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"A apologia do grande estilo

"

Denis Diderot diana. Essa aproximação entre a pintura "nobre" e a cena de género
(1713-1784) vai de par com o conselho de associar as técnicas de execução,
acrescentando à pintura de história detalhes próprios às pinturas
de género. Aliás, é essencialmente esta a superioridade que Dide-
"A apologia do grande estilo rot reconhece na pintura de história em relação aos outros géne-
e as seduções dos géneros menores" ros: um labor mais considerável, dada a abundância de detalhes
(1766,1763,1765, 1767) que o artista deve imaginar sem poder simplesmente copiá-los e
que ele deve pintar conservando sempre o tom adequado.
Esse arrazoado paradoxal em favor da grande pintura, apro-
ximada pelo assunto e pelo tratamento à pintura de género, é se-
Nos anos 1760. quando Diderot1 redige o essencial de seus guido de uma defesa das práticas menos elevadas, em particular
escritos estéticos, o momento não é mais das frivolidades deco- do retrato. O projetp de Diderot é reconciliar os dois géneros, apa-
rativas denunciadas, nem mesmo dos assuntos licenciosos que o rentemente antagónicos. Para tanto ele propõe, ainda a exemplo
escritor abomina em Boucher.2 Está de volta a grande pintura que dos teóricos do início do século, como Roger de Piles, uma nova
La Font de Saint-Yenne tantoarmejava.rCorrtudo, ao lado das com- definição da pintura de género e da pintura, de-história, baseada
posições de tema histórico, religioso ou mitológico, triunfam tam- agora na distinção entre modelos vivos e modelos inertes. Mas essa
bém, nos Salões, paisagens e naturezas-mortas, bem como um gé- distinção mesma não o satisfaz completamente. Seu ideal é uma
nero misto — especialmente corri Gréuie - érn que a cena domés- pintura de síntese: cotnpósições históricas, queleváriam ern con-
tica vale como alegoria moral. ta a realidade, e pinturas menores (naturezas-mortas, por exem-
Nesse contexto, os Ensaios sobre a pintura, publicados na plo), que ambicionariam mais grandeza.
CorrespondanceLittéraireáe. Grimm, no último trimestre de 1766, Os diferentes Salões, dedicados ao comentário analítico das
fazem uma defesa jmoderada da hierarquia dos géneros. Claro que obras, mostram a atração que Diderot sente:.de_fato pelas pintu-
Diderot afirma- quê ò assunto deve ser interessante. Como o aba- ras de género. Em 1763, o Pote de azeitonas é A raia de Chardln
de Du Bos meio século antes, ~eíe julga' q"ue"ã" missão da pintura é lhe revelam a "magia" (seu vocabulário crítico não está ainda su-
tocar, comover, e que eía não pode fazer isso se dedicando a. mo- ficientemente formado para ir além da imprecisão da palavra) de
tivos triviais. Mas Diderot vai mais longe que Du Bos. Este propu- uma técnica pictórica capaz de exprimir o real até a ilusão per-
nha selecionar entre os assuntos tradicionais aqueles que ainda feita.3 A lernbrança dos grandes mitos pictóricos (como Zêuxis e
convinham aos tempos modernos. Já Dideíet-propõe abandonar o as uvas, entre outros) ocorre-lhe, incitando-o a quase considerar
repertório habitual pára buscar os assuntos na própria vida còti- a natureza-nriorta como o alvo último do artista.

1 Sobre £)iderat;'Vçr-GJvokttm~\-,-&mi»v-i(a-prntura. Sobre os £ '9"AlHs,'Tpor"influência do própriõ"CKar3In que Diderot começa
tos, ver o volume 5» Da imitação à expressão. verdadeiramente a se familiarizar com os aspectos técnicos das obras. Ver,
2 Sobre o rigor do julgamento de Diderot a respeito de Boucher, ver, a esse respeito, a introdução que faz ao Salão de 1765'. "O que Chatdin nos
entre outros, o Saião de 1765. dizia no Salão...".

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Ouso propor ao mais intrépido de ali sugestões para uma narrativa ao mesmo tempo patética e eró. exige. organização de P. tada. o atrai porquê ele descobre sede e que vos persiga. o devaneio longamente do que uma gazeta? É que esses homens não têm imagina- narrado. gala pelos ingleses em 1756. A pintura. dos quais é im. ção. Estas ferem tanto mais quanto elas estão ao lado das outras. dedicado a Horace Ver- pois. consagra a síntese entre o atrativo da ilusão e o gosto do ro- gotes todos os recursos de tua arte. exposto no Salão de 1765. em todos os seus detalhes. para descrever a série de paisa- gens expostas pelo artista. não têm verve. a indigên- Dávid. pelas ordens de um nababo. O longo capítulo do Salão de 1767. A Menina que chora seu passarinho morto. entre outras lembramos do que vimos. ma ideia forte e grande. realiza a façanha de dar a imaginar Quanto mais vasta uma composição..4 Assim. Diderot fala pouco da téc. em centenas de lugares. Lês Salons. Nenhum fantasma que vos ob- composições comoventes de Greuze. que tomes o teu pincel. a apreciação estética cede o passo ao romance.5 transformam-se aqui. 1984. se um sacrifício. quanto uma cena [. sufocados em um calabouço demasia- extasiada. segundo a natureza. De passere mortuo Lesbiae. nossos artistas nos apavorar tanto por seu pincel quanto o tica. catálogo da exposição no Ho. Paris. ço quando estiver acabada? Percorrei as obras dos grandes Vernière.. uma cena pública pudessem ser apresentados com a mes- Ensaios sobre a pintura ma verdade. é a mentira que se torna mais chocante pela presença da verdade.) 82 83 . um triun- fo. pintor de história é infinitamente mais difícil do que o do 4 Essa narrativa inspira-se em Catulo. doméstica de Greuze ou de Chardin! queza de conceito. (N. É sob este ponto de vista sobretudo que o trabalho do possível receber uma sacudida violenta. O conto em forma de um aparte. cia do artista ao lado de seu talento. Ora. 1988. entre algumas verda- tel de Ia Monnaie (outubro de 1984 a 6 de janeiro de 1985). uma fra. voltamos a cabeça e já não nos pintura. O nababo Suraj ud Daula apoderou-se de Cal- 5 Para comentar o quadro que permitiu a Fragonard ser aceito na cutá e aprisionou dois terços da guarnição britânica numa masmorra sem Academia. do T. uma sensação pro. se tu me afetas menos manesco. que es- net. Corésus e CaUirboé. uma batalha.] Há. embora fascinado por ela. Diderot et l'art de Boucher à mestres e nelas notareis. uma pobreza de ideia. Denis Diderot "A apologia do grande estilo" Mas Diderot conserva remorsos de escritor quando olhava a funda. 1759-1781. 6 A referência é a um episódio ocorrido durante a conquista de Ben- traduzida para o francês-porMarolle em 1653. aquele entre eles que terá paciência de terminá-la? quem é que pagará o seu pre- Bibliografia: Diderot.6 E de que serve. ar. qual é. Oeuvres esthétiquts. rotina. Bordas. RMN. em quase todos os nossos quadros. na fábula de um passeio na natureza. Olhamos paxá eles. Ah!. que moas tuas cores. desta multidão de nica de Greirze: o comentário formal limita-se a uma descrição ingleses expirantes. do estreito. onde todos morreram sufocados. des da natureza. uma infinidade de coisas executadas de Paris. é que não conseguem atingir nenhu- onde cada lugar é na verdade a descrição de uma paisagem pin. somos pelo simples relato dt>gazeteiro. mais estudos ela e de enganar admiravelmente o espectador. com Vernet.

84 85 . do outro. . era detestado pelos colegas na casa de Levi— detalhes que. foram objeto de censura ao pintor e desprezado pelo próprio Diderot (cf. natureza. mas esta é uma divisão supérflua. posteriormente. que joga cartas no corpo de guarda. Não há grandes pintores que não zer de um. lão de 1761). sem mão do soldado. 9 Diderot omite deliberadamente os contra-exemplos que. com que ele golpeia na refrega.8 mas é o dele. Por suas atitudes impertinentes. no Sa- 1580. Chronique de Ia peintwe à Ia Rennaissance. sua crítica cruel da Degolaçâodetão veneziano (cf. o 8 Alusão à abundância de detalhes nos quadros de Veronese — anões. e estas misérias nada mudam aí. todavia. ao efeito geral. 10 ]ean-Baptiste Pierre (1713-1789). Denis Diderot "A apologia do grande estilo" pintor de género. bam fazer o busto. são evidentes: Poussin. a pintura pelo retrato.. Não era confessam nitidamente o menosprezo que se dedicam re- o parecer de Paolo Veronese. pintores que se preocupa em fazer pés e mãos? Ele visa. pintura de retrato e a arte do busto devem ser honradas entre ro que de$afiam nossa crítica. 1983). tória.9 Não há grandes escultores que não sai- pauca ex industria.] Parece-me que há tantos géneros de pintura quan. o e de sua liberdade. atualmente conservado no Museu Calvet d'Avignon. O mito da tos géneros de poesia.. não' há senão Deus e o rei. Estes últimos enca- grandes composições são bosquejadas. úrh é-pv^e^srrmJlf s'imitador. ou ápéhafeviu por um sa. Quase todas as ciprocamente. [. aliás. o de diretor da Acade- bufões. de pinturas de his- 7 Encontra-se uma observação bastante semelhante em Baudelaire. finalmente. ram os primeiros corno cabeças estreitas. pluríma ex animo ("poucas coisas inven. A pintura. sem ideias. Qual é o quadro de batalha um povo republicano. salvo pelo primeiro princípio que lhe dá nascimento. Entretanto. Pierre10 dizia um dia: "Sabeis por que. ao contrário. meçou. A ideia de que a pintura teve origem no retrato de- corre do célebre mito da sombra de Dibutade. Onde está aquele dentre nossos siado difícil"._ t o criador de unia . saibam fazer o retrato: testemunham-no Rafael. nós outros A imensidade do trabalho torna o pintor de história pintores de história. Lê sas inventadas. ò^pihrb é.ose di. Friburgo. A. Entretanto. autor de cenas de festas populares e. ou jamais*viy. Chastel. conhecido como cavaleiro Pier- re. servos. depois". pauca'ex animo ("muitas coi. Rubens. cadência das duas artes. Todo aluno começa como a arte co- tadas. o pé e a . 1280.ideal *?•* e poética. multa ex industria. Van Dyck. a escultura 1 sohreHima linha'difr&Pderttantqp Dt u^n lado dessa liriha. Há uma infinidade de quadros de géne. a me- zer. Em um Estado monárquico é outra coi- pintor de história. Ele caminha ** "-"i"**»!» • dicina pelo empirismo.defensores de seus direitos gêjiero tem sua cena sem cessar* presente sob' seus olhos. E. João Batista. por assim di. Sueur. muitas sinceras"). poucas sinceras"). onde convém incessantemente pren- que pôde suportar o olhar do rei da Prússia?7 O pintor de der os olhares dos cidadãos aos . são os mesmos com que ele marcha para o combate. de primeiro pintor do rei em 1770 e. pelo busto. se é verdade que uma arte não se sustenta copista qe uma natureza . o desprezo do retrato e do busto anuncia a de- cai no mesquinho. Põd. Office du Livre. obteve o título de primeiro pintor do duque de Orléans em 1765. mas a gente o adivinha. não fazemos o retrato? É que é dema- negligente nos detalhes. Ver o volume l. instarjfe«a sua. diz Os pintores de género e os pintores de história não ele. do' outro^cai ncfexagérado.comum. até mesmo um homem com o nariz sangrando em Refeição mia em 1778.

que me oferecem toda sorte de inci- le. Paris. nado no Salão de 1761. sem grandeza. seja àqueles que tomam emprestadas as suas cenas da [1705-1765]. arrastar servilmente atrás da natureza. pode conceder nada além da mecânica do ofício. burguesa. Parece-me que a divisão da pintura em pintura de gé- Os sete sacramentos: série encomendada a Poussin. aberta ao pú- género. "Carta a Margreva Caroline- ção. que eles com. a quem não se Eis o que é. imitadores da natureza bruta e morta. Vedes de fato. 12 O pai quefaz a leitura à família. ou Vanloo nhas. de Vernet. de Poussin. que não ousam per. A linha está traçada des- O pintor de género. pequenos assuntos mésq\ijnnos.11 são pintores de der de vista um momento. quer nesse estilo que se chama grande e subli. As Marinhas de Horace Vernet: série de tória e do poema épico. A dar-íhes crédito. encomendada por Luís XV.ticas tomadas a partir da. quer nas ações é nos movimentos das figuras. Paris. que são todos de imagina- imediatamente abaixo de Vernet" (Diderot. datado de antes de 1755. seja àqueles que-se ocupam apenas das flores. também conhecido como A lei- me e que não tem em absoluto nenhum modelo na natu. 1761. o Filho ingrato e o Noivado. que não existiram em par- 1688). Salão de amigo. A natureza diversificou os seres em frios. sem génio. por seu lado. que vão se vida comum e doméstica. Philippèjacques Loutherbourg (l740-1812).s ^maí õ vermdifto matiz do quadro do homem subli. e em são nada quando não levaram este mérito ao último grau. nero e pintura de história é sensata. que a família. paraptlè-. Wouwerman. Inglaterra. que as ' vape^colhenHo os. das monta. que se trata da querela da prosa e da poesia. executadas entre 1754 e 1765> comentadas muito favoravelmente por Di- derot e hoje conservadas.2|g^. "está te alguma. no Louvre. por Fréart de Chantelou. de toda a eternidade: cumpria chamar pintores degenero os ca como um género romanesco. mencio- reza. ou A maldição paterna. tura da Bíblia. no Museu da Marinha. «fc^pequenas cenas domés. A lista desses pintores é a mesma dos artistas de sua cabeça vazia. Paris. encara a pintura históri. em Paris. A família de Dario. 86 87 . dos blico. não pensantes. A Susana de [Carie] Van Loo. e que não imóveis. onde a falsidade se revela. a Família de Dario. 1 ' David Téniers. Entretanto. Museu do Louvre. Denis Diderot "A apologia do grande estilo" poesia. esboço no tantes das ações e dos movimentos reais. de Lê Brun: uma das composições da série Bata- frutos. coleção particular. seres que vivem.Royal. Marinhas. da tragédia heróica e da tragédia quinze grandes vistas dos portos da França. de Greuze. O noivado. e pintores de histó- similhança nem verdade. mas eu desejaria que após os Sacramentos pintados para Cassiano Dal Pozzo. eu protesto que o Pai quefaz a leitura parariam de bom grá$te ao nosso artesão dos GòbeUííif. Museu do Louvre. o Moço (1610-1690).esquina das ruas. 1773). dentes e de cenas. também conhecido como Susana e os velhos. não viventes. lhas de Alexandre. que ele captou ninguém que Diderot gosta e que defenderá em todos os seus Salões. são pessoas de quanto os Sete Sacramentos. Téniers.. de Greuze. Pobres copistas. género. são para mim quadros de história tanto me qae há 4írás tio verso.fíósS3Ht. Chardin. das florestas. em sua maioria. Philips Wouwerman (1619- quer nos caracteres exagerados. meu Salão de 1765.uns após outros. quer no tema inteiro. onde tudo é desmedido. quer nos detalhes. de Lê Brun ou a Susana. Dá-se indistintamente o nome de pintores de leções do regente e ficava exposta na galeria do PaJats.12 . Loutherbourg. sabe onde. dos bosques. na época de Diderot ela fazia parte das co- nesta divisão. em que não há nem veros. da his. que nada tem de comum com a natureza. de Van Loo. dos animais. sentem e pensam. que o artista jamais viu fora de Louise de Bade". O filho ingrato. Vernet mesmo. quer nos incidentes. hoje conservada na se tivesse consultado um pouco mais a natureza das coisas Bridgewater House. tão dis. da tragédia burguesa e da comédia gaia. não sencientes.pintor paisagista. sem elevação. Greuze.

Catão. sanguenta as ondas do Simois e do Xante e quando entope o leito dos dois rios de cadáveres humanos? Aqui somente Salão de 1763 os objetos são maiores. colocados diante de nossos qua. Bruto. Há no Salão vários quadros pequenos de Chardin. mesmo reduzida ao vaso e à corbelha de flo. elevação. uma outra poesia mais com uma verdade de enganar os olhos. dos panejamentos. Quem não se reconhece em Molière? E se ressuscitassem os heróis de Chardin nossas tragédias. vejo tes em um pote da manufatura de Nevers. e que. e a querela Por que colocar sobre este bufe nossos maçantes uten- estava acabada. as alegrias do tempo da çãb. Denis Diderot "A apologia do grande estilo" ria os imitadores da natureza sensível e vivente. dros históricos. formá-las de duas serpentes entrelaçadas? por que a cauda das expressões. da luz. (N. as cenas mais terríveis. nos mostrando coisas mais conhecidas e mais orifício não pareceriam procurar aí a água para se desalterar? familiares. poesia nffthíia. Mas seria preciso saber animar as coisas mortas.da perspecti. deste vaso. da composição. Augusto. igual ciência do desenho. não seria praticada sem todo o recurso da arte e algu. na parte inferior? e por que suas cabeças pendentes sobre o chados. O artista colocou numa mesa um vaso de ve- res. uma imi. estranha? a pintura de género. no Mu- que era atribuído a Homero. que exige não menos espínto. senão que a pintura de história exige mais refeição. se este vaso tem asas. receberam é fácil de contar. eles teriam muita dificuldade de se reco. e o núme- Homero é poeta de menor grandeza quando dispõe rãs ro daqueles que sabem conservar a vida nas coisas que a em batalha às bordas de um charco13 do que quando en.:irnagina. encontra-se em Paris. das sombras. Para ver os quadros dos outros parece que preciso tro- 13 Na verdade. O que quase todos representam frutas com os acessórios de uma significa isso. o texto alude a um poema que faz paródia da Ilíada e 14 Lê Bocal d'olives. tem mais juizes e melhores juizes. uma dança de crianças. dos pormenores mais capri. azeitonas. Os objetos estão fora da tela. datado de 1760. em redor pintura histórica. mais imaginação talvez. sílios domésticos? será que estas flores serão mais brilhan- Mas deixando às palavras as acepções recebidas.) seu do Louvre. este é um colorista. uma bacanal? Por que. . vindima. destas serpentes não iriam efetuar algumas circunvoluções tação mais estrita da natureza. dois copos de vinho pela ra tivessem tanto gosto quanto dinheiro? metade. se aqueles cujos aposentos ela deco. Sobretudo o quadro que se vê ao subir a escada mere- tima pintura. do T. dois biscoitos. É â própria natureza. da cor. lha porcelana da China. 88 89 . uma laranja-amarga e um patê. do que em um que a pintura de género tem quase todas as dificuldades" da vaso de melhor forma? E por que não verei eu. perguntariam infalivelmente quem é essa gente aí. César. mais verdade? e que esta úl. dos caracteres. Catilina. um pote cheio de ma centelha de génio. não vá. Este é Um pintor. O pote de azeitonas^ nhecer em nosso palco. e. das paixões. ce atenção. uma cesta de frutas.

beber esse copo que o meu. espuma. faria com que se ocupasse da Raia despedaçada. objetos. Afaste-se. de seu sangue. Greuze Nada entendemos dessa magia. Esse é um elogio mais breve. e tudo se cria e se reproduz. Quem pagará pelos quadros de Chardin quando este É Chardin que entende a harmonia das cores e seus homem raro não mais viver? É preciso que o senhor saiba reflexos. O objeto é repugnante. Museu do Louvre Diderot. nota dos Ensaios sobre a pintura de 19 La Jeune filie qui pleure son oiseau mort. São camadas espessas Menina que chora seu passarinho morto de cor aplicadas umas sobre as outras. Disseram-me que Greuze. enfiar a faca nesse patê. cuspa nas cortinas de Apeles e nas cel e fixa na tela. Pierre. "Co. Acaso não vimos os pássaros do Jardim do Rei que- mesmo mestre. Paris. Outras vezes. autor principalmente de cenas pastoris. dir-se-ia que sopraram um vapor na tela. para ver os de Chardin. e tudo se confunde. o próprio as. é o ar e a luz que você toma com a ponta do pin. este artista tem uma compreensão judiciosa e que você mistura na sua paleta. eu lhe diria. "copia mais uma vez. 90 91 .Museu do Lonvre. se do quadro. de vinho. Loutherbourg pode- var os que a natureza me deu e utilizá-los bem. olhou-a e seguiu caminho. e os animais são maus juizes ern pin- tanto. cujo efeito transpira Linda elegia! Lindo poema! Que belo idílio Gessner de baixo para cima. Berghem. pecto da coisa em si não afetaria mais. riam explicar-lhe esse fazer bem melhor do que eu. uvas de Zêuxis. Ah!. é a própria substância dos fala de sua arte maravilhosamente bem.." Mas talvez não rece.15 do tura. seja mais difícil copiar a natureza. basta pegar esses biscoitos e co. Sr. e de maior valor mê-los. Nicolas. 15 La Raie (A raia). subindo a escadaria que le- Acontece que esse pote de porcelana é de porcelana. o preto também que. Mas Chardin enganará ao senhor e a mim quando quiser. se puder. va ao Salão e percebendo essa obra de Chardin que acabo que essas azeitonas estão realmente afastadas do olho pela de descrever. não é o branco. do suspiro. Denis Diderot "A apologia do grande estilo" car os olhos. dando um profun- água em que estão imersas. 18 Ver o volume l. em outro lugar. Rubens.17 Greuze. mas se trata da carne brarem a cabeça indo de encontro à pior das perspectivas? mesma do peixe. perde o relevo e desapa- pia isto". ou Claes. basta cortar e espremer essa laranja. seria esse o quadro que eu haveria de comprar.16 olhe bem essa obra quando o senhor for à Academia e aprenda. o segredo de redimir pelo talento a repugnância de Salão de 1765 certas naturezas. supra. Paris. todos Se um de meus filhos fosse por mim destinado à pin. que nela jogaram uma leve 17 Berghem ou Berchem. (réplica na National Galleiy de Edimburgo). meu amigo. pintor holandês (1620- 1683). O mito da pintura. 16 Jean-Baptiste Pierre: cf.18 Pode-se enganar sem qualquer dificuldade Depois que meu filho tivesse copiado e recopiado esse um artista impaciente. Ó Chardin. de sua pele. Aproxime- tura. descascar essas frutas. eles tornariam esse efeito sensível a seus olhos. o vermelho. só tenho que conser.

você de folhas que serpenteia em torno dela é cheia de graça! Ó estava só: ele era tão belo. E isso é tão verdadeiro que eis o que me lembro se prender. Quando se foi feliz o bastante surpreendemos a encetar conversa com essa criança. tão terno. enlevado! Como foi 20 Salomon Gessner (1730-1788)..) Eu prossegui: E seu da! O que significa esse ar sonhador e melancólico? Você pássaro? Quando nos esquecemos de nós mesmos. beça pendente. o mais agra. é de 92 93 . aquele que você ama se retirou. Quadro delicioso. ou a ele voltamos. tão apaixonado. Nela tudo encanta. de quando em quando você tador! Iríamos nos aproximar dessa mão para beijá-la... Vamos. está chorando! E no entanto o que estou dizendo não é para se quadro. (Ah! meu amigo. se não sentia o calor das lágrimas que lhe caíam dos olhos e cor- respeitássemos essa criança e sua dor. to! Como é triste ver o amado sofrer!. escritor suíço de língua alemã. sua mãe estava ausente. para encontrar uma menina encantadora como você. riam ao longo de seu braço. entregou-se inteiramente ao infor. e jurava há muito tempo! Ele sofria tan- Como é elegante o penteado! Como seu rosto é expressi. dizemos: Deliciosol Delicioso] Logo nos não faltará à palavra dada. Segurava uma de suas mãos. Mas eis que você do de uma maneira! E tão flexível e leve! Quando vemos es. para agradá-la. com a ca. Com que nem severo.. Denis Diderot "A apologia do grande estilo" faria dele!20 É como uma gravura a ornar um fragmento de ta.. O pássaro za? Você baixa os olhos. abra seu coração. A jovem está de desse pássaro que a fez se recolher com tanta força e triste- frente. Sua mãe não voltava nunca. vezes saiu e voltou! Acabo de vê-lo em casa de seu pai. é para a vida inteira. Se você a tivesse visto sorrir e chorar. Foi mesmo a morte dável. vo! Sua dor é profunda.. sua dor é bem profunda.. Esse lenço que lhe envolve o pescoço é joga. por túnio. as patas para cima. con. dizemos: Delicioso1. nos lembramos de nosso pássaro? Quando se aproximou o momento da chegada de sua mãe. Por que chorar? Ele lhe fez uma promessa. Ele veio. ilustrados com tudo isso.. marcou na ponta dos dedos delicados.. as asas caídas. Não foi culpa sua. imagino. encantador! Havia tanto amor em seus olhos! Tanta verdade de dos detalhes desses dedos. contente. como estava bela! Mas. Suas lágrimas morto está colocado na parte superior da gaiola. e o pensamento acompanha sua aflição. "E meu de lhe ter dito em diferentes ocasiões. Como você me olha! Sei de admirado em toda a Europa por seus Jdyllet (l756 e 1777). por que fechar-me a boca com sua mão? Aquela manhã. em suas expressões! Dizia essas palavras que tocam tão di- guidez. Quantas vezes ele se levantou e tornou a se sen- pranchas gravadas que evocam um mundo edênico povoado de pastores tar! Quantas vezes ele lhe disse adeus e não se foi! Quantas galantes. tão que bela mão! que bela mão! que belo braço! Veja a verda. E como estava feliz. bem medita.. estão prestes a correr. será que não está chorando por causa de um pássaro! Você está afli. com a cabeça apoiada na mão esquerda. Deixe-me continuar... dessa lan.. Muito bem. e esse matiz avermelhado que a pressão da cabeça retamente a alma! E ao dizê-las estava de joelhos.. Você sorri. difícil sair. pássaro?". Que belo cadafalso é essa gaiola! Como a guirlanda uma infelicidade. tudo cai bem. estou percebendo: ele a amava. não me responde.. diga-me a verdade. meni- uma das obras desse poeta. na. Eu não sou pai. Tudo isso é encan. dessas covinhas.. naturalidade a jovem foi colocada! Como sua cabeça é bela! jurava que amava. de perto de você!. não sou indiscreto. menina. quiçá o mais interessante do Salão. foi culpa de sua mãe. Quando paramos diante dele fazé-la chorar. é para solando-a.

O que há além disso? Fale.. um deles.] eu saía em companhia do chorou mais ainda. quando fui brus- bora seu canário cantasse. a advertisse. Não gosto de afligir ninguém. Sua boa Ali. disse! E quanta tristeza tais coisas lhe causavam. ela ralhou com você.direita.. batesse camente detido e apresentado a esta paisagem. beijou-lhe a fronte e as faces. preceptor das crianças da casa.. mandava-a fa- zer uma coisa. Mais à direita ain- ta.. rochedo. ou Salão de 1767 desviava o rosto para enxugá-las furtivamente. foi se nha bengala e meus cadernos. Você quer que eu diga mesmo assim? Muito bem. sentado. a chamasse. os mais belos dias.] cê.. entre altos e baixos.. em- Eu ia de cabeça baixa.. numa saliência do rochedo. Algumas lágrimas despon- taram dos cantos de suas pálpebras. balançan- Não há o que temer.. Conversamos. Sempre ficamos assim. caro amigo. ele há de encontrar ou- montanha nos era ocultada pela massa interposta de um tro igualmente bonito. Posso pros- e ia lhes falar de suas obras. as asas... de seus dois alunos. quando parti para uma região seguir? Temo que o que vou dizer possa reavivar sua dor. e o . o sopé deste se estendia... mas não me desagradaria como há pouco. A minha. quis o acaso preciso dizer mais alguma coisa? Ah! Compreendo.. enquanto alguns perdiam em torno de uma mesa de mãe arrependeu-se por tê-la entristecido.. Quantas coisas afetuosas essa mãe lhe bonitas do mundo.. Acaso erguia-se em direção à nuvem. e isso lhe Tinha escrito o nome deste ardsta no alto da página permitiu chorar à vontade e aliviar o coração. ou você as retinha. . Nesse instante. Porém. não posso adivinhar. observei duas figuras que a morte do pássaro for um presságio. e você fazia outra. encontrou-a a devanear. e hoje de manhã. aproximou-se de jogo os momentos mais bonitos do dia. Foi ele que lá estivesse um viajante em pé. eram dois pescadores. próxima do mar. que começava a corar. Você continua a fitar-me. tranquilo..mi- rosto. dizem-me que você está afli- dividia ao meio a profundidade da cena. ao longe.. Pois bem. mas você não ouvia o que ela lhe dizia. [. Denis Diderot "A apologia do grande estilo" uma alegria encantadora. de uma alegria de que todos par- perda de seu pássaro. de. [.isso-nã&vai acontecer. o cume de uma montanha o pássaro não existia mais. e Seus olhos estão fixos em mim. 94 95 . Sua cabeça inclinou-se sobre ela. Você Primeira paisagem2 * deixou de trocar a água e de alimentá-lo. e você seu dinheiro e sua alegria.... lamentasse ter sido esquecido. As contínuas Vernet distrações irritaram sua mãe. Ela falava com vo- nem um pouco ser a causa da dor dessa menina. você não o via nem o ouvia. [. você. A base da que lhe deu esse pássaro. conhecida pela beleza de suas paisagens. O que farei? O que será arte não teria conseguido colocar de maneira mais satis- de mim? E se ele não passar de um ingrato?" Que loucura! fatória. pegou suas mãos. "E minha mãe?" Sua mãe vol- Mas veja também como ela é bela! Como é interessante! tou para casa tão logo ele se foi.] Partimos. "E se a da. não pode ser. para visitar as paisagens mais esconder no seio dela.como de costume. pela perda de uma coisa qualquer? tilham involuntariamente. andamos. assim como o faz agora. entregue que estava a outros pensamentos.. você não ri por ouvir um personagem aus- tero se distrair consolando uma criança — pintada — pela 21 La Source abondante (A fonte abundante). Mas parece que isso não é tudo.: Mas.

perguntei: "O lho com as copas das árvores?" Respondi: "Vernet. é iam mer. disse eu ao cicerone. forma. separando-se do primeiro." "Diga-me então como 96 97 . maior familiaridade com o artista. com este mesmo pescador sentado águas que banhavam o local. falava ao primeiro. os dois pescadores. tas coisas iria encontrar nela! Quantas coisas que estragam tas e nelas espumando. Nesse meio tempo. Essa massa era igualmente oculta por um rochedo Disse eu então: "Decerto que não. nesga de céu que vislumbrávamos entre as copas das árvo- gulhar e se perder numa região que confinava com o céu. esta cascata e este dita seriamente que Vernet poderia ser algo além de um canto de paisagem." Eu res. preendido entre os rochedos e a torrente. aproximando-se da crista desse caminho de maravilhosa. sabe. só pensam vez ou outra. não deixarei a natureza para correr atrás de sua imagem. facilmente. duplicando nosso por um profundo estudo da natureza.. mas se o senhor tivesse ainda mais recuado que. "teria ima. "Sim. res próximas da área pedregosa e os rochedos onde estavam "Que artista". encontravam o alto das casas da aldeia. Ver- massa de rochedos coberta de arbustos selvagens que a na. Perguntou-me o abade: "O senhor acre- nossos artistas exatamente estes rochedos. por mais sublime que esse homem seja. ajudada De quantas coisas ela nos aproximaria. "Muito bem!". águas sinado a ver na natureza aquilo que o senhor não vê. assim como sua mulher que está em pé espécie de aterro pedregoso que o sopé do rochedo formava e aquela outra que vemos de costas. Respon- pondia distraidamente. Os outros. Você não conhece esse homem. que faz o céu recuar troncos e os ramos?". goso." — "O senhor não em seu prolongamento. nuvens. abade.. Denis Diderot "A apologia do grande estilo" do as pernas no ar. isso. numa torrente. erguera-se. curvando-se sobre ele. Nessa cháo ao redor dele. tureza havia posto na outra extremidade do outeiro pedre. uma nuvem leve que o vento deslocava ginado interromper a continuidade desse aterro de casca. o aterro pedregoso zida por um camponês rumo à aldeia situada abaixo do ater. Vernet quer que o céu tenha o to os fenómenos dã~riatureza lhe são familiares. num ponto ern que o terreno se in. talvez ele lhe tivesse en- va um canal de onde se precipitavam. e as montanhas da esquerda. net." O espaço com- clinava para o fundo. Quan- que vinham. como é um mau gracejador." — "E talvez com este mesmo grande copista rigoroso desta cena?". inspirou a um de encantamento!". quebrar-se nas pedras sol. dirigirido-me ao abade. os apetrechos de seu ofício espalhados no ombro. pois minha atenção se fixava numa deu-me o abade: "Embora o senhor me fale de Vernet. formava um lago à beira do ro: ainda outro incidente que a arte poderia ter sugerido. o conjunto e prejudicam o efeito a arte poderia suprimir! "vá ao Salão e verá que uma imaginação fecunda. mostrar o efeito quente e picante desta luz que banha os que anuncia um espaço além e aquém.. ele não é Deus!". "Por que não?" "E mostrar o espaço e os outros objetos avançarem? Vernet teria sentido tudo imenso que seu olhar descobre mais além?" "É o que ele fez. no final da queda. levando uma rede no puxando a rede. por acaso. qual passeávamos. em quebrar a monotonia. escurecendo o céu com. seu Vernet xado de colocar essa nuvem exatamente onde ela está? O teria imaginado a elegância e o charme? Teria conseguido senhor não vê que ela estabelece para nós um novo plano. passava uma carroça coberta condu. movimento e a magia deste que estamos vendo!". senhor acredita de fato que um artista inteligente teria dei- E imediatamente ele me disse: "Mas. segurava uma linha que havia jogado nas bloco de rocha bruta. perguntou o meu cicerone.. até que J>on. em direção à cascalho... talvez". Era dali que contemplávamos essa cena Meus olhares. o outro. Então.

é um dos Estética. 1957-67. este texto fornece o melhor comentário àquela "magia" que um Diderot cons- tata. (1714-1789) vesse ensinado a ver melhor a natureza. na curta duração de sua vida e Diderot admirava tanto ou ainda mais do que a Claude Lorrain - em certas coisas que ele empreendeu e executou. pp. escritos mais precisos do século XVIII sobre a arte da paisagem. [. Denis Diderot ele faria para embelezá-la.]". Adhémar. Esta carta de um co- Fontes: Denis Diderot. Não se trata. pois trabalha- se o desenho e a cor ao mesmo tempo. mas se Vernet lhe ti. nos embaraços. à maneira de reproduzir as cores com precisão. por sua vez. por isso mesmo. 199-200. J. 202. se eu tivesse que me maravilhar. "Ensaios sobre a pintura". ver o volume 7." "E.2 1 Tal como Diderot no artigo "Paisagem".] O meio mais rápido e seguro é pintar e desenhar a partir da natureza. se soubesse." "Ignoro.. poética e contos.. lhe teria ensinado a ver Vernet. às sombras etc. o grande pintor dos Portos da França. sem dúvida. [. São Paulo. Perspectiva. Ocorre o con- trário quando penso na fraqueza do homem. a reflexão sobre o valor específico dos géneros se apaga diante dos conselhos práticos ditados pela experiência. da paisagem ou da marinha sa. e sua obra ainda mais digna de que se destinam ao estudo admiração.1 da escolha ou do caráter da paisagem a pintar. e sim de problemas puramente técnicos. mas quando o comparo com a energia da causa produ- tora. 2 O mesmo conselho é formulado por Cochin. aos reflexos. Este universo é.. Diderot: Salons. Com este texto de Joseph Vernet . Oxford. Scznec e J. Tal como está. um homem. 98 99 . organização. ainda mais surpreendente. da Encydopédie. Guinsburg. O paralelo das artes. na mesma época." "Mas Vernet será sempre Primeira carta aos jovens e tão somente Vernet. esta. tura da mesma época. tradução e notas de J. seria pelo fato de sua obra não ser mais bela e mais perfeita ainda. em seus par. Obras II: nhecedor do ofício. e cujos meios não sabe definir. Principalmente pintar. uma grande coi.o grande paisagista que cos meios. relativos à hora e à distância ideais para pintar. 2000.. seria eu Joseph Vernet maior poeta e maior pintor que ele. como em Roger de Piles ou outros teóricos da pin- 4. na perfeita imitação da natureza.