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Arquitetura, imaginário e poder no Palácio do Barão de Nova Friburgo

Renata Reinhoefer Ferreira França [1]

FRANÇA, Renata Reinhoefer Ferreira. Arquitetura, imaginário e poder no Palácio do Barão de Nova Friburgo. 19&20, Rio de Janeiro, v. III, n. 1, jan. 2008. Disponível em:
<http://www.dezenovevinte.net/arte%20decorativa/ad_palacio_friburgo.htm>.

* * *

No ano de 1854, Antonio Clemente Pinto, rico fazendeiro da região de Cantagalo e Campos, no Rio de Janeiro, recebe do Imperador o título de Barão de Nova Friburgo pelos serviços prestados à
região norte fluminense. Em 1858, compra a casa de número 159 da Rua do Catete e um terreno de fundos que vai até o número 18-A da Praia do Flamengo [2] e encomenda ao arquiteto alemão
Carl Friedrich Gustav Waehneldt (1830-1873) a construção de sua nova residência. O projeto do Palácio do Barão de Nova Friburgo [Figura 1] é apresentado na Exposição Geral da Academia de
Belas Artes do Rio de Janeiro em 1862, ficando com medalha de prata. Traz influência da arquitetura italiana, mais precisamente dos palácios urbanos de Florença do final do século XV e dos
palácios à beira do Grande Canal de Veneza.O prédio é concluído em 1867, mas o Barão muda-se para lá em 1 de julho de 1866, ainda em obras de acabamento.

Nossos objetos de estudo são duas salas localizadas no segundo andar, mais conhecido como Piano Nobile (Piso Nobre) [Figura 2] , cuja diversidade de estilos e divisão dos espaços por funções
específicas - características da arquitetura oitocentista – são notórias. Grandes janelas abrem-se para a rua do Catete dando a ver os Salões Pompeano, Nobre e Azul.

O Salão Nobre é dedicado aos bailes, e sua posição estrategicamente central na fachada, permite aos transeuntes, tais como Santos [3], entrever as festas reafirmando, em toda sua pompa, a
importância e riqueza de seu dono.

Já não lhe bastava o que era. A casa de Botafogo[4], posto que bela, não era um palácio, e depois, não estava exposta como aqui no Catete, passagem obrigatória de toda a gente, que olharia
para as grandes janelas, as grandes portas, as grandes águias no alto, de asas abertas. Quem viesse pelo lado do mar, veria as costas do palácio, os jardins e os lagos... Oh, gozo infinito! Santos
imaginava os bronzes, mármores, luzes, flores, danças, carruagens, músicas, ceias...Tudo isso foi pensado depressa, porque a vitória, embora não corresse (os cavalos tinham ordens para
moderar a andadura), todavia, não atrasava as rodas para que os sonhos de Santos acabassem (MACHADO DE ASSIS, 1998b: 48-49).

Além do Salão Nobre, Santos poderia ver o Azul e o Pompeano. O Salão Azul, situado entre este e a Capela, marca a transição entre o sagrado e o profano, e o Pompeano é utilizado pelas mulheres
depois do jantar.

Como oposição significativa, escolhemos o Salão Mourisco [Figura 3] para dialogar com o Pompeano [Figura 4] já que ambos seriam de apoio ou transição e utilizados depois do jantar - o
primeiro pelos homens e o segundo pelas mulheres (PROURB, Interior: Estética e Função : 2o pavimento).

Suas respectivas decorações são relacionadas a atividades íntimas e não de intensa participação social. Esse tipo de especialização dos salões por funções e esquemas decorativos é um artifício usado
pela burguesia da época para fazer saltar aos olhos de quem lá fosse o seu poder social em consolidação, bem como seu polimento cultural e mentalidade progressista, legitimando sua “nobreza”.

O Salão Mourisco

O tema do Salão Mourisco, com arabescos em estuque nas paredes e teto, é muito difundido no século XIX, dada a conquista da Argélia pela França. É um espaço destinado aos prazeres do fumo e
dos jogos. Alencastro (ALENCASTRO, 1997: p.60-62) nota que fumar vira moda na Regência e no Segundo Reinado, tido como um gesto público de sociabilidade. Fuma-se o charuto e não o
cachimbo, preferido pelos europeus. Essa diferença deve-se ao fato de muitos negros brasileiros também terem o hábito de fumar cachimbos, costume ancestral africano. O fumo relaciona-se ao
nacionalismo brasileiro - em A Moreninha de Joaquim Manuel de Macedo, Carolina recomenda a seu namorado que não fume charutos cubanos, e sim brasileiros, como atitude de patriotismo - além
da fabricação de charutos ser uma importante atividade econômica da época.

Quanto aos jogos, o divertimento dos homens de sociedade compreende a prática do voltarete, do xadrez, do gamão e do whist, enquanto os mais moços praticam o jogo da palhinha (SCHWARCS,
1998: p.111).

No que tange à relação entre um salão de fumar e jogos e os motivos orientalistas, Edward Said (SAID, 1996: p.197) pontua que, para os escritores do século XIX, como Flaubert, existe uma
associação quase uniforme entre o Oriente e o sexo. Para os europeus da época o Oriente simboliza ao mesmo tempo uma promessa e uma certa ameaça sexual, de sensualidade latente. Flaubert, em
seus romances, associa o Oriente ao escapismo da fantasia sexual, seus personagens anseiam por coisas que não têm em suas entediantes e reprimidas vidas burguesas, deixam-se levar por sonhos de
liberdade sexual licenciosa associados a idéias de “haréns, princesas, príncipes, escravos, véus, rapazes e moças que dançam, sorvetes, unguentos e coisas do gênero” (SAID, 1996: p.197). O Oriente
do devaneio oitocentista é o lugar do proibido, imagem fixada por alguns autores que viajam ou simplesmente imaginam o Oriente à época.

dos jantares grandiosos. Quem fuma são os homens e a eles cabem os devaneios de poder.212) dizem respeito ao que consideram que seja o seu atraso. sua apática maleabilidade e sua feminina penetrabilidade. culturas e sociedades avançadas e atrasadas. já envolto na fumaça dos charutos e outros vícios relaxantes. loucos. 1996: p. Tem de ser austero. Aparece outro desdobramento da feminina penetrabilidade: a visão do Ocidente como o masculino e do Oriente como feminino. as pessoas fossem remetidas aos locais das histórias exóticas contadas sobre o Oriente. Ao sonhador não é permitido ficar muito tempo indiferente à representação de uma casa. O homem oitocentista tem um protocolo rígido de comportamento a seguir. O devaneio fica mais real quando cercado pelo espaço que o enfatiza: “A representação de uma casa não permite que um sonhador fique indiferente por muito tempo” (BACHELARD. É possível pensar que. e o de Banquetes. o excesso decorativo do Salão Mourisco passa a causar constrangimentos na elite do Governo: “O ar pitoresco da sala limitava sua utilização em ocasiões solenes” (MUSEU DA REPÚBLICA. 1996: p. onde é tão doce. anseiam por ela o que potencializa a arquitetura e decoração. Em sua decoração vê-se a representação de algumas figuras em trajes exóticos. O espaço de que estamos tratando é exclusivamente destinado aos homens. Quantas sensações a arquitetura e decoração não proporcionariam àqueles homens unidos em uma sala. comedido e racional. o espaço se desdobra e. outras envoltas em véus. onde raças incivilizadas deveriam ser submetidas. destinado às conversas e visitas. uma solidão.tudo isso tem relação direta com o conceito de Oriente para os europeus.Nesse período circulam teorias sobre bases biológicas da desigualdade. O Oriente deveria ser submetido. se fechadas. conquistados e submetidos. abrem-se as portas do universo. louças. de convocações em acordo com suas expectativas? Não se trata de nenhuma sugestão alheia à vontade daqueles homens. Um canto é um espaço reduzido onde gostamos de encolher-nos. É um canto situado entre grandes salões: o Veneziano. já que se pode passar do Salão de Banquetes ao Amarelo (Veneziano) por outra via. quando ocorre a ocupação do Palácio pelo governo público. É a certeza da imobilidade. evocativas de uma outra realidade. Talvez. que têm em comum a conotação de problemas a serem resolvidos. É possível supor então que o caráter masculino desse espaço esteja em ser destinado aos conquistadores. não portam a dialética do interior e exterior? Não seria ali o refúgio do masculino: pelo tratamento das imagens. em 1897. de convites. Mais uma vez podemos ver pontos de contato entre a função da sala e seu motivo decorativo: o Oriente está ligado a elementos da sociedade ocidental tais como delinqüentes. diz Bachelard. contrapondo-se às exigências das conversas formais da sala de visitas. onde a representação os estimularia a sentir todo esse poder? O contágio do espaço. definitivamente não estará em uma passagem. Ele é arrebatado. por suas dimensões acolhedoras e não aquelas opressivas dos grandes salões? O Salão Mourisco não intimida. podem espreitar a rua a uma certa distância e vigiar suas posses de perto. de imobilidade.146). que gostam de ser relembrados disso. não traz ele essas características de refúgio? Os aspectos de meia caixa: metade porta. não comprometem o trânsito entre aposentos da casa. Se alguém estiver em seu interior. A localização do salão também carrega uma relação com o masculino. descobrindo as sonhadas. por seu posicionamento na casa. por exemplo.os excluídos -. etiquetas e protocolos. Indo para além das situações vividas. vermelho e dourado. naquele canto. e aos ainda teatrais jantares com suas profusões de pratos. clarificar e sacramentar esses conceitos. Não há com o que se preocupar. confinados. e da necessidade real de se pontuar as diferenças. Poderiam os homens ficar indiferentes à sedução desse ambiente quando cercados. melhor. incorporam uma atitude eminentemente feminina. além de revelar aos outros homens que dividem a sala toda a extensão da propriedade. momento em que já não há a encenação e a frivolidade ornamentada da corte. Qualquer devanear é questão feminina. levariam o freqüentador. 1994: p. Como na reportagem “A Vida Elegante”: “[. a feminina penetrabilidade. Nada melhor do que um Salão Mourisco para rememorar. Essa última. . voltado para o fundo com vista para a propriedade.] o seu magnífico salão mourisco. por sua situação de canto. transportando-os para outros lugares e tempos. Todo o clima da sala. Bachelard diz que “o canto é um refúgio que nos assegura um primeiro valor do ser: a imobilidade” (BACHELARD. sua excentricidade. vêem mais do que são vistos. mulheres e pobres . formando um elo poderoso. à luz enternecida. Eles captam sua mensagem. repousar do brilho dos outros salões” (ALMEIDA. lugares existentes na memória e no desejo. metade parede. dos pés a cabeça. o que as lembraria da “predestinação inevitável” dos poderosos e avançados. nos permite fazer alguns desdobramentos. onde nos recolhemos em nós mesmos.29). A poética do espaço. sua separação geográfica. 1994: p. desconhecida e enigmática. Parece-nos ser mesmo uma proposta de canto. sob o olhar estarrecido. a viajar em seu mundo imaginário. num canto só seu do Palácio. onde se poderia deliciar um bom charuto com seus iguais. quando esses homens se unem em uma sala onde se permitem devanear. que pregam uma validade científica para a divisão de raças em atrasadas e avançadas. para os jardins e para a rua Silveira Martins. convida. unindo o reconhecimento que têm de si mesmos à imaginação. aos selecionados. É difícil pensar a arquitetura e a decoração surtindo o mesmo efeito se o salão tivesse as dimensões ou o posicionamento do Salão de Banquetes. que. provavelmente traçando uma ponte facilitadora às imagens dos devaneios a partir de uma realidade sugerida.40).. sempre. seus arabescos nas paredes em azul.64). com suas formas sinuosas e as figuras representadas. Outras idéias essenciais sobre o Oriente (SAID. caracteriza sua posição de controle. Seu posicionamento na casa. enquadrado e penetrado pelo Ocidente. seus hábitos de imprecisão. masem um canto só seu. em fins do século XIX a questão do imperialismo é debatida tanto pelos pró-imperialistas como pelos anti-imperialistas usando a tipologia binária das raças. . sua tendência ao despotismo. 1996: p. sua mentalidade aberrante. O nosso canto analisado. Um deles seria a penetrabilidade do feminino no homem. Ele fala à intimidade até por suas portas. Afinal. pelas características inebriantes de cortina de fumaça e vícios permissivos. É interessante notar que. Reservados e protegidos..

temperamental. Os novos hábitos trazidos pelos fidalgos da corte são absorvidos pela sociedade da cidade do Rio de Janeiro. As mulheres figuram como ofertas da casa para o mundo exterior. Em meados do século. se é onde estamos seguros. as mudanças na forma de viver das mulheres se tornam mais explícitas e. aumenta o número de estrangeiras na cidade. catecismo. o que não as libera no mundo. cálculo. a mulher de classe alta passa a desempenhar não só o papel de dona-de-casa e mãe mas também de dama de salão. A vida mais cosmopolita e sofisticada do Rio de Janeiro tem seu início em 1808 com a vinda da corte joanina.41). apesar de todos os novos direitos adquiridos. como Gustav Waehneldt. É o princípio de uma nova maneira de vida. mas tudo isso dá-se por demandas da corte. em que ocorriam escavações e novas descobertas.mas seu objeto é sempre exterior ao homem”. em regime de semiclausura. expõe-se e admira a vida da cidade através das janelas das casas. influenciado pelos hábitos da corte. da vista da rua e à vista da rua. Logo o piano vira febre no Rio de Janeiro – que Araújo Porto Alegre chega a chamar de “cidade dos pianos”. pensemos o salão Pompeano. 48). demandada pelo modelo masculino do Rio de Janeiro. a mulher freqüenta saraus e bailes. Para o autor. que também desfila na rua do Ouvidor. as famílias inauguram seus salões. não deixou de lhe mandar esculpir na Itália um magnífico mausoléu. 1984: p. econômico. A decoração apresenta mosaicos nos assoalhos e a mobília da sala é composta de sofás e tamboretes dourados com assento em estofo de couro onde se sobressai o tom vermelho.107) . As mulheres andam nas ruas de vestidos longos de saias amplas. o protagonista. durante perto de um mês” (MACHADO DE ASSIS. seria um privilégio ou manipulação? É apenas a forma que o homem a guarda. Ao comprar um. 49).150.2). que aprecia a música e as artes cênicas. Acima da altura das portas. e a mulher passa a participar. 1965: p. com aplicação de figuras e alegorias sobre um fundo branco. além dos aprendizados anteriores (leitura. em consequência do mundanismo que invade o Rio de Janeiro. que pode ser “moral. A sociedade se diverte muito. nos anos 1850. na Rua do Ouvidor. 1998a: p. A rua do Ouvidor fornece o máximo em elegância. p. nos quais a mulher levava uma vida de normas de comportamento rígidas. ainda num determinado e confinado espaço. Suas janelas se abrem para as ruas Silveira Martins e Catete. do bem receber em casa e diverte-se com o canto e a dança. sexual . Esse modelo é o de um homem preocupado com sua própria aparência. A mulher da época. que se modifica. A presença de um homem é calcada na promessa de poder que corporifica. Surgem também novos hábitos de consumo e passeios: é moda passear à tarde.que dão status . John Berger adverte que a “presença social da mulher desenvolveu-se como resultado de sua habilidade em viver sob essa tutela e dentro desse espaço delimitado” (BERGER. com a ampliação de sua vida social. usar vestidos requintados feitos com tecidos ingleses e modelos parisienses. que esta cidade admirou exposto. e de acordo com seus hábitos europeus. Em “Fulano” de Machado de Assis. marca as modificações nos padrões do neoclassicismo europeu e nas influências registradas nos arquitetos em formação a partir desta época. manda vir ao Brasil diversos músicos estrangeiros e incentiva o teatro lírico. Assim. da vida da sociedade.33). xales de seda da Índia e chapéus pequenos com penteados feitos no disputado salão do senhor Charles Guinard e usando perfumes providenciados pela perfumaria Desmarais. 1997. O aumento no consumo de pianos . nas esquinas da Silveira Martins e Catete. é o lugar perfeito para sonhar. e talvez por isso mesmo seja o lugar do devaneio. Nessa época. sem função definida. Ora. Cabe dizer que é atribuído à Baronesa da Nova Friburgo o posicionamento considerado não usual do Palácio. vai transformando seu comportamento: nos bailes e serões exercita a arte do cerimonial.Há ali uma restrição de espaço: aproxima-se de uma caixa. que se torna então sede do Reino de Portugal e Algarve (DINIZ. Essa semiclausura doméstica seria imediatamente reduzida com a chegada da corte cujos membros demandam ambientes adequados à exibição de seu luxo e requinte. e dão um novo ritmo aos saraus. já que em suas fazendas de Cantagalo e Friburgo vivia cercada de árvores e sem vista urbana. entretidas por toda a sorte de vitrines. iluminando a noite por focos elétricos. D. essa proteção de esconderijo é o que propicia o ambiente favorável ao relaxamento e ao deslocamento pelo imaginário. “quatro ricas galerias com cortinas e sanefas de setim carmezim e aplicações de puro estilo Pompeano encimam as portas desta sala. João VI. dizendo que as alusões a Pompéia nas paredes teriam uma razão ligada à época de sua feitura. à beira da rua. um espaço privado de sociabilidade. cujo lustre imita o mesmo estilo” [5]. físico. em 1856 (ALENCASTRO. O glamour da corte é completado pelas livrarias Garnier e Irmãos Laemmert. escrita. Belle Helène e Café de la Paix (SCHWARCS. tomar chá nas cafeterias elegantes. Alguns qualificam o salão apenas como de apoio às festas. Talvez seja um indício do motivo da escolha do posicionamento do salão das mulheres. tendo um terreno imenso para trás [Figura 5]. Consta que ela queria “manter contato direto com a cidade e sua vida agitada” (MATHIAS. É o que sua presença revela do que é capaz de fazer para você ou por você que conta. se é onde estamos recolhidos em nós mesmos. e se enterrou a mulher sem aparato. não vivem o exterior livremente.produz uma virada na música e na dança imperial. bailes e serões musicais. Nesta mesma famosa rua as damas passeiam elegantemente vestidas. determinada pela divulgação dos achados arqueológicos de Pompéia a partir de 1817. A partir deste cenário. o uso e as convenções estabelecem que a presença social da mulher seja diferente daquela do homem. Segundo a tradição oral isso ocorreu porque a baronesa queria apreciar o movimento da rua. Essa descoberta. social. Nas paredes também é a cor vermelha que domina. por ocasião da morte de sua mulher “dividiu a dor com o público. O fato de disporem da fachada principal da casa. de um exterior protegido. lê romances e passeia nas ruas em lojas elegantes e cafés. 1999: p. O Salão Pompeano O Salão Pompeano tem duas portas voltadas para o Salão Nobre e uma porta de ligação com o Salão Veneziano (Amarelo). como a do uso de cores nos monumentos clássicos. como o Alcazar. costura e bordado) tem também aulas de canto. Essa entrada se confronta com os costumes coloniais anteriores. Com isso tudo. vol. ainda que com restrições. 1998: p. pela imobilidade. enquanto a presença de uma mulher exprime sua própria atitude em relação a si mesma e . Esse isolamento do vasto mundo exterior. dança e conversação.

uma cobiça de possuí-lo”. narradas na cidade entre amigos e inimigos. numa situação limite entre o velado e o exposto. erguem os olhos em sua direção “com o desejo de costume. 49) Voltemos a Santos. E o que vêem? Vêem os salões ligados aos prazeres do presente e suas maravilhas: grandes festas únicas e damas nas janelas. admiração. grandes festas celebradas. que olharia para as grandes janelas. porta-se como objeto entreaberto. O homem é o sujeito desejante. Seus olhos e imaginação seriam impelidos a entrar. tem que fiscalizar o modo como aparece para os outros.48-49) Os homens passam pelo palácio.117). maravilhas. As mulheres do século XIX estão na posição de objetos de desejo. Os homens atuam e as mulheres aparecem. exposta à rua pelas grandes janelas das salas. [. as grandes portas” que deixam tudo à mostra. em determinados momentos. A tentação que as grandes janelas e portas do Catete exercem sobre Santos funciona calcada na sugestão deste cosmos do entreaberto. a mulher aparece à janela. A visão do palácio. ele tem a mobilidade necessária. personagem de Machado de Assis: Ao passar pelo Palácio Nova Friburgo. levantou os olhos para ele com o desejo de costume. onde a mulher estaria alienada num lugar de puro desejo do Outro (KEHL. cobiça de possuí-lo. O acesso (aos que estavam de fora) é garantido apenas a alguns.. em última instância para os homens. as quais elas tinham ganho o direito de explorar. com sua gente bem arrumada e de modos finos. (MACHADO DE ASSIS. “exposta como aqui no Catete. E o visível é o glamour dos bailes. a ser contemplada. e a mulher. dar ali grandes festas únicas. gozo infinito. Ativo. uma cobiça de possuí-lo. 1998b: p. que é exclusivo e seletivo. 1999: p. amigos e inimigos.define o que pode o que não lhe pode ser feito. rancor. à vista. convidados a vagar e descobrir uma imensidão misteriosa. 1998: p. Que presença impressionante não alcançaria assim. inveja. As mulheres vêem-se sendo olhadas. Santos está no exterior. o Barão de Nova Friburgo? . Artíficios da sedução e do poder. passagem obrigatória de toda a gente. mas ainda a relação das mulheres entre elas. da qual o resto de seu corpo jamais chegaria a participar. celebradas nas gazetas. O fiscal que existe dentro da mulher é masculino: a fiscalizada. na passiva posição feminina. mas longe do toque. dançando e tocando o que havia de mais elegante na época. dos saraus e festas. É exatamente o entreaberto que garantiria todo o efeito de desejo.e mais particularmente um objeto da visão: um panorama. sendo o sucesso dessa empreitada de crucial importância para o êxito de sua vida. Nesse sentido. Isso determina não só a maioria das relações entre homens e mulheres. O comportamento de Santos afina-se com os discursos masculinos sobre a feminilidade. cheios de admiração. Desse modo ela vira um objeto . feminino. Os homens olham as mulheres. de rancor ou de inveja. O homem passa em seu carro pela rua.] Para Santos a questão era só possuí-lo. Os termos usados por Machado de Assis ao se referir ao Palácio são: desejo. estimula os transeuntes a imaginar as maravilhas de seu interior sugerido pelo que é visível do lado de fora.. (BERGER.

capitalista e diretor de um banco. São Paulo. . Um Palácio na Cidade. Anais do Museu Histórico Nacional. Chiquinha Gonzaga. Pela condição financeira do personagem. 1996. ________________________. Herculano Gomes. Belo Horizonte. BACHELARD. v. [3] Santos é um personagem do romance Esaú e Jacó de Machado de Assis. São Paulo. KEHL. [4] A Casa de Botafogo era a residência de Santos. Maria Rita. 1998a.br/prourb/catete. Deslocamentos do Feminino. MACHADO DE ASSIS. John. cresceu com ela. Império: a corte e a modernidade nacional. Martins Fontes. como se lê na página 41: “Ao desembocar na Praia de Botafogo. Santos deleitou-se de a ver. “O Palácio do Catete”. A poética do Espaço. SAID. o Barão comprou também os prédios de número 161 e 163 da rua do Catete. 1984. Imprensa Nacional. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro. Imago.1998.Uma antologia. 1994.fau. MACHADO DE ASSIS. Rio de Janeiro. BERGER.Transcrição do Jornal do Commércio de 20/02/1897. PROURB. Gaston. Autêntica Editora. percebe-se que era uma casa de alto luxo. Edinha. 1994. Editora Rosa dos Tempos. 1996. São Paulo. São Paulo. 1965. 1997. subiu por ela. SCHWARCS. Museu da República. Catete . Companhia das Letras. Orientalismo . Rio de Janeiro. MATHIAS. Joaquim. Luiz Felipe de. vols. Esaú e Jacó. “Interior: Estética e Função : 2 pavimento”. Cícero Antonio F.Memórias de um Palácio. A casa descobria-se a distância.) Luiz Felipe de Alencasto. Edward W.UERJ [2] Em 1864. A estatueta de Narciso no meio do jardim sorriu à entrada deles” [5] Retirado de material do arquivo do Museu da República . ALMEIDA. Lilia Moritz. Joaquim. Modos de ver. a enseada trouxe o gosto de costume. Companhia das Letras. 1999. São Paulo. DINIZ. mirou-se nela. Museu da República: Guia do Visitante.ufrj. 1 e 2. 1998b. 1998. Editora Rocco. Rio de Janeiro.Oriente como invenção do Ocidente. Internet: http://www. FAU-UFRJ (professores e alunos). Companhia das Letras. magnífica. Contos . Museu da República. “Vida privada e ordem privada no Império” in História da Vida Privada no Brasil. Companhia das Letras. As Barbas do Imperador.Bibliografia ALENCASTRO. [1] Mestranda do Instituto de Artes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro . (org. XV.