con lcal dcsgosio cn fazcr vcr
quc csic Ioncn cIcio dc icndcncias incivis, quc
csic novíssino larlaro c un produio auionaiico
da civilizaçao nodcrna, cspccialncnic da forna
quc csia civilizaçao no scculo XIX. Nao vcio dc
fora ao nundo civilizado cono os ºgrandcs
larlaros lrancos" do scculo V; nao nasccu
ianpouco dcniro dclc por gcraçao csponianca c
nisicriosa, cono, scgundo Arisioiclcs, os girinos
na alvcrca, nas c o scu fruio naiural. Calc
fornular csia lci quc a palconiologia c a
liogcografia confirnan. a vida Iunana surgiu c
progrcdiu so quando os ncios con quc coniava
csiavan cquililrados pclos prollcnas quc scniia.
Isio c vcrdadc, ianio na ordcn cspiriiual cono na
física. Assin, para nc rcfcrir a una dincnsao
170
nuiio concrcia da vida corporal, rccordarci quc a
cspccic Iunana lroiou cn zonas do plancia ondc
a csiaçao qucnic ficava conpcnsada por una
csiaçao dc frio inicnso. Nos iropicos, o aninal-
Ioncn dcgcncra, c vicc-vcrsa, as raças infcriorcs
÷ por c×cnplo, os pigncus ÷ foran rcpclidas
para os iropicos por raças nascidas dcpois dclas c
supcriorcs na cscala da cvoluçao(62i.
Pois lcn, a civilizaçao do scculo XIX c dc ial
índolc quc pcrniic ao Ioncn ncdio insialar-sc
cn un nundo alundanic, do qual pcrcclc so a
supcralundancia dc ncios, nas nao as
angusiias. Enconira-sc rodcado dc insiruncnios
prodigiosos, dc ncdicinas lcncficas, dc Esiados
prcvidcnics, dc dirciios cónodos. Ignora, por scu
iurno, o difícil quc c invcniar cssas ncdicinas c
insiruncnios c asscgurar para o fuiuro sua
produçao; nao pcrcclc o insiavcl quc c a
organizaçao do Esiado, c nal scnic dcniro dc si
olrigaçõcs. Esic dcscquilílrio o falsifica, vicia-o
cn sua raiz dc scr vivcnic, fazcndo-o pcrdcr
coniacio con a sulsiancia ncsna da vida, quc c
alsoluio pcrigo, radical prollcnaiisno. A forna
nais coniradiioria da vida Iunana quc podc
aparcccr na vida Iunana c o ºnocinIo
saiisfciio". Por isso, quando sc iorna figura
prcdoninanic, c prcciso dar o griio dc alarnc c
anunciar quc a vida sc acIa ancaçada dc
dcgcncraçao; qucr dizcr, dc rclaiiva noric.
Scgundo isio, o nívcl viial quc rcprcscnia a
171
Europa dc Iojc c supcrior a iodo o passado
Iunano; nas sc olIanos o porvir, faz icncr quc
ncn conscrvc sua aliura ncn produza ouiro nívcl
nais clcvado, porcn, pclo conirario, quc
rciroccda c rccaia cn aliiiudcs infcriorcs.
Isio, pcnso, faz vcr con suficicnic clarcza a
anornalidadc supcrlaiiva quc rcprcscnia o
ºnocinIo saiisfciio". Porquc c un Ioncn quc
vcio à vida para fazcr o quc lcn cnicndc. Con
cfciio, o ºfilIo dc fanília" forja para si csia ilusao.
Ja salcnos por quc. no anliio faniliar, iudo, aic
os naiorcs dcliios, podc ficar no final das conias
inpunc. O anliio faniliar c rclaiivancnic
ariificial, c iolcra dcniro dc si nuiios aios quc na
socicdadc, no ar da rua irarian auionaiicancnic
conscqucncias dcsasirosas c iniludívcis para scu
auior. Mas o ºnocinIo" c aquclc quc acrcdiia
podcr conporiar-sc fora dc casa cono cn casa,
aquclc quc acrcdiia quc nada c faial, irrcncdiavcl
c irrcvogavcl. Por isso acrcdiia quc podc fazcr o
quc lcn cnicndc(63i. Crandc cquívoco! Vossa
Mcrcc ira aondc o lcvcn, cono sc diz ao papagaio
no conio do poriugucs. Nao c o quc nao sc dcva
fazcr o quc csicja na voniadc da pcssoa; c quc
nao sc podc fazcr scnao o quc cada qual icn quc
fazcr, icn quc scr. Calc unicancnic ncgar-sc a
fazcr isso quc c prcciso fazcr; nas isio nao nos
dci×a cn lilcrdadc para fazcr ouira coisa quc
csicja na nossa voniadc. Ncsic ponio possuínos
apcnas una lilcrdadc ncgaiiva dc arlíirio ÷ a
172
noliçao ÷. Podcnos pcrfciiancnic dcscriar dc
nosso dcsiino nais auicniico; nas c para cair
prisionciro nos graus infcriorcs dc nosso dcsiino.
Eu nao posso fazcr isio cvidcnic a cada lciior no
quc scu dcsiino individualíssino icn cono ial,
porquc nao conIcço a cada lciior, nas c possívcl
fazc-lo vcr naquclas porçõcs ou faccias dc scu
dcsiino quc sao idcniicas às dc ouiros. Por
c×cnplo. iodo curopcu aiual salc, con una
ccricza nuiio nais vigorosa quc a dc iodas as
suas idcias c ºopiniõcs" c×prcssas, quc o Ioncn
curopcu aiual icn dc scr lilcral. Nao discuianos
sc csia ou a ouira forna dc lilcrdadc c a quc icn
dc scr. Fcfiro-nc a quc o curopcu nais
rcacionario salc, no fundo dc sua conscicncia,
quc isso quc a Europa icniou no uliino scculo
con o nonc dc lilcralisno c, cn uliina
insiancia, algo iniludívcl, inc×oravcl, quc o
Ioncn ocidcnial dc Iojc c, qucira ou nao qucira.
Enlora sc dcnonsirc, con plcna c
inconirasiavcl vcrdadc, quc sao falsas c funcsias
iodas as nanciras concrcias cn quc sc icniou aic
agora rcalizar cssc inpcraiivo irrcnissívcl dc scr
poliiicancnic livrc, inscriio no dcsiino curopcu,
fica cn pc a uliina cvidcncia dc quc no scculo
uliino iinIa sulsiancialncnic razao. Esia
cvidcncia uliina aiua ianio no conunisia
curopcu cono no fascisia, por nuiias aiiiudcs
quc icnIan para nos convcnccr c convcnccr-sc
do conirario, cono aiua ÷ qucira ou nao qucira,
173
crcia-o ou nao ÷ no caiolico quc prcsia nais lcal
adcsao ao Syllalus(64i. Todos ºsalcn" quc alcn
das jusias críiicas con quc sc conlaicn as
nanifcsiaçõcs do lilcralisno fica a irrcvogavcl
vcrdadc dcsic, una vcrdadc quc nao c icorica,
cicniífica, iniclcciual, nas dc una ordcn
radicalncnic difcrcnic c nais dccisiva dc iudo
isso ÷ a salcr, una vcrdadc dc dcsiino ÷. As
vcrdadcs icoricas nao sao discuiívcis, nas iodo
scu scniido c sua força csiao cn scr discuiidas;
nasccn da discussao, vivcn cnquanio sc
discuicn c csiao fciias c×clusivancnic para a
discussao. Mas o dcsiino ÷ o quc viialncnic sc
icn quc scr ou nao sc icn quc scr ÷ nao sc
discuic, nas sin acciia-sc ou nao. Sc o
acciianos, sonos auicniicos; sc nao o acciianos,
sonos a ncgaçao, a falsificaçao dc nos
ncsnos(65i, O dcsiino nao consisic naquilo quc
icnos voniadc dc fazcr; nas nclIorncnic sc
rcconIccc c nosira scu claro, rigoroso pcrfil na
conscicncia dc icr quc fazcr o quc nao csia na
nossa voniadc.
Pois lcn. ºo nocinIo-saiisfciio" caracicriza-
sc por ºsalcr" quc ccrias coisas nao podcn scr c,
cnircianio, c por isso ncsno, fingir con scus
aios c palavras a convicçao coniraria, O fascisia
sc nolilizara conira a lilcrdadc políiica,
prccisancnic porquc salc quc csia nao faliara
nunca no fin das conias c cn scrio, nas quc csia
aí, irrcncdiavclncnic, na sulsiancia ncsna da
174
vida curopcia, c quc ncla sc rccaira scnprc quc a
vcrdadc scja ncccssaria, na Iora das scricdadcs.
Porquc csia c a iónica da c×isicncia no Ioncn-
nassa. a inscricdadc, a ºpiada". O quc fazcn,
fazcn-no scn o caraicr dc irrcvogavcl, cono faz
suas iravcssuras o ºfilIo dc fanília". Toda cssa
prcssa para adoiar cn iodas as ordcns aiiiudcs
aparcnicncnic iragicas, uliinas, ialIanics, c so a
aparcncia. Drincan dc iragcdia porquc crccn quc
nao c vcrossínil a iragcdia cfciiva no nundo
civilizado.
Scria lon quc csiivcsscnos forçados a
acciiar cono auicniico scr dc una pcssoa o quc
cla prcicndia nosirar-nos cono ial. Sc algucn sc
olsiina cn afirnar quc dois nais dois c igual a
cinco c nao Ia noiivo para supó-lo clcncnic,
dcvcnos afirnar quc nao o crc, por nuiio quc
griic c ainda sc dci×c naiar para susicnia-lo.
Un furacao dc farsa gcral c onínoda sopra
solrc o iorrao curopcu. Ouasc iodas as posiçõcs
quc sc ionan c osicnian sao inicrnancnic
falsas. Os unicos csforços quc fazcn dcsiinan-sc
a fugir do proprio dcsiino, a ccgar-sc anic sua
cvidcncia c sua cIanada profunda, a cviiar cada
qual o confronio con isso quc icn quc scr. Vivc-
sc Iunorisiicancnic c ianio nais quanio nais
iragica scja a nascara adoiada. Ha Iunorisno
ondc qucr quc sc vivc dc aiiiudcs rcvogavcis, cn
quc a pcssoa nao sc finca inicira c scn rcscrvas.
175
O Ioncn-nassa nao afirna o pc solrc a firncza
inconovívcl dc scu signo; pclo conirario, vcgcia
suspcnso ficiiciancnic no cspaço. Por isso c quc
nunca cono agora csias vidas scn pcso c scn
raiz ÷ dcracinccs dc scu dcsiino ÷ sc dci×cn
arrasiar pcla nais inconsianic corrcnic. É a
cpoca das ºcorrcnics" c do ºdci×ar-sc ir". Ouasc
ningucn aprcscnia rcsisicncia aos supcrficiais
iorvclinIos quc sc fornan cn aric ou cn idcias,
ou cn políiica, ou nos usos sociais. Por isso, nais
quc nunca iriunfa a rciorica. O supcrrcalisia
acrcdiia Iavcr supcrado ioda a Iisioria liicraria
quando cscrcvcu ºaqui una palavra quc nao c
ncccssario cscrcvcr" ondc ouiros cscrcvcran
ºjasnins, cisncs c fauncsas". Mas c claro quc con
isso so fcz c×irair ouira rciorica quc aic agora
jazia nas lairinas.
Esclarccc a siiuaçao aiual advcriir, nao
olsianic a singularidadc dc sua fisiononia, a
porçao quc dc conun iinIa con ouiras do
passado. Assin aconiccc quc nal cIcga à sua
na×ina aiiiudc a civilizaçao ncdiicrranca ÷ por
volia do scculo III A. C. ÷ aparccc o cínico.
Diogcncs paicia con suas sandalias sujas dc
lana os iapcics dc Arísiipo. O cínico iornou-sc
un pcrsonagcn pululanic, quc sc acIava airas
dc cada csquina c cn iodas as aliuras. Ora lcn,
o cínico nao fazia ouira coisa scnao saloiar
aqucla civilizaçao. Era o niIilisia do Iclcnisno.
Janais criou ncn fcz nada, scu papcl cra
176
dcsfazcr ÷ nclIor diio, icniar dcsfazcr, porquc
ianpouco conscguiu scu proposiio ÷ O cínico,
parasiia da civilizaçao, vivc dc ncga-la, pcla
ncsna razao dc quc csia convcncido dc quc cla
nao dcsaparcccra. Ouc faria o cínico nun povo
sclvagcn ondc iodos, naiuralncnic c a scrio,
fazcn o quc clc cn farsa, considcra cono scu
papcl pcssoal? Ouc c un fascisia sc nao fala nal
da lilcrdadc c un supcrrcalisia sc nao pcrjura da
aric!
Nao podia conporiar-sc dc ouira nancira
cssc iipo dc Ioncn nascido no nundo
dcnasiadancnic lcn organizado, do qual so
pcrcclc as vaniagcns c nao os pcrigos. O
coniorno o nina, porquc c ºcivilizaçao" ÷ isio c,
una casa ÷, c o ºfilIo dc fanília" nao scnic nada
quc o faça sair dc sua índolc capricIosa, quc
inciic a ouvir insiancias c×icrnas supcriorcs a
clc, c nuiio ncnos quc o olriguc a ionar coniaio
con o fundo inc×oravcl dc scu proprio dcsiino.
177

XII. A BARBÁRIE DO "ESPECIALISMO"

A icsc cra quc a civilizaçao do scculo XIX
produziu auionaiicancnic o Ioncn-nassa.
Convcn nao fccIar sua c×posiçao gcral scn
analisar, nun caso pariicular, a nccanica dcssa
produçao. Dcsia soric, ao concrciizar-sc, a icsc
ganIa cn força pcrsuasiva.
Esia civilizaçao do scculo XIX, dizia cu, podc
rcsunir-sc cn duas grandcs dincnsõcs.
dcnocracia lilcral c iccnica. Toncnos agora
soncnic a uliina. A iccnica conicnporanca
nascc da copulaçao cnirc o capiialisno c a
cicncia c×pcrincnial. Nao ioda iccnica c
cicniífica. Aquclc quc falricou os nacIados dc
pcdra, no pcríodo cIclcnsc, carccia dc cicncia, c,
nao olsianic, criou una iccnica. A CIina cIcgou
a un alio grau dc iccnicisno scn suspciiar cn
nada a c×isicncia da física. So a iccnica nodcrna
da Europa possui una raiz cicniífica, c dcssa raiz
lIc vcn scu caraicr cspccífico, a possililidadc dc
un iliniiado progrcsso. As dcnais iccnicas ÷
ncsopoianica, niloia, grcga, ronana, oricnial ÷
cspraian-sc aic un ponio dc dcscnvolvincnio
quc nao podcn ulirapassar, c apcnas o iocan
concçan a rciroccdcr cn lancniavcl involuçao.
178
Esia naravilIosa iccnica ocidcnial iornou
possívcl a naravilIosa prolifcraçao da casia
curopcia. Fccordc-sc o dado dc quc ionou scu
vóo csic cnsaio c quc, cono cu dissc, cnccrra
gcrninalncnic iodas csias ncdiiaçõcs. Do scculo
V a 1800 a Europa nao conscguc icr una
populaçao supcrior a 180 nilIõcs. Dc 1800 a
1914 asccndc a nais dc 460 nilIõcs. O pulo c
unico na Iisioria Iunana. Nao Ia duvida dc quc
a iccnica ÷ junio con a dcnocracia lilcral ÷
cngcndrou o Ioncn-nassa no scniido
quaniiiaiivo dcsia c×prcssao. Mas csias paginas
icniaran nosirar quc ianlcn c rcsponsavcl da
c×isicncia do Ioncn-nassa no scniido
qualiiaiivo c pcjoraiivo do icrno.
Por ºnassa" ÷ prcvcnia cu no princípio ÷
nao sc cnicndc cspccialncnic o olrciro; nao
dcsigna aqui una classc social, nas una classc
ou nodo dc scr Ioncn quc sc da Iojc cn iodas
as classcs sociais, quc por isso ncsno rcprcscnia
o nosso icnpo, solrc o qual prcdonina c inpcra.
Agora vanos vcr isso con solrada cvidcncia.
Oucn c×crcc o podcr social? Oucn inpõc a
csiruiura dc scu cspíriio na cpoca? Scn duvida,
a lurgucsia. Oucn, dcniro dcssa lurgucsia c
considcrado cono o grupo supcrior, con a
arisiocracia do prcscnic? Scn duvida, o iccnico.
cngcnIciro, ncdico, financisia, profcssor cic. cic.
Oucn, dcniro do grupo iccnico, o rcprcscnia con
179
naior aliiiudc c purcza? Scn duvida, o Ioncn
dc cicncia. Sc un pcrsonagcn asiral visiiassc a
Europa, c con anino dc julga-la lIc pcrguniassc
por quc iipo dc Ioncn, cnirc os quc a Ialiian,
prcfcria scr julgada, nao Ia duvida dc quc a
Europa aponiaria saiisfciia c ccria dc una
scnicnça favoravcl, scus Ioncns dc cicncia. É
claro quc o pcrsonagcn asiral nao pcrguniaria
por indivíduos c×ccpcionais, nas procuraria a
rcgra, o iipo gcncrico ºIoncn dc cicncia", cunc
da Iunanidadc curopcia.
Pois lcn. o Ioncn dc cicncia aiual c o
proioiipo do Ioncn-nassa. E nao por
casualidadc, ncn por dcfciio unipcssoal dc cada
Ioncn dc cicncia, nas porquc a iccnica ncsna
÷ raiz da civilizaçao ÷ o convcric
auionaiicancnic cn Ioncn-nassa; qucro dizcr,
faz dclc un priniiivo, un larlaro nodcrno.
A coisa c nuiio conIccida. fcz-sc consiar
inuncras vczcs; nas, soncnic ariiculada no
organisno dcsic cnsaio, adquirc a plcniiudc dc
scu scniido c a cvidcncia dc sua gravidadc.
A cicncia c×pcrincnial inicia-sc ao finalizar o
scculo XVI (Calilcui, conscguc consiiiuir-sc nos
finais do XVII (Ncwioni c concça a dcscnvolvcr-sc
nos ncados do XVIII. O dcscnvolvincnio dc algo c
coisa difcrcnic dc sua consiiiuiçao c csia
sulnciido a condiçõcs difcrcnics. Assin, a
180
consiiiuiçao da física, nonc colciivo da cicncia
c×pcrincnial, olrigou a un csforço dc unificaçao.
Tal foi a olra dc Ncwion c dcnais Ioncns dc scu
icnpo. Mas o dcscnvolvincnio da física iniciou
una faina dc caraicr oposio à unificaçao para
progrcdir, a cicncia ncccssiiava quc os Ioncns dc
cicncia sc cspccializasscn. Os Ioncns dc cicncia,
nao a cicncia. A cicncia nao c cspccialisia. Ipso
facio dci×aria dc scr vcrdadcira. Ncn scqucr a
cicncia cnpírica, ionada na sua inicgridadc, c
vcrdadcira sc a scparanos da naicnaiica, da
logica, da filosofia. Mas o iralalIo ncla icn dc scr
÷ irrcnissivclncnic ÷ cspccializado.
Scria dc grandc inicrcssc, c naior uiilidadc
quc a aparcnic à princira visia, fazcr una
Iisioria das cicncias físicas c liologicas,
nosirando o proccsso dc crcsccnic cspccializaçao
no iralalIo dos invcsiigadorcs. Isso faria vcr
cono, gcraçao apos gcraçao, o Ioncn dc cicncia
icn sido consirangido, cnccrrado nun canpo dc
ocupaçao iniclcciual cada vcz nais csirciio. Mas
nao c isio o inporianic quc cssa Iisioria nos
cnsinaria, nas jusiancnic o invcrso. cono cn
cada gcraçao o cicniífico, por icr dc rcduzir sua
orliia dc iralalIo, ia progrcssivancnic pcrdcndo
coniaio con as dcnais parics da cicncia, con
una inicrprciaçao inicgral do univcrso, quc c o
unico ncrcccdor dos noncs dc cicncia, culiura,
civilizaçao curopcia.
181
A cspccializaçao concça, prccisancnic, nun
icnpo quc cIana Ioncn civilizado ao Ioncn
ºcnciclopcdico". O scculo XIX inicia scus dcsiinos
sol a dircçao dc criaiuras quc vivcn
cnciclopcdicancnic, cnlora sua produçao icnIa
ja un caraicr dc cspccialisno. Na gcraçao
scguinic, a cquaçao sc dcslocou, c a cspccialidadc
concça a dcsalojar dcniro dc cada Ioncn dc
cicncia a culiura inicgral. Ouando cn 1890 una
icrccira gcraçao assunc o conando iniclcciual da
Europa, cnconirano-nos con un iipo dc
cicniífico scn c×cnplo na Iisioria. É un Ioncn
quc, dc iudo quanio Ia dc salcr para scr un
pcrsonagcn discrcio, conIccc apcnas
dcicrninada cicncia, c ainda dcssa cicncia so
conIccc lcn a pcqucna porçao cn quc clc c aiivo
invcsiigador. CIcga a proclanar cono una
viriudc o nao ionar conIccincnio dc quanio
fiquc fora da csirciia paisagcn quc cspccialncnic
culiiva, c dcnonina dilcianiisno a curiosidadc
pclo conjunio do salcr.
O caso c quc, fccIado na csirciicza dc scu
canpo visual, conscguc, con cfciio, dcscolrir
novos faios c fazcr avançar sua cicncia, quc clc
apcnas conIccc, c con cla a cnciclopcdia do
pcnsancnio, quc conscicnciosancnic
dcsconIccc. Cono foi c c possívcl coisa
scnclIanic? Porquc convcn rcpisar a
c×iravagancia dcsic faio incgavcl. a cicncia
c×pcrincnial progrcdiu cn loa paric ncrcc do
182
iralalIo dc Ioncns falulosancnic ncdíocrcs, c
ncnos quc ncdíocrcs. Oucr dizcr, quc a cicncia
nodcrna, raiz c sínlolo da civilizaçao aiual, dcu
guarida dcniro dc si ao Ioncn iniclcciualncnic
ncdio c lIc pcrniic opcrar con lon c×iio. A
razao disso csia no quc c, ao ncsno icnpo,
vaniagcn naior c pcrigo na×ino da cicncia nova
c dc ioda civilizaçao quc csia dirigc c rcprcscnia.
a nccanizaçao. Una loa paric das coisas quc c
prcciso fazcr cn física c cn liologia c faina
nccanica dc pcnsancnio quc podc scr c×ccuiada
por qualqucr pcssoa. Para os cfciios dc inuncras
invcsiigaçõcs c possívcl dividir a cicncia cn
pcqucnos scgncnios, cnccrrar-sc cn un c
dcsinicrcssar-sc dos dcnais. A firncza c c×aiidao
dos nciodos pcrniicn csia iransiioria c praiica
dcsariiculaçao do salcr. TralalIa-sc con un
dcsscs nciodos cono con una naquina, c ncn
scqucr c forçoso para olicr alundanics
rcsuliados possuir idcias rigorosas solrc o
scniido c fundancnio dclcs. Assin a naior paric
dos cicniíficos propclcn o progrcsso gcral da
cicncia cnccrrados nun nicIo dc scu laloraiorio,
cono a alclIa no scu alvcolo.
Por isso cria una casia dc Ioncns
solrcnodo csiranIos. O invcsiigador quc
dcscolriu un novo faio da Naiurcza icn por
força dc scniir una inprcssao dc donínio c dc
scgurança cn sua pcssoa. Con ccria aparcnic
jusiiça sc considcrara cono ºun Ioncn quc
183
salc". E, con cfciio, nclc sc da un pcdaço dc algo
quc, junio con ouiros pcdaços nao c×isicnics
nclc, consiiiucn vcrdadcirancnic o salcr. Esia c
a siiuaçao íniina do cspccialisia, quc nos
princiros anos dcsic scculo cIcgou à sua nais
frcnciica c×agcraçao. O cspccialisia ºsalc" nuiio
lcn scu nínino rincao dc univcrso; nas ignora
lasicancnic iodo o rcsio.
Eis aqui un prccioso c×cnplar dcsic
csiranIo Ioncn novo quc cu icnici, por una c
ouira dc suas vcricnics c aspccios, dcfinir. Eu
dissc quc cra una configuraçao Iunana scn
igual cn ioda a Iisioria. O cspccialisia scrvc-nos
para concrciizar cncrgicancnic a cspccic c
fazcndo vcr iodo o radicalisno dc sua novidadc.
Porquc ouirora os Ioncns podian dividir-sc,
sinplcsncnic, cn salios c ignoranics, cn nais
ou ncnos salios c nais ou ncnos ignoranics.
Mas o cspccialisia nao podc scr sulnciido a
ncnIuna dcsias duas caicgorias. Nao c un
salio, porquc ignora fornalncnic o quc nao cnira
na sua cspccialidadc; nas ianpouco c un
ignoranic, porquc c ºun Ioncn dc cicncia" c
conIccc nuiio lcn sua porciuncula dc univcrso.
Dcvcnos dizcr quc c un salio ignoranic, coisa
solrcnodo gravc, pois significa quc c un scnIor
quc sc conporiara cn iodas as qucsiõcs quc
ignora, nao cono un ignoranic, nas con ioda a
pciulancia dc qucn na sua qucsiao cspccial c un
salio.
184
E, con cfciio, csic c o conporiancnio do
cspccialisia. En políiica, cn aric, nos usos
sociais, nas ouiras cicncias ionara posiçõcs dc
priniiivo, c ignoraniíssino; nas as ionara con
cncrgia c suficicncia, scn adniiir ÷ c isio c o
parado×al ÷ cspccialisias dcssas coisas. Ao
cspccializa-lo a civilizaçao o iornou Icrnciico c
saiisfciio dcniro dc sua liniiaçao; nas cssa
ncsna scnsaçao íniina dc donínio c valia o
lcvara a qucrcr prcdoninar fora dc sua
cspccialidadc. E a conscqucncia c quc, ainda
ncsic caso, quc rcprcscnia un na×inun dc
Ioncn qualificado ÷ cspccialisno ÷ c, porianio,
o nais oposio ao Ioncn-nassa, o rcsuliado c
quc sc conporiara scn qualificaçao c cono
Ioncn-nassa cn quasc iodas as csfcras da vida.
A advcricncia nao c vaga. Oucn quiscr podc
olscrvar a csiupidcz con quc pcnsan, julgan c
aiuan Iojc na políiica, na aric, na rcligiao c nos
prollcnas gcrais da vida c do nundo os ºIoncns
dc cicncia", c c claro, dcpois dclcs, ncdicos,
cngcnIciros, financisias, profcssorcs, cic. Essa
condiçao dc ºnao ouvir", dc nao sc sulncicr a
insiancias supcriorcs quc rciicradancnic
aprcscnici cono caracicrísiica do Ioncn-nassa,
cIcga ao cunulo ncsscs Ioncns parcialncnic
qualificados. Elcs sinlolizan, c cn grandc paric
consiiiucn o inpcrio aiual das nassas, c sua
larlaric c a causa nais incdiaia da
dcsnoralizaçao curopcia.
185
Por ouira paric, significan o nais claro c
prcciso c×cnplo dc cono a civilizaçao do uliino
scculo alandonada à sua propria inclinaçao,
produziu cssc lroio dc priniiivisno c larlaric.
O rcsuliado nais incdiaio dcssc cspccialisno
nao conpcnsado icn sido quc Iojc, quando Ia
naior nuncro dc ºIoncns dc cicncia" quc nunca,
Iaja nuiio ncnos Ioncns ºculios" quc, por
c×cnplo, cn 1750. E o pior c quc con csscs
pcrdiguciros do forno cicniífico ncn scqucr csia
garaniido o progrcsso íniino da cicncia. Porquc
csia ncccssiia dc icnpo cn icnpo, cono organica
rcgulaçao dc scu proprio incrcncnio, un
iralalIo dc rcconsiiiuiçao, c, cono cu dissc, isso
rcqucr un csforço dc unificaçao, cada vcz nais
difícil, quc cada vcz conplica rcgiõcs nais vasias
do salcr ioial. Ncwion podc criar scu sisicna
físico scn salcr nuiia filosofia, nas Einsicin
prccisou saiurar-sc dc Kani c dc MacI para
podcr cIcgar a sua aguda sínicsc. Kani c MacI ÷
con csics noncs sinloliza-sc so a nassa cnornc
dc pcnsancnios filosoficos c psicologicos quc
influíran cn Einsicin ÷ scrviran para lilcrar a
ncnic dcssc c dci×ar-lIc a via livrc para sua
inovaçao. Mas Einsicin nao c suficicnic. A física
cnira na crisc nais profunda dc sua Iisioria, c so
podcra salva-la una nova cnciclopcdia nais
sisicnaiica quc a princira.
186
O cspccialisno, pois, quc iornou possívcl o
progrcsso da cicncia c×pcrincnial duranic un
scculo, apro×ina-sc a una ciapa cn quc nao
podcra avançar por si ncsno sc nao sc cncarrcga
una gcraçao nclIor dc consiruir-lIc un novo
forno nais podcroso.
Mas sc o cspccialisia dcsconIccc a fisiologia
inicrna da cicncia quc culiiva, nuiio nais
radicalncnic ignora as condiçõcs Iisioricas dc
sua pcrduraçao, isio c, cono dcvcn csiar
organizados a socicdadc c o coraçao do Ioncn,
para quc possa coniinuar Iavcndo
invcsiigadorcs. A dccadcncia dc vocaçao cicniífica
quc sc olscrva ncsics anos ÷ à qual ja aludi ÷ c
un siniona prcocupador para iodo aquclc quc
icnIa una idcia clara do quc c civilizaçao, a idcia
quc soi faliar ao iípico ºIoncn dc cicncia", cunc
dc nossa aiual civilizaçao. Tanlcn clc acrcdiia
quc a civilizaçao csia aí, sinplcsncnic, cono a
crosia icrrcsirc c a sclva prinigcnca.
187

XIII. O MAIOR PERIGO, O ESTADO

Nuna loa ordcnaçao das coisas pullicas, a
nassa c o quc nao aiua por si ncsna. Tal c a sua
nissao. Vcio ao nundo para scr dirigida, influída,
rcprcscniada, organizada ÷ aic para dci×ar dc
scr nassa, ou, pclo ncnos, aspirar a isso ÷. Mas
nao vcio ao nundo para fazcr iudo isso por si.
Ncccssiia rcfcrir sua vida à insiancia supcrior,
consiiiuída pclas ninorias c×cclcnics. Discuia-sc
quanio sc qucira qucn sao os Ioncns c×cclcnics;
nas quc scn clcs ÷ scjan uns ou ouiros ÷ a
Iunanidadc nao c×isiiria no quc icn dc nais
csscncial, c coisa solrc a qual convcn quc nao
Iaja duvida alguna, cnlora lcvc a Europa iodo
un scculo ncicndo a calcça dclai×o da asa, ao
nodo dos csirucios para vcr sc conscguc nao vcr
iao radianic cvidcncia. Porquc nao sc iraia dc
una opiniao fundada cn faios nais ou ncnos
frcqucnics c provavcis, nas nuna lci da ºfísica"
social, nuiio nais inconovívcl quc as lcis da
física dc Ncwion. No dia cn quc volic a inpcrar
na Europa una auicniica filosofia(66i ÷ unica
coisa quc podc salva-la ÷, conprccndcr-sc-a quc
o Ioncn c, icnIa ou nao voniadc disso, un scr
consiiiuiivancnic forçado a procurar una
insiancia supcrior. Sc conscguc por si ncsno
cnconira-la, c quc c un Ioncn c×cclcnic; scnao,
188
c quc c un Ioncn-nassa c ncccssiia rccclc-la
daquclc.
Prcicndcr a nassa aiuar por si ncsna c,
pois, rclclar-sc conira scu proprio dcsiino, c
cono isso c o quc faz agora, falo cu da rclcliao
das nassas. Porquc no final das conias a unica
coisa quc sulsiancialncnic c con vcrdadc podc
cIanar-sc c a quc consisic cn nao acciiar cada
qual scu dcsiino, cn rclclar-sc conira si ncsno.
A rigor, a rclcliao do arcanjo Luzlcl nao o
Iouvcra sido ncnos sc cn vcz dc cnpcnIar-sc
cn scr Dcus ÷ o quc nao cra scu dcsiino ÷ sc
Iouvcssc olsiinado cn scr o nais ínfino dos
anjos, quc ianpouco o cra. (Sc Luzlcl iivcssc sido
russo, cono Tolsioi, icria ialvcz prcfcrido csic
uliino csiilo dc rclcldia, quc nao c nais ncn
ncnos conira Dcus quc o ouiro iao fanosoi.
Ouando a nassa aiua por si ncsna, fa-lo so
dc una nancira, porquc nao icn ouira. lincIa.
Nao c conplciancnic casual quc a lci dc LyncI
scja ancricana, ja quc a Ancrica c dc ccrio nodo
o paraíso das nassas. Ncn nuiio ncnos podcra
csiranIar quc agora, quando as nassas
iriunfan, iriunfc a violcncia c sc faça dcla a unica
raiio, a unica douirina. Ha nuiio icnpo quc cu
fazia noiar csic concrcio da violcncia cono
norna(67i, Hojc cIcgou a scu na×ino
dcscnvolvincnio, c isso c un lon siniona,
porquc significa quc auionaiicancnic vai iniciar-
189
sc scu dcsccnso. Hojc c ja a violcncia a rciorica
do icnpo; os rcioricos, os inancs, a fazcn sua.
Ouando una rcalidadc Iunana cunpriu sua
Iisioria, naufragou c norrcu, as ondas a cospcn
nas cosias da rciorica, ondc, cadavcr, pcrvivc
largancnic. A rciorica c o ccniicrio das
rcalidadcs Iunanas; no nínino, scu Iospiial dc
invalidos. À rcalidadc solrcvivc scu nonc quc,
ainda scndo sua palavra, c, afinal dc conias,
nada ncnos quc palavra c conscrva scnprc algo
dc scu podcr nagico.
Mas ainda quando nao scja inpossívcl quc
icnIa concçado a ninguar o prcsiígio da
violcncia cono norna cinicancnic csialclccida,
coniinuarcnos sol scu rcginc, lcn quc cn ouira
forna.
Fcfiro-nc ao pcrigo naior quc Iojc ancaça a
civilizaçao curopcia. Cono iodos os dcnais
pcrigos quc ancaçan csia civilizaçao, ianlcn
csic nasccu dcla. Mais ainda. consiiiui una dc
suas glorias; c o Esiado conicnporanco.
Enconirano-nos, pois, con una rcplica do quc
no capíiulo anicrior sc dissc solrc a cicncia. a
fccundidadc dc scus princípios a propclcn a un
faluloso progrcsso; nas csic inpõc
inc×oravclncnic a cspccializaçao, c a
cspccializaçao ancaça afogar a cicncia.
A ncsna coisa aconiccc con o Esiado.
190
Fcncnorc-sc o quc cra o Esiado nos fins do
scculo XVIII cn iodas as naçõcs curopcias. Dcn
pouca coisa! O princiro capiialisno c suas
organizaçõcs indusiriais, ondc pcla princira vcz
iriunfa a iccnica, a nova iccnica, a racionalizada,
Iavian produzido un princiro crcscincnio da
socicdadc. Una nova classc social aparcccu, nais
podcrosa cn nuncro c poicncia quc as
prcc×isicnics. a lurgucsia. Esia lurgucsia scn
ncriio possuía, anics dc iudo c solrciudo una
coisa. ialcnio, ialcnio praiico. Salia organizar,
disciplinar, dar coniinuidadc c ariiculaçao ao
csforço. No ncio dcla, cono nun occano,
navcgava ao azar a ºnavc do Esiado". A navc do
Esiado c una nciafora rcinvcniada pcla
lurgucsia, quc sc scniia a si ncsna occanica,
onipoicnic c gravida dc iorncnias. Aqucla navc
cra coisa dc nada ou pouco nais. apcnas iinIa
soldados, apcnas iinIa lurocraias, apcnas iinIa
dinIciro. Havia sido falricada na Idadc Mcdia por
una classc dc Ioncns nuiio difcrcnics dos
lurgucscs. os nolrcs, gcnic adniravcl por sua
coragcn, por scu don dc nando, por scu scniido
dc rcsponsalilidadc. Scn clcs nao c×isiirian as
naçõcs da Europa. Mas con iodas cssas viriudcs
do coraçao, os nolrcs andavan, scnprc
andaran, nal dc calcça. Vivian da ouira vísccra.
Dc inicligcncia nuiio liniiada, scniincniais,
insiiniivos, iniuiiivos; cn suna, ºirracionais". Por
isso nao pudcran dcscnvolvcr ncnIuna iccnica,
191
coisa quc olriga à racionalizaçao. Nao invcniaran
a polvora. Enicdiaran-sc. Incapazcs dc invcniar
novas arnas, dci×aran quc os lurgucscs ÷
ionando-as do Oricnic ou ouiro lugar ÷
uiilizasscn a polvora, c con isso,
auionaiicancnic, ganIaran a laialIa ao
gucrrciro nolrc, ao ºcavalIciro", colcrio
csiupidancnic dc fcrro, quc apcnas podia novcr-
sc na lida, c a qucn nao ocorrcra quc o scgrcdo
cicrno da gucrra nao consisic ianio nos ncios dc
dcfcsa cono nos dc agrcssao (scgrcdo quc
Napolcao rcdcscolririai(68i
Cono o Esiado c una iccnica ÷ dc ordcn
pullica c dc adninisiraçao ÷, o ºaniigo rcginc"
cIcga aos fins do scculo XVIII con un Esiado
fraquíssino, açoiiado dc iodos os lados por una
anpla c rcvolia socicdadc. A dcsproporçao cnirc o
podcr do Esiado c o podcr social c ial ncssc
noncnio, quc conparando a siiuaçao con a
vigcnic cn icnpo dc Carlos Magno, aparccc o
Esiado do scculo XVIII cono una dcgcncraçao. O
Esiado carolíngio cra, csia claro, nuiio ncnos
podcroso quc o dc Luís XVI, nas, cn
conpcnsaçao, a socicdadc quc o rodcava nao
iinIa força ncnIuna(69i. O cnornc dcsnívcl cnirc
a força social c a do podcr pullico iornou possívcl
a Fcvoluçao, as rcvoluçõcs (aic 1848i.
Mas con a Fcvoluçao apossou-sc do Podcr
pullico a lurgucsia c aplicou ao Esiado suas
192
incgavcis viriudcs, c cn pouco nais dc una
gcraçao criou un Esiado podcroso, quc acalou
con as rcvoluçõcs. Dcsdc 1848, qucr dizcr, dcsdc
quc concça a scgunda gcraçao dc govcrnos
lurgucscs nao Ia na Europa vcrdadciras
rcvoluçõcs. E nao ccriancnic porquc nao
Iouvcssc noiivos para clas, nas porquc nao
Iavia ncios. Nivclou-sc o Podcr pullico con o
podcr social. Adcus rcvoluçõcs para scnprc! Ja
nao calc na Europa nais quc o conirario. o golpc
dc Esiado. E iudo quc con posicrioridadc podc
dar-sc arcs dc rcvoluçao, nao foi nais quc un
golpc dc Esiado con nascara.
En nosso icnpo, o Esiado cIcgou a scr
naquina fornidavcl quc funciona
prodigiosancnic, dc una naravilIosa cficicncia
pcla quaniidadc c prccisao dos scus ncios.
Planiada no ncio da socicdadc, lasia iocar u'a
nola para quc aiucn suas cnorncs alavancas c
opcrcn fulninanics solrc qualqucr paric do
corpo social.
O Esiado conicnporanco c o produio nais
visívcl c noiorio da civilizaçao. E c nuiio
inicrcssanic, c rcvclador, prccaiar-sc da aiiiudc
quc anic clc adoia o Ioncn-nassa. Esic o vc,
adnira-o, salc quc csia aí, garaniindo sua vida;
nas nao icn conscicncia dc quc c una criaçao
Iunana invcniada por ccrios Ioncns c naniida
por ccrias viriudcs c por ccrio quc Iouvc onicn
193
nos Ioncns c quc podc cvaporar-sc ananIa. Por
ouira paric, o Ioncn-nassa vc no Esiado un
podcr anónino, c cono clc sc scnic a si ncsno
anónino vulgo ÷, crc quc o Esiado c coisa sua.
Inaginc-sc quc solrcvcn na vida pullica dc un
país qualqucr dificuldadc, confliio ou prollcna. o
Ioncn-nassa icndcra a c×igir quc
incdiaiancnic o assuna o Esiado, quc sc
cncarrcguc dirciancnic dc rcsolvc-lo con scus
giganicscos c inconirasiavcis ncios.
Esic c o naior pcrigo quc Iojc ancaça a
civilizaçao. a csiaiificaçao da vida, o
inicrvcncionisno do Esiado, a alsorçao dc ioda
csponiancidadc social pclo Esiado; qucr dizcr, a
anulaçao da csponiancidadc Iisiorica, quc cn
dcfiniiivo susicnia, nuirc c inpclc os dcsiinos
Iunanos. Ouando a nassa scnic una
dcsvcniura, ou sinplcsncnic algun foric apciiic,
c una grandc icniaçao para cla cssa pcrnancnic
c scgura possililidadc dc conscguir iudo ÷ scn
csforço, luia, duvida ncn risco ÷ apcnas ao
prcnir a nola c fazcr funcionar a poricniosa
naquina. A nassa diz a si ncsna. ºo Esiado sou
cu", o quc c un pcrfciio crro. O Esiado c a nassa
so no scniido cn quc sc podc dizcr dc dois
Ioncns quc sao idcniicos porquc ncnIun dos
dois sc cIana Joao. Esiado conicnporanco c
nassa coincidcn so cn scr anóninos. Mas o caso
c quc o Ioncn-nassa crc, con cfciio, quc clc c o
Esiado, c icndcra cada vcz nais a fazc-lo
194
funcionar a qualqucr prcic×io, a csnagar con clc
ioda ninoria criadora quc o pcriurlc ÷ quc o
pcriurlc cn qualqucr ordcn. cn políiica, cn
idcias, cn indusiria.
O rcsuliado dcsia icndcncia scra faial. A
csponiancidadc social ficara violcniada una vcz c
ouira pcla inicrvcnçao do Esiado; ncnIuna nova
scncnic podcra fruiificar. A socicdadc icra dc
vivcr para o Esiado; o Ioncn, para a naquina do
Covcrno. E cono no final das conias nao c scnao
u'a naquina cuja c×isicncia c nanuicnçao
dcpcndcn da viialidadc circundanic quc a
nanicnIa, o Esiado, dcpois dc sugar a ncdula
da socicdadc, ficara Icciico, csquclciico, norio
con cssa noric fcrrugcnia da naquina, nuiio
nais cadavcrica quc a do organisno vivo.
Esic foi o signo lancniavcl da civilizaçao
aniiga. Nao Ia duvida quc o Esiado inpcrial
criado pclos Julios c os Claudios foi u'a naquina
adniravcl, inconparavclncnic supcrior cono
aricfaio ao vclIo Esiado rcpullicano das fanílias
pairícias. Mas, curiosa coincidcncia, apcnas
cIcgou a scu plcno dcscnvolvincnio, concça a
dccair o corpo social. Ja nos icnpos dos
Anioninos (scculo IIi o Esiado graviia con una
aniiviial suprcnacia solrc a socicdadc. Esia
concça a scr cscravizada, a nao podcr vivcr nais
quc cn scrviço do Esiado. A vida ioda sc
lurocraiiza. Ouc aconiccc? A lurocraiizaçao da
195
vida produz sua dininuiçao alsoluia ÷ cn iodas
as ordcns ÷. A riqucza dininui c as nulIcrcs
parcn pouco. Eniao o Esiado, para sulvcncionar
suas proprias ncccssidadcs, força nais a
lurocraiizaçao da c×isicncia Iunana. Esia
lurocraiizaçao cn scgunda poicncia c a
niliiarizaçao da socicdadc. A urgcncia naior do
Esiado c scu aparaio lclico, scu c×crciio. O
Esiado c, anics dc iudo, produior dc scgurança (a
scgurança dc quc nascc o Ioncn-nassa, nao sc
csqucçai. Por isso c, anics dc iudo, c×crciio. Os
Scvcros, dc origcn africana, niliiarizan o
nundo. Faina va! A niscria auncnia, as nairizcs
sao cada vcz ncnos fccundas. Falian aic
soldados. Dcpois dos Scvcros, o c×crciio icn dc
scr rccruiado cnirc csirangciros.
Advcric-sc qual c o proccsso parado×al c
iragico do csiaiisno? A socicdadc, para vivcr
nclIor, cria, cono un uicnsílio, o Esiado.
Dcpois, o Esiado sc solrcpõc, c a socicdadc icn
dc concçar a vivcr para o Esiado(70i. Mas, no final
das conias, o Esiado sc conpõc ainda dos
Ioncns daqucla socicdadc. Enircianio, csics nao
lasian para susicniar o Esiado c c prcciso
cIanar csirangciros. princiro, dalnaias; dcpois,
gcrnanos. Os csirangciros iornaran-sc donos do
Esiado, c os rcsios da socicdadc, do povo inicial,
icn dc vivcr cscravo dclcs, dc gcnic con a qual
nao icn nada quc vcr. A isso conduz o
inicrvcncionisno do Esiado. o povo sc convcric
196
cn carnc c nassa quc alincnia o ncro aricfaio c
naquina quc c o Esiado. O csquclcio conc a
carnc quc o rodcia. O andainc sc iorna
propriciario c inquilino da casa.
Ouando sc salc disso, solrcssalia un pouco
ouvir quc Mussolini aprcgoa con c×cnplar
pciulancia, cono un prodigioso dcscolrincnio
fciio agora na Iialia, a fornula Tudo pclo Esiado;
nada fora do Esiado; nada conira o Esiado.
Dasiaria isso para dcscolrir no fascisno un
iípico novincnio dc Ioncns-nassa. Mussolini
cnconirou un Esiado adniravclncnic consiruído
÷ nao por clc, nas prccisancnic pclas forças c
idcias quc clc conlaic. pcla dcnocracia lilcral ÷
. Elc sc liniia a usa-lo inconiincnicncnic; c, scn
quc cu nc pcrniia agora julgar os dcialIcs dc
sua olra, c indiscuiívcl quc os rcsuliados oliidos
aic o prcscnic nao podcn scr conparados aos
oliidos na funçao políiica c adninisiraiiva pclo
Esiado lilcral. Sc algo conscguiu, c iao niudo,
pouco visívcl c nada sulsianiivo, quc dificilncnic
cquililra a acunulaçao dc podcrcs anornais quc
lIc conscnicn cnprcgar aqucla naquina cn
forna c×ircna.
O csiaiisno c a forna supcrior quc ionan a
violcncia c a açao dircia consiiiuídas cn nornas.
Airavcs c por ncio do Esiado, naquina anónina,
as nassas aiuan por si ncsnas.
197
As naçõcs curopcias icn dianic dc si una
ciapa dc grandc dificuldadc cn sua vida inicrior,
prollcnas cconónicos, jurídicos c dc ordcn
pullica solrcnodo arduos. Cono nao icncr quc
sol o inpcrio das nassas sc cncarrcguc o Esiado
dc csnagar a indcpcndcncia do indivíduo, do
grupo, c c×iinguir assin dcfiniiivancnic o porvir?
Un c×cnplo concrcio dcsic nccanisno
acIano-lo nun dos fcnóncnos nais alarnanics
dcsics uliinos irinia anos. o auncnio cnornc cn
iodos os paíscs das forças dc Polícia. O
crcscincnio social olrigou iniludivclncnic a isso.
Por nuiio Ialiiual quc nos scja, nao dcvc pcrdcr
scu icrrívcl parado×isno anic nosso cspíriio o
faio dc quc a populaçao dc una grandc urlc
aiual, para caninIar pacificancnic c aicndcr a
scus ncgocios, ncccssiia, scn rcncdio, una
Polícia quc rcgulc a circulaçao. Mas c una
inoccncia das pcssoas dc ºordcn" pcnsar quc
cssas ºforças dc ordcn pullica", criadas para a
ordcn, vao conicniar-sc con inpor scnprc o quc
aquclas quciran. O incviiavcl c quc acalcn por
dcfinir c dccidir clas a ordcn quc vao inpor ÷ c
quc scra, naiuralncnic, o quc lIcs convcnIa.
Convcn quc aprovciicnos o cnscjo dcsia
naicria para fazcr noiar a difcrcnic rcaçao quc
anic una ncccssidadc pullica podc scniir una
ou ouira socicdadc. Ouando, cn 1800, a nova
indusiria concça a criar un iipo dc Ioncn ÷ o
198
olrciro indusirial ÷ nais crininoso quc os
iradicionais, a França aprcssa-sc a criar una
nuncrosa Polícia. En 1810 surgc na Inglaicrra,
pclas ncsnas causas, un auncnio da
crininalidadc, c cniao os inglcscs pcrcclcn dc
quc nao icn Polícia. Covcrnan os conscrvadorcs.
Ouc farao? Criarao una Polícia? Nada disso.
Prcfcrcn agucniar, aic ondc sc possa, o crinc.
ºAs pcssoas confornan-sc cn sc adapiar à
dcsordcn, considcrando-a cono rcsgaic da
lilcrdadc". ºEn Paris ÷ cscrcvc JoIn Willian
Ward ÷ icn una Polícia adniravcl, nas pagan
caro suas vaniagcns. Prcfiro vcr quc cada ircs ou
quairo anos sc dcgola ncia duzia dc Ioncns cn
Faiclifc Foad, a csiar sulnciido a visiias
doniciliarias, à cspionagcn c a iodas as
naquinaçõcs dc FoucIc(71i." Sao duas idcias
difcrcnics do Esiado. O inglcs qucr quc o Esiado
icnIa liniics.
199

SEGUNDA PARTE
QUEM MANDA
NO
MUNDO?
200

XIV. QUEM MANDA NO MUNDO?

A civilizaçao curopcia ÷ icnIo rcpciido una
c ouira vcz ÷ padcccu auionaiicancnic a
rclcliao das nassas. Por scu anvcrso, o faio
dcsia rclcliao aprcscnia un aspccio oiino; ja o
disscnos. a rclcliao das nassas c una c ncsna
coisa con o crcscincnio faluloso quc a vida
Iunana c×pcrincniou cn nosso icnpo. Mas o
rcvcrso do ncsno fcnóncno c ircnclundo;
olIada por cssc lado a rclcliao das nassas c una
c ncsna coisa con a dcsnoralizaçao radical da
Iunanidadc. OlIcnos csia agora dc varios
ponios dc visia.

I

A sulsiancia ou índolc dc una nova cpoca
Iisiorica c rcsulianic dc variaçõcs inicrnas ÷ do
Ioncn c dc scu cspíriio ÷. Enirc csias uliinas,
a nais inporianic, quasc scn duvida, c a
dcslocaçao do podcr. Mas csic iraz consigo una
dcslocaçao do cspíriio.
Por isso, ao aparcccrnos a un icnpo con
anino dc conprccndc-lo, una dc nossas
201
princiras pcrgunias dcvc scr csia. ºOucn nanda
no nundo aiualncnic?" Podcra ocorrcr quc ncsic
noncnio a Iunanidadc csicja dispcrsa cn varios
pcdaços scn conunicaçao cnirc si, quc fornan
nundos inicriorcs c indcpcndcnics. No icnpo dc
Milcíadcs, o nundo ncdiicrranco ignorava a
c×isicncia do nundo c×ircno oricnial. Ncsics
casos icríanos quc csialclcccr nossa pcrgunia.
ºOucn nanda no nundo?" a cada grupo dc
convivcncia. Mas dcsdc o scculo XVI cnirou a
Iunanidadc ioda nun proccsso giganicsco dc
unificaçao, quc cn nossos dias cIcgou a scu
icrnino insupcravcl. Ja nao Ia pcdaço dc
Iunanidadc quc viva à paric ÷ nao Ia ilIas dc
Iunanidadc ÷. Porianio, dcsdc aquclc scculo
podc dizcr-sc quc qucn nanda no nundo c×crcc,
cfciivancnic, scu influ×o auioriiario cn iodo clc.
Essc icn sido o papcl do grupo Ionogcnco
fornado pclos povos curopcus duranic ircs
scculos. A Europa nandava, c sol sua unidadc
dc nando o nundo vivia con un csiilo uniiario,
ou, pclo ncnos, progrcssivancnic unificado.
Essc csiilo dc vida soi dcnoninar-sc ºIdadc
Modcrna", nonc incolor c inc×prcssivo sol o qual
sc oculia csia rcalidadc. cpoca da Icgcnonia
curopcia.
Por ºnando" nao sc cnicndc aqui
prinordialncnic c×crcícios dc podcr naicrial, dc
coaçao física. Porquc aqui aspira-sc a cviiar
202
csiupidczcs, pclo ncnos as nais ordinarias c
palnarcs. Ora lcn. cssa rclaçao csiavcl c nornal
cnirc Ioncns quc sc cIana ºnando" nao
dcscansa nunca na força, nas, pclo conirario,
porquc un Ioncn ou grupo dc Ioncns c×crcc o
nando, icn à sua disposiçao cssc aparaio ou
naquina social quc sc cIana ºforça". Os casos
cn quc à princira visia parccc scr a força o
fundancnio do nando, rcvclan-sc anic una
inspcçao ulicrior cono os nclIorcs c×cnplos
para confirnar aqucla icsc. Napolcao dirigiu à
EspanIa una agrcssao, susicniou csia agrcssao
duranic algun icnpo; nas nao nandou
propriancnic na EspanIa ncn un dia scqucr. E
isso porquc iinIa a força c prccisancnic porquc
so iinIa a força. Convcn disiinguir cnirc un faio
ou proccsso dc agrcssao c una siiuaçao dc
nando. O nando c o c×crcício nornal da
auioridadc. O qual sc funda scnprc na opiniao
pullica ÷ scnprc, Iojc cono Ia dcz nil anos,
cnirc os inglcscs cono cnirc os loiocudos ÷.
Janais algucn nandou na icrra nuirindo scu
nando csscncialncnic dc ouira coisa quc nao
fossc a opiniao pullica.
Ou acrcdiia-sc quc a solcrania da opiniao
pullica foi un invcnio fciio pclo advogado
Danion cn 1789 ou por S. Tonas dc Aquino no
scculo XIII? A noçao dcsia solcrania icra sido
dcscolcria aqui ou ali, ncsia ou naqucla daia;
nas o faio dc quc a opiniao pullica c a força
203
radical quc nas socicdadcs Iunanas produz o
fcnóncno dc nandar, c coisa iao aniiga c pcrcnc
cono o proprio Ioncn. Assin, na física dc
Ncwion a graviiaçao c a força quc produz o
novincnio. E a lci da opiniao pullica c a
graviiaçao univcrsal da Iisioria políiica. Scn cla,
ncn a cicncia Iisiorica scria possívcl. Por isso
nuiio agudancnic insinua Hunc quc o icna da
Iisioria consisic cn dcnonsirar cono a
solcrania da opiniao pullica, longc dc scr una
aspiraçao uiopica, c o quc pcsou scnprc c a ioda
Iora nas socicdadcs Iunanas. Pois aic qucn
prcicndc govcrnar con os janízaros dcpcndc da
opiniao dcsics c da quc icnIan solrc csics os
dcnais Ialiianics.
A vcrdadc c quc nao sc nanda con os
janízaros. Assin, Tallcyrand a Napolcao. ºCon as
laioncias, Sirc, podc-sc fazcr iudo, ncnos una
coisa. scniar-sc solrc clas." E nandar nao c
aiiiudc dc arrclaiar o podcr, nas iranquilo
c×crcício dclc. En suna, nandar c scniar-sc.
Trono, cadcira curul, lanco azul, polirona
ninisicrial, scdc. Conira o quc una oiica
inoccnic c folIciincsca supõc, o nandar nao c
ianio qucsiao dc punIos cono dc nadcgas. O
Esiado c, cn dcfiniiivo, o csiado da opiniao. una
siiuaçao dc cquilílrio, dc csiaiica.
O quc succdc c quc às vczcs a opiniao
pullica nao c×isic. Una socicdadc dividida cn
204
grupos discrcpanics, cuja força dc opiniao fica
rcciprocancnic anulada, nao da lugar a quc sc
consiiiua un nando. E cono a Naiurcza icn
Iorror ao vacuo, cssc oco quc dci×a a força
auscnic dc opiniao pullica cncIc-sc con a força
lruia. En suna, pois, avança csia cono
sulsiiiuia daqucla.
Por isso, sc sc qucr c×prcssar con ioda a
prccisao a lci da opiniao pullica cono lci da
graviiaçao Iisiorica, convcn icr cn conia csscs
casos dc auscncia, c cniao cIcga-sc a una
fornula quc c o conIccido, vcncravcl c vcrídico
lugar conun. nao sc podc nandar conirariando
a opiniao pullica.
Isso nos faz cair na conclusao dc quc nando
significa prcpoicncia dc una opiniao; porianio,
dc un cspíriio; dc quc nando nao c, no final das
conias, ouira coisa scnao podcr cspiriiual. Os
faios Iisioricos confirnan isso
cscrupulosancnic. Todo nando priniiivo icn un
caraicr ºsacro", porquc sc funda no rcligioso, c o
rcligioso c a forna princira sol a qual aparccc
scnprc o quc dcpois vai scr cspíriio, idcia,
opiniao; cn suna, o inaicrial c ulira-físico. Na
Idadc Mcdia sc rcproduz con fornaio naior o
ncsno fcnóncno. O Esiado ou Podcr pullico
princiro quc sc forna na Europa c a Igrcja ÷
con scu caraicr cspccífico c ja noninaiivo dc
ºpodcr cspiriiual" ÷. Da Igrcja aprcndc o Podcr
205
políiico quc clc ianlcn nao c originariancnic
scnao podcr cspiriiual, vigcncia dc ccrias idcias, c
cria-sc o Sacro Fonano Inpcrio. Dcsic nodo
luian dois podcrcs igualncnic cspiriiuais quc,
nao podcndo difcrcnciar-sc na sulsiancia ÷
anlos sao cspíriio ÷, convcn no acordo dc sc
insialar cada un cn un nodo dc icnpo. o
icnporal c o cicrno. Podcr icnporal c podcr
rcligioso sao idcniicancnic cspiriiuais; nas un c
cspíriio do icnpo ÷ opiniao pullica
iniranundana c canlianic ÷, cnquanio o ouiro
c cspíriio dc cicrnidadc ÷ a opiniao dc Dcus, a
quc Dcus icn solrc o Ioncn c scus dcsiinos.
Tanio valc, pois, dizcr. cn ial daia nanda ial
Ioncn, ial povo ou ial grupo Ionogcnco dc
povos, cono dizcr. cn ial daia prcdonina no
nundo ial sisicna dc opiniõcs ÷ idcias,
prcfcrcncias, aspiraçõcs, proposiios.
Cono Ia dc sc cnicndcr csic prcdonínio? A
naior paric dos Ioncns nao icn opiniao, c c
prcciso quc csia lIc vcnIa dc fora a prcssao,
cono cnira o lulrificanic nas naquinas. Por isso
c prcciso quc o cspíriio ÷ scja qual scja ÷ icnIa
podcr c o c×crça, para quc a gcnic quc nao opina
÷ c c a naioria ÷ opinc. Scn opiniõcs, a
convivcncia Iunana scria o caos; ncnos ainda. o
nada Iisiorico. Scn opiniõcs, a vida dos Ioncns
carcccria dc arquiiciura, dc organicidadc. Por
isso, scn un podcr cspiriiual, scn algucn quc
206
nandc, c na ncdida quc isso scja ncccssario,
rcina na Iunanidadc o caos. E paralclancnic,
ioda dcslocaçao dc podcr, ioda nudança dc
inpcranics, c ao ncsno una nudança dc
opiniõcs, c, conscqucnicncnic, nada ncnos quc
una nudança dc graviiaçao Iisiorica.
Volicnos agora ao concço. Duranic varios
scculos nandou no nundo a Europa, un
congloncrado dc povos con un cspíriio afin. Na
Idadc Mcdia nao nandava ningucn no nundo
icnporal. É o quc aconicccu cn iodas as idadcs
ncdias da Iisioria. Por isso rcprcscnian scnprc
un rclaiivo caos c una rclaiiva larlaric, un
dcficii dc opiniao. Sao icnpos cn quc sc ana, sc
odcia, sc anscia, sc rcpugna, c iudo isso cn
grandc cscala. Mas, cn conpcnsaçao, opina-sc
pouco. Tcnpos assin nao carcccn dc dclícias.
Mas nos grandcs icnpos a Iunanidadc vivc da
opiniao, c por isso Ia ordcn. Do ouiro lado da
Idadc Mcdia acIanos novancnic una cpoca cn
quc, cono na Modcrna, nanda algucn, cnlora
solrc una porçao liniiada do nundo. Fona, a
grandc nandona. Ela pós ordcn no Mcdiicrranco
c confinanics.
Ncsias jornadas dc apos-gucrra concça a
dizcr-sc quc a Europa nao nanda nais no
nundo. Advcric-sc ioda a gravidadc dcsic
diagnosiico? Con clc anuncia-sc una dcslocaçao
do podcr. Para ondc sc dirigc? Oucn vai succdcr
207
a Europa no nando do nundo? Mas Ia ncsno
ccricza dc quc algucn vai succdcr à Europa? E sc
nao fossc ningucn, quc aconicccria?

II

A pura vcrdadc c quc no nundo aconiccc a
iodo insianic, c, porianio, agora, infinidadc dc
coisas. A prcicnsao dc dizcr o quc c quc aconiccc
agora no nundo dcvc scr cnicndida, pois, cono
ironizando-sc a si ncsna. Mas assin cono c
inpossívcl conIcccr dirciancnic a plcniiudc do
rcal, nao icnos nais rcncdio scnao consiruir
arliirariancnic una rcalidadc, supor quc as
coisas sao dc ccria nancira. Isio nos proporciona
un csqucna, qucr dizcr, un concciio ou
cnirciccido dc concciios. Con clc, cono airavcs
dc una quadrícula, olIanos dcpois a cfciiva
rcalidadc, c cniao, so cniao, conscguinos una
visao apro×inada dcla. Nisio consisic o nciodo
cicniífico. Mais ainda. nisio consisic iodo uso do
iniclccio. Ouando ao vcr cIcgar nosso anigo pcla
vcrcda do jardin dizcnos. ºEsic c Pcdro",
concicnos dclilcradancnic, ironicancnic, un
crro. Porquc Pcdro significa para nos un
csqucnaiico rcpcriorio dc nodos dc sc conporiar
física c noralncnic ÷ o quc cIananos ºcaraicr"
÷, c a pura vcrdadc c quc nosso anigo Pcdro nao
208
sc parccc, cn ccrios noncnios, cn quasc nada à
idcia ºnosso anigo Pcdro".
Todo concciio, o nais vulgar cono o nais
iccnico, vai incluso na ironia dc si ncsno, nos
cnircdcnics dc un sorriso iranquilo, cono o
gconcirico diananic vai inplíciio na dcniadura
dc ouro dc scu cngasic. Elc diz nuiio scriancnic.
ºEsia coisa c A, c csia ouira coisa c D." Mas c a
sua a scricdadc dc un pincc-sans-rirc. É a
scricdadc insiavcl dc qucn cngoliu una
gargalIada c sc nao apcria lcn os lalios a
voniia. Elc salc nuiio lcn quc ncn csia coisa c
A, assin, à valcniona, ncn a ouira c D, scn
rcscrvas. O quc o concciio pcnsa a rigor c un
pouco ouira coisa quc o quc diz, c ncsia
duplicidadc consisic a ironia. O quc
vcrdadcirancnic pcnsa c isio. cu sci quc, falando
con iodo rigor, csia coisa nao c A, ncn aqucla D;
nas, adniiindo quc sao A c D, cu nc cnicndo
conigo ncsno para os cfciios dc ncu
conporiancnio viial dianic dc una ou dc ouira
coisa.
Esia icoria do conIccincnio da razao
Iouvcra irriiado a un grcgo. Porquc o grcgo
acrcdiiou Iavcr dcscolcrio na razao, no concciio,
a rcalidadc ncsna. Nos, conirariancnic,
acrcdiianos quc a razao, o concciio, c un
insiruncnio doncsiico do Ioncn, quc csic
ncccssiia c usa para csclarcccr sua propria
209
siiuaçao cn ncio da infiniia c arqui-prollcnaiica
rcalidadc quc c sua vida. Vida c luia con as
coisas para susicniar-sc cnirc clas. Os concciios
sao o plano csiraicgico quc nos fornanos para
rcspondcr a scu aiaquc. Por isso, sc sc cscruia
lcn a cniranIa uliina dc qualqucr concciio,
acIa-sc quc nao nos diz nada da coisa ncsna,
nas quc rcsunc o quc un Ioncn podc fazcr
con cssa coisa ou padcccr dcla. Esia opiniao
ia×aiiva, scgundo a qual o conicudo dc iodo
concciio c scnprc viial, c scnprc açao possívcl,
ou padccincnio possívcl dc un Ioncn, nao foi
aic agora, quc cu saila, susicniada por ningucn;
nas c, a ncu juízo, o icrnino indcfcciívcl do
proccsso filosofico quc sc inicia con Kani. Por
isso, sc rcvisanos a sua luz iodo o passado da
filosofia aic Kani, parcccr-nos-a quc no fundo
iodos os filosofos disscran a ncsna coisa. Ora
lcn, iodo dcscolrincnio filosofico nao c nais
quc un dcscolrincnio c un irazcr à supcrfícic o
quc csiava no fundo.
Mas scnclIanic iniroiio c dcsncsurado para
o quc vou dizcr, iao alIcio a prollcnas
filosoficos. Eu ia dizcr sinplcsncnic quc o quc
agora aconiccc no nundo ÷ cnicndc-sc, o
Iisiorico ÷ c c×clusivancnic isio. duranic ircs
scculos a Europa nandou no nundo, c agora a
Europa nao csia convicia dc nandar ncn dc
coniinuar nandando. Fcduzir a fornula iao
sinplcs a infiniiudc dc coisas quc inicgran a
210
rcalidadc Iisiorica aiual, c scn duvida c no
nclIor caso una c×agcraçao, c cu ncccssiiava
por isso rccordar quc pcnsar c, qucira-sc ou nao,
c×agcrar. Oucn prcfira nao c×agcrar dcvc calar-
sc; nais ainda. icn dc paralisar scu iniclccio c
vcr a nancira dc idioiizar-sc.
Crcio, con cfciio, quc c aquilo quc rcalncnic
csia aconicccndo no nundo, c quc iudo o nais c
conscqucncia, condiçao, siniona ou ancdoia
disso.
Eu nao dissc quc a Europa icnIa dci×ado dc
nandar, nas, csiriiancnic, quc ncsics anos a
Europa scnic gravcs duvidas solrc sc nanda ou
nao, solrc sc ananIa nandara. A isio
corrcspondc nos dcnais povos da Tcrra un
csiado dc cspíriio congrucnic. duvidar dc sc
agora sao nandados por algucn. Tanpouco csiao
ccrios disso.
Falou-sc nuiio ncsics anos da dccadcncia da
Europa. Eu suplico fcrvorosancnic quc nao sc
coniinuc concicndo a ingcnuidadc dc pcnsar cn
Spcnglcr sinplcsncnic porquc sc falc da
dccadcncia da Europa ou do Ocidcnic. Anics dc
quc scu livro aparcccra, iodo o nundo falava
disso, c o c×iio dc scu livro dcvcu-sc, cono c
noiorio, a quc ial suspciia ou prcocupaçao
prcc×isiia cn iodas as calcças, con os scniidos c
pclas razõcs nais Icicrogcncas.
211
Falou-sc ianio da dccadcncia curopcia, quc
nuiios cIcgaran a da-la cono un faio. Nao quc
acrcdiiavan a scrio c con cvidcncia nclc, nas
quc sc Ialiiuaran a da-lo cono ccrio, cnlora
nao rccordcn sinccrancnic Iavcr-sc convcncido
rcsoluiancnic disso cn ncnIuna daia
dcicrninada. O rcccnic livro dc Waldo Franl,
Fcdcscolrincnio da Ancrica, apoia-sc
inicgralncnic no suposio dc quc a Europa
agoniza. Nao olsianic, Franl ncn analisa ncn
discuic, ncn faz qucsiao dc iao cnornc faio, quc
lIc vai scrvir dc fornidavcl prcnissa. Scn nais
avcriguaçõcs, paric dclc cono dc algo inconcusso.
E csia ingcnuidadc no ponio dc pariida lasia-nc
para pcnsar quc Franl nao csia convcncido da
dccadcncia da Europa; longc disso, ncn scqucr
lcvaniou ial qucsiao. Tona-a cono un londc. Os
lugarcs conuns sao os londcs do iransporic
iniclcciual.
E cono clc fazcn nuiias pcssoas. Solrciudo,
fazcn-no os povos, povos iniciros.
E una paisagcn dc c×cnplar pucrilidadc a
quc agora ofcrccc o nundo. Na cscola, quando
algucn noiifica quc o ncsirc saiu, a iurla
parvular faz lagunça. Cada un scnic a dclícia dc
cvadir-sc da prcssao quc a prcscnça do ncsirc
inpunIa, dc sacudir os jugos das nornas, dc
ficar dc calcça para lai×o, dc scniir-sc dono do
proprio dcsiino. Mas, cono iirada a norna quc
212
fi×ava as ocupaçõcs c as iarcfas, a iurla parvular
nao icn un afazcr proprio, una ocupaçao
fornal, una iarcfa con scniido, coniinuidadc c
irajcioria, conscqucnicncnic so podc c×ccuiar
una so coisa. a calriola.
É dcploravcl o frívolo cspciaculo quc os povos
ncnorcs ofcrcccn. À visia dc quc, scgundo sc diz,
a Europa dccai c, porianio, dci×a dc nandar,
cada naçao c naçaozinIa lrinca, gcsiicula, fica dc
calcça para lai×o, cnicsa-sc, dando-sc arcs dc
pcssoa naior quc rcgc scus proprios dcsiinos.
Daí o vilriónico panorana dc ºnacionalisnos"
quc sc nos ofcrccc por ioda a paric.
Nos capíiulos anicriorcs icnici filiar un novo
iipo do Ioncn quc Iojc prcdonina no nundo.
cIanci-o Ioncn-nassa, c fiz noiar quc sua
principal caracicrísiica consisic cn quc,
scniindo-sc vulgar, proclana o dirciio à
vulgaridadc c ncga-sc a rcconIcccr insiancias
supcriorcs a clc. Era naiural quc sc cssc nodo dc
scr prcdonina dcniro dc cada povo, o fcnóncno
ianlcn sc produza quando olIanos o conjunio
das naçõcs. Tanlcn Ia, rclaiivancnic, povos-
nassa rcsolvidos a rclclar-sc conira os grandcs
povos criadorcs, ninorias dc csiirpcs Iunanas
quc organizaran a Iisioria. É vcrdadcirancnic
cónico conicnplar cono csia ou a ouira
rcpulliqucia, dcsdc scu pcrdido rincao, sc põc na
213
ponia dos pcs a incrcpar a Europa c dcclarar sua
ccssaçao na Iisioria univcrsal.
Oual c o rcsuliado? A Europa Iavia criado
un sisicna dc nornas cuja cficacia c fcriilidadc
os scculos dcnonsiraran. Esias nornas nao sao,
dc nodo algun, as nclIorcs possívcis. Mas sao,
scn duvida, dcfiniiivas cnquanio nao c×isian ou
sc diviscn ouiras. Para supcra-las c
inprcscindívcl parir ouiras. Ora, os povos-nassa
rcsolvcran dar cono caduco aquclc sisicna dc
nornas quc c a civilizaçao curopcia, nas cono
sao incapazcs dc criar ouiro, nao salcn o quc
fazcr, c para cncIcr o icnpo cnircgan-sc à
calriola.
Esia c a princira conscqucncia quc solrcvcn
quando no nundo dci×a dc nandar algucn. quc
os dcnais, ao rclclar-sc, fican scn iarcfa, scn
prograna dc vida.

III

O cigano foi sc confcssar; nas o padrc,
prccavido, concçou por inicrroga-lo solrc os
nandancnios dc Dcus. Ao quc o cigano
rcspondcu. ºOlIc aqui, scu padrc, cu ia aprcndcr
isso, nas dcpois ouvi un zun-zun dc quc iinIa
pcrdido o valor".
214
Nao c cssa a siiuaçao prcscnic do nundo?
Corrc o zun-zun dc quc nao vigorcn nais os
nandancnios curopcus, c cn visia disso, as
pcssoas ÷ Ioncns c povos ÷ aprovciian a
ocasiao para vivcr scn inpcraiivos. Porquc
c×isiian so os curopcus. Nao sc iraia dc quc ÷
cono ouiras vczcs aconicccu ÷ una gcrninaçao
dc nornas novas sulsiiiui as aniigas c un fcrvor
novíssino alsorva cn scu fogo jovcn os vclIos
cniusiasnos dc ninguanic icnpcraiura. Isso
scria o adniiido. Mais ainda. o vclIo advcn vclIo
nao por sua scncciudc, nas porquc ja csia aí un
princípio novo, quc apcnas con sua novidadc
avaniaja-sc dc rcpcnic ao prcc×isicnic. Sc nao
iivcsscnos filIos, nao scríanos vclIos ou
lcvaríanos nais icnpo a sc-lo. A ncsna coisa
aconiccc con os aricfaios. Un auionovcl
cnvclIccc cn dcz anos nais do quc una
loconoiiva cn vinic, sinplcsncnic porquc os
invcnios da iccnica auionolilísiica icn ocorrido
con nais rapidcz. Esia dcsccndcncia oriunda do
lroio dc novas juvcniudcs c un siniona dc
saudc.
Mas o quc agora aconiccc na Europa c coisa
insalulrc c csiranIa. Os nandancnios curopcus
pcrdcran vigcncia scn quc sc vislunlrcn ouiros
no Iorizonic. A Europa ÷ diz-sc ÷ dci×a dc
nandar, c nao sc vc qucn possa sulsiiiuí-la. Por
Europa cnicndc-sc, anics dc iudo c
propriancnic, a irindadc França, Inglaicrra,
215
AlcnanIa. Na rcgiao do glolo quc clas ocupan
anadurcccu o nodulo dc c×isicncia Iunana
confornc ao qual foi organizado o nundo. Sc,
cono agora sc diz, csscs ircs povos csiao cn
dccadcncia c scu prograna dc vida pcrdcu
validcz, nao c dc csiranIar quc o nundo sc
dcsnoralizc.
E csia c a pura vcrdadc. Todo o nundo ÷
naçõcs, indivíduos ÷ csia dcsnoralizado.
Duranic una icnporada, csia dcsnoralizaçao
divcric c aic vagancnic iludc. Os infcriorcs
pcnsan quc lIcs iiraran un pcso dc cina. Os
dccalogos conscrvan do icnpo cn quc cran
inscriios solrc pcdra ou lronzc scu caraicr dc
pcsadunc. A ciinologia dc nandar significa
carrcgar, pór cn algucn algo nas naos. Oucn
nanda c, scn rcnissao, qucn icn o cncargo. Os
infcriorcs do nundo iniciro ja csiao farios dc quc
os cncarrcgucn c solrccarrcgucn, c aprovciian
con ar fcsiivo csic icnpo dc pcsados inpcraiivos.
Mas a fcsia dura pouco. Scn nandancnios quc
nos olrigucn a vivcr dc un ccrio nodo, fica
nossa vida cn pura disponililidadc. Esia c a
Iorrívcl siiuaçao íniina cn quc sc cnconiran ja
as juvcniudcs nclIorcs do nundo. Dc puro
scniir-sc livrcs, iscnias dc cniravcs, scnicn-sc
vazias. Una vida cn disponililidadc c naior
ncgaçao quc a noric. Porquc vivcr c icr quc fazcr
algo dcicrninado ÷ c cunprir un cncargo ÷, c
na ncdida cn quc iludanos pór cn algo nossa
216
c×isicncia dcsocupanos nossa vida. Dcniro dc
pouco ouvir-sc-a un griio fornidavcl cn iodo o
plancia, quc sulira, cono uivo dc cacs
inuncravcis, aic as csirclas, pcdindo algucn c
algo quc nandc, quc inponIa un afazcr ou
olrigaçao.
Va isio diio para os quc, con inconscicncia
dc crianças, nos anuncian quc a Europa ja nao
nanda. Mandar c dar ocupaçao às gcnics, ncic-
las cn scu dcsiino, cn scu ci×o; inpcdir sua
c×iravagancia, a qual soi scr vacancia, vida vazia,
dcsolaçao.
Nao inporiaria quc a Europa dci×assc dc
nandar sc Iouvcssc algucn capaz dc sulsiiiuí-
la. Mas nao Ia sonlra dc ial. Nova Yorl c
Moscou nao sao nada novo con rcspciio à
Europa. Sao un c ouiro duas parcclas do
nandancnio curopcu quc, ao dissociar-sc do
rcsio, pcrdcran scu scniido. A rigor, causa Iorror
falar dc Nova Yorl c dc Moscou. Porquc nao sc
salc con plcniiudc o quc sao. so sc salc quc
ncn solrc un ncn solrc ouiro sc disscran
palavras dccisivas. Mas ainda scn salcr
plcnancnic o quc sao, alcança-sc o lasianic para
conprccndcr scu caraicr gcncrico. Anlos, con
cfciio, pcricnccn dc cIcio ao quc algunas vczcs
cIanci ºfcnóncnos dc canouflagc Iisiorica". A
canouflagc c, por csscncia, una rcalidadc quc
nao c a quc parccc. Scu aspccio oculia, cn vcz dc
217
dcclarar, sua sulsiancia. Por isso cngana a naior
paric das pcssoas. So sc podc livrar da
cquivocaçao quc produz a canouflagc qucn saila
dc anicnao, c cn gcral, quc a canouflagc c×isic.
A ncsna coisa aconiccc con o cspclIisno. O
concciio corrigc os olIos.
En iodo faio dc canouflagc Iisiorica Ia duas
rcalidadcs quc sc supcrpõcn. una, profunda,
cfciiva, sulsiancial; ouira, aparcnic, acidcnial c
dc supcrfícic. Assin, cn Moscou Ia una pclícula
dc idcias curopcias ÷ o nar×isno ÷ pcnsadas na
Europa cn visia dc rcalidadcs c prollcnas
curopcus. Dclai×o dcla Ia un povo, nao so
difcrcnic cono naicria cinica do curopcu, nas ÷
o quc inporia nuiio nais ÷ dc una idadc
difcrcnic da nossa. Un povo ainda cn fcrncnio;
qucr dizcr, juvcnil. Ouc o nar×isno icnIa
iriunfado na Fussia ÷ ondc nao Ia indusiria ÷
scria a coniradiçao naior quc podia solrcvir ao
nar×isno. Mas nao Ia ial coniradiçao, porquc
nao Ia ial iriunfo. A Fussia c nar×isia
apro×inadancnic cono cran ronanos os
iudcscos do Sacro Inpcrio Fonano. Os povos
novos nao icn idcias. Ouando crcsccn nun
anliio ondc c×isic ou acala dc c×isiir una vclIa
culiura, disfarçan-sc na idcia quc csia lIcs
ofcrccc. Aqui csia a canouflagc c sua razao.
Esquccc-sc ÷ cono noici varias vczcs ÷ quc Ia
dois grandcs iipos dc cvoluçao para un povo. Ha
o povo quc nascc cn un ºnundo" vazio dc ioda
218
civilizaçao. E×cnplo. o cgípcio ou o cIincs. Nun
povo assin, iudo c auiocionc, c suas aiiiudcs
icn un scniido claro c dircio. Mas Ia ouiros
povos quc gcrninan c sc dcscnvolvcn nun
anliio ocupado ja por una culiura dc Iisioria
anosa. Assin Fona, quc crcscc cn plcno
Mcdiicrranco, cujas aguas csiavan inprcgnadas
dc civilizaçao grcco-oricnial. Daqui quc a nciadc
das aiiiudcs ronanas nao scjan suas, nas
aprcndidas. E a aiiiudc aprcndida, rccclida, c
scnprc dupla, c sua vcrdadcira significaçao nao c
dircia, nas ollíqua. Oucn faz un gcsio
aprcndido ÷ por c×cnplo, un vocalulo dc ouiro
idiona ÷ faz por lai×o dclc o scu gcsio, o
auicniico; por c×cnplo, iraduz a sua propria
linguagcn o vocalulo c×oiico. Daí quc para
cnicndcr as canouflagcs scja nisicr ianlcn un
olIar ollíquo. o dc qucn iraduz un ic×io con
un dicionario ao lado. Eu cspcro un livro cn quc
o nar×isno dc Sialin aparcça iraduzido à Iisioria
da Fussia. Porquc isso, o quc icn dc russo, c o
quc icn dc foric, c nao o quc icn dc conunisia.
Va la salcr o quc scra! O unico quc calc afirnar
c quc a Fussia ncccssiia dc scculos ainda para
opiar ao nando. Porquc carccc ainda dc
nandancnios ncccssiiou fingir sua adcsao ao
princípio curopcu dc Mar×. Porquc lIc solra
juvcniudc lasiou-lIc cssa ficçao. O jovcn nao
ncccssiia dc razõcs para vivcr; so ncccssiia dc
prcic×ios.
219
Coisa nuiio scnclIanic aconiccc con Nova
Yorl. Tanlcn c un crro airiluir sua força aiual
aos nandancnios a quc olcdccc. En uliina
insiancia rcduz-sc a csic. a iccnica. Ouc
casualidadc! Ouiro invcnio curopcu, nao
ancricano. A iccnica c invcniada pcla Europa
duranic os scculos XVIII c XIX. Ouc casualidadc!
Os scculos cn quc a Ancrica nascc. E a scrio nos
dizcn quc a csscncia da Ancrica c sua conccpçao
praiicisia c iccnica da vida! En vcz dc nos dizcr.
A Ancrica c, cono scnprc as colónias, una
rcprisiinaçao ou rcjuvcncscincnio dc raças
aniigas, solrciudo da Europa. En viriudc dc
razõcs difcrcnics da Fussia, os Esiados Unidos
significan ianlcn un caso dcssa cspccífica
rcalidadc Iisiorica quc cIananos ºpovo novo".
Supõc-sc quc isso scja una frasc, quando c una
coisa iao cfciiva cono a juvcniudc dc un Ioncn.
A Ancrica c foric por sua juvcniudc, quc sc pós a
scrviço do nandancnio conicnporanco ºiccnica",
cono podia Iavcr-sc posio a scrviço do ludisno
sc csic fossc a ordcn do dia. Mas a Ancrica nao
faz con isso scnao concçar sua Iisioria. Agora
vao concçar suas angusiias, suas disscnçõcs,
scus confliios. Ainda icn dc scr nuiias coisas;
cnirc clas, algunas as nais oposias à iccnica c
ao praiicisno. A Ancrica conia ncnos anos quc a
Fussia. Eu scnprc, con ncdo dc c×agcrar,
susicnici quc cra un povo priniiivo canuflado
pclos uliinos invcnios(72i. Agora Waldo Franl, cn
220
scu Fcdcscolrincnio da Ancrica, o dcclara
francancnic. A Ancrica ainda nao sofrcu; c
ilusorio pcnsar quc possa possuir as viriudcs do
nando.
Oucn cviic cair na conscqucncia pcssinisia
dc quc ningucn vai nandar, c quc, porianio, o
nundo Iisiorico volia ao caos, icn dc rciroccdcr
ao ponio dc pariida c pcrguniar-sc a scrio. É iao
ccrio cono sc diz quc a Europa csia cn
dccadcncia c rcsignc o nandaio, aldiquc? Nao
scra csia aparcnic dccadcncia a crisc lcnfciiora
quc pcrniia à Europa scr liicralncnic Europa? A
cvidcnic dccadcncia das naçõcs curopcias, nao
cra a priori ncccssaria sc algun dia Iavian dc
scr possívcl os Esiados Unidos da Europa, a
pluralidadc curopcia sulsiiiuída por una fornal
unidadc?

IV

A funçao dc nandar c olcdcccr c a dccisiva
cn ioda socicdadc. Cono andc ncsia iurvaçao a
qucsiao dc qucn nanda c qucn olcdccc, iudo o
nais narcIara inpura c iorpcncnic. Aic a nais
íniina iniinidadc dc cada indivíduo, salvas
gcniais c×ccçõcs, ficara pcriurlada c falsificada.
Sc o Ioncn fossc un scr soliiario quc
221
acidcnialncnic sc acIa iravado cn convivcncia
con ouiros, ialvcz pcrnancccssc iniacio dc iais
rcpcrcussõcs, oriundas dos dcslocancnios c
criscs do inpcrar, do Podcr. Mas, cono c social
cn sua nais clcncniar csiruiura, fica
iransiornado cn sua índolc privada por nuiaçõcs
quc a rigor so afcian incdiaiancnic à
colciividadc. Daí quc sc ionanos à paric un
indivíduo c o analisanos, calc coligir scn nais
dados cono anda cn scu país a conscicncia dc
nando c olcdicncia.
Fora inicrcssanic c aic uiil sulncicr a csic
c×anc o caraicr individual do cspanIol ncdio. A
opcraçao scria, nao olsianic, cnfadonIa, c,
cnlora uiil, dcprincnic; por isso a cviio. Mas
faria vcr a cnornc dosc dc dcsnoralizaçao íniina,
dc acanalIancnio quc no Ioncn ncdio do nosso
país produz o faio dc scr a EspanIa una naçao
quc vivc Ia scculos con una conscicncia suja na
qucsiao dc nando c olcdicncia. O
acanalIancnio nao c ouira coisa scnao a
acciiaçao cono csiado Ialiiual c consiiiuído dc
una irrcgularidadc, dc algo quc cnquanio sc
acciia coniinua parcccndo indcvido. Cono nao c
possívcl convcricr cn sa nornalidadc o quc cn
sua csscncia c crininoso c anornal, o indivíduo
opia por adapiar-sc ao indcvido, fazcndo-sc
ioialncnic Ionogcnco con o crinc ou
irrcgularidadc quc arrasia. En un nccanisno
parccido ao quc o adagio popular cnuncia quando
222
diz. ºUna ncniira faz ccnio". Todas as naçõcs
airavcssaran jornadas cn quc aspirou a nandar
solrc clas qucn nao dcvia nandar; nas un foric
insiinio lIcs fcz conccnirar ao ponio suas
cncrgias c c×pclir aqucla irrcgular prcicnsao dc
nando. FccIaçaran a irrcgularidadc iransiioria c
rcconsiiiuíran assin sua noral pullica. Mas o
cspanIol fcz o conirario. cn vcz dc opor-sc a scr
inpcrado por qucn sua íniina conscicncia
rccIaçava, prcfcriu falsificar iodo o rcsio dc scu
scr para o aconodar àqucla fraudc inicial.
Enquanio isso pcrsisiir cn nosso país, c vao
cspcrar nada dos Ioncns dc nossa raça. Nao
podc icr vigor clasiico para a difícil faina dc
susicniar-sc con dccoro na Iisioria una
socicdadc cujo Esiado, cujo inpcrio ou nando, c
consiiiuiivancnic fraudulcnio.
Nao Ia, pois, nada dc csiranIo cn quc
lasiassc una ligcira duvida, una sinplcs
vacilaçao solrc qucn nanda no nundo, para quc
iodo o nundo ÷ cn sua vida pullica c cn sua
vida privada ÷ Iaja concçado a dcsnoralizar-sc.
A vida Iunana, por sua naiurcza propria,
icn dc csiar posia cn algo, cn una cnprcsa
gloriosa ou Iunildc, cn un dcsiino ilusirc ou
irivial. Traia-sc dc una condiçao csiranIa, nas
inc×oravcl, inscriia cn nossa c×isicncia. Por un
lado, vivcr c algo quc cada qual faz por si c para
si. Por ouiro lado, sc cssa vida ninIa, quc so a
223
nin nc inporia, nao c cnircguc por nin a algo,
caninIara dcsvcncilIada, scn icnsao c scn
ºforna". Esics anos assisiinos ao giganicsco
cspciaculo dc inuncravcis vidas Iunanas quc
narcIan pcrdidas no lalirinio dc si ncsnas por
nao icr a quc sc cnircgar. Todos os inpcraiivos,
iodas as ordcns ficaran cn suspcnso. Parccc quc
a siiuaçao dcvia scr idcal, pois cada vida fica cn
alsoluia franquia para fazcr o quc lIc dcr na
voniadc, para vagar a si ncsna. Succdc o ncsno
a cada povo. A Europa afrou×ou sua prcssao
solrc o nundo. Mas o rcsuliado foi conirario ao
quc sc podcria cspcrar. Livrada a si ncsna, cada
vida fica scn si ncsna, vazia, scn icr o quc
fazcr. E cono Ia dc sc cncIcr con algo, invcnia-
sc ou fingc frivolancnic a si ncsna, dcdica-sc a
falsas ocupaçõcs, quc nada íniino, sinccro,
inpõc. Hojc c una coisa, ananIa, ouira, oposia
à princira. Esia pcrdida ao cnconirar-sc so
consigo. O cgoísno c laliríniico. Conprccndc-sc.
Vivcr c ir arrojado para alguna dircçao, c
caninIar para una ncia. A ncia nao c o ncu
caninIar, nao c a ninIa vida; c algo a quc ponIo
csia c quc por isso ncsno csia fora dcla, nais
alcn. Sc rcsolvo andar so por dcniro dc ninIa
vida, cgoisiicancnic, nao avanço, nao vou a paric
alguna; dou volias c nais volias cn un ncsno
lugar. Isio c o lalirinio, un caninIo quc nao lcva
a nada, quc sc pcrdc cn si ncsno, dc ianio nao
scr nais quc caninIar por dcniro dc si.
224
Dcpois da gucrra, o curopcu fccIou-sc cn
scu inicrior, ficou scn cnprcsa para si c para os
dcnais. Por isso coniinuanos Iisioricancnic
cono Ia dcz anos.
Nao sc nanda cn scco. O nando consisic cn
una prcssao quc sc c×crcc solrc os dcnais. Mas
nao consisic so nisso. Sc fossc isio so, scria
violcncia. Nao sc csqucça quc nandar icn duplo
cfciio. nanda-sc cn algucn, nas nanda-sc-lIc
algo. E o quc sc lIc nanda c, no final das conias,
quc pariicipc cn una cnprcsa, cn un grandc
dcsiino Iisiorico. Por isso nao Ia inpcrio scn
prograna dc vida, prccisancnic scn un plano dc
vida inpcrial. Cono diz o vcrso dc ScIillcr.
Ouando os rcis consirocn, os carrciros
icn o quc fazcr.
Nao convcn, pois, cnlarcar na opiniao irivial
quc crc vcr na aiuaçao dos grandcs povos ÷
cono dos Ioncns ÷ una inspiraçao purancnic
cgoísia. Nao c iao facil cono sc crc scr puro
cgoísia, c ningucn, scndo-o, iriunfou janais. O
cgoísno aparcnic dos grandcs povos c dos
grandcs Ioncns c a durcza incviiavcl con quc sc
dcvc conporiar qucn icn sua vida posia cn una
cnprcsa. Ouando dc vcrdadc sc vai fazcr algo c
nos cnircganos a un projcio, nao sc nos podc
pcdir quc csicjanos cn disponililidadc para
aicndcr aos iranscunics c quc nos dcdiqucnos a
225
pcqucnos aliruísnos ocasionais. Una das coisas
quc nais cncanian os viajanics quando cruzan a
EspanIa c quc sc pcrgunian a algucn na rua
ondc fica una praça ou cdifício, con frcqucncia o
pcrguniado dci×a o caninIo quc lcva c
gcncrosancnic sc sacrifica pclo csiranIo,
conduzindo-o ao lugar quc a csic inicrcssa. Eu
nao ncgo quc possa Iavcr ncsia índolc do lon
ccliilcro algun faior dc gcncrosidadc, c nc alcgro
quc o csirangciro inicrprcic assin sua conduia.
Mas nunca ao ouvi-lo ou lc-lo pudc rcprinir csic
rcccio. c quc o conpairioia pcrguniado ia dc faio
a alguna paric? Porquc podcria ocorrcr nuiio
lcn quc, cn nuiios casos, o cspanIol nao csia
fazcndo nada, nao icn projcio ncn nissao, pclo
conirario, sai à vida para vcr sc as dos ouiros
cncIcn un pouco a sua. En nuiios casos
consia-nc quc ncus conpairioias sacn à rua
para vcr sc cnconiran algun forasiciro a qucn
aconpanIar.
Cravc c quc csia duvida solrc o nando do
nundo, c×crcido aic agora pcla Europa, icnIa
dcsnoralizado o rcsio dos povos, salvo aquclcs
quc por sua juvcniudc csiao ainda cn sua prc-
Iisioria. Mas c nuiio nais gravc quc csic
picicncncni sur placc cIcguc a dcsnoralizar por
conplcio o curopcu ncsno. Nao pcnso assin
porquc cu scja curopcu ou coisa parccida. Nao c
quc diga. sc o curopcu nao Ia dc nandar no
fuiuro pro×ino, nao nc inicrcssa a vida do
226
nundo. Nada nc inporiaria a ccssaçao do
nando curopcu sc c×isiissc Iojc ouiro grupo dc
povos capaz dc sulsiiiui-lo no Podcr c na dircçao
do plancia. Mas ncn scqucr isso pcdiria.
Acciiaria quc nao nandassc ningucn, sc isso nao
irou×cssc consigo a volaiilizaçao dc iodas as
viriudcs c dc iodos os doics do Ioncn curopcu.
Ora lcn, isso c irrcnissívcl. Sc o curopcu sc
Ialiiua a nao nandar, lasiarao gcraçao c ncia
para quc o vclIo coniincnic, c airas dclc o nundo
iodo, caía na incrcia noral, na csicrilidadc
iniclcciual c na larlaric onnínoda. So a ilusao
do inpcrio c a disciplina dc rcsponsalilidadc quc
cla inspira podcn nanicr cn icnsao as alnas do
Ocidcnic. A cicncia, a aric, a iccnica c iudo o
nais vivcn da ainosfcra iónica quc cria a
conscicncia dc nando. Sc falia csia, o curopcu sc
ira cnvilcccndo. Ja nao icrao as ncnics cssa fc
radical cn si ncsnas quc as lança cncrgicas,
audazcs, icnazcs, à capiura dc grandcs idcias,
novas cn ioda ordcn. O curopcu sc fara
dcfiniiivancnic coiidiano. Incapaz dc csforço
criador c lu×uoso, rccaira scnprc no onicn, no
Ialiio, na roiina. Tornar-sc-a vulgar, fornulisia,
oco, cono os grcgos da dccadcncia c cono os dc
ioda a Iisioria lizaniina.
A vida criadora supõc un rcginc dc alia
Iigicnc, dc grandc dccoro, dc consianics
csiínulos, quc c×ciian a conscicncia da
227
dignidadc. A vida criadora c vida cncrgica, c csia
so c possívcl cn una dcsias siiuaçõcs. ou scndo
qucn nanda ou acIando-sc alojado cn un
nundo ondc nanda algucn a qucn
rcconIcccnos plcno dirciio para ial funçao; ou
nando ou olcdcço. Mas olcdcccr nao c agucniar
÷ agucniar c cnvilcccr-sc ÷ nas, pclo conirario,
csiinar qucn nanda c aconpanIa-lo,
solidarizando-sc con clc, siiuando-sc con fcrvor
sol o drapcjar dc sua landcira.

V

Convcn quc agora rciroccdanos ao ponio dc
pariida dcsics ariigos. ao faio, iao curioso, dc quc
no nundo sc falc csics anos ianio solrc a
dccadcncia da Europa. Ja c surprccndcnic o
dcialIc dc quc csia dccadcncia nao icnIa sido
noiada princirancnic pclos csiranIos, nas quc o
dcscolrincnio dcla sc dcva aos curopcus
ncsnos. Ouando ningucn, fora do vclIo
coniincnic, pcnsava nisso, ocorrcu a alguns
Ioncns da AlcnanIa, da Inglaicrra, da França,
csia sugcsiiva idcia. Nao scra quc concçanos a
dccair? A idcia icvc loa Inprcnsa, c Iojc iodo o
nundo fala da dccadcncia curopcia cono dc una
rcalidadc inconcussa.
228
Mas dcicndc ao quc a cnunciar con un lcvc
gcsio c pcrguniai-lIc cn quc fcnóncnos
concrcios c cvidcnics funda scu diagnosiico.
Proniancnic vcrcis a pcssoa fazcr vagos
adcnancs c praiicar cssa agiiaçao dc lraços para
a roiundidadc do univcrso quc c caracicrísiica dc
iodo naufrago. Nao salc, con cfciio, a quc sc
agarrar. A unica coisa quc scn grandcs prccisõcs
aparccc quando sc qucr dcfinir a aiual
dccadcncia curopcia, c o conjunio dc dificuldadcs
cconónicas quc cnconira Iojc dianic dc cada
una das naçõcs curopcias. Mas quando sc vai
prccisar un pouco o caraicr dcssas dificuldadcs,
advcric-sc quc ncnIuna dclas afcia scriancnic o
podcr dc criaçao da riqucza c quc o vclIo
coniincnic passou por una crisc nuiio nais
gravc ncsia ordcn.
É quc, porvcniura, o alcnao ou o inglcs nao
sc scnicn Iojc capazcs dc produzir nais c
nclIor quc nunca? En nodo algun, c inporia
nuiio filiar o csiado dc cspíriio dcssc alcnao ou
dcssc inglcs ncsia dincnsao do cconónico. Pois o
curioso c, prccisancnic, quc a dcprcssao
indiscuiívcl dc scus aninos nao provcn dc quc sc
sinian pouco capazcs, nas pclo conirario, dc quc
scniindo-sc con nais poicncialidadc do quc
nunca, iropcccn con ccrias larrciras faiais quc
os inpcdcn dc rcalizar o quc nuiio lcn
podcrian. Essas froniciras faiais da ccononia
aiual alcna, inglcsa, franccsa, sao as froniciras
229
políiicas dos Esiados rcspcciivos. A dificuldadc
auicniica nao radica, pois, ncsic ou no ouiro
prollcna cconónico quc csicja lcvaniado, nas
cn quc na forna da vida pullica cn quc sc
Iavian dc novcr as capacidadcs cconónicas c
incongrucnic cono o iananIo dcsias. A ncu vcr,
a scnsaçao dc ncnoscalo, dc inpoicncia quc
alruna incgavclncnic csics anos à viialidadc
curopcia, nuirc-sc dcssa dcsproporçao cnirc o
iananIo da poicncialidadc curopcia aiual c o
fornaio da organizaçao políiica cn quc icn dc
aiuar. O arranco para rcsolvcr as gravcs qucsiõcs
urgcnics c iao vigoroso cono quando nais o
icnIa sido; nas iropcça no ncsno insianic con
as rcduzidas jaulas cn quc csia alojado, con as
pcqucnas naçõcs cn quc aic agora vivia
organizada a Europa. O pcssinisno, o dcsanino
quc Iojc pcsa solrc a alna coniincnial parccc-nc
nuiio ao da avc dc asa larga quc ao laicr os
rcnígios sc fcrc conira as gradcs da jaula.
A prova disso c quc a conlinaçao sc rcpcic
cn iodas as dcnais ordcns, cujos faiorcs sao cn
aparcncia iao difcrcnics do cconónico. Por
c×cnplo, na vida iniclcciual. Todo lon
iniclcciual da AlcnanIa, da Inglaicrra ou da
França scnic-sc Iojc afogado nos liniics dc sua
naçao, scnic sua nacionalidadc cono una
liniiaçao alsoluia. O profcssor alcnao ja viu
claro quc c alsurdo o csiilo dc produçao a quc o
olriga scu pullico incdiaio dc profcssorcs
230
alcnacs, c scnic falia da supcrior lilcrdadc dc
c×prcssao quc dcsfruian o cscriior franccs ou o
cnsaísia inglcs. Vicc-vcrsa, o Ioncn dc lciras
parisicnsc concça a conprccndcr quc csia
csgoiada a iradiçao dc nandarinisno liicrario, dc
vcrlal fornalisno, a quc o condcna sua
provcnicncia franccsa, c prcfcriria, conscrvando
as nclIorcs qualidadcs dcssa iradiçao, inicgra-la
con algunas viriudcs do profcssor alcnao.
Na ordcn da políiica inicrior aconiccc a
ncsna coisa. Nao sc analisou ainda a fundo a
csiranIíssina qucsiao dc por quc anda iao cn
agonia a vida políiica dc iodas as grandcs naçõcs.
Diz-sc quc as insiiiuiçõcs dcnocraiicas caíran
cn dcsprcsiígio. Mas isso c jusiancnic o quc
conviria c×plicar. Porquc c un dcsprcsiígio
csiranIo. Fala-sc nal do Parlancnio cn ioda a
paric; nas nao sc vc quc cn ncn una das quc
conian sc inicnic sua sulsiiiuiçao, ncn scqucr
quc c×isian pcrfis uiopicos dc ouiras fornas dc
Esiado quc, ao ncnos idcalncnic, parcçan
prcfcrívcis. Nao Ia, pois, quc crcr nuiio na
auicniicidadc dcsic aparcnic dcsprcsiígio. Nao
sao as insiiiuiçõcs, cn quanio insiruncnio dc
vida pullica, as quc vao nal na Europa, nas as
iarcfas cn quc cnprcga-las. Falian progranas
dc iananIo congrucnic con as dincnsõcs
cfciivas quc a vida cIcgou a icr dcniro dc cada
indivíduo curopcu.
231
Ha aqui un crro dc oiica quc convcn corrigir
dc una vcz para scnprc, porquc cnfara cscuiar
as incpcias quc a ioda Iora sc diz, por c×cnplo, a
proposiio do Parlancnio. E×isic ioda una scric
dc oljcçõcs validas ao nodo dc conduzir-sc os
Parlancnios iradicionais; nas sc sc ionan una
a una, vc-sc quc ncn una dclas pcrniic a
conclusao dc quc dcvc suprinir-sc o Parlancnio,
nas, pclo conirario, iodas lcvan por via dircia c
cvidcnic à ncccssidadc dc rcforna-lo. Ora lcn. o
nclIor quc Iunanancnic podc dizcr-sc dc algo c
quc ncccssiia scr rcfornado, porquc isso inplica
quc c inprcscindívcl c quc c capaz dc nova vida.
O auionovcl aiual saiu das oljcçõcs quc sc
opuscran ao auionovcl dc 1910. Mas a
dcscsiina vulgar cn quc caiu o Parlancnio nao
proccdc dcssas oljcçõcs. Fala-sc, por c×cnplo,
quc nao c cficaz. Nos dcvcnos cniao pcrguniar.
Para quc nao c cficaz? Porquc a cficacia c a
viriudc quc un uicnsílio icn para produzir una
finalidadc. Ncsic caso a finalidadc scria a soluçao
dos prollcnas pullicos cn cada naçao. Por isso
c×iginos dc qucn proclana a incficacia dos
Parlancnios quc clc possua una idcia clara dc
qual c a soluçao dos prollcnas pullicos aiuais.
Porquc do conirario, sc cn ncnIun país csia
Iojc claro, ncn ainda icoricancnic, cn quc
consisic o quc Ia quc fazcr, nao icn scniido
acusar dc incficacia os insiruncnios
insiiiucionais. Mais valia rccordar quc janais
232
insiiiuiçao alguna criou na Iisioria Esiados nais
fornidavcis, nais cficicnics quc os Esiados
parlancniarcs do scculo XIX. O faio c iao
indiscuiívcl quc csquccc-lo dcnonsira franca
csiupidcz. Nao sc confunda, pois, a possililidadc
c a urgcncia dc rcfornar profundancnic as
Asscnllcias lcgislaiivas, para fazc-las ºainda
nais" cficazcs, con dcclarar sua inuiilidadc.
O dcsprcsiígio dos Parlancnios nao icn nada
quc vcr con scus noiorios dcfciios. Proccdc dc
ouira causa, alIcia dc iodo a clcs no quc diz
rcspciio a uicnsílios políiicos. Proccdc dc quc o
curopcu nao salc cn quc cnprcga-los, dc quc
nao csiina as finalidadcs da vida pullica
iradicional; cn suna, dc quc nao scnic ilusao
pclos Esiados nacionais cn quc csia inscriio c
prisionciro. Sc sc olIa con un pouco dc cuidado
cssc fanoso dcsprcsiígio, o quc sc vc c quc o
cidadao, na naior paric dos paíscs, nao scnic
rcspciio a scu Esiado. scria inuiil sulsiiiuir o
dcialIc dc suas insiiiuiçõcs, porquc o
irrcspciiavcl nao sao csias, nas o Esiado ncsno,
quc sc ananicou.
Pcla princira vcz, ao iropcçar o curopcu cn
scus projcios cconónicos, políiicos, iniclcciuais,
con os liniics dc sua naçao, scnic quc aquclcs ÷
qucr dizcr, suas possililidadcs dc vida, scu csiilo
viial ÷ sao inconcnsuravcis con o iananIo do
corpo colciivo cn quc csia cnccrrado. E cniao
233
dcscolriu quc scr inglcs, alcnao ou franccs c scr
provinciano. Dcparou-sc, pois, con quc c
ºncnos" quc anics, porquc anics o inglcs, o
franccs c o alcnao acrcdiiavan, cada qual por si,
quc cran o univcrso. Esic c, parccc-nc, a
auicniica origcn dcssa inprcssao dc dccadcncia
quc acIaca o curopcu. Porianio, una origcn
purancnic íniina c parado×al, ja quc a
prcsunçao dc Iavcr ninguado nascc
prccisancnic dc quc crcsccu sua capacidadc c
iropcça con una organizaçao aniiga, dcniro da
qual ja nao calc.
Para dar ao diio un apoio plasiico quc o
susicnic, ionc-sc qualqucr aiividadc concrcia.
por c×cnplo, a falricaçao dc auionovcis. O
auionovcl c invcnio purancnic curopcu.
Enircianio, Iojc c supcrior a falricaçao noric-
ancricana dcssc aricfaio. Conscqucncia. o
auionovcl curopcu csia cn dccadcncia. Todavia,
o falricanic curopcu ÷ indusirial c iccnico ÷ dc
auionovcis salc nuiio lcn quc a supcrioridadc
do produio ancricano nao proccdc dc ncnIuna
viriudc cspccífica usufruída pclo Ioncn dc
uliranar, nas apcnasncnic dc quc a falrica
ancricana podc ofcrcccr scu produio scn
dificuldadc alguna a ccnio c vinic nilIõcs dc
Ioncns. Inaginc-sc quc una falrica curopcia
vissc anic si una arca ncrcaniil fornada por
iodos os Esiados curopcus c suas colónias c scus
proiciorados. Ningucn duvida dc quc cssc
234
auionovcl prcvisio para quinIcnios ou scisccnios
nilIõcs dc Ioncns scria nuiio nclIor c nais
laraio quc o ºFord". Todas as graças pcculiarcs
da iccnica ancricana sao quasc posiiivancnic
cfciios c nao causas da anpliiudc c
Ionogcncidadc dc scu ncrcado. A
ºracionalizaçao" da indusiria c conscqucncia
auionaiica dc scu iananIo.
A siiuaçao auicniica da Europa viria,
porianio, a scr csia. scu nagnífico c longo
passado a faz cIcgar a un novo csiadio dc vida
ondc iudo crcsccu; nas às vczcs as csiruiuras
solrcvivcnics dcssc passado sao anas c inpcdcn
a aiual c×pansao. A Europa fcz-sc cn forna dc
pcqucnas naçõcs. En ccrio nodo, a idcia c o
scniincnio nacionais foran sua invcnçao nais
caracicrísiica. E agora vc-sc olrigada a supcrar-
sc a si ncsna. É csic o csqucna do drana
cnornc quc sc rcprcscniara nos anos vindouros.
Salcra lilcriar-sc dc solrcvivcncias, ou ficara
prisioncira para scnprc dclas? Porquc ja ocorrcu
una vcz na Iisioria quc una grandc civilizaçao
norrcu por nao podcr sulsiiiuir sua idcia
iradicional dc Esiado...

VI

235
Conici cn ouiro lugar a pai×ao c noric do
nundo grcco-ronano, c quanio a ccrios
porncnorcs, rcporio-nc ao quc ali dissc(73i. Mas
agora podcnos considcrar o assunio dcsdc ouiro
aspccio.
Crcgos c laiinos aparcccn na Iisioria
alojados, cono alclIas cn sua colncia, dcniro dc
urlcs, dc polcis. Esic c un faio quc ncsias
paginas ncccssiianos ionar cono alsoluio c dc
gcncsc nisicriosa; un faio dc quc Ia quc pariir
ial cono o zoologo paric do dado lruio c
inc×plicado dc quc o spIc× vivc soliiario,
crralundo, pcrcgrino, ao passo quc a alclIa
vcrnclIa so c×isic cn cn×anc consiruior dc
favos(74i. O caso c quc a cscavaçao c a arqucologia
nos pcrniicn vcr algo do quc Iavia no solo dc
Aicnas c no dc Fona anics dc quc Aicnas c Fona
c×isiisscn. Mas o iransiio dcsia prc-Iisioria,
purancnic rural c scn caraicr cspccífico, ao
lroiar da cidadc, fruia dc nova cspccic quc da o
solo dc anlas as pcnínsulas, fica arcano; ncn
scqucr csia claro o nc×o cinico cnirc aquclcs
povos proio-Iisioricos c cssas csiranIas
conunidadcs, quc aporian ao rcpcriorio Iunano
una grandc inovaçao. a dc consiruir una praça
pullica c cn iorno una cidadc fccIada ao
canpo. Porquc, con cfciio, a dcfiniçao nais ccria
do quc c a urlc c a polis parccc-sc nuiio con a
quc conicancnic sc da do canIao. rodcia-sc o
local dc un poço con aranc nuiio apcriado c
236
icn-sc un canIao. O ncsno aconiccc con a
urlc ou polis quc concça por scr un luraco. o
foro, o agora; c iudo o nais c prcic×io para
asscgurar cssc luraco, para dcliniiar scu
coniorno. A polis nao c prinordialncnic un
conjunio dc casas Ialiiavcis, nas un lugar dc
ajuniancnio civil, un cspaço dcnarcado para
funçõcs pullicas. A urlc nao csia fciia, cono a
calana ou o donus, para proicgcr-sc da
inicnpcric c cngcndrar, quc sao nisicrcs
privados c faniliarcs, nas para discuiir solrc a
coisa pullica. Noic-sc quc isio significa nada
ncnos quc a invcnçao dc una nova classc dc
cspaço, nuiio nais nova quc o cspaço dc
Einsicin. Aic cniao so c×isiia un cspaço. o
canpo, c nclc sc vivia con iodas as
conscqucncias quc isso iraz para o scr do
Ioncn. O Ioncn canpcsino c iodavia un
vcgcial. Sua c×isicncia, quanio pcnsa, scnic c
qucr conscrva a nodorra inconscicnic cn quc
vivc a plania. As grandcs civilizaçõcs asiaiicas c
africanas foran ncsic scniido grandcs vcgciaçõcs
aniroponorfas. Mas o grcco-ronano dccidc
scparar-sc do canpo, da ºnaiurcza", do cosnos
gcoloianico. Cono c isso possívcl? Cono podc o
Ioncn sulirair-sc ao canpo? Ondc ira, sc o
canpo c ioda a icrra, sc c o iliniiado? Muiio
sinplcs. liniiando un pcdaço dc canpo ncdianic
uns nuros quc oponIan o cspaço incluso c finiio
ao cspaço anorfo c scn fin. Eis aqui a praça.
237
Nao c, cono a casa, un ºinicrior" fccIado por
cina, igual às covas quc c×isicn no canpo, nas
quc c pura c sinplcsncnic a ncgaçao do canpo.
A praça, ncrcc dos nuros quc a lalizan, c un
pcdaço dc canpo quc volia cosias ao rcsio, quc
prcscindc do rcsio c sc opõc a clc. Esic canpo
ncnor c rclcldc, quc praiica sccçao do canpo
infiniio c sc rcscrva a si ncsno dianic dclc, c
canpo alolido, c, porianio, un cspaço sui
gcncris, novíssino, cn quc o Ioncn sc lilcria dc
ioda conunidadc con a plania c o aninal, dci×a
csics fora c cria un anliio à paric purancnic
Iunano. É o cspaço civil. Por isso Socraics, o
grandc urlano, iríplicc c×iraio do suno quc
rcssuna a polis, dira. ºEu nao icnIo nada quc
vcr con as arvorcs no canpo; cu so icnIo qucr
vcr con os Ioncns na cidadc". Ouc soulcran
disso janais o Iindu, o pcrsa, ncn o cIincs, ncn
o cgípcio?
Aic Alc×andrc c Ccsar, rcspcciivancnic, a
Iisioria da Crccia c dc Fona consisic na luia
inccssanic cnirc csscs dois cspaços. cnirc a
cidadc racional c o canpo vcgcial, cnirc o jurisia
c o lalrcgo, cnirc o ius c o rus.
Nao sc pcnsc quc csia origcn da urlc c una
pura consiruçao ninIa c quc so lIc corrcspondc
una vcrdadc sinlolica. Con rara insisicncia, no
c×iraio prinario c nais fundo dc sua ncnoria
conscrvan os Ialiianics da cidadc grcco-laiina a
238
lcnlrança dc un synoilisnos. Nao Ia, pois, quc
soliciiar os ic×ios; lasia iraduzi-los. Synoilisnos
c acordo dc ir vivcr junios; porianio,
ajuniancnio, csiriiancnic no duplo scniido físico
c jurídico dcssc vocalulo. A dispcrsao vcgciaiiva
pcla canpina succdc a conccniraçao civil na
cidadc. A urlc c a supcr-casa, a supcraçao da
casa ou ninIo infra-Iunano, a criaçao dc una
cniidadc nais alsiraia c nais alia quc o oilos
faniliar. É a rcpullica, a poliica, quc nao sc
conpõc dc Ioncns c nulIcrcs; nas dc cidadaos.
Una dincnsao nova, irrcduiívcl às prinigcnias c
nais pro×inas ao aninal, ofcrccc-sc ao c×isiir
Iunano, c ncla vao pór os quc anics so cran
Ioncns suas nclIorcs cncrgias. Dcsia nancira
nascc a urlc, dcsdc logo cono Esiado.
En ccrio nodo, ioda a cosia ncdiicrranca
nosirou scnprc una csponianca icndcncia a
csic iipo csiaial. Con nais ou ncnos purcza, o
Noric da África (Cariago ÷ a cidadci rcpcic o
ncsno fcnóncno. Iialia nao saiu aic o scculo XIX
do Esiado-cidadc, c nosso Lcvanic cai cn quanio
podc no canionalisno, quc c un rcssalio daqucla
nilcnaria inspiraçao(75i.
O Esiado-cidadc, pcla rclaiiva pcqucncz dc
scus ingrcdicnics, pcrniic vcr clarancnic o
cspccífico do princípio csiaial. Por una paric, a
palavra ºcsiado" indica quc as forças Iisioricas
conscgucn una conlinaçao dc cquilílrio, dc
239
asscnio. Ncsic scniido significa o conirario do
novincnio Iisiorico. o Esiado c convivcncia
csialilizada, consiiiuída, csiaiica. Mas csic
caraicr dc inolilidadc, dc forna quicia c
dcfinida, oculia, cono iodo cquilílrio, o
dinanisno quc produziu c susicn o Esiado. Faz
csqucccr, cn suna, quc o Esiado consiiiuído c so
o rcsuliado dc un novincnio anicrior dc luia, dc
csforços, quc a clc icndian. Ao Esiado
consiiiuído prcccdc o Esiado consiiiuinic, c csic
c un princípio dc novincnio.
Con isio qucro dizcr quc o Esiado nao c una
forna dc socicdadc quc o Ioncn acIa
prcscnicada, nas quc ncccssiia forja-la
pcnosancnic. Nao c cono a Iorda ou a irilo c
dcnais socicdadcs fundadas na consanguinidadc
quc a Naiurcza sc cncarrcga dc fazcr scn
colaloraçao con o csforço Iunano. Pclo
conirario, o Esiado concça quando o Ioncn sc
afana por fugir da socicdadc naiiva dcniro da
qual o sanguc o inscrcvcu. E qucn diz o sanguc,
diz ianlcn qualqucr ouiro princípio naiural; por
c×cnplo, o idiona. Originariancnic o Esiado
consisic na ncscla dc sangucs c línguas. É
supcraçao dc ioda socicdadc naiural. É ncsiiço c
plurilínguc.
Assin, a cidadc nascc por rcuniao dc povos
divcrsos. Consiroi solrc a Icicrogcncidadc
zoologica una Ionogcncidadc alsiraia dc
240
jurisprudcncia(76i. Esia claro quc a unidadc
jurídica nao c a aspiraçao quc propclc o
novincnio criador do Esiado. O inpulso c nais
sulsianiivo quc iodo dirciio, c o proposiio dc
cnprcsas viiais naiorcs quc as possívcis às
ninusculas socicdadcs consanguíncas. Na gcncsc
dc iodo Esiado vcnos ou cnircvcnos scnprc o
pcrfil dc un grandc cnprcsario.
Sc olscrvanos a siiuaçao Iisiorica quc
prcccdc incdiaiancnic o nascincnio dc un
Esiado, cnconirarcnos scnprc o scguinic
csqucna. varias colciividadcs pcqucnas cuja
csiruiura social csia fciia para quc viva cada qual
dcniro dc si ncsna. A forna social dc cada una
scrvc so para una convivcncia inicrna. Isio
indica quc no passado vivcran cfciivancnic
isoladas, cada una por si c para si, scn nais
coniaios quc os c×ccpcionais con as liníirofcs.
Mas a csic isolancnio cfciivo succdcu dc faio
una convivcncia c×icrna, solrciudo cconónica.
O indivíduo dc cada colciividadc nao vivc ja so
dcsia, nas paric dc sua vida csia iravada con
indivíduos dc ouiras colciividadcs con os quais
concrcia ncrcaniil c iniclcciualncnic. Solrcvcn,
pois, un dcscquilílrio cnirc duas convivcncias. a
inicrna c a c×icrna. A forna social csialclccida ÷
dirciios, ºcosiuncs" c rcligiao ÷ favorccc a
inicrna c dificulia a c×icrna, nais anpla c nova.
Ncsia siiuaçao, o princípio csiaial c o novincnio
quc lcva a aniquilar as fornas sociais dc
241
convivcncia inicrna, sulsiiiuindo-as por una
forna social adcquada à nova convivcncia
c×icrna. Apliquc-sc isio ao noncnio aiual
curopcu, c csias c×prcssõcs alsiraias adquirirao
figura c cor.
Nao Ia criaçao csiaial sc a ncnic dc ccrios
povos nao c capaz dc alandonar a csiruiura
iradicional dc una forna dc convivcncia, c, alcn
disso, dc inaginar ouira nunca sida. Por isso c
auicniica criaçao. O Esiado concça por scr una
olra dc inaginaçao alsoluia. A inaginaçao c o
podcr lilcriador quc o Ioncn icn. Un povo c
capaz dc Esiado na ncdida cn quc saila
inaginar. Daí quc iodos os povos icnIan iido un
liniic cn sua cvoluçao csiaial, prccisancnic o
liniic inposio pcla Naiurcza a sua faniasia.
O grcgo c o ronano, capazcs dc inaginar a
cidadc quc iriunfa da dispcrsao canpcsina,
dciivcran-sc nos nuros urlanos. Houvc qucn
quis lcvar as ncnics grcco-ronanas nais alcn,
qucn icniou lilcria-las da cidadc; nas foi vao
cnpcnIo. A cscuridao inaginaiiva do ronano,
rcprcscniada por Druio, cncarrcgou-sc dc
assassinar Ccsar ÷ a naior faniasia da
aniiguidadc ÷. Inporia-nos nuiio aos curopcus
dc Iojc rccordar csia Iisioria, porquc a nossa
cIcgou ao ncsno capíiulo.

242
VII

Mcnics lucidas, o quc sc cIana ncnics
lucidas, nao Iouvc provavclncnic cn iodo o
nundo aniigo nais quc duas. Tcnísioclcs c
Ccsar; dois políiicos. A coisa c surprccndcnic
porquc, cn gcral, o políiico, incluso o fanoso, c
políiico prccisancnic porquc c iorpc(77i. Houvc,
scn duvida, na Crccia c cn Fona ouiros Ioncns
quc pcnsaran idcias claras solrc nuiias coisas
÷ filosofos, naicnaiicos, naiuralisias ÷. Mas
sua claridadc foi dc ordcn cicniífica; isio c, una
claridadc solrc coisas alsiraias. Todas as coisas
dc quc fala a cicncia, scja cla qual for, sao
alsiraias, c as coisas alsiraias sao scnprc
claras. Dc soric quc a claridadc da cicncia nao
csia ianio na calcça dos quc a fazcn cono nas
coisas dc quc falan. O csscncialncnic confuso,
iniricado, c a rcalidadc viial concrcia, quc c
scnprc unica. Oucn scja capaz dc oricniar-sc
con prccisao ncla; aquclc quc vislunlrc sol o
caos quc aprcscnia ioda siiuaçao viial a anaionia
sccrcia do insianic; cn suna, qucn nao sc pcrca
na vida, cssc c dc vcrdadc una ncnic lucida.
Olscrvai os quc vos rodcian c vcrcis cono
avançan pcrdidos cn sua vida; vao cono
sonanlulos, dcniro dc sua loa ou na soric, scn
icr a nais lcvc suspciia do quc lIcs aconiccc.
Ouvi-los-cis falar cn fornulas ia×aiivas solrc si
243
ncsnos c solrc scu coniorno, o quc indicaria quc
possucn idcias solrc iudo isso. Porcn, sc
analisais supcrficialncnic cssas idcias, noiarcis
quc nao rcflcicn nuiio ncn pouco a rcalidadc a
quc parcccn rcfcrir-sc, c sc aprofundais na
analisc acIarcis quc ncn scqucr prcicndcn
ajusiar-sc a ial rcalidadc. Pclo conirario. o
indivíduo iraia con clas dc inicrccpiar sua
propria visao do rcal, dc sua vida ncsna. Porquc
a vida c inicirancnic un caos ondc a criaiura
csia pcrdida. O Ioncn o suspciia; nas aicrra-o
cnconirar-sc cara a cara con cssa icrrívcl
rcalidadc, c procura oculia-la con un vcu
faniasnagorico ondc iudo csia nuiio claro. Nao
lIc inicrcssa quc suas ºidcias" nao scjan
vcrdadciras; cnprcga-as cono irincIciras para
dcfcndcr-sc dc sua vida, cono cspanialIos para
afugcniar a rcalidadc.
Honcn dc ncnic lucida c aquclc quc sc
lilcria dcssas ºidcias" faniasnagoricas c olIa dc
frcnic a vida, c sc convcncc dc quc iudo ncla c
prollcnaiico, c sc scnic pcrdido. Cono isso c a
pura vcrdadc ÷ a salcr, quc vivcr c scniir-sc
pcrdido ÷, qucn o acciia ja concçou a
cnconirar-sc, ja concçou a dcscolrir sua
auicniica rcalidadc, ja csia no firnc.
Insiiniivancnic, cono o naufrago, luscara algo
para sc agarrar, c cssc olIar iragico, pcrcnpiorio,
alsoluiancnic vcraz porquc sc iraia dc salvar-sc,
lIc faculiara pór ordcn no caos dc sua vida.
244
Esias sao as unicas idcias vcrdadciras; as idcias
dos naufragos. O rcsio c rciorica, posiura, íniina
farsa. Oucn nao sc scnic dc vcrdadc pcrdido
pcrdc-sc inc×oravclncnic; c dizcr, nao sc
cnconira janais, nao iopa nunca con a propria
rcalidadc.
Isio c ccrio cn iodas as ordcns, ainda na
cicncia, nao olsianic scr a cicncia, dc scu, una
fuga da vida (a naior paric dos Ioncns dc
cicncia dcdicaran-sc a cla por icrror a dcfroniar
sua propria vida. Nao sao ncnics claras; daí sua
noioria falia dc jciio anic qualqucr siiuaçao
concrciai. Nossas idcias cicniíficas valcn na
ncdida cn quc nos icnIanos scniido pcrdidos
anic una qucsiao, cn quc icnIanos visio lcn
scu caraicr prollcnaiico c conprccndanos quc
nao podcnos apoiar-nos cn idcias rccclidas, cn
rccciias, cn lcnas ncn vocalulos. Oucn
dcscolrc una nova vcrdadc cicniífica icvc anics
quc iriiurar quasc iudo quc Iavia aprcndido c
cIcga a cssa nova vcrdadc con as naos
sangrcnias por Iavcr jugulado inuncravcis
lugarcs conuns.
A políiica c nuiio nais rcal quc a cicncia,
porquc sc conpõc dc siiuaçõcs unicas cn quc o
Ioncn sc cnconira dc rcpcnic sulncrso, qucira
ou nao qucira. Por isso c o icna quc nos pcrniic
disiinguir nclIor quais as ncnics lucidas c quais
as ncnics roiinciras.
245
Ccsar c o c×cnplo na×ino quc conIcccnos
dc don para cnconirar o pcrfil da rcalidadc
sulsianiiva cn un noncnio dc confusao
pavorosa, cn una Iora das nais caoiicas quc Ia
vivido a Iunanidadc. E cono sc o dcsiino sc
Iouvcssc conprazido cn sullinIar a
c×cnplaridadc, pós a sua dirciia una nagnífica
calcça dc iniclcciual, a dc Cíccro, dcdicada
duranic ioda a sua vida a confundir as coisas.
O c×ccsso dc loa foriuna Iavia dcslocado o
corpo políiico ronano. A cidadc iilcrina, dona da
Iialia, da EspanIa, da Ásia Mcnor, do Oricnic
classico c Iclcnísiico, csiava a ponio dc rclcniar.
Suas insiiiuiçõcs pullicas iinIan una força
nunicipal c cran inscparavcis da urlc, cono as
anadríadas csiao, sol pcna dc consunçao,
adscriias à arvorc quc iuiclan.
A saudc das dcnocracias, quaisqucr quc
scjan scu iipo c scu grau, dcpcndc dc un níscro
dcialIc iccnico. o proccdincnio clciioral. Tudo o
nais c sccundario. Sc o rcginc dc conícios c
accriado, sc sc ajusia à rcalidadc, iudo vai lcn;
sc nao, cnlora o rcsio narcIc oiinancnic, iudo
vai nal. Fona, ao concçar o scculo I anics dc
Crisio, c onipoicnic, rica, nao icn ininigos à sua
frcnic. Enircianio, csia a ponio dc fcncccr porquc
sc olsiina cn conscrvar un rcginc clciioral
csiupido. Un rcginc clciioral c csiupido quando
c falso. Havia quc voiar na cidadc. Ja os cidadaos
246
do canpo nao podian assisiir aos conícios. Mas
nuiio ncnos os quc vivian rcpariidos por iodo o
nundo ronano. Cono as clciçõcs cran
inpossívcis, foi ncccssario falsifica-las, c os
candidaios organizavan pariidas dc caccic ÷
con vcicranos do c×crciio, con ailcias do circo ÷
quc sc cncarrcgavan dc ronpcr as urnas.
Scn o apoio dc auicniico sufragio as
insiiiuiçõcs dcnocraiicas csiao no ar. No ar csiao
as palavras. ºA Fcpullica nao cra nais quc una
palavra". A c×prcssao c dc Ccsar. NcnIuna
nagisiraiura gozava dc auioridadc. Os gcncrais
da csqucrda c da dirciia ÷ Mario c Sila ÷
c×ilian insolcncias cn vazias diiaduras quc nao
lcvavan a nada.
Ccsar nao c×plicou nunca sua políiica,
cnircicvc-sc cn fazc-la. Dava a casualidadc dc
quc cra prccisancnic Ccsar c nao o nanual dc
ccsarisno quc soi vir dcpois. Nao icnos nais
rcncdio, sc qucrcnos cnicndcr aqucla políiica,
quc ionar scus aios c dar-lIcs scu nonc. O
scgrcdo csia cn sua façanIa capiial. a conquisia
das Calias. Para cnprccndc-la icvc dc sc dcclarar
rclcldc anic o Podcr consiiiuído. Por quc?
Consiiiuían o Podcr os rcpullicanos, qucr
dizcr, os conscrvadorcs, os ficis ao Esiado-cidadc.
Sua políiica podc rcsunir-sc cn duas clausulas.
Princira, os iransiornos da vida pullica ronana
247
provccn dc sua c×ccssiva c×pansao. A cidadc nao
podc govcrnar ianias naçõcs. Toda nova
conquisia c un dcliio dc lcsa-rcpullica. Scgunda,
para cviiar a dissoluçao das insiiiuiçõcs c prcciso
un príncipc.
Para nos a palavra ºpríncipc" icn un scniido
quasc oposio ao quc iinIa para un ronano. Esic
cnicndia por ial prccisancnic un cidadao cono
os dcnais, nas quc cra invcsiido dc podcrcs
supcriorcs, a fin dc rcgular o funcionancnio das
insiiiuiçõcs rcpullicanas. Cíccro, cn scus livros
Solrc a Fcpullica, c Salusiio, cn scus ncnoriais
a Ccsar, rcsuncn o pcnsancnio dc iodos os
pullicisias pcdindo un princips civiiaiis, un
rccior rcrun pullicarun, un nodcraior.
A soluçao dc Ccsar c ioialncnic oposia à
conscrvadora. Conprccndc quc para curar as
conscqucncias das anicriorcs conquisias
ronanas nao Iavia nais rcncdio scnao
prosscgui-las acciiando aic o fin iao cncrgico
dcsiino. Solrciudo urgia conquisiar os povos
novos, nais pcrigosos cn un fuiuro nao nuiio
rcnoio quc as naçõcs corrupias do Oricnic. Ccsar
susicniara a ncccssidadc dc ronanizar a fundo
os povos larlaros do Ocidcnic.
Dissc-sc (Spcnglcri quc os grcco-ronanos
cran incapazcs dc scniir o icnpo, dc vcr sua vida
cono una dilaiaçao na icnporalidadc. E×isiian
248
cn un prcscnic poniual. Eu suspciio quc cssc
diagnosiico c crrónco, ou, pclo ncnos, quc
confundc duas coisas. O grcco-ronano padccc dc
una surprccndcnic ccgucira para o fuiuro. Nao o
vc, cono o dalionisia nao vc a cor vcrnclIa. Mas,
cn conpcnsaçao, vivc radicalncnic no prcicriio.
Anics dc fazcr agora algo da un passo airas,
cono Lagariijo ao projciar-sc para naiar; lusca
no passado un nodclo para a siiuaçao prcscnic,
c infornado por aquclc ncrgulIa na aiualidadc,
proicgido c dcfornado pclo cscafandro ilusirc.
Daí quc iodo o scu vivcr c cn ccrio nodo rcvivcr.
Isio c scr arcaizanic c isio o foi quasc scnprc o
aniigo. Mas isso nao c scr inscnsívcl ao icnpo.
Significa sinplcsncnic un cronisno inconplcio,
dcfciiuoso da asa fuiurisia c con Iipcrirofia dc
anianIos. Os curopcus scnprc graviianos cn
dircçao ao fuiuro c scniinos quc c csia a
dincnsao nais sulsiancial do icnpo, o qual,
para nos, concça pclo ºdcpois" c nao pclo ºanics".
Conprccndc-sc, pois, quc ao olIar a vida grcco-
ronana nos parcça anacrónica.
Esia cono nania dc ionar iodo prcscnic con
as pinças dc un c×cnplo prcicriio, iransfcriu-sc
do Ioncn aniigo ao filosofo nodcrno. Tanlcn
clc rcirograda, indaga cn ioda aiualidadc un
prcccdcnic, ao qual dcnonina, con lindo
vocalulo dc cgloga, sua ºfonic". Digo isio porquc
ja os aniigos liografos dc Ccsar sc fccIan à
conprccnsao dcsia cnornc figura supondo quc
249
iraiava dc iniiar Alc×andrc. A cquaçao inpunIa-
sc. sc Alc×andrc nao podia dornir pcnsando nos
laurcis dc Milcíadcs, Ccsar dcvia forçosancnic
sofrcr dc insónia pclos dc Alc×andrc. E assin
succssivancnic. Scnprc o passo airas c o pc dc
Iojc na pcgada dc onicn. O filologo
conicnporanco rcpcrcuic o liografo classico.
Crcr quc Ccsar aspirava a fazcr algo assin
cono o quc fcz Alc×andrc ÷ c isio crcran quasc
iodos os Iisioriadorcs ÷ c rcnunciar
radicalncnic a cnicndc-lo. Ccsar c
apro×inadancnic o conirario dc Alc×andrc. A
idcia dc un rcino univcrsal c o unico quc os
cnparclIa. Mas csia idcia nao c dc Alc×andrc,
nas vcn da Pcrsia. A inagcn dc Alc×andrc icria
cnpurrado Ccsar para o Oricnic, para o
prcsiigioso passado. Sua prcfcrcncia radical pclo
Ocidcnic rcvcla nclIor a voniadc dc coniradizcr o
naccdónio. Mas, ainda nais, nao c un rcino
univcrsal, apcnas, o quc Ccsar sc propõc. Scu
proposiio c nais profundo. Oucr un Inpcrio
ronano quc nao viva dc Fona, nas da pcrifcria,
das províncias, c isso inplica a supcraçao
alsoluia do Esiado-cidadc. Un Esiado ondc os
povos nais divcrsos colalorcn, dc quc iodos sc
sinian solidarios. Nao un ccniro quc nanda c
una pcrifcria quc olcdccc, nas un giganicsco
corpo social, ondc cada clcncnio scja por sua vcz
passivo c aiivo do Esiado. Tal c o Esiado
nodcrno, c csia foi a falulosa aniccipaçao dc scu
250
gcnio fuiurisia. Mas isso supunIa un podcr
c×iraronano, anii-arisiocraia, infiniiancnic
clcvado solrc a oligarquia rcpullicana, solrc scu
príncipc, quc cra so un prinus inicr parcs. Esic
podcr c×ccuior c rcprcscnianic da dcnocracia
univcrsal so podia scr a Monarquia con sua scdc
fora dc Fona.
Fcpullica! Monarquia! Duas palavras quc na
Iisioria irocan consianicncnic dc scniido
auicniico, c quc por isso c prcciso a iodo insianic
iriiurar para ccriificar-sc dc sua cvcniual força.
Scus Ioncns dc confiança, scus
insiruncnios nais incdiaios, nao cran arcaicas
ilusiraçõcs da urlc, nas gcnic nova, provinciais,
pcrsonagcns cncrgicos c cficicnics. Scu
vcrdadciro ninisiro foi Cornclio Dallo, un
Ioncn dc ncgocios gadiiano, un ailaniico, un
ºcolonial".
Mas a aniccipaçao do novo Esiado cra
c×ccssiva. as calcças lcnias do Lacio nao podian
dar lrinco iao grandc. A inagcn da cidadc, con
scu iangívcl naicrialisno, inpcdiu quc os
ronanos ºvisscn" aqucla organizaçao novíssina
do corpo pullico. Cono podian fornar un
Esiado Ioncns quc nao vivian nuna cidadc?
Ouc gcncro dc unidadc cra cssa, iao suiil c iao
nísiica?
251
Fcpiio una vcz nais. a rcalidadc quc
cIananos Esiado nao c a csponianca
convivcncia dc Ioncns quc a consanguinidadc
uniu. O Esiado concça quando sc olriga a
convivcr a grupos naiivancnic scparados. Esia
olrigaçao nao c dcsnuda violcncia, nas quc
supõc un proccsso inciiaiivo, una iarcfa conun
quc sc propõc aos grupos dispcrsos. Anics quc
nada c o Esiado projcio dc un fazcr c prograna
dc colaloraçao. CIana-sc às pcssoas para quc
junias façan algo. O Esiado nao c
consanguinidadc, ncn unidadc linguísiica, ncn
unidadc icrriiorial, ncn coniiguidadc dc
Ialiiaçao. Nao c nada naicrial, incric, dado c
liniiado. É un puro dinanisno ÷ a voniadc do
fazcr algo cn conun ÷, c ncrcc a isso a idcia
csiaial nao csia por ncnIun icrno físico(78i.
Agudíssina a conIccida cnprcsa políiica dc
Saavcdra Fajardo. una flccIa, c dclai×o. ºOu
solc ou dcscc". Isso c o Esiado. Nao una coisa,
nas un novincnio. O Esiado c cn iodo insianic
algo quc vcn dc c vai para. Cono iodo
novincnio, icn un icrninus a quo c un
icrninus ad qucn. Coric-sc por qualqucr Iora a
vida dc un Esiado quc o scja vcrdadcirancnic, c
sc acIara una unidadc dc convivcncia quc
parccc fundada cn ial ou qual airiluio naicrial.
sanguc, idiona, ºfroniciras naiurais". A
inicrprciaçao csiaiica nos lcvara a dizcr. isso c o
Esiado. Mas logo advcriinos quc cssa agrupaçao
252
Iunana csia fazcndo algo conunal.
conquisiando ouiros povos, fundando colónias,
fcdcrando-sc con ouiros Esiados; qucr dizcr, quc
cn ioda Iora csia supcrando o quc parccia
princípio naicrial dc sua unidadc. E o icrninus
ad qucn, c o vcrdadciro Esiado, cuja unidadc
consisic prccisancnic cn supcrar ioda unidadc
dada. Ouando cssc inpulso para o nais alcn
ccssa, o Esiado auionaiicancnic sucunlc, c a
unidadc quc ja c×isiia c parccia fisicancnic
cincniada ÷ raça, idiona, fronicira naiural ÷
nao scrvc dc nada. o Esiado sc dcsagrcga, sc
dispcrsa, sc aioniza.
So cssa duplicidadc dc noncnios no Esiado
÷ a unidadc quc ja c c a nais anpla quc projcia
÷ pcrniic conprccndcr a csscncia do Esiado
nacional. Salido c quc ainda nao sc logrou dizcr
cn quc consisic una naçao, sc danos a csic
vocalulo una accpçao nodcrna. O Esiado-cidadc
cra una idcia nuiio clara, quc sc via con os
olIos da cara. Mas o novo iipo dc unidadc
pullica quc gcrninava cn galos c gcrnanos, a
inspiraçao políiica do Ocidcnic, c coisa nuiio
nais vaga c fugidia. O filologo, o Iisioriador
aiual, quc c dc scu arcaizanic, cnconira-sc anic
csic fornidavcl faio quasc iao pcrplc×o cono
Ccsar c Taciio quando con sua icrninologia
ronana qucrian dizcr o quc cran aquclcs
Esiados incipicnics, iransalpinos c ulira-rcnanos,
ou lcn os cspanIois. CIanan-nos civiias, gcns,
253
naiio, pcrcclcndo quc ncnIun dcsics noncs
coincidc con a coisa(79i. Nao sao civiias, pcla
sinplcs razao dc quc nao sao cidadcs(80i. Mas
ncn scqucr calc indcfinir o icrno c aludir con
clc un icrriiorio dcliniiado. Os povos novos
irocan con suna facilidadc dc iorrao, ou pclo
ncnos anplian c rcduzcn o quc ocupavan.
Tanpouco sao unidadcs cinicas ÷ gcnics,
naiioncs. ÷ Por nuiio longc quc rccorranos, os
novos Esiados aparcccn ja fornados por grupos
dc nacionalidadcs indcpcndcnics. Sao
conlinaçõcs dc sangucs difcrcnics. Ouc c, pois,
una naçao, ja quc nao c ncn conunidadc dc
sanguc, ncn adscriçao a un icrriiorio, ncn coisa
alguna dcsia ordcn?
Cono scnprc aconiccc, ianlcn ncsic caso
una pulcra sulnissao aos faios nos da a cIavc.
Ouc c quc salia aos olIos quando rcpassanos a
cvoluçao dc qualqucr ºnaçao nodcrna" ÷ França,
EspanIa, AlcnanIa? Sinplcsncnic isio. o quc
cn ccria daia parccia consiiiuir a nacionalidadc
aparccc ncgado nuna daia posicrior. Princiro, a
naçao parccc a irilo, c a nao-naçao a irilo dc ao
lado. Dcpois a naçao sc conpõc dc duas irilos,
nais iardc c una conarca c pouco dcpois c ja
iodo un condado ou ducado ou ºrcino". A naçao c
Lcao, nas nao Casicla; dcpois c Lcao c Casicla,
nas nao Aragao. É cvidcnic a prcscnça dc dois
princípios. un, variavcl c scnprc supcrado ÷
irilo, conarca, ducado, ºrcino", con scu idiona
254
ou dialcio ÷; ouiro, pcrnancnic, quc salia
lilcrrino solrc iodos csscs liniics c posiula
cono unidadc o quc aquclc considcrava
prccisancnic cono radical coniraposiçao.
Os filologos ÷ cIano assin aos quc Iojc
prcicndcn dcnoninar-sc ºIisioriadorcs" ÷
praiican o nais dclicioso iruísno quando paricn
do quc agora, ncsia daia fugaz, ncsics dois ou
ircs scculos, sao as naçõcs do Ocidcnic c supõcn
quc Vcrcingciori× ou quc Cid Canpcador qucrian
ja una França dcsic Saini-Malo a Esiraslurgo ÷
prccisancnic ÷ ou una Spania dcsdc Finisicrrc
a Cilraliar. Esics filologos ÷ cono o ingcnuo
dranaiurgo ÷ fazcn quasc scnprc quc scus
Icrois parian para a gucrra dos Trinia Anos.
Para nos c×plicar cono sc fornaran a França c a
EspanIa, supõcn quc a França c a EspanIa
prcc×isiian cono unidadcs no fundo das alnas
franccsas c cspanIolas. Cono sc c×isiisscn
franccscs c cspanIois originariancnic anics dc
quc a França c a EspanIa c×isiisscn! Cono sc o
franccs c o cspanIol nao fosscn sinplcsncnic
coisas quc foran fornadas cn dois nil anos dc
faina!
A vcrdadc pura c quc as naçõcs aiuais sao
apcnas a nanifcsiaçao aiual daquclc princípio
variavcl, condcnado à pcrpciua supcraçao. Essc
princípio nao c agora o sanguc ncn o idiona,
posio quc a conunidadc dc sanguc c dc idiona
255
na França ou na EspanIa foi cfciio, c nao causa,
da unificaçao csiaial; cssc princípio c agora a
ºfronicira naiural".
Esia lcn quc un diplonaia cnprcguc cn
sua csgrina asiuia csic concciio dc froniciras
naiurais, cono uliina raiio dc suas
arguncniaçõcs. Mas un Iisioriador nao podc
cnirincIcirar-sc airas dclc cono sc fossc un
rcduio dcfiniiivo. Ncn c dcfiniiivo, ncn scqucr
suficicnicncnic cspccífico.
Nao sc csqucça qual c, rigorosancnic
proposia, a qucsiao. Traia-sc dc avcriguar quc c o
Esiado nacional ÷ o quc Iojc cosiunanos
cIanar naçao ÷, a difcrcnça dc ouiros iipos dc
Esiado, cono o Esiado-cidadc ou, indo ao ouiro
c×ircno, cono o Inpcrio quc Augusio fundou(81i.
Sc sc qucr fornular o icna dc nodo ainda nais
claro c prcciso, diga-sc assin. Ouc força rcal
produziu cssa convivcncia dc nilIõcs dc Ioncns
sol una solcrania dc Podcr pullico quc
cIananos França, ou Inglaicrra, ou EspanIa, ou
Iialia, ou AlcnanIa? Nao foi a prcvia conunidadc
dc sanguc, porquc cada un dcsscs corpos
colciivos csia rcgado por iorrcnics crucnias
nuiio Icicrogcncas. Nao foi ianpouco a unidadc
linguísiica, porquc os povos Iojc rcunidos cn un
Esiado falavan ou falan ainda idionas
difcrcnics. A rclaiiva Ionogcncidadc dc raça c
língua dc quc Iojc gozan ÷ supondo quc isso
256
scja un gozo ÷ c rcsuliado da prcvia unificaçao
políiica. Porianio, ncn o sanguc ncn o idiona
fazcn o Esiado nacional; pclo conirario, c o
Esiado nacional qucn nivcla as difcrcnças
originarias dc glolulo vcrnclIo c son ariiculado.
E scnprc aconicccu assin. Poucas vczcs, para
nao dizcr nunca, icra o Esiado coincidido con
una idcniidadc prcvia dc sanguc ou idiona. Ncn
a EspanIa c Iojc un Esiado nacional porquc sc
falc cn ioda cla o cspanIol(82i, ncn foran
Esiados nacionais Aragao c CaialunIa porquc cn
ccrio dia, arliirariancnic cscolIido, coincidisscn
os liniics icrriioriais dc sua solcrania con os da
fala aragoncsa ou caiala. Esiaríanos nais
pro×inos da vcrdadc sc, rcspciiando a casuísiica
quc ioda rcalidadc ofcrccc, nos inclinasscnos a
csia prcsunçao. ioda unidadc linguísiica quc
alarca un icrriiorio dc alguna c×icnsao c quasc
ccriancnic prccipiiado dc alguna unificaçao
políiica prcccdcnic(83i. O Esiado icn sido scnprc
o grandc iurginao.
Ha nuiio icnpo quc isio consia, c c nuiio
csiranIa a olsiinaçao con quc, cnircianio, sc
pcrsisic cn dar à nacionalidadc cono
fundancnios o sanguc c o idiona. Nisso cu vcjo
iania ingraiidao cono incongrucncia. Porquc o
franccs dcvc sua França aiual, c o cspanIol sua
aiual EspanIa, a un princípio X, cujo inpulso
consisiiu prccisancnic cn supcrar a csirciia
conunidadc dc sanguc c dc idiona. Dc soric quc
257
a França c a EspanIa consisiirian Iojc no
conirario do quc as iornou possívcis.
Igual icrgivcrsaçao concic-sc ao qucrcr
fundar a idcia dc naçao nuna grandc figura
icrriiorial, dcscolrindo o princípio dc unidadc,
quc sanguc c idiona nao proporcionan, no
nisiicisno gcografico das ºfroniciras naiurais".
Tropcçanos aqui con o ncsno crro dc oiica . O
acaso da daia aiual nosira-nos as cIanadas
naçõcs insialadas cn anplos iorrõcs do
coniincnic ou nas ilIas adjaccnics. Dcsscs
liniics aiuais qucr fazcr-sc algo dcfiniiivo c
cspiriiual. Sao, dizcn, ºfroniciras naiurais", c
con sua ºnaiuralidadc" significa-sc una cono
nagica prcdcicrninaçao da Iisioria pcla via
iclurica. Mas csic niio volaiiliza-sc
incdiaiancnic sulncicndo-o ao ncsno
raciocínio quc invalidou a conunidadc dc sanguc
c dc idiona cono fonics da naçao. Tanlcn aqui,
sc rciroccdcnos alguns scculos, surprccndc-nos
a França c a EspanIa dissociadas cn naçõcs
ncnorcs, con suas incviiavcis ºfroniciras
naiurais". A nonianIa froniciriça scria ncnos
proccr quc o Pirincu ou os Alpcs c larrcira
líquida ncnos caudalosa quc o Fcno, o passo dc
Calais ou o csirciio dc Cilraliar. Mas isso apcnas
dcnonsira quc a ºnaiuralidadc" das froniciras c
ncrancnic rclaiiva. Dcpcndc dos ncios
cconónicos c lclicos da cpoca.
258
A rcalidadc Iisiorica da fanosa ºfronicira
naiural" consisic sinplcsncnic cn scr un
csiorvo à c×pansao do povo A solrc o povo D.
Porquc c un csiorvo ÷ dc convivcncia ou dc
gucrra ÷ para A, c una dcfcsa para D. A idcia dc
ºfronicira naiural" inplica, pois, ingcnuancnic,
cono nais naiural ainda quc a fronicira, a
possililidadc da c×pansao c fusao iliniiada cnirc
os povos. Pclo visio, so un olsiaculo naicrial
lIcs põc un frcio. As froniciras dc onicn c dc
aniconicn nao nos parcccn Iojc fundancnios da
naçao franccsa ou cspanIola, pclo conirario.
csiorvos quc a idcia nacional cnconirou cn scu
proccsso dc unificaçao. Nao olsianic o quc,
qucrcnos airiluir un caraicr dcfiniiivo c
fundancnial às froniciras dc Iojc, apcsar dc quc
os novos ncios dc irafcgo c gucrra anularan sua
cficacia cono csiorvos.
Oual icn sido cniao o papcl das froniciras na
fornaçao das nacionalidadcs, ja quc nao icn sido
o fundancnio posiiivo dcsias? A coisa c clara c
dc suna inporiancia para cnicndcr a auicniica
inspiraçao do Esiado nacional dianic do Esiado-
cidadc. As froniciras scrviran para consolidar cn
cada noncnio a unificaçao políiica ja alcançada.
Nao foran, pois, princípio da naçao, nas ao
conirario. a princípio foran csiorvo, c dcpois,
una vcz alIcada, foran ncio naicrial para
asscgurar a unidadc.
259
Pois lcn. c×aiancnic o ncsno papcl
corrcspondc à raça c à língua. Nao c a
conunidadc naiiva dc una ou ouira o quc
consiiiuiu a naçao, nas ao conirario. o Esiado
nacional cnconirou-sc scnprc, cn scu afa dc
unificaçao, frcnic às nuiias raças c às nuiias
línguas, cono con ouiros ianios csiorvos.
Doninados csics cncrgicancnic, produziu una
rclaiiva unificaçao dc sangucs c idionas quc
scrviu para consolidar a unidadc.
Nao Ia, pois, ouiro rcncdio scnao dcsfazcr a
icrgivcrsaçao iradicional padccidas pcla idcia dc
Esiado nacional c Ialiiuar-sc a considcrar cono
csiorvos prinarios para a nacionalidadc
prccisancnic as ircs coisas cn quc sc acrcdiiava
consisiir. E claro quc ao dcsfazcr una
icrgivcrsaçao scrci cu qucn parcça concic-la
agora.
É prcciso rcsolvcr-sc a procurar o scgrcdo do
Esiado nacional cn sua pcculiar inspiraçao cono
ial Esiado, cn sua políiica ncsna, c nao cn
princípios forasiciros dc caraicr liologico ou
gcografico.
Por quc, afinal das conias, sc acrcdiiou
ncccssario rccorrcr a raça, língua c icrriiorio
naiivos para conprccndcr o faio naravilIoso das
nodcrnas naçõcs? Pura c sinplcsncnic, porquc
ncsias acIanos una iniinidadc c solidaricdadc
260
radical dos indivíduos con o Podcr pullico
dcsconIccidas no Esiado aniigo. En Aicnas c cn
Fona so uns quanios Ioncns cran o Esiado; os
dcnais ÷ cscravos, aliados, provincianos,
colonos ÷ cran apcnas sudiios. Na Inglaicrra, na
França, na EspanIa, ningucn foi nunca so
sudiio do Esiado, nas scnprc pariicipou dclc,
uno con clc. A forna, solrciudo jurídica, dcsia
uniao con c no Esiado, icn sido nuiio difcrcnic
confornc os icnpos. Tcn Iavido grandcs
difcrcnças dc condiçao social c csiaiuio pcssoal,
classcs rclaiivancnic privilcgiadas c classcs
rclaiivancnic posicrgadas; nas, sc sc inicrprcia
a rcalidadc cfciiva da siiuaçao políiica cn cada
cpoca c sc rcvivc scu cspíriio, aparccc cvidcnic
quc iodo indivíduo sc scniia sujciio aiivo do
Esiado, pariicipc c colalorador. Naçao ÷ no
scniido quc csic vocalulo cniic no Ocidcnic dc
Ia nais dc un scculo ÷ significa a ºuniao
Iiposiaiica" do Podcr pullico c a colciividadc por
clc rcgida.
O Esiado c scnprc, qualqucr quc scja sua
forna ÷ priniiiva, aniiga, ncdicval ou nodcrna
÷, o conviic quc un grupo dc Ioncns faz a
ouiros grupos Iunanos para junios c×ccuiar
una cnprcsa. Esia cnprcsa, quaisqucr quc
scjan scus iraniics inicrncdiarios, consisic,
finalncnic, cn organizar ccrio iipo dc vida
conun. Esiado c projcio dc vida, prograna dc
açao ou conduia Iunanos, sao icrnos
261
inscparavcis. As difcrcnics classcs dc Esiado
nasccn das nanciras scgundo as quais o grupo
cnprcsario csialclcça a colaloraçao con os
ouiros. Assin, o Esiado aniigo nao accria nunca
a fundir-sc con os ouiros. Fona nanda c cduca
os iialioias c as províncias, nas nao os clcva a
uniao consigo. Na ncsna urlc nao conscguiu a
fusao políiica dos cidadaos. Nao sc csqucça quc,
duranic a Fcpullica, Fona foi, a rigor, duas
Fonas. o Scnado c o povo. A unificaçao csiaial
nao passou nunca dc ncra ariiculaçao cnirc os
grupos quc pcrnancccran c×icrnos c csiranIos
uns aos ouiros. Por isso o Inpcrio ancaçado nao
podc coniar con o pairioiisno dos ouiros, c icvc
dc sc dcfcndcr c×clusivancnic con scus ncios
lurocraiicos dc adninisiraçao c dc gucrra.
Esia incapacidadc dc iodo grupo grcgo c
ronano para fundir-sc con ouiros provcn dc
causas profundas quc nao convcn pcrscruiar
agora, c quc finalncnic sc rcsuncn cn una. o
Ioncn aniigo inicrprciou a colaloraçao cn quc,
qucira-sc ou nao, o Esiado consisic, dc una
nancira sinplcs, clcncnial c iosca; a salcr.
cono dualidadc dc doninanics c doninados(84i. A
Fona iocava nandar c nao olcdcccr; aos dcnais,
olcdcccr c nao nandar. Dcsia soric, o Esiado sc
naicrializa no ponocriun, no corpo urlano quc
uns nuros dcliniian fisicancnic.
262
Mas os povos novos irazcn una
inicrprciaçao do Esiado ncnos naicrial. Sc clc c
un projcio dc cnprcsa conun, sua rcalidadc c
purancnic dinanica. un fazcr, a conunidadc na
aiuaçao. Scgundo isio, forna paric aiiva do
Esiado, c sujciio políiico, iodo aquclc quc prcsic
adcsao à cnprcsa ÷ raça, sanguc, adscriçao
gcografica, classc social, fican cn scgundo plano.
Nao c a conunidadc anicrior, prcicriia,
iradicional c incnorial ÷ cn suna, faial c
irrcfornavcl ÷ a quc proporciona iíiulo para a
convivcncia políiica, nas a conunidadc fuiura no
cfciivo fazcr. Nao o quc fonos onicn, nas o quc
vanos fazcr ananIa junios, nos rcunc cn
Esiado. Daí a facilidadc con quc a unidadc
políiica lrinca no Ocidcnic solrc iodos os liniics
quc aprisionaran o Esiado aniigo. E c quc o
curopcu, rclaiivancnic ao Iono aniiquus, sc
conporia cono un Ioncn alcrio ao fuiuro, quc
vivc conscicnicncnic insialado nclc c dclc dccidc
sua conduia prcscnic.
Tcndcncia políiica ial avançara
inc×oravclncnic para unificaçõcs cada vcz nais
anplas, scn quc Iaja nada quc cn princípio a
dcicnIa. A capacidadc dc fusao c iliniiada. Nao
so dc un povo con ouiro, nas o quc c nais
caracicrísiico ainda do Esiado nacional. a fusao
dc iodas as classcs sociais dcniro dc cada corpo
políiico. Confornc crcscc a naçao, icrriiorial c
cinicancnic, vai-sc fazcndo nais una a
263
colaloraçao inicrior. O Esiado nacional c cn sua
raiz ncsna dcnocraiico, nun scniido nais
dccisivo quc iodas as difcrcnças nas fornas dc
govcrno.
E curioso noiar quc, ao dcfinir a naçao
fundando-a nuna conunidadc dc prcicriio,
acala-sc scnprc por acciiar cono a nclIor a
fornula dc Fcnan, sinplcsncnic porquc ncla sc
ajunia ao sanguc, o idiona c as iradiçõcs conuns
un airiluio novo, c sc diz quc c un ºplclisciio
coiidiano". Mas, cnicndc-sc lcn o quc csia
c×prcssao significa? Nao podcnos dar-lIc agora
un conicudo dc signo oposio ao quc Fcnan lIc
insufla, c quc c, cnircianio, nuiio nais
vcrdadciro?

VIII

Tcr glorias conuns no passado, una voniadc
conun no prcscnic; Iavcr fciio junios grandcs
coisas, qucrcr fazcr ouiras nais; cis aqui as
condiçõcs csscnciais para scr un povo... No
passado, una Icrança dc glorias c rcnorsos; no
porvir, un ncsno prograna para rcalizar... A
c×isicncia dc una naçao c un plclisciio
coiidiano".
264
Tal c a conIccidíssina scnicnça dc Fcnan.
Cono sc c×plica sua c×ccpcional foriuna? Scn
duvida, pcla graça da noia. Esia idcia dc quc a
naçao consisic nun plclisciio coiidiano opcra
solrc nos cono una lilcraçao. Sanguc, língua c
passado conuns sao princípios csiaiicos, faiais,
rígidos, incrics; sao prisõcs. Sc a naçao
consisiissc nisso c cn nais nada, a naçao scria
una coisa siiuada às nossas cosias, con o quc
nao icríanos nada quc fazcr. A naçao scria algo
quc sc c, nas nao algo quc sc faz. Ncn scqucr
icria scniido dcfcndc-la quando algucn a aiaca.
Oucira-sc ou nao, a vida Iunana c consianic
ocupaçao con algo fuiuro. Dcsdc o insianic aiual
nos ocupanos do quc solrcvcn, Por isso vivcr c
scnprc, scnprc, scn pausa ncn dcscanso, fazcr.
Por quc nao sc rcparou cn quc fazcr, iodo fazcr,
significa rcalizar un fuiuro? Inclusivc quando
nos cnircganos a rccordar. Fazcnos ncnoria
ncsic scgundo para lograr algo no incdiaio, ainda
quc nao scja nais quc o prazcr dc rcvivcr o
passado. Esic nodcsio prazcr soliiario sc nos
aprcscniou Ia pouco cono un fuiuro dcscjavcl;
por isso o fazcnos. Consic, pois. nada icn
scniido para o Ioncn, scnao cn funçao do
porvir(85i.
Sc a naçao consisiissc nao nais quc cn
passado c prcscnic, ningucn sc ocuparia dc
dcfcndc-la conira un aiaquc. Os quc afirnan o
265
conirario sao Iipocriias ou ncniccapios. Mas
aconiccc quc o passado nacional projcia
alicianics ÷ rcais ou inaginarios ÷ no fuiuro.
Parccc-nos dcscjavcl un porvir no qual nossa
naçao coniinuc c×isiindo. Por isso nos
nolilizanos cn sua dcfcsa; nao pclo sanguc,
ncn pclo idiona, ncn pclo conun passado. Ao
dcfcndcr a naçao dcfcndcnos nosso ananIa, nao
nosso onicn.
Isso c o quc rcvcrlcra na frasc dc Fcnan. a
naçao cono c×cclcnic prograna para ananIa. O
plclisciio dccidc un fuiuro. Ouc ncsic caso o
fuiuro consisia nuna pcrduraçao do passado nao
nodifica cn nada a qucsiao; unicancnic rcvcla
quc ianlcn a dcfiniçao dc Fcnan c arcaizanic.
Porianio, o Esiado nacional rcprcscniaria un
princípio csiaial nais pro×ino à pura idcia dc
Esiado quc a aniiga polis ou quc a ºirilo" dos
aralcs, circunscriia pclo sanguc. Dc faio, a idcia
nacional conscrva nao pouco lasiro dc adscriçao
ao passado, ao icrriiorio, à raça; nas por isso
ncsno c surprccndcnic noiar cono ncla iriunfa o
puro princípio dc unificaçao Iunana cn iorno a
un inciianic prograna dc vida. Mais. cu diria quc
cssc lasiro dc prcicriio c cssa rclaiiva liniiaçao
dcniro dc princípios naicriais nao icn sido ncn
sao por conplcio csponiancos nas alnas do
Ocidcnic, nas quc proccdcn da inicrprciaçao
crudiia dada pclo ronaniicisno à idcia dc naçao.
266
Dc Iavcr c×isiido na Idadc Mcdia cssc concciio
oiioccniisia dc nacionalidadc, a Inglaicrra, a
França, a EspanIa, a AlcnanIa, icrian ficado
inc×isicnics(86i. Porquc cssa inicrprciaçao
confundc o quc inpulsa c consiiiui una naçao
con o quc ncrancnic a consolida c conscrva.
Nao c o pairioiisno ÷ diga-sc dc una vcz ÷
qucn fcz as naçõcs. Crcr o conirario c o iruísno
a quc ja aludi c quc o proprio Fcnan adniic cn
sua fanosa dcfiniçao. Sc para quc c×isia una
naçao c prcciso quc un grupo dc Ioncns conic
con un passado conun, cu nc pcrgunio cono
cIanarcnos a cssc ncsno grupo dc Ioncns
cnquanio vivia cn prcscnic isso quc visio Iojc c
un passado. Pclo visio cra forçoso quc cssa
c×isicncia conun fcncccssc, passassc, para quc
pudcsscn dizcr. sonos una naçao. Nao sc
advcric aqui o vício grcnial do filosofo, do
arquivisia, sua oiica profissional quc lIc inpcdc
vcr a rcalidadc quando nao c prcicriia? O filologo
c qucn ncccssiia para scr filologo quc, anics dc
iudo, c×isia un passado; nas a naçao, anics dc
possuir un passado conun, icvc dc criar cssa
conunidadc, c anics dc cria-la icvc dc sonIa-la,
dc qucrc-la, dc projcia-la. E aic quc icnIa o
projcio dc si ncsna para quc a naçao c×isia,
ainda quc nao sc alcancc, ainda quc fracassc a
c×ccuçao, cono aconicccu ianias vczcs.
Falaríanos cn ial caso dc una naçao nalograda
(por c×cnplo, DorgonIai.
267
Con os povos do Ccniro c da Ancrica
Mcridional icn a EspanIa un passado conun,
raça conun, linguagcn conun, c, cnircianio,
nao forna con clcs una naçao. Por quc? Falia so
una coisa, quc, pclo visio, c a csscncial. o fuiuro
conun. A EspanIa nao soulc invcniar un
prograna dc porvir colciivo quc airaíssc csscs
grupos zoologicancnic afins, O plclisciio
fuiurisia foi advcrso à EspanIa, c dc nada
valcran cniao os arquivos, as ncnorias, os
anicpassados, a ºpairia". Ouando Ia aquilo, iudo
isso scrvc dc forças dc consolidaçao; nas iao
soncnic(87i.
Vcjo, pois, no Esiado nacional una csiruiura
Iisiorica dc caraicr plclisciiario. Tudo quc alcn
disso parcça scr, icn un valor iransiiorio c
canlianic, rcprcscnia o conicudo, ou a forna, ou
a consolidaçao quc cn cada noncnio rcqucr o
plclisciio. Fcnan cnconirou a palavra nagica,
quc csioura dc luz. Ela nos pcrniic vislunlrar
caiodicancnic o scgrcdo csscncial dc una naçao,
quc sc conpõc dcsics dois ingrcdicnics. princiro,
un projcio dc convivcncia ioial nuna cnprcsa
conun; scgundo, a adcsao dos Ioncns a cssc
projcio inciiaiivo. Esia adcsao dc iodos cngcndra
a inicrna solidcz quc disiinguc o Esiado nacional
dc iodos os aniigos, nos quais a uniao sc produz
c nanicn por prcssao c×icrna do Esiado solrc os
grupos dísparcs, cnquanio aqui nascc o vigor
csiaial da cocsao csponianca c profunda cnirc os
268
ºsudiios". Na rcalidadc, os sudiios sao ja o Esiado
c nao o podcn scniir ÷ isio c o novo, o
naravilIoso, da nacionalidadc ÷ cono algo
csiranIos a clcs.
Enircianio, Fcnan anula ou quasc scu
accrio, dando ao plclisciio un conicudo
rcirospcciivo, quc sc rcfcrc a una naçao ja fciia,
cuja pcrpciuaçao dccidc. Eu prcfcriria irocar-lIc
o signo c fazc-lo valcr para a naçao in siaiu
nasccndi. Esia c a oiica dccisiva. Porquc, cn
vcrdadc, una naçao nao csia nunca fciia. Nisio
sc difcrcncia dc ouiros iipos dc Esiado. A naçao
csia scnprc ou fazcndo-sc ou dcsfazcndo-sc.
Tcriiun non daiur. Ou csia ganIando adcsõcs ou
csia pcrdcndo-as, confornc scu Esiado
rcprcscnic ou nao no noncnio una cnprcsa
vivaz.
Por isso o nais insiruiivo scria rcconsiruir a
scric dc cnprcsas uniiivas quc succssivancnic
inflanaran os grupos Iunanos do Ocidcnic.
Eniao vcr-sc-ia cono dclas icn vivido os
curopcus, nao so no pullico, nas aic cn sua
c×isicncia nais privada; cono ºircinaran" ou sc
dcsnoralizaran, na ncdida dc quc Iouvcssc ou
nao cnprcsa à visia.
Ouira coisa nosiraria clarancnic cssc
csiudo. As cnprcsas csiaiais dos aniigos, por
isso quc nao inplicavan a adcsao fundcnic dos
269
grupos Iunanos solrc os quais sc icniavan, por
isso quc o Esiado propriancnic ial ficava scnprc
inscriio cn una liniiaçao faial ÷ irilo ou urlc
÷, cran praiicancnic liniiadas. Un povo ÷ o
pcrsa, o naccdónio ou o ronano ÷ podia
sulncicr à unidadc dc solcrania quaisqucr
porçõcs do plancia. Cono a unidadc nao cra
auicniica, inicrna ncn dcfiniiiva, nao csiava
sujciia a ouiras condiçõcs scnao à cficacia lclica
c adninisiraiiva do conquisiador. Mas no
Ocidcnic a unificaçao nacional icvc dc scguir
una scric inc×oravcl dc ciapas. Dcvcria csiranIar
nais o faio dc quc na Europa nao icnIa sido
possívcl ncnIun inpcrio do iananIo quc
alcançaran o pcrsa, o dc Alc×andrc ou o dc
Augusio.
O proccsso criador dc naçõcs icvc scnprc na
Europa csic riino. Princiro noncnio. O pcculiar
insiinio ocidcnial, quc faz scniir o Esiado cono
fusao dc varios povos cn una unidadc dc
convivcncia políiica c noral, concça a aiuar
solrc os grupos nais pro×inos gcografica, cinica
c linguisiicancnic. Nao porquc csia pro×inidadc
fundc a naçao, nas porquc a divcrsidadc cnirc
pro×inos c nais facil dc doninar. Scgundo
noncnio. Pcríodo dc consolidaçao, cn quc sc
scnicn os ouiros povos alcn do novo Esiado
cono csiranIos c nais ou ncnos ininigos. É o
pcríodo cn quc o proccsso nacional iona un
aspccio dc c×clusivisno, dc fccIar-sc cn si
270
ncsno dcniro do Esiado; cn suna, o quc Iojc
dcnoninanos nacionalisno. Mas o faio c quc
cnquanio sc scnic poliiicancnic os ouiros cono
csiranIos c concorrcnics, convivc-sc cconónica,
iniclcciual c noralncnic con clcs. As gucrras
nacionalisias scrvcn para nivclar as difcrcnças
dc iccnica c dc cspíriio. Os ininigos Ialiiuais vao
sc fazcndo Iisioricancnic Ionogcncos(88i. Pouco
a pouco vai sc dcsiacando no Iorizonic a
conscicncia dc quc csics povos ininigos
pcricnccn ao ncsno círculo Iunano quc o nosso
Esiado. Nao olsianic, coniinuanos
considcrando-os cono csiranIos c Iosiis.
Tcrcciro noncnio. O Esiado goza dc plcna
consolidaçao. Eniao surgc a nova cnprcsa. unir-
sc aos povos quc aic cniao cran scus ininigos.
Crcscc a convicçao dc quc sao afins con o nosso
cn noral c inicrcsscs, c quc junios fornanos un
círculo nacional anic ouiros grupos nais
disianics c ainda nais csirangciros. Eis aqui
nadura a nova idcia nacional.
Un c×cnplo csclarcccra o quc icnio dizcr. Soi
afirnar-sc quc cn icnpo do Cid cra ja a EspanIa
÷ Spania ÷ una idcia nacional, c para
supcrfciaçao da icsc acrcsccnia-sc quc scculos
anics ja S. Isidoro falava da ºnac EspanIa". A
ncu vcr, isso c un crro crasso dc pcrspcciiva
Iisiorica. No icnpo do Cid csiava sc concçando a
urdir o Esiado Lcao-Casicla, c csia unidadc lcon-
casicla cra a idcia nacional do icnpo, a idcia
271
poliiicancnic cficaz. Spania, ao conirario, cra
una idcia principalncnic crudiia; cn iodo caso,
una dc ianias idcias fccundas quc dci×ou
scncadas no Ocidcnic o Inpcrio ronano. Os
ºcspanIois" Iavian sc acosiunado a scr
rcunidos por Fona nuna unidadc
adninisiraiiva, nuna dioccsc do Dai×o Inpcrio.
Mas csia noçao gcografico-adninisiraiiva cra
pura rcccpçao, nao íniina inspiraçao, c cn nodo
algun aspiraçao.
Por nuiia rcalidadc quc sc qucira dar a cssa
idcia no scculo XI, rcconIcccr-sc-a quc nao cIcga
scqucr ao vigor c prccisao quc ja icn para os
grcgos do IV a idcia da Hcladc. E, nao olsianic, a
Hcladc nao foi nunca vcrdadcira idcia nacional. A
cfciiva corrcspondcncia Iisiorica scria nclIor
csia. a Hcladc foi para os grcgos do scculo IV, c
Spania para os ºcspanIois" do XI c ainda do XIV,
o quc a Europa foi para os ºcuropcus" no scculo
XIX.
Mosira isio cono as cnprcsas dc unidadc
nacional vao cIcgando à sua Iora do nodo cono
os sons cn una nclodia. A ncra afinidadc dc
onicn icra dc cspcrar aic ananIa para cnirar cn
crupçao dc inspiraçõcs nacionais. Mas, por scu
iurno, c quasc ccrio quc cIcgara sua Iora.
Agora cIcga para os curopcus a sazao cn
quc a Europa podc convcricr-sc cn idcia
272
nacional. E c nuiio ncnos uiopico crcr nisso Iojc
assin cono o Iouvcra sido vaiicinar no scculo XI
a unidadc da EspanIa c da França. O Esiado
nacional do Ocidcnic, quanio nais ficl pcrnancça
a sua auicniica sulsiancia, ianio nais
dirciancnic caninIa para sc dcpurar nun
giganicsco Esiado coniincnial.

IX

Apcnas as naçõcs do Ocidcnic prccncIcn
scu aiual pcrfil surgc cn iorno dclas c sol clas,
cono un fundo, a Europa. E csia a unidadc dc
paisagcn cn quc sc vai novcr dcsdc o
Fcnascincnio, c cssa paisagcn curopcia sao clas
ncsnas, quc scn advcrii-lo concçan ja a
alsirair dc sua lclicosa pluralidadc. França,
Inglaicrra, EspanIa, Iialia, AlcnanIa, pclcjan
cnirc si, fornan ligas coniraposias, dcsfazcn-
nas, rcconpõcn-nas. Mas iudo isso, gucrra cono
paz, c convivcr dc igual para igual, o quc ncn na
paz ncn na gucrra podc nunca fazcr Fona con o
ccliilcro, o galo, o lriianico c o gcrnano. A
Iisioria dcsiacou cn princiro icrno as qucrclas
c, cn gcral, a políiica, quc c o icrrcno nais iardio
para a cspiga da unidadc; nas, cnquanio sc
laialIava nuna glcla, cn ccn sc concrciava
con o ininigo, pcrnuiavan-sc idcias c fornas dc
273
aric c ariigos da fc. Dir-sc-ia quc aquclc fragor dc
laialIas foi so una icla airas da qual ianio nais
icnazncnic iralalIava a pacífica polipcira da
paz, cnircicccndo a vida das naçõcs Iosiis. En
cada nova gcraçao, a Ionogcncidadc das alnas
sc acrcsccniava. Sc sc qucr nais c×aiidao c nais
cauicla, diga-sc dcsic nodo. as alnas franccsas c
inglcsas c cspanIolas cran, sao c scrao iao
difcrcnics cono sc qucira; nas possucn un
ncsno plano ou arquiiciura psicologicos c,
solrciudo, vao adquirindo un conicudo conun.
Fcligiao, cicncia, dirciio, aric, valorcs sociais c
croiicos vao scndo conuns. Ora lcn. cssas sao
as coisas cspiriiuais dc quc sc vivc. A
Ionogcncidadc rcdunda, pois, naior quc sc as
alnas fosscn dc idcniico calilrc.
Sc Iojc fizcsscnos lalanço dc nosso
conicudo ncnial ÷ opiniõcs, nornas, dcscjos,
prcsunçõcs ÷, noiaríanos quc a naior paric dc
iudo isso nao vcn para o franccs dc sua França,
ncn para o cspanIol dc sua EspanIa, nas do
fundo conun curopcu. Hojc, con cfciio, pcsa
nuiio nais cn cada un dc nos o quc icn dc
curopcu quc sua porçao difcrcncial dc franccs,
cspanIol, cic. Sc sc fizcssc a c×pcricncia
inaginaria dc sc rcduzir a vivcr purancnic con o
quc sonos, cono ºnacionais", c cn olra dc ncra
faniasia sc c×iirpassc do Ioncn ncdio franccs
iudo quc usa, pcnsa, scnic, cn viriudc dc
rcccpçao dos ouiros paíscs coniincniais, scniiria
274
icrror. Vcria quc nao lIc cra possívcl vivcr so
disso; quc as quairo quinias parics dc scu Iavcr
íniino sao lcns jaccnics curopcus.
Nao sc vislunlra quc ouira coisa dc nonia
possanos fazcr os quc c×isiinos ncsic lado do
plancia sc nao c rcalizar a proncssa quc Ia
quairo scculos significa o vocalulo Europa. So sc
opõc a isso o prcjuízo das vclIas ºnaçõcs", a idcia
dc naçao cono passado. Agora sc vai vcr sc os
curopcus sao ianlcn filIos da nulIcr dc Loi c
sc olsiinan cn fazcr Iisioria con a calcça
virada para iras. A alusao a Fona, c, cn gcral, ao
Ioncn aniigo, scrviu-nos dc adnocsiaçao; c
nuiio difícil quc ccrio iipo dc Ioncn alandonc a
idcia dc Esiado una vcz quc cla sc lIc
cncasquciou. Aforiunadancnic, a idcia do Esiado
nacional quc o curopcu, apcrcclcndo-sc dcla ou
nao, irou×c ao nundo, nao c a idcia crudiia,
filologica, quc sc lIc prcdicou.
Fcsuno agora a icsc dcsic cnsaio. Sofrc Iojc
o nundo una gravc dcsnoralizaçao, quc cnirc
ouiros sinionas sc nanifcsia por una
dcsaiorada rclcliao das nassas, c icn sua
origcn na dcsnoralizaçao da Europa. As causas
dcsia uliina sao nuiias. Una das principais, o
dcslocancnio do podcr quc ouirora c×crcia solrc
o rcsio do nundo c solrc si ncsno nosso
coniincnic. A Europa nao csia ccria dc nandar,
275
ncn o rcsio do nundo dc scr nandado. A
solcrania Iisiorica acIa-sc cn dispcrsao.
Ja nao Ia ºplcniiudc dos icnpos", porquc
isio supõc un porvir claro, prcfi×ado, incquívoco,
cono cra o do scculo XIX. Eniao acrcdiiava-sc
salcr o quc ia aconicccr ananIa. Mas agora
alrc-sc ouira vcz o Iorizonic para novas linIas
incogniias, posio quc nao sc salc qucn vai
nandar, cono sc vai ariicular o podcr solrc a
icrra. Oucn, isio c, quc povo ou grupo dc povos;
porianio, quc iipo cinico; porianio, quc idcologia,
quc sisicna dc prcfcrcncias, dc nornas, dc nolas
viiais...
Nao sc salc para quc ccniro dc graviiaçao
vao pondcrar cn un fuiuro pro×ino as coisas
Iunanas, c por isso a vida do nundo cnircga-sc
a una cscandalosa inicrinidadc. Tudo, iudo quc
Iojc sc faz cn pullico c na vida privada ÷ aic no
íniino ÷, scn nais c×ccçao quc algunas parics
dc algunas cicncias, c provisional. Accriara qucn
nao sc fic dc quanio Iojc sc aprcgoa, sc osicnia,
sc cnsaia c sc cnconia. Tudo isso ira con nais
cclcridadc do quc vcio. Tudo, dcsdc a nania do
csporic físico (a nania, nao o csporic cn sii aic a
violcncia cn políiica; dcsdc a ºaric nova" aic os
lanIos dc sol nas ridículas praias da noda. Nada
disso icn raízcs, porquc iudo isso c pura
invcnçao, no nau scniido da palavra, quc a faz
cquivalcr a capricIo lcviano. Nao c criaçao do
276
fundo sulsiancial da vida; nao c afa ncn nisicr
auicniico. En suna. iudo isso c viialncnic falso.
Da-sc o caso coniradiiorio dc un csiilo dc vida
quc culiiva a sinccridadc c ao ncsno icnpo c
una falsificaçao. So Ia vcrdadc na c×isicncia
quando scniinos scus aios cono
irrcvogavclncnic ncccssarios. Nao Ia Iojc
ncnIun políiico quc sinia a incviialilidadc dc
sua políiica, c quanio nais c×ircno c scu gcsio,
ianio nais frívolo, ncnos c×igido pclo dcsiino.
Nao Ia nais vida con raízcs proprias, nao Ia
nais vida auiocionc quc a quc sc conpõc dc
ccnas iniludívcis. O rcsio, o quc csia cn nossa
nao pcgar ou largar ou sulsiiiuir, c
prccisancnic falsificaçao da vida.
A aiual c fruio dc inicrrcgno, dc un vazio
cnirc duas organizaçõcs do nundo Iisiorico. a
quc foi, a quc vai scr. Por isso c csscncialncnic
provisoria. E ncn os Ioncns salcn lcn a quc
insiiiuiçõcs dc vcrdadc scrvir, ncn as nulIcrcs
quc iipo dc Ioncns prcfcrcn rcalncnic.
Os curopcus nao salcn vivcr sc nao sc
lançan nuna grandc cnprcsa uniiiva. Ouando
csia falia, cnvilcccn-sc, afrou×an, dcsconjunia-
sc-lIcs a alna. Un concço disio ofcrccc-sc Iojc a
nossos olIos. Os círculos quc aic agora sc
cIanaran naçõcs cIcgaran Ia un scculo ou
pouco ncnos à sua na×ina c×pansao. Ja nao sc
podc fazcr nada con clcs a nao scr iransccndc-
277
los. Ja nao sao scnao passado quc sc acunula
cn iorno c dclai×o do curopcu, aprisionando-o,
lasirando-o. Con nais lilcrdadc viial quc nunca
scniinos iodos quc o ar c irrcspiravcl dcniro dc
cada povo, porquc c un ar confinado. Cada naçao
quc anics cra a grandc ainosfcra alcria, arcjada,
iransfornou-sc cn província c ºinicrior". Na
supcrnaçao curopcia quc inaginanos, a
pluralidadc aiual nao podc ncn dcvc
dcsaparcccr. Enquanio o Esiado aniigo
aniquilava o difcrcncial dos povos ou o dci×ava
inaiivo fora ou cn suna o conscrvava
nunificado, a idcia nacional, nais purancnic
dinanica, c×igc a pcrnancncia aiiva dcssc plural
quc scnprc foi a vida do Ocidcnic.
Todo o nundo pcrcclc a urgcncia dc un
novo princípio dc vida. Mas ÷ cono scnprc
aconiccc cn criscs parclIas ÷ alguns cnsaian
salvar o noncnio por una inicnsificaçao
c×ircnada c ariificial, prccisancnic do princípio
caduco. Esic c o scniido da crupçao
ºnacionalisia" nos anos quc corrcn. E scnprc ÷
rcpiio ÷ aconicccu assin. A uliina cIana, a
nais c×icnsa. O dcrradciro suspiro, o nais
profundo. A vcspcra dc dcsaparcccr, as froniciras
sc Iipcrcsicsian ÷ as froniciras niliiarcs c as
cconónicas.
Mas iodos csics nacionalisnos sao lccos scn
saída. Tcnic-sc projcia-los para o fuiuro c scniir-
278
sc-a o cIoquc. Por aí nao sc sai para lado
ncnIun. O nacionalisno c scnprc un inpulso
dc dircçao oposia ao princípio nacionalizador. É
c×clusivisia, cnquanio csic c inclusivisia. En
cpoca dc consolidaçao icn, por sua vcz, un valor
posiiivo c c una alia norna. Mas na Europa iudo
csia dc solra consolidado, c o nacionalisno nao c
nais quc una nania, o prcic×io quc sc ofcrccc
para iludir o dcvcr dc invcnçao c dc grandcs
cnprcsas. A sinplicidadc dc ncios con quc opcra
c a caicgoria dos Ioncns quc c×alia rcvclan dc
solra quc c o conirario dc una criaçao Iisiorica.
So a dccisao dc consiruir una grandc naçao
con o grupo dos povos coniincniais iornaria a
dar ion à pulsaçao da Europa. Voliaria cla a crcr
cn si ncsna, c auionaiicancnic a c×igir nuiio
dc si, a disciplinar-sc.
Mas a siiuaçao c nuiio nais pcrigosa do quc
sc podc aprcciar. Vao passando os anos c corrc-
sc o risco dc quc o curopcu sc Ialiiuc a csic ion
ncnor dc c×isicncia quc lcva agora; acosiunc-sc
a nao nandar ncn sc nandar. En ial caso, ir-sc-
ian volaiilizando iodas as suas viriudcs c
capacidadcs supcriorcs.
Mas à unidadc da Europa opõcn-sc, cono
scnprc aconicccu no proccsso dc nacionalizaçao,
as classcs conscrvadoras. Isio podc irazcr para
clas a caiasirofc, pois ao pcrigo gcncrico dc quc a
279
Europa sc dcsnoralizc dcfiniiivancnic c pcrca
ioda a sua cncrgia Iisiorica, ajunia-sc ouiro
nuiio concrcio c inincnic. Ouando o conunisno
iriunfou na Fussia nuiios acrcdiiaran quc iodo
o Ocidcnic ficaria inundado pcla iorrcnic
vcrnclIa. Eu nao pariicipci dc scnclIanic
prognosiico. Pclo conirario. por aquclcs anos
cscrcvi quc o conunisno russo cra una
sulsiancia inassinilavcl para os curopcus, casia
quc pós iodos os csforços c fcrvorcs dc sua
Iisioria na caria Individualidadc. O icnpo
corrcu, c Iojc voliaran à iranquilidadc os
icncrosos dc ouirora. Voliaran à iranquilidadc
quando cIcga jusiancnic a cpoca para quc a
pcrdcsscn. Porquc agora sin podc dcrranar-sc
solrc a Europa o conunisno dc roldao c
viiorioso.
MinIa prcsunçao c a scguinic. agora, cono
anics, o conicudo do crcdo conunisia à russa
nao inicrcssa, nao airai, nao dcscnIa un porvir
dcscjavcl aos curopcus. E nao pclas razõcs
iriviais quc scus aposiolos, porfiados, surdos c
scn vcracidadc, cono iodos os aposiolos, socn
vcrlificar. Os lourgcois do Ocidcnic salcn nuiio
lcn quc, ncsno scn conunisno, o Ioncn quc
vivc c×clusivancnic dc suas rcndas c quc as
iransniic a scus filIos icn os dias coniados. Nao
c isso o quc inuniza a Europa para a fc russa,
ncn c nuiio ncnos icnor. Hojc parcccn-nos
lasianic ridículos os arliirarios suposios cn quc
280
Ia vinic anos fundava Sorcl sua iaiica da
violcncia. O lurgucs nao c covardc, cono clc cria,
c aiualncnic csia nais disposio à violcncia quc
os opcrarios. Ningucn ignora quc sc iriunfou na
Fussia o lolcIcvisno, foi porquc na Fussia nao
Iavia lurgucscs(89i. O fascisno, quc c un
novincnio pciii lourgcois, rcvclou-sc cono nais
violcnio quc iodo o olrcirisno junio. Nao c, pois,
nada disso o quc inpcdc ao curopcu cnlalar-sc
conunisiicancnic, nas una razao nuiio nais
sinplcs c prcvia. Esia. quc o curopcu nao vc na
organizaçao conunisia un auncnio da fclicidadc
Iunana.
Enircianio ÷ rcpiio ÷, parccc-nc nuiiíssino
possívcl quc nos anos pro×inos a Europa sc
cniusiasnc pclo lolcIcvisno. Nao por clc ncsno,
nas apcsar dclc.
Inaginc-sc quc o ºplano quinqucnal" scguido
Icrculcancnic pclo Covcrno soviciico
conscguissc suas prcvisõcs c a cnornc ccononia
russa ficassc nao so rcsiaurada, nas c×ulcranic.
Oualqucr quc scja o conicudo do lolcIcvisno,
rcprcscnia un cnsaio giganicsco dc cnprcsa
Iunana. Nclc os Ioncns alraçaran
rcsoluiancnic un dcsiino dc rcforna c vivcn
icnsos sol a alia disciplina quc cssa fc lIcs
injcia. Sc a naicria cosnica, indocil aos
cniusiasnos do Ioncn, nao faz fracassar
gravcncnic a icniaiiva, iao so quc lIc dci×c via
281
un pouco franca, scu csplcndido caraicr dc
nagnífica cnprcsa irradiara solrc o Iorizonic
coniincnial cono una ardcnic c nova
consiclaçao. Sc a Europa, cnircianio, pcrsisic no
ignolil rcginc vcgciaiivo dcsics anos, frou×os os
ncrvos por falia dc disciplina, scn projcio dc vida
nova, cono podcria cviiar o cfciio conianinador
daqucla cnprcsa iao proccr? E nao conIcccr o
curopcu cspcrar quc possa ouvir scn sc accndcr
cssa cIanada a novo fazcr quando clc nao icn
ouira landcira dc scnclIanic aliancria quc
dcsfraldar ovanic. Conianio quc sirva a algo quc
dc un scniido à vida c fugir do proprio vazio
c×isicncial, nao c difícil quc o curopcu cngula
suas oljcçõcs ao conunisno, c ja quc nao por
sua sulsiancia, sc sinia arrasiado por sua
aiiiudc noral.
Eu vcjo na consiruçao da Europa, cono
grandc Esiado nacional, a unica cnprcsa quc
podcria conirapor-sc à viioria do ºplano
quinqucnal".
Os iccnicos da ccononia políiica garanicn
quc cssa viioria icn nui cscassas prolalilidadcs
dc sua paric. Mas scria dcnasiado vil quc o
aniiconunisno cspcrassc iudo das dificuldadcs
naicriais cnconiradas por scu advcrsario. O
fracasso dcsic cquivalcria à dcrroia univcrsal. dc
iodos c dc iudo, do Ioncn aiual. O conunisno c
una ºnoral" c×iravaganic ÷ algo assin cono
282
una noral ÷. Nao parccc nais dcccnic c fccundo
opor a cssa noral cslava una nova noral do
Ocidcnic, a inciiaçao dc un novo prograna dc
vida?
283

XV. DESEMBOCA-SE NA VERDADEIRA QUESTÃO

Esia c a qucsiao. a Europa ficou scn noral.
Nao c quc o Ioncn-nassa ncnosprczc una
aniiquada cn lcncfício dc ouira cncrgcnic, nas
quc o ccniro dc scu rcginc viial consisic
prccisancnic na aspiraçao a vivcr scn sujciiar-sc
a noral alguna. Nao acrcdiicis una palavra
quando ouvirdcs os jovcns falar da ºnova noral".
Ncgo roiundancnic quc c×isia cn lugar algun do
coniincnic grupo algun infornado por un novo
ciIos quc icnIa visos dc u'a noral. Ouando sc
fala da ºnova" nao sc faz scnao concicr una
inoralidadc nais c luscar o ncio nais cónodo
para passar coniralando.
Por cssa razao scria una ingcnuidadc lançar
cn rosio ao Ioncn dc Iojc sua falia dc noral. A
inpuiaçao nao lIc causaria a ncnor inprcssao,
ou nclIor, o lisonjcaria. O inoralisno cIcgou a
scr iao laraio quc qualqucr un alardcia c×crciia-
lo.
Sc dci×anos dc un lado ÷ cono sc fcz ncsic
cnsaio ÷ iodos os grupos quc significan
solrcvivcncias do passado ÷ os crisiaos, os
ºidcalisias", os vclIos lilcrais, cic. ÷ nao sc
acIara cnirc iodos os quc rcprcscnian a cpoca
aiual un so cuja aiiiudc anic a vida nao sc
284
rcduza a crcr quc icn iodos os dirciios c
ncnIuna olrigaçao. É indifcrcnic quc sc nascarc
dc rcacionario ou dc rcvolucionario. por aiiva ou
por passiva, ao calo dc unas ou ouiras volias,
scu csiado dc anino consisiira, dccisivancnic,
cn ignorar ioda olrigaçao c scniir-sc, scn quc
clc ncsno suspciic por quc sujciio dc iliniiados
dirciios.
Oualqucr sulsiancia quc caia solrc una
alna assin, dara un ncsno rcsuliado, c sc
convcricra cn prcic×io para nao sc sujciiar a
nada concrcio. Sc sc aprcscnia cono rcacionario
ou aniililcral, scra para podcr afirnar quc a
salvaçao da pairia, do Esiado, da dirciio a alIcar
iodas as ouiras nornas c a nassacrar o pro×ino,
solrciudo sc o pro×ino possui una
pcrsonalidadc valiosa. Mas a ncsna coisa
aconiccc sc da para scr rcvolucionario. scu
aparcnic cniusiasno pclo opcrario nanual, o
niscravcl c a jusiiça social, lIc scrvc dc disfarcc
para podcr dcscnicndcr-sc dc ioda olrigaçao ÷
cono a coricsia, a vcracidadc, c, solrciudo, o
rcspciio ou csiinaçao dos indivíduos supcriorcs.
Eu sci dc nao poucos quc ingrcssaran cn un ou
ouiro pariido opcrario apcnas para conquisiar
dcniro dc si ncsnos o dirciio a dcsprczar a
inicligcncia c poupar-sc aos salanalcqucs dianic
dcla. Ouanio às ouiras Didaiuras, lcn vinos
cono afagan o Ioncn-nassa, paicando quanio
parccia cnincncia.
285
Essa csquivança a ioda olrigaçao c×plica, cn
paric, o fcnóncno, cnirc ridículo c cscandaloso,
dc quc sc icnIa fciio cn nossos dias una
plaiaforna da ºjuvcniudc" cono ial. Ouiça nao
ofcrcça nosso icnpo iraço nais groicsco. As
pcssoas, conicancnic, sc dcclaran ºjovcns"
porquc ouviran quc o jovcn icn nais dirciios
quc olrigaçõcs, ja quc podc dcnorar o
cunprincnio dcsias aic as calcndas grcgas da
nadurcza. Scnprc o jovcn, cono ial, considcrou-
sc iscnio dc fazcr ou Iavcr fciio façanIas. Scnprc
vivcu dc crcdiio. Isio sc acIa na naiurcza do
Iunano. Era cono un falso dirciio, cnirc irónico
c icrno, quc os nao jovcns conccdian aos noços.
Mas c csiupcfacicnic quc agora o ioncn csics
cono un dirciio cfciivo, prccisancnic para
airiluir-sc iodos os dcnais quc pcricnccn so a
qucn icnIa fciio ja alguna coisa.
Enlora parcça ncniira, cIcgou a fazcr-sc da
juvcniudc una cIaniagcn. En rcalidadc,
vivcnos un icnpo dc cIaniagcn univcrsal quc
iona duas fornas dc csgar conplcncniario. Ia a
cIaniagcn da violcncia c a cIaniagcn do
Iunorisno. Con un ou con ouiro aspira-sc
scnprc ao ncsno. quc o infcrior, quc o Ioncn
vulgar possa scniir-sc livrc dc ioda sujciçao.
Por isso nao calc cnolrcccr a crisc prcscnic
nosirando-a cono o confliio cnirc duas norais
ou civilizaçõcs, una caduca c a ouira cn alvor. O
286
Ioncn-nassa carccc sinplcsncnic dc noral,
quc c scnprc, por csscncia, scniincnio dc
sulnissao a algo, conscicncia dc scrviço c
olrigaçao. Mas ialvcz c un crro dizcr
ºsinplcsncnic". Porquc nao sc iraia so dc quc
csic iipo dc criaiura sc dcscnicnda da noral.
Nao; nao lIc façanos iao facil a iarcfa. Da noral
nao c possívcl dcscnicndcr-sc sinplcsncnic. O
quc con un vocalulo falio aic dc granaiica sc
cIana anoralidadc, c una coisa quc nao c×isic.
Sc vocc nao qucr sulncicr-sc a ncnIuna norna,
icn, vclis nolis, dc sujciiar-sc à norna dc ncgar
ioda noral, c isio nao c anoral, nas inoral. E
una noral ncgaiiva quc conscrva da ouira a
forna cn oco.
Cono sc podc acrcdiiar na anoralidadc da
vida? Scn duvida porquc ioda a culiura c a
civilizacao nodcrna lcvan a cssc convcncincnio.
Agora rccolIc a Europa as pcnosas
conscqucncias dc sua conduia cspiriiual.
Enlalou-sc scn rcscrvas pclo dcclivc dc una
culiura nagnífica, nas scn raízcs.
Ncsic cnsaio dcscjou-sc dcscnIar ccrio iipo
dc curopcu, analisando solrciudo scu
conporiancnio anic a civilizaçao ncsna cn quc
nasccu. Inporiava fazcr assin porquc cssc
pcrsonagcn nao rcprcscnia ouira civilizaçao quc
luic con a aniiga, nas una sinplcs ncgaçao,
ncgaçao quc oculia un cfciivo parasiiisno. O
287
Ioncn-nassa csia ainda vivcndo prccisancnic
do quc ncga c ouiros consiruíran ou
acunularan. Por isso nao convinIa ncsclar scu
psicograna con a grandc qucsiao. quc
insuficicncias radicais padccc a culiura curopcia
nodcrna? Porquc c cvidcnic quc, cn uliina
insiancia, dclas provcn csia forna Iunana agora
doninanic.
Mas cssa grandc qucsiao icn dc pcrnancccr
fora dcsias paginas, porquc c c×ccssiva. Olrigaria
a dcscnvolvcr con plcniiudc a douirina solrc a
vida Iunana quc, cono un coniraponio, fica
cnirclaçada, insinuada, nurnurada nclas. Talvcz
possa cn lrcvc scr c×aliada.
288

EPÍLOGO PARA INGLESES

Daqui a pouco faz un ano quc nuna
paisagcn Iolandcsa, ondc o dcsiino nc Iavia
ccnirifugado, cscrcvi o Prologo para franccscs à
princira cdiçao popular dcsic livro. Naqucla daia
concçava para a Inglaicrra una das ciapas nais
prollcnaiicas dc sua Iisioria c Iavia nuiio
poucas pcssoas na Europa quc confiasscn nas
suas viriudcs laicnics. Duranic os uliinos
icnpos falIaran ianias coisas quc, por incrcia
ncnial, sc icndc a duvidar dc iudo, aic da
Inglaicrra. Dizia-sc quc cra un povo cn
dccadcncia. Nao olsianic ÷ c ainda arrosiando
ccrios riscos dc quc nao qucro falar agora ÷, cu
assinalava con fc rolusia a nissao curopcia do
povo inglcs, a quc iivcra duranic dois scculos c
quc cn forna supcrlaiiva csiava cIanado a
c×crccr Iojc. O quc cniao nao inaginava c quc
iao rapidancnic vicsscn os faios confirnar ncu
prognosiico c a incorporar ninIa cspcrança.
Muiio ncnos quc sc conprazcsscn con ial
prccisao cn ajusiar-sc ao papcl dcicrninadíssino
quc, usando un sínil Iunorísiico, airiluía cu a
Inglaicrra anic o Coniincnic. A nanolra dc
sancancnio Iisiorico quc icnia a Inglaicrra,
dcsdc ja, cn scu inicrior, c poricniosa. No ncio
289
da nais airoz iorncnia, o navio inglcs iroca iodas
as suas vclas, vira dois quadranics, cingc-sc ao
vcnio c a guinada dc scu lcnc nodifica o dcsiino
do nundo. Tudo isso scn una gcsiiculaçao c
nuiio alcn dc iodas as frascs, incluso das quc
acalo dc profcrir. É cvidcnic quc Ia nuiias
nanciras dc fazcr Iisioria, quasc ianias cono dc
dcsfazc-las.
Ha varias ccniurias aconiccc pcriodicancnic
quc os coniincniais acordan una nanIa c,
coçando a calcça, c×clanan. ºEsia Inglaicrra!..."
É una c×prcssao quc significa surprcsa,
solrcssalio c a conscicncia dc icr a sua frcnic
algo adniravcl, nas inconprccnsívcl. O povo
inglcs c, con cfciio, o faio nais csiranIo quc Ia
no plancia. Nao nc rcfiro ao inglcs individual,
nas ao corpo social, à colciividadc dos inglcscs.
O csiranIo, o naravilIoso nao pcricncc, pois, à
ordcn psicologica, nas à ordcn sociologica. E
cono a sociologia c una das disciplinas solrc as
quais as pcssoas icn cn iodas as parics ncnos
idcias claras, nao scria possívcl, scn nuiias
prcparaçõcs, dizcr por quc c csiranIa c por quc c
naravilIosa a Inglaicrra. Ainda ncnos icniar a
c×plicaçao dc cono cIcgou a scr cssa csiranIa
coisa quc c. Enquanio sc acrcdiic quc un povo
possui un ºcaraicr" prcvio c quc sua Iisioria c
una cnanaçao dcsic caraicr, nao Iavcra nancira
ncn scqucr dc iniciar a convcrsaçao. O ºcaraicr
nacional", cono iudo quc c Iunano, nao c un
290
don inaio, nas una falricaçao. O caraicr
nacional vai sc fazcndo c dcsfazcndo c rcfazcndo
na Iisioria. En quc pcsc csia vcz à ciinologia, a
naçao nao nascc, sc faz. É una cnprcsa quc da
lcn ou nal, quc sc inicia apos un pcríodo dc
cnsaios, quc sc dcscnvolvc, quc sc corrigc, quc
ºpcrdc o fio" una ou varias vczcs, c icn dc voliar
a concçar, ou, pclo ncnos, rcaiar. O inicrcssanic
scria prccisar quais sao os airiluios
surprccndcnics, por insoliios, da vida inglcsa nos
uliinos ccn anos. Dcpois viria a icniaiiva dc
nosirar cono adquiriu a Inglaicrra cssas
qualidadcs sociologicas. Insisio cn cnprcgar csia
palavra, apcsar do pcdanic quc c, porquc airas
dcla csia o vcrdadcirancnic csscncial c fcriil. E
prcciso c×iirpar da Iisioria o psicologisno, quc ja
foi afugcniado dc ouiros aconiccincnios. O
c×ccpcional da Inglaicrra nao jaz no iipo dc
indivíduo Iunano quc soulc criar. É
solrcnancira discuiívcl quc o inglcs individual
valIa nais quc ouiras fornas dc individualidadc
aparccidas no Oricnic c no Ocidcnic. Mas ncsno
aquclc quc csiinc o nodo dc scr dos Ioncns
inglcscs acina dc iodos os dcnais, rcduz o
assunio a una qucsiao dc nais ou dc ncnos. Eu
susicnio, por ninIa vcz, quc o c×ccpcional, quc a
originalidadc c×ircna do povo inglcs radica cn
sua nancira dc ionar o lado social ou colciivo da
vida Iunana, no nodo cono salc scr una
socicdadc. Nisio sin c quc sc conirapõc a iodos
291
os dcnais povos c nao c qucsiao dc nais ou dc
ncnos. Talvcz, no icnpo pro×ino, sc nc ofcrcça
oporiunidadc para fazcr vcr iudo quc qucro dizcr
con isio.
Fcspciio scnclIanic à Inglaicrra nao nos
c×inc da irriiaçao anic scus dcfciios. Nao Ia povo
quc, olIado dcsdc ouiro, nao scja insuporiavcl. E
por csic lado ialvcz sao os inglcscs, cn grau
cspccial, c×aspcranics. E c quc as viriudcs dc un
povo, cono as dc un Ioncn, vao clcvadas, c cn
ccria nancira, consolidadas, solrc scus dcfciios c
liniiaçõcs. Ouando cIcganos a cssc povo, o
princiro quc vcnos sao as suas froniciras, quc,
no noral cono no físico, sao scus liniics. O
ncrvosisno dos uliinos ncscs fcz quc quasc
iodas as naçõcs iivcsscn vivido cncarapiiadas cn
suas froniciras; qucr dizcr, dando un cspciaculo
c×agcrado dc scus nais congcniios dcfciios. Sc sc
ajunia a isso quc un dos principais icnas dc
dispuia icn sido a EspanIa, conprccndcr-sc-a
aic quc ponio Ici sofrido dc quanio na Inglaicrra,
na França, na Ancrica do Noric rcprcscnia
aionia, cniorpccincnio, vício c falIa. O quc nais
nc surprccndcu c a dccidida voniadc dc nao
ionar conIccincnio das coisas quc Ia na opiniao
pullica dcsscs paíscs; c o quc nais falia icnIo
scniido, a rcspciio da EspanIa, icn sido alguna
aiiiudc dc graça gcncrosa, quc c, a ncu juízo, o
nais csiinavcl quc Ia no nundo. No anglo-sa×ao
÷ nao cn scus govcrnos, nas sin nos paíscs ÷
292
icn sc dci×ado circular a iniriga, a frivolidadc, a
durcza dc calcça, o prcjuízo arcaico c a Iipocrisia
nova scn lIcs pór un liniic. Escuiaran-sc cn
scrio as naiorcs inlccilidadcs con ianio quc
fosscn indígcnas, c, cnircncnics, icn Iavido a
radical dccisao dc nao qucrcr ouvir ncnIuna voz
cspanIola capaz dc csclarcccr as coisas, ou dc
ouvi-la dcpois dc dcforna-la.
Isio nc lcvou, ainda convcncido dc quc
forçava un pouco a conjuniura, a aprovciiar o
princiro prcic×io para falar solrc a EspanIa c ÷
ja a suspicacia do pullico inglcs nao iolcrava
ouira coisa ÷ falar scn parcccr quc dcla falava
nas paginas iniiiuladas ºOuanio ao pacifisno...",
acrcsccniadas a scguir. Sc c lcncvolo, o lciior
nao csqucccra o dcsiinaiario. Dirigidas a inglcscs,
rcprcscnian un csforço dc aconodaçao a scus
usos. Fcnunciou-sc nclas a iodo ºlrilIo" c vao
cscriias cn csiilo lasianic piclwicliano,
conposio dc cauiclas c cufcnisnos.
TcnIa-sc prcscnic quc a Inglaicrra nao c un
povo dc cscriiorcs nas dc concrcianics, dc
cngcnIciros c dc Ioncns picdosos. Soulc por
isso forjar una língua c una clocuçao cn quc sc
iraia principalncnic dc nao dizcr o quc sc diz, dc
insinuar c ainda nais dc iludir. O inglcs nao vcio
ao nundo para dizcr, nas, ao conirario, para
silcnciar. Con faccs inpassívcis, posios airas dc
scus cacIinlos, vclan os inglcscs alcria solrc
293
scus proprios scgrcdos para quc nao cscapc
ncnIun. Isio c una força nagnífica, c inporia
solrcnancira à cspccic Iunana quc sc conscrvc
iniacio cssc icsouro c cssa cncrgia dc
iaciiurnidadc. Mas, ao ncsno icnpo, dificulian
cnorncncnic a inicligcncia con ouiros povos,
solrciudo con os nossos. O Ioncn do Sul
propcndc a scr garrulo. A Crccia, quc nos
cducou, soliou nossas línguas c nos fcz
indiscrcios a naiiviiaic. O aiicisno Iavia
iriunfado solrc o laconisno, c para o aicnicnsc
vivcr cra falar, dizcr, csganiçar-sc, dando ao vcnio
cn fornas claras c cufónicas a nais arcana
iniinidadc. Por isso divinizaran o dizcr, o logos,
ao qual airiluían nagica poicncia, c a rciorica
acalou scndo para a civilizaçao aniiga o quc icn
sido a física para nos ncsics uliinos scculos. Sol
csia disciplina, os povos ronanicos forjaran
línguas conplicadas, nas dcliciosas, dc una
sonoridadc, una plasiicidadc c un garlo
inconparavcis; línguas fciias à força dc
palavrcados infindavcis ÷ cn agora c praça, cn
palanquc, ialcrna c icriulia. Daí quc nos
sinianos sófrcgos quando, apro×inando-nos
dcsics csplcndidos inglcscs, os ouvinos cniiir a
scric dc lcvcs niados displiccnics cn quc
consisic scu idiona.
O icna do cnsaio quc scguc c a
inconprccnsao nuiua cn quc caíran os povos do
Ocidcnic ÷ qucr dizcr, povos quc convivcn dcsdc
294
sua infancia. O faio c csiupcfacicnic. Porquc a
Europa foi scnprc cono una casa da vizinIança,
ondc as fanílias nao vivcn nunca scparadas,
nas sc nisiuran a ioda Iora sua doncsiica
c×isicncia. Esics povos quc agora sc ignoran iao
gravcncnic lrincaran junios quando cran
crianças nos corrcdorcs da grandc nansao
conun. Cono pudcran cIcgar a nao sc cnicndcr
iao radicalncnic? A gcncsc dc iao fcia siiuaçao c
longa c conplc×a. Para cnunciar so un dos nil
fios quc naquclc faio sc aian, adviria-sc quc o
uso dc sc convcricrcn uns povos cn juizcs dos
ouiros, dc sc dcsprczar c injuriar porquc sao
difcrcnics, cnfin, dc sc pcrniiircn crcr as naçõcs
Iojc podcrosas quc o csiilo ou o ºcaraicr" dc un
povo ncnor c alsurdo porquc c lclica ou
ccononicancnic dclil, sao fcnóncnos quc, sc
nao crro, janais sc Iavian produzido aic os
uliinos cinqucnia anos. Ao cnciclopcdisia franccs
do scculo XVIII, nao olsianic sua pciulancia c
sua cscassa duciilidadc iniclcciual, apcsar dc
supor-sc dono da vcrdadc alsoluia, nao sc lIc
ocorria dcsdcnIar un povo ºinculio" c
dcpaupcrado cono a EspanIa. Ouando algucn o
fazia, o cscandalo quc provocava cra prova dc quc
o Ioncn nornal dc cniao nao via, cono un
parvcnu, nas difcrcnças dc podcrio difcrcnça dc
nívcl Iunano. Pclo conirario. c o scculo das
viagcns cIcias dc curiosidadc anavcl c
prazcnicira pcla divcrgcncia do pro×ino. Esic foi
295
o scniido do cosnopoliiisno quc coagula no scu
uliino icrço. O cosnopoliiisno dc Fcrgusson,
Hcrdcr, CociIc ÷ c o oposio do aiual
ºinicrnacionalisno". Nuirc-sc nao da c×clusao
das difcrcnças nacionais, nas, pclo conirario, dc
cniusiasno por clas. Dusca a pluralidadc dc
fornas viiais con visias nao à sua anulaçao, nas
à sua inicgraçao. Lcna dclc foran csias palavras
dc CociIc. ºSo iodos os Ioncns vivcn o
Iunano". O ronaniicisno quc lIc succdcu nao c
scnao sua c×aliaçao. O ronaniico cnanorava-sc
dos ouiros povos prccisancnic porquc cran
ouiros, c no uso nais c×oiico c inconprccnsívcl
suspciiava nisicrios dc grandc salcdoria. E o
caso c quc ÷ cn princípio ÷ iinIa razao. É, por
c×cnplo, induliiavcl quc o inglcs dc Iojc,
Icrnciizado pcla conscicncia dc scu podcr
políiico, nao c nuiio capaz dc vcr o quc Ia dc
culiura rcfinada, suiilíssina c dc alio alcancc
ncssa ocupaçao ÷ quc a clc lIc parccc a
c×cnplar dcsocupaçao dc ºionar sol" a quc o
casiiço cspanIol soi dcdicar-sc conscicnicncnic.
Elc crc, porvcniura, quc o unicancnic civilizado c
vcsiir unas lonlacIas c dar pancadas nuna
lolinIa con una vara, opcraçao quc
Ialiiualncnic sc dignifica dcnoninando-a dc
ºgolf".
O assunio c, pois, dc nuiio pcso, c as
paginas quc scgucn nao fazcn ouira coisa scnao
iona-lo pclo lado nais urgcnic. Essc nuiuo
296
dcsconIccincnio iornou possívcl quc o povo
inglcs, iao parco cn crros Iisioricos gravcs,
concicssc o giganicsco dc scu pacifisno. Dc
iodas as causas quc gcraran as prcscnics
dcsgraças do nundo, a quc ialvcz podc
concrciizar-sc nais c o dcsarnancnio da
Inglaicrra. Scu gcnio políiico pcrniiiu-lIc ncsics
ncscs corrigir con un csforço incrívcl dc sclf-
conirol o nais c×ircno do nal. Porvcniura icnIa
coniriluído para quc adoic csia rcsoluçao a
conscicncia da rcsponsalilidadc coniraída.
Solrciudo isio sc raciocina iranquilancnic
nas paginas incdiaias, scn c×ccssiva prcsunçao,
nas con o cniranIavcl dcscjo dc colalorar na
rcconsiiiuiçao da Europa. Dcvo advcriir ao lciior
quc iodas as noias foran acrcsccniadas agora c
suas alusõcs cronologicas Iao dc scr rcfcridas ao
corrcnic ncs.
Paris, alril, 1938.
297

QUANTO AO PACIFISMO

Ha vinic anos(90i a Inglaicrra ÷ scu Covcrno c
sua opiniao pullica ÷ cnlarcaran no pacifisno.
Concicnos o crro dc dcsignar con csic unico
nonc aiiiudcs nui difcrcnics, iao difcrcnics quc
na praiica vccn a scr con frcqucncia
aniagónicas. Ha, con cfciio, nuiias fornas dc
pacifisno. A unica quc cnirc clas c×isic dc
conun c una coisa nuiio vaga. a crcnça cn quc
a gucrra c un nal c a aspiraçao a clinina-la
cono ncio dc iraio cnirc os Ioncns. Mas os
pacifisias concçan a discrcpar quando dao o
passo incdiaio c inicrrogan-sc aic quc ponio c
cn alsoluio possívcl o dcsaparccincnio das
gucrras. Enfin. a divcrgcncia iorna-sc supcrlaiiva
quando sc põcn a pcnsar nos ncios quc c×igc
una insiauraçao dc paz solrc csic pugnacíssino
glolo icrraquco. Talvcz fossc nuiio nais uiil do
quc sc inagina un csiudo conplcio solrc as
divcrsas fornas do pacifisno. Dclc cncrgiria nao
cscassa claridadc. Mas c cvidcnic quc nao nc
corrcspondc agora ncn aqui fazcr un csiudo no
qual ficaria dcfinido con ccria prccisao o pcculiar
pacifisno cn quc a Inglaicrra ÷ scu Covcrno c
sua opiniao pullica ÷ cnlarcou Ia vinic anos.
298
Por ouira paric, cnircianio, a rcalidadc aiual
faciliia dcsgraçadancnic o assunio. É un faio
dcnasiado noiorio quc cssc pacifisno inglcs
fracassou. Isso qucr dizcr quc cssc pacifisno foi
un crro. O fracasso foi iao grandc, iao roiundo,
quc algucn icria dirciio a rcvisar rapidancnic a
qucsiao c a sc pcrguniar sc nao c un crro iodo
pacifisno. Mas cu prcfiro agora adapiar-nc
quanio possa ao ponio dc visia inglcs, c vou
supor quc sua aspiraçao à paz do nundo cra
una c×cclcnic aspiraçao. Mas isso sullinIa ianio
nais quanio Iouvc dc crro no rcsio, a salcr, na
aprcciaçao das possililidadcs dc paz quc o
nundo aiual ofcrccia c na dcicrninaçao da
conduia quc Ia dc scguir qucn prcicnda scr, dc
vcrdadc, pacifisia.
Ao dizcr isio nao sugiro nada quc possa lcvar
ao dcsanino. Pclo conirario. Por quc dcsaninar?
Talvcz as duas unicas coisas a quc o Ioncn nao
icn dirciio sao a pciulancia c scu oposio, o
dcsanino. Nao Ia nunca razao suficicnic ncn
para un ncn para o ouiro. Dasic advcriir o
csiranIo nisicrio da condiçao Iunana
consisicnic cn quc una siiuaçao iao ncgaiiva c
dc dcrroia, cono c Iavcr conciido un crro, sc
convcric nagicancnic cn una nova viioria para
o Ioncn, apcnas rcconIcccndo-o. O
rcconIccincnio dc un crro c por si ncsno una
nova vcrdadc c cono una luz quc dcniro dcsic sc
accndc.
299
Conira o quc acrcdiicn os jcrcnias, iodo crro
c una propricdadc quc acrcscc nosso Iavcr. En
vcz dc cIorar solrc clc convcn aprcssar-sc a
c×plora-lo. Para isso c prcciso quc nos rcsolvanos
a csiuda-lo a fundo, a dcscolrir scn picdadc
suas raízcs c a consiruir cncrgicancnic a nova
conccpçao das coisas quc isio nos proporciona.
Eu suponIo quc os inglcscs sc dispõcn ja,
scrcnancnic, nas dccididancnic, a rciificar o
cnornc crro quc duranic vinic anos icn sido scu
pcculiar pacifisno c a sulsiiiuí-lo por ouiro
pacifisno nais pcrspicaz.
Cono quasc scnprc aconiccc, o dcfciio naior
do pacifisno inglcs ÷ c, cn gcral, dos quc sc
aprcscnian cono iiiularcs do pacifisno ÷ icn
sido sulcsiinar o ininigo. Esia sulcsiina lIcs
inspirou un diagnosiico falso. O pacifisia vc na
gucrra un dano, un crinc ou un vício. Mas
csquccc quc, anics disso c acina disso, a gucrra
c un cnornc csforço quc os Ioncns fazcn para
rcsolvcr ccrios confliios. A gucrra nao c un
insiinio, nas un invcnio. Os aninais a
dcsconIcccn c c dc pura insiiiuiçao Iunana,
cono a cicncia c a adninisiraçao. Ela lcvou a un
dos naiorcs dcscolrincnios, lasc dc ioda
civilizaçao. ao dcscolrincnio da disciplina. Todas
as dcnais fornas dc disciplina proccdcn da
prinigcnia, quc foi a disciplina niliiar. O
pacifisno csia pcrdido c convcric-sc cn nula
300
lcaicria sc nao icn prcscnic quc a gucrra c una
gcnial c fornidavcl iccnica dc vida c para a vida.
Cono ioda forna Iisiorica, icn a gucrra dois
aspccios. o da Iora dc sua invcnçao c o da Iora
dc sua supcraçao. Na Iora dc sua invcnçao
significou un progrcsso incalculavcl. Hojc,
quando aspiranos a supcra-la, vcnos dcla
apcnas a suja cspadua, scu Iorror, sua
rusiicidadc, sua insuficicncia. Do ncsno nodo,
cosiunanos, scn nais rcflc×ao, naldizcr da
cscravidao, nao advcriindo o naravilIoso
progrcsso quc rcprcscniou quando foi invcniada.
Porquc anics o quc sc fazia cra naiar os
vcncidos. Foi un gcnio lcnfciior da Iunanidadc
o princiro quc idcou, cn vcz dc naiar os
prisionciros, conscrvar-lIcs a vida c aprovciiar
scu lalor. Augusio Conic, quc iinIa un grandc
scniido Iunano, qucr dizcr, Iisiorico, viu ja
dcsic nodo a insiiiuiçao da cscravidao ÷
lilcriando-sc das ioliccs quc Fousscau dissc
solrc cla ÷ c a nos nos corrcspondc gcncralizar
sua advcricncia, aprcndcndo a olIar iodas as
coisas Iunanas sol cssa dupla pcrspcciiva, a
salcr. o aspccio quc icn ao cIcgar c o aspccio
quc icn ao ir. Os ronanos, nui financnic,
cncarrcgaran duas divindadcs dc consagrar
csscs dois insianics ÷ Adcona c Alcona, o dcus
do cIcgar c o dcus dc ir.
301
Por dcsconIcccr iudo isso, quc c clcncniar, o
pacifisno iornou sua iarcfa dcnasiado facil.
Pcnsou quc para clininar a gucrra lasiava nao
fazc-la ou, cn suna, iralalIar cn quc nao sc
fizcssc. Cono via ncla apcnas una c×crcsccncia
supcrflua c norlida aparccida no iraio Iunano,
crcu quc lasiava c×iirpa-la c quc nao cra
ncccssario sulsiiiuí-la. Mas o cnornc csforço quc
c a gucrra, so podc scr cviiado sc sc cnicndc por
paz un csforço ainda naior, un sisicna dc
csforços conplicadíssinos, c quc, cn paric,
rcqucrcn a vcniurosa inicrvcnçao do gcnio. O
ouiro c puro crro. O ouiro c inicrprciar a paz
cono o sinplcs vazio quc a gucrra dci×aria sc
dcsaparcccssc; porianio, ignorar quc sc a gucrra
c una coisa quc sc faz, ianlcn a paz c una
coisa quc inporia fazcr, quc Ia quc falricar,
pondo na faina iodas as poicncias Iunanas. A
paz nao ºcsia aí", sinplcsncnic, pronia para quc
o Ioncn a gozc. A paz nao c fruio csponianco dc
ncnIuna arvorc. Nada inporianic c aprcscniado
ao Ioncn; pclo conirario, icn clc dc fazc-lo, dc
consiruí-lo. Por isso, o iíiulo nais claro dc nossa
cspccic c scr Iono falcr.
Sc sc aicndc a iudo isso, nao parcccra
surprccndcnic a crcnça cn quc csicvc a
Inglaicrra dc quc o nais quc podia fazcr a favor
da paz cra dcsarnar, un fazcr quc sc asscnclIa
ianio a un puro oniiir? Essa crcnça c
inconprccnsívcl sc nao sc advcric o crro dc
302
diagnosiico quc lIc scrvc dc lasc, a salcr. a idcia
dc quc a gucrra proccdc sinplcsncnic das
pai×õcs dos Ioncns, c quc sc sc rcprinc o
apai×onancnio, o lclicisno ficara asfi×iado. Para
vcr con clarcza a qucsiao façanos o quc fazia
lord Kclvin para rcsolvcr scus prollcnas dc
física. consiruanos un nodclo inaginario.
Inagincnos, cniao, quc cn ccrio noncnio iodos
os Ioncns rcnunciasscn à gucrra, cono a
Inglaicrra, por sua paric, icniou fazcr. Acrcdiia-
sc quc lasia isso, nais ainda, quc con isso sc
Iavia dado o nais lrcvc passo cficicnic no
scniido da paz? Crandc crro! A gucrra, rcpiianos,
cra un ncio quc Iavian invcniado os Ioncns
para solucionar ccrios confliios. A rcnuncia à
gucrra nao suprinc csics confliios. Pclo
conirario, dci×a-os nais iniacios c ncnos
rcsolvidos quc nunca. A auscncia dc pai×õcs, a
voniadc pacífica dc iodos os Ioncns scrian
conplciancnic incficazcs, porquc os confliios
rcclanarian soluçao, c, cnquanio nao sc
invcniassc ouiro ncio, a gucrra rcaparcccria
inc×oravclncnic ncssc inaginario plancia
Ialiiado so por pacifisias.
Nao c, pois, a voniadc dc paz o quc inporia
uliinancnic no pacifisno. É prcciso quc csic
vocalulo dci×c dc significar una loa inicnçao c
rcprcscnic un sisicna dc novos ncios dc iraio
cnirc os Ioncns. Nao sc cspcrc ncsia ordcn
nada fcriil cnquanio o pacifisno, dc scr un
303
graiuiio c cónodo dcscjo, nao passc a scr un
difícil conjunio dc novas iccnicas.
O cnornc dano quc aquclc pacifisno irou×c à
causa da paz consisiiu cn nao dci×ar-nos vcr a
carcncia das iccnicas nais clcncniais, cujo
c×crcício concrcio c prcciso consiiiui isso quc,
con un vago nonc, cIananos dc paz.
A paz, por c×cnplo, c o dirciio cono forna dc
iraio cnirc os povos. Pois lcn. o pacifisno usual
dava cono suposio quc cssc dirciio c×isiia, quc
csiava aí à disposiçao dos Ioncns c quc so as
pai×õcs dcsics c scus insiinios dc violcncia
induzian a ignora-lo. Ora lcn. isio c gravcncnic
oposio à vcrdadc.
Para quc o dirciio ou un rano dclc c×isia c
prcciso. 1o., quc alguns Ioncns, cspccialncnic
inspirados, dcsculran ccrias idcias ou princípios
dc dirciio. 2o., a propaganda c c×pansao dcssas
idcias dc dirciio solrc a colciividadc cn qucsiao
(cn nosso caso, pclo ncnos, a colciividadc quc
fornan os povos curopcus c ancricanos,
incluindo os donínios inglcscs da Occaniai. 3o.,
quc cssa c×pansao cIcguc dc ial nodo a scr
prcdoninanic, quc aquclas idcias dc dirciio sc
consolidcn cn forna dc ºopiniao pullica". Eniao,
c so cniao, podcnos falar, na plcniiudc do icrno,
dc dirciio, qucr dizcr, dc norna vigcnic. Nao
inporia quc nao Iaja lcgislador, nao inporia quc
304
nao Iaja juizcs. Sc aquclas idcias scnIorcian dc
vcrdadc as alnas, aiuarao incviiavclncnic cono
insiancias para a conduia às quais sc podc
rccorrcr. E csia c a vcrdadcira sulsiancia do
dirciio.
Pois lcn. un dirciio rcfcrcnic às naicrias
quc originan incviiavclncnic as gucrras nao
c×isic. E nao so nao c×isic no scniido dc quc nao
Iaja alcançado ainda ºvigcncia", isio c, quc nao
sc icnIa consolidado cono norna firnc na
ºopiniao pullica", cono nao c×isic ncn scqucr
cono idcia, cono puro icorcna inculado na
ncnic dc algun pcnsador. E nao Iavcndo nada
disso, nao Iavcndo ncn cn icoria un dirciio dos
povos, prcicndc-sc quc dcsaparcçan as gucrras
cnirc clcs? Pcrniia-sc-nc quc qualifiquc dc
frívola, dc inoral, scnclIanic prcicnsao. Porquc c
inoral prcicndcr quc una coisa dcscjada sc
rcalizc nagicancnic, sinplcsncnic porquc a
dcscjanos. So c noral o dcscjo quc c
aconpanIado da scvcra voniadc dc aproniar os
ncios dc sua c×ccuçao.
Nao salcnos quais sao os ºdirciios
suljciivos" das naçõcs c nao icnos ncn indícios
dc cono scria o ºdirciio oljciivo" quc possa
rcgular scus novincnios. A prolifcraçao dc
irilunais inicrnacionais, dc orgaos dc arliiragcn
cnirc Esiados, quc os uliinos cinqucnia anos
prcscnciaran, conirilui a oculiar-nos a
305
indigcncia dc vcrdadciro dirciio inicrnacional quc
padcccnos. Nao dcscsiino, dc nancira
ncnIuna, a inporiancia dcssas nagisiraiuras.
Scnprc c inporianic para o progrcsso dc una
funçao noral quc aparcça naicrializada cn un
orgao cspccial clarancnic visívcl. Mas a
inporiancia dcsscs irilunais inicrnacionais icn
sc rcduzido a isso aic Iojc. O dirciio quc
adninisiran c, no csscncial, o ncsno quc ja
c×isiia anics dc scu csialclccincnio. Con cfciio.
sc sc passa rcvisia às naicrias julgadas por csscs
irilunais, advcric-sc quc sao as ncsnas
rcsolvidas dc Ia nuiio pcla diplonacia. Nao
significan progrcsso algun inporianic no quc c
csscncial. na criaçao dc un dirciio para a
pcculiar rcalidadc quc sao as naçõcs.
Ncn cra líciio cspcrar naior fcriilidadc ncsia
ordcn, dc una ciapa quc sc iniciou con o
Traiado dc VcrsalIcs c con a insiiiuiçao da
Socicdadc das Naçõcs, para so nos rcfcrirnos aos
dois naiorcs c nais rcccnics cadavcrcs.
Fcpugna-nc airair a aicnçao do lciior solrc
coisas falidas, naliraiadas ou cn ruínas. Mas c
indispcnsavcl para coniriluir un pouco a
dcspcriar o inicrcssc para novas grandcs
cnprcsas, para novas iarcfas consiruiivas c
saluiífcras. É prcciso quc nao sc volic a concicr
un crro cono foi a criaçao da Socicdadc das
Naçõcs; cnicndc-sc, o quc concrciancnic foi c
significou csia insiiiuiçao na Iora dc scu
306
nascincnio. Nao foi un crro qualqucr, cono os
Ialiiuais na difícil faina quc c a políiica. Foi un
crro quc rcclana o airiluio dc profundo. Foi un
crro Iisiorico. O ºcspíriio" quc propcliu para
aqucla criaçao, o sisicna dc idcias filosoficas,
Iisioricas, sociologicas c jurídicas dc quc
cnanaran scu projcio c sua figura csiava ja
Iisioricancnic norio naqucla daia, pcricncia ao
passado, c longc dc aniccipar o fuiuro cra ja
arcaico. E nao sc diga quc c coisa facil proclanar
isio agora. Houvc Ioncns na Europa quc ja cniao
dcnunciaran scu incviiavcl fracasso. Una vcz
nais aconicccu o quc c quasc nornal na Iisioria,
a salcr. quc foi prcdiia. Mas, una vcz nais,
ianlcn os políiicos nao fizcran caso dcsscs
Ioncns. Eviio prccisar a quc grcnio pcricncian
os profcias. Dasic dizcr quc na fauna Iunana
rcprcscnian a cspccic nais oposia ao políiico.
Scnprc scra csic qucn dcva govcrnar, c nao o
profcia; nas inporia nuiio aos dcsiinos
Iunanos quc o políiico ouça scnprc o quc o
profcia griia ou insinua. Todas as grandcs cpocas
da Iisioria nasccran da suiil colaloraçao cnirc
csscs dois iipos dc Ioncn. É ialvcz una das
causas profundas do aiual dcsconccrio scja quc
Ia duas gcraçõcs os políiicos sc dcclararan
indcpcndcnics c cancclaran cssa colaloraçao.
Mcrcc disso produziu-sc o vcrgonIoso fcnóncno
dc quc, a csia aliura da Iisioria c da civilizaçao,
navcguc o nundo nais à dcriva quc nunca,
307
cnircguc a una ccga nccanica. Cada vcz c ncnos
possívcl una sa políiica scn larga aniccipaçao
Iisiorica, scn profccia. Talvcz as caiasirofcs
prcscnics alran dc novo os olIos dos políiicos
para o faio cvidcnic dc quc Ia Ioncns, os quais,
pclos icnas dc quc Ialiiualncnic sc ocupan, ou
por possuir alnas scnsívcis cono finos
rcgisiradorcs sísnicos, rccclcn anics quc os
dcnais a visiia do porvir(91i.
A Socicdadc das Naçõcs foi un giganicsco
aparclIo jurídico criado para un dirciio
inc×isicnic. Sua vacuidadc dc jusiiça cncIcu-sc
fraudulcniancnic con a scnpiicrna diplonacia,
quc ao disfarçar-sc dc dirciio coniriluiu à
univcrsal dcsnoralizaçao.
Fornulc-sc o lciior qualqucr dos grandcs
confliios quc Ia aiualncnic csialclccidos cnirc
as naçõcs, c diga-sc a si ncsno sc cnconira cn
sua ncnic una possívcl norna jurídica quc
pcrniia, scqucr icoricancnic, rcsolvc-lo. Ouais
sao, por c×cnplo, os dirciios dc un povo quc
onicn iinIa vinic nilIõcs dc Ioncns c Iojc icn
quarcnia ou oiicnia? Oucn icn dirciio ao cspaço
nao Ialiiado do nundo? Esics c×cnplos, os nais
ioscos c clcncniais quc podcn scr aponiados,
põcn lcn à visia o caraicr ilusorio dc iodo
pacifisno quc nao conccc por scr una nova
iccnica jurídica. Scn duvida, o dirciio quc aqui sc
posiula c una invcnçao nuiio difícil. Sc fossc
308
facil c×isiiria Ia nuiio icnpo. É difícil,
c×aiancnic iao difícil cono a paz, con a qual
coincidc. Mas una cpoca quc assisiiu ao invcnio
das gconcirias nao-cuclidianas, dc una física dc
quairo dincnsõcs c dc una nccanica do
dcsconiínuo, podc, scn cspanio, cnfrcniar aqucla
cnprcsa c rcsolvcr-sc a aconcic-la. En ccrio
nodo, o prollcna do novo dirciio inicrnacional
pcricncc ao ncsno csiilo quc csscs rcccnics
progrcssos douirinais. Tanlcn aqui sc iraiaria
dc lilcriar una aiividadc Iunana ÷ o dirciio ÷
dc ccria radical liniiaçao quc scnprc padcccu. O
dirciio, con cfciio, c csiaiico, c nao dclaldc scu
orgao principal sc cIana Esiado. O Ioncn nao
conscguiu ainda clalorar una forna dc jusiiça
quc nao csicja circunscriia na clausula rclus sic
sianiilus. Mas c o caso quc as coisas Iunanas
nao sao rcs sianics, nas pclo conirario, coisas
Iisioricas, qucr dizcr, puro novincnio, nuiaçao
pcrpciua. O dirciio iradicional c so rcgulancnio
para una rcalidadc paralíiica. E cono a rcalidadc
Iisiorica nuda pcriodicancnic dc nodo radical,
cIoca, scn rcncdio, con a csialilidadc do
dirciio, quc sc convcric cn una canisa dc força.
Mas una canisa dc força posia nun Ioncn sao
icn a viriudc dc iorna-lo louco furioso. Daí ÷
dizia cu, rcccnicncnic ÷, cssc csiranIo aspccio
paiologico quc icn a Iisioria c quc a faz parcccr
cono una luia scnpiicrna cnirc os paralíiicos c
os cpilcpiicos. Dcniro do povo produzcn-sc as
309
rcvoluçõcs, c cnirc os povos csialan as gucrras.
O lcn quc prcicndc scr o dirciio sc convcric cn
un nal, cono ja nos cnsina a Díllia. ºPor quc
ionasics o dirciio cn fcl c o fruio da jusiiça cn
alsinio?" (Oscas, 6, 12i.
No dirciio inicrnacional, csia incongrucncia
cnirc a csialilidadc da jusiiça c a nolilidadc da
rcalidadc, quc o pacifisia qucr sulncicr àqucla,
cIcga a sua na×ina poicncia. Considcrada no
quc ao dirciio inporia, a Iisioria c, anics dc
iudo, a nudança na divisao do podcr solrc a
icrra. E cnquanio nao c×isian princípios dc
jusiiça quc, ao ncnos cn icoria, rcgulcn
saiisfaioriancnic cssas nudanças do podcrio,
iodo pacifisno c pcna dc anor pcrdida. Porquc sc
a rcalidadc Iisiorica c isso anic iudo, parcccra
cvidcnic quc a injuria na×ina scja o siaiu quo.
Nao csiranIc, pois, o fracasso da Socicdadc das
Naçõcs, giganicsco aparclIo consiruído para
adninisirar o siaiu quo.
O Ioncn ncccssiia un dirciio dinanico, un
dirciio plasiico c cn novincnio, capaz dc
aconpanIar a Iisioria cn sua ncianorfosc. A
dcnanda nao c c×orliianic, ncn uiopica, ncn
scqucr nova. Ha nais dc scicnia anos, o dirciio,
ianio civil cono políiico, cvolui ncsic scniido. Por
c×cnplo. quasc iodas as consiiiuiçõcs
conicnporancas procuran scr ºalcrias". Enlora
o c×pcdicnic scja un pouco ingcnuo, convcn
310
rccorda-lo, porquc nclc sc dcclara a aspiraçao a
un dirciio scnovcnic. Mas, a ncu juízo, o nais
fcriil scria analisar a fundo c icniar dcfinir con
prccisao ÷, isio c, c×irair a icoria quc nclc jaz
nuda ÷ o fcnóncno jurídico nais avançado quc
sc produziu aic Iojc no plancia. a DriiisI
ConnonwcaliI of Naiions. Dir-nc-ao quc isio c
inpossívcl, porquc prccisancnic cssc csiranIo
fcnóncno jurídico foi forjado ncdianic csics dois
princípios. un, o fornulado por Dalfour cn 1926
con suas fanosas palavras. Nas qucsiõcs do
Inpcrio c prcciso cviiar o rcfining, discussing or
dcfining. O ouiro, o princípio ºda nargcn c da
clasiicidadc", cnunciado por sir Ausiin
CIanlcrlain cn scu Iisiorico discurso dc 12 dc
scicnlro dc 1925. ºVcjan-sc as rclaçõcs cnirc as
difcrcnics scçõcs do Inpcrio lriianico; a unidadc
do Inpcrio lriianica nao csia fciia solrc una
consiiiuiçao logica. Nao csia scqucr lascada
nuna Consiiiuiçao. Porquc qucrcnos conscrvar a
ioda coisa una nargcn c una clasiicidadc."
Scria un crro nao vcr ncsias duas fornulas
scnao cnanaçõcs do oporiunisno políiico. Longc
disso, c×prcssan nui adcquadancnic a
fornidavcl rcalidadc quc c a DriiisI
ConnonwcaliI of Naiions c a dcsignan
prccisancnic sol scu aspccio jurídico. O quc nao
fazcn c dcfini-la, porquc un políiico nao vcio ao
nundo para isso, c sc o políiico c inglcs scnic quc
dcfinir algo c quasc concicr una iraiçao. Mas c
311
cvidcnic quc Ia ouiros Ioncns cuja nissao c
fazcr o quc ao políiico, c cspccialncnic ao inglcs,
csia proilido. dcfinir as coisas, cnlora csias sc
aprcscnicn con a prcicnsao dc scr
csscncialncnic vagas. En princípio, nao c nais
ncn ncnos difícil dcfinir o iriangulo quc a ncvoa.
Inporiaria nuiio rcduzir a concciios claros cssa
siiuaçao cfciiva dc dirciio quc consisic cn puras
ºnargcns" c sinplcs ºclasiicidadcs". Porquc a
clasiicidadc c a condiçao quc pcrniic a un
dirciio scr plasiico, c sc sc lIc airilui una
nargcn, c quc sc prcvc scu novincnio. Sc cn
vcz dc cnicndcr csics dois caracicrcs cono ncras
ilusõcs c cono insuficicncias dc un dirciio, as
ionanos cono rcalidadcs posiiivas, c possívcl
quc sc alran dianic dc nos as nais fcricis
pcrspcciivas. Provavclncnic, a consiiiuiçao do
Inpcrio lriianico parccc-sc nuiio ao ºnolusco dc
rcfcrcncia" dc quc falou Einsicin, una idcia dc
quc a princípio sc julgou inicligívcl c quc c Iojc
lasc da nova nccanica.
A capacidadc para dcscolrir a nova iccnica
dc jusiiça quc aqui sc posiula csia prc-fornada
cn ioda a iradiçao jurídica da Inglaicrra nais
inicnsancnic quc na dc ncnIun ouiro país. E
isso nao ccriancnic por casualidadc. A nancira
inglcsa dc vcr o dirciio nao c scnao un caso
pariicular do csiilo gcral quc caracicriza o
pcnsancnio lriianico, no qual adquirc sua
c×prcssao nais c×ircna c dcpurada o quc ialvcz c
312
o dcsiino iniclcciual do Ocidcnic, a salcr.
inicrprciar iudo quc c incric c naicrial cono
puro dinanisno, sulsiiiuir o quc nao parccc scr
scnao ºcoisa" jaccnic, quicia c fi×a por forças,
novincnios c funçõcs. A Inglaicrra icn sido, cn
iodas as ordcns da vida, ncwioniana. Mas nao
crcio quc scja ncccssario dcicr-nc ncsic ponio.
SuponIo quc ccn vczcs sc icra fciio consiar c
icra sido dcnonsirado con suficicnic porncnor.
Pcrniia-sc-nc apcnas quc, cono cnpcdcrnido
lciior, nanifcsic ncu dcsidcraiun dc lcr un livro
cujo icna scja csic. o ncwionisno inglcs, fora da
física; porianio, cn iodas as dcnais ordcns da
vida.
Sc rcsuno agora ncu raciocínio, parcccra,
crcio cu, consiiiuído por una linIa sinplcs c
clara.
Esia lcn quc o Ioncn pacífico sc ocupc
dirciancnic cn cviiar csia ou aqucla gucrra; nas
o pacifisno nao consisic nisso, nas cn consiruir
a ouira forna dc convivcncia Iunana quc c a
paz. Isio significa a invcnçao c c×crcício dc ioda
una scric dc novas iccnicas. A princira dclas c
una nova iccnica jurídica quc conccc por
dcscolrir princípios dc cquidadc rcfcrcnics às
nudanças da divisao do podcr solrc a icrra.
Mas a idcia dc un novo dirciio nao c ainda
un dirciio. Nao csqucçanos quc o dirciio sc
313
conpõc dc nuiias coisas nais quc una idcia. por
c×cnplo, fornan paric dclc os líccps dos
gcndarncs ou scus succdancos. À iccnica do
puro pcnsancnio jurídico dcvcn aconpanIar
nuiias ouiras iccnicas ainda nais conplicadas.
Dcsgraçadancnic, o proprio nonc dc dirciio
inicrnacional csiorva una clara visao do quc
scria cn sua plcna rcalidadc un dirciio das
naçõcs. Porquc o dirciio nos parcccria scr un
fcnóncno quc aconiccc dcniro das socicdadcs, c
o cIanado ºinicrnacional" nos convida, pclo
conirario, a inaginar un dirciio quc aconiccc
cnirc clas; qucr dizcr, nun vazio social. Ncssc
vazio social as naçõcs sc rcunirian, c ncdianic
un pacio criarian una socicdadc nova, quc
scria, por nagica viriudc dos vocalulos, a
Socicdadc das Naçõcs. Mas isso iudo icn o ar dc
un calcnlour(92i, Una socicdadc consiiiuída
ncdianic un pacio so c socicdadc no scniido quc
csic vocalulo icn para o dirciio civil, isio c, una
associaçao. Mas una associaçao nao podc c×isiir
cono rcalidadc jurídica sc nao surgc solrc una
arca ondc prcviancnic icn vigcncia ccrio dirciio
civil. Ouira coisa sao puras faniasnagorias. Essa
arca ondc a socicdadc ajusiada surgc c ouira
socicdadc prcc×isicnic, quc nao c olra dc
ncnIun pacio, nas c o rcsuliado dc una
convivcncia invcicrada. Esia auicniica socicdadc
c nao associaçao so sc parccc à ouira no nonc.
Daí o calcnlour.
314
Scn quc cu prcicnda rcsolvcr agora con
aiiiudc dognaiica, dc passagcn c avoadancnic,
as qucsiõcs nais inirincadas da filosofia do
dirciio c da sociologia, aircvo-nc a insinuar quc
caninIa scguro qucn c×ija, quando algucn lIc
falc dc un faio jurídico, quc lIc indiquc a
socicdadc poriadora dcssc dirciio c prcvia a clc.
No vazio social nao Ia ncn nascc dirciio. Esic
rcqucr cono sulsiraio una unidadc dc
convivcncia Iunana, ial cono o uso c o cosiunc,
dos quais o dirciio c irnao ncnor, nas nais
cncrgico. A ial ponio c assin, quc nao c×isic
siniona nais scguro para dcscolrir a c×isicncia
dc una auicniica socicdadc quc a c×isicncia dc
un faio jurídico. Turva a cvidcncia disio a
confusao Ialiiual quc padcccnos ao crcr quc
ioda auicniica socicdadc icn forçosancnic dc
possuir un Esiado auicniico. Mas c lcn claro
quc o aparclIo csiaial nao sc produz dcniro dc
una socicdadc, nas nun csiadio nuiio avançado
dc sua cvoluçao. Talvcz o Esiado proporciona ao
dirciio ccrias pcrfciçõcs, nas c ncccssario
cnunciar anic lciiorcs inglcscs quc o dirciio c×isic
scn o Esiado c sua aiividadc csiaiuiaria.
Ouando falanos das naçõcs icndcnos a
rcprcscnia-las cono socicdadcs scparadas c
fccIadas cn si ncsnas. Mas isio c una
alsiraçao quc dci×a dc fora o nais inporianic da
rcalidadc. Scn duvida, a convivcncia ou iraio dos
inglcscs cnirc si c nuiio nais inicnsa quc, por
315
c×cnplo, a convivcncia cnirc os Ioncns da
Inglaicrra c os Ioncns da AlcnanIa ou da
França. Mas c cvidcnic quc c×isic una
convivcncia gcral dos curopcus cnirc si, c,
porianio, quc a Europa c una socicdadc, vclIa dc
nuiios scculos c quc icn una Iisioria propria
cono possa ic-la cada naçao pariicular. Esia
socicdadc gcral possui un grau ou índicc dc
socializaçao ncnos clcvado quc o alcançado
dcsdc o scculo XVI pclas socicdadcs pariicularcs
cIanadas naçõcs curopcias. Diga-sc, pois, quc a
Europa c una socicdadc nais icnuc quc a
Inglaicrra ou quc a França, nas nao sc ignorc
scu cfciivo caraicr dc socicdadc. A coisa inporia
supcrlaiivancnic, porquc as unicas
possililidadcs dc paz quc c×isicn dcpcndcn dc
quc c×isia ou nao cfciivancnic una socicdadc
curopcia. Sc a Europa c so una pluralidadc dc
naçõcs, podcn os pacíficos dcspcdir-sc
rapidancnic dc suas cspcranças(93i. Enirc
socicdadcs indcpcndcnics nao podc c×isiir
vcrdadcira paz. O quc cosiunanos cIanar assin
nao c nais do quc un csiado dc gucrra nínina
ou laicnic.
Cono os fcnóncnos corporais sao o idiona c
o Iicroglifo, ncrcc ao qual pcnsanos as
rcalidadcs norais, nao c prcciso dizcr o dano quc
cngcndra una crrónca inagcn visual convcriida
cn Ialiio dc nossa ncnic. Por csia razao
ccnsuro cssa figura da Europa cn quc csia
316
aparccc consiiiuída por una nuliidao dc csfcras
÷ as naçõcs ÷ quc so nanicn alguns coniaios
c×icrnos. Esia nciafora dc jogador dc lilIar
dcvcria dcscspcrar ao lon pacifisia, porquc,
cono o lilIar, nao nos proncic nais
cvcniualidadc quc a ºcaranlola". Corrijano-la,
pois. En vcz dc nos afigurarnos as naçõcs
curopcias cono una scric dc socicdadcs livrcs,
inagincnos una socicdadc unica ÷ a Europa ÷,
dcniro da qual sc produziran grunos ou nuclcos
dc condcnsaçao nais inicnsa. Esia figura
corrcspondc nuiio nais apro×inadancnic quc a
ouira ao quc, con cfciio, foi a convivcncia
ocidcnial. Nao sc iraia con isso dc dcscnIar un
idcal, nas dc dar c×prcssao grafica ao quc
rcalncnic foi dcsdc a sua iniciaçao, apos a noric
do pcríodo ronano, cssa convivcncia(94i.
A convivcncia, iao soncnic, nao significa
socicdadc, vivcr cn socicdadc ou fornar paric dc
una socicdadc. Convivcncia inplica so rclaçõcs
cnirc indivíduos. Mas nao podc Iavcr convivcncia
duradoura c csiavcl scn quc sc produza
auionaiicancnic o fcnóncno social por
c×cclcncia, quc sao os usos ÷ usos iniclcciuais
ou ºopiniao pullica", usos dc iccnica viial ou
ºcosiuncs", usos quc dirigcn a conduia ou
ºnoral", usos quc a inpcran ou ºdirciio" ÷. O
caraicr gcral do uso consisic cn scr una norna
do conporiancnio ÷ iniclcciual, scniincnial ou
físico quc sc inpõc aos indivíduos, quciran ou
317
nao quciran. O indivíduo podcra, por sua conia c
risco, rcsisiir ao uso; nas prccisancnic csic
csforço dc rcsisicncia dcnonsira nclIor quc
nada a rcalidadc coaciiva do uso, o quc
cIanarcnos sua ºvigcncia". Pois lcn. una
socicdadc c un conjunio dc indivíduos quc
nuiuancnic sc salcn sulnciidos à vigcncia dc
ccrias opiniõcs c avaliaçõcs. Scgundo isio, nao Ia
socicdadc scn a vigcncia cfciiva dc ccria
conccpçao do nundo, a qual aiua cono una
uliina insiancia a quc sc podc rccorrcr cn casos
dc confliio.
A Europa icn sido scnprc un anliio social
uniiario, scn froniciras alsoluias ncn
dcsconiinuidadcs, porquc janais faliou cssc
fundo ou icsouro dc ºvigcncias colciivas" ÷
convicçõcs conuns c ialuas dc valorcs ÷
doiadas dcssa força coaciiva iao csiranIa cn quc
consisic ºo social". Nao scria nada c×agcrado
dizcr quc a socicdadc curopcia c×isic anics quc
as naçõcs curopcias, c quc csias nasccran c sc
dcscnvolvcran no rcgaço naicrnal daqucla. Os
inglcscs podcn vcr isio con alguna clarcza no
livro do Dawson. TIc Maling of Europc.
Iniroduciion io iIc Hisiory of Europcan Sociciy.
Enircianio, o livro dc Dawson c insuficicnic.
Esia cscriio por una ncnic alcria c agil, nas quc
nao sc lilcrou dc nodo conplcio do arscnal dc
concciios iradicionais na Iisioriografia, concciios
318
nais ou ncnos nclodranaiicos c níiicos quc
oculian, cn vcz dc rcvclar, as rcalidadcs
Iisioricas. Poucas coisas coniriluirian a
apaziguar o Iorizonic cono una Iisioria da
socicdadc curopcia, cnicndida cono acalo dc
aponiar; una Iisioria rcalisia, scn ºidcalizaçõcs".
Mas csic assunio nunca foi visio, porquc as
fornas iradicionais da oiica Iisiorica iapavan
csia rcalidadc uniiaria quc cIanci, scnsu siricio,
ºsocicdadc curopcia" c a suplaniavan por un
plural ÷ as naçõcs ÷, cono, por c×cnplo,
aparccc no iíiulo dc Fanlc. Hisioria dos povos
gcrnanicos c ronanicos. A vcrdadc c quc csscs
povos cn plural fluiuan cono ludiõcs dcniro do
unico cspaço social quc c a Europa. ºnclc sc
novcn, vivcn c sao". A Iisioria quc cu posiulo
nos coniaria as vicissiiudcs dcssc cspaço
Iunano c nos faria vcr cono scu índicc dc
socializaçao variou; cono, cn ocasiõcs, dcsccu
gravcncnic fazcndo icncr a cisao radical da
Europa c, solrciudo, cono a dosc dc paz cn cada
cpoca csicvc na razao dircia dcssc índicc. Esic
uliino aspccio c o quc nais nos inporia para as
afliçõcs aiuais.
A rcalidadc Iisiorica ou, nais vulgarncnic
diio, o quc succdc no nundo Iunano, nao c un
anonioado dc faios solios, nas quc possui una
csiriia anaionia c una clara csiruiura. Mais.
ialvcz c o unico no Univcrso quc icn por si
ncsno csiruiura, organizaçao. Tudo o nais por
319
c×cnplo, os fcnóncnos físicos ÷ carccc dcla. Sao
faios solios aos quais o físico icn quc invcniar
una csiruiura inaginaria. Mas cssa anaionia da
rcalidadc Iisiorica ncccssiia scr csiudada. Os
cdiioriais dos jornais c os discursos dc ninisiros
c dcnagogos nao nos dao noiícia dcla. Ouando a
csiudanos lcn, c possívcl diagnosiicar con ccria
prccisao o lugar ou csiraio do corpo Iisiorico
ondc a cnfcrnidadc radica. Havia no nundo una
anplíssina c poicnic socicdadc ÷ a socicdadc
curopcia ÷. A foro dc socicdadc, csiava
consiiiuída por una ordcn lasica dcvido à
cficicncia dc ccrias insiancias uliinas ÷ o crcdo
iniclcciual c noral da Europa ÷. Esia ordcn quc,
por lai×o dc iodas as suas supcrficiais
dcsordcns, aiuava nas canadas profundas do
Ocidcnic, irradiaran duranic gcraçõcs solrc o
rcsio do plancia, c pós nclc, cn naior ou ncnor
cscala, ioda a ordcn dc quc cssc rcsio cra capaz.
Pois lcn. nada Iojc dcvcria inporiar ianio
ao pacifisia cono avcriguar quc c o quc aconiccc
ncssas canadas profundas do corpo ocidcnial,
qual c scu índicc aiual dc socializaçao, por quc sc
volaiilizou o sisicna iradicional dc ºvigcncias
colciivas", c sc, a dcspciio das aparcncias,
conscrva alguna dcsias laicnic vivacidadc.
Porquc o dirciio c opcraçao csponianca da
socicdadc, nas a socicdadc c convivcncia sol
insiancias. Podcria aconicccr quc Iojc cn dia
faliasscn cssas insiancias cn una proporçao
320
scn c×cnplo, ao longo dc ioda a Iisioria
curopcia. Ncsic caso a cnfcrnidadc scria a nais
gravc quc sofrcu o Ocidcnic dcsdc Dioclcciano ou
os Scvcros. Isso nao qucr dizcr quc scja
incuravcl; qucr so dizcr quc fora ncccssario
cIanar ncdicos oiinos c nao qualqucr
iranscunic. Oucr dizcr, solrciudo, quc nao sc
podc cspcrar rcncdio algun da Socicdadc das
Naçõcs, confornc foi c coniinua scndo, insiiiuio
anii-Iisiorico quc un naldizcnic podcria supor
invcniado cn un clulc cujos ncnlros principais
fosscn M. Piclwicl, M. Honais c congcncrcs.
O anicrior diagnosiico, indcpcndcnic dc quc
scja accriado ou crrónco, parcccra alsiruso. E o
c, con cfciio. Eu o lancnio, nas nao csia cn
nin cviia-lo. Tanlcn os diagnosiicos nais
rigorosos da ncdicina aiual sao alsirusos. Ouc
profano, ao lcr un fino c×anc dc sanguc, vc ali
dcfinida una icrrívcl cnfcrnidadc? Esforcci-nc
scnprc cn conlaicr o csoicrisno, quc c por si
un dos nalcs do nosso icnpo. Mas nao forjcnos
ilusõcs. Ha un scculo, por causas profundas, c,
cn paric, rcspciiavcis, as cicncias dcrivan
irrcsisiivclncnic cn dircçao csoicrica. É una das
nuiias coisas cuja gravc inporiancia os políiicos
nao soulcran vcr, cnlora acIacados do vício
oposio, quc c un c×ccssivo c×oicrisno. Por
cnquanio nao Ia scnao acciiar a siiuaçao c
rcconIcccr quc o conIccincnio disianciou-sc
radicalncnic das convcrsaçõcs dc lccr-iallc.
321
A Europa csia Iojc dissocializada, ou, o quc c
o ncsno, falian princípios dc convivcncia quc
scjan vigcnics c a quc caila rccorrcr. Una paric
da Europa csforça-sc cn fazcr iriunfar uns
princípios quc considcra ºnovos", a ouira csforça-
sc cn dcfcndcr os iradicionais. Ora lcn, csia c a
nclIor prova dc quc ncn uns ncn os ouiros sao
vigcnics c pcrdcran ou nao alcançaran a viriudc
dc insiancias. Ouando una opiniao ou norna
cIcgou a scr dc vcrdadc ºvigcncia colciiva", nao
rccclc scu vigor do csforço scnao inpó-la ou
susicnia-la cnprcgan grupos dcicrninados
dcniro da socicdadc. Pclo conirario. iodo grupo
dcicrninado procura sua na×ina forialcza
rcclanando para si cssas vigcncias. No noncnio
cn quc c prcciso luiar cn prol dc un princípio,
qucr dizcr quc csic nao c ainda ou dci×ou dc scr
vigcnic. Vicc-vcrsa, quando c con plcniiudc
vigcnic, Ia soncnic quc usa-lo, rcfcrir-sc a clc,
anparar-sc nclc, cono sc faz con a lci dc
gravidadc. As vigcncias opcran scu nagico
influ×o scn polcnica ncn agiiaçao, quicias c
jaccnics no fundo das alnas, às vczcs scn quc
csias sc apcrcclan dc quc csiao doninadas por
clas, c às vczcs crcndo inclusivc quc conlaicn
conira clas. O fcnóncno c surprccndcnic, nas c
inqucsiionavcl c consiiiui o faio fundancnial da
socicdadc. As vigcncias sao o auicniico podcr
social, anónino, inpcssoal, indcpcndcnic dc iodo
grupo ou indivíduo dcicrninado.
322
Mas, invcrsancnic, quando una idcia pcrdcu
cssc caraicr dc insiancia colciiva, produz una
inprcssao cnirc cónica c inquicianic vcr quc
algucn considcra suficicnic aludir a cla para sc
scniir jusiificado ou forialccido. Ora lcn. isio
aconiccc ainda Iojc, con c×ccssiva frcqucncia, na
Inglaicrra c na Ancrica do Noric(95i. Ao advcrii-lo,
ficanos pcrplc×os. Esia conduia significa crro, ou
una ficçao dclilcrada? É inoccncia ou c iaiica?
Nao salcnos a quc nos aicr, porquc no Ioncn
anglo-sa×ao a funçao dc sc c×prcssar, dc ºdizcr",
ialvcz rcprcscnic un papcl difcrcnic quc nos
dcnais povos curopcus. Mas, scja un ou ouiro o
scniido dcssc conporiancnio, icno quc scja
funcsio para o pacifisno. Mais ainda, icria dc vcr
sc nao foi un dos faiorcs quc coniriluíran ao
dcsprcsiígio das vigcncias curopcias o pcculiar
uso quc dclas icn fciio a Inglaicrra. A qucsiao
dcvcra algun dia scr csiudada a fundo, nas nao
agora ncn por nin(96i.
Isso c quc o pacifisia prccisa conprccndcr, dc
quc sc cnconira cn un nundo ondc falia ou csia
nuiio dcliliiado o rcquisiio principal para a
organizaçao da paz. No iraio dc uns povos con
ouiros nao calc rccorrcr a insiancias supcriorcs,
porquc nao as Ia. A ainosfcra dc socialilidadc
cn quc fluiuavan c quc, inicrposia, cono un
cicr lcncfico cnirc clcs, lIcs pcrniia conunicar
suavcncnic, aniquilou-sc. Fican, pois, scparados
c frcnic a frcnic. Enquanio, Ia irinia anos, as
323
froniciras cran para o viajor pouco nais quc
coluros inaginarios, iodos vinos cono ian
rapidancnic cndurcccndo-sc, convcricndo-sc cn
naicria cornca, quc anulava a porosidadc das
naçõcs c as iornava Icrnciicas. A pura vcrdadc c
quc, Ia anos, a Europa sc cnconira cn csiado dc
gucrra, cn un csiado dc gucrra
sulsiancialncnic nais radical quc cn iodo o scu
passado. E a origcn quc airilui a csia siiuaçao
parccc-nc confirnado pclo faio dc quc nao
soncnic c×isic una gucrra viriual cnirc os povos,
nas dcniro dc cada povo Ia, dcclarada ou
prcparando-sc, una gravc discordia. É frívolo
inicrprciar os rcgincs auioriiarios do dia cono
cngcndrados pclo capricIo ou pcla iniriga. Dcn
claro csia quc sao nanifcsiaçõcs iniludívcis do
csiado dc gucrra civil cn quc quasc iodos os
paíscs sc cnconiran Iojc. Agora sc vc cono a
cocsao inicrna dc cada naçao sc nuiria cn loa
paric das vigcncias colciivas curopcias.
Esia dcliliiaçao suliianca da conunidadc
cnirc os povos do Ocidcnic cquivalc a un cnornc
disianciancnio noral. O iraio cnirc clcs c
dificílino. Os princípios conuns consiiiuían una
cspccic dc linguagcn quc lIcs pcrniiia cnicndcr-
sc. Nao cra, pois, iao ncccssario quc cada povo
conIcccssc lcn a singulaiin a cada un dos
dcnais. Mas con isio frisanos a linIa dc nossas
considcraçõcs iniciais.
324
Porquc cssc disianciancnio noral sc
conplica pcrigosancnic con ouiro fcnóncno
oposio, quc c o quc inspirou dc nodo concrcio
iodo csic ariigo. Fcfiro-nc a un giganicsco faio,
cujas caracicrísiicas convcn prccisar un pouco.
Ha quasc ncio scculo fala-sc dc quc os novos
ncios dc conunicaçao ÷ dcslocancnio dc
pcssoas, iransfcrcncia dc produios c iransnissao
dc noiícias ÷ apro×inaran os povos c unificaran
a vida no plancia. Mas cono scnprc aconiccc,
cssa opiniao cra un c×agcro. Ouasc scnprc as
coisas Iunanas concçan por scr lcndas, c so
nais iardc sc convcricn cn rcalidadcs. Ncsic
caso, csia visio clarancnic Iojc quc sc iraiava so
dc una cniusiasia aniccipaçao. Alguns dos ncios
quc Iavian dc iornar cfciiva cssa apro×inaçao
c×isiian ja cn princípio ÷ vaporcs, fcrrocarris,
iclcgrafo, iclcfonc ÷. Mas ncn sc Iavia ainda
apcrfciçoado sua invcnçao ncn sc Iavian posio
anplancnic cn scrviço, ncn scqucr sc Iavian
invcniado os nais dccisivos, cono sao o noior a
c×plosao c a radio-conunicaçao. O scculo XIX,
cnocionado anic as princiras grandcs conquisias
da iccnica cicniífica, aprcssou-sc a cniiir
iorrcnics dc rciorica solrc os ºavanços", o
ºprogrcsso naicrial", cic. Dc ial soric quc, afinal,
as alnas concçaran a sc cansar dcsscs lugarcs
conuns, cnlora os acciiasscn cono vcrídicos,
isio c, ainda quc Iavian cIcgado a pcrsuadir-sc
dc quc o scculo XIX Iavia, con cfciio, rcalizado ja
325
o quc aqucla frascologia proclanava. Isio
ocasionou un curioso crro dc oiica Iisiorica quc
inpcdc a conprccnsao dc nuiios confliios aiuais.
Convcncido o Ioncn ncdio dc quc a ccniuria
anicrior cra a quc Iavia dado cunc aos grandcs
cnprccndincnios, nao sc apcrcclcu dc quc a
cpoca scn par dos invcnios iccnicos c dc sua
rcalizaçao foran os uliinos quarcnia anos. O
nuncro c inporiancia dos dcscolrincnios, c o
riino dc scu cfciivo cnprcgo ncssa lrcvíssina
ciapa, supcra cn nuiio iodo o prcicriio Iunano
ionado cn conjunio. Oucr dizcr, quc a cfciiva
iransfornaçao iccnica do nundo c un faio
rcccniíssino, c quc cssa nudança csia
produzindo agora ÷ agora c nao dc Ia un scculo
÷ suas conscqucncias radicais(97i. E isso cn
iodas as ordcns. Nao poucos dos profundos
dcsajusics na ccononia aiual advcn da suliia
nudança quc causaran na produçao csics
invcnios, nudança à qual nao icvc icnpo dc sc
adapiar o organisno cconónico. Ouc una so
falrica scja capaz dc produzir iodas as lanpadas
clciricas ou iodos os sapaios dc quc ncccssiia
ncio coniincnic c un faio dcnasiado aforiunado
para nao scr, cnircianio, nonsiruoso. Isso
ncsno aconicccu con as conunicaçõcs. Scn
iardança c dc vcrdadc, ncsics uliinos anos
rccclc cada povo, a icnpo c Iora, ial quaniidadc
dc noiícias c iao rcccnics solrc o quc sc passa
nos ouiros, quc provocou nclc a ilusao dc quc,
326
con cfciio, csia cn os ouiros povos ou cn sua
alsoluia incdiaçao. Diio dc ouiro nodo. para os
cfciios da vida pullica univcrsal, o iananIo do
nundo suliiancnic sc coniraiu, rcduziu-sc. Os
povos sc cnconiran dc inproviso dinanicancnic
nais pro×inos. E isio aconiccc prccisancnic na
Iora cn quc os povos curopcus nais sc
disianciaran noralncnic.
Nao advcric o lciior, dc sopciao, o pcrigoso dc
scnclIanic conjuniura? Salido c quc o scr
Iunano nao podc, scn nais ncn ncnos,
apro×inar-sc a ouiro scr Iunano. Cono vinos
dc una das cpocas Iisioricas cn quc a
apro×inaçao cra aparcnicncnic nais facil,
icndcnos a csqucccr quc scnprc foran nisicr
grandcs prccauçõcs para apro×inar-sc dcssa fcra
con vclcidadcs dc arcanjo quc cosiuna scr o
Ioncn. Por isso corrc ao longo dc ioda a Iisioria
a cvoluçao da iccnica da apro×inaçao, cuja paric
nais noioria c visívcl c a saudaçao. Talvcz, con
ccrias rcscrvas, pudcssc dizcr-sc quc as fornas
da saudaçao sao funçao da dcnsidadc dc
povoaçao, porianio, da disiancia nornal a quc
csiao uns Ioncns dos ouiros. No Saara cada
iuarcguc possui un raio cspacial quc alcança
lasianics nilIas. A saudaçao do iuarcguc
concça a ccn jardas c dura ircs quarios dc Iora.
Na CIina c no Japao, povos pululanics, ondc os
Ioncns vivcn, por assin dizcr, cnpilIados, nariz
conira nariz, cn conpacio forniguciro, a
327
saudaçao c o iraio conplicaran-sc na nais suiil
c conplc×a iccnica dc coricsia; iao rcfinada, quc
ao c×ircno oricnial lIc produz o curopcu a
inprcssao dc scr un grossciro c insolcnic, con
qucn, a rigor, so o conlaic c possívcl. Ncssa
pro×inidadc supcrlaiiva iudo c fcridor c pcrigoso.
aic os prononcs pcssoais sc convcricn cn
inpcriincncias. Por isso o japoncs cIcgou a
c×clui-los dc scu idiona, c cn vcz dc ºiu" dira
algo assin cono ºa naravilIa prcscnic", c cn
lugar dc ºcu" fara un salanalcquc c dira ºa
niscria quc Ia aqui".
Sc una sinplcs nudança da disiancia cnirc
dois Ioncns conporia scnclIanics riscos,
inagincn-sc os pcrigos quc cngcndra sua suliia
apro×inaçao cnirc os povos, solrcvinda nos
uliinos quinzc ou vinic anos. Eu crcio quc nao sc
rcparou dcvidancnic ncsic novo faior c quc urgc
prcsiar-lIc aicnçao.
Tcn sc falado nuiio csics ncscs da
inicrvcnçao ou nao-inicrvcnçao dc uns Esiados
na vida dc ouiros paíscs. Mas nao sc falou, ao
ncnos con suficicnic cnfasc, da inicrvcnçao quc
c×crcc Iojc dc faio a opiniao dc unas naçõcs na
vida dc ouiras, às vczcs nui rcnoias. E csia c
Iojc, a ncu juízo, nuiio nais gravc quc aqucla.
Porquc o Esiado c, afinal das conias, un orgao
rclaiivancnic ºracionalizado" dcniro dc cada
socicdadc. Suas aiuaçõcs sao dclilcradas c
328
dosificadas pcla voniadc dos indivíduos
dcicrninados ÷ os Ioncns políiicos ÷, aos quais
nao podc faliar un nínino dc rcflc×ao c scniido
dc rcsponsalilidadc. Mas a opiniao dc iodo un
povo ou dc grandcs grupos sociais c un podcr
clcncniar, irrcflc×ivo c irrcsponsavcl, quc
adcnais ofcrccc, indcfcso, sua incrcia ao influ×o
dc iodas as inirigas. Isso nao olsianic, a opiniao
pullica scnsu siricio dc un país, quando opina
solrc a vida dc scu proprio país icn scnprc
ºrazao" no scniido dc quc nunca c incongrucnic
con as rcalidadcs quc ajuíza. A causa disso c
olvia. As rcalidadcs quc ajuíza sao o quc
cfciivancnic passou o ncsno sujciio quc as
ajuíza. O povo inglcs, ao opinar solrc as grandcs
qucsiõcs quc afcian sua naçao, opina solrc faios
quc lIc aconicccran, quc c×pcrincniou cn sua
propria carnc c cn sua propria alna, quc vivcu c,
cn suna, sao clc ncsno. Cono vai, no csscncial,
cquivocar-sc? A inicrprciaçao douirinal dcsscs
faios podcra dar oporiunidadc às naiorcs
divcrgcncias icoricas, c csias susciiar opiniõcs
pariidisias susicniadas por grupos pariicularcs;
nas, por lai×o dcssas discrcpancias ºicoricas", os
faios insofisiicavcis, gozados ou sofridos pcla
naçao, prccipiian ncsia una ºvcrdadc" viial, quc
c a rcalidadc Iisiorica ncsna c icn un valor c
una força supcriorcs a iodas as douirinas. Esia
ºrazao" ou ºvcrdadc" vivcnics, quc, cono airiluio,
icnos dc rcconIcccr a ioda auicniica ºopiniao
329
pullica" consisic, cono sc vc, cn sua
congrucncia. Diio con ouiras palavras olicnos
csia proposiçao. c na×inancnic inprovavcl quc
cn assunios gravcs dc scu país a ºopiniao
pullica" carcça da infornaçao nínina ncccssaria
para quc scu juízo nao corrcsponda
organicancnic à rcalidadc julgada. Padcccra
crros sccundarios c dc dcialIc, nas ionada con
aiiiudc nicroscopica nao c vcrossínil quc scja
una rcaçao incongrucnic con a rcalidadc
inorganica a rcspciio dcla c, por conscguinic,
io×ica.
Esiriiancnic o conirario aconiccc quando sc
iraia da opiniao dc un país solrc o quc aconiccc
cn ouiro. É na×inancnic provavcl quc cssa
opiniao suria cn alio grau incongrucnic. O povo
A pcnsa c opina, la do fundo dc suas proprias
c×pcricncias viiais, quc sao difcrcnics das do
povo D. Podc lcvar isio a ouira coisa quc nao o
jogo dos dcsproposiios? Eis aqui, pois, a princira
causa dc una incviiavcl incongrucncia, quc so
podcria conirariar ncdianic una coisa nuiio
difícil, a salcr. una infornaçao suficicnic. Cono
aqui falia a ºvcrdadc" do vivido, Iavcria quc
sulsiiiui-la por una vcrdadc dc conIccincnio.
Ha un scculo nao inporiava quc o povo dos
Esiados Unidos sc pcrniiissc icr una opiniao
solrc o quc aconiccia na Crccia, c quc cssa
opiniao csiivcssc nal infornada. Enquanio o
330
Covcrno ancricano nao aiuassc, cssa opiniao cra
inopcranic solrc os dcsiinos da Crccia. O nundo
cra cniao ºnaior", ncnos conpacio c clasiico. A
disiancia dinanica cnirc povo c povo c iao
grandc, quc, ao airavcssa-la, a opiniao
incongrucnic pcrdia io×idcz(98i. Mas, ncsics
uliinos anos, os povos cniraran nuna c×ircna
pro×inidadc dinanica, c a opiniao, por c×cnplo,
dc grandcs grupos sociais noric-ancricanos csia
inicrvindo, dc faio ÷ dirciancnic cono ial
opiniao, c nao scu Covcrno ÷ na gucrra civil
cspanIola. O ncsno digo da opiniao inglcsa.
Nada nais longc dc ninIa prcicnsao quc
ioda inicnçao dc podar o arlíirio a inglcscs c
ancricanos, discuiindo scu ºdirciio" a opinar
quanio csiincn solrc quanio lIcs apraza. Nao c
qucsiao dc ºdirciio" ou da dcsprczívcl frascologia
quc soi anparar-sc ncssc iíiulo. c una qucsiao,
sinplcsncnic, dc lon scniido. Susicnia quc a
ingcrcncia da opiniao pullica dc uns paíscs na
vida dos ouiros c Iojc un faior inpcriincnic,
vcncnoso c gcrador dc pai×õcs lclicas, porquc
cssa opiniao nao csia ainda rcgida por una
iccnica adcquada à iroca dc disiancia cnirc os
povos. Tcra o inglcs ou o ancricano iodo o dirciio
quc cnicnda para opinar solrc o quc passou c
dcvc aconicccr na EspanIa, nas cssc dirciio c
una injuria c nao sc acciia una olrigaçao
corrcspondcnic. a dc csiar lcn infornado solrc
a rcalidadc da gucrra civil cspanIola, cujo
331
princiro c nais sulsiancial capíiulo c sua
origcn, as causas quc a produziran.
Mas aqui c ondc os ncios aiuais dc
conunicaçao produzcn scus cfciios; dcsdc logo,
daninIos. Porquc a quaniidadc dc noiícias quc
consianicncnic rccclc un povo solrc o quc
succdc cn ouiro c cnornc. Cono scra facil
pcrsuadir ao Ioncn inglcs dc quc nao csia
infornado solrc o fcnóncno Iisiorico quc c a
gucrra civil cspanIola ou ouira cncrgcncia
analoga? Salc quc os jornais inglcscs gasian
sonas foriíssinas cn susicniar corrcspondcnics
dcniro dc iodos os paíscs. Salc quc, ainda quc
cnirc csscs corrcspondcnics nao poucos c×crccn
scu ofício dc nancira apai×onada c pariidisia, Ia
nuiios ouiros cuja inparcialidadc c
inqucsiionavcl c cuja c×aiidao cn iransniiir
dados c×aios nao c facil dc supcrar. Tudo isio c
vcrdadc, c porquc o c, c pcrigoso(99i. Pois c o caso
quc sc o Ioncn inglcs rcncnora nun lancc
d'olIos cnconirara quc aconicccran no nundo
coisas dc gravc inporiancia para a Inglaicrra, c
quc a surprccndcran. Cono na Iisioria nada dc
algun rclcvo aconiccc dc rcpcnic, nao scria
c×ccssiva suspicacia no Ioncn inglcs adniiir a
Iipoicsc dc quc csia nuiio ncnos infornado do
quc supõc crcr, ou quc cssa infornaçao iao
copiosa sc conpõc dc dados c×icrnos, scn fina
pcrspcciiva, cnirc os quais cscapolc o nais
auicniicancnic rcal da rcalidadc. O c×cnplo nais
332
claro disio, por suas fornidavcis dincnsõcs, c o
faio giganicsco quc scrviu a csic ariigo dc ponio
dc pariida. o fracasso do pacifisno inglcs, dc
vinic anos dc políiica inicrnacional inglcsa. Diio
fracasso dcclara csirondosancnic quc o povo
inglcs ÷ apcsar dc scus inuncros
corrcspondcnics ÷ salia pouco do quc rcalncnic
csiava aconicccndo nos dcnais povos.
Fcprcscnicno-nos csqucnaiicancnic, a fin
dc cnicndc-la lcn, a conplicaçao do proccsso
quc icn lugar. As noiícias quc o povo A rccclc do
povo D susciian nclc un csiado dc opiniao ÷
scja dc anplos grupos ou dc iodo o país ÷. Mas
cono cssas noiícias cIcgan Iojc con supcrlaiiva
rapidcz, alundancia c frcqucncia, cssa opiniao
nao sc nanicn nun plano nais ou ncnos
ºconicnplaiivo", cono Ia un scculo, nas,
irrcncdiavclncnic, solrccarrcga-sc dc inicnçõcs
aiivas c adoia incdiaiancnic un caraicr dc
inicrvcnçao. Scnprc Ia, alcn disso, iniriganics
quc, por noiivos pariicularcs, sc ocupan
dclilcradancnic cn fusiiga-la. Vicc-vcrsa, o povo
D rccclc ianlcn con alundancia, rapidcz c
frcqucncia noiícias dcssa opiniao rcnoia, dc scu
ncrvosisno, dc scus novincnios c icn a
inprcssao dc quc o csiranIo, con iniolcravcl
inpcriincncia, invadiu scu país, quc csia ali,
quasc prcscnic, aiuando. Mas csia rcaçao dc
alorrccincnio nuliiplica-sc aic à c×aspcraçao
porquc o povo D advcric ao ncsno icnpo a
333
incongrucncia cnirc a opiniao A c o quc cn D,
cfciivancnic, aconicccu. Ja c irriianic quc o
pro×ino prcicnda inicrvir cn nossa vida, nas sc
alcn disso rcvcla ignorar conplciancnic nossa
vida, sua audacia provoca cn nos frcncsi.
Enquanio cn Madri os conunisias c scus
afins olrigavan, sol as nais gravcs ancaças,
cscriiorcs c profcssorcs a assinar nanifcsios, a
falar nas radios, cic., conodancnic scniados cn
scus cscriiorios ou cn scus clulcs, iscnios dc
ioda prcssao, alguns dos principais cscriiorcs
inglcscs assinavan ouiro nanifcsio ondc sc
garaniia quc csscs conunisias c scus afins cran
os dcfcnsorcs da lilcrdadc. Eviicnos os
cspavcnios c as frascs, nas pcrniia-sc-nc
convidar o lciior inglcs a quc inaginc qual podc
scr ncu princiro novincnio anic scnclIanic
faio, quc oscila cnirc o groicsco c o iragico.
Porquc nao c facil cnconirar naior incongrucncia.
Fclizncnic, cuidci duranic ioda ninIa vida dc
noniar cn ncu aparclIo psico-físico un sisicna
nuiio foric dc iniliçõcs c dc frcios ÷ ialvcz a
civilizaçao nao scja ouira quc cssa noniagcn ÷
c, alcn disso, cono dizia Danic.
cIc saciia prcvisa vicn piu lcnia,
nao coniriluiu a dcliliiar ninIa surprcsa.
Ha nuiios anos quc nc ocupo cn fazcr noiar a
frivolidadc c a irrcsponsalilidadc frcqucnics no
334
iniclcciual curopcu, quc dcnuncici cono un faior
dc princira grandcza cnirc as causas da prcscnic
dcsordcn. Mas csia nodcraçao quc por soric
posso osicniar, nao c ºnaiural". O naiural scria
quc cu csiivcssc agora cn gucrra apai×onada
conira csscs cscriiorcs inglcscs. Por isso c un
c×cnplo concrcio do nccanisno lclicoso quc
criou o nuiuo dcsconIccincnio cnirc os povos.
Ha uns dias, Allcrio Einsicin acrcdiiou icr
ºdirciio" a opinar solrc a gucrra civil cspanIola c
ionar posscssao anic cla. Ora lcn, Allcrio
Einsicin usufrui una ignorancia radical solrc o
quc aconiccc na EspanIa agora, Ia scculos c
scnprc. O cspíriio quc o lcva a csia insolcnic
inicrvcnçao c o ncsno quc Ia nuiio icnpo vcn
causando o dcsprcsiígio univcrsal do Ioncn
iniclcciual, quc, por sua vcz, faz con quc o
nundo va à dcriva, falio dc pouvoir spiriiucl.
Noic-sc quc falo da gucrra civil cspanIola
cono un c×cnplo cnirc nuiios, o c×cnplo quc
nais c×aiancnic nc consia, c nc rcduzo a
procurar quc o lciior inglcs adniia por un
noncnio a possililidadc dc quc nao csia lcn
infornado, a dcspciio dc suas copiosas
ºinfornaçõcs". Talvcz isio o nova a corrigir scu
insuficicnic conIccincnio das dcnais naçõcs,
suposio o nais dccisivo para quc no nundo volic
a rcinar una ordcn.
335
Mas cis aqui ouiro c×cnplo nais gcral. Ha
pouco, o Congrcsso do Pariido Lalorisia
rccIaçou, por 2.100.000 voios conira 300.000, a
uniao con os conunisias, qucr dizcr, a fornaçao
na Inglaicrra dc una ºFrcnic Popular". Mas cssc
ncsno pariido c a nassa dc opiniao quc
pasiorcia ocupan-sc cn favorcccr c foncniar, do
nodo nais concrcio c cficaz, a ºFrcnic Popular"
quc sc fornou cn ouiros paíscs. Dci×o iniacia a
qucsiao dc sc una ºFrcnic Popular" c una coisa
lcncfica ou caiasirofica, c nc rcduzo a confroniar
dois conporiancnios dc un ncsno grupo dc
opiniao, c a sullinIar sua nociva incongrucncia.
A difcrcnça nuncrica na voiaçao c daquclas
difcrcnças quaniiiaiivas quc, scgundo Hcgcl, sc
convcricn auionaiicancnic cn difcrcnças
qualiiaiivas. Essas cifras nosiran quc, para o
lloco do Pariido Lalorisia, a uniao con o
conunisno, a ºFrcnic Popular", nao c una
qucsiao dc nais ou dc ncnos, nas quc a
considcrarian cono una docnça icrrívcl para a
naçao inglcsa. Mas c o caso quc, ao ncsno
icnpo, cssc ncsno grupo dc opiniao sc ocupa cn
culiivar cssc ncsno nicrolio cn ouiros paíscs, c
isio c una inicrvcnçao, nais ainda, podcria dizcr-
sc quc c una inicrvcnçao gucrrcira, posio quc
icn nao poucos caracicrcs da gucrra quínica.
Enquanio sc produzan fcnóncnos cono csic,
iodas as cspcranças dc quc a paz rcinc no nundo
sao, rcpiio, pcnas dc anor pcrdidas. Porquc cssa
336
incongrucnic conduia, cssa duplicidadc da
opiniao lalorisia so irriiaçao podc inspirar fora
da Inglaicrra.
E nc parcccria vao oljciar quc cssas
inicrvcnçõcs irriian una paric do povo quc as
sofrc, nas conprazcn à ouira. Esia c una
olscrvaçao dcnasiado olvia para quc scja
vcrídica. A paric do país favorccida
noncniancancnic pcla opiniao csirangcira
procurara, claro csia, lcncficiar-sc dcssa
inicrvcnçao. Ouira coisa scria pura iolicc. Mas
por lai×o dcssa aparcnic c iransiioria graiidao
corrc o proccsso rcal do vivido pclo país iniciro. A
naçao acala por csialilizar-sc cn ºsua vcrdadc",
no quc cfciivancnic aconicccu, c anlos os
pariidos Iosiis coincidcn ncla, dcclarando-o ou
nao. Daí quc acalan por sc unir conira a
incongrucncia da opiniao csirangcira. Esia so
podc cspcrar agradccincnio pcrduravcl na
ncdida cn quc, por soric, accric ou scja ncnos
incongrucnic con cssa vivcnic ºvcrdadc". Toda
rcalidadc dcsconIccida prcpara sua vingança.
Nao ouira c a origcn das caiasirofcs na Iisioria
Iunana. Por isso scra funcsia ioda icniaiiva dc
dcsconIcccr quc un povo c, cono una pcssoa,
cnlora dc ouiro nodo c por ouiras razõcs, una
iniinidadc ÷ porianio, un sisicna dc scgrcdos
quc nao podc scr dcscolcrio, à-ioa, dc fora ÷.
Nao pcnsc o lciior cn nada vago ncn nísiico.
Tonc qualqucr funçao colciiva, por c×cnplo, a
337
língua. Dcn noiorio c quc suric praiicancnic
inpossívcl conIcccr iniinancnic un idiona
csirangciro por nuiio quc o csiudcnos. E nao
scra una inscnsaicz crcr coisa facil o
conIccincnio da rcalidadc políiica dc un país
csiranIo?
Susicnio, pois, quc a nova csiruiura do
nundo convcric os novincnios da opiniao dc un
país solrc o quc aconiccc cn ouiro ÷
novincnios quc anics cran quasc inocuos ÷ cn
auicniicas incursõcs. Isio lasiaria para c×plicar
por quc, quando as naçõcs curopcias parccian
nais pro×inas a una supcrior unificaçao,
concçaran rcpcniinancnic a fccIar-sc dcniro dc
si ncsnas, a Icrnciizar suas c×isicncias, unas
frcnic às ouiras, c a convcricr-sc as froniciras cn
cscafandros isoladorcs.
Eu crcio quc Ia aqui un novo prollcna dc
princira ordcn para a disciplina inicrnacional,
quc corrc paralclo ao do dirciio, vcrsado nais
acina. Cono anics posiulavanos una nova
iccnica jurídica, aqui rcclananos una nova
iccnica dc iraio cnirc os povos. Na Inglaicrra o
indivíduo aprcndcu a guardar ccrias cauiclas
quando sc pcrniic opinar solrc ouiro indivíduo.
Ha a lci do lilclo c Ia a fornidavcl diiadura das
ºloas nanciras". Nao Ia razao para quc nao sofra
analoga rcgulancniaçao a opiniao dc un povo
solrc ouiro.
338
Claro quc isio supõc csiar dc acordo solrc
un princípio lasico. Solrc csic. quc os povos,
quc as naçõcs c×isicn. Ora lcn. o vclIo c laraio
ºinicrnacionalisno", quc cngcndrou as prcscnics
angusiias, pcnsava, no fundo, o oposio.
NcnIuna dc suas douirinas ou aiuaçõcs c
conprccnsívcl sc nao sc dcscolrc cn sua raiz o
dcsconIccincnio do quc c una naçao c dc quc
isso quc sao as naçõcs consiiiui una fornidavcl
rcalidadc siiuada no nundo c con a qual Ia quc
coniar. Era un curioso inicrnacionalisno aquclc
quc cn suas conias csquccia scnprc o dcialIc dc
quc Ia naçõcs(100i.
Talvcz o lciior rcclanc agora una douirina
posiiiva. Nao icnIo inconvcnicnic cn dcclarar
qual c a ninIa, cnlora nc c×ponIa a iodos os
riscos dc una cnunciaçao csqucnaiica.
No livro TIc Fcvoli of iIc Masscs(101i, quc foi
lasianic lido cn língua inglcsa, propugno c
anuncio o advcnio dc una forna nais avançada
dc convivcncia curopcia, un passo à frcnic na
organizaçao jurídica c políiica dc sua unidadc.
Esia idcia curopcia c dc signo invcrso àquclc
alsiruso inicrnacionalisno. A Europa nao c, nao
scra, a inicr-naçao, porquc isso significa, cn
claras noçõcs dc Iisioria, un oco, un vazio c
nada. A Europa scra a ulira-naçao. A ncsna
inspiraçao quc fornou as naçõcs do Ocidcnic
coniinua aiuando no sulsolo con a lcnia c
339
silcnic prolifcraçao dos corais. O c×iravio
nciodico quc rcprcscnia o inicrnacionalisno
inpcdiu vcr quc so airavcs dc una ciapa dc
nacionalisno c×accrlados sc podc cIcgar à
unidadc concrcia c cIcia da Europa. Una nova
forna dc vida nao conscguc insialar-sc no
plancia aic quc a anicrior c iradicional nao sc
icnIa cnsaiado cn scu nodo c×ircno. As naçõcs
curopcias cIcgan agora a scus ponios cruciais c
a calcçada scra a nova inicgraçao da Europa.
Porquc c disso quc sc iraia. Nao dc laninar as
naçõcs, nas dc inicgra-las, dci×ando ao Ocidcnic
iodo scu rico rclcvo. Ncsia daia, cono acalo dc
insinuar, a socicdadc curopcia parccc
volaiilizada. Mas scria un crro crcr quc isio
significa scu dcsaparccincnio ou dcfiniiiva
dispcrsao. O csiado aiual dc anarquia c
supcrlaiiva dissociaçao na socicdadc curopcia c
una prova nais da rcalidadc quc csia possui.
Porquc sc isso aconiccc na Europa c porquc sofrc
una crisc dc sua fc conun, da fc curopcia, das
vigcncias cn quc sua socializaçao consisic. A
cnfcrnidadc por quc airavcssa c, pois, conun.
Nao sc iraia dc quc a Europa csia cnfcrna, nas
quc gozcn dc plcna saudc csias ou as ouiras
naçõcs, c quc, porianio, scja provavcl o
dcsaparccincnio da Europa c sua sulsiiiuiçao
por ouira forna dc rcalidadc Iisiorica ÷ por
c×cnplo. as naçõcs solias ou una Europa
oricnial dissociada aic à raiz dc una Europa
340
ocidcnial. Nada disio sc ofcrccc no Iorizonic ÷,
nas cono c conun c curopcia a cnfcrnidadc, sc-
lo-a ianlcn o rcsialclccincnio. Dcsdc ja, vira
una ariiculaçao da Europa cn duas fornas
difcrcnics dc vida pullica. a forna dc un novo
lilcralisno c a forna quc, con un nonc
inproprio, sc cosiuna cIanar dc ºioialiiaria". Os
povos ncnorcs adoiarao figuras dc iransiçao c
inicrncdiarias. Isio salvara a Europa. Mais una
vcz ficara paicnic quc ioda forna dc vida prccisa
dc sua aniagonisia. O ºioialiiarisno" salvara o
ºlilcralisno", dcsiilando solrc clc, dcpurando-o,
c graças a isso vcrcnos dcniro cn lrcvc un novo
lilcralisno icnpcrar os rcgincs auioriiarios. Esic
cquilílrio nccanico c provisorio pcrniiira una
nova ciapa dc nínino rcpouso, inprcscindívcl
para quc volic a lroiar, no fundo dc losquc quc
as alnas possucn, o nanancial dc una nova fc.
Esia c o auicniico podcr dc criaçao Iisiorica, nas
nao nana no ncio da alicraçao, c sin no rccaio
do cnsinancnio.

Paris, dczcnlro, 1937.
341

DINÂMICA DO TEMPO
AS VITRINAS MANDAM

Dizcn quc o dinIciro c o unico podcr quc
aiua solrc a vida social. Sc olIanos a rcalidadc
con una oiica dc rciícula fina, a proposiçao c
nais falsa quc vcrídica. Mas icn ianlcn scus
dirciios a visao dc rciícula grossa, c cniao nao Ia
inconvcnicnic cn acciiar cssa icrrívcl scnicnça.
Enircianio, icríanos dc lIc iirar c lIc pór
alguns ingrcdicnics para quc a idcia fossc
luninosa. Pois aconiccc quc cn nuiias cpocas
Iisioricas sc falou o quc agora sc fala, c isio
convida a suspciiar ou quc nunca foi vcrdadc ou
quc o icn sido cn scniidos nui divcrsos. Porquc
c csiranIo quc icnpos solrcnodo difcrcnics
coincidan cn ponio iao principal. En gcral, nao
sc dcvc fazcr nuiio caso do quc as cpocas
passadas disscran dc si ncsnas, porquc ÷ c
forçoso dcclara-lo ÷ cran nui pouco inicligcnics
a rcspciio dc si. Esia pcrspicacia solrc o proprio
nodo dc scr, csia clarividcncia para o proprio
dcsiino c coisa rclaiivancnic nova na Iisioria.
No scculo VII anics dc Crisio corria ja por
iodo o Oricnic do Mcdiicrranco o apoicgna
342
fanoso. CIrcnaia, cIrcnaia ancr! ºScu dinIciro,
scu dinIciro c o Ioncn!" No icnpo dc Ccsar
dizia-sc o ncsno, no scculo XIV o põc cn
circulaçao nosso iurlulcnio ionsurado dc Hiia, c
no XVII, Cóngora faz disso lciras. Ouc
conscqucncia iiranos dcsia nonoiona
insisicncia? Ouc o dinIciro, dcsdc quc sc
invcniou, c una grandc força social? Isso nao cra
ncccssario sullinIar. scria una calinada. En
iodas csias lancniaçõcs insinua-sc algo nais.
Oucn as usa c×prcssa con clas, pclo ncnos, sua
surprcsa dc quc o dinIciro icnIa nais força da
quc dcvia icr. E dc ondc nos vcn cssa convicçao,
scgundo a qual o dinIciro dcvia icr ncnos
influcncia da quc cfciivancnic possui? Cono nao
nos Ialiiuanos ao faio consianic dcpois dc
ianios c ianios scculos, c quc scnprc nos colIc
dc surprcsa?
É, ialvcz, o unico podcr social quc ao scr
rcconIccido nos rcpugna. A propria força lruia
quc Ialiiualncnic nos indigna acIa cn nos un
cco uliino dc sinpaiia c csiina. Inciia-nos a
rccIaça-la criando una força paralcla, nas nao
nos inspira asco. Dir-sc-ia quc nos sullcvan
csics ou os ouiros cfciios da violcncia; porcn cla
ncsna nos parccc un siniona dc saudc, un
nagnífico airiluio do scr vivcnic, c
conprccndcnos quc o grcgo a divinizassc cn
Hcrculcs.
343
Eu crcio quc csia surprcsa, scnprc rcnovada,
anic o podcr do dinIciro cnccrra una porçao dc
prollcnas curiosos ainda nao aclarados. As
cpocas cn quc nais auicniicancnic c con nais
dolcnics griios sc lancniou cssc podcrio, sao,
cnirc si, nuiio difcrcnics. Enircianio, podc
dcscolrir-sc nclas una noia conun. sao scnprc
cpocas dc crisc noral, icnpos nuiio iransiiorios
cnirc duas ciapas. Os princípios sociais quc
rcgcran una idadc pcrdcran scu vigor c ainda
nao anadurcccran os quc vao inpcrar na
scguinic. Cono? Scra quc o dinIciro nao possui,
a rigor, o podcr quc, dcplorando-o, sc lIc airilui
c quc scu influ×o so c dccisivo quando os dcnais
podcrcs organizadorcs da socicdadc sc rciiraran?
Sc assin fossc cnicndcríanos un pouco nclIor
cssa csiranIa ncscla dc sulnissao c dc asco quc
anic clc scnic a Iunanidadc, cssa surprcsa c
cssa insinuaçao pcrcnc dc quc o podcr c×crcido
nao lIc corrcspondc. Pclo visio, nao o dcvc icr
porquc nao c scu, nas usurpado às ouiras forças
auscnics.
A qucsiao c solrciudo conplicada c nao podc
scr rcsolvida cn dois icnpos. So cono una
possililidadc dc inicrprciaçao vai iudo isio quc
digo. O inporianic c cviiar a conccpçao
cconónica da Iisioria, quc alIcia ioda a graça do
prollcna, fazcndo da Iisioria inicira una
nonoiona conscqucncia do dinIciro. Porquc c
dcnasiado cvidcnic quc cn nuiias cpocas
344
Iunanas o podcr social do dinIciro foi nuiio
rcduzido c ouiras cncrgias alIcias ao cconónico
infornaran a convivcncia Iunana. Sc Iojc os
judcus possucn o dinIciro c sao os donos do
nundo, ianlcn o possuían na Idadc Mcdia c
cran o c×crcncnio da Europa. Nao sc diga quc o
dinIciro nao cra a forna principal da riqucza, da
rcalidadc cconónica nos icnpos fcudais. Porquc,
ainda scndo isio vcrdadc c calilrando na dcvida
cifra o pcso purancnic cconónico do dinIciro na
dinanica da ccononia ncdicval, nao Ia
corrcspondcncia cnirc a riqucza daquclcs judcus
c sua posiçao social. Os nar×isias, para adular
as coisas scgundo a pauia dc sua icsc,
ncnosprczaran c×ccssivancnic a inporiancia da
nocda na ciapa prc-capiialisia da cvoluçao
cconónica, c foi ncccssario dcpois rcfazcr a
Iisioria cconónica daqucla idadc para nosirar a
inporiancia cfciiva quc nos Esiados ncdicvais
iinIa o dinIciro Iclrcu.
Ningucn, ncn o nais idcalisia, podc duvidar
da inporiancia quc o dinIciro icn na Iisioria,
nas ialvcz possa duvidar-sc dc quc scja un
podcr prinario c sulsianiivo. Talvcz o podcr
social nao dcpcndc nornalncnic do dinIciro,
nas, vicc-vcrsa, sc rcparic scgundo sc acIa
rcpariido o podcr social, c vai para o gucrrciro na
socicdadc lclicosa, nas vai para o saccrdoic na
icocraiica. O siniona dc un podcr social
auicniico c quc cria jcrarquias, quc scja clc qucn
345
dcsiaca o indivíduo no corpo pullico. Pois lcn.
no scculo XVI, por nuiio dinIciro quc iivcssc un
judcu, coniinuava scndo un infra-Ioncn, c no
icnpo dc Ccsar os ºcavalciros", quc cran os nais
ricos cono classc, nao asccndian ao cunc da
socicdadc.
Parccc o nais vcrossínil quc scja o dinIciro
un faior social sccundario, incapaz por si ncsno
dc inspirar a grandc arquiiciura da socicdadc. É
una das forças principais quc aiuan no
cquilílrio dc iodo ofício colciivo, nas nao c a
nusa dc scu csiilo icciónico. Pclo conirario, sc
ccdcn os vcrdadciros c nornais podcrcs
Iisioricos ÷ raça, rcligiao, políiica, idcias ÷, ioda
a cncrgia social vacanic c alsorvida por clc.
Diríanos, pois, quc quando sc volaiilizan os
dcnais prcsiígios rcsia scnprc o dinIciro, quc,
por scr clcncnio naicrial, nao podc volaiilizar-sc.
Ou, dc ouiro nodo. o dinIciro nao nanda nais
scnao quando nao Ia ouiro princípio quc nandc.
Assin sc c×plica cssa noia conun a iodas as
cpocas sulnciidas ao inpcrio crcnaiísiico quc
consisic cn scr icnpos dc iransiçao. Moria una
consiiiuiçao políiica c noral, fica a socicdadc scn
noiivo quc jcrarquizc os Ioncns. Ora lcn. isio c
inpossívcl. Conira a ingcnuidadc igualiiaria c
prcciso fazcr noiar quc a jcrarquizaçao c o
inpulso csscncial da socializaçao. Ondc Ia cinco
Ioncns cn csiado nornal produz-sc
346
auionaiicancnic una csiruiura jcrarquizada.
Oual scja o princípio dcsia c ouira qucsiao. Mas
algun icra dc c×isiir scnprc. Sc os nornais
falian, un pscudo princípio sc cncarrcga dc
nodclar a jcrarquia c dcfinir as classcs. Duranic
un noncnio ÷ o scculo XVII ÷ na Holanda, o
Ioncn nais invcjado cra aquclc quc possuía
ccria iulipa rara. A faniasia Iunana, fusiigada
por cssc insiinio irrcprinívcl dc jcrarquia, invcnia
scnprc algun novo icna dc dcsigualdadc.
Mas, ainda liniiando dc ial soric a frasc
inicial quc da ocasiao a csia noia, cu nc
pcrgunio sc Ia alguna razao para afirnar quc
cn nosso icnpo goza o dinIciro dc un podcr
social naior quc cn icnpo algun do passado.
Tanlcn csia curiosidadc c c×posia c difícil dc
saiisfazcr. Sc nos cnvaidcccnos, iudo quc
aconiccc cn nossa Iora parcccr-nos-a unico c
c×ccpcional na scric dos icnpos. Ha, cnircianio,
a ncu juízo, una razao quc da prolalilidadc
clara à suspciia dc scr nosso icnpo o nais
crcnaiísiico dc quanios foran. É ianlcn idadc
dc crisc. os prcsiígios Ia anos ainda vigcnics
pcrdcran sua cficicncia. Ncn a rcligiao ncn a
noral doninan a vida social ncn o coraçao da
nuliidao. A culiura iniclcciual c ariísiica c
avaliada ncnos quc Ia vinic anos. Fcsia so o
dinIciro. Mas, cono indiquci, isio aconicccu
varias vczcs na Iisioria. O novo, o c×clusivo do
prcscnic c csia ouira conjuniura. O dinIciro icvc,
347
para scu podcr, un liniic auionaiico cn sua
propria csscncia. O dinIciro c apcnas un ncio
para conprar coisas. Sc Ia poucas coisas para
conprar, por nuiio dinIciro quc Iaja c por nuiio
livrc quc sc cnconirc sua açao dc confliios con
ouiras poicncias, scu influ×o scra cscasso. Isio
nos pcrniic fornar una cscala con as cpocas dc
crcnaiisno c dizcr. o podcr social do dinIciro ÷
ccicris parilus ÷ scra ianio naior quanias nais
coisas Iaja para conprar, nao quanio naior scja
a quaniidadc do dinIciro ncsno. Ora lcn. nao
Ia duvida quc o indusirialisno nodcrno, cn sua
conlinaçao con os falulosos progrcssos da
iccnica, produziu ncsics anos un cunulo ial dc
oljcios ncrcavcis, dc ianias classcs c qualidadcs,
quc o dinIciro podc dcscnvolvcr faniasiicancnic
sua csscncia. o conprar.
No scculo XVIII c×isiian ianlcn grandcs
foriunas, nas Iavia pouco para conprar. O rico,
sc qucria algo nais quc o lrcvc rcpcriorio dc
ncrcadorias c×isicnic, iinIa dc invcniar un
apciiic c o oljcio quc o saiisfaria, iinIa dc luscar
o ariíficc quc o rcalizassc c dar icnpo a sua
falricaçao. En iodo csic inirincancnio
inicrcalado cnirc o dinIciro c oljcio conplicava-
sc aquclc con ouiras forças cspiriiuais ÷
faniasia criadora dc dcscjos no rico, sclcçao do
ariíficc, iralalIo iccnico dcsic, cic. ÷ dc quc sc
fazia, scn qucrcr, dcpcndcnic.
348
Agora un Ioncn cIcga a una cidadc c aos
quairo dias podc scr o nais fanoso c invcjado
Ialiianic dcla scn nais iralalIo quc passcar
anic as viirinas, cscolIcr os oljcios nclIorcs ÷ o
nclIor auionovcl, o nclIor cIapcu, o nclIor
isquciro, cic. ÷ c conpra-los. Calcria inaginar
un auiónaio provido dc un lolso cn quc
ncicssc nccanicancnic a nao c cIcgassc a scr o
pcrsonagcn nais ilusirc da urlc.
El Sol, 15 dc naio dc 1927.
349

JUVENTUDE
I

As variaçõcs Iisioricas nao proccdcn nunca
dc causas c×icrnas ao organisno Iunano, pclo
ncnos dcniro dc un ncsno pcríodo Iisiorico
zoologico. Sc Iouvc caiasirofcs icluricas ÷
diluvios, sulncrsao dc coniincnics, suliias
nudanças c×ircnas dc clina ÷, cono nos niios
nais arcaicos podc sc rccordar confusancnic, o
cfciio por clas produzido iransccndcu os liniics
do Iisiorico c iransiornou a cspccic cono ial. O
nais provavcl c quc o Ioncn nao assisiiu nunca
a scnclIanics caiasirofcs. A c×isicncia icn sido,
pclo visio, scnprc nuiio coiidiana. As nudanças
nais violcnias quc nossa cspccic conIcccu, os
pcríodos glaciais, nao iivcran caraicr dc grandc
cspciaculo. Dasia quc duranic algun icnpo a
icnpcraiura ncdia do ano dcsça cinco ou scis
graus para quc a glacializaçao sc produza. En
dcfiniiivo, quc os vcrõcs scjan un pouco nais
frcscos. A lcniidao c suavidadc dcsic proccsso da
icnpo a quc o organisno rcaja, c csia rcaçao dc
dcniro do organisno à nudança física do
coniorno, c a vcrdadcira variaçao Iisiorica.
Convcn alandonar a idcia dc quc o ncio,
nccanicancnic, nodclc a vida; porianio, quc a
350
vida scja un proccsso dc fora para dcniro. As
nodificaçõcs c×icrnas aiuan so cono c×ciianics
dc nodificaçõcs iniraorganicas; sao, a lcn dizcr,
pcrgunias quc o scr vivo rcspondc con una
anpla nargcn dc originalidadc inprcvisívcl.
Cada cspccic, c ncsno cada varicdadc, c ncsno
cada indivíduo, aproniara una rcsposia nais ou
ncnos difcrcnic, nunca idcniica. Vivcr, cn suna,
c una opcraçao quc sc faz dc dcniro para fora, c
por isso as causas ou princípios dc suas
variaçõcs dcvcn scr luscados no inicrior do
organisno.
Pcnsando assin, Iavia dc parcccr-nc
solrcnodo vcrossínil quc nos nais profundos c
anplos fcnóncnos Iisioricos aparcça, nais ou
ncnos claro, o dccisivo influ×o das difcrcnças
liologicas nais clcncniais. A vida c nasculina ou
fcninina, c jovcn ou c vclIa. Cono sc podc
pcnsar quc csics nodulos clcncniaríssinos c
divcrgcnics da viialidadc nao scjan giganicscos
podcrcs plasiicos da Iisioria? Foi, a ncu juízo,
un dos dcscolrincnios sociologicos nais
inporianics o quc sc fcz, vai para irinia anos,
quando sc advcriiu quc a organizaçao social nais
priniiiva nao c scnao a narca na nassa colciiva
dcssas grandcs caicgorias viiais. sc×os c idadcs.
A csiruiura nais priniiiva da socicdadc sc rcduz
a dividir os indivíduos quc a inicgran cn Ioncns
c nulIcrcs, c cada una dcsias classcs
sc×uais(102i cn ncninos, jovcns c vclIos, cn
351
classcs dc idadc. As fornas liologicas ncsnas
foran, por assin dizcr, as princiras insiiiuiçõcs.
Masculinidadc c fcninilidadc, juvcniudc c
scncciudc, sao duas parclIas dc poicncias
aniagónicas. Cada una dcsias poicncias significa
a nolilizaçao da vida ioda cn un scniido
divcrgcnic do quc possui sua coniraria. Vccn a
scr cono csiilos divcrsos do vivcr. E cono iodos
coc×isicn cn qualqucr insianic da Iisioria,
produz-sc cnirc clcs una colisao, un forccjar cn
quc cada qual icnia arrasiar, cn scu scniido,
ínicgra, a c×isicncia Iunana. Para conprccndcr
lcn una cpoca c prcciso dcicrninar a cquaçao
dinanica quc ncla dao cssas quairo poicncias, c
pcrguniar. Oucn podc nais? Os jovcns ou os
vclIos, qucr dizcr, os Ioncns naduros? O varonil
ou o fcninino? É solrcnancira inicrcssanic
pcrscguir nos scculos as dcslocaçõcs do podcr
para una ou a ouira dcssas poicncias. Eniao
advcric-sc o quc dc anicnao dcvia prcsunir-sc.
quc, scndo ríinica ioda vida, o c ianlcn a
Iisioria, c quc os riinos fundancniais sao
prccisancnic os liologicos; qucr dizcr, quc Ia
cpocas cn quc prcdonina o nasculino c ouiras
scnIorcadas pclos insiinios da fcninilidadc, quc
Ia icnpos dc jovcns c icnpos dc vclIos.
No scr Iunano a vida sc duplica porquc ao
inicrvir a conscicncia a vida prinaria sc rcflcic
ncla. c inicrprciada por cla cn forna dc idcia,
352
inagcn, scniincnio. E cono a Iisioria c, anics
dc iudo, Iisioria da ncnic, da alna, o
inicrcssanic scra dcscrcvcr a projcçao na
conscicncia dcsscs prcdonínios ríinicos. A luia
nisicriosa quc nanicn nas sccrcias oficinas do
organisno a juvcniudc c a scncciudc, a
nasculinidadc c a fcninilidadc, rcflcic-sc na
conscicncia sol a cspccic dc prcfcrcncias c
dcsdcns. CIcga una cpoca cn quc prcfcrc, quc
csiina nais as qualidadcs da vida jovcn, c
pospõc, dcscsiina as da vida nadura, ou lcn
acIa a graça na×ina nos nodos fcnininos dianic
dos nasculinos. Por quc aconicccn csias
variaçõcs da prcfcrcncia, às vczcs suliias? Eis
aqui una qucsiao solrc a qual nao podcnos
ainda dizcr una so palavra clara(103i.
O quc rcalncnic nc parccc cvidcnic c quc
nosso icnpo sc caracicriza pclo c×ircno
prcdonínio dos jovcns. É surprccndcnic quc cn
povos iao vclIos cono os nossos, c dcpois dc
una gucrra nais irisic quc Icroica, iona a vida
dc rcpcnic un aspccio dc iriunfanic juvcniudc.
Na rcalidadc, cono ianias ouiras coisas, csic
inpcrio dos jovcns vinIa sc prcparando dcsdc
1890, dcsdc o fin dc sicclc. Hojc dc un lugar,
ananIa dc ouiro, foran dcsalojadas a nadurcza
c a ancianidadc. cn scu oposio sc insialava o
Ioncn jovcn con scus pcculiarcs airiluios.
353
Eu nao sci sc csic iriunfo da juvcniudc scra
un fcnóncno passagciro ou una aiiiudc
profunda quc a vida Iunana ionou c quc
cIcgara a qualificar ioda una cpoca. E prcciso
quc passc algun icnpo para podcr avcniurar
csic prognosiico. O fcnóncno c dcnasiado
rcccnic c ainda nao sc podc vcr sc csia nova vida
in nodo juvcniuiis scra capaz do quc dcpois
dirci, scn o quc nao c possívcl a pcrduraçao dc
scu iriunfo. Mas sc fosscnos aicndcr so ao
aspccio do noncnio aiual, scrcnos forçados a
dizcr. icn Iavido na Iisioria ouiras cpocas cn
quc prcdoninaran os jovcns, nas nunca, cnirc
as lcn conIccidas,(104i o prcdonínio icn sido iao
c×ircnado c c×clusivo. Nos scculos classicos da
Crccia, a vida ioda organiza-sc cn iorno do cfclo,
nas junio a clc, c cono poicncia conpcnsaioria,
csia o Ioncn naduro quc o cduca c dirigc. A
parclIa Socraics-Alcilíadcs sinloliza nuiio lcn
a cquaçao dinanica dc juvcniudc c nadurcza
dcsdc o scculo V no icnpo dc Alc×andrc. O jovcn
Alcilíadcs iriunfa solrc a socicdadc, nas sol
condiçao dc scrvir ao cspíriio quc Socraics
rcprcscnia. Dcsic nodo, a graça c o vigor juvcnis
sao posios a scrviço dc algo acina dclcs, quc lIcs
scrvc dc norna, dc inciiaçao c dc frcio. Fona,
pclo conirario, prcfcrc o vclIo ao jovcn c
sulncic-sc à figura do scnador, do pai dc fanília.
O ºfilIo", cnircianio, o jovcn aiua scnprc dianic
do scnador cn forna dc oposiçao. Os dois noncs
354
quc cnuncian os pariidos da luia nuliissccular
aludcn a csia dualidadc dc poicncias. pairícios c
prolciarios. Anlos significan ºfilIos", uns sao
filIos dc pai cidadao, casado scgundo lci do
Esiado c por isso Icrdciros dc lcns, ao passo quc
o prolciario c filIo no scniido da carnc, nao c
filIo dc ºalgucn" rcconIccido, c ncro
dcsccndcnic c nao Icrdciro, prolc. (Cono sc vc a
iradiçao c×aia dc pairício scria fidalgoi.
Para acIar ouira cpoca dc juvcniudc cono a
nossa, scria prcciso dcsccr aic o Fcnascincnio.
Fcpassc o lciior rapidancnic a scric dc cpocas
curopcias. O ronaniicisno, quc con una ou
ouira inicnsidadc inprcgna iodo o scculo XIX,
podc parcccr cn sua iniciaçao un icnpo dc
jovcns. Ha nclc, cfciivancnic, una sulvcrsao
conira o passado c c un cnsaio dc sc afirnar a si
ncsna a juvcniudc. A Fcvoluçao fizcra ialua
rasa da gcraçao prcccdcnic c pcrniiiu duranic
quinzc anos quc ocupasscn iodas as cnincncias
sociais Ioncns nuiio noços. O jacolino c o
gcncral dc Donaparic sao rapazcs. Enircianio,
ofcrccc csic icnpo o c×cnplo dc un falso iriunfo
juvcnil, c o ronaniicisno pora dc nanifcsio sua
carcncia dc auicniicidadc. O jovcn rcvolucionario
c so o c×ccuior das vclIas idcias confcccionadas
nos dois scculos anicriorcs. O quc o jovcn afirna
cniao nao c a sua juvcniudc, nas princípios
rccclidos. nada iao rcprcscniaiivo cono
Folcspicrrc, o vclIo dc nascincnio. Ouando no
355
ronaniicisno sc rcagc conira o scculo XVIII c
para voliar a un passado nais aniigo, c os jovcns
ao olIar dcniro dc si so acIan inapcicncia viial.
E a cpoca dos llascs, dos suicídios, o ar
prcnaiurancnic caduco no andar c no scniir. O
jovcn iniia cn si o vclIo, prcfcrc suas aiiiudcs
faiigadas c aprcssa-sc a alandonar sua
nocidadc. Todas as gcraçõcs do scculo XIX
aspiraran a scr naduras o nais dcprcssa
possívcl c scniian una csiranIa vcrgonIa dc sua
propria juvcniudc. Conparc-sc con os jovcns
aiuais ÷ varõcs c fcncas ÷ quc icndcn a
prolongar iliniiadancnic sua nocidadc c sc
insialan ncla cono dcfiniiivancnic.
Sc danos un passo airas caínos no scculo
vicilloi por c×cclcncia, o XVIII, quc alonina dc
ioda qualidadc juvcnil, dcicsia o scniincnio c a
pai×ao, o corpo clasiico c nu. É o scculo do
cniusiasno pclos dccrcpiios, quc csircnccc ao
passo dc Voliairc, cadavcr vivcnic quc passa
sorrindo dc si ncsno no sorriso inuncravcl dc
suas rugas. Para c×ircnar ial csiilo dc vida fingc-
sc na calcça a ncvc da idadc, c a pcruca
cnpoada colrc ioda icsia prinavcril ÷ Ioncn
ou nulIcr ÷ con una suposiçao dc scsscnia
anos.
Ao cIcgar ao scculo XVIII ncsic viriual
proccsso icnos dc nos inicrrogar, ingcnuancnic
surprcsos. Para ondc foran os jovcns? Ouanio
356
valc ncsia idadc parccc icr quarcnia anos. o irajc,
o uso, os nodos, sao so adcquados à gcnic dcssa
idadc. Dc Ninon csiina-sc a nadurcza, nao a
confusa juvcniudc. Donina a ccniuria Dcscarics,
vcsiido à cspanIola, dc ncgro. Dusca-sc por ioda
a paric a raison c inicrcssa nais quc nada a
icologia. jcsuíias conira Janscnio. Pascal, o
garoio gcnial, c gcnial porquc aniccipa a
ancianidadc dos gcónciras.
El Sol, 9 dc junIo dc 1927.

II

Todo gcsio viial, ou c un gcsio dc donínio ou
un gcsio dc scrvidao. Tcriiun non daiur. O gcsio
dc conlaic quc parccc inicrpolar-sc cnirc anlos
pcricncc, a rigor, a un ou ouiro csiilo. A gucrra
ofcnsiva vai inspirada pcla scgurança na viioria c
aniccipa o donínio. A gucrra dcfcnsiva soi
cnprcgar iaiicas vis, porquc no fundo dc sua
alna o aiacado csiina nais quc a si ncsno o
ofcnsor. Esia c a causa quc dccidc un ou ouiro
csiilo dc aiiiudc.
O gcsio scrvil o c porquc o scr nao graviia
solrc si ncsno, nao csia scguro dc scu proprio
valor c cn iodo insianic vivc conparando-sc con
ouiros. Ncccssiia dclcs cn una ou ouira forna;
357
ncccssiia dc sua aprovaçao para sc iranquilizar,
quando nao dc sua lcncvolcncia c dc scu pcrdao.
Por isso o gcsio lcva scnprc una rcfcrcncia ao
pro×ino. Scrvir c cncIcr nossa vida dc aios quc
icn valor so porquc ouiro scr os aprova ou
aprovciia. Tcn scniido olIados da vida dcsic
ouiro scr, nao da nossa vida. E csia c, cn
princípio, a scrvidao. vivcr dcsdc ouiro, nao dcsdc
si ncsno.
O csiilo dc donínio, por scu iurno, nao
inplica a viioria. Por isso aparccc con nais
purcza quc nunca cn ccrios casos dc gucrra
dcfcnsiva quc concluíran con a conplcia dcrroia
do dcfcnsor. O caso dc Nunancia c c×cnplar. Os
nunaniinos possucn una fc inquclraniavcl cn
si ncsnos. Sua longa canpanIa conira Fona
concçou por scr dc ofcnsiva. Dcsprczavan o
ininigo c, con cfciio, o dcrroiavan una vcz c
ouira(105i. Ouando nais iardc, rccolIcndo c
organizando nclIor suas forças supcriorcs, Fona
apcria Nunancia, csia, dir-sc-a, iona a
dcfcnsiva, nas propriancnic nao sc dcfcndc,
cfciivancnic aniquila-sc, suprinc-sc. O faio
naicrial da supcrioridadc dc forças no ininigo
convida ao povo dc alna doninanic a prcfcrir sua
propria anulaçao. Porquc so salc vivcr dcsdc si
ncsno, c a nova forna dc c×isicncia quc o
dcsiino lIc propõc ÷ scrvidao ÷ lIc c
inconcclívcl, lIc salc a ncgaçao do vivcr ncsno;
porianio, c a noric.
358
Nas gcraçõcs anicriorcs a juvcniudc vivia
prcocupada con a nadurcza. Adnirava os
naiorcs, rccclia dclcs as nornas ÷ cn aric,
cicncia, políiica, usos c rcginc dc vida ÷,
cspcrava sua aprovaçao c icnia scu cnfado. So sc
cnircgava a si ncsna, ao quc c pcculiar a ial
idadc, sulrcpiiciancnic c cono à nargcn. Os
jovcns scniian sua propria juvcniudc cono una
iransgrcssao do quc c dcvido. Oljciivancnic sc
nanifcsiava isio no faio dc quc a vida social nao
csiava organizada cn visia dclcs. Os cosiuncs,
os prazcrcs pullicos Iavian sido ajusiados ao
iipo dc vida proprio para as pcssoas naduras, c
clcs iinIan dc sc conicniar con as zurrapas quc
csias lIcs dci×avan ou lançar-sc às csiroiniccs.
Aic no vcsiir vian-sc forçados a iniiar os vclIos.
as nodas csiavan inspiradas na convcnicncia da
gcnic naior. As noças sonIavan con o noncnio
cn quc sc vcsiirian ºà voniadc", qucr dizcr, cn
quc adoiarian o irajc dc suas nacs. En suna, a
juvcniudc vivia a scrviço da nadurcza.
A nudança opcrada ncsic ponio c faniasiica.
Hojc a juvcniudc parccc dona indiscuiívcl da
siiuaçao, c iodos os scus novincnios vao
saiurados dc donínio. En sua aiiiudc
iransparccc lcn clarancnic quc nao sc prcocupa
o nínino con a ouira idadc. O jovcn aiual
Ialiia Iojc sua juvcniudc con ial rcsoluçao c
dcnodo, con ial alandono c scgurança, quc
parccc c×isiir so ncla. O quc a nadurcza pcnsc
359
dcla nao lIc inporia un caracol; nais ainda. a
nadurcza possui a scus olIos un valor pro×ino
ao cónico.
Mudaran-sc as iornas. Hojc o Ioncn c a
nulIcr naduros vivcn quasc solrcssaliados,
con a vaga inprcssao dc quc quasc nao icn
dirciio a c×isiir. Advcricn a invasao do nundo
pcla nocidadc cono ial c concçan a fazcr gcsios
scrvis. Dcsdc logo, iniian-na no irajar. (TcnIo
susicniado nuiias vczcs quc as nodas nao cran
un faio frívolo, nas un fcnóncno dc grandc
iransccndcncia Iisiorica, olcdicnic a causas
profundas. O c×cnplo prcscnic csclarccc con
c×ausiiva cvidcncia cssa afirnaçaoi.
As nodas aiuais csiao pcnsadas para corpos
juvcnis, c c iragicónica a siiuaçao dc pais c nacs
quc sc vccn olrigados a iniiar scus filIos c
filIas na induncniaria. Os quc ja andanos na
curva dcsccndcnic da vida vcno-nos na inaudiia
ncccssidadc dc icr dc dcsandar un pouco o
caninIo pcrcorrido, cono sc o Iouvcsscnos
crrado, c fazcr-nos ÷ dc grado ou nao ÷ nais
jovcns do quc sonos. Nao sc iraia dc fingir una
nocidadc quc sc auscnia dc nossa pcssoa, nas
quc o nodulo adoiado pcla vida oljciiva c o
juvcnil c nos força a sua adoçao. Cono con o
vcsiir, aconiccc con iudo o rcsio. Os usos,
prazcrcs, cosiuncs, nodos, csiao ialIados à
ncdida dos cfclos.
360
É curioso, fornidavcl, o fcnóncno, c convida
a cssa Iunildadc c dcvoçao anic o podcr, ao
ncsno icnpo criador c irracional, da vida quc cu
fcrvorosancnic rcconcndci duranic ioda a
ninIa. Noic-sc quc cn ioda a Europa a
c×isicncia social csia Iojc organizada para quc
possan vivcr a gosio so os jovcns das classcs
ncdias. Os naiorcs c as arisiocracias ficaran
fora da circulaçao viial, siniona cn quc sc
cnlaçan dois faiorcs disiinios ÷ juvcniudc c
nassa ÷ doninanics na dinanica dcsic icnpo.
O rcginc dc vida ncdia apcrfciçoou-sc ÷ por
c×cnplo, os prazcrcs ÷, c, cn iroca, as
arisiocracias nao soulcran criar para si novos
rcfinancnios quc as disiancicn da nassa. So lIc
rcsia a conpra dc oljcios nais caros, nas do
ncsno iipo gcral quc os usados pclo Ioncn
ncdio. As arisiocracias, dcsdc 1800 no políiico, c
dcsdc 1900 no social, icn sido lcvadas dc roldao,
c c lci da Iisioria quc as arisiocracias nao podcn
scr lcvadas dc roldao scnao quando prcviancnic
caíran cn irrcncdiavcl dcgcncraçao.
Mas Ia un faio quc sullinIa nais quc ouiro
algun csic iriunfo da juvcniudc c rcvcla aic quc
ponio c profundo o iransiorno dc valorcs na
Europa. Fcfiro-nc ao cniusiasno pclo corpo.
Ouando sc pcnsa na juvcniudc, pcnsa-sc anics
dc iudo no corpo. Por varias razõcs. cn princiro
lugar, a alna icn una frcscura nais prolongada,
quc às vczcs cIcga a ornar a vclIicc da pcssoa;
361
cn scgundo lugar, a alna c nais pcrfciia cn
ccrio noncnio da nadurcza quc na juvcniudc.
Solrciudo, o cspíriio ÷ inicligcncia c voniadc ÷
c, scn duvida, nais vigoroso na plcniiudc da vida
quc cn sua ciapa asccnsional. Por scu iurno, o
corpo icn sua flor ÷ scu alnc, dizian os grcgos
÷ na csiriia juvcniudc, c, vicc-vcrsa, dccai
infalivclncnic quando csia sc iranspõc. Por isso,
dcsdc un ponio dc visia supcrior às oscilaçõcs
Iisioricas, por assin dizcr, sul spccic
acicrniiaiis, c indiscuiívcl quc a juvcniudc rcndc
a naior dclícia ao scr olIada, a nadurcza, ao scr
ouvida. O adniravcl do noço c o scu c×icrior; o
adniravcl do Ioncn fciio c sua iniinidadc.
Pois lcn. Iojc prcfcrc-sc o corpo ao cspíriio.
Nao crcio quc Iaja siniona nais inporianic na
c×isicncia curopcia aiual. Talvcz as gcraçõcs
anicriorcs rcndcsscn dcnasiado culio ao cspíriio
c ÷ salvo a Inglaicrra ÷ dcsdcnIaran
c×ccssivancnic a carnc. Era convcnicnic quc o
scr Iunano fossc adnocsiado c sc lIc rccordassc
quc nao c so alna, nas uniao nagica dc cspíriio
c corpo.
O corpo c por si pucrilidadc. O cniusiasno
quc Iojc dcspcria inundou dc infaniilisno a vida
coniincnial, afrou×ou a icnsao do iniclccio c
voniadc cn quc sc rciorccu o scculo XIX, arco
dcnasiado rcicsado para ncias dcnasiado
prollcnaiicas. Vanos dar un dcscanso ao corpo.
362
A Europa ÷ quando icn dianic dc si os
prollcnas nais pavorosos ÷ cnircga-sc a unas
fcrias. Drinda clasiico o nusculo do corpo
dcsnudo airas dc una lola dc fuiclol quc dcclara
francancnic scu dcsdcn a ioda iransccndcncia
voando pclo ar con ar cn scu inicrior.
As associaçõcs dc csiudanics alcnacs
soliciiaran cncrgicancnic quc sc rcduza o plano
dc csiudos univcrsiiarios. A razao quc davan nao
cra Iipocriia. urgia dininuir as Ioras dc csiudo
porquc clcs prccisavan do icnpo para scus jogos
c divcrsõcs, para ºvivcr a vida".
Esia aiiiudc doninanic quc Iojc icn a
juvcniudc parccc-nc significaiivo. So nc ocorrc
una rcscrva ncnial. Enircga iao conplcia a scu
proprio noncnio c jusia cnquanio afirna o
dirciio da nocidadc cono ial, anic a sua aniiga
scrvidao. Mas, nao c c×orliianic? A juvcniudc,
csiadio da vida, icn dirciio a si ncsna; nas por
scr un csiadio vai afciada inc×oravclncnic dc un
caraicr iransiiorio. FccIando-sc cn si ncsna,
coriando as ponics c qucinando as navcs quc
conduzcn aos csiadios sulscqucnics, parccc
dcclarar-sc cn rclcldia c scparaiisno do rcsio da
vida. Sc c falso quc o jovcn nao dcvc fazcr ouira
coisa scnao prcparar-sc para scr vclIo, ianlcn c
crro parvo iludir por conplcio csia cauicla. Pois c
o caso quc a vida, oljciivancnic, ncccssiia da
nadurcza; porianio, quc a juvcniudc ianlcn a
363
ncccssiia. É prcciso organizar a c×isicncia.
cicncia, iccnica, riqucza, salcr viial, criaçõcs dc
ioda ordcn, sao rcqucridas para quc a juvcniudc
possa alojar-sc c divcriir-sc. A juvcniudc dc
agora, iao gloriosa, corrc o risco dc arrilar a una
nadurcza incpia. Hojc goza o ocio florcsccnic quc
lIc criaran gcraçõcs scn juvcniudc(106i.
Mcu cniusiasno pclo aspccio juvcnil quc a
vida adoiou nao sc dcicn scnao anic cssc icnor.
Ouc vao fazcr aos quarcnia os curopcus
fuiclolisias? Porquc o nundo c ccriancnic una
lola, nas icndo dcniro dc si nais do quc sinplcs
ar.
El Sol, 19 dc junIo dc 1927.
364

MASCULINO OU FEMININO?

Nao Ia duvida quc nosso icnpo c icnpo dc
jovcns. O pcndulo da Iisioria, scnprc inquicio,
asccndc agora pclo quadranic ºnocidadc". O novo
csiilo dc vida concçou nao Ia nuiio, c ocorrc quc
a gcraçao pro×ina ja aos quarcnia anos icn sido
una das nais inforiunadas quc c×isiiran. Porquc
quando cra jovcn rcinavan ainda na Europa os
vclIos, c agora quc cnirou na nadurcza dcpara
quc o inpcrio sc iransfcriu para a nocidadc.
Faliou-lIc, pois, a Iora dc iriunfo c dc donínio, a
oporiunidadc dc graia coincidcncia con a ordcn
rcinanic na vida. En suna. quc vivcu scnprc ao
rcvcs con o nundo, c, cono o csiurjao, icvc dc
nadar scn dcscanso conira a corrcnicza do
icnpo. Os nais vclIos c os nais jovcns
dcsconIcccn csic duro dcsiino dc nao Iavcr
fluiuado nunca; qucro dizcr, dc nunca Iavcr
scniido a pcssoa cono lcvada por un clcncnio
favoravcl, c quc pclo conirario dia apos dia c
lusiro apos lusiro icvc dc vivcr cn suspcnso,
susicniando-sc a pulso solrc o nívcl da
c×isicncia. Mas ialvcz csia ncsna
inpossililidadc dc sc alandonar un so insianic
a disciplinou c purificou solrcnancira. É a
365
gcraçao quc nais conlaicu, quc ganIou a rigor
nais laialIas c ncnos iriunfos icn gozado(107i.
Mas dci×cnos por cnquanio iniacio o icna
dcssa gcraçao inicrncdiaria c rcicnIanos a
aicnçao solrc o noncnio aiual. Nao lasia dizcr
quc vivcnos cn icnpo dc juvcniudc. Con isso
nao fizcnos nais do quc dcfini-lo dcniro do riino
das idadcs. Mas ao lado dcsic aiua solrc a
sulsiancia Iisiorica o riino dos sc×os. Tcnpo dc
juvcniudc! Pcrfciiancnic. Mas, nasculino ou
fcninino? O prollcna c nais suiil, nais dclicado
÷ quasc indiscrcio. Traia-sc dc filiar o sc×o dc
una cpoca.
Para accriar ncsia, cono cn iodas as
cnprcsas da psicologia Iisiorica, c prcciso ionar
un ponio dc visia clcvado c lilcriar-sc dc idcias
csirciias solrc o quc c nasculino c o quc c
fcninino. Anics dc iudo c urgcnic dcsasir do
irivial crro quc cnicndc a nasculinidadc
principalncnic cn sua rclaçao con a nulIcr.
Para qucn pcnsa assin, c nuiio nasculino o
fanfarrao quc sc ocupa acina dc iudo dc coricjar
as danas c falar das loas fcncas. Esic cra o iipo
dc varao doninanic cn 1890. irajc larroco,
solrccasaca cujas alas capcavan o vcnio,
plasirao, larla dc nosquciciro, calclo cn
voluias, un duclo por ncs. (O lon fisiononisia
das nodas dcscolrc logo a idcia quc inspirava
csia. a oculiaçao do corpo viril sol una profusa
366
vcgciaçao dc icla c pclanc. Ficavan so à visia
naos, nariz c olIos. O rcsio cra falsificaçao,
liicraiura ic×iil, larlcaria. É una cpoca dc
profunda insinccridadc. discursos parlancniarios
c prosa dc ºariigo dc fundo"i(108i.
O faio dc quc ao pcnsar no Ioncn sc
dcsiaquc princirancnic scu afa pcla nulIcr
rcvcla, por si so, quc ncssa cpoca prcdoninavan
os valorcs dc fcninilidadc. So quando a nulIcr c
o quc nais sc csiina c cncania icn scniido
aprcciar o varao pclo scrviço c culio quc a csia
rcnda. Nao Ia siniona nais cvidcnic dc quc o
nasculino, cono ial, c prcicrido c dcscsiinado.
Porquc assin cono a nulIcr nao podc cn
ncnIun caso scr dcfinida scn rcfcri-la ao varao,
icn csic o privilcgio dc quc a naior c a nclIor
porçao dc si ncsno c indcpcndcnic por conplcio
dc quc a nulIcr c×isia ou nao. Cicncia, iccnica,
gucrra, políiica, csporic, cic., sao coisas cn quc o
Ioncn sc ocupa con o ccniro viial dc sua
pcssoa, scn quc a nulIcr icnIa inicrvcnçao
sulsianiiva. Esic privilcgio do nasculino, quc lIc
pcrniic cn anpla ncdida lasiar-sc a si ncsno,
ialvcz parcça irriianic. É possívcl quc o scja. Eu
nao o aplaudo ncn o viiupcro, nas ianpouco o
invcnio. É una rcalidadc dc princira grandcza
con quc a Naiurcza, inc×oravcl cn suas
voniadcs, nos olriga a coniar.
367
A vcracidadc, pois, nc força a dizcr quc iodas
as cpocas nasculinas da Iisioria sc caracicrizan
pcla falia dc inicrcssc pcla nulIcr. Esia fica
rclcgada ao fundo da vida, aic o ponio dc quc o
Iisioriador, forçado a una oiica dc lonjura,
apcnas a vc. No froniispício Iisiorico aparcccn so
Ioncns, c, con cfciio, os Ioncns vivcn na cpoca
so con Ioncns. Scu iraio nornal con a nulIcr
fica c×cluído na zona diurna c luninosa cn quc
aconiccc o nais valioso da vida, c sc rccolIc na
ircva, no sulicrranco das Ioras infcriorcs,
cnircgucs aos puros insiinios ÷ scnsualidadc,
paicrnidadc, faniliaridadc ÷. Egrcgia ocasiao dc
nasculinidadc foi o scculo dc Pcriclcs, Scculo so
para Ioncns. Vivc-sc cn pullico. agora, ginasio,
acanpancnio, irirrcnc. O Ioncn naduro
assisic aos jogos dos cfclos nus c Ialiiua-sc a
disccrnir as nais finas qualidadcs da lclcza
varonil, quc o csculior vai concniar no narnorc.
Por sua paric, o adolcsccnic lclc no ar aiico a
flucncia dc palavras agudas quc lroia dos vclIos
dialciicos, scniados nos poriicos con o cajado na
a×ila. A nulIcr?... Sin, à uliina Iora, no
lanqucic varonil, aparccc sol a cspccic dc
flauiisias c dançarinas quc c×ccuian suas
Iunildcs dcsirczas ao fundo, nuiio ao fundo da
ccna, cono apoio c pausa à convcrsaçao quc
languidccc. Alguna vcz, a nulIcr sc adiania un
pouco. Aspasia. Por quc? Porquc aprcndcu o
salcr dos Ioncns, porquc sc nasculinizou.
368
Enlora o grcgo icnIa salido csculpir
fanosos corpos dc nulIcr, sua inicrprciaçao da
lclcza fcninina nao conscguiu dcsprcndcr-sc da
prcfcrcncia quc scniia pcla lclcza do varao. A
Vcnus dc Milo c una figura nasculo-fcninil, una
cspccic dc ailcia con scios. E c un c×cnplo dc
cónica insinccridadc quc icnIa sido proposia ial
inagcn ao cniusiasno dos curopcus duranic o
scculo XIX, quando nais clrios vivian dc
ronaniicisno c dc fcrvor pcla pura, c×ircna
fcninilidadc. O canonc da aric grcga ficou
inscriio nas fornas do noço dcsporiisia, c
quando isio nao lIc lasiou prcfcriu sonIar con o
Icrnafrodiia. (É curioso advcriir quc a
scnsualidadc noviça da criança a faz
nornalncnic sonIar con o Icrnafrodiia; quando
nais iardc scpara a forna nasculina sofrc ÷ por
un insianic ÷ anarga dcsilusao. A forna
fcninina lIc parccc cono una nuiilaçao da
nasculina; porianio, cono algo inconplcio c
vulncradoi(109i.
Scria un crro airiluir csic nasculinisno,
quc culnina no scculo dc Pcriclcs, a una naiiva
ccgucira do Ioncn grcgo para os valorcs da
fcninilidadc, c opor-lIc o suposio rcndincnio do
gcrnano anic a nulIcr. A vcrdadc c quc cn
ouiras cpocas da Crccia anicriorcs à classica
iriunfou o fcninino, cono cn ccrias ciapas do
gcrnanisno donina o varonil. Prccisancnic
csclarccc nclIor quc ouiro c×cnplo a difcrcnça
369
cnirc cpocas dc un c ouiro sc×o o aconiccido na
Idadc Mcdia, quc por si ncsna sc dividc cn duas
porçõcs. a princira, nasculina; a scgunda, dcsdc
o scculo XII, fcninina.
Na princira Idadc Mcdia a vida icn o nais
rudc aspccio. E prcciso gucrrcar coiidianancnic
c à noiic conpcnsar o csforço con o alandono c
o frcncsi da orgia. O Ioncn vivc quasc scnprc
cn acanpancnios, so con ouiros Ioncns, cn
pcrpciua cnulaçao con clcs solrc icnas viris.
csgrina, cavalaria, caça, lclida. O Ioncn, cono
diz un ic×io da cpoca, nao ºdcvc scparar-sc, aic a
noric, da crina dc scu cavalo c passara sua vida
à sonlra da lança". Todavia cn icnpos dc Danic
alguns nolrcs ÷ os Lanlcrii, os Soldanicri ÷
conscrvavan, con cfciio, o privilcgio dc scr
cnicrrados a cavalo(110i.
En ial paisagcn noral, a nulIcr carccc dc
papcl c nao inicrvcn no quc podcnos cIanar
vida dc princira classc. Enicndano-nos. cn
iodas as cpocas dcscjou-sc a nulIcr, nas nao cn
iodas foi csiinada. Assin ncsia lronca idadc. A
nulIcr c prcsa dc gucrra. Ouando o gcrnano
dcsics scculos sc ocupa cn idcalizar a nulIcr,
inagina a valquíria, a fcnca lcligcranic, virago
nusculosa quc possui aiiiudcs c dcsirczas dc
varao.
370
Esia c×isicncia dc aspcro rcginc cria as
lascs princiras, o sulsolo do porvir curopcu.
Mcrcc a cla conscguiu-sc ja no scculo XII
acunular alguna riqucza, coniar con un pouco
dc ordcn, dc paz, dc lcn-csiar. E cis aqui quc
rapidancnic, cono cn ccrias jornadas dc
prinavcra, nuda a facc da Iisioria. Os Ioncns
concçan a polir-sc na palavra c nos nodos. Ja
nao sc aprccia o gcsio lronco, nas o gcsio
ncsurado, gracil. À coniínua pcndcncia sulsiiiui
o solaiz c dcpori quc qucr dizcr convcrsaçao c
jogo. A nuiaçao sc dcvc ao ingrcsso da nulIcr no
ccnario da vida pullica. A Coric dos Carolíngios
cra c×clusivancnic fcninina. Mas no scculo XII
as alias danas dc Provcnça c DorgonIa icn a
audacia surprccndcnic dc afirnar, anic o Esiado
dos gucrrciros c anic a Igrcja dos clcrigos, o valor
cspccífico da pura fcninilidadc. Esia nova forna
dc vida pullica, ondc a nulIcr c o ccniro, conicn
o gcrnc do quc, anic o Esiado c a Igrcja, vai sc
cIanar scculos nais iardc ºsocicdadc". CIanou-
sc cniao ºcoric" ÷ nas nao cono a aniiga coric
dc gucrra c dc jusiiça, nas ºcoric dc anor".
Traia-sc, nada nais nada ncnos, dc iodo un
novo csiilo dc culiura c dc vida...
El Sol, 26 dc junIo dc 1927.

II
371

Traia-sc, nada nais nada ncnos, dc iodo un
novo csiilo dc culiura c dc vida. Porquc aic o
scculo XII nao sc Iavia cnconirado a nancira dc
afirnar a dclícia da c×isicncia, do nundanal anic
o cncrgico ºialu" quc solrc iodo o icrrcno fizcra
cair a Igrcja. Agora aparccc a ºcoricsia"
iriunfadora da ºclcrczia". E a ºcoricsia" c, anics
dc iudo, o rcginc dc vida quc vai inspirado pclo
cniusiasno pcla nulIcr. Vc-sc ncla a norna c o
ccniro da criaçao. Scn a violcncia do conlaic ou
do anaicna, suavissinancnic, a fcninilidadc
clcva-sc a na×ino podcr Iisiorico. Cono acciian
csic jugo o gucrrciro c o saccrdoic, cn cujas
naos sc acIavan iodos os ncios da luia? Nao
calc nais claro c×cnplo da força indonavcl quc o
ºscniir do icnpo" possui. A rigor, c iao podcroso
quc nao ncccssiia conlaicr. Ouando cIcga,
noniado solrc os ncrvos dc una nova gcraçao,
sinplcsncnic sc insiala no nundo cono una
propricdadc indiscuiida.
A vida do varao pcrdc o nodulo da ciapa
nasculina c sc conforna ao novo csiilo. Suas
arnas prcfcrcn ao conlaic a jusiiça c o iorncio,
quc csiao ordcnados para scr visios pclas danas.
Os irajcs dos Ioncns concçan a iniiar as linIas
do irajc fcninino, ajusian-sc à ciniura c sc
dccoian aic o colo. O pocia dci×a un pouco a
372
gcsia cn quc sc cania o Icroi varonil c iorncia a
irova quc foi invcniada
sol pcr donnas lauzar(111i.
O cavalIciro dcsvia suas idcias fcudais para
a nulIcr c dccidc ºscrvir" a una dana, cuja cifra
põc no cscudo. Dcsia cpoca provcn o culio à
Virgcn Maria, quc projcia nas rcgiõcs
iransccndcnics a cnironizaçao do fcninino,
aconiccida na ordcn sullunar. A nulIcr iorna-
sc idcal do Ioncn, c cIcga a scr a forna dc iodo
idcal. Por isso, no icnpo do Danic, a figura
fcninina alsorvc o ofício alcgorico dc iudo quc c
sullinc, dc iudo quc c aspiraçao. No final das
conias, consia pclo Ccncsc quc a nulIcr nao
csia fciia dc larro cono o varao, nas fciia dc
sonIo do varao.
E×crciiada a pupila ncsics csqucnas do
prcicriio, quc facilncnic podcríanos nuliiplicar,
volia-sc ao panorana aiual c conIccc no ncsno
insianic quc nosso icnpo nao c so icnpo dc
juvcniudc, nas dc juvcniudc nasculina. O dono
do nundo c Iojc o rapaz. E o c, nao porquc o
icnIa conquisiado, nas a força dc dcsdcn. A
nocidadc nasculina afirna-sc a si ncsna,
cnircga-sc a scus gosios c apciiics, a scus
c×crcícios c prcfcrcncias, scn sc prcocupar con o
rcsio, scn acaiar ou rcndcr culio a nada quc nao
scja sua propria juvcniudc. É surprccndcnic a
373
rcsoluçao c a unaninidadc con quc os jovcns
dccidiran nao ºscrvir" a nada ncn a ningucn,
salvo à idcia ncsna da nocidadc. Nada parcccria
nais olsolcio quc o gcsio rcndido c curvo con
quc o cavalIciro fanfarrao dc 1890 sc apro×inava
da nulIcr para lIc dizcr una frasc galanic,
rciorcida cono un caracol. As noças pcrdcran o
Ialiio dc scr galanicadas, c cssc gcsio cn quc Ia
irinia anos rcssunavan iodas as rcsinas da
virilidadc, cIciraria Iojc a cfcninancnio.
Porquc a palavra ºcfcninado" icn dois
scniidos nuiio divcrsos. Por un dclcs significa o
Ioncn anornal quc fisiologicancnic c un pouco
nulIcr. Esics indivíduos nonsiruosos c×isicn
cn iodos icnpos, cono dcsviaçao fisiologica da
cspccic, c scu caraicr paiologico os inpcdc dc
rcprcscniar a nornalidadc dc ncnIuna cpoca.
Mas, cn scu ouiro scniido, ºcfcninado" significa
sinplcsncnic Ionnc à fcnncs, o Ioncn nuiio
prcocupado con a nulIcr, quc gira cn iorno dcla
c dispõc suas aiiiudcs c pcssoa cn visia dc un
pullico fcninino. En icnpos dcsic sc×o, csscs
Ioncns parcccn nuiio Ioncns; nas quando
solrcvcn ciapas dc nasculinisno dcscolrc-sc o
quc nclcs Ia dc cfciivo cfcninancnio, apcsar dc
scu aspccio dc naia-nouros.
Hojc, cono scnprc quc os valorcs nasculinos
prcdoninaran, o Ioncn csiina sua figura nais
quc a do sc×o conirario c, conscqucnicncnic,
374
cuida dc scu corpo c icndc a osicnia-lo. O vclIo
ºcfcninado" dcnonina csic novo cniusiasno dos
jovcns pclo corpo viril c cssc csncro con quc o
iraian, cfcninancnio, quando c o conirario. Os
rapazcs convivcn junios nos csiadios c arcas dc
csporics. Nao lIcs inicrcssa nais quc scu jogo c a
naior ou ncnor pcrfciçao na posiura ou na
dcsircza. Convivcn, pois, cn pcrpciuo concurso c
cnulaçao, quc vcrsan solrc qualidadcs viris. À
força dc conicnplar-sc nos c×crcícios ondc o
corpo aparccc iscnio dc falsificaçõcs ic×icis,
adquircn una fina pcrccpçao da física varonil,
quc colra a scus olIos un valor cnornc. Noic-sc
quc so sc csiina a c×cclcncia nas coisas dc quc
sc cnicndc. So csias c×cclcncias, clarancnic
pcrcclidas, arrasian o anino c o
solrccolIcn(112i.
Daí quc as nodas nasculinas icnIan
icndido csics anos a sullinIar a arquiiciura
nasculina do Ioncn jovcn, sinplificando un
iipo dc irajc iao pouco propício para isso cono o
Icrdado do scculo XIX. Era nisicr quc sol os
iulos ou cilindros dc icla cn quc csic Iorrívcl
irajc c×isic, sc afirnassc o corpo do fuiclolisia.
Talvcz dcsdc os icnpos grcgos nao sc icnIa
csiinado ianio a lclcza nasculina cono agora. E
o lon olscrvador noia quc nunca as nulIcrcs
falaran ianio c con ianio dcscaro cono agora
dos Ioncns sinpaiicos. Anics, salian calar scu
375
cniusiasno pcla lclcza dc un varao, sc c quc a
scniian. Convcn, ainda, aponiar quc a scniian
nuiio ncnos quc na aiualidadc. Un vclIo
psicologo Ialiiuado a ncdiiar solrc csics
assunios salc quc o cniusiasno da nulIcr pcla
lclcza corporal do Ioncn, solrciudo pcla lclcza
fundada na corrcçao ailciica, nao c quasc nunca
csponianco. Ao ouvir Iojc con iania frcqucncia o
cínico clogio do Ioncn sinpaiico lroiando dos
lalios fcnininos, cn vcz dc colcgir ingcnua c
sinplcsncnic. ºA nulIcr dc 1927 gosia
supcrlaiivancnic dos Ioncns sinpaiicos", faz
un dcscolrincnio nais profundo. a nulIcr dc
1927 dci×ou dc cunIar os valorcs por si ncsna c
acciia o ponio dc visia dos Ioncns quc ncsia
daia scnicn, con cfciio, cniusiasno pcla
csplcndida figura do ailcia. Vc, pois, nisso, un
siniona dc princira caicgoria, quc rcvcla o
prcdonínio do ponio dc visia varonil.
Nao scria oljcçao conira isio quc alguna
lciiora, pcrscruiando sinccrancnic cn scu
inicrior, rcconIcccssc quc nao sc apcrcclia dc
scr influída cn sua csiina da lclcza nasculina
pclo aprcço quc dcla fazcn os jovcns. Dc iudo
aquilo quc c un inpulso colciivo c propclc a vida
Iisiorica inicira cn una ou ouira dircçao, nao
nos apcrcclcnos nunca, cono nao nos
apcrcclcnos do novincnio csiclar dc nosso
plancia, ncn a faina quínica cn quc sc ocupan
nossas cclulas. Cada qual crc vivcr por sua conia,
376
cn viriudc dc razõcs quc supõc pcrsonalíssinas.
Mas o faio c quc sol cssa supcrfícic dc nossa
conscicncia aiuan as grandcs forças anóninas,
os podcrosos alísios da Iisioria, sopros
giganicscos quc nos nolilizan a scu capricIo.
Tanlcn salc lcn a nulIcr dc Iojc porquc
funa, porquc sc vcsic cono sc vcsic, porquc sc
csfalfa cn csporics físicos. Cada una podcra dar
sua razao difcrcnic, quc icnIa alguna vcrdadc,
nas nao a lasianic. É nuiia casualidadc quc
aiualncnic o rcginc da assisicncia fcninina nas
ordcns nais divcrsas coincida scnprc nisio. a
assinilaçao ao Ioncn. Sc no scculo XII o varao
sc vcsiia cono a nulIcr c fazia sol sua
inspiraçao vcrsinIos dulcífluos, Iojc a nulIcr
iniia o Ioncn no vcsiir c adoia scus aspcros
jogos. A nulIcr procura acIar cn sua conplciçao
as linIas do ouiro sc×o. Por isso o nais
caracicrísiico das nodas aiuais nao c a
c×iguidadc do cncolrincnio, nas o oposio. Dasia
conparar o irajc dc Iojc con o usado na cpoca
dc ouiro Dirciorio naior ÷ 1800 ÷ para
dcscolrir a csscncia varianic, ianio nais
c×prcssiva quanio naior c a scnclIança. O irajc
Dirciorio cra ianlcn una sinplcs iunica,
lasianic curia, quasc cono a dc agora.
Enircianio, aquclc nu cra un pcrvcrso nu dc
nulIcr. Agora a nulIcr vai nua cono un rapaz.
A dana Dirciorio accniuava, cingia c osicniava o
airiluio fcninino por c×cclcncia. aqucla iunica
377
cra o nais solrio ialIc para susicniar a flor do
scio. O irajc aiual, aparcnicncnic iao gcncroso
na nudificaçao, oculia, por scu iurno, anula,
cscanoicia, o scio fcninino.
É una cquivocaçao psicologica c×plicar as
nodas vigcnics por un suposio afa dc c×ciiar os
scniidos do varao, quc sc iornaran un pouco
indolcnics. Esia indolcncia c un faio, c cu nao
ncgo quc no dcialIc da induncniaria c das
aiiiudcs influa cssc proposiio inciiaiivo. nas as
linIas gcrais da aiual figura fcninina csiao
inspiradas por una inicnçao oposia. a dc sc
parcccr un pouco con o Ioncn jovcn. O
dcscaro c inpudor da nulIcr conicnporanca
sao, nais quc fcnininos, o dcscaro c inpudor dc
un rapaz quc cnircga à inicnpcric sua carnc
clasiica. Tudo conirario, pois, a una c×iliçao
lulrica c viciosa. Provavclncnic, as rclaçõcs cnirc
os sc×os nunca foran iao sadias, paradisíacas c
nodcradas cono agora. O pcrigo csia
vcrdadcirancnic na dircçao invcrsa. Porquc
aconicccu scnprc quc as cpocas nasculinas da
Iisioria, dcsinicrcssadas da nulIcr, rcndcran
csiranIo culio ao anor dorico. Assin foi no
icnpo dc Pcriclcs, no dc Ccsar, no Fcnascincnio.
É, pois, una lolagcn pcrscguir cn nonc da
noral a lrcvidadc das saias cn uso. Ha nos
saccrdoics una nania nilcnar conira os
nodisnos. A princípios do scculo XIII, noia
378
LucIairc, ºos scrnonarios nao ccssan dc
fulninar conira a longiiudc c×agcrada das saias,
quc sao, dizcn, una invcnçao dialolica"(113i. En
quc ficanos? Oual a saia dialolica? A curia ou a
longa?
Oucn passou sua juvcniudc nuna cpoca
fcninina consicrna-sc dc vcr a Iunildadc con
quc Iojc a nulIcr, dcsironada, procura insinuar-
sc c scr iolcrada na socicdadc dos Ioncns. A csic
fin acciia na convcrsaçao os icnas dc prcfcrcncia
dos noços c fala dc csporics c dc auionovcis, c
quando passa a ronda dos coqucicis lclc cono
gcnic grandc. Esia dininuiçao do podcr fcninino
solrc a socicdadc c causa dc quc a convivcncia
scja cn nossos dias iao aspcra. Invcniora a
nulIcr da ºcoricsia", sua rciirada do princiro
plano social irou×c o inpcrio da dcscoricsia. Hojc
nao sc conprccndcria un faio cono o aconiccido
no scculo XVII por noiivo da lcaiificaçao dc
varios sanios cspanIois ÷ cnirc clcs, Sanio
Inacio, S. Francisco Xavicr c Sania Tcrcsa dc
Jcsus ÷. O faio foi quc a lcaiificaçao sofrcu una
longa dcnora pcla dispuia surgida cnirc os
cardcais solrc qucn dcvia cnirar princiro na
oficial lcaiiiudc. a dana Ccpcda ou os varõcs
jcsuíias.
El Sol, 3 dc julIo dc 1927.
379

NOTAS
(1i ÷ Vcja-sc o cnsaio do auior iniiiulado "Hisiory
as a Sysicn", no volunc PIilosopIy and Hisiory.
Honagcs io Ernsi Cassircr, London, 1939 (V.
cdiçao cspanIola Hisioria cono sisicna. Madrid,
1942i. Vcja-sc o iono VI das Olras Conplcias do
auior.
(2i ÷ É jusio dizcr quc foi na França, so na
França, ondc sc iniciou un csclarccincnio c nisc
au poini dc iodos csics concciios. En ouiro lugar
acIara o lciior alguna indicaçao solrc isio c,
ainda nais, solrc a causa dc quc cssa iniciaçao
sc nalograssc. Dc ninIa paric procurci colalorar
ncsic csforço dc csclarccincnio pariindo da
rcccnic iradiçao franccsa, supcrior ncsia ordcn
dc icnas às dcnais. O rcsuliado dc ninIas
rcflc×õcs acIa-sc no livro, dc pro×ina pullicaçao,
El Ionlrc y la gcnic. Ncsic cnconirara o lciior o
dcscnvolvincnio c jusiificaçao dc iudo quc acalo
dc dizcr.
(3i ÷ MonarcIic univcrscllc. dcu× opusculcs,
1891, pag. 36.
(4i ÷ Ocuvrcs conplcics (Calnan-Lcvyi. Vol.
XXII, pag. 248.
380
(5i ÷ Na Inglaicrra as lisias dc rcsidcncias
indicavan junio a cada nonc o ofício c classc da
pcssoa. Por isso, junio ao nonc dos sinplcs
lurgucscs aparccia a alrcviaiura s. nol., qucr
dizcr, scn nolrcza. Esia c a origcn da palavra
snol.
(6i ÷ "La coc×isicncc ci lc conlai dc principcs
divcrs". Cuizoi, Hisioirc dc La Civilisaiion cn
Europc, pag. 35. En un Ioncn iao difcrcnic dc
Cuizoi cono Fanlc cnconiranos a ncsna idcia.
ºLogo quc na Europa un princípio, scja qual for,
icnia o donínio alsoluio, cnconira scnprc una
rcsisicncia quc sc lIc opõc dcsdc os nais
profundos scios viiais." Ocuvrcs conplcics, 38,
pag., 110. En ouiro lugar (ionos 8 c 10, p. 3i. º0
nundo curopcu sc conpõc dc clcncnios dc
origcn divcrsa, cn cuja ulicrior coniraposiçao c
luia vccn prccisancnic dcscnvolvcr-sc as
nudanças das cpocas Iisioricas". Nao Ia ncsias
palavras dc Fanlc una clara influcncia dc
Cuizoi? Un faior quc inpcdc vcr ccrios csiraios
profundos da Iisioria do scculo XIX c quc nao
csicja lcn csiudado o inicrcanlio dc idcias cnirc
a França c a AlcnanIa, diganos dc 1790 a 1830.
Talvcz o rcsuliado dcssc csiudo rcvclassc quc a
AlcnanIa rccclcu ncssa cpoca nuiio nais da
França quc invcrsancnic.
(7i ÷ Con ccria saiisfaçao rcfcrc-sc Mnc. dc
Casparin quc falando o Papa Crcgorio XVI con o
381
cnlai×ador franccs, dizia aludindo a clc. ºE un
gran ninisiro. Dicono quc non ridc nai".
Corrcspondancc avcc Mnc. dc Casparin, p. 283.
(8i ÷ Sc o lciior dcscja infornar-sc, cnconirar-sc-
a, una c ouira vcz, con a fornula ilusoria dc quc
os douirinarios nao possuían una douirina
idcniica, nas quc variava dc un para ouiro.
Cono sc isio nao aconicccssc cn ioda cscola
iniclcciual c nao consiiiuíssc a difcrcnça nais
inporianic cnirc un grupo dc Ioncns c un
grupo dc granofoncs
(9i ÷ Ncsics uliinos anos, M. CIarlcs H. PouiIas
ionou solrc si a faiiganic iarcfa dc dcspojar os
arquivos dc Cuizoi c ofcrcccr-nos nuna scric dc
voluncs un naicrial scn o qual scria inpossívcl
cnprccndcr a ulicrior faina dc rcconsiruçao.
Solrc Foycr-Collard nao Ia ncn isso. No fin dc
iudo c prcciso rccorrcr aos csiudos dc Faguci
solrc o idcariun dc un c ouiro. Nao Ia nada
nclIor, c cnlora scjan sunancnic vivazcs, sao
alsoluiancnic insuficicnics.
(10i ÷ Por c×cnplo, ningucn podc ficar con a
conscicncia iranquila ÷ cnicndc-sc quc icnIa
ºconscicncia" iniclcciual ÷ quando inicrprciou a
políiica dc ºrcsisicncia" cono pura c
sinplcsncnic conscrvadora. É dcnasiado
cvidcnic quc os Ioncns Foycr-Collard, Cuizoi,
Droglic, nao cran conscrvadorcs à-ioa. A palavra
382
ºrcsisicncia", quc ao aparcccr na ciiaçao dc
Fanlc docuncnia o influ×o dc Cuizoi solrc csic
grandc Iisioriador, iona, por sua vcz, una
suliia nudança dc scniido c, por assin dizcr,
c×ilc-nos suas arcanas vísccras quando cn un
discurso dc Foycr-Collard lcnos. ºLcs lilcrics
pulliqucs nc soni pas auirc cIosc quc dcs
rcsisicnccs". (Vcja-sc dc Daranic. La vic ci lcs
discours dc Foycr-Collard, II, 130i. Eis aqui una
vcz nais a nclIor inspiraçao curopcia rcduzindo
a dinanisno iudo quc c csiaiico. O csiado dc
lilcrdadc suric dc una pluralidadc dc forças quc
nuiuancnic sc rcsisicn. Mas os discursos dc
Foycr-Collard sao Iojc iao pouco lidos quc
parcccra inpcriincncia sc digo quc sao
naravilIosos, quc sua lciiura c una pura dclícia
dc iniclccçao, quc c divcriida c aic alcgrc, c quc
consiiiucn a uliina nanifcsiaçao do nclIor
csiilo caricsiano.
(11i ÷ Vcja-sc o ciiado cnsaio do auior. Hisioria
cono sisicna.
(12i ÷ Prcicndcn os alcnacs quc foran clcs os
dcscolridorcs do social cono rcalidadc difcrcnic
dos indivíduos c ºanicrior" a csics. O Vollsgcisi
parccc-lIcs una dc suas idcias nais auiocioncs.
Esic c un dos casos quc nais rcconcndan o
csiudo ninucioso do inicrcanlio iniclcciual
franco-gcrnanico dc 1790 a 1830 a quc cn noia
anicrior nc rcfiro. Mas o icrno Vollsgcisi nosira
383
dcnasiado clarancnic quc c a iraduçao do
voliairiano csprii dcs naiions. A origcn franccsa
do colciivisno nao c una casualidadc c olcdccc
às ncsnas causas quc fizcran da França o lcrço
da sociologia c dc scu rcnovo cn 1890
(DurlIcini.
(13i ÷ Vcja-sc Docirinc dc Saini-Sinon, con
iniroduçao c noias dc C. Douglc c E. Halcvy (p.
204, noiai. Alcn dc quc csia c×posiçao do saini-
sinonisno, fciia cn 1829, c una das olras nais
gcniais do scculo, o iralalIo acunulado nas
noias por MM. Douglc c Halcvy consiiiui una das
coniriluiçõcs nais inporianics quc cu conIcço
ao cfciivo csclarccincnio da alna curopcia cnirc
1800 c 1830.
(14i ÷ Olra facil c uiil quc algucn dcvcria
cnprccndcr, scria rcunir os prognosiicos quc cn
cada cpoca sc fazcn solrc o fuiuro pro×ino. Eu
colccionci os suficicnics para ficar csiupcfaio
anic o faio dc quc icnIa Iavido scnprc alguns
Ioncns quc prcvccn o fuiuro.
(15i ÷ Siuari Mill. La lilcric, irad. Duponi-WIiic
(paginas 131-132i.
(16i ÷ Ccsannclic ScIrificn, I, 106.
(17i ÷ Hisioirc dc Jacqucs II, I, 843.
384
(18i ÷ ºJc irouvc ncnc quc dcs opinions
approcIanics s'insinuani pcu à pcu dans l'csprii
dcs Ionncs du grand nondc, qui rcglcni lcs
auircs ci doni dcpcndcni lcs affaircs, ci sc
glissani dans lcs livrcs à la nodc disposcni iouics
cIoscs à la rcvoluiion gcncralc doni d'Europc csi
ncnaccc". Nouvcau× Essais sur l'cnicndcncni
Iunain, IV, CIap. 16. O quc dcnonsira duas
coisas. Princira. quc un Ioncn, cn 1700, daia
apro×inada cn quc Lcilniz cscrcvia isio, cra
capaz dc prcvcr o quc aconicccu un scculo
dcpois; scgunda. quc os nalcs prcscnics da
Europa sao oriundos dc rcgiõcs nais profundas
cronologica c viriualncnic do quc soi prcsunir-sc
(19i ÷ º... noirc sicclc qui sc croii dcsiinc à
cIangcr lcs lois cn ioui gcnrc..." D'Alcnlcri.
Discours prclininairc à l'Enciclopcdic. Ocuvrcs.
1,56 (1821i.
(20i ÷ ºCciic Ionncic, irrcprocIallc, nais
inprcvoyanic ci supcrficicllc rcvoluiion dc 1848
cui pour conscqucncc, au loui dc noins d'un an,
dc donncr lc pouvoir à l'clcncni lc plus pcsani, lc
noins clairvoyani, lc plus olsiincncni
conscrvaicur dc noirc pays". Fcnan. Oucsiions
conicnporaincs, XVI. Fcnan, quc cn 1848 cra
jovcn c sinpaiizou con aquclc novincnio, vc-sc
olrigado na sua nadurcza a fazcr algunas
rcscrvas lcncvolas a scu favor, supondo quc foi
ºIonrado c irrcprocIavcl".
385
(21i ÷ J. D. Carrc. La PIilosopIic dc Fonicncllc,
pag. 143.
(22i ÷ Vcja-sc Hisioria cono sisicna.
(23i ÷ En scu prologo a sua iraduçao dc La
Lilcric, dc Siuari Mill, pag. 44.
(24i ÷ Nao c una sinplcs nancira dc falar, nas
sin vcrdadc ao pc da lcira, posio quc valIa na
ordcn ondc a palavra ºvigcncia" icn Iojc scu
scniido nais incdiaio, a salcr, no dirciio. Na
Inglaicrra, ºaucunc larricrc cnirc lc prcscni ci lc
passc. Sans disconiinuiic lc droii posiiif rcnonic
dans l'Iisioirc jusqu'au× icnps inncnoriau×. Lc
droii anglais csi un droii Iisioriquc.
Juridiqucncni parlani, il n'y a pas ºd'ancicn droii
anglais". Don, cn Anglaicrrc ioui lc droii csi
aciucl, qucl qu'cn soii l'agc". Lcvy-Ullnann. Lc
sysicnc juridiquc dc l'Anglaicrrc, I, pags. 38139.
(25i ÷ Vcja-sc o cnsaio Hcgcl y Ancrica, 1928, c
os ariigos solrc Los Esiados Unidos, pullicados
pouco dcpois. (Vcjan-sc, rcspcciivancnic, os
ionos II c IV dc Olras Conplciasi.
(26i ÷ En ncu livro Espana Invcriclrada,
pullicado cn 1921, nun ariigo dc El Sol,
iniiiulado ºMasas" (1926i c cn duas confcrcncias
dadas na Associaçao Anigos dcl Aric, cn Ducnos
Aircs (1928i, ocupci-nc do icna quc o prcscnic
cnsaio dcscnvolvc. Mcu proposiio agora c rccolIcr
386
c conplciar o quc cu dissc cniao, dc nodo quc
suria una douirina organica solrc o faio nais
inporianic dc nosso icnpo.
(27i ÷ O iragico daquclc proccsso c quc,
cnquanio sc fornavan csias agloncraçõcs,
concçava o dcspovoancnio das canpinas, quc
Iavia dc irazcr a dininuiçao alsoluia no nuncro
dos Ialiianics do Inpcrio.
(28i ÷ Vcja-sc Espana invcriclrada, 1921, daia
dc sua princira pullicaçao cono scric dc ariigos
no jornal diario El Sol. (Vcja-sc pag. 35 do iono
III das Olras Conplciasi.
Aprovciio csia oporiunidadc para fazcr noiar
aos csirangciros quc gcncrosancnic cscrcvcn
solrc ncus livros, c cnconiran, às vczcs,
dificuldadcs para prccisar a daia dc scu princiro
aparccincnio, o faio dc quc quasc ioda a ninIa
olra saiu ao nundo usando a nascara dc ariigos
jornalísiicos; nuiia paric dcla lcvou nuiios anos
cn aircvcr-sc a scr livro (1946i.
(29i ÷ Nos cunIos das nocdas dc Adriano lccn-
sc coisas cono csias. Iialia Fcli×, Sacculun
aurcun, Tcllus sialiliia, Tcnporun fcliciias. À
paric o grandc rcpcriorio nunisnaiico dc CoIcn,
vcjan-sc algunas nocdas rcproduzidas cn
Fosiovizcff. TIc social and ccononic Iisiory of
iIc Fonan Enpirc, 1926, lanina LII c 588, noia
6.
387
(30i ÷ Nao sc dci×cn dc lcr as naravilIosas
paginas dc Hcgcl solrc os icnpos saiisfciios cn
sua Filosofia dc la Iisioria, iraduçao dc Josc
Caos. Fcvisia dc Occidcnic, 1a. cdiçao, iono I,
pags. 41 c scguinics.
(31i ÷ O scniido original dc ºnodcrno",
ºnodcrnidadc" con quc os uliinos icnpos sc
laiizaran a si ncsnos, c×prcssa nui
agudancnic cssa scnsaçao dc ºaliura dos
icnpos", quc agora analiso. Modcrno c o quc csia
posio scgundo o nodo. cnicndc-sc o nodo novo,
nodificaçao ou noda quc cn ial prcscnic icnIa
surgido anic os nodos vclIos, iradicionais, quc
sc usaran no passado. A palavra ºnodcrno"
c×prcssa, pois, a conscicncia dc una nova vida,
supcrior à aniiga, c ao ncsno icnpo o inpcraiivo
dc csiar à aliura dos icnpos. Para o ºnodcrno",
nao sc-lo cquivalc a cair lai×o o nívcl Iisiorico.
(32i ÷ La dcsIunanizacion dcl aric. (Vcja-sc pag.
353 do iono III dc Olras Conplciasi.
(33i ÷ Prccisancnic porquc o icnpo viial do
Ioncn c liniiado, prccisancnic porquc c norial,
ncccssiia iriunfar da disiancia c da iardança.
Para un Dcus cuja c×isicncia c inorial, carcccria
dc scniido o auionovcl.
(34i ÷ No pior caso, c quando o nundo parcccra
rcduzido a una unica saída, scnprc Iavcria
duas. cssa c sair do nundo. Mas a saída do
388
nundo forna paric dcsic, cono dc una
Ialiiaçao a poria.
(35i ÷ Assin, ja no prologo dc ncu princiro livro.
Mcdiiacioncs dcl Ouijoic, 1916. Nas Ailaniidas
aparccc sol o nonc dc Iorizonic. Vcja-sc o cnsaio
El origcn dcporiivo dcl Esiado, 1926, rccolIido no
iono VII dcl El Espcciador. (Vcja-sc a pag. 607 do
iono II dc Olras Conplciasi.
(36i ÷ O nundo dc Ncwion cra infiniio; nas cssa
infiniiudc nao cra un iananIo, nas una vazia
gcncralizaçao, una uiopia alsiraia c inanc. O
nundo dc Einsicin c finiio, nas cIcio c concrcio
cn iodas as parics; porianio, un nundo nais
rico dc coisas c, cfciivancnic, dc naior iananIo.
(37i ÷ A lilcrdadc dc cspíriio, qucr dizcr, a
poicncia do iniclccio, ncdc-sc por sua
capacidadc dc dissociar idcias iradicionalncnic
inscparavcis. Dissociar idcias cusia nuiio nais
quc associa-las, cono dcnonsirou KöIlcr cn
suas invcsiigaçõcs solrc a inicligcncia dos
cIinpanzcs. Janais o cnicndincnio Iunano icvc
cono agora naior capacidadc dc dissociaçao.
(38i ÷ Esia c a origcn radical dos diagnosiicos
dc dccadcncia. Nao quc scjanos dccadcnics, nas
quc, disposios a adniiir ioda possililidadc, nao
c×cluínos a da dccadcncia.
389
(39i ÷ Vcrcnos, cnircianio, cono calc rccclcr
do passado, ja quc nao una oricniaçao posiiiva,
ccrios consclIos ncgaiivos. Nao nos dira o
prcicriio o quc dcvcnos fazcr, nas o quc dcvcnos
cviiar.
(40i ÷ Hcrnann Wcyl, un dos naiorcs físicos
aiuais, conpanIciro c coniinuador dc Einsicin,
cosiuna dizcr cn convcrsaçao privada quc sc
norrcsscn suliiancnic dcz ou dozc
dcicrninadas pcssoas, c quasc ccrio quc a
naravilIa da física aiual sc pcrdcria para scnprc
na Iunanidadc. Foi ncccssaria una prcparaçao
dc nuiios scculos para aconodar o orgao ncnial
à alsiraia conplicaçao da icoria física. Oualqucr
cvcnio podcria aniquilar iao prodigiosa
possililidadc Iunana, quc c, alcn do nais, lasc
da iccnica fuiura.
(41i ÷ Por nuiio rico quc un indivíduo fossc cn
rclaçao con os dcnais, cono a ioialidadc do
nundo cra polrc, a csfcra dc facilidadcs c
conodidadcs quc sua riqucza podia proporcionar-
lIc cra nuiio rcduzida. A vida do Ioncn ncdio c
Iojc nais facil, cónoda c scgura quc a do nais
podcroso cn ouiro icnpo. Ouc lIc inporia nao
scr nais rico quc ouiros, sc o nundo o c c lIc
proporciona nagnificas csiradas dc rodagcn, dc
fcrro, iclcgrafo, Ioicis, scgurança física c
aspirina?
390
(42i ÷ Alandonada à sua propria inclinaçao, a
nassa, scja qual scja, plclcia ou ºarisiocraiica",
icndc scnprc, por afa dc vivcr, a dcsiruir as
causas dc sua vida. Scnprc nc parcccu una
caricaiura cngraçada dcssa icndcncia a propicr
viian, vivcndi pcrdcrc causas, o quc aconicccu
cn Nijar, povoado pro×ino a Alncría, quando, cn
13 dc scicnlro dc 1759, sc proclanou rci a
Carlos III. Fcz-sc a proclanaçao na praça da vila.
ºDcpois nandaran irazcr dc lclcr a iodo aquclc
grandc concurso, o qual consuniu scicnia c scic
arrolas dc vinIos c quairo odrcs dc aguardcnic,
cujo cspíriio os acalorou dc ial nodo, quc con
rcpciidos ºvivas!" sc cncaninIaran ao dcposiio
nunicipal dc irigo c dc suas janclas arrojaran o
ccrcal quc nclc Iavia c 900 rcais dc suas cai×as.
Dali passaran ao Esianco do Talaco c
nandaran jogar fora o dinIciro da Mcsada, c o
ialaco. Nas lojas fizcran o ncsno, nandando
dcrranar, para nais auiorizar a funçao, quanios
gcncros líquidos c concsiívcis Iavia nclas. O
Esiado cclcsiasiico concorrcu con igual cficacia,
pois cn alias vozcs induziran as nulIcrcs a
sacudir fora o quc Iavia nas suas casas, o quc
c×ccuiaran con o naior dcsinicrcssc, pois nao
rcsiou nclas pao, irigo, farinIa,ccvada, praios,
caçarolas, alnofarizcs, noriciros, ncn cadciras,
ficando a vila dcsiruída. Scgundo un papcl do
icnpo cn podcr do scnIor SancIcz dc Toca,
ciiado cn Fcinado dc Carlos III, pclo scnIor
391
Manucl Danvila, iono II, pag. 10, noia 2, Esic
povoado, para vivcr sua alcgria nonarquica,
aniquila-sc a si ncsno. Adniravcl Nijar! Tcu c o
porvir!
(43i ÷ É iniclcciualncnic nassa aquclc quc anic
un prollcna qualqucr sc conicnia con pcnsar o
quc loancnic cnconira cn sua calcça. É, pclo
conirario, cgrcgio aquclc quc dcscsiina o quc
acIa scn prcvio csforço cn sua ncnic, c so
acciia cono digno dclc aquilo quc csia acina dclc
c c×igc un novo csiirao para alcança-lo.
(44i ÷ Vcja-sc Espana invcriclrada (1922i, pag.
156. (Vcja-sc pag. 35 do iono III dc O. C.i.
(45i ÷ Cono no anicrior iraia-sc so dc rciroirazcr
o vocalulo ºnolrcza" a scu scniido prinordial,
quc c×clui a Icrança, nao Ia oporiunidadc para
csiudar o faio dc quc ianias vczcs aparcça na
Iisioria una ºnolrcza dc sanguc". Fica, pois,
iniacia csia qucsiao.
(46i ÷ Vcja-sc El origcn dcporiivo dcl Esiado, cn
El Espcciador, iono VII. (Vcja-sc pagina 607 do
iono II dc O. C.i
(47i ÷ Solrc a indocilidadc das nassas,
cspccialncnic das cspanIolas, ja falci cn Espana
invcriclrada (1922i, c ao diio ali rcncio-nc.
(Vcja-sc pag. 35 do iono III dc O. C.i
392
(48i ÷ Muiias vczcs lcvanici dc nin para nin a
scguinic qucsiao. c induliiavcl quc scnprc icvc
dc scr para nuiios Ioncns un dos iorncnios
nais angusiiosos dc sua vida o coniacio, o
cIoquc con a inlccilidadc alIcia. Cono c
possívcl, cnircianio, quc nao sc icnIa icniado
nunca ÷ parccc-nc ÷ un csiudo solrc cla, un
cnsaio solrc a inlccilidadc?
(49i ÷ Nao sc prcicnda cscanoicar a qucsiao.
iodo opinar c icorizar.
(50i ÷ Sc algucn cn sua discussao conosco sc
dcsinicrcssassc dc sc ajusiar à vcrdadc, sc nao
icn voniadc dc scr vcrídico, c iniclcciualncnic
un larlaro. Dc faio, cssa c a posiçao do Ioncn-
nassa quando fala, da confcrcncias ou cscrcvc.
(51i ÷ Nao c prcciso dizcr quc quasc ningucn
lcvara a scrio csias c×prcssõcs, c os nclIorcs
inicncionados as cnicndcrao cono sinplcs
nciaforas, ialvcz conovcnics. So algun lciior
lasianic ingcnuo para nao crcr quc salc ja
dcfiniiivancnic o quc c a vida, ou, pclo ncnos, o
quc nao c, sc dci×ara ganIar pclo scniido
prinario dcsias frascs c scra prccisancnic qucn
÷ vcrdadciras ou falsas ÷ as cnicnda. Enirc os
dcnais rcinara a nais cfusiva unaninidadc, con
csia unica difcrcnça. uns pcnsarao quc, falando a
scrio, vida c o proccsso c×isicncial dc una alna,
c os ouiros, quc c una succssao dc rcaçõcs
393
quínicas. Nao crcio quc nclIorc ninIa siiuaçao
anic lciiorcs iao Icrnciicos rcsunir ioda una
nancira dc pcnsar dizcndo quc o scniido
prinario c radical da palavra vida aparccc
quando a cnprcganos no scniido dc liografia c
nao no dc liologia. Pcla foriíssina razao dc quc
ioda liologia c cn dcfiniiivo so un capíiulo dc
ccrias liografias, c o quc cn sua vida
(liografavcli fazcn os liologos. Ouira coisa c
alsiraçao, faniasia c niio.
(52i ÷ Esia folga dc novincnios anic o passado
nao c, pois, una pciulanic rclcldia, nas, pclo
conirario, una claríssina olrigaçao dc ioda
ºcpoca críiica". Sc cu dcfcndo o lilcralisno do
scculo XIX conira as nassas quc incivilncnic o
aiacan, nao qucro dizcr quc rcnuncic a una
plcna lilcrdadc dianic dcssc proprio lilcralisno.
Vicc-vcrsa. o priniiivisno quc ncsic cnsaio
aparccc sol scu pior aspccio c, por ouira paric, c
cn ccrio scniido, condiçao dc iodo grandc avanço
Iisiorico. Vcja-sc o quc, nao Ia poucos anos,
dizia cu solrc isio no cnsaio ºDiologia c
Pcdagogia", El Espcciador, iono III. ºO parado×o
do sclvagisno". (Pagina 281 do iono II dc O. C.i
(53i ÷ Daí quc, a ncu juízo, nao diz nada qucn
supõc Iavcr diio algo dcfinindo a Ancrica do
Noric por sua ºiccnica". Una das coisas quc
pcriurlan nais gravcncnic a conscicncia
curopcia c o conjunio dc juízos pucris solrc a
394
Ancrica do Noric quc sc ouvcn c×pcndidos aic
pclas pcssoas nais culias. É un caso pariicular
da dcsproporçao quc nais adianic aponio cnirc a
conplc×idadc dos prollcnas aiuais c a
capacidadc das ncnics.
(54i ÷ A rigor, a dcnocracia lilcral c a iccnica sc
inplican c inicr-supõcn por sua vcz iao
csirciiancnic quc nao c concclívcl una scn a
ouira, c, porianio, fora dcscjavcl un icrcciro
nonc, nais gcncrico, quc incluíssc anlas. Essc
scria o vcrdadciro nonc, o sulsianiivo da uliina
ccniuria.
(55i ÷ Nao falcnos dc qucsiõcs nais inicrnas. A
naior paric dos invcsiigadorcs ncsnos nao icn
Iojc a nais lcvc suspciia da gravíssina,
pcrigosíssina crisc íniina quc Iojc airavcssa sua
cicncia.
(56i ÷ Arisioiclcs. Mciafísica, 893 a 10.
(57i ÷ Ccniuplica a nonsiruosidadc do faio quc
÷ cono indiquci ÷ iodos os dcnais princípios
viiais ÷ políiica, dirciio, aric, noral, rcligiao ÷ sc
acIan cfciivancnic c por si ncsnos cn crisc,
cn, pclo ncnos, iransiioria falIa. So a cicncia
nao falIa, pclo conirario, dia a dia cunprc con
falulosos acrcscinos quanio proncic c nais do
quc proncic. Nao icn, pois, concorrcncia, nao
calc dcsculpar o dcsapcgo por cla supondo o
395
Ioncn ncdio disiraído por algun ouiro
cniusiasno dc culiura.
(58i ÷ Ja aqui cnircvcnos a difcrcnça cnirc o
csiado das cicncias dc una cpoca c o csiado dc
sua culiura, quc daqui a pouco ocupara a nossa
aicnçao.
(59i ÷ Una gcraçao aiua cn ncdia duranic
irinia anos. Mas cssa aiuaçao dividc-sc cn duas
ciapas c iona duas fornas. duranic a princira
nciadc ÷ apro×inadancnic ÷ dcssc pcríodo, a
nova gcraçao faz a propaganda dc suas idcias,
prcfcrcncias c gosios, os quais, finalncnic,
adquircn vigcncia c sao o doninanic na scgunda
nciadc dc sua carrcira. Mas a gcraçao cducada
sol scu inpcrio iraz consigo ouiras idcias,
prcfcrcncias c gosios, quc concça a injciar no ar
pullico. Ouando as idcias, prcfcrcncias c gosios
da gcraçao inpcranic sao c×ircnisias, c por isso
rcvolucionarios, a nova gcraçao c anii-c×ircnisia
c anii-rcvolucionaria, qucr dizcr, dc alna
sulsiancialncnic rcsiauradora. Claro quc nao sc
dcvc cnicndcr rcsiauraçao cono sinplcs ºvolia ao
aniigo", o quc janais foran as rcsiauraçõcs.
(60i ÷ Nao sc confunda o auncnio, c ainda a
alundancia dc ncios, con a solra. No scculo XIX
auncniavan as facilidadcs dc vida, c isso produz
o prodigioso crcscincnio ÷ quaniiiaiivo c
qualiiaiivo ÷ da propria vida cono aponici
396
acina. Mas cIcgou un noncnio cn quc o
nundo civilizado, posio cn rclaçao con a
capacidadc do Ioncn ncdio, adquiria un
aspccio dcnasiado, c×ccssivancnic rico,
supcrfluo. Apcnas un c×cnplo disio. a scgurança
quc parccia ofcrcccr o progrcsso (auncnio
scnprc crcsccnic dc vaniagcns viiaisi
dcsnoralizou o Ioncn ncdio, inspirando-lIc
una confiança quc c ja falsa, airofica, viciosa.
(61i ÷ Nisio, cono cn ouiras coisas, a
arisiocracia inglcsa parccc una c×ccçao do diio.
Mas, o scr scu caso adniralilíssino, lasiaria
dcscnIar as linIas gcrais da Iisioria lriianica
para paicnicar quc csia c×ccçao, cnlora o scja,
confirna a rcgra. Conira o quc soi dizcr-sc, a
nolrcza inglcsa icn sido a ncnos ºsolrada" da
Europa c icn vivido cn nais consianic pcrigo
quc ncnIuna ouira. E porquc icn vivido scnprc
cn pcrigo soulc c conscguiu scnprc fazcr-sc
rcspciiar ÷ o quc supõc Iavcr pcrnanccido scn
dcscanso na lrccIa ÷. Esquccc-sc o dado
fundancnial dc quc a Inglaicrra icn sido, aic
nui avançado o scculo XVIII, o país nais polrc
do Ocidcnic. A nolrcza salvou-sc por isso ncsno.
Cono nao cra alundanic dc ncios, icvc dc
acciiar, c cvidcnic, a ocupaçao concrcial c
indusirial ÷ ignolil no coniincnic ÷, isio c,
dccidiu-sc nuiio ccdo a vivcr ccononicancnic cn
forna criadora, c a nao aicr-sc aos privilcgios.
397
(62i ÷ Vcja-sc OllricIi. Klina und Eniwicllung,
1923.
(63i ÷ O quc c a casa anic a socicdadc, c-o cn
cscala naior a naçao anic o conjunio das naçõcs.
Una das nanifcsiaçõcs, ao ncsno icnpo, nais
claras c volunosas do ºscnIoriiisno" vigcnic c,
cono vcrcnos, a dccisao quc algunas naçõcs
ionaran dc ºfazcr o quc csia na sua voniadc" na
convivcncia inicrnacional. A isso cIanan
ingcnuancnic ºnacionalisno". E cu, quc sinio
asco pcla sujciçao lcaia à inicrnacionalidadc,
acIo, por ouira paric, groicsco cssc iransiiorio
ºscnIoriiisno" das naçõcs ncnos gradas.
(64i ÷ Oucn crc copcrnicancnic quc o sol nao
cai no Iorizonic, coniinua vcndo-o cair, c cono o
vcr inplica una convicçao prinaria, coniinua
crcndo. O quc aconiccc c quc sua crcnça
cicniífica dcicn, consianicncnic, os cfciios dc
sua crcnça prinaria ou csponianca. Assin, csic
caiolico ncga con sua crcnça dognaiica, sua
propria, auicniica crcnça lilcral. Esia alusao ao
caso dcssc caiolico vai aqui so cono c×cnplo
para csclarcccr a idcia quc agora c×ponIo; nas
nao sc rcfcrc a clc a ccnsura radical quc dirijo ao
Ioncn-nassa dc nosso icnpo, ao ºnocinIo
saiisfciio". Coincidc con csic so nun ponio. O
quc lanço cn rosio ao ºnocinIo saiisfciio" c a
falia dc auicniicidadc cn quasc iodo o scu scr.
Mas ainda csia coincidcncia parcial c so
398
aparcnic. O caiolico nao c auicniico cn una
paric dc scu scr ÷ iudo quc icn, qucira ou nao,
dc Ioncn nodcrno ÷ porquc qucr scr ficl a
ouira paric cfciiva dc scu scr quc c sua fc
rcligiosa. Isio significa quc o dcsiino dcssc
caiolico c cn si ncsno iragico. E ao acciiar cssa
porçao dc inauicniicidadc cunprc con scu dcvcr.
O ºnocinIo saiisfciio", pclo conirario, dcscria dc
si ncsno por ncra frivolidadc c dc iudo ÷
prccisancnic para cscapulir a ioda iragcdia.
(65i ÷ Envilccincnio, acanalIancnio, nao c
ouira coisa scnao o nodo dc vida quc rcsia a
qucn sc ncgou a scr o quc icn quc scr. Esic scu
auicniico scr nao norrc por isso, nas convcric-sc
cn sonlra acusadora, cn faniasna, quc lIc faz
scniir consianicncnic a infcrioridadc da
c×isicncia quc lcva a rcspciio da quc iinIa quc
lcvar. O cnvilccido c o suicida solrcvivcnic.
(66i ÷ Para quc a filosofia inpcrc, nao c nisicr
quc os filosofos inpcrcn ÷ cono Plaiao quis
princiro ÷, ncn scqucr quc os inpcradorcs
filosofcn ÷ cono quis, nais nodcsiancnic,
dcpois ÷. Anlas as coisas sao, a rigor,
funcsiíssinas. Para quc a filosofia inpcrc, lasia
quc Iaja filosofia, qucr dizcr. lasia quc os
filosofos scjan filosofos. Ha quasc una ccniuria
os filosofos sao iudo, ncnos isso ÷ sao políiicos,
sao pcdagogos, sao liicraios ou sao Ioncns dc
cicncia.
399
(67i ÷ Vcja-sc Espana invcriclrada, 1a. cdiçao,
1921. (Vcja-sc pag. 35 do iono III das Olras
Conplciasi.
(68i ÷ Esia inagcn sinplcs da grandc nudança
Iisiorica cn quc sc sulsiiiui a suprcnacia dos
nolrcs pclo prcdonínio dos lurgucscs dcvc-sc a
Fanlc; nas claro c quc sua vcrdadc sinlolica c
csqucnaiica rcqucr nao poucos adiiancnios para
scr conplciancnic vcrdadcira. A polvora c
conIccida dc icnpo incnorial. A invcnçao da
carga nun iulo dcvcu-sc a algucn da
Lonlardia. Ainda assin, nao foi cficaz aic quc sc
invcniou a lala fundida. Os ºnolrcs" usaran cn
pcqucnas doscs a arna dc fogo nas cra
dcnasiado cara. So os c×crciios lurgucscs,
nclIor organizados ccononicancnic, pudcran
cnprcga-la cn grandc cscala. Fica, nao olsianic,
cono liicralncnic ccrio quc os nolrcs foran
dcrroiados dc nancira dcfiniiiva pclo novo
c×crciio, nao rcprcscniados pclo c×crciio dc iipo
ncdicval dos lorguinIaos, profissional, nas dc
lurgucscs, quc fornaran os suíços. Sua força
prinaria consisiiu na nova disciplina c na nova
racionalizaçao da iaiica.
(69i ÷ Mcrcccria a pcna insisiir solrc csic ponio
c fazcr noiar quc a cpoca das Monarquias
alsoluias curopcias opcrou con Esiados nuiio
dclcis. Cono sc c×plica isio? Ja a socicdadc cn
iorno concçava a crcsccr. Por quc, sc o Esiado
400
iudo podia ÷ cra ºalsoluio" ÷, nao sc fazia nais
foric? Una das causas c a aponiada.
incapacidadc iccnica, racionalizadora,
lurocraiica, das arisiocracias dc sanguc. Mas
nao lasia isso. Alcn disso aconicccu no Esiado
alsoluio quc aquclas arisiocracias nao quiscran
anpliar o Esiado à cusia da socicdadc. Conira o
quc sc crc, o Esiado alsoluio rcspciia
insiiniivancnic a socicdadc nuiio nais quc o
nosso Esiado dcnocraiico, nais inicligcnic, nas
con ncnos scniido da rcsponsalilidadc Iisiorica.
(70i ÷ Fccordcn-sc as uliinas palavras dc
Scpiinio Scvcro a scus filIos. Pcrnanccci unidos,
pagai ao soldado c dcsprczai o rcsio.
(71i ÷ Vcja-sc Elic Halcvy. Hisioirc du pcuplc
anglais au XIXc. sicclc (iono I, pag. 40, 1912i.
(72i ÷ Vcja-sc o cnsaio ºHcgcl y Ancrica" cn El
Espcciador. Tono VII, 1930. (Vcja-sc pag. 563 do
iono II dc O. C.i
(73i ÷ Vcja-sc o cnsaio Solrc la nucric dc Fona,
cn El Espcciador. Tono VI, 1927. (Vcja-sc pag.
537 do iono II dc O. C.i
(74i ÷ Isio c o quc faz a razao física c liologica, a
ºrazao naiuralisia", dcnonsirando con isso quc c
ncnos razoavcl quc a ºrazao Iisiorica". Porquc
csia, quando iraia a fundo das coisas c nao dc
soslaio cono ncsias paginas, ncga-sc a
401
rcconIcccr cono alsoluio ncnIun faio. Para cla,
raciocinar consisic cn fluidificar iodo faio
dcscolrindo sua gcncsc. Vcja-sc, do auior, o
cnsaio Hisioria cono sisicna (F. dc O., 2a.
cdiçaoi. (Vcja-sc o iono VI dc O. C.i
(75i ÷ Scria inicrcssanic nosirar cono na
CaialunIa colaloran duas inspiraçõcs
aniagónicas. o nacionalisno curopcu c o
cidadanisno dc Darcclona, cn quc pcrvivc
scnprc a icndcncia do vclIo Ioncn
ncdiicrranco. Eu ja dissc ouira vcz quc o
lcvaniino c o rcsio do Iono aniiquus quc Ia na
Pcnínsula.
(76i ÷ Honogcncidadc jurídica quc nao inplica
forçosancnic ccniralisno.
(77i ÷ O scniido dcsia alrupia asscvcraçao
supõc quc una idcia clara solrc o quc c a
políiica, ioda políiica ÷ a ºloa" cono a na ÷ sc
acIara no iraiado sociologico do auior iniiiulado
El Honlrc y la Ccnic.
(78i ÷ Vcja-sc do auior ºEl origcn dcporiivo dcl
Esiado". cn El Espcciador, iono VII, 1930. (Vcja-
sc pagina 607 do iono II dc O. C.i
(79i ÷ Vcja-sc DopscI. Fundancnios ccononicos
y socialcs dc la civilizacion curopca. Scgunda
cdiçao 1924, iono II paginas 3 c 4.
402
(80i ÷ Os ronanos nao sc rcsolvcran a cIanar
cidadcs às povoaçõcs dos larlaros, por nui
dcnso quc fossc o casario. CIanavan-nas ºfauic
dc nicu×", scdcs araiorun.
(81i ÷ Salido c quc o Inpcrio dc Augusio c o
conirario do quc scu pai adoiivo, Ccsar, aspirou a
insiaurar. Augusio opcra no scniido dc Ponpcu,
dos ininigos dc Ccsar. Aic Iojc, o nclIor livro
solrc o assunio c o dc Eduardo Mcycr. La
Monarquia dc Ccsar y cl Principado dc Ponpcyo,
1918.
(82i ÷ Ncn scqucr cono puro faio c vcrdadc quc
iodos os cspanIois falcn cspanIol, ncn iodos os
inglcscs inglcs, ncn iodos os alcnacs alio-
alcnao.
(83i ÷ Fican fora, csia claro, os casos dc Koinon
c língua franca, quc nao sao linguagcns
nacionais, nas cspccificancnic inicrnacionais.
(84i ÷ Confirna isio o quc a princira visia
parccc conirovcric-lo. a conccssao da cidadania a
iodos os Ialiianics do Inpcrio. Pois a
conscqucncia c quc csia conccssao foi fciia
prccisancnic à ncdida quc ia pcrdcndo scu
caraicr dc csiaiuio políiico, para sc convcricr ou
cn sinplcs carga c scrviço do Esiado ou cn ncro
iíiulo dc dirciio civil. Dc una civilizaçao cn quc a
cscravidao iinIa valor dc princípio nao sc podia
cspcrar ouira coisa. Para nossas ºnaçõcs", pclo
403
conirario, foi a cscravidao un sinplcs faio
rcsidual.
(85i ÷ Scgundo isso, o scr Iunano icn
irrcncdiavclncnic una consiiiuiçao fuiurisia;
qucr dizcr, vivc anics dc iudo no fuiuro c do
fuiuro. Nao olsianic, cu conirapus o Ioncn
aniigo ao curopcu, dizcndo quc aquclc c
rclaiivancnic fccIado ao fuiuro, c csic,
rclaiivancnic alcrio. Ha, pois, aparcnic
coniradiçao cnirc una c ouira icsc. Surgc cssa
aparcncia quando sc csquccc quc o Ioncn c un
cnic dc dois andarcs. por un lado c o quc c; por
ouiro icn idcias solrc si ncsno quc coincidcn
nais ou ncnos con sua auicniica rcalidadc.
Evidcnicncnic, nossas idcias, prcfcrcncias,
dcscjos, nao podcn anular nosso vcrdadciro scr,
nas sin conplica-lo ou nodula-lo. O aniigo c o
curopcu csiao igualncnic prcocupados con o
porvir; nas aquclc sulncic o fuiuro ao rcginc do
passado, cnquanio nos dci×anos naior
auiononia ao fuiuro, ao novo cono ial csic
aniagonisno, nao no scr, nas no prcfcrir,
jusiifica quc qualifiqucnos o curopcu dc fuiurisia
c o aniigo dc arcaizanic. É rcvclador quc apcnas o
curopcu dcspcria c iona possc dc si, concça a
cIanar a sua vida ºcpoca nodcrna". Cono c
salido, ºnodcrno" qucr dizcr o novo, o quc ncga o
uso aniigo. Ja nos fins do scculo XW concça-sc a
sullinIar a nodcrnidadc, prccisancnic nas
qucsiõcs quc nais agudancnic inicrcssavan ao
404
icnpo, c fala-sc, por c×cnplo, dc dcvoiio
nodcrna, una cspccic dc vanguardisno na
ºnísiica icologia".
(86i ÷ O princípio das nacionalidadcs c,
cronologicancnic, un dos princiros sinionas do
ronaniicisno ÷ fins do scculo XVIII.
(87i ÷ Agora vanos assisiir a un c×cnplo
giganicsco c claro, cono dc laloraiorio; vanos
vcr sc a Inglaicrra accria a nanicr cn unidadc
solcrana dc convivcncia as difcrcnics porçõcs dc
scu Inpcrio, propondo-lIc un prograna airaiivo.
(88i ÷ Sc lcn cssa Ionogcncidadc rcspciia c
nao anula a pluralidadc dc condiçõcs originarias.
(89i ÷ Dasiaria isso para sc convcnccr dc una
vcz para scnprc quc o socialisno dc Mar× c o
lolcIcvisno sao dois fcnóncnos Iisioricos quc
apcnas icn alguna dincnsao conun.
(90i ÷ Esias paginas foran pullicadas no
nuncro dc junIo dc 1937 na rcvisia TIc
NinciccniI Ccniury.
(91i ÷ Ccria dosc dc anacronisno c conaiural à
políiica. É csia un fcnóncno colciivo, c iodo o
colciivo ou social c arcaico rclaiivancnic à vida
pcssoal das ninorias invcnioras. Na ncdida cn
quc as nassas sc disiancian dcsias auncnia o
arcaísno da socicdadc, c dc una nagniiudc
405
nornal, consiiiuiiva, passa a scr un caraicr
paiologico. Sc sc rcpassa a lisia das pcssoas quc
inicrvicran na criaçao da Socicdadc das Naçõcs,
conclui-sc quc c nuiio difícil cnconirar alguna
quc ncrcccssc cniao, c nuiio ncnos ncrcça
agora, csiinaçao iniclcciual. Nao nc rcfiro, c
claro, aos ºc×pcris" c aos iccnicos, olrigados a
dcscnvolvcr c c×ccuiar os dcsaiinos daquclcs
políiicos.
(92i ÷ Os inglcscs, con lon acordo, prcfcriran
cIana-la dc ºliga". Isso cviia o cquívoco, nas, ao
ncsno icnpo, siiua a agrupaçao dc Esiados fora
do dirciio, consignando-a francancnic à políiica.
(93i ÷ Solrc a unidadc c a pluralidadc da
Europa, conicnpladas dc ouira pcrspcciiva, vcja-
sc o Prologo para franccscs, ncsia olra.
(94i ÷ A socicdadc curopcia nao c, pois, una
socicdadc cujos ncnlros scjan as naçõcs. Cono
cn ioda auicniica socicdadc, scus ncnlros sao
Ioncns, indivíduos Iunanos, a salcr, os
curopcus, quc alcn dc scr curopcus sao inglcscs,
alcnacs, cspanIois.
(95i ÷ Por c×cnplo. as apclaçõcs a un suposio
ºnundo civilizado" ou a una ºconscicncia noral
do nundo", quc iao frcqucnicncnic fazcn sua
cónica apariçao nas carias ao dircior dc TIc
Tincs.
406
(96i ÷ Ha ccnio c cinqucnia anos a Inglaicrra
fcriiliza sua políiica inicrnacional nolilizando
scnprc quc lIc convcn ÷ c so quando lIc
convcn ÷ o princípio nclodranaiico dc ºwoncn
and cIildrcn", ºnulIcrcs c crianças"; cis ai un
c×cnplo.
(97i ÷ Fican fora da considcraçao os quc
podcnos cIanar dc ºinvcnios clcncniais" ÷ o
nacIado, o fogo, a roda, o canasiro, a vasilIa,
cic. ÷. Prccisancnic por scr o suposio dc iodos
os dcnais c Iavcr sido conscguidos cn pcríodos
nilcnarcs, c nuiio difícil sua conparaçao con a
nassa dos invcnios dcrivados ou Iisioricos.
(98i ÷ Acrcsccnic-sc quc ncssas opiniõcs
jogavan scnprc grandc papcl as vigcncias
conuns a iodo Ocidcnic,
(99i ÷ Ncsic ncs dc alril, o corrcspondcnic dc
TIc Tincs cn Darcclona cnvia a scu jornal una
infornaçao ondc procura os dados nais
ninuciosos c as cifras nais c×aias para dcscrcvcr
a siiuaçao. Mas iodo o raciocínio do ariigo quc
noliliza c da un scniido a csscs dados
ninuciosos c a cssas cifras c×aias, paric dc
supor, cono dc coisa salida c quc iudo c×plica, o
Iavcr sido nossos anicpassados os nouros. Dasia
isso para dcnonsirar quc cssc corrcspondcnic,
qualqucr quc scja sua opcrosidadc c sua
inparcialidadc, c alsoluiancnic incapaz dc
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infornar solrc a rcalidadc da vida cspanIola. É
cvidcnic quc una nova iccnica dc nuiuo
conIccincnio cnirc os povos rcclana una
rcforna profunda da fauna jornalísiica.
(100i ÷ Os pcrigos naiorcs quc cono nuvcns
ncgras ainda sc anonioan no Iorizonic, nao
provccn dirciancnic do quadranic políiico, nas
do cconónico. Aic quc ponio c incviiavcl una
pavorosa caiasirofc cconónica cn iodo o nundo?
Os ccononisias dcvian dar-nos ocasiao para quc
colrasscnos confiança cn scu diagnosiico. Mas
nao nosiran ncnIuna prcssa.
(101i ÷ Traduçao inglcsa do prcscnic livro.
Ccorgc Allcn & Unwin, Londrcs.
(102i ÷ Aic o ponio dc c×isiir cn ccrios povos
priniiivos dois idionas, un quc so falan os
Ioncns c o ouiro so para as nulIcrcs.
(103i ÷ Ha, scn duvida, un faior quc colalora
ncsias nudanças cono cn iodos os do
organisno vivo, nas rcsisio a considcra-lo
dccisivo. É o conirasic. A vida icn a condiçao
inc×oravcl dc sc cansar, dc sc cnloiar para un
csiínulo, c ao ncsno icnpo, rcaliliiar-sc para o
csiínulo oposio. Sc no csiilo piciorico as figuras
aparcccn cn posiçao vcriical, c sunancnic
provavcl quc pouco icnpo dcpois surgira ouiro
csiilo con as figuras cn posiçao diagonal
(nudança da piniura iialiana dc 1.500 a 1.600i.
408
(104i ÷ Nao sc c×plica, a ncu juízo, a origcn dc
ccrias coisas Iunanas, cnirc clas o Esiado, sc
nao sc supõc cn cpocas nuiio priniiivas una
ciapa dc cnornc prcdonínio dos jovcns quc
dci×ou, con cfciio, nuiios vcsiígios posiiivos nos
povos sclvagcns do prcscnic.
(105i ÷ Oucn quiscssc coniar-nos con algun
dcialIc a gucrra dc Nunancia, as conscqucncias
quc irou×c para a vida ronana, nudanças
políiicas, rcforna das insiiiuiçõcs, cic., faria una
loa olra. Porquc o paralclisno con o noncnio
prcscnic da EspanIa c surprccndcnic c
luninoso.
(106i ÷ Do ponio dc visia nais gcral, quc,
porianio, nao coniradiz o diio agora, icn scniido
dizcr quc a vida nao c scnao juvcniudc, ou quc
na juvcniudc culnina a vida, ou quc vivcr c scr
jovcn, c o rcsio c dcsvivcr. Mas isio valc para un
concciio nais ninucioso dc juvcniudc quc o
Ialiiualncnic usado c ao qual csic cnsaio sc
acolIc.
(107i ÷ Un c×cnplo dcsics conlaics cn quc a
viioria cfciiva nao dcu, scn cnlargo, o iriunfo ao
conlaicnic, podc scr visio na ordcn pullica. Os
quc conlaicran c cn rcalidadc vcnccran a vclIa
políiica pscudo-parlancniaria, foran os
ºiniclcciuais" dcssa gcraçao. E, cnircianio, por
razõcs dc curioso cspclIisno Iisiorico, o iriunfo
409
foi gozado pclos quc nao conlaicran nunca cssc
rcginc cnquanio foi podcroso.
(108i ÷ O dia quc sc faça cn scrio a Iisioria do
uliino scculo, vcr-sc-a quc cssa gcraçao c a
cfciivancnic culpada do dcsajusic aiual da
Europa.
(109i ÷ TcnIo idcia dc quc Frcud sc ocupa
ninuciosancnic dcsic faio. Cono fazcn
dczcsscis anos quc li cssc auior, nao rccordo lcn
cn quc olra iraia o assunio; nas con alguna
prolalilidadc dirijo o lciior à quc cniao sc
iniiiulava Trcs cnsaios solrc icoria sc×ual.
(110i ÷ Vcja-sc a Cronaca, dc Fra Salinlcnc
(Parna; 1957, paginas 941102i.
(111i ÷ ºSo para louvar as danas", diz o irovador
Ciraud dc DornclI.
(112i ÷ Por isio a csiinaçao do cscriior na
EspanIa c scnprc falsa c a rigor nais olra da
loa voniadc quc dc sinccro cniusiasno. Pclo
conirario, na França icn o cscriior un fornidavcl
podcr social. Sinplcsncnic porquc os franccscs
cnicndcn dc liicraiura.
(113i ÷ AcIillc LucIairc, La socicic françaisc au
icnps dc PIilippc Augusic, pag. 376.
410

CopyrigIi.
Josc Oricga y Cassci
CopyrigIi da iraduçao.
Hcrrcra FilIo
CopyrigIi da cdiçao clcirónica.
Ed. Fidcndo Casiigai Morcs
Versão para eBook
eBooksBrasII.com

__________________
Agosio 2001
Vcrsao para pdf Fcvcrciro 2005
Proilido iodo c qualqucr uso concrcial.
Sc vocc pagou por cssc livro
VOCE FOI FOUDADO!
Vocc icn csic c nuiios ouiros iíiulos CFÁTIS
dircio na fonic.
www.cloolslrasil.con

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