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aos meus anônimos antepassados

,
fundadores da minha linhagem materna,
que — nos seus tempos de glória —
mataram e comeram muitos inimigos

6 7

agradeço a Eduardo Viveiros de Castro. e a Stéphane Chao. que reviu minha tradução do francês. 8 9 . que me deu sugestões inestimáveis.

................................................................... 37 demanda da terra-sem-mal ............................................................................................................................................................................................................................. 59 o dilúvio universal .................................................................................... tupi-guarani ................................................................. 119 Pigafetta ................................ 47 o gambá e a onça ............................................................. 31 sob o domínio de anhanga . 71 FONTES Textos de Thevet ...................................................................................................... tupi..................................................................... 99 As singularidades da França Antártica ................................................................................................................................................................................. 25 O mito .......................................................................................................................................... 17 MEU DESTINO É SER ONÇA Preâmbulo ........................................................................... 41 dois cocares de fogo .................................................. SUMÁRIO Tupinambá.......................................... 77 Cosmografia universal ............... 123 10 11 ................. 67 A teoria .... 121 Nóbrega ................................................................................................................................................ 15 No rastro dos tupinambá ................................ 63 a terceira humanidade ........................................................................ 57 na era das metamorfoses ..................................... 51 dia da caça ....................................................................................... 13 Ortografia tupi ......................... 81 História de André Thevet Angoumoisin ........................ 115 Outros cronistas ....................................................................... 29 um ornamento para o céu ............................................................................................................................................................................................................................................................................................................... 35 a assembléia dos pássaros ........

............................ não Diálogo das grandezas do Brasil .............. 155 “tupi antigo” ou simplesmente “tupi”................. 173 divididos em diversos grupos com identidade própria...... mas na época colonial este termo designava um mero dialeto regional do tupi.................. Abbeville ............................... TUPI-GUARANI Léry ..... também falantes do tupi.............................................................. 179 desses grupos com identidade própria....................... caeté................................................. 135 Gabriel Soares de Sousa ................................................... formavam um Cálculo textual ................................................... 153 da por “língua brasílica”........................................................................ Os tupinambá......... Staden ............................. o vocábulo “tupi” também se aplique. falado pelos carijó e provavelmente pelos guaianá.......................................... 145 Na época da invasão portuguesa.................................. Mas nem por isso se devem confundir “tupi” ou “guarani” com “tupi-guarani”................ “língua geral”.................. no sentido estrito do termo........... além de outros grupos da bacia do Paraná e Pa- raguai......... muitas Simão de Vasconcelos ........................ na literatura colonial brasileira............ Jácome Monteiro ............ em sentido estrito............................................................................... TUPI.......... 131 Anchieta ..... quando seu uso foi expressamente proibido pelo marquês de Pombal.................................. 165 embora possuíssem um patrimônio intelectual comum..... aos tupiniquim de São Paulo............. Basta lembrar que Ruiz de Montoya deu à sua gramáti- ca o nome de Arte de la lengua guaraní o más bién tupí................................................................................ ORIGINAL TEÓRICO talvez os guaianá................................. do Maranhão (a partir do século 17) e do Rio Esquema do rito canibal ................... 171 constituíam um povo........................................... Embora........................... temiminó.................................................................................. tabajara......... potiguara.............................................................. tupinaé................. 265 teiras da Bahia................................................................. amoipira........... 175 vezes antagônicos entre si — como os tupiniquim.................................................... 149 era ocupada por índios falantes de uma única língua................................... carijó................... e habitavam faixas cos- Quadro comparativo entre Sumé e Maíra .... que também foi a língua corrente de grande parte das populações mameluca e européia até o século 18................... “língua geral da costa”.. por estarem Vicente do Salvador ........ maracajá. 267 de Janeiro — onde eram mais conhecidos por tamoio........ 143 Cardim ................ neste livro só irá designar o idioma comum a todos es- ses grupos................................ Yves d’Évreux ............................... conheci- Francisco Soares ............................................... 139 Gândavo ... 127 TUPINAMBÁ........ Esta última expressão não designa um 12 13 ...................................... 159 Embora admitissem descender dos mesmos antepassados........... Os lingüistas tratam hoje o guarani como um idioma autô- nomo.................................................. quase toda a costa do Brasil Anthony Knivet ........

o galego. povos falantes dessas línguas. 14 15 . o emprego de “tupi” ou — idênticos aos que seriam estabelecidos pela futura fonologia “tupi-guarani” poderá designar a cultura ou o conjunto dos estrutural. Pode ter sido um “u” com lábios não arredondados. por exemplo. por exemplo. pelas ligeiras oscilações em certos aportuguesa- mentos (como “iara” e “uiara”. Foi a ou neolatina. por que optar por coisas como îanaîa ou ûasu? A única exceção — pela absoluta inexistência de som simi- lar em português — fica por conta do y. na sua Arte de gramática da língua mais usada na cos- tupi-guarani é análogo. Tem alcance unica. que soa sempre como em “tora”. Ora. que lhe sugeriu uma ortografia fundada em princípios fônicos É evidente que. Tanto que Gonçalves Dias. é claro. rejeita o conselho do mestre alemão muito semelhantes entre si. para os falantes do português do Brasil. o espanhol. o catalão. nem uma língua. com o crescente prestígio da ciência em de- trimento do bom senso. Digno de nota é o r do tupi. Esta vogal dá a impressão de ser uma mistura en- tre “u” e “i”. ou um “i” gutural. TUPI. que reúne o português. que são os mais imediatamente interessados no idioma clássico. no seu francês. por metonímia. ta do Brasil. o italiano — todas descendentes do latim e Dicionário da língua tupi. O caso da família Anchieta. irrelevantes para a compreensão escrita do idioma. No século 20. derivados do tupi yiara). ao da família românica. se eu posso escrever jandaia e guaçu e ler “jan- daia” e “guaçu”. Quando se diz que duas ou mais línguas pertencem à mes- ma família lingüística. TUPI-GUARANI povo. do ponto de vista lingüístico — e mais difícil de ser pronunciado. por exemplo. Há. que Anchieta e outros grafaram ig. o tupi (como o defini antes) e muitos idio- mas ainda falados no Brasil e países vizinhos. o tendência que prevaleceu. O tupi antigo nunca foi estável. com abaixamento da glote. nem uma cultura. nunca como em “rato”. no que concerne à ortografia. aproxima quanto pode o tupi do português. mesmo no início de palavra. rivam todas de uma mesma língua ancestral. implícito está o pressuposto de que de. outras peculiaridades de pronúncia. o registro escrito do tupi antigo foi ficando mais preciso.TUPINAMBÁ. ORTOGRAFIA TUPI mente teórico e identifica uma família de línguas em que figu- ram.

os primitivos habitantes adqui- riram um conhecimento profundo daquele ambiente inóspito e selvagem. um dos mais antigos e belos painéis da arte rupestre americana. a mais antiga cerâmica do continente. Foi na Amazônia. foram despon- tando na floresta. ricas e originais. Foi tam- bém na Amazônia que se compôs. NO RASTRO DOS TUPINAMBÁ Há pelo menos 11 mil anos — data bem antiga para a Améri- ca do Sul — a Amazônia brasileira passou a ter ocupação hu- mana. cuja manipulação vem de uns 4 mil anos. há 8 mil anos. Ao longo dos milênios. a legendária civilização marajoara e sua típica cerâmica policromática. Falo dos tupi-guarani. E foi na Amazônia que emergiram. Foi na Amazônia que uma grande variedade de plantas foi domesti- cada — entre as quais. em Rondônia — porque é lá que se concentra o maior número de idiomas geneticamente ligados à família tupi-guarani. Numa época ainda muito difícil de identificar. que surgiu. por razões ainda também ignoradas. a mandioca. 16 17 . estendendo sua penetração intelectual até os Andes. Há muitos indícios de que os povos da floresta influencia- ram profundamente a vida de outras populações ameríndias. no início da Era Cristã. também das mais antigas do mundo. na mesma região. e diversas culturas. antes que surgissem as “evoluídas” civilizações andinas. no Pará. mais especificamente na região de Santa- rém. Os antepassados dos povos que falariam línguas tupi-gua- rani viviam provavelmente em torno do alto rio Madeira. um desses povos abandonou sua re- gião nativa para iniciar um dos maiores processos migratórios das Américas.

Tinham uma organização social praticamente anárqui. que viviam na região de Niterói e tão bem documentados no sul do Brasil e no Rio de Janeiro no interior do atual Estado do Rio. em 1549 — haviam feito uma aliança com os franceses. Fa. plantada fenômenos naturais através das estrelas. como eram conhecidos os tupinambá da banda ferindo as matas mais fechadas. pois seus “comandantes” não tinham poder de instituir leis. E que foram Ilha do Governador. Nos tempos históricos. capazes de formar uma armada de até duzentas canoas. para voltar a se expandir no senti. isso crêem alguns que os tupinambá do Maranhão eram origi- 18 19 . porque tinham mulheres e prestígio. viviam entre o norte do Espírito Santo e o sul da Bahia. foram fundadas por causa da aliança entre tamoios e franceses com vinte guerreiros em cada uma. ca. cultivo da mandioca. As tribos tupi — que tentavam estabelecer uma colônia no Brasil. A idéia imediata é a de que os portugueses promoveram um não tinham poder de julgar. Conheciam de memória o As duas cidades do Rio de Janeiro — tanto a extinta. Eram mestres da arte plu. Por isso. Capturavam inimigos apenas para ma- tarde o litoral sul do Brasil. Esses índios também combatiam tribos tapuia — inimigos Talvez não seja coincidência que a cerâmica tupi-guarani que não pertenciam às etnias tupi-guarani e falavam línguas seja policromática. do sul-norte. no saudoso morro do Castelo em 20 de janeiro de 1567 — só ros. Os vencedores não tomavam o ter. de Sousa. e dos tupiniquim. habitantes da desde pelo menos o segundo século da nossa Era. conciliáveis dos temiminó. da foz do rio Paraíba do Sul. não faziam escra- não é difícil imaginar que tomaram o sentido norte-sul. dos maracajá. como a marajoara. — alicerce militar da malograda França Antártica. a França An- entre as quais os tupinambá — plantavam mandioca e dela ex. anuais. ritório dos vencidos. ocidental da baía de Guanabara (mas que povoavam um vasto Esta é. se tornaram inimigos mortais dos portugue- traíam a farinha. pelo eram apenas respeitados. não saqueavam riquezas. bricavam cerâmica policromática. sua fonte fundamental de carboidratos. O que se litoral. de Cabo Frio até Angra dos Reis). e os aimoré. tártica. Os tamoio — certamente antes da chegada de Tomé de buídos desde o Rio Grande do Sul até São Paulo.NO RASTRO DOS TUPINAMBÁ NO RASTRO DOS TUPINAMBÁ Embora as pesquisas arqueológicas sejam ainda incipientes. em vos. Muito se escreveu sobre o extermínio dos índios brasileiros. Faziam verdade que a grande maioria se embrenhou pelos sertões (por guerras constantes. evidentemente. aliados dos tupiniquim e temiminó. Isso é apenas parcialmente verdadeiro. seguidos como exemplo. apenas uma das hipóteses. alcançando mais vantagem econômica. dos na batalha de Uruçumirim (atual praia do Flamengo). Eram grandes canoei. nasci- mapa completo do céu visível e sabiam medir o tempo e prever da na Urca em 1º de março de 1565. e os tupi. Os tamoio. não cobravam tributos. São Paulo ao Ceará. vamos encontrar os guarani distri. não tinham poder de mandar — imenso genocídio. menos no que tange ao século 16 e à extinção dos tupinambá. tar e comer. admirados. mária. eram inimigos irre- sabe é que os estilos cerâmicos atribuídos aos tupi-guarani es. que alguns especialistas arriscam filiar ao tronco macro-jê: samente na bacia do rio Madeira a região onde a mandioca foi como os goitacá. que domesticada pela primeira vez. senhores do litoral e de os tupi (subgrupo dos tupi-guarani) importantes difusores do vastas zonas do interior de São Paulo. é As tribos tupi se dividiam em aliadas e inimigas. ses. e que se localize preci. não buscavam obter nenhuma direção às bacias do Paraguai e do Paraná. e depois no Maranhão. até o Ceará — sempre fugindo do cerrado e pre. que obtinham em função É verdade que os tupinambá foram definitivamente derrota- do talento individual. quanto a atual.

chega a mencionar uma baixa de 60 mil indivíduos. tre. dam de índios. particularmente de tamoias. Nenhuma guerra indígena matava 10% desse Ora. por exemplo. de Joaquim Manuel de Macedo). brasileiros descendem de índios. marca essa epidemias de gripe e varíola. idêntica à que sua mãe deixou nela. Entre os classificáveis como “ne- Embora houvesse interesse e participação dos europeus. aparentemente óbvios. carajá. uma estranha sensação: a de que nós. embora não necessariamente pos- menos com os tapuia — goitacá. po não possua a referida marca genética. guerras do século 16 foram essencialmente de índios contra Dados os percentuais médios de “brancos” e “negros” na índios. aimoré. cos muito recentes. no século 16. Essa foi a razão principal da Os pais não deixam essa marca nos filhos. envolvia alguma forma de violência. assim. nem com os temiminó. foi escravizado pelos portu. num úni- co surto desses.* jaicó. mesmo que parte desse gru- plícitas e enfáticas em demonstrar que houve uma intensa mis. quinto. Os tamoio foram derrotados pelos temiminó. herói da resis. de- gueses (e uma referência a isso aparece. Toda mulher deixa nas células de seus filhos uma certa mar- Mas o que matou os tupi não foram as guerras — e sim as ca genética. as gros”. e muito filhos também descenderão. Todavia. Porque. dígenas apenas por via paterna. considerados pai e mãe. ou 20%. ríndios. que só se membé. cariri. Aimberê ou Pindobuçu — considerados. Aliás. tarairiú. em geral. lação que. nem com os tupi. Por isso nunca o Rio de Janeiro homena. leiros. orgânicas capazes de combatê-las. pode-se afirmar que não menos de um ergueram em Niterói uma estátua de Araribóia. monstraram que cerca de 33% dos brasileiros autodenomi- mórias da rua do Ouvidor. indígena. Mas isso não quer dizer que apenas 20% descen- Fica. comandados por Sérgio Danilo Pena. através e unicamente de suas estavam biologicamente preparados.NO RASTRO DOS TUPINAMBÁ NO RASTRO DOS TUPINAMBÁ nariamente “cariocas”). esse percentual é de 12%. nas indígenas. suam a marca genética específica que identifica isso. é verdade que grande número de ta. curiosamente. são uma ilusão. Anchieta marcas de suas respectivas mães. e muitos outros. Porque as fontes históricas são pródigas. tência aos franceses. estatisticamente. quase todos os bra. guaicuru. Vou geou Cunhambebe. traidores da pátria. Mas esses fatos não são apenas mitológicos. sileiros — são o símbolo por excelência desse Brasil mestiço. caeté ou potiguara. não temos nada a ver com os tamoio. por linha materna. brasi. Estudos genéti- moios. puri. a sendo ele meu descendente. Assim. charrua. Caramuru e Paraguaçu — casal mítico de quem descendem * É. contra as quais os indígenas não que será retransmitida aos netos. 20 21 . nas Me. só nados “brancos” descendem diretamente de uma antepassada não é verdade que essa guerra foi perdida para os colonizadores. mongoió. embora seu genoma não acuse nenhuma marca desse fato. pelo menos 20% dos brasileiros têm linhagens mater- contingente. Por isso população brasileira. dos brasileiros possui antepassados indígenas. possui uma linhagem materna africana — porque herdou esse aspecto da mãe. ex. mas têm neles as extinção de índios. tentar explicar por quê. Se não me engano. ao contrário. não possuíam resistências filhas. o meu caso: meus exames de ADN (ou DNA) revelam que quase todos os baianos e. herda da mãe. seus niquim. pataxó. por descender de in- cigenação entre homens portugueses e mulheres índias — re. meu filho. injustamente. minha linhagem materna é ameríndia. em conseqüência. se o pai de um indivíduo descender de índios. Esses números. é certo que se trata de um descendente de ame- quem pouco depois se somariam os africanos. 36% dos É uma ilusão.

Ou seja. a probabilidade de alguém ter marca genética que in- dique linhagem materna indígena é de 20%. necessariamente. O que se extinguiu foi a cultura tupi- nambá. talvez muito próxima de 100% É SER ONÇA — já que o processo miscigenatório que deu origem ao fenô- meno começou no século 16. que são reconhecidamente an- tepassados dos libaneses. bem antes da geração dos nossos bisavós. não estão extintos. além de pai e mãe. dos quais descende grande parte da população da França. Mesmo com todas as aproximações que os especialistas sa- berão que fiz. a probabilidade de alguém ser des- MEU DESTINO cendente de índios é muito alta. todo mundo é índio. quatro avós. Logo. No mesmo passo. e não sabemos nada do Brasil. são 59% os que descen- dem de índios. considerados os quatro avós — se forem brasileiros —. como eu disse. considerados os bisavós. tanto os tupinambá como outras centenas de etnias indí- genas sobrevivem nos brasileiros modernos. os tupinambá entraram de forma maciça nesse processo. Do ponto de vista bioló- gico. * O mesmo raciocínio se aplica aos fenícios. Porque cada indivíduo tem. Há 15 mil anos somos brasileiros. exceto quem não é — para concluir. seus descendentes imediatos.NO RASTRO DOS TUPINAMBÁ Mas esse número também é falso. É evidente que. ou aos gauleses. no Brasil. no Brasil. mas há uns 15 mil anos.* Não sei o que ainda é necessário fazer para que as pessoas compreendam isso — que não estamos aqui faz apenas cinco séculos. roubando a frase clássica de Eduardo Viveiros de Castro. não são necessárias mais contas para que se pos- sa afirmar que. dada a antiguidade e a intensidade dos con- tatos. tal como existia no século 16. 22 23 . Se. o percentual de descendentes indígenas atinge cerca de 83%.

que incluí no Elegbara: “A primeira comunhão de Afonso Ribeiro” e “O último Neandertal”. Esse entusiasmo me levou a estudar o tupi antigo e a pre- tender um título de doutor em lingüística. Métraux transcrevia excertos da Cos- mografia Universal. Só muitos anos depois. e conviveu com os tu- pinambá. traduzido e comen- tado por Estêvão Pinto. nesse apêndice. obra do frade André Thevet. e foi a leitura desse livro que me chamou a atenção para a beleza e a complexidade do pensamento indígena. retomei o livro de Métraux. não escrevi tese ne- nhuma e todas aquelas leituras me renderam apenas duas nar- rativas. em 2004. Nele. quase que exclusi- vamente interessado em temas africanos. intitulado A religião dos tupinambás — ensaio do antropólogo Alfred Métraux. 24 25 . que não tinha feito antes: li o apêndice. sob a orientação da minha amiga Yonne Leite. com uma tese sobre as migrações pré-históricas dos tupi-guarani. ou pelo menos o pedaço que nos interessa. Mas abandonei a carreira acadêmica. Eu era ainda um estudante de literatura. PREÂMBULO Foi num daqueles velhos sebos do centro do Rio que adquiri — não lembro se comprando exatamente — o volume 267 da famosa Coleção Brasiliana. traz diversas histórias narradas pelos velhos tuxauas e é a fonte pri- mária mais extensa de que se dispõe para o conhecimento da mitologia dos nossos antepassados. E fiz uma coisa fundamental. quando voltei de uma longa imersão pelo universo árabe. em 1555. Esse texto. que fez pelo menos uma viagem ao Brasil.

meio e fim. com início. Muitas vezes é impossível distinguir se um fragmento mí- Explico melhor: embora tenha mostrado um grande inte. dei o mesmo valor a todas as informações. a mesma importância. de fragmentos para que a restauração seja possível. que tinha a termo. no fundo. logo me dei con. o Kojiki. os um processo racional e cumulativo — fundado em princípios similares aos das séries aritméticas —. referiram mitos ou trechos de mitos. Ou por- nes da literatura brasileira — fosse qual fosse a definição desse que o frade não foi capaz de se recordar de tudo. tiva sua literariedade. o especial os temiminó e os tupiniquim. com notas de Eduardo Navarro. Senti. Não mexi na minha. a primazia. Para tanto. portanto. no nível estritamente teórico do seu encadeamento lógico. inimigo falante de tupi. era insufi. que dá unidade às aventu. róis. As per. ou porque os próprios ín- Brasil tinham sido traduzidas para a língua portuguesa. Além do mais. em excessivo exigir isso) o sentido profundo dos textos míticos. Em meia dúzia de casos específicos (que serão identificados oportunamente). tupi que habitou partes da Paraíba e do Rio Grande do Norte. tupi. enjoados das perguntas. Produzi um texto sonagens de cada um dos episódios estavam ligadas por laços novo.* dios. o Livro dos Reis. grupo acentuar os contrastes. traduzir e anotar a versão francesa do frade. A edição é enriquecida com uma tradução do texto de Thevet a que ma beleza. que corresponde a um possível original de parentesco. o Popol Vuh. que o texto tupi — que eu dizia ter restaurado — nunca tinha Apesar de sua forma oral me ser incógnita. utilizei outras fontes primárias. um argumento tolo: o texto tupi não existiu. me refiro. nunca tinha sido texto. como toda narrativa é o Enuma Elish.PREÂMBULO PREÂMBULO Mas — embora possa dar essa impressão — o relato do fra. sido escrito. a mesma gran. É. sanavam. certo haver profundas semelhanças entre as respectivas mito- ras dos diferentes heróis e justifica suas vinculações recíprocas. resse pelas histórias indígenas. mas poderia ter existido. como é assunto fundamental de todos eles. feita por Júnia Botelho. com “tabajara”. Era um texto que teria merecido figurar em todos os câno- O relato de Thevet tem muitas partes incompletas. Por- uma única narrativa. em português. para suprir as deficiências que os dados internos não péia tupinambá à nossa cultura literária. Perdi. 26 27 . Mas nem as partes da Cosmografia que tratavam do deixou de anotar certas passagens. Thevet não percebeu (e seria outros grupos falantes de tupi e inimigos dos tupinambá. Mais que isso: formavam uma linhagem de he.* Nesses casos. importei episódios de mitologias dos tupi * Este livro estava já no prelo quando foi lançada em português uma impor- tante obra de Ferdinand Denis: Uma festa brasileira celebrada em Ruão em modernos e do Ayvu Rapytá — texto guarani de profundíssi- 1550. deza de suas congêneres — como a Teogonia. o Kalevala. Por isso — porque quis fazer literatura — não me limitei a de não constituía mera coletânea de aventuras soltas. O leitor só tem a ga- nhar com as divergências entre as duas traduções. logias. que é bastante similar ao recolhido por Thevet. na estrita acepção do ta de estar diante de uma autêntica epopéia mítica. ou porque conceito. tico é tupinambá ou “tobajara” — como chamo. protagonizando Pessoas que não denunciarei me acusaram de fraude. produzidas essencial- ciente traduzir a prosa confusa de Thevet e recompor a ordem mente por missionários que conviveram com os tupinambá e interna dos episódios: faltava essencialmente devolver à narra. basta um certo número Ese Ifa. um impulso irresistível de incorporar a epo- Assim. o Rig Veda. preferiram abreviar a narrativa. assim. mesma complexidade. o Gênesis. neste livro. grande conhecedor do tupi antigo. que remontava ao princípio do mundo. para * Não confundir “tobajara”.

finalmente. Embora seja um idioma clássico de conhecimento indispensável. a descrição da minha cansativa metodologia e outros comentá- rios pessoais vêm na última parte — e só devem incomodar a especialistas.PREÂMBULO Creio que a reprodução das fontes. Mas posso garantir que explico O MITO tudo isso. 28 29 . substituídos por outro par mítico: “Lua” e “Vênus”. Cumpre advertir. esse imenso esforço talvez não aproveitasse a meia dúzia de leito- res. com o acréscimo de uma versão tupi. ou a ausência dos gêmeos “Sol” e “Lua”. Muitos deles acharão estranhas certas passagens que contrariam as fontes ou o conjunto das mitologias tupi — como o fato de Tamanduaré ser filho de Maíra e não de Sumé. E nem seria necessário: os originais teóricos estão em to- das as línguas. que pus logo depois do mito restaurado. que renunciei a uma restau- ração bilíngüe. quando trato do “cálculo textual”. Para não afugentar os que gostam apenas de literatura. interessará a todos os leitores.

O pau de cavar ia sozinho desenterrar as raízes. Todavia. Foi quando decidiu criar os homens. misterioso e obscuro. projetada pela som- bra das corujas primitivas. quando olhava para cima. só os caraíbas sabem exatamente. se existia desde sempre. que batiam asas negras e eternas. 30 31 . cabeça. E da terra brotavam as árvores. Achou tão bela essa nova criação que quis morar nela. Alguma imperfeição deve ter insinuado no Velho o desejo de criar o céu. ainda via as trevas pri- mitivas. era o Velho. O Velho tinha corpo. Mas o Velho estava só. E o Velho começou a caminhar por ele. concebeu a terra — completamente lisa. braços. e segurava um cajado. o universo era provavelmente muito escuro. Nesse mundo inaugural. o Velho fazia uma chuva fina fecundar a terra. Deve ter sentido uma tal necessidade de beleza que. pernas. para ornamentar o céu. esculpidos em troncos de árvores. e das árvores brotavam os frutos. um ornamento para o céu No princípio. Ou apenas por uma absoluta escuridão. completamente plana. se criou a si mesmo. Para alimentá-los. E o céu foi feito de pedra. totalmente ocupado pelos morcegos originais. Se foi criado. Talvez fosse formado por um espaço sólido.

o Velho chegou numa aldeia — mas.. gurando seu cajado. dizia ele. por que destruir o céu e o seu ornamento?. provocando Parecia que o Velho não existia. enquanto o fogo queimava a terra. Um dia. o Velho voltou para E o Velho. e dançava. E o Velho freqüentava todas as ocas. envolvida pelo mar. “De que me servirá viver se não terei nenhum semelhante?”. viveria sozinho naquele recanto da caminho em que ele ia pisar. Revoltado com a ingratidão humana. O Pajé do Mel assistiu à fúria do incêndio. E agora? Onde faremos nossa oca?” mia com eles. arrastaram consigo as cinzas das coisas queimadas. que não tinha sido ele quem assim uma tremenda tempestade. imaginando que estivessem loucos. para sua sur. pressão. abandonando os homens na terra. ninguém veio limpar o caminho. observando a terra. Então. para que descan. sasse.. Mas a raiva do Velho não ficou só nisso: porque surgiu den. Aquele comportamento foi se tornando geral. Assim. o Velho pôs o Pajé do Mel a salvo do fogo. salgado e de paladar tão ruim. Por isso moldou o Velho a primeira mulher. uma rede. enrugando e en- crespando sua superfície — e formando as montanhas e as de- pressões —. então. havia um que não era O Velho é Túibae. o descaso se repetiu. Mas logo percebeu que a intenção do Velho era ficar no céu. Mel. porque as águas do temporal provocado por Tupã O Velho concluiu que os homens tinham se esquecido dele. Os homens mostravam respeito pelo Velho: limpavam o e que ele. se comoveu. Por isso. a primeira constelação que apareceu mau. entre todos os homens. presa. homens e aniquilava a terra. com seu poder misterioso. O Velho. E as águas torrenciais dessa chuva correram pelas monta- curar outra aldeia. vendo que ela estava toda o céu. ninguém lhe ofereceu E. cinzas de tudo que fora queimado. terra poupado das chamas. os homens apenas comiam. çavam. criara os homens. E Tupã correu pelos quatro cantos do universo. o mar é tão E se sentiu completamente só. O Velho. No entanto. se- céu um fogo devastador. nhas e pelos regos formados durante o incêndio. para que o Pajé tro dele um sentimento novo — o desejo de vingança. bebia e co. “Velho. podia ver o Velho. até encher uma imensa de- E se repetiu novamente. Quando ele chegava. então. que matava os Sem trabalho. para destruir a humanidade. ofereciam uma rede. dando origem ao mar. e choravam diante dele. achou que tinha ficado ainda mais bela. criou Tupã.O MITO > UM ORNAMENTO PARA O CÉU O MITO > UM ORNAMENTO PARA O CÉU As flechas iam sozinhas caçar os animais. ninguém chorou diante dele. E o aguaceiro do céu extinguiu o fogo da terra. 32 33 . arrastando as No entanto. que nunca tinha deixado de honrar o Velho: o Pajé do no céu. numa região hoje desconhecida. o Pajé do Mel. o Velho fez descer do Quando o casal olhava para cima. foi pro. bebiam e dan. do Mel povoasse a terra de homens melhores. e chorava.

Nesse tempo. abandonando a terra onde o Pajé do Mel tinha sido posto a salvo do fogo e onde ainda vivia. Homens e mulheres eram imundos como animais. dei- tado em sua rede. ocas. redes. iam se espalhando pelas regiões incineradas. Como animais. não havia morte. 34 35 . à medida que se multiplicavam. ignoravam como fazer as coisas úteis que. as mães com os filhos. comiam carniça. cheios de pêlos sobre o corpo. cocares. sob o domínio de anhanga Os filhos do Pajé do Mel com a primeira mulher foram se mul- tiplicando. E não sabiam se defender dos espíritos terríveis que desde então habitam o mundo. Era também como animais que se alimentavam: comiam ervas. os filhos do Pajé do Mel se afastaram tanto da terra-sem-mal que acabaram esquecendo completamente o ca- minho que levava a ela. a vida era ruim. flechas e paus de cavar trabalhavam sozinhos. Longe da terra-sem-mal. E. cuias. na terra-sem-mal. se faziam por si mesmas: arcos. que ficara no céu. irmãos com irmãs. A pouca luz vinha do Velho. comiam raízes. só havia noite. Túibae. flechas. não tinham noção de parentesco: os pais dormiam com as filhas. Esse lugar — a terra-sem-mal — ainda conservava as virtu- des dadas pelo Velho: os alimentos brotavam espontaneamen- te. No entanto. Como animais.

entre tia materna e cavam espalhados pelo chão. espíritos que se parecem com homens. ou aparecendo sob comer. entre tio paterno e sobrinha. os espíritos dos mortos que habitam as profundezas das águas terrâneas. que fica rondando o corpo. Naquele tempo. sinar aos homens as coisas que eram boas. Maíra também conhecia o caminho da terra-sem-mal. do Macaxera. Às vezes. Lá. vinham anunciar a própria morte. coroa. a alma Foi Maíra quem ensinou a oferecer presentes. e provocam tempestades. de olhos encovados e cabelos vermelhos. com animais. do Taguaí-pitanga. pesada. eram esmigalhados e afo- gados pelos Ipupiara. Até os mortos — que. adornos de penas e abanadores. amarrando seus pés e suas mãos e aplicando nele uma Era assim o mundo. surgiu um homem Na mata. mãe e filho. mais terror que os anhanga — que são as almas dos primeiros Foi ele o primeiro que tonsurou os cabelos em forma de homens. Quando já muita gente povoava a terra. nas profundezas aquáticas. a en- corpos. entre terem relações com elas. se levantavam para perseguir os vivos. eram vítimas do Cururupeba. Foi também Maíra quem roubou o fogo. narizes. Foi Maíra quem proibiu a carne dos animais lentos e pe- E para fazerem sexo. fazem as mulheres dormir para Foi ele quem proibiu o casamento entre pai e filha. do Ta. nenhum espírito era mais terrível e despertava maridos que depilassem os pêlos pubianos das mulheres. nessa época. chamado Maíra. que E também foi ele quem ensinou a oferecer presentes para fica dentro da cabeça — para o universo escuro das águas sub. que fi. Se entrassem nos rios ou no mar. Tomando a forma de teiús. como flechas. Foi ele o primeiro que depilou o corpo e determinou aos Todavia. mortos no incêndio. que são as almas separadas dos Foi Maíra quem começou a organizar a vida humana. para enganar o Curupira. penetrando no corpo deles. O Abaçaí os destruía. espancar e matar. gerando lagartos em vez de crianças. Maranguiguara. Ainda hoje. as formas mais estranhas. grande surra de açoite.O MITO > SOB O DOMÍNIO DE ANHANGA Nas praias. E assediavam e estupravam as guajupiá — a sombra. antes da chegada dos grandes caraíbas. céu e ser recebido amistosamente pelo Velho. quais faziam mal. invisíveis. eram espancados até a morte pelo Curupira. porque podia subir ao guaíba. os anhanga devoraram os cadáveres. não havia nenhuma espécie Foi Maíra quem primeiro salvou um homem possuído pelo de prazer. sobrinho. E também arrastavam as angüera — a alma mais leve. que devoravam olhos. sados. Foi ele quem ensinou aos homens quais plantas deveriam Mas às vezes vêm até a terra. uma serpente de a assembléia dos pássaros fogo que aparece de repente e mata de repente. 36 37 . para atormentar. eram atacados pelo Boitatá. os anhanga vivem no fundo das águas. Por todos os lugares. não eram enterrados — Foi ele quem deu a rede de dormir e a louça de cozinhar. Abaçaí. dedos e partes genitais. entre irmão e irmã. Maíra não era uma pessoa comum. à noite.

toda a al. com fome. atritou um contra o outro e fez fogo. sua mãe estava morta. outros que não. roubou o fogo do Guaricuja e passou a entre- pássaros. que não se Foi o uso do fogo. fugiu para o céu e nun- deia estava morta. 38 39 . O Caracará arrancou os olhos dele. confiantes. o Jacu passou muito perto da fogueira e saiu to por quem estivesse ali. E o Urubutinga. Na confusão. Mas Maíra imitou perfeitamente a imobilidade dos mortos. Com cuidado. então. Sempre que precisavam de fogo. para comer. E viu: seu tio estava morto. à noite. E se prepararam para o ataque. furiosos. foi se aproximando. que lhes dava um tição. Maíra ensinou como cozinhar os alimentos. O Guaricuja. achando que Maíra estivesse vivo. Os pássaros. neto do Guaricuja. Houve uma debandada geral.O MITO > A ASSEMBLÉIA DOS PÁSSAROS O MITO > A ASSEMBLÉIA DOS PÁSSAROS Certo dia. que fez os homens mexeu. Imediatamente. assustados com a ressurreição de Maíra. terno e sua mãe. porque tinham percebido o movimento dele. serem diferentes dos animais. vam mesmo mortas. com o pescoço em chamas. Fez isso também com a carne dos defuntos. então. com que acendeu uma fogueira para cozinhar os olhos arrancados pelo Caracará. de maneira a não ser vis. Ao redor dos cadáveres insepultos. E Maíra viu: os pássaros se perguntavam se as pessoas esta. Os pássaros chegaram. to dos corpos com cautela. Maíra se aproximou mais para ver e compreender como ele fazia. ca mais desceu. o comer carne cozida. indo visitar a aldeia onde moravam seu tio ma. mas os pássaros notaram sua presença. os pássaros bateram as asas. gá-lo aos homens. Foi quando o Caracará arranhou o rosto do tio. Foi quando Maíra se levantou de súbito. E foi também com o fogo que os homens passaram a afu- Foi quando Maíra viu uma coisa impressionante: gentar anhanga. e todos chegavam per. pegou dois pedaços de pau. para assá- lo na fogueira. Mas proibiu que fizessem mal ao Guaricuja. Uns diziam que sim. Maíra percebeu um estranho silêncio. quando saem da oca. Maíra se fingiu de morto. rodearam Maíra. havia uma assembléia de Maíra. poderosa ave de rapina. como se estivesse voltando da morte. e começou inclusive a cheirar como se tivesse a carne em de- composição. as pessoas iam até Maíra.

e violou a lei do incesto estabelecida por Maíra. subiu sorrateiro na rede da própria irmã. uma enorme maça capaz de arrebentar o crânio de uma pessoa. Ajuru pressentiu al- guma coisa de anormal. Suaçu. Ajuru esperou Suaçu dormir e esmigalhou. que estava grávida. e Sumé deu a ele a ibira- pema. conforme a lei ensinada por Maíra. não era. veio mo- rar Ajuru. Mas Maíra não conseguia matar Sumé. Todavia. demanda da terra-sem-mal Maíra. irmão de Inambu. com a ibirapema. nem todos faziam as coisas como Maíra ensinava. parente de Maíra. nem Sumé conse- guia matar Maíra. que não reagira. o único a fazer maravilhas. parente de Sumé. naquela época. entre muitos poderes. o inimigo de Maíra. na taba de Nhandutinga. Assim. Inambu. À noite. por causa de uma mulher que os dois compartilharam e engravidaram ao mesmo tempo. que vinham até suas mãos sem que ele precisasse pescar. Ajuru vinha para servir ao sogro e se casar com Inambu. Embora a mulher tivesse ficado calada. que tinha. quando estavam no mato. Indignado. aproveitando o momento em que Ajuru saíra para a caça. a arte de se transformar em onça e de conversar com os peixes. E Ajuru convidou Suaçu para fazerem uma caçada. Sumé era inimigo de Maíra. Certo dia. Havia também Sumé. Ajuru jurou vingança. Sumé revelou a verdade a Ajuru. dentro de uma cabana feita de bambu. também ficou grávida de Suaçu. E seus parentes viviam em paz. E foi consultar Sumé. 40 41 . a cabeça do cunhado.

passava por entre as per. Indignada. a dança do veado. ex- defecava era diferente. em vão pro. pelo cheiro. mos- Muçurana. E passaram a dançar em volta dele. No entanto. Foi quando surgiu Inambu. ceto por Uiruçu. se despediu do marido. E elas riram dele. à noite. os seguiu. mato. Na hora aprazada. de Ajuru passaram a se vingar. E eles beberam cauim com Ajuru. e os de Suaçu se vingavam de novo. perto da taba de Nhan. incêndio. o odor da carne do Os dentes viraram colares. permite o acesso à terra-sem-mal. Uiruçu dançou na frente de Ajuru. nas dos homens quando viu Ajuru se abaixar no meio do mato Uiruçu ganhou um nome novo e fez uma incisão no corpo. e o obrigaram a dançar Os outros homens. para ganhar um novo nome. num dia em que os homens foram ao rio. Todavia. para se confraternizarem. foi posto na entrada da taba. que dentada tão forte que arrancou um pedaço da carne. Quando chegaram à taba. que Nhandutinga amarrou Ajuru. tão forte que lhe arre- Disfarçada numa enorme cobra. o corpo de Suaçu — que ficara assado com o em cobra. curaram Suaçu. a angüera do filho que pedia vingança. esfacelando cançado por Nhandutinga. os de Ajuru. Nhandutinga. transformada novamente meu. o crânio próprio filho. com um dente de cotia. então. o Ma. Suaçu. Ajuru não sentiu medo e injuriou Uiruçu. como você é papagaio. gritou para que todos agarrassem Ajuru. Muçurana saltou sobre Ajuru e deu nele uma Assim é a vingança — o grande ensinamento de Maíra. para não ser descoberto. E Inambu. e fazer suas necessidades. pôs fogo na cabana e co. constatando que a acusação da velha E os homens se dividiram em metades canibais: os parentes era verdadeira. a mãe de Suaçu. dizendo que Suaçu tinha se perdido no coço dos pássaros. voando fugiria”. o crânio dos inimigos. que a comida que Ajuru A carne de Ajuru foi moqueada e comida pelos outros.O MITO > DEMANDA DA TERRA-SEM-MAL O MITO > DEMANDA DA TERRA-SEM-MAL Todavia. chorando. Ajuru foi entregue à guarda das Quando Ajuru voltou. os ossos viraram flautas. todos perguntaram onde estava mulheres. dizendo: “somos nós que estiramos o pes- E Ajuru mentiu. inteiro. que de nada desconfiavam. sentiu as pernas ficarem pesadas e foi logo al. em homenagem ao espírito de Suaçu. Os guerreiros vingavam seus parentes mortos. Ajuru tentou çu. bentou a cabeça. matando e comendo fugir. E não tardou a reconhecer. Muçurana percebeu. a angüera de Suaçu enviou um mensageiro. dizendo que seus Então. ruçu e depois devorado por todos os parentes. matando e comendo os de Sua- Ao se ver cercado pelos parentes de Suaçu. Muçurana parentes viriam vingá-lo. tocando suas flautas e batendo com os pés no Nhandutinga determinou que Ajuru seria morto por Ui- chão. correndo. A taba esperou ansiosa a execução do prisioneiro. compreendeu a mensagem: era trando como ia matá-lo. E foi com a própria Muçurana. trazendo a ibirapema. E o Matintaperera cantou. Ajuru levou uma pancada na nuca. tintaperera. nas fezes. dutinga. 42 43 . E ela jurou se vingar do assassino.