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J.

Herculano Pires

O Mistério
do Bem e do Mal

Lições de Espiritismo
(Crônicas)

Editora Espírita
Correio Fraterno do ABC

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 2

O Mistério do Bem e do Mal
J. Herculano Pires

2ª Edição - Do 6º ao 8º milheiro - Abril de 1992

Produção: W. Garcia
Capa: Malu Silveira (criação)
Flávio Albuquerque Silva (arte)

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09700 - S. Bernardo do Campo - SP - Caixa Postal 58

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J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 3

Índice
Nota da Editora ........................................................................... . 5
1. Necessidade do estudo de Kardec para discernimento
doutrinário ............................................................................ . 6
2. Irrefutáveis as provas da sobrevivência humana .................... 9
3. Filosofia viva e racional, sem o espírito de sistema ............. 12
4. Restabelecendo o equilíbrio nas relações corpo-espírito ...... 16
5. De como os princípios cristãos modificam a estrutura do
mundo ................................................................................. . 19
6. Evocação do momento em que Jesus nasceu entre os
homens................................................................................ . 22
7. Desde o Gênesis, ao Apocalipse, os espíritos ensinam os
homens................................................................................ . 25
8. Estudo objetivo dos problemas e das leis da vida espiritual. 28
9. Jardineiro do amor .............................................................. . 31
10. O homem novo ................................................................... . 32
11. Conquistando a fé ............................................................... . 33
12. Ajuda espírita...................................................................... . 34
13. É necessário remontar às origens para esclarecimento
doutrinário .......................................................................... . 35
14. Como o espírito vence a matéria e a religião triunfa
sobre o culto ....................................................................... . 38
15. ”Tenho ainda muito que vos dizer, mas não o podeis
suportar agora.” .................................................................. . 41
16. O criminoso é nosso próximo, como o melhor entre os
homens................................................................................ . 44
17. Acusação que matou Sócrates e preparou a cruz para
o Cristo ............................................................................... . 47
18. Assistência dos espíritos nas dificuldades da vida ............... 50
19. Seqüência lógica e natural das três revelações cristãs .......... 53
20. Queria primeiro o acréscimo, para depois procurar o Reino 56

.................... 63 24......... .................................. ............ 110 41........................................................................................ ................ em vez de cartaz de propaganda............................ O mistério de Paulo.J.. Luz interna a clarear atitudes............. 65 25........... A vida futura . O mistério do bem e do mal .............. A última vitória................................... 61 23.... Fenômenos espíritas ou parapsicológicos?............... ...... 103 39............... Duas meninas responderam às perguntas do professor ... Reencarnação................................................. ................... Sanson e Schutel ........ .................. Descrições da vida espiritual nas zonas inferiores do espaço ... 68 26.. 112 42............ Por um homem veio a ressurreição ............ Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 4 21............................................. 76 29......... 89 34.................. ... 119 44............................... 73 28........................................... ............................ ........ O que é divinismo ....... O anjo ...................... ......... ............................................................................................ .......... 96 37......................... Falta de formação doutrinária ......................... 79 30........... Desenvolve-se a ciência positiva nos rumos da concepção espiritual ................................ ... ................. A verdade vos libertará ................................................... ...................................... Uma fábula do III Milênio divulgada no meio espírita ....................... 100 38................... 82 31........ 59 22... ....................... ............................... 106 40.................................... Estudos históricos desautorizam confusões entre magia e Espiritismo............ 87 33..... .. 84 32.... A hora H do Espiritismo ....... Estudo espírita do processo de desenvolvimento do Cristianismo................... 92 35............. 117 43.................................. Problema do sincretismo religioso afro-brasileiro.................... Religião que se baseia nos resultados da investigação ............ Conquista de Marte ................................... 124 ....................................... 70 27. Kardec e a ciência espírita ....... Importância da obra de Kardec e sua significação no momento ........... 94 36............. ... ............ 121 45...........

no décimo ano de seu desencarne. Março de 1989. seus escritos constituem páginas de grande importância para os estudiosos do Espiritismo.J. Herculano Pires foi um dos mais felizes intérpretes do pensamento espírita dentre os que reencarnaram e já retornaram à vida espiritual. Hercu- lano Pires e publicadas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 5 Nota da Editora O presente livro é a reunião de crônicas escritas por J. a atualidade destas páginas é indiscutível. Por isso. no extinto jornal Diário de São Paulo. em sua maioria. Bernardo do Campo. S. Como os leitores poderão ver. Edições Correio Fraterno presta homenagem a José Herculano Pires. . Ao reuni-las em livro e apresentá-las ao público.

Necessidade do estudo de Kardec para discernimento doutrinário Confusões intencionais e não-intencionais. que os adeptos demasiado entusiastas são mais perigosos para a doutrina do que os próprios adversários. Alguns leitores se mostram justamente alarmados com a larga aceitação que vêm tendo.J. entre o Espiritismo e numerosas formas de crendice popular. pedindo uma palavra nossa sobre esses assuntos. E nos escrevem a res- peito. Adversários da doutrina espírita costumam fazer intencionalmente essas confusões. para atender às solicitações. Por outro lado. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 6 1. com o fim de afastar do Espiri- tismo as pessoas cultas. como muita razão. lançadas nos meios espíritas – O problema umbandista – Mensagens de Ramatis. práticas de Umbanda e comunicações de Ramatis. inclusive as formas de sincretismo religioso afro-brasileiro. Porque estes. admitindo como doutrinárias as mais estranhas manifestações mediúnicas e as mais evidentes mistifica- ções. alguns espíritas mal- orientados. voltaremos hoje ao assunto. Mas. evidenciam a própria fraqueza e contribuem para o esclarecimento . Kardec dizia. e apontando os perigos decorrentes do entusiasmo fácil. em certos meios doutrinários. da aceitação apressada de certas inovações. Na verda- de. combatendo o que não conhecem. feitas intencionalmente ou não. hoje largamente difundidas. de maior e mais seguro conheci- mento dos nossos princípios. já escrevemos numerosas crônicas tratando da necessidade de vigilância nos meios espíritas. Há muitas confusões. que não conhecem a própria doutrina. colaboram nesse trabalho de confusão.

consideramo-las como mensagens confusas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 7 do povo. Quando às mensagens de Ramatis. com os princípios de uma doutrina moderna. de origem africana e indígena. em geral. a que Kardec se refere na escala espírita de O Livro dos Espíritos. misturados a crenças e formas de culto do catolicismo e do islamismo em franco desen- volvimento entre nós. como verdades incontestáveis. pois confundem o mediunismo primitivo. Que diferença entre o equilíbrio e a ponderação de Kardec e essa afoiteza inútil e preju- dicial! No tocante à Umbanda. as nebulosas sociais de que nascem as novas religiões. com a qual o Espiritismo nada tem a ver. O Espiritismo não participou da sua forma- ção. dogmáticas. formada com elementos das crenças africanas e indígenas. numerosas vezes. O que estamos vendo hoje. digam o contrário. ou seja. As formas de sincretismo religioso são. A Umbanda já superou a fase inicial de nebulosa. vazadas na linguagem típica dos espíritos pseudo-sábios. estando agora em plena fase de condensação. no meio espírita brasileiro. embora os nossos sociólogos. também já tivemos ocasi- ão de declarar que se trata de mensagens mediúnicas a serem examinadas. Cheias de afirmações absurdas e até mesmo . Nós. É por isso que ela de difunde com mais intensi- dade.J. devemos respeitar na Umbanda uma religião nascente. Espí- ritas demasiado entusiastas estão sempre prontos a receber qual- quer “nova revelação” que lhes seja oferecida e a divulgá-la so- fregamente. não é mais do que a confirmação dessa assertiva do codificador. Já se pode dizer que é uma nova religião. de mistura de religiões e cultos. mas não podemos admitir confusões entre as suas práticas sincréticas e as práticas espíritas. espíritas. já dissemos aqui. exatamente por desconhecerem o Espiritismo. De nossa parte. praticamente. que se trata de uma forma de sincretismo religioso. enquanto os adeptos de entusiasmo fácil comprometem a causa.

dizia Cairbar Schutel. pelo crivo da razão. O que temos de aconselhar a todos. Em geral. como aconselhava Kardec. na aceitação de mensagens mediúnicas.J. Procuremos andar de maneira sensata. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 8 contraditórias. e menos atenção a espíritos que tudo sabem e a tudo respondem com tanta facilidade. em que nem todos sabem dividir a verdade do erro. “O Espiritismo”. esquecendo-se de passá-las. pelo menos a todos os que nos consultam a respeito. essas mensagens revelam uma fonte que devia ser encarada com menos entusiasmo e com mais cautela pelos espíri- tas. nossos confrades se entusiasmam com “as novas revelações” aparentemente contidas nas mesmas. “é uma questão de bom- senso”. usando sempre uma linguagem envolvente. é mais leitura e mais estudo de Kardec. .

– dizem alguns contraditores da doutrina –. ne- gando o valor daquelas provas. Logo a seguir. de Richet. de Lodge e de tantos outros? De vez em quando. Seria isto verdade? Não! Podemos contestar essa afirmação com absoluta firmeza. portanto. pois todos sabemos que contra fatos não há argumento. Mas provas do Espiritismo. provando esse fato. destruindo as provas científicas resul- tantes das experiências de Crookes. . de acordo com as famosas experiências de Albert De Rochas. pela investigação da própria sensibilidade humana e pelas pesqui- sas hipnóticas na memória profunda. O Espiritismo não se limita. além do túmulo. pelas experiências de materialização. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 9 2. surgem as contestações enérgicas. Ele vai mais longe. E a verdade é que ninguém pode pretender aniquilar experiências através de argu- mentos. de tiptologia. a sobrevivência do homem. de voz direta. As provas do Espiritismo são provas de valor universal e até hoje não contestadas. as livrarias publicam um livro ou os jor- nais inserem artigos e entrevistas de personalidades ilustres. permanecendo como provas apenas entre os seus adeptos. O Espiritismo prova a imortalidade da alma. jamais destruídas. pelas manifestações espontâneas dos Espíritos. porém. Essa prova nos é dada por várias maneiras: pelas comunicações mediúnicas. a afirmar que o homem sobrevive à morte. não foram aceitas universalmente. as réplicas entusiastas. de in- corporação. de Notzing. Irrefutáveis as provas da sobrevivência humana Experiências científicas e argumentos contrários – A teimosia dos fatos – O problema dos interesses em jogo.J. Quem já conseguiu negar a possi- bilidade dos fenômenos de materialização.

cujos estudos a respeito da fenomenologia espírita têm tido intensa repercussão internacional. Só há uma maneira de se destruir o valor desses fatos: demonstrar. Esta- dos Unidos. por pessoas que . e criou novos métodos de pesquisa. e realizadas por homens da mesma capacidade científica. ou. entretanto. cuja existência só podemos negar à distância. não deixou de existir. que ainda há pouco publicou o resultado de trinta mil experiências realizadas entre estudantes universitários suecos. através de novas pesquisas e experiências. Rhine. Joseph B. são terrivelmente teimosos. São como a evolução da terra em redor do sol que. quando um cientista se propõe. há o exemplo do prof. da Duke University. entendeu que as experiências de Richet não eram suficientes. porém. São como as rochas e as ondas. Carolina do Sul. Bjorkhem. poderosos fatos. mesmo com o sacrifício de Galileu. que não se enfronha- ram nos problemas por elas levantados. inegáveis fatos. por aqueles mesmos que combatiam o sábio. e o que é mais impor- tante – verificados por cientistas que não eram espíritas. mesmo agora. na Suécia. cientificamente verificados. em geral. que Crookes. Lodge e os demais se enganaram. acabaram por convencê-lo da realidade espiritual. E a ver- dade é que. e se lança à tarefa com honestidade. Os seus trabalhos. As provas espíritas são postas em dúvida. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 10 Ora. a Parapsicologia. por pes- soas que não se preocupam com o assunto. na base de uma doutrina nova. Na Universida- de de Oxford há outro grande exemplo: o prof. tento de ser constatada mais tarde. O prof. então. a todas as razões dos homens. Harry Price. Resistem a todos os argumentos. não a argumentar contras as provas espíritas da sobrevivência. mas a destruí-las. tão rigorosas quando aquelas. Os fatos. Aí estão. Na Universidade de Upsala. acaba por comprová-las e se torna espírita. alguns exemplos nesse sentido.J. Richet. o que o Espiritismo apresenta são fatos.

falar de Espiritismo. não raro profissional ou sectário. que contestasse as provas espíritas da sobre- vivência e as destruísse com experiências válidas. por pessoas demasiado afoitas.J. são compro- vações da sobrevivência humana provada pelo Espiritismo. . Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 11 têm interesse. Quem quiser. em negá-las. sem espírito preconcebido e sem atitudes sectárias. deve ter o cuidado de exa- minar bem o assunto. que se lançava contra os moinhos de vento. houve um grande cientista. ainda. o que tem havido. por toda parte e incessantemente. em parte alguma. pensando atacar gigantes imaginários. portanto. e tinha de sofrer o duro impacto da realidade. ou. ou ambos. sob pena de cometer os ridículos de Dom Quixote. Ja- mais. Pelo contrário. que tiram conclusões precipitadas de algumas experiências mal feitas. realmente capaz e responsável.

a primeira coisa a considerar é que ele jamais se disse filósofo ou pretendeu entrar para a galeria dos filósofos. e de ser constantemente solicitado pelos meios culturais da época. Foi discípulo eméri- to de Pestalozzi e interessou-se a fundo pelos problemas pedagó- gicos. Por outro lado. mas dos Espíritos. diante da alegação de alguns adversários da doutrina. sem o espírito de sistema A posição filosófica de Kardec – Uma lição de Casirer – A moral espírita decorre dos ensinos do Cristo. mas pelas entidades . O próprio mestre fez sempre questão de esclarecer que a filosofia espírita não fora elaborada por ele. Quanto ao Espiritismo. que alguns leitores nos interpelem a respeito. pois. que O Livro dos Espíritos não é de Kardec. neste mesmo jornal. um sistema filosófico? Essas indagações vêm sendo formuladas ultimamente. Kardec foi ou não foi um filósofo? O Espiritismo é ou não é uma filosofia. Sua especialidade era a pedagogia. deixando. tanto mais quando ainda há pouco houve uma referência ao assunto. Nesse ponto. para vermos que não há con- tradição. em alguns meios espíritas. porém. o problema é realmente de interesse doutrinário. poderíamos ver uma contradição com o que disse- mos acima.J. é indiscutível a existência de uma fi- losofia espírita. A propósito de Kardec. Apesar de sua vasta cultura. Basta lembrarmos. Justo. Preferiu colocar o seu saber e a sua inteligência a serviço da espiritualidade. Filosofia viva e racional. cujo tratado fundamental é O Livro dos Espíritos. em sentido contrário. o interesse de Kardec não se voltava para as glórias humanas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 12 3. numerosos livros didáticos. na França.

não interessava . no próprio O Livro dos Espíritos encontramos uma explicação de Kardec a respeito deste assunto. O que importa em O Livro dos Espíritos é a filosofia contida nas suas páginas. livre dos prejuízos do espírito de sistema”. assim também. transmitiram- lhe a nova revelação. Ainda hoje se discute se existe ou não uma filosofia cristã. Não é. da mesma maneira por que existe uma filosofia cristã. Outra coisa de que devemos nos lembrar é que O Livro dos Espíritos não se destinava a criar uma nova escola filosófica. podemos dizer que a filosofia é senhora da linguagem técnica e não o contrário. Seria o caso de perguntarmos se filosofia é uma técnica de lin- guagem ou um processo de indagação da verdade através do pensamento. Assim como. em entrevista a um jornal do nor- te do país. pois de estranhar que se pergunte pela filosofia espírita. orientando as novas transformações por que o mundo tem de passar. que O Livro dos Espíritos não pode ser considerado um livro filosófico. e não qualquer espécie de vocabulário técnico. para que o Reino de Deus nele se estabeleça. os filósofos poderão construir os seus sistemas. Parafraseando conhecida passagem evangélica. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 13 espirituais que. também existe uma filosofia espírita. mas a fazer uma nova revelação. sobre a revelação do Espírito da Verdade. para estabelecer os fundamentos de uma filosofia racional. os homens trabalharam para construir sistemas filosóficos. Diz o mestre: “Ele foi escrito por ordem de (e ditado pelos) Espíritos Superiores. Como se vê. da mesma maneira que o que importa no Evangelho é a sua filosofia de vida. alguém declarou. sob a égide do Espírito da Verdade. porque não está vazado na linguagem técnica. não as suas formas de expres- são. Entretanto. que transformaram o mundo. sobre a revelação do Cristo. Há pouco. Mas.J. representada pelos princípios evangélicos.

que o problema filosófico do Espiritismo é o mesmo do Cristianismo. convencionais. por fim. particularmente. e que o verdadeiro pai da filosofia grega. pois. que o Espiritismo possui uma filosofia. é referendada por um dos maiores pensadores atuais. porém. também não se interessou por isso. e a própria filosofia é também pedagógica. repetimos que a moral . O que seria. segundo assinala René Hubert. deviam lembrar-se de que Jesus também não formulou um sistema filosófico. declara: “Cada teoria se converte num leito de Procusto. Quando à existência de uma ética espíri- ta. em O Livro dos Espíritos. Ernst Casirer. em virtude de questões puramente formais e. racional e livre do espírito de sistema. ao gosto da época. é a forma didática e. Sócrates. a forma dialogada. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 14 a Kardec formular um sistema filosófico no estilo clássico. portanto. co- mo antifilosófico. Uma das coisas que se aponta. e. uma verdade que não quisesse comunicar-se?” De tudo o que ficou dito. Os que não vêem filosofia no Espiritismo e não reconhecem a Kardec uma posição filosófica. embora ele nunca se dissesse filósofo. Devemos lembrar. quando se compreende que a verdade não pode ser encerrada na melhor das sistematizações humanas. aliás. em que os grandes filósofos sempre foram mestres. sobre os incon- venientes do “espírito de sistema”. Ter a mão cheia de verdades e conservá-la fechada é de espíritos tacanhos. a ser uma propaganda. A pedagogia é uma parte da filosofia. que o diálogo é uma forma tradicional de exposição filosófica. já superado inteiramente hoje em dia. acentuando a inconveniência dos sistemas clássicos. negada por ilustre opositor da doutrina. conclui-se que a posição filosófica de Kardec é inegável.J. Como se vê. acentuando: “Toda filosofia aspira a difundir-se. em que os fatos empíricos são obrigados a se acomodar a um padrão preconcebido”. a opinião de Kardec. em sua Antropologia Filosófica.

Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 15 espírita é a do Cristo. e que a terceira parte de O Livro dos Espíritos é inteiramente dedicada ao estudo das leis morais. .J. como se vê em O Evangelho segundo o Espiritismo.

subestimando a ação do corpo. que o Espiritismo surgiu no mundo. O acurado racionalismo medieval explodiu no Renascimento em novas formas de interpretação da vida. De um lado. que é o senhor e o diretor do corpo. a repelir superstições. Vieram daí os exageros de toda espécie. o problema foi praticamente inver- tido nos seus termos. A natureza humana é um conjunto de ações e reações espiri- tuais e materiais. apegada ao sentimento do maravilhoso. de parcialidade. Na antiguidade. na plenitude da sua vitalidade animal. Restabelecendo o equilíbrio nas relações corpo-espírito Entre duas formas de exagero. atribuía tudo ao espírito. Foi exatamente quando mais se acentuava essa nova forma de exagero. A filosofia deixou de ser a antiga serva da teologia. A partir do Renascimento. dando supremacia ao corpo e negan- do ou subestimando a ação do espírito. a compreensão espírita – Charlatanismo e superstições no passado e no presente – Desenvolvimento cíclico da mente humana. criando superstições e temores. rituais e dogmas religiosos. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 16 4. de que se origina- ram muitas crenças. ao exagero oposto. dando pleno cumprimento à promessa do Consolador. formulada . no mundo moderno. Os homens passaram a desconfiar das expli- cações místicas. e chegaram. o espírito encarnado. Interpretá-la apenas através de um dos seus aspectos é cair fatalmente no erro. e particularmente na Idade Média. De outro lado.J. o organismo físico. e a revolta inte- lectual contra a tradição e a autoridade abalou profundamente a mentalidade popular. temos a alma. a mentalidade popular.

que a ação dos espíritos desencarnados sobre os homens é tão real. A função do Espiritismo é restabelecer o equilíbrio. nem tanto ao mar”. No seu maravilhoso livro A Gênese . e das mais nefastas. diante da impos- sibilidade de tudo se explicar somente com a ajuda das leis da matéria”. mas já agora através da razão amadurecida e das provas experimentais. como a ação dos raios e emanações invisíveis da natureza. toca forçosamente na maio- ria das ciências. São ex- plorações da credulidade. e conclui: “O Espiritismo. E provou. e existem formas de superstição nascidas de teorias científicas. e não podia surgir senão depois da elaboração delas. devidas à imperfeição das criaturas humanas. pois.J. O charlatanismo e a superstição figuram em larga escala no processo de formação das religiões antigas e modernas. podemos apresentar a evolução da mente hu- mana como um perfeito processo cíclico: partindo da aceitação intuitiva da ação do mundo invisível sobre o homem. existe também o charlatanismo na ciência. afinal.os Milagres e as Predi- ções. Hoje. servindo-se das mesmas ar- mas do materialismo – como disse Kardec – que a existência da alma não era uma superstição. . Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 17 por Jesus. a mente passa a negar esse fato num estágio superior do seu desenvolvi- mento para. pela própria força das coisas. voltar a admitir a verdade primitivamente intuída. Kardec analisa a razão por que o Espiritismo só podia aparecer em meados do século passado. segundo o Espiritismo. Surgiu. conduzindo o homem à verdade. de maneira insofismável. Uma dessas formas. tendo por objeto o estudo de um dos dois elementos constitutivos do universo. é a que considera os desequilíbrios psíquicos como simples manifestações de desor- dens orgânicas. cientificamente. Sua advertência pode ser inter- pretada assim: “Nem tanto à terra. Dessa maneira. O Espiri- tismo demonstrou.

Mas a contribuição espírita vem ganhando terreno nos meios culturais do presente. Essa demonstração é feita pelo Espiritismo e pelas teorias científicas dele decorrentes: a metapsíquica. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 18 Essa superstição se origina da negação do elemento espiritual. . As ciências biológicas atuais. Contra essa forma moderna de superstição. onde já se compreende que o Espiritismo traz uma nova mensagem para o mundo moderno. resultantes da revolta intelectu- al do Renascimento. mostram-se impregnadas da superstição materialista. considerado como produto ou secreção da matéria. como se vê no crescente interesse pela parapsicologia em todo o mundo. e conduz à destruição de todo e qualquer sentimento religioso. e a parapsico- logia. que é o inverso das superstições do passado. só um remédio se mostra realmente eficaz: a demons- tração científica da realidade do espírito. e mesmo nos meios religio- sos mais adiantados.J. a chamada ciência psíquica inglesa.

um movimento que se espalhava de maneira obscura e marginal entre as grandes corren- tes do pensamento greco-romano e os esplendores do império. diz Emmanuel: “Se na organização terrestre a Humanidade se desdobrava em movimentação intensa. Os relatos de Emmanuel. transformar a mente do homem. de Emmanuel. para a trans- formação do mundo. Por mais dois séculos. o meio social e cultural se transformassem. o serviço nos planos superiores atingia culminâncias”. diz as- sim: “Quase duzentos anos de Cristianismo começavam a modifi- car a paisagem do mundo”. depois. Cristo!. ainda. dar-lhe uma nova orientação. De como os princípios cristãos modificam a estrutura do mundo Os primeiros séculos do Cristianismo – A levedura cristã e a massa ideológica do mundo antigo – O advento do Consolador. O Cristianismo era ainda uma idéia nova. os princípios . o Cristianismo teria de continu- ar o seu trabalho subterrâneo. no traba- lho da transformação ideológica. Afinal. pois era preciso. de que as catacumbas romanas são o símbolo mais perfeito. para que. nesse livro.J. antes de tudo. Prosseguindo. Vemos. abrindo perspectivas sobre uma nova era. Essa transformação teria de ser fundamen- talmente ideológica. entre o plano espiritual e o terreno. que havia um intenso traba- lho conjugado. uma doutrina nascente. A primeira frase do livro Ave. no início do século quarto. para que os seus princípios conseguissem minar a poderosa estrutura do império. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 19 5. referem-se a acontecimentos verificados entre o fim do segundo e início do terceiro século da nossa era. então.

en- tão. foi transformado por ele? Não. a deturpação do Cristianismo. em A Gênese. iniciando-se com ele a oficialização e. é essa mistura. não se realiza de maneira direta e. pro- cesso que vem de há dois mil anos e prosseguirá pelos séculos futuros.J. Como se explica essa deturpação ou deformação? Teria. próximo. através de fases progressivas. pelo fato mesmo de ser evolução. soará a sua badalada final. o Cristianismo falhado em sua missão? Em vez de transfor- mar o mundo. E se lermos as explicações de Kardec. E se compa- rarmos o nosso tempo com aquele a que Emmanuel se refere no . Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 20 cristãos já haviam rompido de tal maneira essa estrutura. ao mesmo tempo. sim. para construir na terra a verdadeira Civilização Cristã. O primeiro século do Espiritismo está acabando de escoar. à seme- lhança das plantas que rompem os muros e as paredes de pedras. modificando-as incessantemente. O que vemos. do quarto século em diante. Dia 18 de abril. compreenderemos o vasto processo de evolução em que ainda nos encontramos. O Cristianismo permanece no mundo como um fermento que leveda a massa das heranças greco- romano-judaicas. Os princípios do Cristianismo penetraram na estrutura ideológica do mundo greco-romano-judaico como uma força nova – ou melhor. o fermento teve de se misturar a ela. sedimentadas duramente em nosso mundo. Se nos lembrarmos da promessa do Consolador. que as forças remanescentes do império resolveram adotá-los como ideologia oficial. como uma porção de fermento numa medida de farinha. O Cristianismo continua rompendo as resistências da cultura antiga. É nesse momento que aparece a figura do imperador Constantino. Mas acontece que a evolução. sobre as razões do aparecimento do Espiritismo em meados do século passado. para nos servirmos de uma imagem do Evangelho –. no Evange- lho de João. veremos que essa longa fase de fermentação ideoló- gica fora prevista pelo próprio Cristo. Para levedar a farinha.

E. sob a égide do Cristo e a direção do Espírito da Verdade. Cristo!. (N. o Espiritismo surgiu em 1857. na conversão total do nosso mundo aos verdadeiros princípios cristãos. Mais um sécu- lo. Quase um século de Espiritismo já produ- ziu algumas modificações na paisagem do mundo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 21 início de Ave. Herculano Pires escreveu esta crônica entre janeiro e abril de 1957.J. no dia 18 de abril. portanto. O Espi- ritismo é. com o lançamento de O Livro dos Espíritos. que se iniciará neste ano1. é o poder do fer- mento cristão a levedar a massa ideológica da humanidade terre- na. Porque a mesma força que operava nos dois primei- ros séculos da nossa era continua operando atualmente. verificaremos que há muita semelhança entre a posição do Cristianismo no mundo antigo e a do Espiri- tismo em nosso mundo.) . e as modificações da paisagem serão mais intensas. o Cristianismo em marcha. 1 Oficialmente.

exatamente. Sabemos. Ninguém. Isso levou um escritor francês a afirmar. na Sorbonne. . por nela cair a festa do deus solar Mitra. páginas 111 e 112. professor de História do Cristianismo. por exemplo. Paris. em que localidade. nem mesmo. da edição de 1947. exatamente quando se iniciava a deturpação do Cristianismo. Vários historiadores admitem que essa data tenha sido escolhida de acordo com o calendário romano.J. Guignebert. limitando-se a dar indicações vagas à época do nascimento. que Napoleão e seus doze generais nunca haviam existido. sendo apenas uma idealiza- ção mitológica. sabe. que a data de 25 de dezembro só foi fixada em princípios do quarto século. Mas não aceita as lendas que se formaram ao redor da sua figura singular e da sua vida extraordi- nária. um homem que realmente existiu. não faltando escritores. em que dia ocorreu e. Evocação do momento em que Jesus nasceu entre os homens Dificuldades históricas quanto ao local e à data do nascimento – A festa de Mitra no calendário romano – Uma realidade que transformou e transforma o mundo. Chegou-se a afirmar que Jesus não era mais do que o mito solar e seus doze apóstolos. os doze signos do zodíaco. e que essa fixação se deu em Roma. historiadores e mitólogos que procuraram explicar o nascimento e a vida de Jesus como puramente lendá- rios. É o que se pode ver em Jésus. de Albin Michel. Esse fato foi motivo de grandes críticas ao cristianismo. O Espiritismo considera Jesus como um ser histórico. Os evangelhos não fixam nenhuma data. O nascimento de Jesus tem dado motivo a muitas controvér- sias. como réplica. de Ch. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 22 6.

pouco importam para a doutrina. como foi nela que se comemorou. aceitam. a data de 25 de dezembro é apenas simbólica. O que interessa ao Espiritismo não é a exatidão cronológica. durante a antiguidade. várias datas consideradas pelos cristãos como prováveis: São Clemente de Alexandria. Outros opta- vam pelo 18 de abril. diz Guignebert. como no espaço. e apoiada num passado bastante longo de solenidades religiosas ao deus solar. entendia que Jesus havia nascido a 19 de abril. Os espíritas. Mas a verdade é que. como o indica Marcos. aproveitando-se para a evocação do momento em que o Senhor se encarnou entre os homens. o advento dos deuses simbóli- cos de várias mitologias. estranhos ao seu conteúdo de ensinos morais. não havendo acerto dessa escolha. O que importa aos espíritas. é nela que se comemora. Se Jesus nasceu em Nazaré. mas a evocação de um acontecimento histórico da mais alta significação espiritual para a humanidade terrena. a data de 25 de dezembro como marco tradicional do nascimento de Jesus. Kardec. há dezesseis séculos. principalmente. essa data se mostra impregnada de intensas vibrações espirituais. o 6 de janeiro era geralmente aceito. por exem- plo. e outras partes dos relatos evangélicos. e se esse nascimento ocorreu em 6 de janeiro ou 25 de dezembro. que nos tenha . ao lançar O Evangelho segundo o Espiritismo. O que importa é que ele tenha nascido. ou em Belém. sem relutância. vivido e pregado entre os homens. mas a realidade da vida de Jesus e a legitimidade dos seus ensinos morais. isso pouco importa. o 29 de maio e o 28 de março. Assim. não é a celebração de um fato histórico cronologicamente assentado. o nascimento de Jesus. mas. No oriente. como o dizem Mateus e Lucas. fir- mou o princípio de que os fatos históricos. durante muito tempo. por isso mes- mo. firmada pela tradição. no Natal.J. Na terra. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 23 Houve.

supranormal. “sacri- ficou Jesus ao Cristo”. . Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 24 deixado uma doutrina capaz de reformar o mundo. no prefácio que escreveu para o livro de Guignebert. dois mil anos depois do seu nascimento. depois da revolução que a sua figura e a sua doutrina produziram e continuam a produzir no mundo.J. Mas é de espantar que. Guignebert assinala a deturpação mitológica dessa figura humana. a tese da não historicidade é um paradoxo”. E Henri Berr. apesar da falta de documentos a respeito. podemos dizer que o sabemos. declara: “Mas Jesus existiu. A existência de Jesus está hoje suficientemente provada. seja difícil precisar-se a data em que isso se verifi- cou. as pesquisas mais recentes demonstram que realmente viveu na Palestina e nela morreu o fundador do Cristianismo. Mesmo do ponto de vista histórico. com o fim de torná-la extra-humana. divina. ainda existam pessoas que as ponham em dúvida. isso. Não é de admirar que. como realmen- te o reformou e continuará reformando.

Baseando-se no método da análise comparada. poderia levar o paralelo às experiências parapsicológicas. A conclusão de que as religiões nasceram da mediunidade não é apenas espírita. ao Apocalipse. Depois de todas as conjecturas a respeito da origem das religiões. Mas. chega à conclusão. modernamente. as idéias materialistas de que elas teriam nascido do medo. Hoje. depois de anos de convi- . espírito mais sensível que Feuerbach. tomaram corpo. Também o etnólogo Max Freedom Long. fazer o que Spencer não fizera. em seu magnífico trabalho. os espíritos ensinam os homens Origem mediúnica das religiões – Pesquisas antropológicas de Andrew Lang e Freedom Long – As comunicações espíritas na Bíblia. observados em tribos de várias partes do mundo. o antropólogo estabelece paralelos entre os fenômenos mediúnicos dos povos primitivos. dos reflexos do selvagem na água e da sombra acompanhando o corpo. força misteriosa que impregna os objetos entre os selvagens. e as experiências metapsíquicas do seu tempo. em que vemos aparecerem os efeitos do sonho.J. The Making of Religion. como observa Ernesto Bozzano em Popoli Primitivi e Manifestazioni Supranormali (Edizioni Europa – Verona – 1946). percebeu o que devia existir de errôneo nessa explicação simplista. e formulou a sua complexa teoria. examinando os problemas das “mana” ou “orenda”. As conclusões de Lang são decisivas. e não pôde ir além. Herbert Spen- cer. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 25 7. Coube a um famoso antropólogo. que confirmam e ampliam aquelas. Spencer não conhecia as manifestações metapsíquicas. Desde o Gênesis. Andrew Lang.

declara em seu livro De Cá e de Lá. O papel da mediunidade é fundamental em todas as religiões. a das pitonisas ou a dos profetas israelitas e cristãos. Camargo: “Anjos são espíritos. mas a dos Espíritos. de que aquelas forças não são mais do que o ectoplasma das experiências metapsíquicas. esses fatos vão produzir. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 26 vência com tribos da Polinésia e do Havaí.J. (Hebreus. 1:7)”. entre os quais o nome de profeta é reservado a Maomé. Os selvagens não acreditavam na sobrevivência apenas por intui- ção. O próprio Moisés não ouviu direta- mente a voz de Deus. Romeu do Amaral Camargo. nas primeiras civilizações. Por outro lado. E prossegue: “Moisés ouviu e viu o anjo ou espírito que lhe falava na sarça que ardia no Monte Sinai”. Demonstra ainda o prof. de maneira incisiva: “Desde o primeiro livro da Bíblia (o do Gênesis) até o último (o do Apocalipse ou da Revelação). os intermediários dos espíritos recebem outras designações. mensageiro. quer seja a dos oráculos. estes fatos bíblicos: o espírito da mãe de Samuel aparece ao filho e o orienta (Provérbios. e nos textos sagrados do Judaísmo e Cristianismo a sua importân- cia é indisfarçável. que recebestes a lei por ministério dos anjos (do latim: angelus. É o apóstolo Paulo quem o afirma: Vós. ex- presbítero evangélico. o aparecimento das religiões mitológicas e proféticas. Na Índia. mas por terem a experiência concreta dos fatos mediúnicos. o que anuncia)”. mas estão sempre presentes na origem das religiões e no seu desenvol- vimento. depois. Essa contri- buição confirma a tese espírita da origem mediúnica das religiões. nem por medo ou por incapacidade de explicar os sonhos. só vemos o ensi- no ministrado por Espíritos. Lembra. baseadas sempre na comunicação mediúnica. A contribuição desses dois grandes pesquisadores vem modi- ficar as concepções clássicas da origem das religiões. um . afir- ma o Apóstolo. ou a dos sufis maometanos. na China e entre outros povos da Ásia. 31: 1 a 9). O prof.

bem como a história. podemos ir além. 27:53). 16:9). nada mais fazem do que minar o próprio alicerce de suas crenças e convicções. a tradição. 13). pois. assim. que os próprios textos sagrados do Cristianis- mo confirmam a tese da origem mediúnica das religiões. Mas. um espíri- to fala a Aarão e Maria. atacar a mediunidade. 12:6). os fatos mediúnicos e as práticas espíritas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 27 espírito aparece a Manué e sua mulher. o espírito de um macedônio comunica-se com Paulo (Atos. falando-lhes (Juízes. em nome das religiões. o folclore e a literatura de todos os povos comprovam essa grande verdade. Os que pretendem. Vemos. prometendo manifestar-se a um médium vidente ou profeta. demonstrando que os textos sagrados de todas as grandes religiões. ou por meio de sonhos (Números. espíritos aparecem a diversas pessoas (Mateus.J. .

livrando-se exatamente de interpretações supersticiosas ou imaginosas. à luz de experiências objetivas. O Espiritismo estuda aqueles problemas dentro das possibilidades do conheci- . É pena que essa atitude de prevenção afaste muitas inteligên- cias capazes de um estudo sério do assunto. Entretanto. em face do problema da sobrevivência e das relações entre os homens e as entidades espirituais. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 28 8. Kardec esclarece. principalmente se desempe- nham funções intelectuais de relevo. representam grande obstáculo à aceitação dos princípios espíritas. que a função do Espiri- tismo. para que essas pessoas verificassem a atitude positiva do Espiritismo. a prevenção contra as heranças supersticiosas do passado. E a existência de “almas do outro mundo”. insolúveis para a ciência atual. Os preconceitos culturais. ainda. é encarada com as maiores suspeitas e desconfianças. bem como de sua influência na vida humana. por parte de certas pessoas. o que o Espiritismo pretende é esclarecer. no livro referido. Longe de querer manter ou renovar antigas superstições. os problemas que sobraram do passado. é a mesma das ciên- cias naturais. de espíri- tos e entidades espirituais. de Allan Kardec. Prevalece. Estudo objetivo dos problemas e das leis da vida espiritual Penetração científica nos domínios da superstição – Esclarecimento dos antigos mistérios – As leis da matéria e as leis do espírito. bastaria a leitura de um livro como A Gênese. no tocante aos problemas espirituais. em nossa cultura intelectual. no tocante aos processos da natureza.J. resultantes da revolução científica moderna.

simplesmente. quando trata da existência de espíritos e da possibi- lidade de sua comunicação com os homens. É nesse ponto. Ernes- to Bozzano. lançando suas luzes sobre os derradeiros baluartes da superstição e da imaginação. afirmando de maneira incisiva e absolutamente lógi- ca: “Da mesma maneira por que a ciência propriamente dita tem como objeto o estudo das leis do princípio material. que o Espiritismo representa um desafio científico a todos aqueles que se vanglori- am de espírito científico.J. entretanto. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 29 mento racional. Referindo-se ao encadeamento natural das ciências. no exame dos fenômenos psíquicos ou psico- fisiológicos. o Espiritismo. na concepção espírita. embora entrosados no processo da manifestação. o Universo se apresenta em forma dualista. E noutro trecho: “O Espiritismo e a Ciência se com- pletam. um pelo outro”. que “nascem umas das outras”. Como se depreende das considerações acima. amanhã. em suas magníficas monografias. trazendo consigo todas as dificuldades filosóficas da origem. não ignorou essas difi- culdades. como acentuou incessantemente o prof. o negamos. Mas é exatamente para conseguir essa explicação que Kardec aconselha o estudo do Espiritismo. o objetivo especial do Espiritismo é o conhecimento das leis do princípio espiritual”. Ora. Kardec lembra que a ciência do espírito teria de surgir por último. retirando-os do véu de mistérios que os envolvia no passado. uma: ou exercemos o espírito científico de maneira coerente ou. Kardec. e perguntava aos seus opositores se podemos contrariar cientificamente a evidência dos fatos com argumentos. De duas. pela ciência”. não apresenta apenas . constituído por dois elementos diversos. Para tanto. Mui- tas objeções são levantadas também a essa concepção que parece de origem cartesiana. não vacila em servir-se do método expe- rimental. Há pessoas que dizem: “Os fenômenos hoje inexplicáveis se- rão explicados. no plano do fenômeno: o espírito e a matéria.

J. é fugir à evidência. . fatos largamente observados e analisados. em grande número estudados através de experiências provocadas com simples resquícios de superstições. mas sobretudo fatos. Querer confundir esses fatos. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 30 teorias. para cair no terreno anticientífico do dogmatismo. e o que é mais importante.

que devemos nos colocar em condições de merecê-la. segundo o poema imortal de Tagore. Dia a dia.J. removendo a terra. Sabemos que existe a graça. E essa transformação não se verifica sem o trabalho incessante do homem na modelação de si mesmo. e que isso depende de nós mesmos. o nosso jardim interno. pois. . também. Algumas religiões nos condenam por essa teoria do esforço próprio. e deve ser realizado por nós mesmos. da sua sensibilidade e da sua inteligência. Os Espíritos do Senhor podem auxiliar-nos. Mas sabemos. mas Kardec definiu a graça como a força que Deus concede ao homem de boa-vontade. extra- indo as ervas daninhas e semeando a boa semente das flores evan- gélicas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 31 9. Trabalhemos. é um jardineiro do amor. Jardineiro do amor O verdadeiro espírita. Kardec assinalou que se conhece o verdadeiro espírita pela sua transformação moral. para sermos espíritas. alegando a existência da graça. Não basta acreditar na sobrevivência e participar de sessões ou ouvir palestras. mas o trabalho de nossa transformação é principalmente nosso. para que vença as suas imperfeições. diariamente. conhecedor dos princípios sublimes da sua doutrina. ele trabalha os canteiros do seu coração.

no cumprimento da promessa evangélica do Consolador. Todas as suas lutas só têm um objetivo: o seu enriquecimento e aumento de poder. levedando a pesada farinha humana. na grande fraternidade universal do Reino de Deus. um homem novo. E o Espiritismo é esse impulso. O homem de amanhã. . sua finalidade também era essa. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 32 10. Todas as suas ações objetivarão o amor entre as criaturas. trabalhou o mundo durante dois mil anos. será essencialmente fraterno. E o Cristianismo. Seu interesse maior não será o dinheiro. que nos chega do Alto. a concórdia geral. a conquista de riquezas e poder. criado nos princípios renovadores do Espiritismo. Quando o Cristianismo surgiu na terra. mas o aprimoramento espiritual. como o fermento da parábola evangé- lica. O homem de hoje é essencialmente ambicioso. na terra. para a transformação final do ho- mem. Em vez de mandar. O homem novo A principal finalidade do Espiritismo é criar. a farinha se apresenta em condições de receber os últimos impulsos. ele quererá obedecer. que lhe permitirá estabelecer. Agora. Sua grande virtude estará na obediência às leis supremas da vida.J. na terra. Esse homem novo será muito diferente do que conhecemos na civilização atual.

alicerçada na razão. também para o Espiritismo a fé tem origem divina.J. Entretanto. independente da vontade humana. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 33 11. mas deve crer pela compreensão. Dennis Bradley termina o seu famoso livro Rumo às Estrelas com estas palavras: “Eu não creio. A fé sem compreensão é cega. enfrenta os venda- vais do mundo. através da compreensão espiritual da vida. mas a fé espírita. É essa a verdadeira fé espírita. conquistada por nós mesmos. O espírita tem de conhecer aquilo em que crê. em vez de nos ser dada como um privilégio. A diferença é que. eu sei”. Porque o espírita não pode crer pela crença. e pode ser destruída facil- mente. Essa posição especial dos espíritas causa estranheza entre pessoas que consideram a fé como um dom que vem do céu. a fé racional de que falava Kardec. e saber por que crê. deve ser buscada. atingida. Conquistando a fé A fé espírita é uma conquista racional. .

terão os ajudantes de que necessitam.J. nos pensamentos positivos e na compreensão e tolerância para com o próximo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 34 12. Dessa maneira. nos pensamentos negativos e na maledicência. Ajuda espírita Os espíritos nos ajudam constantemente. Todos. Os que procuram corri- gir-se. para deixar velhas companhias e adquirir novas. Os maus nos ajudam na manutenção dos nossos vícios. ou na criação de outros. cada qual pode escolher livremente os seus auxiliares. somos sempre ajudados pelos espíritos. . Entretanto. fazendo da vida um aprendizado moral. convém não esquecer que. que estão constantemente ao nosso redor. melhorar-se. bons e maus. será sempre necessário enfrentar a reação daquelas que não nos abandonam com facilidade. Os que se comprazem na rotina do erro e da maldade terão os ajudantes que mais lhes convêm. Os bons nos ajudam no aprimoramento de nossas virtudes ou na aquisição de outras.

. de realizador da promessa do Cristo constante do Evangelho de João. a igreja oficial da Inglaterra nomeou uma comissão de ministros para estudar “as reivindicações do Espiri- tismo em relação aos Evangelhos”. O guia espiritual de Kar- 2 Herculano refere-se à sua coluna do jornal Diário de São Paulo. pois a história nos fala do trabalho dos médiuns em toda parte. tratemos das “reivindicações” do Espiritismo. elabo- rou um relatório que mais tarde foi divulgado.Do profetismo judeu e cristão ao mediunismo da atualidade. por lei votada no Parlamento. os direitos de cidadania da religião espírita. a posição de legítimo herdeiro e continuador do Cristianismo primitivo. desde os campos aos centros universitários e. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 35 13. Mas. O Espiritismo reivindica para si. depois de vários estudos e diversas pesquisas de caráter mediúnico. on- de a tradição espírita é das mais belas.J. desde os seus primórdios. Não é de admirar que isso tenha acontecido na Inglaterra. na Inglaterra. sobre a vinda do Consolador ou Espírito da Verdade. Essa comissão. que foi em grande parte favorável aos espíritas. no palácio real. como sabemos. Nem todos os seus membros concordaram com a conclusão do inquérito. até mesmo. É necessário remontar às origens para esclarecimento doutrinário Estudos. Que es- pécie de “reivindicações” são essas? Todos os que acompanham esta seção não terão dificuldades em responder2. sobre “as reivindicações do Espiritismo” no tocante aos Evangelhos . a Inglaterra foi um dos primeiros países do mundo a reconhecer. Há alguns anos. Por outro lado.

nessa posição da doutrina. as razões do Espiritismo. e não devemos nos restringir apenas à leitura das obras espíritas. será de grande proveito para os que desejarem ter uma visão perfeita do “restabelecimento cristão”. transparece. em toda a parte. As igrejas protestantes. interpelado sobre o seu nome. colocada como prefácio. me chamarei Verdade”. Hastings alude aos profetas e à sua inten- siva participação na divulgação do Cristianismo. Mais tarde. A leitura desse livro. no sentido de restabelecer a verdade cristã. quando começou O Evangelho segundo o Espiritismo. respondeu-lhe: “Para ti. editado em português pela Casa Editora Presbiteriana. muito têm contribuído para o esclarecimento dos primeiros tempos do Cristianismo. Robert Hastings Nichols. Nesse mesmo livro. ele presidiu ao advento do Espiritismo. O que eram os . o rev. com ela. porém. e os espíritas não devem alimentar atitudes sectárias. porém. geralmente consideradas como tal. com esse nome. os Espíritos que o orientavam saudaram a nova obra com intensa alegria. precisamos conhecer a história do Cristianismo. E. não teve dúvidas em esclarecer o problema e. dadas também às suas “reivindicações”. advertindo que. Para bem compreendermos.J. A verdade nada tem a temer. sempre. sempre. Nesse livro. “os andaimes começavam a ser retirados”. para que as verdadeiras linhas dos edifícios pudessem aparecer. de fácil leitura. de Paulo. é o do rev. para não confundir a religião-espiritual com as for- mas materiais. evitou falar em religião. Kardec insis- tiu. encontramos numerosas passagens que esclarecem o verdadeiro sentido da doutrina. que contrariam o próprio espírito da doutrina. em confronto com o Livro de Atos dos Apóstolos e as Epístolas. intitulado História da Igreja Cristã. A princípio. sobretudo a I Coríntios. que evocava a promessa evangélica. Um livro popular. a que os espíritos tanto se referem. a começar pela admirável comuni- cação do Espírito da Verdade. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 36 dec. sobretudo.

acima citada. semelhantes àqueles jovens.J. esclarece muito bem. do Livro de Números. a epístola de Paulo. pessoas aptas a “receber o espírito”. Nesse sentido. . com a aprova- ção de Moisés. “a adoração de Deus em espírito e verdade”. O restabelecimento do Cristianismo é a volta ao espírito. Os profetas daquele tempo nada mais eram que os médiuns de hoje. é que o Espiritismo vem operando no mundo. o abandono das exterioridades. como Jesus ensinou à mulher samaritana. sobre os dons espirituais. que “receberam o espírito” no campo. o regresso à prática do profetismo. Eldad e Medad. e para esse fim. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 37 profetas. Basta lermos com atenção o capítulo 12 dessa epístola (I Corín- tios).

no país. pelo perdão. Pelo contrário. Bem sabemos que essa transformação do mundo não foi tão completa como o desejavam os cristãos dos primeiros tempos. não se alimenta na fonte pura dos nossos princípios doutrinários. pela serenidade e pela confiança inabalável no Alto. da violência e da crueldade. não é espírita. é uma idéia que acusa a falta de amadurecimento dos princípios espíritas em muitos dos nossos confrades. Mas. como se não bastasse a campanha insidiosa. está havendo um recrudescimento intenso das campanhas antidou- trinárias. Como o espírito vence a matéria e a religião triunfa sobre o culto Fases sucessivas da evolução religiosa – O Cristianismo como primeira fase da libertação espiritual do homem – A promessa do Consolador e a sua realização. entendendo que as organizações dirigentes do Espiritismo. . também. entretanto. Essa idéia. No entanto. o Cristianismo sofreu também a pressão da arbitrariedade. de acusações absurdas. por parte do poder romano. deviam reagir “à altura”. foi pela fé. que os cristãos conseguiram vencer e transformar o mundo. 3 1957. aqueles que realmente seguiam os ensinos de Jesus. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 38 14. Nada foi mais combatido no mundo do que o Cristianismo. Neste ano de comemorações do I Centenário do Espiritismo3. atacando com as mesmas armas os que nos atacam. E. Muitos espíritas se aborrecem com isso. pela humildade. As mesmas acusações que hoje são feitas contra o Espiritismo também o foram contra o Cristianismo. que então dominava o mundo.J.

mas anunciou o Consolador. quando o Espiritismo começa a entrar numa fase nova de esclarecimento do mundo. ou em aplicações de má fé. no mundo. como o souberam fazer os pioneiros da nossa fé. Cem anos após o seu advento. nenhuma força superior à verdade. Basta. que é o restabelecimento daquela. com toda a arrogância do seu império. Os próprios livros doutrinários são esmiuçados. a verdade espírita. destinados a sobreviver. que viria restabelecê-la. que mantenha- mos acesa a tocha esclarecedora da doutrina. também acabará triunfando de tudo o que dizem e fazem contra ela. E quem não sabe que a evolução material demanda muito tempo para se fazer? Jesus. nem mesmo de um século para o outro. assim como frases de Jesus eram citadas pelos sacerdotes pagãos e judeus. Todos os que estudam o Espiritismo sabem que estamos vi- vendo exatamente a era do Consolador. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 39 sabemos que tudo teria de se passar como a história registra. para isso. previu as suas futuras deturpações. César passou. O trabalho da evolução espiritual é mais lento e difícil que o da evolução material. e a humilda- de cristã permaneceu na terra. para iluminação do mun- . que continuemos a divulgá-los. que sustentemos com firmeza os nossos princípios. assim como a verdade cristã acabou vencendo todas as distorções que dela fizeram. O mesmo acontecerá com os prin- cípios espíritas. com distorção evidente do seu sentido. como o eram os textos evan- gélicos nos tempos do Cristianismo primitivo e. na época do domínio romano. também frases e trechos da codificação espírita são hoje utilizados na distorção sistemática da verdade espírita. pois não se pode modificar o homem do dia para a noite. A incompreensão humana continua a se opor à força regeneradora do Espírito da Verdade. o Espírito da Verdade. Mas não há. a oposição aos seus ensinos se torna mais forte e mais teimosa. E.J. que sabia melhor do que ninguém as dificuldades que a sua doutrina encontraria na terra.

a que se misturam concepções filosó- ficas diversas. a lei da evolução. Todas as formas de religião podem ser classi- ficadas num grande esquema da evolução religiosa do planeta. como nada deteve o Cristianismo. manter cada vez mais acesa a chama da fé em nossos corações. para se libertar em espírito e verdade. Esse movimento foi assinalado na Terra pelo aparecimento do Cristia- nismo. e vem sendo agora confirmado pelo Espírito da Verdade. espa- lhando cada vez mais ao nosso redor os princípios renovadores e puros do Cristianismo Redivivo.J. segue inevitavelmente o impulso poderoso da lei de evolução. domina e supera o aparelhamento exterior de culto. sim. se confiamos na verdade. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 40 do. quanto no vegetal. . elas vão passando a cultos mais elevados e complexos. não devemos nos irritar com as mesmas campanhas promovidas contra o Espiri- tismo. à espera do dia glorioso da vitória. um momento. como conhecemos. Chega. infatigável e paciente. é vencer a matéria. E vemos então que. e sabendo como ela opera no mundo. Assim. Não nos esqueçamos da lei fundamental. que tanto se manifesta no reino mineral. Nada deterá o Espiritismo. pois. no seu verdadeiro sentido. em suas múltiplas expressões. num mundo inferior como o nosso. É natural que haja reação à propagação da verdade. a religião. através do Espiritismo. Mas. que superou os formalismos do culto pagão e do culto judaico. no animal e no humano. que é a evolução. também. A função do espírito. porém. Conhecendo. nosso dever não é descer ao plano de lutas em que se colocam os adversários e. em que a religi- ão. Aproveitemos os momentos de luta para orar pelos adversários da doutrina. religião interior. dominá-la e superá-la. dos cultos primitivos. Tudo o que existe está submetido à ação soberana dessa lei de Deus.

14 e 16? Há quem afirme que Jesus ensinou tudo e nada deixou para outros ensinarem. Mas Kardec acentua. uma vez que foi ele mesmo quem afirmou: “Tenho ainda muito que vos dizer. E fez mais. mas o mundo ainda não o sabe!” Estas palavras foram proferidas por um dos mais notáveis escritores contemporâneos. completar o seu ensino e guiar o homem “a toda a ver- dade”.J. mas não o podeis suportar agora. que viria lembrar o que Jesus ensinara. que não havia completado o seu ensino. como vemos em João. sir Arthur Co- nan Doyle. no momento oportuno. prometendo o Espírito de Verdade. de 7 a 12 de setembro de 1928. os homens não estavam à altura de compreender a verdade espiritual – O Mestre prometeu e. enviou ao mundo o Consolador – Como a história se repete. com simplicidade e clareza: “Se o Espírito de Verdade deve vir . para o completar. pois. (João. 16:12-13). E ele já veio. quando vier. “Jesus Cristo disse: Enviarei o Consolador.” No tempo de Jesus. mas não o podeis suportar agora. por várias maneiras. porém. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 41 15. E quem disse essas coisas a seu respeito. O que é esse Consolador. ele vos guiará a toda a verdade”. na sessão de abertura do Congresso Espírita Interna- cional. Os teólogos explicam. ajustando-as a seus diversos sistemas. no capítulo sexto de O Evangelho segundo o Espiritismo. esta passagem. Mas. foi o próprio Senhor. quem pode ter autoridade para desmentir o Mestre. aquele Espírito de Verdade. senão o próprio Mestre. Quem disse. ”Tenho ainda muito que vos dizer. prometido por Jesus? É aquele Es- pírito de esclarecimento e de justiça. realizado em Londres.

mas o Espírito de Verdade. fora das igrejas e das organizações sacerdotais. que viria logo mais. de fato. e felizes os que têm olhos para ver a sua realização na terra! O mais curioso. Porque foi necessário que os homens trabalhassem durante quase dois milênios. para construírem sistemas de cultos e de teologia que não foram ensinados pelo Mestre. Compreende-se. aprimorando seus conhecimentos e elevando o seu mental. Em João 16:12. é que as acusações for- muladas a Jesus. nem são os karde- cistas. Quem ensi- na. Isso é tão claro como a luz meridiana. não é Kardec. enviada do Cristo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 42 mais tarde. seguida por uma grande falange de Espíritos do Senhor. superior. aos seus discípulos e à sua doutrina. assim. O gran- de escritor lamentava a incompreensão da maioria dos homens. para se tornarem capazes de o compreender. através do Espiritismo. exatamente como acontecera na vinda de Jesus. a expressão de Conan Doyle. é porque isso foi esquecido ou mal compreendido”. para lembrar aos homens a essência dos ensinos do Mestre e dar-lhes a explicação exata do processo da vida. é que nem tudo foi dito por Jesus Cristo. e se vem recordar o que Ele disse. por judeus. em tudo isso. E é ainda Kardec quem melhor o esclarece. no seu livro A gênese. são repetidas hoje. E a história nos mostra que assim era. Jesus afirma que os homens do sem tempo ainda não podiam suportar a verdade em sua plenitude.J. que repetem em nossos dias a mesma atitude dos judeus no tempo de Jesus. A Reforma Protestante foi um grande esforço para libertar o Cristia- nismo dos enxertos pagãos. E foi também o primeiro sinal do Espírito de Verdade. para ensinar todas as coisas. A promessa de cumpriu. por cristãos e não-cristãos. entidade angélica. a razão da vinda do Espírito da Verdade está bem esclarecida. gregos e romanos. pois os homens acabaram misturando os ensinos de Jesus com religiões e filosofias pagãs. O Espírito da Verdade veio ao mundo na hora precisa. . pois. porém.

e nos mandou amar até os inimigos. as formas religiosas alheias. à nossa porta. quando irmãos de outras crenças vêm bater. Aprendemos. Preferem manter-se firmes em seus princípios. não podemos recusar-lhes a hospitalidade. inclusive. como as seções católicas e protestantes o são.J. e os sacerdotes judeus e pagãos negavam valor filosófico a Jesus e aos seus seguidores. que os ajuda a se transformarem. Não consideramos as interpretações evangélicas dos outros. Que Jesus nos ampare. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 43 ao Espírito de Verdade e seus servidores. nossas agressões sectárias a irmãos de outras crenças. como simples formas de divertimento. da mesma maneira por que os estóicos. e assim já não aceitam esses desafios antifraternos. Graças a Deus. confiantes na força da verdade. Aquele que nos ensi- nou o amor como base da vida espiritual. do nosso objetivo. É uma porta aberta ao público leitor. e responder às agres- sões com esclarecimentos. Mas. Os espíritas são acusados de bruxos. de não possuir um sistema ético. para conhecimentos da doutrina espírita. aquilo que o Espírito de Verdade nos Ensinou. nunca. que é revelar. a todos os que se interessam pela verdade. Esta seção não tem finalidade polêmica. na simples leitura de O Livro dos Espíritos e de O Evangelho segundo o Espiritismo. não aprovaria. de feiticeiros. certamente. como qualquer pessoa desapaixonada pode ver. quando esse siste- ma é o do próprio Cristo. os espíritas estão aprendendo a sua doutrina. E nega-se a filo- sofia espírita. penetrando mais a fundo na essência poderosa do Evangelho de Jesus. no Evangelho. através da doutrina consoladora do Espiritismo. como os cristãos primitivos o foram. a respeitar os sentimentos e as convicções dos demais. . com referência às respec- tivas doutrinas. ansiosos e aflitos. A moral espírita não é outra senão a moral evangélica. O Espiritismo é acusa- do. a fim de não nos desviar- mos. os epicuris- tas e os céticos negavam a filosofia cristã.

Admitir a pena de morte é negar a capacidade de recuperação e regeneração da criatura humana. E. ainda.J. da ordem. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 44 16. de público. ou pelo exemplo do Cristo. definida. a instituição da pena capital em nosso país. da segurança das famílias. ou no seu aspecto filosófico ou. E essa falta é tanto mais alarmante quando vemos representantes de igrejas cristãs e de correntes espiritualistas defenderem e postula- rem. mantém-se. a doutrina se apresenta coeren- te. fiel a si mes- mo no plano filosófico. na sua feição de restabelecimento da pureza inicial dos princípios cristãos. O Espiritismo. quer pelo ensino. é admitir a contradição e . Por mais que se alegue a defesa da sociedade. O criminoso é nosso próximo. Negar essa capacidade é admi- tir a falência da ação de Deus no mundo. caso a autorizasse. una. não autoriza a adoção dessa medida brutal e violenta. a verdade é que o Cristianismo. não admite a pena de morte. Por essa atitude clara. As discussões sobre a pena de morte revelam a falta de com- preensão cristã dos problemas humanos em nosso tempo. baseada sempre nos sólidos alicerces dos princípios cristãos. estaria em contradição consigo mesmo. Porque a verdade é a seguinte: quer se encare o Espiritismo no seu aspecto religioso. homogênea. no científico. além de se manter coerente com a essência dos ensinos de Jesus. também. como o melhor entre os homens Aspectos anticristãos do problema da pena de morte – Uma lição do pastor Stanley Jones – Elisabeth de França e sua comunicação sobre o problema dos criminosos.

senão o meio formado por essas próprias experiên- cias. que passa a ser uma instituição. jamais a admitiri- am. Entretanto. propici- ando a uns o esclarecimento e mantendo outros nas trevas da ignorância e da crueldade? Um grande pastor protestante. punindo friamente. Para o espírita seria. como podemos aceitar a idéia de interromper a vida de uma criatura. ainda. Esses funcionários. negar a eficiência da lei de evolução. pelo qual o Cristo morreu. levados pelo horror de certos crimes. ensina que de- vemos ver em cada criatura humana um ser pelo qual o Cristo deu a vida. Se aceitamos que os espíritos foram criados por Deus para a perfeição. Mas. chegam às vezes a admiti-lo. no desespero de suas paixões ou no desequilíbrio profundo de sua crueldade mórbida. como acentuou Victor Hugo. e so- bretudo influenciados pela falsa argumentação dos defensores da pena de morte. o meio em que essas experiências se desenvolvem. praticarem crimes. Se meditarmos nela. Essa é uma lição realmente cristã. . filho e produto da própria sociedade.J. seriam os assassinos oficiais. na pena de morte não há somente o absurdo da violência social contra o criminoso. nos princípios fundamentais da doutrina. produzindo no país uma nova e horripilante classe social: a dos funcionários do crime. com a morte burocrática. os infelizes que. Aqui mesmo. Stanley Jones. não temos o exemplo de grandes cangaceiros que se transformaram em homens de bem? Alguns espíritas. Há também o absurdo da oficializa- ção do homicídio. Se pensassem. em nosso país. po- rém. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 45 o absurdo no processo da vida. e que esta se realiza através das vicissitudes e experiên- cias da alma. veremos o absurdo dos que pretendem tirar a vida a um crimino- so. em nome dos interesses da sociedade? E o que é a sociedade. a história do mundo nos mostra que os erros humanos são corrigíveis e que os maiores criminosos são suscetíveis de regeneração.

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 46 Kardec incluiu. É vosso próximo. . uma comunicação mediúnica de Elizabeth de França. XI. e rogai por ele”. a sair do lodaçal. Como vemos. ao tratar do criminoso: “O arrependimento pode comover seu coração. acordando- nos para o verdadeiro sentido das responsabilidades sociais em face dos criminosos. foi criada. em O Evangelho segundo o Espiritismo. pois. Sua alma. Ajudai-o. se pedirdes com fé. que termina com estas belas palavras. a lei do amor transparece em cada uma destas palavras. trans- viada e rebelde. como o melhor entre os homens. cap. para se aperfeiçoar. como a vossa.

nem teve tempo. Felizmente. em todo o país e em todo o mundo? A abertura de hospitais.J. de socorro aos desvalidos. de alber- gues. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 47 17. no seio do povo? A conversão ao espiritualismo e à crença em Deus. Quais são os males sociais causados pelo Espiritismo? As o- bras de assistência à pobreza. A facilidade com que certas pessoas tratam do Espiritismo. a acusação infundada não encontrou eco. realizada por milhares de Centros Espíritas. por toda a parte. a afirmação dessa espécie. Ela derivou. Acusação que matou Sócrates e preparou a cruz para o Cristo O perigo dos estereótipos mentais – Discípulos que sustentam teses contraditadas pelos mestres – O flagrante desmentido dos fatos. naturalmente. de um . sem conhecerem a doutrina. Ainda há pouco. como tempos atrás. A pessoa que formulou a temerária acusa- ção à doutrina não pensou nessas coisas. de tomar conhecimento da extensão e do valor da obra social dos espíritas. numa reunião de comis- são da edilidade paulistana. de orfanatos. acusando-o de vários males. é sim- plesmente de estarrecer. de alfa- betização gratuita. que suprem. houve quem declarasse que o Espiri- tismo “tem causado muitos males sociais”. ainda. que pareceu teme- rária aos demais membros do organismo. Por outro lado. O ambiente já não era favorável. as deficiências do poder público? A difusão dos princípios evangéli- cos. a acusação não foi feita com segundas intenções ou com maldade. de milhares de pessoas que não aceitavam o ensino formal das religiões? Serão esses os males sociais do Espiritismo? Sabemos que não. de creches.

para a divulgação dessa inverdade. Basta uma visita aos hospitais espíritas. dia a dia. que o Espiritismo é um mal social e. dizem. As pessoas que repetem essas palavras merecem como resposta tão-somente a prece de Jesus pelos seus acusadores. para se ver que o Espiritismo oferece uma solução nova para o problema da loucura e das neuroses. de tanto ouvir dizer. nesse terreno. algumas pes- soas se convencem disso. os espíritas responderam curando lou- cos – milhares de loucos desenganados pelas clínicas psiquiátri- cas. Pai. mesmo entre pessoas que já deviam ter superado a fase dos estereótipos mentais.J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 48 falso conceito de Espiritismo. para desmentirem essas teses. sem fundamento algum – mas dizem –. há quem vá mais longe. e esquecidos dos pronunciamentos contrários e insuspeitos de seus próprios mestres estrangeiros. Mas os fatos aí estão. por todo o país e. aos olhos de todos. longe de aumentar as psicoses e as neuroses. Quem se der ao trabalho de uma rápida investigação. O Espiritismo con- quista centenas de novos adeptos. entre os seus amigos e conhecidos. há muito tempo. Foi esta mesma acusação que levou Sócrates à cicuta e preparou para Jesus o caminho do Calvário. não sa- . afirmando que a doutrina “perverte os costumes e o senso moral”. que hoje constituem a maior rede de clínicas psiquiátricas em nosso Estado. no alto da cruz: “Perdoai- lhes. verá quantas pessoas encontraram o equilíbrio. A maior e mais insistente acusação que se faz ao Espiritismo. vem concorrendo poderosamente para diminuí-las. sustentando teses absurdas a respeito. e concorrem. que eles não sabem o que fazem”. é a de causar loucuras e desequilíbrios nervosos. É que dizem e. Realmente. à acusação de que eram fazedores de loucos. Além dessa acusação absurda ao Espiritismo. a paz. de um preconceito muito comum entre nós. ou melhor. Ao mesmo tempo. Certos psiquiatras brasileiros concorreram. o consolo e a segurança no Espiritismo.

Porque o Espiritismo é uma doutrina cristã. na crença em Deus e na sobrevivência da alma. ao dizer tais coisas. baseada no Evangelho de Jesus. . como ensinava Kardec. dizer que o Espiritismo tem causado muitos males sociais é ignorar por completo a grande obra social dos espíritas e. Como se vê. desconhecer os princípios eminentemente morais que inspiram essa obra.J. a fraternidade pura entre os homens. Uma doutrina que prega. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 49 bem – nem o que dizem. a moral de Jesus. o amor e a caridade incessante. sobretudo. nem o que fazem –.

Os resultados dessa atitude só podem ser negativos. O que se deve buscar no Espiritismo é a elevada compreensão do processo da vida. pelo contrário. Essas pes- soas não se dirigem ao Espiritismo na procura de uma visão mais ampla da vida. a pessoa que deseja benefícios acaba perdendo a assistência dos Espíritos superiores e sofrendo o assédio dos inferiores. Os Espíritos superiores não estão a serviço dos pequeni- nos e passageiros interesses humanos. na prática espí- rita. arranjo da vida. de maior equilíbrio psí- quico. Dessa maneira. Pretendem fazer do Espiritismo um meio de conquista de vanta- gens pessoais. solução de problemas financeiros ou amorosos.J. Estes. obter benefícios imediatos: cura. não raro cobram muito caro o que fizeram. estão sempre prontos a atender a todos os pedidos. causando. Há pessoas que só compreen- dem as coisas do ponto de vista da utilidade imediata. se às vezes fazem alguns benefícios imediatos. que por sua própria benevolência . sim. de melhor compreensão. amargas decepções. que ele oferece a todos os estudiosos. colocamo-nos em sintonia espiritual com os Mensageiros do Alto. é o utilitarismo dos praticantes. Bus- cando essa compreensão. Um dos fatores mais freqüentes de decepções. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 50 18. E. mesmo os mais injustos. Não é missão do Espiritismo “arranjar a vida” de quem quer que seja. Desejam. mais tarde. Assistência dos espíritos nas dificuldades da vida Confusões entre o meio e o fim acarretam decepções doutrinárias – O que importa no Espiritismo é o Reino de Deus e a sua Justiça.

um médium ou um doutrinador espírita. nos movimentos sociais. há sempre os que procuram apenas a satisfação de seus próprios interesses. é o Reino e sua Justiça. pois. e não o bem-estar imediato.J. os que pensam que somente no Espiritismo somos assedia- dos por essas questões. busque uma orientação no meio espírita. como ensinava Jesus. esse obje- tivo é o aperfeiçoamento espiritual. as paixões e as angústias humanas servem. Cumpre-se aquele ensinamento de Jesus. Erram. aturdido pelos insu- cessos. Pes- soas que se aproximam do Espiritismo. mas decorrem da própria natureza humana. para solucionar o problema do filho enfermo. Não é somente no Espiritismo que isso acontece. não podem transformar-se em finalidade da prática espírita. Os interesses. . como é justo que a criatura atormentada por questões amorosas procure uma pala- vra de consolo na comunicação mediúnica. Mas. É justo que a mão angustiada procure um Centro. a felicidade passageira e ilusória. que todos os cristãos estudiosos conhecem: “Busca primeiramente o Reino de Deus e a sua Justiça. em seu atual estado evolutivo. uma vez socorri- das pelos Espíritos do Senhor. mas não lhe absorvem os ensinamentos superiores. nos partidos políticos. os sacerdotes enfrentam o mesmo problema. Nas várias religiões. como meios de condução da criatura ao Espiritismo. em vez de permanecerem na estagnação dos sentimentos comuns. essas criaturas devem beneficiar-se com as luzes da doutrina. tangidas por necessidades e interesses. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 51 nos atendem e nos socorrem em tudo o que é possível. muitas vezes. do ponto de vista espírita. O que importa. O Espiritismo ensina que a vida tem um objetivo e. Mas. que não são privilégio de nenhum movi- mento. Nas correntes ideológicas. com os crentes interessados em transformar as práticas do culto em ins- trumentos de benefícios pessoais. pois. e tudo o mais te será dado por acréscimo”. É justo que o homem de negócios.

Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 52 são as que acabam por decepcionar-se com a doutrina.J. para assimilarem a mensagem renovadora do Espiritis- mo! Essas são as que não se aproximam da luz de olhos fechados. . o Espiritismo se transforma naquilo que os místicos chamam. e com muita razão – a luz no caminho. Para elas. De outro lado. e nunca se decepcionarão. Elas mes- mas causam as suas decepções. como são felizes as que se servem da oportunidade de uma angústia ou de uma difi- culdade.

As vozes do céu tiveram de conclamar os homens. nas passagens referentes ao Consolador. Se Jesus expelia os demô- nios. de feiticeiro. para esse restabelecimento. Foi necessário. Convém lembrar que os sacerdotes das religiões pagãs. Seqüência lógica e natural das três revelações cristãs Cada revelação trouxe a profecia da seguinte – Sentido universal e permanente da III Revelação – A evolução terrena e o exercício da mediunidade. na terra. A história se repete. o concurso do Céu. Nem o Cristo respeitaram. os princípios cristãos vão sendo restabelecidos em sua pureza primitiva. no Evangelho de João. libertando pobres criaturas das garras de seus terríveis ob- sessores.J. fizeram a mesma coisa com o Cristianismo. que acusem o Espiritismo de anticristão e chamem os espíritas de embusteiros. segundo podemos ver. Pouco importa que os adversários da doutrina digam o contrá- rio. Como diz Emmanuel: “É a Renascença Cristã do Mundo”. . Graças a essa doutrina de luz e de amor. Acusavam Jesus de embusteiro. para a volta à realidade evangéli- ca. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 53 19. diante das acusações de hoje. e os espíritas precisam se lembrar do heroísmo e da serenidade dos cristãos primitivos. para se portarem à altura dos ensinamentos evangélicos. O Espiritismo é o prosseguimento natural do Cristianismo. diziam que o divino Mestre o fazia porque “tinha parte com o Diabo”. como o Cristo já havia previsto e. e os próprios sacerdotes do judaísmo. de endemoniado e chamavam os cristãos de hereges e mistificadores.

Mas. que os homens perturbaram através dos tempos. é impessoal e universal. surge a hora gloriosa da restauração. Há uma seqüência lógica e natural das revelações cristãs. 14 do Evangelho de João. então. O Consolador nos lembra os princípios verdadeiros do ensino de Jesus. muitas vezes. nesta codificação não se anuncia a quarta. Foi a I Revelação e. como ensina Kardec. E. Por que? É o que passaremos a ver. após as deturpações. a codificação espírita. A primeira e a segunda revelações. versículo 26: “Aquele Consolador. ela anunciava a segunda. surge a III Revelação. por fim. em virtude das condições do mundo em que elas apareceram. veio a II Revelação. da qual resul- tou a codificação bíblica. no tempo de Jesus. A terceira. então. com Jesus. vos ensinará todas as coisas. depois que as revelações já haviam sido feitas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 54 A missão de Jesus não findou com a crucificação. assim também. ajeitando-os. não se limita a lembrar o que foi dito naqueles tempos. como vemos no cap. que também em seu texto anunciava a terceira. que o Pai enviará em meu nome. O anúncio é claro e preciso.J. não há a profecia de outra revelação. De- pois da crucificação. que todos os espíritas devem ter constantemente na memória. e tivemos. mas apenas um codificador. anunciada pelo Cristo. E. como a sua doutrina de luz não se apagou com as deturpações humanas. Kar- dec não foi um revelador. porque não as entenderíamos. às suas conveniências. não estávamos em condições de ouvir. já em seu texto. a missão de Moisés. como Moisés e Jesus. De- pois. A revelação espírita é impessoal. houve a ressurreição. e vos fará lembrar de tudo quanto vos tenho dito”. pois surgiu no mundo através das comunica- . e temos. com as manifestações dos Espíri- tos em todo o mundo. a codifica- ção evangélica. e- ram pessoais e locais. como aqueles que organizaram a Bíblia e os Evange- lhos. Mas. dizer tudo aquilo que. Primei- ro. porque lhe cabe também “ensinar todas as coi- sas”. porém. houve a revelação do Sinai. que surgiria com a vinda do Messias.

no versículo 16 do capítulo 14 de João: “E eu rogarei ao Pai. não precisa de outra. Compreendendo. e tendo-as sempre em mente. prestes a brilhar sobre todo o mundo. os espíritas estarão habilitados a enfrentar todas as acusações que lhes são feitas pelos adversários da doutrina. A fé esclarecida pela razão. E como a terra já atingiu um grau de progresso suficientemente superior. estas coisas. nesta hora de confusões sombrias por que vai passando o nosso planeta. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 55 ções espirituais. simultaneamente em vários países. pela compreensão. Não foi feita por um homem. É justa- mente o que Jesus já havia dito. dar-lhes-á a força necessária para cum- prirem os seus deveres. iluminando-nos e esclarecendo-nos quanto aos problemas do espírito. para que fique convosco para sempre”. A terra evoluída já permite aos homens o exercício ininterrupto da mediunidade e esta porta que se abriu para o céu garante a continuidade natural da revelação divina. . ao anunciar.J. O Espiritismo é a terceira e última revelação. que ficará co- nosco para sempre. pois. mas por muitos. e ele vos dará outro Consolador. essa revelação impes- soal e universal é também a última. às vésperas de uma nova aurora espiritual.

menos o sigo. com um pequeno volume do E- vangelho nas mãos. Estaríamos em mundo melhor. não tolero ofen- sas e não entendo como se possa procurar primeiro o Reino de Deus. as nossas deficiências de compreensão. Mas logo acrescentou: “E se me esforço. Não sou mau. uma dia me confessou: “Há muito que entro no Evangelho. quando a Terra. para as várias religiões. Como posso pensar . Concordou. Respondi-lhe que nós todos somos assim. nem viciado em coisa alguma. na companhia daqueles que. Mas isso é natural. Todos temos os nossos defeitos. são os eleitos. nem precisa- ríamos do Espiritismo. velho amigo estudioso da doutrina do Consolador e pregador apreciado. quanto mais o leio. Miranda ouviu atentamente. mas o avanço constante rumo a ela.” Kardec não exigia a perfeição.J. diariamente. nada faço contra ninguém. mas o Evangelho não entra em mim. Mas sou áspero. e não tem importância. Miranda. exige tanto de mim”. irritadiço. mas não consigo melhorar-me? Já pensaste nisso? No drama do espírita que deseja melhorar e não consegue? Volto a insistir no caso do Reino de Deus. para depois procurar o Reino Contradições entre teoria e prática doutrinária – Quando se entende somente para os outros – Uma lição mediúnica. Se fôssemos perfeitos não estaríamos aqui. Queria primeiro o acréscimo. em parte. Por incrível que pareça. quanto mais me absorvo nele. desde que lutemos para nos corrigir. Lembrei-lhe o que dizia Kardec: “O verdadeiro espírita se conhece pela sua transformação moral. em plano superior. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 56 20.

ainda. Miranda. uma entidade amiga se incorporava no médium. . Perguntei-lhe. num desabafo: “Acho que o melhor é deixar de falar na doutrina. continue no seu Reino e na sua injusti- ça. E mal a terminávamos. Conversa vai. se precisava mentir e trapacear? Como ser verdadeiro. para resolver a situação. o que entendia pelo Reino de Deus. que andam trapaceando por aí. seria portar-se de acordo com esses princípios. rodando nas mãos o volumezinho do Evange- lho. Mas à noite. Sou obrigado a mentir. resolvemos fazer uma prece em conjunto. a trapacear. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 57 nele. se precisava simular? Como cultivar o amor. desolado: – Miranda. censuravam-no impiedosamente. dirigindo-se ao com- panheiro. para ajudar o Miranda. apa- rentemente por acaso. Respondeu que sim.J. Inútil. então. busque o outro. – Pois então. E fazer como se diz por aí: fé em Deus e unha no próximo!” Procurei. meu irmão. amarguravam-no? Baixou a fronte. conversa vem. Mas. encontramo-nos com um médium amigo. se os semelhantes o ofendiam. revoltado. uma interpretação errada dos textos. da verdade e do amor. pois. como eu. Buscá-lo. Miranda estava amargurado consigo mesmo. você não quer buscar o Reino de Deus e a sua jus- tiça? Pois então. – Mas o Diabo não existe – objetou Miranda – É uma inven- cionice. consolá-lo por mil maneiras. – O do Diabo e a sua injustiça.” Perguntei-lhe se já havia examinado bem o conteúdo do ensi- no evangélico a que se referia. Chamas de diabo os espíritos imperfeitos. assustado. – Que outro? perguntou Miranda. com a conta do empório no bolso e o ordenado já gasto? Essa é uma imperfeição que não venço. como ser puro. Suspirou e exclamou. pensativo. como uma coisa inútil. Disse que entendia ser o reino da pureza. Ninguém o obriga a buscar o Reino de Deus.

você tem mesmo é de seguir por aí. e fale do que experimentou. Mancando ou não. procure fazer negócios sérios. Ponha o pé no Reino de Deus. não há outro caminho. Em vez de trapacear. Até agora. tenho falado do que entendi. ponha em prática o entendimento. compassiva. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 58 Miranda não se conteve. Disse-me. mas não tenho praticado. Miranda mostrava um semblante mais tranqüilo. Ao sairmos da reunião. no momento. Mas. insista no caminho reto. e eu mesmo não aprendia. Nunca fui insincero nas minhas pregações. Agora. . amigos. vai ser um pouco difícil. todo o absurdo da sua atitude lhe surgira de inopino aos olhos da alma. e será ajudado. Então a entidade amiga. num desabafo salutar: – É verdade. sem buscar o Reino! De agora em diante vou fazer o contrário. e o acréscimo começará a aparecer. Miranda. Mas acontece que eu ensinava os outros. depois que. em breve. Lágrimas ardentes lhe correram pelo rosto. E os Espíritos me ajudarão. porque o seu passado é um tanto escuro. E. Curioso! Eu desejava o acréscimo. confesse humildemente aos credores a verdade da sua situação. meu irmão. A princípio.J. você tem falado do que entendeu. Em vez de mentir. se abriu conosco. disse-lhe: – Como vê.

Devemos pagar o mal com o bem porque precisamos do bem para viver. Se eu ficar espírita tenho de deixar de ser homem. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 59 21. Sou homem de atividade”. sabe falar. toda religião e toda doutrina espiritualista. Mas o homem não é bicho. bonzinho ou idiota!” Depois disso. é homem. O fraco foge do forte. Mas vamos fa- zer o possível. Vou ser maricas. humanizando os costu- mes e desenvolvendo a solidariedade. Tem inteligência. se saem dessa”. O próprio leitor informa: “Não sou de muito ler e de muito pensar. para se tornar uma criatura huma- na. Só o amor produz a civilização. Aliás. Vamos por ordem: 1 – Os bichos se mordem e se estraçalham. sejam quais . O mistério do bem e do mal “Por que razão devemos pagar o mal com o bem e amar os nossos inimigos? O certo não é o contrário. O mundo é isso. Os homens se entendem. Foi sempre assim que se fez. linguagem. consciência. Nosso espaço é pouco para responder a tudo. A lei do “olho por olho e dente por dente” pertence às épocas de barbárie. E é por isso que não entendo as religiões. deixará no passado o bicho que existe em cada um de nós. não entendo o Espiritismo. Mesmo porque não adianta escrever muito. espíritas. pagar o mal com o mal e odiar os inimigos? O sujeito que me der uma bofetada leva um tiro que o manda para o inferno. O mal aumenta o mal e transforma os homens em bichos. o leitor acrescenta: “Quer me dizer o que é o bem e o que é o mal? Que mistério é esse? Levar uma bofetada é um bem? Matar um bandido é um mal? Quero ver como vocês. 2 – Se o leitor se tornar espírita.J.

a reflexão se apóia no conhecimento e. A vida é a grande educadora das almas. como no caso de Jesus. . A atividade sem pensamento é impossível. 4 – Um homem de atividade. Mas. pois na verdade estão agindo sem o necessário critério. pois ninguém precisa mais de viver do que um bandi- do. Matar um bandido é sem- pre um mal. 3 – Levar uma bofetada pode ser um bem. Leia mais e pense. Por outro lado. Os que dizem que preferem agir estão errados. Pelo contrário. O bandido é um nosso irmão em erro. uma alma pela qual o Cristo se entregou ao suplício da cruz. depois agimos. Primeiro pensamos. de aprender a ser bom. antes de agir. que deve ser corrigido e não aniquilado. à atividade certa. quando serve para ensinar o bem. é um homem.J. Os maus se condenam a si mesmos e acendem um braseiro na consciência. a idiotice está precisamente em ser mau. quem não lê. para humanizá-lo. Em todos os países civilizados o direito penal moderno é contrário à pena de morte. Matar um bandido é retirar a sua possibilidade de regenerar-se. sempre. O bandido é um homem em que o animal pre- domina. precisa ler e pensar. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 60 forem. não é ser idiota. um filho de Deus. conhece muito pouco. A boa leitura e o bom pensamento conduzem à ação reta. têm por finalidade afastar o homem da condição animal. ou de ação. que vem da reflexão. Ser bom.

antigo materialista que se convertera ao Espiritismo e foi membro da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas.J. O caso Sanson é semelhante ao de Schutel. que isso fosse possível. em sua câmara mortuária. que se identificou pelas expressões. Lembrou- se Kardec de que. pondo em dúvida o relato do articulista. Mas não são esses os únicos casos de comunicação post-mortem imediata. o sr. Dian- te do corpo. depois de um ano de sofrimento. em Paris. Sanson e Schutel “É possível que um espírito se comunique logo após a mor- te?” A pergunta do leitor decorre de um artigo que leu sobre a comunicação de Cairbar Schutel. Kardec o atendeu e compareceu à câmara mortuária acompanhado de amigos e mé- diuns. fundador da “Re- vista Internacional de Espiritismo”. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 61 22. Para que isso acon- teça é necessário que o espírito desencarnado esteja consciente de sua passagem e em condições de se manifestar. Sanson manifestou-se diante do corpo em exposição e acabou fazendo uma comovente despedida do instrumento que lhe havia servido no mundo. um médium recebeu o espírito do apóstolo de Matão. é indispensável que o morto tenha vivido de maneira favorável. o leitor. pela forma peculiar de falar. para que essas condições existam. E. Porque esse desprendi- . faleceu. antes de sua morte. embora nem sempre elas sejam possíveis. com dignidade humana e mais interessado nas coisas espirituais do que nas materiais. acamado. pelos gestos e pelas referências à sua própria existência que se findara. ele lhe havia pedido para evocar o seu espírito logo após o passamento. Estranhou. O Espiritismo reconhece a possibilidade dessas comunica- ções. Em abril de 1862. Sanson.

de maneira a não se aturdir com ele. quem se muda precisa saber para onde vai e como o faz. de Allan Kardec. pois o homem é espírito e não corpo e só este é que morre. Verá o leitor que não só os mortos recentes se comunicam. pois enquanto esta- mos no mundo devemos “viver a vida”. mesmo em vida. recentemente publicado na Coleção Científica Edicel. dando ao homem uma visão espiritual da vida e preparando-o para compreender o fenômeno da morte. morrer é mudar- se”. Na coleção da Revista Espírita. aconselharíamos o leitor a consultar também o livro do prof. uma das obras fun- damentais da doutrina espírita. “um princípio de libertação do espíri- to”. Mas. . Klors Werneck. facilmente se compreende o valor e a importância dessa vantagem. meus amigos. Certas pessoas acham que isso não tem importância. Sanson pode ser lido no início da segunda parte do livro O Céu e o Inferno. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 62 mento já é. “Morrer não é morrer. Ernesto Bozzano: Comunica- ções Mediúnicas Entre Vivos. dizia Victor Hugo. se a vida não acaba na morte. precisamente. antecipar essa libertação. na tradução do prof. segundo ensina a doutrina espírita.J. Mas. mas também as pessoas vivas. que marcam um dos episódios científicos mais importantes do Espiritismo. Ora. podem ser apreciadas as pesquisas de Kar- dec a respeito. Uma das principais vantagens do conhecimento do Espiritis- mo é. também já pu- blicada em português. O caso do Sr.

de uma reconstituição da vida de Paulo. também. Houve. na implantação do Evangelho. Vemos. pela Livraria da Federação Espí- rita Brasileira. um encadeamento de causas e efeitos na vida de Paulo. para levá-lo ao encontro do Cristo. A conversão de Paulo não se deu por acaso. na Estrada de Damasco. Não se trata de um romance. O Espiritismo é inteira- mente contrário a essas teorias disparatadas. se apresenta como caprichoso labirinto. O mistério de Paulo Pode o Espiritismo explicar a misteriosa figura do apóstolo Paulo? A súbita conversão do fogoso perseguidor. Os interessados no esclarecimento desse problema encontrarão amplos esclarecimentos na obra Paulo e Estêvão. mas de uma biografia romanceada. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 63 23. Chega-se a dizer que o Cristianismo é obra de Paulo e não do Cristo. abrangendo aspectos fundamentais da época heróica de expansão do Cristianismo. mestre de Paulo. que acaba de ser lançada em oitava edição. que . “Tudo se encadeia no Universo”. sustentando a existência de divergências profundas entre o Evangelho e as Epístolas do apóstolo dos gentios. psicografada por Chico Xavier. A mente humana é cheia de escaninhos sombrios e. como geralmente se pensa. que Gamaliel. Emmanuel não se serve da bibliogra- fia terrena para essa reconstituição. então. diz O Livro dos Espíritos. quem veja em Paulo uma espécie de reformador do Cristianismo. as fontes da conversão de Paulo na sua própria dedicação a Moisés. nas portas de Damasco. Há. aparentemente.J. Sua atividade posterior é considerada por muitos como supe- rior à do próprio Cristo. mas das “tradições do mundo espiritual”. de Emmanuel. às vezes. também. das características do mila- gre. reveste-se. nem da maneira brusca por que cos- tumam apresentá-la.

na atualidade. levam-no a compreender o Cristianismo como ninguém ainda pudera fazê-lo. é a fidelidade a Cristo. opondo-se até mesmo aos erros judaizantes dos apóstolos que haviam convivido com o Messias. Na bibliografia mediúnica mundial talvez não exista nenhum livro de maior importância do que esse. sozinha. que foi noiva do jovem Saulo de Tarso.J. Paulo nada acrescentou. Os leitores que ainda não o conhecem devem aproveitar a oportunidade desta oitava edição. fora as traduções que correm o mundo. Sua principal virtude. foi também um convertido. Os que vêem diferenças entre Paulo e o Cristo. E duas figuras praticamente desconhecidas dos investigadores da História cristã. As lutas de Saulo. para ser lido e meditado. após a conversão. nem teve a mais leve pretensão de modificar o Cristianismo. nas lides cristãs. . Paulo e Estêvão é uma obra que justificaria. Mas não é livro para ser lido como romance. lançados em nosso país. que completa sessenta e cinco milheiros de exem- plares. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 64 devia suceder o mestre no Sinédrio. com interesse apenas pelos lances românticos do enredo. fazem confusão entre as interpretações parciais da mensagem cristã. o pregador Estêvão e sua irmã Abigail. espalhadas no mundo. e a interpretação legítima e total do apóstolo dos gentios. Mas a sua inteligência poderosa e a sua profunda sinceridade. são longas e dolorosas. a exis- tência e o apostolado mediúnico de Chico Xavier. representam papel decisivo na preparação do seu espírito para o encontro com o Cristo. É livro para ser estudado.

são espíritos superi- ores. como demônios ou diabos são espíritos inferiores. são raros e não se fazem conhecer por modulação da voz. No movimento espírita sempre houve. de alguns anos para cá. ignorando o aspecto realista e racional do Espiritismo. mas não sabemos quando atingiremos o grau necessário de evolução espiritual. A . Kardec sempre acentuou que o Espiritismo é uma questão de bom senso. que tanto condena a preguiça. hoje. milhares de candidatos a anjo. que conseguem superar a precária condição humana. Por essa e por outras. gestos estudados.J. os anjos não são uma criação especial de Deus. O anjo A Doutrina Espírita nos ensina que somos. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 65 24. que tem de ser natural e não artificial. candidatos a anjo. Por outro lado. essa endemia espiritual se precipitou numa forma aguda de surto epidêmico. ou a posição que ele deseja atingir. No Espiritismo. encarna- dos e desencarnados. Anjos. diferenciando-se pela conduta superior e por uma concepção da vida que amplia os horizontes. O verdadeiro anjo se integra na realidade social comum. em curto prazo. atitudes artificiais ou vocabulário misti- ficado. Mas. como em todas as cor- rentes espiritualistas e religiosas. moral e intelectual para elevar- mo-nos à categoria angélica. como exemplificou Jesus. portanto. Sem o conhecimento doutriná- rio. no processo evolutivo. todos. Temos. Todos somos candidatos. uma tendência à angelização. mas as próprias criaturas humanas. Mas é conveniente lembrar a distância existente entre o candidato e o cargo. esses calouros da escola espírita bem mereciam um trote com as orelhas de Midas. a sabedoria popular nos adverte que não é com muita sede que se vai ao pote. Podemos ter anjos encarnados na Terra mas. evidentemente. como a pressa.

E o fizeram da maneira mais simplória e ridícula. assim. a figura do anjo arti- ficial. sem sequer a grandeza das adulterações clássicas da Bíblia e dos Evangelhos que. para isso certo número de mensa- gens de Emmanuel. iniciada com a viciação de O Evangelho segundo o Espiritismo. catapora. Produziram. Tornou-se comum.J. roubado pelo assaltante Prometeu. semelhante à conhecida figura dos evangélicos de aparência. que só revelam o que são quando lhes pisamos os calos. por toda a parte. Essas mensagens caíram no gosto dos candidatos mais inocentes. apenas. os grupinhos formalistas com seus ademanes e seus slogans. feito de matéria plástica. Tudo isso parecia inócuo e até mesmo curioso. o de Penélope. um novo tipo de complexo no esquema psica- nalítico. à espera do bem-amado Ulisses. Parecia tão simplória quanto inofensiva. através de Chico Xavier. Formaram-se. em breve. E. evidentemente. Não era meningite. Contribuiu. das usinas elétricas do Olimpo. como havia freqüente condenação da crítica – sem a devida distinção entre o sentido popular da palavra e o seu sentido cultural elevado –. Mas os comi- tês de candidatos à angelitude proliferaram como os comitês políticos em véspera de eleições. . recomendando controle de expressões. guardavam nas suas expressões algumas faíscas do fogo do céu. essa epidemia não preocupou a ninguém. os candidatos inocentes à angelitude submeteram sua capacidade crítica a uma tentativa de afogamento nas águas do inconsciente. O resultado aí está. es- magador na sua surpresa. que fingia tecer um véu sem fim. mas. avassalador na sua insistência teimosa: a adulteração das obras de Kardec. no meio doutrinário. da voz e de atitudes. até mesmo pessoas que pare- ciam imunes acabaram por contagiar-se. Essas coisas são contagiosas e. pelo menos. Os candidatos a anjo desembo- caram no delta comum da adulteração. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 66 princípio.

Esse fato foi totalmente supe- rado. mas no contra-senso de alguns calouros de anjo que ainda não passaram pelo trote. Trata-se de um gravíssimo problema de cultura. com todas as deformações e aleijões caricaturais. Roque Jacintho. Pior fez. como podemos ver em Obras Póstumas. em primeiro lugar. uma tradução completamente mutilada de O Evangelho segundo o Espiri- tismo. São os anjos que nos reduzem a isso? Não. O surto epidêmico de angeli- tude atingiu. São os pretensos candidatos a anjos. teremos a Codificação angeli- zada. objetivamente. Não teremos mais uma doutrina. lançando em 1986. em São Paulo. o coração da estrutura literal e conceptual da Codificação. Daqui a pouco. mas uma caricatura doutrinária. com a retirada de circulação da obra adulterada. por sua própria editora. E isso faz parte do quadro de cataclismos morais que os Espíritos Superiores anunciaram a Kardec. de místicos retrógrados. Nenhum es- pírita consciente do valor e do significado real da Doutrina Espíri- ta pode cruzar os braços e calar a boca diante dessa calamidade. incapazes de compreender a própria doutrina que esposam. em 1974. na adulteração das obras doutrinárias. 4 O autor se refere ao episódio da adulteração de O Evangelho segundo o Espiritismo.E. não mais apoiada no bom senso de Kardec. Estamos reduzi- dos. perante os homens de cultura. o sr. mas aos anjos. Isso nos prova a sua virulência extre- ma.J. A própria Federação Espírita do Estado4 foi devastada pelos vírus implacáveis. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 67 A adulteração das consciências projetou-se. não mais dirigida aos homens. É contra essa ameaça que temos de nos levantar. sob o pretexto de tornar o livro atualizado. porém.) . à condição de uma súcia de ignorantes. (N. Essa vergonhosa tradução continua circulando em nossos dias.

Uns poucos aceitaram o seu ensino. os judeus pega- ram pedras para lhe atirar. E estavam face a face. onde ninguém poderia esconder-se facilmente. Ao que Jesus retrucou: “Em verda- de. que contrariava os seus dogmas. que as faculdades medi- únicas permitem aos médiuns de efeitos físicos desaparecerem parcial ou totalmente aos olhos dos outros. Por sinal que ele mesmo ensinou: “Tudo o que eu faça. apegados aos dogmas da sua seita e às prescrições da lei. depois. Porque estavam no pátio.J. vos digo que o que comete pecado é escravo do pecado”. discutindo. A verdade vos libertará O diálogo de Jesus com os judeus. o ponto central do diálogo com os judeus – certamente escribas e fariseus – é o momento em que Jesus disse aos que haviam acreditado nas suas palavras: “Conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. O Espiritismo provaria. Mas. É evidente que Jesus serviu-se das suas faculdades paranormais. quem estava pecando era Jesus. O auditório estava dividido. “Jesus ocultou-se”. mas a maioria o rejeitou. Para os judeus formalistas. E foi por isso que muitos lhe gritaram: “Somos descendentes de Abraão e nunca fomos escravos de ninguém”. Mas. a Ciência o confirma. Na verdade. . do Evangelho de João. segundo escreve João: “Jesus encobriu-se e saiu do Templo”. hoje. no Templo de Jerusalém. acabou numa tentativa de lapidação. que viola- va as regras sagradas para ministrar novos ensinos. Na tradução de Almeida. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 68 25. Indignados com a verdade cristã. vós também podeis fazer”. Jesus desapareceu diante deles. do capítulo oitavo. primeiro dialogando e. para ocultar-se aos olhos dos adversários. dos seus poderes mediúnicos. relatado nos versículos 21 a 57. lugar aberto e amplo. A verdade. mais tarde e.

não há salva- ção”. É por isso que o Espiritismo – doutrina livre dos prejuízos do espírito de sistema – não tem como lema a expressão arrogante: “Fora da verdade. depois. estão de olhos e ouvidos abertos para a Verdade. não há salvação”. nas Artes. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 69 para eles. a expressão humilde: “Fora da caridade. É assim na Religião. não têm olhos para a verdade. por isso mesmo. . As- sim como Deus não faz acepção de pessoas. porque o Bem é o próprio Deus manifestado entre os homens – e só Deus possui a Verdade. a Caridade não sepa- ra os homens e não atira pedras contra os que seguem por outro caminho. Jesus lhes aparecia como um herege e. Os que são caridosos.J. a interpretações convencionais. na Ciência. enchem a cabeça de mistérios e absurdos e. a precei- tos. sim. quando ela se revela na palavra dos emissários divinos. A História está cheia de epi- sódios dessa natureza. mas. Os homens se apegam a fórmulas. em todos os setores do conhecimento. era a interpretação farisaica das Escrituras. chamaram-no de samaritano e possesso do demônio. na Filosofia. amantes do Bem.

do que a sua intensiva participação nas comemorações do centenário. Embora o advento do Espiritismo nos pareça um fato específico do nosso mundo. as seguintes frases: “Um século de trabalho. as páginas deste livro”. E o que é mais im- portante: esse fato tem tanta significação para nós. também as suas comemorações no outro lado da vida. Descrições da vida espiritual nas zonas inferiores do espaço Regiões em que os espíritos continuam apegados às formas da vida material – “Ação e Reação”.J. André Luz. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 70 26. Para contribuir nas homenagens ao memorá- vel acontecimento. Uma prova concreta dessa partici- pação acaba de ser dada pela publicação de mais um livro psico- grafado por Francisco Cândido Xavier. que o grande aconte- cimento despertou entusiasmos. portanto. é uma contribui- . Como se vê. O primeiro centenário do Espiritismo teve. de André Luiz. de renovação e de luz. Todos os que militam no movimento espírita sabem que os Espíritos participam ativamente dos trabalhos doutrinários. grafou. Ação e Reação. pois a doutrina veio para orientar os homens encarnados. Nada mais natural. apegados à densidade da matéria grosseira. a verdade é que esse fato se refere também aos planos espirituais. Não foi apenas em nosso plano material. novo livro de André Luz. quanto para os Espíritos. livro que traz no prefácio de Emmanuel. uma contribuição dos espíritos para as comemorações do centenário. que a Federação Espírita Brasileira acaba de publicar. neste reverso da vida em que nos arrastamos.

quase constante em torno do célebre convento encravado nos desfiladeiros. destinada à preparação das criaturas para a espiritualidade superior. temos a descrição pormenorizada de uma cidade espiritual. ergue-se um conjunto arquitetônico que oferece asilo. ao remorso e a todas as formas de sofrimento espiritual. entre a Suíça e a Itália. Em Ação e Reação os fatos se passam. aos Espíritos que começaram a se arrepen- der de seus erros. que descem às zonas sombrias ou à própria face da terra para trazerem socorro às criaturas entregues ao desespero. esbrave- jam e gemem. também. regi- ões purgatoriais ou infernais . Em meio a uma região aparentemente abandonada. Mensageiros são os Espíritos superio- res. conforto e cura aos que se puseram em condições de ser socorridos. primeiro volume da série. Os livros de André Luiz. “O estabelecimento – diz André Luiz – situado nas regiões in- feriores. a que se refere Dante. Em Os Mensageiros. ou seja. à angústia. E que exce- lente contribuição! O título é suficiente para indicar o conteúdo. numa zona espiritual densamente carregada de influências materiais. a descrição dantesca das zonas de sofrimento. choram. com a diferença de que a neve. que já constituem volumosa cole- ção. em que as “almas brutas e bravas”. através de exemplos colhidos diretamente nas zonas som- brias em que vivem os espíritos sofredores. em zona castigada por natureza hostil.como queiram –. por meio de relatos de episódios vividos nos planos espirituais. era bem uma espécie de Mosteiro São Bernardo. Em Nosso Lar. André Luiz faz uma ampla exposição do problema de ação e reação. em que se arras- tam as almas dos que não souberam compreender as oportunida- des da encarnação terrena. perdidas nas sombras e resgatadas pela ventania de suas próprias iniqüidades. era ali substituída pela som- . valem por um verdadeiro trabalho de ilustração dos princí- pios espíritas.J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 71 ção espiritual para as comemorações do centenário. rugem.

ainda demasiado apegados às formas da vida material. não conseguiram “libertar-se em espírito”. às zonas inferiores. André Luiz se refere. como se tocada por ventania incessante. Há quem não admita a existência de coisas tão concretas no plano espiritual. . executam os seus trabalhos e realizam as suas construções. prestando sua assistência caridosa aos irmãos que se transviaram nas sendas egoístas da vida terrena. tudo isso pode parecer ilusório. pouco provável. que. em Ação e Reação. compreendem bem as descrições de André Luiz. se adensava ao redor da institui- ção. Mas os que sabem que os Espíritos não são mais do que homens desencarnados e que. aquelas em que os Espíritos. É edificante ver.” Para os que não conhecem os princípios da Doutrina Espírita e não estão familiarizados com descrições das zonas espirituais mais próximas da crosta terrestre. naquela hora. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 72 bra espessa. como os ho- mens terrenos. como os Espíritos Superiores trabalham nessas regiões. imaginário.J. vivem a sua vida. porém.

pelo fato. Não é. O Espiritismo. entre os séculos XIX e XX. estratificada no tempo. e que os espíritas devem evitar toda confusão entre ele e o Espiri- tismo. mesmo. por implicar a volta aos seus princípios fundamentais. e não suficientemente estudado. Nunca será demais insistirmos na afirmação de que o Cristia- nismo é um processo histórico ainda em desenvolvimento. Ao dizer isso. os . ainda. Ainda há pouco. de admirar que. A maior parte de tudo quanto se tem escrito sobre esse processo não vai além do seu aspecto formal. o autor não refutava a verdade cristã. Um estudo em profundidade sobre o Cristianismo teria de pene- trar o seu espírito. Estudo espírita do processo de desenvolvimento do Cristianismo Dos ensinos de Jesus até os nossos dias – A parábola do semeador e a sua aplicação histórica –O que disse Jesus à mulher samaritana. para uma revisão dos estudos sobre esse processo e sua conseqüente ampli- ação. assim mesmo. por breves momentos. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 73 27. mesmo entre os espíritas. Em geral. sob os nossos olhos. escrevia um autor espírita que o Cristianis- mo representa apenas uma tradição morta. é a grande oportunidade que surge. mas essa penetração só tem sido possível em raras ocasiões e. apa- reçam os que se mostram inseguros nesse terreno. pois. veda-nos a sua com- preensão real e profunda. O próprio desenrolar do processo. de representar a fase mais recente do desenvolvimento histórico do Cristianismo e. os estudiosos se inclinam por uma solução mais rápida do problema: a distinção artificial e forçada entre Cristianismo e Espiritismo.J.

O erro desse autor decorre da premissa falsa de que o Consolador pode ser “outra coisa” que não o Cristianismo. em muitos sentidos. a continuidade e o restabelecimento do Cristianismo em espírito e verdade. Pelo contrário. . como este o foi do Judaísmo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 74 princípios evangélicos. entretanto. contrário ao do cristianismo. entre o Cristianismo e o Espiritismo não existe esse antagonismo. Sim. a negarem a unidade da linha evolutiva do Cristianismo. uma sucessão muito mais complexa de fases evolutivas do que todos os demais processos que conhecemos. ao longo dos séculos. por isso mesmo. Essa complexidade leva os estudio- sos. ou seja. O espírito do Judaísmo era. que realmente carac- terizam o ensino evangélico.J. pois se aceitarmos a promessa do Conso- lador. no desejo natural de simplificá-la. Todos os princípios fundamentais do Cristianismo. não representa uma quebra no desenvolvimento do processo histórico do Cristia- nismo. Mas. A verdade é que o Cristianis- mo. o Espiritismo é o cumpri- mento da promessa evangélica do Consolador. O fato de ter havido essa mistura. estão presentes no Espiritismo. para o seu desenvolvimento. deve ser separado do Cristianismo. o que existe é a mais perfeita unidade espiritual. que a promessa do Consolador já encerrava a previsão dessa mistura. Para ele. E tanto não representa. do qual se originou. mas tão-somente o processo histórico conhecido por Cristianismo. exige. E as únicas diferenças entre o que conhecemos por tradição cristã e o que o Espiritismo ensina decorrem dos elementos estranhos que se misturaram àquela tradição. Entre o Judaísmo e o Cristianismo havia pouco mais que a li- gação profética do advento do Messias. temos de aceitar também o que ela representa. como um processo de transformação substancial do homem e do mundo. O rompi- mento entre os dois se fazia inevitável e necessário. mas.

integrando-se no seu corpo. mas “em espírito e verdade”. Todavia. O Espiritismo procede da tradição cristã. ao nosso tempo. Jesus a desenvolveu até as últimas conseqüências. Mas. Venci- das essas condições. assim como um pé de trigo é com- pletamente diferente da semente de que proveio. de se desfazer na terra. O Cristianismo segue exatamente essa linha de desenvolvimento que podemos acompanhar no crescimento do trigo. o Cristianismo chega. germinaram como uma semeadura de trigo. assim o corpo do Cristianismo se diferenciou profundamente dos ensinos que o originaram. surgem os grãos perfeitamente semelhantes àqueles que foram plantados.J. As condições históricas que o Cristianismo teve de enfrentar. esses ensinos tiveram de “mor- rer”. quando o trigal chega ao termo do seu desenvolvi- mento. na parábo- la do semeador. lançados à terra dos corações e das consciências. àque- la fase anunciada por Jesus à mulher samaritana. Quem não se lembra das palavras de Jesus a respeito? Pois é assim que vemos. para se desenvolver. quando se referiu à necessidade de que o grão de trigo “morra” na terra. absorveram os elementos do solo e do ar. Mas. Os ensinos de Jesus. assemelham- se às condições mesológicas em que o trigo se desenvolve. destas. para isso. brotaram como hastes frágeis e tenras (a igreja primitiva) e cresceram. para que houvesse germinação. adquirindo volume e força. por fim. por mais que os grãos sejam diferentes da haste que os gerou. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 75 A melhor maneira de compreendermos o desenvolvimento do Cristianismo é a que nos oferece o próprio Evangelho. da mesma manei- ra que o trigo procede do trigal. E. no próprio Evangelho. em que Deus não será adorado no templo de Jerusalém. começa a dar flores que. se transformaram em espigas e. a melhor e mais perfeita descrição do processo histórico do Cristia- nismo. para germinar. Depois. . nem no Monte Garasin.

sobre questões políticas. E à maneira do que já fizemos nos anos anteriores. Ainda agora. Revela. Muitos confrades acham que os espíritos não podem e nem devem ficar alheios ao movimento político. não é de estranhar que alguns amigos nos interpelem a respeito do assunto. não temos dúvida em declarar que continuamos firmemente “anti- eleitoreiros”. em vez de cartaz de propaganda Posição dos espíritas em face das disputas eleitorais – As chamadas “candidaturas espíritas” – Papel do espírita na política – O que ensinam os fatos e as experiências. Alguns chega- ram. uma ambição eleitoral que vai um pouco além do âmbito puramente espírita. Às vésperas de pleitos eleitorais começam a aparecer as can- didaturas espíritas. Luz interna a clarear atitudes. que se realizou nesta capital. Diante de tudo isso. acaba de aparecer uma Liga Eleitoral Espiritualista. a pensar na organização de movimentos espíritas com fins políticos e. assumi- mos posição contrária à tese do confrade Eurípedes de Castro. no II Congresso Brasileiro de Jornalis- tas e Escritores Espíritas5. que não se con- 5 Esse congresso foi realizado em 1952 (N. com isso. assim como aparecem as de outras correntes religiosas. mesmo. É curioso que essa liga se chame “espiritualis- ta”. mais ou menos nos moldes da Liga Eleitoral Católica.J.E.) . a sua tarefa específica. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 76 28. Porque entendemos que o Espiritismo tem a sua missão própria. no Rio de Janeiro. em outras vésperas de eleições.

ou quando nada. conquistando eleitores nos meios doutriná- rios. e conseguiram exce- lentes resultados? Uns. também. A experiência nos tem provado a exatidão desse ponto de vis- ta. pelo contrário. Não queremos dizer que o Espiritismo nada tenha com a polí- tica. quantos espíritas conscientes. a sua função é a luz que ilumina o panorama político e. tendo escrúpulo em atirar o Espiritismo na fogueira política. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 77 funde nem deve confundir-se com a tarefa das organizações polí- ticas. de hoste a se infiltrar no mesmo. Fora disso. a firmeza de seus princípios. Pelo contrário. Através dessa luta é que poderemos contribuir para a elevação do nível político. Temos de lutar pelo esclareci- mento dos corações e das consciências. depois. As criaturas esclare- cidas e orientadas pelo Espiritismo. No entanto. para si mesmos e para o mo- vimento? Por outro lado. atirando o Espiritismo no caldeirão das lutas eleitorais. não. evitando misturar uma coisa e outra. chamadas para as lutas políti- cas. pelas experiências.J. fizeram política. entendemos que a sua missão universal a- brange. pouco zelo pelo movimento doutrinário. Outros. para se perderem depois de eleitos. esse plano das atividades humanas. pela orientação das almas no caminho da verdade. foram mais capazes de manter. Parece demonstrado pelos fatos. Quantos candidatos-espíritas surgiram em eleições passadas. zelosos da pureza doutrinária. levarão até elas a luz dos princípios doutrinários. . candidatando-se como simples cidadãos. evitando confusões. não vemos senão eleitoralismo à sombra da doutrina. de acordo com a própria vocação. aca- baram acomodados na carreira política. que o en- volvimento do Espiritismo em política revela pouco amor à dou- trina. apresentando-se indevidamente como candidatos-espíritas. no torvelinho das disputas parlamentares. No dia em que arregimentarmos os espíritas para a política estaremos ameaçando a pureza e a integri- dade do movimento doutrinário.

na defesa de suas inten- ções ou ambições pessoais. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 78 pouco discernimento por parte dos chamados “candidatos- espíritas”. Mas. O Espiri- tismo lhe servirá de guia. parece-nos de bom alvitre que os eleitores espíritas se precavenham contra os que se apresentam como “candidatos- espíritas”.J. O verdadeiro espírita. o movimen- to espírita não é um movimento eleitoral. por este ou aquele partido. de acordo com as suas preferências. . contrários às impropriamente chamadas “candi- daturas-espíritas”. o faz como cidadão. Somos. Candidatando-se. sem o menor receio de exporem o Espiritismo e o movimento doutrinário às lutas políticas. eivadas de interesses mesquinhos e transitórios. pois. num mundo onde os homens ainda não atingiram o plano evolutivo em que a política se transforma em atividade fraterna. O Espiritismo não tem candidatos. mas não de isca eleitoral. não explora a sua posição religiosa para fins eleitorais. de luz interna a clarear-lhe as atitudes e deliberações. Porque ele sabe que o Espiritismo deve pairar acima das tricas e futricas das agitações políticas. Isso não impede que os espíritas se candidatem e que eleitores espíritas prefiram votar em espíritas. plenamente consciente de suas responsabilidades doutrinárias.

um neologismo da língua francesa. A criança que nasceu em Lyon. para o cumprimento de sua tarefa – As pesquisas psíquicas de ordem científica. na França. só existiam os fenômenos e interpretações diversas dos mesmos. Preferiu a pedagogia. largamente adotadas nos cursos franceses. numa família tradicional de magistrados franceses. não seguiu a carreira da famí- lia. e por numerosas obras didáticas. criando para isso uma palavra especial. Esse livro. aliás. na cidade de Lyon. tornou-se a pedra angular do Espiritismo. que a doutrina começou a existir. em 1854 e. Estudou medicina. a obra fundamental da doutrina. antes que o Espiritismo surgisse no mundo. Kardec estruturou o Espiritismo e deu-lhe um nome. Foi a partir desse livro.J. por assinalar o nascimento de Allan Kardec. que logo mais era traduzido para todas as . Importância da obra de Kardec e sua significação no momento Aniversário do nascimento do codificador – Meio século de preparação. Denizard Rivail somente co- meçou a se interessar pelos fenômenos espíritas aos cinqüenta anos de idade. recebeu o nome de Hippolyte Léon Denizard Rivail e. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 79 29. Antes dele. somente em 1857. mas também não seguiu essa carreira. no ano de 1804. em que se destacou como discípulo de Pestalozzi. É curioso notar-se que o prof. ao contrário dos seus ascendentes. Meio século correu sobre essa data. em nossos dias. publicou o primeiro livro doutrinário. A data de 3 de outubro é comemorada pelos espíritas em todo o mundo. ou seja. O Livro dos Espíritos.

afirmando que Kardec só na velhice se lembrou dos fatos espíritas. na ciência. Wallace e outros. De lado a lado havia grandes interesses em jogo. a Kardec e sua obra. portanto. que a divulgou pela primeira vez ao publicar o referido livro. Denizard Rivail estudou. que até hoje continua a . a “nova superstição”. Durante cinqüenta anos. desde muito jovem. Por outro lado. como William Crookes e Alfred Russel Wallace. o prof. para compreender a natureza dos fenômenos espíritas. Kardec contrariava numerosos dog- mas religiosos e abalava princípios fundamentais das ciências. assim como na esfera religiosa houve sacerdotes e ministros que preferiram romper com suas igrejas a negar a evidência dos fatos espíritas. As duas reações principais parti- ram da esfera religiosa e da esfera científica. assim também. Crookes. esquecem-se de que as grandes tarefas exigem amadurecimento dos seus responsáveis. a fim de liquidarem. As pessoas que criticam esse fato. portanto. seriam convocados a se pronunciar a respeito dos fenômenos espíritas. a verdade. honestamente. os seus estudos de medicina e de pedagogia muito contribuíram para a posição objetiva e serena que tomou diante da fenomenologia espírita. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 80 línguas. A obra de Kardec provocou reações imediatas em vários seto- res do mundo cultural da época. magnetis- mo e hipnotismo. Também Jesus viveu trinta anos na obscuridade. mais tarde. que muito lhe serviram. A palavra Espiritismo é uma criação de Kardec. Homens. Essa atitude corajosa de vários luminares da ciência e da reli- gião não foi suficiente para impedir a onda de ataques ao Espiri- tismo e. em nenhum momen- to. não se deixando levar por conclusões apressadas. Mas. com a sua imensa autoridade científica. que só realizou nos três últimos anos de sua vida. Denizard Rivail preparou-se para o cumprimento da missão que lhe cabia na terra. aprofundando-se no conhecimento dessas maté- rias. preferiram.J. preparando-se para a pregação do Reino.

e o prof. o sucessor de Léon Denizard. No terreno da religião. que mais tarde seria dirigida mundialmente por um novo “leão”. de Oxford. E Kardec. de Joseph Rhine. é um dos expoentes na Inglaterra. ou seja. hoje admiti- das nos currículos universitários.J. apesar do materialismo dominante nos meios científicos. E. ainda. da chamada Ciência Psíquica Inglesa. Price. então. sua mulher. racionais. os princípios espíritas serão reconhecidos dentro de alguns anos pelos meios científicos mais adiantados. que não se apóia em dogmas metafísicos. H. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 81 rolar sobre o mundo. pelo muito que fez em favor da libertação espiritual do homem e da evolução do nosso planeta. de energia suficiente para enfrentar a luta. Rea- gem com energia diante de tudo aquilo que possa ameaçar-lhes a estrutura. de Charles Richet. por sua vez. já nesse tempo. após a sua morte. um sério investigador na Suécia. impôs a realidade dos fenômenos em que se apóia e determinou o aparecimento de disciplinas importantes. a sua obra constituía um sólido e grandioso monumento. terá o reconhecimento que o mundo lhe deve. uma doutrina vitoriosa. Bjorkhem. de Upsala. Mas o Espiritismo dispunha. impôs-se mundialmente como uma religião de bases científicas e. mas em princípios demonstráveis. na direção espiritual e intelectual do movimento doutri- nário. . e prosseguiu. e seus discípulos. As instituições humanas são dotadas do mesmo instinto de conservação que caracteriza os homens. por Léon Denis. como a Metapsíquica. Amèlie Boudet. a 31 de março de 1869. hoje. conhecido em toda a Terra. prosseguiram na luta. Mas. No terreno da ciência. Kardec fechou os olhos para a vida física. e a Parapsicologia. próximo aos 65 anos de idade. de que o prof. O Espiritismo é. Com o natural desenvolvimento dos estudos parapsicológicos ou. portanto.

a ques- tão se reduz às possibilidades materiais de aproximação e pouso de nossos instrumentos nos outros planetas. tudo se complica. a não ser os determinados pelo seu grau de evolução. jamais. Se pensarmos que os “corpos celestes” são divinos. nas condições físicas do nosso planeta. segundo ensina o Espiritis- mo. pelo homem. Os Espíritos disseram a Kardec que o planeta Júpiter. tentaria enviar criaturas humanas para um mundo em estado gasoso ou de ignição. Não há limites para o homem no Universo. Mas Vênus se torna inacessível. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 82 30. Mas se pensarmos. As investigações astronômicas atuais parecem confirmar. depende da nossa maneira de encarar o Universo. Estamos diante de um limite para as nossas ambições. A teoria espírita da pluralidade dos mundos habitados é bas- tante coerente e concorda com as teorias científicas sobre a diver- sidade dos “estados” da matéria no Cormos. tem uma constituição mais sutil que a nossa. essa indicação. Se assim for. apesar de pertencer ao nosso plano material. O Espiritismo ensina que há diferentes graus de densidade fí- sica na constituição dos mundos. só pode atingir outro mundo que esteja no mesmo plano material do nosso. como pensavam os antigos. mas esse limite poderá ser superado pela nossa evolu- ção no futuro. em virtude de suas condições atmosféricas e de suas . é evidente que uma nave espacial terrena terá dificuldades ou estará impossibilitada de pousar em Júpiter. por exemplo. O homem da Terra. que a Terra é um corpo celeste como qualquer outro. Marte é considerado de constituição física semelhante à da Terra.J. Nenhum cientista. Conquista de Marte O problema da conquista de outros planetas. de certa maneira. como Vênus.

se é inferior ou superior à da Terra. Kardec advertiu que não devemos tratar com os espíritos de assuntos que estejam fora dos objetivos conceptuais e moralizadores do Espiritismo. as coisas podem ser diferentes. mas não suportaria o seu “clima”. Mas sempre acentuou que não passavam de teorias e acrescentou que o Espiri- tismo não deve ir além dos seus objetivos. Kardec refere-se a teorias transmitidas por certos espíritos e que ele considerava lógicas. ao que parece. . é questão que o Espiritismo não resolve dou- trinariamente. Em marte.J. Basta ler com atenção os textos a respeito para que o assunto se esclareça. O homem pode atingir Vênus e pousar no planeta. que são espirituais e não materiais. aceitáveis. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 83 extremas variações de calor. No tocante à condição evolutiva de Marte. Aliás.

de uma tei- mosia facilmente explicável por uma lei descoberta pela própria ciência moderna: a lei da inércia. O que hoje se verifica. Tendo se acostumado a pensar de maneira “positiva”.J. Sempre que tenho a oportunidade de conversar sobre Espiritismo com uma pessoa dotada de cultura científica. sem intuito ofensivo. Os ho- mens avançados. sentiam-se poucos e fracos. Não sei como o sr. “A comprovação científica dos fenômenos espíritas parece cada vez mais difícil. para negar a possibilidade da sobrevivência. Poderíamos dizer. Desenvolve-se a ciência positiva nos rumos da concepção espiritual Explicação da atitude materialista . ocorria fenômeno semelhante. Ao findar-se a Idade Média. mas . De fato. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 84 31.A teimosia teológica da Idade Média e a teimosia científica de hoje – O espírito é a meta natural do desenvolvimento científico. Foi dificil- mente que a mentalidade científica se impôs. sinto-me desolado com a série de argumentos de que essas pessoas se utilizam. que defendiam a experiência científica contra o dogmatismo eclesiástico. vencendo a teimosia teológica. a obstinação materialista dos nossos meios culturais é qualquer coisa de espantar. entretanto. diante da avalancha de crentes e fanáticos dos meios culturais. pode alimentar tanta esperança na espiritualização da ciência”. não é mais do que a resistência da teimosia científica. mas em sentido contrário. Não passa. senão a muito custo. pois a ciência moderna tende cada vez mais a encarar esses fenômenos como de origem puramente material. os homens não conseguem afastar-se dessa maneira.

como fazem os tropeiros. Todo o edifício da ciência repousa no dogma da ordem universal. Por mais que os materialistas argumentem de “maneira cientí- fica”. do ponto de vista científico. Por outro lado. alegando os materialistas que a ciência explicará. numa fé. aos golpes de evidência dos fatos espíritas e aos raios de luz da doutrina espírita. a ciência mais positiva se baseia numa crença. E esta fé é tão indemonstrável. Por mais poderosa que seja uma fortaleza. Para tirá-los dessa nova posição é necessário que empreguemos o fogo e a paciência. é a meta natural do progresso científico. equivalente “positivo” do dogma metafísico da existência de Deus. mais tarde. Atitude seme- lhante ao do comerciante que diz: “Fiado. como a fé religiosa. a negação do espírito é sempre uma fuga à realidade. A reviravolta não será tão difícil. ela mesma se incumbiu de minar os próprios alicerces. nos fatos inexplicáveis. Quanto à paciência. Basta analisar estas coisas. Assim como a mentalidade teológica. é o que precisamos ter. quando arrombamos suas portas. só amanhã”. no caso da mentalidade materialista dominante na ciência. É graças a esse desenvolvimento que ela chegará ao espírito. E a previsão dos Espíritos vem se cumprindo de . ela fatalmente virá abaixo. para compreendermos que a espi- ritualização da ciência é tão inevitável quanto o seu próprio de- senvolvimento. apesar de tudo. o curioso é que ela mesma já abriu suas portas à realidade espiritual. Para começar. cultivada durante um milênio. queira ou não queira. há sempre um fundo movediço nessa argumentação.J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 85 apenas para maior exemplificação: “empacaram”. O fogo está aceso: as labare- das da evidência brilham por toda a parte. porque sendo o espírito a realidade última. E. cedeu aos golpes racionais da Renascença. se lhe minamos o alicerce. ela está prestes a cair. o que hoje não pode explicar. Por mais sólida que se apresente uma mura- lha. Os Espíritos disseram isso a Kar- dec há um século. assim também a mentalidade materialista cederá.

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 86

maneira inegável em nosso século, quando vemos a ciência obri-
gada a recorrer a um conceito energético do cosmos, diante da
desagregação da matéria, que se desfaz nas mãos dos cientistas
como um floco de neve. Que farão eles, daqui a pouco?

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 87

32.
Por um homem veio a ressurreição

A ressurreição de Jesus, que é hoje celebrada no mundo cris-
tão, foi sempre considerada, pelos céticos e materialistas, como
uma lenda de origem mitológica. Mas, o apóstolo Paulo, na sua
epístola aos coríntios, colocou o problema em termos naturais.
Jesus não ressuscitou de maneira excepcional, gozando de um
privilégio divino, mas de maneira natural, obedecendo à Lei da
ressurreição, que preside a todas as mortes na Terra.
Entre as várias afirmações de Paulo, nesse sentido, que en-
contramos na referida epístola, destaca-se a seguinte, por seu
sentido simbólico: “Visto que a morte veio por um homem, tam-
bém por um homem veio a ressurreição dos mortos” (Capítulo 15,
versículo 21). Paulo se refere a Adão, que na simbologia bíblica
deu à espécie humana a morte pelo pecado e a morte corporal. No
início, temos Adão, que nos deu a morte, mas no fim, temos outro
homem, Jesus Cristo, que nos traz a ressurreição.
Este sentido universal da ressurreição não foi compreendido
pelas religiões cristãs. Todas elas se confundiram com a idéia do
juízo final e firmaram o dogma da ressurreição do corpo. Nesse
caso, a ressurreição de Jesus se tornava uma exceção, um fato
sobrenatural. Paulo percebia essa confusão no seu tempo e já
advertia, como vemos nos versículos 35 a 49, do capítulo citado:
“Insensatos! O que semeias não nasce, se primeiro não morrer!”
Explica, então, a parábola do grão de trigo, declarando taxativa-
mente no versículo 42: “Pois assim, também, é a ressurreição dos
mortos. Semeia-se o corpo na corrupção, ressuscita na incorrup-
ção”. E, logo mais, no versículo 44, esclarece: “Semeia-se o corpo
natural, ressuscita o corpo espiritual. Se há corpo natural, há
também espiritual”.

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 88

Este ensino de Paulo já havia sido dado por Jesus, mas nin-
guém o entendera. Só depois de dezoito séculos e meio o Espiri-
tismo viria restabelecer a verdade ao ensinar que temos outro
corpo, o perispírito, corpo do espírito que, segundo Paulo, é o
corpo da ressurreição. Morremos, nosso corpo carnal é enterrado,
mas ressuscitamos, a seguir, no corpo espiritual. Jesus ensinou
essa lei natural por duas maneiras: explicando-a oralmente e,
dando mais tarde o exemplo vivo da sua morte e ressurreição.
Hoje, os próprios materialistas, através da Ciência, estão verifi-
cando essa verdade. Ainda agora, como noticiamos neste progra-
ma, os cientistas russos descobriram e puderam ver, através de
lentes especiais, o corpo espiritual do homem, a que deram o
nome de corpo bioplásmico. Os Tomés modernos da Ciência vão
tocar as chagas da Verdade. Resta ver se os Tomés das religiões
cristãs farão o mesmo ou continuarão presos aos seus dogmas.
A Páscoa é a Páscoa da Ressurreição Universal. Assim, como
a morte veio por Adão, a ressurreição veio por Jesus. Dois ho-
mens – não mitos nem deuses – dois homens de carne e osso,
colocados no princípio e no fim da Revelação, proclamam nas
Escrituras a verdade espírita que outro homem, Kardec, anunciou
aos tempos modernos: “Nascer, viver, morrer, renascer ainda e
progredir sempre, essa é a lei!”

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 89

33.
Duas meninas responderam
às perguntas do professor

E das respostas surgiu a bíblia de uma nova revelação
– Os espíritos escreviam por meio de uma cestinha,
com um lápis adaptado – As meninas Boudin e o Espiritismo.

Duas meninas, Julie e Caroline Boudin, de 14 e 16 anos de
idade, respectivamente, foram as médiuns de que o prof. Denizard
Rivail se serviu para elaborar a obra que publicaria com o título
de O Livro dos Espíritos, sob o pseudônimo de Allan Kardec.
Mas, o mais curioso é que essas meninas não trabalharam como
médiuns escreventes, no sentido que hoje atribuímos a essas
palavras. Trabalharam, antes, como médiuns de efeitos físicos,
pois não eram elas que escreviam, mas a cesta-de-bico, sobre a
qual tão-somente colocavam as mãos.
Os fenômenos espíritas tinham invadido o mundo, para sacu-
di-lo do torpor materialista em que ele mergulhava. As mesas
girantes haviam-se transformado num passa-tempo habitual das
rodas sociais. Ninguém atribuía grande importância a um fenôme-
no corriqueiro, a uma simples distração. Mas o prof. Denizard
Rivail era um espírito sério, investigador, acostumado a procurar
sempre o fundo das coisas, não se contentando apenas com as
aparências. Depois de se interessar pelo problema das mesas
girantes, passou a freqüentar o lar da família Boudin, onde as duas
meninas serviam de médiuns, nas reuniões que se faziam. Sua
presença modificou o teor das reuniões que, de brincalhonas e
galhofeiras, passaram a um elevado grau de seriedade.

por sua vez. partindo de informações do biógrafo Henri Sausse. outra menina. sub a suave pressão das mãos de duas meninas em transe. cosmologia. e que se movia escrevendo. Rivail comparecia às sessões com perguntas anotadas. Mas. Mais tarde. antes criticados pelos doutos. na sala de reuniões da família Boudin. Hoje. embora possuidor de boa cultura huma- nística.J. não foi apenas com as duas meninas que o prof. Lembremo-nos ainda de que muitos dos princípios desse livro. está provado que o Codificador. a srta. E estes. já são hoje aceitos pela ciência. E. O prof. Lembremo-nos de que as respostas dadas pela cesta iriam constituir a obra fundamental do Espiritismo. E. o prof. realmente. a con- selho dos próprios espíritos. interpelando uma pe- quena cesta-de-bico. As meninas não poderiam respondê-las. Perguntas sobre filosofia. As respostas eram lacôni- cas e precisas. . incentivavam-no à discussão. por meio da cesta-de-bico. esclarecidos. Rivail submeteu as respostas 6 Herculano acreditava que Kardec havia se formado em medicina. não fora formado em Medicina. mas gostava de examiná-las. pois não tinham maturidade mental para tanto e. debatê-las com os seus interlocutores invisíveis. também serviu-lhe de médium. um dos livros mais combatidos e discutidos do mundo. Revelavam a capacidade e a elevação intelectual de quem as dava. refutá- las. Estes. presa ao alto por um cordel. mas. que ia propondo aos espíritos. além disso. psicologia. Rivail trabalhou. cuja estrutura doutrinária permanece intacta através dos anos. a cultura suficiente. compreenderemos a impor- tância das reuniões mediúnicas da família Boudin. porém. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 90 O prof. médico6 e pedago- go. Japhet. teologia. biologia. na preparação da sua obra. então. Rivail não aceitava pura e simplesmente as respostas. ética. em hipóte- se alguma. Pensemos um pouco na grandeza e no mistério desta cena: um dos homens mais cultos do século passado. Queriam que os assuntos fossem. muito menos. passavam a respondê-las.

e sob o rigoroso controle do bom senso e da cultura do prof. com a participação de oradores do Rio e Nite- rói. como Pereira Guedes e Carlos Imbassahy. sempre. por meio de ditado dos Espíritos Superiores. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 91 à verificação de outros médiuns. a 18 de abril de 1857. examinava os argumentos contrários e só as admitia ao ver-se vencido no campo raso da lógica. mas antecipou ainda outras que. compreenden- do e amando esse grande livro. que encerra a Doutrina dos Espíritos. No mundo inteiro. com o maior rigor. 7 1959 (N. o Clube dos Jornalistas Espíritas promoveu uma semana de confe- rências a respeito. Esse livro.E.) . completou cento e dois anos de sua publicação. somente mais tarde conseguire- mos atingir. O Livro dos Espíritos antecipou muitas conquistas do pensamento que já agora estão realizadas. mensagem de amor do mundo espiritual às criaturas terrenas. Rivail. Felizes os que podem viver no futuro.J. através de médiuns da mais admirável pureza. Publicado. O professor as discutia com os espíritos. assim. controlando-as. Muitas respostas contrariavam as suas opiniões. a 18 do corrente7. os espíritas comemoraram a efeméride. há um século. O livro foi escrito. Em São Paulo.

a volta do homem à vida primitiva e o aparecimento da Jerusalém Celeste. para se aproximarem do rebanho incauto. a influência negativa de mais um livro pseudo-espírita. A opinião desses irmãos coincide com a nossa. Sua finalidade. Trata-se do livro O Terceiro Milênio.) . temos uma seqüência de profecias ingênuas. em estilo trágico. Não é André Luiz quem o apresenta. atribuído ao espírito de Irmão X. O Brasil figura como o país eleito. com a destruição total da civilização. psicografado por Aiçor Fayad. tipo de ficção científica.J. 8 Ver o livro Visão Espírita da Bíblia. enfrentar esse problema. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 92 34. nas suas próprias instituições. substituindo a nação eleita dos antigos judeus.E. E à maneira do que já fizemos com os livros de Ramatis. a instâncias de confrades que sentem. e lançado pela Editora Nova Era. mas um “pseu- do-André Luiz”. É tudo tão ingênuo. estamos diante da mistificação. esse livro foi analisado por outros confrades. nesse livro. como a dos livros de Ramatis. Uma fábula do III Milênio divulgada no meio espírita Desejávamos iniciar. de maneira criteriosa. Mas um problema urgente nos obriga a protelar esse início. hoje. Desde o prefácio. que vem se infiltrando em nosso meio. Precisamos. A seguir. desta capital. a que sucede a descrição de um utópico paraíso terreno. Os lobos vestem peles de ovelha. A opinião a res- peito não é apenas nossa. aqui estamos para advertir aos confrades contra uma obra de mistificação me- diúnica. Como no caso de Ramatis. Uma espécie de apoca- lipse moderno. (N. que pode parecer inofensivo. a série de estudos bíblicos8 que prometemos domingo passado. desta mesma Editora. Mas não é.

é ridicularizar a Doutrina e afastar os confrades do estudo sério. de utopias. também. Há muita moeda falsa circulando como boa. . Já no Cristianismo Primitivo foi assim. o da vaidade pessoal. de Osvaldo Polidoro e outros que circulam no meio espírita. pagando muito incenso para médiuns jactanciosos. ainda. Podemos lembrar a advertência de Paulo em suas epístolas. quanto ao interesse pessoal que leva os médiuns a servirem de instrumentos para a mistificação. Lembremos.J. Tenhamos cuidado com as obras mediúnicas. que transforma bons médiuns em mistificado- res. contra o esquecimento do Evangelho para a aceitação de fábulas. de mentiras fascinantes. no item 306 de O Livro dos Médiuns. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 93 de Roustaing. do ganho material. mas. a advertência de Kardec. em prejuízo da Doutrina. Não é apenas o interesse do dinheiro.

Foi criada por Allan Kardec para designar a Doutrina dos Espíritos (que não era dele. não é divina. que deve ser respeitado. Os que discordam desse livro. O Espiritismo reconhece a todas as criaturas hu- manas o direito de pensar como quiserem. assim tra- duzida: “Deus é o único e Polidoro é o seu profeta”. Se fundassem apenas o Divinismo. por terem dado aos homens uma doutrina que. Esse profeta. não são espíritas e não podem usar a palavra Espiritismo para a nova doutrina que pretendem criar. que são os Espíritos Superiores. O que é divinismo Um grupo de espíritas paulistanos. discordando dos Espíritos que o dita- ram e. Segundo afirmam os teóricos da nova doutrina. Como Kardec não se dizia ministro de Deus na Terra. O mais estranho é que Deus venha agora condenar os seus mensageiros do século passado. resolveu fundar o Espiri- tismo Divinista. Mas o Espiritismo também tem o seu direito. E vemos nesse livro que Deus não fala dire- . Porque. Mas acontece que esse Deus único só foi até hoje explicado aos homens pelo Livro dos Espíritos. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 94 35. também. e preferia ouvir os Espíritos Superiores.J. Kardec) e essa doutrina é a que está em O Livro dos Espíritos. Aplica-se ao Divinismo a conhecida frase islâmica. as “man- cadas” de Kardec são. é uma Doutrina de Deus. do Espiritismo. não teríamos nada com isso. o Espiritismo Divinista é o contrário do Espiritismo. desses espíritos. portanto. segundo os divinistas. por sua vez. A palavra Espiritismo tem uma significação própria. que vem diretamente do Pai Supremo para o seu profeta Osvaldo Polidoro. ao invés de ser uma Doutrina dos Espíritos. se afirma reencarnação de Kardec e ameaça publicar um livro mostrando “centenas de mancadas” da sua encarnação anterior.

Precisamos compreender isso e orar pelos divinistas e pelo seu profeta. O Espiritismo é a síntese dessas duas formas de revelação. Basta uma leitura do pri- meiro capítulo de O Evangelho segundo o Espiritismo e o primei- ro capítulo de A Gênese para que todo esse problema seja esclare- cido. Devemos. a descoberta das leis de Deus na matéria. usam uma linguagem serena e elevada. Amadurecendo intelectualmente. acusam o Espi- ritismo de simplesmente humano e pretendem ser os novos arau- tos da Divindade na Terra. portador de uma nova revelação pessoal e local. divina e humana. . se conseguisse pegar. não tendo lido nenhum deles. ainda. o Divinismo. Kardec esclareceu que a Revelação Espírita veio no momento em que a Humanidade amadureceu para compreender a verdade espiritual. pertencem ao passado. por sua vez. assinalar que Kardec explicou bem clara- mente o seguinte: A Revelação Espírita é. num país. Assim. Deus fala pelos seus verdadeiros ministros. ao mesmo tempo. dadas por um determinado profeta. porque estes não têm capacidade para ouvi- lo. não é possível admitir-se a divindade dos divinistas. Essa é uma revela- ção humana. quer da Erraticidade. a Humanidade fez. Como se vê. Estes Espíritos. As revelações divinas. Simples falta de conhecimento do Espiritismo e de um pouco de humanidade para afastar a fascina- ção das trevas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 95 tamente aos homens. Mas os divinistas querem voltar ao passado e fazer de Polidoro um novo profeta individual. através das Ciências terre- nas. muito diferente do linguajar grosseiro e agressi- vo dos falsos profetas. representaria uma volta da Humanidade aos tempos obscurantistas do “Crê ou morre”.J. encerrada nas alegorias do passado. que são os Espíri- tos Superiores. Os divinistas. É divina porque provém dos Espíritos e é huma- na porque foi elaborada pelos homens. e para um determinado povo. quer da Terra.

porque era a Ciência do Espírito que surgiu para explicar e escla- recer os supostos mistérios. está sujeito a servir de instrumento a qualquer espírito mistificado e se apresen- tar como mestre. Nosso meio espírita está cheio de criaturas de boa vontade. é uma conseqüência da Ciência Espírita. encarnados e desencarnados. A III Revelação não nasceu da pregação de um messias ou profeta. nada mais são do que indivíduos pretensiosos. reencarnação de Kardec e outras tolices dessa ordem.J. como religião. mas da pesquisa científica dos fenômenos mediúnicos. empenha- dos em semear joio na seara. O beato espírita não é espírita. ingênuas e bondosas. fazem mais mal ao Espiritismo do que os adversários . que se interessaram pelo assunto – o problema espi- ritual escapou das mãos dos teólogos e dos místicos. Por isso. livres da vaidade. esses elementos. quando se fanatizam. do suposto mundo sobrenatural das religiões. Como Kardec demonstrou. extremamente vaidosos. Kardec e a ciência espírita O Espiritismo. Kardec se recusou a chamar o Espiritismo de religião e o chamou de auxiliar das religiões. missionário. Os reformadores da doutrina. Provada a sobrevivência da alma após a morte – cientificamente provada por Kardec e pelos grandes cientistas do século passado e deste século. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 96 36. nem por isso. não se liberta das superstições e dos erros do seu passado religioso. já no seu tempo. Quem não compreender isso não está apto a ensinar Espiri- tismo a ninguém. pois não conhece a doutrina e não estuda. Pela sua crença ingênua. do campo religioso tradicional. que se deixaram levar por espíritos trevosos. mas.

maus aprendizes que. mas. A maioria dos espíritas estudiosos não conseguiu ainda penetrar na essência dessa obra. Quem não ler e estudar essas obras com humildade e von- tade legítima de aprender. e muitos doutores andam por aí a pregar tolices em nome de um suposto progresso do Espiritismo. biólogos. mas para todos os que tenham um pouco de bom senso e de humildade. que não foi escrita para um século. para termos uma idéia da sua complexidade. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 97 da doutrina. geralmente. Só agora os físicos. para muitos séculos. Infeliz daquele que pretende ser o mestre de todos. químicos. Precisamos pensar nisso quando lermos um artigo ou um livro de pretensos mestres que se dizem descobridores da . é o cego do Evangelho que conduz outros cegos ao barranco. Precisamos ter muito cuidado para não entrarmos nessas filas de cegos ou nos colocarmos na posição ridícula de cego a guiar cegos. Basta lembrarmos que a Ciência Espírita só apareceu depois do desenvolvimento das outras Ciências. quando pretendem ensinar. pois há mistificadores sá- bios nas trevas. deturpam a doutrina.J. O Espiritismo não é doutrina feita para sábios. Porque a ridicularizam. Os que realmente estudam e compreendem a doutrina sentem-se humildes diante da sua grandeza e não pretendem passar por mestres. há mais de um século. reduzem o Espiritismo a uma seita de beatos ignorantes. Na verdade. de sua suposta atualização. psicólogos. Os sábios também estão sujeitos à mistificação. E. São colegas mais aplicados que apenas se esforçam para ajudar os companheiros de escola no aprendizado necessário. A obra de Kardec ainda não foi suficientemente estudada. não conhece o Espiritismo. Todos somos aprendizes. todos. As obras de Kardec são a única fonte verdadeira do saber es- pírita. sociólogos e parapsicólogos estão descobrindo que os seus enganos já foram percebidos por Kardec. Ninguém é professor de Espiritismo. botâ- nicos.

Como em todas as Ciências. desde o pobre Roustaing do seu tempo. caluniado e insultado. assim mesmo. continuador da Pedagogia de Pestalozzi. pedagogo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 98 pólvora. nem a glória eterna. mas os próprios espíritas ainda não entenderam o ensino. Não lutava para conquistar as glórias terrenas. Substi- tuiu o seu próprio nome. Não se trata da humildade religiosa. que vivera no mundo celta. que nos leva a tudo aceitar de cabeça baixa. mestre em Ciências. respondendo sempre aos seus agressores gratuitos com palavras de esclarecimento e convites ao estudo e à pesquisa em favor da Humanidade. com muitos preconceitos.J. da humildade honesta da criatura que conhece os seus limites e não quer passar de pato a ganso. de homem que buscava o saber. mas é ignorante em Espiritismo. na Ciência Espírita a primeira condi- ção para aprendê-la é a humildade. nome de um druida desconhecido. com suas obras adotadas por essa Universidade. Porque só agora as Ciências estão começando a entrar no estudo e na pesquisa dos fenômenos espíritas e. médico. E. diretor de estudos na Universidade da Fran- ça. sabendo que nada sabia. conhecido pela sua prudência e rigor metodológico. louvado pelos sábios do seu tempo e. um grande sábio pode conhecer muito da sua especialidade. Viveu e morreu na pobreza. pesquisador científico. para obter- mos a glória eterna (o que revela contradição dessa humildade egoísta e ambiciosa). Ele era um sábio – filósofo. Que diferença entre ele e os seus pretensos reformadores. pelo pseudô- nimo de Allan Kardec. Da Ciência Espírita nasceu a Filosofia Espírita. o que mostra o quanto ainda estamos longe da apregoada superação de Kardec. O maior exemplo de estudo sério e humilde do Espiritismo nos foi dado por Kardec. mas para esclarecer os pro- blemas que até hoje aturdem os homens em todo o mundo. nas- ceu a Religião Espírita. desta. até os da . mas. Isto foi bem ensinado por Kardec. Como disse Kardec. de família ilustre e famosa. com tudo isso. entregou-se ao trabalho espírita com a modéstia socrática de simples aprendiz.

mais do que nunca. precisam ler e estudar as suas obras! . Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 99 atualidade. que.J.

publicado pela Cia. ou de macumba. Estudos históricos desautorizam confusões entre magia e Espiritismo Não existe o chamado “baixo espiritismo”. chegará fatal- mente à conclusão de que as práticas de macumba nada têm com o Espiritismo. Não obstante. e que alguns che- gam mesmo a classificar de “baixo-espiritismo”. Basta dizer que o Espiritismo é uma doutrina mo- derna. sobre o problema da macumba. da mistura de ritos africanos e ritos católicos. Quem se der ao trabalho de abrir um livro de estudo sociológico. Sincretismo Religioso Afro-brasileiro. uma e outra coisa. que surgiu na França em meados do século passado. entre todos os povos. Aquilo que entre nós se chama macumba. A facilidade com que certas pessoas. Todo o processo do sincretismo. o prof. é sim- plesmente de estarrecer. Aurélio Valente. Um dos estudos mais recente. para se compreender o absurdo da confusão que se costuma fazer. Aurélio Valente. e até mesmo órgãos da nossa imprensa. simples fenômeno de aculturação. dotadas de elevada cul- tura. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 100 37. verá que esta nada mais é do que uma mistura das crendices dos negros africanos com a religião católica.Séculos de distância entre as práticas de macumba e o aparecimento do Espiritismo. a respeito.J. é ali exposto de maneira precisa. de deuses negros com os santos da igreja. a que a doutrina está alheia . é o livro do prof. nada tem a ver com a doutrina espírita. Editorial Nacional. Qualquer pessoa que quiser estudar. como . confundem o Espiri- tismo com práticas de magia primitiva. com seriedade e isenção de ânimo. e que as práticas de magia primitiva datam de todos os tempos.

ou seja. A macumba apareceu no Brasil como o início do processo de aculturação. Mas. E. no aparecimento e no desenvolvimento das práticas de macumba em nosso país. Nem é admissível chamar-se “baixo-espiritismo” um processo que não tem nenhuma relação histórica com o Espiritismo. atribuir qualquer responsabilida- de ao Espiritismo. pelos negros africanos ou . é preciso distinguir. para substituir a palavra “macumba”. que não é o fenômeno mediúnico. A confusão. por ele codificada. Foi Kardec que a criou. mas toda uma doutrina filosófica. porque atribui esse nome aos processos mediúnicos dos negros. O que existe naquelas práticas é o fenômeno mediúnico primitivo. Nem mesmo a palavra “Espiritismo” existia antes disso. também se refere ao Espiritismo. e a transformação semântica das palavras “umbanda” e “quimbanda” já começava a realizar-se. de bases científicas e conseqüências religio- sas. a doutrina espírita. exatamente a 18 de abril de 1857. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 101 outros estudiosos. tem raízes na incompreensão do que seja Espiritismo. como se vê. ainda no século dezesseis. ainda aqui. de Allan Kardec. para designar a nova doutrina. esse fenômeno é aproveitado racionalmente e orientado através de um método. por desconhe- cerem o Espiritismo. como se vê. O mesmo se dá na medicina. na França. quando as práticas de macumba já estavam disseminadas pelo país. resultante da vinda dos primeiros escravos negros. surgiu. somente em meados do século dezenove.J. Não é possível. Os primeiros núcleos espíritas surgi- ram no Brasil nos fins do século passado. da manifestação de espíritos. também seman- ticamente transformada. em que recursos aplicados pelos índios. A relação que se pretende estabelecer entre as práticas afro- católicas e o Espiritismo decorre do fenômeno mediúnico. Mas vamos aos fatos históricos. Nossos sociólogos também cometem esse erro. No Espiritismo. com a publicação de O Livro dos Espíritos. e veremos que não há razão para tais confusões.

para evitarem o erro de misturar alhos com bugalhos.J. pois. na cura de certas doenças. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 102 pelo homem do povo. uma doutrina moderna com os fenômenos naturais por ela estuda- dos e interpretados. que as pessoas cultas procu- rem compreender a distinção existente entre Espiritismo e práticas primitivas. . são aproveitados cientificamente. É necessário.

em nossos dias. A última vitória O apóstolo Paulo afirmou que a última vitória cristã seria so- bre a morte. Era evidente que os homens não poderiam compreender de imedi- ato a sua posição e o interpretaram como mito e mago. os historiadores leigos do Cristianismo. na linha ideológica de Erasmo de Roterdã. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 103 38. deixando quatro de lado e aceitando apenas uma como essencial. o estranho rabi Galileu iniciou a maior e a mais profunda revolução da História. Vejamos os elementos que caracterizam o racionalismo de Je- sus. • rejeição ao código de leis do sacerdócio judaico. que marcou os próprios Evangelhos. no espírito prático desse povo. dos judeus. Coube a Lutero desencadear. . Esse trigo é o fruto da semeadura racional de Jesus. no Deus-Pai de todas as criaturas. desde Renan até Guigne- bert. que mesmo os espíritas ainda não compreenderam. Na introdução de O Evange- lho segundo o Espiritismo. a luta pelo restabelecimento da verdade cristã. puderam restabelecer a sua figura e o seu pensamento.J. O Cristianismo desencadeou no mundo a luta contra o mistério e o sobrenatural da era mitológica. Com essa operação metodológica pôde Kardec arrancar o joio para oferecer-nos o trigo livre de impurezas. em oposição fragrante ao irracionalismo religioso: • transformação do vingativo e exclusivista Iavé ou Jeová. vemos Kardec dividir o texto dos Evangelhos em cinco partes. Apoiado na concep- ção monoteísta dos judeus (foi por isso que Jesus nasceu judeu) e. ao mesmo tempo. Apesar dessa deformação inevitável. E coube a Kardec recolocar a verdade evangélica acima da nova mitologia criada pelas igrejas cristãs.

como faculdades humanas naturais. • explicação racional dos mistérios. abririam perspectivas para a união futura da Ciência com a Religião. com a cultura clássica) durante o milênio sombrio da Idade Média. a recuperação do Cristianismo em sua inegável natureza racional. o Espiritismo surgiu como Ciência e não como Religião. ainda hoje dominante nas áreas científicas. com ele. está prestes a consumar-se. que resultaria no advento da Idade da Razão com o Renascimento. do Cristianismo. mas o desenvolvimento científico permitiria o aparecimento do Espiritismo e. O plano de unificação das áreas dispersas do Conhecimento. Essa posição iria permitir a mistura dos princípios cristãos com o racionalismo grego e o juridismo romano (ou seja. • repúdio à hipocrisia oficializada pela lei da moral vigente. • prova objetiva da sobrevivência humana além do túmulo. • superação do conceito de milagre e revelação dos poderes espirituais do homem. favorecendo. o de- senvolvimento das Ciências. permitindo as aproximações que hoje se verificam em ritmo acelerado. A oposição irracional das igrejas criaria o conflito entre a Ci- ência e a Religião no mundo moderno. mas firmado na tradição cristã. Por isso. Esse quadro é suficiente para provar a posição antimitológica de Jesus e. acentuadas por Kardec. como aconteceu no sécu- lo passado. . feito a longo prazo por Jesus. portanto. apesar da oposição mística e mitológica das próprias igrejas cristãs. inclusive do mistério da morte. O preconceito contra o Espiritismo.J. vai sendo destruído pelos pró- prios avanços científicos da atualidade. As conseqüências morais do Espi- ritismo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 104 • repúdio absoluto aos privilégios do sacerdócio e das clas- ses dominantes de Israel. • condenação do conceito sociocêntrico de pureza parcial.

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 105

Nessa admirável seqüência histórica (que só os cegos de en-
tendimento não vêem), a Ciência Espírita aparece em posição de
vanguarda, abrindo caminho para a última vitória referida pelo
apóstolo Paulo, que é a vitória sobre a morte. As últimas conquis-
tas da Física, da Biologia, da Antropologia, da Astronomia e da
Astronáutica, para só citarmos essas ciências – e em particular da
Psicologia em sua projeção parapsicológica – rompem a barreira
da concepção sensorial do Universo e eliminam o equívoco da
contradição materialismo X espiritualismo. A Ciência Espírita,
como a pedra rejeitada da parábola evangélica, é o grande e sur-
preendente esquema sobre o qual se desenvolve todo o avanço das
Ciências, em nosso tempo, à revelia da lamentável ignorância dos
cientistas a seu respeito. Essa ignorância é até mesmo benéfica à
realização total do grande plano divino.
Se os cientistas tivessem consciência de estar pisando em ter-
reno preparado pela previsão cristã, certamente procurariam fugir
ao esquema ou, pelo menos, retardar as suas conquistas, tal é o
poder do preconceito na vaidade e no orgulho do homem. Mas,
talvez, já seja tarde para isso. As descobertas atuais são tão fasci-
nantes que nada mais poderá deter o desbravamento da selva
obscura dos mistérios em que se embrenhou a mente opiniática da
Humanidade. Cabe aos espíritas compreenderem isso e dedica-
rem-se a fundo ao estudo da doutrina tríplice, evitando os desvios
e desfigurações do Espiritismo, gerados pela ignorância vaidosa
de adeptos, ilustrados ou não.

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 106

39.
A hora H do Espiritismo

Após um século de propagação difícil em todo o mundo, a
partir da França, sob a condenação veemente e simultânea da
Ciência, da Filosofia e da Religião, o Espiritismo atinge, em
nossos dias, um momento difícil. As mentiras e calúnias lançadas
sobre ele criaram uma imagem falsa da Doutrina, que estranha-
mente predominou nos meios culturais. Até hoje, apesar da gigan-
tesca bibliografia científica espírita existente no mundo, firmada
pelos mais altos expoentes da Ciência do século passado e deste
século, é comum encontrarmos homens de cultura, e inegável
inteligência, que se deixam impressionar pelos seus detratores
interesseiros ou ignorantes. Esses homens descem facilmente da
sua posição intelectual para se colocarem ao nível das massas de
fanáticos que vêem no Espiritismo a obra-prima do Anticristo e de
Satanás.
A luta contra o Espiritismo é o campo do vale-tudo. Em maté-
ria de arte, ciência, literatura ou filosofia, as pessoas têm medo de
dizer ou escrever tolices, pois isso as diminuiria no conceito
público. Mas, quando se trata de Espiritismo, não se pejam de
empregar asneiras à vontade. Encontram, por assim dizer, a porta
aberta para o desabafo. Sentem-se livres para dizer todas as toli-
ces e asneiras que não poderiam ser ditas ou escritas em outros
campos. De nada valem os nomes honrados dos grandes sábios,
que são considerados simplesmente como esclerosados ou beó-
cios, facilmente iludidos por trapaceiros vulgares. Como dizia
Kardec, os sábios são sábios enquanto não tratam das questões
espíritas. Mexendo nessas questões, tornam-se imbecis.
As antigas pesquisas parapsicológicas alemãs, das Ciências
Psíquicas anglo-saxônicas, da Psicobiofísica, da Metapsíquica de

J. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 107

Richet ou da Parapsicologia atual, são todas levianamente lança-
das no rol da ingenuidade dos pesquisadores, ou da patifaria dos
médiuns. Até mesmo os físicos e biólogos soviéticos, que tiveram
a audácia de provar a existência do corpo espiritual do homem,
com a expressiva designação científica de corpo bioplásmico, são
reduzidas a puro engano de amadores, desqualificando-se, assim,
os atrevidos investigadores. Nesse clima de asfixia da verdade, o
Espiritismo devia ter morrido, mas não morreu. Pelo contrário,
robusteceu-se vigorosamente pela comprovação dos seus princí-
pios, no próprio campo materialista.
Apesar de tudo isso, e de muito mais que seria longo enume-
rar, o Espiritismo cresceu de tal maneira que enfrenta, hoje, situa-
ções perigosas. Como toda doutrina que se expande, está ameaça-
do de deturpações, revides arbitrários e desrespeitosos, adultera-
ções, infiltrações de doutrinas estranhas e ultrapassadas. A grande
propagação popular criou um campo fértil para exploração dos
aventureiros, ansiosos por firmarem a sua reputação de grandes
entendidos do assunto, grandes médiuns e oradores de tipo ana-
crônico. Formou-se uma falsa elite cultural espírita, que se arroga
o direito de reformular conceitos, revisar princípios e, até mesmo,
alterar textos clássicos da bibliografia doutrinária. Atrás dos
pavoneantes mestres e reformadores, formam-se as filas de candi-
datos ingênuos ao Reino dos Céus, que tudo aceitam de olhos
fechados e mãos postas. É a hora do perigo, em que as mais ele-
vadas doutrinas podem ser transformadas em mistifórios grossei-
ros.
O trabalho real, que teria de ser feito, ninguém faz, por falta
de capacidade e excesso de preguiça mental. E, quando alguém
resolve iniciar alguma coisa, no desenvolvimento consciente,
respeitoso, da obra fundamental de Kardec, nas bases da cultura
atual, as escolinhas ou igrejinhas dos falsos iluminados se conju-
gam na repulsa ao trabalho cultural, em defesa da cômoda igno-

do que um estudo sério e esclarecedor da própria estrutura da Doutrina e de sua posição cultural. sem cessar. que rom- peu a falsa aparência de unidade e coerência do movimento espíri- ta brasileiro. criatu- ras dotadas de diplomas universitários tornam-se seguidores de messias broncos. A cultura perece e os charlatães se divertem deslumbrando os basbaques. Como modificar essa situação desastrosa sem a abnegação de pessoas que. E. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 108 rância em que podem semear as suas tolices e cultivar as suas pretensões vaidosas. tudo é vaidade. que usam sem temor o atrevi- mento da ignorância para atacar e criticar os que lutam em defesa da Doutrina. se ponham corajosamente em campo? Esta é a Hora H do Espiritismo. ou será asfixiado pela avalancha de sandices que sobre ele despejam. Vale mais. profetas incultos. a suposta descoberta de novos métodos de passes e curas miraculo- sas. missionários por conta própria. em prejuízo das obras culturais. A penúria intelectual do movimento espírita contrasta estranhamente com as dimensões conceptuais e as finalidades da Doutrina. diz o Eclesiastes. Daí o silêncio da maioria dos líderes na hora da adulteração. Vaidade das vaidades. A ajuda ao próximo só é interpretada em sentido material. favo- rável ao entrosamento da cultura espírita. julgam-se mestres infalíveis. os pretensiosos irresponsáveis. As pessoas cultas que perce- bem isso temem a turba dos fanáticos e preferem resguardar o seu prestígio ao invés de lutar contra o aviltamento doutrinário. Ou ele se firmará como um processo cultural legítimo. Até mesmo pessoas analfabetas. dotadas realmente de formação cultu- ral (e não apenas de diploma). ninguém se lembra de que estamos numa fase de grande desenvolvimento cultural. para a maioria dos adeptos. a única que oferece a possibilidade de soluções evangélicas para a situação mundial.J. elaboradores de . As obras de assistência social atraem as contribuições gene- rosas. quando aprendem a lidar grosseira- mente com a mediunidade.

são piores que os semeadores de joio. nesta hora decisiva. pois os ladrões e as meretrizes chegarão. Os que se omitem por comodismo e interesses subalternos. sugeridas pelas mentes sombrias que desejam ridicularizar a Doutrina. antes deles.J. ao Reino dos Céus. . cantando louvores a todos os absurdos em nome da tolerância e da fraternidade (como se essas duas palavras significassem conivência). pois são os que estimulam e sustentam o trabalho de sapa no meio doutrinário. A eles podemos aplicar a advertência do Cristo aos fariseus. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 109 doutrinas individuais e ridículas.

estará o seu valor e progresso. na luta por não se deixar envolver está o mérito. Deus. no mesmo corpo. Além de justa. concedendo oportunidades para que o Espírito lute e busque a recuperação quase que nos mesmos cami- nhos que falira. Muitos ainda recordam a menção de castigo até a quarta gera- ção. Podemos sentir que a quarta geração nada mais era – ou será – que aqueles mesmos espíritos que faliram e tornaram a nascer. Jesus disse: importa nascer de novo. o espírito que tiver a prova de determinada doença. A reencarnação era admiti- da sob a forma de Ressurreição. modelamos o corpo desde os pródro- mos da concepção.J. a reencarnação se torna necessária . que teria retornado à vida terrena. Reencarnação Quando Nicodemos ouviu dos lábios de Jesus. Na reencarnação a volta se dá em corpo diferente. com a luz do Espiritismo. da Bíblia. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 110 40. como o caso de João Batista e Elias. e nos processos reencarnatórios somos encaminhados aos ambientes que mais atendam às nossas necessidades. Por isso. Bom e Justiceiro. Quando reencarnamos. estarão próximos ao círculo dos bêba- dos e. nascerá junto aos portadores dessa doença e. consoante nossas condições íntimas. “importa nas- cer de novo”. Hoje. Aqueles que devam vencer a prova da bebida. se conse- guir vencer. Aplica-se o termo ressur- reição no caso de Lázaro. pela extensão que as palavras do Senhor alcançavam na crença judaica. sentiu vacilar. na luta por bem suportá-la. Esses fatos nos levam a entender a Justiça da reencarnação. a diferença entre os signifi- cados dessas palavras foram clareados.

Oportunidades a oportunidades. A reencarnação é. meio para elevar o espírito pelas o- portunidades que apresenta e no condicionamento a que vem envolvida para representar fase necessária para o ajuste com as Leis. O conhecimento completo se faz em todos os sentidos e sa- bemos que o homem. terapêutica da alma nas falências morais e inver- sões de valores naturais do homem. .J. por mais anos que viva. o Senhor abre campos ao Es- pírito necessitado de remir suas faltas ou aprofundar-se no conhe- cimento. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 111 para o Espírito. pois. não conseguirá inteirar-se de todo o Saber numa só vida.

quando a Árvore do Evangelho foi transplantada para o Brasil. o menos indicado. veio carregada de parasitas mortais que. com a execução dessa obra gigantesca. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 112 41. segundo a expressão de Humberto de Campos. não teremos um movimento es- pírita coeso e coerente. Falta de formação doutrinária Sem a formação doutrinária. E. no fluidismo e no obscuran- tismo que dominam o nosso movimento no Brasil e no Mundo. aparentemente. Kardec teve de arcar. Os poucos estudiosos. Não há estudo sistemá- . com os mesmos destroços de sempre. A prova está aí. Tudo isso por quê? Por falta pura e simples de formação dou- trinária. sem coesão e coerência.J. ao invés de extirpar. Os sucessores de Kardec fracassaram inteiramente na manutenção da chama espírita. residia na província. foi o dilúvio. sozinho. O aspecto religioso da doutrina transviou-se na ignorância e no fanatismo. A Revista Espírita virou um saco de gatos. na França. Depois de Denis. bem visível. tratamos de cultivar e aumentar com as pragas da terra. A sociedade Parisiense naufragou em águas turvas. não teremos Espiritismo. o que vimos? Léon Denis foi o único dos seus discípulos que conseguiu manter-se à altura do mestre. Porque só ele estava em condições de realizá-la. que se aprofundaram no estudo de Kardec. E. Depois de Kar- dec. lutando. Era. não convivera com ele. A Ciência e a Filosofia Espíritas ficaram esquecidas. sem ces- sar. Não tinha a formação cultural de Kardec. contribuindo vigorosa- mente para a consolidação da Doutrina. mas soubera compreender a posição metodológica do Espiritismo e não a confundia com os desvarios espiritualistas da época. vivem como náufragos num mar tempestuoso. Essa a razão por que os Espíritos Superiores confia- ram às mãos de Kardec o pesado trabalho da Codificação.

aumento quan- titativo de adeptos ineptos. em que se misturam elementos cristãos. . Mobral: esse o recurso. em nível universitário. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 113 tico e sério da doutrina. é o seguimen- to natural da cultura atual.J. E começar tudo de novo. as tentativas de unificação do nosso movimento não darão resultados reais. estamos na era do contra-senso. mas isso em conjunto. Podem dizer que há contradições entre Mobral e nível univer- sitário. Foi por isso que propus a criação das Escolas de Espi- ritismo. entretanto. por incrível que pareça. Cultura é assimilação de conhecimen- tos e bom-senso em ação. parece ter se desencarnado com Kardec e volatizado com Denis. Hoje. há evidente sintoma de fascinação das trevas. estimulação perigosa de messianismos individuais e de grupos. em nome de uma cultura inexistente. Porque cultura não é erudição. agrupando elementos capazes. sem esquecer a alfabetização de adultos. Os mesmos órgãos de divulgação doutri- nária que pregam o obscurantismo. uma intuição feliz quando o chamou de bom senso encarnado. em vastos setores representativos que. Mas note-se que falamos de Mobral do Espírito. Esse bom senso é o que nos falta. Enquanto não compreendermos que Espiritismo é cultura. E o que é mais grave. pelas primeiras letras. Temos de organizar o Mobral do Espírito. livros empilhados nas estantes. A Cultura Espírita é o desenvolvimento da cultura acadêmica. Flammarion. fichário em ordem para consultas ocasionais. dotadas de amplos currículos de formação cultural espírita. exibem pavoneios de erudição personalista. teve. como se vê no seu famoso discurso ao pé do túmu- lo. combatem por todos os meios o desen- volvimento da cultura espírita. O que fazer diante dessa situação? Cuidar da formação espíri- ta das novas gerações. Darão aproximações arrepiadas de conflitos. de mente arejada e cora- ção aberto. que nunca entendeu real- mente a posição de Kardec e chegou a dizer que ele fez obra um tanto pessoal.

Assim conjugados. bem intencionados.J. Escolas. Temos de trabalhar em conjunto. lembrando-nos de que foi ele e só ele o incumbido de nos transmitir o legado do Espírito da Verdade. Kardec é a nossa pedra de toque. Estamos todos apren- dendo. a conhecer a minha própria indi- gência. como autodidatas. nem Academias. É o que devemos ter nas Escolas de Espiritismo. provada por atos e atitudes. Não há outra forma de adaptá-lo às novas exigências da nova cultura. Então. tem de iniciar pelo Mobral. de compreender que nada sabemos. mesmo. Ninguém. estare- mos. tiran- do nossas próprias lições dos textos. Temos. simplesmente. Mas aprender com quem? Sozinhos. poderemos aprender de Kardec. Para iniciar-se na cultura espírita. não fascinados por mistificações grosseiras e evidentes. Quem não compreende esse encadeamento. reunindo companheiros sensatos. pelo menos. conscientes de nossa ignorância e capazes de aprender. colaboração entre professores e . ainda. estudando suas obras. o estudante deve possuir as bases da cultura anterior. a duras penas. mas que estufam o peito de auto-suficiência e pretensão? Claro que não. Não Facul- dades. de maneira canhestra. repetidamente. “Tudo se encadeia no Universo”. No Espiritismo. no Brasil e no Mundo. antes de tudo. A verdade nua e crua é que ninguém conhece Espiritismo. Ao menos isso devemos saber. como já se dava no Cristianismo e na própria filosofia grega. capazes de humildade real. o homem sincero e puro a serviço dos Espíritos Instrutores. O Livro dos Espíritos. mas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 114 pagãos e ateus. mas por ser o intérprete humilde que foi. o que vale é o método socrático. O sistema universitário implica pesquisas. E se me permito escrever isto. mergu- lhando em seus textos. como ensina. Não por ser Kardec. é porque aprendi. confiantes nas luzes da nossa ignorância? Recebendo lições de outros que tateiam como nós.

os Espíritos Instrutores disporão de meios para auxiliar os estudantes sinceros e despre- tensiosos. Por isso. baten- do palmas e com palavreado pomposo. arduamente adquirido em estudos e pesquisas. livre. através de simples leituras individuais. interrogando os mestres e discutindo com eles. Num ambiente assim. Os conferencistas espíritas precisam ensinar Espiritismo – que ninguém conhece – mas para isso precisam. lançando confusões ridículas no meio doutrinário. de conceitos revolucionários. primeiro aprendê-lo. Precisamos de expositores didáticos. o livre-debate. que abrange os cinco livros fundamentais da Codificação. O espírito universitário. os volumes introdutórios e os volumes da Revista Espírita. Seria absurdo pensar que podemos dominar esse vasto acerto de conhecimentos novos. é que resolvem. Temos de compreender que isso não pode continuar. O simpósio e o seminário. com uma falsa suficiência de arrepiar. É incrível a leviandade com que oradores e articulistas espíritas tratam de certos temas. A formação espírita exige ensino metódico mas. Essa obra gigantesca é a plataforma do futuro. o alicerce e o plano de um novo mundo. por isso mesmo. redigidos por ele durante quase doze anos de trabalho incessante. de uma nova civilização. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 115 alunos. tem sido o de macacos em loja de louças. Expor os temas fundamentais da Doutrina. en- fim. ao mesmo tempo. Nosso papel. não é falar . trabalho conjugado e sem presunção de superioridade por parte de ninguém. Nada disso é Espiritismo. de auditórios basbaques. Foi o que os Espíritos deram a Kardec: um ensino de que ele mesmo participava. não houve infiltração de mistificadores na obra inteiriça. é o que melhor corresponde à escola espírita. sem método e sem pesquisa.J. nesse bloco de lógica e bom senso. e não o magister do passado. Chega de arengas melífluas nos Centros. no Espiri- tismo. servidos por bom co- nhecimento doutrinário. de oratória descabelada.

com tropos pretensamente literários. Esse palavrório vazio e presunçoso não constrói nada e só serve para ridicularizar o Espiritismo ante a mentalidade posi- tiva e analítica do nosso tempo. dotados de recursos escolares capazes de fornecer. funcionais. não assumiriam a posição ridícula de críticos e inovadores do que. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 116 bonito. com urgência.J. Se o conhecessem. É curio- sa e ridícula a nossa situação. é uma estrela de amor que espera no horizonte do mundo o avanço das ciências. como escreveu Humberto Mariotti. aos mais aptos e mais sinceros. . Estamos numa fase avançada da evolução terrena. Nossa cul- tura cresceu espantosamente nos últimos anos e já está chegando à confluência dos princípios espíritas em todos os campos. E só faremos isso através de organismos culturais bem estruturados. temos de aprender com Kar- dec. para superar essa situação. ignoram. não o conhecem. Chegamos a uma hora de definições. que só servem para estufar vaidade. Os que pretendem superar Kardec. Mas. Temos o futuro nas mãos e ficamos encravados no passado mitológico e nas querelas medievais. A nossa falta de formação cultural espírita não nos permite enfrentar a barreira dos preconceitos para demonstrar ao mundo que Espiri- tismo. à maneira da oratória bacharelesca do século passado. a formação cultural de que todos necessitamos. na verdade. Precisamos definir a posição cultural espírita perante a nova cultura dos tempos novos.

Crer que sejamos individualidades eternas é crer na continuidade da existência além do túmulo. não deixaria morrer o esforço do progresso com o fenômeno da morte. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 117 42. porque não podemos limitar o Criador ao nosso co- nhecimento do instante. não pode perder do nada o cabedal de conhecimentos adquiridos por ingentes esforços.J. pelos horizontes que se abrem. para converter-se numa necessidade. com os vôos espaciais. em cada vôo espacial revela uma amplidão maior do cosmo. enquanto as necessidades nossas e do mundo estão cada vez mais acerbas. indagamos das crenças e dos hábitos de nossos avós. Deus. O homem que vê no macro. pela Bondade e Justiça Divinas. enquanto em cada operação cirúrgica. repositória das conquistas da alma. A viagem interplanetária e o transplante de cérebros são notícias sensacionais. e como percebemos demonstrado em Sua obra. então. que a vida futura. muitos já acreditam ter ruído por terra os con- ceitos religiosos que até bem pouco existiam. e pesquisa no micro- cosmo. Será que todo o arcabouço filosófico-religioso já deixou de existir porque alguns instrumentos de observação sin- graram o espaço cósmico? Será que o hábito de respeito ao dever e amor ao próximo deixou de existir? Não Cremos! Sentimos que. não cogita em muitas oportunidades da calma espiritual. A vida futura Com os conhecimentos atuais da ciência. como o definem todas as religiões. quanto mais longe avança o sa- ber humano. deixa de ser mero dogma imposto. Notamos. A vida presente. revela a perfeição de Sua obra. Justo e Bom. no corpo humano. E. da astronomia. nesse turbilhão. O saber divino vai além de nós! . mais Deus revela sua magnanimidade. turbilhonando nos vórtices do sensaciona- lismo.

uma vez que se condi- ciona à vida presente. adquirem valor inestimável de virtudes. A revelação do Espiritismo quanto à vida futura vem lançar maiores claridades ao que até então se preconizava. seqüência de progresso a que todos os seres estão submetidos. não há julgamentos imperiosos. . mas verdades justas. quer não. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 118 A vida futura é necessária como afirmação da própria Justiça Divina e convergência de nossas atenções.J. as lutas de renovação individual e aperfeiçoamento moral adquirem tonalidades de respeito e solidariedade porque as provas e experi- ências são vistas como bem armazenado para o futuro. Os preceitos morais. somos o que nos aplicamos em ser nesta vida ou na outra. com ela. perdem o significado e. quer queiram. A outra vida entra na ordem natural dos fatos. mas conquistas. Não há privilégios. sem ela.

como doutrina racionalmente estrutu- . desde o seu aparecimento. nem por isso. pois respeito todas as crenças. para muitas pessoas. como querem essas boas criaturas. E. em particular. Seria extremamente cômodo. o estão. diante do problema da imortalidade da alma. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 119 43. mas. “Respeito o Espiritismo como crença. que o Es- piritismo se conservasse no plano ingênuo da crença. como espírito. substituem a crença pela certeza. sem saberem como explicá-las. mas não posso entender a razão por que os seus adeptos e o Irmão Saulo. verdadeira. no tocante aos seus atos presentes. que acarreta para o homem enorme responsabilidade. Não vejo motivos para isso. ao tempo em que os homens acreditavam nas almas do outro mundo. com benevolência. Para começar. não teriam mais do que o trabalho de sorrir.J. que um leitor se incumbiu de sintetizar nessas linhas. Religião que se baseia nos resultados da investigação Provas científicas da sobrevivência do homem. Mas o Espiritismo. em se travestir daquilo que ele não é.” Eis a opinião sincera de muitas pessoas. nem pode ser. Opinião sincera. devemos dizer que o problema da crença pertence à pré- história do Espiritismo. Se o Espiritismo fosse apenas “uma crença”. e diariamente novas provas vêm reforçar as verificações já feitas. no entanto. Assim. nem conveniência alguma para o próprio Espiritismo. os seus princí- pios não estariam confirmados pela investigação científica. Quan- do o Espiritismo apareceu. já mostrou as inevitáveis implicações científicas e filosóficas dos seus princípios. insistem em considerá-lo como ciência e filosofia.

J. E é ignorar. Oliver Lodge e tantos outros. aos que se interessarem pelo assunto. De Alfred Russel Wallace e William Crookes. filosóficas e religiosas. um vasto acervo de experiências e investigações. Léon Denis. no Espiritismo. altamente categorizadas. chegando em nossos dias a Wathely Carington e Harry Price – para só citarmos dois nomes em cada fase histórica –. necessariamente. . pois. é ignorar um dos capítulos mais empolgantes da investigação científica mundial. para dar lugar à certeza. como nos mos- tram Kardec. os que realmente contribuíram para a formação desse poderoso acervo. Quando falamos de certeza científica. a crença desapareceu. E foram esses nomes. do Espiritismo. que o Espiritismo está realizando no mundo. comprovando a realidade da fenomenologia espíri- ta e as suas conseqüências. Mas acontece que o Espiritismo pode oferecer. há um encadeamento perfeito de pesquisas científicas. como simples crença. esta- mos plenamente conscientes do sentido dessas palavras. a Charles Richet e Gustave Geley. em todo o mundo. Falar. Estas conseqüências. mas das provas objetivas da sobrevivência e das conseqüências filosóficas dessas provas. A religião espírita não decorre da crença. Conan Doyle. a abertura de perspectivas mais amplas para a filosofia e a nova colocação do problema religioso. são. de cientistas não-espíritas. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 120 rada. honrado pelos mais ilustres nomes das ciências. e o que é mais importante – à certeza científica. também.

Suas declarações. Consultam-nos. segundo o noticiário de imprensa. alguns leitores. em que um cidadão “que praticava o baixo-espiritismo e o hipnotismo”. a tragédia se verificou em virtude de o referido cidadão estar influenciado “por uma força estranha”. na Polícia. os adversários da doutri- na. que lhe querem atribuir. e suas práticas nada têm a ver com as práticas de macumba e semelhantes. Antes de tudo. de mistura de cultos e práticas das religiões que influíram nos primeiros tempos da formação de nosso povo. devemos esclarecer que não existe nenhuma forma de “baixo-espiritismo”. . sobre a tragédia de Santo An- dré. aludem a práticas de “baixo- espiritismo”. suficientemente proposta nas obras de Kardec e de seus suces- sores. em que certo articulista se aproveitou do caso para atacar o Espiritis- mo e pedir para o movimento espírita a atenção das autoridades. A macumba e seus deri- vados são formas de sincretismo religioso. Qualquer estudante de sociologia. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 121 44. rejubilam-se com a descoberta de um fato em que pensam encontrar motivos suficientes para mostrar ao povo “os perigos do Espiritismo”. Diante de tais referências. em vez de se compadecerem da pobre criatura. acabou matando a mulher e ameaçando de morte os próprios filhos. Problema do sincretismo religioso afro-brasileiro Não existe “baixo-espiritismo” – Origem sincrética das práticas de macumba – O que dizem os estudos sociológicos. alguns nos enviam recortes de um jornal do Interior. Entre os consu- lentes.J. O Espiritismo é uma doutrina úni- ca. De acordo com o noticiário. mes- mo bisonho. sabe disso.

a Companhia Editora Nacional publicou. O Espiritismo só apareceu no Brasil nos fins do século passa- do. Seu nascimento se deu na França. Como. mas apenas de um estudo sociológico sobre a formação sincrética dos cultos populares no Brasil. no qual até mesmo o islamismo. se poderia responsabilizar o Espiritismo por um sincretismo religio- so que se formou no país muito antes do seu nascimento no exte- rior? As chamadas “práticas de baixo-espiritismo”. São práticas do sincretismo religioso afro-brasileiro. a culpa da tragédia de Santo André. Manoel Querino e Gilberto Freire. juntando-se. ao Espiritismo. e rebelando-se contra isso. nada têm a ver com o Espiritismo. catequizados pelos “sinhôs”. pois. ainda. a confirmação do que dissemos nesta crônica. Atribuir-se. misturaram seus deuses e seus cultos africanos com os santos e o culto católico. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 122 Os negros escravos. Basta consultar Édson Carneiro. Ninguém pode atribuir a uma doutrina religiosa a culpa pelo desequilíbrio mental de uma criatura.J. portanto. com prefácio do professor Amaro Quintas. em sua coleção “Brasiliana”. sempre à força. na série da Biblioteca Pedagógica Brasi- leira. só pode ser obra de ignorância ou de má fé. exerce a sua influência. Ainda há pouco. Waldemar Valente. em 1857. a essa mistura as crenças e práticas de nossos indígenas. não obstante os defeitos da falta de conhecimento da história e da doutrina espírita. Artur Ramos. Seria ainda mais grave do que atribu- irmos ao Catolicismo a responsabilidade pela tragédia de Canudos e de outras eclosões de misticismo religioso nos sertões. intitulado “Sincretismo religioso afro-brasileiro”. trazido da África ao Brasil pelos negros. nesse pequeno e interessante livro. como demonstra o médico . revelados pelo autor. Não se trata de um livro espírita. portanto. valioso trabalho do prof. ou de qualquer outra semelhante. Os leitores encontrarão. Além disso. para se obter uma informação completa desse processo.

com isenção de ânimo e sem as idéias preconcebidas que levam a afirmações temerárias. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 123 Inácio Ferreira. ainda hoje. estranhos. de maneira criteriosa. . em busca de cura. estes casos servem para mostrar a facilidade com que se atribuem ao Espiritismo. De qualquer maneira. O caso tem de ser investigado “in loco”. Só depois é que se atribui à doutrina a responsabilidade pelo desequilíbrio de que eram portadoras. na realidade. por amigo. o que parece evidente é que a vítima sofria de um desequilíbrio e procurava curá-lo através de práticas afro-brasileiras. No caso particular da tragédia de Santo André. as pessoas desequilibradas geralmente são levadas ao Espiritismo. ou através do noticiário da imprensa. fatos que lhe são. em seus livros sobre as curas espíritas no Sanató- rio de Uberaba.J. Não se pode tratar suficientemente de um caso dessa natureza “por ouvir dizer”. parentes.

por espíritos. pois os fenômenos paranormais são simplesmente os que o Espiritismo estuda há mais de um século. que o fenômeno espírita existe. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 124 45. Ledo engano.J. Fenômenos espíritas ou parapsicológicos? A confusão lançada entre nós. nem podendo existir. apoiado numa estatística imaginária. mas. A confusão originou-se de duas fontes que também se con- fundem. da Parapsicologia. na proporção de um por mil em relação aos parapsicológicos. espalhado pelos toureiros-professores. por alguns padres espanhóis) fazem com a Parapsicologia o que os toureiros fazem com os touros: transformam-na em objeto de espetáculo. não existindo. A maioria das pessoas entende que os fenômenos paranormais se dividem em dois tipos: os cha- mados fenômenos psi. Um deles vive proclamando. ridicula- rizam-na e tentam matá-la. Se não o conseguem é porque a ciên- cia não serve para touradas. Os professo- res desses cursinhos (trazidos da Espanha juntamente com os cursilhos de outra natureza. pois são irmãs gêmeas: a ignorância e a má fé. qualquer outra espécie do gênero. os improvisados professores fazem a seguinte distinção: os fenômenos parapsico- lógicos são anímicos. e os fenômenos espíri- tas. mas ingênuas. que respeitamos. não. É comum ouvirmos a pergunta. reprodu- zida na primeira página deste jornal: “Que espécie de fenômeno é esse? Parapsicológico ou espírita”. produzidos pelo próprio inconsciente das pessoas e. com pessoas cultas. pela falsificação comercialista dos cursos de Parapsicologia. Mas conseguem confundir o povo. produz os seus efeitos. de Curitiba. e às vezes fingindo que ignoram. Às vezes ignorando. até mesmo. que ainda há pouco serviu de título para uma notícia da Gazeta da Povo. embair multidões e trapacear. Não .

Seu pecado original é um só: a falta de capacita- ção intelectual e moral para ensinar o que desconhecem ou detur- pam. que essa contradição deixa uma brecha na sua pretensão de negar a realidade do Espiritismo. que tanto podem ser de natureza anímica como de natureza espírita. ainda. Ambos pecam pela incompetência. é culturalmente incom- . a negação da pretensa distinção feita pelos adversá- rios do Espiritismo no século passado (isto ou aquilo) e. obras básicas da Doutrina Espírita. Conclusão. Alguns desses professores-toureiros ignoram essa verdade fundamental do Espiritismo e de todas as Ciências Psíquicas. A diferença dos títulos está apenas nas partículas ou e e que exprimem o seguinte: em Aksakof. Quem ensina errado. a afirmação da unidade do fenômeno. mas usam de má fé. Outros não a ignoram. chegando mesmo a fazer esta comparação: “o homem livre pode falar com o prisioneiro através das grades da prisão”. Isso está em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns. por ignorância. pois Kardec explica que a comunicação mediúnica só é possível porque o morto e o vivo são ambos espíri- tos. As manifestações anímicas. que referenda o ensino de Kardec a respeito. a conclusão de Bozzano: “o animismo prova o espiritismo”. Porque o espírito encarnado é da mesma natureza que o desencarnado: ambos são espíritos. produzidas pela influência de espíritos desencarnados. com a única diferença de que um está preso ao corpo e o outro está liberto. Daí. como estas duas obras monumentais do sábio russo Alexandre Aksakof e do sábio italiano Ernesto Bozzano: Animis- mo ou Espiritismo e Animismo e Espiritismo. são da mesma natureza que as espíritas. A verdade científica é apenas esta: o objeto do Espiritismo e da Parapsicologia são um só – os fenômenos mediúnicos. produzidas pelo inconsciente dos sensitivos (ou médiuns).J. e nas obras científicas do Espiritismo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 125 percebeu. em Boz- zano. por sinal.

Prof. pois a pri- meira condição do mestre é a honestidade e o amor à verdade. Todo fenômeno espírita é também parapsicológico. que no tratado básico dessa ciência. A Ciência Psíquica Inglesa. pela Editora Mestre Jou. chegou a escrever em sua obra Os Milagres e o Espiritismo que a Psicologia é um espiritismo rudi- mentar. E o próprio Robert Amadeu. num estudo sério do assunto. Alfred Russel Wallace. na teoria da evolução das espécies. a chamada Ciência do Od (od é o corpo espiritual . certos livros escritos por professores-toureiros. tomando por base obras científicas e. pois trata dos fenômenos espíritas do encarnado. designação esta que é genérica e distingue a pesquisa dos fenômenos inabitu- ais da pesquisa. mediúnico e quejandos. nem negará que as Ciências Psíquicas se originaram do Espiritismo.J. de São Paulo. tem por título En los Limites de La Psicologia e. É o que o leitor pode verificar. A expres- são fenômenos inabituais foi criada por Charles Richet. Nenhum verdadeiro parapsicólogo jamais negou. metapsíquico. Rhine. por subtítulo. êmulo de Darwin. publicada em tradução brasileira. a Metapsíquica. hoje. católico e ferozmente antiespírita. Todas as chamadas Ciências Psíquicas tiveram sua origem numa única fonte: as pesquisas espíritas. Um livro do parapsicólogo argentino. com introdução nossa. psico-biofísico. fundador da Metapsíqui- ca. Desde el Espiritismo basta la Parapsicologia. acom- panhado por toda uma equipe de parapsicólogos americanos e europeus. Ricardo Musso (que não é espírita). o conhe- cido Prêmio Nobel de Fisiologia (1913). quem o faz por má fé é moralmente incapaz. não. sustenta a mesma tese. em sua famosa obra Parapsicologia. E é tam- bém ódico. antiga Parapsicologia alemã. dos fenômenos habituais da Psicologia. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 126 petente. reconhece e louva o pio- neirismo de Kardec. Allan Kardec é reconhecido universalmente como o Pai das Ciências Psíquicas. reconhece o que acima dissemos. E. do espí- rito em sua manifestação corporal. o Prof. facilmente.

Mas a sua posição difere fundamentalmente da atitude assumida pelos pro- fessores-toureiros. que já atingiu o campo dos fenômenos teta (comunica- ções de espíritos) e até mesmo o campo da paramemória (lem- branças de encarnações anteriores) e está levando eminentes investigadores universitários (não-espíritas) a confirmarem pro- gressivamente toda a Doutrina Espírita. Não há nem pode haver um objeto diferente para cada uma dessas ciências. os métodos de investigação que utilizam e a interpretação que dão aos fenômenos. porque o psiquis- mo é um só e os seus fenômenos são sempre os mesmos. Depois.J. cada qual à sua maneira. A verdade. reconhecendo honestamente que se trata de um mesmo campo fenomênico. Diferenças conceptuais e metodológicas. acabará tirando a máscara e a capa de toureiro desses confusionistas. porque não faz nenhuma distinção entre fenômenos espí- ritas e parapsicológicos. com seriedade. espantará da arena todos esses fantasmas de toureiros. O desenvolvimento da Parapsi- cologia. os fenômenos espíritas. a Teosofia. porque ele coloca o problema em plano cultural. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 127 ou perispírito). Amadeu tentou estabelecer uma diferença entre os fenômenos psíquicos investigados por essas ciências e o que ele chama de “fenômenos sobrenaturais”. O que as distingue é a maneira pela qual encaram os fenômenos psíquicos. Simples tentativa de salvar os dogmas católicos da derrubada científica. agora. Primeiro. inevitável. já. –– 0 –– . firmando-se na Filosofia Tomista. mas nunca de objeto. as escolas de Esoterismo e outras ramificações. que “é” por si mesma e não pede licença para ser. nada mais fazem do que estudar. porque este é sempre a mesma fenomenologia.

J. financeiramente. também auxilia no custeio de inúmeras obras de assistência social. em busca constante da paz no Reino de Deus. etc. escolas para crianças e jovens carentes. Se você leu e gostou desta obra. Adquira um bom livro espírita e ofereça-o de presente a alguém de sua estima. As obras espíritas nunca sustentam. estes são abnegados trabalhadores na seara de Jesus. (1ª Epístola aos Coríntios. os seus escritores. O livro espírita. “Porque nós somos cooperadores de Deus. Irmão W. morais e científicos dos espíritos mais evoluídos.” Paulo. Herculano Pires – O Mistério do Bem e do Mal 128 Amigo(a) Leitor(a). 3:9.) . colabore com a divulga- ção dos ensinamentos trazidos pelos benfeitores do plano espiritual. além de divulgar os ensinamentos filo- sóficos.