Se¸˜o 2: Interpreta¸˜o Geom´trica – Campo de Dire¸˜es ca ca e co

Defini¸˜o. Dizemos que uma EDO de 1a ordem est´ em forma normal se y est´ isolado, ou ca a a seja, se a equa¸˜o for da forma ca y = F (x, y) , onde F (x, y) ´ uma fun¸˜o de duas vari´veis. e ca a Exemplos: y = xy est´ em forma normal; a x + y y = xy n˜o est´, mas pode facilmente ser posta em forma normal; a a xy + y
3

= y n˜o est´ em forma normal. a a

Exemplo 1. Consideremos a equa¸˜o diferencial ca y = x2 + y 2 . (1)

a ca Esta ´ uma EDO de 1a ordem em forma normal. N˜o sabemos resolver a equa¸˜o (1), mas e vamos ver que por considera¸˜es geom´tricas ´ poss´ co e e ıvel ter uma id´ia do comportamento de e suas solu¸˜es. co Qual a declividade da solu¸˜o que passa pelo ponto (1, 1)? Mais precisamente, qual ´ a declivica e dade da reta tangente ` solu¸˜o passando pelo ponto (1, 1), nesse ponto? A pr´pria equa¸˜o a ca o ca 2 + 12 = 2. Desenhando, ent˜o, um pequeno segnos diz que essa declividade vale y = 1 a mento de reta centrado no ponto (1, 1) e com declividade 2, sabemos que este pequeno segmento tangencia a solu¸˜o no ponto (1, 1). Fazemos o mesmo procedimento com um n´mero grande ca u de pontos: para cada um destes pontos P = (x, y) calculamos o valor do coeficiente angular y = F (x, y) = x2 + y 2 e desenhamos um pequeno segmento de reta com esta declividade, centrado no ponto P = (x, y). Fica determinado assim um campo de dire¸˜es, a cada ponto co corresponde uma dire¸˜o. As solu¸˜es da equa¸˜o diferencial s˜o precisamente as curvas que ca co ca a ´ podem ser tra¸adas tangenciando em cada um de seus pontos o campo de dire¸˜es. E importante c co que a equa¸˜o esteja em forma normal, para que, dado qualquer ponto (x, y) possamos facilmenca
1 0.8 0.6 y(x) 0.4 0.2 0

–1

–0.8

–0.6

–0.4

–0.2

0.2

0.4 x

0.6

0.8

1

–0.2 –0.4 –0.6 –0.8 –1

te calcular o valor F (x, y) da declividade neste ponto. Existem programas de computador para desenhar campos de dire¸˜es, mas quando se usa co um processo mais manual, para tornar a tarefa exeq¨´ uıvel, ´ conveniente organizar o trabalho da e seguinte forma: desenhar de uma vez todos os pequenos segmentos do campo de dire¸˜es que tenham co uma mesma inclina¸˜o. Em nosso exemplo, da EDO ca y = x2 + y 2 , podemos come¸ar desenhando todos c os segmentos de inclina¸˜o 1. O que facilita ´ que ca e eles s˜o todos paralelos entre si. Mas em que pona tos devemos centr´-los? Nos pontos que satisfazem a x2 +y 2 = 1 (um c´ ırculo). A seguir podemos desenhar os v´rios pequenos segmentos de inclina¸˜o 1/2. a ca

Eles est˜o centrados nos pontos que satisfazem F (x, y) = x2 + y 2 = 1/2 (um c´ a ırculo interno ao anterior). E vamos continuando este processo. Para diversos valores de k vamos desenhando, de uma vez, todos os segmentos de inclina¸˜o k. Precisamos descobrir onde estes segmentos ca est˜o centrados. No presente exemplo s˜o em pontos sobre um c´ a a ırculo, mas, no caso geral, s˜o a

No entanto. E claro que quanto mais preciso for o esbo¸o do campo de co c dire¸˜es. a a a co 2 . elipses. No presente exemplo. –1 –2 sobre cada uma destas semi-retas devemos desenhar pequenos segmentos de reta paralelos entre si. Consideremos a equa¸˜o diferencial ca x y =− . y) = k ca co determinam uma fam´ de curvas no plano. y (2) ca Novamente ´ uma EDO de 1a ordem em forma normal. ou seja com mesma inclina¸˜o. Agora fica muito f´cil fazer o esbo¸o do campo de dire¸˜es. c´ e ırculos n˜o s˜o gr´ficos de fun¸˜es. como j´ foi feito na Sess˜o 1. s˜o apenas os semic´ ca a a ırculos que resultam de remover os pontos sobre o eixo X. O eixo dos X est´ fora de cogita¸˜o. 0 –2 –1 1 2 Note que os segmentos desenhados s˜o todos pera x 1 pendiculares ` is´clina y = − k x (segue do fato que a o duas retas s˜o perpendiculares quando o produto de a –1 seus coeficientes angulares for igual a −1). Al´m disto. chamadas de is´clinas. y que representa a fam´ das retas passando pela ılia origem. ou no semiplano inferior y < 0. Mas s´ vamos ter certeza de que s˜o c´ o a ırculos e n˜o. As is´clinas da EDO s˜o as a ca o a curvas x − = k. Conclu´ ca e a ımos que as is´clinas na verdade s˜o as semi-retas n˜o horizono a a tais partindo da origem. Ou seja. a c co Primeiro tra¸amos as retas passando pela origem.os pontos cujas coordenadas satisfazem a equa¸˜o F (x. que se reduz ` origem. Desenhamos pequenos segmentos de dek 1 clividade k centrados nos pontos da reta y = − k x. para sermos bem precisos. Como vimos no exemplo 1. podemos ter uma id´ia a co ca e ´ do comportamento de suas solu¸˜es. todas as is´clinas s˜o c´ ca o a ırculos. melhor ser´ esta id´ia sobre o comportamento das solu¸˜es. que sugere fortemente que as solu¸˜es s˜o os c´ co a ırculos passando pela origem. Qual o valor dessa inclina¸˜o? Para descobrir isto. Mesmo assim ´ interessante a a a e aplicar o m´todo geom´trico exposto acima para. Obtemos a figura mostrada acima. Assim mesmo sem saber resolver a equa¸˜o. c –2 Em seguida. Na verdade n˜o s˜o c´ a a a ırculos completos pois a equa¸˜o n˜o faz sentido nos pontos do eixo X. y) = − = k y x ´ parte da reta de equa¸˜o y = − que tem declivie ca 1 y(x) k 1 dade − . Esta palavra significa ılia o mesma inclina¸˜o. Esta equa¸˜o pode ser facilmente e resolvida separando as vari´veis. para cada uma delas tra¸amos pequenos c segmentos de retas ortogonais. Elas c co c s˜o as solu¸˜es da EDO. notemos que nossa EDO faz sentido c co 2 y(x) 1 –2 –1 0 1 x 2 apenas para y = 0. Estas equa¸˜es F (x. Inicialmente. antes mesmo de resolver a EDO. co a e co Exemplo 2. depois de resolvermos a EDO. lembre que iso=igual. y) = k. podemos tentar esbo¸ar as curvas que tangenciam o campo. exceto aquela que corresponde ` inclina¸˜o k = 0. note que ca ca 2 a is´clina o x f (x. como o eixo dos X est´ fora de a cogita¸˜o. a origem tamb´m est´. devemos resolvˆ-la ou no semiplano superior e y > 0. obter um e e esbo¸o e o comportamento de suas solu¸˜es. por exemplo. Uma vez tendo o a ca a esbo¸o do campo de dire¸˜es.

Portanto. y0 ). y) y(x0 ) = y0 tem solu¸ao unica. para que se comprenda como ´ natural o que o teorema afirma. s´ ´ necess´rio a a oe a considerar constante de integra¸˜o de um dos lados. comprovando que ´ uma fam´ de c´ e ılia ırculos. Vamos co o e ver com exemplos que fora destas hip´teses j´ n˜o se pode garantir que isto n˜o aconte¸a.Para resolver a EDO. o problema de valor inicial c˜ y = F (x. A primeira ´ que em cada ponto da regi˜o D passa uma co e a solu¸˜o da EDO (existˆncia). O teorema s´ pode ser realmente provado em um curso mais avan¸ado. como j´ foi explicado no exemplo 1 da sess˜o 1. Dada uma EDO de 1a ordem em forma normal e y = F (x. ent˜o. Decorre da unicidade ca e e o que duas solu¸˜es n˜o podem nunca se encontrar. 2 2 Multiplicando por 2 e chamando 2C = K. y0 ) da regi˜o D passa uma e somente uma a a a solu¸ao da EDO. y) ´ uma fun¸ao de duas vari´veis. y) . Esta ´ a id´ia intuitiva por traz do teorema abaixo. constantemente ir corrigindo o rumo. Ent˜o. co e e ´ E importante ter consciˆncia de que o argumento que acabamos de apresentar ´ puramente ine e tuitivo. dx y A seguir. Quando calculamos as integrais. resolver uma EDO (de 1a ordem em forma norca mal) significa encontrar as curvas que tangenciam o campo de dire¸˜es. Observa¸˜o importante. come¸amos a nos deslocar na dire¸˜o do campo. Devemos. Geometricamente. nem se cruzar e nem se tangenciar. tendo derivadas parciais de 1a ordem cont´ e c˜ a em uma regi˜o D do plano. a partir dele. dado um ponto co a (x0 . Isto. Mas. A segunda ´ que passa uma s´ (unicidade). ent˜o em cada ponto (x0 . obtemos finalmente a solu¸˜o geral em forma impl´ ca ıcita x2 + y 2 = K. c ca a a fim de acompanhar o campo de dire¸˜es. ca x2 y2 = − + C. para as equa¸˜es satisfazendo as hip´teses do Teorema de Existˆncia e Unicidade. Em outras palavras. o a a a c 3 . 2 2 ´ E mais interessante escrever na forma x2 y 2 + = C. ´ co a e claro. ca o c Teorema de Existˆncia e Unicidade. c˜ ´ O Teorema acima faz duas afirma¸˜es. ` medida que c ca a avan¸amos. come¸amos reescrevendo na nota¸˜o c ca dy x =− . mas n˜o serve como o e a demonstra¸˜o do mesmo. ınuas onde F (x. a dire¸˜o do campo muda. separamos as vari´veis a y dy = −x dx e integramos y dy = − x dx.

consideremos a fam´ de todas as curvas dela obtidas por ılia transla¸˜o horizontal ca y = (x − C)3 . Acima j´ escrevemos a constante de integra¸˜o em forma de ln C. dy 2dx = y x ou y = 0 . em cada ponto do semiplano e y > 0 passa uma e uma s´ solu¸˜o da EDO. para C = 0. portanto. Mas de (3) segue que x − C = y 3 e. Consideremos a EDO xy = 2y . Assim.Exemplo 3. Estamos. No entanto ´ f´cil verificar que a fun¸˜o ılia e ca e a ca constante y = 0 tamb´m ´ uma solu¸˜o da EDO (4). ca a x dy = 2y dx . Em aparente contradi¸˜o com o Teorema de ca 6 Existˆncia e Unicidade. A equa¸˜o xy = 2y e ca n˜o est´ em forma normal e. de fato. 2 1 (4) Conclu´ ımos que a fam´ (3) ´ solu¸˜o da EDO (4). por exemplo. 0) passa mais de uma solu¸˜o (todas ca as solu¸˜es passam pela origem). Uma solu¸˜o particular ´ y = 0. Logo a solu¸˜o geral ´ a ca ca e y = Cx2 . Por deriva¸˜o econtramos ılia ca ca y = 3(x − C)2 . o ca Exemplo 4. mas passa tamb´m uma outra solu¸˜o. ln y = 2 ln x + ln C . que faz parte da fam´ (3). o teorema nada a a afirma a respeito dela. b) n˜o passa nenhuma solu¸˜o. As demais s˜o econtradas integrando ca e a dy =2 y dx x . 2y x e. para C = 0. Note que a solu¸˜o particular y = 0 est´ inclu´ na solu¸˜o geral. pelo ponto (0. diante de uma EDO (3) em forma normal. ent˜o. ´ E interessante notar que se diminuirmos a regi˜o. Esta EDO pode ser resolvida por separa¸˜o de vari´veis. 0) passa uma solu¸˜o e e ca ca y = x3 . co - – Se b = 0. Dada a curva y = x3 . para a qual passam ca 4 . Note que a co a regi˜o D em que a equa¸˜o faz sentido ´ o plano a ca e todo. em completo acordo com o Teorema de Existˆncia e Unicidade. nesta regi˜o menor a equa¸˜o pode ser a ca y = posta na forma normal. o semiplano da direita y > 0. (3) Consideremos agora a situa¸˜o inversa de determinar uma EDO de primeira ordem da qual a ca fam´ (3) seja a solu¸˜o geral. a y = 3y3 . pelo ponto (0. observamos: e – Pelo ponto (0. a ılia e ca fun¸˜o y = 0. a ca Na verdade n˜o h´ aqui contradi¸˜o alguma com o Teoa a ca rema de Existˆncia e Unicidade. a tomando D como sendo. ca a ıda ca Ao lado est˜o mostradas as solu¸˜es da EDO.

y) deve ter derivadas parciais de primeira ordem cont´ ınuas. 1 5 . onde e e 2 F (x. y) = 2 y − 3 e esta ultima express˜o n˜o est´ definida e muito menos ´ cont´ ´ a a a e ınua para y = 0. y). Notemos que (3) ´ uma EDO da forma y = F (x. 0). Fy (x. y) = 3 y 3 . No presente exemplo. Mas no Teorema de Existˆncia e Unicidade existe a hip´tese de que fun¸˜o e o ca F (x. Cabe ent˜o perguntar porque isto n˜o contradiz o co a a Teorema de Existˆncia e Unicidade.duas solu¸˜es diferentes pelo ponto (0.

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