Protopia Ensaios de Outros Topos

Apresentação

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"Será que vivemos nós os proletários, será que vivemos? Será que os fracos remédios que tomamos não seria a doença que nos corrói?" Guy Debord - A Sociedade do Espetáculo “Convido a todos para uma aventura coletiva de diversão generalizada e de livre interdependente exuberância" Bob Black Blocos de guerreiros vestidos de negro enfrentam o aparato repressivo do estado, rizomas de rádios livres e comunitárias se contrapõem a mídia corporativa, levantes camponeses e povos indígenas se insurgem contra multinacionais, redes de okupas questionam a especulação imobiliária. Ao contrário do que a mídia de massas nos mostra, hoje o mundo explode em mudanças rápidas e promissoras e cada um delas é somente mais uma peça no mosaico deste tempo em movimento. O futuro não é mais de fato como era antigamente, e esta frase nos lembra o quão negro o futuro nos pareceria se não fosse nossa própria capacidade de intervir ativamente no mundo atual implicando assim no que está por vir. A Protopia é a nossa proposta de intervenção neste estado de coisas, num mundo que depende de nossas ações congregadas para que possa existir. O fim da História é um fato cotidiano, aconteceu e ainda acontece todas as vezes que ao invés de assumirmos um papel ativo em seu rumo, cruzamos os braços e deixamos a maré conservadorismo político institucional jogar tudo o que somos no abismo de uma passividade de

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eleitor-consumidor. Protopia é a virada da maré, uma estratégia de reterritorialização que busca antes de tudo a tomada de um papel ativo na construção de espaços libertários. Nada mais excitante que ser o propagador do incômodo daqueles que um dia se pensaram como senhores da história. A utopia enquanto impossibilidade de superação desse sistema e de todos os males sociais que nos cercam é uma mentira que durante muito tempo foi repetida por muitas bocas e ganhou ares de 'verdade'. O topo só é inalcançável quando desistimos de alcançá-lo. Protopia é a topia possível; uma proposta de escalada coletiva, simples, e ao mesmo tempo subversivamente complexa, destinada para aqueles já não se contentam mais em alardear que o rei está nu. Para quem interessar possa, protopia em onze passos: 1 - Desista de esperar pela revolução popular, pelo messianismo comunista e por todos os milagres que prometem as propostas reformistas dos sociais-democratas. (isso nunca vai dar certo e as experiências históricas bem mostram). 2 – Fuja de todas as formas de ação espetaculares, sempre que elas forem pró-sistêmicas, ou se constituírem em alguma forma de escapismo. Abandone igualmente todas as ações que não levam a lugar algum como o tédio e a revolta gratuita, a loucura isoladora, a depressão e a hipocôndria. Saber-pelo-saber e arte-pela-arte só incorrem em mesmice... 3 – Parta secretamente em busca do Y, da conjunção de vontades, iniciativas e projeções, busque o encontro oculto e se desloque para longe dos centros de poder e dos mecanismos da sociedade de controle. Busque outras pessoas de ímpeto livre, constitua formas de ação coletiva até o surgimento de uma comunidade intencional. 4 – Não pague mais impostos, busque investir seus recursos

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e seu tempo na busca coletiva por autonomia energética, habitacional e alimentícia. Estabeleça relações de troca de bens e serviços com grupos camponeses, ecovilas libertárias, organizações populares, aldeias indígenas e comunidades quilombolas. 5 – Dê preferência por tecnologias limpas e renováveis, técnicas em equilíbrio com o meio como a permacultura e o earthship. Quando se é vizinho da sociedade do desperdício, a macro-reciclagem pode ser algo muito interessante. (pneus não são só pneus, mas um monte de coisas em potencial.) 6 – Promova a comunicalidade ao isolamento, se desloque sazonalmente, se inicialmente não for possível viver fora da Máquina em tempo integral, divida seu tempo entre seu velho cotidiano e a criação dessa nova forma de sociabilidade.

7 – Aja pelo crescimento deste rizoma de zonas autônomas, estimule e auxilie outros grupos no surgimento de novas comunidades. Escolha os pontos cegos do sistema, as zonas proibidas e outros setores do mapa onde o capital seja fraco e o estado omisso. Mutualidade, união e troca não têm preço em um mundo onde o sistema vence pela hostilidade, pela competitividade e pela divisão, prepare-se para assistir ao surgimento dos enclaves libertários. 8 – Constitua um imaginário local compartilhado, pontos de encontro, grupos de estudos, espaços de vivência, e principalmente, circuitos de festas e dias de celebração. Cada pessoa livre do mundo-cão, e cada pedaço de solo libertado, são por si só motivos a se festejar.

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9 – Prepare-se secretamente para a reação do estado e do capital. Assim que a tática for descoberta, pode ter certeza que manejarão seus aparatos de difamação e repressão contra você. Esteja sempre articulado com a rede. Não motive conflitos (antes do tempo), a cada operação de opressão bem sucedida quem marca ponto são eles e não nós. 10 – Lance sorrateiramente através da Web ataques ocultos aos pilares do sistema, propagandas de libertação e popularização do pensamento libertário; manuais de como abandonar o caos capitalista e construir (ou fazer parte de) comunidades autônomas fora do mapa. Em um destes espaços autônomos, cercado de pessoas libertas a vida certamente valerá a pena. 11 – Busque o empoderamento do coletivo no desempoderamento do estado e do capital, mas não caia de amores pelo poder. Enquanto iniciativa o Protopia está em permanente reconstituição. É aberto a todos que queiram efetivamente participar, e todos que possam se identificar com a proposta e que queiram tomar parte nela são bem vindos. Estamos no início de tudo e qualquer um pode contribuir com as suas próprias idéias ou ações, ou como bem entender.

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Perguntas Frequentes

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O que você gostaria de saber sobre o Protopia mas nunca teve para quem perguntar! 1.Qual é Protopia? o objetivo da

A palavra protopia foi cunhada a partir da junção do radical latino pro que significa em "favor de" com o radical grego τόπος, "lugar". Seu sentido é, ao mesmo tempo, 'lugar favorável' e 'em favor de um lugar'. Em contraposição a idéia de utopia ("não lugar" ou "lugar impossível"), protopia trata da projeção de espaços onde possam se reunir aqueles que almejam a possibilidade de viver uma vida libertária construindo um futuro em comum. Se organizando em redes que vão buscando entre as pessoas de fora outros que queiram se libertar para constituir mais desses espaços. Dentro destes 'lugares favoráveis' que chamaremos de 'zonas libertárias' as pessoas vivem e garantem sua sustentabilidade. São organizadas cooperativas através das quais são produzidos bens e serviços a serem utilizados ou trocados com outras zonas libertárias. Também acontecem mutirões de trabalho coletivo para tarefas de construção e manutenção. Entre diferentes zonas vão se formando relações de apoio mútuo e redes econômicas, circuitos de festas e de viagem. E o mais importante: vidas plenas e prazerosas, festas, uma grande aventura de interdependência. Os objetivos de Protopia são: 1. consolidar uma rede de zonas libertárias. 2. servir de inspiração prática para as pessoas que não estão nesta rede através da propaganda pela ação. 3. servir de refúgio para os que compreenderem e se engajarem em sua proposta. 4. consolidar uma rede zonas libertárias de defesa mútua.

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5. derrubar pouco a pouco a influência e a necessidade do capitalismo e do estado agindo com ações práticas mas principalmente agindo no imaginário de quem quer que seja. 2. Como fazer para torná-la realidade? Na verdade isso já começou a se tornar realidade. Já existem grupos engajados em adquirir espaços rurais em alguns lugares para transformá-los em zonas libertárias. Alguns dos gestores dessa página fazem parte de um deles. Mas uma coisa é a gestão da página, outra é a criação de uma zona libertária. Para tornar realidade você só precisa fazer parte de um desses coletivos. 3. Posso fazer parte do coletivo? Se você quiser sim. Estamos sempre abertos a novas componentes e novas idéias! Mas também lhe sugerimos que busque no seu próprio meio criar um grupo. Anarquistas, libertários, autonomistas e filósofos inconformados; Punks, Rash´s, guerrilheiros e andarilhos sem rumo; Ecologistas, ativistas, zapatistas e agricultores rebeldes; Xamãs, rastafáris, discordianistas e ocultistas oprimidos; Quilombolas, indígenas, aborígenes e povos da terra; sejam bem-vindos, pois só com muitos grupos podemos criar uma rede. Porém é muito importante que você e quem mais esteja interessado em participar do seu 'projeto' possua conhecimentos práticos em coisas como marcenaria, construção, agricultura, elétrica e outras áreas que o capitalismo lançou na marginalidade. Conhecimentos como estes são úteis em muitas situações e permitirão que seu grupo consiga ampliar seu grau de autonomia mais rapidamente. 4. Como posso ajudar? Você pode contribuir propagando idéias através dessa página, por meio de textos e filmes, alterando-os ou mesmo criando novos. Ainda, se souber inglês ou espanhol,

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pode traduzi-los ou auxiliar nas traduções já iniciada. Pode também colocar novas imagens nas páginas e propor novos conteúdos. E principalmente pode dialogar conosco, manter contato, trocar idéias e divulgá-las. Se você quiser fazer parte do nosso coletivo de ação a coisa fica um pouco mais difícil. Você precisa mandar um e-mail com seu contato para o endereço protopia@onenetbeyond.org se apresentando, bem como quais são suas espectativas com relação ao projeto dizendo-nos também onde você mora para que possamos lhes indicar alguns contatos para um encontro cara a cara. 5.Percebi que estão fazendo livros, como poderei comprá-los? Se você faz questão de comprá-los eles estarão disponíveis tanto pela editora Deriva quanto pela editora Desvio. 6. Tenho textos libertários ótimos aqui. Vocês se interessam? Claro! poste eles em páginas novas no wiki para que possamos ler, difundir e, quem sabe, até publicar. 7. Tenho textos libertários ótimos numa língua estrangeira. Vocês se interessam? Claro, nossa idéia é traduzir tudo de bom quanto possível. 8. Vocês realmente autônoma? pretendem criar uma zona

Pretendemos criar uma zona autônoma nos próximos anos. Já existe um grupo de mais de 20 pessoas engajado nesse projeto que é só uma questão de tempo para se concretizar. Além de criar diretamente uma nossa intenção é apoiar das maneiras que nos forem possíveis o surgimento

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de outras zonas autonomas libertárias onde quer que elas estejam. 9. Essa zona autônoma fica no Brasil? Sim. Num local importante, a ação o é! 10. Onde ela fica? Essa é a pergunta crucial que merece outra pergunta como resposta. Seria mesmo prudente escrevermos isso aqui? Esta zona autônoma entrará no mapa no dia em que a última barricada for recolhida, e a última ruína em chamas apagar na tempestade mais restauradora de todos os tempos... Existem outras igual a ela, e outras tantas com finalidades parecidas, encontre uma ou a construa. Se quiser saber de verdade onde ela fica terá que sair da frente do computador e encontrá-la por si mesmo, ou seguir os passos descritos na resposta da questão 4. 11. Posso participar dessa zona autônoma? Sim, desde que a encontre e tenha uma compreensão aprofundada da proposta, concordando com alguns preceitos coletivos básicos. 12. Mas todas essas zonas libertárias são iguais? Não mesmo. Cada zona é resultado das inclinações e referências de seus habitantes e articuladores. Existem projetos hoje que estão assumindo uma proposta mais primitivistas, enquanto outros se alinham com a proposta zapatista dos caracóis. Existe outro que pretende ser também um espaço de divulgação de tecnologia alternativa. E com o tempo certamente outros surgirão. Então esquecido. O espaço não é

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provavelmente as pessoas interessadas vão se alinhar mais com um espaço do que com outros a partir da sua forma de ser e das suas aptidões. 13. Quanto a crenças, posso ter qualquer uma nesta zona? Claro que sim. Mas você deverá lembrar que ninguém é obrigado a sustentar as mesmas crenças que você. Você pode ser judeu, islâmico, cristão, espírita, hare krishna, budista, vegetariano ou acreditar que o monstro da macarronada é que nos rege. O importante é que aceitar que os outros podem ter (ou não ter) quaisquer crenças. 14. Há restrições quanto orientação sexual? a

De forma alguma! Desde que você não seja pedófilo ou ache estupro uma forma natural de praticar sexo, você pode fazer o que bem quiser com o seu corpo. 15. Posso andar pelado por lá? Sim pode. Pelado pelado, nu com a mão no bolso. Mas se isso é o mais importante para você, sugerimos que procure um clube de nudismo. Estamos mesmo é por uma vida autônoma e livre da hierarquia e da exploração. 16. Vocês irão consumir produtos animais? Da mesma forma que respeitamos vegetarianos e vegans, respeitamos também carnívoros e onívoros. Respeitamos até canibais, desde que eles mantenham seus ímpetos homicidas e se alimentem de Hufu. Brincadeiras a parte, sabemos que a civilização atual perdeu a conexão sagrada com o alimento e a criação de animais é cruel e beira a insanidade, portanto apoiamos a luta pelos direitos animais e propomos uma revisão de valores seguindo uma

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lógica equilibrada, para alcançarmos nossa autonomia. 17. Mas e se eu faço parte de uma gangue de motoqueiros acéfalos violentos (1)? Mas se sou um militante orgânico do PC do B (2)? Gangues e partidos são algo que está fora do nosso projeto por entendermos que são divisões desnecessárias geralmente irracionais que fomentam comportamentos agressivos/dominações, ódio e competitividade entre pessoas que de outra forma poderiam conviver muito bem juntas. E não estamos dispostos a sofrer qualquer tipo de violência eleitoreira ou ganguista e ficarmos de braços cruzados. No entanto, se você parar de sujar nosso espaço com seus panfletos (2) /se parar girar a sua corrente ameaçadoramente no ar (1), se deixar sua jaquetinha junto da moto (1)/ se deixar sua camisa e sua bandeira vermelhas com uma foice e um martelo em casa (2), talvez seja possível que aceitemos você em nosso meio. Mas não tente testar nossa paciência... 18. O projeto protopia se restringe a criação de uma zona autônoma? Como um clubinho anarquista escondido do mundo e voltado pra si mesmo? Não. O protopia é um projeto que pretende criar, traduzir e difundir conhecimento libertário para a criação de ZonaS AutonomaS (no plural, ahn?), e ao mesmo tempo fomentar através de ações o surgimento de ZonaS AutônomaS. Estas não são um fim em si mesmo, mas fazem parte de um projeto de libertação mais amplo de embate contra o sistema capitalista e a sociedade de classes e o "modo de ser" que deles decorre. 19. Mas como isso pode ajudar as pessoas que não estão vivendo na Zona Autônoma? É simples, vamos fazer algo que se faz a milênios, nos baseamos nos exemplos de uns e nos tornamos

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exemplo para outros. Estamos empenhados em uma forma de propaganda pela ação. Se nos tornarmos exemplos de uma forma de vida mais digna e menos difícil fora da Máquina de moer vidas, todos os que estão sofrendo as agruras do capitalismo irão de bom grado virar as costas para o sistema assim que perceberem essa forma como viável. Se uma parte da população começar a vislumbrar como possibilidade para suas vidas trocarem a vida do campo ou da cidade pela vida nas Zonas Autônomas estaremos no caminho certo. Obviamente essa mudança nas relações exige uma mudança de perspectiva e de autoentendimento. Mas se essas lugares começarem a surgir em profusão e conseguirem se relacionar e ao mesmo tempo garantirem sua autonomia, circulação de coisas e pessoas, calendários de festas e redes de solidariedade e mutualidade, capitalistas e estadistas vão ter um problemão. 20. Como vocês pretendem se sustentar nesta zona autônoma? Existe uma infinidade de possibilidades nesse sentido. Podemos criar cursos de difusão de certos conhecimentos para os pequeno burgueses que puderem pagar por eles, e oferecê-los de graça para grupos e comunidades sem recursos. O trabalho no interior da área está sendo pensado nos termos de cooperativas que agreguem as pessoas por interesse, assim cada um faz aquilo que achar mais interessante. Podemos plantar alimentos (inclusive cogumelos, os comestíveis, certo?) e outras coisas, fabricar cerveja e livros, zines e camisetas, inclusive alguns de nós já possuem experiência em cada uma dessas iniciativas. Podemos trocar com grupos de camponeses, sem terra e indígenas. Alguns de nós podem ainda manter uma vida transumante entre a cidade e a "área" com um emprego de (por exemplo) médico ou professor, uma fonte de recursos indispensável para atingir graus de autonomia primários de infraestrutura.

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21. Haverá restrições tecnológicas nesta zona? Ao contrário dos mais primitivistas não demonizamos a tecnologia por si só por compreendermos que tecnologia é tudo aquilo que os humanos criam intencionalmente através da reflexão e do desenvolvimento de técnicas. Muita coisa interessante pode ser construída com materiais recicláveis, lixo da sociedade do consumo, tudo aquilo que é jogado fora e que se torna um problema ambiental. Se temos uma tecnologia em mãos é importante saber o tempo todo que ela é que deve trabalhar para nós e nos poupar dos esforços de trabalhar para ela. No entanto, nenhuma tecnologia é imprescindível e aquelas que queremos adotar seguem alguns princípios básicos: não devem resultar, nem serem elas próprias resultados de relações de dominação de qualquer tipo, nem podem ser nocivas ao meio e devem preferencialmente fomentar a convivialidade e o bem estar coletivo. Claro que vemos a adoção de tais tecnologias de forma processual, a nível de exemplo ninguém vai entrar em crise por que alguém ter ligado um motor a diesel para fazer funcionar uma bomba de água até termos a possibilidade de construir nós mesmos bombas de água a energia eólica. Autonomia é a nossa principal meta. 22. Mas afinal de contas o que é autonomia? Autonomia merece uma definição a altura. Implica na possibilidade se estabelecer graus elevados de independência no seu sentido intelectual, gestionário (no caso viver em uma estrutura libertária autogestionária) e substancial (alimentar, energética e habitacional), de um grupo humano com relação a outros grupos humanos (cidades, países e empresas). No entanto, não se deve confundir autonomia com isolamento. Autonomia é a possibilidade de se relacionar com outrem pelos preceitos da não-dependência e da não-dominação, assegurando o fomento de relações de simetria com àqueles com os quais nos relacionamos. Para nós autonomia e anarquia andam juntas.

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23. Então vocês são anarquistas?!? Estou ficando com medo!

Calma, anarquistas geralmente são pessoas adoráveis que simplesmente não querem dominar nem ser dominadas, e que acreditam que o autoritarismo e suas decorrências são maléficos para as relações humanas. É verdade que alguns anarquistas têm uma aparência diferente com dreads e moicanos, e também é fato que alguns deles ficaram meio ressentidos com o passar do tempo com os poderes do mundo, mas se você não é um explorador nem faz parte do aparato repressivo não há o que temer. A maioria dos anarquistas só deseja viver sem ter que agüentar coisas desagradáveis como impostos e imposições, políticos parasitas e capitalistas exploradores. Talvez meio que inconscientemente você já seja um pouco anarquista sempre que se dá conta o quanto essas coisas são injustas e como o mundo seria melhor sem elas. 24. Não tenho certeza se essa proposta dará certo. Por que vocês se dispõem a correr o risco? Não é uma questão de escolha. Toda geração tem sua chance de fazer alguma coisa. Alguns de nós simplesmente preferem se arrepender daquilo que fizeram a viver o resto de suas vidas na dúvida do "e se eu tivesse feito...". Também não é uma questão de escolha não existe outra alternativa mais interessante de se fazer política na prática e buscar uma transformação maior que não passe pela transformação de nossas vidas cotidianas. Risco para nós seria permanecer num sistema degradante e excludente cada vez mais desumano sem buscar por alternativas viáveis. E afinal de contas este é um projeto que nos traz empolgação, vontade de viver e animação, nele podemos vislumbrar possibilidades que não são alcançáveis para a maioria das pessoas em seus projetos individuais de uma vida segura que, na melhor das hipóteses acaba com uma terceira idade da aposentadoria compulsória, na qual filhos

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e netos na sua presença, lhes tratam como se já não estivessem mais lá. A verdade é que não há tempo a perder! E estamos atrás no placar! Seja a revolução!

Manifesto descalculista

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incitar a todos a evitarem a colonização calculista sobre suas vidas. convidar as pessoas a abandonarem a taboada o calculo e a mensuração das genialidades! a inteligencia eh uma rede distribuída ou ela não é nada! joguem fora suas calculadoras de bolso e regras de três corpos repetentes das séries do ensino fundamental, uni-vos! a matemática só trouxe desgraça para nossas vidas seremos anti-pitagóricos até alcançarmos o triunfo da forma sobre o número! sempre fomos descalculistas sem o saber quantos será que não estão nesta condição? sendo reprovados, corpos rejeitados o descalculismo como estilo de vida, como condicao ontológica, eu acrescentaria

HOUAISS Calculista n adjetivo e substantivo de dois gêneros 1 diz-se de ou aquele que faz cálculos; calculador 2 diz-se de ou indivíduo que, de maneira fria, é interesseiro, cobiçoso, egoísta; calculador

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Manual de Ação Direta

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No mundo todo as ações anti-capitalistas surpreendem pela criatividade, participação, diversidade e organização. Os treinamentos realizados antes das ações foram, em boa parte, responsáveis por tais inovações. Aqui um coletivo treinado por ativistas que ajudaram na organização dos protestos de Seattle, Washington e Praga passa um pouco do que aprendeu e de sua própria experiência. O manual consiste em 3 partes básicas: 1. desobediência civil 2. Primeiros socorros 3. leis, direitos e segurança DESOBEDIÊNCIA CIVIL DESOBEDECER para demonstrar uma posição de não aceitação a uma regra, lei ou decisão imposta que não faça sentido e para não se curvar a quem a impõe. É este o princípio da DESOBEDIÊNCIA CIVIL, violenta ou não. A NÃO VIOLENTA tende a demonstrar mais a violência inerente a tal imposição uma vez que obriga os agentes defensores dessas regras usarem a força contra o praticante da desobediência que está apenas agindo da maneira que acha correto, se negando a seguir as decisões tomadas por outras pessoa sobre sua vida sem agredir ou revidar quem está tentando o impedir. A VIOLENTA é uma ação onde a desobediência não é passiva, ou seja, se ocorrer atos violentos por parte da polícia, por exemplo, ocorrerá uma reação dos manifestantes da mesma altura. Mas o que é violento é muito pessoal: se para alguém atirar pedras em um prédio é um ato violento, para outros pode não ser. Por isso é necessário que todos tenham clareza sobre o caráter da manifestação e que sejam discutidas as noções de violência previamente. Lembre-se que o que eles fazem conosco todos os dias é uma violência, a desobediência violenta é uma reação a isso e, portanto, não é gratuita, como eles tentam fazer parecer. A opção por um tipo de ação deve ser feita ANTES

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DA AÇÃO, e RESPEITADA DURANTE ELA. Se, por consenso, for decidido por uma ação não-violenta, ninguém deve tomar uma atitude violenta, pois pode pôr em risco seus companheiros e sobretudo estará os desrespeitando. Se a decisão foi por uma ação violenta, quem está participando deve estar ciente disso e dos riscos que podem ser acarretados. Neste manual iremos tratar da desobediência civil não violenta. POSTURAS BÁSICAS PARA QUALQUER ATO MANTER A CALMA: tranqüilos mantemos a nossa capacidade de concentração mais alta e podemos ter reações mais conscientes. Não há motivos para nenhuma espécie de pânico, a polícia quer que você sinta medo: não faça o jogo deles! OBSERVAÇÃO é muito importante que se mantenha atento a tudo que está à sua volta. Dessa forma você poderá ter uma idéia mais clara do que está acontecendo. CóDIGOS DE VOZ: Procure saber quais são os códigos que estão sendo usados. Esses comandos de voz são espécies de sons ou palavras que são previamente combinadas e que quando emitidas têm um significado comum para os manifestantes. MANTER 0 CORPO RELAXADO, mesmo na situação mais tensa, facilitando sua concentração. Sua reação a qualquer imprevisto ou ataque/choque físico e, principalmente, que se machuque menos com possíveis pancadas. BLOQUEIO Uma tática difundida de desobediência civil é o BLOQUEIO de uma área pelos manifestantes. Durante a manifestação, quando a polícia intencionar dispersar as pessoas, os manifestantes se aproximam e se

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postam à frente da polícia, fechando uma rua ou passagem e se posicionando da melhor forma possível para cumprir o objetivo da manifestação. A idéia é que a polícia, usando de uma pressão psicológica, não disperse os manifestantes com a sua simples aparição. Existem muitas formas de bloqueios (fazer barricadas, usar aparelhos ou correntes para se prender em passagens e queimar pneus são alguns exemplos), que podem ser aprimoradas e serem criados de acordo com as práticas e necessidades. Aqui trataremos apenas de um tipo muito difundido, o BLOQUEIO SENTADO: Todos devem SENTAR BEM COLADOS uns nos outros, não deixando espaço para os policiais andarem entre os manifestantes. Não se deve cruzar as pernas pois isto dificulta um recuo rápido. Cruzar os braços com os manifestantes sentados ao lado dá mais firmeza e segurança ao bloqueio. Não se intimide com a proximidade da polícia: lembre-se que está ali por um objetivo. Você luta por uma causa, e essa luta não é em vão. Todos estão sendo protegidos pelos observadores legais. 0 que você está fazendo não fere ninguém e não passa de seu direito. As pessoas que estão na frente do bloqueio são muito vulneráveis. Por isso devem estar preparadas já que os policiais têm a tendência de escolher e marcar uma vítima para bater ou prender, e quem está nas margens tem muito mais chance de ser o escolhido. Uma forma de evitar que as pessoas se machuquem muito é o RODíZIO DE POSIÇõES, dividindo as pancadas entre todos os manifestantes: 1 - Quem estiver mais atrás deve ficar atento ao que acontece na frente do bloqueio e estar pronto para ajudar pessoas que tenham sido escolhidas como vítima pelos policiais. 2 - Os RESGATANTES devem ter CUIDADO E CALMA para

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puxar a pessoa atacada para trás. 3 - 0 RESGATADO deve confiar em seus companheiros, se manter RELAXADO e ter cuidado para NÃO ESTICAR AS PERNAS, porque elas podem virar alvo fácil para a polícia. 4 - Quem estiver dos lados e atrás do resgatado deve se posicionar de forma a ocupar o lugar dele. Esse resgate deve ser feito pelas pessoas que estão próximas ao resgatado. Quem está mais atrás deve apenas gritar para registrar alguma violência ou outros códigos de voz, essas pessoas NUNCA DEVEM SE LEVANTAR, pois tiram a visão de quem estiver registrando os abusos da polícia e podem dispersar outros manifestantes. Os participantes do bloqueio não devem negociar com os policiais. Deve existir alguém de fora do bloqueio responsável por negociar com o comandante da tropa. USANDO ESCUDOS Várias ações podem ser feitas com escudos. 0 bloqueio sentado é uma delas: é muito mais seguro para as pessoas que estão nas margens, embora ainda seja necessário o rodízio. A diferença está no fato de que as pessoas da primeira fileira usam UM ESCUDO NA POSIÇÃO VERTICAL e as pessoas que estão imediatamente atrás deles colocam por cima das cabeças dos primeiros, para que seja UM ESCUDO DE POSIÇÃO HORIZONTAL. Escudos também podem ser usados para tomar posições frente à polícia: pessoas enfileiradas usando escudos de câmara de caminhão, frente à frente com a polícia, são empurrados sucessivamente pelos seus companheiros (enfileirados logo atrás) contra a polícia, forçando o recuo da tropa. APANHANDO DA POLÍCIA Caso seja inevitável apanhar da polícia existem

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alguns procedimentos que podem diminuir as conseqüências. Veja a figura, essa é a melhor posição para se proteger os órgãos internos, as mãos e o pescoço, deixando as pernas e braços mais expostos. LIDANDO COM ANIMAIS Durante uma ação é possível que surja uma situação onde haja confrontos envolvendo animais. Se você defende a proteção ou libertação animal, vai precisar fazer uma escolha: agora é ele ou você. CAVALOS: A assustadora, porém eficiente, técnica de impedir a passagem da cavalaria funciona com os manifestantes deitando lado-a-lado (sem espaço entre eles) inclinando levemente o tronco para formar uma superfície ondulada, pela qual os cavalos não passam. Só se pode usar essa técnica quando os cavalos não estiverem com muita velocidade. E lembre-se inocentes bolinhas de gude são ótimas contra a cavalaria. CACHORROS: Essa é uma situação difícil. Lembre-se de NÃO OLHAR 0 CACHORRO NOS OLHOS. Procure acalmar o policial, converse com ele e não se mostre nervoso. POLICIAIS: Funcionam apenas seguindo ordens de seus comandantes, portanto não adianta negociar com eles. A negociação vai ser feita por alguém encarregado de falar com seus superiores. Olhe sempre nos olhos deles, não ofenda e sempre peça calma. Mostre que você está confiante: a principal arma deles é o medo. Eles usualmente marcam algumas pessoas para perseguirem, por isso lembre-se de ter peças de roupa

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diferentes da que você está usando na mochila (por exemplo usar uma camiseta amarela e ter uma vermelha na mochila), assim você pode despistá-los. PRIMEIROS SOCORROS Essa parte do curso tem o objetivo de fazer com que os manifestantes tenham condições de se tratar ou tratar outros ativistas durante uma ação direta. Para isso, é preciso que todo mundo tenha alguns conhecimentos básicos de primeiros socorros, direcionados para uma ação direta do tipo da que estamos passando neste treinamento. Se você está mentalmente preparado e tem suprimentos necessários e conhecimento, provavelmente saberá se cuidar durante uma ação direta. Medo e desordem são as maiores armas do Estado. Confiança, determinação, preparação da sua força são suas melhores armas. Os métodos utilizados pela polícia não causam grande dor ou injúria, e sim desespero e medo. O spray de pimenta e o gás lacrimogêneo são usados para gerar incerteza nos manifestantes. Lembre-se de que aquela situação também é desesperadora para os policiais, que geralmente estão em número bem menor do que o de manifestantes.

NTRODUÇÃO Esperamos que com esta cartilha você tenha condições de se tratar ou tratar outros ativistas durante uma ação direta. Queremos ajudá-lo a se manter na ação o mais saudável e forte possível. Para isso, você precisa ter um conhecimento básico sobre primeiros socorros e conhecer os acessórios utilizados; saber sobre a roupa que deverá usar; aprender como manter a calma; etc. Nesta cartilha, procuramos colocar situações que podem ocorrer

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durante uma ação direta e como proceder perante elas. É válido lembrar que a melhor ajuda é aquela vinda de um profissional. Por isso, é sempre bom recorrer a um hospital ou à equipe de ajuda médica (caso exista alguma) durante a ação. O mais importante ao prestar primeiros socorros é saber o que não deve ser feito. Caso você fique em dúvida sobre qualquer procedimento, mantenha a calma e procure ajuda. VOCÊ PRECISA SABER - PRECAUÇÃO: esteja preparado para as necessidades essenciais, cuidados e suprimentos. Saiba o que esperar. Saiba como conseguir assistência. Planeje como reencontrar os seus amigos caso se separem. - ATITUDE: você é poderoso. Você pode facilmente resistir à maioria das coisas que a policia joga em você. VOCÊ É UM ATIVISTA POR JUSTIÇA. A DOR É APENAS TEMPORÁRIA E NÓS SOMOS EXTREMAMENTE FORTES. - A PRIMEIRA ARMA DA POLICIA É 0 MEDO: uma vez que você controla isto, o spray de pimenta e as outras táticas são facilmente manejáveis. - BOM SENSO: mantenha a sua perspicácia, avalie o que está sendo destruído e o que precisa ser feito. - FIQUE CALMO E CONCENTRADO: quando as coisas ficarem mais intensas, reaja ao perigo ou aos sinais de perigo antes, não depois. Fique atento aos sinais de problemas físicos e mentais em você mesmo e nos outros. Acalme os que estiverem demonstrando comportamento de pânico. - FIQUE ATENTO A RUMORES: eles normalmente são falsos e alimentam o medo. Lide com a verdade que você esta vendo. - DOCUMENTE: a atuação da polícia, as brutalidade e as injustiças. - RAIVA: muita raiva é bastante comum ao contato com spray de pimenta, mas pode ser valiosa se você estiver

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preparado para focalizá-la. Talvez você possa utilizar a sua raiva para motivar a sua recuperação e voltar para a ação. Talvez ela te dê energia para ir a algum lugar mais seguro. INFORMAÇÃO PARA AQUELES COM CONDIÇÕES ESPECIAIS DE SAÚDE Se você tem alguma condição médica que pode gerar sérios problemas se seus medicamentos forem interrompidos (como distúrbios psicológicos, diabetes, hipertensão, etc.), você deve estar preparado pois poderá ficar sem medicação adequada se for preso, enquanto estiver na cadeia. Uma receita de um médico pode ajudar. Três cópias da receita serão necessárias: uma para a equipe de ajuda legal; outra para a equipe médica (essas serão mantidas confidencialmente); e uma para você. A receita deve conter as seguintes informações: seu nome; diagnóstico; a ordem de que você deverá ter acesso à sua medicação o tempo todo e que deve mantê-la consigo, pois desta maneira ela será apropriadamente administrada; e uma lista de toda a medicação necessária dizendo que nenhuma substituição será aceita. Já que o seu nome deve estar na receita, talvez você queira escondê-la para não revelá-lo. Pode ser que você não necessite dela e então você poderá comê-la durante a ação e praticar as táticas de solidariedade. Nós acreditamos que revelar o seu nome e cooperar com o carcereiro para garantir a sua saúde é mais benéfico para todos do que lidar com alguma situação grave de saúde. Melhor entregar a identidade do que a vida. Tenha certeza de que o seu grupo de afinidade e a equipe de ajuda legal saibam de suas necessidades, daí eles vão poder ajudá-lo e orientá-lo. Carregue medicamentos essenciais junto com as receitas. Isto poderá ajudá-lo a ter acesso a eles na cadeia.

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GÁS LACRIMOGÊNEO Vista roupas impermeáveis. O algodão absorve o gás, deixando os químicos em contato com sua pele por mais tempo. Use bandana ou máscara de pintor (R$ 1) com vinagre diluído em água. Se puder, leve um Cebion (ou similar) e coloque na boca. Use óculos de natação (R$ 2 em lojas de artigos esportivos). Não use lentes de contato pois elas retêm o gás nos olhos. Passe leite de magnésia ou bicarbonato de sódio em volta dos olhos para aliviar o ardor. Antes de ir à manifestação, tome banho com sabão neutro. A oleosidade da pele ajuda a fixar o gás. Nunca esfregue os olhos! Para desinfetá-los, vire a cabeça lateralmente e deixe a água escorrer do olho para fora, em um olho de cada vez. A amônia corta o efeito do gás. Ao voltar, tire as roupas antes de entrar em casa. O gás e principalmente o spray de pimenta permanecem na roupa por muito tempo. Coloque-as num saco plástico, e então lave ou jogue fora. Tome um banho Frio (pois fecha os poros e o químico não entra na pele) com sabão neutro. Se puder use roupas impermeáveis, que cubram a maior parte do seu corpo. O QUE VOCÊ DEVE SABER SOBRE 0 SPRAY DE PIMENTA QUEM DEVERIA EVITAR O SPRAY: aqueles com asma, problemas respiratórios ou infecciosos; mulheres grávidas; mulheres que pretendem engravidar; qualquer pessoa doente ou com um sistema imunológico baixo; infecção nos olhos; quem usa lentes de contato; crianças. PREOCUPAÇÕES QUE DEVEM SER RELACIONADAS AO SPRAY: já que o spray de pimenta deve ser jogado de uma distância curta, a policia poderá tentar remover seus óculos de proteção ou sua máscara. A reação aos químicos será beneficiada se houver alguma irritação na pele, como ACNE ou ECZEMA severa.

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As LENTES DE CONTATO prendem os gazes irritantes e os componentes químicos, podendo aumentar os danos e as irritações causados por eles. Consiga óculos de grau e avise aos outros para não usar lentes de contatos. ASMÁTICOS deverão trazer a suas bombinhas. A primeira e mais importante coisa que deve ser lembrada é: RELAXE! Se você estiver mentalmente preparado, tiver suplementos necessários e conhecimento, não irá precisar de assistência médica. Medo e confusão são as armas mais potentes do Estado. Confidência, determinação, preparação e conhecimento de nossa força são suas melhores armas. PRIMEIROS SOCORROS ANTES DA AÇÃO PRATIQUE os treinamentos de primeiros socorros uns com os outros antes da ação. Você ganhará experiência. NÃO USE brincos, piercings, colares, gravatas, etc. VISTA-SE DE ACORDO COM A TEMPERATURA: quanto mais você cobrir o seu corpo, mais estará protegido. Casacos de chuva ou tecidos à prova d'água, lavados com sabão neutro, não irão absorver os químicos (ao contrário do cotton ou algodão). Cubra pulsos, tornozelos e pescoço. POR FAVOR, TENHA CERTEZA DE QUE O SEU GRUPO DE AFINIDADE E A EQUIPE DE AJUDA LEGAL SAIBAM DE SUAS NECESSIDADES, PARA QUE POSSAM AJUDÁ-LO E ORIENTÁ-LO. CUBRA TAMBÉM OS CABELOS com algo que seja à prova d'água: sacola plástica, touca de banho, capacete, etc. Use tênis ou botas confortáveis, que sirvam para correr. Leve calça e blusa extras, guardados na mochila, para você trocar as roupas contaminadas. BANDANAS encharcadas em vinagre substituem a máscara de gás aliviando a garganta e o nariz. Mantenha-na guardada numa sacola plástica com zíper. LANCHES ENERGÉTICOS: Leve, tanto faz se em

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líquido ou barras (lembre-se que você vai ficar o dia todo na rua). ÓCULOS DE MERGULHO: para proteger contra o spray de pimenta e o gás lacrimogêneo. LUVAS: nunca entre em contato direto com sangue ou qualquer outro tipo de secreção (lembre-se da AIDS). Elas também irão ajudar a protegê-lo contra os químicos do spray e gás. NÃO USE LENTES DE CONTATO!!! Elas irão prender os químicos nos seus olhos causando danos sérios. 0 QUE VOCÊ NÃO DEVE PASSAR NA PELE: Vaselina, detergente, hidratantes, maquilagem, protetor solar que contém óleo, ou qualquer coisa ácida irá causar reações fortes. Não use vaselina ou óleo de mamona como proteção!!! PRIMEIROS SOCORROS DURANTE A AÇÃO Fique calmo e concentrado. Quando o seu corpo aquece (por correr ou devido ao pânico), a irritação por spray de pimenta poderá aumentar. A principal razão disto acontecer é porque os seus poros irão abrir, permitindo a maior absorção dos químicos. Fuja para um local seguro com ar puro, onde pessoas que não foram expostas poderão ajudá-lo ou garantir a sua segurança enquanto você se cuida. Rosto em direção ao vento, olhos abertos, levante os braços e caminhe, permitindo que o ar puro te descontamine. Respire profundo e devagar. Não toque seus olhos ou rosto, porque você poderá se recontaminar. Assopre o nariz e cuspa, isto ajudará a eliminar os químicos.

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Se sua pele estiver molhada de spray de pimenta, limpe-a com roupa que não foi contaminada. Se você espalhar o óleo químico pela pele, aumentará a dor. Antes de tratar alguém, peça-lhe permissão! Então explique para el@ o que você fará, antes de fazê-lo. Use luvas limpas (evita contaminação das duas partes) e proteção para os olhos, para não acabar impossibilitado de ajudar os outros e precisar, também, de tratamento. Logo depois da contaminação, você pode passar algum óleo mineral e em seguida um algodão com álcool na pele contaminada. Isto irá aliviar a dor (esse procedimento só funciona se for feito logo após a contaminação). Molhe a região dos olhos que foi contaminada espirrando a água em direção ao chão. Desta forma, ela não irá contaminar a pele limpa, roupas ou cabelos. GUARDE SACOLA. AS ROUPAS CONTAMINADAS EM UMA

PRIMEIROS SOCORROS DEPOIS DA AÇÃO Se descontamine com um banho frio. Isto mantém os poros fechados prevenindo que os químicos entrem pela pele. Coloque a roupa contaminada para arejar. Fique sabendo que, se você entrar em uma sala com roupas, cabelo e pele contaminados por químicos, você irá contaminar toda a sala. Um lugar contaminado pode ficar com um mal cheiro forte por semanas. Se possível, troque de roupa antes de entrar em locais fechados. Coloque as roupas contaminadas numa sacola e tire

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todo o ar. Lacre, para que os gazes se difundam lentamente. Se você quiser a suas roupas de volte, marque a sacola com um nome. PEQUENAS HEMORRAGIAS NASAL - inclinar (abaixar) a cabeça para frente; pedir para a vítima cuspir todo o sangue da boca e respirar pela boca; fazer pinçamento do nariz, logo abaixo do osso, na cartilagem, por 10 min; soltar devagar. Se continuar sangrando, enfie um pedaço de algodão ou pano no nariz e continue o pinçamento por mais 10 min. CORTES - expor o ferimento; fazer compressão direta sobre a hemorragia; com um pano limpo comprimir em cima do ferimento elevá-lo ao nível do coração; quando o pano estiver cheio de sangue, colocar outro por cima. VASO EXPOSTO - fazer o pinçamento dos vasos. OBJETO TRANSFIXADO - mantê-lo fixo colocando algum pano em volta; colocar um objeto leve tampando o que está transfixado; prender com uma fita; pôr um pano em cima e prender com uma faixa. FERIMENTOS GRAVES - providenciar socorro médico e hospitalar. OBS: USE SEMPRE LUVAS. NÃO RETIRE CURATIVOS ENSANGÜENTADOS E NÃO DÊ LÍQUIDO OU COMIDA, NO MÁXIMO, MOLHE A BOCA DO FERIDO. PALPE O PULSO DISTAL PERIODICAMENTE (APERTE UM POUCO E DEPOIS SOLTE). LESÕES CRANIANAS PANCADAS LEVES - Levar para um hospital. LACERAÇÕES DO COURO CABELUDO - controlar a hemorragia (pressão direta com pano seco, limpo, sem fiapos); tratar o choque (se tiver); levar para o hospital verificando os sinais vitais.

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PANCADA VIOLENTA - Vítima consciente: tentar conversar o tempo todo com a vítima. Vítima inconsciente: afrouxar as roupas e verificar os sinais vitais. QUEIMADURAS PROCEDIMENTO BÁSICO: deite a vítima para apagar o fogo; se não conseguir, enrole-a em um cobertor do pescoço para baixo. NUNCA MANDE A VÍTIMA CORRER. O QUE FAZER: resfriar a queimadura com água fria, nunca gelada; retirar os pertences dela; cobrir toda a lesão com lençol ou pano limpo e úmido; procurar ajuda médica imediatamente e NÃO FURAR AS BOLHAS. QUEIMADURA NOS OLHOS: vire a cabeça das pessoas para o lado; mantenha o olho lesado aberto e lave-o com água fria por 30 min; não jogue água em jatos; faça curativo adequado para tampar os olhos e busque socorro médico. OBS: NUNCA ESTOURE BOLHAS; NÃO DÊ ÁGUA; NÃO PASSE POMADA NEM MERCÚRIO; NÃO COLOQUE NADA A NÃO SER PANO LIMPO E ÚMIDO. FRATURAS, ENTORSES E LUXAÇÕES COTOVELO DOBRADO: use uma blusa de frio para fazer uma tipóia; coloque um papelão para imobilizar, amarrando com as duas mangas em volta do pescoço da vítima (a mão dela deve ficar junto ao peito). Amarre a outra parte da blusa para segurar o cotovelo. Não mexa no local. COTOVELO ESTICADO: amarrar um travesseiro ou algo parecido, de preferência com a vítima deitada. ANTEBRAÇO, PUNHO E MÃO: blusa de frio, papelão e uma blusa para imobilizar, como no outro procedimento. QUADRIL, COXA: cobertor entre as pernas, amarre-as com uma corda, dando um nó antes do joelho e outro depois. NUNCA TENTE COLOCAR A LUXAÇÃO NO LUGAR. JOELHO DOBRADO: uma camisa entre a coxa e outra

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na canela com um nó na direção de cada camisa. JOELHO ESTICADO: com uma lata, dois nós abaixo do joelho e dois acima. PERNA - fratura exposta: apenas cubra com um pano limpo e imobilize com um cobertor no meio das pernas, prendendo com nós. TORNOZELO - pé: coloque um travesseiro, dê dois nós acima e um no pé, formando uma bota. Eleve o pé. Coloque gelo no local das luxações, mas nunca diretamente, use pano ou algo parecido. VERIFIQUE PERIODICAMENTE SE OS DEDOS ESTÃO ADORMECIDOS. LEIS, DIREITOS E SEGURANÇA Se você decidiu participar de uma manifestação e optou pela realização de ação direta, deve considerar a possibilidade de que alguém possa ser preso, inclusive você. É muito importante preparar-se individualmente e coletivamente para essa situação. Veja algumas sugestões que poderão auxiliá-lo a evitar ou resolver problemas desse tipo. O QUE FAZER ANTES DA AÇÃO A primeira coisa que você deve saber é se existe uma comissão de segurança ou uma comissão legal dando suporte à ação da qual você irá participar. Se você já faz parte da organização da ação, certifique-se de que seja formada uma comissão para cumprir essas funções. Essa comissão pode organizar e distribuir panfletos contendo orientações gerais acerca da segurança dos manifestantes; uma compilação das principais leis que garantem a legalidade da manifestação e estabelecem os limites da ação policial; como contatar a comissão legal e telefones úteis em casos de emergência (Corregedoria de Polícia e outros órgãos públicos). Pode também formar uma equipe de advogados e acioná-los no momento em que for necessário.

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Outra boa forma de prevenir e denunciar abusos da polícia é criar uma equipe de observadores legais, responsável por identificar a ocorrência de abusos e comunicar à comissão imediatamente. Diferente da comissão, que se articula por fora da manifestação, os observadores legais participam efetivamente da ação direta, devendo portar algum tipo de identificação (crachás) e presenciar tudo ao vivo, podendo prontamente inferir no momento de uma prisão, explicitando os direitos dos manifestantes para o policial. O registro do ato através de fotos e filmagens pode ser muito importante para fornecer provas contra ações abusivas por parte de policiais. Essas imagens também têm valor documental e podem integrar a divulgação posterior da ação. A comissão deve garantir que haja um número razoável de pessoas fazendo tais registros, além de pensar em estratégias para que a polícia não apreenda o material. Os grupos de afinidade podem participar das decisões e práticas da Comissão de Segurança ou podem apenas tomar conhecimento de tais decisões. Porém, há muitas coisas que você pode fazer independentemente da Comissão. A primeira delas é conhecer todos os membros do seu grupo e saber seus nomes completos. A lógica é que cada um cuide de todos e que todos cuidem de cada um. Todos os membros devem estar aptos a dar as informações necessárias dos demais para a Comissão. A solidariedade, a coesão e a confiança existentes em um grupo de afinidade podem ser sua força e sua segurança. É muito útil também que cada grupo tenha pelo menos um colaborador que não esteja participando da ação direta (um@ amig@, namorad@, parente ou vizinh@). Existem pessoas que apóiam a causa mas não se dispõem a sair às ruas por diversos motivos. Essa pode ser uma forma de envolver mais gente e garantir o sucesso da ação. Providencie que esse membro oculto tenha todas as informações sobre os membros do grupo e possa ser uma ponte entre a Comissão e os grupos. Essa pessoa também

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pode ajudar gravando a cobertura televisiva da manifestação, ajudando a sustentar desculpas para os chefes no trabalho ou alimentando seu animal de estimação caso você seja preso. Uma sugestão importante é identificar pessoas que possuam algum tipo de vulnerabilidade em seu grupo. Pessoas com passagens pela polícia, por exemplo, correm maior risco de sofrer conseqüências mais drásticas em caso de prisão. Pessoas com doenças crônicas ou psicológicas (bronquite, asma, problemas cardíacos, fobias, etc) devem receber uma atenção especial durante a manifestação e após sua prisão. Outras condutas podem ser adotadas no decorrer da ação por todos aqueles que estão participando dela. Preparar cartazes, faixas, ou outros materiais nos quais estejam escritas as leis que garantem seu direito de manifestação pode ser um eficiente meio de informar a polícia de que você conhece os seus direitos e de inibir quaisquer abusos. Lembre-se de se informar sobre a existência de uma Comissão Legal, de descobrir como contatá-la, de possuir um panfleto com os telefones úteis e de possuir as informações sobre seus amig@s. Tod@s que tiverem possibilidade de levar câmeras fotográficas e filmadoras devem tentar documentar a ação, pelos mesmos motivos acima expostos. É muito importante não levar em hipótese alguma nenhum tipo de droga (maconha e álcool inclusos) e nenhum tipo de arma (soco inglês e canivetes inclusos também). A questão é simples: se você for preso, portanto armas e/ou drogas, você, certamente, será fichado por porte ilegal de armas e entorpecentes e não por causa da ação em si, o que pioraria muito sua situação. Além disso, tal atitude pode prejudicar a credibilidade da manifestação, colocar em risco e dificultar a liberação dos demais detidos. Logo que chegar no local da ação tente memorizar o rosto e o nome de alguns policiais (se for preciso anote). Lembre-se que durante uma ação mais violenta da polícia os oficiais costumam ocultar seus nomes.

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Há muitas outras coisas que podem ser feitas durante as ações. Antes de passarmos a elas, seguem as tão faladas leis que garantem seu direito de manifestar-se: LEIS E DIREITOS Direito de manifestação, locomoção e expressão do pensamento: Constituição Federal - Artigo 5: Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no país a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintesIV - é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; VI - é inviolável a liberdade de expressão e de crença, sendo assegurado o livre exercício dos cultos religiosos e garantida, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e suas liturgias; VIII - ninguém será privado de direitos por motivo de crença religiosa ou de convicção filosófica ou política, salvo se as invocar para eximir-se de obrigação legal a todos imposta e recursar-se a cumprir prestação alternativa, fixada em lei; IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científica e de comunicação, independentemente de censura ou licença; XVI - todos podem reunir-se pacificamente, sem armas, em locais abertos ao público, independentemente de autorização, desde que não frustrem outra reunião anteriormente convocada para o mesmo local, sendo apenas exigido prévio aviso à autoridade competente; Limites da ação policial Constituição Federal - Artigo 50: II - ninguém será obrigado a fazer ou deixar de fazer alguma

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coisa senão em virtude de lei; III - ninguém será submetido a tortura nem aa tratamento desumano ou degradante; XXXIX - não há crime sem lei anterior que o defina, nem pena sem prévia cominação legal; XLIX - é assegurado aos presos o respeito à integridade física e moral; LIV - ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal; LXI - ninguém será preso senão em flagrante delito ou por ordem escrita e fundamentada de autoridade judicial competente, salvo nos casos de transgressão militar ou crime propriamente militar, definidos em lei; LXII - a prisão de qualquer pessoa e o local onde se encontre serão comunicados imediatamente ao juiz competente e à família do preso ou à pessoa por ele indicada; LXIV - o preso tem direito à identificação dos responsáveis por sua prisão ou por seu interrogatório policial; LXV - a prisão ilegal será imediatamente relaxada pela autoridade judiciária; LXVI ninguém será levado à prisão ou nela mantido, quando a lei admitir liberdade provisória, com ou sem fiança; LXVIII conceder-se-á habeas-corpus sempre que alguém sofrer ou se achar ameaçado de sofrer violência ou coação em sua liberdade de locomoção, por ilegalidade ou abuso de poder; art 317 do Código Penal lei 9.455/1997 crimes de tortura Lei 4.898/65 - Abuso de autoridade: é crime de abuso de autoridade o atentado à liberdade de locomoção (artigo 30, "a"); ao direito de reunião (artigo 30, "h")-, à incolumidade física do indivíduo (artigo 30, "i"). Código Penal - Artigo 322 - Praticar violência, no exercício de função ou a pretexto de exercê-la.- Pena - detenção, de 6 (seis) meses a 3 (três) anos, além da pena correspondente à violência. Decreto Estadual No. 13.657/43 - Transgressões disciplinares dos policiais militares: usar de violência desnecessária ao efetuar uma prisão (artigo 13, inciso LIV), maltratar preso sob sua guarda (artigo 13, inciso LV). art 240 a 249 do código de processo penal O que podem e não podem fazer os(as) policiais

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Busca dentro da casa (para a lei, casa é o lugar onde a pessoa mora, incluindo o quintal, a garagem, etc.) Qualquer policial civil ou militar, seja ele(a) delegado(a) de polícia ou oficial da PM, só pode entrar na casa de uma pessoa nas seguintes situações: Sem ordem do(a) Juiz(a) (Sem mandado) 1) Quando os(as) policiais estiverem perseguindo alguém que acabou de cometer um crime e esta pessoa entrar na casa, os policiais podem entrar, mesmo sem o consentimento do morador(a) 2) Quando\os(as) policiais tiverem certeza(Tem que ter certeza, não podem "achar". Se for engano estarão cometendo crime de abuso de autoridade) que dentro da casa estão guardadas drogas, armas de fogo ou produtos roubados ou furtados 3) Em caso de desabamento, incêndio, desastres ou mesmo para socorrer alguém que está passando mal. 4) Quando o morador(a) autorizar(Autorização não é coação! Os policiais não podem intimidar ou ameaçar o morador(a) para poder entrar na casa) a entrada dos(as) policiais.

Em todas estas situações os(as) policiais poderão entrar a qualquer hora do dia ou da noite. O(A) morador(a) deve sempre acompanhar a revista feita pelos(as) policiais. Os(as) policiais não podem rasgar documentos, fotografias, quebrar objetos. Todo documentos, dinheiro, documento ou fotografia que ele(as) pegaren em sua casa devem ser apresentados para o(a) delegado(a). Com ordem do(a) Juiz(a) (Com mandado de Busca & Apreensão)(Para cada casa deve haver um mandado. A lei ão permite o mandado coletivo. Este documento deve ser mostrado pelos/as policiais e lido para o morador(a) antes

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de entrar na casa) O mandado de busca e apreensão é um documento que o(a) juiz(a) entrega aos(às) policiais para que eles/elas possam entrar na casa de qualquer pessoa, mesmo contra a vontade do(a) morador(a). Neste mandado deve constar: endereço exato da residência em que será realizada a busca; nome do morador(a); motivo da busca; assinatura do(a) juiz(a). A busca pelos(as) policiais deverá ser realizada durante o dia. À noite somente com autorização do(a) morador(a). Se não tiver ninguém na casa(No caso do(a) morador(a) não estar em casa, a busca deve ser durante o dia), os(as) policiais deverão chamar dois vizinhos(as) para acompanharem a busca. No final. os vizinhos(as) devem assinar o relatório de como foi a revista e o que foi apreendido na casa Busca pessoal Busca pessoal é o que conhecemos por "geral". Os(as) Policiais civis oumilitares podem fazer buscas pessoais sem ordem do(a) Juiz(a) quando tiverem fundadas suspeitas que a pessoa está escondendo armas de fogo, objetos destinados para prática de crime ou drogas. Nestes casos os(as) policiais podem parar a pessoa e mandar colocar as mãos para o alto enquanto fazem a revista. Os(as) policiais não podem para as pessoas porque 'acham que são suspeitas, ou seja, por preconceito. Se não houver fundada suspeita, não podem parar a pessoa porque ela mora na favela, ou num bairro pobre, ou porque é negra, amarela ou branca, ou está de chinelo ou boné. Os(as) policiais durante a revista devem tratar as pessoas com repeitos. Inclusive familiares que se aproximan no momento da abordagem para pedir informações sobre o

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que está acontecendo. Os(as) policiais não podem gritar com a pessoa, xingá-la, chamando-a de ladrão, vagabundo, nóiaentre outros. Isto é crime de injúria ou até mesmo de abuso de autoridade; Se xingar de preto safado é crime de discriminação. Ninguém pode ofender a origem racial das pessoas. Ser negro, amarelo ou branco não significa que a pessoa seja suspeita. Se ameaçar ou bater para que confesse alguma coisa é crime de tortura. Mandar a pessoa sair correndo sem olhar para trás é crime de abuso de autoridade'. Mulher deve ser revistada por policial feminino. Em casos de fundada suspeita, em que não tenha uma policial pr perto, a lei permite que o policial reviste a mulher(o (a) policial não pode passar as mãos nas partes íntimas da mulher. Se fizer isto estará cometendo 'crime de ato libidinoso e abuso de autoridade). A revista deve ocorre de forma que não constranja a pessoa que está sendo revistada. Assim, é proibido o(a) policial mandar uma pessoa tirar a roupa no meio da rua, ou mesmo exigir que fique com a mão para trás ou para o alto depois de revistada, identificada e que não esteja sendo procurada pela justiça. Não há lei no Brasil que obrigue a pessoa a andar com documentos. No entanto os(as) policiais podem pedir os documentos de qualquer pessoa e, se esta não estiver com os documentos, os(as) policiais devem perguntar o nome do pai, da mãe, data de nascimento, para verificar se esta pessoa é foragida da justiça ou não. Recomenda-se andar com documentos • A pessoa só pode ser levada para a delegacia se estiver presa em flagrante delito ou se houver ordem judicial. O(A) policial não pode prender ninguém po estar sem documento e se isto acontecer estará cometendo abuso de autoridade. Os(as) policiais só podem algemar alguém se este

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estiversendo preso em flagrante ou se for foragido da justiça. Agemar po outro motivo é crime de abuso de autoridade. Após verificar os documentos e nada constando, os(as) policiais devem devolvê-los. Busca no carro A revista em automóveis é permitida nas mesmas situações da revista pessoal. O carro só pode ser revistado em caso de fundada suspeita. A pessoa que estiver conduzindo o carro deve acompanhar a revista. Na delegacia de polícia Quando uma pessoa é conduzida à uma Delegacia por policial civil ou militar, ala deve ser imediatamente apresentada ao Delegado(a) de Polícia. Tudo que acontecer com a pessoa dentro ou no pátio da delegacia de polícia é responsabilidade do(a) Delegado(a) de polícia. Se o(a) escrivão(ã), investigador(a), ou policial militar ou civil, até mesmo o Delegado(a) exigir dinheiro da pessoa responderá por crime de corrupção passiva. Denúncias Se o (a) policial estiver atuando fora da legalidade, temos o direito e dever de denunciar aos órgãos competentes. Denunciar os(as) maus/más policiais é valorizar os(as) bons/boas policiais e zelar pela cidadania. Para denunciar pegue estes dados: Local, hora, dia, Nome(s) de Policial(s), Características Físicas (cicatriz, branco, negro, alto, baixo, cor de cabelo, etc), Identificação da viatura(números e letras que ficam nas laterais e em cima da viatura) SITUAÇÕES DE RISCO DE PRISÃO Algumas ações envolvem maior risco de prisão do que outras. Por exemplo: o caráter violento / não-violento da ação orienta em muito a ação da polícia. Você deve saber que bloqueios de ruas, invasão e depredação à propriedade

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serão reprimidos com muito mais violência do que uma panfletagem ou uma demonstração de caráter cultural e informativa. Escolher previamente um tipo de ação é importante para orientar o comportamento dos manifestantes e tomar as devidas providências para enfrentar a reação da polícia (tratadas no item Antes da Ação). Se, por exemplo, o coletivo optar por uma manifestação não violenta, estará esperando uma determinada reação policial. Neste caso, se alguns indivíduos se portarem de forma violenta, poderiam acabar provocando uma reação contrária às expectativas e preparações do coletivo, colocando em risco a segurança da manifestação. Por isso, procure participar das decisões prévias a respeito da dinâmica que vai assumir a manifestação da qual você irá participar, ou, se isso não for possível, procure se informar sobre seu caráter (violenta , não violenta) . Mas, de qualquer maneira, você deve ter sempre em mente que existe a possibilidade de você ser preso, assim como muitos de seus companheiros. 0 mais importante é manter-se calmo diante desta situação. Dificilmente algo de muito grave acontecerá com você ou com aqueles de quem você gosta. Existem muitas pessoas que já foram presas e que hoje estão bem e mais ativas do que nunca. Uma das mais poderosas armas da polícia é o medo que a prisão e a violência contra os detidos causa na maioria das pessoas. Não há motivos para temer. Tranqüilize-se e tente tranqüilizar os outros. Saiba que você não está sozinho. Lembre-se que existem milhares de pessoas ao seu redor lutando pelos mesmos motivos que você. Existem milhões de outras pessoas no mundo todo que saem às ruas com os mesmos objetivos que você. Você vai se sentir forte e convicto, e isso não será à toa. Se for preso pode ter certeza que muitas pessoas irão se mobilizar para te ajudar: seus amigos, parentes e companheiros vão à delegacia prestar solidariedade e aguardar até que você saia são e salvo de lá; os outros presos estarão do seu lado, conversando, ajudando e, se

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possível, descontraindo o ambiente e amenizando a tensão da situação; a Comissão Legal estará se articulando para soltá-lo o mais rápido possível e providenciando toda e qualquer ação que for necessária; a equipe de advogados estará pronta para defender e soltar qualquer manifestante que tenha sido detido. Não há motivo para se desesperar. Você será solto e continuará ao nosso lado nas próximas ações. SENDO PRESO Mesmo com todas os cuidados e precações devidamente tomados você pode se deparar com a situação de estar sendo preso ou de presenciar a prisão de alguém. Em muitos casos a polícia aborda o manifestante no interior da ação e tenta arrastá-lo para a viatura, às vezes valendo-se de violência. Os manifestantes que estão ao seu redor podem tentar segurá-lo ou protegê-lo. Se mesmo assim a polícia conseguir deter o manifestante, o melhor a fazer é circundar o policial com um grande número de pessoas e gritar, por exemplo, "Solta! Solta!. Isso pode também servir de aviso para os Observadores Legais e advogados, denunciando que alguém está sendo preso, além de intimidar os policiais. Tentar resgatar uma pessoa que já está imobilizada pela polícia pode significar a prisão de quem estiver tentando fazer isso. É muito importante comunicar à Comissão Legal e ao maior número de pessoas possíveis (principalmente as do grupo de afinidade dos presos) o nome completo dos manifestantes presos, se possível, o nome do policial que o prendeu e para qual DP eles foram levados. Agora, levando em conta que o detido seja você e que as técnicas de seus companheiros tenham falhado, existem várias maneiras de lidar com a situação. A primeira tática é, sem dúvida, manter os olhos e os ouvidos bem abertos. No momento em que um policial lhe segurar, muito provavelmente sua reação será a de tentar se libertar, debatendo-se ou mesmo tentando correr. Supondo que você não obtenha sucesso e o policial tenha conseguido lhe imobilizar, o que resta a fazer é dificultar que ele leve-o

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para a viatura. Para isso, deve-se relaxar todo o corpo e se soltar ao máximo, fazendo com que seu peso seja bem maior do que se estivesse rígido e tenso. Isso pode ganhar algum tempo e fazer com que alguém vá te ajudar. Se o policial lhe algemar, não force ou se debata, pois as algemas são apertadas e podem machucar seus pulsos. Procure manter a calma e, mesmo numa situação tensa, mantenha-se tranqüilo e lúcido e colabore com os outros detidos. No momento da prisão existem várias formas de se comportar diante da autoridade policial. Uma técnica comum nos EUA é não se identificar, manter-se calado e só responder (laconicamente) se questionado diretamente. Outra opção é dialogar com o policial, mostrando que você não é um "marginal", que não cometeu nenhum crime. Dizer que você é um trabalhador / estudante pode ser uma boa forma de intimidar o policial, assim como demonstrar conhecimento das leis e direitos que lhe protegem. É aconselhável tratar o policial cordialmente, tentando evitar levantar a voz. Se você tem educação, essa é a melhor hora de praticá-la. NA DELEGACIA/PRISÃO SOLIDARIEDADE CARCERÁRIA 0 destino certo de todos detidos será a Delegacia de Polícia mais próxima da ação. Chegando lá, de início, provavelmente vocês estarão sozinhos e é nesse momento que a calma é mais necessária. Procure não discutir com os policiais usando um tom agressivo nem os xingando, pois, lembre-se, ele está armado e com você sob custódia. Dialogue com os guardas de maneira sensata e reafirme que você conhece os seus direitos e que ele não pode bater em você gratuitamente. Muito provavelmente eles tentarão intimidá-lo através de ameaças. Especularão sobre a ação, fazendo perguntas, aparentemente, desinteressadas e amigáveis como: "Por que do protesto? De onde vocês são e o que fazem?". 0 melhor nessa situação é dar respostas evasivas e não se denunciar, nem acusar os outros. Não

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tente "conscientizar" o policial, pois, muito provavelmente, será em vão. Declarar-se anarquista, comunista, etc, nessa hora pode ser contra-produtivo para sua situação e dos demais presos, assim como para o movimento do qual faz parte. Mas não forneça, de maneira alguma, informações sigilosas sobre a ação ou a organização que possa comprometer ou incriminar algum companheiro. Talvez você seja o primeiro a ser preso, mas certamente não será o único. Tente se lembrar que em breve você estará com outros companheiros e que a Comissão Legal já estará agindo em prol de sua libertação. Se os advogados e a Comissão já estiverem na delegacia tudo será mais fácil e talvez você não passe por nada disso. Ceda todas as informações que os advogados solicitarem e siga suas orientações. Se você tiver alguma necessidade especial não hesite em comunicar aos advogados. Eles poderão providenciar o que for necessário, como remédios, por exemplo. É importante saber que dificilmente pessoas detidas por participarem de uma manifestação serão processadas ou passarão a noite na cadeia. Sua permanência na delegacia deve ser de algumas horas. Uma boa maneira de suportar os momentos na prisão é conversar com os demais companheiros enclausurados. Tente conhecê-los e tente fazer com que todos saibam sobre a Comissão e algumas condutas diante da polícia. Apesar da tensão da situação é aconselhável que os presos tentem, na medida do possível, tomar decisões conjuntas, afim de que todos recebam o mesmo tratamento, e traçar métodos de comportamentos uniformes e regras de convivência no espaço da cela ou sala em que estiverem. 0 apoio do companheiro que se encontra na mesma situação que você é de grande valia nesses momentos. COMO DEVE SER A SUA MOCHILA DEVE TER • 2 mudas de roupa (para despistar a polícia e para trocar de roupa em caso de contaminação).

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• • • • • • • • • Remédios, se você usar algum. 1 bandana. 1 garrafa com vinagre. 1 garrafa de água, de preferência com esguicho. óculos de proteção com vedação total. Telefone do advogado e telefone para ligar e avisar que está bem, no caso do grupo se separar. Máscara de gás (opcional, mais eficiente que a bandana com vinagre). Macacão impermeável (opcional). Documentos devem ser portados, porém guardados no bolso da calça NÃO DEVE TER • • Drogas (inclui álcool). Armas (inclui canivetes, correntes). soco inglês,

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Considerações Críticas

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O futuro não é mais como era antigamente!
Um verme liberal espalha aos quatro ventos sua "boa nova": - é o fim de todas as ideologias! (como se fosse possível acabar com ideologias sem acabar com o próprio homem e sua capacidade de ter idéias). Outro vai mais além dizendo que estamos chegando no fim da própria história. Enquanto isso, os baluartes das internacionais sisudas velhos comunistas e anarco-sindicalistas - vivem de saudosismos, restos, fotos desbotadas, saudades de um proletariado revolucionário que se perdeu nas voltas do mundo. E o conservadorismo libidinoso vira moda alimentado por medos gerados pela miséria do terceiro mundo, bem como pelos traumas resultantes da distopia socialista soviete. Será que não há nem haverá nada de novo sob o sol? Será o fim de toda possibilidade de transformação social? Devemos nos conformar com esta sobrevida pasteurizada despida de toda excitação, de toda agitação imaginativa que nos reserva o status-quo? Estaremos fadados ao terrível papel de peças sobressalentes da Máquina-Sistema, submersos eternamente nestas catacumbas escuras? Algo entre meus olhos e meu cerebelo insiste em me dizer que tudo isso é balela pró-sistêmica que vem sendo repetida pelas maiorias angustiadas, doentes e deprimidas, tornando-se lavagem cerebral de baixa qualidade. É um fato inevitável: alguns já perceberam uma ruga de preocupação crescer no rosto maquiado da âncora do jornal: "Como desinformar informando tanta gente por tanto tempo? Como esconder fatos e ocorridos que poderiam servir de inspiração para a revolta de tanta gente descontente há muito?" A preocupação da âncora encontra-se bem fundamentada em

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tudo aquilo que ela evita em colocar no ar: todas as notícias que foram para a gaveta, que jamais chegaram ao (portanto não aconteceram no) meio midiático. Estes são indícios importantes, não podemos ignorar que uma grande mudança está a caminho, e este é o momento exato em que o status-quo tal qual conhecemos começa a fraquejar. Por mais que a jornalista se esforce para maquiar a notícia, agora existem meios que sua corporação simplesmente não é capaz de controlar, meios de informação dinâmicos e pulsantes que, se bem utilizados, são capazes de oferecer informações que não foram para a TV e para os jornais, ou que foram distorcidos para que fossem veiculados. Fica cada vez mais evidente, a uma parcela cada vez maior de pessoas submetidas à Máquina-Sistema que há alguma coisa muito errada acontecendo - atrito entre peças (mentiras, guerras, violência), sobrecarga e desgaste (subemprego, exploração, impostos e irresponsabilidades), e perda de energia (escapismo, miséria, morte e inanição). É claro que nem todos são capazes de perceber conscientemente este mal-funcionamento; muitos se agarram à normalidade, ou se desesperam e enlouquecem lentamente em seus trabalhos, em casa com as suas famílias, em ônibus e trens superlotados, em carros em congestionamentos, por vias que não os levam a lugar algum. Tomados por crises de depressão e ódio e canalizam estes sentimentos para os que se encontram na mesma situação que eles sem saber que assim se tornam cúmplices dos verdadeiros responsáveis por este estado generalizado de misérias, os governos, as religiões institucionalizadas, as empresas exploradoras e as mentes que fabricam. Aos ditos "politizados" identificados com as balelas (esquerdistas ou direitosas) da decadente "realpolitik" só sobra uma megaversão do jogo da batata quente. Todos

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rebaixados à qualidade de peças diferentes desta mesma máquina. As elites (peças tipo A - geralmente a direita de quem entra, no alto da escadaria) colocam a culpa dos problemas do mundo no crescimento demográfico, nas ondas de imigração dos pobres, no jeitinho dos empregados, na herança indígena, na mistura racial, nas chuvas das monções, na presença de curdos, no calor dos trópicos, na qualidade da água, na quantidade de polém no verão e, mais frequentemente, no "paternalismo institucional". No contexto do chamado terceiro mundo a direita vomita ideologias desenvolvimentistas ultrapassadas lamentando o fato de não termos o mesmo nível de produtividade e excelência da Suíça ou do Canadá "onde tudo é lindo e corde-rosa, e teletubbies andam consumindo tranqüilamente em meio à bonecos de neve e verdes campos até a hora de dizer tchau". A estratégia das elites é jogar a batata quente para cima de todos aqueles que se acredita atrapalhar seu grande projeto de mercado global ao qual os estados (mínimos) e as diferentes nações devem se alinhar e se submeter. Como no reflexo de um espelho, as outras vias (que de fato são uma só, e geralmente se colocam a esquerda): os ditos socialistas, entusiastas do sindicalismo estatal, social-democratas e outros tipos de reformistas (peças tipo B) jogam a batata quente em cima dos ricos gananciosos que só pensam em si, transformando-os nos grandes vilões da história. Mas isso certamente é uma supervalorização das elites, que são por demais incapazes de qualquer reflexão sobre qualquer coisa que não seja o lucro cego (é isso ou será só um grande lodo de hipocrisia?). Se agem nesse sentido, agem por dois motivos: 1) pelo medo da mudança instigado pela ideologia de guerra de classes, e 2) pela segurança da tradição, traduza-se automatizada reprodução. Por outra via, o esquerdista clássico não se permite eximir os pobres e os alienados, considera-os desorganizados, ignorantes e "desinformados", que não são minimamente capazes de reconhecer (e de votar) nos esquerdistas como "vanguarda", "autênticos líderes"

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defensores de sua classe e do seu sagrado bem estar estatal. Fora desta balela o mundo está explodindo em mudanças rápidas e promissoras: blocos de guerreiros vestidos de negro, rizomas de rádios comunitárias, levantes indígenas, redes de okupas e outras insurreições nos centros e periferias. Cada um destes elementos é também uma peça no mosaico deste tempo em movimento. O futuro realmente não é mais como era antigamente e esta frase, pichada em um muro argentino, lembra-nos o quão negro o futuro nos pareceria se não fosse nossa própria capacidade de intervirmos positivamente no que está por vir. Então pichamos aqui algumas idéias para o futuro, uma proposta de intervenção neste estado de coisas, por um mundo que ainda está para surgir.

Ações em Direção ao Nada
Atitudes a não serem tomadas quando se quer fazer alguma coisa. Você acorda e prepara um café da manhã dos campeões com uma imitação de grãos tostados que fariam uma galinha se sentir desgostosa; com leite e soda cáustica da Parmalixo (quem se importa com alguns tumores malignos diante da possibilidade de dentes tão brancos!?). As marteladas em cima e em baixo do seu 'lar' te lembram que seus vizinhos tentam salvar suas vidas de classe média miseráveis com mais alguma reforma da qual realmente eles não precisam. Ah... A vida é dura para quem se senta molengão na frente de uma televisão e como uma esponja absorve todo o tipo de lixo midiático que os empresários do setor podem produzir. Seria uma piada de

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mal gosto se não fossem nossas realidades, a minha e a sua, o motivo da gargalhada: cercados de zumbis das classes A, B, C e D se arrastando daqui para lá por todos os lados. Você pára e pensa - deve haver alguma mensagem subliminar em tudo isso: dos impostos aos outdoors, das tarifas bancárias aos sinais de transito, só pode existir um sussurro hipnótico que molda todas essas vidas, uma mesma sugestão que te faz beber deste leite e comer destes grãos; você, indiferente a qualquer razão. Não sei se ouço bem no meio de tanta ruído sistêmico... mas parece haver uma mensagem subliminar dizendo... SE SUBMETA. Da letra romântica do cantor popular, no sorriso da garota da propaganda e na integridade do ancora do noticiário a intenção de submissão é constante, mas nunca evidente. Ela exige que você pague os impostos, respeite as leis de trânsito, seja um bom menino e sobretudo vote. Ela lhe oferece um mundo de opções A, B, C e D, todas elas nos conformes de um estado de coisas e do mercado de pessoas, a "diferença" enlatada na mais sacra normalidade (ou não seria normatividade?). Estilos de vida?! Escolha um em nosso cardápio! - yuppie, hippie, alternativo, emo, punk, surfista, mulher moderna, clássica, macrobiótico etc... etc... - Todos estes que aqui constam estão nos conformes, de mãos dadas com a mão invisível do deus mercado. Dentes brancos e hálito ácido, qualquer coisa para além disso deve parecer impossível, a mídia deles irá se esforçar para difamá-la, torná-la sinônimo explícito de fracasso. A submissão pode assumir muitas formas: a depressão, o escapismo, a arte pela arte, e até aquele tipo específico de loucura isoladora são algumas delas. A questão é, você realmente vai bancar o submisso ou pretende ainda se insurgir contra este estado de coisas? Estas são algumas reflexões de como evitar (ou não) algumas posturas (e ações) que geralmente resultam em...

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Nada. Tão excitantes ou substrutivas como um pato de três olhos. Mas não fique transtornado. As estatísticas demonstram que diferente da probabilidade de se encontrar um pato de de três olhos são grandes as chances de existir ao menos uma saída neste labirinto.

Desdobramentos...

Deprima-se
A Industria farmacêutica agradece! "Pela manhã pensamos na tarde, durante a semana, sonhamos com o fim de semana, suportamos a vida de cada dia pensando nas férias que vamos tirar dela. Nesse sentido estamos imunizados, contra a realidade, entorpecidos quanto à perda de nossas energias" - P.M., Bolo`Bolo Você poderia ser qualquer um, mastigando esses grãos industriais com leite ácido sentado em sua casa ou em pé algum subemprego, com a boca aberta (semi-desdentada ou) cheia de dentes esperando a morte chegar. Você poderia ser eu sentado no meu lugar, no meu quarto, na minha sala de aula, no meu ônibus, no meu trabalho, no meu psicólogo (ou psiquiatra) destilando as mesmas depressões, sintomatizando as mesmas doenças que irão encher os bolsos de algum empresário do setor farmacêutico. Depressão, infelicidade, déficit de atenção, envelhecimento precoce, stresse - tudo o que pode ser patologizado brilha como ouro aos olhos desses mercadores da saúde mental e seus remédios de última geração para todo tipo de mal. Nos nossos dias, não há criaturas mais

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felizes que os acionistas majoritários de grandes empresas farmacêuticas: enquanto o resto do mundo tenta lidar com a depressão diária, comprando seus produtos, os donos destas empresas chafurdam no mais sujo lucro que o mercado acionário pode propiciar. Neste mundo de tanta eficiência ainda há espaço para gurus debilóides que afirmam poder calcular o custo de suas ações com base no tempo em que estas lhe tomam. "Time is money, Life for exchange", apesar desse tipo de diarréia mercantil ter sido naturalizado e internalizado, ninguém considera a possibilidade desta ser a verdadeira doença da qual só estamos medicando os sintomas. Pequenas alegrias medicalizadas estão disponíveis a preços nem sempre módicos, nas estantes das farmácias e das drogarias. São poucos os que conseguem perceber os vínculos entre a cultura da 'eficiência', da 'máxima qualidade' e da 'optimização do tempo' com os chamados males do espírito. Os cremes faciais alardeados na televisão não são realmente fruto de um desejo de eterna juventude, mas conseqüência da sensação de que nunca tivemos uma juventude verdadeira pois passamos toda essa fase nos preparando, estudando, trabalhando, envelhecendo precocemente para nos tornarmos eficientes. Tratamentos de rejuvenescimento são a nova chance de ter a segunda chance, mesmo que saibamos secretamente que, caso a tivéssemos, a desperdiçaríamos novamente. A Cura estraçalha o Tempo Quando nossos antepassados não passavam de bandos vivendo em florestas, savanas ou desertos, a avareza era provavelmente considerada um 'mal

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do espírito', o próprio tempo era um 'tempo livre' estivessem as pessoas vivas ou para morrer¹. Milênios depois, espera-se que eu e você, humanos pós-revolução industrial nada mais sejamos que peças desejosas da máquina, pseudo-livres, obcecadas pela posse, pelos restos de espetáculo, em nossa miséria de relacionamentos interesseiros e superficiais. Curiosamente essa mesma máquina da qual fazemos parte é a mesma que controla nossa 'natureza', toma boa parte do nosso tempo e, de quebra, nos deixa doentes! Há apenas 80 anos, remédio era sinônimo de chá ou aspirina e a idéia de tomar uma aspirina era tratada pelas classes baixas mesmo de países ricos como algo ridículo ou degradante². Mas, hoje, medicação é parte integrante da vida de muitos de nós. O Remédio enquanto forma de cura deu lugar ao remédio enquanto estilo de vida - diante de uma vida estúpida e cheia de lacunas, como peça (ativa ou sobressalente) do mercado de trabalho. Viver anestesiado é um pré-requisito para se viver pacificamente, afinal de contas finalmente tornou-se possível se chapar a um ponto de não mais ter que vivenciar esta sórdida realidade circundante, sem sentir dores. E nada mais passível de controle que uma nação de depressivos em busca da cura, um exército de pessoas cheias de culpa e frustração internalizada, suscetíveis a todo tipo de trapaça inventada por doutos, ordenadas sob a égide das mais modernas terapias. Será uma coincidência a indústria farmaceutica, assim como a indústria bélica, ser em sua maior parte composta de empresas de origem estadunidense? Pela manhã os estadunidenses tomam "breakfast" algo que atualmente possui muito pouca semelhança com nosso café da manhã. Nos dias de hoje todo "breakfast" dos campeões que se preze - tanto nos Estados Unidos quanto em suas províncias ao sul e no oriente médio - deve incluir uma quantidade razoável de comprimidos e pílulas, formas

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de anestesiar corpos e mentes diante de um trabalho entediante, de realidade cada vez mais deprimente da sociedade de mercado. Estaremos nós condenados a escolher entre a sensação da ordem lastimável deste sistema e o niilismo da pax medicalizada? Não será a sintomatização desta doença proporcional ao nível de inconsciência e internalização de toda merda circundante? Se esse for o caso, a consciência e a externalização podem ser os primeiro passos para a cura deste mal que é o sistema. Está mais que na hora de controlarmos essa pandemia aprendendo separar as doenças de origem genética ou de formação bioquímica ou àquelas de origem contagiosa, das outras cuja verdadeira causa é sistêmica. Etiologia Banquemos por um instante o papel do etiologista sóbrio. Cirrose ou câncer possuem origens bem distintas de parkinson ou epilepsia, que por sua vez possuem causas distintas de doenças como malária, dengue ou AIDS. As três últimas são do grupo das doenças epidêmicas, resultam de contágio, por sexo inseguro ou picadas de mosquitos infectados. As do meio são provavelmente frutos de um grande azar genético ou de má formação embrionária, enquanto as primeiras são sistêmicas! (Isso mesmo!) Tão sistêmicas quanto estresse e depressão. O que leva uma pessoa a beber até adquirir uma cirrose é desgosto, desilusão, fuga ou tédio, o que causa câncer em alguém são décadas de consumo de porcarias industriais cancerígenas displicentemente comercializadas sob as vistas grossas dos Ministérios da Saúde de todo o mundo³. Etiologizemos um pouco mais dividindo o grupo das doenças sistêmicas em dois subgrupos: ETDPT e PICR. Se

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você tem câncer, cirrose ou problemas de coração a sua doenças é do grupo ETDPT. O que isso significa? Uma vez que o sistema agiu sobre o seu corpo de forma perniciosa e o dano é provavelmente irreversível demais para que pares de tomar remédios ou recuse o tratamento, "É Tarde Demais Pra Ti" ⁴. Ainda assim, sendo portador de uma doença ETDPT, se você não mergulhou no niilismo, talvez seja uma atitude dignificante e de extrema importância pensar no futuro das novas gerações. Tu podes certamente contribuir para que as crianças de hoje, não sejam por exemplo os "cancerígenos do amanhã", buscando conscientizá-las das possibilidades traiçoeiras do consumo. Caso o seu mal seja algo como depressão, estresse, histeria ou tédio a sua doença faz parte do grupo PICR. "Pare Imediatamente Com os Medicamentos", não tome sequer um comprimido e abandone todo e qualquer especialista (principalmente psicólogos & psiquiatras) que busque internalizar problemas que são exógenos e sistêmicos⁵. Esqueça as leituras médicas que falam de excesso ou ausência de sais ou hormônios em distúrbios desse tipo - a verdade é que eles não têm evidências para definir o que é causa e o que é conseqüência. Os portadores das doenças PICR têm a sua frente a possibilidade de refletir sobre os verdadeiros motivos de seus males. Se encher de medicamentos com a intenção de "curar" doenças PICR nada mais é que uma verdadeira traição ao próprio corpo quando este tenta passar uma mensagem sobre quais são as conseqüências do sistema sobre si. É necessário que saibamos escutar estas mensagens ao invés de nos fazermos de surdos. A despeito das besteiras ditas por grande parte dos psicólogos, ninguém sente o que sente por acaso, temos motivos sufientes para sentir o que sentimos. Você já perguntou qual é a verdadeira origem da sua tristeza, angústia ou nervosismo? Que mundo é esse que te cerca e te consome? Talvez seja uma boa enlouquecer e se deixar enlouquecer. Mas tente não descontar nas outras pessoas a maior parte delas está tão ou mais doente que você. Sobretudo tenha em mente que a única forma de cura viável

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para os seus (e tantos outros) males é combater a epidemia da "realidade" porque ela é o verdadeiro motivo da sua doença.

Diga Não! Ao Escapismo.
Desista da TV e não banque o avestruz! "Os que tentam sair da Máquina preenchem funções de recreativos marginais - hippies, yogues, etc." P.M., Bolo`Bolo Em tempos difíceis, não há nada tão cômodo (e nada tão comum) quanto a síndrome do avestruz. Ela consiste que esconder a cabeça no buraco e acreditar (ou pelo menos torcer) que todo o resto do corpo está em segurança. O avestruz sabe que o predador se aproxima, tem uma mínima consciência de que vai virar comida (e depois merda), mas tudo o que consegue fazer é se enganar. São tantas e tão variadas as formas que assume a síndrome de avestruz que seria necessário o mesmo número de caracteres existentes na Wikipédia somente para listálas. Em termos políticos essa síndrome é contemporaneamente chamada de escapismo. É impossível definir o momento de origem do escapismo. Diante dos exemplos trazidos pela etologia, podemos concluir que talvez ele seja mais antigo que a própria humanidade. Os registros mais antigos sobre o escapismo estão entre os antigos gregos. A Grécia foi o palco de um dos maiores escapistas de todos os tempos, Diógenes de Sínope (413 a.C. – 323 a.C.), o cínico. Portador de idéias bem interessantes e um sarcasmo fora do comum, Diógenes nada (ou muito pouco) fazia para que suas

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reflexões se materializassem ou impactassem no mundo do lado de fora de sua mente. Sua postura indolente contra o poder poderia agradar muitos de nós, mas triste é o fato de sua fama resultar de seu costume peculiar de se masturbar em público e viver boa parte de sua existência dentro de um barril. Apesar de mostrar seu descontentamento através do escárnio, Diógenes assumiu um papel tão submisso diante do Sistema-Máquina da cidade-estado de seu tempo, quanto os escapistas contemporâneos em nossa própria conjuntura. Os homens de seu tempo o transformaram numa espécie de figura folclórica divertida, para todos os fins, outro divertido marginal recreativo. "Oh! Mas que pena que não se possa viver apenas esfregando a barriga!" Diógenes de Sínope, ao ser repreendido por punhetear em praça pública. Recreação é uma das facetas escapista: os Yogue indianos do mesmo modo que os Faquírs árabes - com suas camas de pregos, espadas enroladas nos pênis, braços levantados por décadas, cabeças enfiadas em buracos (e coisas do gênero) - entretêm às populações da baixa Ásia já há milênios. Tudo bem fundamentado num conjunto de crenças que pretende demonstrar o prevalecimento da espiritualidade sobre o mundo corpóreo, legitimando a imolação e a busca da santidade pela contemplação, desprezando a vida. Se retirar da sociedade, viver de esmolas e dos restos dos passantes, ser o centro das atenções em praça pública, e dessa forma capitalizar simbolicamente mostrando a potência de seu espírito, de sua força de vontade quando comparada a espiritualidade e a força de vontade alheia. O oriente está cheio destes escapistas e eles entretiveram gente simples por séculos, um papel bem atuante distraindo o povo enquanto impérios suntuosos e nações poderosas foram erguidas sobre as suas costas. É de senso comum na Índia o fato de todo Yogue ser um guru em potencial e como todo guru quer mais é expandir sua esfera de influência e com o advento dos

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meios de telecomunicação não demorou muito para a ladainha misticalóide atrair multidões nos quatro cantos do mundo. Logo os místicos Yogues indianos estavam inspirando os hippies (também escapistas bem conhecidos) e doutrinando velhinhas endinheiradas e adeptos da macrobiótica. A chegada do espetáculo Yogue ao ocidente também deu origem a um dos exercício de relaxamento preferido das camadas pretensamente saudáveis (ou semiesclerosadas) da classe média, a Yoga. Se religião é de fato o ópio do povo, os Yogues e os faquírs os mais espetaculares traficantes. Outros escapistas históricos foram os poetas e escritores do romantismo piegas do século XIX. Em meio a suas crises de tuberculose e punheterismos - haja mão para tanto amor platônico - os românticos daquele período viam o mundo real como uma eterna frustração comparado com seus idealismos, seus tantos sonhos sobre os quais também pouco faziam para que se concretizassem. Escapar era a grande solução - se embriagar em tavernas, sozinho ou com outros fujões, chorar em público, desmaiar e desejar a morte - os românticos foram grandes mestres da arte de pagar mico e este, de fato, foi o motivo para que muitos deles morressem virgens e imaculados. Em nossa sociedade o escapismo assumiu atributos de uma série de estilos de vida. O workaholic também enfia sua cabeça em um buraco, neste caso o buraco é o próprio mundo do trabalho. Geralmente sua vida privada está entre o tédio e a nulação, suas relações e afinidades são praticamente inexistentes, e enquanto o mundo desaba ao seu redor, o Workaholic só quer saber de trabalhar um pouco mais. Esquecer do resto do mundo e suas crises, para o Workaholic o trabalho é um refúgio, tirar

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seu trabalho é implodi-lo já que sem ele, o workaholic se torna um nada. Para as torcidas - de futebol, classicamente, na América Latina, mas também em outros lugares - o que importa é que seu time seja campeão. Normalmente os torcedores fanáticos possuem trabalhos miseráveis, problemas familiares e vivem empoleirados em subúrbios cubiculares onde todo dia é dia de tentar se alienar. As condições em que vivem pouca importa para eles, já que possuem em sua frente o buraco para enfiar a cabeça chamado estádio de futebol. Quando estão nos estádios, gritam, bradam por justiça, por guerra, por força, por garra, por determinação. Pelo estádio se sentem livres para gritar aquilo que deveriam fazer fora dele, livres de uma vida de frustrações deixada de lado pelo grito de gol que renderá muitas conversinhas de corredor onde quer que seja. É algo como o avestruz que, insuportável, põe a cabeça no indiferente aos berros sufocados outros avestruzes estejam dando parecida. se sentindo num mundo buraco e berra nele, que naquele momento em uma situação bem

O estádio de futebol é realmente um fenômeno fantástico. Nele podemos notar de forma notória que os torcedores berram por aquilo que crêem no mundo de fora. Nacionalismo em dias de jogos da seleção, racismo contra jogadores negros (como já se viu em torcidas do São Paulo ou do Juventude de Caxias do Sul), racismo as avessas em prol de times historicamente negros (como do Inter de Porto Alegre), bairrismo (de novo no São Paulo e mais fortemente no Grêmio de Porto Alegre, que inclusive canta em espanhol como uma forma escapista de protestar contra sua condição de brasileiro). Os torcedores inclusive exigem valores supostamente morais de seus clubes, como a técnica em alguns times (e aqui vemos incutido um elogio à tecnocracia e a cultura da eficiência, inclusive sendo o valor moral mais pregado pelas grandes mídias, que consideram o bom futebol aquele não violento e cheio de técnica, como se o espetáculo fosse uma transfiguração da própria máquina em

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catarse sistêmica), a violência e a dita raça de outros (que a mídia condena, por temer visivelmente que tais valores fujam do campo e se joguem contra a máquina), a beleza e a plasticidade (que a mídia elogia, embora tema que o lúdico tome conta da vida cotidiana), etc. O Rato de Balada Entre os típicos niilista alternativo, o junkie é aquele que recorre à "remédios" pouco ortodoxos - de calmantes não reconhecidos pela OMS à estimulantes que transformam qualquer um em uma sorridente líder de torcida - tudo conseguido em alguma boca ou quebrada do bairro: que miríade de formas fantásticas é capaz de se travestir o consumo. Depois de 'feita a mão' liga-se o botão 'foda-se' e viaja por paraísos artificiais (que normalmente são advogados pelo junkie sob o belo argumento da droga ser natural). Afinal de contas o junkie paga suas próprias contas (impostos e consumos) e ninguém tem nada a ver com isso, (certo?). No trem das conseqüências, ninguém é uma ilha por mais que se cerque de ilusões por todos os lados. Todo o potencial transformador e criativo de um junkie se resume e se consome no ato de cambalear num mundo cambaleante na calçada do centro da cidade ou na cobertura de algum amigo riquinho. Neste admirável tempo de novos escapismos, seja qual for, para muitos a droga é o SOMA. Só resta a pergunta: é possível que um escapista atravesse as portas da percepção. A resposta realmente não importa, o que importa é que entre a realidade e o dopping, se você é um junkie, optou pelo dopping, logo sua realidade cotidiana provavelmente é um imensa sucessão de momentos sacais que desafiam a cada instante sua vontade de existir. Será a fuga o melhor remédio? "...meio grama para uma folga de meio dia, um grama para um fim de semana, dois gramas para uma viagem ao suntuoso Oriente, três para uma eternidade sombria na Lua." Aldous Huxley, Admirável Mundo Novo

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O telespectador é possivelmente o avestruz que já aceitou sua impotência perantente o mundo. Ele não berra mais no buraco e nem quer achar minhocas cor-de-rosa voadoras dentro dele. Ele simplesmente quer achar um buraco confortável, que sua cabeça não doa, que dê pra respirar gostoso e que tenha um buraquinho onde no fundo se enxerga a bunda daquela avestruz gostosa. Ele, inclusive, já aceitou que sequer comer aquela avestruz gostosa conseguirá, pois isso só é possível para os avestruzes que possuem mais penas e buracos mais luxuosos. Assim, o telespectador aceita que outros possuam buracos mil vezes maiores que o dele, aceita que ele jamais terá o prazer sexual que deseja, aceita que sua comida será eternamente o bagaço e se contenta em contemplar, passivo em seu buraco, os desejos satisfeitos de outros avestruzes.

Bancar o louco
não é a melhor Estratégia Certas pessoas que ao chegarem à conclusão de que o mundo as incomoda, resolvem retrucar o incômodo com um incômodo maior ainda. A idéia não seria ruim se soubessem canalizar seus esforços para o lado certo. Em certos contextos a liberação do incomodo, em forma de revolta e raiva é o melhor a ser feito. Mas para a maior parte destas pessoas, bancar o louco e rodar a baiana não chega a ser uma tática, é sim um estilo de vida - algo a ser anexado à própria identidade, que quando acionado é descarregado, o resultado é leveza e soltura em seu 'eu' intrinceco, quem está ao seu redor é quem geralmente aguenta o repuxo. Mas... diante de tamanho beneficio o que importa as vítimas da rodada?! Como metralhadoras giratórias com problemas no

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tripé, este tipo faz vítimas de uma forma indiscriminada. Mas sempre existe algum lugar onde se esconder - atrás de um bem medido espontaneísmo, as vezes até mesmo considerado por quem o aciona, como algo subversivo. Esta forma de "auto-descontrole" se tornou muito comum em uma série de movimentos contra-culturais do século XX, e provavelmente foi o motivo de sua assimilação e ruína. É aqui que começamos uma breve arqueologia do descontrole esvaziado no mundo do espetáculo. Não é novidade que o espetáculo distorce a vida: quem não lembra de Juventude Transviada, o filme de 1955 onde um certo James Dean interpretava um estetizado "rebelde (aparentemente) sem causa", um protótipo ideal de beatnick esvaziado de todo seu conteúdo político e poética, reduzido a uma espécie de galã juvenil em um mundo que nada mais era que uma versão mais que perfeita do sonho americano. Descontrolado e sedutor, Jim Stark (o personagem interpretado por Jean) era a armadilha perfeita para o público jovem da década de 50, jaquetas de couro, máquinas possantes, gel no cabelo e vestidos rodados venderiam como água dali para frente. E a vida reflete o espetáculo: beatnicks descontrolados e esvaziados como Stark passaram a se arrastar pelo pelo mundo, desde então, isso impressionava as garotas, e decretava o fim de um movimento. E não parou por aí, dos hippies aos punks, todos tiveram, ambas as modalidades da contracultura recente tornaram-se estereótipos variantes deste mesmo descontrole. A conveniência é a mãe da fast fode, com um moicano na cabeça e uma jaca de rebites imbecis, adoradores do caos... O descontrole aparentemente espontâneo vem vendendo um bocado desde então. Além de ser uma forma excelente maneira de combater o tédio e exercitar o niilismo. O

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mercado do rock pesado está cheio disso (vide o imbecil na foto acima, ele é só mais um pseudo-enlouquecido telespectador que pagou 50 dólares para rolar na merda no festival do Ozzy). Não é para menos, desde que os espetaculares descobriram que comer morcegos e explodir porcos, bater em fotógrafos e quebrar guitarras e hotéis aumenta a venda das camisetas e discos, seus fãs tinham que se sentir consumindo esta nova atitude. Mais recentemente foi exibido no Brasil uma novela de fazer qualquer ser humano com o mínimo senso vomitar: Rebelde. Um bando de filhos de milionários que estudam numa escola para igualmente milionários se demonstravam constantemente descontentes com as atitudes dos pais, mandavam seus professores se foder, etc. Tudo que queria era poder consumir sem que ninguém os enchesse o saco: o resumo da ópera "geração X" estava ali, libertários que entendiam liberdade como "quero consumir o que eu quiser sem que ninguém me aborreça", rebeldes que resumiam seus motivos de indignação a terem de ter noção com o trato do outro. Nossa "civilização" é certamente campeã em subculturas que julgam resolver os problemas do mundo com alguma artimanha ridícula que levam a sério. Os vegetarianos, os vegans, os naturebas, os hare krischna, os maconheiros, os moradores de rua por opção, os primitivistas nômades, os quakers, os monolitas, os rebeldes sem causa, os hippies, os beatnicks, enfim, uma cambada de gente que acha que pode resolver o mundo baseando-se em algum princípio simples que os torne diferente de todos, como não comer carne, rezar com a benga, usar drogas naturais, fugir de casa, caçar comida no mato ou mesmo plantar utilizando técnicas pré-históricas. A verdade é que o que estas pessoas estão fazendo é nada mais nada menos do que se fingir de louco, criando uma vida imaginária que soluciona todos os problemas e acreditando (e forçando outros a acreditar também) que dessa forma sua vida está solucionada. O fato é que não solucionam nada e eles sabem disso, mas se esforçam pra se enganar que suas idéias solucionam.

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Revolta saudável
ela não faz a menor diferença Por todos cantos vemos manifestações "pacíficas". Estudantes revoltados empunham flores, como se hippies tivessem resolvido algo caminhando em avenidas. Os motoristas, pessoas normais tentando manter suas vidas numa relativa estabilidade débil, se revoltam contra o "caos", que nada mais é que chegar em casa 10 minutos atrasado. E agora, pasmem, até a classe média semi-alta se acha movimento social protestando contra a demora de algumas horas para embarcar em seus vôos para Miami ou para o Nordeste. As peruas e mauricinhos estão cansados. Pobres diabos. Se nem tudo começou com os reformistas póspetistas¹, por aqui, no Brasil, parece que eles seguem a risca com suas tédio-passeatas, tudo o que manda o manual do esquerdista revoltadinho. A conseqüência da revolta estudantil, por vezes sindical, é nada mais que um pequeno congestionamento para os motoristas e passageiros de ônibus e uma pequena catarse para os pós-petistas. Nada mais. Nada muda, ninguém toma partido (para além da instrumentalização da luta em nome do próprio partido) e tudo segue seu rumo cotidiano logo após a manifestação acabar. Não se sabe se essa demência começou com os hippies, mas certamente ela se consolidou no medo de qualquer revoltado de tomar um pau da polícia. De lá para cá os pós-petistas evoluíram muito no quesito "protestos", agora entre eles apanhar da polícia e aparecer no jornal oferece inclusive alguma chance de ganhar um carguinho de confiança com algum deputado ou mesmo concorrer a deputado em alguma eleição. Maravilhas do mundo encantado dos vermelhos menos

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votados! Seja o que for, apanhar e se revoltar passivamente por ter apanhado ainda é a regra. Então, que brademos em altos tons: os pós-petistas (assim como os hippies a seu tempo) não vão resolver NADA e os policiais NÃO SÃO INVENCÍVEIS. Se a revolta é contra bancos, que se queimem os bancos e se afrontem os policiais. O levante - festivo ou vociferante é necessário para acabar com a bunda-molice. Aliás, os policiais são controlados por políticos (da esquerda e da direita) que por sua vez só se sentirão intimidados por maiorias ocupadas em quebra-quebras. Se a revolta parecer consensual entre a população - e talvez você possa fazer alguma coisa nesse sentido - os políticos ordenarão que os policiais recuem (como já ocorreu algumas vezes) e pode ter certeza que eles vão querer recuar. Caso contrário, esteja certo de que você participará de uma pequena batalha que poderá ser mil vezes mais divertida do que ir à montanha-russa na Disney. Admita os riscos: ser preso, apanhar e talvez ser hospitalizado. Mas afinal, existe melhor forma de combater a violência institucional que aniquilando o monópolio da repressão estatal de dentro de si e assumindo que a luta pode ser simétrica? Entenda que após isso você não mudará o mundo, mas certamente deixará o objeto de revolta com um pé atrás antes de fazer a próxima patifaria. Lembre-se do lema dos anarquistas gregos - "Não vamos fazer igual! Vamos fazer pior!" Alguém uma vez disse "é melhor morrer em pé do que viver de joelhos!" - prepare sua máscara, suas canções anarquistas, suas pedras e molotovs e boas festas!

Arte-Rebeldia
Quero minha parte em pólvora "Não vou à Bienal, se for passo mal". Transeunte

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"As pessoas precisam mais do que arte. Precisam de fogo e esperança.". V de Vingança Ao entrar numa bienal, verás um curta-metragem sob masturbação. Caminhe pelo corredor e verás um mar de papel a tua direita. Siga pelo corredor da esquerda e verás lâmpadas iluminando o último conceito em ambiente. Isso resume tudo. A Bienal é masturbação, é um mar de papel e é uma exposição de decoração para a alta classe social disposta a contratar o que há de mais "conceitual" para deixar a "sociedade" babando pelos seus palacetes. A Bienal é o símbolo máximo do fracasso da arte. A arte, por sua vez, como representação do real, fracassada, deixa claro que falhamos enquanto sociedade. Mas voltemos um pouco. Para entender como chegamos a isso, temos de lembrar o que é ARTE. Arte, caros amigos, é uma forma explícita de dizer algo. Por exemplo: se alguém falar que "se sente mal", o interlocutor permanecerá totalmente indiferente. Mas esse alguém pode dizer isso de uma forma que ofereça uma amostra de seus sentimentos. Essa amostra é a arte. A arte é o eufemismo estético do mundo da vida. Se falar não resolve, nos comuniquemos de uma forma mais FORTE. É claro que a arte não serve só para dizer que nos sentimos mal. As vezes serve também para dizermos como achamos isso ou aquilo bom ou ruim, como nos sentimos em relação ao sexo, a sociedade, ao amor, ao ódio, etc. Pois bem, você está na Bienal. O que o artista está te dizendo? NADA. A verdade é que por trás do discurso de "toda interpretação é válida" temos um artista que não tem nada pra dizer - "Viva o vazio semântico! Significantes sem significado!" Ele está submetido às regras do jogo, e as regras do jogo são: por mais que te sintas mal em relação a

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tudo, mantenha a ordem "natural" das coisas se expressando, mas ainda assim não dizendo absolutamente nada de novo. Assim, a bienal é o símbolo do nosso fracasso enquanto civilização: nos enredamos numa trama tão maldita que sequer podemos imaginar nossa vida fora dela. Não temos mais o que expressar porque não vivemos mais e sim somos marionetes das regras implícitas do jogo. Vou ser retórico: qual a forma mais contundente que temos para dizer "Eu odeio essa ordem das coisas!"? Simples: explodindo tudo. A destruição é, acima de tudo, uma arte. É, acima de tudo, comunicação clara, objetiva, explícita, forte e, creia-me, BELA. Pense num banco em chamas, com toneladas de papel voando pelas janelas. É um crime? Só se você enxerga pelos olhos do banqueiro ou do estado. Se você é só mais um explorado, então isso é arte! A arte deixou de existir com as bienais porque foi criminalizada! Pense na beleza do marco histórico humano onde as pessoas dizem "NÓS NOS SENTIMOS MAL COM O SISTEMA FINANCEIRO". Essa frase parece idiota, mas ela vira uma frase perene, se materializa, impacta, e será lembrada, quando um banco inteiro queima. Pense: não podemos construir nossa civilização por mero acréscimo de novas coisas às antigas. Algo deve queimar para dar lugar ao novo. Mas é necessário separar o que é violência (contra seres humanos) da destruição do que não queremos como sociedade. Por mais que pareça interessante dar uma boa surra em alguns, devemos ter em mente que o problema não são eles, mas o que eles defendem. Os bancos, as bienais, o sistema. Este deve queimar e não as pessoas: um banco vazio pegando fogo não pode sofrer violência, ele não está vivo, é só um banco, um símbolo de muito do que não queremos. Temos de mudar a estrutura. algumas coisas como bancos e bienais devem queimar!

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Aprendendo com viroses
Metáforas para o sistema e para a contraestratégia Sistema como vírus Tantas foram as metáforas com que se buscou definir o sistema capitalista - a Máquina (que exige recursos a garantir sua permanente reprodução, usando pessoas como suas peças, incansável, fria e perene); a Vitrine (onde coisas e pessoas são colocadas a exposição - e a venda - espetacular - com seu brilho plastificado isolado em meio ao vidro, vendendo um mundo que além de montagem, não se estende para o interior da edificação; o monstro faminto (devorando vidas e matéria prima, acumulando tesouros, deixando para trás restos humanos e pilhas de lixo). Nenhuma delas parece definir completamente este inimigo no seu aspecto de internalidade - e sim estamos enfrentando um inimigo interior - e assimilação do Sistema. Sabemos que a máquina pode ser facilmente sabotada; a vitrine, pode ser quebrada em seu brilho estético, e o monstro faminto sempre terá seu calcanhar de aquiles. Mas nenhuma metáfora parece encaixar tão bem quanto a imagem do vírus. Segundo a definição da Wikipédia vírus é "uma partícula basicamente protéica que pode infectar organismos vivos. Uma forma parasita obrigatória que se aloja no interior celular se reproduzindo pela invasão e possessão do controle da maquinaria de auto-reprodução celular." Mas o que estaria no DNA do Vírus-Sistema? Qual é seu DNA, e de que forma ele se espalha? Quais são seus sintomas? Nos termos de referenciais simbólicos o chamado "Sistema" age exatamente da mesma forma: infecta diferentes culturas, espalha suas referências as custas de tantas outras e, com o tempo, assume o controle da maquinaria em favor de sua auto-reprodução. Dessa forma

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busca garantir a prevalência de uma única "visão de mundo", uma única forma de interação que compreende a realidade através de um conjunto referencial específico. Devemos então refletir sobre este conjunto referencial simbólico: cada forma cultural humana possui um conjunto de referenciais simbólicos da mesma forma que cada indivíduo biológico possui uma combinação de DNA, um conjunto de moléculas contendo informação. Esses referenciais simbólicos assim como o DNA, podem ser herdados, compartilhados e misturados. Também com o tempo e em uma relação de mutualidade com o meio este DNA encontra-se em transformação, se adaptando e mutando para outras formas segundo a necessidade ou a conveniência. É exatamente essa maleabilidade de referenciais simbólicos (assim como no DNA) que permite que às subjetividades humanas distintas sobrevivam, se modifiquem e, processualmente, deixem de ser o que são para se tornarem outra coisa, um exemplo biológico são o troodontes, pequenos dinossauros corredores e saltadores que deram origem aos pássaros, dois exemplos culturais humanos são os Vascones1 que na Península Ibérica deram origem Bascos, ou Medos2 que no Oriente Médio originaram os Curdos. Se examinássemos uma fração desses referenciais provavelmente encontraríamos postulados como estes: • "O trabalho enobrece, liberta e dignifica"

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Os Vascones eram um povo antigo que, antes da chegada dos Romanos, habitava a atual Espanha, a norte do rio Ebro atual Navarra. É provável que sejam os antepassados dos Bascos da atualidade. Os medos foram uma das tribos de origem ariana que migraram da Ásia Central para o planalto Iraniano. Assentaram-se na região noroeste do atual Irã, posteriormente conhecida como Média, e, no final do século VII a.C. Diversos indícios apontam para o fato de que os medos foram os ancestrais dos curdos contemporâneos.

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• • "O homem é mal por natureza3". "Cada pessoa se faz por si mesma e cada um é o único responsável pelo seu próprio sucesso ou fracasso". "Só o consumo salva". "Só você pode mudar a sua vida". "Democracia é o governo do povo e a forma mais avançada de gestão humana". "Não existe política fora do sistema partidário". "Riqueza e sucesso profissional são sinônimos de uma vida plena". "O Estado trabalha para o seu bem-estar". "O Mercado existe para o seu bem-estar". "Civilização é o nome dado ao estágio mais elevado das sociedades humanas". "Independente de todos meios vis e das conseqüências desastrosas, desenvolvimento econômico é sempre bem vindo". "O mercado global trará um futuro melhor para todos os habitantes do planeta". "É impossível viver sem Estado, as pessoas são incapazes de se auto-organizarem". "O governo é necessário para um mundo melhor". "O homem é bom por natureza4". "Os códigos legislativos trabalham em favor de um tempo pleno de Justiça" "Tudo é como sempre foi e tudo é como sempre

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Esta é a visão hobbesiana da essência humana, explicitada em frases que ficaram famosas, entre estas a mais notória é aquela que diz que "o homem é o lobo do homem". Tomas Hobbes, é o mesmo canalha que criou uma teoria contratualista para defender o estado absolutista em seu Leviatã, dando direitos ao monarca de decidir sobre a vida e a morte de seus súditos. Nesta afirmação se definem a visão sobre os seres humanos de dois autores clássicos do contratualismo. Tomas Morus e Jean Jaques Rousseau. Rousseau defendia a idéia de que a bondade natural do homem era deturpada pelo contrato social e Morus considerando esta natureza bondosa, afirmava que todos aqueles que se desviassem dela deveriam ser severamente punidos, mortos inclusive, em caso de adultério, considerado malévolo pelo autor.

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será". "Infecção" é sinônimo de "colonialismo" e o grande objetivo do Vírus-Sistema é uma epidemia global generalizada. Apesar dos hospedeiros correrem risco de vida e começarem a perceber alguns sintomas como surtos de violência (aparentemente sem sentido) e caos ambiental (que por enquanto é assumido como mera inconveniência), a grande maioria permanece insensível em seu mundo fictício de constante progresso onde toda desolação deve ser ignorada. Como alguém já disse antes nosso vírus-sistema um monstro assimilador, se alimenta do nosso imaginário, de estilos de vida, convertendo nossas referências, mesmo (e talvez principalmente) aquelas que se voltam contra ele, podem ser assimiladas, esvaziadas de conteúdo, estetizadas, produtificadas na forma de objetos de consumo a serem usados contra todo e qualquer desejo de insurreição. "Propaganda é a arma do negócio" e após o bombardeio midiático, finalmente os chineses podem se deliciar com Coca-Cola, também os indígenas devem se tornar empreendedores e logo o sonho americano estará disponível nos subúrbios de Bagdad. Os anti-sistêmicos e os sistematicamente marginalizados são chamados de volta ao centro, através de suas imagens roubadas e refeitas em pró da grande epidemia. Virose(s) Se o vírus como uma boa metáfora ele não pode ser pensado como algo único e coeso. Não existe apenas um único vírus, mas sim diversas viroses diferentes que em diferentes contextos, apesar de serem viroses pró-sistêmicas, em certos contextos podem competir entre si sem muita consciência (ou consideração) de suas conseqüências. O Estado dos burocratas, em sua ânsia por

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carimbar, protocolar, controlar, cobrar, autuar, autorizar, registrar, enfim, sugar, muitas vezes acaba por infernizar do capitalista mediano às grandes corporações. Novas tecnologias acabam por fazer com que capitais voltem-se uns contra os outros: a luta das gravadoras e estúdios de cinema contra os compartilhadores de arquivo na internet e equipamentos de cópia e reprodução de informações - MP3 players, gravadores de CD e DVD - é um bom exemplo disto. Em certo sentido somos minimamente beneficiados por estes embates, resultados da força exercida pelos genes da competitividade em cada um desses vírus. Porém, para além desse benefício, podemos ter certeza que como os escorpiões e as cobras, que evoluem lutando entre si, as viroses do capital e do estado desenvolveram uma série de estratégias de resistência um com relação ao outro. Logo, não nos parece aconselhável esperar que através de seus embates inconstantes, o capital ou estado se acabem. Lembre-se que não há esperança em nenhum dos lados, e utilizá-los em nosso benefício pode ser uma arte marcial perigosa, pois exige uma grande capacidade de interpretação, e muitas máscaras do ocultismo. Se pudessemos analizar o "DNA" destes vírus certamente descobriríamos que eles são resultado de uma bifurcação na evolução de alguma forma de virose da dominação que é muito, muito mais antiga. Talvez seja essa ancestralidade em comum que permita que, sob qualquer ameaça, eles sessem quase todas as formas de rivalidade e trabalhem como se fossem um único organismo. A simbiose entre o estado e o capital tende a assumir as formas mais curiosas e nocivas: o fascismo do livre mercado, o estado de bem-estar capital, e também o capitalismo de Estado (que alguns ainda insistem em chamar de "socialismo") são algumas daquelas que nos são mais próximas. Seja como for, assumindo a forma que assumirem, são nossos inimigos e sempre estarão trabalhando para sua perpetuação em detrimento de toda e qualquer possibilidade de liberdade que possamos desejar - cada uma de suas formas requer estratégias diferentes, e talvez o maior erro dos

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revolucionários em quase todas as épocas tenha sido o apego pelas estratégias ultrapassadas, terapias que já se provaram ineficientes, geralmente sugeridas por um ou outro grande pensador. Vírus versus vírus Na atual conjuntura o que nos resta é pensar quais são as melhores técnicas para combater a simbiose entre capital e estado na forma do fascismo do livre mercado particularmente eu apostaria minhas fichas num contra-vírus que fosse ao mesmo tempo ocultista e para-espetacular, algo capaz de infectar os vírus pró-sistema, implodindo-os por dentro, assimilando e subvertendo seu DNA sempre que possível. Não se podemos negar que alguma coisa nesse sentido está sendo ensaiada lá fora, o prelúdio da epidemia (na epidemia) é algo que paira no horizonte e começa a tomar conta do cotidiano de alguns setores. Dois movimentos se alternam, de um lado o ataque ocultista, do outro a visibilidade para-espetacular. Entre as táticas para-espetaculares temos religiões esquisitas (como o primitivismo por exemplo) crescendo para desespero dos engravatados, redes de Okupas se espalhando pelos continentes e grupos cada vez maiores de manifestantes reclamando a rua de formas inesperadas e criativas, a comunicação alternativa e sites anarquistas lançam outras versões da história; enquanto ocultos nas sombras hackers libertários, eco-anarquistas, guerrilheiros psíquicos e adeptos do Yomango se dispõem a atormentar capitalistas e estadistas, causando danos a sua moral desenvolvimentista ou grandes estragos às suas contas bancárias. Alardeados ou quase desapercebidos os vírus da subversão se espalham. O espetáculo tenta invisibilizar essas ações com a mídia de massa - talvez Fátima Bernardes realmente cheire

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cola5 - a era dos reality shows e das tele-revistas semanais de perfumaria com apresentadores plásticos afetados, soam cada vez mais como normalidade deturpada, até mesmo para os telespectadores mais zumbis. Nas mentes domesticadas a dúvida vêm a tona arrastada por um tsunami de verdades inconvenientes - é grande a possibilidade que um saco de merda e um democrata midiático tenham realmente o mesmo cheiro6. O cheiro de merda e sangue se mistura no ventilador, o espetáculo espirra em todos aqueles a quem ele não serve, em uns pela deturpação de suas imagens, em outros pela crença na imagem deturpada. Mas o objetivo esperado só é conseguido parcialmente e gera uma série de efeitos colaterais inesperado: enquanto algumas velhinhas e crianças se amedrontam, outros se sentem seduzidos pela verdade oculta pelo vírus espetacular. Talvez a expansão do Islã ortodoxo no ocidente se deva exatamente por causa da espetacularização da mídia de massas em torno destes "bárbaros e irracionais". Toda a caricatura proposta pelo espetáculo em torno dos maometanos contém uma mensagem intrigante e dissimulada, que só os desencantados são capazes de decodificar: A opção de dedicar a sua vida (e até mesmo acabar com ela) em nome de uma causa que valha a pena acreditar, é um convite que nenhuma vida esvaziada é capaz de recusar. Esta talvez seja a característica mais promissora dos vírus contra os vírus: se alastrando nos imaginários libertos, preenchendo de conteúdo vivenciável num movimento contrário ao dos vírus sistêmicos que se expandem através do esvaziamento
5 Aqui faço referência a uma das passagens de Fátima Bernardes Experiência, uma das músicas de autoria do niilista junkie midiático Rogério Skylab, escrita como forma de crítica à prostituição e à decadência dos meios informacionais televisivos no Brasil. Uma verdade inconveniente é o nome do documentário sobre aquecimento global financiado e estrelado por Al Gore (que significa Todo Vísceras), ex-candidato a presidência estadunidense (perdedor) pelo partido democrata, que pretende capitalizar para sua corrente política se tornando garoto propaganda e bom moço em ação contra o aquecimento global. Se Gore denuncia uma verdade inconveniente, esconde tantas outras atrás do seu sorriso de yuppi aproveitador envelhecido.

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e da mercantilização da estética, os contra-vírus da subversão oferecem um outro mundo, pleno de conteúdos vívidos, e expansível até a onde a vista alcançar.

Ameríndia kilombola
Contra as Verdades Vendidas pelo Status-quo "Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado". George Orwell, 1984 "Todo sistema de educação é uma maneira política de manter ou de modificar a apropriação dos discursos, com os saberes e os poderes que eles trazem". Michel Foucault, Vigiar e Punir “um facto é verdadeiro não porque obedece a critérios objectivos, rigorosos e comprovados na fonte, mas simplesmente porque outras formas de media repetem as mesmas informações e “confirmam”… A repetição substitui à verificação. Se a televisão (a partir de uma transmissão ou de uma imagem de agência) apresenta uma noticia e em seguida a imprensa escrita e a rádio a retomam, só basta isso para creditá-la como verdadeira”. Ignácio Ramonet, A Tirania da Comunicação De volta aos Kilombos "...e a mente é um quilombo moderno, lugares para todos os pensamentos refugiados da insensatez reinante do planeta Terra" BNegão, Enxugando o Gelo

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A palavra 'kilombo' tem origem na língua mbundu, do tronco lingüístico bantu, significa um ponto de encontro em uma área previamente conhecida, um lugar de descanso, de pouso, para onde convergem e se encontram populações nômades, grupos conhecidos e/ou aparentados. No período colonial os negros mbundu da atual região de Angola foram trazidos para a América Portuguesa aos milhares, decorre daí o fato da maioria dos escravos das colônias portuguesas serem falantes de línguas bantu. Sem muito embargo a versão colonialista colocada em tantos livros escolares afirma que kilombos nada mais eram que ajuntados de negros que sobreviviam, isolados e as escondidas, na simplicidade de aldeias miseráveis, esquecida pelas elites coloniais em algum rincão no interior do futuro Brasil. "Lugar de negro fugido" foi o que te disseram... como é simples e conveniente reduzir os kilombos a meros "refúgios de escravos" e, assim, invisibilizar a espacialidade fluída e as estratégias de luta e auto-libertação dos africanos contra a empresa colonial. Quem controla o passado, controla o futuro; quem controla o presente, controla o passado, a frase de George Orwell é quase um resumo da situação referencial a que são submetidos os africanos e sua história no período colonial. Quem defende a "história estatal" ou "oficial" se reconhece como herdeiro da empresa colonial e, nessa posição busca garantir a constância e a hegemonia de suas próprias referências em detrimento de outras tantas referências, das outras versões históricas. Chega a causar espanto a contradição em que a história oficial coloca a empresa colonial - que teria empregado tantos esforços para acabar com populações inexpressivas e insignificantes. Para além de deslizes como este, as ilusões que conformam a realidade histórica oficial

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são tão bem arquitetadas quanto possível, como a exibição da cabeça empalada de Zumbi dos Palmares nas praças públicas de Recife: um lembrete aos negros escravos sobre o que acontece com quem ousa se levantar contra a supremacia histórica dos senhores coloniais brancos. Na América Portuguesa os kilombos foram espaços autônomos de negros insurgentes, módulos de rebeldia que mais de uma vez, articulados em rede, desafiaram todo o projeto continental de governabilidade e exploração lusitana. Alguns por mais de um século sustentaram formas eficientes de produtividade - alimentos, cestarias, tecidos, cerâmicas e metalurgia - gerando excedentes que permitiram trocas significativas com grupos indígenas e camponeses pobres que lhes eram vizinhos. Em seu apogeu os kilombos mais prósperos como o de Palmares (1670) abrigaram não menos que 20 mil pessoas, contando com extensas redes de informação inseridas secretamente em fazendas e vilas dos portugueses, criaram bases militares e milícias que ficaram conhecidas entre seus inimigos por sua eficiência na guerra de guerrilha. Mas... certamente aos olhos dos empreendedores coloniais - senhores de engenho e brancos escravocratas - o maior perigo originado nos kilombos não eram suas milícias. A principal ameaça era a ampla difusão de uma forma distinta de viver, um conjunto novo de referências povoando o imaginário dos milhares de negros cativos maltratados e maltrapilhos em senzalas sujas: seus escravos sabendo da existência de um lugar auto-governado por negros que foram escravos como eles, e que através da insurreição se faziam livres por sua própria força lutando e vencendo em diversas ocasiões o aparato de repressão colonial. Para os escravocratas do final do século XVII a revolta em uma das ilhas caribenhas apresentava a possibilidade aterradora daqueles a quem exploravam fossem bem sucedidos em derrubar seus dominadores. A Revolta do Haiti se tornaria um fantasma pairando sobre as casas grandes das três Américas: o Haiti, onde multidões de negros escravos organizados, em 1797 derrubaram o governo francês, aboliram por si mesmos a escravidão, e cortaram as

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gargantas de seus antigos mestres para que nenhuma outra ordem pudesse ser dada. No Brasil era inadmissível e ameaçador demais a existência de uma rede de kilombos onde negros rebeldes decidiam seu destino em coletividades que se juntavam em terreiros, que elegiam líderes somente em situações de combate, e que sempre se mostravam dispostos a defender com armas a liberdade de seu novo-velho modo de viver. A grande ameaça de um quilombo como Palmares é que, nele, a cada dia e por muitos anos, chegaram homens e mulheres querendo ser pessoas. Mas... e o Haiti?! Não é aqui!? A Volta dos Kilombos Toda periferia tem - um pouco de senzala e um pouco de kilombo. Após a abolição formal da escravatura muitos homens e mulheres negras, esperançosos de uma vida melhor deixaram as fazendas onde continuavam sendo tratados como mercadoria. Ironia do destino, não só neste caso, mas também em tantos outros o gueto torna-se a prisão e o pátio de execução. Negros e negras e outros de outras cores foram para kilombos-senzalas serem tratados como mercadoria agora no mercado de trabalho, sem onerar nenhum senhor com sua fome ou seu frio, agora eram livres para morrer e viver na escravidão do salário. Nas mentiras que poder conta, o princípio da "liberdade" morre estrangulado por distorção. Logo o cortiço, o barraco e a vila são assombrados pelos novos capitães do mato, brancos (mas também pardos e negros) que agora recebem o nome de policiais. Nego que foge da escravidão do salário para cair no crime deve ser caçado e ter seu corpo ensanguentado e crivado por balas na tela dos programas policiais. "Determinei que pusessem sua cabeça em um poste no lugar mais público desta praça, para satisfazer os ofendidos e justamente queixosos e atemorizar os negros que supersticiosamente julgavam Zumbi um imortal, para

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que entendessem que esta empresa acabava de todo com os Palmares." (Caetano de Melo e Castro, governador de Pernambuco, 14 de março). Ninguém pode ameaçar a casa grande, o bairro grande e os arranha-céus, e assim a violência ancestral colonialista se renova sobre as costas de negros (mas também pardos e brancos) numa nova configuração. O racismo descolorado negreia os pobres e branqueia os ricos - e acima dele flutuam os preceitos que geram ambas, a riqueza e a pobreza, na sacralidade das leis. No mercado negreiro não há necessidade de escrever em códigos - trabalhador vale mais que desempregado, homem vale mais que mulher, adulto vale mais que criança. Ninguém é igual perante as leis escritas ou não sempre distantes da justiça: não é possível permanecer neutro diante do sofrimento próprio e alheio, nem em meio a uma guerra. Ignorar voluntariamente todas as crianças pedintes nos semáforos e seu caráter de páginas de uma história não contada, e rubricar as páginas do livro da história oficial na qual a vida destas ou o contexto que surgem pouco importa. A história oficial pertence aqueles que são beneficiados pelo progresso nacional e capital. Os mestres da casa grande, senhores da-nação. Seus interesses estão contemplados na manutenção dessa forma salarial de escravidão. O culto ao gueto que fazem os rappers na busca de auto-estima promovendo um "orgulho suburbano" é de grande serventia para que os escravos amem sua senzala. Também a cachaça que era originalmente um ferramenta colonial administrada pelos senhores para que seus escravos não sentissem o cansaço do trabalho duro dos revezes que colocavam sobre as suas vidas, cumpre sua função no bar onde hoje se acabam os homens depois de turnos desumanos de trabalho sujo. Tekoá: um lugar para o Modo de Ser Guarani, mãe e filho beira da estrada é possível ver cestos coloridos pendurados

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em galhos, ao fundo a barraca de lona faz frente a fogueira, dois homens se sentam despreocupados a sombra entalhando a imagem de animais na madeira, quase indiferentes ao transito de carros que passa ali a poucos metros, crianças correm e brincam na terra, levam sua marca. Uma mulher trança um balaio e conversa com a outra, mais velha que sentada em frente a barraca ri singela com sua boca sem dentes. O tempo passa vagaroso num acampamento Guarani, enquanto os carros dos juruá passam rápidos de um lado para o outro. Tataendy diz à Xunü que quer beber e a bebida, e que quer festa. Hoje seu interior está apertado e essa semana ele quase não sorriu. Agora Junta os ferros perto do fogo e se acocora para começar a entalhar outro vixúrangá. Xunü sabe que a cachaça na beira da estrada é festa pequena, festa que se festeja quase só. Não... esse não é o lugar do modo de ser. Os olhares dos juruá carregam a censura, a ignorância, a pena e o poder. Xunü olha para os carros a passar e lembra de sua avó a contar da época em que vieram os brancos, os antigos os chamaram de retavá'e'kuery, aqueles que surgiam como formigas. "Eram muitos, e atrás desses vieram muitos mais". Poucos são os que como Xunü lembram desse nome. A maioria os chama Juruá. Nome muito antigo, do tempo em que vieram com palavras macias e convenceram os Guarani a lutar contra os parentes - suas palavras não brotavam de suas almas, eram lançadas para fora de suas bocas peludas que tanto impressionava os Mbyá. Mas isso foi a tempos antes do tempo de Xunü, antes da terra ser talhada pelas cercas e pelas estradas. Agora os juruá passam com seus carros - ignorância, poder e censura - eles dizem que o seu jeito é o certo - enquanto os guarani nada mais fazem que seguir seu modo de ser, em sua risonha indolência, bebem, cambaleiam e dormem onde assim desejarem. O acampamento é o devir da incerteza, é lugar da sombra a beira da estrada, da venda do artesanato, da

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ambígua exigência de um mundo cada vez mais talhado por muros e cercas que exige que o "índio" seja livre e ao mesmo tempo respeite regras e costumes nos quais não se reconhece, que se limite a ser um "cidadão" aparentemente exuberante mesmo que totalmente livre do símbolo da festa. Com o sol já quente do meio da manhã o filhinho de Tataendy traz com ele a cachaça que encontrou na beira da estrada, Ele pode até não entender ainda os Olhares dos juruá, já percebe porém que aquele não é o lugar do modo de ser, mas os adultos têm sede e é isso que importa e é uma sede de festa que aquele trago possa talvez saciar. Mais tarde haverá risada no acampamento para por em dúvida a essência do lugar. A onça toma forma na madeira branca pelas mãos de seu pai, as crianças correm e um bando de pássaros atravessa o céu. Lá do alto talvez eles possam ver uma mata bela para ser o nosso lugar. Para os Guarani o Tekoá" é o lugar de seu modo de ser, essa expressão tão erroneamente traduzida pelos juruá como "aldeia", "terra" ou "comunidade" condensa em si uma série de princípios e costumes no qual o "Tekó", o modo de ser guarani se funda. Estes costumes e princípios sociais, espaciais, espirituais e relacionais garantem entre outras coisas, a coesão, o respeito as diferenças internas e. Mesmo aqueles dentre os Guarani que sobrevivem nos acampamentos sabem e afirmam que não pode haver Tekó sem existir Tekoá. Magonismo & Antiarquia Foi a partir da convivência os Guarani que o filósofo anarquista e antropólogo nascido na França, Pierre Clastres deu forma a análise que melhor explicou as formas políticas desta sociedade. Com relação à organização política destes grupos, se pretendemos evitar as análises evolucionistas que sempre definem outros povos pela ausência de algo encontrado na suposta sociedade ocidental industrial, então é hora de considerarmos a possibilidade dos indígenas não serem somente povos sem estado mas efetivamente

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"sociedades contra o estado", ou seja, contra a própria segmentação da sociedade entre governantes e governados. Clastres não concluiu sua obra, um acidente de carro tirou sua vida no ano de 1977 deixando uma série de textos inacabados e outros tantos esboços, alguns dos quais seriam reunidos mais tarde no livro Arqueologia da violência: ensaios de antropologia política". Clastres no entanto, não foi o primeiro anarquista a perceber como o diálogo entre as referências indígenas e o pensamento libertário pode dar bons frutos. Esse mérito é exclusivamente dos teóricos da Revolução Mexicana de Vila e Zapata, os irmãos Ricardo e Henrique Flores Mágon que, no final do século XIX e início XX apontavam para a necessidade de uma regeneração do pensamento anarquista a partir das referências e dos saberes indígenas Democracia direta, dádiva, mutualidade, comunalidade territorial - os magonistas foram também os primeiros anarquistas a lutar abertamente ao lado dos "pueblos", principalmente entre os Yake e os Mayo, por autonomia política, econômica e territorial. Ricardo e Henrique Flores Mágon eram indígenas do México. A despeito de toda a ideologia de branqueamento que marcaram suas imagens, possuíam muitas referencias ameríndias desde a infância. O pai, Teodoro Flores (da etnia Nahua descendente dos antigos Astecas) lutou na Guerra da Reforma contra a invasão dos Estados Unidos junto às tropas de Benito Juárez. A mãe, Margarita Mágon (considerada para os padrões classificatórios puristas da época uma "mestiça"), marcou a todos que a conheceram por sua naturalidade libertária, sendo até os dias de hoje reconhecida como um símbolo da força e da organização das mulheres indígenas no México. Clastres provavelmente não conheceu o magonismo mas, sem saber, seguiu a proposta magonista, e chegou a conclusões análogas. Em certo sentido, através de sua obra, Clastres contribuiu para a "regeneração" do magonismo. Através da antropologia, trouxe a tona outras possibilidades organizacionais e filosóficas dos habitantes originários da

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América do Sul, que ainda hoje são desconhecidas de grande parte dos anarquistas. Estas possibilidades mostram, não só a viabilidade do social pautado na horizontalidade, na mutualidade e comunalidade, como também as diversas formas de integração destes e de outros princípios, que para além de viáveis, são vivenciados pelos indígenas cotidianamente.

Anarcologia e anarquitetura
Saberes de combate e convivência necessários para a transformação Anarcologia Ocultismo "o animal que causa maior número de mortes na população humana é o mosquito." Wikipédia "O Big Brother está olhando você, portanto, aprenda a tornar-se Invisível". Pichação em muro inglês O Ninjitsu - o Hacker - o sabotador, o espião - o ataque xamânico - invisibilidade e ação - A justiça toma caminhos obscuros num mundo onde as leis são injustas. Lance sua ação sem deixar rastros, ela deve chamar a atenção ao ser efetiva, não você. Nomadologia "Saia do caminho da Justiça, ela é cega!" Stanisław Jerzy Lec

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A ciência do devir - a caravana - desempoderamento pela ausência - a negação das fronteiras políticas e linguísticas da velha ordem: Nações são prisões. A experiência do andarilho. O deslocamento e a obtençaõ de recursos. O nomadismo é uma forma de se relacionar com o ambiente do entorno, tanto físico quanto cultural, quanto psicicológico, por quê os três são um só e a possibilidade de interações com este ambiente é virtualmente ilimitada. O nomadismo pede isso, testar as interações com o ambiente. Todos os dias você vai de casa para o trabalho e do trabalho para casa no mesmo horário? Você almoça no mesmo restaurante e conversa com as mesmas pessoas sobre a mesma série idiota da televisão paga? Por quê você não se perde? Não chega no trabalho mais cedo e prepara o café ou lê a agenda do chefe? Expanda seus horizontes para além da rotina massacrante. Continue na rotina massacrante, qualquer que seja, se isso for por algo mais que dinheiro, férias, drogas ou outras compensações fúteis. Tenha mais de uma casa, viva entre elas. Pensando rotas alternativas, mantimentos e eventuais contratempos. Ainda saiba se orientar pelas manifestações da natureza, mas também saiba se orientar na web. Você sabe fazer fogueira? Já sofreu um transe e se transformou em outro ser, com outras potências? Pense diferente e implemente essa diferença. Somos governados por leis naturais e leis sociais, mas usamos da natureza e, enquanto sociedade, criamos e gerimos essas leis que nos governam. Governam? Ainda governam? Só porque não investimos, vários, em algo diferente. O nomadismo é isso. O nomadismo é psíquico, é interno...mas é também essa ação modificando o externo, na rede, no coletivo em que estou. É investir em destruir, é investir em construir a partir de outros nós, feitos com, praticamente a mesma corda social. Pois não podemos prescindir da troca, mas podemos mudar, ou até eliminar o dinheiro. Podemos pensar em outras alianças entre os homens e o cosmos. Podemos insistir na pedagogia cotidiana para uma nova ética e uma nova espiritualidade. Podemos gerenciar uma outra territorialidade, sem nenhuma propriedade. E assim por diante.

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Nomadismo é uma estratégia do presente. Não é uma estratégia nômade, mas a multiplicação de microestratégias. Nomadismo como conceito é uma máquina de guerra, criado para resistir ao monolitismo, para transcender a domesticação e alienação. Portanto, é uma estrtégia da consciência, abertura e resistência. É uma estratégia do movimento para o movimento. Nomadismo é uma estratégia tribal, baseando-se na comunidade, hospitalidade e troca. Esses valores são essenciais para a sobrevivência dos nômades. O nomadismo é uma estratégia para aqueles que não querem renunciar à sua liberdade. Comunicalidade A arte do diálogo e o primado do entendimento mútuo - manifesto contra a lógica de partido - técnicas de conversação - diálogo mediado vs. diálogo não mediado - os saberes indígenas sobre a arte de contar e de ouvir. Anarquitetura Arquitetando e constituindo espaços de liberdade O primado do equilíbrio entre espaço e ação humana - a ambiência e o reencantamento da vida comunal cotidiana. Reencantando Para que haja uma coesão em qualquer grupo, é necessário que existam mais do que objetivos racionais compactuados entre todos. É necessário um imaginário em comum, algo que vá além da razão e que de um certo encantamento para a vida cotidiana, já que razão não podemos encontrar. É por isso que as sociedades em toda a história desenvolveram religiões, credos, etc. As pessoas, para viverem em coletivo, precisam acima de tudo acreditar nas mesmas coisas. Essas coisas dão sentido a vida e

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tornam todos parte de um sistema imaginário no qual, por haver algo supremo e intocável, há um encantamento da vida. No entanto, devemos lembrar, essa necessidade humana foi quase sempre utilizada como forma de concentrar poder, seja no clero, seja numa nobreza. Para a vida coletiva é preciso ter e manter referências e hábitos em comum. Coisas que dão sentido a vida e fazem com que todos partilhem de um mesmo imaginário. É isso que faz nós reconhecermos uns aos outros e desejarmos permanecer juntos. Mas há de se ficar atento pois canalhas de todas as épocas buscaram manipular este princípio comum como meio de concentração de seu poder de influência. Mas voltemos há alguns milênios atrás. Certamente a vida naquele tempo não partia de uma concepção separatista entre o que é racional, real do que é imaginário e irreal. Os deuses gregos viviam entre os humanos e, embora ninguém os visse, isso não fazia muita diferença. O que importava era que suas estórias, suas lendas, suas fábulas, serviam de incentivo a vida comunitária, a vida amorosa, ao trabalho, à vida de toda forma. Era uma espécie de brincadeira, onde crianças adultas utilizavam pensamentos de deuses (que na verdade era o senso comum da comunidade) para dar um sentido não racional ao sexo, ao amor, ao ódio e a tudo quanto fosse possível. Os deuses se riem de nós hoje em dia, mas naquela época, os seres humanos também riam dos deuses. Talvez isso seja uma boa forma de resgatar o que devemos entender como cerne do imaginário: o imaginário não é estático e nunca deverá ser, mas isso não impede que falemos, escrevamos e façamos o que bem entendermos sem que isso faça qualquer sentido racional. O importante é que rir de deuses que nós mesmos criamos. Assim, podemos, por exemplo, pedir para que cada integrante do coletivo crie uma religião. Ou que criemos uma, ou várias. O importante é que possamos ter valores culturais que, embora secretamente saibamos de sua falta de sentido, nos deem sentido para o cotidiano. Obviamente

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nossas festas pagãs não serão como as cristãs, não serão baseadas na virgindade de uma santa, mas sim na promiscuidade de uma titã. Sair pelado na rua é uma ótima sugestão como adoração aos deuses, uma vez por ano, ou por dia, tanto faz. Bacanais regados a vinho no inverno, e orgias em rios e lagos no verão. Podemos criar cumprimentos beijando seios (nas mulheres) e bundas (nos homens) que serão utilizados diariamente. Ou simplesmente podemos criar o dia da confissão, onde todos falam seus podres frente a todos e onde não podemos reprovar a atitude do semelhante, ou talvez possamos dar um tapa ou um peido na cara. O peido, por si só, poderia, porque não, ser uma atitude de elevação divina. Não importa, o importante é que se crie coisas esdrúxulas as quais darão sentido a vida que pode, em momentos solitários, parecer tão sem sentido.

Fabricando o grande êxodo
Zonas Autônomas como estratégia de transformação global "Estamos nós, que vivemos no presente, condenados a nunca experimentar a autonomia, nunca pisarmos, nem que seja por um momento sequer, num pedaço de terra governado apenas pela liberdade? Estamos reduzidos a sentir nostalgia pelo passado, ou pelo futuro? Devemos esperar até que o mundo inteiro esteja livre do controle político para que pelo menos um de nós possa afirmar que sabe o que é ser livre?" Hakim Bey - TAZ Um lugar em um tempo, pode ser mais que só um lugar em um tempo. Algum lugar distante o suficiente (ou oculto o suficiente) da Máquina-Sistema, um lugar onde as pessoas ajam e se relacionem nos termos da horizontalidade ontológica e solidariedade libertária, este tipo de lugar já possuiu muitos nomes, por vezes no plural, e existiu em muitos contextos históricos e culturais. Sua

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existência talvez seja tão antiga quanto a própria centralidade do poder o é, mas mesmo assim, sobre ele paira um manto de novidade, um mundo de potencialidades que um sábio sufi-anarquista chamado Peter Lamborn Wilson (também conhecido como Hakim Bey), nomeou de Zona Autônoma há mais de 20 anos. A idéia é simples. Se a História nos mostra que toda revolução possui um ciclo, abandona suas intenções originais se completando na formação de um novo Estado, (uma nova face da mesma máquina de dominação), é necessário abandonar a idéia da revolução. O modelo da revolução é encarado por H. Bey como uma armadilha do destino, que sempre que conquista sua permanência se tornando ela mesma uma outra variante daquilo que combateu. A única solução seria libertar a transformação social efetiva da prelado da revolução. São as zonas autônomas - que como raios de sol no meio de uma escura tempestade - surgem como alternativa. A primeira vista poderíamos pensar que uma estratégia viável seria "Sumir do Mapa", que é formado por tudo aquilo que foi mapeado pelo Olho vidrado do Poder. • • zona autônoma (enquanto fim): o sonho colonial zona autônoma (enquanto meio): redes contra o sistema Movendo as peças no tabuleiro: libertando territórios ZAI - a Zona Autonoma Unitária (este passo já foi dado) O Prelúndio da Mudança: como era a ação antes da era da informação livre ZAI - Zonas Autonomas Isoladas "Não basta uma informação de como ganhar a vida simplesmente com honestidade e honra, mas que tal ato seja atraente e glorioso, pois se ganhar a vida não for atraente e glorioso não é a

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vida que se ganha." Henry David Thoreau, Vida Sem Princípios Entre Christiania, Croatã, Okupas e os Zapatistas Lutando por autonomia relativa (política e energética) Ocultismo (ou não?!) Meios de sustentabilidade (num mundo onde ainda somos poucos) Um grande projeto de pilhagem e reciclagem Permacultura A solidão não é seu aliado: as ZAI e as cidades o despertar da anarquia cotidiana Ligando os primeiros pontos: expansão por divisão ZAV - Zonas Autonomas Vinculadas "Não o homem mas os homens é que habitam este planeta. A pluralidade é a lei da Terra" Heidegger As enclaves constituição de novas ZA constituição de vínculos entre ZA existentes Mutualidade interZA Fortalecimento mútuo ZAR - Zonas Autonomas em Rede Hospitalidade é a moeda : viajando por ZAR O sistema ameaçado - imprescidibilidade da força A Grande Virada - Delimitação das Zonas Despóticas (Olha só quem está cercado?!) - Espaços de reabilitação Mudar o Mundo e aniquilar o Poder - Derrubando impérios - infecção generalizada.

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Semeando zonas autônomas

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A melhor hora é agora
"Fui à floresta viver de livre vontade, para sugar o tutano da vida. Aniquilar tudo o que não era vida. Para, quando morrer, não descobrir que não vivi." Henry David Thoreau “Qual é o melhor lugar do que aqui, qual é a melhor hora do que agora?” Guerrilla Radio Uma mentira paira sobre tudo e sobre todos. Cada postura, cada costume e cada objeto é uma prova cabal de nossa fixez ao convencional. Cada exame, do ponto de vista libertário, além de evidenciar o absurdo da submissão inconsciente a esta ordem de coisas nos traz a certeza de que TUDO poderia ser muito diferente. Todos os obstáculos à nossa frente são, de fato, nada mais que costumes, posturas e objetos. Todavia, para se ter idéia da dimensão deste problema, há que se ter em mente que estes costumes populistas, posturas de vanguarda e objetos de poder, pelos quais muita gente poderia morrer, são o que nos separa de todos esses outros mundos possíveis. Em nome da segurança que supostamente existe nas convenções e reproduções, nós mesmos acabamos apegados a elas, vez ou outra, às vezes consciente, às vezes inconscientemente, numa postura que age contra a nossa própria libertação. As imagens motoras que conhecemos nos levam a isso: nossas categorias e conceitos, assim como nossa tradicional inovação (através da qual atualizamos o tédio que se tornou nosso modo de vida. Vazio. Poderia ser diferente? De repente notamos que o livre mercado não nos proporciona nada além de uma vida de "livre submissão", as

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duas formas de organização espacial conseqüentes - o rural, cada vez mais mono, monocultural, e o urbano, cada vez mais segregário - são as únicas a prosperar sobre tudo mais que está em seu caminho, tudo perfeitamente legitimado pelo discurso da servidão voluntária, a base para o maior culto da contemporaneidade, o trabalho. A competitividade fez de todos suas vítimas e a lei de todas as leis, a lei da urbe, fez da monocultura a lei da selva contra a selva. É, a sociedade do contrato cobra seu preço e poucos foram os que conseguiram enxergar nas entrelinhas. As doze badaladas trazem novamente a pergunta: Poderia ser diferente? Mas... O que você realmente faz para que seja diferente? Se a resposta for - separar o lixo, fazer caridade e não comer carne - a indústria da reciclagem, a igreja católica e os ruralistas, plantadores de soja daqueles campos onde antes ficava a Amazônia, ficarão-lhes muito gratos. A essa altura é possível perceber que sua pequena ação cotidiana apenas alimenta o monstro que você pensa combater. Mas então o que fazer para que seja diferente? Não podemos dizer que temos a resposta. Talvez tenhamos uma das possíveis respostas. E é bem provável que ela passe por um grande segredo, por algo como uma sociedade secreta, e talvez até mesmo por escritos na areia após a jornada. (Que segredo vale a pena se não for compartilhado? Mas não seria um segredo se fosse do conhecimento de todos!) Não vamos dizer o que você deve fazer. Ao invés disso, diremos o que NÓS estamos fazendo. O que não significa de maneira alguma que você algum dia não possa, através da sua vontade, tornar-se um de nós. O que ambicionamos é transformar a realidade social através de um grande êxodo dos espaços urbanos e da cultura do latifúndio. Acima de tudo ambicionamos a libertação de espaços onde serão erguidas zonas autônomas, comunidades intencionais formadas por grupos das mais diversas inspirações libertárias. Algumas ocultas, outras nômades, mas todas elas agindo com o objetivo de libertar mais territórios (físicos e imaginais) nesta guerra da informação. Por um rizoma de zonas autônomas! - e autonomia deve ser entendida tanto no nível da produção

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material quanto subjetiva, expandindo-se através do estabelecimento de relações de mutualidade tanto quanto elas forem possíveis - este é no nosso entendimento a expressão mais ameaçadora para o sistema. Fora da cidade, fora da grade, fora do consumo, e já começou, suas sementes já foram lançadas ao ar, o crescimento vegetativo está em andamento. Gostaríamos de ver as periferias vazias e as elites, assim como seus péla-sacos das classe medíocres (média), desesperados, sentados sobre seu próprio lixo à espera de um gari que nunca chegará. Ver as árvores rachando o asfalto e falanstérios de liberdade sendo erguidos em lugares inusitados, para o desespero do velho e roto latifundiário. Será a vingança de Fourier contra todos aqueles que o tacharam de utópico, delirante e inalcançável. Na medida em que os defensores do sistema forem mostrando suas garras talvez tenhamos que enfrentar as guerras travadas contra os desejosos por retomar a velha ordem custe o que custar. Até lá estaremos preparados. É infinitamente melhor morrer livre e de pé do que viver de joelhos, miseravelmente escravizado para o resto de nossas vidas. Mas qual seria o preço dessa retirada? O sacrifício do conforto da vida material, da tecnologia, de suas relações pessoais? Não diremos que será fácil ou difícil, diremos que depende da forma como nos relacionaremos uns com os outros e com o mundo ao nosso redor. Poderíamos começar um grande projeto de reciclagem e assumirmos que nada começa com nada. Talvez seria necessário estabelecermos algumas normas com relação àquilo que queremos e aquilo que não queremos - não queremos uma cultura policial, por outro lado nos causa uma certa revolta a idéia de pedófilos se esgueirando sobre crianças (uma igreja católica já é mais que suficiente nesse sentido). Podemos pensar em criar a nossa própria tecnologia, mas essa escolha acompanha uma série de outras escolhas com relação a que tecnologia pode ser utilizada sem causar destruição social e ambiental e qual tecnologia efetivamente nós queremos abolir em nossa trajetória.

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Por hora (para que não sejamos tachados de utópicos por algum marxista vulgar) o que podemos fazer é compartilhar algo desse segredo, agindo para a formação de uma zona autônoma, na esperança de que outras em outros lugares possam ser erguidas. Em algum lugar não determinado no mapa, alguns passos já foram dados nesse sentido. Já não estamos mais isolados: o que estamos fazendo é declarar guerra à urbe, à monocultura, ao consumo, à ciência positivista, ao desenvolvimentismo, à competitividade, à solidão, enfim, a um estado de coisas que aí está para transformar em brilho tudo aquilo que há de nos aniquilar. O que queremos fazer erguendo uma zona autônoma é propor uma outra imagem motora, outros lugares e feitos contra o velho sistema. Redes de hospitalidade e solidariedade. Cada pedaço de encantamento resgatado das garras do sistema, algo que é segurança e vida e que, pelo qual, acreditamos vale a pena lutar. É nesse sentido que estamos agindo e, se depender de nós, o grande Êxodo vai triunfar!

Aspectos Organizacionais
Não aceitamos qualquer tipo de estado e de "iniciativa privada". Mas isso não quer dizer que não sejamos um espaço coletivo (como o ESTADO se tornou sinônimo no mundo de hoje) e também não quer dizer que não exercemos atividades econômicas. Pelo contrário. Uma Z.A. deve zelar, acima de tudo, por um jogo político limpo, onde todos tenham voz, mas ninguém será responsável por esse zelo, ou seja, todos são. Uma Z.A. não deve aceitar a propriedade privada como estipulador de regras (e sequer as regras), mas isso não quer dizer que as pessoas não possam viver confortavelmente que não tenham privacidade na medida em que desejarem (isso é essencial para o grande jogo de imagens motoras contra o Sistema!). Por mais que a casa em que viva um cidadão da Z.A. seja coletiva, o espaço reservado a ele é pessoal, não no sentido de ser dele, mas no sentido desta pessoa possuir uma certa

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autonomia sobre espaço que ocupa. Assim, as "empresas", embora abolidas, só se tornam comunais, onde todos tiram proveito do labor de todos e onde não há mais "pessoas jurídicas", mas só pessoas físicas (redundância?) utilizando o conjunto produtivo, da forma que lhes couberem e quererem, afim de buscar seu sustento e a riqueza material da comunidade. O Estado, por sua vez, se pulveriza em todos. Não existe mais a profissionalização do estado. Não existe mais a representação alheia. Todos tem voz, DIRETAMENTE, e todos tem o direito de negarem que o coletivo tome decisões que lhe façam mal. A vida coletiva adquire um novo encantamento, onde o jogo político diário, a vida comunal e as discussões banais tomam sentido, se tornam relevantes e demonstram propósito próprio. Tamanho (Variáveis de Espaço e População a serem apresentadas, não se deve deixar de lado a historicidade)Platão falava que a pólis perfeita, para preservar a "democracia", deveria ter "fatorial de 7" cidadãos, o que são, na prática, 5040 cidadãos. É claro que o conceito de cidadão para Platão era o pai de família, dono de terras, etc. Para nós, cidadãos são todos que possam ser minimamente esclarecidos (o que exclui, a princípio, somente crianças). No entanto, pensar uma zona autônoma com 5040 habitantes é um pouco extravagante. Em outras palavras: é gente demais. Christiania, com menos de 1000 habitantes, já se encontra num processo de descentralização espacial das decisões, tendo que possuir vários espaços separados, como se fossem várias zonas autônomas numa só. A princípio, então, devemos pensar uma zona autônoma com possibilidades de que caibam todas pessoas num mesmo espaço, o que significa na prática que mais de 200 habitantes tornaria inviável tal idéia. Com o tempo é possível que pessoas que tendem a praticar agricultura irão tomar a frente em decisões a respeito de agricultura, assim como pessoas que praticam obras, tenderão a tomar a

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frente em decisões sobre obras. Sendo assim, podemos imaginar que a longo prazo esse número de 200 habitantes possa aumentar consideravelmente sem prejuízos à horizontalidade, baseando-se num respeito mútuo dos habitantes onde cada um deixará a cargo do outro aquilo que o outro saiba melhor fazer. No entanto, tal respeito poderia gerar uma espécie de tecnocracia incutida, tornando algumas decisões alheias ao processo político da comunidade. É claro que certas decisões como "que tipo de adubo utilizar" são muito mais econômicas e técnicas do que políticas e muitas vezes não precisam passar pelo crivo comunitário para se resolver, mas o importante é que mesmo tais decisões POSSAM passar pelo coletivo. Para tal, ferramentas virtuais são indispensáveis. Afinal, ninguém terá coragem de colocar em pauta numa reunião que conta com 200 pessoas e que já dura 4 horas que tipo de adubo utilizar. Mas talvez isso seja sim uma decisão política. Então, a saída é que pequenas decisões possam ser discutidas, sempre abertamente, a partir de meios virtuais (como um wiki? uma plataforma de gerenciamento de projetos?), tornando qualquer processo econômico, técnico, político ou social da comunidade aberto eternamente para contestação e criação de novos consensos. Assim sendo, podemos afirmar que o sonho de platão tornaria-se plausível. As reuniões pessoais poderiam ser temáticas, onde quem não quer saber de como se planta algodão simplesmente não precise ir, e utilizando o suporte virtual, onde discussões mais bem tecidas poderiam se compor. Assim, criando vários espaços reais para discussão e utilizando a internet como suporte, podemos afirmar que o limite de tamanho para uma zona autônoma é de 5040 habitantes, como Platão descreveu. Mais que isso gerará o problema básico de as pessoas começarem a não se conhecer e uma consequente perda de laços comunitários. Então, podemos afirmar que uma zona autônoma MADURA e que já está atuante há anos pode possuir até 5040

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habitantes. Após isso, poderia-se admitir o crescimento vegetativo, mas não mais a imigração para dentro dessa Zona. Neste ponto, cria-se a necessidade de que a zona "patrocine" outras zonas, para que as idéias continuem, mas sem perda ao coletivo local. Mas, para além da população, é bom analisar a questão do tamanho de terras. Obviamente uma propriedade com 10 hectares não pode possuir mais do que 100 habitantes, pois é certo que os habitantes quererão alguma agricultura e certamente alguma mata preservada. Além disso, há uma necessidade de termos terras para questões como o destino do lixo. O problema inicia quando pensamos na idéia de Platão: para termos 5040 habitantes, seria necessário algo em torno de 500 hectares, caso contrário formariamos uma cidade e não uma zona autônoma (hey! lembre-se que devemos evitar o isomorfismo, sob pena de acabarmos imitando a sociedade do lado de fora no resto também). Para que se tenha uma noção mais clara do tamanho das terras, imagine que um hectare é do tamanho de uma quadra padrão da maioria das cidades (100m x 100m). Você pode argumentar que em muitas quadras das grandes cidades vivem muito mais de 100 habitantes, e é verdade. Para citar exemplos breves, existem quadras em Porto Alegre onde habitam cerca de 2500 pessoas. Mas são pombais, e você não quer formar uma nova comunidade para viver como num bairro suburbano de Porto Alegre, quer? Bom, então tentemos imaginar uma quadra de 100m por 100m somente com casas. Em um terreno médio de 33x20m, podemos dizer que temos 15 casas. Pois bem, 15 casas num quarteirão (hectare) urbano são cerca de 60 pessoas vivendo. Assim, podemos dizer que num hectare urbano vivem 60 pessoas horizontalmente. Aumentemos o tamanho da área, pois se pensamos numa comunidade nova, não podemos pensar nos modelos de especulação imobiliária que demarcam esse tamanho de terras privadas em cidades. Assim, podemos afirmar que teríamos, no caso de uma comunidade sem matas, rios ou

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plantações, cerca de 30 pessoas por hectare e precisaríamos de 3,3 hectares para alojarmos dessa forma 100 pessoas. Bom, a partir daí podemos ter uma idéia de quanto de terra precisamos para formar essa comunidade. Se para cada hectare urbano queiramos 2 rurais (ou de matas, ou para o tratamento do lixo ou para rios e lagos), então necessitaremos de 10 hectares para essas 100 pessoas viverem bem. Esse números obviamente não contam a agricultura como meio básico de sobrevivência. Normalmente as famílias sem-terra no Brasil precisam de pelo menos 15 hectares de cultivos para se sustentarem, o que supondo que sejam 6 os componentes de uma dessas famílias, nos faria crer que precisamos de PELO MENOS 2 hectares por habitante se quisermos viver com uma economia a base de agricultura. Para 100 pessoas, necessitaríamos de 250 hectares. Inviável. Então, tenha isso em mente: a agricultura não pode ser a base econômica da zona, sob pena de restrição de crescimento. Crescimento versus Especulação Uma vez operante e forte, uma comunidade intencional terá um problema à vista: na medida em que mais pessoas aderem à zona autônoma e que outros nascem, é inevitável que o tamanho (em terras) tenha de ser expandido. O problema então consiste no seguinte aspecto: uma vez que a zona esteja operante, se tornará certamente o pequeno mercado local e atrairá os agricultores de regiões próximas para comercializar por ali alguma coisa. Isso os tornará mais lucrativos e uma vez mais lucrativos os seus interesses nas suas próprias terras aumentarão, diminuindo a possibilidade de quererem vendê-la. Mesmo que queiram, o preço certamente será bem maior do que quando se iniciou a zona autônoma, as vezes tornando o crescimento geográfico impraticável. Assim, existem algumas possibilidades: a primeira (e que independe da vontade dos que estão na zona a.) é que os agricultores da região queiram integrar a comunidade.

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Isso é a solução perfeita, mas pode ser pouco provável. A segunda possibilidade é que a zona autônoma imagine seu crescimento de forma adiantada, comprando terras circundantes antes de necessitá-las. Mas isso requer muitos recursos justamente no primeiro momento da comunidade, que é o momento mais frágil. A terceira possibilidade, que é a menos provável certamente, é que os viventes da comunidade resolvam ocupar terras não ocupadas adjacentes, mas isso seria uma declaração de guerra ao estado incontornável. A quarta possibilidade, a mais catastrófica, é que nas adjacências comece a nascer uma pequena vila (não autônoma) e que com o tempo esta acabe por: a) competir com a zona autônoma pela centralização do comercio e, b) inflacione monstruosamente o preço das terras. Ainda, como quinta possibilidade, é que a comunidade simplesmente não queira crescer e, ao invés disso, resolva investir recursos em novas zonas autônomas em outros locais, pela ampliação da rede e não da própria zona. Obviamente as alternativas possíveis acima podem ocorrer ao mesmo tempo e é claro que a decisão do que fazer passará pelo coletivo da zona, dadas as possibilidades e alternativas. -- Por favor, as idéias acima são aleatórias e totalmente em construção. Altere, destrua e contribua. -Consenso como Meio Nosso consenso não é exatamente uma posição política, mas, esperamos, trará um nível comum de entendimento e comunicação para o projeto. As pessoas envolvidas até o momento consideram fundamentalmente necessário a emancipação com relação a posturas nacionalistas, racistas, sexistas (incluindo homofobia, etc...)

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anti-semitas, anti-americanistas, capitalistas (significando a exploração da força de trabalho alheia), religiosas evangelizadoras (incluindo esoterismo). Considerados estes pontos buscaremos resolver todos os assuntos referentes ao espaço através do consenso, a serem discutidos na grande roda (assembléia geral) onde o princípio do diálogo (falar e principalmente o ouvir) será cultivado. É importante perceber que pra que haja consenso, as pessoas precisam desde já aprenderem a saber que seus interesses são válidos, mas que os interesses da comunidade podem estar acima. Na nossa sociedade atual a cultura do voto majoritário (ditadura da maioria) foi instituida pois a a lógica reinante é a avareza. A lógica é "agarre tudo que puder e pegue pra si". Assim, ninguém jamais aceita que em alguns momentos pode perder migalhas para que outros ganhem muito. O consenso já parte do pressuposto que os integrantes não se determinem pela lógica avarenta e que, portanto, saibam o momento de colocar seus interesses e necessidades no segundo plano, frente a interesses e necessidades mais urgentes de outras pessoas. Diga "Tchau, Pensamento Monolítico" Não planejamos formar ou defender posições políticas uniformes. Possuímos um certo entendimento sobre o que um grupo político é, e porque (e como) nós não pretendemos ser. A idéia central e que o objetivo desta forma de organização e mutualidade deve ser o mínimo denominador comum, mas interessa a todos (cada um a sua maneira) que coletivamente estão dispostos a defendê-la. Toda diversidade de pensamento é bem vinda desde que não constitua nenhuma forma de exploração, postura de segregação, estrutura hierárquica ou que entenda o coletivo como um grupo de pessoas que estão prontas pra se tornar alheias ao mundo. Tu pode defender a auto-sustentabilidade da comunidade, ou defender que devamos ter uma "balança comercial" adequada para que possamos comprar nossos subsídios de fora. Tu pode querer focar a comunidade na agricultura, ou pode tentar criar serviços, ou mesmo alguma indústria. Tu pode defender o escambo ou o uso de moeda

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social, ou ainda de moeda de um país. Tu pode defender o uso indiscriminado de drogas ou defender uma postura de cautela perante elas. O importante é que tu saiba que para tua idéia ter validade ela precisa ser consensual e que por mais esperto, inteligente ou carismático que tu seja, tu não vai ter poder algum sobre os outros, exceto o de vencer uma discussão. Interesse Coletivo O princípio é simples: se um quer bolo, e o outro biscoitos, o objetivo é conseguir bolo E biscoitos. Isso significa: você pode (e deve) integrar todos os seus interesses neste projeto desde que eles não sejam conflitantes com o que está sendo discutido nos outros tópicos. Comunicalidade Comunicalidade significa para nós a busca pela compreensão do outro e do que o outro nos traz, antes de censurá-lo ou mesmo criticá-lo. Todas as necessidades e todas as habilidades passam pela capacidade de poder expressá-las e entendê-las como tal. O que é necessário para o grupo é manter sempre vínculos de comunicação, na resolução de desentendimentos, bem como, de planejamento e organização com a finalidade de realizar todos objetivos possíveis. Sinceridade é princípio básico. Se você quer biscoitos, não tente falar mal do bolo para que as pessoas tendam a gostar de biscoitos. Você é livre para fazer o que quiser e a comunidade tem como princípio defender o que tu goste. "política" aqui tem um novo significado: o de buscar juntos solucionar problemas de todos, sejam os que forem. A Arte de resolver conflitos “Se as comunidades, em vez de aspirar, como têm feito até hoje, a ocupar vastos territórios e a satisfazer sua vaidade com idéias de império,

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contentassem-se com um distrito pequeno, com uma cláusula de confederação em caso de necessidade, todo indivíduo viveria sob o olhar público; e a desaprovação de seus vizinhos, uma espécie de coerção não derivada dos caprichos do homem, mas do sistema do universo, inevitavelmente o obrigaria a reformar-se ou a emigrar”. William Godwin Nunca um fim em si mesmo Para os participantes a Z.A. não é um fim em si mesmo, mas sim um instrumento na busca de uma transformação socio-cultural em nível local e global. O Objetivo final não é estabelecer e manter a todo custo uma zona autônoma alheia ao mundo, mas sim, experimentar, viver na prática (no cotidiano), e também provar a viabilidade dos modos de vivência libertária. Poucas coisas podem ser mais subversivas do que servir de exemplo de que é não só possível como também muito viável viver fora desse sistema de exploração e dopping permanente. A finalidade de uma Z.A. não é construir um mundo maravilhoso a todo custo dentro dela e esquecer tudo do lado de fora. Na verdade, pode ser mais interessante que uma Z.A. dure somente um mês, desde que seja uma vivência que ressoe naqueles que viveram aquilo. Não devemos pensar em termos de "fim da história" como os comunistas e os liberais costumam pensar, mas sim num processo de transformação. Aquilo que hoje colocamos aqui como a ZA que queremos pode fazer absolutamente nenhum sentido daqui a alguns anos, pois o processo de transformação constitui exatamente a finalidade, tanto interna quanto externa. Se hoje acreditamos poder ter um coletivo forte, amanhã podemos entender que o individualismo deve ser mais presente, ou mesmo que o ambientalismo deve ser posto acima, tanto faz. O importante é que se entenda que o primeiro erro de qualquer sociedade é a crença que se pode estabelecer um

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status quo. Se queremos uma nova sociedade e temos em mente utilizar a ZA como passo pra isso, devemos ter em mente que essa nova sociedade deve se manter alheia a mentalidades como "mas sempre foi assim". Ambiente e Socialidade Uma ZA deve manter um ambiente feito para sociabilidade. Isso significa que parques e locais cobertos públicos devem ser priorizados. Afinal, o consenso e as discussões não nascem tão-somente de espaços ditos para isso, mas sim do convívio diário, do respeito mútuo, da alteridade. Tomar um chimarrão, dividir um cigarro, tomar uma cerveja ou um vinho são essenciais para uma estrutura coletiva. Caso contrário o raciocínio meramente funcional irá tomar conta da comunidade e, se está se fazendo uma ZA, é justamente para não viver sob o jugo do império da razão funcional. Além disso, devemos primar por um meioambiente em que as pessoas se sintam bem. Pouco importa que pra isso acontecer tenhamos que restringir o número de habitantes ou nos esforçar economicamente pra conseguir mais terras. O importante não é que a ZA se torne uma cidade, mas sim que se torne um ambiente em que as pessoas se sintam suficientemente bem para querer manter aquele local como sua morada. Ocultismo e Visibilidade Pensando na historicidade do projeto precisamos solucionar o problema do tempo de transição. O Estado e sua sociedade, aqueles que cotidianamente assinam o pacto dominação e trabalham para sua manutenção, provavelmente não verão com bons olhos um espaço libertário surgindo do outro lado da cerca. Alguns diriam "Ocultismo é a solução, não devemos deixar que saibam o que estamos fazendo, disfarcemos a coisa toda de acampamento de férias da Igreja IsNowBall (ou da Igreja Livrai-vos dos Senhores), assim não chamaremos atenção". Ok, essa pode realmente ser uma boa estratégia no contexto de estarmos num grupo pequeno, e sem muita

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infra. Mas... E no momento em que a coisa toda crescer? Será que essa máscara duraria tempo o suficiente? E... O que exatamente estaremos sacrificando nesse processo? Será que conseguiríamos expandir essa idéia de transformação social através do êxodo nessa situação de disfarce? E as pessoas que deixaríamos de conhecer? E as trocas que deixaríamos de fazer? E as imagens motoras que deixaríamos de gerar no sentido de fortalecer a luta pela libertação de outros espaços? Por outro lado, teríamos a opção pela notoriedade: criar algo que impressionasse, um espetáculo antiespetáculo, um tipo de Stonehenge, o obelisco de Hakim Bey, a cidade libertária de vidro de Germinal de la Sierra, um lugar que se tornasse uma referência para outros em outros lugares, como outros lugares e experiências se tornaram referências para nós. Certamente teríamos muito mais solidariedade também, sem falar da circulação de pessoas que também aumentaria. Com número grande o suficiente de pessoas provavelmente isso não seria tão cansativo, em um grupo pequeno, talvez fosse inviável. A notoriedade no entanto, certamente traz seus próprios problemas: talvez a mídia tente nos denegrir, destruir nossa imagem, talvez a vizinhança se torne mais e mais hostil. o estado certamente não ficará indiferente à idéia de um "povoado" que não deseja ser governado. Talvez as estratégias de ocultismo e notoriedade tenham que ser pensadas conforme a ocasião, mas uma coisa é certa: uma vez mapeado pelo poder, dificilmente será possível dar um passo atrás. Por esse motivo a técnica ocultista talvez seja a melhor opção para o momento inicial. Talvez metas tenham que ser estabelecidas no trânsito entre o ocultismo e a visibilidade, como por exemplo Quando formos em 200 ou 300 pessoas vivendo confortavelmente, ou ainda quando tivermos terminado a infra suficiente para fazer frente a possíveis ataques. Certamente caberá à assembléia discutir e decidir o momento certo de se fazer "aparecer" para o resto do mundo.

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É importante também que, no momento que se apareça, o seja de uma forma forte. Pode-se criar um factóide que, a imprensa ainda desavisada, irá publicar achando que se trata de um assentamento de colonos ou de algum vilarejo que seus infelizes repórteres ainda não conheciam. Claro que tal factóide precisa ressoar bem: uma bela estátua ou um projeto de construção de uma obra esquecida de Niemeyer (que por motivos bizarros a imprensa tanto admira). Talvez o boato de que a comunidade construirá uma torre eiffel três vezes maior do que a original chame a atenção de todo mundo e em especial dos brasileiros, que tem como ponto de referência todo tipo de lixo vindo da europa. Depois de criado o factóide, se pode desmentir ele, dizendo que se trata de alguma obra libertária (talvez estátuas lado a lado com o rosto de todos os grande filhos da puta vivos). A partir daí, a luta virá. Economia solidária Possivelmente, uma vez notório, se necessite manter a comunidade numa espécie de legalização, ao ponto de que não se possa utilizar argumentos na imprensa contra nós. Por exemplo: plantar maconha poderia ser o argumento triunfal da imprensa ou do poder pra desmantelar uma comunidade de "traficantes". Estamos desenvolvendo um sistema de escambo baseado na web que poderá ser utilizado em breve de forma a criar um meio de troca de bens e serviços na ZA sem depender da moeda corrente "oficial". Ele está sendo desenvolvido com tecnologia Open Source e poderá ser continuamente aprimorado conforme as necessidades da coletividade.

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Desafiando a criatividade
Objetivos Internos • • • • • • • Estabelecer e manter infra-estrutura para vivência, sociabilidade e criatividade. Constituir um sistema de mutualidade e solidariedade. Fornecer e apoiar iniciativas libertárias com espaço, tecnologia e conhecimento. Superar as relações de poder da família patriarcal. Buscar autosustentabilidade energética e econômica por meios coletivos. Acolher visitantes apresentando outros referenciais através da vivência na ZA. Servir de estímulo para o amplo desenvolvimento social (político, cultural e econômico) e intelectual de todos os envolvidos. Objetivos Externos • • • Auxiliar com tecnologia, esforços e conhecimento o surgimento de novas Zonas Autônomas Libertárias. Trocar idéias, visitas e bens com grupos indígenas, quilombolas, camponeses, okupas e outras ZAs. Unir-se local e globalmente a outros projetos fortalecendo relações com redes de resistência global. Estimular através da subversão cotidiana a ampliação da imaginação e da criatividade. Criar uma série de novos referenciais de sociabilidade libertária influenciando e alimentando imaginários. Não parar de agir até o momento em que não se possa mais ver o asfalto das grandes cidades encoberto por plantas, arbustos e raízes.

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