SEED-PR

Secretaria de Estado da Educação do Paraná

Professor Pedagogo
ÍNDICE

CONHECIMENTOS ESPECÍFICOS
História da Educação Brasileira e as relações entre escola, estado e sociedade. .......................................................................................... 01
Políticas públicas da Educação no Brasil. ....................................................................................................................................................... 08
Fundamentos e concepções de gestão e diferentes formas de estruturação na organização da escola. ...................................................... 08
Gestão e instâncias colegiadas na unidade escolar; estrutura, funcionamento e organização. ..................................................................... 36
Formação do Pedagogo no Brasil. ................................................................................................................................................................... 45
O financiamento da educação. ........................................................................................................................................................................ 47
Educação e Pedagogia: bases filosóficas, sociológicas, psicológicas, antropológicas e políticas de educação. ........................................... 49
A Pedagogia: seu objeto, campo de conhecimento e de trabalho; as correntes pedagógicas. ...................................................................... 73
A relação entre educação/cultura/ética e cidadania. ..................................................................................................................................... 118
Concepções e teorias curriculares. .................................................................................................................................................................. 82
O Projeto Político Pedagógico - Papel e função da escola: concepções e diferentes formas de organização do conhecimento e
do tempo nos currículos escolares. ................................................................................................................................................................. 97
A didática e as diferentes formas de organizar o ensino. .............................................................................................................................. 109
Formação continuada do professor. .............................................................................................................................................................. 116
Escola, violência e cidadania. ........................................................................................................................................................................ 118
Organização do trabalho pedagógico na escola: o pedagogo como educador e mediador no ambiente de trabalho. .................................. 109

1 Professor Pedagogo
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mundo capitalista subdesenvolvido, entretanto, a coisa ia de mal a pior.
Reduzido a poucas e em geral inoperantes iniciativas socio-econômicas
recheadas de muito, muito discurso eleitoreiro e uma boa dose de
regimes ditatoriais para conter a insatisfação, o liberalismo
subdesenvolvido, ao invés de criar prosperidade social e econômica
para todos aprofundou o fosso das diferenças sociais. Ricos ficaram
mais ricos e cada vez em melhor número; pobres se multiplicavam e
HISTÓRIA DA EDUCAÇÃO BRASILEIRA E AS RELA-
viravam miseráveis.
ÇÕES ENTRE ESCOLA, ESTADO E SOCIEDADE.
Já na década de 80, este modelo liberal de Estado dava mostras
A divisão do trabalho social vai ter como consequência a de esgotamento. Na verdade, a própria fórmula capitalista mostra-se
cristalização destas posições. Não a partir do ponto de vista de um ou esgotada simplesmente porque não sobrevive sem mecanismos
outro cidadão, mas a partir do ponto de vista de classe. Com efeito, as intensos e seguros de exploração. Estes mecanismos, que, antes do
classes sociais vão balizar o estabelecimento do público e do privado. Welfare State situavam-se em nível interno dos países desenvolvidos e,
Mas, também, vão iniciar um relacionamento tenso, em busca da após este, deslocaram-se para a exploração inter-nacional, também
hegemonia - a luta para definir e estabelecer o que é público (seu não se encontram seguros no modelo atual. A velocidade com que o
espaço) e para controlá-lo. Entretanto, uma das classes sociais capital financeiro gira pelo mundo, passando por países em “bolhas de
básicas, a que detém os meios de produção, passa a estabelecer desenvolvimento” fabricadas para facilitar a exploração (vide o sudeste
ditatorialmente este espaço do público, uma vez que possui os asiático), torna as criaturas um perigo para seus criadores.
elementos materiais necessários e indispensáveis à produção. Com
É preciso, então dar uma sobrevida ao capitalismo, enquanto se
isto, esta classe torna-se dominante.
pensa em coisa mais duradoura e segura (e que não afete os
Não obstante este controle do espaço público, a classe interesses dos países poderosos). Surge então o tal de
dominante sabe que precisa mantê-lo, e, para isto, utiliza-se de Neoliberalismo. O Estado Neoliberal, em essência, é o mesmo Estado
mecanismos de controle que vão desde a força bruta até o Liberal, mas agora sob nova embalagem. Esta embalagem estabelece
convencimento sutil via Ideologia. Em consequência desta necessidade o aprofundamento, em função dos interesses dos países centrais, de
do controle sutil da sociedade, surge, então uma entidade denominada uma característica básica do capitalismo: a economia de mercado. O
Estado. “mercado” passa a ditar quase todas as normas das transações
O papel do Estado seria como que um mediador entre as pessoais, e institucionais, constituindo o próprio limite (?) ético vigente.
classes, procurando evitar conflitos maiores e garantir direitos a todos. Ao enfatizar novamente, agora com mais vigor, a economia de mercado
Observe que, embora os interesses para a criação do Estado fossem como base da vida econômica dos países, o capitalismo vai mexer
os mais excusos, ele acaba por revelar-se - inicialmente, pelo menos - também na questão do Estado. Se quase tudo agora é regido pelos
interessante ao dominado. O primeiro Estado pré-capitalista contratos econômicos, então os serviços básicos do velho Estado do
caracterizava bem esta concepção de coisa arranjada. Era bem-estar social também serão vertidos à iniciativa privada. O Estado
personificado, na França, pelo Rei, que bradava aos quatro ventos: “O diminui de tamanho, passando a controlar apenas alguns poucos
Estado sou eu”. No Brasil, D. Pedro I inaugura seu “Poder Moderador”, setores da sociedade, geralmente burocráticos e/ou militares. É o
que na verdade era um Estado de fato dentro de um Estado que se Estado Mínimo, característica do Neoliberalismo.
dizia de Direito. Novamente, encontramo-nos às voltas com a questão público x
Com a evolução do capitalismo, este conceito de Estado também privado. Ao privatizar descontroladamente o público, o Estado
evolui e se aperfeiçoa. Surge o chamado “Estado democrático”, Neoliberal aprofunda mais ainda (e a gente que pensava que pior não
característica do Liberalismo Econômico, que se fortalece a partir o podia ficar...) nos países periféricos as diferenças sociais, com um
“New Deal”, o pacto de Estado estabelecido pelos Estados Unidos após agravante: de tanto se “purificar” o capitalismo vira autofágico. Por isto
a grande crise da década de 30. Este Estado Liberal vai inaugurar no o Neoliberalismo tem perna curta. Ótimo momento econômico para se
mundo o “Welfare State”, ou Estado do bem-estar social. Neste modelo, começar a questioná-lo (desemprego altíssimo, espasmos financeiros),
cabe ao Estado proporcionar a todos os cidadãos condições básicas bem como ao capitalismo como um todo, mas péssimo momento
para uma vida digna, como Educação, Saúde, Habitação, Saneamento, político. Os poderosos são espertos, e, ao verem a coisa preta tratam
Transportes, etc, tudo de boa qualidade. Os direitos básicos do cidadão de limpar as mais improváveis ameaças político-ideológicas que
seriam preservados, contanto que não se questionasse a forma como a possam surgir no futuro. Não existe mais o chamado “mundo
classe dominante obtinha seu poder. Esta forma se manifestou logo, comunista”; até um pequeno e desajeitado Sadam Hussein é tido pelos
logo, através de mecanismos imperialistas de dominação de países, EUA como “ameaça à humanidade”. Entretanto existem focos
tornando outros países, geralmente com mão-de-obra barata e vastos importantes de descontentamento e o poder não é monolítico,
recursos naturais a serem explorados, países dependentes. O Estado apontando para um futuro imprevisível.
Liberal vicejou no pós-guerra em todos os países desenvolvidos. No

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Que tipo de Educação viceja em um Estado Neoliberal? b) a econômica, visando a um Estado regulador, indutor,
coordenador e mobilizador dos agentes econômicos e sociais;
Para responder a esta pergunta, e’ importante retornarmos aos
princípios do Estado capitalista. Observe que a questão público x c) a social, com a crise do Estado de Bem-Estar Social;
privado está na base da questão do Estado capitalista. Não é por outro
d) a política, questionando-se a incapacidade de institucionalizar
motivo que a Escola Pública vai surgir justamente com o capitalismo:
a democracia e prover uma cidadania adequada; e
uma tentativa do Estado (ou da classe que controla o Estado) de
estender seus domínios a todos os setores da sociedade civil. No e) a crise do modelo burocrático de gestão pública, tendo em
entanto é justamente aí, na contraditória escola pública, que vão surgir vista os elevados custos e a baixa qualidade dos serviços prestados
os mais eficientes focos de resistência a esta concepção de Estado. A pelo Estado.
palavra chave para compreendermos este caráter contraditório da Cada perspectiva da crise do Estado vem impregnada de um
escola é “Cultura”. Ou, se desejarmos ir mais fundo, “Trabalho”. entendimento específico sobre quais são os principais problemas e
Observe nossa primeira aula destes resumos e veja o porquê. A sobre o que fazer para que ocorra uma redefinição do papel ideal do
Cultura, forjada no Trabalho, é a base da educação. Sendo um Estado, suficiente para superar os problemas indicados. O possível
processo e um produto social, a cultura é múltipla, dinâmica e consenso seria quanto ao que se deveria esperar de uma reforma
contraditória. É impossível controlar a cultura, embora os apocalípticos estatal: que ela permitisse ao Estado desenvolver a capacidade
livros de “Admirável Mundo Novo” (Huxley) e “1984” (Orwell) tentem por administrativa, no sentido de melhorar o desempenho público e a
vezes nos convencer do contrário. qualidade dos serviços dirigidos às necessidades públicas.
A Educação capitalista, portanto, vai gerar um tipo de escola que Bresser Pereira (2001), analisando as concepções e
possui características contraditórias: reproduz a ideologia dominante, perspectivas teóricas da reforma do Estado, presentes na literatura,
mas também é importante foco propagador de contra-ideologia. A luta destaca a heterogeneidade de respostas à questão de como reconstruir
de classes (sem trocadilho...) se dá dentro da escola, da mesma forma o Estado no sentido de melhor capacitá-lo a intervir e implementar as
que fora dela. A escola não é melhor nem pior que outras instâncias políticas econômicas, manter a ordem pública e oferecer serviços
sociais, é mais uma delas. O pensamento privatista existente na escola sociais com boa qualidade, e indica quatro principais abordagens
pública não a transforma em bem privado, mas acentua a dominação. teóricas da reforma do Estado: a neoliberal, a sociologia institucional, a
Isto é ruim. escolha racional e o modelo principal-agente, caracterizando-as.
Com o Neoliberalismo, a escola tende a ser cada vez mais Especificamente quanto ao caso brasileiro, Barreto (1999), a
“privatizada” em seus princípios e metas. A educação tende a partir de análise do Plano Diretor da Reforma do Aparelho do Estado,
direcionar-se para o mercado, não para a realização “do homem todo e indica a conjugação de quatro processos interdependentes, a saber: a
de todos os homens”. Tende a estabelecer para as pessoas, desde redefinição das funções do Estado, a redução de seu grau de
cedo, que devem sufocar seus sonhos em função dos ditames do interferência, o aumento da governança e da governabilidade.
mercado. Com o acirramento da competição, o aumento do
desemprego e a desvalorização das profissões desinteressantes ao O aparelho de Estado é entendido como compreendendo quatro
Capital, a escola tende a fechar-se em possibilidades e regras que setores de atuação:
muitas vezes violentam os quereres humanos. 1) o núcleo estratégico,
Tendência é direção, não é destino. A escola, portanto, não vai 2) as atividades exclusivas do Estado,
morrer em seu caráter público e democrático, simplesmente porque é
3) os serviços não-exclusivos do Estado e
humana. E porque a Cultura é ato humano. Isto não quer dizer que o
Estado Neoliberal não faça um enorme estrago na consciência das 4) a produção de bens para o mercado.
próximas gerações.
A atuação direta do governo fica restrita aos dois primeiros. Nos
Nas últimas três décadas do século XX ocorreram profundas dois últimos setores - entre os quais está a Educação-, o Estado tem
transformações no mundo, nos planos econômico, político, cultural e uma atuação indireta na sua promoção e financiamento, parcial ou
social. Uma das principais mudanças refere-se ao papel do Estado- totalmente.
Nação, que, na sociedade global, não só é redefinido, mas perde
Pode-se inferir, pelas características que Pereira indica e pelas
algumas de suas prerrogativas econômicas, políticas, culturais e
que Barreto descreve, que o processo de reforma do Estado que vem
sociais, debilitando-se. No Brasil, em especial a partir da década de 80,
sendo desenvolvido no Brasil volta-se para as características do
ocorre uma situação comumente designada como “crise do Estado”.
modelo neoliberal. Devido à prioridade que este modelo imprime à
Esta expressão é utilizada muitas vezes sob um falso consenso, questão econômica, as principais críticas que lhe são feitas referem-se
por reunir sob o mesmo título diversas crises simultâneas: às suas consequências no campo social. Mais especificamente, as
críticas voltam-se aos seus efeitos negativos sobre o Estado de Bem-
a) a fiscal, entendida como o excesso de gasto público social;
Estar Social.

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No Brasil, aquelas áreas tradicionalmente atendidas e Por meio desta breve caracterização do período abordado, da
consideradas como parte do Estado de Bem-Estar Social, entre as crise do Estado e seu processo de reforma, é possível identificar
quais a Educação, são diretamente afetadas pela crise. Segundo algumas de suas relações com a Educação, a partir de diretrizes
Azevedo (2000:17), a Educação no Brasil “se constitui como um setor estabelecidas e políticas implementadas. Todo esse processo e
que se tornou alvo das políticas públicas, em estreita articulação com relações são fomentadores de questionamentos diversos, por parte da
as características que moldaram o seu processo de modernização e comunidade acadêmica, gerando farto material sobre o tema. Porém,
desenvolvimento”. conforme o prisma sob o qual ele estiver sendo observado, a
perspectiva adotada para analisá-lo é diferente. Abre-se aqui a
Na década de 80 a ênfase passa a ser a eficiência do
possibilidade de análise sobre quais são e como se relacionam (se isso
funcionamento das instituições escolares e a qualidade de seus
ocorre) estas perspectivas.
resultados. É importante ressaltar a influência de organizações
internacionais no estabelecimento destas diretrizes, estabelecidas para
o aparelho de Estado como um todo, em seu processo de reforma.
EDUCAÇAO/SOCIEDADE E PRATICA ESCOLAR
Esta tendência permanece na década de 90, em que “... o
A crescente preocupação com educação corporativa exige que
Estado procurará imprimir maior racionalidade à gestão da educação
cada vez mais os responsáveis pela concepção, desenho e
pública, buscando cumprir seus objetivos, equacionar seus problemas e
implementação das ações e dos programas educacionais aprofundem
otimizar seus recursos, adotando em muitos casos o planejamento por
seus conhecimentos sobre educação e pedagogia. Sempre é oportuno
objetivos e metas”.
relembrar que:
A Educação passa por reformas em sua estrutura e orientações,
• Educação diz respeito à influência intencional e sistemática
destacando-se as seguintes:
sobre o ser humano, com o propósito de formá-lo e desen-
• redistribuição de recursos; volvê-lo em uma sociedade.

• descentralização da execução do gasto; • Pedagogia refere-se à reflexão sistemática sobre educa-
ção; é a reflexão sobre modelos, métodos e as técnicas de
• reforço da progressividade e redistributividade dos recur-
ensino.
sos;
Pode-se dizer que educação é prática e experiência, enquanto
• reequilíbrio regional da alocação;
que pedagogia é teoria e pensamento. Ao se analisar a relação entre
• descentralização; filosofia e educação, pode-se dizer que não há uma pedagogia que
• desconcentração dos recursos e funções; esteja isenta de pressupostos filosóficos.

• participações dos pais; Existem basicamente três grupos de entendimento do sentido da
educação na sociedade (Luckesi, 1994), que se revelam em três
• parcerias com a sociedade civil; tendências filosófico-políticas para compreender a prática educacional.
• modernização dos conteúdos; Filosóficas, porque compreendem o seu sentido; e políticas, porque
constituem um direcionamento para sua ação. São elas:
• diversificação das carreiras;

• criação de sistemas nacionais de capacitação docente; e
1. REDENTORA
• criação de um sistema nacional integrado de avaliações
educacionais. Concebe a sociedade como um conjunto de seres humanos que
vivem e sobrevivem num todo orgânico e harmonioso, com desvios de
Um outro elemento que surge, no contexto desse processo de
grupos e indivíduos que ficam à margem desse todo. Tem uma visão
reorganização, racionalização e incentivos às reformas, por parte do
“não-crítica” da sociedade; o que importa é integrar em sua estrutura
Estado, é a avaliação, que consiste em pré-requisito para a criação de
tanto os novos elementos (novas gerações), quanto os que se
mecanismos de controle e responsabilização mais sofisticados.
encontram à margem. A educação assume seu papel de manter o corpo
Pestana (2001) indica três razões principais para a eclosão de
social, promovendo a integração e adaptação dos indivíduos, através
investimentos e propostas na área de avaliação: a ênfase na qualidade,
da correção de seus desvios de comportamento.
as políticas de descentralização e a pressão sobre o Estado, cobrando-
se insumos para a melhor compreensão dos problemas existentes, para
o desenvolvimento de políticas mais adequadas, eficazes e eficientes, 2. REPRODUTORA
para a reorientação dos padrões de financiamento e de alocação de
recursos, e ainda para permitir uma maior visibilidade, para a Afirma que a educação faz parte da sociedade e a reproduz. A
população, quanto ao desempenho dessas políticas, ou seja, sua interpretação da educação como reprodutora da sociedade implica
prestação de contas. entendê-la como um elemento da própria sociedade, determinada por

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seus condicionantes econômicos, sociais e políticos. Esta segunda, vos colaboradores da empresa, novos parceiros, novos for-
além de ser crítica, é reprodutivista. Através da aprendizagem de necedores e público-externo em geral; adequada e neces-
alguns saberes, envolvidos na ideologia dominante, é que são sárias para todos aqueles (novos ou antigos) que apresen-
reproduzidas as relações do trabalho, as relações de poder e as tem baixo grau de alinhamento cultural.
relações sociais vigentes.
• Estratégia de Reprodução - fundamental nas ações e pro-
gramas educacionais dirigidos para os líderes e gestores
empresariais, e formadores de opinião, sejam membros in-
3. TRANSFORMADORA
ternos ou externos; deve enfatizar os traços culturais vigen-
Tem por perspectiva compreender a educação como mediação tes que são alavancadores do sucesso empresarial.
de um projeto social. Ela nem redime, nem reproduz a sociedade, mas
• Estratégia de Transformação - inicialmente deve ser utiliza-
serve de meio para realizar um projeto de sociedade. Propõe-se
da nas ações e programas educacionais para alta direção e
compreender a educação dentro de seus condicionantes e agir
lideranças empresariais, estimulando-os a identificar as
estrategicamente para sua transformação. Propõe-se desvendar e
discrepâncias de percepção entre cultura atual declarada e
utilizar-se das próprias contradições da sociedade, para trabalhar
a praticada na empresa (por exemplo: novos traços a se-
realística e criticamente pela sua transformação.
rem incorporados, atuais traços que deveriam ser abando-
Tenho enfatizado que a educação corporativa é um dos principais nados, barreiras que impedem a prática qualificada da cul-
veículos de consolidação e disseminação da cultura empresarial. Por tura empresarial desejada), para que seja possível formular
isso, a transposição das ideias apresentadas acima, para um Sistema um projeto de mudança e transformação rumo a uma nova
de Educação Corporativa, parece extremamente útil para aqueles cultura empresarial, que por sua vez fundamentará futuro
responsáveis pela concepção do programas educacionais, na medida processo de reeducação.
que permitem identificar com clareza como deverão ser trabalhados os
Paulo Freire foi um dos poucos pensadores da educação e da
aspectos relativos à cultura empresarial. Ou seja, será que através da
pedagogia que deu prioridade à área político-pedagógica, pensada no
educação corporativa pretende-se adaptar e integrar os indivíduos aos
âmbito das relações entre a História e a educação. Ele destacou a
valores e princípios da cultura vigente?
importância do papel interferente da subjetividade na História que, por
Ou pretende-se reproduzi-los e disseminá-los? Ou não, os si, já implica a requalificação do papel da educação. Assim ele via a
programas devem estimular uma leitura crítica da cultura e realidade educação:
empresarial, e favorecer a formação de uma nova mentalidade e modo
“(...) Como processo de conhecimento, formação, política,
de pensar, que estimule a mudança organizacional? Ou todas as
manifestação ética, procura da boniteza, capacitação científica e
anteriores, dependendo da situação e do público-alvo dos programas?
técnica... É prática indispensável aos seres humanos e deles específica
É inquestionável que alguns dos principais objetivos esperados na História como movimento, como luta. A História como possibilidade
com um Sistema de Educação Corporativa são: não prescinde da controvérsia, dos conflitos que, em si mesmos, já
• Conscientizar gestores e suas equipes sobre a importância engendrariam a necessidade da educação.” (Política e Educação: 1993,
de vivenciar e praticar a cultura empresarial, buscando p.14).
sempre o equilíbrio construtivo entre a necessidade de ga- As diversas teorias que explicam as origens da humanidade
rantir a prática dos princípios filosóficos corporativos bási- mostram vários caminhos pelos quais o homem chegou a elaborar sua
cos e as especificidades da realidade dos diferentes públi- capacidade de comunicação verbal.
cos envolvidos.
Durante o 1º ano de vida, o cérebro triplica de tamanho, com o
• Ser um instrumento de alinhamento entre a cultura empre- passar do tempo aumenta o número de sinapses e o desafio dos pais é
sarial e os colaboradores em todos os níveis, disseminan- manter essa rede de sinapses formadas. Sabemos que quando uma
do-a em toda a cadeia produtiva onde a empresa opera. habilidade não é utilizada a sinapse correspondente deixa de acontecer.
• Constituir-se em instrumento para promover e consolidar a Estimular é apresentar à criança situações novas com os quais ela
integração cultural. possa se relacionar ludicamente .

É fácil perceber que para cada um dos objetivos apontados É possível fazer novas conexões (sinapses) para o resto de
acima existem estratégias educacionais mais adequadas no que se nossas vidas, só que de uma forma mais difícil do que durante os
refere à dimensão cultural, embora não sejam necessariamente primeiros anos de formação.
excludentes. Mas de modo geral poderíamos classificá-las da seguinte Na verdade, todas as descobertas da ciência devem ser
forma: encaradas como instrumentos que ajudem a formar indivíduos
• Estratégia de Integração - deve ser aplicada principalmente equilibrados, com espírito crítico e aptos a lidar consigo e com o mundo
nas ações e programas educacionais voltados para os no-

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que os rodeia. Deve colaborar na construção da inteligência das A memória do indivíduo é estruturada em memória de curta
crianças. duração ou memória de trabalho e memória de longa duração.

Um ambiente rico e diverso, que estimula os cinco sentidos e o A aquisição de esquemas e a automação são os fatores
aspecto emocional, é fundamental na tarefa de estimulação. principais no desempenho de habilidades e na aprendizagem, porém o
ensino raramente é estruturado tendo isto em mente.
A teoria construtiva de Jean Piaget baseia-se na premissa de que
a inteligência é construída a partir das relações recíprocas do homem Segundo Gardner em sua teoria de inteligências múltiplas, o
com o meio. cerne da teoria é a valorização das diferenças individuais. Gardner
chama de inteligência muitas outras competências além da lógica,
Existem dentro de teorias de aprendizagem os aprioristas que
matemática e a linguística, medidas pelos testes de QI. Para ele há
acreditavam que a origem do conhecimento está no próprio sujeito e os
pelo menos mais cinco: musical, espacial, corporal, sinestésica,
empiristas que acreditavam que as bases do conhecimento estão nos
interpessoal e intrapessoal.
objetos.
O conhecimento é a representação mental da experiência
As teorias de Piaget fundem esses 2 paradigmas e têm 3
adquirida, normalmente registrado na memória através das impressões
conceitos fundamentais: interação/assimilação e acomodação.
emitidas pelo corpo associados ao processo cognitivo ocorrido no
O construtivismo é um novo modo de ver o universo, a vida e o cérebro. São imagens mentais ligadas intrinsecamente à sensações,
mundo das relações sociais. emoções e sentimentos, que, quando revividos ativam todo complexo
A busca de novos meios é parte do processo de tomada de relativo aquela experiência.
consciência. A Noção de “rede” gerada pelo emaranhado de neurônios é
A inteligência no seu conjunto é que estrutura as formas de semelhante à rede virtual da Internet.
representação (Piaget). A 4ª geração da Educação está baseada no computador e
A linguagem e a função semiótica permitem a comunicação. fundamentada nas teorias construtivistas da aprendizagem.

O universo da representação não é formado exclusivamente de A combinação visual/sonora da informação estimula a
objetos, mas também de sujeitos. aprendizagem construtivista pelas alterações da dinâmica da memória.

Segundo Piaget as interações sociais se desenvolvem em torno A aprendizagem cooperativa envolve problemas, para
e partir das relações entre 3 aspectos: as normas, a estrutura de vida desenvolver novos hábitos de cooperação e de comunicação,
social, os valores e os sinais. As interações podem ocorrer na forma de mudanças culturais e novas estratégias cognitivas.
coação, autonomia ou anomia. A cognição é anterior ao conjunto de formas simbólicas. A
As relações cooperativas implicam em 3 condições inerentes nos atividade cognitiva representa sons especificamente humanos de
processos operatórios: inteligência como a inteligência pré-verbal e a interiorização da imitação
em representações.
1º) Os interlocutores estejam de posse de uma escala comum de
valores. Com o desenvolvimento da tecnologia foram criados novos
ambientes de aprendizagem nas escolas.
2º) Igualdade geral dos valores.
É também nas escolas que as crianças aprimoram sua
3º) Possibilidade de retornar às validades reconhecidas desenvoltura, social e intelectual.
anteriormente.
Os cenários educacionais baseados em hipertecnologias
Segundo Morgan C. T. a aprendizagem apresenta 2 tipos representam experiências cooperativas.
básicos: o condicionamento clássico e o condicionamento operante.
O construtivismo foi um movimento determinante na história da
A capacidade para aprender depende do aprendiz, do método de cultura, cujo legado se faz sentir até hoje.
aprendizagem e do tipo de material utilizado para a aprendizagem.
O construtivismo refletia as alterações provocadas pela
O aprendiz depende do nível de inteligência, de idade, do Revolução Industrial na vida cotidiana e artística. Hoje sentimos e
estímulo e ansiedade e de transferência de aprendizagem anterior. falamos em construtivismo, assunto em voga na vida cultural porque
As estratégias de aprendizagem envolvem o dilema: prática assistimos a transformação profunda da sociedade por efeito da
maciça x espaçada; feedbacks, aprendizagem de todo ou interferência das novas tecnologias em nosso modo de viver: a
aprendizagem de partes e os programas de aprendizagem. revolução eletrônica que se opera sobre a era industrial nessa
passagem para o terceiro milênio.
O material de aprendizagem tem que apresentar: distinção
perceptiva, significado associativo, semelhanças conceituais, hierarquia Os processos de assimilação da realidade são adaptados ao
conceitual, hierarquia associativa. ambiente com o qual o indivíduo interage.

Professor Pedagogo 5 A Opção Certa Para a Sua Realização
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A ideia de que o hipertexto se constitui em ambiente que reúne RELAÇÃO EDUCAÇÃO E SOCIEDADE
as condições necessárias e suficientes à estrutura do conhecimento é
A educação, para os clássicos como Durkheim, expressa uma
relativizada por vários autores.
doutrina pedagógica, que se apóia na concepção do homem e
O hipertexto na opinião de alguns autores seria mais importante sociedade. O processo educacional emerge através da família, igreja,
para os que elaboram e realizam o projeto do que para os alunos. escola e comunidade.

O primeiro plano de interação pelo ambiente hipertextual é o Fundamentalmente, Durkheim parte do ponto de vista que o
relativo às relações sujeito-objeto que se expressam no uso de homem é egoísta, que necessita ser preparado para sua vida na
ferramentas individuais e cooperativas de editoração. sociedade. Este processo é mediatizado pela família e também pelas
escolas e universidades:
Os mapas conceituais são representações gráficas semelhantes
a diagramas, que indicam relações entre conceitos ligados por A ação exercida pelas gerações adultas sobre as que ainda não
palavras. Os mapas conceituais podem ser descritos sob diversas estãomaduras para a vida social, tem por objetivo suscitar e
formas: perspectiva abstrata, perspectiva de visualização, perspectiva desenvolver na criança determinados números de estados físicos,
de conversação. intelectuais e morais que dele reclamam, por um lado, a sociedade
política em seu conjunto, e por outro, o meio especifico ao qual está
Os mapas conceituais podem ser úteis para a elaboração do
destinado. (DURKHEIM, 1973:44)
material didático em hipermídia. Os mapas conceituais se destinam a
hierarquização e a organização. Para Durkheim, o objeto da sociologia é o fato social, e a
educação é considerada como o fato social, isto é, se impõe,
A educação do século XXI deverá preparar os alunos para se
coercitivamente, como uma norma jurídica ou como uma lei. Desta
integrarem em uma economia globalizada, baseada em conhecimento,
maneira a ação educativa permitirá uma maior integração do indivíduo
no qual o conhecimento será o recurso mais crítico para o
e também permitirá uma forte identificação com o sistema social.
desenvolvimento social e econômico.
Durkheim rejeita a posição psicologista. Para ele, os conteúdos
O aluno deverá “aprender a aprender”.
da educação são independentes das vontades individuais, são as
Existem três elementos fundamentais para o sucesso do ensino normas e os valores desenvolvidos por uma sociedade o grupo social
à distância: projeto, tecnologia e suporte. em determinados momentos históricos, que adquirem certa
A primeira forma de ensino à distância foram os cursos por generalidade e com isso uma natureza própria, tornando-se assim
correspondência. Atualmente vídeo e tecnologias computacionais são “coisas exteriores aos indivíduos”:
os meios mais empregados. A criança só pode conhecer o dever através de seus pais e
Existe o Netmeeting que são ambientes de aprendizagem que mestres. É preciso que estes sejam para ela a encarnação e a
proporcionam encontros virtuais entre usuários o sistema. personificação do dever. Isto é, que a autoridade moral seja a qualidade
fundamental do educador. A autoridade não é violenta, ela consiste em
Em um processo de educação construtivista a avaliação é um certa ascendência moral. Liberdade e autoridade não são termos
elemento indispensável para a reorientação dos desvios ocorridos excludentes, eles se implicam. A liberdade é filha da autoridade
durante o processo e para gerar novos desafios ao aprendiz. bem compreendida. Pois, ser livre não consiste em fazer
Segundo Rodrigues avaliar é verificar como o conhecimento está aquilo que se tem vontade, e sim em se ser dono de si próprio, em
se incorporando no educando, e como modificar a sua compreensão de saber agir segundo a razão e cumprir com o dever. E justamente a
mundo e elevar sua capacidade de participar onde está vivendo. autoridade de mestre deve ser empregada em dotar a criança desse
domínio sobre si mesma (DURKHEIM, 1973:47).
Nos ambientes construtivistas destacam-se a observação, a
testagem e a auto-avaliação como as principais técnicas de avaliação. Talcott Parsons (1964), sociólogo americano, divulgador da obra
de Durkheim, observa que a educação, entendida como socialização, é
Nos ambientes construtivistas virtuais, as técnicas de avaliação
o mecanismo básico de constituição dos sistemas sociais e de
são as mesmas.
manutenção e perpetuação dos mesmos, em formas de sociedades, e
Nos últimos anos houve uma mudança significativa na pirâmide destaca que sem a socialização, o sistema social é ineficaz de manter-
populacional brasileira. O Brasil deixou de ser um país apenas de se integrado, de preservar sua ordem, seu equilíbrio e conservar seus
jovens. O envelhecimento da população brasileira é um fato. limites.

Pretendo viver bastante e com qualidade; o que será que vou O equilíbrio é o fator fundamental do sistema social e para que
encontrar daqui a alguns anos? este sobreviva é necessário que os indivíduos que nele ingressam
assimilem e internalizem os valores e as normas que regem seu
A sala de aula tradicional behavionista?
funcionamento.
A sala de aula construtivista.?

Professor Pedagogo 6 A Opção Certa Para a Sua Realização
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Aqui encontramos uma primeira diferença com o pensamento de Segundo Dewey, educação e democracia formam parte de uma
Durkheim, que destaca sempre o aspecto coercitivo da sociedade totalidade, definem a democracia com palavras liberais, onde os
frente ao indivíduo. Parsons afirma que é necessário uma indivíduos deveriam ter chances iguais. Em outras palavras, igualdade
complementação do sistema social e do sistema de personalidade, de oportunidades dentro dum universo social de diferenças individuais.
ambos sistemas tem necessidades básicas que podem ser resolvidas
Para Mannheim, a educação é uma técnica social, que tem como
de forma complementar.
finalidade controlar a natureza e a historia do homem e a sociedade,
O sistema social para Parsons funciona harmonicamente a partir desde uma perspectiva democrática. Define a educação como:
do equilíbrio do sistema de personalidade. A criança aceita o marco
O processo de socialização dos indivíduos para uma
normativo do sistema social em troca do amor e carinho maternos.
sociedade harmoniosa, democrática porem controlada,
Este processo se desenvolve através de mediações primarias: planejada, mantida pelos próprios indivíduos que a compõe. A pesquisa
os próprios pais através da internalização de normas, inicia o processo é uma das técnicas sociais necessárias para que se conheçam as
de socialização primaria. A criança não percebe que as necessidades constelações históricas especificas. O planejamento é a intervenção
do sistema social estão se tornando suas próprias necessidades. Desta racional, controlada nessas constelações para corrigir suas distorções e
maneira, para Parsons, o indivíduo é funcional para o sistema social. seus defeitos. O instrumento que por excelência põe em pratica os
Tanto para Durkheim como para Parsons, os princípios básicos que planos desenvolvidos é a Educação. (MANNHEIM, 1971:34)
fundamentam e regem ao sistema social são:
A prática da socialização percorre diversos espaços, como
- continuidade família e outros grupos primários, a escola, clubes, sindicatos, etc.

- conservação Assim, a pratica democrática emerge horizontalmente permitindo
a estruturação duma sociedade igualitária. Concorda com Dewey que
- ordem
essa prática deveria ser institucionalizada.
- harmonia
Os alunos, a escola e a sociedade
- equilíbrio
O que querem os alunos?
Estes princípios regem tanto no sistema social, como nos
Que oportunidades se lhes apresentam na sociedade em
subsistemas.
mudança?
De acordo com Durkheim bem como Parsons, a educação não é
O que quer a sociedade?
um elemento para a mudança social, e sim , pelo contrario, é um
elemento fundamental para a “conservação” e funcionamento do Como os jovens se comportam frente às mudanças?
sistema social.
A pesquisa “Estudos Sociodemográficos sobre a Juventude
Uma corrente oposta a Durkheim y Parsons estaria constituída Paulista” , da Fundação SEADE, responde em boa parte à questão. O
pela obra de Dewey e Mannheim. O ponto de partida de ambos que diz? Vejamos.
autores é que a educação constitui um mecanismo dinamizador das
Os adolescentes dizem, na maioria dos casos, que desejam
sociedades através de um indivíduo que promove mudanças.
trabalhar para ajudar financeiramente a família, pelo desejo de
O processo educacional para Dewey e Mannheim, possibilita ao autonomia financeira e para adquirir experiência profissional. A família
indivíduo atuar na sociedade sem reproduzir experiências anteriores, apóia esta decisão, porque atribui ao trabalho um valor ético e protetor.
acriticamente. Pelo contrario, elas serão avaliadas criticamente , com o
No entanto, no período compreendido entre 1986 e 1996, a taxa
objetivo de modificar seu comportamento e desta maneira produzir
de ocupação dos adolescentes diminuiu cerca de 20%. Um dos fatores
mudanças sociais.
que favorece a inclusão no mercado de trabalho é o nível educacional.
É muito conhecida e difundida no Brasil a obra de Dewey, razão Se as chances de inserção no mercado de trabalho dos jovens e
pela qual não a aprofundaremos em detalhes. Entretanto, é necessário adolescentes na Região Metropolitana da Grande São Paulo
assinalar que para Dewey é impossível separar a educação do mundo diminuíram, entre 86 e 96, o atributo escolaridade tornou-se um critério
da vida: para obtenção de um emprego ou ocupação, mas não uma garantia.

A educação não é preparação nem conformidade. Educação é Se o atributo escolaridade passa a fazer diferença, qual
vida, é viver, é desenvolver, é crescer. (DEWEY, 1971:29). escolaridade faz mais diferença, se tomarmos como parâmetro as
mudanças na organização do trabalho, em função dos avanços
Para Dewey, a escola é definida como uma micro-
tecnológicos? Como organizar a aprendizagem para que os alunos
comunidade democrática. Seria o esboço da “socialização
ganhem melhores condições de inserção na sociedade e no trabalho?
democrática”, ponto de partida para reforçar a democratização da
Esta é a nossa questão.
sociedade.

Professor Pedagogo 7 A Opção Certa Para a Sua Realização
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Há um outro dado importante a considerar: o país e, em especial, POLÍTICAS PÚBLICAS DA EDUCAÇÃO NO BRASIL.
o estado de São Paulo, entram no século XXI “com a maior população FUNDAMENTOS E CONCEPÇÕES DE GESTÃO E DIFERENTES
juvenil de sua história demográfica.” Este contingente jovem é o mais FORMAS DE ESTRUTURAÇÃO NA ORGANIZAÇÃO DA ESCOLA.
sensível e vulnerável às mudanças e se vê frequentemente excluído,
A educação nunca deixou de ser a via e o caminho da marcha e
inclusive na esfera educacional, tendo em vista a insuficiência e a
crescimento da espécie humana. Afinal, a evolução do homem, se em
inadequação do que lhe é oferecido face às exigências sociais.
parte foi biológica, somente se efetivou com o imenso esforço histórico-
“ A dificuldade de acesso ao trabalho dos jovens se agrava nos social que o trouxe até as alturas do presente desenvolvimento
grupos de menos escolaridade e agrava a exclusão , dado que sem científico e cultural. E todo aquele processo histórico pode, em rigor, ser
emprego não se tem rendimento próprio nem condições de vivenciar a considerado resultado do intercurso entre a condição humana e a
própria juventude, o que impede que se desenvolva a necessária educação.
motivação para elaborar projetos de futuro”. (Madeira,Felicia/20 anos
Mas uma coisa é tal processo espontâneo e mais ou menos
no ano 2000, p.9).
inconsciente do desenvolvimento do homem, e outra o projeto
consciente de conquista do saber e de sua aplicação à vista.
Os depoimentos não surpreendem; as análises sobre os Este projeto nunca foi geral nem abrangeu toda a espécie.
problemas da juventude no mundo, talvez. Subordinado à estrutura hierárquica da sociedade, foi, desde seu início
Diz Castells: “ a rebeldia dos jovens de antigamente era uma na remota. Antiguidade, projeto especial para a educação dos poucos
atitude dinâmica sem a qual não haveria mudança social possível, mas privilegiados, que realmente dominavam a espécie e detinham o poder.
o que se observa, atualmente, é uma dissonância cognitiva entre o que Daí a relação, inerente e intrínseca, entre educação e política.
os jovens sentem e os valores e as mensagens que a sociedade lhes
A criação de políticas educacionais nacionais deve ser prioridade
transmite. É importante definir o conteúdo e o sentimento dessa cultura
de qualquer governo comprometido com o desenvolvimento da
juvenil, particularmente dos jovens das camadas populares mais
sociedade brasileira, pois, com certeza, programas e ações isoladas
pobres.”
não poderão produzir resultados na escala demandada pelo país.
O desafio é, sem dúvida, muito grande. A definição desse Nesse sentido uma política interessante seria a análise e replicação das
conteúdo e da cultura juvenil é mais uma questão que nos diz respeito ações que já apresentam sucesso em seus objetivos.
e deve se fazer por meio das observações em cada unidade escolar,
A POLÍTICA DA EDUCAÇÃO DE TODOS
das relações entre professores e alunos, das relações entre os alunos.
Isso significa dizer que não há uma perspectiva pronta, que deva Afinal, contudo, nas alturas do século XVIII, amadureceu a
explicar como são os jovens que estão em cada escola e como possibilidade, e com ela a ideia e disposição, de oferecer a educação a
abordá-los. todos. Algumas nações, então, generalizaram a escola para todos,
esforço em que agora se debatem as nações subdesenvolvidas.
Os estudos realizados sobre a juventude permitem uma reflexão
inicial, mas é preciso verificar de que ponto de vista estão falando, que O problema crítico desse período de generalização da escola foi
recortes fazem ao abordar a questão. Muitos desses estudos o da quantidade e número das escolas, sendo relativamente secundário
preocupam-se com a violência ou com o uso de drogas: são o problema do processo de ensino e de sua qualidade. Atingida que foi
reveladores de uma situação cotidiana, valiosos conhecimentos, mas a expansão da escola para todos, a preocupação pelo processo do
não dão conta de todas as demais questões e nem se propuseram a ensino tomou vulto e podemos considerá-lo dominante a partir da 2ª
tal. Precisamos de uma escola que possa responder, também, a outras metade do século passado.
perguntas.É possível “reinventar” a escola e transformá-la em um
No começo deste século, ocorreu mudança significativa: o puro e
espaço de jovens e para jovens? É possível construir essa escola,
simples processo de transmissão do conhecimento e da herança
garantindo uma qualidade diferenciada de aprendizagem? Que
cultural às crianças e aos jovens, com atenção apenas ao corpo de
características apresenta essa escola?
conhecimentos, hábitos e atitudes do passado, a serem inculcados pela
Certamente é possível, por mais que já tenhamos inventado. Que endoutrinação - foi considerado insuficiente e inadequado, e o problema
ninguém nos negue o esforço e a vontade de mudar. Mas, como? da criança, do aluno, surgiu, vindo a se fazer central em nosso século.
Já não era só a quantidade de escolas, já não era só o problema de
A nova proposta, expressa nas Diretrizes e Parâmetros
organizar e melhorar o conteúdo do ensino fundado no passado; já
Curriculares para o Ensino Médio, aponta direções. Não deve ser
agora, o importante é o estudo da criança e de seus problemas e a
tomada como uma proposta fechada, mas como uma orientação para a
descoberta do melhor método de acompanhar-lhe o crescimento e a
elaboração da política de escola, consideradas a história, a experiência
aquisição da cultura de seu tempo e de seu presente e futuro.
e as peculiaridades.
POLÍTICAS EDUCACIONAIS

Professor Pedagogo 8 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
A conjuntura das políticas educacionais no Brasil ainda conclusão, do ponto de vista marxista, de que a estrutura social
demonstra sua centralidade na hegemonia das ideias liberais sobre a dominante constitui “aparelhos ideológicos” em forma de
sociedade, como reflexo do forte avanço do capital sobre a organização superestrutura, mantendo a opressão. Segundo Louís Althusser a
dos trabalhadores na década de 90. A intervenção de mecanismos escola é o principal aparelho ideológico da sociedade e, em seu
internacionais como o FMI e o Banco Mundial, aliada à subserviência entendimento, como a estrutura determina a superestrutura, não é
do governo brasileiro à economia mundial, repercute de maneira possível qualquer mudança social a partir da educação. Moacir Gadotti
decisiva sobre a educação. considera a posição de Althusser bastante equivocada do ponto de
vista da emancipação humana, pois gera uma situação de passividade
Em contrapartida, a crise do capitalismo em nível mundial, em
e impotência, o que revela um caráter ideológico de sua própria teoria,
especial do pensamento neoliberal, revela, cada vez mais, as
já que “a subserviência da omissão interessa mais à dominação do que
contradições e limites da estrutura dominante. A estratégia liberal
o combate a favor dela”. Para Gadotti, “se aceitarmos a análise de
continua a mesma: colocar a educação como prioridade, apresentando-
Althusser, certamente a educação enquanto sistema ou subsistema é
a como alternativa de “ascensão social” e de “democratização das
um aparelho ideológico em qualquer sistema político. Mas se
oportunidades”. Por outro lado, a escola continua sendo um espaço
aceitarmos que ela é também ato, práxis, então as coisas se
com grande potencial de reflexão crítica da realidade, com incidência
complicam. Não podemos reduzir a educação, a complexidade do
sobre a cultura das pessoas. O ato educativo contribui na acumulação
fenômeno educativo apenas às suas ligações com o sistema”.
subjetiva de forças contrárias à dominação, apesar da exclusão social,
característica do descaso com as políticas públicas na maioria dos De certa forma, Gramsci é que dá um novo rumo ao conceito de
governos. ideologia e, com isso, fornece valiosas contribuições para a construção
da educação voltada para a transformação social. Um dos conceitos
O propósito do presente texto é apresentar, em síntese, as
fundamentais adotados por Gramsci é o de hegemonia que, segundo
principais características da educação no contexto neoliberal do Brasil,
ele, se dá por consenso e/ou coerção. Na sociedade dividida em
numa tentativa de contribuir com o debate de conjuntura acerca das
classes, temos uma constante luta pela hegemonia política e a
políticas educacionais. Neste sentido, iniciamos a discussão com uma
ideologia assume o caráter de convencimento, o primeiro recurso
breve reflexão sobre a ideologia na educação, para, em seguida,
utilizado para a dominação. Do ponto de vista dos oprimidos, o embate
apresentar a dimensão da crise do capitalismo e do pensamento liberal,
ideológico contra a hegemonia burguesa se dá em todos os espaços
concluindo com as principais políticas oficiais que vêm sendo propostas
em que esta se reproduz, como por exemplo, a escola. Temos então,
para a educação.
uma luta de posição na escola, colocando a política, luta pelo poder,
1. A IDEOLOGIA E A EDUCAÇÃO como o centro da ação pedagógica.
A relação da ideologia com a educação foi bastante polêmica ao A educação, portanto, é um espaço social de disputa da
longo da história. Embora o termo tenha sido primeiramente utilizado hegemonia; é uma prática social construída a partir das relações sociais
em 1801, é com o advento do marxismo que a ideologia assume uma que vão sendo estabelecidas; é uma “contra-ideologia”. Nesta
maior importância para o pensamento humano. Conforme Marilena perspectiva, é importante situar a posição do educador na sociedade,
Chauí, o marxismo entende a ideologia como “um instrumento de contribuindo para manter a opressão ou se colocando em
dominação de classe e, como tal, sua origem é a existência da divisão contraposição à ela. Se o educador é um trabalhador em educação,
da sociedade em classes contraditórias e em luta”. Além disso, a parece coerente que este seja aliado das lutas dos trabalhadores
utilização do termo confunde-se com o significado de crenças e ilusões enquanto classe, visto que as suas conquistas sociais, aparentemente
que se incorporam no senso comum das pessoas. “A ideologia é ilusão, mais imediatas, também dependem de vitórias maiores no campo
isto é, abstração e inversão da realidade, ela permanece sempre no social. Nessa perspectiva, é coerente que a posição do educador seja
plano imediato do aparecer social. (...) A aparência social não é algo em favor dos oprimidos, não por uma questão de caridade, mas de
falso e errado, mas é o modo como o processo social aparece para a identidade de classe, já que a luta maior é a mesma. Qual é a função
consciência direta dos homens”. do educador como intelectual comprometido com a transformação
Diferente da maioria dos marxistas, para os quais a ideologia social?
consiste na expressão de interesses de uma classe social, para Karl Gramsci afirma que o povo sente, mas nem sempre compreende
Manheim o que define a ideologia é o seu poder de persuasão, sua e sabe; o intelectual sabe, mas nem sempre compreende e muito
“capacidade de controlar e dirigir o comportamento dos homens”. menos sente. Por isso, o trabalho intelectual é similar a um cimento, a
Nicola Abagnano, reforça a teoria de Manheim dizendo que “o que partir do qual as pessoas se unem em grupos e constroem alternativas
transforma uma crença em ideologia não é sua validade ou falta de de mudança. Mas isso não é nada fácil: assumir a condição de
validade, mas unicamente sua capacidade de controlar os intelectuais orgânicos dos trabalhadores significa lutar contra o contexto
comportamentos em determinada situação”. dominante que se apresenta e visualizar perspectivas de superação
A compreensão de ideologia como expressão de interesses e coletiva sem exclusão. Entender bem a realidade parece ser o primeiro
“falsificação da realidade” com vistas ao controle social, permite a

Professor Pedagogo 9 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
passo no desafio da construção de uma nova pesrpectiva social. Que Há uma clara incompatibilidade entre a ordem burguesa e a
realidade é essa que se apresenta para a educação? noção de progresso civilizatório.

2. A CRISE DO CAPITALISMO E DA IDEOLOGIA LIBERAL De maneira mais conjuntural as principais características são as
seguintes:
O atual contexto traz algumas novidades e um conjunto de
elementos já presentes há muito tempo no capitalismo, ambos tentando a) crise do trabalho assalariado, com acentuada precarização
se articular coerentemente, embora as contradições estejam cada vez nas relações de trabalho;
mais explícitas. Em termos de estrutura social, vigora a manutenção da
b) mito da irreversibilidade da globalização, com forte carga
sociedade burguesa, com suas características básicas:
de fatalismo;
a) trabalho como mercadoria;
c) mundo unitário sem identidade, trazendo à tona a fragmen-
b) propriedade privada; tação, também no que se refere ao conhecimento;

c) controle do excedente econômico; d) retorno de “velhas utopias”, principalmente na política, eco-
nomia e religião;
d) mercado como centro da sociedade;
e) despolitização das relações sociais;
e) apartheid, exclusão da maioria;
f) acento na competitividade com a perspectiva de que al-
f) escola dividida para cada tipo social.
guns se salvam já que não dá para todos.
Porém, a novidade, em termos estruturais, é que a ordem
Nessa realidade está inserida a educação, como um espaço de
burguesa está sem alternativa, ou seja, o capitalismo prova sua
disputa de projetos antagônicos: liberal X democrático-popular. Por um
ineficácia generalizada e a crise apresentada revela seu caráter
lado, o caos da ditadura do mercado como regulador das relações
endógeno, ou seja, o capitalismo demonstra explicitamente ser o
humanas e, por outro, a tentativa de manter a democracia como valor
gerador de seus próprios problemas. Se o mercado é a causa da crise
universal e a solidariedade como base da utopia socialista.
e se boa parte das soluções apresentadas para enfrentar esta crise
prevê a ampliação do espaço do mercado na sociedade, a tendência é 3. A EDUCAÇÃO NEOLIBERAL
que os problemas sejam agravados.
Do ponto de vista liberal, a educação ocupa um lugar central na
O fracasso do capitalismo se comprova internamente, sociedade e, por isso, precisa ser incentivada. De acordo com o Banco
principalmente nos países mais pobres. Além disso, o auge do Mundial são duas as tarefas relevantes ao capital que estão colocadas
neoliberalismo da década de 90 mostra suas limitações e começa a ser para a educação:
rejeitado em todo o mundo. Entretanto, os neoliberais, embora a
a) ampliar o mercado consumidor, apostando na educação
maioria não se assuma como tal, usam a estratégia de atacar quem se
como geradora de trabalho, consumo e cidadania (incluir
propõe a explicitar o que ficou evidente: “Além do ataque à esquerda,
mais pessoas como consumidoras);
como que responsabilizando os outros pelo seu próprio fracasso,
alguns liberais têm se manifestado através de artigos na imprensa, b) gerar estabilidade política nos países com a subordinação
afirmando que as pessoas ‘de forma pobre e maniqueista culpam o dos processos educativos aos interesses da reprodução
neoliberalismo e o FMI pela miséria brasileira’. Ora, será que a culpa das relações sociais capitalistas (garantir governabilidade).
seria do PT, da CUT, do MST, da intelectualidade e do povo brasileiro?” Para quem duvida da priorização da educação no países pobres,
Nem mesmo crescimento econômico, suposta virtude da qual os observe o seguinte trecho do vice-presidente do Banco Mundial: “Para
intelectuais burgueses ainda se vangloriavam, o capitalismo consegue nós, não há maior prioridade na América Latina do que a educação.
proporcionar. Conforme o economista João Machado, a economia entre 1987 e 1992 nosso programa anual de empréstimos para a
mundial que se mantinha num crescimento de 4% na década de 60, educação na América Latina e o Caribe aumentou de 85 para 780
chegou ao final da década de 90 com apenas 1%. milhões de dólares, e antecipamos outro aumento para 1000 milhões
em 1994”. Porém, não vamos nos iludir pensando que a grande tarefa
O custo social, por sua vez, é catastrófico:
dos mecanismos internacionais a serviço do capital é financiar a
a) a diferença entre países ricos e pobres têm aumentado em educação. Conforme análise de Sérgio Haddad, o principal meio de
110 vezes, desde a 2ª. Guerra Mundial até a década de 90; intervenção é a pressão sobre países devedores e a imposição de suas
“assessorias”: “A contribuição mais importante do Banco Mundial deve
b) aumenta consideravelmente a distância entre ricos e po-
ser seu trabalho de assessoria, concebido para ajudar os governos a
bres dentro dos países;
desenvolver políticas educativas adequadas às especificidades de seus
c) a crise ecológica vem sendo agravada, com a poluição das países. (...) O Banco Mundial é a principal fonte de assessoramento da
águas e diversos recursos naturais essenciais à produção. política educativa, e outras agências seguem cada vez mais sua
liderança”.

Professor Pedagogo 10 A Opção Certa Para a Sua Realização
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É evidente que a preocupação do capital não é gratuita. Existe a) diminuição da arrecadação (através de isenções, incentivos,
uma coerência do discurso liberal sobre a educação no sentido de sonegação...);
entendê-la como “definidora da competitividade entre as nações” e por
b) não aplicação dos recursos e descumprimento de leis;
se constituir numa condição de empregabilidade em períodos de crise
econômica. Como para os liberais está dado o fato de que todos não 2- Prioridade no Ensino Fundamental, como responsabilidade
conseguirão “vencer”, importa então impregnar a cultura do povo com a dos Estados e Municípios (a Educação Infantil é delegada aos
ideologia da competição e valorizar os poucos que conseguem se municípios);
adaptar à lógica excludente, o que é considerado um “incentivo à livre 3 - O rápido e barato é apresentado como critério de eficiência;
iniciativa e ao desenvolvimento da criatividade”. Mas, e o que fazer
com os “perdedores”? Conforme o Prof. Roberto Lehrer (UFRJ), o 4 - Formação menos abrangente e mais profissionalizante;
próprio Banco Mundial tem declarado explicitamente que “as pessoas 5 – A maior marca da subordinação profissionalizante é a reforma
pobres precisam ser ajudadas, senão ficarão zangadas” . Essa do ensino médio e profissionalizante;
interpretação é precisa com o que o próprio Banco têm apresentado
6- Privatização do ensino;
oficialmente como preocupação nos países pobres: “a pobreza urbana
será o problema mais importante e mais explosivo do próximo século 7- Municipalização e “escolarização” do ensino, com o Estado
do ponto de vista político”. repassando adiante sua responsabilidade (os custos são repassados às
prefeituras e às próprias escolas);
Os reflexos diretos esperados pelo grande capital a partir de sua
intervenção nas políticas educacionais dos países pobres, em linhas 8- Aceleração da aprovação para desocupar vagas, tendo o
gerais, são os seguintes: agravante da menor qualidade;

a) garantir governabilidade (condições para o desenvolvimen- 9- Aumento de matrículas, como jogo de marketing (são feitas
to dos negócios) e segurança países “perdedores”; apenas mais inscrições, pois não há estrutura efetiva para novas
vagas);
b) quebrar a inércia que mantém o atraso nos países do cha-
mado “Terceiro Mundo”; 10- A sociedade civil deve adotar os “órfãos” do Estado (por
exemplo, o programa “Amigos da Escola”). Se as pessoas não tiverem
c) construir um caráter internacionalista das políticas públicas
acesso à escola a culpa é colocada na sociedade que “não se
com a ação direta e o controle dos Estados Unidos;
organizou”, isentando, assim, o governo de sua responsabilidade com a
d) estabelecer um corte significativo na produção do conheci- educação;
mento nesses países;
11- O Ensino Médio dividido entre educação regular e
e) incentivar a exclusão de disciplinas científicas, priorizando profissionalizante, com a tendência de priorizar este último: “mais
o ensino elementar e profissionalizante. ‘mão-de-obra’ e menos consciência crítica”;.
Mas, é evidente que parte do resultado esperado por parte de 12- A autonomia é apenas administrativa. As avaliações, livros
quem encaminha as políticas educacionais de forma global fica didáticos, currículos, programas, conteúdos, cursos de formação,
frustrada por que sua eficácia depende muito da aceitação ou não de critérios de “controle” e fiscalização, continuam dirigidos e
lideranças políticas locais e, principalmente, dos educadores. A centralizados. Mas, no que se refere à parte financeira (como infra-
interferência de oposições locais ao projeto neoliberal na educação é o estrutura, merenda, transporte), passa a ser descentralizada;
que de mais decisivo se possui na atual conjuntura em termos de
13- Produtividade e eficiência empresarial (máximo resultado
resistência e, se a crítica for consistente, este será um passo
com o menor custo): não interessa o conhecimento crítico;
significativo em direção à construção de um outro rumo, apesar do
“massacre ideológico” a que os trabalhadores têm sido submetidos 14- Nova linguagem, com a utilização de termos neoliberais na
durante a última década. educação;

Em função dessa conjuntura política desfavorável, podemos 15 - Modismo da qualidade total (no estilo das empresas
afirmar que, em termos genéricos, as maiores alterações que privadas) na escola pública, a partir de 1980;
ultimamente tem sido previstas estão chegando às escolas e, muitas
16- Os PCNs (Parâmetros Curriculares Nacionais) são ambíguos
vezes, tem sido aceitas sem maiores discussões a seu respeito,
(possuem 2 visões contraditórias), pois se, por um lado, aparece uma
impedindo uma efetiva contraposição. Por isso, vamos apresentar, em
preocupação com as questões sociais, com a presença dos temas
grandes eixos, o que mais claramente podemos apontar como
transversais como proposta pedagógica e a participação de intelectuais
consequências do neoliberalismo na educação:
progressistas, por outro, há todo um caráter de adequação ao sistema
1- Menos recursos, por dois motivos principais: de qualidade total e a retirada do Estado. É importante recordar que os
PCNs surgiram já no início do 1º. mandato de FHC, quando foi reunido
um grupo de intelectuais da Espanha, Chile, Argentina, Bolívia e outros

Professor Pedagogo 11 A Opção Certa Para a Sua Realização
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países que já tinham realizado suas reformas neoliberais, para iniciar da vida humana, debruçada sobre o futuro e embaraçada e aflita com
esse processo no Brasil. A parte considerada progressista não funciona, as perplexidades e prospectos do presente.
já que a proposta não vem acompanhada de políticas que assegurem
sua efetiva implantação, ficando na dependência das instâncias da
sociedade civil e dos próprios professores. A SITUAÇÃO NO BRASIL

17- Mudança do termo “igualdade social” para “equidade social”, Entre nós, estamos ainda na fase inicial. O problema
ou seja, não há mais a preocupação com a igualdade como direito de dominantemente quantitativo. Mais escolas, maior matrícula. Todavia,
todos, mas somente a “amenização” da desigualdade; os tempos são outros, e já não podemos limitar-nos ao tranquilo esforço
de ensinar a ler, escrever e contar, multiplicando rotineiramente as
18 - Privatização das Universidades;
escolas. Temos de realizar a tarefa que as demais nações realizaram
19 – Nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional) nos relativos sossegos do passado, em pleno maelstrom moderno, tudo
determinando as competências da federação, transferindo criando de novo, em condições mais difíceis que as do passado, e
responsabilidades aos Estados e Municípios; obrigados a acompanhar métodos e técnicas para que faltam as
condições sociais adequadas e o próprio conhecimento e saber
20 - Parcerias com a sociedade civil (empresas privadas e
necessário para aplicá-las.
organizações sociais).
O problema fez-se tão difícil e atordoante, que não são de
Diante da análise anterior, a atuação coerente e socialmente
admirar a confusão, o desnorteamento e o extraordinário desperdício e
comprometida na educação parece cada vez mais difícil, tendo em vista
amontoado de erros com que vamos conduzindo nosso esforço
que a causa dos problemas está longe e, ao mesmo tempo, dispersa
educativo. Para nos equilibrarmos no turbilhão das forças e projetos
em ações locais. A tarefa de educar, em nosso tempo, implica em
desencadeados, apegamo-nos à simplificação da “educação para o
conseguir pensar e agir localmente e globalmente, o que carece da
desenvolvimento”, tentando limitar o problema ao treino generalizado
interação coletiva dos educadores e, segundo Philippe Perrenoud, da
para a vocação e o trabalho. Mas também este não é algo simples
Universidade de Genebra, “o professor que não se preparar para
como o rotineiro trabalho antigo, mas conjunto de técnicas e
intervir na discussão global, não é um ator coletivo”. Além disso, a
habilitações complexas, difíceis e especializadas, em permanente
produção teórica só tem sentido se for feita sobre a prática, com vistas
transformação e a exigir desenvolvimento mental muito maior do que o
a transformá-la. Portanto, para que haja condições efetivas de construir
do velho artesanato.
uma escola transformadora, numa sociedade transformadora, é
necessária a predisposição dos educadores também pela
transformação de sua ação educativa e “a prática reflexiva deve deixar
O GOVERNO BRASILEIRO E A POLÍTICA EDUCACIONAL
de ser um mero discurso ou tema de seminário, ela objetiva a tomada
de consciência e organização da prática”. Embora não administre diretamente a educação básica, o
governo federal tem tido papel importante neste nível pela redistribuição
de recursos do Fundo Nacional de Desenvolvimento Educacional -
A POLÍTICA DA EDUCAÇÃO DE FNDE. O FNDE foi criado como fonte adicional ao financiamento do
CADA UM E DA EDUCAÇÃO PARA O FUTURO ensino: é uma contribuição patronal (2,5% da folha de pagamento das
empresas) destinada ao financiamento do ensino de primeiro grau,
Presentemente, nos países desenvolvidos, entramos em nova
suplementando os recursos públicos orçamentários regulares. Esta
fase: a ênfase está agora na educação individualizada, em educar não
contribuição chama-se de salário-educação e constitui um fundo que
apenas todas as crianças, mas cada uma; e não para simples
tem recursos consideráveis: cerca de 1,5 bilhões de dólares por ano 1/3
adaptação ao passado, mas visando prepará-la para o futuro. Opera-
dos quais constitui a quota federal, (cerca de 500 milhões de dólares) e
se, por isso mesmo, verdadeira revolução nos métodos e técnicas do
é utilizado pelo Ministério da Educação, que pode repassá-lo a
ensino propriamente dito, e a atenção se volta para medir-se e apurar-
municípios, estados e até a entidades privadas, devidamente
se o que realmente se está conseguindo. O aluno continua a ser o
credenciadas. Nos estados mais pobres, a quota federal é muito
problema central, constituindo-se a educação processo individual e
superior à estadual, e portanto decisiva para a manutenção e melhoria
único de cada aluno, e o seu desenvolvimento e auto-realização, a
do ensino fundamental. O Ministério da Educação tem, assim, um
indagação maior e absorvente. A organização da escola fez-se
instrumento potencialmente poderoso para focalizar os recursos aonde
complexa e fluida, compreendendo o estudo individual da criança e de
eles são mais necessários.
seu desenvolvimento; o estudo da cultura em que está imersa e de sua
transformação constante; o estudo da herança histórica para incorporá- É com estes recursos, tanto da quota estadual quanto da
la a este presente em transição; e tudo isso, com as vistas voltadas Federal, que se constroem e reformam escolas, se compra
dominantemente para os prospectos do futuro. equipamento escolar e se treinam os professores. É com os recursos
do FNDE que se constroem por ano cerca de 10 mil salas de aula, o
Toda a velha tranquilidade da escola, como instituição devotada
que corresponde ao crescimento necessário para absorver o aumento
ao passado, desapareceu, e a escola é hoje uma perturbada fronteira

Professor Pedagogo 12 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
anual da população escolar brasileira (cerca de 2% ao ano) e corrigir as continuidade ao programa em outros termos, inclusive pela alteração de
distorções na distribuição das escolas e do número de salas de aula sua sigla (CAICS, Centros de Atenção Integral à Criança), com gastos
que decorrem da movimentação da população. O problema previstos de 3 bilhões de dólares para o período 1993-1995.
fundamental com a distribuição dos recursos do FNDE é que a
Em junho de 1993 o Ministério da Educação divulgou o Plano
demanda por recursos é muito superior (cerca de 2 a 3 vezes) à sua
Decenal de Educação Para Todos, elaborado em cumprimento das
disponibilidade. Além disto, a própria flexibilidade na aplicação dos
resoluções da Conferência de Educação Para Todos de Jomtien,
recursos do Fundo, assim como o seu volume, tornam-no alvo de
Tailândia, de 1990. e formalmente apresentado à V Reunião do Comitê
pressões clientelistas. Deputados e políticos em geral tentam direcionar
Regional Intergovernamental do Projeto Principal de Educação na
a aplicação dos recursos de acordo com os seus interesses, seja
Região da América Latina e do Caribe da UNESCO em Santiago de
obtendo do Ministro da Educação boa acolhida para suas propostas,
Chile no mesmo mês. A declaração foi precedida de um “compromisso
seja incluindo no orçamento da União emendas para beneficiar
nacional de educação para todos”, assinado por representantes do
determinados municípios. Muitas vezes os recursos são orientados
Ministério, das secretarias de educação estaduais e municipais e de
para municípios e estados de aliados do Governo, que não são
associações profissionais de vários tipos.
necessariamente os que apresentam maiores “déficits” de
escolarização. A racionalização no uso destes recursos buscada pela O plano incorpora os objetivos gerais da Declaração de Jomtien,
gestão Goldemberg visava, primeiro, atender aos municípios mais retomando e ampliando iniciativas anteriores. A lista das medidas
pobres; segundo, direcionar recursos para a formação de professores; propostas inclui: o programa nacional de atenção integral à criança e ao
terceiro, associar a liberação dos recursos do FNDE ao aumento dos adolescente, (os CAICS); o Projeto Nordeste de educação, realizado
salários dos professores por parte dos estados e municípios. com o apoio do Banco Mundial; a criação de um sistema nacional de
avaliação básica; um programa de capacitação de professores,
Os programas de merenda escolar e do livro didático são os
dirigentes e especialistas; um programa de apoio a inovações
outros dois instrumentos importantes utilizados pelo governo federal em
pedagógicas e educacionais; uma estratégia de equalização no
sua atuação em relação ao ensino básico. Nos dois casos, trata-se de
financiamento de educação; a descentralização dos programas de
distribuir um grande volume de produtos para todo o país, a partir de
assistência ao estudante; um programa de assistência e agilização do
estruturas centralizadas responsáveis pela compra das mercadorias e
sistema de financiamento; e participação no Pacto pela Infância, que
sua distribuição nacional. Estes programas têm sofrido grande
busca desenvolver o atendimento estudantil nas áreas de educação,
instabilidade, pela precariedade de sua fonte de recursos (o
saúde e combate à violência. Em seu conjunto, o plano marca a
FINSOCIAL teve seus recursos diminuídos no início da década de 90
aceitação formal, pelo governo federal brasileiro, das teses e
por uma série de questionamentos jurídicos), e sempre sofreram
estratégias que vêm sendo formuladas nos foros internacionais mais
problemas de ineficiência administrativa e de vulnerabilidade à política
significativos na área da melhoria da educação básica. Ainda que sua
de patronagem e corrupção associados a grandes programas
implementação efetiva dependa de recursos econômicos, institucionais,
distributivos. A tendência recente, em relação à merenda escolar, tem
técnicos e políticos ainda incertos, sua importância estratégica deve ser
sido a de descentralizar o programa, transferindo os recursos
enfatizada.
diretamente às escolas. Em relação ao livro didático, o programa sofre
de gigantismo (220 milhões de livros foram distribuídos entre 1986 e As reformas estaduais tiveram como principal resultado o
1991), excesso de títulos (3.500 em 1992), nenhum sistema de crescimento extraordinário de um novo setor educacional, o da
avaliação de qualidade, e do marketing agressivo de algumas editoras educação pré-escolar, enquanto que a educação de primeiro e segundo
interessadas em obter grandes contratos de distribuição. graus cresceu pouco ou até mesmo regrediu, como no caso de Minas
Gerais. Este padrão foi observado em todo o país, como mostra o
O governo Collor instituiu um programa de Centros Integrados de
quadro 2. Os dados disponíveis sugerem que a principal inovação
Atendimento à Criança (CIACS), que era muito semelhante, em
pedagógica, que foi a introdução do ciclo básico para os dois primeiros
intenção, ao do Estado do Rio de Janeiro, e estava sujeito às mesmas
anos do primeiro grau, falhou em seu principal objetivo, que era o de
críticas, inclusive a do potencial de corrupção e clientelismo político
reduzir as altas taxas de repetência no início da vida escolar; os alunos
implícito em um projeto de construir 5 mil escolas em todo o país a um
que eram reprovados antes ao final de um ano passaram a ser
custo de dois milhões de dólares por unidade, sem que o governo
reprovados ao final de dois.
federal dispusesse de meios financeiros e humanos para operá-las. Na
gestão Goldemberg no Ministério da Educação houve um esforço no Do ponto de vista administrativo e institucional, a principal meta
sentido de alterar o projeto inicial, reduzindo seus custos, buscando em alguns dos estados foi reduzir o poder centralizador e burocrático
associações com as secretarias de educação e outros setores da das secretarias de educação, e devolvê-lo à comunidade. Este projeto
comunidade, e abrindo a possibilidade de utilizar o programa como encontrou, naturalmente, resistência por parte das administrações, que
mecanismo para melhorar a infraestrutura das redes educacionais dos em muitos casos restabeleceram seu poder mais tarde. Mas elas servi-
estados. O fim do governo Collor não significou o fim do projeto dos ram também para mostrar que este processo de descentralização pode
CIACS. Para não perder os investimentos já realizados, da ordem de significar, simplesmente, a transferência de poderes para os municí-
um bilhão de dólares, o Ministro Maurílio Hingel decidiu dar pios, de uma parte, ou para as associações e sindicatos de professo-

Professor Pedagogo 13 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
res, por outra, e que de nenhum dos dois é possível esperar, necessa- entanto, que as mesmas características podem ser igualmente
riamente, um envolvimento com reformas que signifiquem uma trans- atribuídas a tais políticas.
formação mais profunda das práticas educacionais. Prefeituras podem
Contudo, a prescrição, a homogeneização e a centralização não
ser tão ou mais clientelísticas e burocráticas, quanto os governos esta-
têm sido um problema restrito ‘as fronteiras nacionais. Em consonância
duais; e professores, frequentemente frustrados por baixos salários e
com as políticas hegemônicas da década de 90, existe aí uma forte
pouco reconhecimento, tendem a resistir à implantação de sistemas de
relação com as políticas globais.
avaliação, assim como a projetos experimentais e inovadores que
introduzam diferenciações nos sistemas educacionais. A existência Antonio F. B. Moreira e Elizabeth Macedo (2000:108), em estudo
destes problemas nas tentativas de descentralização não significa, no revisionista sobre transferência educacional, somam seus esforços ao
entanto, que a educação possa ser conduzida de forma centralizada ou estudo de Barreto pois, além de relacionarem a insatisfação no que
burocrática, ou a partir de grandes projetos de impacto político e alta tange aos resultados da escolarização com o distanciamento entre
visibilidade, em busca de dividendos eleitorais de curto prazo. teoria e prática no campo do currículo, destacam com propriedade a
relação existente entre políticas educacionais nacionais e globais.
Em relação ao governo federal, a experiência confirma que a
Reconhecem que “(...) ainda que tenhamos avançado na produção de
legislação foi sábia ao restringir o papel do Ministério da Educação nas
conhecimento teórico, a prática pedagógica, na maioria das nossas
questões da educação básica. Todas as ações centralizadas do
escolas, ainda não sofreu modificações mais substantivas.” E,
governo federal padecem dos mesmos problemas de gigantismo,
oportunamente, situam essa problemática no contexto de globalização
patronagem política, ineficiência no uso de recursos, e possibilidades
das políticas educacionais, evidenciando a complexidade da questão e
de corrupção.
suas estreitas relações com o campo do currículo, o que pode ser
Parece claro que o governo federal deveria concentrar seus ilustrado com a seguinte afirmação: “(...) se no plano teórico talvez
esforços no desenvolvimento de sistemas adequados de avaliação e estejamos menos susceptíveis às importações instrumentais, no âmbito
acompanhamento do ensino básico no país, na redistribuição de das políticas educacionais sentimos com clareza a força do modelo
recursos por critérios estritamente técnicos, baseados em diferenciais neoliberal internacional, definindo os rumos do currículo e do processo
de renda e projetos pedagógicos de qualidade, e no apoio direto a de escolarização no Brasil.” (Ib:106).
regiões de carência extrema, que não tenham condições de gerar e
Força que, segundo os mesmos, pode ser visualizada pela
administrar minimamente seus próprios recursos.
presença do Banco Mundial na definição de políticas educativas,
fazendo prevalecer a lógica financeira sobre a social, subordinando
assim a educação `a racionalidade econômica, bem como por medidas
POLÍTICAS EDUCACIONAIS BRASILEIRAS E
que implantam os princípios neoliberais na educação, tornando-a mais
SUAS IMPLICAÇÕES CURRICULARES
competitiva.
Na última década do século XX, alguns (as) educadores (as)
Anteriormente, Moreira (1998:30), já havia sugerido uma forte
brasileiros (as) demonstraram suas preocupações com os resultados da
relação entre desafios educacionais, teoria curricular e política
escolarização da maioria da população brasileira e desenvolveram
curricular. Ao fazer um balanço da crise da teoria crítica de currículo,
estudos que vem nos mostrar os vínculos entre esses resultados
colocando como sintoma dessa crise o distanciamento entre avanços
insatisfatórios e as políticas educacionais implementadas no país.
teóricos e avanços práticos, ele recomenda que “(...) os curriculistas
Elba Siqueira de Sá Barreto (2000:15) faz uma análise de atuem nas diferentes instâncias da prática curricular, participando da
propostas curriculares implementadas por práticas políticas de elaboração de políticas públicas de currículo, acompanhando a
governos nas duas últimas décadas do século XX no Brasil. Em seu implementação das propostas e realizando estudos nas escolas que
estudo, ela admite que mesmo as propostas tendo assumido um avaliem essa implementação.” Dessa forma, esse autor coloca em
discurso democrático pauta a necessidade não só dos pesquisadores (as) em currículo
”(...) as características de insucesso escolar da maioria da atuarem em políticas públicas como, fundamentalmente, de
população pouco se alteraram, visto que as mudanças preconizadas e direcionarem seus esforços de pesquisa para as políticas curriculares.
implementadas no período não afetaram profundamente as questões Na mesma perspectiva desses autores, Corinta M. G. Geraldi
estruturais dos sistemas públicos de ensino, responsáveis, em (2000) traz contribuições significativas para avançarmos em relação à
proporção significativa, pelos seus altos índices de fracasso.” questão em pauta. Essa pesquisadora reforça a compreensão dos
A pesquisadora associa estes resultados às políticas vínculos entre política curricular e globalização, a necessidade de
educacionais públicas por serem prescritivas, homogeneizantes e articulação teoria/prática no campo do currículo e de se realizar
centralizadas no Estado, bem como por seus mecanismos de pesquisas em políticas curriculares, acrescentando porém que essas
divulgação (livros didáticos), implementação (capacitação de docentes pesquisas deem ênfase às resistências que ocorrem ao processo de
à distância) e controle (avaliação externa). Apesar da autora não fazer globalização.
uso da denominação políticas curriculares públicas, entendemos, no

Professor Pedagogo 14 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
No estudo ora focalizado, a pesquisadora parte da problemática global é fruto de uma geografia imaginativa. Cada vez que se pronuncia
de que nas três últimas décadas do século XX, as escolas, “mesmo que que o local é instituído pelo global, aumenta-se a fenda que separa os
de forma incompleta, não mecânica nem linear”, têm desencadeado dois e restringe o espaço do local definindo sua anatomia.
uma educação para a alienação ao trabalho. Ela defende a tese de que
Levando-se em conta essas pertinentes contribuições,
são os grandes grupos internacionais que estão planejando a educação
entendemos que avançar na compreensão e na implementação de
através da criação de uma rede de controle da educação; rede que
políticas curriculares com a perspectiva de enfrentamento dos
para realizar-se precisa da avaliação, e esta, por sua vez, necessita de
resultados insatisfatórios da escolarização, significa desenvolvermos
“uma referencia básica... [que] ... possa ser efetivada em nível nacional”
estudos que invertam a abordagem hegemônica até hoje presente
(Ib,200), daí a existência dos Parâmetros Curriculares Nacionais. É
nesses estudos, com o intuito de se retirar o foco do controle vertical e
nesse contexto, portanto, que situa os Parâmetros Curriculares para o
do sentido global/local para visualizarmos o movimento de hegemonia e
Ensino Fundamental, considerando-os um exemplo de gestão de
contra-hegemonia nas relações de poder estruturadoras dessas
políticas curriculares oficiais globais.
políticas curriculares.
Geraldi, destaca, no entanto, a existência de contradições. No
Entendemos, no entanto, que a inversão deva ocorrer somente
que diz respeito às políticas curriculares, salienta a existência de
no sentido da perspectiva, do ponto de partida, para não cairmos em
alternativas às propostas hegemônicas oficiais, entendendo que estas
semelhante equívoco, perdendo com isso os condicionantes globais.
se encontram presentes nas escolas, no “currículo em ação”.
Afinal “(...) as revoluções da cultura em nível global causam impacto
Estes estudos indicam, portanto, uma clara insatisfação para sobre os modos de viver, sobre os sentidos que as pessoas dão `a vida,
com os resultados da escolarização no ensino fundamental no Brasil, sobre suas aspirações para o futuro - sobre a cultura num sentido mais
sendo que estes resultados insatisfatórios estão relacionados com a local.” (Hall, 1997: 18). Isto não significa, no entanto, que esses
política curricular e esta, por sua vez, com as implicações da condicionantes sejam inexoráveis, mas que as implicações entre
globalização na política educacional. Essas contribuições significativas, global/local e vice-versa, constituem diferentes processos culturais, não
no entanto, não respondem mais às exigências do atual contexto social possuindo mais uma identidade nem com o global, nem com o local,
e aos avanços no campo do currículo. As abordagens de pesquisa resultando assim em culturas híbridas e, possivelmente, em diferentes
destes estudos, mesmo a de Geraldi que destacam as alternativas relações de poder. Significa também que, a partir dessas implicações,
produzidas localmente, são desenvolvidas no sentido global/local, não haverá mais um global ou um local legítimo, uma vez que os novos
mostrando, fundamentalmente, o poder das relações hegemônicas. processos culturais e as consequentes relações de poder nelas
Alertamos assim para a carência de centralidade dos processos de produzidas passam a interferir em ambas (Hall, 1997; Santos,2003).
contra-hegemonia em estudos de política curricular, sem, no entanto,
Construir essa inteligibilidade local/global e hegemonia/contra-
deixar de reconhecer as relações hegemônicas.
hegemonia requer, necessariamente, uma compreensão do que seja
Necessitamos de uma abordagem que dê visibilidade aos política curricular e de uma metodologia analítica para pesquisa em
processos contra-hegemônicos e, são as considerações de Santos política curricular. Afinal, o que é política curricular? Como ela ocorre?
(2002), que veem nos auxiliar. O referido autor entende a globalização Qual seu processo de construção? Quem são seus agentes? Como
como algo plural, contraditório, complexo, cheio de paradoxos, não investigá-la? É a partir dessas indagações que desenvolveremos o
monolítico e envolvendo conflitos. Destaca o movimento das relações próximo item.
de poder de hegemonia e contra-hegemonia concluindo que “o global
acontece localmente... [e coloca como pauta de luta que] ... é preciso
fazer com que o local contra-hegemônico também aconteça POLÍTICA CURRICULAR COMO POLÍTICA CULTURAL
globalmente.” (Ib:74). Essa compreensão não dicotomiza, não polariza O tema das políticas curriculares tem ficado subsumido ao das
e nem cria uma hierarquia nas relações global/local.. Em função disso, políticas educacionais. No Brasil, somente a partir da década de 90,
Santos considera interessante que, para fins analíticos, a definição de através dos estudos expostos anteriormente, é que esse assunto foi
tópicos de investigação ocorra em termos locais e não globais. ganhando visibilidade na literatura acadêmica. Em consequência, é fora
Essas relações entre local/global ficam ainda mais evidentes do país que encontramos pesquisadores que tem discutido com mais
quando encontramos em Santos (Op cit) e dentro dos chamados especificidade e profundidade essa temática. Dispomos assim dos
estudos pós-colonialistas, mais especificamente o estudo de Said estudos de Suárez (1995), Gimeno Sacristán (1998), Bowe & Ball
(1978), o entendimento de que as pesquisas que destacam o poder (1992) e Ball (1997, 1998), para obtermos elementos com o propósito
local, o fazem a partir da identificação de forças culturais em de definição e construção metodológica de pesquisa em política
configurações históricas particulares. Esse estudo de Said, ao tratar da curricular com uma abordagem que favoreça as necessidades
relação entre ocidente e oriente, nos leva ao entendimento de que não anteriormente enunciadas.
podemos fazer uma oposição binária da relação entre local e global Suárez (1995:110), ao tratar das relações entre políticas públicas
porque as fronteiras geográficas são um tipo de conhecimento e reforma educacional na Argentina, afirma que: “(...) a formulação e
imaginativo; a definição dessas fronteiras e oposições entre local e implementação de políticas curriculares não são neutras, nem muito

Professor Pedagogo 15 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
menos são um asséptico processo de elaboração e instrumentação níveis ou fases - currículo prescrito, currículo apresentado aos
técnicas. No fundamental, são o resultado sintético de um (muitas professores, currículo moldado pelos professores, currículo em ação e
vezes silenciado e oculto) processo de debate ou de luta entre currículo avaliado -, fragilizando ao nosso ver, o caráter processual e de
posicionamentos, interesses e projetos sociais, políticos, culturais e totalidade da política curricular. Além disso, ressalta o currículo prescrito
pedagógicos opostos e, sobretudo, antagônicos. O processo de como um instrumento da política curricular, perdendo novamente o
determinação dessas políticas não é, de forma alguma, unívoco, nem caráter processual desta, passando a compreendê-la como algo
tampouco está isento de contradições e de tensões.” externo ao que denomina de currículo prescrito e, do mesmo modo,
como algo externo às escolas.
A contribuição central desse autor consiste na caracterização da
política curricular enquanto síntese de um processo de luta entre Apesar destes autores fornecerem subsídios teóricos em relação
projetos sociais com interesses antagônicos implicando em à política curricular, entendemos que suas definições e direcionamentos
contradições. não atendem as exigências presentes na realidade educacional
contemporânea, a qual se encontra situada em um contexto onde a
Do mesmo modo, Gimeno Sacristán (1998:109), ao discutir a
centralidade da cultura, tanto em termos substantivos, quanto
reforma curricular ocorrida na Espanha, parte do pressuposto de que as
epistemológicos, se caracteriza por complexas imbricações entre
teorias curriculares são elaborações parciais, insuficientes para
global/local e entre fatores econômico, político e cultural (Santos, 2003).
compreender a complexidade das práticas escolares. Em função dessa
análise, propõe uma concepção processual de currículo e procura situar Essas complexas imbricações são visualizadas a partir da
a política curricular como elo entre interesses políticos, teorias ampliação do campo político, desencadeada por Williams (Apud Santos
curriculares e práticas escolares. Define política curricular como “(...) 2002:53). Este entende que a política envolve “(...) uma disputa sobre
um aspecto específico da política educativa, que estabelece a forma de um conjunto de significações culturais.” Através dessa ampliação,
selecionar, ordenar e mudar o currículo dentro do sistema educativo, temos o destaque da relevância da cultura para compreensão das
tornando claro o poder e a autonomia que diferentes agentes têm sobre relações de poder; relevância que, em tempos de globalizações, “(...)
ele (...)” reside no fato de ela ser (...) ‘o campo em que as contradições políticas
e econômicas são articuladas’ (Lowe e Lloyd, 1997a: 32, nota 37).”
Essa compreensão é importante no momento em que salienta,
(Santos, 2003: 34).
diferentemente de Suárez, a existência de instâncias distintas que
intervém no processo de construção das políticas curriculares. Isso Nessa perspectiva, tanto a política como a cultura perdem suas
ocorre na medida em que reconhece as relações entre Estado, política fronteiras na medida em que são desterritorializadas, configurando-se,
educativa, sistema educacional e práticas pedagógicas. Não obstante, assim, uma relação dialética entre ambas, o que pode ser ilustrado
é a transposição das características do que Sacristán (1998:101) define com a seguinte citação de Santos (Op cit: 34-35):
como processo curricular para política curricular que ajuda no
“(...) ‘a ‘cultura’ obtém uma força ‘política’ quando uma formação
entendimento desta última. Assim como no sistema curricular, na
cultural entra em contradição com lógicas políticas ou econômicas que
política curricular
tentam refuncionalizá-la para exploração ou dominação’ (Lowe e Lloyd,
(...) as decisões não se produzem linearmente concatenadas, 1997a). A cultura será, assim, encarada não como ‘uma esfera num
obedecendo a uma suposta diretriz, nem são frutos de uma coerência conjunto de esferas e práticas diferenciadas’, mas como ‘um terreno em
ou expressão de uma mesma racionalidade. Não são estratos de que a política, a cultura e o econômico formam uma dinâmica
decisões dependentes umas de outras, em estrita relação hierárquica inseparável’ (Lowe e Lloyd, 1997a).”
ou de determinação mecânica e com lúcida coerência para com
Essa ampliação do campo político alavancou avanços teóricos
determinados fins ... São instâncias que atuam convergentemente na
no que tange ao campo do currículo. Costa (1999: 37-38) sintetiza com
definição da prática pedagógica (...)”
propriedade parte desses avanços definindo currículo “como um campo
Dessa elucidação sobre política curricular podemos destacar as em que estão em jogo múltiplos elementos, implicados em relação de
possibilidades de ruptura nela existente, uma vez que o autor evidencia poder, ...[a escola e o currículo] ...como territórios de produção,
o caráter conflitivo e contraditório da mesma, destacando a existência circulação e consolidação de significados (...)”
de decisões independentes e insubordinação, bem como de práticas
Assim como essa autora, não pretendemos estabelecer aqui uma
convergentes.
relação entre currículo e cultura na perspectiva de que a escola
Apesar das contribuições fornecidas por Suarez e Gimeno trabalha com o conhecimento, este é cultura e, portanto, a escola
Sacristán, o primeiro não discute a política curricular em termos trabalha com cultura; mas, sim, quebrar as fronteiras estabelecidas
analíticos e o segundo, apesar de avançar ampliando a caracterização, entre ambos, entendendo o currículo como um terreno privilegiado da
defende uma compreensão de política curricular que ainda possui política cultural e a cultura como o conjunto de “(...) sistemas de
limites, especialmente no que diz respeito à definição de uma significado que os seres humanos utilizam para definir o que significam
metodologia de pesquisa em política curricular. Isto ocorre porque, ao as coisas e para codificar, organizar e regular sua conduta uns em
explorar o processo curricular, Gimeno Sacristán o divide em diferentes

Professor Pedagogo 16 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
relação aos outros ... [que]... dão sentido `as nossas ações.” (Hall, contextualizados e recontextualizados de modo subversivo no momento
1997: 16). da implementação. Em consequência, entendem também que as
políticas definidas em nível nacional são também significativamente
Entendemos que a cultura tornou-se, em seus aspectos
modificadas em nível local.
substantivos e epistemológicos, um elemento central na mudança
histórica deste milênio. Tanto o é que as relações de poder, cada vez Como implicação de seus estudos, definem o processo político
mais, são simbólica e discursivamente travadas. Em função disso, como aquele que emerge de uma contínua interação entre contextos
reconhecemos que existe uma conexão entre cultura e política, onde a inter-relacionados e entre textos e contextos. Dessa definição, propõem
própria política passa a ser vista como política cultural. (Hall, 1997) um modelo analítico para pesquisa em política curricular que seja
representativo do ciclo político, que dê uma representação holística ao
Torna-se oportuno, nesse momento, conceituar política curricular
processo político e que seja concebido como um processo dialético,
a partir da definição de política cultural baseada no entendimento de
conflituoso, ambíguo, plural, contraditório e histórico.
Álvarez et. al. (Apud Santos 2003: 39) sobre cultural politics: “(...) ‘o
processo acionado quando o conjunto de atores sociais formados por, e Para Bowe & Ball (1992), as análises em política curricular,
incorporando, diferentes significados e práticas culturais entram em para terem validade política e teórica, devem considerar os três
conflito entre si’.” contextos primários da política curricular: o contexto de influência, o
contexto de produção do texto político e o contexto da prática, todos
São, portanto, as concepções de política e de método de
vistos como inter-relacionados. O primeiro consiste no espaço-tempo
pesquisa em política curricular trabalhadas por Bowe & Ball (1992) e
onde os conceitos chaves são estabelecidos para gerar o discurso
Ball (1997,1998) que entram em consonância com as questões
político inicial; o segundo tomam a forma de textos legais, oficiais,
anteriormente estabelecidas uma vez que defendem os processos de
documentos e textos interpretativos que podem ser contraditórios tanto
construção das políticas curriculares como processos cíclicos.
internamente, quanto na intertextualidade, onde diferentes grupos
Esses autores, em estudo revisionista do campo da política competem para controlar a representação e o propósito da política e, o
curricular, denunciam as pesquisas desse campo por fragmentarem o terceiro, consiste nas possibilidades e limites materiais e simbólicos,
processo político ao focalizarem ora a produção, ora a implementação bem como na leitura daqueles que implementam a política; esse
das políticas. Para eles, as pesquisas que focalizam a produção da contexto é entendido como espaço de origem e de endereçamento da
política ficam restritas a dimensão macro da realidade social, política curricular.
silenciando as vozes daqueles envolvidos na prática pedagógica,
Temos, pois, a partir desses autores, um avanço significativo
deixando-os à margem da política curricular. Já as pesquisas que
na compreensão do que seja política curricular porque, primeiro, não só
focalizam a implementação, apesar de sua importância por dar
definem a política curricular como explicitam seu processo de
evidência às vozes silenciadas e por colocar seu caráter subversivo,
construção e, o que é mais importante, sem dicotomizá-lo. Segundo,
não trabalham os condicionantes históricos dessas vozes. As
porque dão voz a todos os agentes políticos sem criar hierarquias entre
consequências negativas é que ambas separam produção e
eles. Terceiro, e em consequência dos anteriores, reconhecem no
implementação, teoria e prática e, consequentemente, constroem uma
processo político, uma relação dialética entre global/local, destacando
visão linear do processo político: ora de cima para baixo, ora de baixo
não só o movimento do global para o local, mas o inverso também.
para cima.
Quarto, e o que é de fundamental importância para os objetivos
Estes autores também fazem críticas à teoria de controle estatal propostos em nosso estudo, ao destacar os conflitos políticos
na política curricular, ou seja, a teoria de que o Estado define existentes nos diferentes contextos de produção da política curricular,
linearmente essas políticas. Na crítica, desconstroem a visão de que a liberam não só a visualização de conflitos culturais no processo de
produção política seja separada e distante da implementação; de que a construção da política curricular como também de movimentos
política se realiza através de uma cadeia de implementadores hegemônicos e contra-hegemônicos no processo político.
legalmente definidos; de que ela seja imposta; e de que os definidores
da política educacional estão distantes da realidade educacional e por
isso não conseguem controlá-lo. Enfim, rejeitam a concepção linear e A FORMAÇÃO DOS
fragmentada do processo político. PROFISSIONAIS DA EDUCAÇÃO E AS POLÍTICAS NACIONAIS

Em contraposição, desenvolvem estudos sobre política curricular Após cerca de 15 anos de silêncio na política educacional
e a partir de então mostram que a forma como o processo político brasileira para a formação docente, volta-se a viver um intenso debate
ocorre, resulta da combinação entre métodos administrativos, sobre a legislação que regulamentará a formação dos profissionais da
condicionantes históricos e manobras políticas implicando o Estado, a educação no país. Apesar da carência de novas leis para a preparação
burocracia estatal e os conflitos políticos contínuos ao acesso desse dos educadores nesse período, a formação de professores tornou-se
processo político. tema recorrente nas discussões acadêmicas dos últimos 30 anos. Com
a criação das faculdades ou centros de educação nas universidades
Desses estudos concluem, ainda, que a política curricular não é
brasileiras, em 1968, a formação docente constitui-se em objeto
imposta, uma vez que seus textos são constantemente

Professor Pedagogo 17 A Opção Certa Para a Sua Realização
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permanente de estudos nesses espaços. É evidente, também, o das más condições de trabalho, dos salários pouco atraentes, da
crescimento da investigação sobre a profissão docente nas jornada de trabalho excessiva e da inexistência de planos de carreira.
universidades e instituições de pesquisa no Brasil, principalmente a
Finalmente, o conjunto de leis que, há pouco tempo, vem sendo
partir da década de 1990, o que tem possibilitado um debate
formulado para regulamentar a formação docente no Brasil parece
fundamentado em análises empíricas e teóricas e, por conseguinte,
interessado em romper com o atual modelo de preparação dos
uma discussão mais qualificada sobre o tema. Todavia, as licenciaturas,
profissionais da educação. Por outro lado, a urgência em qualificar um
cursos que habilitam para o exercício dessa profissão no país,
grande número de educadores para uma população escolar crescente
permanecem, desde sua origem na década de 1930, sem alterações
sem o correspondente investimento financeiro por parte do governo
significativas em seu modelo.
poderá levar à repetição de erros cometidos em um passado próximo e,
Como se sabe, a Lei de Diretrizes e Bases da Educação consequentemente, corre-se o risco de reviver cenários de
Nacional (LDB – lei no 9.394/96) foi, sem dúvida alguma, responsável improvisação, aligeiramento e desregulamentação na formação de
por uma nova onda de debates sobre a formação docente no Brasil. professores no país.
Antes mesmo da aprovação dessa lei, o seu longo trânsito no
Congresso Nacional suscitou discussões a respeito do novo modelo
educacional para o Brasil e, mais especificamente, sobre os novos OS ATUAIS MODELOS DE FORMAÇÃO DOCENTE NO BRASIL
parâmetros para a formação de professores. Como consequência, No Brasil, como se sabe, as licenciaturas foram criadas nas
depois de acirrada oposição de interesses, prevaleceram, no texto da antigas faculdades de filosofia, nos anos 30, principalmente como
LBD, os elementos centrais do substitutivo Darcy Ribeiro, afinado com consequência da preocupação com a regulamentação do preparo de
a política educacional do governo Fernando Henrique Cardoso, porém, docentes para a escola secundária. Elas constituíram-se segundo a
com algumas modificações conseguidas em virtude do embate fórmula “3 + 1”, em que as disciplinas de natureza pedagógica, cuja
parlamentar. duração prevista era de um ano, justapunham-se às disciplinas de
Sendo assim, a versão final dessa lei foi construída mediante a conteúdo, com duração de três anos.
participação de diferentes sujeitos e atores sociais. Isso fez com que Essa maneira de conceber a formação docente revela-se
ela assumisse um caráter “polifônico” – segundo expressão usada por consoante com o que é denominado, na literatura educacional, de
Carlos Jamil Cury –, em que distintas vozes podem ser ouvidas a partir modelo da racionalidade técnica. Nesse modelo, o professor é visto
da leitura de seu texto. Na parte mais específica sobre formação como um técnico, um especialista que aplica com rigor, na sua prática
docente (Título VI – Dos profissionais da educação), por exemplo, essa cotidiana, as regras que derivam do conhecimento científico e do
característica é bastante evidente. Nela convivem termos e expressões conhecimento pedagógico.
que contêm ideias inconciliáveis, como, de um lado, “programas de
formação pedagógica para portadores de diplomas de educação Portanto, para formar esse profissional, é necessário um
superior”, “institutos superiores de educação”, “curso normal superior”, conjunto de disciplinas científicas e um outro de disciplinas
e, de outro, “profissionais da educação” e “base comum nacional”. pedagógicas, que vão fornecer as bases para sua ação. No estágio
supervisionado, o futuro professor aplica tais conhecimentos e
Para melhor compreender as atuais discussões a respeito da habilidades científicas e pedagógicas às situações práticas de aula.
formação de professores e as recentes políticas regulamentadoras
dessa atividade, é importante lembrar o contexto mais amplo em que a Esse modelo de formação docente pode ser descrito, também,
LDB foi aprovada. Na época, particularmente na América Latina, segundo a conhecida analogia com o “curso de preparação de
respirava-se uma atmosfera hegemônica de políticas neoliberais, de nadadores” criada por Jacques Busquet, em 1974:
interesse do capital financeiro, impostas por intermédio de agências Imagine uma escola de natação que se dedica um ano a ensinar
como Banco Mundial e Fundo Monetário Internacional (FMI), que anatomia e fisiologia da natação, psicologia do nadador, química da
procuravam promover a reforma do Estado, minimizando o seu papel, e água e formação dos oceanos, custos unitários das piscinas por
favorecer o predomínio das regras do mercado em todos os setores da usuário, sociologia da natação (natação e classes sociais), antropologia
sociedade, incluindo as atividades educacionais. É importante também da natação (o homem e a água) e, ainda, a história mundial da natação,
não esquecer, quando se discute a questão da formação docente, as dos egípcios aos nossos dias. Tudo isso, evidentemente, à base de
atuais condições da educação brasileira. Isso porque são vários os cursos enciclopédicos, muitos livros, além de giz e quadro-negro,
fatores externos ao processo pedagógico que vêm prejudicando a porém sem água. Em uma segunda etapa, os alunos-nadadores seriam
formação inicial e continuada dos professores no país, destacando-se o levados a observar, durante outros vários meses, nadadores
aviltamento salarial e a precariedade do trabalho escolar. experientes; depois dessa sólida preparação, seriam lançados ao mar,
Sabe-se que o desestímulo dos jovens à escolha do magistério em águas bem profundas, em um dia de temporal.
como profissão futura e a desmotivação dos professores em exercício Parece consenso que os currículos de formação de professores,
para buscar aprimoramento profissional são consequência, sobretudo, baseados no modelo da racionalidade técnica, mostram-se
inadequados à realidade da prática profissional docente. As principais

Professor Pedagogo 18 A Opção Certa Para a Sua Realização
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críticas atribuídas a esse modelo são a separação entre teoria e prática teóricas. Os blocos de formação não se apresentam mais separados e
na preparação profissional, a prioridade dada à formação teórica em acoplados, como no modelo anterior, mas concomitantes e articulados.
detrimento da formação prática e a concepção da prática como mero
Contudo, em virtude da necessidade urgente de se habilitar
espaço de aplicação de conhecimentos teóricos, sem um estatuto
aqueles que, hoje, no país, estão em sala de aula, exercendo o
epistemológico próprio. Um outro equívoco desse modelo consiste em
magistério, corre-se o risco de as recentes políticas educacionais para
acreditar que para ser bom professor basta o domínio da área do
formação docente favorecerem a improvisação no preparo dos
conhecimento específico que se vai ensinar.
profissionais da educação. Em nome dessa urgência, a prática, que
Nas universidades brasileiras, esse modelo ainda não foi deve ocupar um espaço significativo nas grades curriculares dos cursos
totalmente superado, já que disciplinas de conteúdo específico, de de licenciatura, pode ser compreendida erroneamente como formação
responsabilidade dos institutos básicos, continuam precedendo as em serviço. As horas trabalhadas em sala de aula, sem,
disciplinas de conteúdo pedagógico e articulando-se pouco com elas, necessariamente, um planejamento e uma intencionalidade formativa,
as quais, geralmente, ficam a cargo apenas das faculdades ou centros podem, assim, ser contabilizadas nos novos cursos de licenciatura
de educação. pelos profissionais já em exercício na escola.

Além disso, o contato com a realidade escolar continua Como consequência, diminui significativamente a carga horária
acontecendo, com mais frequência, apenas nos momentos finais dos dos cursos de formação inicial de professores, o que, obviamente, não
cursos e de maneira pouco integrada com a formação teórica prévia é desejável e representa um imenso retrocesso em termos da
(Pereira 1998). preparação desses profissionais.

Nas demais instituições de Ensino Superior, em especial nas Do mesmo modo, o descuido com o embasamento teórico na
particulares e nas faculdades isoladas, é a racionalidade técnica que, formação de professores, indispensável no preparo desses
igualmente, predomina nos programas de preparação de professores, profissionais, é extremamente prejudicial aos cursos de licenciatura. O
apesar de essas instituições oferecerem, na maioria das vezes, apenas rompimento com o modelo que prioriza a teoria em detrimento da
a licenciatura e, consequentemente, de a formação docente ser prática não pode significar a adoção de esquemas que supervalorizem
realizada desde o primeiro ano. Trata-se de uma licenciatura inspirada a prática e minimizem o papel da formação teórica. Assim como não
em um curso de bacharelado, em que o ensino do conteúdo específico basta o domínio de conteúdos específicos ou pedagógicos para alguém
prevalece sobre o pedagógico e a formação prática assume, por sua se tornar um bom professor, também não é suficiente estar em contato
vez, um papel secundário. apenas com a prática para se garantir uma formação docente de
qualidade. Sabe-se que a prática pedagógica não é isenta de
Um modelo alternativo de formação de professores que vem
conhecimentos teóricos e que estes, por sua vez, ganham novos
conquistando um espaço cada vez maior na literatura especializada é o
significados quando diante da realidade escolar.
chamado modelo da racionalidade prática. Nesse modelo, o professor é
considerado um profissional autônomo, que reflete, toma decisões e Além disso, ainda de acordo com a lógica da improvisação,
cria durante sua ação pedagógica, a qual é entendida como um profissionais de diferentes áreas são transformados em professores
fenômeno complexo, singular, instável e carregado de incertezas e mediante uma complementação pedagógica de, no mínimo, 540 horas
conflitos de valores. (LDB, art. 63, inciso I; Parecer CNE no 04/97). Desse total, 300 horas
devem ser de prática de ensino (LDB, art. 65) e podem ser
De acordo com essa concepção, a prática não é apenas locus da
contabilizadas mediante capacitação em serviço (LDB, art. 61, inciso I).
aplicação de um conhecimento científico e pedagógico, mas espaço de
Ou seja, a legislação atual permite que profissionais egressos de outras
criação e reflexão, em que novos conhecimentos são, constantemente,
áreas, em exercício no magistério, tornem-se professores valendo-se
gerados e modificados.
de um curso de formação docente de 240 horas! O que parece
Com base na crítica ao modelo da racionalidade técnica e inconcebível em outros campos profissionais – como, por exemplo,
orientadas pelo modelo da racionalidade prática, definem-se outras direito, medicina e engenharia – é possível para o magistério,
maneiras de representar a formação docente. As atuais políticas para contrariando a própria denominação do Título VI da LDB, “Dos
preparo dos profissionais da educação, no país, parecem consoantes profissionais da educação”. Diante dessa situação preocupante,
com esse outro modo de conceber tal formação. As propostas perguntar-se-ia: A mesma urgência que justificou, na década de 1970,
curriculares elaboradas desde então rompem com o modelo anterior, no Brasil, a criação dos cursos de licenciatura de curta duração está
revelando um esquema em que a prática é entendida como eixo dessa presente nas atuais proposições sobre formação docente? São os
preparação. programas de formação pedagógica para portadores de diplomas de
Por essa via, o contato com a prática docente deve aparecer educação superior uma reedição atualizada dos desastrosos cursos de
desde os primeiros momentos do curso de formação. Desse licenciatura curta?
envolvimento com a realidade prática originam-se problemas e Esse esquema é uma infeliz legitimação do “bico” na profissão
questões que devem ser levados para discussão nas disciplinas docente, uma vez que profissionais egressos de outras áreas, que não
optaram, de início, pela carreira de magistério, provavelmente, só estão
Professor Pedagogo 19 A Opção Certa Para a Sua Realização
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na profissão enquanto não conseguem algo melhor para fazer. É subsequentes (de 5ª a 8ª série). A realidade, porém, apresenta enormes
inquestionável, portanto, que as atuais mudanças na estrutura jurídico- dificuldades para a articulação desses dois momentos, tanto pela
legal da educação brasileira tornam manifesta a necessidade da estrutura diferenciada quanto pelo tipo de professor que atende a cada
criação de um projeto pedagógico para a formação e a uma dessas etapas do Ensino Fundamental. Essa diferenciação, ainda
profissionalização de professores nas universidades e demais carregada de características do antigo modelo do “primário” e do
instituições de Ensino Superior brasileiras. Esse novo projeto “ginásio”, cria uma fragmentação muito significativa nas práticas
pedagógico deve estar em consonância com as modificações escolares e nas vivências dos alunos.
pretendidas na educação básica. No entanto, uma leitura mais crítica
Em relação aos profissionais, por exemplo, lembre-se que as
do contexto permite afirmar que, nas recentes políticas educacionais, a
professoras das séries iniciais se caracterizam por um perfil mais
formação de professores corre sérios riscos de improvisação,
generalista e os professores do segundo segmento, por uma formação
aligeiramento e desregulamentação.
mais específica.

Além disso, as professoras das primeiras séries têm habilidades
AS MUDANÇAS NA EDUCAÇÃO BÁSICA E que os professores de disciplinas não possuem, e vice-versa, o que cria
A FORMAÇÃO DOCENTE descontinuidades não só no desenvolvimento das aprendizagens de
conceitos essenciais, mas também no trato de processos mais globais.
De acordo com a LDB, a educação básica – agora compreendida
como Educação Infantil, Ensino Fundamental e Ensino Médio (art. 21, Nesse sentido, para uma coerência com as mudanças
inciso I) – deve perder seu caráter primordialmente propedêutico e pretendidas na educação brasileira e com as incumbências que são
refletir uma visão mais rica de aprendizagem e desenvolvimento dos atribuídas aos docentes pela LDB (art. 13), torna-se necessário pensar
educandos, segundo a qual cada idade tem importância em si, como a formação de um profissional que compreenda os processos humanos
fases de constituição de sujeitos, de vivências e socialização, de mais globais, seja ele um professor da educação infantil, dos primeiros
processos de construção de valores e identidades. ou dos últimos anos da escola básica. Um profissional capaz de refletir
sobre as seguintes indagações:
Essa visão está alicerçada na concepção de desenvolvimento e
aprendizagem como processos, na ideia de que não se constróem • Como um indivíduo se desenvolve e aprende na infância,
conhecimentos significativos de forma cumulativa e no pressuposto de na adolescência e na fase adulta?
que os conhecimentos se produzem nas interações e vivências, em
• Como a biologia, a sociologia, a psicologia, a antropologia,
empreendimentos, na busca de respostas às perguntas que os
enfim, as diversas áreas do conhecimento vêm abordando
educandos se fazem.
essas fases de formação próprias da vida humana?
À medida que a reforma na educação básica se consolida,
• Que interferência exercem as dimensões cognitivas, corpo-
percebe-se que a tarefa de coordenar processos de desenvolvimento e
rais, sociais, culturais e emocionais, bem como as múltiplas
aprendizagem é extremamente complexa e exige, já a partir da própria
dimensões existenciais, na construção dos conhecimentos
educação infantil, profissionais com formação superior. Esse, aliás,
dos educandos?
parece ter sido o entendimento dos legisladores quando escreveram o
art. 62 da LDB, apesar de este continuar admitindo a formação em nível É preciso, então, imaginar a formação de um profissional que
médio, na modalidade Normal, como a exigência mínima para exercício tenha vivências na escola básica, desde a infância, com a adolescência
do magistério na educação infantil e nas quatro primeiras séries do e jovens/adultos, e conheça seu cotidiano, suas construções, sua
Ensino Fundamental. realidade.

Se, por um lado, é possível admitir-se que a concepção de É interessante conceber um profissional que, ao assumir seu
educação básica se tornou mais avançada na legislação atual, por trabalho com alunos adolescentes, por exemplo, possa compreender
outro, quanto à obrigatoriedade desse nível da educação escolar, os questões da infância e da fase adulta, pois, apesar de agir em um
progressos ainda são pequenos, pois o Ensino Fundamental é o único momento específico da escolarização, essa etapa faz parte de um
assegurado pelo Estado (LDB, art. 32). A Educação Infantil e o Ensino conjunto maior: a educação básica.
Médio, ainda que desejáveis para o conjunto da população, continuam É importante, ainda, pensar a formação de um professor que
sendo facultativos para uma grande maioria. compreenda os fundamentos das ciências e revele uma visão ampla
Segundo o art. 32 da LDB, a educação fundamental passa a ter dos saberes.
duração mínima de oito anos e está voltada para a formação básica do Segundo um grupo de professores da Universidade de Brasília –
cidadão. UnB, em um documento sobre formação docente, as “licenciaturas
Esse nível de ensino escolar pode organizar-se de diferentes estão condenadas à interdisciplinaridade”. Para tanto, ao contrário do
modos e, com isso, superar a clássica separação entre as quatro que se pensa, o profissional deve realizar estudos aprofundados em
primeiras séries do Ensino Fundamental e seus quatro anos uma área específica do conhecimento e, paralelamente, contemplar as

Professor Pedagogo 20 A Opção Certa Para a Sua Realização
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reflexões sobre o ensino-aprendizagem dos conceitos mais atividades, ou seja, é necessário haver uma articulação – entendida,
fundamentais dessa área. Em termos da atuação profissional, significa aqui, como junção, fusão, união – da formação docente com a pesquisa
projetar alguém que trabalhe preferencialmente em uma determinada – compreendida como processo de produção do conhecimento.
área do conhecimento escolar, a que se dedique mais, mas que,
Concretamente, isso significa que as universidades devem
necessariamente, esteja em contato permanente com outros campos
assumir a formação do “professor investigador”, um profissional dotado
do saber.
de uma postura interrogativa e que se revele um pesquisador de sua
Além disso, é fundamental investir na formação de um professor própria ação docente.
que tenha vivenciado uma experiência de trabalho coletivo e não
A formação do “professor investigador”, para Magda Becker
individual, que se tenha formado na perspectiva de ser reflexivo em sua
Soares, deve resultar da vivência do licenciando, durante sua trajetória
prática, e que, finalmente, se oriente pelas demandas de sua escola e
na universidade, da pesquisa como processo, o que faz com que o
de seus alunos, e não pelas demandas de programas predeterminados
futuro professor não só aprenda mas também apreenda o processo de
e desconectados da realidade escolar. É fundamental criar, nos cursos
investigação e, o mais importante, incorpore a postura de investigador
de licenciatura, uma cultura de responsabilidade colaborativa quanto à
em seu trabalho cotidiano na escola e na sala de aula.
qualidade da formação docente.
Para que tal formação aconteça efetivamente, a mesma
Para isso, a familiaridade com os processos e os produtos da
professora ressalta a importância de os professores-pesquisadores das
pesquisa científica torna-se imprescindível na formação docente. A
universidades, formadores de educadores, assumirem, também, uma
imersão dos futuros educadores em ambientes de produção científica
postura investigativa no que diz respeito à sua própria ação docente.
do conhecimento possibilita-lhes o exame crítico de suas atividades
docentes, contribuindo para aumentar sua capacidade de inovação e Por desempenharem, nessas instituições, o papel de produtores
para fundamentar suas ações. É o mergulho em tal atividade que do conhecimento, eles têm condições de ultrapassar a função de
permite a mudança de olhar do futuro docente em relação aos simples mediadores entre a ciência, o conhecimento, os produtos da
processos pedagógicos em que se envolve na escola, à maneira de pesquisa e o licenciando.
perceber os educandos e suas aprendizagens, ao modo de conceber e Assim sendo, as instituições formadoras do professor da escola
desenvolver o seu trabalho em sala de aula. básica devem estar atualizadas nos resultados da pesquisa em sua
Pesquisa: Imperativo ou aperitivo na formação profissional área, para poderem trabalhar o conhecimento, em sala de aula, no
docente? estado em que ele se encontra e no momento em que ele está sendo
ensinado. Devem estar, também, atualizadas nos processos de
Em discussão recente sobre a formação docente4, realizada na
aprendizagem desse conhecimento específico. Quem forma o professor
UFMG, intelectuais brasileiros e estrangeiros, de reconhecida produção
– tanto a instituição quanto as pessoas – precisa estar diretamente
acadêmica no campo educacional, expuseram a necessidade de uma
envolvido com a atividade de pesquisa. Os formadores precisam ser,
articulação efetiva entre pesquisa, formação inicial e formação
também, pesquisadores, para poderem tratar o conteúdo como um
continuada dos profissionais da educação. Um dos consensos
momento no processo de construção do conhecimento, ou seja,
resultantes desse debate foi o reconhecimento de que as universidades
trabalhar o conhecimento como objeto de indagação e investigação.
e as demais instituições de ensino superior precisam repensar seu atual
Precisam ser, finalmente, investigadores de sua própria ação de
modelo de formação de professores e buscar, segundo definiu Carlos
formadores, dos processos de aprendizagem que ocorrem durante o
Jamil Cury, uma nova cultura institucional das licenciaturas.
processo de formação, investigadores de seu próprio processo de
Essa noção de nova cultura institucional dos cursos de formação ensino.
de professores deve ser entendida como a capacidade de as
A propósito, Fernando Hernández acrescenta que todo programa
universidades, especialmente as públicas, responderem, de maneira
de formação de educadores deve constituir-se em objeto de pesquisa
qualitativa, aos desafios propostos pela nova conjuntura política e
na instituição formadora. Projetos de investigação sobre a formação
socioeconômica brasileira. De acordo com o professor acima referido,
docente permitem não só refletir sobre a preparação que está sendo
cabe às universidades públicas assumir o desafio e o compromisso
realizada nessas instituições, mas, fundamentalmente, reconstruir a
social de formar, de maneira diferenciada, profissionais da educação
proposta de formação delas. O professor Hernández lembra ainda que
capazes de atuar como agentes de mudança na escola básica, no
a avaliação assume um papel essencial nesse tipo de pesquisa e
Brasil.
constitui um componente importante na reconstrução do próprio
Concordando com esse ponto de vista, Magda Becker Soares processo de formação de professores.
ressaltou que as universidades cumprem sua função pública ao
O princípio da pesquisa como um imperativo na formação
preparar um tipo diferenciado de professor, e não, necessariamente, ao
docente propõe questões importantes a respeito da definição do lócus
atender às demandas de mercado. Na opinião dessa professora, as
de preparação dos profissionais da educação no Brasil. Esse tem sido
universidades, na qualidade de instituições de ensino, pesquisa e
um tema polêmico nas atuais discussões sobre a formação de
extensão, devem formar professores, sem contudo dissociar essas
professores.

Professor Pedagogo 21 A Opção Certa Para a Sua Realização
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O LOCUS DA FORMAÇÃO DOCENTE são definidos como instituições de pesquisa, ensino e extensão, de que
modo os ISE contemplam o princípio da articulação entre investigação
A lei no 9.394/96, conforme estabelecido no art. 62, autoriza
científica, formação inicial e formação continuada dos profissionais da
apenas duas instituições para promover a formação dos profissionais
educação? Uma vez que a pesquisa não faz parte de seu cotidiano,
da educação básica no Brasil: as universidades e os Institutos
como esses institutos vão cumprir aquilo que os define como centros
Superiores de Educação. A novidade são esses institutos, recém-
“produtores do conhecimento referente ao processo de ensino e de
criados no cenário educacional brasileiro e inspirados em modelos de
aprendizagem e à educação escolar como um todo”?
formação docente de outros países. A essa nova instituição foi
destinado todo um artigo da LDB, o art. 63, com três incisos, no qual se Finalmente, os novos cursos de formação de professores no
estabelece que programas de formação inicial e continuada de Brasil deverão ser organizados com base em diretrizes curriculares
profissionais para a educação básica, em todos os níveis, também nacionais, de acordo com o estabelecido na LDB. Apesar de tais
devem ser mantidos por ela. Além disso, dois pareceres – CP no 53/99 referências para os cursos que preparam os profissionais da educação
e CP no 115/99 – foram aprovados pelo Conselho Nacional da ainda não estarem concluídas, são apresentados alguns comentários
Educação (CNE), e sugerem diretrizes gerais para os Institutos sobre o processo de construção dessas diretrizes e algumas tendências
Superiores de Educação (ISE). que já se observam.

O último parecer emitido pelos conselheiros do CNE – CP no
115/ 99 – define os Institutos Superiores de Educação como
DIRETRIZES CURRICULARES
(...) centros formadores, disseminadores, sistematizadores e PARA OS CURSOS DE FORMAÇÃO DOCENTE
produtores do conhecimento referente ao processo de ensino e de
Antes mesmo de que a LDB fosse sancionada, a lei no 9.131/95,
aprendizagem e à educação escolar como um todo, destinados a
que criou o Conselho Nacional de Educação – CNE, já explicitava,
promover a formação geral do futuro professor da educação básica.
entre as atribuições desse órgão, a deliberação sobre as diretrizes
De acordo com a interpretação dos conselheiros dessa curriculares para os cursos de Graduação (art. 9, parágrafo 2, alínea c).
instituição do art. 62 da LDB, “as licenciaturas mantidas fora das A regulamentação dessa ideia de diretrizes aconteceu, então, com a
universidades e centros universitários devem ser incorporadas a aprovação da LDB, que estabeleceu como um dos deveres das
institutos superiores de educação”. Assim sendo, apesar de não estar universidades “fixar os currículos dos seus cursos e programas,
vedada às instituições universitárias a organização desses institutos em observadas as diretrizes gerais pertinentes” (art. 53, inciso II). Além
seu interior, os ISE foram pensados como um locus de formação disso, a nova LDB, em seu art. 48, acabou com a vinculação entre
docente para funcionamento fora das universidades. certificados de conclusão de curso e exercício profissional, definindo
que os diplomas se constituem apenas em prova da formação recebida
Como se sabe, em decorrência da expansão do ensino superior
por seus titulares. Consequentemente, a figura do currículo mínimo,
brasileiro sobretudo por via da iniciativa privada, há muito essa
instrumento legal que determinou a organização dos cursos superiores
formação vem se desenvolvendo em instituições não-universitárias, por
no Brasil a partir da lei 5.540/71 e conduziu os concluintes desses
meio de cursos de preparação docente de qualidade bastante
cursos a diplomas profissionais, foi revogada com a nova lei.
questionável, que, com raríssimas exceções, se limitam a reproduzir, de
maneira empobrecida e piorada, os modelos de formação de Segundo interpretação dos conselheiros do CNE, expressa no
professores das universidades. parecer CES no 776/97, o espírito da nova LDB está voltado para uma
maior flexibilidade na organização dos cursos na educação, em geral, e
Nessas instituições, conhecidas como “faculdades isoladas”,
no Ensino Superior em particular. Dessa maneira, os currículos
comprova-se uma extrema dificuldade em formar profissionais que
mínimos e sua excessiva rigidez foram considerados extemporâneos,
atuem em todas as áreas do conhecimento escolar, particularmente nas
algo que atrapalharia as instituições na busca de inovações e
ciências naturais – biologia, física e química –, pois, nelas, são os
diversificações em suas propostas curriculares. Nos termos desse
gastos com a manutenção de cursos que determinam as áreas que
parecer, “toda a tradição que burocratiza os cursos (...) se revela
devem ser privilegiadas.
incongruente com as tendências contemporâneas de considerar a boa
Sendo assim, novamente perguntar-se-ia: qual é a diferença formação no nível de graduação como uma etapa inicial da formação
entre as atuais “faculdades isoladas” e os novos “Institutos Superiores continuada”.
de Educação”?
Em 3 de dezembro de 1997, a Secretaria de Educação Superior
Estão esses “institutos” apenas legitimando as “faculdades do Ministério da Educação – SESu/MEC publicou o edital SESu no 4,
isoladas” como um dos espaços destinados à formação docente no convidando as diferentes organizações, entidades e instituições a
país? Ou são os ISE uma versão revista e atualizada dos Centros de enviar propostas de diretrizes curriculares para os cursos de graduação
Formação e Aperfeiçoamento do Magistério (Cefams)? Os ISE superior. Para análise e sistematização dessas propostas, a SESu/MEC
representam a desejada solução para a carência de profissionais compôs uma comissão de especialistas por curso de graduação, com
habilitados para todas as áreas do conhecimento escolar? Já que não base em indicação de nomes pelas instituições. Todavia não foi criada

Professor Pedagogo 22 A Opção Certa Para a Sua Realização
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uma comissão que se responsabilizasse por diretrizes curriculares resolvidos, na verdade, com a implantação de mudanças drásticas na
comuns a todas as licenciaturas. Como consequência, as versões finais atual condição do profissional da educação.
dos documentos dos cursos que, além do bacharelado, têm a
Ao mesmo tempo, fazem-se necessários estudos e pesquisas
licenciatura contemplaram distintas concepções da formação de
que respondam a questões essenciais, como “O que é formar
professores.
professores?” ou “Como formar professores?”. Além disso, as
Esses documentos usaram diferentes termos para se referir às universidades e demais instituições de ensino superior precisam
licenciaturas – entre outros, curso, modalidade, módulo e habilitação –, continuar trocando informações e buscando, em experiências mais
o que denota, na verdade, divergências epistemológicas em relação à significativas, a chave para as questões que dizem respeito aos cursos
formação dos profissionais da educação. No caso da matemática, por de formação docente no país.
exemplo, foram construídas duas diretrizes curriculares: uma para a
licenciatura, outra para o bacharelado. Já na química, apesar de os
especialistas escreverem um único documento, a licenciatura foi LEGISLAÇÃO
explicitamente considerada um curso com características próprias. Por DISPOSITIVOS CONSTITUCIONAIS E DA LDB
outro lado, a maior parte dos documentos considerou a licenciatura
uma modalidade, um módulo ou uma habilitação. Nesse caso, a ênfase A educação é direito de todos e dever do Estado e da Família.
recaiu na formação do bacharel. Curiosamente, em alguns desses Deve ser promovida e incentivada com a colaboração da sociedade
mesmos documentos previa-se a preparação dos professores em (Art. 205 da Constituição Federal).
determinada área do conhecimento, porém, sem uma formação básica A educação abrange os processos formativos que se
em educação! desenvolvem;
Quando o processo de construção das diretrizes curriculares já • na vida familiar
estava bastante avançado na maioria das comissões de especialistas, a
• na convivência humana
SESu/MEC resolveu nomear um “grupo-tarefa”, composto por cinco
professores ligados à área de educação, com a finalidade de elaborar • no trabalho
um documento norteador para as diretrizes curriculares das
• nas instituições de ensino e pesquisa
licenciaturas.
• os movimentos sociais e organizações da sociedade civil
Nessa oportunidade, as instituições não foram solicitadas a
indicar nomes para esse grupo, nem a enviar propostas para serem • nas manifestações culturais (LDB art. 1º).
analisadas e sistematizadas. Na estratégia montada por essa A finalidade da educação escolar é:
secretaria, tal documento deveria ser encaminhado a um outro grupo de
• o desenvolvimento pleno do educando,
professores, de áreas específicas, que se encarregaria de coordenar a
construção das diretrizes das licenciaturas em cada uma dessas áreas, • o preparo para o exercício da cidadania
responsabilizando-se por articular o texto produzido pelo “grupo-tarefa”
• a qualificação para o trabalho (LDB, art. 2º)
e as diretrizes das comissões de especialistas.
O ensino, na educação brasileira, é orientado por 7 princípios:
Espera-se que, apesar de muito tardio e de seguir um trajeto
diferente daquele realizado pelas comissões de especialistas, esse • igualdade de condições para o acesso e permanência na
processo de construção das diretrizes curriculares dos cursos de escola,
formação de professores consiga promover mudanças significativas nas
• liberdade de aprender, ensinar, pesquisar e divulgar o pen-
licenciaturas.
samento, a arte e o saber,
E que, enfim, essas alterações representem uma superação do
• pluralismo de ideias e de concepções pedagógicas e coe-
atual modelo de preparação dos profissionais da educação e um salto
xistência de instituições públicas e privadas de ensino,
qualitativo para a formação docente no país.
• gratuidade do ensino público em estabelecimentos oficiais,
Formar professores é uma tarefa bastante complexa. Justamente
por isso, não são medidas simplistas e banalizadoras, apresentadas • valorização dos profissionais do ensino, garantidos, na for-
como uma fórmula mais eficiente e produtiva de preparar os ma da lei, planos de carreira para o magistério público, com
profissionais da educação, que irão resolver os problemas atuais das piso salarial profissional e ingresso exclusivamente por
licenciaturas. Ademais, a não-valorização do profissional da educação, concurso público de provas e títulos,
os salários aviltantes, as precárias condições de trabalho e a falta de • gestão democrática do ensino público, na forma da lei,
um plano de carreira para a profissão continuam sendo questões
• garantia de padrão de qualidade (art. 206 da CF).
fulcrais sem solução, que afetam diretamente a formação docente no
Brasil. Os problemas centrais das licenciaturas apenas serão

Professor Pedagogo 23 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
O Estado tem o dever de garantir: Para garantir a equalização e o padrão de qualidade do ensino,
compete-lhe dar assistência técnica e financeira aos Estados, ao
• ensino fundamental inclusive para aqueles que não tiveram
Distrito Federal e aos Municípios (art. 211 da CF e art. 9º da LDB).
acesso a ele na idade própria,
Os Estados e o Distrito Federal têm como campo de atuação
• universalização progressiva do ensino médio gratuito,
prioritária o ensino fundamental e o ensino médio, devem dar
• atendimento educacional especializado aos portadores de assistência técnica e financeira aos Municípios quanto ao ensino
deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino, fundamental e à educação infantil (art. 30, VI da CF).
• atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a Os Municípios:
seis anos de idade,
• têm como campo de atuação prioritária o ensino fundamen-
• acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e tal e a educação infantil;
da criação artística, segundo a capacidade de cada um,
• devem manter, com a cooperação técnica e financeira da
• ensino regular noturno, adequado às condições do edu- União e dos Estados, programas de educação pré-escolar
cando, e ensino fundamental (art. 30, VI da CF);
• programas suplementares de material didático-escolar, • podem atuar em níveis ulteriores (médio e superior) quando
transporte, alimentação e assistência à saúde (art. 208 da o ensino fundamental e a educação infantil estiverem ple-
CF). O acesso ao ensino obrigatório e gratuito é direito pú- namente atendidos e forem utilizados recursos que estejam
blico subjetivo além dos mínimos vinculados pela Constituição Federal à
• o não atendimento integral desse direito importa em res- manutenção e desenvolvimento do ensino (25% da receita
ponsabilidade da autoridade competente (crime de respon- de impostos, incluídos os de transferência) (LDB, art. 11,
sabilidade): da autoridade pública pela não oferta e atendi- V).
mento e dos pais por não matricular ou permitir aos filhos O ensino público na educação básica é gerido
frequentar a escola (art. 208, § 1º e 2º da CF); democraticamente, incluindo nas formas dessa gestão:
• qualquer cidadão, grupo de cidadãos, associação comuni- • a participação dos profissionais da educação na elaboração
tária, organização sindical, entidade de classe ou outra legi- do projeto pedagógico da escola
timamente constituída e o Ministério Público acionar o Po-
• a participação da comunidade escolar e local nos conse-
der Público para exigi-lo (art. 5º da LDB).
lhos escolares ou equivalentes (art. 14 da LDB).
O poder público deve recensear os educandos no ensino
Os estabelecimentos públicos de educação básica possuem
fundamental, fazer a chamada deles e zelar para que frequentem a
graus de autonomia pedagógica, administrativa e de gestão financeira
escola, envolvendo nessa tarefa, os pais e responsáveis (art. 208, § 3º
progressivamente maiores, que lhes asseguram os sistemas de ensino
da CF).
(art. 15 da LDB).
Os sistemas de ensino devem ser organizados em regime de
As instituições de ensino se classificam em
colaboração. União, Estados, Distrito Federal e Municípios tem (ou
terão) sistemas de ensino. • públicas (as criadas, incorporadas, mantidas e administra-
das pelo Poder Público
• os sistemas de ensino têm liberdade de organização
• privadas (as mantidas e administradas por pessoa física ou
• os Municípios podem optar por se integrar aos sistema es-
jurídica de direito privado):
tadual ou compor, com ele, um sistema único de educação
básica (Art. 11, V, parágrafo único da LDB) • particulares em sentido estrito

A União: • comunitárias (as que incluem em sua entidade mantenedo-
ra representantes da comunidade)
• coordena a política nacional de educação, articulando os
sistemas e os níveis de ensino; • confessionais (as que atendem a orientação confessional e
ideologia específica e tenham representantes da comuni-
• organiza o sistema federal,
dade em sua entidade mantenedora) filantrópicas (defini-
• financia as instituições de ensino públicas federais; das pela lei) (LDB, art. 20). O ensino é financiado com re-
• exerce função normativa, redistributiva e supletiva, de tal cursos de impostos:
forma que garanta equalização das oportunidades educaci- • a União aplica, no mínimo, 18% da receita resultante de
onais e padrão mínimo de qualidade do ensino; impostos os Estados, o DF e os Municípios aplicam, no mí-

Professor Pedagogo 24 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
nimo, 25% da receita de impostos, inclusive transferências • redução das desigualdades sociais e regionais no tocante
(art. 212 da CF). ao acesso e à permanência, com sucesso, na educação
pública;
Os programas de alimentação e assistência à saúde do
educando são mantidos com recursos de contribuições sociais e outros • democratização da gestão do ensino público, nos estabele-
orçamentários, vedada a utilização nessas atividades de parcela dos cimentos oficiais.
percentuais mínimos de impostos destinados à manutenção e
Esses objetivos serão buscados, ao longo do tempo, atendendo
desenvolvimento do ensino (art. 212, § 4º da CF).
a prioridades em função da capacidade administrativa e financeira,
Os recursos públicos são aplicados nas escolas públicas, tendo em vista, sempre, a necessidade de atender a todos os objetivos
podendo ser dirigidos a esolas comunitárias, confessionais ou e metas estabelecidos em cada nível e modalidade de ensino e no
filantrópicas (obedecidas quatro condições estabelecidas no art. 77 da capítulo sobre o magistério da educação básica, da forma mais ampla
LDB) e a bolsas de estudo para a educação básica (segundo restrições possível. As prioridades definidas pelo PNE são:
legais, § 1º do art. 77, IV da LDB) .
• garantia de ensino fundamental obrigatório de oito anos a
II - Indicadores do cenário educacional brasileiro: todas as crianças de 7 a 14 anos, assegurando o seu in-
gresso e permanência na escola e a conclusão desse nível
• 18 milhões de pessoas com 15 anos e mais que não sa-
de ensino;
bem ler e escrever - 12% da população
• garantia de ensino fundamental a todos os que a ele não ti-
• 1 milhão e 140 mil crianças de 7 a 14 anos estão fora da
veram acesso na idade própria ou que não o concluíram;
escola - 4% da população nessa faixa etária
• ampliação do atendimento nos demais níveis de ensino - a
• 8 milhões e 400 mil crianças são reprovadas a cada ano no
educação infantil, o ensino médio e a educação superior;
ensino fundamental obrigatório - 23,4% dos alunos
• valorização dos profissionais da educação;
• 4 milhões e 300 mil crianças matriculadas no ensino obriga-
tório abandonam a escola a cada ano, não voltando a ela • desenvolvimento de sistemas de informação e de avaliação
no ano seguinte -12% dos alunos em todos os níveis e modalidades de ensino.

• 44% dos alunos do ensino fundamental estão com idade
superior (em geral) ou inferior (a minoria) à série que lhes
LEGISLAÇÃO EDUCACIONAL
corresponde
A declaração do Direito à Educação aparece no artigo 6º da
• a escolaridade média do brasileiro é de 6,5 anos de estudo,
Carta Magna: “São direitos sociais a educação, (...) na forma desta
inferior ao mínimo obrigatório, que é de 8 anos
Constituição”, onde pela primeira vez em nossa história Constitucional,
• 10% das crianças de 0 a 3 anos têm acesso a uma creche explicita-se a declaração dos Direitos Sociais, destacando-se, com
primazia, a educação.
• 48% das crianças de 4 a 6 anos frequentam um estabele-
cimento de educação pré-escolar Na artigo 205, afirma-se que: “A educação, direito de todos e
dever do Estado e da família]”.
• 45,2% dos jovens entre 15 e 17 anos estão matriculados no
ensino médio - 3.565 mil alunos. No 206, especifica-se que: “O ensino será ministrado com base
nos seguintes princípios:”(...) IV gratuidade do ensino público nos
• o ensino médio tem 8,2 milhões de alunos, sendo a maior
estabelecimentos oficiais.” Inova-se a formulação da gratuidade,
parte deles com idade superior à correspondente a esse
assegurando-a em todos os níveis, ampliando-a para o ensino médio,
nível de ensino - 54,8%
tratada nas Constituições anteriores como exceção e, também, para o
• a taxa de repetência no ensino médio é de 18,7% - ensino superior, nunca contemplada em Cartas anteriores.
1.452.000 alunos a cada ano 528 mil alunos do ensino mé-
O artigo que detalha o Direito à Educação é o 208, formulado nos
dio abandonam o curso a cada ano.
seguintes termos:
III - Para mudar esse quadro
“O dever do Estado para com a educação será efetivado
O Plano Nacional de Educação estabeleceu 4 objetivos gerais mediante a garantia de:
que sinalizam para um panorama educacional recuperado das atuais
I - ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os
mazelas:
que a ele não tiveram acesso na idade própria;
• elevação global do nível de escolaridade da população;
II - progressiva extensão da obrigatoriedade e gratuidade ao
• melhoria da qualidade do ensino em todos os níveis; ensino médio;

Professor Pedagogo 25 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
III - atendimento educacional especializado aos portadores de não de assistência social. Entretanto, há um problema indiretamente
deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino; gerado por esse processo: ao se incorporar este nível de ensino ao
sistema educacional, as despesas decorrentes passam a ser
IV - atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a
consideradas como de “manutenção e desenvolvimento do ensino”,
seis anos de idade;
sem que, ao mesmo tempo, se aporte um percentual maior da receita
V - acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da de impostos para a educação, tendência agravada pelo FUNDEF (Lei
criação artística, segundo a capacidade de cada um; 9424/96), que concentra recursos no ensino fundamental.
VI - oferta de ensino noturno regular, adequada às condições do O inciso VI, “oferta de ensino noturno regular, adequado às
educando; condições de cada um”, é o reconhecimento do dever do Estado para
VII - atendimento ao educando, no ensino fundamental, através com o ensino noturno, dispositivo de grande relevância, pois garante,
de programas suplementares de material didático escolar, transporte, ao jovem e ao adulto trabalhador, a possibilidade de frequentar o ensino
alimentação e assistência à saúde.” regular, além de especificar a necessidade de adequação deste ensino
“às condições de cada um”.
A primeira novidade aparece no inciso I, ao precisar que o
dever do Estado para com o ensino estende-se mesmo aos que “a ele O inciso VII, trata do “atendimento ao educando, no ensino
não tiveram acesso na idade própria.” Este Texto aperfeiçoa o de fundamental, através de programas suplementares de material didático
1967/69, que especificava a gratuidade e obrigatoriedade dos 7 aos 14 escolar, transporte, alimentação e assistência à saúde”. Nos Textos
anos, criando a possibilidade de se restringir o atendimento aos anteriores, esta prescrição era remetida para a parte de assistência ao
indivíduos fora desta faixa etária. Avança, também, ao especificar o estudante. Incorpora-se ao rol de deveres do Estado relativos à
atendimento dos que não mais se encontram na idade considerada garantia do Direito à Educação, pois, para parcelas significativas do
“ideal” para o ensino fundamental. alunado, tais serviços são pré-requisito para a frequência à escola.
Tem-se teorizado sobre a necessidade de uma efetiva concepção de
No inciso II, retoma-se um aspecto importante do Texto de 1934, gratuidade que comporte tais encargos. Melchior (1979:202) formulou a
que aponta a perspectiva de “progressiva extensão da gratuidade e noção de “gratuidade ativa”, como aquela em que, além da escola
obrigatoriedade do ensino médio.” gratuita, garantiria estes serviços, chegando-se mesmo à uma bolsa-
Este dispositivo (re)equacionou o debate sobre esse ensino para salário que remuneraria os “salários não recebidos” pelos estudantes.
além da polaridade ensino propedêutico x profissional. A ideia era A garantia constitucional destes serviços, ainda que sua
ampliar o período de gratuidade/obrigatoriedade, tornando-o parte do formulação no Texto Constitucional seja incipiente, possibilita ampliar a
Direito à Educação. É a tendência mundial, decorrente do aumento dos luta pela sua efetivação, podendo, futuramente, possibilitar sua
requisitos formais de escolarização para um processo produtivo extensão de forma a abarcar os salários não recebidos..
crescentemente automatizado. Praticamente todos os países
desenvolvidos universalizaram o ensino médio, ou estão em vias de Os principais mecanismos destinados a detalhar e reforçar a
fazê-lo. importância da declaração do Direito à Educação na Carta Magna são
os três parágrafos do artigo 208.
A mencionada alteração introduzida pela EC 14, torna menos
efetivo o compromisso do Estado na incorporação futura deste nível de “O acesso ao ensino fundamental é direito público subjetivo”.
ensino à educação compulsória. Esta afirmação está contida no §1° do aludido artigo. Este
reconhecimento poupa longa discussão jurídica, presente nas obras de
A prescrição do inciso III, “atendimento especializado aos comentaristas da CF/1946, qual seja, se o Direito à Educação constituía
portadores de deficiência preferencialmente na rede regular de ensino”, direito público subjetivo, mesmo que isto não fosse explicitado como tal
especifica uma orientação mais geral em que se prioriza o atendimento na Lei Maior. Pontes de Miranda, nos seus comentários à CF/1946,
dos portadores de necessidades educativas especiais na rede regular afirma: “Quanto à estrutura do Direito à Educação, no estado de fins
de ensino. (Cf. Mazzotta, 1987:3, 5, 115 e 118) múltiplos, ou ele é um direito público subjetivo, ou é ilusório.”
No inciso IV, “atendimento em creche e pré-escola às crianças de (1953:151)
zero a seis anos de idade”, além da extensão do Direito à Educação a Quanto ao sentido da expressão “direito público subjetivo”,
essa faixa etária, abre-se a possibilidade de considerá-la como fazendo Cretella afirma que “O art. 208, §1º, da Constituição vigente não deixa a
parte da educação “básica”. Com isto, pode-se incorporar este nível de menor dúvida a respeito do acesso ao ensino obrigatório e gratuito que
ensino ao sistema regular, exigindo, portanto, sua regulamentação e o educando, em qualquer grau, cumprindo os requisitos legais, tem o
normatização na legislação educacional complementar, o que não direito público subjetivo, oponível ao Estado, não tendo este nenhuma
ocorria na vigência da Constituição anterior, pois este nível de ensino possibilidade de negar a solicitação, protegida por expressa norma
era “livre”. jurídica constitucional cogente.” (Cretella, 1993, V. 8:4418). No
Outra consequência é a mudança na concepção de creches e comentário à declaração do Direito à Educação enquanto o primeiro
pré-escolas, passando-se a entendê-las como instituições educativas e dos Direitos Sociais, afirma: “(..) todo cidadão brasileiro tem o subjetivo

Professor Pedagogo 26 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
público de exigir do Estado o cumprimento da prestação educacional, constitucional do país; enfim, não há como negar que somos uma
independentemente de vaga, sem seleção, porque a regra jurídica Federação e que temos um ordenamento jurídico que busca alcançar
constitucional o investiu nesse status, colocando o Estado, ao lado da todos os princípios do federalismo internacional.
família, no poder-dever de abrir a todos as portas das escolas públicas
6. Este Estado brasileiro, assim juridicamente construído,
e, se não houver vagas, nestas, das escolas privadas, pagando as
inviabiliza a existência de uma verdadeira Federação, que se efetiva
bolsas aos estudantes.” (Cretella, 1991, V. 2:881-2) Os dispositivos
por necessidades reais e práticas e não por simples proclamações
introduzidos permitem a exigência de cumprimento desse direito ao
jurídicas? E qual a repercussão desse modelo de Estado Federal para
Poder Público.
o setor educacional?
O §2º. do artigo 208 afirma que: “(...) o não oferecimento do
7. Comecemos pela primeira questão. A primeira consequência
ensino obrigatório pelo Poder Público, ou sua oferta irregular, importa
que apontaríamos e a que nos interessa, em particular, é a de termos a
responsabilidade da autoridade competente.” A novidade é a
União (ou pelo menos aquela “união indissolúvel”) como um ente
possibilidade de responsabilizar, pessoal e diretamente, a autoridade
federativo e autônomo, que participa do Estado Federal e que se
incumbida da oferta deste direito, e não apenas o Poder Público em
confunde, na prática, por sua longa tradição de centralização política,
geral.
com o próprio Estado Federal.
O §3º do artigo 208 prescreve que: “compete ao Poder
8. A União e os Municípios, previstos na arquitetura federativa,
Público recensear os educandos no ensino fundamental, fazer-lhes a
não têm, rigorosamente, federatividade, ou melhor, uma imanência de
chamada e zelar, junto aos pais ou responsáveis, pela frequência à
autonomia e de descentralização política plena. É uma questão de
escola.”.
ordem histórica. Nós não construímos nossa Federação a partir da
A responsabilização do Poder Público pela realização do Censo existência real dos entes federativos.
Escolar, pela chamada à matrícula e de “zelar, junto aos pais ou
9. Arquitetamos primeiro o Estado Federal para depois
responsáveis pela frequência” já constava da legislação ordinária.
prescrevermos as competências constitucionais (residuais e não
A realização de um levantamento consciencioso que procure reservadas) de seus entes. A União é descaracterizada, historicamente,
localizar o conjunto da população em idade escolar, e não apenas como ente federado por não resultar da soma de “soberanias parciais”,
aquela que já se encontra nos Sistemas de Ensino, permitirá avaliar, de isto é, da autonomia prévia e reservada dos Estados-membros. A União
fato, as necessidades de expansão da rede física, bem como soberana é que gera Estados autônomos.
dimensionar a exclusão e avaliar o perfil de escolarização da população
10. No caso dos municípios, a situação não é menos curiosa: a
de uma maneira mais acurada.
questão do poder local lembra historicamente autonomia, desde o
1. A Constituição de 1988 persegue um fim último para o Estado período colonial, mas é incompatível com o conceito doutrinário de
brasileiro, que é o de torná-lo, juridicamente, uma República Federativa. Federação. Nem teríamos, com os municípios, uma “federação de
A primeira providência jurídica nessa direção é a seguinte: a União, no municípios” nem com a União temos uma “federação de União”.
Brasil, é um componente do Estado Federal.
11. Agora, responderemos ao segundo questionamento, com
2. Não é demais afirmar que a federação brasileira não resultou, base na reflexão acima. O Estado Federal sempre tendeu à
como insistimos no presente trabalho, da união dos estados soberanos centralização política, mas a União, como ente deste Estado, por não
num Estado Federal como ocorreu com a federação norte-americana. ser, efetivamente, uma entidade federada, não centralizou, nas
Aqui, antes de proclamada a República, éramos províncias sem constituições brasileiras, notadamente a de constituição Federal de
nenhuma autonomia político-administrativa. 1988, a competência legislativa exclusiva da educação nacional.

3. A tradição republicana e constitucional consagrou a federação 12. Aliás, no caso brasileiro, a educação nacional nunca foi, a
brasileira, mas a questão central da Federação, isto é, a repartição das rigor, um monopólio do Estado Federal, pelo menos, estruturalmente, o
competências dos entes federativos e o estabelecimento de suas que não quer dizer, no entanto, que não tenha tido iniciativa de projeto
fronteiras legislativas sempre foram o nó górdio do nosso federalismo. de lei no campo educacional.

4. Assim, dizer que a organização político-administrativa da 13. Na estrutura de poder em que a educação fosse monopólio
República Federativa do Brasil compreende as quatro entidades do Estado, o caráter de abrangência repercutiria no conjunto de
federativas é uma espécie de sentença jurídica, mas seu dogma é, Ministérios, no Legislativo e no Judiciário. Destaquemos que o ensino
historicamente, destituído de sentido. Há, ainda, um processo de superior, em que pese ter sido, historicamente, priorizado pela União,
construção do modelo de Estado Federal efetivamente federativo e não caracterizou monopólio estatal posto que os Estados ofertaram, no
democrático. âmbito de sua autonomia, o ensino superior estadual.

5. Claro, no fundo, os constitucionalistas acabam por aceitar 14. Entre as constituições nacionais, a de 1988 foi a única a
todas as intenções e manifestações do modelo federativo tomar deliberadamente a Educação, enquanto dispositivo
historicamente imposto e, juridicamente posto, na evolução

Professor Pedagogo 27 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
constitucional, como um elemento tipificador da Federação, manifesta Lei nº. 9.394/96, de 20 de dezembro de 1996.
no âmbito das competências legislativas das entidades federativas.
Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB).Parecer
15. Ao nos depararmos com a norma jurídica na Constituição
Parecer CEB/CNE nº. 05/97, de 11 de março 1997.
Federal de 1988 que determina: “Compete privativamente à União
legislar sobre diretrizes e bases da educação nacional” (Artigo 22, Proposta de regulamentação da LDB nº. 9.394/96. Parecer
XXIV) poderíamos fazer duas leituras: (a) uma leitura descentralista e CEB/CNE nº. 15/98, de 1 de junho de 1998.
(b) uma leitura centralista. Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio
16. Uma leitura federalista, como quer aparentemente o texto (DCNEM). Parecer CEB/CNE nº. 01/99, de 29 de janeiro de 1999.
constitucional, e outra leitura unitarista, esta, resultante da secular Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de professores
tradição constitucional do País.[5] Em outras palavras, a educação na modalidade normal em nível de Ensino Médio.Resolução
nacional como competência exclusiva ou particular da União produziria
um regime unitarista, unilateral e autocrático, ao contrário do regime Resolução CEB/CNE nº. 03/98, de 26 de junho de 1998.
federativo em que há, como princípio, a participação dos entes Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio
federativos ou a intergovernabilidade. (DCNEM).
17. A educação enquanto matéria constitucional manifesta-se, no Resolução CEB/CNB nº. 02/99, de 19 de abril de 1999.
âmbito dos dispositivos constitucionais, sem exclusividade na matéria
Institui Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação de
por parte das entidades federativas, consequentemente, não há
docentes da Educação Infantil e dos anos iniciais do Ensino
monopólio do Estado Federal ou centralização política e, por outra
Fundamental, em nível médio, na modalidade normal. Educação a
consequência, não se fala em descentralização da educação no âmbito
DistânciaDecreto
das entidades federativas.
Decreto n.º 2.494, de 10 de fevereiro de 1998.
18. A privatividade (normas privativas), a comunilidade (normas
comuns) e a concorrencialidade (normas concorrentes) são indicativos, Regulamenta o Art. 80 da LDB (Lei n.º 9.394/96):
no âmbito das competências constitucionais, de descentralização
Decreto n.º 2.561, de 27de abril de 1998.
política, uma vez que, nessa repartição de competências, há repartição
de poder, de autoridade, posto que “na teoria do federalismo costuma- Altera a redação dos artigos 11 e 12 do Decreto n.º 2.494:
se dizer que a repartição de poderes autônomos constitui o núcleo do Portaria
conceito do Estado federal” (SILVA: 1992, p. 433).
Portaria n.º 301, de 7 de abril de 1998.

Normatiza os procedimentos de credenciamento de instituições
As leis que regem a Educação Brasileira são: para a oferta de cursos de graduação e educação profissional
PNE - PLANO NACIONAL DE EDUCAÇÃO tecnológica a distância:

ProLei - Programa de Legislação Educacional Integrada. Para Educação Profissional
pesquisas na lei a partir da LDB de 1996. Decreto
Lei de Diretrizes e Bases da EducaçãoInstituída pela Lei nº Decreto n.º 2.208, de 17 de abril de 1997.
9.394, de 20 de dezembro de 1996, promove a descentralização e a
Regulamentação da Educação Profissional:Portaria
autonomia para as escolas e universidades, além de instituir um
processo regular de avaliação do ensino. Ainda em seu texto, a LDB Portaria n.º 646, de 14 de maio de 1997.
promove autonomia aos sistemas de ensino e a valorização do
Regulamentação do disposto nos artigos 39 a 42 da LDB e no
magistério.Lei n.º 9.475, de 22 de julho de 1997.Lei nº 9.536, de 11 de
Decreto nº 2.208/97 e outras providências:
dezembro de 1997
Educação Superior
Regulamenta o parágrafo único do art. 49 da Lei nº 9.394, de 20
de dezembro de 1996Lei nº 9.131 de 24 de novembro de 1995 Estatutos e Regimentos das IES - Adaptação à LDB

Altera dispositivos da Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, Decretos
e dá outras providênciasLei nº 9.192 de 21 de dezembro de 1995
Decreto Nº 3.276, de 6 de dezembro de 1999:
Altera dispositivos da Lei nº 5.540, de 28 de novembro de 1968,
Dispõe sobre a formação em nível superior de professores para
que regulamentam o processo de escolha dos dirigentes
atuar na área de educação básica, e dá outras providências.
universitários.Educação FundamentalFundef - Fundo de Manutenção e
Desenvolvimento do Ensino Fundamental e de Valorização do Retificação do Decreto Nº 3.276
MagistérioEnsino Médio Lei
Professor Pedagogo 28 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Decreto n.º 2.306, de 19 de agosto de 1997. Definição dos procedimentos para o cumprimento do disposto no
art. 18, do Decreto nº. 2.306 (Informação da instituições de ensino
Regulamentação das instituições de ensino superior:Decreto
superior sobre condições de ensino-aprendizagem): Portaria 946, 15
2.026, de 10 de outubro de 1996:
de agosto de 1997
Estabelece procedimentos para o processo de avaliação dos
Fixa valores de recolhimento, para ressarcimento de despesas
cursos e instituições de ensino superior:
com a análise de processos de autorização de cursos de graduação e
Editais credenciamento de instituições de ensino superior:Portaria Ministerial nº
Edital SESu nº 02/97, de 8 de setembro de 1997 972 de 15 de agosto de 1997.

(instrumento convocatório à participação na consulta) Renovação das Comissões de Especialistas de Ensino:Portaria
nº 2040 de 22 de outubro de 1997:
Edital SESu nº 04/97, de 10 de dezembro de 1997.
Define critérios adicionais aos já estabelecidos na legislação
Convocação das Instituições de Ensino Superior para vigente, de organização institucional para Universidades.Portaria nº
apresentação de propostas para as novas Diretrizes Curriculares dos 2.041 de 22 de outubro de 1997:
cursos superiores:
Define critérios adicionais aos já estabelecidos na legislação
Edital SESu nº 6/99, de 29 de dezembro de 1999. vigente, de organização institucional para Centros Universitários.
Regras e prazo para as IES enviarem indicações para renovação Portaria nº 2.175, de 27 de novembro de 1997
das comissões de especialistas da SESu O Ministro de Estado da Educação e do Desporto, no uso de
Portarias suas atribuições e considerando o disposto na Lei nº 9.394, de 20 de
dezembro de 1996, na Lei nº 9.391 de 24 de novembro de 1995, e no
Portaria nº 1787, de 26 de dezembro de 1994.
Decreto nº 2020 de 10 de outubro de 1996, e considerando ainda que
Institui o Certificado de Proficiência em Língua Portuguesa para os resultados das avaliações realizadas pelo MEC constituem-se em
Estrangeiros - CELPE-Bras. indicadores de qualidade e de desempenho de cursos e instituições de
ensino superior, resolve: Portaria nº 0302, de 07 de abril de 1998
Portaria n.º 637, de 13 de maio de 1997.
Normatiza o procedimentos de avaliação do desempenho
Credenciamento de universidades
individual das instituições de ensino superior.Portaria 612, de 12 de
Portaria n.º 639, de 13 de maio de 1997. Abril de 1999.
Credenciamento de centros universitários, para o sistema federal Dispõe sobre a autorização e o reconhecimento de cursos
de ensino superior: sequenciais de ensino superior.Portaria nº 2297 de 08 de novembro de
Portaria n.º 640, de 13 de maio de 1997. 1999:

Credenciamento de faculdades integradas, faculdades, institutos Dispõe sobre a constituição de comissões e procedimentos de
superiores ou escolas superiores:Portaria n.º 641, de 13 de maio de avaliação e verificação de cursos superiores.Portaria nº 1679 de 02 de
1997. dezembro de 1999:

Autorização de novos cursos em faculdades integradas, Dispõe sobre requisitos de acessibilidade de pessoas portadoras
faculdades, institutos superiores ou escolas superiores em de deficiências, para instruir os processos de autorização e de reco-
funcionamento:Portaria n.º 752, de 2 de julho de 1997. nhecimento de cursos, e de credenciamento de instituições.

Autorização para funcionamento de cursos fora da sede em
universidades:Portaria 880, de 30 de julho de 1997 PRINCÍPIOS DA GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA
Cria Comissão Interministerial com a finalidade de definir Na história brasileira, as formas de gestão da sociedade
procedimentos, critérios, parâmetros e indicadores de qualidade para (legislação, plano de governo, medidas econômicas etc.) têm se
orientar a análise de pedidos de autorização de cursos de graduação caracterizado por uma “cultura personalista”, isto é, o poder
em Medicina, em Odontologia e em Psicologia:Portaria 877, de 30 de governamental é personalizado, como se a pessoa que detém o cargo
julho de 1997 fosse a responsável solitária pelas decisões. Quando as pessoas
Estabelece procedimentos para o reconhecimento de referem-se ao governo, elas se referem quase sempre ao presidente,
cursos/habilitações de nível superior e sua renovação: ao governador, ao prefeito. Se atrasa o salário, os professores dizem:
“O governador não nos paga”. A relação política transforma-se numa
Portaria n.º 971, de 22 de agosto de 1997.
relação entre indivíduos, em detrimento da relação entre grupos,
organizações, entidades, interesses coletivos. Com isso, as pessoas
ficam na espera de que as decisões venham “de cima”, mesmo porque
Professor Pedagogo 29 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
tem sido essa a prática das elites políticas e econômicas aprendendo a sentir-se responsáveis pelas decisões que os afetam
dominantes. num âmbito mais amplo da sociedade.

As formas convencionais de representação política (escolha de A DIREÇÃO COMO PRINCÍPIO E
representantes pelo voto) continuam em vigor, mas sabemos que as ATRIBUTO DA GESTÃO DEMOCRÁTICA
camadas populares levam desvantagem na efetivação da participação
A direção da escola, além de ser uma das funções do processo
política em relação às classes dominantes. Esses são alguns dos
organizacional, é um imperativo social e pedagógico. O significado do
obstáculos à organização dos movimentos populares e, em
termo direção, tratando-se da escola, difere de outros processos de
consequência, à participação popular nos processos decisórios,
direção, especialmente os empresariais. Ele vai além daquele de
inclusive na escola. Essa capacidade de mobilização dos grupos
mobilização das pessoas para a realização eficaz das atividades, pois
sociais economicamente privilegiados (as classes média e alta) e, por
implica intencionalidade, definição de um rumo, uma tomada de posição
outro lado, as dificuldades de mobilização das camadas populares em
frente a objetivos sociais e políticos da escola, numa sociedade
torno de seus interesses, acabam por ressaltar diferenças entre o tipo
concreta. A escola, ao cumprir sua função social de mediação, influi
de relações que as famílias de alunos das escolas particulares mantêm
significativamente na formação da personalidade humana e, por essa
com os profissionais da escola e as relações que as famílias de alunos
razão, não é possível estruturá-la sem levar em consideração objetivos
de escolas públicas com seus respectivos profissionais. Evidentemente,
políticos e pedagógicos.
as camadas populares levam aí desvantagem considerável, inibindo as
reivindicações, as práticas de participação e controle, em relação às Essa peculiaridade das instituições educativas vem do caráter de
ações praticadas pelas escolas. intencionalidade presente nas ações educativas. Intencionalidade
significa a resolução de fazer algo, dirigir o comportamento para algo
A conquista da cidadania requer um esforço dos educadores em
que tem significado para nós. A intencionalidade se projeta nos
estimular instâncias e práticas de participação popular. A participação
objetivos que, por sua vez, dão o rumo, a direção da ação. Na escola
da comunidade possibilita à população o conhecimento e a avaliação
isso leva, por parte da equipe escolar, à busca deliberada, consciente,
dos serviços oferecidos e a intervenção organizada na vida da escola.
planejada, de integração e unidade de objetivos e ações, e de um
De acordo com Gadotti e Romão, a participação influi na
consenso em torno de normas e atitudes comuns. O caráter
democratização da gestão e na melhoria da qualidade de ensino. Todos
pedagógico da ação educativa consiste precisamente na formulação de
os segmentos da comunidade podem compreender melhor o
objetivos sócio-políticos e educativo e na criação de formas de
funcionamento da escola, conhecer com mais profundidade os que nela
viabilização organizativa e metodológica da educação (tais como a
estudam e trabalham, intensificar seu envolvimento com ela e, assim,
seleção e organização dos conteúdos e métodos, a organização do
acompanhar melhor a educação ali oferecida. Entre as modalidades
ensino, a organização do trabalho escolar), tendo em vista dar uma
mais conhecidas de participação estão os Conselhos de classe –
direção consciente e planejada ao processo educacional. O processo
bastante difundidos no Brasil – e os Conselhos de Escola, Colegiados
educativo, portanto, pela sua natureza, inclui o conceito de direção. Sua
ou Comissões que surgiram no início da década de 80, funcionando em
adequada estruturação e seu ótimo funcionamento constituem fatores
vários estados.
essenciais par se atingir eficazmente os objetivos de formação. Ou
Em resumo, participação significa a intervenção dos profissionais seja, o trabalho escolar implica uma direção.
da educação e dos usuários (alunos e pais) na gestão da escola. Há
Não é preciso insistir que as práticas da gestão e da direção
dois sentidos de participação articulados entre si. Há a participação
participativas convergem para a elaboração e execução do projeto
como meio de conquista da autonomia da escola, dos professores, dos
pedagógico e assunção de responsabilidades de forma cooperativa e
alunos, constituindo-se como prática formativa, como elemento
solidária.
pedagógico, metodológico e curricular. Há a participação como
processo organizacional em que os profissionais e usuários da escola ALGUNS PRINCÍPIOS DA
compartilham, institucionalmente, certos processos de tomada de ORGANIZAÇÃO E GESTÃO ESCOLAR PARTICIPATIVA
decisão. A escola é uma instituição social que apresenta unidade em seus
No primeiro sentido, a participação é ingrediente dos próprios objetivos (sócio-políticos e pedagógicos), interdependência entre a
objetivos da escola e da educação. A escola é lugar de aprender necessária racionalidade no uso dos recursos (materiais e conceituais)
conhecimentos, desenvolver capacidades intelectuais, sociais, afetivas, e a coordenação de esforço humano coletivo. Qualquer modificação em
ética, estéticas. Mas é também lugar de formação de competências sua estrutura ou no funcionamento de um dos seus elementos, projeta-
para a participação na vida social, econômica e cultural. No segundo se como influência benéfica ou prejudicial nos demais. Por ser um
sentido, por meio de canais de participação da comunidade, a escola trabalho complexo, a organização e gestão escolar requerem o
deixa de ser uma redoma, um lugar fechado e separado da realidade, conhecimento e a adoção de alguns princípios básicos, cuja aplicação
para conquistar o status de uma comunidade educativa que interage deve estar subordinada às condições concretas de cada escola. São
com a sociedade civil. Vivendo a prática da participação nos órgãos propostos os seguintes princípios da concepção de gestão
deliberativos da escola, os pais, os professores, os alunos, vão democrática-participativa:

Professor Pedagogo 30 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
AUTONOMIA DAS ESCOLAS E DA COMUNIDADE EDUCATIVA procedimentos) do processo organizacional em que o diretor coordena,
mobiliza, motiva, lidera, delega as responsabilidades decorrentes das
A autonomia é o fundamento da concepção democrático-
decisões aos membros da equipe escolar conforme suas atribuições
participativa de gestão escolar, razão de ser do projeto pedagógico. Ela
específicas, presta contas e submete à avaliação da equipe o
é definida como faculdade das pessoas de autogovernar-se, de decidir
desenvolvimento das decisões tomadas coletivamente.
sobre seu próprio destino. Autonomia de uma instituição significa ter
poder de decisão sobre seus objetivos e suas formas de organização, Nesse princípio está presente a exigência da participação de
manter-se relativamente independente do poder central, administrar professores, pais, alunos, funcionários e outros representantes da
livremente recursos financeiros. Sendo assim, as escolas podem traçar comunidade bem como a forma de viabilização dessa participação: a
seu próprio caminho envolvendo professores, alunos, funcionários, pais interação comunicativa, a busca do consenso em pautas básicas, o
e comunidade próxima que se tornam co-responsáveis pelo êxito da diálogo intersubjetivo. Por outro lado, a participação implica os
instituição. É assim que q organização da escola se transforma em processos de gestão, os modos de fazer, a coordenação e a cobrança
instância educadora, espaço de trabalho coletivo e aprendizagem. dos trabalhos e, decididamente, o cumprimento de responsabilidades
compartilhadas dentro de uma mínima divisão de tarefas e alto grau de
Certamente trata-se de uma autonomia relativa. As escolas
profissionalismo de todos. Conforme temos ressaltado, a organização
públicas não são organismos isolados, elas integram um sistema
escolar democrática implica não só a participação na gestão mas a
escolar e dependem das políticas públicas e da gestão pública. Os
gestão da participação.
recursos que asseguram os salários, as condições de trabalho, a
formação continuada não são originados na própria escola. Portanto, o Desse modo, a gestão democrática não pode ficar restrita ao
controle local e comunitário não pode prescindir das responsabilidades discurso da participação e às suas formas externas: as eleições, as
e da atuação dos órgãos centrais e intermediários do sistema escolar. assembleias e reuniões. Ela está a serviço dos objetivos do ensino,
Isso significa que a direção de uma escola deve ser exercida tendo em especialmente da qualidade cognitiva dos processos de ensino e
conta, de um lado, o planejamento, a organização, a orientação e o aprendizagem. Além disso, a adoção de práticas participativas não está
controle de suas atividades internas conforme suas características livre de servir à manipulação e ao controle do comportamento das
particulares e sua realidade; por outro, a adequação e aplicação pessoas. As pessoas podem ser induzidas a pensar que estão
criadora das diretrizes gerais que recebe dos níveis superiores da participando quando, na verdade, estão sendo manipuladas por
administração do ensino. interesses de grupos, facções partidárias etc.

Essa articulação nem sempre se dá sem problemas. O sistema
de ensino pode estar desprovido de uma política global, pode estar mal
Envolvimento da comunidade no processo escolar
organizado e mal administrado. As autoridades podem atribuir
autonomia às escolas para, com isso, desobrigar o poder público de O princípio da autonomia requer vínculos mais estreitos com a
suas responsabilidades. Se, por sua vez, os critérios e diretrizes de comunidade educativa, basicamente os pais, as entidades e
organização são estabelecidos dentro de marcos estreitos de organizações paralelas à escola. A presença da comunidade na escola,
articulação com a sociedade. Ou, ainda, subordinando-se às diretrizes especialmente dos pais, tem várias implicações. Prioritariamente, os
dos órgãos superiores, pode acontecer que as escolas as apliquem pais e outros representantes participam do Conselho de Escola, da
mecanicamente, sem levar em conta as condições reais de seu Associação de Pais e Mestres (ou organização correlatas) para
funcionamento. Por isso mesmo, a autonomia precisa ser gerida, preparar o projeto pedagógico-curricular e acompanhar e avaliar a
implicando uma co-responsabilidade consciente, partilhada, solidária, qualidade dos serviços prestados. Adicionalmente, usufruem das
de todos os membros da equipe escolar, de modo a alcançar, práticas participativas para participarem de outras instâncias decisórias
eficazmente, os resultados de sua atividade – a formação cultural e no âmbito da sociedade civil (organizações de bairro, movimentos de
científica dos alunos e o desenvolvimento das potencialidades mulheres, de minorias étnicas e culturais, movimentos de educação
cognitivas e operativas. ambiental e outros), contribuindo para o aumento da capacidade de
fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política educacional
(Romão, 1997). Além disso, a participação das comunidades escolares
Relação orgânica entre a direção e a participação dos em processos decisórios dão respaldo a governos estaduais e
membros da equipe escolar. municipais para encaminhar ao Poder Legislativo projetos de lei que
atendam melhor às necessidades educacionais da população (Ciseski e
Esse princípio conjuga o exercício responsável e compartilhado
Romão, 1997).
da direção, a forma participativa da gestão e a responsabilidade
individual de cada membro da equipe escolar. Sob supervisão e
responsabilidade do diretor a equipe escolar formula o plano ou projeto
Planejamento das tarefas
pedagógico-curricular, toma decisões por meio de discussão com a
comunidade escolar mais ampla, aprova um documento orientador. A O princípio do planejamento justifica-se porque as escolas
partir daí, entram em ação os elementos (instrumentos e buscam resultados, as ações pedagógicas e administrativas buscam

Professor Pedagogo 31 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
atingir objetivos. Há necessidade de uma ação racional, estruturada e Esse princípio indica a importância do sistema de relações
coordenada de proposição de objetivos, estratégias de ação, interpessoais em função da qualidade do trabalho de cada educador, da
provimento e ordenação dos recursos disponíveis, cronogramas e valorização da experiência individual, do clima amistoso de trabalho. A
formas de controle e avaliação. O plano de ação da escola ou projeto equipe da escola precisa investir sistematicamente na mudança das
pedagógico, discutido e analisado publicamente pela equipe escolar, relações autoritárias para relações baseadas no diálogo e no consenso.
torna-se o instrumento unificador das atividades escolares, convergindo Nas relações mútuas entre direção e professores, entre professoras e
na sua execução o interesse e o esforço coletivo dos membros da alunos, entre direção e funcionários técnicos e administrativos, há que
escola. combinar exigência e respeito, severidade e tato humano.

A formação continuada para o desenvolvimento pessoal e DEMOCRATIZAR A GESTÃO DA EDUCAÇÃO
profissional dos integrantes da comunidade escolar
Permitir que a sociedade exerça seu direito à informação e à
A concepção democrática-participativa de gestão valoriza o participação deve fazer parte dos objetivos de um governo que se
desenvolvimento pessoal, a qualificação profissional e a competência comprometa com a solidificação da democracia. Democratizar a gestão
técnica. A escola é um espaço educativo, lugar de aprendizagem em da educação requer, fundamentalmente, que a sociedade possa
que todos aprendem a participar dos processos decisórios, mas é participar no processo de formulação e avaliação da política de
também o local em que os profissionais desenvolvem sua educação e na fiscalização de sua execução, através de mecanismos
profissionalidade. institucionais. Esta presença da sociedade materializa-se através da
incorporação de categorias e grupos sociais envolvidos direta ou
A organização e gestão do trabalho escolar requerem o
indiretamente no processo educativo, e que, normalmente, estão
constante aperfeiçoamento profissional – político, científico, pedagógico
excluídos das decisões (pais, alunos, funcionários, professores). Ou
– de toda a equipe escolar. Dirigir uma escola implica conhecer bem
seja, significa tirar dos governantes e dos técnicos na área o monopólio
seu estado real, observar e avaliar constantemente o desenvolvimento
de determinar os rumos da educação no município.
do processo de ensino, analisar com objetividade os resultados, fazer
compartilhar as experiências docentes bem sucedidas. A criação de mecanismos institucionais deve privilegiar os
organismos permanentes, que possam sobreviver às mudanças de
O processo de tomada de decisões deve basear-se em
direção no governo municipal. Os órgãos colegiados, como conselhos,
informações concretas, analisando cada problema em seus múltiplos
são os principais instrumentos.
aspectos e na ampla democratização das informações Este
princípio implica procedimentos de gestão baseados na coleta de dados Alguns elementos facilitam a implantação de medidas de
e informações reais e seguras, na análise global dos problemas (buscar democratização da gestão: a educação é uma política de muita
sua essência, suas causas, seus aspectos mais fundamentais, para visibilidade, atingindo diretamente grande parte das famílias e não é
além das aparências). Analisar os problemas em seus múltiplos difícil mobilizar profissionais, pais e alunos.
aspectos significa verificar a qualidade das aulas, o cumprimento dos
É necessário que os mecanismos de democratização da gestão
programas, a qualificação e experiência dos professores, as
da educação alcancem todos os níveis do sistema de ensino. Devem
características sócio-econômicas e culturais dos alunos, os resultados
existir instâncias de participação popular junto à secretaria municipal de
do trabalho que a equipe se propôs a atingir, a saúde dos alunos, a
educação, junto a escolas e, onde for o caso, em nível regional.
adequação de métodos e procedimentos didáticos etc. A
Também é possível imaginar instâncias de participação especializadas,
democratização da informação implica o acesso de todos às
correspondentes aos diferentes serviços de educação oferecidos
informações e canais de comunicação que agilizem a tomada de
(creches, ensino de primeiro e segundo graus, alfabetização de adultos,
conhecimento das decisões e de sua execução.
ensino profissionalizante). Em qualquer instância, os mecanismos
institucionais criados devem garantir a participação do mais amplo
leque de interessados possível. Quanto mais representatividade houver,
Avaliação compartilhada
maior será a capacidade de intervenção e fiscalização da sociedade
Todas as decisões e procedimentos organizativos precisam ser civil.
acompanhados e avaliados, a partir do princípio da relação orgânica
DIFICULDADES
entre a direção e a participação dos membros da equipe escolar. Além
disso, é preciso insistir que o conjunto das ações de organização do Os governos municipais, mesmo quando desejam, muitas vezes
trabalho na escola estão voltados para as ações pedagógico-didáticas, não conseguem transformar em ações concretas as diretrizes políticas
em função dos objetivos básicos da escola. O controle implica uma de ampliação da participação popular na gestão municipal. Há uma
avaliação mútua entre direção, professores e comunidade. série de dificuldades, de caráter geral (descaso da população, conflitos
de interesses, manipulação de grupos da sociedade, problemas de
Relações humanas produtivas e criativas assentadas na
comunicação, etc.). No caso específico da educação, adicionam-se
busca de objetivos comuns

Professor Pedagogo 32 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
dificuldades como o desconhecimento das discussões e questões diversos atores sociais envolvidos. As ações empreendidas passam a
colocadas frente à política de educação do município. É necessário um patamar de legitimidade mais elevado.
conseguir que pais, funcionários e outros atores envolvidos disponham
A criação de instâncias participativas na gestão da educação
de capacitação técnica mínima para participar do processo de
diminui os lobbies corporativistas, por aumentar a capacidade de
planejamento e avaliação. Momentos especiais de formação dos
fiscalização da sociedade civil sobre a execução da política
representantes populares devem fazer parte das atividades normais
educacional. Força um aumento da transparência das ações do
dos órgãos.
governo municipal, através da ampliação do acesso à informação.

Como a educação é uma política e um serviço público de grande
O PAPEL DOS CONSELHOS NA EDUCAÇÀO visibilidade, a democratização de sua gestão traz resultados positivos
para a ampliação da cidadania, por oferecer a um grande contingente
Os Conselhos Escolares são constituídos por uma representação
de cidadãos a oportunidade de participar da gestão pública.
paritária de pais, professores, alunos e funcionários. Têm a função de
adequar as diretrizes e metas estabelecidas pelo Sistema Municipal de O governo municipal pode valer-se da estrutura do sistema de
Educação às necessidades específicas de cada escola. gestão democrática da educação para ampliar sua capacidade de
comunicação com a população. Neste ponto, os Conselhos de Escolas,
As Comissões Regionais de Educação receberam a atribuição de
por atingirem diretamente grande parte das famílias, têm papel
avaliar o ensino municipal de cada região político-administrativa e
fundamental.
formular propostas de diretrizes e metas para o Sistema Municipal de
Educação. São compostas por representantes dos Conselhos A democratização da gestão da educação atua sempre como um
Escolares, das Escolas Comunitárias e das organizações populares reforço da cidadania, constituindo-se em fator de democratização da
voltadas à defesa do direito à educação. gestão municipal como um todo.

A Conferência Municipal de Educação conta com representação A obtenção destes resultados, no entanto, depende da vontade
da prefeitura, Legislativo Municipal, grêmios estudantis, associações de política da administração de ampliar os espaços de participação da
pais, organizações não-governamentais, sindicatos e associações. sociedade na gestão municipal. Depende, também, da adoção de
Como tem caráter deliberativo, é responsável pela formulação das outras medidas visando a democratização do ensino. Um governo que
diretrizes para a política educacional e a avaliação dos resultados da não se preocupar com estes dois pontos dificilmente conseguirá
sua implementação. As diretrizes, formuladas a partir de propostas de implantar um verdadeiro sistema de gestão democrática da educação.
todos os atores envolvidos, são sistematizadas pelos técnicos da
prefeitura. A primeira Conferência, realizada em outubro de 1993,
empreendeu uma discussão estratégica sobre a melhoria da qualidade A AVALIAÇÃO DO PLANO DE GESTÃO ESCOLAR E
do ensino da rede pública municipal, aberta a todos os interessados. DO PROJETO PEDAGÓGICO

O Conselho Municipal de Educação é constituído por uma A avaliação do Plano de Gestão Escolar deve ser tarefa coletiva
representação paritária dos Poderes Públicos e da sociedade civil. É da direção, equipe técnica, professores, alunos e comunidade,
responsável pela aprovação, em primeira instância, do Plano Municipal representada, principalmente, pelos pais.
de Educação, elaborado pela Secretaria Municipal de Educação, a Para avaliar, é necessário elaborar indicadores, o que também
partir das conclusões da Conferência Municipal de Educação. pode ser feito coletivamente. Os resultados positivos e negativos
Responsabiliza-se também por estabelecer critérios para a destinação devem subsidiar a formulação de novas propostas.
de recursos e pela avaliação dos serviços prestados pelo Sistema
Municipal de Educação. A aprovação final do Plano Municipal de Como avaliar o Plano de Gestão Escolar e o Projeto Pedagógico
Educação cabe à Câmara Municipal. em todas as suas etapas ?

A formulação do sistema de gestão democrática da educação de A avaliação do Plano de Gestão Escolar e do Projeto
Recife contou com a participação de entidades da sociedade civil. Este Pedagógico deve abranger três aspectos centrais:
procedimento confere maior representatividade às instâncias criadas. - a avaliação do processo de elaboração;
Para divulgar as modificações implantadas, a prefeitura lançou - a avaliação dos efeitos diretos na aprendizagem dos alu-
os “Cadernos de Educação”, esclarecendo a proposta junto à nos;
população.
- a avaliação dos efeitos indiretos na aprendizagem dos alu-
A democratização da gestão - especialmente quando se dá nos e no desenvolvimento da escola.
através de ações estruturadas - permite que os setores interessados
É importante avaliar:
participem da elaboração da política municipal de educação. São
gerados, assim, ganhos em qualidade das decisões, pois estas podem - a articulação entre o Plano de Gestão Escolar e o Projeto
refletir a pluralidade de interesses e visões que existem entre os Pedagógico;

Professor Pedagogo 33 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
- a articulação entre todos os componentes dos Planos; A avaliação do Projeto Pedagógico deve verificar:

- a adequação dos objetivos e das ações desenvolvidas. - se as competências, conhecimentos e os métodos corres-
pondem ao diagnóstico realizado;
Destacar:
- se os professores elaboram coletivamente as ações, pro-
- as ações, programas e projetos que apresentaram conse-
gramas e/ou projetos;
quências positivas;
- se os professores experimentam novos materiais e se inte-
- as ações, programas e projetos que apresentaram dificul-
ressam por experiências bem-sucedidas;
dades no desenvolvimento para alunos e professores;
- se os professores introduziram mudanças na prática peda-
- as consequências do Plano de Gestão Escolar na relação
gógica;
entre a escola e a comunidade; direção, professores e alu-
nos, e entre os alunos; - se a seleção de materiais e estratégias mostrou-se ade-
quada aos objetivos propostos.
- as consequências do Plano de Gestão Escolar na relação
entre a escola e demais parceiros. A avaliação da participação dos alunos deve verificar:

A avaliação dos efeitos do Plano de Gestão Escolar e do Projeto - se os alunos demonstram maior interesse pelas (e nas) au-
Pedagógico na aprendizagem dos alunos, implica verificar: las;

- a melhoria de aprendizagem dos alunos da escola e, em - se os alunos estão alcançando os objetivos propostos nos
particular, dos grupos que receberam tratamento diferenci- Planos Pedagógicos.
ado;
A avaliação da etapa final do Projeto Pedagógico deve:
- o nível de envolvimento dos professores, alunos e comuni-
- identificar as ações que tiveram efeito positivo;
dade com as propostas desenvolvidas;
- analisar os indicadores de desempenho dos alunos para
- o progresso de cada aluno e, particularmente, o dos alunos
verificar em que aspectos apresentam melhora;
que apresentavam dificuldades por meio de trabalhos e
produções individuais; dos exercícios, situações-problema’’, - analisar os indicadores de desempenho dos alunos para
tarefas realizadas; da observação da evolução do compor- verificar as dificuldades que persistem;
tamento no que se refere à participação de cada aluno nas - identificar os obstáculos que se colocaram durante o de-
atividades em classe e em outros ambientes. senvolvimento do Projeto Pedagógico.
A avaliação dos efeitos do Plano de Gestão Escolar e do Projeto Considerando que Gestão Escolar Democrática implica:
Pedagógico sobre a equipe escolar e os professores e analisa como
eles contribuíram para a formação continuada dos professores e como a) a utilização, racional e eficaz, dos recursos humanos, mate-
se pode aperfeiçoar ambos os processos de gestão, no que se refere: riais e financeiros destinados à realização da ação instituci-
onal;
- à disposição para utilizar plenamente o tempo, os espaços
educativos e os materiais; b) a necessidade de erradicar as práticas hierarquizadas, au-
toritárias e excessivamente burocráticas do sistema educa-
- à coordenação das atividades e à divisão de tarefas; cional;
- à qualidade e à compreensão das informações sobre o c) democratizar as práticas de gestão administrativa, financei-
Plano de Gestão Escolar e o Projeto Pedagógico; ra e pedagógica da escola;
- ao aperfeiçoamento dos Conselhos de Classe e dos pro-
cedimentos de avaliação, usados pelos professores;
FICAM ESTABELECIDOS, ENTÃO OS SEGUINTES PRINCÍPIOS DE
- ao envolvimento da comunidade; GESTÃO ESCOLAR DEMOCRÁTICA:
- ao envolvimento dos alunos; 1 A Democracia tem que ser um exercício de cidadania na prática
- à melhoria do relacionamento da equipe escolar, técnicos, da escola cidadã, e deverá ser revista periodicamente por meio de
professores e comunidade; avaliação do trabalho gestor e do Conselho Escolar, além de outras
atitudes e métodos democráticos.
- ao aperfeiçoamento da prática docente;
2 A autonomia em uma gestão escolar democrática deve ser
- à aquisição de conhecimentos teóricos e pedagógicos pe-
garantida a partir da eleição direta para diretor e vice-diretor,
los professores por meio de esforço pessoal, do trabalho
reconhecendo-se que a escola faz parte de um sistema educacional
em equipe ou da formação continuada.

Professor Pedagogo 34 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
formador de cidadãos críticos que implica, necessariamente, um 10.3 as decisões tomadas devem se tornar públicas e
processo de interdependência entre toda a rede escolar e a sociedade. conhecidas de todos, onde as discussões das prioridades devem levar
em consideração as intenções da comunidade escolar.
3 A gestão, para ser democrática, deve priorizar a busca da
igualdade de direitos e deveres, propiciando uma participação ativa nas 11 A gestão democrática, com liberdade de expressão, deve
decisões tomadas no Conselho Escolar, nas eleições diretas e em organizar as condições objetivas para desburocratizar os processos
outros espaços estabelecidos para essa finalidade. administrativos internos, lutando politicamente junto às instâncias
superiores na criação e/ou modificação de critérios, na busca da
4 Na Gestão Democrática os gestores da escola devem
autonomia (administrativa, pedagógica e financeira) da escola, sem
demonstrar competência administrativa e pedagógica, bom senso,
eximir o Estado2 de suas obrigações para com o ensino público.
coerência política com o P.P.P. da Escola e conquistar criticamente o
respeito da comunidade escolar de acordo com as prioridades da 12 A gestão democrática deve lutar pelo envolvimento da
escola cidadã e desta comunidade, definidas pelo Conselho Escolar e comunidade nas ações da instituição como um todo, de acordo com os
não tendo influência político-partidária. princípios de avaliação estabelecidos no presente documento; lutando
pela inclusão social, pelo acesso e a permanência do aluno na escola,
5 A gestão democrática escolar deve considerar todos os
com sucesso.
segmentos envolvidos na vida escolar importantes para a efetivação do
processo educativo, visto que, todos são sujeitos históricos, atores 13 A gestão democrática escolar deve buscar caminhos para a
sociais responsáveis pela efetivação do mesmo. realização do trabalho pedagógico, comprometidos com uma
convivência prazerosa entre profissionais, alunos e familiares, dentro
6 A gestão escolar democrática deve promover discussões e
dos princípios de justiça, cooperação, igualdade e compreensão.
ações coletivas, para garantir o desenvolvimento e a transformação das
pessoas e da instituição, uma vez que a escola é um espaço público de 14 A gestão democrática deve garantir a viabilização do PPP e
permanente construção e vivência da cidadania. da proposta pedagógica da escola, incentivando e contando,
efetivamente, com a participação dos profissionais da educação, dos
7 A gestão escolar democrática deve pautar-se no diálogo e na
alunos e de seus familiares, realizando periodicamente diagnósticos
busca constante da participação ativa de pais, alunos, corpo docente e
necessários para melhoria de seus projetos.
administrativo, pois além de proporcionar a oportunidade de conviver,
de planejar e de resolver problemas juntos, favorece a construção da 15 Os gestores da escola devem comprometer-se e fazer
solidariedade e compromisso entre a comunidade escolar de forma acontecer as metas estabelecidas, tanto no Projeto Político-Pedagógico
crítica e reflexiva. da escola, bem como na Proposta Pedagógica da mesma.

7.1 A escola cidadã precisa criar e programar estratégias para 16 A gestão deve incentivar e viabilizar a formação permanente
conscientizar aos pais sobre os problemas reais da escola e sobre a dos vários segmentos da comunidade escolar, articulando-se
atuação dos mesmos no Conselho Escolar. politicamente com a Secretaria Municipal de Educação, de modo a
possibilitar a realização de estudos e outros espaços coletivos para a
8 A gestão democrática da escola deve, além de valorizar,
reflexão e o debate político-pedagógico e científico, sempre que
incentivar e fazer acontecer o trabalho em equipe na escola, garantir a
possível.
abertura de espaços de integração da comunidade, que contribuam
para a construção da gestão democrática. 17 O Conselho Escolar deve participar nas decisões
administrativas, pedagógicas e financeiras que envolvem a vida da
9 A gestão deve valorizar os projetos condizentes com a
escola, contribuindo democraticamente para legitimação das mesmas.
realidade da escola, buscando consenso em torno das propostas que
sejam comuns e representem, em primeira instância, as necessidades 18 Na Gestão democrática a ética, tal como caracterizada nos
da maioria. princípios de convivência, é fundamental no sentido de estabelecer a
humanização, o respeito, a valorização profissional e o compromisso
10 A gestão escolar democrática deve ser transparente nas suas
com a educação.
ações administrativa, pedagógica e financeira, socializando as
informações. Neste sentido: 19 O gestor da escola, juntamente com os órgãos municipais
competentes, devem oferecer condições para que o processo de
10.1 A comunidade deve ser incentivada a conhecer as leis que
inclusão da criança portadora de necessidades especiais na escola
regem a administração pública escolar;
esteja alicerçado com recursos humanos especializados na área em
10.2 devem ser criadas estratégias no sentido de oferecer questão, assim como recursos materiais e físicos para um melhor
condições e horários adequados à comunidade escolar, dentro da carga atendimento.
horária do professor, para que possam participar dos processos de
20 A gestão democrática deve buscar a melhoria da qualidade do
tomadas de decisões, onde o diálogo e a busca de consenso devem
ensino onde o conhecimento seja instrumento para a compreensão e
nortear as discussões;
intervenção na realidade. Um espaço efetivo do crescimento humano,

Professor Pedagogo 35 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
do diálogo, das diferenças e da flexibilidade, formadora de cidadãos INSTÂNCIAS COLEGIADAS NA UNIDADE ESCOLAR
críticos e conscientes de seus direitos e deveres.
A escola é uma organização que, como muitas outras, lida com
21 A gestão democrática escolar deve trabalhar a diversidade pessoas. Sua peculiaridade está em ser a primeira instituição que os
humana, comprometendo-se em combater todas as formas de cidadãos, ainda crianças, conhecem. Mais ainda, uma instituição que
preconceito e discriminação. complementa as famílias por ter a missão de educar. A experiência na
escola pode desenvolver ou não, os sentimentos de confiança e de
22 Atendendo aos legítimos interesses de nossa categoria, os
satisfação em pertencer à sociedade maior, como cidadão.
princípios aqui contidos poderão ser acrescentados, suprimidos ou
modificados; desde que previamente propostos, votados e aprovados A escola toma uma parte importante do tempo de nossa infância
em congresso oficialmente convocado para tal. e deveria representar uma experiência rica, cheia de significados,
daquelas que gostamos de passar aos nossos filhos e que eles
gostarão de passar para a geração seguinte. A boa escola não resulta
GESTÃO E INSTÂNCIAS COLEGIADAS NA UNIDADE ESCOLAR; apenas da competência específica de suas diretoras, professoras e
ESTRUTURA, FUNCIONAMENTO E ORGANIZAÇÃO. funcionários, porque depende de como as famílias tratam da educação
dos filhos; de como elas ajudam seus filhos a gostar e valorizar os
O foco da escola de boa qualidade deve ser a possibilidade de
estudos, a perceber que têm futuro e que este já começa a ser
apropriação, pelos alunos, do conhecimento socialmente relevante, em
construído ali, na sua escola.
que o saber acadêmico, valores e tradições culturais sejam respeitados,
de modo que todos se sintam identificados, ao mesmo tempo que Se para a criança, a escola é um castigo ou é um mundo do qual
instrumentalizados para compreender o mundo contemporâneo, co- os pais não tomam muito conhecimento, a experiência escolar não será
participando da construção da ordem democrática. proveitosa.

O alcance desses objetivos não é tarefa apenas da escola, mas A equipe escolar depende dos pais de alunos para ter sucesso,
dos diferentes atores sociais diretamente conectados com ela: assim como os pais de alunos dependem da equipe escolar para que
educadores, pais, associações, empresas etc. Descentralizar as seus filhos tenham uma experiência satisfatória de convívio com
decisões de forma que a escola tenha maior autonomia implica, por um crianças e adultos fora do circulo familiar e para que desenvolvam a
lado, permitir a interpretação e operacionalização local das políticas curiosidade e a capacidade de aprender. O sucesso da escola depende
centrais e, por outro, levar em conta a multiplicidade dos atores e do clima institucional, da competência didático-pedagógica da escola e
interesses presentes. da resposta dos alunos. Mas a verdade é que todos esses três fatores
estão condicionados ao entrosamento entre escola e famílias.
Para lograr isso, o projeto da escola que visa uma efetiva gestão
participativa busca coerência entre as diferentes instâncias: A autonomia melhora muito as condições de integração dessas
duas metades da educação porque institui a gestão participativa, que
• no interior da própria escola, entre os diferentes atores,
submete os processos decisórios às diferentes perspectivas dos
respeitando identidades e valores, de modo a desenvolver
professores, dirigentes, funcionários e pais de alunos. Com isso, ela
o trabalho coletivo em torno de objetivos comuns;
não só aumenta a sintonia entre as varias partes, como melhora a
• entre a escola e a comunidade, incluindo pais, lideranças, qualidade das decisões.
políticos, empresas etc.; e
A gestão participativa abrange diferentes níveis e áreas da
• entre as demandas em nível local, regional e nacional. administração escolar. O nível mais alto tem estatura equivalente à da
O projeto de escola dá coerência às atividades em todos os Diretoria da escola e é o do Colegiado Escolar (também chamado de
níveis e possibilita aos diferentes atores e grupos de trabalho agirem na Conselho de Escola, Associação de Pais e Mestres, Círculo de Pais e
mesma direção. Ele implica um conjunto de consensos, a abertura Professores, ou outras denominações). Este é o tema central deste
para a comunidade e a agregação de diferentes parceiros, fornecendo módulo. Outros dois colegiados são os Conselhos de Classe, que
os meios para que estes conheçam o sentido da ação comum a ser acompanham as atividades pedagógicas da escola, e os Conselhos
conduzida. Na verdade, implica a gestão participativa. Fiscal e Deliberativo da Unidade Executora, responsável pela
administração dos recursos financeiros da escola. Além deles, há as
Para delinear tal projeto, é fundamental conhecer as expectativas Assembleias Gerais onde se definem as candidaturas aos postos
dessa comunidade, suas necessidades, formas de sobrevivência, eletivos e se aprovam regimentos e estatutos ou as revisões desses
valores, costumes, manifestações culturais e artísticas. documentos.
É através desse conhecimento que a escola pode atender a Nada impede que a escola crie outros órgãos coletivos para
comunidade e auxiliá-la a ampliar seu instrumental de compreensão e funções consultivas e/ou deliberativas, temporárias ou permanentes
transformação do mundo. (por exemplo, uma comissão para melhorar e supervisionar a qualidade
e valor nutritivo da merenda escolar, ou um colegiado que supervisione

Professor Pedagogo 36 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
e desenvolva o acervo e a utilização de materiais didáticos _ livros, AS COMPETÊNCIAS E FUNÇÕES DO COLEGIADO
vídeos, revistas e equipamentos de ensino, etc.).
As funções do Colegiado podem ser consultivas e deliberativas e
englobam as áreas financeira, administrativa e pedagógica da unidade
de ensino. Seu objetivo maior é ajudar a escola. Reproduzimos abaixo
Veja o conceito de alguns termos amplamente empregados nas
um exemplo de Colegiado, contendo funções deliberativas e consultivas
escolas:
adotadas pela rede estadual mineira.
Colegiado Escolar: O colegiado escolar é um órgão coletivo,
A relação de itens do quadro na página seguinte serve de
consultivo e fiscalizador, e atua nas questões técnicas, pedagógicas,
ilustração e não de demarcação fixa e definitiva das funções do
administrativas e financeiras da unidade escolar. Como órgão coletivo,
Colegiado. A legislação permite flexibilidade. As escolas podem decidir
adota a gestão participativa e democrática da escola, a tomada de
sobre outros assuntos, bastando prevê-los no estatuto do Colegiado.
decisão consensual visando à melhoria da qualidade do ensino..
Mas há um princípio fundamental que precisa orientar todas as
Conselho Escolar: órgão colegiado que tem como objetivo definições e ações do Colegiado e da Escola como um todo: o da
promover a participação da comunidade escolar nos processos de centralidade dos alunos.
administração e gestão da escola, visando assegurar a qualidade do
Como a educação do aluno é a razão de ser da escola, nada
trabalho escolar em termos administrativos, financeiros e pedagógicos.
mais lógico que as ações da escola busquem, direta ou indiretamente,
Associação de Pais e Mestres: instituição auxiliar às atividades o melhor atendimento possível de seus alunos. Para isso, deve-se ter
da escola, formada por pais, professores e funcionários. Tem como em mente que os alunos não estão na escola apenas para receber
objetivo auxiliar a direção escolar na promoção das atividades estímulos. Eles devem ter um papel ativo; de interpretar e aplicar os
administrativas, pedagógicas e sociais da escola, bem como arrecadar conteúdos adquiridos, construindo o seu próprio conhecimento e
recursos para complementar os gastos com o ensino, a educação e a desenvolvendo suas aspirações, valores e comportamentos. Os
cultura. “defeitos” que apresentem _ sejam de aprendizagem ou de conduta _
Caixa Escolar: A caixa escolar é uma instituição jurídica, de podem indicar falhas da escola e depor contra os que participam da
direito privado, sem fins lucrativos, que tem como função básica direção. Isto inclui tanto a equipe escolar quanto as famílias dos alunos.
administrar os recursos financeiros da escola, oriundos da União, Em vista disso, as funções administrativas e financeiras devem
estados e municípios, e aqueles arrecadados pelas unidades escolares. estar voltadas para aquela que é o objetivo principal de uma escola: a
função pedagógica, a que se ocupa diretamente com a aprendizagem
do aluno. A função pedagógica não se restringe à sala de aula, pois
Veja, a seguir, detalhes de cada uma dessas instâncias: inclui outras atividades, como visitas e passeios, e projetos
O COLEGIADO DA ESCOLA desenvolvidos por grupos de alunos que requerem materiais, como
jornais, revistas e vídeos.
O Colegiado Escolar corresponde a um Conselho de
Administração presidido pelo Diretor da Escola e composto por
representantes dos professores e funcionários, dos pais de alunos e AS REGRAS DE COMPOSIÇÃO DO COLEGIADO
dos alunos com 16 anos ou mais, além de representantes da
comunidade, se houver interesse. Normalmente, metade de seus O Colegiado é presidido pelo Diretor da Escola e reune
membros é composta por representantes dos professores e representantes de dois grandes segmentos: o dos funcionários e o dos
funcionários e a outra metade, por representantes dos pais de alunos, usuários da escola. No segmento dos funcionários estão três
alunos maiores de 16 anos e líderes da comunidade. O Colegiado tem subgrupos: o dos professores, o dos especialistas de educação e o da
funções consultivas (de assessoria à Diretoria da Escola) e equipe administrativa da escola. No outro segmento, estão os pais de
deliberativas (de decisão) sobre matérias financeiras, administrativas e alunos e o subgrupo de alunos maiores de 16 anos, e, eventualmente,
pedagógicas. representantes da comunidade.

A direção da escola é compartilhada entre a Diretoria e o Segundo as definições da SEE-MG, a representação do
Colegiado Escolar. Ambos são responsáveis pelos resultados da segmento de funcionários e a dos pais de alunos devem ter o mesmo
escola. A Caixa Escolar, também conhecida como Unidade Executora, é tamanho (de 4 a 6 representantes cada). A escolha dos representantes
uma “sociedade civil” com personalidade jurídica de direito privado, segue os seguintes critérios e procedimentos:
criada para administrar os recursos recebidos da Secretaria de • Qualquer pessoa que faça parte da comunidade escolar
Educação e de outras fontes. Embora conte com seu próprio Conselho pode se tornar membro do Colegiado através de eleição
(o Conselho Fiscal), ela também se subordina à autoridade da Diretoria ocorrida na 1a. Assembleia Geral, no mês de março de ca-
e do Colegiado da Escola. O Conselho de Classe toma decisões no da ano.
âmbito pedagógico e supervisiona o trabalho dos professores.

Professor Pedagogo 37 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
• Para se lançar candidato, a pessoa deverá manifestar sua COMO FUNCIONA O COLEGIADO?
vontade de se candidatar durante a Assembleia. Caso você
O Colegiado é um fórum democrático e suas decisões devem ser
conheça alguém que julgue possuir as qualidades para o
aprovadas pela maioria dos membros. Ele deve ter uma programação
cargo, você pode indicá-la na Assembleia e pedir que ela
de reuniões ordinárias, quer dizer, reuniões regulares, previstas, e pode
se manifeste, aceitando ou não a candidatura.
também ter reuniões extraordinárias, especiais e convocadas por
• O mandato dos membros é de 1 ano _ de março a março _ motivos e segundo regras de convocação previstas no Estatuto do
e o Estatuto do Colegiado deve prever se poderá haver Colegiado. Por exemplo, se a escola é vítima de um ato de vandalismo
reeleição ou não. grave, por parte de um grupo significativamente numeroso de alunos,
cabe convocar uma reunião extraordinária para avaliar o fato e decidir
• A escolha dos membros obedece a quantidade de votos
qual seria a reação exemplar que prevenisse repetição de um evento
que cada candidato obteve na eleição de seu segmento.
dessa ordem (talvez punir os alunos com a responsabilidade de
Os mais votados tornam-se membros-titulares e cada um
recuperar o que estragaram, dedicando um certo número de horas
deles tem um suplente, também escolhido segundo o nú-
adicionais à escola).
mero de votos obtidos. Se o segmento de pais e alunos
tem 4 representantes; o suplente do titular mais votado é o Na rede estadual de Minas Gerais, as reuniões do Colegiado
candidato que chegou em 5o. lugar na contagem dos votos, devem ocorrer mensalmente. Se o Presidente (Diretor da Escola)
o suplente do titular que foi o segundo mais votado, será o insistir em não convocá-las, a maioria dos membros do Colegiado,
candidato que chegou em 6o. lugar na contagem dos votos representada pela metade mais um, poderá tomar a iniciativa de
e assim por diante. convocação.

• Os suplentes são portanto escolhidos dentro do mesmo Os membros-titulares e suplentes do Colegiado têm uma grande
segmento que elegeu os titulares. Eles podem estar pre- responsabilidade. São eleitos em uma Assembleia Geral e devem
sente nas reuniões do Colegiado e manifestar suas opini- representar, nas reuniões, o segmento que os elegeu, sem perder
ões, mas não têm direito de voto, quando o titular estiver nunca de vista o interesse maior da escola que é o de atender às
presente. necessidades de seus alunos. Para isso, devem se preparar para as
reuniões e consultar os seus “pares” (o segmento que os elegeu) antes
• O Vice-Diretor é o suplente do Diretor na Presidência do
e depois das reuniões. Além disso, é fundamental que conheçam
Colegiado e não pode representar nenhum segmento da
profundamente a escola e seus usuários - os alunos e suas famílias.
escola.
Devem consultar a legislação e outros textos que sirvam de orientação
• Quando o Colegiado perde definitivamente um membro titu- do que é exigido; devem estar informados sobre outras escolas e a
lar, o suplente assume o cargo de membro-titular em cará- Secretaria Municipal de Educação.
ter definitivo e o Colegiado preenche a vaga com o candi-
É muito importante que o Diretor entregue a pauta das reuniões
dato que obteve mais votos entre os que não chegaram a
com bastante antecedência para que haja tempo de os membros se
assumir nenhuma suplência ou, se não houver excedentes,
prepararem e convocarem uma reunião prévia com os seus respectivos
convoca eleição no segmento para eleger o suplente.
segmentos. A Direção da escola deve oferecer o espaço para essas
• Como medida preventiva, os resultados completos da elei- reuniões.
ção devem ser registrados na Ata da 1a Assembleia do ano.
Quais são os textos legais mais importantes?
Todos os candidatos devem estar listados com o número
de votos obtidos, de modo a que se possa recorrer a esta Todas as ações escolares devem ser condizentes com os
relação em caso de necessidade de substituição. seguintes textos legais:

• a Constituição Estadual,

Há algumas situações concretas que merecem comentário. Por • as normas do Conselho Nacional de Educação
exemplo, se a escola só possui um especialista, ele deve ser
• as normas do Conselho Estadual da Educação
automaticamente incorporado como membro do Colegiado. Se um
funcionário for também pai de aluno, ele deve buscar se eleger pelo • o Estatuto da Criança e do Adolescente
segmento dos funcionários para permitir que os representantes dos • a Constituição Federal;
pais tragam perspectivas de fora da escola.
• a política (resoluções, portarias, programas) da Secretaria
O Colegiado só existe quando está reunido. Ele não possui de Estado de Educação e/ou da Secretaria Municipal da
funções executivas ou administrativas permanentes. Por isso, todos os Educação
seus membros têm a mesma função e o mesmo direito de participação.
Todos esses textos devem estar arquivados para consulta do
Colegiado e outros membros da comunidade interna e externa da

Professor Pedagogo 38 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
escola. Em caso de dúvidas sobre a legislação, os membros do A Ata deve ter páginas numeradas e rubricadas pelo responsável
Colegiado devem consultar a Secretaria de Educação e buscar por sua elaboração _ em geral, o diretor ou vice-diretor ou um
especialistas habilitados a trazer mais informações e esclarecimentos. secretário indicado. Na abertura, o texto da Ata deve identificar quem
está elaborando e em que data. Registra também a relação nominal de
todos os presentes, a pauta ou objetivos da reunião e resume os
O ESTATUTO DO COLEGIADO principais resultados, tudo isso, sem deixar espaços livres que possam
O Estatuto do Colegiado é um documento de alcance mais permitir adulteração. Acréscimos posteriores devem ser precedidos da
restrito do que o Regimento da Escola. Ele reúne um conjunto de expressão “Em tempo,”. Se elaborada em computador, a Ata deve ser
normas e regras que regulamentam o funcionamento do Colegiado da arquivada como “documento de leitura”, bloqueado para edição ou
Escola baseado na vontade da comunidade escolar interna e externa e revisões, e deve ter cópia em papel com páginas rubricadas.
na legislação. Não existe um modelo único e geral de Estatuto. Cada
Estatuto é único porque aborda aspectos importantes para a realidade
ASSEMBLEIAS E REUNIÕES
de cada escola. Após analisar o texto proposto do Estatuto, ele deve
ser aprovado por toda a comunidade escolar em Assembleia Geral. Os Assembleia Geral é uma reunião aberta a toda comunidade
membros da Comunidade Escolar podem propor mudanças no Estatuto escolar, que precisa ocorrer pelo menos uma vez por ano, para eleger
e elas serão incorporadas se forem também aprovadas em Assembleia os membros do Colegiado Escolar. As convocações extraordinárias
Geral e não violarem a legislação. ocorrem quando a escola precisa aprovar alterações de seu Regimento
ou do Estatuto do Colegiado.
Muitos conflitos podem ser evitados ou ter solução facilitada se a
comunidade escolar for capaz de prever e tratar dessas situações no As Assembleias Gerais são soberanas nas suas decisões, por
Estatuto. Vejamos algumas das questões que podem estar isso é importante que haja bom senso nas decisões de convocação e
contempladas no Estatuto: que, enquanto participante, você se inteire daquilo que está sendo
objeto de discussão e aprovação. Troque ideias, certifique-se de que a
• de quantos membros será composto o Colegiado da Esco-
decisão não viole o Estatuto da Escola ou a legislação pertinente. Não
la? qual o número de representantes de cada segmento?
assine nada sem ter certeza do que se trata.
• se um membro titular não comparecer a um número X de
Na rede estadual de Minas Gerais as Assembleias Gerais têm a
reuniões, que providências devem ser tomadas?
seguinte programação:
• quais são os critérios de desempate nas eleições do Cole-
1a Assembleia Geral _ em março, tem o objetivo de esclarecer o
giado?
que é o Colegiado Escolar e de realizar a eleição por cada segmento de
• de que modo um membro da comunidade escolar que não seus representantes.
pertence ao Colegiado pode incluir um assunto na pauta da
2ª Assembleia Geral _ ainda no 1o semestre, para divulgar as
próxima reunião do Colegiado?
propostas de trabalho da escola.
• quem pode convocar reuniões do Colegiado além de seu
3ª Assembleia Geral _ no 2o semestre, para fazer um balanço
presidente (o diretor da escola)? Em que circunstâncias is-
das atividades desenvolvidas pela escola durante o ano.
so poderá ocorrer?
Caso haja necessidade de outras assembleias, o diretor ou a
maioria do Colegiado poderá convocá-las, em caráter extraordinário,
A IMPORTÂNCIA DAS ATAS durante o ano letivo, para resolver assuntos urgentes do interesse da
A implantação da gestão colegiada, pela qual o diretor divide escola.
responsabilidades e compartilha decisões, torna muito importante os O Colegiado Escolar reúne os representantes eleitos de todos os
Editais de Convocação das reuniões e o registro em Atas das segmentos da comunidade escolar e divide com a Diretoria a
discussões, sugestões e resoluções tomadas pelo Colegiado da Escola. responsabilidade maior pelos resultados da escola. Ele é o lugar de
O Edital de Convocação deve conter a data, o local e o horário da encontro e de desenvolvimento das aspirações e da inteligência
reunião, além do objetivo e assuntos a serem tratados. A Ata, por sua coletiva da escola.
vez, é o registro resumido, porém claro e fiel, das opiniões, votações e
A gestão colegiada é o regime de funcionamento mais adequado
resoluções de uma reunião convocada com antecedência de pelo
para a “escola que aprende”; aquela que não se contenta com a rotina,
menos 24 horas.
com reprodução do que sempre fez. A gestão colegiada estará
A importância das Atas é que elas permitem consultar fatos e funcionando bem se servir para aprofundar o auto-conhecimento da
decisões tomadas em reuniões, esclarecendo seu contexto e dúvidas escola e para mobilizar a capacidade de seus membros para pensar,
que podem surgir posteriormente. Ela é um registro formal e oficial das julgar, imaginar, propor e resolver o que for necessário. É assim que ela
reuniões do Colegiado. vai aprender a concretizar as vontades coletivas.

Professor Pedagogo 39 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
CONSELHO ESCOLAR Com relação a algumas condições de participação:

O Conselho de Escola é um colegiado, de natureza consultiva e • O Diretor é membro nato;
deliberativa, constituído por representantes de pais, professores, alunos
• Compõe também o Conselho de Escola um representante
e funcionários.
de Associação ou Associações de Moradores do/s bairro/s
A função do Conselho de Escola é de atuar, articuladamente com atendidos pela Unidade, eleito em Assembleia; e
o núcleo de direção, no processo de gestão pedagógica, administrativa
• Nenhum conselheiro é remunerado por sua participação.
e financeira da escola.
A convocação para reunião extraordinária do Conselho de Escola
A eleição do Conselho de Escola é feita anualmente, durante o
não é feita apenas pelo Diretor da Escola. Ela poderá ser feita por
primeiro mês letivo. Os representantes de professores, especialistas de
proposta de, no mínimo, 1/3 (um terço) de seus membros.
educação - diretor, vice diretor, coordenador - , funcionários, pais e
alunos serão eleitos pelos seus pares, através de assembleias distintas, Quando a eleição do Conselho de Escola não for feita com a
convocadas pelo Diretor de Escola. A eleição dos membros do participação de todos os membros da comunidade escolar, através de
Conselho de Escola será lavrada em ata, registrada em livro próprio e eleição realizada entre eles, poderá ser solicitada a sua anulação. Esta
com a assinatura de todos os participantes, devendo ser afixada em solicitação deverá ser feita por escrito e protocolada junto à direção da
local visível para toda a comunidade escolar. escola.

Todas as unidades escolares deverão encaminhar às Diretorias Quem escolhe os representantes dos alunos no Conselho de
de Ensino, a composição do Conselho de Escola até 31 de março de Escola são os próprios alunos, através de eleição entre os seus pares.
cada ano letivo. Para participar do Conselho de Escola não é necessário
O Conselho de Escola é presidido pelo Diretor da Escola e terá contribuir com a APM. Lembramos que a contribuição para a APM é
um total mínimo de 20 (vinte) e máximo de 40 (quarenta) componentes. sempre voluntária.

O número de componentes é fixado proporcionalmente ao O Conselho de Escola se propõe a:
número de classes da unidade escolar. (Veja quadro a seguir) • propiciar a mais ampla participação da comunidade, reco-
A composição do Conselho de Escola segue a seguinte nhecendo o seu direito e seu dever;
proporção: • garantir a democracia plena da gestão financeira da unida-
• 40% de docentes; de, naquilo em que ela tem autonomia em relação à receita
e despesa;
• 5% de especialistas de educação, excetuando-se o Diretor
de Escola; • contribuir para a qualidade do ensino ministrado na unida-
de;
• 5% dos demais funcionários;
• integrar todos os segmentos da unidade na discussão pe-
• 25% de pais de alunos;
dagógica e metodológica;
• 25% de alunos.
• integrar a escola no contexto social, econômico, cultural em
Para compor o Conselho de Escola é importante saber também sua área de abrangência;
as seguintes informações:
• levar a unidade a interagir em todos os acontecimentos da
Com relação ao número de conselheiros: O número de relevância que ocorreram ou que venham a ocorrer em sua
conselheiros é determinado pelo número de classes ou turmas. Assim área de abrangência; e
sendo:
• ser uma das instâncias da construção da cidadania.
• UE de até 10 classes ou turmas: 09 conselheiros.
O Conselho de Escola delibera sobre:
• UE de 11 a 20 classes ou turmas: 19 conselheiros.
• as diretrizes a serem seguidas e metas a serem alcança-
• UE de 21 a 30 classes ou turmas: 29 conselheiros. das na unidade;

• UE de mais de 30 classes ou turmas: 39 conselheiros. • a captação e o investimento de recursos próprios da unida-
de;
Com relação à proporção dos conselheiros: A proporção dos
conselheiros é variável de acordo com a natureza da U E. Em caso de • a criação de normas regulamentares dos organismos auxi-
percentuais que não correspondam a números inteiros, arredondar para liares que venham a ser criados;
o número inteiro mais próximo.
• os projetos, a ação e prioridades dos organismos auxiliares
que existem na unidade;

Professor Pedagogo 40 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
• os projetos de atendimento integral ao aluno no campo ma- • As reuniões serão realizadas em primeira convocação com
terial, psico-pedagógico, social e de saúde; a presença da maioria simples dos membros e em segunda
convocação (30 minutos depois) com qualquer número de
• os programas que visem a integração escola-família-
membros; e
comunidade;
• O conselheiro que faltar a duas reuniões em seguida, sem
• as soluções para os problemas administrativos e pedagógi-
justificativa, deverá ser substituído.
cos;

• as atividades extra-curriculares e extraclasses que visem
um maior aprimoramento ao educando; ASSOCIAÇÃO DE PAIS E MESTRES

• a organização e funcionamento de escola, de acordo com A APM, instituição auxiliar da escola, é uma associação civil, com
as orientações da SME sobre: personalidade jurídica própria e, portanto, responsável pelos seus atos.
É representada pelo seu Diretor Executivo. Este responde pela
a. o atendimento e acomodação da demanda, turnos, distribuição de
Associação, até mesmo em Juízo.
séries e classes, utilização do espaço físico;
A APM não se confunde com o Diretor de Escola. Entretanto,
b. a fixação de critérios para ocupação do prédio e suas instalações,
este é o presidente nato do seu Conselho Deliberativo e, nessa
condições para sua preservação, cessão para outras atividades
qualidade, bem como na qualidade de diretor da escola, tem o dever de
que não de ensino e de interesse da comunidade; e
zelar pelo bom andamento dos trabalhos da associação, observando
c. a análise, aprovação e acompanhamento de projetos propostos seus funcionários, orientando seus membros e prestando colaboração,
pelos professores. sem, porém, assumir, sozinho, as funções de seus membros.
O Conselho de Escola dá parecer sobre: Portanto, nem pode alienar-se e nem pode, assumir, sozinho,
• a ampliação e reformas no prédio; funções que não lhe competem.

• os problemas entre o corpo docente, entre alunos, entre Se forem constatadas fraudes nas atividades da APM, o Diretor
funcionários que estejam prejudicando o projeto pedagógi- poderá pedir, aos órgãos competentes, a intervenção na APM. Esse
co da unidade; processo será desenvolvido pelo Grupo de Verificação e Controle das
Atividades Administrativas e Pedagógicas da Secretaria da Educação.
• as posturas individuais de qualquer segmento que colo-
quem em risco as diretrizes e metas deliberadas; e Quem determina a intervenção é o Secretário da Educação.

• as penalidades a que são sujeitos funcionários, alunos, A APM precisa ser registrada. Portanto, verificar se a Associação
sem prejuízo de recorrência a outras instâncias. e, também, a ata da eleição, foram registradas em cartório de títulos e
documentos.
O Conselho de Escola, ainda:
O documento que indica como cadastrar a APM no Programa de
• elabora, conjuntamente com a equipe de educadores, o ca- Manutenção e Desenvolvimento do Ensino Fundamental é a Resolução
lendário escolar e projeto pedagógico da unidade, observa- 5 de 06/04/98 do Conselho Deliberativo da FNDE.
das as normas oficiais;
A APM é obrigada a expor seus balanços e balancetes, na
• aprecia os relatórios anuais da Unidade; e escola, em local de fácil acesso à comunidade.
• acompanha o desenvolvimento do projeto pedagógico. Esses balanços deverão estar devidamente verificados e
Como se organizam as reuniões do conselho de escola assinados pelos membros do Conselho Fiscal, pelo Diretor Executivo,
Diretor Financeiro, Diretor de Escola. Ao final do mandato da Diretoria
Com relação ao seu tipo: Há dois tipos de reunião de Conselho
Executiva, que é de um ano, a prestação de contas deverá ser feita
de Escola: ordinárias e extraordinárias:
diretamente em Assembleia Geral (após a apreciação do Conselho
As reuniões ordinárias ocorrem de dois em dois meses (com Fiscal).
datas marcadas no ato da posse); e
Manter funcionário sem registro em carteira é um
As reuniões extraordinárias ocorrem quando necessário, por descumprimento das leis trabalhistas, do que advirá, em algum
convocação da direção ou de 1/3 dos membros. momento, multas em eventuais fiscalizações. Por outro lado, a
dispensa de funcionários, sem registro em carteira, mesmo quando a
Com relação ao funcionamento das reuniões:
APM tenha pago todos os direitos, poderá gerar reclamações
• Em todas as reuniões deverá ter pauta, aprovada no início, trabalhistas, obrigando a instituição a pagar pesadas indenizações.
e redigida a ata que será afixada em lugar visível na unida-
de;

Professor Pedagogo 41 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Se a APM possui recursos suficientes, é recomendável a e)- a execução de pequenas obras de construção em prédios
contratação de um escritório para executar os serviços de escolares, que deverá ser acompanhada e fiscalizada pela Fundação
contabilidade. para o Desenvolvimento da Educação - FDE.

Pais de ex-alunos, ex-alunos maiores de 18 anos, ex- IV - colaborar na programação do uso do prédio da escola pela
professores, demais membros da comunidade, podem ser sócios da comunidade, inclusive nos períodos ociosos, ampliando-se o conceito
APM na categoria de sócios admitidos. de escola como “Casa de Ensino” para “Centro de Atividades
Comunitárias”;
Um Conselheiro da APM poderá ser reconduzido por duas vezes,
além do primeiro mandato. Ou seja, ele poderá ser eleito conselheiro V - favorecer o entrosamento entre pais e professores
por três mandatos consecutivos. possibilitando:

Cada Diretor só poderá ser reconduzido uma vez, para o mesmo a)- aos pais, informações relativas tanto aos objetivos
cargo. educacionais, métodos e processos de ensino, quanto ao
aproveitamento escolar de seus filhos;
O membro da Diretoria perderá o mandato se faltar a 3 (três)
reuniões consecutivas, sem causa justificada (art. 33, § 1°). b)- aos professores, maior visão das condições ambientais dos
alunos e de sua vida no lar.
O CNPJ (ex-CGC) para a APM poderá ser obtido da seguinte
forma: leva-se ao órgão da Receita Federal a ata de eleição da 3 - RECURSOS
diretoria, com firma reconhecida e registrada em Cartório de Registro
Os meios e recursos para atender os objetivos da APM, serão
de Títulos e Documentos, anexando cópia do Estatuto Padrão da APM.
obtidos através de:
A APM pode cobrar mensalidade dos alunos?
I - contribuição dos associados (Contribuições facultativa de
Compulsoriamente, não. Pode solicitar, no entanto, a matriculas e sua renovação) - O caráter facultativo das contribuições
contribuição espontânea, desde que não a vincule à matrícula ou não isenta os associados do dever moral de, dentro de suas
frequência dos alunos. possibilidades, cooperar para a constituição do fundo financeiro da
Associação.
O cargo de Diretor Financeiro será sempre ocupado por pai de
aluno. II – convênios (com outras associações, por exemplo)

Resumo do Estatuto Padrão das Associações de Pais e Mestres III - subvenções diversas;
(APM)
IV – doações ( de instituições públicas e de pessoas físicas ou
1 - MISSÃO DA APM jurídicas);

A APM, instituição auxiliar da escola, terá por finalidade colaborar V - promoções diversas ( festas etc);
no aprimoramento do processo educacional, na assistência ao escolar
4 - DOS ASSOCIADOS
e na integração família-escola-comunidade. Como entidade com
objetivos sociais e educativos, não terá caráter político, racial ou O quadro social da APM, constituído por número ilimitado de
religioso e nem finalidades lucrativas. associados, será composto de:

2 – OBJETIVOS DA APM I - associados natos;

I - colaborar com a Direção do estabelecimento para atingir os II - associados admitidos;
objetivos educacionais colimados pela escola; III - associados honorários.
II - representar as aspirações da comunidade e dos pais de Serão associados natos: o Diretor de Escola, o Vice-Diretor, os
alunos junto à escola; professores e demais integrantes dos núcleos de apoio técnico-
III - mobilizar os recursos humanos, materiais e financeiros da pedagógico e administrativo da escola (Funcionários), os pais de alunos
comunidade, para auxiliar a escola, provendo condições que permitam: e os alunos maiores de 18 anos, desde que concordes.

a)- melhoria do ensino; Serão associados admitidos os pais de ex-alunos, os ex-alunos
maiores de 18 anos, os ex-professores e demais membros da
b)- o desenvolvimento de atividades de assistência ao escolar,
comunidade, desde que concordes e aceitos conforme as normas
nas áreas sócio-econômica e de saúde;
estatutárias.
c)- a conservação e manutenção do prédio, do equipamento e
Serão considerados associados honorários, a critério do
das instalações;
Conselho Deliberativo da APM, aqueles que tenham prestado
d)- a programação de atividades culturais e de lazer que relevantes serviços à Educação e a APM da Unidade Escolar.
envolvam a participação conjunta de pais, professores e alunos;
Professor Pedagogo 42 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
5 - DOS DIREITOS DOS SÓCIOS 1. Serão afixados em quadro de avisos, os planos de atividades,
notícias e atividades da APM, convites e convocações.
Constituem direitos dos associados:
2. No exercício de suas atribuições, a APM manterá rigoroso
I - apresentar sugestões e oferecer colaboração aos dirigentes
respeito às disposições legais, de modo a assegurar a observância dos
dos vários órgãos da APM;
princípios fundamentais que norteiam a filosofia e política educacionais
II - receber informações sobre a orientação pedagógica da escola do Estado de São Paulo.
e o ensino ministrado aos educandos;
3. A APM terá prazo indeterminado de duração e somente poderá
III - participar das atividades culturais, sociais, esportivas e ser dissolvida, por deliberação da Assembleia Geral, especialmente
cívicas organizadas pela APM ; convocada para este fim, obedecidas as disposições legais.
IV - votar e ser votado nos termos do Estatuto; 4. A APM poderá ser extinta nas hipóteses abaixo indicadas:
V - solicitar, quando em Assembleia Geral, esclarecimentos a • Desativação da unidade escolar;
respeito da utilização dos recursos financeiros da APM;
• Transferência da Unidade Escolar para o município (muni-
VI - apresentar pessoas da comunidade para ampliação do cipalização).
quadro social.

6 – DOS DEVERES DOS SÓCIOS
CAIXA ESCOLAR
Constituem deveres dos associados:
A caixa escolar é uma instituição jurídica, de direito privado, sem
I - defender, por atos e palavras, o bom nome da Escola e da fins lucrativos, que tem como função básica administrar os recursos
APM; financeiros da escola,oriundos da União, estados e municípios, e
II - conhecer o Estatuto da APM; aqueles arrecadados pelas unidades escolares, ou seja, são unidades
financeiras executoras, na expressão genérica definida pelo Ministério
III - participar das reuniões para as quais foram convocados; da Educação.
IV - desempenhar, responsavelmente, os cargos e as missões A caixa escolar é uma sociedade civil, sem personalidade jurídica
que lhes forem confiados; e de direito privado, sem finalidade lucrativa, criada pelo executivo
V - concorrer para estreitar as relações de amizade entre todos estadual e sediada na escola para administrar os recursos recebidos da
os associados e incentivar a participação comunitária na escola; Secretaria de Educação e da comunidade e os por ela própria
arrecadados.
VI - cooperar, dentro de suas possibilidades, para a constituição
do fundo financeiro da APM; É indispensável para que a escola possa receber recursos e
administrá-los. A caixa escolar não integra a administração pública
VII - prestar à APM, serviços gerais ou de sua especialidade
estadual.
profissional, dentro e conforme suas possibilidades;
Tem como função administrar recursos transferidos pela
VIII - zelar pela conservação e manutenção do prédio, da área do
Secretaria de Estado da Educação (recursos vinculados e não-
terreno e equipamentos escolares;
vinculados) e outros provenientes do município, da comunidade, das
IX - responsabilizar-se pelo uso do prédio, de suas dependências entidades públicas ou privadas e da promoção de campanhas feitas
e equipamentos, quando encarregados diretos da execução de pela própria escola. Os recursos recolhidos por ela destinam-se à
atividades programadas pela APM. aquisição de bens e serviços necessários à melhoria das condições de
funcionamento da escola, incluídos no seu plano de desenvolvimento.
7 - DOS ÓRGÃOS DA APM:
Para a organização da caixa escolar, o diretor e/ou o
A. Assembleia Geral;
coordenador deve tomar a iniciativa para a sua criação.
B. Conselho Deliberativo;
São sete os passos que devem ser seguidos:
C. Diretoria Executiva;
1) convocação, através de edital, de servidores, professores,
D. Conselho Fiscal. pais de alunos, para, em assembleia geral, deliberarem so-
Observações Finais: bre a constituição da caixa escolar;

1. É vedado aos Conselheiros e Diretores da APM: 2) escolha dos membros da diretoria e seus suplentes;

• Receber qualquer tipo de remuneração; 3) posse dos membros eleitos;

• Estabelecer relações contratuais com a APM. 4) elaboração do estatuto da caixa escolar;

Professor Pedagogo 43 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
5) envio do extrato do estatuto da caixa escolar para a direto- As Instâncias Colegiadas da Unidade Escolar são
ria de suprimento escolar, para publicação; estabelecidas pela Deliberação CEE nº 016/99, em seu capítulo II,
artigos 4º e seguintes, conforme transcrito a seguir:
6) registro da caixa escolar em cartório de pessoas jurídicas,
sendo, para isto, necessários os seguintes documentos:
edital de convocação da assembleia geral; ata da assem-
DELIBERAÇÃO N º 016/99 CEE
bleia geral de constituição da caixa escolar ou cópia auten-
ticada e o requerimento, solicitando o registro; e CAPÍTULO II
DA ORGANIZAÇÃO DA COMUNIDADE ESCOLAR
7) obtenção, na Receita Federal, do número do CGC e a de-
vida comunicação à diretoria de suprimento escolar. Art. 4.° - A comunidade escolar é o conjunto constituído pelos
corpos docente e discente, pais de alunos, funcionários e especialistas,
A estrutura da caixa escolar é constituída de um presidente, que
todos protagonistas da ação educativa em cada estabelecimento de
é o diretor ou o coordenador da escola, de um tesoureiro e do conselho
ensino.
fiscal. Recomenda-se que o conselho fiscal seja integrado por membros
do colegiado. Parágrafo único – A organização institucional de cada um desses
segmentos terá seu espaço de atuação reconhecido pelo regimento
Ela é composta de três órgãos:
escolar.
• assembleia geral,
Art. 5.° - A direção escolar tem como principal atribuição
• diretoria e coordenar a elaboração e a execução da proposta pedagógica, eixo de
toda e qualquer ação a ser desenvolvida pelo estabelecimento.
• conselho fiscal.
Parágrafo único – É recomendável a adoção de órgão colegiado
A assembleia geral é o órgão de deliberação da caixa escolar,
de direção, em atenção ao princípio da democratização da gestão
que elege os membros efetivos e suplentes do conselho fiscal.
escolar.
A diretoria da caixa é constituída de um presidente (o diretor da
Ar. 6.º - A gestão escolar da escola pública, como decorrência do
escola), um secretário e um tesoureiro.
princípio constitucional da democracia e colegialidade, terá como órgão
O presidente é, necessariamente, o diretor ou o coordenador da máximo de direção um colegiado.
escola.
§ 1.º - O órgão colegiado de direção será deliberativo, consultivo
O tesoureiro é escolhido entre os funcionários da escola e o e fiscal, tendo como principal atribuição estabelecer a proposta
secretário é um representante da comunidade. pedagógica da escola, eixo de toda e qualquer ação a ser desenvolvida
O conselho fiscal compõe-se de três representantes de pais de no estabelecimento de ensino.
alunos e de outras pessoas da comunidade. Recomenda-se que ele § 2.º O órgão colegiado de direção será constituído de acordo
seja composto de membros do colegiado escolar. com o princípio da representatividade, devendo abranger toda a
A caixa escolar e o colegiado escolar, juntos, se complementam, comunidade escolar, cujos representantes nele terão, necessariamente,
cabendo ao colegiado escolar aprovar as prioridades propostas pela voz e voto.
escola para a alocação de recursos e a prestação de contas de sua § 3.º Poderão participar do órgão colegiado de direção
aplicação. A caixa escolar viabiliza a aplicação dos recursos, representantes dos movimentos sociais organizados, comprometidos
observando os instrumentos legais em vigor e de acordo com as com a escola pública, assegurando-se que sua representação não
prioridades aprovadas pelo colegiado. Seus associados natos são os ultrapasse 1/5 (um quinto) do colegiado.
funcionários e o pessoal do magistério da escola, bem como os pais
§ 4.º - O órgão colegiado de direção será presidido pelo diretor
dos alunos ou responsáveis. Outras pessoas da comunidade podem
do estabelecimento, na qualidade de dirigente do projeto político-
ser aceitas como associadas, desde que assinem a ficha de admissão.
pedagógico.
Embora já venha se instituindo historicamente, ancorada nos
Art. 7.º - A organização pedagógica será constituída pelo corpo
movimentos sociais desde a década de 70, a Caixa Escolar passou a
docente, pelos profissionais atuantes nas áreas de supervisão e de
ter maior importância a partir de meados da década de 90, quando o
orientação educacional e na biblioteca, pelas coordenações de áreas
MEC passou a transferir recursos financeiros diretamente para as
ou de disciplinas e pelo conselho de classe.
unidades escolares, de acordo com o princípio da escola autônoma,
estabelecido na Lei de Diretrizes e Bases da Educação de 1996. Art. 8.º - A organização administrativa será instituída de forma a
atender às finalidades da escola, expressas em sua proposta
Outras estruturas de gestão colegiada que podem atuar no lugar
pedagógica, e a ela se subordinará.
ou em conjunto com a Caixa Escolar são a Associação de Pais e
Mestres (APM), o Colegiado Escolar e o Conselho de Escola.

Professor Pedagogo 44 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Art. 9.° - A organização didática será constituída dos seguintes Mediante os parâmetros curriculares e diversos mecanismos de
componentes: avaliação, entre outras medidas, a reforma no ensino pós-LDB elegeu
como perspectiva ou eixo central a pedagogia das competências para a
a) níveis e modalidades de ensino;
empregabilidade, assumindo assim claramente, no plano da concepção
b) fins, objetivos, duração e carga horária dos cursos; educativa, o ideário do mercado como perspectiva geral do Estado.
c) critérios de organização curricular; Esta perspectiva pedagógica, individualista na sua essência, imediatista
em relação ao mercado de trabalho, é coerente com o desmonte dos
d) verificação do rendimento escolar, formas de avaliação, direitos sociais ordenados por uma perspectiva de compromisso social
classificação e reclassificação, aproveitamento de estudos coletivo, e, portanto, contrária à perspectiva de uma “qualificação como
recuperação e promoção; relação social” (Ramos, 2001), que situa a relação trabalho-educação
e) controle de frequência; no plano das contradições que são engendradas pelas relações sociais
de produção.
f) matrícula e transferência;
A reforma de ensino proposta para a formação dos profissionais
g) estágios;
da educação, área estratégica para as mudanças pretendidas, propôs-
h) expedição de históricos escolares, declarações, certificados se a introduzir no cenário brasileiro uma nova compreensão do
e diplomas, guarda da documentação escolar. professor e da sua formação, determinando para isto, entre outras
medidas, a criação de novas instâncias para a formação (como o
Instituto Superior de Educação e o Curso Normal Superior) e o
FORMAÇÃO DO PEDAGOGO NO BRASIL. desenvolvimento de competências profissionais como conteúdo. No
plano epistemológico, dos processos e concepções de construção e
Como cenário geral para as políticas educacionais, a década de socialização do conhecimento, a noção das competências reduz a
90 viveu um quadro de reformulação política e econômica do sistema e, formação a um “receituário genérico e abstrato. Treinar professores
consequentemente, de ajuste das políticas sociais à reformulação em para esse receituário é mais barato e rápido do que lhes oferecer
curso. Destaca-se aí a redução do papel do Estado, por um lado; por condições para fazerem cursos onde se articula ensino com a análise e
outro, o seu papel controlador e regulador dos sistemas sociais. pesquisa da realidade” (Frigotto, 2001, p. 1).
A discussão que acompanhou o longo processo de formulação Segundo Kuenzer (2000) é preciso reconhecer neste conceito o
da nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira, aprovada em significado que o mesmo adquire no interior das novas demandas do
1996, foi iniciada na década de 80, com a participação dos educadores. mundo do trabalho. A autora recorre a Tanguy e Roupé (apud Kuenzer,
Suas formulações e propostas, no entanto, logo se revelaram 2000), para identificar a competência, nas atuais circunstâncias, como
incompatíveis com as políticas de ajuste assumidas pelos idealizadores fortemente vinculada à ações mensuráveis através da aferição dos
do modelo imposto aos governos latino-americanos pelo Banco Mundial seus resultados imediatos. O forte apelo ao conceito de competência,
e foram rejeitadas pela maioria subordinada ao grupo governamental. presente em todas as diretrizes que deverão nortear o ensino nas
Instaurou-se, assim, ao final, com esta lei, uma reforma autoritária e próximas décadas, vincula-se, segundo a autora, a uma concepção
consoante com o ajuste neoliberal. A educação, de direito social e produtivista e pragmatista onde a educação é confundida com
subjetivo de todos, passa a ser encarada cada vez mais como um informação e instrução, com a preparação para o trabalho,
serviço a ser prestado e adquirido no mercado, ou oferecido como distanciando-se do seu significado mais amplo de humanização, de
filantropia. Daí, a dominância do pensamento privatista como diretriz formação para a cidadania.
educacional e frequentes campanhas filantrópicas substituindo políticas
efetivas de educação. O modelo dos Institutos Superiores de Educação (ISE) coloca
uma clara desresponsabilização às instituições universitárias, pela
O ideário crítico sobre o que deveria ser um projeto nacional de formação de professores. No interior de uma política que diferenciou e
educação, que foi se constituindo ao longo das últimas décadas e que hierarquizou formalmente o Ensino Superior, os ISEs foram instituídos
encontrou em vários locais do país algumas possibilidades de como local preferencial para a formação destes profissionais, em
implementação não teve na formulação final da nova LDB o mesmo cursos com menores exigências, para a sua criação e manutenção, do
destino. Esta lei, apresentada como uma legislação moderna para o que aquelas inerentes às instituições universitárias. Os critérios que
século XXI, ressignificou vários consensos do rico debate dos anos 80; orientam a proposta dos Institutos Superiores de Educação
traduziu-os, no entanto, para uma outra lógica de desenvolvimento, na diferenciam-se dos parâmetros que orientam uma formação
qual descentralização significa principalmente uma desconcentração da universitária, esta necessariamente vinculada à pesquisa e produção de
responsabilidade do Estado; autonomia, passa a ser compreendida conhecimento. Considerando que a formação inicial é momento-chave
como liberdade de captação de recursos; igualdade, como equidade; da construção de uma socialização e de uma identidade profissional,
cidadania crítica, como cidadania produtiva; e a melhoria da qualidade, esta determinação é desqualificadora para a profissionalização docente
como adequação ao mercado (Shiroma et al., 2000). no país.

Professor Pedagogo 45 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Após um longo período de expectativa e de mobilização da outras funções que envolvem o ato educativo intencional. Não se
comunidade acadêmica na tentativa de influir em suas definições, foram considera, neste sentido, aplicável para a o Curso de Pedagogia,
aprovadas as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação de dicotomizar, na formação, carreiras diferenciadas conforme a
Professores da Educação Básica, em Nível Superior, Curso de categorização - Bacharelado Acadêmico, Bacharelado
Licenciatura, de Graduação Plena (Resolução CNE/CP 1/2002), com Profissionalizante e Licenciatura. A formação do pedagogo envolve
base no Parecer do CNE/CP 009/2001. A partir de proposta inicial estas três dimensões, podendo, no seu aprofundamento, dar maior
elaborada por uma comissão oficial de colaboradores/assessores do relevo a uma destas dimensões.
Ministério da Educação, tais diretrizes foram aprovadas pelo CNE
- O comprometimento da desejável integração entre a formação
quase na sua totalidade, num processo mais homologatório do que
do bacharel e aquela do licenciado. Dado o modelo institucional que
propriamente de discussão. Apesar de terem sido realizadas várias
passa a ser privilegiado, qual seja o dos Institutos Superiores de
audiências públicas e outras reuniões nacionais e regionais com as
Educação, que autonomiza o local de formação de professores,
mais diversas entidades educacionais do país, como resposta à
desvinculando institucionalmente as licenciaturas dos bacharelados,
pressão do movimento dos educadores, não abriu-se um autêntico
fica comprometida a desejável integração na formação destas duas
diálogo nestas oportunidades.
categorias de carreiras, com sérias consequências presumíveis para a
Entre as questões mais polemizadas que foram sendo apontadas formação do professor.O fosso entre a formação do bacharel e a do
na análise das diretrizes delineadas neste período pós-LDB, podemos licenciado precisa ser evitado para que a formação deste último, ao
citar: avançar na sua qualificação técnico-científica, não seja comprometida
na sua formação.
- a noção de competências como concepção nuclear para
orientar a formação profissional dos educadores, em lugar dos saberes - A duração do Curso e Carga-horária do Curso:
docentes; esta opção mostra seu vínculo com um determinado projeto comprometimento do tempo necessário para uma sólida formação
societário que, conforme a visão de vários autores (Frigotto, 2001; profissional. Uma organização curricular inovadora deve contemplar
Kuenzer, 2000; Shiroma et al, 2000), em nome da globalização, ajusta uma sólida formação profissional acompanhada de possibilidades de
as questões educacionais às regras da mercantilização com toda aprofundamentos e opções realizadas pelos alunos e propiciar,
exclusão que tal escolha produz. também, tempo para pesquisas, leituras e participação em eventos,
entre outras atividades, além da elaboração de um trabalho final de
- a intenção de extinguir gradativamente o curso de Pedagogia.
curso que sintetize suas experiências. A carga horária deve assegurar a
Os preceitos legais atualmente estabelecidos, embora realização das atividades acima especificadas. Para atingir este
contraditórios, indicam para o curso de Pedagogia a condição de um objetivo, além de cumprir a exigência de 200 dias letivos anuais, com 4
Bacharelado Profissionalizante, destinado a formar os especialistas em horas de atividades diárias, em média, é desejável que a duração de
gestão administrativa e coordenação pedagógica para os sistemas de um curso de licenciatura seja de 4 anos, com um mínimo de 3.200
ensino (LDB/96, Art. 64). Depois de muitos embates ocorridos por horas, para que se possa contemplar de forma mais aprofundada tanto
ocasião da formulação de normas complementares à LDB, a atribuição a carga teórica necessária para a formação, como o desenvolvimento
da formação de professores para a educação infantil e séries iniciais do das práticas que aproximam o estudante da realidade social e
ensino fundamental ficou assegurada também para o curso de profissional. Há, nesse sentido, modalidades de prática que são
Pedagogia, mas apenas para aqueles que se situam em instituições complementares e necessárias para a formação do profissional da
universitárias (Parecer CNE-CES 133/2001). Este é um percalço que educação, quais sejam: a prática como instrumento de integração e
deriva da decisão já colocada pela LDB/96 e que foi reforçado pelas conhecimento do aluno com a realidade social, econômica e do
regulamentações posteriores, que optou pelo modelo dos Institutos trabalho de sua área/curso; como instrumento de iniciação à pesquisa e
Superiores de Educação, formação técnico-profissionalizante de ao ensino e a prática como instrumento de iniciação profissional.
professores, que se contrapõe ao modelo das Faculdades de
A “Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional Darci Ribeiro”
Educação, onde a formação destes profissionais é vista de forma mais
de número 9394/96 (documento maior da legislação educacional
acadêmica, mediada pelas possibilidades de maiores interfaces na
brasileira), no Título VI -Dos Profissionais da Educação - em seu artigo
formação. A proposta de diretrizes apresentada pela CEEP - Comissão
64, reproduzido literalmente abaixo, nos elenca:
de Especialistas de Ensino de Pedagogia/SESU/MEC - defende para
este curso, responsável pela formação acadêmico-científica do campo “Art. 64. A formação de profissionais de educação para a
educacional na graduação, uma graduação plena na área, que não se administração, planejamento, inspeção, supervisão e orientação
realiza concretamente sem que seja considerada a sua dimensão educacional para a educação básica, será feita em cursos de
intrínseca, que é a da docência. A tese defendida por esta proposta graduação em pedagogia ou em nível de pós-graduação, a critério da
procura garantir a formação unificada do Pedagogo, profissional que, instituição de ensino, garantida, nesta formação, a base comum
tendo como base os estudos teórico-investigativos da educação, é nacional.”
capacitado para a docência e consequentemente para outras funções
técnicas educacionais, considerando que a docência é a mediação para

Professor Pedagogo 46 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
A existência legal do curso de Pedagogia e de seu campo entre profissionais que terão a mesma formação para o mesmo campo
epistêmico está garantida por lei, pela lei maior da Educação de nosso e área de atuação, profissionalidade e profissionalização.
país.
Portanto, cabe aqui ressaltar que os Cursos Normais Superiores
Confundem-se os menos avisados e pouco esclarecidos de que formam os professores que irão atuar na Educação Infantil e séries
a Pedagogia esteja apenas relacionada à formação de professores e iniciais do Ensino Fundamental e a Pedagogia forma o Pedagogo,
que tal formação seria então substituída pelos Institutos Superiores de profissional da Educação que entende do fenômeno educativo de
Educação -ISES-, que mantêm em sua estrutura administrativa e maneira profunda e que poderá atuar na gestão, inspeção, orientação
pedagógica os Cursos Normais Superiores, que deverão também educacional entre outros tantos cargos e espaços educativos.
formar os professores multidisciplinares (ou polivalentes) para atuarem
na Educação Infantil e séries iniciais do Ensino fundamental.

Esclarecendo, os cursos de Pedagogia formam os profissionais O FINANCIAMENTO DA EDUCAÇÃO.
de Educação que terão por foco de estudo e objeto de preocupação o O financiamento da educação, a partir da Constituição Federal
fenômeno educativo, a Educação do cidadão, ocorra ela dentro ou fora (CF) de 1988, passou a sofrer menos intempéries, visto que o legislador
dos limites da instituição escolar. Neste sentido, tem sido princípio da garantiu o mínimo necessário, ou seja, 18% para a União e 25% de
área que para se tornar pedagogo, profissional que irá atuar na gestão, Estados e Municípios.
inspeção, orientação, dentro, sobretudo das instituições escolares, este
deverá ser por excelência um professor, um docente que conhece a Além disso, no artigo 211, parágrafo primeiro, está dito que “ A
finalidade maior da existência da escola, que é oferecer acesso ao União organizará o sistema federal de ensino e financiará as
conhecimento pelas vias de participação no processo de ensino para instituições de ensino públicas, federais e exercerá, em matéria
que o outro possa aprender e se tornar/formar pessoa-cidadão. educacional, função redistributiva e supletiva, de forma a garantir
equalização de oportunidades educacionais e padrão mínimo de
Cabe esclarecer, portanto, que a academia sempre defendeu e qualidade do ensino mediante assistência técnica e financeira aos
continua defendendo o princípio lógico de que para se tornar pedagogo Estados, ao Distrito Federal e aos Municípios.”
este profissional deveria ter a docência enquanto eixo da sua formação,
porém a Pedagogia não se esgota na formação docente. Vai além em O que significa isso de fato? 18% e 25% sobre o que?
termos de referencial e profundidade teórica e em termos da A CF estabelece em seus artigos de 157 a 162, que o sistema
abrangência com que se analisa, estuda e desenvolve o fenômeno tributário deve ser partilhado pelas esferas de governo, visto que no
educativo. Brasil é o governo federal quem mais arrecada. Desta forma, parte da
A questão que pode suscitar dúvidas reside no fato de que a LDB arrecadação da União é transferida para Estados e Municípios e parte
estabelece uma nova estrutura institucional, que são os ISES e suas da arrecadação dos Estados é transferida aos Municípios, porque esse
diversas modalidades de formação, enquanto espaço privilegiado para último ente federado é quem menos arrecada.
a formação de qualquer licenciado, buscando tornar-se um espaço No entanto, é exatamente nos Municípios, os que menos
específico de formação de professores, tal como foi pensado e arrecadam, que as políticas públicas acontecem, pois é onde vivem as
posteriormente reforçado pelo Decreto Presidencial nº 3.276, de 06 de pessoas. E mesmo após a partilha dos recursos, a União fica com mais
dezembro de 1999 (já reformulado pela força do movimento dos da metade da arrecadação, por isso, em muitos lugares, caso não haja
profissionais da Educação) . complementação, os locais não têm condições de investimento, visto
Tal intenção esbarra na autonomia didático-pedagógica que a que a transferência dá apenas para os salários dos profissionais de
Constituição Federal atribui para as instituições universitárias -Centros ensino.
Universitários e Universidades-, que podem gerir seus projetos Mas a partir de que bolo são calculados os 18%? No Brasil há
pedagógicos com autonomia, respeitando as orientações e definições três categorias de tributos, impostos, taxas e contribuições. Os
das Diretrizes instituídas (Diretrizes Curriculares Nacionais para a impostos são muito importantes, pois por meio deles o governo obtém
Formação dos Professores da Escola Básica, já aprovada e das recursos que custeiam quase todas as políticas públicas. As taxas são
Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Pedagogia, em tarifas públicas cobradas para fornecimento de algum serviço, tal como
estudo). documento, ou segunda via de certidões e passaportes, por exemplo.
O que pode ser entendido é que estão tentando descaracterizar As contribuições de melhoria são cobradas do contribuinte que teve,
a Pedagogia enquanto licenciatura, tentando colocá-la como por exemplo, seu imóvel valorizado por alguma benfeitoria. E as
bacharelado, definindo que os professores tenham formação em contribuições sociais e econômicas, de competência da União. As
instituição única. Esquecem-se, porém, de colocar que o mesmo pode sociais são para cobrir gastos da Seguridade Social e as econômicas
não ocorrer frente ao fato da autonomia dos Centros Universitários e para fomentos de certas atividades econômicas.
Universidades, que poderão insistir, inclusive judicialmente, na isonomia Para o cálculo dos 18% são computados apenas os impostos,
conforme estabelecido pelo parágrafo 212 da CF, que diz que a União

Professor Pedagogo 47 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
aplicará nunca menos de 18% e os Estados e Distrito Federal e os Municípios. Quem arrecada a contribuição é o INSS, que fica com 1% a
Municípios, nunca menos que 25% da receita resultante dos impostos e título de administração e repassa o restante para o FNDE, que
transferências constitucionais. E, ainda neste mesmo artigo, está dito desconta 10% e dividi os 90% da seguinte forma:
que o ensino fundamental terá o acréscimo da contribuição social
A União fica com um terço dos recursos mais os 10% do FNDE.
do salário-educação, recolhidos pelas empresas. (a emenda 53 de
Os outros dois terços dos 90% ficam com Estados e Municípios, em
2006 modificou isso, acrescentando as outras etapas de ensino).
razão direta ao número de matrículas de cada ente federado, de acordo
A fórmula de cálculo é a seguinte: Após os repasses obrigatórios com o censo escolar do ano anterior.
para os fundos de participação de Estados e Municípios e dos Estados
Além do salário-educação o FNDE possui verbas oriundas de
para os Municípios (esses repasses são feitos para diminuir o impacto
outras contribuições sociais. O Fundo desenvolve alguns projetos
das grandes diferenças de arrecadação e para aumentar o poder de
importantes, tais como: Programa Dinheiro Direto na Escola (PDDE),
investimento de Estados e Municípios, levando em consideração que a
Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE), Brasil Alfabetizado,
União arrecada aproximadamente 70% dos tributos, os Estados perto
Apoio ao Atendimento à Educação de Jovens e Adultos (Fazendo
de 25% e os Municípios em torno de 5%) , as porcentagens são
escola/PEJA) e Programa Nacional de Apoio ao Transporte Escolar
retiradas do bolo restante. Isso ocorre para não haver dupla
(Pnate).
contabilização.
Os fundos, criados em 1996 – para manutenção e
Os recursos transferidos são destinados à Manutenção e
desenvolvimento do ensino fundamental- Fundef- e em 2007 –
Desenvolvimento do Ensino, conforme o disposto no artigo 212 da CF,
substituindo o anterior e visando à educação básica como um todo-
regulamentado pela LDB, ou seja, para o grupo de ações que estão
Fundeb- representam uma tentativa de racionalização do gasto
dentro deste critério. As atividades suplementares, tais como merenda,
educação. Podemos dizer que além da vinculação de recursos,
uniformes, dinheiro direito na escola são financiados com outros
conforme explicado acima, há a subvinculação.
recursos administrados pelo Fundo Nacional de Desenvolvimento da
Educação (FNDE), com recursos provenientes, dentre outras fontes, do O Fundef, criado com inspiração no que estava registrado nas
salário-educação, recolhido pela União, que uma parte para Estados e Disposições transitórias da CF, que dizia que em 10 anos o poder
Municípios. público deveria aplicar 50% do total de recursos para educação na
universalização do ensino fundamental e na drástica redução do
analfabetismo. No entanto, o Fundef só seria aprovado 8 anos depois,
O que significa a Manutenção e Desenvolvimento do Ensino estendendo por mais dez anos o disposto na disposições transitórias,
(MDE) ? O que está dentro disso? mas retirando a meta da alfabetização, pois partiam do perverso
princípio de que universalizando o ensino fundamental estariam
Apesar de vaga a expressão MDE, ela diz respeito a ações
resolvendo por inércia o analfabetismo.
específicas, que focam diretamente o ensino. Ações estas
especificadas pela LDB, artigo 70. São elas: A Educação de jovens e adultos também não foi retirada do
Fundef. Podemos dizer que o Fundo foi um avanço para o ensino
· Remunerar e aperfeiçoar os profissionais da educação;
fundamental, que está praticamente universalizado, mas o fato de os
· Adquirir, manter, construir e conservar instalações e outros níveis de ensino terem ficado fora do bolo, fez com que,
equipamentos necessários ao ensino (construção de escolas, por especialmente, a educação infantil e o ensino médio ficassem com um
exemplo); prejuízo enorme.
· Usar e manter serviços relacionados ao ensino tais como Pois cada ente federado deveria separar 60% do bolo de
aluguéis, luz, água , limpeza etc. recursos para o Fundef e o restante aplicar em suas prioridades, ou
· Realizar estudos e pesquisas visando o aprimoramento da seja, Estados em ensino médio e municípios em educação infantil
qualidade e expansão do ensino, planos e projetos educacionais. (creche e pré-escola). No caso da União, após o repasse ela deveria
aplicar o restante no ensino superior e cumprir a função redistributiva,
· Realizar atividades meio necessárias ao funcionamento do ou seja, aqueles Estados que não conseguissem atingir o mínino de
ensino como vigilância, aquisição de materiais... recursos para o Fundo teria complementação da União, o que nunca
· Conceder bolsas de estudo a alunos de escolas públicas e ocorreu como deveria.
privadas. O Fundef, apesar de seus avanços, trouxe um grande prejuízo
· Adquirir material didático escolar. ao desenvolvimento do ensino médio e educação infantil, conforme
podemos observar hoje, com os grandes déficits de oferta destes
· Manter programas de transporte escolar.
níveis. Isso foi um dos motivos que levaram às instituições que lutam
Além dessas receitas, há outras fontes, tais como o salário- por uma educação de qualidade para todos, se movessem para
educação, que é recolhido das empresas, sobre o cálculo de suas substituir o Fundef, pelo Fundeb.
folhas de pagamento. Essa receita é dividida entre União, Estados e

Professor Pedagogo 48 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Três anos após a implantação do Fundef, vários segmentos 1 - Filosofia
sociais já percebiam que o fundo não era suficiente para suprir as
A palavra filosofia é correntemente utilizada no nosso dia-a-dia,
grandes necessidades da política e em 1999 foi apresentada uma nova
como por exemplo, nas expressões seguintes: “Esta é a minha filosofia
proposta ao Parlamento. A Proposta de Emenda Constitucional que
de vida.”, ou “Pela minha filosofia, considero esta postura inadequada.”.
criava o Fundeb. No entanto, só em 2006 ela foi aprovada e passou a
Sabemos, ou já ouvimos dizer, que ela significa “amigo da sabedoria”
valer a partir de 2007.
(filon = amigo / sofia = sabedoria), e também já ouvimos referências aos
Como sempre houve um sub-financiamento da educação, ao famosos filósofos gregos, como Aristóteles, Sócrates e Platão. Mas
Fundeb foram acrescidos novos recursos, como os oriundos do IPVA, afinal, sabemos realmente o que é filosofia e para que ela serve?
por exemplo, ampliou o financiamento, mas ampliou, também o número
No decorrer da nossa história, muitas foram as definições
de alunos atendidos, não equacionando, ainda, a questão do sub-
atribuídas à Filosofia, das mais simples as mais complexas, levando a
financiamento.
pessoas, muitas vezes, a descartar a sua importância, retrucando que
O cálculo do Fundeb também é feito de acordo com o número de “é um jogo inútil e estéril de palavras” ou que é “muito difícil e só serve
matrícula na educação básica pública de acordo com os dados do e interessa a pessoas especiais e muito inteligentes”. Uma frase muito
último censo escolar, feito anualmente. Dividi-se o montante pelo popular, que diz respeito a Filosofia, é que “a filosofia é uma ciência
número de matriculados para se obter o valor aluno e em seguida com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual”, referindo-se
repassar aos Estados e municípios a parte que cabe a cada um. que não precisamos dela para resolver os nossos problemas.
Aqueles que não atingirem o valor mínimo por aluno deverão ter
Buscando uma outra vertente, o autor aborda que “... a Filosofia é
complementação da União. Já se verificou que a União, em muitos
um corpo de conhecimento, constituído a partir de um esforço que o ser
momentos, subdimensiona o custo por aluno para não ter de efetuar a
humano vem fazendo de compreender o seu mundo e dar-lhe um
complementação para os diversos estados que não conseguiriam
sentido, um significado compreensivo. Corpo de conhecimentos, em
atingir o piso.
Filosofia, significa um conjunto coerente e organizado de
Os Estados receberão recursos de acordo com o número de entendimentos sobre a realidade. Conhecimentos estes que
matrículas no ensino fundamental e médio e os Municípios com base expressam o entendimento que se tem do mundo, a partir de desejos,
no ensino fundamental e educação infantil anseios e aspirações.” (p.22).

Fonte: www.criancanoparlamento.org.br Podemos explicar melhor a colocação acima nos reportando ao
trabalho do filósofo, que consiste em sistematizar as aspirações
humanas, sendo elas que dão o sentido ao cotidiano e a suas
EDUCAÇÃO E PEDAGOGIA: BASES FILOSÓFICAS, implicações, ou seja, ninguém vive sem um sentido para a vida, e o
filósofo busca o entendimento desse sentido norteador, reflete o destino
SOCIOLÓGICAS, PSICOLÓGICAS, ANTROPOLÓGI-
da humanidade.
CAS E POLÍTICAS DE EDUCAÇÃO.
“A Filosofia se manifesta ao ser humano como uma forma de
Aspectos Filosóficos da Educação entendimento que tanto propicia a compreensão da sua existência, em
termos de significado, como lhe oferece um direcionamento para a sua
LUCKESI, Cipriano (1990). Filosofia da Educação. São Paulo:
ação, um rumo para seguir ou, ao menos, para lutar por ele. Ela
Cortez.
estabelece um quadro organizado e coerente de “visão de mundo”
FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO sustentando, consequentemente, uma proposição organizada e
Este livro foi elaborado com o propósito de servir como material coerente para o agir. Nós não “agimos por agir”. Agimos, sim, por uma
de apoio para cursos de formação do magistério. O autor objetivou certa finalidade, que pode ser mais ampla ou mais restrita. As
discutir a Filosofia da Educação vinculada diretamente com a prática finalidades restrita são aquelas que se referem à obtenção de
docente, refletindo-a e buscando ter clareza do seu significado, benefícios imediatos, tais como: comprar um carro, assumir um cargo.
discutindo a didática como um elemento articulador dos aspectos As finalidades mais amplas são aquelas que se referem ao
teóricos e filosóficos da educação com o exercício docente. sentido da existência: buscar o bem da sociedade, lutar pela
I - DA FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO À PEDAGOGIA emancipação dos oprimidos, lutar pela emancipação de um povo, etc..
Isso tudo, por quê? Certamente devido ao fato de que a vida só tem
Filosofia e Educação: elucidações conceituais e articulações sentido se vivida em função de valores dignos e dignificantes. Desse
Segundo Luckesi, a educação é norteada por uma concepção modo, a Filosofia é um corpo de entendimentos que compreende a
teórica, ou seja, a prática educacional é estruturada em uma concepção direciona a existência humana em suas mais variadas dimensões.” (p.
filosófica que direciona os elementos envolvidos neste processo. 23)

Em primeiro lugar, discute o que é filosofia, articulando-a, A Filosofia deve propiciar um modo coerente de agir, já que parte
posteriormente, com a educação. de uma forma coerente de interpretar o mundo.

Professor Pedagogo 49 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Segundo Leôncio Basbaum, “a filosofia não é, de modo algum, (não o interesse pessoal, mas o interesse social) determina, assim, os
uma simples abstração independente da vida. Ela é, ao contrário, a julgamentos do homem no domínio da vida social.” (Plekanov)
própria manifestação da vida humana e a sua mais alta expressão. Por
Como já dissemos, a filosofia busca a interpretação dos anseios
vezes, através de uma simples atividade prática, outras vezes no fundo
humanos, ou seja, não preocupa-se só com o presente, mas com o que
de uma metafísica profunda e existencial, mas sempre dentro da
está por vir, sendo que é condicionada pelo momento histórico e, ao
atividade humana, física ou espiritual, há filosofia (...) A filosofia traduz
mesmo tempo, condicionante do momento histórico subsequente. Mas
o sentir, o pensar e o agir do homem. Evidentemente, ele não se
como?
alimenta da filosofia, mas, sem dúvida nenhuma, com a ajuda da
filosofia.”. A filosofia manifesta-se como impulsionadora da ação, refletindo
as aspirações do homem e, consequentemente influenciando os
Todos nós temos necessidade de compreender o mundo, sendo
acontecimentos futuros, que já não serão os mesmos partindo-se do
uma necessidade natural do ser humano, não sendo este um aspecto
pressuposto que já foram influenciados por uma reflexão anterior.
somente do filósofo. Todos nós, seres viventes, segundo Arcângelo
Pode-se considerá-la como um sustentáculo de um determinado modo
Buzzi, possuímos uma filosofia de vida, uma concepção de mundo,
de agir, uma arma política.
uma significação inconsciente que emprestamos à vida, sendo que
podemos dizer que todo homem é filósofo no sentido usual da Em função disto, podemos identificar contradições no decorrer da
expressão. O sentido crítico do termo fica reservado àqueles que história humana. Ao mesmo tempo em que governantes exorcizam a
consciente e deliberadamente se põem a filosofar. filosofia, concebendo-a como uma subversão, buscam fundamentar o
seu poder em concepções que lhe deem a garantia da administração
A filosofia é uma reflexão crítica sobre o significado e sentido das
política do povo e da nação e justifiquem a sua totalidade.
coisas e do mundo, e é orientada por valores oriundos do cotidiano, que
podem ser adquiridos espontaneamente, através de um direcionamento Como aborda o autor (p. 27), “não há como negar a filosofia sem
diário inconsciente, decorrente de massificação, do senso comum. fazer filosofia, porque para se negar o valor da filosofia dentro do
Sobre direcionamento é que deve desenvolver-se o filosofar. mundo é preciso ter uma concepção do mundo que sustente esta
negação”.
Quem não pensa, é pensado por outros, portanto, se não
buscarmos refletir criticamente a nossa existência, damos espaço para O pensamento filosófico não é neutro, mas contaminado por
que o setor dominante pense e decida por nós. interesses e aspirações, e podemos identificar no decorrer de sua
história estas evidências de forma bem clara, tanto servindo para impor
Luckesi (p. 25) retoma alguns autores para evidenciar a
uma ideologia dominante como para alçar transformações sócio-
importância de uma compreensão da existência:
culturais.
“Os filósofos exprimem sempre, em cada instante, o pensamento
2 - O Processo de Filosofar
de um grupo social, de classe ou povo a que pertencem ou
representam. Eles são os teoristas, os que explicam e interpretam os É de suma importância evidenciarmos como se constitui esse
desejos, as tendências e as reivindicações desses grupos, classes ou corpo de entendimento a qual nos referimos, e que dá significado ao
povos. Seu pensamento depende da situação de domínio ou mundo. Mas, muitas indagações pairam no ar: Filosofar é inútil? É
submissão em que se encontra o seu grupo, classe ou povo, em difícil e complicado? Como se constitui a filosofia? Como é filosofar?
relação a outros povos, grupos ou classes. Depende de estar no poder Para discutir estas questões, o autor reporta-se a Gramsci (p.28):
ou em luta pelo poder, em ascensão ou em decadência.” (Leôncio “deve-se destituir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia seja
Basbaum) algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma
“O ato de filosofar versa sobre o ato de viver, a Filosofia e a determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos
História . Por outro lado, isso não significa que a história, que o puro profissionais e sistemáticos”..
viver, seja anterior à filosofia. Não há anterioridade da filosofia sobre a Há uma grande tendência em assumirmos o senso comum, ou
história nem da história sobre a filosofia. O ato de viver já está posto na seja, quando não refletimos a respeito de determinado aspecto,
percepção do ser, a vida é filosofia. Ao filósofo resta extrair essa deixamo-nos levar pelo que é comum e hegemônico socialmente.
filosofia, dizer o pensamento pressuposto de um tal viver, indicar a
partir de qual horizonte, de qual dimensão, um tal viver se constitui.” O primeiro passo para o processo de filosofar é assumir a
(Arcângelo Buzzi) necessidade de conhecer os valores que nos norteiam, tomando
consciência das ações, lugares e direções que permeiam a nossa vida.
“As ideias ou os princípios dos homens provêm da experiência, Um segundo passo, o momento crítico, consiste em submeter esses
quer se trate de princípios especulativos, quer de princípios práticos de valores a uma crítica profunda, identificando o seu significado em nosso
moral. Os princípios morais variam segundo os tempos e lugares. cotidiano, a sua essência, desvendando-lhes o segredo. O terceiro
Quando os homens condenam uma determinada ação é porque ela os momento consiste na construção crítica dos valores que venham a ter
prejudica; quando a enaltecem é porque ela lhes é útil. O interesse

Professor Pedagogo 50 A Opção Certa Para a Sua Realização
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um significado norteador de nossa existência, valores estes válidos Quando a educação não é refletida, efetua-se de foram
para orientar nossas ações no sentido que desejarmos seguir. cristalizada, reproduzindo valores do meio de produção, acomodando-
nos em uma única interpretação de mundo, não possibilitando uma
Estes momentos acima referidos não são fragmentados, como
lapidação adequada a cada realidade.
nos foi exposto. O processo de filosofar é uma constante tomada de
consciência, reflexão e reconstrução de valores, simultaneamente. Um Não temos como desvincular filosofia e educação, sendo-nos
momento é, ao mesmo tempo, dependente e propiciador do outro. muito mais rico e eficaz propiciarmos esta parceria de forma consciente
e inovadora.
3 - Filosofia e Educação
4 - Pedagogia
A educação não se manifesta como um fim em si mesma, mas
sim como um instrumento social de manutenção ou transformação. Os processos sócio-culturais, a concepção psicológica do
Caracteriza-se por uma preocupação, uma finalidade a ser atingida, educando, a forma de organização do processo educacional, e outros,
necessitando, portanto, de pressupostos que a norteiem. É a reflexão permeiam a pedagogia, e devem estar articulados a partir de
filosófica quem instrumentaliza a educação em uma sociedade. A pressupostos filosóficos.
educação preocupa-se em propiciar o desenvolvimento das novas
Somente através de uma reflexão filosófica sobre a educação é
gerações, enquanto que a filosofia é reflete o que e como deve ser este
que devemos estruturar a ação pedagógica, pois esta permite a
desenvolvimento.
compreensão dos valores envolvidos, possibilitando-nos direcionar a
Segundo Anísio Teixeira (p.31), abordando filosofia como forma prática educacional vigente e orientando a posterior.
de vida de um povo, “muito antes que as filosofias viessem
expressamente a ser formuladas em sistemas, já a educação, como
processo de perpetuação da cultura, nada mais era do que o meio de Educação e Sociedade: redenção, reprodução e
se transmitir a visão do mundo e do homem, que a respectiva transformação
sociedade honrasse e cultivasse.” Para que possamos entender que sentido devemos dar à
Percebemos uma preocupação com o aspecto educacional desde educação dentro de uma sociedade, num primeiro momento, devemos
os pré-socráticos. Citamos os sofistas, que foram educadores, e os buscar compreendê-la bem como ao seu direcionamento.
primeiros a receberem uma remuneração para ensinar. O próprio São três as tendências filosófico-políticas da educação
Sócrates morreu em função do seu ideal de educar e estabelecer uma necessárias a nossa compreensão: a educação como redenção, como
moralização grego-ateniense. reprodução e como transformação da sociedade. Filosóficas, porque
Tanto a Filosofia como a Educação estão presentes em todas as compreendem o seu sentido, e políticas porque constituem um
sociedades, de forma sistematizada ou não, a primeira refletindo as direcionamento para sua ação.
aspirações humanas e a outra como instrumento veiculador dessa 1 - Educação como redenção da sociedade
reflexão.
Esta tendência concebe a sociedade como composta por
Luckesi (p. 32) releva que “a Filosofia fornece à educação uma indivíduos que convivem em um todo orgânico e harmonioso, ocorrendo
reflexão sobre a sociedade na qual está situada, sobre o educando, o alguns desvios, sejam eles grupais ou individuais. Para a manutenção
educador e para onde esses elementos podem caminhar. desta sociedade, deve-se integrar os indivíduos novos (novas
Nas relações entre Filosofia e educação só existem realmente gerações) ou que estão a sua margem, adaptando-os aos seus
duas opções: ou se pensa e se reflete sobre o que se faz e assim se parâmetros.
realiza uma ação educativa consciente; ou não se reflete criticamente e O papel da educação seria o de redentora da sociedade, sendo
se executa uma ação pedagógica a partir de uma concepção mais ou quase que exterior a ela, tendo como finalidade a (re) integração
menos obscura e opaca existente na cultura vivida do dia-a-dia - e harmônica do indivíduo ao seu meio, ou seja, no todo social. Deve,
assim se realiza uma ação educativa com baixo nível de consciência. segundo referência do autor a Saviani (p. 38) ”reforçar os laços sociais,
O educando, quem é, o que deve ser, qual o seu papel no promover a coesão social e garantir a integração de todos os indivíduos
mundo; o educador, quem é, qual o seu papel o mundo; a sociedade, o no corpo social.”.
que é, o que pretende; qual deve ser a finalidade da ação pedagógica. A educação, neste contexto, assume-se como autônoma na
Estes são alguns problemas que emergem da ação pedagógica dos medida em que se configura como mantenedora do corpo social, sendo
povos para a reflexão filosófica, no sentido de que esta estabeleça que ela é quem interfere na sociedade, e não o contrário.
pressupostos para aquela.
Um grande exemplo desta concepção de educação está na obra
Assim sendo, não há como processar uma ação pedagógica sem de Comênio “Didática Magna: Tratado da Arte Universal de Ensinar
uma correspondente reflexão filosófica...”. Tudo a Todos, onde fica evidente que para ele havia uma ordem, uma
harmonia primitiva, no Paraíso Terrestre, instituída por Deus, e a qual o

Professor Pedagogo 51 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
homem quebrou, através do pecado, cabendo à educação a Não há como continuar a produzir sem a entrada de matérias-
recuperação dessa ordem. Somente através da educação das crianças primas e sem a reprodução das condições técnicas da produção. Os
e dos jovens (gerações novas) a sociedade será redimida, não havendo equipamentos desgastam-se ou tornam-se obsoletos. Todavia, não nos
possibilidades através do adulto interessa aprofundar, aqui, o estudo da reprodução dos bens materiais.
Basta-nos, por enquanto, saber que sua reprodução é condição
Comênio ressalta que “um dos primeiros ensinamentos que a
indispensável para manter a sua produção.
Sagrada Escritura nos dá é este: sob o sol não há nenhum outro
caminho mais eficaz para corrigir as corrupções humanas que a reta No entanto, a produção de bens materiais e sua reprodução não
educação da juventude.”. se realizam sem outro elemento básico: a força de trabalho. Como
qualquer outro elemento, ela não é infinita e inesgotável, o que exige,
Esta concepção de educação permaneceu durante muito tempo,
também, a sua reprodução (...) torna-se necessária a formação
influenciando a Pedagogia Tradicional bem como os pedagogos do final
profissional, segundo os diversos níveis e necessidades da divisão
século XIX na Pedagogia Nova. Ainda hoje podemos identificar
social do trabalho.”.
sequelas desta tendência em práticas onde não há um compromisso
político e sim uma proposta de “por ordem na sociedade”. A partir deste quadro, a escola passou a atuar como instrumento
para a reprodução qualitativa da força de trabalho da qual necessitava
A esta tendência, Dermeval Saviani denomina de “teoria não-
a sociedade capitalista, sendo que para Althusser ela atua em dois
crítica da educação”, em função da não contextualização crítica dentro
sentidos:
da sociedade na qual está inserida.
1.Ensinando saberes práticos, para os diferentes alunos
2 - Educação como reprodução da sociedade
(operários, técnicos, engenheiros, etc.) de acordo com os diferentes
A educação faz, integralmente, parte da sociedade e a reproduz. lugares de produção onde deveriam ser utilizados.
Desta forma é concebida a educação para esta segunda tendência,
2.Ensinando as regras dos bons costumes (regras de respeito
abordando-a como uma instância dentro da sociedade e
pela divisão social do trabalho), de acordo com o lugar que o aluno
exclusivamente a seu serviço, determinada pelos condicionantes
estava destinado a ocupar.
econômicos, sociais e políticos.
Para Althusser, a escola, e também outras instituições, ensinam
A visão desta abordagem é “crítica”, pois condiciona a educação
os saberes práticos, mas em moldes que asseguram a sujeição à
aos seus determinantes, porém reprodutivista, pois destina-se a
ideologia dominante. Todos devem desempenhar eficientemente a sua
reproduzir seus próprios condicionantes, sendo denominada por
tarefa, seja ela de dominante ou de dominado, devendo, para isto, estar
Saviani de ”teoria crítico-reprodutivista da educação”.
inserido adequadamente na ideologia. Não basta “saber fazer”, mas
Reportemo-nos ao livro Ideologia e Aparelhos Ideológicos de essencialmente também “saber comportar-se”.
Estado, de Louis Althusser, onde, a partir de pressupostos marxistas,
“O termo ‘formação’, muito utilizado para definir os fins da
aborda o papel da escola como um dos aparelhos do Estado, como
atividade escolar, expressa bem o papel de reprodutora do sistema que
umas das instâncias da sociedade que veicula a sua ideologia
desempenha a escola. ‘Formar’ quer dizer ‘dar forma a’, padronizar
dominante, para reproduzi-la.
segundo um modelo.
Luckesi (p. 42), discorre que “toda sociedade, para perenizar-se,
Segundo o autor (p. 47), “a prática escolar que perpassa a vida
necessita reproduzir-se em todos os seus aspectos; caso contrário,
das pessoas, da infância à maturidade, deixa sua marca indelével na
desaparece. Parafraseando Marx, Althusser no diz que se ‘uma
personalidade de cada um reproduzindo a força de trabalho;
formação social não reproduz as condições de produção ao mesmo
reproduzindo mais propriamente as relações de produção de uma dada
tempo em que produz, não conseguirá sobreviver um ano que seja’. E,
sociedade. Os papéis definidos pela divisão social do trabalho se
para que isso aconteça, tanto economistas marxistas como burgueses
especificam conforme a escolaridade de cada um”. Se reportando a
reconhecem ‘que não há produção possível sem que seja assegurada a
Althusser, “Cada massa que fica pelo caminho está praticamente
reprodução das condições materiais da produção: a reprodução dos
recheada da ideologia que convém ao papel que ela deve
meios de produção’.
desempenhar na sociedade de classes:
Assim, a cada momento, os administradores da produção
• papel de explorado (com consciência profissional, moral,
deverão estar atentos, verificando o que necessita ser suprido e/ou
cívica, nacional e apolítica altamente desenvolvida);
substituído, para a manutenção do teor de produção ou para o seu
incremento e aumento. É impossível manter a produção sem que • papel de agente da exploração (saber mandar e falar aos
ocorra a reprodução dos meios materiais que garantam a manutenção operários; as relações humanas);
ou o incremento da produção, assim como torna-se necessária a
• de agentes de repressão (saber mandar e ser obedecido sem
‘reprodução cultural’ da sociedade. É este o tema de abordagem de
discussão ou saber manejar a demagogia da retórica dos dirigentes
Althusser. Vamos seguir seu raciocínio.
políticos);

Professor Pedagogo 52 A Opção Certa Para a Sua Realização
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• ou (de) profissionais (que saibam tratar as consciências com I - DA FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO À PEDAGOGIA
respeito, isto é, com o desprezo, a chantagem, a demagogia que
Filosofia e Educação: elucidações conceituais e articulações
convém, acomodados às sutilezas da Moral, da Virtude, da
Transcendência, da Nação, do papel da França no mundo, etc..)”. Segundo Luckesi, a educação é norteada por uma concepção
teórica, ou seja, a prática educacional é estruturada em uma concepção
Nesta concepção, é a sociedade quem institui a escola a seu
filosófica que direciona os elementos envolvidos neste processo.
serviço, sendo esta apenas um instrumento de reprodução e
manutenção do sistema vigente. Em primeiro lugar, discute o que é filosofia, articulando-a,
posteriormente, com a educação.
3 - Educação como transformação da sociedade
1 - Filosofia
Esta terceira tendência tem como objetivo compreender a
educação como uma mediadora de um projeto social, seja ele A palavra filosofia é correntemente utilizada no nosso dia-a-dia,
conservador ou transformador, não colocando a educação como como por exemplo, nas expressões seguintes: “Esta é a minha filosofia
mantenedora da sociedade, a serviço da conservação. Busca de vida.”, ou “Pela minha filosofia, considero esta postura inadequada.”.
compreender a educação dentro da sociedade, com seus Sabemos, ou já ouvimos dizer, que ela significa “amigo da sabedoria”
determinantes e condicionantes, mas com a possibilidade de trabalhar (filon = amigo / sofia = sabedoria), e também já ouvimos referências aos
pela sua democratização efetiva e concreta, atingindo os aspectos não famosos filósofos gregos, como Aristóteles, Sócrates e Platão. Mas
só políticos, mas também sociais e econômicos, podendo ser afinal, sabemos realmente o que é filosofia e para que ela serve?
denominada de “crítica”. No decorrer da nossa história, muitas foram as definições
Luckesi (p. 49) enfoca que “para tanto, importa interpretar a atribuídas à Filosofia, das mais simples as mais complexas, levando a
educação como uma instância dialética que serve a um projeto, a um pessoas, muitas vezes, a descartar a sua importância, retrucando que
modelo, a um ideal de sociedade. Ela medeia esse projeto, ou seja, “é um jogo inútil e estéril de palavras” ou que é “muito difícil e só serve
trabalha para realizar esse projeto na prática. Assim, se o projeto for e interessa a pessoas especiais e muito inteligentes”. Uma frase muito
conservador, medeia a conservação; contudo, se o projeto for popular, que diz respeito a Filosofia, é que “a filosofia é uma ciência
transformador, medeia a transformação; se o projeto for autoritário, com a qual ou sem a qual o mundo continua tal e qual”, referindo-se
medeia a realização do autoritarismo; se o projeto for democrático, que não precisamos dela para resolver os nossos problemas.
medeia a realização da democracia.” Buscando uma outra vertente, o autor aborda que “... a Filosofia é
A educação, para esta tendência, está a serviço de um projeto de um corpo de conhecimento, constituído a partir de um esforço que o ser
libertação das maiorias dentro da sociedade. Não se restringe a um humano vem fazendo de compreender o seu mundo e dar-lhe um
trabalho simples, sendo que muitas barreiras podem ser encontradas sentido, um significado compreensivo. Corpo de conhecimentos, em
dentro de uma sociedade capitalista, onde há uma ideologia dominante Filosofia, significa um conjunto coerente e organizado de
impondo as regras, mas devemos lutar contra a discriminação, contra o entendimentos sobre a realidade. Conhecimentos estes que
rebaixamento do ensino das camadas populares e contra a apropriação expressam o entendimento que se tem do mundo, a partir de desejos,
da escola pelos interesses dominantes. anseios e aspirações.” (p.22).

4 - Conclusão Podemos explicar melhor a colocação acima nos reportando ao
trabalho do filósofo, que consiste em sistematizar as aspirações
Após discorrermos sobre estas três tendências interpretativas da
humanas, sendo elas que dão o sentido ao cotidiano e a suas
educação, traçamos um parâmetro para que você possa identificar os
implicações, ou seja, ninguém vive sem um sentido para a vida, e o
principais pontos de cada uma.
filósofo busca o entendimento desse sentido norteador, reflete o destino
da humanidade.

Aspectos Filosóficos da Educação “A Filosofia se manifesta ao ser humano como uma forma de
entendimento que tanto propicia a compreensão da sua existência, em
LUCKESI, Cipriano (1990). Filosofia da Educação. São Paulo: Cortez.
termos de significado, como lhe oferece um direcionamento para a sua
FILOSOFIA DA EDUCAÇÃO ação, um rumo para seguir ou, ao menos, para lutar por ele. Ela
Este livro foi elaborado com o propósito de servir como material estabelece um quadro organizado e coerente de “visão de mundo”
de apoio para cursos de formação do magistério. O autor objetivou sustentando, consequentemente, uma proposição organizada e
discutir a Filosofia da Educação vinculada diretamente com a prática coerente para o agir. Nós não “agimos por agir”. Agimos, sim, por uma
docente, refletindo-a e buscando ter clareza do seu significado, certa finalidade, que pode ser mais ampla ou mais restrita. As
discutindo a didática como um elemento articulador dos aspectos finalidades restrita são aquelas que se referem à obtenção de
teóricos e filosóficos da educação com o exercício docente. benefícios imediatos, tais como: comprar um carro, assumir um cargo.

Professor Pedagogo 53 A Opção Certa Para a Sua Realização
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As finalidades mais amplas são aquelas que se referem ao história nem da história sobre a filosofia. O ato de viver já está posto na
sentido da existência: buscar o bem da sociedade, lutar pela percepção do ser, a vida é filosofia. Ao filósofo resta extrair essa
emancipação dos oprimidos, lutar pela emancipação de um povo, etc.. filosofia, dizer o pensamento pressuposto de um tal viver, indicar a
Isso tudo, por quê? Certamente devido ao fato de que a vida só tem partir de qual horizonte, de qual dimensão, um tal viver se constitui.”
sentido se vivida em função de valores dignos e dignificantes. Desse (Arcângelo Buzzi)
modo, a Filosofia é um corpo de entendimentos que compreende a
“As ideias ou os princípios dos homens provêm da experiência,
direciona a existência humana em suas mais variadas dimensões.” (p.
quer se trate de princípios especulativos, quer de princípios práticos de
23)
moral. Os princípios morais variam segundo os tempos e lugares.
A Filosofia deve propiciar um modo coerente de agir, já que parte Quando os homens condenam uma determinada ação é porque ela os
de uma forma coerente de interpretar o mundo. prejudica; quando a enaltecem é porque ela lhes é útil. O interesse
(não o interesse pessoal, mas o interesse social) determina, assim, os
Segundo Leôncio Basbaum, “a filosofia não é, de modo algum,
julgamentos do homem no domínio da vida social.” (Plekanov)
uma simples abstração independente da vida. Ela é, ao contrário, a
própria manifestação da vida humana e a sua mais alta expressão. Por Como já dissemos, a filosofia busca a interpretação dos anseios
vezes, através de uma simples atividade prática, outras vezes no fundo humanos, ou seja, não preocupa-se só com o presente, mas com o que
de uma metafísica profunda e existencial, mas sempre dentro da está por vir, sendo que é condicionada pelo momento histórico e, ao
atividade humana, física ou espiritual, há filosofia (...) A filosofia traduz mesmo tempo, condicionante do momento histórico subsequente. Mas
o sentir, o pensar e o agir do homem. Evidentemente, ele não se como?
alimenta da filosofia, mas, sem dúvida nenhuma, com a ajuda da
A filosofia manifesta-se como impulsionadora da ação, refletindo
filosofia.”.
as aspirações do homem e, consequentemente influenciando os
Todos nós temos necessidade de compreender o mundo, sendo acontecimentos futuros, que já não serão os mesmos partindo-se do
uma necessidade natural do ser humano, não sendo este um aspecto pressuposto que já foram influenciados por uma reflexão anterior.
somente do filósofo. Todos nós, seres viventes, segundo Arcângelo Pode-se considerá-la como um sustentáculo de um determinado modo
Buzzi, possuímos uma filosofia de vida, uma concepção de mundo, de agir, uma arma política.
uma significação inconsciente que emprestamos à vida, sendo que
Em função disto, podemos identificar contradições no decorrer da
podemos dizer que todo homem é filósofo no sentido usual da
história humana. Ao mesmo tempo em que governantes exorcizam a
expressão. O sentido crítico do termo fica reservado àqueles que
filosofia, concebendo-a como uma subversão, buscam fundamentar o
consciente e deliberadamente se põem a filosofar.
seu poder em concepções que lhe deem a garantia da administração
A filosofia é uma reflexão crítica sobre o significado e sentido das política do povo e da nação e justifiquem a sua totalidade.
coisas e do mundo, e é orientada por valores oriundos do cotidiano, que
Como aborda o autor (p. 27), “não há como negar a filosofia sem
podem ser adquiridos espontaneamente, através de um direcionamento
fazer filosofia, porque para se negar o valor da filosofia dentro do
diário inconsciente, decorrente de massificação, do senso comum.
mundo é preciso ter uma concepção do mundo que sustente esta
Sobre direcionamento é que deve desenvolver-se o filosofar.
negação”.
Quem não pensa, é pensado por outros, portanto, se não
O pensamento filosófico não é neutro, mas contaminado por
buscarmos refletir criticamente a nossa existência, damos espaço para
interesses e aspirações, e podemos identificar no decorrer de sua
que o setor dominante pense e decida por nós.
história estas evidências de forma bem clara, tanto servindo para impor
Luckesi (p. 25) retoma alguns autores para evidenciar a uma ideologia dominante como para alçar transformações sócio-
importância de uma compreensão da existência: culturais.

“Os filósofos exprimem sempre, em cada instante, o pensamento 2 - O Processo de Filosofar
de um grupo social, de classe ou povo a que pertencem ou
É de suma importância evidenciarmos como se constitui esse
representam. Eles são os teoristas, os que explicam e interpretam os
corpo de entendimento a qual nos referimos, e que dá significado ao
desejos, as tendências e as reivindicações desses grupos, classes ou
mundo. Mas, muitas indagações pairam no ar: Filosofar é inútil? É
povos. Seu pensamento depende da situação de domínio ou
difícil e complicado? Como se constitui a filosofia? Como é filosofar?
submissão em que se encontra o seu grupo, classe ou povo, em
relação a outros povos, grupos ou classes. Depende de estar no poder Para discutir estas questões, o autor reporta-se a Gramsci (p.28):
ou em luta pelo poder, em ascensão ou em decadência.” (Leôncio “deve-se destituir o preconceito, muito difundido, de que a filosofia seja
Basbaum) algo muito difícil pelo fato de ser a atividade intelectual própria de uma
determinada categoria de cientistas especializados ou de filósofos
“O ato de filosofar versa sobre o ato de viver, a Filosofia e a
profissionais e sistemáticos”..
História . Por outro lado, isso não significa que a história, que o puro
viver, seja anterior à filosofia. Não há anterioridade da filosofia sobre a

Professor Pedagogo 54 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Há uma grande tendência em assumirmos o senso comum, ou O educando, quem é, o que deve ser, qual o seu papel no
seja, quando não refletimos a respeito de determinado aspecto, mundo; o educador, quem é, qual o seu papel o mundo; a sociedade, o
deixamo-nos levar pelo que é comum e hegemônico socialmente. que é, o que pretende; qual deve ser a finalidade da ação pedagógica.
Estes são alguns problemas que emergem da ação pedagógica dos
O primeiro passo para o processo de filosofar é assumir a
povos para a reflexão filosófica, no sentido de que esta estabeleça
necessidade de conhecer os valores que nos norteiam, tomando
pressupostos para aquela.
consciência das ações, lugares e direções que permeiam a nossa vida.
Um segundo passo, o momento crítico, consiste em submeter esses Assim sendo, não há como processar uma ação pedagógica sem
valores a uma crítica profunda, identificando o seu significado em nosso uma correspondente reflexão filosófica...”.
cotidiano, a sua essência, desvendando-lhes o segredo. O terceiro
Quando a educação não é refletida, efetua-se de foram
momento consiste na construção crítica dos valores que venham a ter
cristalizada, reproduzindo valores do meio de produção, acomodando-
um significado norteador de nossa existência, valores estes válidos
nos em uma única interpretação de mundo, não possibilitando uma
para orientar nossas ações no sentido que desejarmos seguir.
lapidação adequada a cada realidade.
Estes momentos acima referidos não são fragmentados, como
Não temos como desvincular filosofia e educação, sendo-nos
nos foi exposto. O processo de filosofar é uma constante tomada de
muito mais rico e eficaz propiciarmos esta parceria de forma consciente
consciência, reflexão e reconstrução de valores, simultaneamente. Um
e inovadora.
momento é, ao mesmo tempo, dependente e propiciador do outro.
4 - Pedagogia
3 - Filosofia e Educação
Os processos sócio-culturais, a concepção psicológica do
A educação não se manifesta como um fim em si mesma, mas
educando, a forma de organização do processo educacional, e outros,
sim como um instrumento social de manutenção ou transformação.
permeiam a pedagogia, e devem estar articulados a partir de
Caracteriza-se por uma preocupação, uma finalidade a ser atingida,
pressupostos filosóficos.
necessitando, portanto, de pressupostos que a norteiem. É a reflexão
filosófica quem instrumentaliza a educação em uma sociedade. A Somente através de uma reflexão filosófica sobre a educação é
educação preocupa-se em propiciar o desenvolvimento das novas que devemos estruturar a ação pedagógica, pois esta permite a
gerações, enquanto que a filosofia é reflete o que e como deve ser este compreensão dos valores envolvidos, possibilitando-nos direcionar a
desenvolvimento. prática educacional vigente e orientando a posterior.

Segundo Anísio Teixeira (p.31), abordando filosofia como forma Educação e Sociedade: redenção, reprodução e transformação
de vida de um povo, “muito antes que as filosofias viessem Para que possamos entender que sentido devemos dar à
expressamente a ser formuladas em sistemas, já a educação, como educação dentro de uma sociedade, num primeiro momento, devemos
processo de perpetuação da cultura, nada mais era do que o meio de buscar compreendê-la bem como ao seu direcionamento.
se transmitir a visão do mundo e do homem, que a respectiva
sociedade honrasse e cultivasse.” São três as tendências filosófico-políticas da educação
necessárias a nossa compreensão: a educação como redenção, como
Percebemos uma preocupação com o aspecto educacional desde reprodução e como transformação da sociedade. Filosóficas, porque
os pré-socráticos. Citamos os sofistas, que foram educadores, e os compreendem o seu sentido, e políticas porque constituem um
primeiros a receberem uma remuneração para ensinar. O próprio direcionamento para sua ação.
Sócrates morreu em função do seu ideal de educar e estabelecer uma
moralização grego-ateniense. 1 - Educação como redenção da sociedade

Tanto a Filosofia como a Educação estão presentes em todas as Esta tendência concebe a sociedade como composta por
sociedades, de forma sistematizada ou não, a primeira refletindo as indivíduos que convivem em um todo orgânico e harmonioso, ocorrendo
aspirações humanas e a outra como instrumento veiculador dessa alguns desvios, sejam eles grupais ou individuais. Para a manutenção
reflexão. desta sociedade, deve-se integrar os indivíduos novos (novas
gerações) ou que estão a sua margem, adaptando-os aos seus
Luckesi (p. 32) releva que “a Filosofia fornece à educação uma parâmetros.
reflexão sobre a sociedade na qual está situada, sobre o educando, o
educador e para onde esses elementos podem caminhar. O papel da educação seria o de redentora da sociedade, sendo
quase que exterior a ela, tendo como finalidade a (re) integração
Nas relações entre Filosofia e educação só existem realmente harmônica do indivíduo ao seu meio, ou seja, no todo social. Deve,
duas opções: ou se pensa e se reflete sobre o que se faz e assim se segundo referência do autor a Saviani (p. 38) ”reforçar os laços sociais,
realiza uma ação educativa consciente; ou não se reflete criticamente e promover a coesão social e garantir a integração de todos os indivíduos
se executa uma ação pedagógica a partir de uma concepção mais ou no corpo social.”.
menos obscura e opaca existente na cultura vivida do dia-a-dia - e
assim se realiza uma ação educativa com baixo nível de consciência.

Professor Pedagogo 55 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
A educação, neste contexto, assume-se como autônoma na Assim, a cada momento, os administradores da produção
medida em que se configura como mantenedora do corpo social, sendo deverão estar atentos, verificando o que necessita ser suprido e/ou
que ela é quem interfere na sociedade, e não o contrário. substituído, para a manutenção do teor de produção ou para o seu
incremento e aumento. É impossível manter a produção sem que
Um grande exemplo desta concepção de educação está na obra
ocorra a reprodução dos meios materiais que garantam a manutenção
de Comênio “Didática Magna: Tratado da Arte Universal de Ensinar
ou o incremento da produção, assim como torna-se necessária a
Tudo a Todos, onde fica evidente que para ele havia uma ordem, uma
‘reprodução cultural’ da sociedade. É este o tema de abordagem de
harmonia primitiva, no Paraíso Terrestre, instituída por Deus, e a qual o
Althusser. Vamos seguir seu raciocínio.
homem quebrou, através do pecado, cabendo à educação a
recuperação dessa ordem. Somente através da educação das crianças Não há como continuar a produzir sem a entrada de matérias-
e dos jovens (gerações novas) a sociedade será redimida, não havendo primas e sem a reprodução das condições técnicas da produção. Os
possibilidades através do adulto equipamentos desgastam-se ou tornam-se obsoletos. Todavia, não nos
interessa aprofundar, aqui, o estudo da reprodução dos bens materiais.
Comênio ressalta que “um dos primeiros ensinamentos que a
Basta-nos, por enquanto, saber que sua reprodução é condição
Sagrada Escritura nos dá é este: sob o sol não há nenhum outro
indispensável para manter a sua produção.
caminho mais eficaz para corrigir as corrupções humanas que a reta
educação da juventude.”. No entanto, a produção de bens materiais e sua reprodução não
se realizam sem outro elemento básico: a força de trabalho. Como
Esta concepção de educação permaneceu durante muito tempo,
qualquer outro elemento, ela não é infinita e inesgotável, o que exige,
influenciando a Pedagogia Tradicional bem como os pedagogos do final
também, a sua reprodução (...) torna-se necessária a formação
século XIX na Pedagogia Nova. Ainda hoje podemos identificar
profissional, segundo os diversos níveis e necessidades da divisão
sequelas desta tendência em práticas onde não há um compromisso
social do trabalho.”.
político e sim uma proposta de “por ordem na sociedade”.
A partir deste quadro, a escola passou a atuar como instrumento
A esta tendência, Dermeval Saviani denomina de “teoria não-
para a reprodução qualitativa da força de trabalho da qual necessitava
crítica da educação”, em função da não contextualização crítica dentro
a sociedade capitalista, sendo que para Althusser ela atua em dois
da sociedade na qual está inserida.
sentidos:
2 - Educação como reprodução da sociedade
1.Ensinando saberes práticos, para os diferentes alunos
A educação faz, integralmente, parte da sociedade e a reproduz. (operários, técnicos, engenheiros, etc.) de acordo com os diferentes
Desta forma é concebida a educação para esta segunda tendência, lugares de produção onde deveriam ser utilizados.
abordando-a como uma instância dentro da sociedade e
2.Ensinando as regras dos bons costumes (regras de respeito
exclusivamente a seu serviço, determinada pelos condicionantes
pela divisão social do trabalho), de acordo com o lugar que o aluno
econômicos, sociais e políticos.
estava destinado a ocupar.
A visão desta abordagem é “crítica”, pois condiciona a educação
Para Althusser, a escola, e também outras instituições, ensinam
aos seus determinantes, porém reprodutivista, pois destina-se a
os saberes práticos, mas em moldes que asseguram a sujeição à
reproduzir seus próprios condicionantes, sendo denominada por
ideologia dominante. Todos devem desempenhar eficientemente a sua
Saviani de ”teoria crítico-reprodutivista da educação”.
tarefa, seja ela de dominante ou de dominado, devendo, para isto, estar
Reportemo-nos ao livro Ideologia e Aparelhos Ideológicos de inserido adequadamente na ideologia. Não basta “saber fazer”, mas
Estado, de Louis Althusser, onde, a partir de pressupostos marxistas, essencialmente também “saber comportar-se”.
aborda o papel da escola como um dos aparelhos do Estado, como
“O termo ‘formação’, muito utilizado para definir os fins da
umas das instâncias da sociedade que veicula a sua ideologia
atividade escolar, expressa bem o papel de reprodutora do sistema que
dominante, para reproduzi-la.
desempenha a escola. ‘Formar’ quer dizer ‘dar forma a’, padronizar
Luckesi (p. 42), discorre que “toda sociedade, para perenizar-se, segundo um modelo.
necessita reproduzir-se em todos os seus aspectos; caso contrário,
Segundo o autor (p. 47), “a prática escolar que perpassa a vida
desaparece. Parafraseando Marx, Althusser no diz que se ‘uma
das pessoas, da infância à maturidade, deixa sua marca indelével na
formação social não reproduz as condições de produção ao mesmo
personalidade de cada um reproduzindo a força de trabalho;
tempo em que produz, não conseguirá sobreviver um ano que seja’. E,
reproduzindo mais propriamente as relações de produção de uma dada
para que isso aconteça, tanto economistas marxistas como burgueses
sociedade. Os papéis definidos pela divisão social do trabalho se
reconhecem ‘que não há produção possível sem que seja assegurada a
especificam conforme a escolaridade de cada um”. Se reportando a
reprodução das condições materiais da produção: a reprodução dos
Althusser, “Cada massa que fica pelo caminho está praticamente
meios de produção’.
recheada da ideologia que convém ao papel que ela deve
desempenhar na sociedade de classes:

Professor Pedagogo 56 A Opção Certa Para a Sua Realização
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• papel de explorado (com consciência profissional, moral, INTRODUÇÃO:
cívica, nacional e apolítica altamente desenvolvida);
Contribuições da psicologia para a aprendizagem escolar
• papel de agente da exploração (saber mandar e falar aos
“Sabemos que quanto mais informações os educadores tiverem
operários; as relações humanas);
sobre o processo de aprendizagem dos conteúdos escolares, maiores
• de agentes de repressão (saber mandar e ser obedecido sem serão as chances de melhoria das práticas pedagógicas. Compreende-
discussão ou saber manejar a demagogia da retórica dos dirigentes se, assim, a relevância teórica dos estudos psicológicos para a área da
políticos); educação e a necessidade de se efetivar maior intercâmbio entre a
Psicologia e a Pedagogia, à medida que aumentam os problemas que
• ou (de) profissionais (que saibam tratar as consciências com
as escolas tem que enfrentar” (DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z.).
respeito, isto é, com o desprezo, a chantagem, a demagogia que
convém, acomodados às sutilezas da Moral, da Virtude, da O programa ora apresentado pelas duas autoras parte de uma
Transcendência, da Nação, do papel da França no mundo, etc..)”. concepção distinta daquela que, em geral, é adotado em cursos
introdutórios de Psicologia aplicada à educação em cursos de formação
Nesta concepção, é a sociedade quem institui a escola a seu
de professores a nível de 2º e 3º graus. A concepção prevalecente nos
serviço, sendo esta apenas um instrumento de reprodução e
programas de tais cursos pretende-se eclético, no sentido de fornecer
manutenção do sistema vigente.
uma ampla visão da área. Procura-se transmitir ao aluno um acervo de
3 - Educação como transformação da sociedade conhecimentos que abarca uma variedade de teorias de aprendizagem,
Esta terceira tendência tem como objetivo compreender a desenvolvimento e personalidade, muitas das quais, em essência,
educação como uma mediadora de um projeto social, seja ele irreconciliáveis. O objetivo dessas orientações é propiciar ao futuro
conservador ou transformador, não colocando a educação como professor uma ampla gama de informações, na suposição de que ele
mantenedora da sociedade, a serviço da conservação. Busca saberá, futuramente, selecionar aquelas que melhor lhe sirvam no
compreender a educação dentro da sociedade, com seus exercício da profissão.
determinantes e condicionantes, mas com a possibilidade de trabalhar O objetivo do presente livro, portanto, não é apresentar ao futuro
pela sua democratização efetiva e concreta, atingindo os aspectos não professor um conjunto de práticas de ensino, materiais e informações
só políticos, mas também sociais e econômicos, podendo ser teóricas, dizendo-lhe, em seguida, o que fazer na sala de aula para ser
denominada de “crítica”. um bom professor. Antes, procura-se, sobretudo, “desequilibrar” as
Luckesi (p. 49) enfoca que “para tanto, importa interpretar a ideias arranjadas, discutir suposições, criar espaço para as novas
educação como uma instância dialética que serve a um projeto, a um reflexões.
modelo, a um ideal de sociedade. Ela medeia esse projeto, ou seja, Conhecendo os seus alunos e a maneira através da qual se dá o
trabalha para realizar esse projeto na prática. Assim, se o projeto for seu desenvolvimento no ambiente concreto em que vivem, entendendo
conservador, medeia a conservação; contudo, se o projeto for os mecanismos que propiciam e facilitam a apropriação de
transformador, medeia a transformação; se o projeto for autoritário, conhecimentos e, sobretudo, tendo consciência da importância da ação
medeia a realização do autoritarismo; se o projeto for democrático, docente, o professor poderá avaliar criticamente os conteúdos a ação
medeia a realização da democracia.” docente, o professor poderá avaliar criticamente os conteúdos
A educação, para esta tendência, está a serviço de um projeto de escolares e os métodos de ensino, de modo que a aprendizagem
libertação das maiorias dentro da sociedade. Não se restringe a um escolar conduza a um desenvolvimento efetivo.
trabalho simples, sendo que muitas barreiras podem ser encontradas
dentro de uma sociedade capitalista, onde há uma ideologia dominante
Unidade I - A Psicologia na Educação
impondo as regras, mas devemos lutar contra a discriminação, contra o
rebaixamento do ensino das camadas populares e contra a apropriação 1- A construção social do sujeito
da escola pelos interesses dominantes.
“Na Índia, onde os casos de meninos-lobos foram relativamente
4 - Conclusão numerosos, descobriram-se, em 1920, duas crianças, Amala e Kamala,
vivendo no meio de uma família de lobos. A primeira tinha uma ano e
Após discorrermos sobre estas três tendências interpretativas da
meio e veio a morrer um ano mais tarde. Kamala, de oito anos de
educação, traçamos um parâmetro para que você possa identificar os
idade, viveu até 1929. Não tinha nada de humano, e o seu
principais pontos de cada uma.
comportamento era exatamente semelhante àquele dos seus irmãos
lobos.

Aspectos Psicológicos da Educação “Elas caminhavam de quatro, apoiando-se sobre os joelhos e
DAVIS, Cláudia e OLIVEIRA, Zilma (1990). Psicologia da Educação.
cotovelos para os pequenos trajetos e sobre as mãos e os pés para os
SãoPaulo: Cortez. trajetos longos e rápidos.

Professor Pedagogo 57 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
“Eram incapazes de permanecer em pé. Só se alimentavam de 2- A Psicologia do Desenvolvimento
carne crua ou podre, comiam e bebiam como os animais. Na instituição
Segundo DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. (1997), desenvolvimento é o
onde foram recolhidas, passavam o dia acabrunhadas e prostradas
processo através do qual o indivíduo constrói ativamente, nas relações
numa sombra; eram ativas e ruidosas durante a noite, procurando fugir
que estabelece com o ambiente físico e social, suas características.
e uivando como lobos. Nunca choravam ou riam. Kamala viveu oito
anos na instituição que a acolheu, humanizando-se lentamente. Ela Ao contrário de outras espécies, as características humanas não
necessitou de seis anos para aprender a andar e pouco antes de são biologicamente herdadas, mas historicamente formadas. De
morrer só tinha um vocabulário de 50 palavras. Atitudes afetivas foram geração em geração, o grau de desenvolvimento alcançado por uma
aparecendo aos poucos. sociedade vai sendo acumulado e transmitido, indo influir, já desde o
nascimento, na percepção que o indivíduo vai construindo sobra a
“Ela chorou pela primeira vez por ocasião da morte de Amala e se
realidade, inclusive no que se refere às explicações do eventos e
apegou lentamente às pessoas que cuidaram dela e às outras com as
fenômenos do mundo natural.
quais conviveu.
Para que a apropriação das características humanas se dê, é
“A sua inteligência permitiu-lhe comunicar-se com outros por
preciso que ocorra atividade por parte do sujeito: é necessário que
gestos, inicialmente, e depois por palavras de um vocabulário
sejam formadas ações e operações motoras e mentais.
rudimentar, aprendendo a executar ordens simples.”
A formação dessas habilidades se dá ao longo da interação do
A partir do relato acima poderemos entender em que medida as
indivíduo como o mundo social, Ele deve dominar o uso de um número
características humanas dependem do convívio social. Amala e
cada vez maior de objetos e aprender a agir em situações cada vez
Kamala, as meninas-lobos da Índia por terem sido privadas do contato
mais complexas, buscando identificar os significados desses objetos e
com outras pessoas, não conseguiram se humanizar: não aprenderam
situações.
a se comunicar através da fala, não foram ensinadas a usar
determinados utensílios e instrumentos sociais, não desenvolveram O que pretende estudar a Psicologia do desenvolvimento, é como
processos de pensamento lógico. se desenvolvem as funções psicológicas que distinguem o homem de
Esse caso Amala e kamala representa, no entanto, uma exceção. outras espécies. Ela estuda a evolução da capacidade perceptual e
Em geral, o bebê nasce, cresce, vive e atua em um mundo social. É por motora, das funções intelectuais, da sociabilidade e da afetividade do
intermédio do contato humano que a criança adquire a linguagem e ser humano. Descreve como essas capacidades se modificam e busca
passa, por meio dela, a se comunicar com outros seres humanos e a explicar tais modificações.
organizar seu pensamento. 3- A Psicologia da Aprendizagem.
Como cita DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. (1997), é no convívio Segundo DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. (1997), a aprendizagem é o
social, através das atividades práticas realizadas, que se criam as processo através do qual a criança se apropria ativamente do conteúdo
condições para o aparecimento da consciência, que é a capacidade de da experiência humana, daquilo que o seu grupo social conhece. Para
distinguir entre as propriedades objetivas e estáveis da realidade e que a criança aprenda, ela necessitará interagir como outros seres
aquilo que é vivido subjetivamente. Através do trabalho, os homens se humanos especialmente com os adultos e com outras crianças mais
organizam para alcançar determinados fins, respondendo aos impasses experientes. Nas inúmeras interações em que se envolve desde o
que a natureza coloca à sobrevivência. Para tanto, usam do nascimento, a criança vai gradativamente ampliando suas formas de
conhecimento acumulado por gerações e criam, a partir do trabalho, lidar com o mundo e vai construindo significados para as suas ações e
outro conhecimentos. para as experiências que vive. Com o uso da linguagem, esses
O papel da Psicologia é investigar as modificações que ocorrem significados ganham maior abrangência, dando origem a conceitos, ou
nos processos envolvidos na relação do indivíduo com o mundo seja, significados partilhados por grande parte do grupo social. A
(cognitivos, emocionais, afetivos, etc), analisando os seus mecanismos linguagem, além disso, irá integrar-se ao pensamento, formando uma
básicos. Para realizar sua proposta, a Psicologia interage com outras importante base sobre a qual se desenvolverá o funcionamento
ciências tais como a Medicina, a Biologia, a Filosofia, a Genética, a intelectual. O pensamento pode ser entendido, desta forma, como um
Antropologia, a Sociologia, além da Pedagogia. Estes ramos do diálogo interiorizado.
conhecimento estão imbricados uns aos outros, de tal forma que, A Psicologia da Aprendizagem estuda o complexo processo pelo
muitas vezes, é difícil saber em que domínio se está atuando. qual as formas de pensar e os conhecimentos existentes numa
Ao se dedicar ao estudo de tantos e diferentes aspectos, a sociedade são apropriados pela criança. Para que se possa entender
Psicologia acaba por desenvolver campos de investigações mais esse processo é necessário reconhecer a natureza social da
específicos e delimitados. aprendizagem. Como já foi dito, as operações cognitivas (aquelas
envolvidas no processo de conhecer) são sempre ativamente
Importam, para a educação, os conhecimentos advindos da
construídas na interação com outros indivíduos.
Psicologia do desenvolvimento e da aprendizagem, áreas específicas
da ciência psicológica. E é disto que se tratará a seguir.

Professor Pedagogo 58 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Reconhece-se, dessa maneira, que as pessoas, em especial as primeiros , ora os segundos. Os filósofos e os cientistas criaram, assim,
crianças, aprendem através de ações partilhadas mediadas pela teorias ou abordagens denominadas inatistas - que salientam a
linguagem e pela instrução. A interação entre adultos e crianças, e entre importância dos fatores endógenos - e teorias ou abordagens
crianças, portanto, é fundamental na aprendizagem. A Psicologia da chamadas ambientalistas - onde especial atenção se dá à ação do
Aprendizagem, aplicada à educação e ao ensino, busca mostrar como, meio e da cultura sobre a conduta humana.
através da interação entre professor e alunos, e entre os alunos, é
1.1. A Condição Inatista
possível a aquisição do saber e da cultura acumulados, sendo o papel
do professor fundamental neste processo. Essa concepção parte do pressuposto de que os eventos que
ocorrem após o nascimento não são essenciais e/ou importantes para o
4- A Psicologia na Educação
desenvolvimento . As qualidades e capacidades básicas de cada ser
Como comenta DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. (1997), comete-se o humano - sua personalidade, seus valores, hábitos e crenças, sua
erro de pensar que a aprendizagem começa apenas na idade escolar. forma de pensar, suas relações emocionais e mesmo sua conduta
Consequentemente, parte-se do princípio de que os ensinamentos que social - já se encontrariam basicamente prontas e em sua forma final
ocorrem na escola principiam na sala de aula. por ocasião do nascimento, sofrendo pouca diferenciação qualitativa e
quase nenhuma transformação ao longo da existência . O papel do
Na verdade muitos anos antes de entrar na escola, a criança já
ambiente ( e, portanto, da educação e do ensino) é tentar interferir o
vem desenvolvendo hipóteses e construindo um conhecimento sobre o
mínimo possível no processo do desenvolvimento espontâneo da
mundo, o mesmo mundo que as matérias ditas escolares procuram
pessoa.
interpretar. No início da alfabetização, por exemplo, ela já tem uma
concepção de escrita, uma ideia do que se pode ou não escrever, uma As origens da posição inatista podem ser encontradas, de um
concepção sobre o sistema de representação gráfica. Coisa lado, na Teologia: Deus, de um só ato, criou cada homem em sua forma
semelhante ocorre com a Matemática. Antes de entrar na escola, a definitiva. Após o nascimento, nada mais haveria a fazer, pois o bebê já
criança já se deparou inúmeras vezes com a noção de quantidade, teria em si os germes do homem que viria a ser. O destino individual de
realizando, inclusive, operações de cálculo. Um conjunto de noções e cada criança já estaria determinado pela “graça divina”.
de conceitos já se encontra, portanto, estabelecido.
Do outro lado, a posição inatista apóia-se num entendimento
Deste modo, a tarefa de ensinar, em nossa sociedade, não está errôneo de algumas contribuições importantes ao conhecimento
concentrada apenas nas mãos dos professores. O aluno não aprende biológico, tais como a proposta evolucionista de Darwin, a Embriologia
apenas na escola, mas também através da família, dos amigos, de e a Genética.
pessoas que ele considera significativas, dos meios de comunicação de
A evolução para Darwin, biólogo inglês que viveu no século
massa, da experiência do cotidiano, dos movimentos sociais.
passado, resulta de mudança graduais e cumulativas no
Entretanto, a escola é a instituição social que se apresenta como
desenvolvimento das espécies. Essas mudanças, por sua vez,
responsável pela educação sistemática das crianças, jovens e até
decorrem de variações hereditárias que fornecem vantagens
mesmo de adultos.
adaptativas em relação às condições ambientais prevalecentes. O
Daí a importância de se colocar a serviço da educação e do papel do ambiente é bastante limitado. Cabe-lhe apenas determinar,
ensino o conjunto de conhecimentos psicológicos sobre as bases do dentre as possibilidades naturais de variação, quais são as mais
desenvolvimento e da aprendizagem. Com eles, o professor estará em adaptativas para a espécie, isto é, as que melhor permitem à espécie
posição mais favorável para planejar a sua ação. sobreviver num ambiente específico. Só os mais aptos de uma
determinada espécie - aqueles capazes de se adaptar ao meio -
Unidade II - A criança enquanto ser em transformação
sobreviveram.
1- Concepções de desenvolvimento: correntes teóricas e
Aplicada ao desenvolvimento humano, essa teoria foi
repercussões na escola.
frequentemente mal interpretada. A teoria darwiniana acabou, sendo
As diversas teorias de desenvolvimento apresentadas a seguir erroneamente entendida como postulando aquilo que nunca pretendeu:
apoiam-se em diferentes concepções do homem e do modo como ele que os fatores ambientais eram incapazes de exercer um efeito direto
chega a conhecer. Tais teorias , como em qualquer estudo científico, tanto na espécie quanto no organismo.
dependem da visão de mundo existente em uma determinada situação
Em relação à espécie, deixou-se de lado a influência da
histórica e evoluem conforme se mostram capazes ou incapazes de
experiência individual de cada pessoa; equiparou-se,
explicar a realidade.
consequentemente, o complexo comportamento sócio-cultural do
A visão de desenvolvimento enquanto processo de apropriação homem àquele que é típico de organismos inferiores, onde se observa
pelo homem da experiência histórico-social é relativamente recente. pouca ou nenhuma diferenciação.
Durante longos anos, o papel da interação de fatores internos e Os primeiros conhecimentos produzidos na embriologia também
externos no desenvolvimento não era destacado. Enfatizava-se ora os forneceram subsídios para as teorias inatistas. Na verdade, esses

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primeiros dados apontaram para sequências de desenvolvimento frequência com que o comportamento aparece. Por exemplo, se após
praticamente invariáveis que seriam, em grande parte, reguladas por arrumar os seus brinquedos ( comportamento ) , a criança ouvir elogios
fatores endógenos, ou seja, de origem interna. da mãe ( consequência positiva ), ele procurará deixar os brinquedos
arrumados mais vezes, porque estabeleceu uma associação entre esse
Dados mais recentes da Embriologia indicam que o ambiente
comportamento e aquele da sua mãe. Já em consequências negativas
interno tem um papel central no desenvolvimento do embrião, assim
recebem o nome de punição e levam a uma diminuição na frequência
como o ambiente externo é fundamental para o desenvolvimento pós-
com que certos comportamentos ocorrem. Por exemplo, se cada vez
natal. Não há, pois, bases empíricas ou teóricas que sirvam de apoio
que João quebrar uma vidraça ao jogar bola ( comportamento ), ele for
para a visão inatista no âmbito da Psicologia. Tal visão, no entanto,
obrigado a pagar pelo estrago ( consequência negativa ) , ele passará
gerou uma ideia de homem que produziu uma abordagem rígida,
a tomar mais cuidado ao jogar , diminuindo os estragos em janelas.
autoritária e, sobretudo, pessimista para a educação de crianças e
adolescentes. Como , na concepção inatista, o homem “já nasce Quando um comportamento é absolutamente inadequado e se
pronto”, pode-se apenas aprimorar um pouco aquilo que ele é ou, considera desejável eliminá-lo totalmente do repertório de
inevitavelmente, virá a ser. Em consequência, não vale a pena comportamentos de um certo indivíduo, usa-se o procedimento dito de
considerar tudo o que pode ser feito em prol do desenvolvimento extinção. Nele o objetivo é quebrar o elo que se estabeleceu entre o
humano. O ditado popular “pau que nasce torto morre torto” expressa comportamento visto como indesejável e determinadas consequências
bem a concepção inatista, que ainda hoje aparece na escola, do mesmo. Para tanto, é preciso que se retire do ambiente as
camuflada sob disfarce das aptidões, da prontidão e do coeficiente de consequências que o mantém.
inteligência. Tal concepção gera preconceitos prejudiciais ao trabalho
Mais recentemente , outros teóricos afirmaram que o
em sala de aula.
comportamento humano também se modifica em função da observação
1.2. A concepção Ambientalista de como agem outras pessoas, que se tornam modelos a serem
copiados. Quando os comportamentos dos modelos são reforçados,
Essa concepção atribui um imenso poder ao ambiente no
tende-se a imitá-los e quando são punidos , procura-se evitá-los.
desenvolvimento humano. O homem é concebido como um ser
extremamente plástico, que desenvolve suas características em função Na visão ambientalista, a atenção de uma pessoa é, portanto,
das condições presentes no meio em que se encontra. Esta concepção função das aprendizagens que realizou ao longo de sua vida , em
deriva da corrente filosófica denominada empirismo, que enfatiza a contato com estímulos que reforçaram ou puniram seus
experiência sensorial como fonte do conhecimento. Ainda segundo o comportamentos anteriores.
empirismo, determinados fatores encontram-se associados a outros, de
Para explicar o surgimento de novos comportamentos ou
modo que é possível , ao se identificar tais associações, controlá-las
daqueles valorizados em uma dada sociedade é preciso prestar
pela manipulação.
atenção aos estímulos que provocam o aparecimento do
Na psicologia , o grande defensor da posição ambientalista é um comportamento desejado. De igual modo, a eliminação de modos de
norte-americano, B.F. Skinner. A teoria proposta por ele preocupa-se ser visto como impróprios também exige atenção aos estímulos que
em explicar os comportamentos observáveis do sujeito , desprezando desencadeiam a conduta tida como inadequada. Pode-se assim , dizer
os seus desejos e fantasias, os seus sentimentos. que o comportamento é sempre o resultado de associações
estabelecidas entre algo que provoca ( um estímulo antecedente) e
Na concepção do comportamento defendida por Skinner e seus
algo que segue e o mantém (um estímulo consequente ).
seguidores, o papel do ambiente é muito mais importante do que a
maturação biológica. Na verdade, são os estímulos presentes numa Quando um comportamento for associado a um determinado
dada situação que levam ao aparecimento de um determinado estímulo, ele tende a reaparecer quando estiveram presentes estímulos
comportamento. semelhantes. Este fenômeno é chamado de generalização. Quando os
estímulos são objetos, a cor, a forma e o tamanho são aspectos
Segundo os ambientalista , os indivíduos buscam maximizar o
importantes para que haja percepção de semelhança e generalização
prazer e minimizar a dor. Manipulando-se os elementos presentes no
de comportamentos.
ambiente - que por , esta razão, são chamados de estímulos - é
possível controlar o comportamento: fazer com que aumente ou Após a aquisição da linguagem pela criança, as palavras tornam-
diminua a frequência com que ele aparece; fazer com que ele se a base para generalizações. Mas não só isso. Além de a criança
desapareça ou só apareça em situações consideradas adequadas; aprender a perceber semelhanças entre estímulos e a generalizar
fazer com que se atribui à concepção ambientalista uma visão do comportamentos, ela também aprende o inverso, ou seja, a discriminar
indivíduo enquanto ser extremamente reativo à ação do meio. estímulos a partir das suas diferenças. Uma criança que aprendeu a
palavra “cachorro” associando-a a um animal de quatro patas, pode
Mudanças no comportamento podem ser provocadas de diversas
usa-la, inicialmente, para nomear outros animais de quatro patas, como
maneiras. Uma dela requer uma análise das consequências ou
gatos e coelhos. Rapidamente, contudo, ela aprende a distinguir as
resultados que o mesmo produz no ambiente. As consequências
positivas são chamadas de reforçamento e promovemum aumento na

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características definidoras de um cachorro - como o latido - e passa a aprendizagem pode se dar de modo espontâneo, como aquelas onde
discriminar corretamente as várias espécies de animais. as crianças cooperam entre si para alcançarem um fim comum..

A aprendizagem na concepção , pode assim ser entendida como Não há, na concepção ambientalista, preocupação em explicar os
o processo pelo qual o comportamento é modificado com resultado da processos através dos quais a criança raciocina e que estariam
experiência. Além das condições já mencionadas para que a presentes na forma como ela se apropria de conhecimentos.
aprendizagem se dê - estabelecimento de associações entre um
1.3 A Concepção Interacionista: Piaget e Vygotski
estímulo e uma resposta e entre uma resposta e um reforçador - é
importante que se leve em conta o estado fisiológico e psicológico do Para os psicólogos interacionistas o organismo e o meio exercem
organismo. ação recíproca. Um influencia o outro e essa interação acarreta
mudanças sobre o indivíduo. É, pois, na interação da criança com o
Para que a aprendizagem ocorra é preciso, portanto, que se
mundo físico e social que as características e peculiaridades desse
considere a natureza dos estímulos presentes na situação, tipo de
mundo vão sendo conhecidas. Para cada criança, a construção desse
resposta que se espera obter e o estado físico e psicológico do
conhecimento exige elaboração , ou seja, uma ação sobre o mundo.
organismo. É ainda importante aquilo que resultará da própria
aprendizagem: mais conhecimento , elogios, prestígios , notas altas etc. A concepção interacionista de desenvolvimento apoia-se ,
portanto, na ideia de interação entre organismo e meio e vê a aquisição
Na visão ambientalista, a ênfase está em propiciar novas
de conhecimento como um processo construído pelo indivíduo durante
aprendizagens, por meio da manipulação dos estímulos que atendem e
toda a sua vida, não estando pronto ao nascer nem sendo adquirido
sucedem o comportamento. Para tanto, é preciso uma análise rigorosa
passivamente graças às pressões do meio.
da forma como indivíduos atuam em seu ambiente, identificando os
estímulos que provocam o aparecimento do comportamento-alvo e as Tomaremos duas correntes teóricas no interacionismo: a
consequências que o mantém. A esta análise dá-se o nome de análise elaborada por Piaget e seus seguidores e a defendida por teóricos
funcional do comportamento. Nela defende-se o planejamento das soviéticos, em especial por Vygotski. Estas duas correntes serão
condições ambientais para a aprendizagem de determinados brevemente analisadas, apontando-se suas semelhanças e diferenças.
comportamentos. A Teoria de Jean Piaget
A introdução de teorias ambientalistas na sala de aula teve o Jean Piaget ( 1896-1980) é o mais conhecido dos teóricos que
mérito de chamar a atenção dos educadores para a importância do defendem a visão interacionista de desenvolvimento. Formado em
planejamento de ensino. A organização das condições para que a biologia e Filosofia, dedicou-se a investigar cientificamente como se
aprendizagem ocorra exige clareza a respeito dos objetivos que se quer forma o conhecimento. Ele considerou que se estudasse cuidadosa e
alcançar, a estipulação da sequência de atividades que levarão ao profundamente a maneira pela qual as crianças constroem as noções
objetivo proposto e a especificação dos reforçadores que serão fundamentais de conhecimento lógico - tais como as de tempo, espaço,
utilizados. A concepção ambientalista da educação valoriza o papel do objeto, causalidade, etc. - poderia compreender a gênese ( ou seja, o
professor, cuja importância havia sido minimizada na abordagem nascimento ) e a evolução do conhecimento humano.
inatista . Coloca em suas mãos a responsabilidade de planejar,
organizar e executar - com sucesso - as situações de aprendizagem. Inicialmente, Piaget trabalhou com dois psicólogos franceses,
Binet e Simon, que, por volta de 1905, tentavam elaborar um
Por outro lado, as teorias ambientalistas tiveram também efeitos instrumento para medir a inteligência das crianças que frequentavam as
nocivos na prática pedagógica. A educação foi sendo entendida como escolas francesas. Tal instrumento - o teste de inteligência Binet-Simon
tecnologia, ficando de lado a reflexão filosófica sobre a sua prática. A - foi o primeiro teste destinado a fornecer a idade mental de um
ênfase na tecnologia educacional exigia do professor um profundo indivíduo e é o primeiro teste destinado a fornecer a idade mental de
conhecimento dos fatores a serem considerados numa programação um indivíduo, e é até hoje utilizado, depois de ter sofrido sucessivas
de ensino, contudo tal conhecimento não era transmitido a eles. adaptações. Ao analisar as respostas das crianças do teste, Piaget
Programar o ensino deixou de ser uma atividade cognitiva de pesquisar começou a se interessar pelas respostas erradas das crianças,
condições de aprendizagem para se tornar uma atividade meramente salientando que estas só “erravam” porque as respostas eram
formal de colocar os projetos de aula numa fórmula-padrão. analisadas a partir de um ponto de vista do adulto.
A principal crítica que se faz ao ambientalismo é quanto à própria Na verdade as respostas infantis seguiam uma lógica própria.
visão de homem adotada: a seres humanos como criaturas passivas
face ao ambiente, que podem ser manipuladas e controladas pela Piaget concebeu, então, que a criança possui uma lógica de
simples alteração das situações em que se encontram. Nesta funcionamento mental que difere - qualitativamente - da lógica do
concepção , não há lugar para a criação de novos comportamentos. funcionamento mental do adulto. Propôs-se consequentemente a
investigar como, através de quais mecanismos, a lógica infantil se
Na sala de aula , ela acarretou um excessivo diretivismo por parte transforma em lógica adulta. Nessa investigação, Piaget partiu de uma
dos adultos. Deixou-se de valorizar e fazer uso de situações onde a

Professor Pedagogo 61 A Opção Certa Para a Sua Realização
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concepção de desenvolvimento envolvendo um processo contínuo de básica, seja no aspecto motor, no perceptivo, no afetivo, no social e no
trocas entre o organismo vivo e o meio ambiente. intelectual.

Equilíbrio / Equilibração Além de perceber a diferença entre si mesma e os objetos ao seu
redor, a criança será capaz de estabelecer também diferenças entre
A noção de equilíbrio é o alicerce da teoria de Piaget. Para este
tais objetos, chegando, finalmente, à concepção de uma realidade
autor, todo organismo vivo procura manter um estado de equilíbrio ou
estável , onde a existência dos objetos é independente da percepção
de adaptação com seu meio, agindo de forma a superar perturbações
imediata. Esta é uma grande conquista . Após ter sido capaz de
na relação que ele estabelece com o meio. O processo dinâmico e
identificar um objeto, separando-o dos demais, o bebê, todavia, age em
constante do organismo buscar um novo e superior estado de equilíbrio
relação a esse objeto apenas se ele estiver visível à sua frente . Se um
é denominado processo de equilibração majorante.
bebê de cinco meses de idade estiver brincando com um objeto e se
Para Piaget, o desenvolvimento cognitivo do indivíduo ocorre este for coberto por um pano, imediatamente ele volta sua atenção para
através de constantes desequilíbrios e equilibrações . O aparecimento outra coisa, agindo como se o primeiro objeto, por ter sido coberto,
de uma nova possibilidade orgânica no indivíduo ou na mudança de tivesse deixado de existir. Só mais tarde, aos oito meses, o bebê se
alguma característica do meio ambiente, por mínima que seja, provoca apercebe que o objeto está ali, debaixo do pano. Experimenta grande
a ruptura do estado de repouso - da harmonia entre organismo e meio - satisfação com este fato, escondendo o objeto com o pano e
causando um desequilíbrio. descobrindo-o , varias vezes.
Dois mecanismos são acionados para alcançar um novo estado Nesse mesmo período, as concepções de espaço, tempo e
de equilíbrio. O primeiro recebe o nome de assimilação. Através dele o causalidade começam a ser construídas , possibilitando à criança
organismo sem alterar suas estruturas - desenvolve ações destinadas novas formas de ação prática para lidar com o meio. Aos poucos, o
a atribuir significações , a partir da sua experiência anterior, aos período sensoriomotor vai-se modificando. Esquemas cada vez mais
elementos do ambiente com os quais interage. O outro mecanismo, complexos são construídos, de forma a preparar e dar origem ao
através do qual o organismo tenta restabelecer um equilíbrio superior aparecimento da função simbólica, portanto, do universo restrito do
com o meio ambiente, é chamado de acomodação. Agora , entretando, aqui-e-agora. O aparecimento da função simbólica altera
o organismo é impelido a se modificar, a se transformar para se ajustar drasticamente a forma como a criança lida com o meio e anuncia uma
às demandas impostas pelo ambiente. nova etapa, denominada pré-operatória.
As etapas do desenvolvimento cognitivo: II - A etapa pré-operatória
I - A etapa sensoriomotora A etapa pré-operatória é marcada, em especial, pelo
Vai do nascimento até, aproximadamente, os dois anos de idade. aparecimento da linguagem oral, por volta dos dois anos. Ela permitirá
Nela, a criança baseia-se exclusivamente em percepções sensoriais e à criança dispor - além da inteligência prática construída na fase
em esquemas motores para resolver seus problemas, que são anterior - da possibilidade de ter esquemas de ação interiorizados ,
essencialmente práticos; bater numa caixa, pegar um objeto, jogar uma chamados de esquemas representativos ou simbólicos, ou seja,
bola etc. Nesse período, muito embora a criança tenha já uma conduta esquemas que envolvem uma ideia preexistente a respeito de algo. É
inteligente, considera-se que ela ainda não possui pensamento. Isto capaz de formar, por exemplo, representações de avião, de papai, de
porque, nessa idade, a criança não dispõe ainda da capacidade de sapato, de que não se deve bater em outra criança etc.
representar eventos, de evocar o passado e de referir-se ao futuro está A partir dessas novas possibilidades de lidar com o meio , dos
presa ao aqui-e-agora da situação. Para conhecer, portanto, lança mão dois anos em diante a criança poderá tomar um objeto ou uma situação
de esquemas sensoriomotores: pega, balança, joga, bate, morde por outra, por exemplo, pode tomar um boneco por um bebê ou pode
objetos e atua sobre os mesmos de uma forma “pré-lógica” colocando tomar uma bolsa, colocando-a no braço e agindo como se fosse sua
um sobre o outro, um dentro do outro . Forma, assim, “conceitos mãe preparando-se para sair de casa.
sensoriomotores” de maior, de menor, de objetos que balançam e
O pensamento pré-operatório indica, portanto, inteligência capaz
objetos que não balançam etc. Ocorre, como consequência, uma
de ações interiorizadas, ações mentais. Ele é, entretanto , diferente do
“definição” do objeto por intermédio do seu uso. A criança pequena
pensamento adulto, como é fácil de se constatar. Em primeiro, depende
também aplica esquemas sensoriomotores para se relacionar e
das experiências infantis, refere-se a elas, sendo portanto um
conhecer outros seres humanos.
pensamento que a criança centra em si mesma. Por esta razão, o
Dentre as principais aquisições do período sensoriomotor, pensamento pré-operatório recebe o nome de pensamento egocêntrico.
destaca-se a construção da noção de “eu”, através da qual a criança É um pensamento rígido, que tem como ponto de referência a própria
diferencia o mundo externo do seu próprio corpo. O bebê o explora, criança.
percebe suas diversas partes, experimenta emoções diferentes,
Outra característica do pensamento desta etapa é o animismo.
formando a base do seu autoconceito. Mas não é só isso. Ao longo
Este termo indica que a criança empresta a “alma” ( “anima” em latim )
desta etapa, a criança irá elaborar a sua organização psicológica
às coisas e animais, atribuindo-lhes sentimentos e intenções próprios

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do ser humano. Assim, é frequente ouvi-la dizer que a mesa é má partir de diversas situações envolvendo observações de cavalos, fotos
quando ela machuca a sua cabeça, de que o vento “quer” embaraçar o de cavalos e histórias sobre cavalos, a criança constrói a noção de
seu cabelo penteado. cavalo como sendo um animal de porte grande, de quatro patas, que
gosta de comer capim e que é utilizado no transporte de coisas e
O pensamento da criança de dois a sete anos apresenta, ainda,
pessoas.
uma outra característica, bastante similar ao animismo. É o
antropomorfismo ou a atribuição de uma forma humana a objetos e No nível operatório-forma, a partir dos 13 anos de idade, a
animais. As nuvens, por exemplo, podem ser concebidas como grandes criança se torna capaz de raciocinar logicamente mesmo se o conteúdo
rostos que sopram um hálito forte. do seu raciocínio é falso. Por exemplo, é possível combinar com duas
crianças de idades diferentes, uma no período operatório-concreto e
As ações no período pré-operatório, embora internalizadas, não
outra no operatório-formal, que a figura de uma coruja desenhada em
são ainda reversíveis.
um papel receberá o nome de “cavalo”. A seguir, pede-se a elas que
III - A etapa operatório-concreta identifiquem oralmente qual é o nome de um animal de porte grande,
Por volta dos sete anos de idade, as características da que comem capim e transporta pessoas e coisas. A criança do período
inteligência infantil, a forma como a criança lida com o mundo e o operatório-concreto irá ignorar o que foi anteriormente combinado e dirá
conhece, demonstram que ela se encontra numa nova etapa de que o nome do animal proposto é cavalo. Já a mais velha, que já
desenvolvimento cognitivo: a etapa operatório-concreta. Ao se apresenta um pensamento operatório-formal, irá afirmar que o animal
comparar as aquisições deste período com o anterior, observa-se que em questão poderia receber qualquer nome, à exceção de cavalo, uma
grandes modificações ocorreram. vez, por definição (e não concretamente), “cavalo” é o nome que, na
situação, se convenciou dar à uma coruja.
Essa etapa é a etapa do pensamento lógico, objetivo, adquire
preponderância. Ao longo dela, as ações interiorizadas vão-se tornando A libertação do pensamento das amarras do mundo concreto,
cada vez mais reversíveis e, portanto, móveis e flexíveis. O adquirido no operatório - formal, permitirá ao adolescente pensar e
pensamento se torna menos egocêntrico, menos centrado no sujeito. trabalhar não só com a realidade concreta, mas também com a
Agora a criança é capaz de construir um conhecimento mais compatível realidade possível. Como consequência, a partir de treze anos, o
com o mundo que a rodeia. O real e a fantástico não mais se raciocínio pode, pela primeira vez, utilizar hipóteses, visto que estas
misturarão em sua percepção. não são, em princípio, nem falsas nem verdadeiras: são apenas
possibilidades. Uma vez de posse dessa faculdade de produzir e operar
O pensamento é denominado operatório porque é reversível: o com base em hipóteses, é possível derivar delas todas as
sujeito pode retornar, mentalmente, ao ponto de partida. A criança consequências lógicas cabíveis. A construção típica da etapa
opera quando tem noção, por exemplo, de que 2+3=5, pois sabe que 5- operatório-forma é, assim, o raciocínio hipotético-dedutivo: é ele que
3=2. De igual modo, a compreensão de que uma dada quantidade de permitirá ao adolescente estender seu pensamento até o infinito.
argila não se altera, se eu emprego a mesma porção para fazer uma
salsicha e a seguir para transformar a salsicha em bola, também Ao atingir o opertório-formal, o adolescente atinge o grau mais
constitui uma operação. complexo do seu desenvolvimento cognitivo. A tarefa, a partir de agora,
será apenas a de ajustar, solidificar e estofar as suas estruturas
A construção das operação possibilita, assim a elaboração da cognitivas.
noção de conservação. O pensamento agora baseia-se mais no
raciocínio que na percepção. Piaget acredita que existem, no desenvolvimento humano,
diferentes momentos: um pensamento, uma maneira de calcular, uma
Neste período de desenvolvimento o pensamento operatório é certa conclusão, podem parecer absolutamente corretos em um
denominado concreto porque a criança só consegue pensar determinado período de desenvolvimento e absurdos num outro. As
corretamente nesta etapa se os exemplos ou materiais que ela utiliza etapas de desenvolvimento do pensamento são, ao mesmo tempo,
para apoiar seu pensamento existem mesmo e podem ser observados. contínuas e descontínuas. Elas são contínuas porque sempre se
A criança não consegue ainda pensar abstratamente, apenas com base apoiam na anterior, incorporando-a e transformando-a. Fala-se em
em proposições e enunciados. Pode então ordenar, seriar, classificar, descontinuiade no desenvolvimento, por outro lado, porque cada nova
etc. etapa não é mero prolongamento da que lhe antecedeu:
IV- A etapa operatório-formal transformações qualitativas radicais ocorrem no modo de pensar das
crianças. As etapas de desenvolvimento encontram-se, assim,
A principal característica da etapa operatório-forma, por sua vez,
funcionalmente relacionadas dentro de um mesmo processo.
reside no fato de que o pensamento se torna livre da limitações da
realidade concreta. O que significa isso? Como já foi assinalado, a As diferentes etapas cognitivas apresentam, portanto,
criança que se encontra no período operatório-concreto só consegue características próprias e cada uma delas constitui um determinado tipo
pensar corretamente, com lógica, se o conteúdo do seu pensamento de equilíbrio. Ao longo do desenvolvimento mental, passa-se de uma
estiver representado fielmente a realidade concreta. Por exemplo, a para outra etapa, buscando um novo e mais completo equilíbrio que
depende, entretanto, das construções passadas.
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Não é possível passar, por exemplo, da etapa sensoriomotora provocará uma modificação na percepção e no conhecimento da
para a operatório-concreta, “pulando” a pré-operatória. A sequência das criança. O gesto e a fala materna servem como sinais externos que
etapas é sempre invariável, muito embora, como já foi visto, a época interferem no modo pelo qual o menino ou a menina age sobre seu
em que as mesmas são alcançadas possa não ser a mesma para todas ambiente: com o tempo, ocorre uma interiorização progressiva das
as crianças. De igual modo, as etapas do desenvolvimento cognitivo direções verbais fornecidas à criança pelos membros mais experientes
não são reversíveis: ao se construir uma determinada capacidade de uma ambiente social.
mental, não é mais possível perdê-la.
O processo de interiorização progressiva das orientações
Temos quatro fatores básicos responsáveis pela passagem de advindas do meio social é um processo ativo, no qual a criança
uma etapa de desenvolvimento mental para a seguinte - a maturidade apropria-se do social de uma forma particular. Reside aí, na verdade, o
do sistema nervoso, a interação social (que se dá através da linguagem papel estruturante do sujeito: interiorização e transformação se integra
e da educação), a experiência física com os objetos e, principalmente, a no social, é capaz de posicionar-se frente ao mesmo, ser seu crítico e
equilibração, ou seja, a necessidade que a estrutura cognitiva tem de seu agente transformador. Assim, à medida que as crianças crescem,
se desenvolver para enfrentar as demandas ambientais - o do menor elas vão internalizando a ajuda externa que se torna cada vez mais
peso, na teoria piagetiana, é a interação social. Desta maneira, a necessária: a criança mantém, agora, o controle sobre sua própria
educação - e em especial a aprendizagem - tem, no entender de conduta.
Piaget, um impacto reduzido sobre o desenvolvimento intelectual.
Através da fala, o ambiente físico e social pode ser melhor
Desenvolvimento cognitivo e aprendizagem não se confundem: o
apreendido, aquilatado e equacionado: a fala modifica, assim a
primeiro é um processo espontâneo, que se apóia predominantemente
qualidade do conhecimento e pensamento que se tem do mundo em
no biológico. Aprendizagem, por outro lado, é encarada como um
que se encontra.
processo mais restrito, causado por situações específicas (como a
frequência à escolar) e subordinado tanto à equilibração quanto a Ao interiorizar instruções, as crianças modificam suas funções
maturação. psicológicas: percepção, atenção, memória, capacidade para solucionar
problemas. É dessa maneira que formas historicamente determinadas e
A teoria de Vygostski
socialmente organizadas de operar com informação influenciam o
Um outro tipo de interacionismo é proposto por Lev Seminovitch conhecimento de mundo e as consequentes formas de interagir com as
Vygostski (1896-1934). Nascido na Rússia, ele escreveu, em sua curta crianças adotadas pelos adultos no século XV diferem
vida, uma ampla e importante obra, da qual apenas alguns livros foram substancialmente das utilizadas hoje em dia, especialmente se as
traduzidos para o português. comparamos com as do mundo urbano moderno, fortemente
influenciado pelos meios de comunicação de massa. Traduzem formas
Em seu trabalho e nos dos seus seguidores, especialmente no
diferentes de organizar, planejar e atuar sobre a realidade.
dos seus compatriotas Luria e Leontiev, encontra-se uma visão de
desenvolvimento baseado paulatinamente num ambiente que é Deste modo, as funções mentais superiores - como a capacidade
histórico e, em essência, social. Nessa teoria é dado destaque às de solucionar problemas, o armazenamento e o uso adequado da
possibilidades que o indivíduo dispõe a partir do ambiente em que vive memória, a formação de novos conceitos, o desenvolvimento da
e que dizem respeito ao acesso que o ser humano tem a “instrumentos” vontade - aparecem, inicialmente, no plano social (ou seja, na interação
físicos (como a enxada, a faca, a mesa, etc) e simbólicos (como a envolvendo pessoas) e apenas elas surgem no plano psicológico (ou
cultura, valores, crenças, costumes, tradições, conhecimentos) seja, no próprio indivíduo). A construção do real pela criança, ou seja, a
desenvolvidos em gerações precedentes. apropriação que esta faz da experiência social, parte, pois, do social
(da interação com os outros) e, paulatinamente, é internalizada por ela.
Vygostski defende a ideia de contínua interação entre as
mutáveis condições sociais e a base biológica do comportamento Segundo Vygostski, a aquisição de um sistema linguístico
humano. Partindo de estruturas orgânicas elementares, determinadas reorganiza, pois, todos os processos mentais infantis. A palavra dá
basicamente pela maturação, formam-se novas e mais complexas forma ao pensamento, criando novas modalidades de atenção,
funções mentais, a depender da natureza das experiências sociais a memória e imaginação.
que as crianças se acham expostas.
Vygostski adota a visão de que pensamento e linguagem são
A forma como fala é utilizada na interação social com adultos e dois círculos interligados. É na interseção deles que se produz o que se
colegas mais velhos desempenha um papel importante na formação e chama pensamento verbal, o qual não inclui, assim, nem todas as
organização do pensamento complexo e abstrato individual. O formas de pensamento, nem todas as formas de linguagem. Existem,
pensamento infantil, amplamente guiado pela fala e pelo portanto, áreas do pensamento que não têm relação direta com a fala,
comportamento dos mais experientes, gradativamente adquire a como é o caso da inteligência prática, em geral. Por outro lado,
capacidade de se auto-regular. Por exemplo, quando a mãe mostra a Vygostski dá uma importância tão grande ao pensamento verbal que
uma criança de dois anos um objeto e diz “a faca corta e dói”, o fato de chega a afirmar que as estruturas de linguagem dominadas pela
ela apontar para o objeto e de assim descrevê-lo provavelmente

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crianças passam a constituir as estruturas básicas de sua forma de padronizados, focalizam apenas aquilo que as crianças são capazes de
pensar. realizar sozinhas.

Ao reconhecer a imensa diversidade nas condições histórico- Para Vygotski, o processo de desenvolvimento nada mais é do
sociais em que as crianças vivem, Vygotski não aceita a possibilidade que a apropriação ativa do conhecimento disponível na sociedade em
de existir uma sequência universal de estágios cognitivos, como que a criança nasceu. É preciso que ela aprenda e integre em sua
propões Piaget. Para Vygotski, os fatores biológicos preponderam maneira de pensar o conhecimento da sua cultura. O funcionamento
sobre os sociais apenas no início da vida das crianças e as intelectual mais complexo desenvolve-se graças a regulações
oportunidades que se abrem para cada uma delas são muitas e realizadas por outras pessoas que, gradualmente, são substituídas por
variadas, adquirindo destaque, em sua teoria, as formas pelas quais as auto-regulações. Em especial, a fala é apresentada, repetida e refinada,
condições e as interações humanas afetam o pensamento e o acabando por ser internalizada, permitindo à criança processar
raciocínio. informações de uma forma mais elaborada.

A construção do pensamento complexo e do abstrato Piaget e Vygotski: Diferenças e semelhanças

Para Vygotski, o processo de formação de pensamento é, Do ponto de vista de DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. (1997), tanto
portanto, despertado e acentuado pela vida social e pela constante Piaget com o Vygotski concebem a criança como um ser ativo, atento,
comunicação que se estabelece entre crianças e adultos, a qual que constantemente cria hipóteses sobre o seu ambiente. Há, no
permite a assimilação da experiência de muitas gerações. entanto, grandes diferenças na maneira de conceber o processo de
desenvolvimento. As principais delas, em resumo, são as seguintes:
Como foi citado por DAVIS, C. e OLIVEIRA, Z. (1997), a
linguagem segundo Vygotski intervém no processo de desenvolvimento a) Quanto ao papel dos fatores internos e externos no
intelectual da criança praticamente já desde o nascimento. Quando os desenvolvimento
adultos nomeiam objetos, indicando para a criança as várias relações
Piaget privilegia a maturação biológica; Vygotski, o ambiente
que estes mantêm entre si ela constrói formas mais complexas e
social. Piaget, por aceitar que o fatores internos preponderam sobre os
sofisticadas de conceber a realidade. Sozinha, não seria capaz de
externos, postula que o desenvolvimento segue uma sequência fixa e
adquirir aquilo que obtém por intermédio de sua interação com os
universal de estágios. Vygotski, ao salientar o ambiente social em que a
adultos e com as outras crianças, num processo em que a linguagem é
criança nasceu, reconhece que, em se variando esse ambiente, o
fundamental.
desenvolvimento também variará. Neste sentido, para este autor, não
Desenvolvimento e aprendizagem se pode aceitar uma visão única, universal, de desenvolvimento
humano.
Vygotski considera três teorias principais que discute a relação
entre desenvolvimento e aprendizagem. Na primeira, desenvolvimento b) Quanto à construção real
é encarado como um processo maturacional que ocorre antes da
Piaget acredita que os conhecimentos são elaborados
aprendizagem, criando condições para que esta se dê. É preciso haver
espontaneamente pela criança, de acordo com o estágio de
um determinado nível de desenvolvimento para que certos tipos de
desenvolvimento em que esta se encontra. A visão particular e peculiar
aprendizagem sejam possíveis. Esta é, em essência, a posição
(egocêntrica) que as crianças mantêm sobre o mundo vai,
defendida por Piaget. Na segunda teoria, a comportamentalista ou
progressivamente, aproximando-se da concepção dos adultos; torna-se
behaviorista, a aprendizagem é desenvolvimento, entendido como
socializada, objetiva. Vygotski discorda de que a construção do
acúmulo de respostas aprendidas. Nessa concepção, o
conhecimento proceda do individual para o social. Em seu entender a
desenvolvimento ocorre simultaneamente à aprendizagem, ao invés de
criança já nasce num mundo social e, desde o nascimento, vai
precedê-la. O terceiro modelo teórico sugere que desenvolvimento e
formando uma visão desse mundo através da interação com adultos ou
aprendizagem são processos independentes que interagem, afetando-
crianças mais experientes. A construção do real é, então, mediada pelo
se mutuamente: aprendizagem causa desenvolvimento e vice-versa.
interpessoal antes de ser internalizada pela criança. Desta forma,
Para Vygotski, no entanto, nenhuma das propostas acima é procede-se do social para o individual, ao longo do desenvolvimento.
satisfatório, muito embora ele reconheça que aprendizagem e
c) Quanto ao papel da aprendizagem
desenvolvimento sejam fenômenos distintos e interdependentes, cada
um tornando o outro possível. Questionando a interação entre estes Piaget acredita que a aprendizagem subordina-se ao
dois processos, Vygotski aponta o papel da capacidade do homem de desenvolvimento e tem pouco impacto sobre ele. Com isso, ele
entender e utilizar a linguagem. minimiza o papel da interação social. Vygotski, ao contrário, postula que
desenvolvimento e aprendizagem são processos que se influenciam
Assim vê a inteligência como habilidade para aprender,
reciprocamente, de modo que, quanto mais aprendizagem, mas
desprezando teorias que concebem a inteligência como resultado de
desenvolvimento.
aprendizagens prévias, já realizadas. Para ele, as medidas tradicionais
de desenvolvimento, que se utilizam de testes psicológicos

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d) Quanto ao papel da linguagem no desenvolvimento e à constante interação, de modo que o primeiro impulsiona o segundo em
relação entre linguagem e pensamento direção a constantes e sucessivas modificações.

Segundo Piaget, o pensamento aparece antes da linguagem, que Na criança, as possibilidades de crescimento existem como
apenas é uma das formas de expressão. A formação do pensamento capacidade biopsicológicas potenciais. Dessa maneira, a realização
depende, basicamente, da coordenação dos esquemas efetiva dessas capacidades depende das condições sócio-culturais
sensoriomotores e não da linguagem. Esta só pode ocorrer depois que disponíveis. É diferente se a mesma criança for colocada para viver
a criança já alcançou um determinado nível de habilidades mentais, num ambiente com boa alimentação e condições sanitárias adequadas,
subordinando-se, pois aos processos de pensamento. A linguagem onde existem oportunidades para viver situações de trabalho e de
possibilita à criança evocar um objeto ou acontecimento ausente na prática de esportes, ou em outro ambiente onde estas características
comunicação de conceitos. Piaget, todavia, estabeleceu uma clara não se encontram presentes.
separação entre as informações que podem ser passadas por meio da
É importante salientar que um menino ou menina desnutrida, por
linguagem e os processos que não parecem sofrer qualquer influência
sofrer uma diminuição sensível em seu tônus muscular, apresentem
dela. Este é o caso das operações cognitivas que não podem ser
características tais como apatia, menor capacidade de concentração e
trabalhadas por meio de treinamento específico feito com o auxílio da
de atenção etc. Como consequência, o padrão de interação
linguagem. Por exemplo, não se pode ensinar, apenas usando
estabelecido com ele/ela é menos estimulante do que aquele que se
palavras, a classificar, a seriar, a pensar com reversibilidade.
mantém com uma criança robusta, alerta e atenta. Com isto, as trocas
Já para Vygotski, pensamento e linguagem são processos cognitivas e efetivas que a criança desnutrida poderia ter com seu
interdependentes, desde o início da vida. A aquisição da linguagem pela ambiente empobrecem-se, perdem o vigor.
criança modifica suas funções mentais superiores: ela dá uma forma
Por isso é possível considerar que o crescimento e o
definida ao pensamento, possibilita o aparecimento da imaginação, o
desenvolvimento são processos praticamente inseparáveis, ainda que
uso da memória e o planejamento da ação. Neste sentido, a linguagem,
distintos. A curva do crescimento nem sempre coincide com o do
diferentemente daquilo que Piaget postula, sistematiza a experiência
desenvolvimento. A primeira tende a atingir seu ponto mais alto quando
direta das crianças e por isso adquire uma função central no
a maturação biológica é alcançada. A curva do desenvolvimento, por
desenvolvimento cognitivo, reorganizando os processos que nele estão
outro lado, é contínua, acompanhando o homem durante toda a sua
em andamento.
vida.
2. Crescimento e desenvolvimento: o biológico em interação com
O processo de crescimento culmina com o aparecimento de um
o psicológico e o social
tipo de adulto previsto geneticamente. Já o processo de
Peter Pan (O menino que não queria crescer), sabia que crescer desenvolvimento propicia a construção do padrão de individualidade
significava tornar-se adulto, implicava ter que mudar sua aparência que caracteriza cada sociedade. Ambos os processos produzem, no
física e assumir novos papéis. Por isso Peter Pan queria continuar indivíduo, mudanças físicas, mentais, emocionais e sociais.
menino. Essa era a maneira de não enfrentar as mudanças que Compreender o crescimento e o desenvolvimento humano exige, assim
necessariamente viriam com o crescimento. Ora, quando se fala em que se pense no homem - e em si mesmo - não apenas do ponto de
crescimento, em geral as pessoas estão se referindo ao aspecto vista biológico mas, principalmente, como alguém que é historicamente
quantitativo da evolução humana. determinado.

As razões que provocam o crescimento e ocasionam tantas 3. Questionando o caráter inato da aptidão, prontidão e
modificações não são de todos conhecidas. Até hoje, por exemplo, não inteligência
há consenso entre os biólogos a respeito de por que as células
A teoria da aptidão é amplamente defendida pela ideologia das
crescem e se organizam. No entanto toda matéria viva tem
diferenças individuais. A aptidão é vista como um “dom”, uma certa
necessidade de manter um equilíbrio entre meio interno e meio externo,
habilidade inata, que se refere a um estado específico presente no ser
o crescimento pode ser entendido como uma das consequências das
humano. Todavia, muito embora seja verdade que existem diferenças
trocas entre organismo e meio. A alimentação, a luz, a temperatura e a
no potencial biológico dos indivíduos, não se pode aceitar a noção de
composição química do meio contribuem para a dinâmica de
que aptidão seja uma “disposição natural”, inata e herdade.
crescimento. De igual maneira, também os hormônios são importantes
para o equilíbrio dos diferentes órgãos e tecidos. Na verdade, se os educadores adotarem essa visão, estarão
prejudicando as crianças e adolescentes que frequentam a escola
O crescimento humano não é, desta maneira, mera manifestação
numa sociedade desigual como é a brasileira, onde as oportunidades
do biológico, mas também expressão da condições existentes no
de se desenvolver através da educação escolar não são uniformes.
mundo social, em especial, dos avanços técnicos e das conquistas
Justificar o fracasso ou o sucesso dos alunos através da teoria da
culturais.
aptidão - da crença de que uns são mais capazes do que outros para o
O crescimento humano ocorre dentro de um espaço em contínua estudo - é desconsiderar o grande peso exercido pelas condições de
transformação pela ação social. Nele, o psíquico e o biológico estão em vida da família e pela própria instituição escolar sobre a aprendizagem.

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Defender tal visão significa, sobretudo, ocultar a determinação Contudo, mais recentemente, essa posição foi revista. Sem se
econômica que se encontra na base do desenvolvimento humano. desprezar o papel da herança biológica na inteligência, reconhece-se,
hoje, que esta pode ser afetada drasticamente pelo ambiente. Nesse
É mais adequado entender a aptidão como uma disposição vaga
sentido, ela pode ser melhor entendida como uma interação complexa
e imprecisa do indivíduo, sobre a qual a educação atua no sentido de
entre a hereditariedade e a experiência. Assim, o fato de uma criança ir
promover o desenvolvimento cognitivo, afetivo, motor, social, linguístico,
bem na escola, ser criativa, resolver satisfatoriamente certas situações-
etc. Vista dessa ótica, a aptidão não passa de uma tendência para
problemas e por isso ser tida como inteligente, não pode ser atribuído
adquirir e aprofundar novos padrões de ação e de pensamento. Indica
exclusivamente a uma herança biológica. O sucesso dessa criança
possibilidades de aprendizagem, onde preferências naturais se
deve ser explicado, sobretudo , pela oportunidade que tem de interagir
mesclam e se complementam com preferências adquiridas, garantindo
em ambientes estimulantes, seja em casa, na escola, seja na
os refinamentos e mobilidades necessárias à vida em sociedade.
vizinhança. Se ela vivesse em condições diferentes - em um ambiente
Assim, só se deve considerar as aptidões à luz do meio físico e social
apático, pouco rico ou motivador - dificilmente ela seria percebida como
em que as crianças vivem, uma vez que este pode ser favorável ou
inteligente e criativa.
desfavorável àquelas.
Daí a necessidade de se investigar mais de perto o principal
A teoria da aptidão não serve, pois, para orientar uma prática que
resultado dos esforços para se medir a inteligência: os teste de QI.
beneficie os alunos, auxiliando-os a dominar e a superar as suas
Entende-se por QI (quociente de inteligência) o resultado alcançado em
dificuldades de aprendizado. Pelo contrário, ela tem sido usada muitas
testes de nível mental, onde uma série de tarefas, em ordem crescente
vezes para esconder atuações inadequadas da escola, deslocando um
de dificuldades, é apresentada a crianças, adolescentes ou adultos.
problema, que é do ensino, para a aprendizagem. Além do mais, quem
Cada uma das tarefas do teste está posicionada dentro do nível
decide se a aptidão está ou não presente? O uso de “testes de aptidão”
previsto para uma determinada idade. Imagine-se que uma criança de
pode ser enganoso. Tais testes não vão além de quantificar
oito anos respondeu corretamente todos os itens que se supunha que
comportamentos e atitudes ausentes aparentes: não medem
uma criança de nove anos pudesse responder. Quando ela chegou aos
disposições complexas em constante transformações, nem o
quesitos da idade de dez anos ela só acertou metade deles e, naqueles
significado cultural das mesmas, ou seja, a sua utilidade num
destinados aos onze anos, só se saiu bem em um quarto. Todos os
determinado grupo social.
itens dos doze anos foram errados. A idade mental dessa criança, pois,
É importante que o professor não exponha a criança é de 9 anos + 6 meses (1/2 de um ano) + 3 meses (1/4 de um ano) + 0,
prematuramente a tarefas que ela ainda não é capaz de dominar, pois o que dá, como resultado, 9 anos e 9 meses ( ou seja, 9 anos + 75% de
isto redundaria em fracasso da aprendizagem ou em aprendizagem à 1 ano). O quociente de inteligência é obtido dividindo-se a idade mental
custa de grandes sacrifícios e sofrimentos. Mas o educador pode (e pela idade cronológica e multiplicando-se o resultado por 100.
deve) aproveitar ao máximo as oportunidades de aprendizagem, não
No exemplo dado, o QI dessa criança é:
adiando as mesmas indefinidamente, em busca do “estado ideal” de
prontidão. Fundamental é conhecer como o aluno age em determinada QI = 9.75 (idade mental) X 100 = 121.8
situação, propor-lhe sucessivos desafios e participar, com ele, da tarefa
8 (idade cronológica)
de solucioná-los. Neste trabalho o professor dá pistas aos estudantes
para que eles percebam seus comportamentos e aquilo que lhes é O fato que deve ser questionado, quando se discute a ação da
exigido. escola, é que o QI não costuma ser encarado como aquilo que é - o
resultado de um teste de inteligência - mas, muitas vezes, é tomado
A falta de prontidão para realizar determinadas atividades muitas
com sinônimo da própria inteligência.
vezes acaba se transformando em justificativa convincente para alguns
professores, sempre que as crianças “não aprendem” na medida do Essa concepção circular (“O que é inteligência? - É resultado que
esperado. Como resultado, quem ensina tende a se isentar de toda e se obtém no teste de QI. - E o que é QI? - É aquilo que mede a
qualquer responsabilidade pelo insucesso dos alunos. Não avalia a inteligência.”) chega mesmo a existir entre profissionais . Estes, muitas
atuação docente, não se condena a prática pedagógica em sala de vezes, não deixam claro nem mesmo o teste ou instrumento no qual o
aula. QI se baseia. Como o QI tende a ser encarado com algo estável,
pouco ênfase é colocado nos processos que servem de base às
Já o termo inteligência também recebe tratamento próprio na
modificações qualitativas no modo intelectual de se operar.
visão inatista. Tal termo se refere a uma noção complexa e de difícil
definição. Até o começo do século atual, a inteligência era encarada Equiparar a inteligência a uma propriedade inata significa rotular
como um potencial finito, herdado por ocasião da concepção e que não algumas crianças de “incompetentes” sem nenhuma base para tal. As
sofria, ao longo do tempo, quaisquer mudanças qualitativas. Nessa consequências - como no caso da aptidão - são desastrosas, na
visão, a inteligência era tida com imutável: o ambiente não causava medida em que se supõe que pouco resta para a escola fazer, pois,
sobre ela nenhum impacto. quando se supõe que o desempenho insatisfatório é culpa das próprias
crianças, não se avalia - por não se considerar ser este o foco do
problema - a atuação do professores.

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Em síntese, por todas as razões acima levantadas, acredita-se Piaget estudando o desenvolvimento perspectivo, considera que,
que as teorias inatistas de desenvolvimento tenham-se prestado mais a durante todo o período sensoriomotor, a percepção não se separa da
rotular os alunos como “incapazes” do que a promover um real ação.
entendimento daquilo que, na verdade, dificulta a aprendizagem. Daí a
Nesse sentido, a percepção é global, sincrética, indiferenciada. O
ênfase dada à visão interacionista do desenvolvimento humano, pois
bebê percebe um objeto que já conhece reproduzindo o gesto que
ela não acredita numa rotulação estática dos alunos. Antes, procura
habitualmente emprega quando o usa. Gradativamente, por intermédio
aprendê-los dinamicamente, na sua relação com o mundo, em especial
do processo de equilíbrio, a criança pequena passa a diferenciar os
com os elementos do ambiente escolar: pessoas, tarefas, concepções.
aspectos mais imediatos do objeto de outros significados mais gerais
Sobretudo, na visão interacionista, os conceitos de aptidão, prontidão e
do mesmo. Assim, age diante do objeto de forma cada vez mais
inteligência sofrem drásticas transformações: são encarados como
distanciada da sua experiência imediata, corrigindo possíveis
construções contínuas do indivíduo em sua relação com o meio.
deformações perceptivas através de ajustes variados, possibilitados por
Unidade III - O desenvolvimento cognitivo e afetivo sua estrutura cognitiva: analisa, sintetiza, relaciona, antecipa dados
acerca do objeto em questão, avaliando-os.
1- O desenvolvimento da sensação, da percepção e da
imaginação Já Vygotiski chama atenção para o papel da fala na modificação
das percepções iniciais da crianças pequena. Pelas palavras,
Na construção do conhecimento e fundamentando uma porção
aprendidas na interação com outros membros da sua cultura, as
básica da relação do indivíduo com o mundo, encontram-se a
crianças isolam certos atributos dos objetos e formam novas categorias
sensação, a percepção e a imaginação. Esses processos, tais como os
explicativas para os mesmos. Podem então perceber o objeto por
demais processos psicológicos humanos, desenvolvem-se através da
rótulos verbais como “é grande”, “é pequeno”, “está bem perto”, graças
experiência da criança em seu ambiente, dependendo das atividades
à sua experiência anterior com este e com outros objetos, em função do
que realiza em seu grupo social.
grau de domínio que têm sobre a linguagem.
A sensação se refere ao reconhecimento dos estímulos presentes
A imaginação é a habilidade que os indivíduos possuem de
num ambiente, feito pelo aparato sensorial humano, ou seja, pelos
formar representações, ou seja, de construir imagens mentais acerca
órgãos dos sentidos. Ela possibilita ao indivíduo informar-se de
do mundo real ou mesmo de situações não diretamente vivenciadas. A
algumas características e propriedades de coisas e fenômenos de seu
imaginação não pode ser considerada, entretanto, como uma cópia fiel
meio, como, por exemplo, a presença de determinadas formas, cores,
de objetos ou situações, nem como uma invenção, entretanto, como
sons, temperatura ambiente, objetos ou pessoas. O ser humano dispõe,
uma cópia fiel de objetos ou situações, nem como uma invenção
também, de outras coisas, ter noção de equilíbrio e desequilíbrio do
absolutamente livre da influência do real. Antes, a imaginação é um
próprio corpo.
reflexo criativo da realidade, como é notar nos desenhos, histórias e
A percepção, por sua vez, diz respeito ao processo de jogos de faz-de-conta das crianças e também nos filmes, livros,
organização das informações obtida por meio da sensação em quadros de grandes autores e nos trabalhos de inventores de vulto.
determinadas categorias. Estas se referem aos atributos dos
Todo ser humano pode desenvolver grande capacidade
estímulos como forma, peso, altura, distância, tamanho, localização
imaginativa, desde que sejam garantidas condições para tal: um
espacial, localização temporal, tonalidade, intensidade, textura e outros.
ambiente acolhedor, que promova a liberdade de pensamento, que
A tais características e propriedades são atribuídos significados como:
incentive a ousadia nas formas de expressão, que valorize a
grande, rugoso, liso. Tais significados, porém, não são vistos
descoberta do novo. Daí a preocupação em fazer da escola também
isoladamente, pois cada objeto, pessoa ou situação com que o
um local onde os outros possam aperfeiçoar seus processos sensoriais,
indivíduo se defronta são percebidos como um todo dotado de sentido.
percetivos e imaginativos. Isso pode ser alcançado por meio de
É importante ter claro que a percepção é parte do sistema experiências que estimulem a exploração, a experimentação e a
dinâmico do comportamento humano. Ela depende de outras atividades criação. Esta postura contribui para que a escola confirme sua função
intelectuais do indivíduo, ao mesmo tempo que as influencias. Daí o de instituição social voltada para a ação que leve as crianças a
fato de a percepção e o raciocínio serem processos que se apóiam construírem conhecimentos cada vez mais complexos e também a se
mutuamente. engajarem em novas possibilidades de ação. É conhecendo,
Segundo Piaget a percepção se refere ao conhecimento que se explorando e criando que as crianças se constituem enquanto sujeitos.
tem dos objetos ou dos movimentos, obtidos através do contato direto e 2- O desenvolvimento linguístico
atual com os mesmos.
As funções da linguagem
A inteligência, por sua vez, possibilita o conhecimento de outros
Quando, por volta dos dois anos de idade, uma criança começa a
aspectos dos objetos e movimentos e que subsiste mesmo na ausência
falar, as pessoas à sua volta não se dão conta de que algo fantástico
de contato direto com eles. Dessa forma, pode-se perceber que uma
está acontecendo. Em geral, os adultos ficam fascinados com os
criança é alta mesmo sem tomar-lhe a medida de altura.
esforços que as crianças fazem para nomear algo presente em seu

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ambiente - um objeto, um animal, uma pessoa ou mesmo uma ideia, As várias linguagem do pensamento
divertindo-se com as trocas e confusões que inevitavelmente ocorrem.
O pensamento pode fazer uso de outras modalidades de
Passa , no entanto, despercebido um fato fundamental, que se refere,
linguagem, diferentes da verbal. Uma dessas modalidades é dada pelo
justamente, ao impacto que a aquisição da linguagem tem sobre a vida
uso de imagens visuais, outra pelos sons, outra pelo tato, pelo
da criança e daqueles que interagem com ela.
movimento etc. Dessa forma, pode-se dizer que não existe uma
A linguagem é um fator de interação social, é ela que permite a linguagem única e universal para o pensamento. Parece mais
comunicação entre os indivíduos , a troca de informações e de defensável supor que várias modalidades de linguagem sejam
experiências. Neste sentido a linguagem é, sem dúvida, um fenômeno utilizadas, ainda que em graus diversos, no pensamento de diferentes
que diferencia os homens dos animais. Estes últimos só ganham pessoas: umas podem usar predominantemente o pensamento verbal,
informações através do contato direto com o ambiente. Os seres outras o visual, outras o pensamento que se apóia no som ou no
humanos, no entanto, são capazes de fazer uso da linguagem para se movimento.
apropriarem da experiências significativas de gerações precedentes.
Um exemplo prático pode ilustrar essa situação. Quando
A linguagem permite, assim, que as conquistas alcançadas ao estudam, preparam um trabalho científico ou artístico, ou quando
longo de milhares de anos sejam assimiladas. organizam uma agenda, as pessoas fazem anotações verbais e não-
verbais sobre aquilo que estão pensando. Isto parece ocorrer porque o
Quando a criança passa a frequentar a escola, ao aprendera ler ,
pensamento tem uma configuração peculiar e bem conhecida: é
a escrever e a manejar números, ela está apropriando-se de toda uma
rápido, dinâmico, mutável.
experiência humano-social que levou séculos para ser construída e que
está sendo continuamente modificada pelo conjunto dos homens. Esta Para não perde-lo, frequentemente se registra - de forma
é, portanto, a primeira das funções da linguagem: permitir a telegráfica e condensada, com palavras e sinais - a avalanche de
comunicação, a transmissão de informações produzidas ao longo de ideias que se tem ao pensar. Tais registros servem exclusivamente para
muitos séculos de prática histórico-social e, consequentemente, a o pensador. Somente após trabalho sistemático sobre as anotações, de
assimilação de uma infinidade de conhecimentos que de forma alguma modo a expandi-las e torná-las comunicáveis, é que o pensamento se
poderia resultar da atividade individual isolada. completa, adquirindo permanência e estabilidade.

A linguagem também tem outra importante função: ela organiza, O fato de existirem diferentes formas de se registrar o
articula e orienta o pensamento. Quando a criança começa a designar pensamento indica que este pode ser representado, armazenado e
objetos e eventos do mundo exterior com palavras isoladas ou transmitido de várias maneiras. A forma de pensar que acaba por se
combinação de palavras, está descriminando esses objetos, esta impor ao longo do desenvolvimento intelectual da criança depende das
prestando atenção em suas características , podendo guardá-las na condições oferecidas pelo mundo ‘a sua volta: as atividades culturais
memória. Com isso, a criança está livre do aqui-e-agora: pode, com a disponíveis no ambiente, os interesses da família e da escola, os bens
ajuda da linguagem, relembrar situações passadas e prever eventos materiais aos quais se tem aceso e o papel desempenhado por adultos
futuros. Pode lidar com objetos , pessoas e fenômenos do ambiente, e professores. Aos poucos, o aprendiz vai construindo os conteúdos do
mesmo quando eles não se encontram presentes. A linguagem permite, seu pensamento e desenvolvendo uma forma de pensar que nada mais
assim, que o ser humano se distancie da experiência imediata, fato que é do que o produto da ação conjunta de todos estes fatores.
assegura o aparecimento da imaginação e do ato criativo.
Dessa forma o pensamento, enquanto busca constante de
Um outro aspecto essencial da linguagem é a palavra. significados e que permeia, contribui e dá forma a todas as atividades
humanas, pode se amparar em diferentes linguagens. Nota-se, no
As palavras não servem apenas para representar coisas e
entanto, que, qualquer que seja ela, os conteúdos do pensamento e
eventos. Na verdade, atuam no sentido de abstrair as propriedades e
sua forma de se expressar não constituem meros reflexos do mundo
características fundamentais das coisas e eventos a quais referem.
que rodeia a criança.
Com isso, tornam possível relacionar elementos semelhantes entre si e
agrupá-los em categorias. Dessa forma, propicia processos de A apreensão de novos conhecimentos requer, sobretudo, apoio
abstração e generalização que são muito importantes para o raciocínio. em estruturas e processos internos já desenvolvidos . Sobre esta base ,
noções e relações novas entrelaçam-se com relações e noções
A linguagem pode ser também considerada como um elemento
antigas, num processo ativo e dinâmico. Nesse sentido, todas as
central no processo de regulação do comportamento humano. Mas logo
modalidades de linguagem utilizadas pelo pensamento são importantes,
ela aprende a organizar e controlar seu próprio comportamento e a
na medida em que se promovem sua organização, orientação e
prever as consequências da sua ação futura, analisando-a à luz da
comunicação, ao longo da interação social.
experiência anterior, seja ela transmitida ou vivida. Desta forma, na
base do comportamento voluntário, encontra-se sempre a palavra, A linguagem na escola
ainda que não manifesta, evocando eventos passados e regulando
A linguagem , tanto oral quanto escrita, é fundamental na escola.
ações futuras.
Em especial, o ensino destinado aos meninos e meninas das camadas

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de baixa renda, majoritários da população brasileira, deve dar especial - de natureza sócio-econômica - que se encontram na base das
atenção a linguagem. diferenças entre as diferentes classes sociais. Tais causas se refletem
nas diferentes modalidades de linguagem que as diferentes classes
Geralmente, a escola exige das crianças que falem e escrevam
sociais utilizam e que terminam tendo peso distinto para o sucesso
de acordo com o padrão “culto”, estigmatizando e censurando as
escolar. A desvalorização dos padrões linguísticos e culturais das
variações linguísticas utilizadas pelos alunos, ou seja, suas formas
classes dominadas, que perpassa tanto a teoria da “deficiência” como a
específicas de falar. Esse padrão “culto” de linguagem, entretanto,
da “diferença” linguística, as levou, portanto, a contribuir para manter as
corresponde à forma de falar dos grupos sociais privilegiados , parte do
desigualdades sociais.
fracasso escolar pode ser atribuído ao tratamento que a escola dá à
questão da linguagem. Para combater a seletividade escolar, defendendo o direito de
todos à educação e à apropriação dos conhecimentos, é preciso
A linguagem e o fracasso escolar
assumir uma postura política em relação à linguagem.
Para alguns, as crianças provenientes de famílias de baixa renda
Para tanto, o “dialeto” de prestígio falado pelas classes sociais
fracassam na escola por terem uma linguagem “pobre”, pouco
privilegiadas deve ser colocado a serviço da classes desfavorecidas.
elaborada e com vocabulário reduzido. Essa linguagem “pobre”,
Isso pode ser feito criando-se situações nas quais os alunos,
“”deficiente” seria resultado da “”pobreza” do contexto cultural em que
dialogando com o professor acerca do mundo, do livro, deles mesmos
tais crianças vivem e não serviria para expressar o pensamento lógico
etc., possam ir-se apropriando da variante linguística privilegiada pela
ou formal, consequentemente, a necessidade de programas para
escola, ao mesmo tempo em que a sua cultura e o modo de expressão
“remediar” essa situação, fornecendo a essas crianças uma educação
próprio dela não deixam de ser reconhecidos.
“compensatória” das deficiências causadas por seu ambiente familiar e
cultural. 3- A apropriação dos conceitos científicos

Tal teoria da “deficiência” linguística deve ser criticada. Em No processo de conhecimento é preciso considerar a presença
primeiro lugar, ela não procura as causas do fracasso escolar nas de alguém que conhece - o sujeito - e de algo a ser conhecido - o
relações que se estabelecem entre educação e sociedade no sistema objeto. Entre o sujeito e o objeto do conhecimento estabelecem-se
capitalista. relações que requerem um elemento mediador. Esta ideia fica mais
clara quando fazemos uma comparação entre trabalho material e o
Nele, a função da escola não é a de eliminar as diferenças
trabalho intelectual.
sociais, mas adaptar os alunos às mesmas. Em segundo lugar, admitir
a existência de uma deficiência cultural nas populações de baixa renda Ambos exigem, para a sua realização, o emprego de
significa acreditar que elas possuem uma cultura inferior, fato já instrumentos que atuem como mediadores na relação sujeito/objeto .
bastante contestado pela Antropologia: todas as culturas possuem No trabalho material realizado sobre a natureza, a enxada, o serrote, o
integridade e coerência , não sendo possível, portanto, estabelecer torno, o tear são instrumentos “físicos” que permitem ao sujeito (
comparações( negativas ou positivas) de umas em relação a outras. lavrador , marceneiro, ceramista e tecelão) atuar sobre a matéria-prima.
Finalmente, todas as línguas atendem às necessidades e No trabalho intelectual, os principais instrumentos são os conceitos, ou
características da cultura a que servem, constituindo instrumentos seja, propriedades abstratas apreendidas a partir da interação com
efetivos de comunicação social. Assim, não há por que considerar que objetos ou eventos, em situações variadas.
existam linguagens “deficientes”.
A partir da aquisição da linguagem pela criança, os conceitos se
Uma outra teoria - a da “diferença” linguística - surge para se expressam através das palavras, que representam generalizações de
contrapor àquela que se acabou de expor. Nesta nova abordagem a objetos, eventos ou fenômenos. A palavra “gato” pôr exemplo, refere-se
linguagem das crianças das classes sociais desfavorecidas é a diferentes raças , cada uma com as suas peculiaridades, as quais são
reconhecida como diferente daquela empregada pelas crianças das abstraídas e resumidas no conceito “gato” , que é expresso pôr essa
classes privilegiadas , mas não como deficiente. Diferenças palavra. Entretanto, à medida que as crianças se desenvolvem, os
encontradas em testes de linguagem realizados com crianças dos dois conceitos expressos pelas palavras vão aos poucos ganhando graus
grupos sociais não se explicariam, nessa nova ótica, pôr inferioridade cada vez maiores de abstração e, consequentemente , de
linguística dos mais pobres. O problema estaria na forma como eles generalização. Isto significa que o sujeito aprende sempre novas
encaravam a situação de testarem. As crianças das famílias propriedades ou características do objeto, evento ou fenômeno,
trabalhadoras tenderiam a senti-la como uma ameaça e pôr isso se aumentando o seu conhecimento sobre ele e, em razão disso,
retrairiam. expandindo o alcance do conceito que exprime tal conhecimento. Gato,
mamífero, vertebrado, animal, ser vivo, constituem uma sequência de
Há ainda uma terceira teoria para explicar a questão, do “capital”
palavras que partindo do objeto concreto “gato”, adquirem cada vez
linguístico. Essa nova proposta questiona os pressupostos das teorias
maior abrangência, dependendo do grau de abstração e generalização
anteriores, segundo os quais a escola poderia ajudar a superar as
oferecido pelo conceito. Por exemplo, “ser vivo”, por ser mais abstrato e
diferenças sociais. Para ela, tanto a teoria da deficiência quanto a da
diferença linguística pecam por não investigarem as causas estruturais

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geral do que “gato”, abrange mais elementos: pessoas, plantas e crianças difíceis ou anormais. Sobretudo, não é possível pensar que os
animais. 40% dos alunos que não se alfabetizam na primeira série da escola
brasileira não o façam devido a desajustes emocionais.
Como a criança consorte os conceitos, enquanto instrumentos do
seu pensamento? A resposta a essa pergunta é apenas uma: os Além disso, mesmo reconhecendo a importância dos fatores
conceitos são construídos tanto a partir da experiência individual da emocionais e afetivos na aprendizagem , o objetivo da ação da escola
criança como a partir dos conhecimentos transmitidos na interação não é resolver dificuldades nesta área. O específico na instituição
social, em especial na escola. Os conceitos adquiridos pela experiência escolar é propiciar a aquisição e reformulação dos conhecimentos
individual são chamados de espontâneos, pois se referem a objetos ou elaborados por uma dada sociedade.
situações em que a criança observa, manipula e vivência diretamente.
Cabe a escola esforçar-se por propiciar um ambiente estável e
Os conceitos alcançados na e pela atuação da escola denominam-se
seguro, onde a crianças se sintam bem, porque nestas condições a
científicos por se referirem a eventos não diretamente acessíveis ‘a
atividade intelectual fica facilitada. Nesse sentido, alguns pontos que se
observação ou ação imediata. Assim, conceitos espontâneos e
julga centrais para a compreensão do desenvolvimento afetivo e de
científicos diferem entre si por se pautarem ou se distanciarem da
seu papel na aprendizagem devem ser discutidos.
experiência concreta, fato que implica, necessariamente, processos da
construção também distintos. A importância das ligações afetivas

Na escola, diferentemente das situações de experiência direta da Especialistas afirmam que o bebê humano nasce com uma
criança, a relação entre cada conceito e o objeto, fenômeno ou evento predisposição para interagir. Ele dispõe de certas estruturas orgânicas
a que se refere, se dará sempre mediante outros conceitos. A criança que o levam a privilegiar certos estímulos na sua relação com o meio.
aprende, por exemplo, que “a Terra é um planeta que gira em trono do Com isso, o bebê responde, sobretudo, a estímulos associados a
Sol”. Esta definição implica conceitos de “planeta” e de “movimento de outros seres humanos, como a face e as vozes. Assim é que desde
translação” que não são providos pela vivência imediata da criança . cedo, o recém-nascido distingue a voz humana do conjunto de sons
Como tais conceitos científicos se relacionam formando um sistema presentes no ambiente e rapidamente orienta-se para os traços do
conceitual, é a possibilidade de serem apreendidos como algo rosto humano colocado à sua frente. Suas estruturas perceptuais, por
integrado que lhes confere corpo, consistência e sistematicidade. Isso outro lado, são ativadas pelas ações dos adultos ao lhe responderem,
significa que a formação desse sistema conceitual está em estreita estabelecendo assim uma interdependência comportamental, desde o
dependência da aprendizagem de conceitos científicos veiculados na início, entre adulto e bebê.
escola, estendendo-se , só posteriormente, aos conceitos espontâneos A presença do adulto dá à criança condições físicas e
adquiridos na vida cotidiana. emocionais que a levam a explorar mais o ambiente e, portanto, a
Devemos considerar, que esses dois tipos de conceitos ( aprender. Por outro lado, a interação humana envolve também a
espontâneos e científicos) , emborca distintos, são mutuamente afetividade, a emoção, como elemento básico. Assim, é através da
relacionados. Os conceitos científicos possuem maior sistematicidade, interação com os indivíduos mais experientes do seu meio social que a
mas faltam-lhes a riqueza e diversidade de detalhes advindos da criança constrói as suas funções mentais superiores, como afirma
experiência pessoal. Os conceitos espontâneos, por sua vez, embora Vygotski, ou forma a sua personalidade, como defende Freud.
sejam plenos de significados , carecem de consciência e, portanto, de A teoria de Freud
poder ser empregados voluntariamente. A despeito, pois, de
desenvolverem-se em sentidos opostos, os conceitos científicos e Sigmund Freud (1856 -1939) foi um neuropsiquiatra austríaco
espontâneos se encontram intimamente relacionados. De fato, é que estudou o desenvolvimento emocional humano, criando um método
possível entender que os conceitos espontâneos da criança se de tratar os distúrbios psíquicos, chamado Psicanálise.
desenvolvem “de baixo para cima”( em direção a níveis cada vez mais Segundo Freud o bebê e a criança tem pouco controle sobre as
abstratos), enquanto os científicos o fazem “de cima para baixo” (em poderosas forças biológicas e sociais que agem sobre eles. É somente
direção a níveis cada vez mais concretos). através da experiência que eles vão aprendendo a lidar com elas,
Finalizando , os conceitos espontâneos e científicos influenciam- formando a sua personalidade.
se mutuamente, um dependendo para se desenvolverem na Na teoria freudiana, o que leva o indivíduo a agir é sua excitação
consciência da criança. energética, os seus instintos. A energia biológica, ou seja, o instinto -
4- O desenvolvimento afetivo fonte de todos os impulsos básicos do indivíduo - é o aspecto que se
encontra na base de todos os comportamentos, motivos e
Algumas crianças enfrentam sérias dificuldades em seu pensamentos. Todos eles seriam governados a partir de três fontes
desenvolvimento cognitivo e emocional. Não lhes é fácil abstrair e energéticas: a sexualidade ( libido) , os impulsos de autoconservação e
generalizar, sofrem inúmeros medos e problemas de relacionamento a agressão.
com outras crianças e adultos. É prudente, todavia, não se concluir que
todas as crianças com problemas de aprendizagem escolar são

Professor Pedagogo 71 A Opção Certa Para a Sua Realização
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Freud enfatizou a qualidade instintiva das ligações afetivas que O prazer vem assim, da própria aprendizagem, do sentimento de
seriam manifestações do instinto sexual da criança. Por intermédio da competência pessoal, da segurança de ser hábil para resolver
sua experiência com o meio em que vive e dependendo de sua problemas.
maturação orgânica, a criança atravessa vários estágios de
A auto-avaliação
desenvolvimento que, para Freud, estariam ligados aos lugares do
corpo que servem como fonte primária de prazer. O desenvolvimento A aprendizagem é facilitada quando o indivíduo conta com
da personalidade seguiria um padrão fixo, com estágios determinados, informações sobre o próprio desempenho. Conhecendo a natureza dos
de um lado, pelas mudanças maturacionais no corpo e, de outro , pelo erros cometidos ou dos acertos realizados, ele pode colocar-se novas
tipo de relacionamento que a criança estabelece com adultos metas, buscar auxílio específico, modificar o comportamento que tem
significativos do seu meio, em especial com o pai e a mãe. A face a uma disciplina. Desse ponto de vista, a avaliação do professor
construção da identidade ocorre através da construção de significados leva o aluno a se auto-avaliar, a perceber quais são os seus pontos
a respeito das ligações que o indivíduo estabelece com o mundo, fortes e quais são os pontos fracos que devem ser superados.
significados esses que podem ser conscientes ou inconscientes para Unidade IV - O desenvolvimento de crianças e adolescentes
ele, num determinado momento.
1- A atuação docente no desenvolvimento de criança e
Afetividade e cognição adolescentes
As emoções estão presentes quando se busca conhecer, quando Um dos maiores desafios com o qual a escola se defronta é
se estabelece relações com objetos físicos, concepções ou outros resolver de forma efetiva uma das suas principais metas: a de propiciar
indivíduos. Afeto e cognição constituem aspectos inseparáveis, aos alunos a possibilidade de realizar, com os materiais e os meios
presentes em qualquer atividade, embora em proporções variáveis. A disponíveis, algo que ainda não tenha sido feito, ou de fornecer
afetividade e a inteligência se estruturam nas ações e pelas ações dos condições para que aquilo que já foi feito seja visto, ou refeito a partir
indivíduos . O afeto pode, assim, ser entendido como energia de uma nova perspectiva. Não se quer, assim, que a escola atue
necessária para que a estrutura cognitiva passe a operar, ele influencia apenas como reprodutora de conhecimentos ou de técnicas já
a velocidade com que se constrói o conhecimento, pois, quando as desenvolvidas. Ao contrário, é preciso que a criação - seja ela científica,
pessoas se sentem seguras, aprendem com mais facilidade. seja artística - tenha lugar no espaço escolar. É necessário que se
Na interação que o professor e aluno estabelecem na escola, os estimule e encoraje o próprio prazer de aprender, frequentemente
fatores afetivos e cognitivos de ambos exercem influência decisiva. ausente da vida e das salas de aula. Essa não é uma tarefa simples,
Para que essa interação possa levar à construção de conhecimentos , pois exige interesse e atenção para pequenos progressos, sensibilidade
a interpretação que o professor faz do comportamento dos alunos é para avaliar os esforços despendidos, sobretudo, capacidade de
fundamental. Ele precisa estar atento ao fato de que existem muitas elaborar formas produtivas de orientar o trabalho das crianças. É
significações possíveis para os comportamentos assumidos por seus imprescindível que adultos, professores ou não, constituam modelos e
alunos, buscando verificar quais delas melhor traduzem as intenções atuem como colaboradores, na tentativa de reconstruir o passado para
originais. Além disso, o professor necessita compreender que aspectos transforma-lo. Para tanto, é necessário separar o secundário do central,
da sua própria personalidade - seus desejos, preocupações e valores - discutir as respostas obtidas, orientar a formulação de novas hipóteses
influem em seu comportamento, ao longo de interações que ele e apontar aquilo que é produção pessoal, diferenciando-a das já
mantém com a classe. existentes.

Motivação e aprendizagem 2- A concepção Interacionista na escola

A motivação para aprender nada mais é do que o A interação em sala de aula
reconhecimento, pelo indivíduo, de que conhecer algo irá satisfazer Na interação professores-alunos, supõe-se que o primeiro ajude
suas necessidades atuais ou futuras. Ela também pode ser encarada inicialmente os segundos na tarefa de aprender , porque essa ajuda
como um processo psicológico em construção. logo lhes possibilitará pensar com autonomia. Para aprender, o aluno
A motivação humana deve ser compreendida na relação entre os precisa ter ao seu lado alguém que o perceba nos diferentes momentos
aspectos cognitivos e afetivos da personalidade, ambos largamente da situação de aprendizagem e que lhe responda de forma a ajuda-la a
dependentes do meio social. A motivação está ligada à autoconsciência evoluir no processo, alcançando um nível mais elevado de
do indivíduo ( seus ideais, seus projetos, sua visão de mundo) e conhecimento. Por meio da interação que se estabelece entre eles e
também aos aspectos inconscientes de sua personalidade. esse parceiro mais experiente e sensível - o professor ou um colega - o
aluno vai construindo novos conhecimentos, habilidades e
Para o professor um dos trabalhos mais importantes a serem
significações.
desenvolvidos é motivar os alunos, procurar fazer com que o processo
de aprendizagem seja motivador em si mesmo: as crianças devem ser Participando ativamente, os alunos têm diferentes oportunidades
levadas a colocar toda a sua energia para enfrentar o desafio intelectual de coordenar suas ações tanto com as dos colegas como com as do
que a escola lhes coloca. professor, usando diversos modos de expressão: oral, escrita, gráficos,

Professor Pedagogo 72 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
corporais etc. A interação em sala de aula envolve, pois, ajuste de aprendem a ouvir e incorporar críticas às sugestões dadas, a defender
ações que levam à construção partilhada de significados nas situações suas ideias e seu espaço no grupo, a dividir de modo produtivo.
de aprendizagem. Nesse processo, mestre e aprendizes se respeitam Sobretudo, a atividade conjunta leva à compreensão de que o esforço
como pessoas, como sujeitos únicos que possuem experiências solitário para a obtenção de um determinado fim deve ser enriquecido
diversas de uma mesma cultura. no trabalho partilhado, onde se trocam informações, apoio e incentivo.
Nesse sentido , o papel do professor e dos colegas é essencial para a
Procedimentos de ensino
perseverança nos objetivos propostos, a organização do conhecimento
Nesse quadro de referencias, um ensino pautado exclusivamente e a produção de um trabalho.
em aulas, onde o professor apenas expõe um conteúdo sem dialogar
com os alunos sobre o mesmo, está fadado ao fracasso. É preciso que
os alunos participem ativamente da aprendizagem, fazendo perguntas e A PEDAGOGIA: SEU OBJETO,
propondo soluções. Para tanto, incentiva-se a pesquisa e o raciocínio
CAMPO DE CONHECIMENTO E DE TRABALHO;
lógico em tarefas de solução de problemas. Não se recomenda, pois,
que a aprendizagem se restrinja a fórmulas e a memorização, seja de AS CORRENTES PEDAGÓGICAS.
definições, seja de textos.
Para desenvolver a abordagem das tendências pedagógicas
O professor não é exclusivamente um transmissor de utilizamos como critério a posição que cada tendência adota em relação
conhecimento, como o aluno não é receptor passivo dos mesmos. O às finalidades sociais da escola.
professor é um mediador competente entre o aluno e o conhecimento,
Assim vamos organizar o conjunto das pedagogias em dois
alguém que deve criar situações para a aprendizagem, que provoque
grupos, conforme aparece a seguir:
desafio intelectual. Seu papel é o de interlocutor, que assinala, orienta e
coordena. 1. Pedagogia liberal

A linguagem na instrução 1.1 tradicional

A importância da linguagem na instrução, facilita a construção, 1.2 renovada progressivista
compreensão e atenção dos conteúdos apresentados. Convém, no 1.3 renovada não-diretiva
entanto, ressaltar que não é simples a tarefa de trabalhar sobre a
linguagem, de modo a deixa-la compatível com os conhecimentos que 1.4 tecnicista
os alunos já elaboraram sobre um determinado assunto. 2. Pedagogia progressista
Quando a linguagem se apóia em experiências já enfrentadas 2.1 libertadora
pelas crianças, é maior a sua possibilidade de ser uma base sólida para
2.2 libertária
a construção e retenção de novos conhecimentos.
2.3 crítico-social dos conteúdos
A noção de erro
É evidente que tanto as tendências quanto suas manifestações
O interacionismo questiona, na escola, procedimentos de
não são puras nem mutuamente exclusivas o que, aliás, é a limitação
avaliação que se pautam na visão tradicional de “erro”. Na verdade, as
principal de qualquer tentativa de classificação. Em alguns casos as
“soluções erradas” são ricas de informações para o professor: através
tendências se complementam, em outros, divergem. De qualquer modo,
delas é possível perceber a forma por meio da qual a criança pensa,
a classificação e sua descrição poderão funcionar como um instrumento
suas hipóteses sobre um determinado assunto, sua maneira de operar
de análise para o professor avaliar a sua prática de sala de aula.
cognitivamente os significados que atribui a um tema de
acontecimentos. Se cada estágio de desenvolvimento essa forma de A exposição das tendências pedagógicas compõe-se de uma
pensar sofre transformações drásticas, como definir o que é “erro”? O caracterização geral das tendências liberal e progressista, seguidas da
interacionismo mostrou que mais produtivo do que ter meramente o apresentação das pedagogias que as traduzem e que se manifestam
resultado da aprendizagem, é investigar o seu processo. na prática docente.

O trabalho em grupo 1. PEDAGOGIA LIBERAL

Uma das alternativas mais ricas com que os adultos contam para O termo liberal não tem o sentido de “avançado”, “democrático”,
amparar e orientar as gerações mais novas é o trabalho supervisionado “aberto”, como costuma ser usado. A doutrina liberal apareceu como
em grupo, onde as diferentes crianças e jovens interagem em busca de justificação do sistema capitalista que, ao defender a predominância da
um objetivo comum, dividindo e compartilhando esforços. Durante as liberdade e dos interesses individuais da sociedade, estabeleceu uma
horas que passam juntos - tentando montar uma peça de teatro, forma de organização social baseada na propriedade privada dos meios
observar e descrever um experimento científico, organizar um jornal da de produção, também denominada sociedade de classes. A pedagogia
comunidade - os alunos se tornam mais conscientes de si mesmos, liberal, portanto, é uma manifestação própria desse tipo de sociedade.

Professor Pedagogo 73 A Opção Certa Para a Sua Realização
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A educação brasileira, pelo menos nos últimos cinquenta mas as técnicas (forma) de descoberta e aplicação. A tecnologia
anos,.tem sido marcada pelas tendências liberais, nas suas formas ora (aproveitamento ordenado de recursos, com base no conhecimento
conservadora, ora renovada. Evidentemente tais tendências se científico) é o meio eficaz de obter a maximização da produção e
manifestam, concretamente, nas práticas escolares e no ideário garantir um ótimo funcionamento da sociedade; a educação é um
pedagógico de muitos professores, ainda que estes não se deem conta recurso tecnológico por excelência. Ela “é encarada como um
dessa influência. instrumento capaz de promover, sem contradição, o desenvolvimento
econômico pela qualificação da mão-de-obra, pela redistribuição da
A pedagogia liberal sustenta a ideia de que a escola tem por
renda, pela maximização da produção e, ao mesmo tempo, pelo
função preparar os indivíduos para o desempenho de papéis sociais, de
desenvolvimento da ‘consciência política’ indispensável à manutenção
acordo com as aptidões individuais, por isso os indivíduos precisam
do Estado autoritário”. Utiliza-se basicamente do enfoque sistêmico, da
aprender a se adaptar aos valores e às normas vigentes na sociedade
tecnologia educacional e da análise experimental do comportamento.
de classes através do desenvolvimento da cultura individual. A ênfase
no aspecto cultural esconde a realidade das diferenças de classes, 1.1 TENDÊNCIA LIBERAL TRADICIONAL
pois, embora difunda a ideia de igualdade de oportunidades, não leva
Papel da escola – A atuação da escola consiste na preparação
em conta a desigualdade de condições. Historicamente, a educação
intelectual e moral dos alunos para assumir sua posição na sociedade.
liberal iniciou-se com a pedagogia tradicional e, por razões de
O compromisso da escola é com a cultura, os problemas sociais
recomposição da hegemonia da burguesia, evoluiu para a pedagogia
pertencem à sociedade. O caminho cultural em direção ao saber é o
renovada (também denominada escola nova ou ativa), o que não
mesmo para todos os alunos, desde que se esforcem. Assim, os menos
significou a substituição de uma pela outra, pois ambas conviveram e
capazes devem lutar para superar suas dificuldades e conquistar seu
convivem na prática escolar.
lugar junto aos mais capazes. Caso não consigam, devem procurar o
Na tendência tradicional, a pedagogia liberal se caracteriza por ensino mais profissionalizante.
acentuar o ensino humanístico, de cultura geral, no qual o aluno é
Conteúdos de ensino – São os conhecimentos e valores sociais
educado para atingir, pelo próprio esforço, sua plena realização como
acumulados pelas gerações adultas e repassados ao aluno como
pessoa. Os conteúdos, os procedimentos didáticos, a relação
verdades. As matérias de estudo visam preparar o aluno para a vida,
professor-aluno não têm nenhuma relação com o cotidiano do aluno e
são determinadas pela sociedade e ordenadas na legislação. Os
muito menos com as realidades sociais. É a predominância da palavra
conteúdos são separados da experiência do aluno e das realidades
do professor, das regras impostas, do cultivo exclusivamente
sociais, valendo pelo valor intelectual, razão pela qual a pedagogia
intelectual.
tradicional é criticada como intelectualista e, às vezes, como
A tendência liberal renovada acentua, igualmente, o sentido da enciclopédica.
cultura como desenvolvimento das aptidões individuais. Mas a
Métodos – Baseiam-se na exposição verbal da matéria e/ou
educação é um processo interno, não externo; ela parte das
demonstração. Tanto a exposição quanto a análise são feitas pelo
necessidades e interesses individuais necessários para a adaptação ao
professor, observados os seguintes passos: a) preparação do aluno
meio. A educação é a vida presente, é a parte da própria experiência
(definição do trabalho, recordação da matéria anterior, despertar
humana. A escola renovada propõe um ensino que valorize a auto-
interesse); b) apresentação (realce de pontos-chaves, demonstração);
educação (o aluno como sujeito do conhecimento), a experiência direta
c) associação (combinação do conhecimento novo com o já conhecido
sobre o meio pela atividade; um ensino centrado no aluno e no grupo. A
por comparação e abstração); d) generalização (dos aspectos
tendência liberal renovada apresenta-se, entre nós, em duas versões
particulares chega-se ao conceito geral, é a exposição sistematizada);
distintas: a renovada progressivista, ou pragmatista, principalmente na
e) aplicação (explicação de fatos adicionais e/ou resoluções de
forma difundida pelos pioneiros da educação nova, entre os quais se
exercícios). A ênfase nos exercícios, na repetição de conceitos ou
destaca Anísio Teixeira (deve-se destacar, também, a influência de
fórmulas na memorização visa disciplinar a mente e formar hábitos.
Montessori, Decroly e, de certa forma, Piaget); a renovada não-diretiva,
orientada para os objetivos de auto-realização (desenvolvimento Relacionamento professor-aluno – Predomina a autoridade do
pessoal) e para as relações interpessoais, na formulação do psicólogo professor que exige atitude receptiva dos alunos e impede qualquer
norte-americano Carl Rogers. comunicação entre eles no decorrer da aula. O professor transmite o
conteúdo na forma de verdade a ser absorvida; em consequência, a
A tendência liberal tecnicista subordina a educação à sociedade,
disciplina imposta é o meio mais eficaz para assegurar a atenção e o
tendo como função a preparação de “recursos humanos” (mão-de-obra
silêncio.
para a indústria). A sociedade industrial e tecnológica estabelece
(cientificamente) as metas econômicas, sociais e políticas, a educação Pressupostos de aprendizagem – A ideia de que o ensino
treina (também cientificamente) nos alunos os comportamentos de consiste em repassar os conhecimentos para o espírito da criança é
ajustamento a essas metas. No tecnicismo acredita-se que a realidade acompanhada de uma outra: a de que a capacidade de assimilação da
contém em si suas próprias leis, bastando aos homens descobri-las e criança é idêntica à do adulto, apenas menos desenvolvida. Os
aplicá-las. Dessa forma, o essencial não é o conteúdo da realidade, programas, então, devem ser dados numa progressão lógica,

Professor Pedagogo 74 A Opção Certa Para a Sua Realização
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estabelecida pelo adulto, sem levar em conta as características próprias provisórias devem ser incentivadas e ordenadas, com a ajuda discreta
de cada idade. A aprendizagem, assim, é receptiva e mecânica, para o do professor; e) deve-se garantir a oportunidade de colocar as soluções
que se recorre frequentemente à coação. A retenção do material à prova, a fim de determinar sua utilidade para a vida.
ensinado é garantida pela repetição de exercícios sistemáticos e
Relacionamento professor-aluno – Não há lugar privilegiado para
recapitulação da matéria. A transferência da aprendizagem depende do
o professor; antes, seu papel é auxiliar o desenvolvimento livre e
treino; é indispensável a retenção, a fim de que o aluno possa
espontâneo da criança; se intervém, é para dar forma ao raciocínio
responder às situações novas de forma semelhante às respostas dadas
dela. A disciplina surge de uma tomada de consciência dos limites da
em situações anteriores. A avaliação se dá por verificações de curto
vida grupal; assim, aluno disciplinado é aquele que é solidário,
prazo (interrogatórios orais, exercício de casa) e de prazo mais longo
participante, respeitador das regras do grupo. Para se garantir um clima
(provas escritas, trabalhos de casa). O reforço é, em geral, negativo
harmonioso dentro da sala de aula é indispensável um relacionamento
(punição, notas baixas, apelos aos pais); às vezes, é positivo
positivo entre professores e alunos, uma forma de instaurar a “vivência
(emulação, classificações).
democrática” tal qual deve ser a vida em sociedade.
Manifestações na prática escolar – A pedagogia liberal tradicional
Pressupostos de aprendizagem – A motivação depende da força
é viva e atuante em nossas escolas. Na descrição apresentada aqui
de estimulação do problema e das disposições internas e interesses do
incluem-se as escolas religiosas ou leigas que adotam uma orientação
aluno. Assim, aprender se torna uma atividade de descoberta, é uma
clássico-humanista ou uma orientação humano-científica, sendo que
auto-aprendizagem, sendo o ambiente apenas o meio estimulador. E
esta se aproxima mais do modelo de escola predominante em nossa
retido o que se incorpora à atividade do aluno pela descoberta pessoal;
história educacional.
o que é incorporado passa a compor a estrutura cognitiva para ser
1.2 TENDÊNCIA LIBERAL RENOVADA PROGRESSIVISTA empregado em novas situações. A avaliação é fluida e tenta ser eficaz à
medida que os esforços e os êxitos são pronta e explicitamente
Papel da escola – A finalidade da escola é adequar as
reconhecidos pelo professor.
necessidades individuais ao meio social e, para isso, ela deve se
organizar de forma a retratar, o quanto possível, a vida. Todo ser dispõe Manifestações na prática escolar – Os princípios da pedagogia
dentro de si mesmo de mecanismos de adaptação progressiva ao meio pro-gressivista vêm sendo difundidos, em larga escala, nos cursos de
e de uma consequente integração dessas formas de adaptação no licenciatura, e muitos professores sofrem sua influência. Entretanto, sua
comportamento. Tal integração se dá por meio de experiências que aplicação é reduzidíssima, não somente por falta de condições
devem satisfazer, ao mesmo tempo, os interesses do aluno e as objetivas como também porque se choca com uma prática pedagógica
exigências sociais. À escola cabe suprir as experiências que permitam basicamente tradicional. Alguns métodos são adotados em escolas
ao aluno educar-se, num processo ativo de construção e reconstrução particulares, como o método Mon-tessori, o método dos centros de
do objeto, numa interação entre estruturas cognitivas do indivíduo e interesse de Decroly, o método de projetos de Dewey. O ensino
estruturas do ambiente. baseado na psicologia genética de Piaget tem larga aceitação na
educação pré-escolar. Pertencem, também, à tendência pro-gressivista
Conteúdos de ensino – Como o conhecimento resulta da ação a
muitas das escolas denominadas “experimentais”, as “escolas
partir dos interesses e necessidades, os conteúdos de ensino são
comunitárias” e mais remotamente (década de 60) a “escola secundária
estabelecidos em função de experiências que o sujeito vivencia frente a
moderna”, na versão difundida por Lauro de Oliveira Lima.
desafios cognitivos e situações problemáticas. Dá-se, portanto, muito
mais valor aos processos mentais e habilidades cognitivas do que a 1.3 TENDÊNCIA LIBERAL RENOVADA NÃO-DIRETIVA
conteúdos organizados racionalmente. Trata-se de “aprender a
Papel da escola – Acentua-se nesta tendência o papel da escola
aprender”, ou seja, é mais importante o processo de aquisição do saber
na formação de atitudes, razão pela qual deve estar mais preocupada
do que o saber propriamente dito.
com os problemas psicológicos do que com os pedagógicos ou sociais.
Método de ensino – A ideia de “aprender fazendo” está sempre Todo esforço está em estabelecer um clima favorável a uma mudança
presente. Valorizam-se as tentativas experimentais, a pesquisa, a dentro do indivíduo, isto é, a uma adequação pessoal às solicitações do
descoberta, o estudo do meio natural e social, o método de solução de ambiente. Rogers4 considera que o ensino é uma atividade
problemas. Embora os métodos variem, as escolas ativas ou novas excessivamente valorizada; para ele os procedimentos didáticos, a
(Dewey, Montessori, Decroly, Cousinet e outros) partem sempre de competência na matéria, as aulas, livros, tudo tem muito pouca
atividades adequadas à natureza do aluno e às etapas do seu importância, face ao propósito de favorecer à pessoa um clima de
desenvolvimento. Na maioria delas, acentua-se a importância do autodesenvolvimento e realização pessoal, o que implica estar bem
trabalho em grupo não apenas como técnica, mas como condição consigo próprio e com seus semelhantes. O resultado de uma boa
básica do desenvolvimento mental. Os passos básicos do método ativo educação é muito semelhante ao de uma boa terapia.
são: a) colocar o aluno numa situação de experiência que tenha um
Conteúdos de ensino – A ênfase que esta tendência põe nos
interesse por si mesma; b) o problema deve ser desafiante, como
processos de desenvolvimento das relações e da comunicação torna
estímulo à reflexão; c) o aluno deve dispor de informações e instruções
secundária a transmissão de conteúdos. Os processos de ensino visam
que lhe permitam pesquisar a descoberta de soluções; d) soluções
Professor Pedagogo 75 A Opção Certa Para a Sua Realização
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mais facilitar aos estudantes os meios para buscarem por si mesmos os especialistas; a “aplicação” é competência do processo educacional
conhecimentos que, no entanto, são dispensáveis. comum. A escola atua, assim, no aperfeiçoamento da ordem social
vigente (o sistema capitalista), articulando-se diretamente com o
Métodos de ensino – Os métodos usuais são dispensados,
sistema produtivo; para tanto, emprega a ciência da mudança de
prevalecendo quase que exclusivamente o esforço do professor em
comportamento, ou seja, a tecnologia comportamental. Seu interesse
desenvolver um estilo próprio para facilitar a aprendizagem dos alunos.
imediato é o de produzir indivíduos “competentes” para o mercado de
Rogers explicita algumas das características do professor “facilitador”:
trabalho, transmitindo, eficientemente, informações precisas, objetivas e
aceitação da pessoa do aluno, capacidade de ser confiável, receptivo e
rápidas. A pesquisa científica, a tecnologia educacional, a análise
ter plena convicção na capacidade de autodesenvolvimento do
experimental do comportamento garantem a objetividade da prática
estudante. Sua função restringe-se a ajudar o aluno a se organizar,
escolar, uma vez que os objetivos instru-cionais (conteúdos) resultam
utilizando técnicas de sensibilização onde os sentimentos de cada um
da aplicação de leis naturais que independem dos que a conhecem ou
possam ser expostos, sem ameaças. Assim, o objetivo do trabalho
executam.
escolar se esgota nos processos de melhor relacionamento in-
terpessoal, como condição para o crescimento pessoal. Conteúdos de ensino – São as informações, princípios
científicos, leis etc., estabelecidos e ordenados numa sequência lógica
Relacionamento professor-aluno – A pedagogia não-diretiva
e psicológica por especialistas. É matéria de ensino apenas o que é
propõe uma educação centrada no aluno, visando formar sua
redutível ao conhecimento observável e mensurável; os conteúdos
personalidade através da vivência de experiências significativas que lhe
decorrem, assim, da ciência objetiva, eliminando-se qualquer sinal de
permitam desenvolver características inerentes à sua natureza. O
subjetividade. O material instrucional en-contra-se sistematizado nos
professor é um especialista em relações humanas, ao garantir o clima
manuais, nos livros didáticos, nos módulos de ensino, nos dispositivos
de relacionamento pessoal e autêntico. “Ausentar-se” é a melhor forma
audiovisuais etc.
de respeito e aceitação plena do aluno. Toda intervenção é
ameaçadora, inibidora da aprendizagem. Métodos de ensino – Consistem nos procedimentos e técnicas
necessárias ao arranjo e controle nas condições ambientais que
Pressupostos de aprendizagem – A motivação resulta do desejo
assegurem a transmissão/recepção de informações. Se a primeira
de adequação pessoal na busca da auto-realização; é portanto um ato
tarefa do professor é modelar respostas apropriadas aos objetivos
interno. A motivação aumenta, quando o sujeito desenvolve o
instrucionais, a principal é conseguir o comportamento adequado pelo
sentimento de que é capaz de agir em termos de atingir suas metas
controle do ensino; daí a importância da tecnologia educacional. A
pessoais, isto é, desenvolve a valorização do “eu”. Aprender, portanto, é
tecnologia educacional é a “aplicação sistemática de princípios
modificar suas próprias percepções; daí que apenas se aprende o que
científicos comportamentais e tecnológicos a problemas educacionais,
estiver significativamente relacionado com essas percepções. Resulta
em função de resultados efetivos, utilizando uma metodologia e
que a retenção se dá pela relevância do aprendido em relação ao “eu”,
abordagem sistêmica abrangente”. Qualquer sistema instrucional (há
ou seja, o que não está envolvido com o “eu” não é retido e nem
uma grande variedade deles) possui três componentes básicos:
transferido. Portanto, a avaliação escolar perde inteiramente o sentido,
objetivos instrucionais operacionalizados em comportamentos
privilegiando-se a auto-avaliaçáo.
observáveis e mensuráveis, procedimentos instrucionais e avaliação.
Manifestações na prática escolar – Entre nós, o inspirador da As etapas básicas de um processo ensino-aprendizagem são:
pedagogia não-diretiva é C. Rogers, na verdade mais psicólogo clínico
a) estabelecimento de comportamentos terminais, através de
que educador. Suas ideias influenciam um número expressivo de
objetivos instrucionais;
educadores e professores, principalmente orientadores educacionais e
psicólogos escolares que se dedicam ao aconselhamento. Menos b) análise da tarefa de aprendizagem, a fim de ordenar se-
recentemente, podem-se citar também tendências inspiradas na escola quencialmente os passos da instrução;
de Summerhill do educador inglês A. Neill.
c) executar o programa, reforçando gradualmente as respos-
1.4 TENDÊNCIA LIBERAL TECNICISTA tas corretas correspondentes aos objetivos.

Papel da escola – Num sistema social harmônico, orgânico e O essencial da tecnologia educacional é a programação por
funcional, a escola funciona como modeladora do comportamento passos sequenciais empregada na instrução programada, nas técnicas
humano, através de técnicas específicas. À educação escolar compete de microensino, multimeios, módulos etc. O emprego da tecnologia
organizar o processo de aquisição de habilidades, atitudes e instrucional na escola pública aparece nas formas de: planejamento em
conhecimentos específicos, úteis e necessários para que os indivíduos moldes sistêmicos, concepção de aprendizagem como mudança de
se integrem na máquina do sistema social global. Tal sistema social é comportamento, operacionalização de objetivos, uso de procedimentos
regido por leis naturais (há na sociedade a mesma regularidade e as científicos (instrução programada, audiovisuais, avaliação etc., inclusive
mesmas relações funcionais observáveis entre os fenômenos da a programação de livros didáticos).
natureza), cientificamente descobertas. Basta aplicá-las. A atividade da
Relacionamento professor-aluno – São relações estruturadas e
“descoberta” é função da educação, mas deve ser restrita aos
obje-tivas, com papéis bem definidos: o professor administra as

Professor Pedagogo 76 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
condições de transmissão da matéria, conforme um sistema instrucional postura eclética em torno de princípios pedagógicos assentados nas
eficiente e efetivo em termos de resultados da aprendizagem; o aluno pedagogias tradicional e renovada.
recebe, aprende e fixa as informações. O professor é apenas um elo de
2. PEDAGOGIA PROGRESSISTA
ligação entre a verdade científica e o aluno, cabendo-lhe empregar o
sistema instrucional previsto. O aluno é um indivíduo responsivo, não O termo “progressista”, emprestado de Snyders, é usado aqui
participa da elaboração do programa educacional. Ambos são para designar as tendências que, partindo de uma análise crítica das
espectadores frente à verdade objetiva. A comunicação professor-aluno realidades sociais, sustentam implicitamente as finalidades
tem um sentido exclusivamente técnico, que é o de garantir a eficácia sociopolíticas da educação. Evidentemente a pedagogia progressista
da transmissão do conhecimento. Debates, discussões, não tem como institucionalizar-se numa sociedade capitalista; daí ser
questionamentos são desnecessários, assim como pouco importam as ela um instrumento de luta dos professores ao lado de outras práticas
relações afetivas e pessoais dos sujeitos envolvidos no processo sociais.
ensino-aprendizagem. A pedagogia progressista tem-se manifestado em três
Pressupostos de aprendizagem – As teorias de aprendizagem tendências: a libertadora, mais conhecida como pedagogia de Paulo
que fundamentam a pedagogia tecnicista dizem que aprender é uma Freire; a libertária, que reúne os defensores da autogestão pedagógica;
questão de modificação do desempenho: o bom ensino depende de a crítico-social dos conteúdos que, diferentemente das anteriores,
organizar eficientemente as condições estimuladoras, de modo a que o acentua a primazia dos conteúdos no seu confronto com as realidades
aluno saia da situação de aprendizagem diferente de como entrou. Ou sociais.
seja, o ensino é um processo de condicionamento através do uso de As versões libertadora e libertária têm em comum o
reforçamento das respostas que se quer obter. Assim, os sistemas antiautoritarismo, a valorização da experiência vivida como base da
instrucionais visam ao controle do comportamento individual face relação educativa e a ideia de autogestão pedagógica. Em função
objetivos preestabelecidos. Trata-se de um enfoque diretivo do ensino, disso, dão mais valor ao processo de aprendizagem grupal
centrado no controle das condições que cercam o organismo que se (participação em discussões, assembleias, votações) do que aos
comporta. O objetivo da ciência pedagógica, a partir da psicologia, é o conteúdos de ensino. Como decorrência, a prática educativa somente
estudo científico do comportamento: descobrir as leis naturais que faz sentido numa prática social junto ao povo, razão pela qual preferem
presidem as reações físicas do organismo que aprende, a fim de as modalidades de educação popular “não-formal”.
aumentar o controle das variáveis que o afetam. Os componentes da
aprendizagem – motivação, retenção, transferência – decorrem da A tendência da pedagogia crítico-social dos conteúdos propõe
aplicação do comportamento operante Segundo Skinner, o uma síntese superadora das pedagogias tradicional e renovada,
comportamento aprendido é uma resposta a estímulos externos, valorizando a ação pedagógica enquanto inserida na prática social
controlados por meio de reforços que ocorrem com a resposta ou após concreta. Entende a escola como mediação entre o individual e o
a mesma: “Se a ocorrência de um (comportamento) operante é seguida social, exercendo aí a articulação entre a transmissão dos conteúdos e
pela apresentação de um estímulo (reforçador), a probabilidade de a assimilação ativa por parte de um aluno concreto (inserido num
reforçamento é aumentada”. Entre os autores que contribuem para os contexto de relações sociais); dessa articulação resulta o saber
estudos de aprendizagem destacam-se: Skinner, Gagné, Bloom e criticamente reelaborado.
Mager. 2.1 TENDÊNCIA PROGRESSISTA LIBERTADORA
Manifestações na prática escolar – A influência da pedagogia Papel da escola – Não é próprio da pedagogia libertadora falar
tecnicista remonta à 2ª metade dos anos 50 (PABAEE – Programa em ensino escolar, já que sua marca é a atuação “não-formal”.
Brasileiro-americano de Auxilio ao Ensino Elementar). Entretanto foi Entretanto, professores e educadores engajados no ensino escolar vêm
introduzida mais efetivamente no final dos anos 60 com o objetivo de adotando pressupostos dessa pedagogia. Assim, quando se fala na
adequar o sistema educacional à orientação político-econômica do educação em geral, diz-se que ela é uma atividade onde professores e
regime militar: inserir a escola nos modelos de racionalização do alunos, mediatizados pela realidade que apreendem e da qual extraem
sistema de produção capitalista. E quando a orientação escolanovista o conteúdo de aprendizagem, atingem um nível de consciência dessa
cede lugar à tendência tecnicista, pelo menos no nível de política oficial; mesma realidade, a fim de nela atuarem, num sentido de transformação
os marcos de implantação do modelo tecnicista são as leis 5.540/68 e social. Tanto a educação tradicional, denominada “bancária” – que visa
5.692/71, que reorganizam o ensino superior e o ensino de 1º e 2º apenas depositar informações sobre o aluno –, quanto a educação
graus. A despeito da máquina oficial, entretanto, não há indícios renovada – que pretenderia uma libertação psicológica individual – são
seguros de que os professores da escola pública tenham assimilado a domesticadoras, pois em nada contribuem para desvelar a realidade
pedagogia tecnicista, pelo menos em termos de ideário. A aplicação da social de opressão. A educação libertadora, ao contrário, questiona
metodologia tecnicista (planejamento, livros didáticos programados, concretamente a realidade das relações do homem com a natureza e
procedimentos de avaliação etc.) não configura uma postura tecnicista com os outros homens, visando a uma transformação – daí ser uma
do professor; antes, o exercício profissional continua mais para uma educação crítica.

Professor Pedagogo 77 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Conteúdos de ensino – Denominados “temas geradores”, são conscientização, de “aproximação de consciências”. Trata-se de uma
extraídos da problematização da prática de vida dos educandos. Os “não-diretividade”, mas não no sentido do professor que se ausenta
conteúdos tradicionais são recusados porque cada pessoa, cada grupo (como em Rogers), mas que permanece vigilante para assegurar ao
envolvido na ação pedagógica dispõe em si próprio, ainda que de forma grupo um espaço humano para “dizer sua palavra”, para se exprimir
rudimentar, dos conteúdos necessários dos quais se parte. O sem se neutralizar.
importante não é a transmissão de conteúdos específicos, mas
Pressupostos de aprendizagem – A própria designação de
despertar uma nova forma da relação com a experiência vivida. A
“educação problematizadora” como correlata de educação libertadora
transmissão de conteúdos estruturados a partir de fora é considerada
revela a força motivadora da aprendizagem. A motivação se dá a partir
como “invasão cultural” ou “depósito de informação”, porque não
da codificaçáo de uma situação-problema, da qual se toma distância
emerge do saber popular. Se forem necessários textos de leitura estes
para analisá-la criticamente. “Esta análise envolve o exercício da
deverão ser redigidos pelos próprios educandos com a orientação do
abstração, através da qual procuramos alcançar, por meio de
educador.
representações da realidade concreta, a razão de ser dos fatos”.
Em nenhum momento o inspirador e mentor da pedagogia
Aprender é um ato de conhecimento da realidade concreta, isto
libertadora, Paulo Freire, deixa de mencionar o caráter essencialmente
é, da situação real vivida pelo educando, e só tem sentido se resulta de
político de sua pedagogia, o que, segundo suas próprias palavras,
uma aproximação crítica dessa realidade. O que é aprendido não
impede que ela seja posta em prática em termos sistemáticos, nas
decorre de uma imposição ou memorização, mas do nível crítico de
instituições oficiais, antes da transformação da sociedade. Daí porque
conhecimento, ao qual se chega pelo processo de compreensão,
sua atuação se dê mais em nível da educação extra-escolar. O que não
reflexão e crítica. O que o educando transfere, em termos de
tem impedido, por outro lado, que seus pressupostos sejam adotados e
conhecimento, é o que foi incorporado como resposta às situações de
aplicados por numerosos professores.
opressão – ou seja, seu engajamento na militância política.
Métodos de ensino – “Para ser um ato de conhecimento o
Manifestações na prática escolar – A pedagogia libertadora tem
processo de alfabetização de adultos demanda, entre educadores e
como inspirador e divulgador Paulo Freire, que tem aplicado suas ideias
educandos, uma relação de autêntico diálogo; aquela em que os
pessoalmente em diversos países, primeiro no Chile, depois na África.
sujeitos do ato de conhecer se encontram mediatizados pelo objeto a
Entre nós, tem exercido uma influência expressiva nos movimentos
ser conhecido” (...) “O diálogo engaja ativamente a ambos os sujeitos
populares e sindicatos e, praticamente, se confunde com a maior parte
do ato de conhecer: educador-educando e educando-educador”.
das experiências do que se denomina “educação popular”. Há diversos
Assim sendo, a forma de trabalho educativo é o “grupo de grupos desta natureza que vêm atuando não somente no nível da
discussão”, a quem cabe autogerir a aprendizagem, definindo o prática popular, mas também por meio de publicações, com relativa
conteúdo e a dinâmica das atividades. O professor é um animador que, independência em relação às ideias originais da pedagogia libertadora.
por princípio, deve “descer” ao nível dos alunos, adaptando-se às suas Embora as formulações teóricas de Paulo Freire se restrinjam à
características e ao desenvolvimento próprio de cada grupo. Deve educação de adultos ou à educação popular em geral, muitos
caminhar “junto”, intervir o mínimo indispensável, embora não se furte, professores vêm tentando colocá-las em prática em todos os graus de
quando necessário, a fornecer uma informação mais sistematizada. ensino formal.

Os passos da aprendizagem – Codificação-decodificação, e 2.2 TENDÊNCIA PROGRESSISTA LIBERTÁRIA
problema-tização da situação – permitirão aos educandos um esforço
Papel da escola – A pedagogia libertária espera que a escola
de compreensão do “vivido”, até chegar a um nível mais crítico de
exerça uma transformação na personalidade dos alunos num sentido
conhecimento da sua realidade, sempre através da troca de experiência
libertário e autogestionário. A ideia básica é introduzir modificações
em torno da prática social. Se nisso consiste o conteúdo do trabalho
institucionais, a partir dos níveis subalternos que, em seguida, vão
educativo, dispensam-se um programa previamente estruturado,
“contaminando” todo o sistema. A escola instituirá, com base na
trabalhos escritos, aulas expositivas, assim como qualquer tipo de
participação grupal, mecanismos institucionais de mudança
verificação direta da aprendizagem, formas essas próprias da
(assembleias, conselhos, eleições, reuniões, associações etc.), de tal
“educação bancária”, portanto, domesticadoras. Entretanto admite-se a
forma que o aluno, uma vez atuando nas instituições “externas”, leve
avaliação da prática vivenciada entre educador-educandos no processo
para lá tudo o que aprendeu. Outra forma de atuação da pedagogia
de grupo e, às vezes, a auto-avaliação feita em termos dos
libertária, correlata à primeira, é – aproveitando a margem de liberdade
compromissos assumidas com a prática social.
do sistema – criar grupos de pessoas com princípios educativos
Relacionamento professor-aluno – No diálogo, como método autogestionários (associações, grupos informais, escolas
básico, a relação é horizontal, onde educador e educandos se autogestionárias). Há, portanto, um sentido expressamente político, à
posicionam como sujeitos do ato de conhecimento. O critério de bom medida que se afirma o indivíduo como produto do social e que o
relacionamento é a total identificação com o povo, sem o que a relação desenvolvimento individual somente se realiza no coletivo. A autogestão
pedagógica perde consistência. Elimina-se, por pressuposto, toda é, assim, o conteúdo e o método; resume tanto o objetivo pedagógico
relação de autoridade, sob pena de esta inviabilizar o trabalho de quanto o político. A pedagogia libertária, na sua modalidade mais
Professor Pedagogo 78 A Opção Certa Para a Sua Realização
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conhecida entre nós, a “pedagogia institucional”, pretende ser uma cabe a função de “conselheiro” e, outras vezes, de instrutor-monitor à
forma de resistência contra a burocracia como instrumento da ação disposição do grupo. Em nenhum momento esses papéis do professor
dominadora do Estado, que tudo controla (professores, programas, se confundem com o de “modelo”, pois a pedagogia libertária recusa
provas etc.), retirando a autonomia. qualquer forma de poder ou autoridade.

Conteúdos de ensino – As matérias são colocadas à disposição Pressupostos de aprendizagem – As formas burocráticas das
do aluno, mas não são exigidas. São um instrumento a mais, porque instituições existentes, por seu traço de impessoalidade, comprometem
importante é o conhecimento que resulta das experiências vividas pelo o crescimento pessoal. A ênfase na aprendizagem informal, via grupo, e
grupo, especialmente a vivência de mecanismos de participação crítica. a negação de toda forma de repressão visam favorecer o
“Conhecimento” aqui não é a investigação cognitiva do real, para extrair desenvolvimento de pessoas mais livres. A motivação está, portanto, no
dele um sistema de representações mentais, mas a descoberta de interesse em crescer dentro da vivência grupal, pois supõe-se que o
respostas às necessidades e às exigências da vida social. Assim, os grupo devolva a cada um de seus membros a satisfação de suas
conteúdos propriamente ditos são os que resultam de necessidades e aspirações e necessidades.
interesses manifestos pelo grupo e que não são, necessária nem
Somente o vivido, o experimentado é incorporado e utilizável em
indispensavelmente, as matérias de estudo.
situações novas. Assim, o critério de relevância do saber sistematizado
Método de ensino – É na vivência grupal, na forma de é seu possível uso prático. Por isso mesmo, não faz sentido qualquer
autogestão, que os alunos buscarão encontrar as bases mais tentativa de avaliação da aprendizagem, ao menos em termos de
satisfatórias de sua própria “instituição”, graças à sua própria iniciativa e conteúdo.
sem qualquer forma de poder. Trata-se de “colocar nas mãos dos
Outras tendências pedagógicas correlatas – A pedagogia
alunos tudo o que for possível: o conjunto da vida, as atividades e a
libertária abrange quase todas as tendências antiautoritárias em
organização do trabalho no interior da escola (menos a elaboração dos
educação, entre elas, a anarquista, a psicanalista, a dos sociólogos, e
programas e a decisão dos exames que não dependem nem dos
também a dos professores progressistas. Embora Neill e Rogers não
docentes, nem dos alunos)”. Os alunos têm liberdade de trabalhar ou
possam ser considerados progressistas (conforme entendemos aqui),
não, ficando o interesse pedagógico na dependência de suas
não deixam de influenciar alguns libertários, como Lobrot. Entre os
necessidades ou das do grupo.
estrangeiros devemos citar Vasquez e Oury entre os mais recentes,
O progresso da autonomia, excluída qualquer direção de fora do Ferrer y Guardia entre os mais antigos. Particularmente significativo é o
grupo, se dá num “crescendo”: primeiramente a oportunidade de trabalho de C. Freinet, que tem sido muito estudado entre nós, existindo
contatos, aberturas, relações informais entre os alunos. Em seguida, o inclusive algumas escolas aplicando seu método.
grupo começa a se organizar, de modo que todos possam participar de
Entre os estudiosos e divulgadores da tendência libertária pode-
discussões, “cooperativas, assembleias, isto é, diversas formas de
se citar Maurício Tragtenberg, apesar da tônica de seus trabalhos não
participação e expressão pela palavra; quem quiser fazer outra coisa,
ser propriamente pedagógica, mas de crítica das instituições em favor
ou entra em acordo com o grupo, ou se retira. No terceiro momento, o
de um projeto autogestionário.
grupo se organiza de forma mais efetiva e, finalmente, no quarto
momento, parte para a execução do trabalho. 2.3 TENDÊNCIA PROGRESSISTA
“CRÍTICO-SOCIAL DOS CONTEÚDOS”
Relação professor-aluno – A pedagogia institucional visa “em
primeiro lugar, transformar a relação professor-aluno no sentido da não- Papel da escola – A difusão de conteúdos é a tarefa primordial.
diretividade, isto é, considerar desde o início a ineficácia e a nocividade Não conteúdos abstratos, mas vivos, concretos e, portanto,
de todos os métodos à base de obrigações e ameaças”. Embora indissociáveis das realidades sociais. A valorização da escola como
professor e aluno sejam desiguais e diferentes, nada impede que o instrumento de apropriação do saber é o melhor serviço que se presta
professor se ponha a serviço do aluno, sem impor suas concepções e aos interesses populares, já que a própria escola pode contribuir para
ideias, sem transformar o aluno em “objeto”. O professor é um eliminar a seletividade social e torná-la democrática. Se a escola é
orientador e um catalisador, ele se mistura ao grupo para uma reflexão parte integrante do todo social, agir dentro dela é também agir no rumo
em comum. da transformação da sociedade. Se o que define uma pedagogia crítica
é a consciência de seus condicionantes histórico-sociais, a função da
Se os alunos são livres frente ao professor, também este o é em
pedagogia “dos conteúdos” é dar um passo à frente no papel
relação aos alunos (ele pode, por exemplo, recusar-se a responder uma
transformador da escola, mas a partir das condições existentes. Assim,
pergunta, permanecendo em silêncio). Entretanto, essa liberdade de
a condição para que a escola sirva aos interesses populares é garantir
decisão tem um sentido bastante claro: se um aluno resolve não
a todos um bom ensino, isto é, a apropriação dos conteúdos escolares
participar, o faz porque não se sente integrado, mas o grupo tem
básicos que tenham ressonância na vida dos alunos. Entendida nesse
responsabilidade sobre este fato e vai se colocar a questão; quando o
sentido, a educação é “uma atividade mediadora no seio da prática
professor se cala diante de uma pergunta, seu silêncio tem um
social global”, ou seja, uma das mediações pela qual o aluno, pela
significado educativo que pode, por exemplo, ser uma ajuda para que o
intervenção do professor e por sua própria participação ativa, passa de
grupo assuma a resposta ou a situação criada. No mais, ao professor
Professor Pedagogo 79 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
uma experiência inicialmente confusa e fragmentada (sincrética) a uma Os métodos de uma pedagogia crítico-social dos conteúdos não
visão sintética, mais organizada e unificada. partem, então, de um saber artificial, depositado a partir de fora, nem
do saber espontâneo, mas de uma relação direta com a experiência do
Em síntese, a atuação da escola consiste na preparação do
aluno, confrontada com o saber trazido de fora. O trabalho docente
aluno para o mundo adulto e suas contradições, fornecendo-lhe um
relaciona a prática vivida pelos alunos com os conteúdos propostos
instrumental, por meio da aquisição de conteúdos e da socialização,
pelo professor, momento em que se dará a “ruptura” em relação à
para uma participação organizada e ativa na democratização da
experiência pouco elaborada. Tal ruptura apenas é possível com a
sociedade.
introdução explícita, pelo professor, dos elementos novos de análise a
Conteúdos de ensino – São os conteúdos culturais universais serem aplicados criticamente à prática do aluno. Em outras palavras,
que se constituíram em domínios de conhecimento relativamente uma aula começa pela constatação da prática real, havendo, em
autônomos, incorporados pela humanidade, mas permanentemente seguida, a consciência dessa prática no sentido de referi-la aos termos
reavaliados face às realidades sociais. Embora se aceite que os do conteúdo proposto, na forma de um confronto entre a experiência e
conteúdos são realidades exteriores ao aluno, que devem ser a explicação do professor. Vale dizer: vai-se da ação à compreensão e
assimilados e não simplesmente reinventados, eles não são fechados e da compreensão à anão, até a síntese, o que não é outra coisa senão a
refratários às realidades sociais. Não basta que os conteúdos sejam unidade entre a teoria e a prática.
apenas ensinados, ainda que bem ensinados; é preciso que se liguem,
Relação professor-aluno – Se, como mostramos anteriormente, o
de forma indissociável, à sua significação humana e social.
conhecimento resulta de trocas que se estabelecem na interação entre
Essa maneira de conceber os conteúdos do saber não o meio (natural, social, cultural) e o sujeito, sendo o professor o
estabelece oposição entre cultura erudita e cultura popular, ou mediador, então a relação pedagógica consiste no provimento das
espontânea, mas uma relação de continuidade em que, condições em que professores e alunos possam colaborar para fazer
progressivamente, se passa da experiência imediata e desorganizada progredir essas trocas. O papel do adulto é insubstituível, mas acentua-
ao conhecimento sistematizado. Não que a primeira apreensão da se também a participação do aluno no processo. Ou seja, o aluno, com
realidade seja errada, mas é necessária a ascensão a uma forma de sua experiência imediata num contexto cultural, participa na busca da
elaboração superior, conseguida pelo próprio aluno, com a intervenção verdade, ao confrontá-la com os conteúdos e modelos expressos pelo
do professor. professor. Mas esse esforço do professor em orientar, em abrir
A postura da pedagogia “dos conteúdos” – Ao admitir um perspectivas a partir dos conteúdos, implica um envolvimento com o
conhecimento relativamente autônomo – assume o saber como tendo estilo de vida dos alunos, tendo consciência inclusive dos contrastes
um conteúdo relativamente objetivo, mas, ao mesmo tempo, introduz a entre sua própria cultura e a do aluno. Não se contentará, entretanto,
possibilidade de uma reavaliação crítica frente a esse conteúdo. Como em satisfazer apenas as necessidades e carências; buscará despertar
sintetiza Snyders, ao mencionar o papel do professor, trata-se, de um outras necessidades, acelerar e disciplinar os métodos de estudo, exigir
lado, de obter o acesso do aluno aos conteúdos, ligando-os com a o esforço do aluno, propor conteúdos e modelos compatíveis com suas
experiência concreta dele – a continuidade; mas, de outro, de experiências vividas, para que o aluno se mobilize para uma
proporcionar elementos de análise crítica que ajudem o aluno a participação ativa.
ultrapassar a experiência, os estereótipos, as pressões difusas da Evidentemente o papel de mediação exercido em torno da
ideologia dominante – é a ruptura. análise dos conteúdos exclui a não-diretividade como forma de
Dessas considerações resulta claro que se pode ir do saber ao orientação do trabalho escolar, porque o diálogo adulto-aluno é
engajamento político, mas não o inverso, sob o risco de se afetar a desigual. O adulto tem mais experiência acerca das realidades sociais,
própria especificidade do saber e até cair-se numa forma de pedagogia dispõe de uma formação (ao menos deve dispor) para ensinar, possui
ideológica, que é o que se critica na pedagogia tradicional e na conhecimentos e a ele cabe fazer a análise dos conteúdos em
pedagogia nova. confronto com as realidades sociais. A não-diretividade abandona os
alunos a seus próprios desejos, como se eles tivessem uma tendência
Métodos de ensino – A questão dos métodos se subordina à dos espontânea a alcançar os objetivos esperados da educação. Sabemos
conteúdos: se o objetivo é privilegiar a aquisição do saber, e de um que as tendências espontâneas e naturais não são “naturais”, antes são
saber vinculado às realidades sociais, é preciso que os métodos tributárias das condições de vida e do meio. Não são suficientes o
favoreçam a correspondência dos conteúdos com os interesses dos amor, a aceitação, para que os filhos dos trabalhadores adquiram o
alunos, e que estes possam reconhecer nos conteúdos o auxilio ao seu desejo de estudar mais, de progredir: é necessária a intervenção do
esforço de compreensão da realidade,prática social). Assim, nem se professor para levar o aluno a acreditar nas suas possibilidades, a ir
trata dos métodos dogmáticos de transmissão do saber da pedagogia mais longe, a prolongar a experiência vivida.
tradicional, nem da sua substituição pela descoberta, investigação ou
livre expressão das opiniões, como se o saber pudesse ser inventado Pressupostos de aprendizagem – Por um esforço próprio, o
pela criança, na concepção da pedagogia renovada. aluno se reconhece nos conteúdos e modelos sociais apresentados
pelo professor; assim, pode ampliar sua própria experiência. O

Professor Pedagogo 80 A Opção Certa Para a Sua Realização
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conhecimento novo se apóia numa estrutura cognitiva já existente, ou o Pressupostos: Aprendizagem receptiva e mecânica, ocorre com a
professor provê a estrutura de que o aluno ainda não dispõe. O grau de coação. Considera que a capacidade de assimilação da criança é a
envolvimento na aprendizagem depende tanto da prontidão e mesma do adulto. Reforço em geral negativo as vezes maior.
disposição do aluno, quanto do professor e do contexto da sala de aula.
Prática Escolar: Comum em nossas escolas. Orientação
Aprender, dentro da visão da pedagogia dos conteúdos, é humanicética, clássica, científica, modelos de imitação.
desenvolver a capacidade de processar informações e lidar com os
estímulos do ambiente, organizando os dados disponíveis da
experiência. Em consequência, admite-se o princípio da aprendizagem TENDÊNCIA RENOVADA PROGRESSISTA
significativa que supõe, como passo inicial, verificar aquilo que o aluno Papel da Escola: Ordenar as necessidades individuais do meio
já sabe. O professor precisa saber (compreender) o que os alunos social. Experiências que devem satisfazer os interesses do aluno e as
dizem ou fazem, o aluno precisa compreender o que o professor exigências sociais. Interação entre estruturas cognitivas do indivíduo e
procura dizer-lhes. A transferência da aprendizagem se dá a partir do estruturas do ambiente.
momento da síntese, isto é, quando o aluno supera sua visão parcial e
confusa e adquire uma visão mais clara e unificadora. Conteúdos: Conteúdos estabelecidos em função de experiência
vivificada. Processos mentais e habilidades cognitivas. Aprender a
Resulta com clareza que o trabalho escolar precisa ser avaliado, aprender.
não como julgamento definitivo e dogmático do professor, mas como
uma comprovação para o aluno de seu progresso em direção a noções Métodos: Aprender fazendo. Trabalho em grupo. Método ativo: a)
mais sistematizadas. situação, experiência; b) desafiante, soluções provisórias; soluções à
prova.
Manifestações na prática escolar – O esforço de elaboração de
uma pedagogia “dos conteúdos” está em propor modelos de ensino Professor x Aluno: Professor sem lugar privilegiado. Auxiliados.
voltados para a interação conteúdos-realidades sociais; portanto, Disciplina como tomada de consciência. Indispensável bom
visando avançar em termos de uma articulação do político e do relacionamento entre professor e aluno.
pedagógico, aquele como extensão deste, ou seja, a educação “a Pressupostos: Estimulação da situação problema. Aprender é
serviço da transformação das relações de produção”. Ainda que em uma atividade de descoberta. Retido o que é descoberto pelo aluno.
curto prazo se espere do professor maior conhecimento dos conteúdos
Prática Escolar: Aplicação reduzida. Choque com a prática -
de sua matéria e o domínio de formas de transmissão, a fim de garantir
pedagogia.
maior competência técnica, sua contribuição “será tanto mais eficaz
quanto mais seja capaz de compreender os vínculos de sua prática
com a prática social global”, tendo em vista (...) “a democratização da
TENDÊNCIA LIBERAL RENOVADA NÃO-DIRETIVA
sociedade brasileira, o atendimento aos interesses das camadas
populares, a transformação estrutural da sociedade brasileira”. ( José Papel da Escola: Formação de atitudes. Preocupações com
Carlos Libâneo) problemas psicológicos. Clima favorável à mudança do indivíduo. Boa
educação, boa terapia (Rogers)

Conteúdos: Esta tendência põe nos processos de
ABORDAGEM RESUMIDA DAS TENDÊNCIAS E CONCEPÇÕES
desenvolvimento das relações e da comunicação se torna secundária a
PEDAGÓGICAS
transmissão de conteúdos.
TENDÊNCIA LIBERAL TRADICIONAL
Método: O esforço do professor é praticamente dobrado para
Papel da Escola: Consiste na preparação intelectual e moral dos facilitar a aprendizagem do aluno. Boa relação entre professor e aluno.
alunos, compromisso com a cultura, os menos capazes devem lutar
Professor x Aluno: A pedagogia não-diretiva propõe uma
para superar suas dificuldades e conquistar seu lugar junto aos mais
educação centrada. O professor é um especialista em relações
capazes.
humanas, toda a intervenção é ameaçadora.
Conteúdos de Ensino: Valores sociais acumulados pelos
Pressupostos: A motivação resulta do desejo de adequação
antepassados. As matérias preparam o aluno para a vida. Conteúdos
pessoal da auto-realização, aprender, portanto, é modificar suas
separados das realidades sociais.
próprias percepções, daí se aprende o que estiver significamente
Método: Exposição verbal da matéria, preparação do aluno, relacionados.
apresentação, associação, exercícios e repetições.
Prática Escolar: As ideias do psicólogo C. Rogers é influenciar o
Professor x Aluno: Predomina a autoridade do professor. O número expressivo de educadores, professores, orientadores,
professor transmite o conteúdo na forma absorvida. Disciplina rígida. psicólogos escolares.

Professor Pedagogo 81 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
TENDÊNCIA LIBERAL TECNICISTA Método: É na vivência grupal, na forma de auto-gestão que os
alunos buscarão encontrar as bases mais satisfatórias.
Papel da Escola: Funciona como modeladora do comportamento
humano, através de técnicas específicas, tal indivíduo que se integra na Professor x Aluno: Considera-se que desde o início a ineficácia e
máquina social. A escola atual assim, no aperfeiçoamento da ordem a nocividade de todos os métodos, embora sejam desiguais e
social vigente. diferentes.

Conteúdos: São as informações, princípios e leis, numa Pressupostos: Aprendizagem informal, relevância ao que tem uso
sequência lógica e psicológica por especialistas. O material instrucional prático. Tendência anti-autoritária. Crescer dentro da vivência grupal.
encontra-se sistematizado nos manuais, nos livros didáticos, etc...
Prática Escolar: Trabalhos não pedagógicos mas de crítica as
Métodos: Consistem o método de transmissão, recepção de instituições. Relevância do saber sistematizado.
informações. A tecnologia educacional é a aplicação sistemática de
princípios, utilizando um sistema mais abrangente.
TENDÊNCIA “CRÍTICA-SOCIAL DOS CONTEÚDOS”
Professor x Aluno: A comunicação professor x aluno tem um
sentido exclusivamente técnico, eficácia da transmissão e Papel da Escola: É a tarefa primordial. Conteúdos abstratos, mas
conhecimento. Debates, discussões são desnecessárias. vivos, concretos. A escola é a parte integrante de todo social, a função
é “uma atividade mediadora no seio da prática social e global”. Consiste
Pressupostos: As teorias de aprendizagem que fundamentam a
para o mundo adulto.
pedagogia tecnicista dizem que aprender é uma questão de
modificação do desempenho. Trata-se de um ensino diretivo. Conteúdos: São os conteúdos culturais universais que se
constituíram em domínios de conhecimento relativamente autônomos,
Prática Escolar: Remonta a 2a. metade dos anos 50 (Programa
não basta que eles sejam apenas ensinados, é preciso que se liguem
Brasileiro-Americano de Auxílio ao Ensino Elementar). É quando a
de forma indissociável.
orientação escolanovista cede lugar a tendência tecnicista pelo menos
no nível oficial. A Postura da Pedagogia dos Conteúdos: assume o saber como
tendo um conteúdo relativamente objetivo, mas ao mesmo tempo
“introduz” a possibilidade de uma reavaliação crítica frente a este
TENDÊNCIA PROGRESSISTA LIBERTADORA conteúdo.

Papel da Escola: Atuação não formal. Consciência da realidade Método: É preciso que os métodos favoreçam a correspondência
para transformação social. Questionar a realidade. Educação crítica. dos conteúdos com os interesses dos alunos.

Conteúdos: Geradores são extraídos da prática, da vida dos Professor x Aluno: Consiste no movimento das condições em que
educandos. Caráter político. professor e alunos possam colaborar para fazer progredir essas trocas.
O esforço de elaboração de uma pedagogia dos conteúdos está em
Método: Predomina o diálogo entre professor e aluno. O
propor ensinos voltados para a interação “conteúdos x realidades
professor é um animador que por princípio deve descer ao nível dos
sociais”.
alunos.
Pressupostos: O aluno se reconhece nos conteúdos e modelos
Professor x Aluno: Relação horizontal. Ambos são sujeitos do ato
sociais apresentados pelo professor. O conhecimento novo se apoia
do conhecimento. Sem relação de autoridade.
numa estrutura cognitiva já existente.
Pressupostos: Educação problematizadora. Educação se dá a
partir da codificação da situação problema. Conhecimento da realidade.
Processo de reflexão e crítica. CONCEPÇÕES E TEORIAS CURRICULARES.
Prática Escolar: A pedagogia libertadora tem como inspirador
ORGANIZAÇÃO CURRICULAR
Paulo Freire. Movimentos populares: sindicatos, formações teóricas
A BASE NACIONAL COMUM
indicam educação para adultos, muitos professores vêm tentando
colocar em prática todos os graus de ensino formal. É no contexto de Educação Básica que a lei 9394/96 determina a
construção do currículo, no ensino fundamental e médio, com uma base
nacional comum, a ser complementada, em cada sistema de ensino e
TENDÊNCIA PROGRESSISTA LIBERTÁRIA estabelecimento escolar, por uma parte diversificada, exigida pelas
características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia
Papel da Escola: Transformação na personalidade do aluno,
e da clientela ( art.26, da Lei 9394/96).
modificações institucionais à partir dos níveis subalternos.
A base nacional comum contém em si a dimensão de preparação
Conteúdos: Matérias são colocadas à disposição dos alunos,
para o prosseguimento de estudos e, como tal, deve caminhar no
mas não são cobradas. Vai do interesse de cada um.

Professor Pedagogo 82 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
sentido de que a construção de competências e habilidades básicas política, especialmente do Brasil” , “ o ensino da arte...de forma a
seja o objetivo do processo de aprendizagem e não o acúmulo de promover o desenvolvimento cultural dos alunos “ e, “a educação física,
esquemas resolutivos preestabelecidos. integrada a proposta pedagógica da escola”.

É importante operar com algoritmos na matemática ou na física, Quando a LDB destaca as diretrizes curriculares específicas do
mas o estudante precisa entender que, frente àquele algoritmo, está de ensino médio, ela se preocupa em apontar para um planejamento e
posse de uma sentença de linguagem, da linguagem matemática, com desenvolvimento do currículo de forma orgânica, superando a
seleção de léxico e com regras de articulação/relações que geram uma organização por disciplinas estanques e revigorando a integração e
significação e que, portanto, é a leitura e escrita da realidade de uma articulação dos conhecimentos num processo permanente de
situação desta. interdisciplinaridade e transdiciplinaridade. Essa proposta de
organicidade está contida no Art.36 .
A base nacional comum traz em si a dimensão de preparação
para o trabalho. Esta dimensão tem que apontar para que este mesmo Art.36...
algoritmo seja um instrumento na solução de um problema concreto,
I — destacará a educação tecnológica básica, a compre-
que pode dar conta da etapa de planejamento, gestão ou produção de
ensão do significado da ciência, das letras e das ar-
um bem. Aponta também que a linguagem verbal se presta à
tes; o processo histórico de transformação da socie-
compreensão ou expressão de um comando ou instrução clara, precisa,
dade e da cultura; a língua portuguesa como instru-
objetiva; que a Biologia lhe dá os fundamentos para a análise do
mento de comunicação, acesso ao conhecimento e
impacto ambiental, de uma solução tecnológica, ou para a prevenção
exercício da cidadania;
de uma doença profissional.
A organicidade dos conhecimentos fica mais evidente ainda,
Enfim, aponta que não há solução tecnológica sem uma base
quando o Art.36, da LDB, estabelece, em seu parágrafo 1º, as
científica e que, por outro lado, soluções tecnológicas podem propiciar
competências que o aluno , ao final do ensino médio deve demonstrar:
a produção de um novo conhecimento científico.
Art.36...
Esta educação geral que permite buscar informação, gerar
informação, usá-las para solucionar problemas concretos na produção § 1º — Os conteúdos, as metodologias e as formas de avali-
de bens ou na gestão e prestação de serviços, é preparação básica ação serão organizados de tal forma que ao final do
para o trabalho. Na verdade, qualquer competência requerida no ensino médio o educando demonstre:
exercício profissional, seja ela psicomotora, sócio-afetiva ou cognitiva é I — domínio dos princípios científicos e tecnológicos
um afinamento das competências básicas. Esta educação geral permite que presidem a produção moderna;
a construção de competências que se manifestarão em habilidades
básicas, técnicas ou de gestão. II — conhecimento das formas contemporâneas de lin-
guagem;
Ressalve-se que uma base curricular nacional organizada por
áreas de conhecimento não implica na desconsideração ou III — domínio dos conhecimentos de Filosofia e de Socio-
esvaziamento dos conteúdos, mas na seleção e na integração dos que logia necessários ao exercício da cidadania” .
são válidos para o desenvolvimento pessoal e para o incremento da
participação social.
A Lei 9394/96 ao estabelecer como fundamentais o domínio dos
Esta concepção curricular não elimina o ensino de conteúdos conhecimentos de Filosofia e de Sociologia não está propondo a
específicos, mas considera que os mesmos devem fazer parte de um inclusão destas ou de quaisquer outras disciplinas mas, indicando, a
processo global com várias dimensões articuladas. importância do desenvolvimento de “referências que permitam a
A base nacional comum destina-se ‘a formação geral do articulação entre os conhecimentos, a cultura, as linguagens e a
educando e deve assegurar que as finalidade propostas em lei, bem experiência dos alunos”. (Favaretto).
como o perfil de saída do educando sejam alcançados de forma a Segundo Favaretto” a Filosofia é antes de mais nada uma
caracterizar que a educação básica seja uma efetiva conquista de cada disciplina cultural, pois a formação que propicia diz respeito à
brasileiro. significação dos processos culturais e históricos” (Ver no documento de
Garantir o desenvolvimento de competências e habilidades Ciências Humanas e suas tecnologias ).
básicas comuns a todos os brasileiros é uma garantia de No que se refere à Sociologia trata-se de orientar o currículo no
democratização. A definição destas competências e habilidades servirá sentido de” contribuir para que o aluno desenvolva sua autonomia
de parâmetro para a avaliação da educação básica em nível nacional. intelectual, de forma a ser capaz de confrontar diferentes interpretações
O Art. 26 da LDB, determina a obrigatoriedade, nessa base e construir sua própria versão do mundo”. (Martins ; ver documento
nacional comum, de “ estudos da Língua portuguesa e da matemática, Ciências Humanas e suas tecnologias )
o conhecimento do mundo físico e natural e da realidade social e

Professor Pedagogo 83 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
O perfil de saída do aluno do ensino médio está diretamente A parte diversificada do currículo deve expressar, ademais das
relacionado às finalidades desse ensino, conforme determina o Art.35 incorporações dos sistemas de ensino, as prioridades estabelecidas no
da Lei: projeto da unidade escolar e a inserção do educando na construção do
seu currículo. Considerará as possibilidades de preparação básica para
Art.35 — O ensino médio, etapa final da educação básica...terá
o trabalho e o aprofundamento em uma disciplina ou uma área, sob
como finalidade:
forma de disciplinas, projetos ou módulos em consonância com os
I — a consolidação e aprofundamento dos conhecimen- interesse de alunos e da comunidade a que pertencem. O
tos adquiridos no ensino fundamental, possibilitando desenvolvimento da parte diversificada pode ocorrer no próprio
o prosseguimento de estudo; estabelecimento de ensino ou em outro estabelecimento conveniado. É
II — a preparação básica para o trabalho e a cidadania do importante esclarecer que o desenvolvimento da parte diversificada não
educando como pessoa humana, incluindo a forma- implica em profissionalização mas na diversificação de experiências
ção ética e o desenvolvimento da autonomia intelec- escolares com o objetivo de enriquecimento curricular ou mesmo,
tual e do pensamento crítico; aprofundamento de estudos quando o contexto assim exigir. O seu
objetivo principal é desenvolver e consolidar conhecimentos das áreas
III — a compreensão dos fundamentos científicos- de forma contextualizada e referidos a atividades das práticas sociais e
tecnológicos dos processos produtivos, relacionan- produtivas.
do a teoria com a prática, no ensino de cada discipli-
na.

É importante compreender que a base nacional comum não pode A PARTE DIVERSIFICADA E A EDUCAÇÃO PROFISSIONAL
constituir uma camisa de força que tolha a capacidade dos sistemas, A preparação geral para o trabalho decorre das diretrizes
dos estabelecimentos de ensino e do educando de usufruírem da estabelecidas, no Art.27, para os currículos de educação básica:
flexibilidade que a lei não só permite como estimula.
“Art. 27 — Os conteúdos curriculares da educação básica ob-
Essa flexibilidade deve ser assegurada, tanto na organização dos servarão , ainda, as seguintes diretrizes:
conteúdos mencionados em lei, quanto na metodologia a ser
I — ...
desenvolvida no processo ensino-aprendizagem e na avaliação.
II — ...
As considerações gerais sobre legislação indicam a necessidade
de construir novas alternativas de organização curricular III — orientação para o trabalho “
comprometidas, de um lado, com o novo significado do trabalho no
Na seção IV, do capítulo II da Lei nº9394/96, o Art.35 estabelece,
contexto da globalização e, do outro, com o sujeito ativo que se
dentre as finalidades do ensino médio.
apropriará desses conhecimentos para aprimorar-se, como tal, no
mundo do trabalho e na prática social. O fato destes Parâmetros “ Art.35...
Curriculares terem sido organizados em cada uma das áreas por I — ...
disciplinas potenciais não significa que estas são obrigatórias ou
mesmo recomendadas. O que é obrigatório pela LDB ou pela II — a preparação básica para o trabalho e a cidadania do
Resolução nº 03/98, são os conhecimentos que estas disciplinas educando, para continuar aprendendo, de modo a
recortam e as competências e habilidades a eles referidos e ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas
mencionados nos citados documentos. condições de ocupação ou aperfeiçoamento posteri-
ores,”
A PARTE DIVERSIFICADA DO CURRÍCULO
Essa preparação geral para o trabalho faz parte da formação
A parte diversificada do currículo , destina-se, a atender às geral do educando e pode ser desenvolvida no próprio estabelecimento
características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia de ensino ou em cooperação com instituições especializadas, conforme
e da clientela. (Art.26;Lei9394/96). Complementa a base nacional disposto no §4º, do Art.36, da Lei nº9394/96.
comum e será definida em cada sistema de ensino e estabelecimento
escolar. Numa interpretação do dispositivo legal, o Decreto nº2208, de 17
de abril de 1997, que trata da educação profissional, estabelece:
Do ponto de vista dos sistemas de ensino está representada pela
formulação de uma matriz curricular básica, que desenvolva a base “ Art.5º — A educação profissional de nível técnico terá organi-
nacional comum, considerando as demandas regionais do ponto de zação curricular própria e independente do ensino
vista sócio-cultural, econômico e político. Deve refletir uma concepção médio.
curricular que oriente o ensino médio no seu sistema, significando-o, Parágrafo único. As disciplinas de caráter profissio-
sem impedir, entretanto, a flexibilidade da manifestação dos projetos nalizante, cursadas na parte diversificada do currícu-
curriculares das escolas. lo de ensino médio, até o limite de 25% do total da

Professor Pedagogo 84 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
carga horária mínima deste nível de ensino, poderão No entanto, vale ressaltar que, para o êxito dessa abordagem, o
ser aproveitadas no currículo de habilitação profissi- educador precisa desenvolver competências para:
onal, que eventualmente venha a ser cursada inde-
• a análise sensível sobre aluno no contexto da Escola Públi-
pendentemente de exames específicos”
ca
Dois aspectos podem ser ressaltados no texto citado:
• elaboração do Projeto Pedagógico;
• a parte diversificada a cargo do estabelecimento de ensino
• organização do Trabalho Pedagógico por temáticas de in-
pode constituir até 25% do mínimo estabelecido na Lei nº
vestigação.
9394/96 para duração do ensino médio, logo 600 horas do
currículo; A organização do currículo reflete um conjunto de ideias e
valores que norteiam o trabalho docente, influenciando as relações na
• as 600 horas podem conter disciplinas de caráter profissio-
sala de aula. Professor e aluno tornam-se aliados no processo de
nalizante as quais podem ser aproveitadas quando o edu-
mediação com o conhecimento novo e interação com a realidade. Logo,
cando optar por um curso técnico.
pode-se afirmar que o currículo é o resultado dinâmico de múltiplas
Esta questão é reiterada, no artigo 13, da Resolução do inserções dos sujeitos no mundo que o cerca e que consiste em algo
Conselho Nacional de Educação Básica quando se indica que: “ mais amplo, significativo e consistente do que a grade curricular.
estudos concluídos no ensino médio, tanto da base nacional comum
Considerando que os PCN ressaltam o processo de ensino como
quanto da parte diversificada, poderão ser aproveitados para a
articulador das capacidades de ordem cognitiva, física, afetiva, de
obtenção de uma habilitação profissional, em cursos realizadas
relação interpessoal e inserção social, ética e estética, tendo em vista
concomitante ou sequencialmente, até o limite de 25% do tempo
uma formação ampla do educando, a construção do currículo, a partir
mínimo legalmente estabelecido como carga horária para o ensino
da abordagem construtivista de ensino, envolve a seleção de conteúdos
médio “(CNE Nº3, 26/06/98 ).
tanto conceituais e procedimentais como atitudinais, tomando para a
Estas são as questões consideradas centrais para a aprendizagem os conhecimentos prévios dos alunos como ponto de
compreensão da nova proposta curricular do ensino médio. partida. Mas, o grande diferencial é a abordagem que o professor vai
realizar, pois o estudo de determinado tema deve suscitar de forma
integrada a construção de conceitos novos, procedimentos, atitudes e
A ORGANIZAÇÃO DO CURRÍCULO POR ÁREAS DE valores, ou seja, cada situação didática gerará oportunidades para a
CONHECIMENTO organização de novos saberes sobre a realidade de forma consistente e
Os referenciais teóricos, adotados para orientar a construção contextualizada.
curricular nas escolas, abarcam uma compreensão de currículo que Desta forma, recomenda-se considerar na organização do
envolve: os resultados das experiências pedagógicas; as manifestações ensino:
culturais; as dinâmicas de organização e produção do conhecimento; as
• A capacidade cognitiva dos alunos;
relações teoria-prática, professor-aluno, conhecimento científico e
conhecimento assistemático, escola-sociedade, aluno-mundo do • As formas de representação utilizadas pelo grupo;
trabalho, construção do conhecimento-formação para a cidadania e sua
• Os dispositivos de comunicação desenvolvidos;
vivências afetivas. Assim, compreende-se o currículo como uma
elaboração coletiva com base nos interesses e possibilidades de • O desenvolvimento de capacidades para a resolução de
determinado grupo. Esta concepção, quando criticamente elaborada, problemas;
valoriza a participação dos “atores sociais” no processo de • As características culturais da comunidade onde está inse-
estruturações e mudanças na Escola, manifestando-se como um rida a escola;
momento de mediação nas relações geradoras de diferentes
representações sobre a realidade. • Os temas transversais nas relações de produção do co-
nhecimento:
Diante desses pressupostos, as redefinições curriculares revelam
a necessidade de incorporar os elementos teóricos oriundos das Ética, Saúde, Meio Ambiente, Orientação Sexual, Pluralidade
recentes discussões acerca do processo ensino-aprendizagem. Estes Cultural, Trabalho e Consumo.
enfatizam a importância da organização do trabalho pedagógico, Para sistematizar as questões e os temas relacionados ao lado,
articulando as contribuições das diversas Áreas do Conhecimento, a faz-se necessário articulá-los às áreas do conhecimento, destacando a
partir de uma abordagem interdisciplinar. Estes fundamentos apontam intenção de no trabalho escolar, integrá-los em projetos que valorizem a
para formas mais dinâmicas de trabalho pedagógico, privilegiando as Arte e a pluralidade cultural baiana como eixos transdisciplinares de
situações desafiadoras de construção do conhecimento, através da ação pedagógica. Por isso, as áreas do conhecimento, mesmo
resolução de problemas, da ênfase no lúdico e na investigação com os integradas no processo de investigação, precisam evidenciar sua
alunos, partindo de temas do seu cotidiano. singularidade com clareza, garantindo, na diversidade, a construção do

Professor Pedagogo 85 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
conhecimento como totalidade, rompendo com as abordagens que • associação, permitindo relacionar itens lexicais pertencen-
fracionam e desconsideram a unidade e a coesão dinâmica da relação tes a um mesmo campo semântico.
ensino-aprendizagem.
Já a coerência refere-se aos modos como os conceitos e as
relações subjacentes ao texto de superfície se unem numa
configuração reciprocamente acessível e relevante. Esta se efetiva
LÍNGUA PORTUGUESA
quando o texto apresenta uma conceituação compatível com o
A língua, entendida como um sistema de signos específicos, é o conhecimento de mundo de quem processa o discurso. Ela é
veículo de comunicação usado em situações naturais de interação e, responsável pelo sentido do texto e, para tal fim, depende do partilhar
portanto, se configura como uma atividade essencialmente social e que, de conhecimentos entre o produtor e o recebedor.
consequentemente, funciona como referência cultural e meio para a
O texto deve ser o ponto de partida para o estudo das quatro
construção de significados e apreensão e/ou representação do mundo.
competências linguísticas: ouvir, falar, ler e escrever (as quais serão
Por ser uma atividade social, que se relaciona intimamente à explicadas no item sobre as competências da Língua Portuguesa), uma
cultura do povo que a usa, reflete a diversidade e a variabilidade vez que o entendimento linguístico só é possível de forma
desses grupos sociais. Sendo assim, a língua não é homogênea, mas contextualizada, refletindo a situação interacional, que processa a fala
heterogênea e diversificada. Não há língua que seja um sistema uno, encadeada através de textos orais ou escritos.
invariável e rígido. Embora a língua seja constantemente definida como
um sistema e sua análise, em geral, opere sobre uma estrutura
determinada, sabe-se que isto é o resultado de uma abstração MATEMÁTICA
consciente, feita com o intuito de facilitar o domínio da estrutura
O progresso científico e tecnológico das sociedades tem como
linguística.
um dos fatores preponderantes o desenvolvimento da ciência
Quando o usuário de uma língua se expressa, ele elege um uso Matemática.
compatível com a comunidade na qual se insere, mas todas as
Os povos antigos, como os babilônicos, egípcios, hindus, dentre
diferentes normas da língua cumprem sua função social, portanto, são
outros, produziam a Matemática a partir das necessidades sociais
meios legítimos de expressão.
relacionadas, principalmente, ao cotidiano.
À escola cabe fazer com que o aluno perceba que ele convive
Na Grécia, a partir do século VI a.C., o conhecimento matemático
com uma pluralidade de normas autênticas, devendo, ainda, levá-lo a
começou a ser organizado, assumindo um caráter original, no sentido
se conscientizar da qual faz uso e que existe uma de maior prestígio
de que a sua criação não dependia, exclusivamente, da experiência
social. Esta percepção e conscientização deve ser orientada de forma
sensível das necessidades comuns do dia-a-dia, e sim por razões
que não se construa nenhum tipo de preconceito linguístico, para que a
intelectuais de natureza abstrata.
língua se efetive enquanto mecanismo de socialização do
conhecimento e da cultura de um povo. A partir de Galileu, no século XVII, ela ganha prestígio e passa a
ser ferramenta essencial para a compreensão do universo. As
No processo sócio-interativo, os signos linguísticos formam o
características de exatidão, rigor lógico, complexidade e linearidade
texto, o qual pode ser definido como uma unidade linguística
foram, durante muito tempo, a tônica dos discursos desta área.
significativa, oral ou escrita, e de extensão variada, baseada em
relações de coesão e coerência e que cumpre uma função interacional. Como ciência, era considerada pronta, infalível, perfeita. Uma
ciência hermética a ser desvendada. No entanto, atualmente, esse
A coesão, entendida como um conceito semântico que se refere
discurso vem sendo modificado e, embora ela assuma um caráter
aos modos como os componentes do universo textual estão ligados
abstrato e axiomático, consequência do modelo lógico-dedutivo, tem-se
entre si dentro de uma sequência, é responsável pela unidade formal
tornado uma área do conhecimento cada vez mais aplicada, uma
do texto e se constrói através de mecanismos gramaticais e lexicais.
linguagem aceita universalmente.
De acordo com Costa Val (1994), os mecanismos gramaticais
A Matemática sempre foi utilizada, por razões históricas e
englobam, entre outros, os artigos, a concordância, as conjunções e os
filosóficas, como medida de desempenho cognitivo, estando o seu
tempos verbais, estabelecendo relações não só dentro da frase, mas
ensino inclinado à formação de elites intelectuais com caráter
entre as frases de um texto também.
notadamente autoritário, o que, de certo modo, ainda perdura até os
Os lexicais se referem a processos como a: dias atuais.

• substituição de determinadas palavras por sinônimos, an- Uma nova concepção desta área surge na década de 60, através
tônimos ou até mesmo por outros itens lexicais que repre- dos estudos de Imre Lakatos: a Matemática como processo, como
sentem o todo ou uma parte do termo substituído; construção, integrada às atividades humanas.

• reiteração, que diz respeito à repetição de determinadas Zuringa, no seu discurso de abertura da XII CIAME1 (1991), em
palavras ou à retomada por cognatos; Miami, ressalta este pensamento com muita propriedade:
Professor Pedagogo 86 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
...A natureza das matemáticas está mudando, tem-se indícios principalmente duas. Primeiro, a seleção e o tratamento de temas -
disto. A cada dia, mais pessoas questionam o modelo de Matemática como por exemplo “ambiente” ou “água” - sob o enfoque dos diferentes
infalível, absoluta, distanciada da intuição empírica e da realidade campos do conhecimento científico. Segundo, a estruturação dos
terrena que tem dominado até agora. Cada vez mais, se percebe conteúdos da área segundo conceitos reconhecidos no conjunto do
melhor a íntima relação entre a Matemática e a sociedade. conhecimento científico como de interesse geral, tais como
“transformação”, “energia”, “matéria”, “sistema”, “tempo” e “espaço”.
Portanto, os novos paradigmas de ciência e, particularmente, de
matemática estão sendo concebidos para superar a forma de (Brasil, MEC, 1996)
caracterizá-la assim como o seu modo de construção e a sua suposta
Desta forma, pode-se ter uma organização curricular integrando
neutralidade.
ciência-tecnologia-sociedade, em que sejam abordados temas como: a
Embora não se pretenda explicitar o longo caminho percorrido Ciência enquanto instituição, conhecimentos básicos por ela
pela humanidade na produção deste conhecimento, são visíveis e parte produzidos, seus produtos tecnológicos e formas de utilização, o
deste processo dinâmico as contradições, os erros e as crises, as quais processo de produção científica e suas implicações junto à humanidade
sempre foram marcantes nessa tarefa, justificados perfeitamente pela e ao meio ambiente.
ação de falibilidade do homem.

GEOGRAFIA
CIÊNCIAS
Denomina-se Geografia o estudo das dinâmicas da sociedade a
No contexto do Ensino Fundamental, para se considerar a partir da sua dimensão espacial. Assim, entende-se que o objeto de
construção da identidade pessoal do homem enquanto sujeito histórico investigação desta área de conhecimento é o espaço geográfico.
e social e a questão da cultura local e de outras sociedades, é
indispensável pensar na formação do cidadão crítico que tenha um A palavra “espaço” é de uso corrente, sendo utilizada tanto no
mínimo de compreensão do saber científico. dia-a-dia como nas diversas ciências, como a Astronomia (espaço
sideral), a Economia (espaço econômico), a Matemática (espaço
Desde cedo, a criança começa a perceber-se e a perceber que topológico), a Psicologia (espaço pessoal). No entanto, o que dá
há outras pessoas à sua volta – a família, vizinhança, comunidade... há especificidade geográfica à palavra “espaço” é justamente sua
outros seres vivos no meio ambiente – plantas e animais pequenos, manifestação física, sua materialidade: o espaço físico das cidades, dos
médios e grandes, engraçados e estranhos... há terra, água, fogo e ar... campos, das estradas, dos furacões, da pobreza, da riqueza, da
há dias e noites, claro e escuro, o sol, a lua, as estrelas ... o tempo, às poluição, da natureza etc. Essa materialidade é resultante das relações
vezes, é quente, às vezes, frio... há chuva, praia, luz elétrica... há que se processam no interior das sociedades e entre essas e os
muitas coisas da natureza e outras que são feitas pelo homem – casas, demais elementos da natureza.
jardins, parques, barracas, roupas, sapatos, brinquedos, carros,
máquinas etc. Entretanto, muito embora entenda-se que o espaço geográfico
envolve a interação entre a sociedade e a natureza, os próprios
Assim, a sociedade incorpora de tal forma a ciência e a geógrafos têm diferentes formas de ver o espaço e essa relação.
tecnologia que é impossível a compreensão do mundo sem conhecê- Assim, muitas vezes, a expressão espaço geográfico aparece ora
las. associada a uma porção específica da Terra identificada pela natureza
Nos últimos anos, devido à necessidade de levar em conta as (a vertente que privilegia os aspectos físicos), ora pelo modo particular
diferentes classes sociais, a relação escola-sociedade e a problemática como o homem ali imprimiu as suas marcas (a vertente que privilegia
de preservação do meio ambiente, o ensino das Ciências precisou os aspectos sociais e econômicos.), como referência à simples
associar questões de natureza científica, tecnológica, ambiental, de localização.
identidade do ser humano, de cidadania e de cultura. Com isso, Nesta proposta, será adotada a vertente contemporânea, que
emergiu uma redefinição dos seus objetivos, conteúdos e formas de entende que o espaço geográfico é produto histórico, econômico,
trabalho, no intuito de responder às novas características da sociedade social, mas sobretudo cultural de uma sociedade, ou seja, as
moderna e à consequente função que a escola deve desempenhar sociedades, através de suas relações de trabalho, transformam a
nesta sociedade. Assim, o ensino de Ciências configura-se como uma natureza (transformando-se também), resultando na produção de um
compreensão da realidade, desde os limites do cotidiano dos espaço (o espaço geográfico). Esse espaço incorpora e reflete, a partir
estudantes até a totalidade do ambiente terrestre. de sua paisagem (porção visível), a história, a cultura, as contradições
Neste novo contexto, a produção de programas pela justaposição sociais, a forma como os diferentes grupos sociais se relacionam com a
de conteúdos de biologia, física, química e geo-ciências começa a ser natureza.
questionada e é proposto um ensino que integre os diferentes A análise das dinâmicas que constroem, organizam e
conteúdos buscando-se um caráter interdisciplinar, o que tem reorganizam esse espaço constitui o campo de investigação de
representado importante desafio para a didática da área. As propostas geógrafos e professores vinculados à área.
curriculares, encaminhando soluções para este desafio, são
Professor Pedagogo 87 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
HISTÓRIA Afinal, há situações, valores e comportamentos que permanecem ou se
modificam com velocidades distintas. Nos Parâmetros Curriculares
O termo “história” compreende três dimensões:
Nacionais, especial atenção foi reservada a esta discussão, pois
• a trajetória humana;
...não basta ensinar ao aluno como dominar o calendário e
• um campo de investigação; memorizar as datas e personagens históricos, acreditando-se que,
• um saber escolar. assim, serão capazes de julgar os acontecimentos numa lógica
temporal e de contextualizá-los historicamente através da relação entre
A TRAJETÓRIA HUMANA eventos...1
Denomina-se História a trajetória dos homens nas sociedades. O conceito de fato histórico é referencial para a seleção e
Deste modo, todas as ações, valores, costumes e instituições organização de conteúdos e atividades didáticas. Atualmente, admite-
construídas pelos homens são históricas e não apenas aquelas se como fatos históricos todos os acontecimentos ocorridos em uma
registradas através da linguagem escrita, mas também as expressas sociedade. Nesta concepção, ampliaram-se as possibilidades de
oralmente, por gestos, músicas e demais formas de representação. discussão histórica, visto que desde manifestações culturais, modos de
Desconsideram-se, assim, a demarcação entre pré-história e história e trabalhar, diversão, deliberações político - institucionais, até estruturas
a exclusão das sociedades que instituem expressões diferentes familiares, relações de gênero2 e assim por diante são passíveis de
daquelas mais presentes no mundo ocidental. serem contemplados nos currículos de Histórica do ensino fundamental.
CAMPO DE INVESTIGAÇÃO O intuito é de inclusão da História das pessoas comuns nas salas de
aula.
As análises desta trajetória constituem o campo de investigação
de pesquisadores e professores vinculados à área. Vale salientar que
tais profissionais não recuperam, não reconstituem o passado, e sim o LÍNGUA ESTRANGEIRA
interpretam a partir de fontes históricas: os registros deixados pelos
homens ao longo do tempo. Ensinar uma língua estrangeira implica, primordialmente, em
compreender o que é linguagem, a partir dos conhecimentos
SABER ESCOLAR necessários para a utilização da língua estrangeira e do uso desses
Também denomina-se História o conhecimento produzido no mesmos conhecimentos para a construção de significados no mundo
espaço escolar a partir das interpretações sobre a trajetória humana e globalizado.
das experiências vivenciadas por professores e alunos. Como saber O uso da linguagem é, marcantemente, determinado pela sua
escolar, o conhecimento histórico equaciona as considerações obtidas natureza sócio-interacional, uma vez que quem a usa considera as
a partir de pesquisas sistemáticas e vivências cotidianas próprias ao pessoas envolvidas no processo de interação, atuando no mundo social
grupo social, à região e às culturas locais. em um determinado momento e espaço.
A investigação e o ensino-aprendizagem da História pressupõem Para que essa sócio-interação seja efetivada, faz-se necessária
a compreensão do que vem a ser sujeito, tempo e fato histórico. a utilização de três tipos de conhecimento:
Denominam-se sujeitos históricos aqueles que promovem as • sistêmico;
mudanças e marcam as permanências próprias à dinâmica histórica.
Na historiografia contemporânea, os protagonistas da história são os • de mundo;
indivíduos, grupos sociais, classes e nações que definem com ações e • da organização textual.
concepções as suas trajetórias no mundo. Neste sentido, reconhece-se
O conhecimento sistêmico, que envolve os níveis da organização
que o curso da História não é definido apenas pelas deliberações de
linguística (léxico-semânticos, morfológicos, sintáticos e fonéticos-
dirigentes políticos e/ou grupos econômicos, mas também pelas
fonológicos), permite que escolhas gramaticalmente adequadas sejam
pessoas comuns. Logo, o ensino-aprendizagem da História permite ao
feitas toda vez que algum enunciado for produzido.
educando reconhecer que cabe a ele reafirmar ou transformar a sua
realidade. O de mundo, organizado na memória em blocos de informação,
refere-se ao conhecimento convencional que as pessoas têm sobre as
A organização dos programas curriculares de História geralmente
coisas, variando de indivíduo para indivíduo, já que reflete as
é orientada por uma concepção de tempo meramente cronológica. Os
experiências e vivências de cada um.
acontecimentos são dispostos numa sequência de dias, anos e séculos.
Na organização dos conteúdos, apenas leva-se em conta a Finalmente, o da organização textual engloba as diversas
proximidade cronológica com o presente. Entretanto, a dinâmica maneiras particulares que as pessoas usam, durante um processo
histórica é percebida através de permanências e mudanças. É preciso intera-cional, para organizar a informação em textos orais e escritos,
considerar a existência de durações temporais diferentes, percebendo a pois cada língua apresenta uma estruturação linguística que lhe é
multiplicidade do tempo histórico, que escapa à mera cronologia. peculiar, fazendo-se necessário que os usuários e/ou aprendizes da

Professor Pedagogo 88 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
língua estrangeira percebam essa sistematização e utilizem em seus Quando ocorre da língua estrangeira ter seu lugar assegurado,
discursos orais ou escritos, tornando-os naturais. na grande maioria das vezes, valoriza-se apenas a habilidade de
compreensão escrita e/ou entendimento gramatical, não refletindo as
A aprendizagem de Língua Estrangeira pode ser considerada um
reais necessidades dos alunos, nem mesmo uma concepção explícita
caminho para a tomada de consciência do aluno como ser humano e
da natureza da linguagem e do processo de ensino e aprendizagem de
cidadão. Desta forma, esta deve concentrar-se na capacidade de
línguas.
interrelacionar o alunado no discurso de forma sócio-interacional; mas
para que isto aconteça, é importante que o seu ensino esteja baseado Um outro problema verificado é que a maioria das propostas
na função social desse conhecimento em nossa sociedade. situam-se na abordagem comunicativa de ensino de línguas, mas, em
realidade, o que se percebe é que os exercícios propostos exploram
O envolvimento do aluno no uso de uma língua estrangeira
pontos ou estruturas gramaticais descontextualizados. O que
certamente o ajuda a entender os fatores sociais que caracterizam a
predomina é um ensino tecnicista, que visa apenas a repetição de
vida de outras pessoas nas sociedades em que a língua estrangeira é
determinadas expressões.
utilizada, permitindo aprender mais sobre si mesmo e sobre um mundo
plural, caracterizado, de forma marcante, por valores culturais variados, Além disso, o processo de ensino e aprendizagem de Língua
bem como por diferentes formas de organização política e social, Estrangeira enfrenta uma série de circunstâncias difíceis, como a falta
ampliando, desta maneira, o seu conhecimento de mundo. Isto pode de materiais adequados para a realização das atividades propostas e o
ser justificado pelo fato de que, para se aprender e entender uma número reduzido de aulas por semana, que impossibilita um
língua, é preciso buscar os aspectos sociais, políticos, econômicos e encaminhamento apropriado dos conteúdos e exercícios a serem
culturais das sociedades onde esta é utilizada. desenvolvidos.

Diante do exposto, é possível perceber que a aprendizagem De acordo com os PCN, historicamente, o ensino de Língua
desta vai além da aquisição de um conjunto de habilidades linguísticas, Estrangeira sempre esteve atrelado à busca do método ideal, o qual era
contribuindo, também, para a formação de uma nova percepção de visto como um modelo pronto e definitivo, mas cada um era descartado
linguagem, através da compreensão do funcionamento da língua sucessivamente para dar lugar a algum outro mais atraente, à medida
estrangeira, assim como da própria língua materna, além de que eram apresentados novos métodos. Apenas no fim da década de
desenvolver a percepção da própria cultura por meio da compreensão 80 é que estes métodos (audiolingual, audiovisual, gramática e
da cultura estrangeira. tradução etc.) passaram a ser criticados e questionados, já que se
apresentavam como uma mera prescrição de expressões e estruturas
A aprendizagem de Língua Estrangeira pode, ainda,
gramaticais e/ou idiomáticas, totalmente descontextualizadas e,
desempenhar uma função interdisciplinar, através da sua relação com
portanto, não demonstrando ao alunado a sua real funcionalidade para
outras áreas de conhecimento, principalmente História, Geografia e
o seu desenvolvimento sócio-cultural.
Arte. Como para se aprender uma língua estrangeira é necessário
entender os aspectos sociais, políticos, econômicos e culturais das
sociedades onde é utilizada, torna-se importante uma compreensão
ARTES –DANÇA
mútua entre estas disciplinas, cujo papel construtivo para a educação
formal envolve um complexo processo de reflexão sobre a realidade. O É notório que a dança, está arraigada em diversas manifestações
conhecimento artístico deve permear todo o processo de ensino da culturais. Pode-se perceber essa efervescência da dança na sociedade:
língua, pois constitui fonte de referência para o entendimento de nos atos religiosos, nas festas populares, nas tradições, na educação,
diversas culturas, ajudando, assim, a compreender a cultura e, na mídia e na própria produção artística, dentre outros.
consequentemente, a função social da língua estrangeira que está Essa faceta da identidade cultural baiana tem contribuído para
sendo aprendida e/ou utilizada. que a dança esteja presente em diversos projetos artísticos-educativos
Embora a aprendizagem de uma língua estrangeira seja um espalhados pela cidade, além de já fazer parte do corpo curricular de
direito de todo cidadão, conforme expresso na Lei de Diretrizes e Bases diversas escolas.
da Educação Nacional (Lei no 9.394), § 5o do art. 26, seção I, capítulo Mesmo com todas essas particularidades encontradas, a dança,
II: em muitas das experiências realizadas nas escolas, não conseguiu
Na parte diversificada do currículo será incluído, ainda interagir de uma forma satisfatória com o currículo, bem como,
obrigatoriamente, a partir da quinta série, o ensino de pelo menos uma muitas vezes, esteve presa a velhos modelos pedagógicos que
língua estrangeira moderna, cuja escolha ficará a cargo da comunidade desvincularam o aluno de sua realidade cultural e social.
escolar, dentro das possibilidades da instituição. De um modo geral, a dança, no âmbito escolar, por força da
O que se observa, usualmente, é que essa área de antiga LDB, foi considerada durante muitos anos como uma atividade
conhecimento vem sendo ministrada, em algumas regiões, em apenas extracurricular e configurou-se, na maioria das vezes, como oficinas
uma ou duas séries do ensino fundamental e, em outras, é vista como que se distanciaram das demais áreas de conhecimento. Em adição,
uma simples atividade, não tendo caráter de promoção ou reprovação. por falta de uma definição do seu papel na escola, as práticas corporais

Professor Pedagogo 89 A Opção Certa Para a Sua Realização
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presentes nas aulas de dança acabaram direcionando-se às visões cultural, sendo o corpo e a dança utilizados como um veículo para a
mecanicistas do movimento, enfatizando a performance em dança e/ou venda de produtos.
a um fazer espontaneísta, centrando-se no processo criativo.
Outro dado importante é que, com as características da
Hoje, as práticas pedagógicas em dança estão sendo sociedade contemporânea e as mudanças estabelecidas na díade
repensadas para que a sua inserção efetiva nas escolas atenda à espaço e tempo, o homem começa a experimentar, por meio das novas
diversidade cultural dos alunos e contribua para a construção de uma tecnologias, outras relações com o seu corpo e com a dança: tem-se a
sociedade democrática. possibilidade de criar danças e ‘dançar’ sem o corpo físico através da
realidade virtual ou, então, pode-se assistir a um espetáculo de dança
Com a incorporação da arte como componente curricular (lei
sem precisar deslocar-se para o local onde ela está sendo realizada.
9.394/96), faz-se necessário que o ensino da dança seja
redimensionado em relação ao seus objetivos, conteúdos e Toda essa variedade de concepções da dança relaciona-se com
metodologias, para que atenda às demandas do aluno, do projeto da padrões estéticos de grupos e épocas e apresenta diferentes ideias de
escola e esteja sintonizado com as transformações da sociedade. corpo, de dança, de identidades sociais e de sociedade.
Desse modo, a escola pode desempenhar papel importante na
Como apontam os PCN, para que a dança seja abordada numa
educação dos corpos e do processo interpretativo e criativo de dança,
perspectiva crítica, articulando as relações entre corpo, cultura e
pois dará aos alunos subsídios para melhor compreender, desvelar,
sociedade, não é qualquer pressuposto teórico-filosófico, metodologia
desconstruir, revelar e, se for o caso, transformar as relações que se
ou conteúdo de dança que irá possibilitar estabelecer tal relação.
estabelecem entre corpo, dança e sociedade (Brasil, 1998, p. 70).
Neste documento da SMEC, considera-se a dança como uma
Um importante aspecto a ser ressaltado no processo de ensino-
forma artística e estética de construção de conhecimento, com um
aprendizagem da dança refere-se à compreensão do corpo como
modo específico de manifestação da atividade criativa do ser humano
construto social.
pelo/com o movimento corporal em sua interação com o meio sócio-
Por meio da corporeidade, com os aspectos objetivos e cultural num dado momento histórico.
subjetivos de experiências, significados são construídos, interagindo em
Assim, o ensino da dança, no nível fundamental, abrange a
um determinado contexto social, cultural, político e econômico.
compreensão:
Assim, além das maneiras muito particulares que o corpo é
* das relações intra e interpessoais na construção da
vivenciado, pode-se observar que cada sociedade cria suas
corporeidade;
significações nas relações que estabelece com o corpo, como, por
exemplo, nas convenções sociais, nas representações, nas práticas * das relações estabelecidas entre a dança e a diversidade
corporais e nos ideais de corpos. cultural da cidade e suas conexões com outras culturas;

Pode-se dizer que a dança é um dos possíveis modos que se * do processo e do produto artístico e a experiência estética em
tem para vivenciar a corporeidade. Apesar da dança estar presente em dança;
diferentes instâncias da sociedade, apresentando uma variedade de * das diversas possibilidades de criação de significados que
conceitos e produções, quando fala-se de dança/cultura/educação, foram/são efetivadas na dança com/no corpo e pelo/com o movimento.
pode-se perceber que ainda persistem concepções fechadas sobre o
corpo que dança e onde é possível dançar. É a inter-relação desses aspectos que se torna importante
quando se fala da aprendizagem da dança na escola.
Nesse prisma, é necessário refletir sobre os padrões
hegemônicos presentes na dança, que apontam para concepções
estéticas e artísticas demarcadas e padrões ideais de corpos que ARTES –MÚSICA
podem dançar – seja em relação a gênero, raça, etnia ou mesmo
A música tem sido incluída nos diversos processos educacionais
habilidade física.
pelos mais variados motivos. Poderia ser feito um grande inventário
O contexto da dança, na cultura baiana, apresenta uma sobre todos os motivos que levaram a se incluir a música nos currículos
variedade de formas que vão desde as manifestações populares até as escolares ao longo da história, porém, o que parece ser mais
danças cênicas, do passado e do presente, e trazem, subjacente, importante, é que o espaço que a atividade musical poderá ocupar na
determinadas representações de corpo, estética e dança, que podem cultura escolar vai depender da compreensão que se tem da música e
ser re-significadas, mantidas ou escamoteadas, ao mesmo tempo em da importância que esta possui para a vida do cidadão.
que surgem novas concepções, fato este que pode ser percebido em
O antropólogo Alan Merrian tratou de identificar os usos e
diferentes estilos de dança.
funções da música em diferentes sociedades e sinalizou as que se
Por outro lado, não se deve ignorar que a dança, como as outras seguem: de expressão emocional, de prazer estético, de
artes, também vem sofrendo influência da massificação da indústria entretenimento, de comunicação, de representação simbólica, de
resposta corporal, de conformidade a normas sociais, de validação de

Professor Pedagogo 90 A Opção Certa Para a Sua Realização
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instituições e rituais religiosos, de continuidade e estabilidade da ARTES – TEATRO
cultura, de integração social. A separação entre essas diferentes
O homem é um animal que representa e por esta razão
funções não é tão nítida.
diferencia-se das outras espécies, criando o mundo da cultura, pois ele
Não é muito evidente a separação entre a função de pode representar o mundo para si e para seus pares. Tal característica
entretenimento e resposta corporal, por exemplo. Ao se entrevistar amplia-se e intensifica-se com o desenvolvimento dos ideais e a busca
alguns professores e estudantes da Rede Municipal de ensino, por novos horizontes. A ação do homem é multidirecional e o domínio
constatou-se que crianças, adolescentes e jovens identificam-se, das novas tecnologias, com a ênfase dada à teoria e à técnica no
plenamente, com a função social de divertimento, de comunicação, de mundo moderno, favorece, literalmente, a criação de um novo mundo
resposta corporal e prazer estético. Entre os professores, destacou-se a com leis e regras próprias, cujos elementos básicos só podem ser
função de expressão emocional. Todos trazem, no íntimo, sensações, apreendidos de forma muito específica.
sentimentos, diferentes vivências que são difíceis de serem ditas com
O teatro e a teoria vêm da mesma raiz etimológica, aquele
palavras comuns e que podem ser, facilmente, comunicadas através da
compreendido como espaço organizado em função do olhar e esta
música.
como o olhar à distância2. É assim que tanto o teatro como a teoria
Apesar dos professores da Rede Municipal identificarem-se com criam realidades virtuais. Sendo que a teoria cria uma realidade lógica,
a função de expressão emocional, o uso que a instituição escolar vem, controlada por informação matemática, e o teatro elabora uma
historicamente, fazendo da música no currículo escolar traduz-se em realidade lúdica, que cumpre seus maiores objetivos quando vivenciada
uma concepção instrumental. Isto significa que a música tem sido pelo corpo do aprendiz que experimenta participar dela com seu próprio
utilizada como meio para atingir outros fins e não pelos valores que ela ser.
possui em si mesma. As canções escolhidas para comemorar as datas
O teatro como referência da cultura e de expressão ocidental,
e eventos do calendário escolar e os hinos estão ligados à tradição de
difundido a partir do ideal grego de educação integral do homem ao
conformar as normas sociais, validar instituições e rituais religiosos. Ao
lado da ginástica, da filosofia, da política e da religião, pode ser
longo dos séculos, tem sido muito amplas as relações da música com o
compreendido como o espaço organizado em função da visão; a esta
currículo oculto.
característica os gregos antigos chamavam de Teathrom ou como o ato
Fazendo um passeio pela história, pode-se perceber que desde a de representar ao vivo, em frente a uma plateia, realidades humanas
civilização egípcia a música tem sido utilizada para a internalização de possíveis e modelares, capazes de gerar uma reflexão no espectador.
certos valores. Entre os gregos, Platão recomendava que os jovens
O teatro, como área do conhecimento estuda o desenvolvimento
deveriam cultivar apenas as músicas que desenvolvessem o
das potencialidades corporais e psíquicas capazes de fazer com que o
sentimento do homem valente e do homem sereno. Na Idade Média,
homem represente, ao vivo, para outros homens, ideias do seu tempo
música era sinônimo de devoção. No período da Reforma, as crianças
e de outros tempos, utilizando seu corpo, sua voz e seu gestual. O
cantavam hinos religiosos para a salvação de suas almas. No Brasil do
caráter específico do teatro manifesta-se na possibilidade de vivência
século XVI, a Companhia de Jesus traduziu para o Tupi o catecismo
lúdica e investigativa de outras realidades, abordando tais realidades do
católico e utilizava-o nos Autos Religiosos com o específico fim de
ponto de vista do indivíduo ou da coletividade, em consonância com
catequizar os indígenas. Este é o uso da música para a incorporação
várias esferas da existência humana como a cultura, a moral, a religião,
de valores morais e espirituais.
a política etc.
Da mesma forma, pode-se compreender as canções que
A observação como instrumento de aprendizagem e
introduzem as atividades escolares: canções para formar a fila, lavar as
aperfeiçoamento encontra-se na base tanto da ciência quanto da arte.
mãos, entre outras. Estas canções são, geralmente, repletas de
No caso específico da linguagem teatral, constitui-se num dos aspectos
diminutivos por acreditar-se que o “pequenininho” identifica-se com o
preponderantes para a apreensão dos meios necessários ao seu
mundo infantil. As crianças não cantam essas canções fora do espaço
domínio técnico, mesmo que em nível bastante superficial. Tomando
escolar. Em nenhum outro momento de sua vida a criança ouve essas
como exemplo algumas das teorias mais conhecidas e difundidas a
“musiquinhas de comando”. A professora Fuks (1993) sinaliza que esse
respeito do fenômeno teatral, é possível observar que de Aristóteles
repertório escolar tem sido utilizado muito mais para disciplinar do que
(século V a. c.) a Grotowsky (século XX), passando por Diderot,
para educar. A concepção instrumental da música na escola está em
Stanislawsky, Artaud, Craig ou Brecht, todos enfatizam a importância do
perfeita sintonia com o contexto social maior: música para adaptar, para
papel da observação no controle e na condução da expressão teatral.
moldar, para conformar os indivíduos às regras sociais. Esta concepção
corresponde a uma noção de adestramento, música como meio para se O teatro apresenta-se como o espaço onde o indivíduo pode
fixar outros conteúdos. Este uso é possível e tem sido fartamente expressar-se representando o mundo percebido. Por isso, o corpo,
explorado pela escola, porém distorce os valores artísticos e está muito como gerador da linguagem verbal e não-verbal, deve ser considerado
longe de entender a música como um dado de cultura. em sua historicidade e potencialidades para a construção de novos
significados. O teatro abre e amplia um espaço sem um topus, sem um
lugar específico, daí seu caráter utópico e a possibilidade de acontecer

Professor Pedagogo 91 A Opção Certa Para a Sua Realização
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em qualquer lugar convencionado para tal função. E tais possibilidades Pode-se considerar como expressões das Artes Visuais a
só tendem a ampliar-se, já que o teatro toma o corpo e a voz do homem pintura, a escultura, o desenho, a gravura, a cerâmica, a cestaria e o
como meios expressivos, aprimorando, tecnicamente, a ambos, para o entalhe, dentre outros. Atualmente, devido aos avanços tecnológicos e
primado da expressão, dando oportunidade de vivência lúdica de outros às transformações estéticas do século XX, além de todas as
estados corporais e, portanto, de estados de consciência. modalidades citadas, incluem-se ainda: fotografia, charge, quadrinhos,
cinema, televisão, produção de vídeo, computação gráfica,
Na contemporaneidade, sabe-se da importância do respeito ao
performance, holografia, desenho industrial, instalação e multimídia.
outro e pode-se destacar a importância da encenação teatral, que traz a
possibilidade do sujeito colocar-se no lugar do outro e/ou perceber, a Essas novas inclusões deixam perceber, rapidamente, que o
partir de ângulos diferentes, questões em torno de temas polêmicos domínio científico sobre os estímulos elétricos e magnéticos e suas
como gênero, raça, credo, cultura etc., potencia-lizando dispositivos de combinações trouxeram uma inovação de “materiais” não plásticos,
elaboração e expressão de um senso crítico através da criatividade e modalidade de conhecimento artístico visual que pode ser denominada
da imaginação. de luminosos, no caso dos que incluem luz, e cinéticos, no caso dos
que incluem movimento.
Considerando o teatro como forma de codificação lúdica de uma
das modalidades do “existir”, o “representar” ganha força a partir do Faz-se necessário esclarecer que os trabalhos luminosos e
momento que passa a ser validada como uma das formas de cinéticos, que podem ser percebidos pela visão, mas não podem ser
conhecimento à disposição do homem em relação a si mesmo e ao tocados pela mão, são chamados de virtuais. Portanto, algumas
mundo que o cerca. A criança, o adolescente e o adulto, compreendidos imagens luminosas, como: o cinema, a televisão, a holografia e a
como fases necessárias e peculiares da formação do homem computação, são artes virtuais.
contemporâneo, encontram, nesse conjunto de informações e práticas
O impacto evolutivo trazido pelas novas tecnologias remete-nos
milenares, elementos e estruturas propiciadores de uma rede de
às características da arte: a inovação e a transformação, que devem
relações extremamente rica e complexa que perpassa diversos planos
ser consideradas como aspectos inerentes à criatividade e ao fazer
e esferas da existência humana.
artístico, seja com objetos concretos, como a tinta, o papel, o barro, a
A Epistemologia Genética de Jean Piaget referenda a pedra etc., ou com objetos virtuais, como a energia elétrica (luz) e a
importância do “representar” para a formação do sujeito. No magnética (computadores).
desenvolvimento da criança, a capacidade de representação simbólica,
Nas Artes Visuais, é necessário desenvolver a educação visual
a partir de jogos e brincadeiras, é tomada como ponto de partida para a
numa perspectiva crítica. Nesse sentido, o desenvolvimento específico
exploração das potencialidades do ambiente, do gradativo controle dos
da percepção visual, que é o foco desta proposta, possibilita ao sujeito
gestos e atitudes do seu próprio corpo e da observação das atitudes e
conhecer, entender e compreender sua realidade.
gestos daqueles que a circunda. Já nos adolescentes e adultos, o jogo
teatral favorece a ampliação da capacidade de socialização, fazendo Educar o modo de ver e observar é importante para transformar
com que cada um compreenda o papel a ser cumprido, ou e ter consciência da participação no meio ambiente, na realidade
transformado, em função de suas necessidades e de seus ideais, cotidiana, contribuindo para potencializar diferentes formas de
ampliando as perspectivas de observação dos fatos da vida e gerando comunicação com o mundo.
autonomia, fator imprescindível para a formação da cidadania.

EDUCAÇÃO FÍSICA
ARTES VISUAIS A Educação Física vem apresentando mudanças significativas ao
A atual legislação educacional brasileira reconhece a importância longo da história. Estas mudanças são de ordem conceitual,
da Arte na formação e desenvolvimento de crianças e jovens, incluindo- organizativa e de percepção de seu objeto de estudo, refletindo as
a como componente curricular obrigatório da educação básica. A Arte características das relações entre o homem e a sociedade em
passa a vigorar como área de conhecimento constituída, basicamente, diferentes momentos e lugares, abrangendo as concepções de saúde,
por artes visuais, música, teatro e dança. estética e lazer. Por isso, esta área do conhecimento representou
diferentes papéis e adquiriu diferentes significados, conforme o
As artes visuais, anteriormente denominadas de Artes Plásticas,
momento histórico.
tem como uma de suas características no processo de percepção
exercer um apelo direto sobre os sentidos da visão e do tato. A Educação Física já foi considerada, exclusivamente, um meio
de preparar corpos fortes e saudáveis, prontos para a defesa da nação,
Hoje, com os diferentes modos de interação entre o sujeito e a
ou então, para bater novos recordes esportivos a partir dos mais
obra de arte, este cria significações, utilizando todos os seus canais
talentosos fisicamente, reduzindo-a a uma mera atividade, sem
perceptivos e deste modo, relaciona imagens retidas na memória, sons,
objetivos e conteúdos que justificassem sua permanência nos
odores, sensações táteis promovidas pelos outros sentidos no processo
currículos escolares.
de fruição da obra.

Professor Pedagogo 92 A Opção Certa Para a Sua Realização
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No Brasil, na década de 80, sob influência de autores como Vitor definia como uma das finalidades da escola primária “dar aos alunos
Marinho (1983) e João Paulo Medina (1983), o paradigma que norteava educação integral em que tenham preponderância, sobre a aquisição
essa área começou a ser questionado. A partir de então, tem-se a de conhecimentos de pura memória, a formação intelectual, moral e
preocupação com a elaboração de referenciais teórico-práticos, visando cívica” (p.45). No entanto, se é verdade que o interesse pelo
a fundamentação dos estudos em Educação Física. desenvolvimento de habilidades e competências nos alunos não é
algo recente, por outro lado é preciso reconhecer que o uso dessas
Esta área do conhecimento, até então tratada unicamente como
expressões nos debates atuais não consiste numa mera mudança de
atividade prática, incorpora os pressupostos teórico-filosóficos que
terminologia.
reconhecem seu caráter político, social e cultural, deixando de ter como
pilares básicos o higienismo1 e o militarismo2 , conforme cita Paulo A solicitação pelo desenvolvimento das habilidades e
Ghiraldelli (1988), que sempre serviram como elementos norteadores, competências nos alunos refere-se às novas exigências que o mundo
demonstrando, assim, que a crise serviu como estímulo para a busca social e o mundo do trabalho estão impondo à escola. Há algumas
da superação dessas concepções conservadoras. décadas, bastava que o ensino básico se comprometesse a ensinar a
ler e a escrever, alguns rudimentos de cálculo e noções da história e da
Neste contexto, a Educação Física aproxima-se das demais
geografia brasileiras, além de transmitir o sentimento de nacionalismo e
áreas do conhecimento, afirmando-se e reforçando a necessidade da
noções de higiene. Considerava-se que dessa forma seria possível
sua existência nos currículos, onde sua importância revela-se pela
formar um indivíduo preparado para o trabalho, a participação na
ruptura de um modelo que interpreta a relação entre corpo e sociedade
sociedade como cidadão e o desempenho do papel de pai ou de mãe.
apenas por um viés biológico, reconhecendo as dimensões
Atualmente, para dar conta dos mesmos objetivos, ou seja, exercício de
psicológicas, afetivas e cognitivas como fundamentais para a formação
uma profissão, participação social e familiar, tornou-se necessário
do sujeito enquanto ser humano inserido, ativamente, em um
desenvolver nos alunos outras capacidades. É preciso levar em conta
determinado contexto sócio-cultural.
que o mundo contemporâneo está exigindo dos indivíduos que sejam
Diante das demandas sociais da contemporaneidade e dos capazes de manter-se continuamente atualizados, de lidar com uma
novos paradigmas, a Educação Física tem delineado como seu campo quantidade imensa de conhecimentos e informações para compor e
de investigação a cultura corporal, que envolve as relações corpo- incrementar a sua própria formação, de estabelecer contatos e relações
sociedade, conferindo às discussões atuais outros pressupostos, internacionais, de ter uma atuação responsável diante das questões
dentre os quais destaca-se a possibilidade de intervenção na realidade sociais e ambientais etc. Daí a necessidade de se definir novas
social, através dos elementos da produção cultural. habilidades e competências a serem desenvolvidas na escola.
Entende-se por cultura os mecanismos simbólicos criados pelo Dentre os modelos educacionais que procuram alternativas para
ser humano, individual e coletivamente, que conferem sentido à sua atender a essas exigências, os mais difundidos internacionalmente são
vida e, desse modo, à cultura corporal, pois abarca diferentes práticas a reforma educativa espanhola, de 1990, que pela primeira vez
e modos de vivenciar o corpo. estabeleceu os “conteúdos transversais” e os princípios estabelecidos
pela “Comissão Internacional sobre a Educação para o Século 21” de
CURRÍCULO ORIENTADO PARA 1995, quais sejam: aprender a conhecer, aprender a fazer, aprender a
ACONSTRUÇÃO DE COMPETÊNCIAS conviver e aprender a ser.

Uma série de expressões, relativamente novas, povoam o
discurso pedagógico atual: parâmetros curriculares, temas transversais, A CONSTRUÇÃO DE COMPETÊNCIAS
interdisciplinaridade, educação inclusiva,entre outras. Este texto busca
Ao final do século e limiar de um novo milênio, a definição de
examinar o sentido da expressão habilidades e competências nos
uma política formativa exige ter presente que a formação do indivíduo
textos sobre educação.
tem tanto utilidade individual como coletiva, já que ela está a todo
Em primeiro lugar, é preciso verificar se a introdução destes momento estreitamente vinculada com e em função de peculiaridades
termos nos debates sobre o ensino corresponde a uma preocupação que exigem o delineamento de processos de desenvolvimento em geral
nova dos educadores ou se consiste apenas numa nova denominação e dos processos produtivos em particular. Se bem que a lista de
para algo pré-existente. formação parece manter-se inalterável, na atualidade se assiste a um
Parece que a ênfase na ideia de desenvolver nos alunos processo de redefinição e adaptação da formação profissional e técnica
habilidades e competências procura chamar atenção para a em função das profundas transformações do contexto econômico,
necessidade de o ensino escolar ser menos orientado para a social e produtivo.
assimilação de conteúdos e mais voltado para a aquisição de Os novos paradigmas do trabalho, levam o indivíduo a tomar
capacidades, que permitam ao indivíduo desenvolver-se plenamente. decisões, assumir responsabilidades pessoais ante situações
É possível demonstrar, no entanto, que esta preocupação não é imprevistas, assumir cargos de gestão, o que implica uma atitude que
nova. Já em 1933, o Código de Educação do Estado de São Paulo mobiliza fortemente a inteligência e a subjetividade da pessoa.

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Estas novas condições impõem a noção de competência, dado laborais que tem surgido como consequência das transformações no
que ela é inseparável da ação e sempre é colocada à prova na mundo produtivo e do trabalho.
resolução de problemas. Por sua vez, estas condições unem a
A formação por competências impele e exige uma estreita inter-
concepção de competência com a de empregabilidade.
relação entre os sistemas formativos e o setor produtivo; uma vez que
Em última análise, “a empregabilidade não é outra coisa senão a este tem a responsabilidade de colaborar e identificar as necessidades
capacidade de organizar os tipos de competências e qualificação que e as competências requeridas no indivíduo, e, paralelamente, permite
permitem às pessoas encontrar, criar, conservar, enriquecer, ..., seu identificar o desenvolvimento de outras competências necessárias para
posto de trabalho, ou passar de um a outro obtendo satisfação pessoal, as múltiplas funções e ocupações e ramos de atividade, facultando uma
econômica, social e profissional” (Ducci, M. A., 1.997). maior mobilidade dos trabalhadores e permitindo instrumentalizá-los
para o desenvolvimento do seu próprio programa ocupacional e
Paralelamente à empregabilidade, deve-se desenvolver no
formativo, podendo adaptar-se à heterogeneidade da organização
indivíduo o espírito de empreendedorismo, fomentando-lhe a criação de
produtiva e tecnológica dos países.
micro-empresas ou outros empreendimentos, para que ele possa
independentemente da existência de postos de trabalhos, concretizar e O que se quer dizer é que a função certificadora de
dar significado aos conhecimentos adquiridos ao longo da sua competências, até então exercida pelas agências formadoras, inclusive
formação, e até mesmo porque em diversos setores do sistema as Universidades, passa a ser desempenhada pelo mercado, que vai
produtivo/mercado de trabalho, há a necessidade de um certo espírito dizer que competências e que habilidades precisa para cada situação,
empreendedor. em que quantidade, e por quanto tempo.

Na atualidade se entende por competente a pessoa que possui Importante também ressaltar, é que não se pode mais esperar
um conjunto de competências, habilidades, conhecimentos e destrezas que os conhecimentos adquiridos durante a escolaridade básica e
e a capacidade de aplicá-las em uma variedade de contextos e profissional, sejam suficientes para o desempenho das funções dos
situações laborais. Supõe conhecimentos razoáveis, já que não há diversos postos de trabalho que hoje o indivíduo tem que passar ao
competência completa se os conhecimentos teóricos não são longo da sua vida, é cada vez mais necessário conceber a formação
acompanhados pelas qualidades e capacidades que permitam executar como um processo contínuo que tem lugar durante toda a carreira
as decisões que aquelas competências sugerem. laboral do indivíduo.

A preocupação pelo ganho e pela obtenção de resultados Em termos de educação, complementarmente à organização de
sempre se constituiu um objetivo da formação, porém hoje, o conceito cursos modulares previsto no Decreto 2.208/97, foi desenvolvida uma
de competências como significado de um novo paradigma, compreende nova concepção com enfoque principalmente na educação profissional,
o desenvolvimento de atitudes da pessoa, em que o indivíduo busca um porém, aplicada também ao ensino médio – o desenvolvimento de
enfoque integrador e coloca em ação desde o seu ser, o seu saber e o competências que promovam o desenvolvimento pessoal, qualifiquem o
seu saber fazer. jovem para o trabalho e para a vida em sociedade – competências que
são as mais necessárias para avançar com sucesso na vida cidadã e
Desta maneira, o conceito de competência passa a constituir-se
nos demais momentos da educação.
em uma ferramenta valiosa para a formação individual, porque permite
desenhar um currículo atendendo de uma melhor forma a complexidade A partir desta ótica, a escola deve pensar a implantação de
do mundo real. novos paradígmas e a superação de outros. Assim, tem-se:

Do ponto de vista pedagógico, trata-se de formar um cenário Paradigmas em superaçãoParadigmas em implantação ?
econômico e de trabalho incerto e para um novo paradigma produtivo e Professor: sabe, fala, explica, anima, pergunta, responde, cobra, ... ?
tecnológico. Do ponto de vista institucional, se faz necessário responder Aluno: passivo (não sabe), ouve, memoriza, pergunta (?), participa (?),
a uma nova concepção de formação, mais integral, que enfatize seu resolve reproduzindo, ...? foco nos conteúdos a serem ensinados; ?
caráter formativo e se inscreva em uma concepção ao longo de toda a currículo como fim, como conjunto regulamentado de disciplinas; ? alvo
vida, assim como a irupção de diversas regras organizativas e de do controle oficial: cumprimento do currículo. ? Professor: problematiza,
múltiplos atores que transformam a formação, cada vez de forma mais apresenta desafios, pergunta, indica possíveis percursos, estimula,
clara e notória, em um componente nodal das políticas ativas de orienta, assessora, informa, explica;? Aluno: ativo, age, vive o processo,
emprego. pensa, opera, resolve problemas; ? foco nas competências a serem
desenvolvidas, nos saberes (saber, saber-fazer e saber-ser) a serem
Assim, neste novo panorama emergente, a formação aparece
construídos; ? currículo como conjunto integrado e articulado de
revalorizada, assumindo um papel central e estratégico nos sistemas de
situações-meio, pedagogicamente concebidos e organizados para
relações laborais e, esta formação é definitivamente, uma atividade
promover aprendizagens profissionais significativas;? alvo do controle
fundamentalmente educativa, e, provavelmente, o maior desafio a ser
oficial: geração de competências gerais.
enfrentado pelas instituições formativas, é o de adequar e atualizar os
conteúdos curriculares e as certificações oferecidas aos novos perfís Segundo Berger Filho1 (1.998): “entende-se por competências os
esquemas mentais, ou seja, as ações e operações mentais de caráter

Professor Pedagogo 94 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
cognitivo, sócio-afetivo ou psicomotor que, mobilizadas e associadas a Pode-se dizer, portanto, que o processo de conhecer, comporta
saberes teóricos ou experiências, geram habilidades, ou seja, um saber um ciclo, pois a compreensão e a tomada de consciência dos
fazer”; instrumentos e das relações estabelecidas em um nível, influenciam o
fazer no nível seguinte. Desta forma, uma competência adquirida em
Ou ainda: “as modalidades estruturais da inteligência – ações e
um nível torna-se facilmente aplicável, como um saber fazer, no nível
operações - que o sujeito utiliza para estabelecer relações com e entre
seguinte, sem necessidade de maiores reflexões, dando origem,
objetos, situações, fenômenos e pessoas que deseja conhecer”.
portanto, às habilidades instrumentais.
Tem-se também: “capacidade de mobilizar, articular e colocar em
Construir um currículo por competências não pressupõe
ação, valores, conhecimentos e habilidades necessárias para o
abandonar a transmissão dos conhecimentos ou oportunizar a
desempenho eficaz e eficiente de atividades requeridas pela natureza
construção de novos conhecimentos, ao contrário, estes processos são
do trabalho”.
indissociáveis na construção dessas competências. A diferença que se
Portanto, o conhecimento em profundidade e a análise detalhada estabelece nesta proposição curricular é que o centro do currículo e,
das funções de produção, permitem especificar que competências portanto, da prática pedagógica será não a transmissão dos saberes,
devem ter sido construídas por um profissional para realizar uma mas o processo mesmo de construção, apropriação e mobilização
determinada atividade. destes saberes; a construção de competências depende de
Entretanto, estas competências, embora se refiram a esquemas conhecimentos em situação, significados.
mentais mais globais, devem ser contextualizadas em cada área As competências podem ser categorizadas em três níveis
profissional. distintos de ações e operações mentais, que se diferenciam pela
O referencial de competências deve ser instrumento permanente qualidade das relações entre o sujeito e o objeto de conhecimento:
de trabalho da escola e do professor, sendo entendido como uma 1 – Nivel básico: encontram-se as ações e operações que
linguagem comum e central do processo produtivo e não como uma possibilitam a apreensão das características e propriedades
lista abstrata que precisar estar no “plano de curso” e no “plano de aula” permanentes e simultâneas de objetos comparáveis, i.e., que propiciam
do cotidiano escolar. Ela deve ser o roteiro permanente para se definir a construção de conceitos.
os problemas que serão propostos pelos alunos, e o parâmetro para a
São consideradas competências de nível básico, por exemplo:
avaliação do processo pedagógico, pelo desempenho e pela análise do
trabalho. • observar, para levantar dados, descobrir informações nos
objetos, acontecimentos, ...;
A lógica da educação deve ser a mobilização para a construção
pelos alunos das competências e habilidades necessárias para a • identificar, reconhecer, indicar, apontar, dentre diversos ob-
atividade a ser desenvolvida. Este processo garante um aprender a jetos aquele que corresponde a um conceito ou descrição;
aprender e um aprender a fazer.
• localizar um objeto, descrevendo sua posição, ...;
Segundo ainda Berger Filho, já citado anteriormente, nas
• descrever objetos, situações, fenômenos, acontecimentos,
profissões em geral, os conhecimentos e competências do tipo geral e
etc. e interpretar as diferentes descrições correspondentes;
do tipo profissional, distribuem-se num mesmo “continuum”; a relação
entre elas é de concomitância, por um lado e de afinamento por • discriminar, estabelecer diferenciações entre objetos, situa-
contextualização por outro: os primeiros, de tipo geral, devem ser ções e fenômenos com diferentes níveis de semelhanças;
alcançados por todos os concluintes da educação básica, os segundos, • representar graficamente objetos, situações, sequências,
profissionais e específicos, são indispensáveis àqueles, que entre os ...;
concluintes da educação básica, escolheram a preparação para uma
área profissional específica. • representar quantidades, ...

Por outro lado, o processo de construção do conhecimento 2 – Nível operacional: encontram-se as ações coordenadas que
passa, necessariamente, pelo “saber fazer”, portanto, as habilidades pressupõem o estabelecimento de relações entre os objetos. Fazem
são o saber fazer relacionado com a prática do trabalho, transcendendo parte deste nível, os esquemas operatórios que se coordenam em
a mera ação motora, ou seja, as habilidades são atributos relacionados estruturas reversíveis. Estas competências, que em geral, atingem o
não apenas ao saber fazer, mas aos saberes (conhecimentos), ao nível da compreensão e a explicação, mais que o saber fazer, supõe
saber-ser (atitudes) e ao saber-agir (práticas no trabalho). Implicam, alguma tomada de consciência dos instrumentos e procedimentos
pois, dimensões variadas: cognitivas, motoras e atitudinais. utilizados, possibilitando a sua aplicação a outros contextos.

As habilidades, então, decorrem das competências adquiridas e Dentre estas competências podem-se distinguir:
referem-se ao plano imediato do saber fazer. Através das ações e • classificar, seriar, ordenar, conservar, compor e decompor,
operações, as habilidades aperfeiçoam-se e articulam-se, possibilitando fazer antecipações sobre resultados, calcular por estimati-
nova reorganização das competências. va, medir, interpretar, justificar...

Professor Pedagogo 95 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
Estes verbos (ou palavras) não são exclusivos para todas as 2 – Habilidades específicas: estão estreitamente relacionadas ao
possibilidades de representar as competências cognitivas de nível trabalho e dizem respeito aos saberes, saber-fazer e saber-ser exigidas
operacional, muitos outros podem ser empregados, sempre no sentido por postos, profissões ou trabalhos em uma ou mais áreas correlatas;
de traduzirem operações e se adaptarem ao conteúdo proposto.
3 – Habilidades de gestão: estão relacionadas às competências
3 — Nível global: encontram-se ações e operações complexas, de autogestão de empreendimento, de trabalho em equipes.
que envolvem a aplicação de conhecimentos a situações diferentes e à
No planejamento das habilidades, devem-se considerar as
resolução de problemas inéditos.
expectativas não apenas do mercado de trabalho, mas também as
Pertencem, geralmente ao nível global as seguintes expectativas e interesses do trabalhador.
competências:
De modo ideal, estas habilidades devem ser desenvolvidas de
• analisar, aplicar, avaliar (emitir julgamentos), criticar, anali- maneira integrada.
sar e julgar, explicar causas e efeitos, apresentar conclu-
A partir das competências e habilidades, constrói-se a matriz
sões, levantar suposições, fazer generalizações (indutivas),
curricular com as bases para os diferentes níveis de ensino e ciclos de
fazer generalizações (construtivas).
avaliação. As bases envolvidas na construção das competências e
É importante lembrar que não são as palavras ou os verbos habilidades são as seguintes:
empregados que determinam o nível das competências, mas o sentido
• Bases científicas: são conceitos e princípios das Ciências
da frase que indica a ação ou a operação a ser desenvolvida pelo
da Natureza, Matemática e das Ciências Humanas, presen-
aluno.
tes nas tecnologias e que fundamentam opões estéticas e
A educação básica deve oferecer as competências básicas como éticas das diferentes atividades profissionais.
elemento de preparação básica para o trabalho e a educação
A base científica privilegia os conhecimentos originários da
profissional deve oferecer as competências profissionais gerais para a
diversas teorias do conhecimento, estimulando o desenvolvimento do
trabalhabilidade/empregabilidade.
pensamento crítico e criativo, bem como facilitam a compreensão da
É importante também salientar que é casual a existência de três relatividade do saber e de sua construção como um processo
níveis de competências, uma vez que estes níveis podem estar indissociável da atividade prática. Tais conhecimentos tornam-se, pois,
presentes em todos os conteúdos e em todos os níveis de indispensáveis à assimilação dos conteúdos de ensino próprios da
escolaridade. bases tecnológica.

O agrupamento das competências específicas dá origem aos • Bases tecnológicas: é um conjunto sistematizado de con-
módulos de formação, que por sua vez podem ser também organizados ceitos, princípios e processos relativos a uma determinada
a partir de disciplinas. As competências, portanto, servem como área produtiva – de bens e serviços – resultante, em geral,
referência para a identificação, seleção de disciplinas e respectivos da aplicação de conhecimentos científicos.
conteúdos.
A base tecnológica será adquirida progressivamente, à medida
Em última instância se pode dizer que as competências em que o aluno for cursando disciplinas específicas da área de
contextualizam e dão significados aos conteúdos. conhecimento. Ela destina-se à integração dos conhecimentos
científicos às inovações advindas do mundo produtivo, das novas
As habilidades voltadas para a competência do trabalhador,
formas de organização do trabalho, enfim, da indústria e dos serviços.
devem buscar o “aprender a aprender” e o “aprender a pensar”, que
permite maior autonomia, maior capacidade de resolver problemas Neste sentido, enquanto a base científica caracteriza-se pela
novos, de adaptação às mudanças, de superação de conflitos, de amplitude do saber, sem que isso signifique uma superficialidade do
comunicação, de trabalho em equipe e decisão ética. conhecimento, a base tecnológica propicia a aplicação desse saber em
função de sua utilidade e eficácia prática.
Considerando que a competência é formada ao longo da vida do
indivíduo, exigindo um processo de educação contínua, as habilidades Não se trata, porém, de uma distinção reducionista dessas
devem seguir a mesma configuração. bases, mas sim do estabelecimento de funções que se complementam,
uma vez que a intersecção nelas existentes é a via formal por que se
As habilidades se configuram sob três aspectos:
busca a unidade teoria-prática.
1 – Habilidades básicas: podem ser entendidas em uma ampla
• Bases instrumentais: são as linguagens e códigos que
escala de atributos, que parte de habilidades mais essenciais, como
permitem uma “leitura” do mundo e comunicação com ele;
ler, interpretar, calcular, até chegar ao desenvolvimento de raciocínios
habilidades mentais, psicomotoras e de relações humanas,
mais elaborados;
gerais e básicas.

O aumento e a melhoria das oportunidades educacionais, o
desejo de inclusão e as exigências do mundo do trabalho e da cada vez
Professor Pedagogo 96 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
mais complexa vida pessoal e social do indivíduo, vêm se constituindo pelo outro, o terceiro processo tende a ocupar, exclusivamente espaços
nas principais causas da explosão de matrículas de que se observa no mentais pouco integradores, uma vez que não promove a integração
Brasil. destes conhecimentos à rede de significados já construídos, ampliando-
a. A garantia desta integração se fará pela mobilização de
Os níveis educacionais requeridos a homens e mulheres em todo
competências já construídas, por sua ampliação e pela construção de
o mundo, são cada vez mais altos, para que deem contas de
novas competências.
competências mais amplas que possibilitem sobreviver e conviver numa
sociedade que dispõe de uma grande quantidade de bens culturais e Portanto, deve-se pensar uma escola menos voltada para o
altos níveis de progresso material demandando uma aprendizagem interior do próprio ensino, diferente daquela em que cada objeto de
permanente para lidar com o contínuo crescimento da produção do ensino esteja referido apenas ao momento seguinte da escolarização.
conhecimento e sua consequente disponibilização e uso na vida Deve-se pensar em uma escola integradora, cuja referência esteja fora
cotidiana. de seus muros, em que a produção interna integre-se à produção da
prática social e ao desenvolvimento pessoal, que reconhece a
Segundo Berger Filho, os dois grandes desafios que temos são,
multiplicidade de agentes e fontes de informação e apropria-se deles
portanto:
integrando-os ao seu fazer, que tenha como centro da sua produção a
I. oferecer oportunidades para avançar além da educação construção das condições de busca, identificação, seleção, articulação
obrigatória, e e produção de conhecimentos para agir no e sobre o mundo; que
II. conceber um desenho para o ensino que garanta a todos integre os tempos, apropriando-se do passado para articular o futuro no
as condições básicas para inserção no mundo do trabalho. presente.

O autor acima continua: a definição do modelo de ensino de que A construção destes esquemas de mobilização dos
necessitamos para os próximos anos deve estar assentada sobre três conhecimentos, das emoções e do fazer, é a construção de
eixos básicos: a flexibilidade para atender a diferentes pessoas e competências.
situações e às mudanças permanentes que caracterizam o mundo da Construir um projeto pedagógico que assuma um currículo por
sociedade da informação; a diversidade que garante a atenção às competências, pressupõe a centralidade do aluno, e portanto, da
necessidades de diferentes grupos em diferentes espaços e situações, aprendizagem. Isto implica em uma mudança do papel da escola e,
e a contextualização que, garantindo uma base comum, diversifique os consequentemente, do professor, cujo objetivo é fazer aprender e não
trajetos e permite a constituição dos significados, dê sentido à ensinar; mas também, de um novo ofício do aluno, que precisa ser o
aprendizagem e ao aprendido. agente inegociável da aprendizagem.
Para se pensar um ensino que responda a estas necessidades, Neste sentido, a escola atual, deve propor não apenas a
que eduque para a autonomia e para uma aprendizagem permanente e ministrar o ensino técnico, ou melhor, tecnológico, mas, sobretudo gerar
cotidiana, faz-se necessário pensarmos o papel da aquisição dos conhecimentos científicos e tecnológicos, tendo em vista o
saberes socialmente construídos e dos esquemas de mobilização deste desenvolvimento de competências e habilidades técnico-profissionais
saberes. que ensejem ao indivíduo a compreensão do processo produtivo e do
É preciso superar o falso dilema de centrar a aprendizagem, e meio em que ele vive. O entendimento da forma como funcionam as
portanto o currículo, nos conhecimentos e nas competências. A escola forças produtivas no contexto social é indispensável para uma ação de
deve oferecer os conhecimentos produzidos que sejam significativos interferência na sociedade, com vistas a transformá-la em função dos
para a inclusão de cada grupo de alunos em cada etapa de sua interesses coletivos.
escolarização e de sua vida, os caminhos para ter acesso a esses
conhecimentos e aos que vierem a ser produzidos, e as competências
para mobilizá-los e colocá-los em ação. O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO -
A construção do conhecimento pressupõe a construção do seu PAPEL E FUNÇÃO DA ESCOLA:
próprio saber, a construção de competências e a aquisição dos saberes CONCEPÇÕES E DIFERENTES
já construídos pela humanidade. Os três processos são operações FORMAS DE ORGANIZAÇÃO DO CONHECIMENTO E
distintas; o primeiro tem por base as experiências vividas, o segundo, a
DO TEMPO NOS CURRÍCULOS ESCOLARES.
mobilização destes conhecimentos, e o terceiro, a apropriação
mediatizada pela transmissão. A construção de um Projeto Político Pedagógico (P.P.P.)
A escola, via de regra, integra-se neste processo como necessita ser em conjunto, entre professores, alunos, pais, funcionários
mediadora na transmissão dos conhecimentos já produzidos, e direção, com base na realidade escolar e da comunidade que a cerca.
cumprindo apenas apenas a terceira daquelas funções. Se não se Essa produção deve ser fruto de um trabalho coletivo, que vivendo num
recupera o processo de conhecimentos extraídos da vivência e o contexto em transformação, decide unir forças no sentido de organizar
articula com o processo de apropriação do conhecimento produzido o Projeto da escola, a qual os sujeitos estão envolvidos. Essa

Professor Pedagogo 97 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
diversidade de valores é diagnosticada nas práticas desenvolvidas no políticas, mas uma reelaboração e redefinição das próprias formas de
interior da escola, permitindo assim a reflexão deste movimento representação e significação social” (SILVA, 1990, p. 56).
cotidiano, o resgate destas experiências e a identificação da identidade
Neste sentido, a reflexão que se coloca em termos de educação
de uma proposta pedagógica, administrativa e financeira para a escola.
escolar é a seguinte: Como a escola tem se posicionado, reagido frente
É a partir do diálogo coletivo de interrogação da prática e do às mudanças ocorridas na sociedade? Quais as iniciativas pensadas e
diagnóstico destas experiências significativas no cotidiano escolar, que executadas em busca da construção de um novo cidadão? Qual está
se consegue iluminar as relações pedagógicas estabelecidas neste sendo a intervenção educativa no sentido de repensar este novo
ambiente. A necessidade de construir uma direção, um eixo norteador homem, com novos saberes, novas habilidades, novas aptidões
na escola. cognitivas?

A escola é muito mais do que um mero processo de ensino. “A A educação neste meio passa a ser questionada: Qual é a
escola é o espaço privilegiado de totalidade do desenvolvimento verdadeira ou específica função da escola hoje? Formar a quem? Para
humano, ela é espaço de socialização, de cultura de saídas quem? E para quê?
pedagógicas, de rituais e celebração”. (GADOTTI, 1993, p. 43).
Dentro desta perspectiva, em meio a conflitos pedagógicos,
O diálogo sobre a prática desenvolvida permitiu uma reflexão no resgatando uma filosofia de trabalho na escola, resignificando-a
sentido de questionar o seguinte: O atual currículo das Escolas atende, mediante a leitura crítica do atual contexto, surge a necessidade de
consegue dar conta do pleno desenvolvimento humano? E a partir sistematizar o P.P.P. por meio de um trabalho coletivo, tornando-se
deste pensamento que se destaca aqui, um movimento coletivo de assim, o desafio de toda comunidade escolar.Organizando a
ação – reflexão sobre os currículos escolares, entendidos como um construção do P.P.P. por encontros pedagógicos: refletindo as
movimento que tem faces diversas, encontra-se vivo e é expresso práticas do cotidiano escolar
cotidianamente na prática, nas relações dos sujeitos neste espaço.
Este movimento de mobilização na escola, buscando uma
Neste processo de construção coletiva, “o currículo menos como um
organização coletiva, no sentido de fazer uma leitura crítica sobre a
programa oficial pronto e acabado, e mais como criação, dinâmica,
realidade social, o currículo da escola e as mudanças que se fazem
movimento, conflito, contradição, um território contestado”. (SILVA,
necessárias na organização da escola como um todo, possibilita a
1990, p. 23).
conquista e garantia de um espaço, o Encontro Pedagógico. Esse
A escola tem muito a refletir sobre sua organização curricular, a momento que aos poucos pode ser evidenciado como um momento de
começar pela compreensão de que a sua ação passa a ser uma avaliação e reflexão das práticas desenvolvidas no cotidiano escolar,
intervenção singular no processo de formação do homem na sociedade sinalizando a necessidade de um repensar sobre a realidade.
atual.
Os encontros pedagógicos na escola podem retratar a
Vivemos um novo período na história da humanidade. O mundo diversidade e a complexidade da escola, tornando-se uns dos
mudou. As pessoas mudaram. A simples constatação da velocidade momentos necessários, permitindo aos professores, alunos, pais,
com que ocorrem transformações em nossa vida cotidiana, já nos funcionários e direção, uma reflexão sobre a necessidade de uma
mostra que estamos diante de uma nova sociedade, uma outra organização maior no que diz respeito à busca de alternativas frente às
realidade que nos envolve e nos desafia. dificuldades encontradas na educação no mundo de hoje, em busca da
formação da cidadania, do sujeito crítico e atuante na sociedade.
A forma linear e progressiva com que compreendíamos a vida e
tudo que acontecia, já não parece ser o que prevalece em nosso meio. O encontro pedagógico pode possibilitar aos poucos umas
Estamos vivendo uma nova era, onde o conhecimento que tínhamos interações maiores deste coletivo, que em sua interação vai construindo
como entendimento de se estar no mundo (algo pronto e acabado), não suas alternativas. Este espaço de conquista no cotidiano escolar
é mais aceito e absorvido pela maioria da humanidade. Isto significa proporciona a concretização de uma relação dialógica no grupo de
que a sociedade está a exigir uma prática pedagógica que garanta a trabalho, levando a uma troca significativa de experiências, bem como,
construção da cidadania, possibilitando a criatividade e criticidade. um movimento em direção a reflexão de nossas práticas. “O diálogo é
em si, criativo e recreativo. O diálogo sela o ato de aprender, que nunca
Estas reais exigências cognitivas e atitudinais requeridas nos
é individual, embora tenha uma dimensão individual”. (FREIRE, 1996,
levam a interrogar o que tem a educação a refletir sobre as relações
p. 13).
sobre estas transformações em curso e a formação do homem.
Nestes momentos de reflexão em conjunto, busca-se evidenciar
A educação e a escola, por sua importância política, merecem
a percepção de todos os envolvidos na escola, como sujeitos de suas
um papel de destaque e uma proposta de reforma. Neste esforço de
práticas, identificar-se na coletividade da escola um grupo que não está
reorganização da vida social e política, velhas instituições e antigos
ali apenas para executar ações, mas, que todos eram responsáveis
conceitos são redefinidos de acordo com essa lógica e com interesses
pelas práticas desenvolvidas e que a reflexão, o pensar sobre suas
e novos conceitos são introduzidos. Portanto, “o que está em jogo não
ações faziam parte da organização pedagógica.O P.P.P. significa este
é apenas uma reestruturação das esferas econômicas, sociais e
movimento de rupturas, de opção, o pensar reflexivo sobre a práxis. Em

Professor Pedagogo 98 A Opção Certa Para a Sua Realização
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vez de controles, o encontro significativo dos sujeitos, pais, professores, Esses momentos reflexivos devem considerar uma autocrítica de
alunos, por meio de relações que se estabeleçam no respeito todo esse envolvimento, sua construção enquanto projeto, confronto de
democrático entre estes sujeitos, onde todos possam ser ouvidos, interesses pela escola e o encontro de solucionar as necessidades
percebidos.O Projeto Político – Pedagógico se torna realidade: presentes.
contribuições de Ilma Veiga na construção coletiva
Ao se conhecer a realidade escolar, nos acionamos em destacar
Em seus escritos, VEIGA (1996), traz reflexões acerca da uma avaliação dentro de uma visão crítica, percebendo os resultados
construção do projeto político - pedagógico nas escolas. Destaca-se a de toda a ordem do trabalho pedagógico, pois, ao se ter conhecimento
construção de um projeto em busca da real qualidade de ensino, em dos problemas que existem em todo o ambiente escolar, compreender
acordo com as especificidades presentes em cada comunidade escolar. e coletivamente diagnosticar tais situações enquanto aluno, educador,
sociedade, busca-se o desenvolvimento das capacidades dos alunos,
Para isso, precisamos envolver todos os que contribuem com o
ser consciente das mudanças necessárias a comunidade escolar e do
ambiente da escola: pais, alunos, educadores, funcionários, direção e
ser cidadão.
comunidade social, os quais, num processo de coletividade, encontrem
os fundamentos e as necessidades que nortearão o P.P.P. Temos a O P.P.P implica de maneira significativa na organização do
escola como um ambiente de construção de conceitos, transmissão dos trabalho pedagógico e sua reflexão acerca do cotidiano da escola por
conhecimentos historicamente acumulados e de formação da cidadania ser um processo de construção coletiva, permitindo assim, que se
de maneira crítica e atuante na sociedade. amplie o encontro entre todos os envolvidos com a escola e as
mudanças que urgentemente são necessárias em todo o meio que
Além desse aspecto, a escola é também uma instituição
cerca a escola por contextualizar a ação envolvente.
burocrática, a qual, possui profissionais de cunho administrativo,
prestam contas de seus investimentos e manutenção do prédio escolar. O P.P.P não deve cumprir uma burocracia e nem ficar registrado
num monte de papel escrito estacado numa gaveta, é um instrumento
Todo esse conjunto que forma a escola busca, através do projeto
essencial na construção da sociedade.
político -pedagógico, além de qualidade e organização do trabalho
pedagógico, uma autonomia que a fortaleça enquanto o sistema de Pensar a educação no terceiro milênio é uma tarefa de
ensino pela comunidade que a cerca e pela assistência que lhe atende compromisso por aqueles que se dizem educadores. Ou assumimos
as instancias superiores. um comportamento revolucionário no sentido de trabalharmos a
pluralidade cultural no mundo contemporâneo, reconhecendo que o
A construção coletiva do P.P.P. é algo evidente neste
universo cultural não é somente o capital, mas sim, a formação de um
processo:”(...) busca um rumo, uma direção. É uma ação intencional,
cidadão que se integre a sociedade de forma solidária, crítica, no
com um sentido explicito, com um compromisso definido coletivamente.
sentido de transformação, ou trabalhamos no sentido de mantermos a
(...) o projeto político – pedagógico como um processo permanente de
reprodução das injustiças e desigualdades sociais em nosso país.
reflexão e discussão dos problemas da escola, na busca de alternativas
viáveis à efetivação de sua intencionalidade, que não é descritiva ou Por meio do Projeto Político_Pedagógico da Escola
constatativa, mas é constitutiva.” (VEIGA, 1996, p. 23). buscamos:

Conscientizar-se de que a escola é um local de desenvolvimento • Democratização do processo de planejamento.
crítico e real, onde se almeja acontecerem esses ideais fora do papel,
• Melhoria da qualidade do ensino.
abrangê-lo nas ações da escola como um todo, juntamente com suas
finalidades de: cultura, política, sociedade humana, profissional e de • Implantação de cursos de educação continuada ou incenti-
formação. Todo esse conjunto que compõe este ambiente faz-se vo para que professor e técnicos administrativos busquem
identificar e detalhar seus objetivos a um significado, atingindo de forma esses cursos na Universidade.
eficiente suas determinações enquanto instituição de ensino. • Incentivo às atividades de cultura.
Permeiam assim todas as questões que circundam os ambientes • Desenvolvimento da avaliação institucional da escola.
escolares, presentes no P.P.P, desde sua estrutura, planejamento,
interação e currículo, efetivando uma ação ideológica presente no • Ampliação e conservação do acervo e serviços bibliográfi-
contexto social existente, comprometendo-se com o desenvolvimento cos prestados à comunidade interna e externa da escola e
do indivíduo e sua autonomia, preocupando-se também, com um a integração desse acervo, sempre que possível, ao acervo
calendário escolar bem estruturado para organizar toda essa da multimídia.
construção. • Qualificação e desenvolvimento funcional do pessoal técni-
Necessita determinar, em questões temporais, reflexões entre co-administrativo e técnico-pedagógico.
grupo escolar, formação e oportunizar aos alunos outros espaços, para • Agilização da prática administrativo-pedagógica com quali-
fazer a escola acontecer dentro de seus interesses pressupostos em dade.
seu trabalho de ensino.

Professor Pedagogo 99 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
• Provimento de condições facilitadoras para o efetivo cum- externa. Desta forma, busca-se uma construção coletiva e não um
primento dos fins da Escola. modelo pronto e acabado.

O Projeto Político-Pedagógico, como vimos, organiza o trabalho Para que isto ocorra, poderá haver necessidade de mudança na
pedagógico da escola como um todo na busca de melhoria da própria lógica da organização das instâncias superiores (Secretarias de
qualidade do ensino. A base para essa organização da escola são seus Educação), implicando uma mudança substancial nas suas práticas.
alunos, a partir dos quais desenvolvemos a concepção, a realização e a
É essencial que sejam propiciadas condições aos alunos,
avaliação do projeto educativo.
professores e funcionários que lhes permitam aprender a pensar e a
É importante ressaltar que na construção do Projeto estará realizar o fazer pedagógico da forma mais efetiva e crítica.
sempre presente uma relação recíproca entre a dimensão política e a
O Projeto Político-Pedagógico visa à qualidade em todo o
dimensão pedagógica da escola.
processo vivido pela escola. Não é um rearranjo formal da instituição
Quanto à implantação, dentro de um processo democrático de escolar.
decisões, o Projeto considera os seguintes aspectos:
• A organização do trabalho pedagógico da escola tem a ver
1) a análise dos conflitos (abrindo espaço para gerenciá-los, com a organização da sociedade. Nesta perspectiva, a es-
pois são momentos abertos à criatividade); cola é vista como uma instituição social, inserida na socie-
dade refletindo as determinações e contradições dessa so-
2) a eliminação das relações corporativas e autoritárias;
ciedade.
3) o rompimento da burocracia excessiva que permeia as re-
Sabemos que há uma desigualdade no ponto de partida da
lações na escola, tanto as de ordem técnico-administrativa
carreira estudantil. As condições sociais são um mecanismo de
como as de ordem técnico-pedagógica; e
classificação entre os que chegaram às portas da escola.
4) a diminuição dos efeitos fragmentários da divisão do traba-
A seleção reflete um sistema social perverso, no qual existem
lho que reforça as diferenças e hierarquiza os poderes de
mecanismos de exclusão. A escola deve ser uma agência de mediação
decisão.
social que, com qualidade, facilite a igualdade de acesso de todos a
O Projeto Político-Pedagógico organiza o trabalho pedagógico ela.
em dois níveis: o da escola como um todo, sem perder de vista sua
relação com o contexto social imediato; e em particular, em nível da
sala de aula, incluindo as ações do professor na dinâmica da sala de O PROJETO PEDAGÓGICO NA ESCOLA PÚBLICA
aula.
A questão da autonomia escolar e de seu desdobramento num
A construção do Projeto Político-Pedagógico passa pela projeto pedagógico é, como problema, típico da escola pública que, a
autonomia da escola, e de sua capacidade de delinear sua própria não ser em raríssimas exceções, integra uma rede de escolas e, por
identidade. Na sua construção, isso, está sempre sujeita a interferências de órgãos externos
responsáveis pela organização, administração e controle da rede
deve ficar claro que a escola é um espaço público, lugar de
escolar. Essa situação não é, em si mesma, negativa, mas
debate, de diálogo, fundado na reflexão coletiva.
frequentemente acaba sendo, porque órgãos centrais, com maior ou
A construção do Projeto Político-Pedagógico necessita de um menor amplitude, tendem a desconhecer a peculiaridade de distintas
referencial que fundamente a sua construção: situações escolares e decidem e orientam como se todas as unidades
• Os alicerces estão nos pressupostos de uma teoria peda- fossem idênticas ou muito semelhantes. A consequência mais óbvia e
gógica crítica viável, que parta da prática social e esteja indesejável de tentativas de homogeneização daquilo que é
compromissada em solucionar seus problemas institucio- substantivamente heterogêneo é o fato de que as escolas ficam ou
nais. sentem-se desoneradas da responsabilidade pelo êxito de seu próprio
trabalho, já que ele é continuamente objeto de interferências externas,
Há a necessidade, também, do domínio dos aspectos pois ainda que essas interferências sejam bem intencionadas não
metodológicos indispensáveis à concretização das concepções levam em conta que a instituição “escola pública” é uma diversidade e
assumidas coletivamente: não uma unidade.
As novas formas têm que ser pensadas em um contexto de É aí que reside um grave problema da escola pública e é para
tensão, de correlações de forças - às vezes favoráveis, às vezes resolvê-lo que se reivindica a autonomia do estabelecimento na
desfavoráveis. Terão que nascer do próprio “chão da escola”. Compete, elaboração e execução do projeto escolar próprio. Hoje, a própria lei
assim, à administração da escola viabilizar inovações pedagógicas reconhece o problema e indica a solução genérica, mas na sua
planejadas, através de ação de cada membro da escola, pertencentes implementação o problema pode reviver e até se agravar pelo risco de
aos segmentos dos alunos, professores, funcionários e comunidade que órgãos da administração entendam que convém estabelecer

Professor Pedagogo 100 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
normas, prazos e especificações para que as escolas cumpram uma pressupõe-se que as entidades “escola pública de 30 anos atrás” e
nova exigência legal: a do projeto pedagógico. Se isso acontecer — e o “escola pública de hoje” sejam a mesma instituição, que antes cumpria
risco sempre existe —, aquilo que poderia ser um caminho para a bem as suas funções e agora não.
melhoria do ensino público transforma-se em mais uma inútil exigência
Foucault aconselhava a desconfiar das continuidades históricas.
burocrática de papelada a ser preenchida.
Seguindo esse conselho, poderíamos perguntar: de que critérios
O projeto pedagógico da escola é apenas uma oportunidade para dispomos para afirmar a identidade institucional entre a escola de
que algumas coisas aconteçam e dentre elas o seguinte: tomada de ontem e a escola de hoje?
consciência dos principais problemas da escola, das possibilidades de
Nenhum, a não ser que inconscientemente comparemos uma
solução e definição das responsabilidades coletivas e pessoais para
instituição social com um organismo que, com o tempo, envelhece ou
eliminar ou atenuar as falhas detectadas. Nada mais, porém isso é
degenera. De um vegetal ou de um animal, podemos dizer que com o
muito e muito difícil.
tempo eles envelhecem ou degeneram e que esse processo pode ser
Não obstante a insistente e cansativa retórica sobre a acelerado ou retardado por condições internas ou externas. Mas
necessidade do trabalho participativo e a imposição de órgãos instituições sociais não são organismos e é muito discutível considerá-
escolares que reúnem professores, pais e alunos, não há geralmente, a las, metaforicamente, como tais. Sem nenhuma dúvida, a instituição
tradição de um esforço coletivo para discutir, analisar e buscar soluções escolar de ontem é diferente da instituição escolar de hoje, mudou a
no âmbito das escolas. Cada vez há mais reuniões e cada vez mais clientela, mudaram os professores, mudaram práticas escolares etc.
elas são menos produtivas. Sem querer simplificar o problema, temos a Mudaram também valores, condições sociais, políticas, econômicas etc.
convicção que uma das variáveis mais relevantes para compreender as Quando ignoramos esse quadro amplo de mudanças e afirmamos que
razões das dificuldades de um trabalho escolar coletivo, na nossa a escola se deteriorou e que a causa foi a expansão de matrículas,
tradição, está na própria formação do professor, especialmente, tal estamos apenas fazendo um lance retórico que não avança nem um
como é feita nos cursos de licenciatura, desde a sua criação. pouco na compreensão das mudanças ocorridas.

Esses cursos foram organizados com base em uma concepção Na escola de ontem, o professor e seus poucos alunos tinham a
do trabalho docente, como se este consistisse simplesmente em mesma extração social e partilhavam valores e maneiras de viver.
ensinar alguma coisa para alguém. Para realizar com êxito essa tarefa, Cabia aí, talvez, entender, até certo ponto, a função docente à
o futuro professor — um meio especialista em alguma disciplina — semelhança de uma preceptoria. Aliás, numa perspectiva histórica,
aprende algumas noções de didática geral e especial, de psicologia da pode-se dizer que o preceptorado foi a atividade fundadora da docência
aprendizagem e de legislação. A parte prática da formação é, escolar tal como ela se consolidou. Na antiga Grécia, os sofistas foram
supostamente, completada por estágios supervisionados por um na verdade os primeiros professores, no sentido em que até hoje
professor da disciplina em questão. No fundo, essa formação entendemos a profissão. Eles não eram investigadores da verdade,
pressupõe que o professor será um preceptor que deverá ensinar algo mas “homens de ofício, cujo êxito comercial comprovava o valor
a alguém numa relação individualizada. Não se trata de fazer uma intrínseco e a eficácia social” de seu ensino. Mediante um pagamento,
caricatura, mas de propor uma hipótese, a de que nossos cursos de por vezes elevado, eles ensinavam grupos de jovens numa relação de
licenciatura ainda não conseguiram focalizar a relação educativa no “preceptorado coletivo”, conforme a expressão de Marrou.
ambiente em que ela realmente ocorre, isto é, na sala de aula que, por
Essa relação pedagógica preceptoral, desde sua origem, foi uma
sua vez, integra-se numa escola. O chamado “processo ensino-
relação educativa de elite, refluindo a cada expansão da escola onde a
aprendizagem”, por exemplo, é uma abstração. O professor individual
relação era outra. Ao longo dos séculos, cada vez mais, a presença do
que ensina e o aluno individual que aprende são ficções. Seres tão
preceptor foi sendo distintiva de casas reais, nobreza, grande
imaginários como aqueles a que se referem expressões como “homo
burguesia e outros afortunados. No fim do século passado, H. Durand
oeconomicus” ou “aluno médio” ou “sujeito epistêmico” e outras
dizia que o preceptadorado é “um assunto mais vasto do que parece,
semelhantes.
ele diz respeito inteiramente ao problema da escolha entre a educação
Não se trata de pôr em dúvida a necessidade teórica e prática de particular e a educação pública”, isto é, entre educação de elite e
expressões estatísticas ou abstratas, mas da utilidade que elas possam educação popular.
ter para orientar práticas de ensino muito pouco conhecidas que
Hoje, a própria instituição da preceptoria desapareceu como
ocorrem em situações escolares muito diferentes. Por exemplo, é muito
instituição educativa, mas não sem deixar vestígios na pedagogia, nas
frequente ouvir-se que houve uma deterioração da escola pública a
teorias da aprendizagem e na própria concepção do professor. De
partir de sua maciça expansão nos últimos 30 anos. Essa alegação,
qualquer modo, seria ocioso comparar, em termos de eficiência,
aparentemente banal e simples, tem, contudo, uma pressuposição
práticas preceptoriais com práticas escolares. Tratam-se de elementos
altamente discutível e provavelmente falsa. Trata-se da ideia de que
próprios de relações pedagógicas que tiveram origem em situações
havia uma instituição social chamada “escola pública” que cumpria a
sociais distintas nas quais prevaleciam concepções de educação
contento certas funções sociais e que, agora, essa mesma instituição
diferentes. No entanto, até hoje a concepção do professor,
está malogrando com relação a essas mesmas funções. Em resumo:

Professor Pedagogo 101 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
principalmente do licenciado, é tributária dos ideais educativos sistemático. Mas, uma política de aperfeiçoamento de pessoal não
associados à figura e ao papel do preceptor. pode depender de tais eventualidades.

Por isso, talvez, é que continuamos a insistir numa formação b) Outra pergunta, outro reparo. O que há em comum entre os
docente preceptorial na qual, além do domínio da disciplina a ensinar, professores de uma mesma disciplina, mas de diferentes escolas, que
prevalece uma visão psicológica do educando. Mesmo os elementos são reunidos em dezenas ou centenas para serem aperfeiçoados? O
didáticos que se associam a essa formação são condicionados por simples fato de que lecionam a mesma disciplina não significa que
essa visão. Contudo, sabemos que nisso reside, talvez, uma dificuldade tenham as mesmas dificuldades e que enfrentem os mesmos
séria, para que esse professor, supostamente preparado para um problemas. Na verdade, os esforços de aperfeiçoamento do magistério
trabalho de ensino individualizado, compreenda que a tarefa educativa usualmente repetem e eventualmente agravam os equívocos já
da escola tem desafio que ultrapassa os limites do ensino e presentes na formação acadêmica, ignorando que a entidade a ser
aprendizagem de disciplinas. visada é a escola e não o professor isolado. Voltemos brevemente a
esse ponto. O professor que ensina numa escola é um profissional sui-
Voltando ao ponto de partida: a escola pública é uma instituição
generis.
social muito específica com uma tarefa de ensino eminentemente social
que, por isso mesmo, exigiria um esforço coletivo para enfrentar com Diferentemente de outras situações profissionais, o exercício da
êxito as suas dificuldades porque essas dificuldades são antes profissão de ensinar só é possível no quadro institucional da escola. O
institucionais que de cada professor. Mas, de fato, o que se tem é um fato eventual de que se ensine particularmente fora da escola não é
conjunto de professores preparados, bem ou mal, para um relevante para caracterizar o professor. Qualquer especialista numa
desempenho individualizado e que, por isso, resistem à ideia de que os disciplina poderia fazer isso. No caso do médico ou do advogado, por
próprios objetivos escolares são socioculturais e que até mesmo o êxito exemplo, a situação é diferente. Esses profissionais podem exercer a
no ensino de uma disciplina isolada deve ser aferido em termos da sua profissão tanto particularmente como num quadro institucional, e
função social da escola. essas diferentes perspectivas profissionais são levadas em conta na
respectiva informação.
Esse impasse foi claramente sintetizado por Gusdorf quando
disse que o professor de latim precisa compreender que antes de ser É possível que um professor isolado se aperfeiçoe no
professor de latim ele precisa ser professor, isto é, ele é membro de conhecimento de sua disciplina, mas não enquanto professor de uma
uma comunidade escolar com objetivos e um alcance social que vão dada escola. Neste último caso, o aperfeiçoamento do professor
além do ensino de qualquer disciplina. precisa ocorrer no quadro institucional em que ele trabalha, já que as
dificuldades de seu trabalho de ensino, eventualmente, serão
Tentamos mostrar que, em geral, a formação do licenciado se faz
metodológicas ou didáticas. Não fosse assim, não se compreenderia
a partir da ideia de que o bom professor é aquele capaz de ensinar bem
que o bom professor em uma escola seja mau numa outra ou vice-
a disciplina de sua escolha.
versa. No entanto, isso é frequente.
Como vimos, isso não basta. Não é raro encontrar-se um bom
Enfim, a melhoria do ensino é sempre uma questão institucional
corpo docente numa escola ruim. Contudo, para melhorar as escolas
e uma instituição social, como é a escola, é mais do que a simples
consideradas ruins a Administração Pública, em todos os níveis, tem
reunião de professores, diretor e outros profissionais. A escola, ou
investido substancialmente no aperfeiçoamento do pessoal docente.
melhor, o mundo escolar é uma entidade coletiva situada num certo
a) É claro que essas iniciativas são interessantes porque contexto, com práticas, convicções, saberes que se entrelaçam numa
traduzem uma preocupação com o aperfeiçoamento do magistério e história própria em permanente mudança. Esse mundo é um conjunto
com a melhoria da qualidade do ensino. Contudo, há pontos que de vínculos sociais, fruto da adesão ou da rejeição de uma
merecem alguns reparos. Tentaremos fazer esses reparos pela multiplicidade de valores pessoais e sociais.
proposição de algumas perguntas. Será que o aperfeiçoamento do
A ideia de um projeto pedagógico, visando à melhoria desse
pessoal docente, em exercício, deve ser feito pela frequência a cursos?
mundo com relação às suas práticas específicas, será uma ficção
Na verdade, a resposta a essa questão exige uma qualificação prévia.
burocrática se não for fruto da consciência e do esforço da coletividade
Se os objetivos desses cursos forem a modificação da própria prática
escolar. Por isso, é ela, a escola, que precisa ser assistida e orientada
docente, a resposta mais adequada será, provavelmente, não. Por
sistematicamente e seus membros temporários, que são os
algumas razões. A eventual melhoria das práticas docentes exigiria um
professores, não devem ser aperfeiçoados abstratamente para o ensino
adequado conhecimento dessas próprias práticas e das condições em
de sua disciplina, mas para a tarefa coletiva do projeto escolar.
que elas ocorrem. Porém, esse conhecimento raramente é disponível
para os especialistas que ministram os cursos, simplesmente, porque o
assunto não tem sido objeto de pesquisas sistemáticas e continuadas.
AS PARTES INTEGRANTES DO PROJETO PEDAGÓGICO
Como melhorar práticas que são desconhecidas? É claro que, em
alguns casos, o longo tirocínio do especialista, que ministra o curso, • as competências e habilidades que os alunos precisam de-
poderá permitir suprir precariamente um inexistente conhecimento senvolver

Professor Pedagogo 102 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
• os conceitos integradores e os conteúdos significativos comunidades, certamente permite trabalhar com outras formas de
apreensão e mobilizar diferentes linguagens.
• os contextos significativos
Os projetos juvenis devem ser parte integrante da proposta
• as informações e conhecimentos anteriores que possuem
pedagógica da escola, via currículo. Considero a participação na
tanto alunos quanto professores
discussão do que se vai aprender como a primeira oportunidade de o
• os materiais e os procedimentos utilizados jovem se tornar protagonista da sua educação. Quando o jovem tem
• a organização do espaço e as relações na sala de aula oportunidade de discutir o que está sendo pensado pela escola, de se
apropriar dessa proposta, de discuti-la, ganha condição para assumir e
• as relações interpessoais avaliar o próprio desenvolvimento.
• a organização do tempo É importante estabelecer critérios de avaliação que permitam
• os projetos desenvolvidos pelos jovens acompanhar o desenvolvimento do Plano de Gestão Escolar e do
Projeto Pedagógico. Trata-se de prever momentos de avaliação
Para entender o que significa organizar um currículo por
coletiva, de modo a permitir as modificações necessárias para que se
competências, é necessário enfatizar que as competências se
atinjam os objetivos desejáveis.
desenvolvem integradamente aos conhecimentos.

Com efeito, competências “são ações e operações mentais de
caráter cognitivo, socioafetivo e psicomotor que permitem ao sujeito O PROJETO POLÍTICO PEDAGÓGICO E
desenvolver as habilidades de saber fazer”. (Berger. mimeo). Ou, A AUTONOMIA DA ESCOLA
conforme Perrenoud, competência é a capacidade de agir eficazmente, A sociedade contemporânea tem passado por expressivas
com base nos conhecimentos adquiridos, mas sem limitar-se a eles. transformações de caráter social, político e econômico. Essas
Estamos falando de aprendizagens significativas, aquelas que transformações originam-se nos pressupostos neoliberais e na
encontram eco no sujeito, que se incorporam ao que o aluno já globalização da economia que têm norteado as políticas
conhece, criando um novo quadro de referências. (Lino de Macedo). governamentais.
Ocorrem aprendizagens significativas quando se é capaz de mobilizar Nesse contexto, surgem alguns questionamentos junto aos
os conhecimentos para a compreensão e para a ação. educadores e demais agentes escolares: Qual o papel social da
O eixo central da reforma que se pretende é a aprendizagem, a escola? Qual a melhor forma de organização do trabalho pedagógico?
ação do aluno, a interação entre sujeito e objeto e não, como se O Papel Social da Escola
entendia, o acúmulo de informações, o apelo à memorização, a busca
da resposta única. A escola é responsável pela promoção do desenvolvimento do
cidadão, no sentido pleno da palavra. Então, cabe a ela definir-se pelo
A aprendizagem está intrinsecamente relacionada à condição tipo de cidadão que deseja formar, de acordo com a sua visão de
ativa do sujeito, à predisposição para aprender. “Não existe uma sociedade. Cabe-lhe também a incumbência de definir as mudanças
hierarquia de disciplinas, áreas ou conhecimento, pois todos concorrem que julga necessário fazer nessa sociedade, através das mãos do
com a mesma força para a compreensão da realidade” (Lino de cidadão que irá formar.
Macedo).
Definida a sua postura, a escola vai trabalhar no sentido de
Na definição do Projeto Pedagógico da escola, é, ainda, formar cidadãos conscientes, capazes de compreender e criticar a
indispensável selecionar as metodologias mais adequadas ao grupo realidade, atuando na busca da superação das desigualdades e do
com que se trabalha e ao desenvolvimento das competências e respeito ao ser humano.
conhecimentos.
Quando a escola assume a responsabilidade de atuar na
A distribuição do tempo e a utilização de espaços educativos, na transformação e na busca do desenvolvimento social, seus agentes
escola e fora da escola, ganham centralidade na nova proposta. É devem empenhar-se na elaboração de uma proposta para a realização
possível que o desenvolvimento de atividades ou projetos exijam uma desse objetivo. Essa proposta ganha força na construção de um projeto
realocação dos tempos, de modo a não prejudicar a sequência do que político-pedagógico.
foi planejado e a permitir a participação de vários professores.
Circunscrever as experiências de aprendizagem ao espaço escolar, é Um projeto político - pedagógico ultrapassa a mera elaboração
desconsiderar as inúmeras oportunidades que se colocam, desde o de planos, que só se prestam a cumprir exigências burocráticas:
espaço mais próximo à escola a outros que possibilitam a apreensão do “O projeto político-pedagógico busca um rumo, uma direção. É
conhecimento de pontos de vista diversos. uma ação intencional, com um sentido explícito, com um compromisso
A visita aos espaços que contam a história da cidade, conhecer definido coletivamente. Por isso, todo projeto pedagógico da escola é,
museus, bibliotecas públicas, parques, entrar em contato com outras também, um projeto político por estar intimamente articulado ao

Professor Pedagogo 103 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
compromisso sócio - político e com os interesses reais e coletivos da A autonomia implica também responsabilidade e também
população majoritária. comprometimento com as instituições que representam a comunidade
(conselhos de escola, associações de pais e mestres, grêmios
(...) Na dimensão pedagógica reside a possibilidade da
estudantis, entre outras), para que haja participação e compromisso de
efetivação da intencionalidade da escola, que é a formação do cidadão
todos.
participativo, responsável, compromissado, crítico e criativo.
Pedagógico, no sentido de se definir as ações educativas e as Concluindo as reflexões, acreditamos que é este o papel social
características necessárias às escolas de cumprirem seus propósitos e da escola, atuando frente às profundas desigualdades sócio-
sua intencionalidade.” (Veiga, 1995) econômicas, que excluem da escola uma parcela da população,
marginalizada pelas concepções e práticas de caráter conservador,
O projeto político-pedagógico é o fruto da interação entre os
inspiradas no neoliberalismo.
objetivos e prioridades estabelecidas pela coletividade, que estabelece,
através da reflexão, as ações necessárias à construção de uma nova Devemos nos mobilizar pela garantia do acesso e da
realidade. É, antes de tudo, um trabalho que exige comprometimento permanência do aluno na escola. Não basta esperar por soluções que
de todos os envolvidos no processo educativo: professores, equipe venham verticalmente dos sistemas educacionais. Urge criar propostas
técnica, alunos, seus pais e a comunidade como um todo. que resultem de fato na construção de uma escola democrática e com
qualidade social, fazendo com que os órgãos dirigentes do sistema
Essa prática de construção de um projeto, deve estar amparada
educacional, possam reconhecê-la como prioritária e criem dispositivos
por concepções teóricas sólidas e supõe o aperfeiçoamento e a
legais que sejam coerentes e justos, disponibilizando os recursos
formação de seus agentes. Só assim serão rompidas as resistências
necessários à realização dos projetos em cada escola.
em relação a novas práticas educativas. Os agentes educativos devem
sentir-se atraídos por essa proposta, pois só assim terão uma postura Do contrário, a escola não estará efetivamente cumprindo o seu
comprometida e responsável. Trata-se, portanto, da conquista coletiva papel, socializando o conhecimento e investindo na qualidade do
de um espaço para o exercício da autonomia. ensino. A escola tem um papel bem mais amplo do que passar
conteúdos. Porém, deve modificar a sua própria prática, muitas vezes
Chegamos ao ponto crucial dessa discussão: O que realmente
fragmentada e individualista, reflexo da divisão social em que está
significa autonomia na escola e para a escola?
inserida.
Para que a escola seja realmente um espaço democrático e não
se limite a reproduzir a realidade sócio-econômica em que está
inserida, cumprindo ordens e normas a ela impostas por órgãos INOVAÇÕES E PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO
centrais da educação, deve-se criar um espaço para a participação e
A consolidação da educação básica e superior como componente
reflexão coletiva sobre o seu papel junto à comunidade:
da educação escolar e como direito de todos os cidadãos é um objetivo
“Assim, torna-se importante reforçar a compreensão cada vez não somente do governo mas de toda a sociedade brasileira.
mais ampliada de projeto educativo como instrumento de autonomia e
Portanto, além de garantir as condições de acesso e
domínio do trabalho docente pelos profissionais da educação, com
permanência de crianças, jovens e adultos nesses componentes
vistas à alteração de uma prática conservadora vigente no sistema
educacionais, é preciso construir um projeto político-pedagógico de
público de ensino. É essa concepção de projeto político-pedagógico
educação básica e superior de qualidade, comprometido com as
como espaço conquistado que deve constituir o elemento diferencial
múltiplas necessidades sociais e culturais da população.
para o aparente consenso sobre as atuais formas de orientação da
prática pedagógica.” ( Pinheiro, 1998) Falar em inovação e projeto político-pedagógico tem sentido se
não esquecermos qual é a preocupação fundamental que enfrenta o
Essa é a necessidade de conquistar a autonomia, para
sistema educativo: melhorar a qualidade da educação pública para que
estabelecer uma identidade própria da escola, na superação dos
todos aprendam mais e melhor. Essa preocupação se expressa muito
problemas da comunidade a que pertence e conhece bem, mais do que
bem na tríplice finalidade da educação em função da pessoa, da
o próprio sistema de ensino.
cidadania e do trabalho. Desenvolver o educando, prepará-lo para o
Essa autonomia, porém, não deve ser confundida com apologia a exercício da cidadania e do trabalho significam a construção de um
um trabalho isolado, marcado por uma liberdade ilimitada, que sujeito que domine conhecimentos, dotado de atitudes necessárias
transforme a escola numa ilha de procedimentos sem fundamentação para fazer parte de um sistema político, para participar dos processos
nas considerações legais de todo o sistema de ensino, perdendo, de produção da sobrevivência e para desenvolver-se pessoal e
assim, a perspectiva da sociedade como um todo. socialmente.

Deve-se, portanto, estar atento ao perigo do descaso político, Tenho trabalhado o significado de inovação e projeto com base
que confunde autonomia com descompromisso do poder público, dando no entendimento possibilitado por Santos, nas obras Um discurso sobre
margem a este de eximir-se de suas obrigações. as ciências (1987), Introdução a uma ciência pós-moderna (1989) e
Pela mão de Alice (1997). Nas reflexões que desenvolvo neste artigo,

Professor Pedagogo 104 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
tomarei a inovação e o projeto político-pedagógico como ação acordo com os moldes das políticas públicas que se enquadram nessa
regulatória ou técnica e como ação emancipatória ou edificante. lógica.

Introduzir inovação tem o sentido de provocar mudança, no
sistema educacional. De certa forma, a palavra “inovação” vem
A INOVAÇÃO REGULATÓRIA E
associada a mudança, reforma, novidade. O “novo” só adquire sentido
O PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO
a partir do momento em que ele entra em relação com o já existente.
A inovação regulatória ou técnica tem suas bases
Se tomarmos os elementos constitutivos desta concepção de
epistemológicas assentadas no caráter regulador e normativo da
inovação, percebemos, então, que toda inovação se articula em torno
ciência conservadora, caracterizada, de um lado, pela observação
da novidade, reforma, racionalidade científica, aplicação técnica do
descomprometida, pela certeza ordenada e pela quantificação dos
conhecimento, de fora para dentro, ou seja, instituída. Há ritualização e
fenômenos atrelados a um processo de mudança fragmentado, limitado
padronização do processo investigativo. De forma geral, as ideias de
e autoritário; e de outro, pelo não-desenvolvimento de uma articulação
eficácia, normas, prescrições, ordem, equilíbrio permeiam o processo
potencializadora de novas relações entre o ser, o saber e o agir. Este
inovador.
tipo de inovação “(...) é uma rearticulação do sistema que se apropria
das energias emancipatórias contidas na inovação, transformando-a Inovar é, portanto, introduzir algo diferente dentro do sistema,
numa energia regulatória” (Leite et al., 1997, p. 10). para produzir uma mudança organizacional descontextualizada. Este
processo deixa de lado os sujeitos como protagonistas do institucional,
A inovação regulatória ou técnica deixa de fora quem inova e,
desprezando as relações e as diferenças entre eles, não reconhecendo
portanto, não é afetado por ela. Há uma separação entre fins e meios,
as relações de força entre o institucional e o contexto social mais
em que se escamoteiam os eventuais conflitos e silenciam as
amplo.
definições alternativas (Santos, 1989) em que se pressupõem definidos
os fins e a inovação incide sobre os meios. A inovação regulatória ou técnica é instituída no sistema para
provocar mudança, mesmo que seja temporária e parcial. Essa
Nesta perspectiva, a introdução do novo implica mudança do
mudança não produz um projeto pedagógico novo, produz o mesmo
todo pela mudança das partes. A reforma educacional, preconizada
sistema, modificado.
pela LDB, Lei nº 9.394/96, tem-nos dado alguns exemplos de incitações
teóricas a uma participação formal, legitimadora de um controle A introdução de uma inovação faz-se, assim, na lógica da
burocrático cada vez maior sobre as instituições educativas, os dimensão cognitivo-instrumental da ciência e da técnica. Com essa
professores, os servidores técnico-administrativos e alunos. Dessa compreensão de inovação, temos construído projetos, sem muita
forma, as políticas públicas constrangem e orientam algumas condições consciência das consequências para o sistema educativo.
de inovação.
A inovação é uma simples rearticulação do sistema, visando à
Sabe-se hoje, por exemplo, como afirma Benavente, que “(...) as introdução acrítica do novo no velho. Neste sentido, o projeto
inovações não têm hipóteses de sucesso se os atores não são políticopedagógico, na esteira da inovação regulatória ou técnica, pode
chamados a aceitar essas inovações e não se envolvem na sua própria servir para a perpetuação do instituído. Prevalece uma concepção de
construção” (1992, p. 28). projeto mais preocupado com a dimensão técnica, em detrimento das
dimensões política e sociocultural.
Os processos inovadores continuam a orientar-se por
preocupações de padronização, de uniformidade, de controle A inovação regulatória significa assumir o projeto político-
burocrático, de planejamento centralizado. Se a inovação é instituída, pedagógico como um conjunto de atividades que vão gerar um produto:
há fortes riscos de que seja absorvida pelas lógicas preexistentes, um documento pronto e acabado. Nesse caso, deixa-se de lado o
pelos quadros de referência reguladores. processo de produção coletiva. Perde-se a concepção integral de um
projeto e este se converte em uma relação insumo/processo/produto.
A estratégia do gestor para inovar pode ser de natureza
Pode-se inovar para melhorar resultados parciais do ensino, da
empíricoracional ou político-administrativa, onde a lógica e a
aprendizagem, da pesquisa, dos laboratórios, da biblioteca, mas o
racionalidade de uma inovação justificariam sua difusão e aceitação no
processo não está articulado integralmente com o produto.
sistema (Huberman, 1973; Canário, 1987). Para que isso ocorra, o
agente inovador, em geral os professores e coordenadores de curso, ou A inovação de cunho regulatório ou técnico nega a diversidade
dirigentes da instituição ou do sistema, lança as ideias e trabalha para de interesses e de atores que estão presentes, porque não é uma ação
sua aceitação e implementação. da qual todos participam e na qual compartilham uma mesma
concepção de homem, de sociedade, de educação e de instituição
Isso significa que os resultados da inovação são transformados
educativa. Trata-se de um conjunto de ferramentas (diretrizes,
em normas e prescrições e, consequentemente, sua aplicação é
formulários, fichas, parâmetros, critérios etc.) proposto em nível
também técnica. Claro que é esta uma das maneiras de proceder;
nacional. Como medidas e ferramentas instituídas legalmente, devem
entretanto, se for a única, fortalecerá mais ainda a racionalidade
ser incorporadas pelas instituições educativas nos projetos
científica que continua respondendo às questões de nosso tempo, de

Professor Pedagogo 105 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
pedagógicos a serem, muitas vezes, financiados, autorizados, Institucional (PDI), que se constitui compromisso com o Ministério da
reconhecidos e credenciados. Educação, é requisito básico nos atos de credenciamento e
recredenciamento da instituição de ensino superior. Para garantia do
Olhando de modo mais específico, no que concerne ao projeto
padrão de qualidade como condição de realização de ensino, a
político-pedagógico, o processo inovador orienta-se pela padronização,
legislação associou processos de avaliação aos de reconhecimento e
pela uniformidade e pelo controle burocrático. O projeto político-
credenciamento.
pedagógico visa à eficácia que deve decorrer da aplicação técnica do
conhecimento. O projeto político-pedagógico e a avaliação nos moldes
inovadores das estratégias reformistas da educação são, portanto,
Ele tem o cunho empírico-racional ou político-administrativo.
ferramentas ligadas à justificação do desenvolvimento institucional
Neste sentido, o projeto político-pedagógico é visto como um orientada por princípios da racionalidade técnica, que acabam servindo
documento programático que reúne as principais ideias, fundamentos, à regulação e à manutenção do instituído sob diferentes formas. Este é
orientações curriculares e organizacionais de uma instituição educativa o desafio a ser enfrentado: compreender a educação básica e superior
ou de um curso. no interior das políticas governamentais voltadas para a inovação
Enveredar pela compreensão do projeto político-pedagógico regulatória e técnica para buscar novas trilhas.
como inovação regulatória e técnica implica analisar os principais
pressupostos que embasam sua concepção. Assim, a construção do
O PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO COMO INOVAÇÃO
projeto no âmbito da inovação regulatória anda a par com “a
EMANCIPATÓRIA OU EDIFICANTE
reconstituição do campo do poder dentro das escolas, entendido este
como espaço de jogo no interior do qual novos atores lutam pelo poder É importante que explicite meu entendimento de inovação
sobre a nova especialização de funções e a interpretação reguladora emancipatória ou edificante para que se possa compreender as bases
dos instrumentos de diagnóstico e avaliação” (Gomes, 1996, p. 98). em Inovações e projeto político-pedagógico... que se assenta o projeto
Significa dizer que as inovações regulatórias, ao criarem indicadores de político-pedagógico. Parto do princípio de que a inovação
desempenho das escolas e instituições de ensino superior, acabam por emancipatória ou edificante não pode ser confundida com evolução,
transformar tais indicadores em referenciais para o diagnóstico prévio e reforma, invenção ou mudança. Lucarelli considera-a uma “(...) ruptura
para a avaliação de resultados. do status quo com o institucional” (Lucarelli et al., 1994, p.10),
significando a construção dos projetos pedagógicos para atingir
Para Veiga (2001, p. 47), “o projeto é concebido como um
objetivos, no âmbito de uma determinada instituição educativa.
instrumento de controle, por estar atrelado a uma multiplicidade de
mecanismos operacionais, de técnicas, de manobras e estratégias que Considerando a inovação uma produção humana, parto da ideia
emanam de vários centros de decisões e de diferentes atores”. de que suas bases epistemológicas estão alicerçadas no caráter
emancipador e argumentativo da ciência emergente. A inovação
O movimento que busca a inovação na escola e na instituição de
procura maior comunicação e diálogo com os saberes locais e com os
ensino superior, por meio do Programa Fundoescola/MEC e pela
diferentes atores e realiza-se em um contexto que é histórico e social,
proposta de reforma da educação superior, propiciou o deslocamento
porque humano. A ciência emergente opõe-se às clássicas dicotomias
da reflexão, que é política em sua gênese e em sua essência, para uma
entre ciências naturais/ciências sociais, teoria/prática, sujeito/objeto,
discussão técnica e estéril em sua origem e dotada de
conhecimento/realidade. Trata-se, portanto, de buscar a superação da
pseudoneutralidade em sua essência. A qualidade, que é uma questão
fragmentação das ciências e suas implicações para a vida do homem e
de decisão política, passou a ser considerada uma opção sem
da sociedade.
problemas.
Neste sentido, a inovação emancipatória ou edificante tem
Essa alternativa de gestão do tipo empresarial, centrada no
sempre “(...) lugar numa situação concreta em que quem aplica está
serviço ao cliente, em que se funda a concepção tanto do Plano de
existencial, ética e socialmente comprometido com o impacto da
Desenvolvimento da Escola (PDE) quanto do Plano de
aplicação” (Santos, 1989, p. 158). Não há separação entre fins e meios,
Desenvolvimento Institucional (PDI), orienta-se para o controle e a
uma vez que a ação incide sobre ambos pois “(...) os fins só se
estabilidade por meio dos planos de ação de curto prazo.
concretizam na medida em que discutem os meios adequados à
O projeto político-pedagógico, na esteira da inovação regulatória situação concreta” (idem, ibid.).
ou técnica, está voltado para a burocratização da instituição educativa,
É fácil compreender que a intencionalidade permeia todo o
transformando-a em mera cumpridora de normas técnicas e de
processo inovador e, consequentemente, o processo de construção,
mecanismos de regulação convergentes e dominadores.
execução e avaliação do projeto político-pedagógico. Os processos
O Plano de Desenvolvimento da Escola (PDE) concretiza-se por inovadores lutam contra as formas instituídas e os mecanismos de
meio de uma crescente racionalização do processo de trabalho poder. É um processo de dentro para fora. Essa visão reforça as
pedagógico, com ênfase em aspectos como produtividade, definições emergentes e alternativas da realidade. Assim, ela
competência e controle burocrático. O Plano de Desenvolvimento

Professor Pedagogo 106 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
deslegitima as formas institucionais, a fim de propiciar a argumentação, Costa & Madeira (1997) consideram alguns elementos
a comunicação e a solidariedade. conceituais do projeto político-pedagógico:

Identificar a estratégia do gestor no projeto político-pedagógico é, a) o projeto diz respeito à concepção de escolas socialmente
antes de mais nada, localizar os elementos que propiciam a determinadas e referidas ao campo educativo;
investigaçãoação que exige novas formas de organização, a
b) na fase de reflexão é que a instituição define e assume
combinação e utilização de várias técnicas investigativas. É certo que
uma identidade que se expressa por meio do projeto;
as inovações se desenvolvem na prática cotidiana, ou seja, realizam-se
no processo de construção/implementação dos projetos pedagógicos. c) o projeto serve de referente à ação de todos os agentes
Dessa forma, os resultados da inovação ultrapassam as questões que intervêm no ato educativo;
técnicas sem prescindir delas e opõem-se às orientações da d) o desenvolvimento do projeto implica a existência de um
racionalidade da ciência conservadora (Santos, 1987). conjunto de condições, sem as quais ele poderá estar con-
Em resumo, a inovação emancipatória ou edificante pressupõe denado a tornar-se apenas mais um “formulário administra-
uma ruptura que, acima de tudo, predisponha as pessoas e as tivo”;
instituições para a indagação e para a emancipação. e) a participação só poderá ser assegurada se o projeto per-
Consequentemente, a inovação não vai ser um mero enunciado de seguir os objetivos dos atores e grupos envolvidos no ato
princípios ou de boas intenções... educativo, em sua globalidade.
A inovação emancipatória ou edificante é de natureza ético-social O projeto político-pedagógico dá o norte, o rumo, a direção; “Ele
e cognitivo-instrumental, visando à eficácia dos processos formativos possibilita que as potencialidades sejam equacionadas, deslegitimando
sob a exigência da ética. A inovação é produto da reflexão da realidade as formas instituídas” (Veiga, 2000, p. 192).
interna da instituição referenciada a um contexto social mais amplo.
Sob esta ótica, o projeto político-pedagógico apresenta algumas
Este ponto é de vital importância para se avançar na construção características fundamentais:
de um projeto político-pedagógico que supere a reprodução acrítica, a
rotina, a racionalidade técnica, que considera a prática um campo de a) É um movimento de luta em prol da democratização da es-
aplicação empirista, centrada nos meios. cola que não esconde as dificuldades e os pessimismos da
realidade educacional, mas não se deixa levar por esta,
Organizar as atividades-fim e meio da instituição educativa, por procurando enfrentar o futuro com esperança em busca de
meio do projeto político-pedagógico sob a ótica da inovação novas possibilidades e novos compromissos. É um movi-
emancipatória e edificante, traz consigo a possibilidade de alunos, mento constante para orientar a reflexão e ação da escola.
professores, servidores técnico-administrativos unirem-se e separarem-
se de acordo com as necessidades do processo. b) Está voltado para a inclusão a fim de atender a diversidade
de alunos, sejam quais forem sua procedência social, ne-
O projeto político-pedagógico, na esteira da inovação cessidades e expectativas educacionais (Carbonell, 2002);
emancipatória, enfatiza mais o processo de construção. É a projeta-se em uma utopia cheia de incertezas ao compro-
configuração da singularidade e da particularidade da instituição meter-se com os desafios do tratamento das desigualdades
educativa. Bicudo afirma que a importância do projeto reside “no seu educacionais e do êxito e fracasso escolar.
poder articulador, evitando que as diferentes atividades se anulem ou
enfraqueçam a unidade da instituição” (2001, p. 16). Inovação e projeto c) Por ser coletivo e integrador, o projeto, quando elaborado,
político-pedagógico estão articulados, integrando o processo com o executado e avaliado, requer o desenvolvimento de um
produto porque o resultado final não é só um processo consolidado de clima de confiança que favoreça o diálogo, a cooperação, a
inovação metodológica no interior de um projeto político-pedagógico negociação e o direito das pessoas de intervirem na toma-
construído, desenvolvido e avaliado coletivamente, mas é um produto da de decisões que afetam a vida da instituição educativa e
inovador que provocará também rupturas epistemológicas. de comprometerem-se com a ação.

Não podemos separar processo de produto. O projeto não é apenas perpassado por sentimentos, emoções e
valores. Um processo de construção coletiva fundada no princípio da
Sob esta ótica, o projeto é um meio de engajamento coletivo para gestão democrática reúne diferentes vozes, dando margem para a
integrar ações dispersas, criar sinergias no sentido de buscar soluções construção da hegemonia da vontade comum. A gestão democrática
alternativas para diferentes momentos do trabalho pedagógico- nada tem a ver com a proposta burocrática, fragmentada e excludente;
administrativo, desenvolver o sentimento de pertença, mobilizar os ao contrário, a construção coletiva do projeto político-pedagógico
protagonistas para a explicitação de objetivos comuns definindo o norte inovador procura ultrapassar as práticas sociais alicerçadas na
das ações a serem desencadeadas, fortalecer a construção de uma exclusão, na discriminação, que inviabilizam a construção histórico-
coerência comum, mas indispensável, para que a ação coletiva produza social dos sujeitos.
seus efeitos.

Professor Pedagogo 107 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
d) Há um vínculo muito estreito entre autonomia e projeto polí- acadêmica participam dela, tendo compromisso com seu
tico-pedagógico. A autonomia possui o sentido sociopolítico acompanhamento e, principalmente, nas escolhas das trilhas que a
e está voltada para o delineamento da identidade instituci- instituição irá seguir. Dessa forma, caminhos e descaminhos, acertos e
onal. erros não serão mais da responsabilidade da direção ou da equipe
coordenadora, mas do todo que será responsável por recuperar o
A identidade representa a substância de uma nova organização
caráter público, democrático e gratuito da educação estatal, no sentido
do trabalho pedagógico. A autonomia anula a dependência e assegura
de atender os interesses da maioria da população.
a definição de critérios para a vida escolar e acadêmica.
Para modificar sua própria realidade cultural, a instituição
Autonomia e gestão democrática fazem parte da especificidade
educativa deverá apostar em novos valores. Em vez da padronização,
do processo pedagógico.
propor a singularidade; em vez de dependência, construir a autonomia;
e) A legitimidade de um projeto político-pedagógico está em vez de isolamento e individualismo, o coletivo e a participação; em
estreitamente ligada ao grau e ao tipo de participação de todos os vez da privacidade do trabalho pedagógico, propor que seja público; em
envolvidos com o processo educativo, o que requer continuidade de vez de autoritarismo, a gestão democrática; em vez de cristalizar o
ações. instituído, inová-lo; em vez de qualidade total, investir na qualidade para
f ) Configura unicidade e coerência ao processo educativo, deixa todos.
claro que a preocupação com o trabalho pedagógico enfatiza não só a É fundamental que se entenda, de maneira tão clara quanto
especificidade metodológica e técnica, mas volta-se também para as possível, a natureza geral dessa forma de conceber o projeto político-
questões mais amplas, ou seja, a das relações da instituição educativa pedagógico, fundado na concepção de inovação emancipatória ou
com o contexto social. edificante. Por um lado, o projeto é um meio que permite potencializar o
Construir o projeto político-pedagógico para a instituição trabalho colaborativo e o compromisso com objetivos comuns; por
educativa significa enfrentar o desafio da inovação emancipatória ou outro, sua concretização exige rupturas com a atual organização do
edificante, tanto na forma de organizar o processo de trabalho trabalho e o funcionamento das instituições educativas.
pedagógico como na gestão que é exercida pelos interessados, o que As noções de inovação e projeto político-pedagógico assumidas
implica o repensar da estrutura de poder. diferem da concepção conservadora e regulatória como rearranjo de
A instituição educativa não é apenas uma instituição que situações externas à situação inovada. Cabe ao pedagogo, o papel
reproduz relações sociais e valores dominantes, mas é também uma fundamental no sentido de clarear e Inovações e projeto político-
instituição de confronto, de resistência e proposição de inovações. A pedagógico... desvelar as concepções que respaldam as lógicas de
inovação educativa deve produzir rupturas e, sob essa ótica, ela inovação e do projeto político-pedagógico.
procura romper com a clássica cisão entre concepção e execução, uma
divisão própria da organização do trabalho fragmentado.
ROTEIRO PARA ELABORAÇÃO DO PPP

1. APRESENTAÇÃO
INOVAÇÕES E PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO.
1.1. Identificação: Nome da Instituição, endereço, contatos,
Nesta perspectiva, o projeto pedagógico inovador amplia a fundação, mantenedora etc.
autonomia da escola e esta? “nunca é empreendida a partir do
1.2. Breve histórico: para que o professor, aluno ou cooperado
isolamento e do saudosismo, mas a partir do intercâmbio e da
que estão ingressando conheçam o contexto do nascimento e
cooperação permanente como fonte de contraste e enriquecimento”
desenvolvimento de sua cooperativa educacional.
(Carbonell, 2002, p. 21).
1.3. Projeto Político-Pedagógico:

1.3.1. O que é? Sua necessidade: exigência da LDB ...
CONCEPÇÕES DE INOVAÇÃO EMANCIPATÓRIA OU EDIFICANTE
E PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO 1.3.2. Justificativa e Objetivo

É preciso entender que o projeto pedagógico é caracterizado 1.3.3. Como foi construído - Processo
como ação consciente e organizada. O projeto deve romper com o
1.3.4. Como está constituído - suas partes e a integração entre
isolamento dos diferentes segmentos da instituição educativa e com a
elas.
visão burocrática, atribuindo-lhes a capacidade de problematizar e
compreender as questões postas pela prática pedagógica.

A elaboração do projeto político-pedagógico sob a perspectiva da 2. MARCO REFERENCIAL
inovação emancipatória é um processo de vivência democrática à - o desejo, o sonho, a intencionalidade
medida que todos os segmentos que compõem a comunidade escolar e

Professor Pedagogo 108 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
2.1. MARCO REFERENCIAL GERAL 4.4. Projetos Pedagógicos (atividades extra-curriculares e de
integração interdisciplinar)
2.1.1. Visão de Homem, de Sociedade e de Mundo (enquanto
ideais a serem buscados) 4.5. Tratamento a ser dado aos temas transversais.

2.1.2. Grandes princípios e valores humanos 4.6. Disciplina (regras de convivência) - geralmente estão em
regimento ou regulamento anexo, mas que deve ser coerente com o
2.1.3. Princípios do cooperativismo
PPP, pois este é a Constituição da Escola (sugestão: que o regimento
2.1.4. Lembrar-se dos autores mais caros ao cooperativismo disciplinar seja revisto tão logo seja concluída a elaboração do PPP).
educacional: Freinet e Paulo Freire
4.7. Sistema de Avaliação do Rendimento dos alunos e controle
de frequência (não é demais lembrar que deve haver coerência entre
2.2. MARCO REFERENCIAL ESPECÍFICO DA EDUCAÇÃO este sistema e a Teoria de Aprendizagem adotada)

2.2.1. O que se entende por Educação (subsídios na LDB,
PCNs...) 5. AVALIAÇÃO DO PROJETO POLÍTICO-PEDAGÓGICO
2.2.2. Como se define a Escola no processo 5.1. Como será feito o acompanhamento da execução do PPP?
Educacional? Para que a Escola forma?
5.2. Como será a Avaliação da execução do PPP, nas suas
2.2.3. Qual o papel dos pais e da sociedade na etapas e no final do período letivo?
educação?

2.2.4. Qual a Teoria da Aprendizagem adotada pela
Escola? A DIDÁTICA E AS DIFERENTES FORMAS DE
ORGANIZAR O ENSINO. ORGANIZAÇÃO DO
TRABALHO PEDAGÓGICO NA ESCOLA:
3. DIAGNÓSTICO
O PEDAGOGO COMO EDUCADOR E MEDIADOR NO
- a realidade
AMBIENTE DE TRABALHO.
3.1. Breve quadro do mundo, do Brasil e da Educação na
atualidade. Segundo a nova LDB (Lei de Diretrizes e Bases) do Ministério da
Educação, a educação no Brasil está dividida nos seguintes níveis:
3.2. Um quadro da realidade mais próxima da escola: o
Educação Básica e Educação Superior.
município e o bairro.
A Educação Básica está organizada em Educação Infantil,
3.3. Os personagens da escola: alunos, professores, equipe
Ensino Fundamental e Ensino Médio. A Educação Superior está
pedagógica, funcionários, cooperados, organograma, conselhos,
organizada nos seguintes cursos e programas: cursos de graduação;
tradições etc.
programas de mestrado e doutorado e cursos de especialização,
3.4. Dados sobre a infraestrutura da escola (o que aponta para aperfeiçoamento e atualização, no nível de pós-graduação; cursos
possibilidades e limites na fase de programação) sequenciais de diferentes campos e níveis e cursos e programas de
extensão.

A Educação Infantil corresponde à primeira etapa da Educação
4. PROGRAMAÇÃO
Básica, não é obrigatória e destina-se às crianças com menos de sete
- as possibilidades anos de idade. Dentro do quadro de estabelecimentos da Educação
4.1. Calendário (se o PPP for revisto todo ano) - destaque para Infantil, as creches atendem às crianças de até três anos de idade e as
os eventos pré-escolas, às crianças de quatro a seis anos. A avaliação da
Educação Infantil é feita pelo acompanhamento e registro do
4.2. Organização curricular e ementas das disciplinas, com desenvolvimento da criança, sem o objetivo de promoção, mesmo para
bibliografia básica e complementar (livro texto, se for o caso) - com o acesso ao Ensino Fundamental.
destaque para a integração e organicidade na perspectiva da
interdisciplinaridade. O Ensino Fundamental é obrigatório para todas as crianças na
faixa etária de 7 a 14 anos. Possui a duração de oito séries e uma
4.3. Divisão dos núcleos dentro da escola (por ex: Educação jornada escolar anual de 800 horas-aula de atividades, distribuídas por
Infantil, 1a a 4a, 5a a 8a, Ensino Médio) - características e identidade um mínimo de 200 dias de efetivo trabalho escolar, excluído o tempo
de cada núcleo. reservado aos exames finais.

Professor Pedagogo 109 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
De acordo com a nova Lei de Diretrizes e Bases da Educação - medida que reforçou a vinculação da educação com o mundo do
LDB, a jornada escolar no Ensino Fundamental incluirá pelo menos trabalho e a prática social, consolidando a preparação para o exercício
quatro horas de trabalho efetivo em sala de aula, sendo da cidadania e propiciando a preparação básica para o trabalho.
progressivamente ampliado o período de permanência na escola, com
Além disso, os princípios pedagógicos da identidade, diversidade
ressalvas para o ensino noturno e outras formas alternativas de
e autonomia, da interdisciplinaridade e da contextualização passaram a
organização.
ser adotados como estruturadores para os novos currículos.
O Ensino Fundamental é gratuito nos estabelecimentos públicos,
O currículo pleno é elaborado a partir de matérias fixadas a nível
inclusive para quem não teve acesso a ele na idade própria. Na
nacional, por uma base comum, e a nível regional, por uma parte
estrutura organizacional do MEC, a Secretaria de Educação
diversificada, conforme a necessidade de atender às peculiaridades
Fundamental responde por esse nível de ensino.
locais, aos planos das escolas e às diferenças individuais dos alunos.
As escolas devem garantir que todos os alunos tenham acesso à
A base comum nacional dos currículos do Ensino Médio está
base comum nacional e à parte diversificada do currículo, exigida pelas
organizada em três áreas de conhecimento: Linguagens, Códigos e
características regionais e locais da sociedade, da cultura, da economia
suas Tecnologias; Ciências da Natureza, Matemática e suas
e dos alunos. A base comum nacional e sua parte diversificada devem
Tecnologias; Ciências Humanas e suas Tecnologias.
estar articuladas e juntas devem estabelecer a relação entre a
educação fundamental, a vida cidadã (Parâmetros Curriculares) e as Cabe a cada escola estabelecer em sua proposta pedagógica as
áreas de conhecimento.1) a vida cidadã articula vários aspectos, como: proporções de cada uma das três área no conjunto do currículo, os
a saúde, a sexualidade, a vida familiar e social, o meio ambiente, o conteúdos a serem incluídos em cada uma delas, tomando como
trabalho, a ciência e a tecnologia, a cultura e as linguagens.2) as áreas referência as competências descritas, os conteúdos e competências a
de conhecimento são assim apresentadas: Língua Portuguesa, Língua serem incluídos na parte diversificada, os quais poderão ser
Materna, para populações indígenas e migrantes, Matemática, selecionados em uma ou mais áreas, reagrupados e organizados de
Ciências, Geografia, História, Língua Estrangeira, Educação Artística, acordo com critérios que satisfaçam as necessidades da clientela e da
Educação Física, Educação Religiosa, de matrícula não obrigatória ao região.
aluno.
As propostas pedagógicas das escolas deverão ainda assegurar
De acordo com a definição de cada escola, o currículo pode ser o tratamento interdisciplinar e contextualizado para:1) Educação Física
ordenado em séries anuais de disciplinas, áreas de estudo ou e Arte, como componentes curriculares obrigatórios; 2) Conhecimentos
atividades. Também pode ser adotada uma organização em períodos de filosofia e sociologia, necessários ao exercício da cidadania.
semestrais e em ciclos, desde que esta assegure o relacionamento, a
O currículo escolar, como conjunto de conhecimentos e
ordenação e a sequência dos estudos.
experiências de aprendizagem oferecido aos estudantes, passa por
A oferta de estudos de recuperação é obrigatória e deve ser feita, vários níveis ou instâncias de elaboração.
preferencialmente, de forma paralela ao período letivo regular, ao invés
Fora da escola, estabelecem-se prioridades a partir da política
de ser oferecida entre os períodos. Esta mudança de orientação,
educacional, organizam-se diretrizes, leis, orientações e indicações dos
estabelecida pela nova LDB, estimula que as correções de curso sejam
conteúdos de ensino; os saberes são selecionados, organizados,
feitas durante o seu desenvolvimento, de maneira que as dificuldades
sequenciados e frequentemente detalhados em materiais como livros
sejam superadas sem afetar a progressão do aluno em relação ao
didáticos.
conteúdo.
Atuam nesse processo as autoridades educacionais, as
O Ensino Médio possui a duração de três séries e uma jornada
universidades, os autores de livros didáticos, as editoras etc.
escolar anual de 2.400 horas-aula de atividades, distribuídas por um
mínimo de 200 dias de efetivo trabalho escolar, excluído o tempo Resultante de todas essas discussões e decisões negociadas, o
reservado aos exames finais. currículo formal - previsto, documentado, recomendado, que sofreu
O Ensino Médio ainda não é obrigatório como o Ensino várias reelaborações servirá como grande parâmetro para organizar a
Fundamental. Por enquanto, a Constituição determina como dever do ação no ambiente da escola, mas não será exatamente replicado,
Estado a progressiva extensão de sua obrigatoriedade. repassado, ou distribuído para os alunos. Isso porque a escola não
executa simplesmente decisões curriculares tomadas fora dela;
O Ensino Técnico corresponde a um dos níveis de Educação
também elabora seu currículo, que é mais do que o recorte de cultura
Profissional e funciona de maneira paralela ou sequencial ao Ensino
organizado pare ser distribuído na escola.
Médio. Na estrutura organizacional do MEC, a Secretaria de Educação
Média e Tecnológica responde pelo nível médio de ensino acadêmico e
pelo nível técnico de Educação Profissional. A ADEQUAÇÃO DO CURRÍCULO À REALIDADE ESCOLAR
A reforma do Ensino Médio, promovida pelo MEC, alterou O currículo real, aquele que se desenvolve na escola, toma
significativamente as diretrizes curriculares desse nível de ensino, à forma e corpo na prática pedagógica. O currículo formal é transformado
Professor Pedagogo 110 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
e reorganizado para adequar-se à realidade da escola, articulando as p.63). essa seleção deve “ fortalecer o poder e a autonomia de grupos
opções dos professores e as necessidades dos alunos ao tempo das submetidos a qualquer forma de exploração opressão e discriminação.
disciplinas no quadro curricular. à divisão do tempo diário em aulas, aos Um currículo antimarginalização não apenas contém tópicos ou lições
materiais e recursos disponíveis, às formas de controle e sobre os problemas de grupos oprimidos, mas privilegia, em todo o seu
acompanhamento dos alunos, aos valores preservados e vividos no conteúdo e sua forma, essas questões”.
cotidiano escolar enfim a todo um modo de vida na escola. Essa
reorganização dos saberes a serem ensinados é também fruto de
negociações, opções, decisões que envolvem os educadores e REFLEXÃO SOBRE A SELEÇÃO E SEUS DESDOBRAMENTOS
viabilizam a proposta pedagógica nas condições reais da escola. A escolha de conteúdos exige, portanto, indagar se os saberes
selecionados não escondem conflitos e problemas sociais, se permitem
fazer circular na escola discursos e vozes de diferentes grupos e atores
NA ESCOLA APRENDE-SE MAIS DO QUE CONTEÚDOS SOBRE O
sociais, começando pelos dos próprios alunos. Essa escolha, na
MUNDO MATERIAL E SOCIAL
verdade, não se reduz ao planejamento do início de ano, mas constitui
Em cada escola essas condições estão presentes e interferem uma contínua reflexão sobre a seleção e seus desdobramentos, ao
na realização do currículo, impondo cortes, simplificações e ritmo de longo de todo o ano letivo.
desenvolvimento aos conteúdos e, ao mesmo tempo, introduzindo
aprendizagens implícitas, que tanto podem favorecer quanto impedir a
realização das intenções educativas declaradas pelos educadores. PEDEM FORMAS ESPECÍFICAS DE
Essa parcela implícita, ou currículo oculto, vem sendo insistentemente ORGANIZAÇÃO E APRESENTAÇÃO
apontada nos estudos críticos do currículo como de enorme importância Elaborar o currículo é ainda, preparar sua divulgação
na formação dos educandos, o que torna indispensável compreendê-la, organizando os saberes escolhidos de modo a serem desenvolvidos na
explicitá-la, buscando tornar a prática mais coerente com as intenções situação escolar; é planejar situações de ensino e aprendizagem,
educativas. Concordando com Santos e Moreira (1995, p.50), cuidando da articulação entre conteúdo e forma, com vistas à
acreditamos que na escola aprende se mais do que conteúdos sobre o apropriação do conhecimento pelos alunos. É preciso, pois, ter toda a
mundo material e social: “adquirem-se também consciência, atenção para não correr riscos como o de buscar uma forma ideal, ou
disposições e sensibilidade que comandam relações e comportamentos uma metodologia genérica de ensino, como se fosse possível ter uma
sociais do sujeito e estruturam sua personalidade”. fórmula para resolver toda a complexidade da aprendizagem escolar. O
modelo de ensino baseado apenas na transmissão coletiva consegue
dosar o conhecimento em porções que cabem no tempo descontínuo
NÃO É SIMPLES SELECIONAR SABERES
de aulas - são explicadas, resumidas, memorizadas com apoio dos
RELEVANTES E PREPARAR CITAÇÕES
livros didáticos, que organizam os conteúdos em lições e exercícios de
O currículo, então, determina e orienta o trabalho escolar e é fixação mas tal modelo não parece favorecer a aprendizagem real dos
determinado por ele. alunos. Para que sejam apropriados, conteúdos específicos pedem
formas específicas de organização e apresentação, ou seja, de ensino;
A escola participa de sua elaboração ao selecionar e organizar
e pessoas diferentes respondem de modos diferentes diante de
os saberes com vistas à transmissão e aprendizagem dos alunos. Esta
situações de aprendizagem.
não é uma tarefa meramente técnica, pois é preciso tomar decisões
que envolvem interesses, posicionamentos, sentimentos, conflitos,
divergências.
LIMITES DA ORGANIZAÇÃO
Não é simples selecionar saberes relevantes e preparar citações
Assim, dentro dos limites da organização escolar, é preciso
para sua apropriação; isso implica escolher conteúdos que tragam para
buscar maneiras de ensinar compatíveis com a metodologia específica
dentro da escola o conhecimento mais avançado, para que os jovens
das diferentes áreas do currículo e que respeitem as características do
possam se tornar “ contemporâneos de seu tempo”, como nos alerta
processo humano de conhecimento e de aprendizagem.
Gramsci; implica também selecionar conteúdos cuja abrangência
explicativa contribua para a compreensão da sociedade e da cultura em
que se vive e da realidade mais ampla. TRANSFORMAÇÃO EM FERRAMENTA DE
COMPREENSÃO DO REAL

FORTALECER O PODER E A AUTONOMIA A escola trabalha com o conhecimento: isso significa reconhecer
a escola como local de ingresso dos estudantes numa modalidade
Para tanto, é preciso não omitir problemas e contrastes sociais,
especial desse processo humano que não começa na escola e se
para poder explicar o presente em sua complexidade e refletir sobre
prolonga pela vida afora. 0 processo de conhecimento, mesmo em sua
alternativas de transformação social. Citando Santos e Moreira (1995,
modalidade escolar, implica um movimento de relações recíprocas
Professor Pedagogo 111 A Opção Certa Para a Sua Realização
APOSTILAS OPÇÃO A Sua Melhor Opção em Concursos Públicos
entre o sujeito conhecedor e o universo a ser conhecido. A ARTICULAÇÃO
escolarização deve portanto possibilitar que os alunos adquiram chaves
Articular o ensino e a aprendizagem implica articular conteúdo e
conceituais de compreensão de seu mundo e de seu tempo, permitindo
forma, tornando cada vez mais o ensino favorável à ocorrência da
também que tomem consciência das operações mobilizadas durante a
aprendizagem. Isso exige riqueza de situações, experiências e
aprendizagem, para que prossigam com autonomia nesse processo de
recursos, para favorecer o processo múltiplo, complexo e relacional de
conhecimento. Assim, diante do recorte organizado de saberes que
conhecer e incorporar dados novos ao repertório de significados,
constituem o currículo, não se pode pensar em simplesmente entregar
utilizando-os na compreensão orgânica dos fenômenos, no
informações prontas a sujeitos que as recebam e assimilem. É na
entendimento da prática social.
relação dos estudantes com o conhecimento produzido que este será
transformado em ferramenta de compreensão do real, em parte
indissociável do conhecimento-processo, ou seja, da ação humana do A ORGANIZAÇÃO CURRICULAR
buscar significados, elucidar o real, constituindo o objeto e se
constituindo como sujeito. A organização curricular da escola básica de uma maneira geral
vem sendo alvo de numerosas críticas, tanto de educadores de renome
nacional, como da parte de educadores com atuação internacional.
O CONHECIMENTO-PRODUTO NÃO SURGE COMO ALGO DADO Nóvoa (1998), por exemplo, afirma que as atividades da escola
Essa abordagem do conhecimento considerado como processo e desenvolvidas”numa pedagogia centrada essencialmente na sala de
produto é detalhada e aprofundada por Leite (1995), que discute aula (com) horários escolares rigidamente estabelecidos que põem em
concepções de conhecimento e o processo complexo de sua produção, prática um controlo social do tempo escolar, saberes organizados em
em que intervêm a determinação histórica imediata, mas também a disciplinas escolares que são as referências estruturantes do ensino e
concepção de mundo que perpassa as ações humanas, e relações do trabalho pedagógico” (p. 22),contribuem de forma acentuada para
sociais específicas; o conhecimento-produto não surge como algo aumentar as dificuldades de aprendizagens das crianças.
dado, acabado e neutro, mas carrega, mesmo como resultado pronto, Para o autor e demais críticos da organização curricular que tem
as marcas do processo inacabado, provisória e histórico de sua como base o regime seriado, é necessária uma reorganização que
construção. permita uma melhor administração do tempo da escola; é necessário
trabalhar com novas formas de organização curricular, bem como
redimensionar a forma como os professores(as) trabalham com os
SUJEITOS INTERAGEM ENTRE SI E
conteúdos, a fim de que a escola básica possa melhorar seu
COM LINGUAGENS E SABERES
desempenho.
O conhecimento é então compreendido como construção social,
No Brasil, diversos estudos (Krug e Azevedo, 2000; Azevedo,
segundo os principais autores da Sociologia do Currículo. Santos e
1999, 2000; Arroyo, 1999) têm trazido críticas à organização curricular
Moreira (1995, p.51) comentam que ele é “produto de concordância e
vigente nas escolas de ensino fundamental.
consentimento de indivíduos que vivem determinadas relações sociais
(por exemplo, de classe, raça e gênero) em determinados momentos”. As críticas ressaltam que nas escolas que adotam o regime
Essa construção, portanto, ocorre pela interação social e depende do seriado, os tempos e os espaços da escola, do professor(a) e do
contexto social e cultural, de um referencial comum; sujeitos interagem aluno(a) ficam subordinados, principalmente, aos conteúdos
entre si e com linguagens e saberes, trazendo para a relação sua programáticos a serem”ensinados” e “aprendidos”; que ao serem
cultura e seus significados. colocados como elemento central do regime seriado, conteúdos
passaram a constituir o eixo da organização dos graus, das séries, das
disciplinas, das grades curriculares, das avaliações, das recuperações,
AS MUDANÇAS CULTURAIS CHEGAM ÀS ESCOLAS das aprovações e das reprovações; que como eixo da organização
ATRAVÉS DOS CURRÍCULOS curricular, os conteúdos institucionalizaram o caráter precedente e
acumulativo de sua transmissão e apreensão, fazendo com que a
Processo e produto do conhecimento estão presentes na
criança tenha dificuldades na aprendizagem, o que geralmente
construção do conhecimento escolar. Assim, vai se tornando claro que
concorre para a reprovação e/ou evasão escolar, principalmente das
selecionar conteúdos não é apenas fazer uma lista de conhecimentos
crianças que em virtude de sua condição socioeconômica não
que se transmitem num modelo escolhido a priori, mas que o currículo
conseguem ter outros meios suficientemente significativos para
emerge das condições reais em que se dá o trabalho com o
aprender.
conhecimento. É nesse sentido que entendemos a afirmação de
Gimeno Sacristán (1996, p.37), em seu estudo sobre escolarização e As dificuldades de aprendizagem dessas crianças, ainda
cultura: “As mudanças culturais chegam às escolas através dos segundo os autores mencionados,são consequências de um ensino em
currículos, mas apenas na medida em que se plasmam em práticas aulas estanques, com ênfase nos rituais de transmissão, de avaliação,
concretas”. de reprovação, de repetência, etc., que instaurou a predefinição do

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tempo: “um tempo”para cada aula, para cada “prova”, para a aquisição Segundo SAVIANI (1987, p. 23), “a palavra reflexão vem do
da escrita, do cálculo, para cumprimento do”programa”. Por verbo latino ‘reflectire’ que significa ‘voltar atrás’. É, pois um (re)pensar,
conseguinte, na ótica de Krug e Azevedo (2000) e Azevedo (1999, ou seja, um pensamento em segundo grau. (.. .) Refletir é o ato de
2000), a organização curricular tendo por base o regime seriado vem retomar, reconsiderar os dados disponíveis, revisar, vasculhar numa
contribuindo significativamente para alógica assumida pela escola busca constante de significado. É examinar detidamente, prestar
brasileira de ensino fundamental – o pensar separadamente, que não atenção, analisar com cuidado. E é isto o filosofar’.
permite aos alunos(as) a visão integrada dos saberes.
Entretanto, não é qualquer tipo de reflexão que se pretende e sim
Atribui-se, dessa maneira, ao regime seriado, parte da culpa pelo algo articulado, crítico e rigoroso. Ainda segundo SAVIANI (1987, p. 24),
fracasso escolar de um acentuado número de alunos(as) que não para que a reflexão seja considerada filosófica, ela tem de preencher
conseguem permanecer na escola ou concluir os estudos com êxito, na três requisitos básicos, ou seja, ser:
tentativa de excluir, de uma forma talvez radical, o regime seriado que
• “radical” - o que significa buscar a raiz do problema;
foi adotado na escola brasileira desde os anos iniciais da República
(1930).Com base nesse discurso e evidenciando uma preocupação • “rigorosa” - na medida em que faz uso do método científico;
com a aprendizagem efetiva de todos os alunos(as) fundada num • “de conjunto” - pois exige visão da totalidade na qual o fe-
compromisso coletivo, os autores apontam para a construção de nômeno aparece.
práticas educativas que possibilitem uma reestruturação que permita
“redimensionar a lógica excludente da organização curricular seriada” Pode-se, pois, afirmar que o planejamento do ensino é o
(Freitas, 1999, p. 40) e concorram para a criação de mecanismos de processo de pensar, de forma “radical”, “rigorosa” e “de conjunto”, os
inclusão e de permanência com sucesso das crianças das classes problemas da educação escolar, no processo ensino-aprendizagem.
social e economicamente menos favorecidas.Já existem propostas Consequentemente, planejamento do ensino é algo muito mais amplo e
educacionais dos sistemas de ensino de alguns Estados e Municípios, abrange a elaboração, execução e avaliação de planos de ensino.
que apontam para formas diversificadas de organização da escola O planejamento, nesta perspectiva, é, acima de tudo, uma
básica. atitude crítica do educador diante de seu trabalho docente.

Apesar de os educadores em geral utilizarem, no cotidiano do
ELEMENTOS CONSTITUTIVOS DAS AÇÃO DO trabalho, os termos “planejamento” e “plano” como sinônimos, estes
PEDAGOGO NA ORGANIZAÇÃO DO não o são.
TRABALHO PEDAGÓGICO NA ESCOLA PÚBLICA É preciso, portanto, explicitar as diferenças entre os dois
Cabe ao pedagogo aplicar seus conhecimentos na formação de conceitos, bem como a íntima relação entre eles.
professores e no planejamento e funcionamento de cursos, escolas e Enquanto o planejamento do ensino é o processo que envolve “a
instituições de ensino. atuação concreta dos educadores no cotidiano do seu trabalho
A base do trabalho do pedagogo deve ser a docência. pedagógico, envolvendo todas as suas ações e situações, o tempo
todo, envolvendo a permanente interação entre os educadores e entre
Neste sentido sua formação envolve a tríplice dimensão: os próprios educandos” (FUSARI, 1989, p. 10), o plano de ensino é um
docência pesquisa e gestão educacional. momento de documentação do processo educacional escolar como um
Na medida em que se concebe o planejamento como um meio todo. Plano de ensino é, pois, um documento elaborado pelo(s)
para facilitar e viabilizar a democratização do ensino, o seu conceito docente(s), contendo a(s) sua(s) proposta(s) de trabalho, numa área
necessita ser revisto, reconsiderado e redirecionado, e de preferência, e/ou disciplina específica.
pelo pedagogo. O plano de ensino deve ser percebido como um instrumento
Na prática docente atual, o planejamento tem-se reduzido à orientador do trabalho docente, tendo-se a certeza e a clareza de que a
atividade em que o professor preenche e entrega à secretaria da escola competência pedagógico-política do educador escolar deve ser mais
um formulário. Este é previamente padronizado e diagramado em abrangente do que aquilo que está registrado no seu plano.
colunas, onde o docente redige os seus “objetivos gerais”, “objetivos A ação consciente, competente e crítica do educador é que
específicos’ “conteúdos”, “estratégias” e “avaliação”. transforma a realidade, a partir das reflexões vivenciadas no
Em muitos casos, os professores copiam ou fazem fotocópias do planejamento e, consequentemente, do que foi proposto no plano de
plano do ano anterior e o entregam à secretaria da escola, com a ensino.
sensação de mais uma atividade burocrática cumprida. Um profissional da Educação bem-preparado supera eventuais
É preciso esclarecer que planejamento não é isto. Ele deve ser limites do seu plano de ensino. O inverso, porém, não ocorre: um bom
concebido, assumido e vivenciado no cotidiano da prática social plano não transforma, em si, a realidade da sala de aula, pois ele
docente, como um processo de reflexão. depende da competência-compromisso do docente.

Professor Pedagogo 113 A Opção Certa Para a Sua Realização
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Desta forma, planejamento e plano se complementam e se preocupação com uma síntese final do dia ou dos quarenta ou
interpenetram, no processo ação-reflexão-ação da prática social cinquenta minutos vivenciados durante a hora-aula. A aula, no contexto
docente. da educação escolar, é uma síntese curricular que concretiza, efetiva,
constrói o processo de ensinar e aprender.
Como Formalizar o Plano de Ensino?
O aluno precisa ir percebendo, sentindo e compreendendo cada
É preciso assumir que é possível e desejável superar os entraves
aula como um processo vivido por ele para que, na especificidade da
colocados pelo tradicional formulário, previamente traçado, fotocopiado
educação escolar, avance, como diz SAVIANI (1987), do “senso
ou impresso, onde são delimitados centímetros quadrados para os
comum” à “consciência filosófica”.
“objetivos, conteúdos, estratégias e avaliação”.
A aula, por sua vez, deve ser concebida como um momento
A escola, através do pedagogo, pode e deve encontrar outras
curricular importante, no qual o educador faz a mediação competente e
formas de lidar com o planejamento do ensino e com seus
critica entre os alunos e os conteúdos do ensino, sempre procurando
desdobramentos em planos e projetos. É importante desencadear um
direcionar a ação docente para: estimular os alunos, via trabalho
processo de repensar todo o ensino, buscando um significado
curricular, ao desenvolvimento da percepção crítica da realidade e de
transformador para os elementos curriculares básicos:
seus problemas;. estimular os alunos ao desenvolvimento de atitudes
• objetivos da educação escolar (para que ensinar e apren- de tomada de posição ante os problemas da sociedade; valorizar nos
der?); alunos atitudes que indicam tendência a ações que propiciam a
• conteúdos (o que ensinar e aprender?); superação dos problemas objetivos da sociedade brasileira.

• métodos (como e com o que ensinar e aprender?); Um ponto que necessita ficar bastante claro é que o livro didático
é um dos meios de comunicação no processo de ensinar e aprender.
• tempo e espaço da educação escolar (quando e onde ensi- Como tal, ele faz parte do método e da metodologia de trabalho do
nar e aprender?); professor, os quais, por sua vez, estão ligados ao conteúdo que está
• avaliação (corno e o que foi efetivamente ensinado e sendo trabalhado, tendo em vista o atingimento de determinados
aprendido?). objetivos educacionais (pontos de chegada).

O fundamental não é decidir se o plano será redigido no O livro didático é apenas um dos instrumentos comunicacionais
formulário x ou y, mas assumir que a ação pedagógica necessita de um do professor no processo de educação escolar, tanto na Pré-escola,
mínimo de preparo, mesmo tendo o livro didático como um dos como no 1 °, 2° ou 3°- Grau’. Isto significa que a capacidade do
instrumentos comunicacionais no trabalho escolar em sala de aula. professor deve ser mais abrangente, não se limitando ao mero recorrer
ao livro didático. Um livro de categoria média, nas mãos de um bom
A ausência de um processo de planejamento do ensino nas
professor, pode tornar-se um excelente meio de comunicação, pois a
escolas, aliada às demais dificuldades enfrentadas pelos docentes no
capacidade do docente está além do livro e de seus limites. Já um bom
exercício do seu trabalho, tem levado a uma contínua improvisação
livro nas mãos de um profissional pouco capacitado acaba muitas
pedagógica nas aulas. Em outras palavras, aquilo que deveria ser uma
vezes reduzindo-se à função de um “pseudodocente”. Em outras
prática eventual acaba sendo uma “regra”, prejudicando, assim, a
palavras, o livro didático acaba sendo considerado o “professor”, o que
aprendizagem dos alunos e o próprio trabalho escolar como um todo.
não deve ocorrer, tendo em vista a especificidade comunicacional
E é aí que entra o trabalho do Pedagogo: sugerir que os escolar de transmissão/assimilação, de interação ligada aos conteúdos
docentes discutam a questão da “forma” e do “Conteúdo” no processo de ensino e aprendizagem, que deve expressar-se entre o docente e
de planejamento e elaboração de planos de ensino, buscando seus alunos, mediada metodicamente por livros e outros meios de
alternativas para superar as dicotomias entre fazer e pensar, teoria e comunicação, nas aulas, para atingir os objetivos educacionais
prática, tão presentes no cotidiano do trabalho dos nossos professores. escolares.

O preparo das aulas é uma das atividades mais importantes do
A PRIORIDADE DO PROCESSO DE PLANEJAMENTO
trabalho do profissional de educação escolar. Nada substitui a tarefa de
preparação da aula em si. Os três tipos de plano (de currículo, de ensino e escolar) se
complementam, se interpenetram e compõem o corpo do plano de
Cada aula é um encontro curricular, no qual, nó a nó, vai-se
currículo da escola. Entretanto, na prática das escolas, devido à quase
tecendo a rede do currículo escolar proposto para determinada faixa
total falta de condições de trabalho docente, a elaboração dos planos
etária, modalidade ou grau de ensino.
escolar, de curso e de ensino tem-se revelado complexa, fragmentada,
Também aqui vale reforçar que faz parte da competência teórica longe mesmo, em alguns casos, daquela organicidade desejada para o
do professor, e dos seus compromissos com a democratização do processo ensino-aprendizagem.
ensino, a tarefa cotidiana de preparar suas aulas, o que implica ter
É preocupante a situação dos professores; eles têm de entregar
claro, também, quem é seu aluno, o que pretende com o conteúdo,
planos gerais das disciplinas, planos de ensino e, no entanto, não
como inicia rotineiramente suas aulas, como as conduz e se existe a

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possuem condições para o preparo das aulas, o que é o mais consciente, competente e crítico; das articulações entre conteúdos,
fundamental. métodos, técnicas e meios de comunicação; e da avaliação no ensino-
aprendizagem.
Vale retomar, contudo, a questão colocada e tentar respondê-la.
Algo precisa ser feito para reverter o quadro, e um dos pontos de Em suma, a elaboração (coletiva/individual) dos planos de ensino
partida, dentre outros, é ‘o de recuperação do plano de ensino, no depende da visão de mundo que temos e do mundo que queremos, da
sentido de preparo das aulas, facilitando, assim, o trabalho docente no sociedade brasileira que temos e daquela que queremos, da escola que
processo ensino-aprendizagem. temos e daquela que queremos.

Na atual conjuntura problemática em que se encontra a escola, o Para vivenciar o processo de planejamento, incluindo o trabalho
pedagogo deve estimular os professores a prepararem as suas aulas, com planos de ensino, de acordo com as necessidades de um bom
garantindo, deste modo, um trabalho mais competente e produtivo no trabalho pedagógico, é preciso que o grupo de educadores da escola
processo ensino-aprendizagem, no qual o professor seja um bom sinta e assuma a necessidade de transformar a realidade da escola-
mediador entre os alunos (com suas características e necessidades) e sociedade e conceba o planejamento como um dos meios a serem
os conteúdos do ensino. utilizados para efetivar esta transformação.

Três aspectos necessitam ser considerados quando se fala em Vale insistir que o trabalho de planejamento e,
transformação da realidade do planejamento do ensino nas escolas: consequentemente, a tarefa de preparar (pensar e redigir), vivenciar,
acompanhar e avaliar planos de ensino são ações e reflexões que
• Transformações nas condições objetivas de trabalho do
devem ser vivenciadas pelo grupo de professores e não apenas por
professor na escola, garantindo espaços nos quais os docentes
alguns deles.
possam-se reunir e discutir o próprio trabalho, problematizando-o, como
um meio para o seu próprio aperfeiçoamento. É praticamente Um segundo aspecto refere-se à necessidade de o grupo de
impossível falar em processo de planejamento para docentes que educadores ter uma clara percepção dos problemas básicos da sua
permanecem 40 horas dentro da sala de aula. E isto é uma conquista escola, curso, disciplina e, principalmente, das suas aulas.
que a categoria dos profissionais da Educação deve conseguir do
Os problemas devem ser identificados, caracterizados, tendo em
Estado, garantindo, é claro, que as “horas-atividades” sejam cumpridas
vista a sua superação.
na escola, nas quais as reuniões, discussões e ações de capacitação
deverão ocorrer, numa articulação interessante com a prática social Os educadores escolares necessitam, pois, desenvolver a
pedagógica cotidiana dos docentes. atitude-habilidade-conhecimento de perceber as “pontas dos
problemas” (manifestações) e, a partir delas, buscar as suas causas
• Transformações sérias nos cursos que formam educadores -
(raízes). O processo de buscar as raízes dos problemas representa o
Magistério, Pedagogia e Licenciaturas -, procurando garantir uma
esforço