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FOGE, NICKY, FOGE!

Nicky Cruz
e Jamie Buckingham

Título original em inglês: Run Baby Run
Tradução de Adiel de Almeida Oliveira
6ª.edição, 1980
Editora Betânia
Digitalizado, revisado e formatado por SusanaCap

Prefácio

QUANDO TOMEI A INICIATIVA de realizar este
projeto, Catherine Marshall comentou que escrever um
livro deste tipo é como ter um filho. Eu teria de viver
com ele, até que nascesse.
Neste caso, não fui só eu quem teve de viver com
ele, mas a minha família e também a Igreja Batista do
Tabernáculo que eu estava pastoreando. Sofreram
comigo todos os ataques de mal-estar matutino, todas
as dores de parto, e até mesmo uns dois alarmes falsos.
Mas, tanto minha família como a igreja, compreenderam
que este livro era concebido pelo Espírito Santo, escrito
com oração e lágrimas, e deveria ser publicado para a
glória de Deus. A igreja praticamente libertou-me de
todas as obrigações, até terminá-lo; além disso, vários
dos membros ajudaram no trabalho de datilografia.
Contudo, os padrinhos do livro foram John e
Tibby Sherril e os editores da revista Guideposts. A
recomendação e a confiança de John deram início ao
projeto, e no seu término, foi a crítica do casal Sherril
que nos deu a visão final da história violenta, mas
empolgante, da vida de Nicky Cruz.
Os méritos da movimentação da história em si
cabem, porém, a Patsy Higgins, que ofereceu volun-
tariamente os seus serviços para a glória de Deus. Ela
viveu e sentiu o manuscrito como crítica, editora e
datilógrafa — revelando um talento para cortar e
reescrever, que só pode ter sido dado por Deus.
O livro em si quebra uma das regras básicas da
literatura. Termina abruptamente. Não há um final
apoteótico ou bem elaborado. Cada vez que eu en-

trevistava Nicky Cruz, ele relatava uma experiência nova
e fantástica, material que daria para outro livro — talvez
para vários. Portanto, Foge, Nicky, Foge! é a história, tão
exata, quanto possível, dos primeiros vinte e nove anos
da vida de um moço, cujos dias mais áureos ainda estão
no futuro.
Jamie Buckingham
Eau Gallie, Flórida

Introdução

A HISTÓRIA DE NICKY CRUZ é notável. Tem todos
os elementos de tragédia, violência e interesse, além do
maior de todos os ingredientes, o poder do evangelho de
Jesus Cristo.
Os primeiros capítulos formam um cenário obs-
curo e tenebroso para o eletrizante desenlace desta
história. Portanto, não desanime com a atmosfera um
tanto sangrenta da primeira metade do livro.
Nicky é jovem, e está atualmente causando um
grande impacto sobre um bom número de outros jovens,
nos Estados Unidos. A população adulta já não pode
mais ignorar a mocidade, com os tremendos problemas
do século vinte. A juventude busca um propósito na
vida. Não está enamorada de nossos esclerosados tabus
sociais. Quer sinceridade na religião, honestidade na
política, e justiça para os desprivilegiados da
sociedade O aspecto encoraja-dor, no que diz respeito a
esses milhões de “garotos” (que em 1970 ultrapassaram
o número da população adulta), é que eles estão
desesperadamente procurando soluções para seus
problemas. Em contatos com centenas de estudantes de
nossas universidades, fiquei tremendamente
impressionado com a busca que estão empreendendo,

procurando a verdade, a realidade e soluções honestas.
Alguns jovens de nossas favelas estão ansiosos para ter
um contato honesto com a sociedade, e com razão.
Alguns deles são influenciados por defensores da
violência e da força bruta, e são facilmente atraídos para
o redemoinho dos distúrbios de rua, incêndios e
pilhagem. Foge, Nicky, Foge! é um exemplo notável de
que essa mocidade insatisfeita pode encontrar um
significado e um propósito para a vida, na pessoa de
Cristo.
Em nossas campanhas, quase a metade dos ou-
vintes tem menos de vinte e cinco anos. Não vão às
campanhas para zombar, mas para uma busca sincera
da verdade e de objetivos para a vida. Centenas deles
atendem ao chamado de Cristo.
Foge, Nicky, Foge! é uma história emocionante!
Minha esperança é que ela seja muito lida, e que muitos
leitores venham a conhecer o Cristo que transformou o
coração vazio e insatisfeito de Nicky Cruz e fez dele uma
epopéia cristã de nossa era.
Billy Graham

Preâmbulo

A HISTÓRIA DE NICKY é, possivelmente, a mais
dramática do movimento Pentecostal, mas não é a
única. Nicky é um vivido representante de vasto número
de pessoas que, nas últimas décadas, têm sido
libertadas do crime, do álcool, dos narcóticos, da
prostituição, do homossexualismo, e de quase todo tipo
de perversão e degeneração que o homem conhece.
Tratamento psicológico, cuidados médicos e conselhos
espirituais não conseguiram influenciar essas pessoas.
Elas, porém, foram libertas de sua escravidão de modo

inesperado e maravilhoso, pelo poder do Espírito Santo,
e levadas a uma vida de serviço útil, e, algumas vezes,
de profunda oração. É muito natural desconfiar-se de
transformações radicais e repentinas. Porém não há
razão teológica para se suspeitar delas. A graça de Deus
pode apossar-se de um homem e transformá-lo, num
abrir e fechar de olhos, de pecador em santo. “Porque eu
vos afirmo que destas pedras Deus pode suscitar filhos a
Abraão.” (Lucas 3:8.) O esforço humano não pode
produzir tais transformações, nem na própria pessoa
nem em outrem, porque a natureza exige tempo para se
desenvolver, gradualmente; mas Deus pode fazer em um
instante o que leva anos e anos para o homem realizar.
Conversões assim ocorreram na história do cris-
tianismo, desde o princípio. Zaqueu, Maria Madalena (a
penitente de Lucas 7:37), o “bom ladrão”, o apóstolo
Paulo, e mesmo Mateus, o discípulo, são os primeiros de
uma longa lista. Contudo, o maior número de tais
conversões está tendo lugar hoje em dia, em relação ao
chamado “Movimento Pentecostal”, o que é, creio eu,
sem precedentes. Qual o significado deste fato
extraordinário?
Tenho meditado muito sobre isto, e o que me vem
à mente com freqüência é a parábola das bodas (Mateus
22:1-14). Quando as pessoas convidadas não
apareceram, o senhor disse a seu servo: “Sai depressa
para as ruas e becos da cidade e traze para aqui os
pobres, os aleijados, os cegos e os coxos.” (Lucas 14:21.)
Quando nem aquilo foi suficiente, o servo foi enviado
uma vez mais, desta vez para os caminhos e atalhos,
com a ordem: “Obriga a todos a entrar, para que fique
cheia a minha casa.” Creio que isto é o que estamos
vendo acontecer hoje. Os “convidados” à mesa do
Senhor, isto é, os que “nasceram no cristianismo”, os
justos, os membros legítimos da sociedade, já
demonstraram sobejamente que são indignos. Eles “vão
à igreja”, mas na verdade não têm participado do

Todavia. (Mateus 22:8. Por outro lado. também são um sinal de advertência a todos os que.S. Pelo poder do seu Espírito. segundo os padrões humanos. Nicky Cruz e os milhares que se lhe assemelham não são apenas exemplos comoventes do amor fiel do Bom Pastor.) Porque “está pronta a festa.C. arrancando-os das ruas da degradação e dos atalhos da perversão. e que novos símbolos farão com que a liturgia tenha mais significado (porque tudo o que enxergam na religião é a parte humana). em lugar de ser um corpo vivo e uma testemunha desafiadora. Recebe alegremente aqueles que. Universidade de Notre Dame Estados Unidos .) Prof. novos convidados para o seu banquete. “Porque vos declaro que nenhum daqueles homens que foram convidados provará a minha ceia. São um sinal encorajador de que Deus está agindo com um poder novo em nossa época. enquanto os doutores da lei discutem qual o novo vocabulário que fará ressuscitar Deus (porque tudo o que conhecem a respeito dele são palavras). Edward D. são espiritual e moralmente pobres. aleijados. pelo seu ministério sagrado. pelos seus hábitos religiosos. está mesmo “forçando-os” a entrar. seja ela qual for.” (Lucas 14:24. ou por qualquer outra razão. mas são também sinais dos tempos. que faríamos bem em discernir. julgam ter um lugar marcado à mesa do banquete. em silêncio. cegos e coxos. mas os convidados não eram dignos”. Deus está reunindo. muitas vezes se assemelha a um inútil clube religioso. É por isto que a Igreja. para que não tenhamos medo de proclamar ousadamente o evangelho a todos. O'Connor.banquete propiciado pelo Rei. C.

Frank. Para mim aquilo era uma brincadeira. meu pai me colocara no avião em San Juan: um rapazinho porto-riquenho. Suas bochechas gordas estavam vermelhas de frio. e o vento frio fazia arder minhas faces. ao lado do portão. enquanto eu procurava escapar. em direção ao prédio do Aeroporto Idlewild. O vento cortante zunia através da minha roupa tropical e leve. em Nova York. Capítulo 1 NINGUÉM ME QUER “SEGUREM ESSE GAROTO MALUCO!” gritou alguém. quando a porta abriu. rebelde e amargurado. Estávamos a 4 de janeiro de 1955. . empurrando-me contra a cerca de correntes de aço. Três funcionários do aeroporto se aproximaram de mim. “Porto-riquenho louco! Que diabo você pretende fazer?” Meu sorriso sumiu quando notei ódio em sua voz. olhei para o guarda e sorri. fui o primeiro a sair. Porém. e eu já me precipitava escada abaixo. Fora entregue aos cuidados do piloto. e os funcionários voltaram ao seu trabalho. Um policial agarrou-me pelo braço. Um toco de cigarro apagado estava esquecido entre seus lábios balofos. correndo selvagemente pela pista de concreto. cercando-me. Algumas horas antes. haviam-me recomendado que permanecesse no avião até a chegada de meu irmão. e os olhos lacrimejavam devido ao vento. A porta do quadrimotor da Pan American mal acabara de se abrir.

vi o guarda gorducho e mais dois soldados sair ofegantes pela porta lateral do aeroporto. A fila estava entrando. “Venha. Encolhi os ombros e respondi-lhe em espanhol. Atrás de mim. zuni pelo salão e saí para a rua. baixei a cabeça e esgueirei-me por detrás dela. Com algumas empurradas. achei-me em um grande salão. mas ele me prendeu com uma férrea chave de braço. O mesmo ódio que eu tivera contra meu pai e minha mãe. ocupado demais para perder tempo com um rapazinho tolo que mal compreendia inglês. Quando ele desviou a atenção para uma senhora que estava remexendo na bolsa. .Ódio! Senti-o circular por todo o meu corpo. De repente. vamos voltar ao avião. “Porco sujo!” Ele afrouxou a pressão sobre o meu braço e tentou segurar-me por trás. Mergulhando por baixo do seu braço. e sentei-me junto a uma janela. garoto.” Olhei para ele e dei uma cusparada. à esquerda e à direita das pessoas que se dirigiam aos aviões. ouvi gritos e pisadas rápidas. acenar para eles e sorrir através do vidro. ódio! Tentei libertar-me. contra meus professores e os guardas em Porto Rico. deslizei pelo portão aberto que levava para o edifício do aeroporto. Descobrindo uma porta de saída. Não pude resistir à tentação de bater na vidraça. para ter a certeza de que ele não me vira. com a porta aberta e o motor ligado. Corri pelo longo corredor desviando-me. consegui entrar também. Dando uma olhadela por sobre o ombro. e olhar em todas as direções. pela gola do casaco. Quando o coletivo deu a partida. O motorista me agarrou pelo ombro e pediu o dinheiro da passagem. atravessei a porta e penetrei no ônibus lotado. “Porco!” rosnou. Um grande ônibus estava parado junto ao meio- fio. dirigi-me à parte traseira do ônibus. Ele me pôs para fora rispidamente.

O ônibus atravessou com dificuldade o tráfego intenso de Nova York. É uma terra em que os homens não usam camisa. Minha mente voltou ao dia anterior. De noite. O campo descia num declive suave. Mas aquela era parda. e do calor do sol em minhas costas bronzeadas e nuas. Os sons dos tambores de aço e das guitarras ouvem-se noite e dia. Minha respiração embaçou a vidraça. como mingau sujo. apoiei os joelhos nas costas do assento da frente e apertei o nariz contra o vidro frio e sujo da janela. Afastei-me um pouco e passei o dedo nela. seus . Eu sempre imaginara que a neve era branca e bonita. das pequeninas flores campestres. salpicada dos pontinhos de cor clara. lá em baixo. Porto Rico é uma bela terra de sol e de crianças descalças. de superstição religiosa e de muita ignorância. em direção ao centro da cidade. Ganhavam a vida ex- pulsando demônios e estabelecendo um suposto contato com espíritos de mortos. Papai era um dos homens mais temidos da ilha. Lá fora havia neve e lama pelas ruas e calçadas. Mas é também uma terra de feitiçaria e macumba. oferecendo sacrifícios e dançando com serpentes à luz de fogueiras bruxuleantes. enquanto feiticeiros exercem o seu ofício. até a vila. Lembrei-me da grama verde que meus pés amassavam. inteiramente diferente do que eu acabara de abandonar. Meus pais eram espíritas. flores. quando eu parara no morro diante de minha casa. os sons dos tambores da macumba ressoam nas montanhas cobertas de palmeiras. Era um mundo diferente.80m de altura. Lembrei-me da brisa fresca que soprava contra minha face. Afundando no banco. e as mulheres caminham preguiçosamente sob um sol causticante. É uma terra de cantigas. crianças sorridentes e água azul refulgente. Com mais de l. como nos contos de fadas.

dois homens trouxeram uma se- nhora perturbada à nossa casa. Centenas de pessoas vinham de toda a ilha para participar das sessões espíritas. sessões e feitiçaria. quando estava tentando se comunicar com os espíritos dos mortos. os homens se postaram um de cada lado da . Mas. Nossa casa enorme. escondida no vale. no alto da colina. Os aldeões subiam pela trilha a qualquer hora do dia ou da noite. depois da guerra ele recorreu ao espiritismo para ganhar a vida. Eu e meu irmão Gene esgueiramo-nos da cama.enormes ombros encurvados haviam levado os ilhéus a se referirem a ele como “O Grande” Ele fora ferido durante a Segunda Guerra Mundial e recebia uma pensão do governo. Certa manhã. e tinha uma biblioteca de magia e espiritismo. Mamãe trabalhava com papai como “médium”. e pediam a papai para libertá-los de demônios. Eles tentavam falar com espíritos dos mortos. sem igual. Nossa casa era sede de toda sorte de reuniões de macumba. às vezes invocando espíritos. naquela parte da ilha. para ir à “Casa do Feiticeiro”. era ligada por uma trilha sinuosa e estreita à pequena vila mo- dorrenta de Las Piedras. olhamos por uma fresta da porta. lá em baixo. e vimos quando eles a estenderam sobre a mesa grande. às vezes expulsando demônios. Papai era o chefe mas havia outros médiuns que se utilizavam de nossa casa para sede de suas ati- vidades. como havia dezessete meninos e uma menina na família. tomavam parte em atos de feitiçaria. Alguns permaneciam ali semanas seguidas. Papai era muito entendido no assunto. ao redor da qual o povo se assentava. O seu corpo tremia e gemidos escapavam de seus lábios. Havia uma mesa comprida na sala da frente.

gritei. mas ele esticou o braço e me agarrou pela nuca: “Não adianta correr. sacudindo-se. repetindo palavras estranhas. segurando-a. um dia. Você roubou. Eles pegaram o corpo inconsciente e se foram.” “Eu te odeio”. rolou da mesa e caiu pesadamente no chão. Papai foi à cozinha e voltou com uma pequena urna preta cheia de incenso a fumegar. no pombal.mesa. Minha infância foi cheia de temor e sobressaltos. moleque. . Picou babando e mordendo a língua e os lábios. suspendendo a urna sobre a cabeça dela. Depois. Procurei correr. agradecendo a papai e chamando-o repetidamente de “Grande Milagreiro”. Eu tinha raiva de papai e mamãe. Nós tremíamos de medo. libertou-se dos homens que a seguravam. No verão anterior à época que eu devia entrar para a escola papai trancou-me. Mais tarde aquietou-se e ficou imóvel. Imediatamente. e tinha medo da macumba que era realizada todas as noites. O sapo saltou do seu estômago e espatifou-se contra a soleira da porta. aspergiu pó de incenso sobre seu corpo convulso. a mulher jogou a cabeça para trás e soltou um grito agudo. O fato de sermos uma família grande significava que mui pouca atenção era dada individualmente a cada filho. ela começou a dar pontapés e. sangue misturado com espuma escorria pelos cantos de sua boca. ele mandou que os es- píritos maus saíssem da mulher e entrassem no sapo. De repente. Já era noite e ele me apanhara roubando dinheiro da bolsa de mamãe. Mamãe ficou aos pés dela. agora vai me pagar. Trazia também um grande sapo que colocou sobre o estômago agitado da mulher. Papai de- clarou que ela estava curada e os homens lhe deram dinheiro. com os olhos erguidos para o teto.

Mais tarde. a casinhola encheu-se do barulho de asas: os pássaros. deixando-me em total escuridão. assustados.” Chorei naquela noite até dormir. Apertei as mãos contra o rosto e gritei histericamente. até aprender. e fechou-a atrás de mim. Martelava a porta com os punhos.” Ouvi seus passos se diminuindo na distância. depois. de volta para casa. disse entre dentes. quando a porta abriu. Ele me levantou do chão. atravessou o quintal escuro. e bicavam ferozmente meu rosto e pescoço. Escutei o ruído de suas mãos ao abrir a porta. Eu odiava qualquer autoridade. você vai lembrar-se de não roubar e de não responder com insolência quando for apanhado”. enquanto as pombas se arremetiam contra as paredes. sonhei com pássaros esvoaçantes que se chocavam contra meu corpo. sacudindo me diante de si “Vou ensiná-lo a falar assim com seu pai”. tentando proteger os olhos e tapar os ouvidos para não ouvir o som das asas que volteavam sobre minha cabeça. “Da próxima vez. disse ele asperamente: “Agora. quando entrei para a escola. e a voz de papai. Caí aturdido no chão imundo. Chutava-a freneticamente. rosnou ele. Ouvi o trinco sendo colocado no lugar. chocaram-se contra o meu corpo. haviam acordado. gritando e chorando. Eu estava petrificado de terror. Colocando-me debaixo do braço como se eu fosse um saco de farinha. e papai me fez ficar de pé e arrastou-me para o quintal. “Você vai ficar aí com os pombos. . “Para dentro”. Parecia que uma eternidade se passara. dirigindo-se ao pombal. tome um banho e vá para a cama.” Atirou-me porta adentro. repetidas vezes. De repente. Meus ressentimentos contra papai e mamãe rea- vivaram-se no ano seguinte. através das fendas da parede: “E nada de jantar. e enterrei a cabeça nos braços. abafada.

não. Deve orgulhar-se dele. Seus olhos reviraram. rebelei-me de uma vez contra meus pais. enquanto ela falava como em responso: “Não. filho. meu não. Eu me cansara de brincar com meu irmão e entrara na sala. Ele nunca foi meu. filho de Satanás.. filho do diabo. meu não. Ninguém me quer. DIABO! Longe! Longe! Longe!” Eu estava petrificado de terror. meu. Encostei- me à parede. brincando com uma pequena bola. Seus dedos ficaram duros e tremiam e ela levantou vagarosamente os braços sobre a cabeça e começou a falar em tom de cantochão: “Este.. meu não. meu não. o dedo de Satanás toca na sua alma. Ele é filho do maior de todos os bruxos.. Nicky não.. voltou-se para mim com os olhos ar- regalados e gritou com voz esganiçada: “Sai. “Não sou filho dela... ... e mamãe continuou em transe. para a frente e para trás.. Mamãe e vários outros “médiuns” estavam sentados à grande mesa da sala. tomando café...” Larguei a bola.. DIABO! Para longe de mim. Lúcifer. que rolou pela sala afora. Não... sobre a mesa. batendo-a no assoalho.. Um dos médiuns disse à mamãe: “O Nicky é um menino bonito.” Mamãe olhou séria para mim e começou a ba- lançar-se na cadeira. Deixa-me.. não. Corri para o meu quarto e joguei-me sobre a cama.. não. Estendeu os braços para a frente. ela não me ama.” Observei que lágrimas corriam pelas suas faces.. Parece com você.. Não.. meu não. a mão de Lúcifer sobre a sua vida. a ponto de aparecer somente o branco. Foi em uma tarde quente de verão.quando já tinha oito anos. meu.. Pilho de Satanás. o dedo de Satanás está na sua vida.. Pensamentos passavam pela minha mente como rios canalizados em uma garganta estreita. Não. não. sua voz se levantava e baixava.. De repente.... a marca da besta no seu coração.

Empurrei-os para o lado e corri para os fundos da casa. a voz de minha mãe ecoando através do assoalho rachado: “Viram. Um garoto estava cantando uma música que falava de passarinhos e borboletas mas eu me sentia isolado. Eu te odeio.” Dois de meus irmãos mais novos estavam à porta olhando. curiosos. Estava tão frustrado pelo ódio que gaguejava e as palavras não saíam direito: “Eu — eu. gritei de desespero. como a onda da maré avança sobre um recife de coral. a consumir minha alma. mas não sabia como.. Ouvi as crianças brincando no quintal. Mas ninguém me ouviu.” Apontava um dedo trêmulo para minha mãe e gritava: “Vo-vo-você me paga. A dor que sentia no peito era insuportável. Esmurrando a poeira. Os médiuns ainda estavam ali com mamãe. Eu te odeio”. Mergulhando escada abaixo. e eu comecei a chorar e a soluçar. Mais tarde o frenesi acalmou-se e fiquei em si- lêncio. virei-me e arrastei-me para baixo da varanda e cheguei ao canto escuro e frio onde eu sempre me escondia. Queria destruí-la.. convulsivos. no meio daquela poeira seca.” Então as lágrimas vieram. Você me paga.” Como senti ódio dela. e esmurrei a cama até ficar exausto. ouvi as mulheres rindo e mais alta do que as outras. como a odiava! Eu queria feri-la. gritei. . Esmurrei a mesa e gritei. Puxa. t- te o-o-odeio. eu bem disse que ele é filho de Satanás. No meu desespero pegava mancheias de pó e atirava furiosamente em todas as direções. meu corpo sacudindo-se em soluços. O velho ódio se agitou dentro de mim. torturá-la. Senti que odiava minha mãe. A poeira assentava em meu rosto transformando-se em pequenos riachos sujos ao misturar-se com as lágrimas.Ninguém me quer. Empurrei a porta e saí correndo e gritando até a sala. Ninguém se importou. Abaixado sob a escada. “Eu te odeio. vingar-me.

ao pé da escada. Ele encolheu os ombros e continuou subindo a escada. até cair num sono agitado. Ondas de ódio me invadiram outra vez. Eu te odeio. Eu sentia o orvalho úmido e frio sob meus pés descalços. Os grilos cantavam. Papai abriu a porta dos fundos. Não queremos porcos por aqui. fechei os olhos e chorei. Ninguém me quer. caí de costas na poeira. Lágrimas rolaram pelo meu rosto. pensei. Eu sabia que eles ainda estavam rindo de mim. Vá se lavar e venha jantar. cheguei à conclusão de que haveria de odiar eternamente. meditando enquanto me lavava debaixo da bica. Ouvi a porta do pombal fechar-se e as ruidosas passadas de papai que vinha dos fundos da casa. Ouvi mais risadas dentro da casa.. O sol já tinha se escondido no mar.” Minha voz ecoou no vácuo sob a casa. Porém. com a esperança de que não me reconhecesse. e um jato de luz amarela projetou-se onde me achava.” Obedeci. menino?” Fiquei em silêncio.solitário. e entrou deixando a porta bater atrás de si.. e rolei de um lado para o outro — a poeira cobria meu corpo. Os sapos coaxavam. saindo de baixo da varanda. Parando. quando des- pertei e me arrastei para fora. por entre as rachaduras das tábuas dos degraus. e o meu corpo estava coberto de sujeira. A areia ainda rangia em meus dentes. Compreendi que nunca mais amaria . “Porco!” gritou ele. “O que está fazendo aí em baixo. olhou para as trevas. mamãe! Eu te odeio. Exausto. Chegando a um auge de emoção. “Eu te odeio. Torturado pelo ódio e pela perseguição e obcecado pelo medo. “O que você estava fazendo tanto tempo debaixo da casa? Veja como está. ele começou a subir os degraus da escada. e comecei a gritar de novo. quando a voz de baixo profundo de meu pai uniu-se à das mulheres.

negro. por causa do meu estranho desejo de ver sangue. Tornara-me rebelde na escola. Um dia atirei uma pedra na cabeça de uma menina. tive uma briga com o professor de artes manuais. até o lugar onde eu estava.de novo .. mudando-se para Nova York.. rindo. eu o chamei de “negro”. sujeira e ódio para o filho de Satanás. o sangue que gotejava através de seu cabelo. nunca. A menina estava gritando e chorando. na classe. principalmente com crianças menores do que eu. rapaz? Você é pretensioso. Eu. E nunca mais choraria.” Respondi com insolência: “Desculpe. “Sangue por sangue”. nos cinco anos seguintes meus pais chegaram à conclusão de que não era possível que eu permanecesse em Porto Rico. Um dia. Fiquei olhando. Meus irmãos se afastavam de mim. porém. Não obstante.. O professor caminhou pela classe. gritou ele. Meu pai esbofeteou-me aquela noite até minha boca sangrar. era muito novo para ir. Muitas famílias porto-riquenhas têm o costume de mandar seus filhos para Nova York. quando estes alcançam idade suficiente para cuidar de si. A sala ficou silenciosa e os outros rapazes se esgueiraram para trás das máquinas da oficina. matá-los não era o suficiente. eu . Era um homem alto e magro que gostava de assobiar para as moças. Foi quando comecei a fugir. “Sabe o que mais. Seis dos meus irmãos mais velhos já haviam deixado a ilha. para mim. Mas. Estava sempre procurando briga. e eu ali. sentindo a tensão no ar. Gostava de mutilar seus corpos. com um sentimento de prazer. Comprei uma espingarda “pica-pau” para matar passarinhos. Todos estavam casados e procurando construir vida nova. Medo. Quando estava no oitavo ano. a ninguém. ao lado de um torno.

Ele ficou furioso. fugi. menino”. rapaz. “Espera aqui. Compreendendo a inutilidade dos meus esforços. “Muito bem. não voltei.” Voltamos à escola. Eu sinto muito. negro”. Eu tinha dificuldade em acompanhar os passos longos de papai e quase pre- cisava correr para alcançá-lo. e me sacudiu pelo braço. O pro- fessor era um homem feito enquanto eu pesava menos de cinqüenta quilos. e resolver isto. “Eu vou conversar com o diretor. dirigi-me a papai e lhe disse que o professor tentara me matar. brandindo os braços. Correu ao quarto e depois saiu com sua enorme pistola no cinto. Vou matar um valentão.” Saí correndo da sala de aula. chamando-me: “Espere.” . Ele correu atrás de mim. “Vou à polícia. Meu coração saltava ao pensar na sensação de ver aquele professor alto encolher-se de medo sob a fúria de meu pai. você tem algumas explicações a dar. Avancei para ele. “Vamos garoto. Quando saiu.” Senti medo. Senti o gosto do sangue que escorria pela minha boca e pelo meu queixo. mas esperei. “Você vai ver. Esticando os braços e colocando as mãos contra a minha testa ele me conservou à distância. Papai demorou muito tempo no escritório do diretor. ele me bateu com o longo braço ossudo e senti a carne dos meus lábios esmagar-se contra os dentes com a violência do golpe. caminhou depressa em minha direção. Eu estava cheio de ódio e a vista do sangue fez-me explodir. gritei. disse papai. enquanto eu dava murros no ar. Não fui à polícia. Em lugar disso. Mas.” Antes que pudesse safar-me. Espera para ver. Vamos para casa. o professor não estava na sala de aula.acho que não sou.” Mas.

no interior. Na manhã em que viajei. e dirigi-me à velha caminhoneta onde papai me esperava. “Mentiroso sujo”. até em casa. Fuja. Finalmente.. Voltamos de novo através da pequena vila. Havia lágrimas em seus olhos quando ela tentou falar.” Ficou de pé olhando para mim durante longo . papai e mamãe escreveram para meu irmão Frank. Frank concordou. Levamos quarenta e cinco minutos para chegar ao aeroporto de San Juan. Levantou a mão para esbofetear-me. disse-me já defronte da casa. porém não saiu palavra nenhuma. “Você há de voltar para casa e quando voltar. E ele cumpriu a sua promessa. Nos dois anos que se seguiram. e corri ladeira abaixo. Fugiria para tão longe que ninguém seria capaz de me trazer de volta. Mamãe me apertou ao peito. mas só três dias depois. E mais outra.. Roguei-lhes que me soltassem. “O piloto vai tomar conta de você até ele chegar. as crianças se enfileiraram na varanda à frente da casa. fugi cinco vezes. e pela trilha sinuosa. e eles traçaram os planos para a minha ida. Ele me puxava atrás de si. carrancudo. disse ele. virei as costas. A polícia pegou-me andando na beira de uma estrada que levava às montanhas. Eu não tinha por ela sentimento de qualquer espécie. Todas as vezes a polícia me encontrou e me levou de volta para casa. Eu sabia que precisava fugir outra vez. preso pelo braço.. mas devolveram-me ao meu pai. “Está certo. onde papai me deu a passagem e enfiou em minha mão uma nota de dez dólares dobrada. mas consegui sair fora do seu alcance. eu vou lhe mostrar. sem mais esperança.. Não olhei para trás. Pegando minha pequena mala. perguntando-lhe se poderia receber-me para morar em sua companhia.” Voltei para casa. moleque!” gritou. “Telefone para Frank logo que chegar a Nova York”.

encostado na cerca. e sentei-me junto a uma janela. Papai olhou-me sombrio. Por que será que ele me chamara de “passarinho”? Recordei o momento quando. galguei as escadas do enorme avião. fu- mando o seu cachimbo. Escutei-o soluçar só uma vez: “Hijo mio” (filho meu). Estava sentado em uma cadeira de balanço. enquanto um cacho do seu cabelo grisalho e ondulado era agitado pela brisa quente. Não pesa mais do que uma pena.” Virei-me. Como um passarinho. como se fosse acenar. “Esse passarinho é pequenino e muito leve. repentinamente. papai me chamara daquela forma. . e por isso voava continuamente. andando depressa. e voltou. É provável que eu parecesse pequeno e patético a seus olhos. Está sempre fugindo. soprando fumaça nas trepadeiras. parado ali na estrada. Então. com a maleta na mão. Ele é levado pelas cor- rentes de ar. envolveu- me em seus longos braços e apertou o meu corpo magro contra o seu. bem mais alto do que eu. ele disse rapidamente: “Seja um bom menino. Você não tem descanso. Seus lábios tremeram quando estendeu a mão para apertar a minha.” Meneou a cabeça vagarosamente. mas pareceu envergonhar-se. quando me contou a lenda de um pássaro que não tinha pés. “O Grande”. passarinho. e saí correndo. Nicky. Soltando-me. sentado nos degraus da grande varanda. e dorme ao vento. para junto da velha caminhoneta. você está sempre fugindo. e disse: “Esse passarinho é você. que subiam até o telhado da varanda. Lá fora vi a figura magra e solitária de meu pai. muitos anos atrás. e levantou os olhos para os céus. Ele levantou a mão uma vez.tempo.

e assim ele nunca descansa.” Literalmente voei pelo campo gramado. de corujas. elas não conseguem vê-lo. Mas as suas pequenas asas são transparentes.. disse papai. Não tem pernas. e entraram em funcionamento. por alguma razão.. Finalmente. O ônibus parou. então. Pois. como é que ele come?” perguntei.. nem pés. Lá fora. parece que não conseguia ganhar suficiente velocidade para subir. não pode mais fugir” Papai me deu um tapinha no traseiro e me tocou de casa. voe. “Mas. soltaram fumaça negra. Ele se esconde colocando-se entre elas e o sol.” Papai recostou-se e soltou uma baforada de fu- maça azul. A única hora em que pára de voar — o único momento em que pára de fugir — a única vez que vem à terra — é quando morre.. como se tivesse visto a avezinha. Fuja. Seu pai o chamará quando já não for hora de correr. Enquanto ele permanece no alto. que ele escapa dos seus inimigos?” “Nos dias feios. está sempre se movendo. “Ele come ao vento”. Estava a caminho. passarinho.Fugindo de gaviões. “Ele apanha insetos e borboletas. poderão vê-lo. em contraste com a terra escura. respondeu papai. como a água clara da lagoa. eu ia voar.. Falava vagarosamente.” Fiquei fascinado com a estória.. uma vez que toca o solo. “ele voa tão alto que ninguém pode vê-lo. “O que acontece quando o sol não brilha? Como é. Os motores do avião tossiram. Se elas voarem acima dele. “Vá agora. batendo os braços como um pássaro que tentasse alçar vôo. “E nos dias chu- vosos?” perguntei-lhe. de águias. as luzes brilhantes e os anúncios luminosos multicoloridos acendiam e . Aves de rapina. Nicky”. Contudo.

percorri de novo as ruas da cidade. Não ponha essas mãos gordurentas em mim. No fim do segundo dia. Pessoas passavam por mim.. pequenas manchas negras começaram a aparecer na superfície. Tentava impedir que o pânico subisse do estômago para a garganta. e com frio. Ali estava: neve pura e brilhante. Compreendi que o ar estava cheio de fuligem das chaminés e que a neve estava tomando o aspecto de queijo fresco pulverizado com pimenta-do-reino. Aquela noite eu dormi no metrô. seu. Eu estava livre. e a barra varria a calçada. pedindo ajuda. sozinho no meio de oito milhões de pessoas. Continuou andando. Desejei colocá-la na boca e comê-la Porém. Não fazia diferença. Eu estava com fome. As portas se fecharam atrás de mim. Naquela noite.. Nessa mesma noite gastei os dez dólares que . Encontrei um ca- saco velho jogado em uma lata de lixo... como se eu não estivesse ali. O segundo empurrou-me contra a parede: “Caia fora. Fiquei ali na calçada. mas ele me aquecia. e o ônibus partiu.apagavam na penumbra fria. Apanhei um punhado de neve suja e tirei a crosta que a cobria. Os botões tinham sido arrancados e os bolsos rasgados. Um homem que estava do outro lado levantou-se para descer. O primeiro homem simplesmente ignorou-me. o paletó comprido varrendo a calçada e a pequena mala segura firmemente em minha mão. Em duas ocasiões. e me olhavam. Joguei a neve para o lado. Segui-o até a porta. mas ninguém parecia importar- se comigo. As mangas cobriam as minhas mãos. Apenas olhavam e continuavam andando.” Piquei com medo. encolhido em um banco. ao olhar bem. tentei falar com alguém. Vagueei pela cidade dois dias. meu entusiasmo esfriara . e saímos.

alisou-a. Quando terminei. Peguei a mala e voltei para a rua fria. Acabara de ter meu primeiro encontro com a esperteza americana. e meteu-a no bolso do avental sujo. Trouxe-me então outro cachorro-quente e uma terrina de feijão com carne.. O pânico voltava furtivamente. Para mim. que estava dependurada acima do balcão. mas ele havia desaparecido na cozinha. Arrastei-me rua abaixo. Entrei em um pequeno restaurante e pedi um cachorro-quente.. fora colocado diante das portas. protegidos pela cerca de ferro.papai me dera. Como iria saber que um cachorro- quente americano não custa cinco dólares? Descendo a rua. As frias paredes de pedra e os escuros vitrais estavam fora do meu alcance. Um pesado portão de ferro. trancado com um cadeado. e perdido.. com medo. andando sem parar. Enfiei a mão no bolso e tirei a nota amarfanhada. solidão era . apontando para a figura de um. e eu tremia não só de frio. procurei-o.. Nunca pensei que uma pessoa pudesse sentir solidão no meio de um milhão de pessoas. Os seus braços estavam estendidos e cobertos de neve. Era quase meia- noite. parei em frente a uma igreja. Mas eu me sentia sozinho. e eu aqui fora. andando. mas ele estava trancado lá dentro. ele abriu a nota. mas também de medo. Tinha esperança de que alguém parasse e me perguntasse em que poderia me ajudar. O homem sacudiu a cabeça negativamente e estendeu a mão.. Engoli-o sofregamente e indiquei que desejava outro. Nem sei o que teria dito. se alguém parasse e oferecesse ajuda. A estátua de um homem de rosto simpático e olhos tristes espiava através do portão fechado. Limpando as mãos em uma toalha. Parei diante do grande edifício de pedra cinzenta e observei a torre que apontava para o céu.. A multidão apressada foi embora e me deixou.

tremendo e afagando o cão. e saiu correndo. que estava perdido. De repente. disse-lhe. Vi pessoas bem vestidas. calçadas cheias de pessoas apressadas. Encontrei um pedaço de papel dobrado. em meu inglês de pé quebrado. As suas galochas estavam molhadas e sujas. aos pares. Sentei-me na calçada e abri minha pequena mala. senti algo empurrando-me por trás. e se foi. na calçada suja. Quando olhei para cima. e puxei-o para mim.. escrito por mamãe. no meio da noite?” perguntou ele. essa era a pior das solidões. Não sei quanto tempo fiquei ali sentado. vi os pés e pernas de dois policiais uniformizados. Ele sacudiu a cabeça ao olhar para a escrita quase . felpudo que encostava o focinho no enorme casaco que cobria meu corpo magro. velhos vendendo jornais e frutas em pequenas bancas que ficavam abertas a noite toda. elas também pareciam solitárias. Um dos guardas bateu no meu ombro com a ponta do cassetete.. Ao olhar para seus rostos. Rodeei seu pescoço com o braço.. Porém.. Era um cachorro velho. Com dificuldade procurei explicar. Um deles murmurou algo para o outro. Ninguém de rosto alegre. policiais patrulhando. Ele lambeu meu rosto e eu enterrei a cabeça no seu pelo sarnento. O cachorro sarnento pressentiu o perigo. O que ficara ajoelhou-se ao meu lado. voltando do teatro para suas casas. “O que é que você está fazendo aqui sentado. mostrando o papel. A sua face parecia estar cem quilômetros acima. Ninguém ria. com o número do telefone de Frank.perder-se na floresta ou em uma ilha deserta. “Irmão”. desaparecendo num beco. “Posso ajudá-lo... garoto?” Acenei que sim e tirei o pedaço de papel com o nome e número do telefone de Frank. Todos apressados.

garoto?” Eu não sabia responder e apenas disse: “Irmão”. A sopa quente que tomei já na casa de Frank estava gostosa. Quando a voz sonolenta de Frank respondeu. Começara a fugir. aprendendo a manobrar o inglês. porém. cheio de brigas. levantou-me pelo braço. Pescou um níquel no bolso e discou o número. me dizia que eu não ficaria ali. Os professores e administradores passavam a maior parte do tempo tentando manter a disciplina. e as tensões internas estavam me perturbando muito. ele me entregou o fone. e a cama limpa. e agora nada me faria parar. matriculou-me no ginásio. Era um lugar selvagem. Na manhã seguinte Frank me contou que eu deveria ficar com ele. Frank. “É aí que você mora. Capítulo 2 NA SELVA DO QUADRO- NEGRO FIQUEI DOIS MESES COM FRANK. de forma que pouco tempo restava para o ensino. A escola era quase inteiramente de negros e porto-riquenhos. logo na primeira semana. que ele cuidaria de mim e me poria na escola. Em menos de uma hora eu estava a salvo. no apartamento de meu irmão. Ele acenou que sim. de imoralidade e de constante batalha contra os . deliciosa. Algo dentro de mim. Era dirigida mais como um reformatório do que como escola pública. Porém não era feliz. e dirigimo- nos a uma cabine telefônica atrás de uma banca de jornais.ilegível.

Algumas vezes as gangs são inimigas. “Ei. Eu me encostava à parede. e alguém saía ferido e perdendo sangue. para não andar pelas ruas à noite. todas as tardes.que tinham autoridade. garotos. e ficasse no apartamento. e matam qualquer pessoa que não conheçam. saindo de um portão. As quadrilhas podem te matar. Depois da aula. Frank costumava advertir-me. Estas gangs são quadrilhas formadas por rapazes e garotas que vivem em um certo bairro. Logo fiquei sabendo também que as quadrilhas não eram a única coisa que eu deveria temer. olhem por onde andam. durante a noite. quando são colocadas na mesma sala de aula. “As quadrilhas. Todo dia na escola tinha de haver uma briga nos corredores ou em uma das salas de aula. Aquilo era uma experiência nova para mim. logo na primeira semana. Eles saem como matilhas de lobos. Eram terríveis moleques de nove e dez anos que perambulavam pelas ruas à tarde e à noitinha. Havia também os “pequenos”.” Um dos meninos deu um rodopio e disse: “Vá para . Tive meu primeiro encontro com os “pequenos” quando voltava da escola para casa certo dia. sempre havia uma briga no pátio.” Ele me recomendou que viesse direto da escola para casa. Nicky. o que invariavelmente cria conflitos. ou que brincavam diante dos pardieiros em que moravam. Uma gang de cerca de dez meninos entre oito e dez anos investiu contra mim. com medo de que algum dos rapazes maiores me batesse. Todas as escolas do Brooklin têm representantes de pelo menos duas ou três gangs. e me conservasse à distância das gangs.

A mulher estava gritando ainda mais: “Não se meta com os meus meninos! Socorro! Socorro! Ele está matando meu filho!” De repente. Ela estava gritando. Ouvi-a dizer. Gritavam e riam o tempo todo. outra mulher apareceu em uma porta. ouvi uma mulher gritar. Olhei para cima. Era gorda e bamboleava ao correr. ou eu te mato. antes que eu pudesse pôr-me de pé e começar a correr. A mulher gorda me golpeou pela terceira vez. judiando de nossas crianças. jogando-o na calçada. com uma vassoura na mão. Ela entrou no meio da quadrilha de garotos. Rolei de novo e ela me acertou no alto da cabeça. Perdi a calma e dei um soco no que estava mais próximo. Tentei levantar-me. vi-me estatelado de costas na calçada. Antes que me desse conta do que estava acontecendo. e vi-a debruçada numa janela no quarto andar. perto do meu ombro.o inferno!” Outro veio por trás e abaixou-se. Mas os outros meninos estavam avançando. Tentei rolar no chão. gritando. porco nojento. Um deles atirou uma garrafa de refrigerante na minha direção. ao voltar da escola para casa. mas era tarde — a vassoura acertou em cheio nas minhas costas. atrás de mim: “Se você aparecer por aqui de novo. Naquele momento. e chamando a polícia. tinha a cara mais feia que eu já vi. não havia nada que eu dese- jasse mais do que afastar-me de seu filho. . mas um dos garotos agarrou meu pé e começou a puxar. Percebi então que várias outras mulheres estavam debruçadas nas janelas. com a vassoura levantada acima de sua cabeça.” Na tarde seguinte.” Naquele momento. fugindo dela. nós te matamos. Ela acertou na calçada. fazendo chover vidro no meu rosto. “Afaste-se de meu filho.

eram bem “grandes”. e vi cerca de quinze rapazes num semicírculo em torno de mim. hein? É o que você pensa? Não sabe que está nos domínios dos Bishops. Olhei ao redor. que então fugia da praça. Não eram “pequenos”. mostrando uma lâmina reluzente de dezessete centímetros. rindo e conversando com o pássaro. e comecei a gaguejar um pouco: “Eu-eu moro com meu irmão. Ao contrário. pressionando um botão. principalmente paspalhos que riem como hienas. Rapidamente formaram um círculo pondo-me no meio e um dos rapazes disse: “Ei.” “Escute.” “Você pensa que só porque mora no fim desta rua. Voltava da escola e parara em uma praça para ver um homem que tinha um papagaio. rapaz? Nós não permitimos que estranhos entrem em nossos domínios. Antes que eu pudesse responder. na maioria. de que é que você está rindo?” Apontei para o homem do papagaio. apertou o papagaio contra o peito e foi saindo. o rapaz de olhar duro tirou uma faca do bolso e. quando o homem subitamente perdeu o interesse. e percebi que falavam sério. pode entrar na nossa praça e rir como uma hiena. “Puxa. no fim desta rua. com olhar ameaçador. “Vou cortar a . Eu estava dançando ao redor dele.” Olhei para eles. abriu-a. “Sabe o que vou fazer?” disse ele. Senti que algo estava errado. você mora aqui por perto?” perguntou o rapaz. maiores do que eu. Uma semana mais tarde tive o primeiro encontro com uma gang.escolhi um caminho diferente. eu estava rindo daquele papagaio bacana. moleque.

El? encurvou-se um pouco e também levantou os punhos . e começou a andar em minha direção. paizinho. Mostre que ele não é de nada. Bate nele. E é melhor que não pise no domínio dos Bishops. nós estamos com você. Roberto derrubou-me de propósito. “Está bem”. Descobri que o rapaz que tirara a faca chamava-se Roberto. Vamos. Nicky. “O que é que há de errado comigo? Por que é que você quer me esfaquear?” “Porque não gosto da sua cara. Viraram-se e foram embora. Corri para o apar- tamento e passei o resto da tarde pensando. quando não está com uma faca na mão. falou outro membro da quadrilha. “Certo. Dá nele!'.” “Ei. estávamos jogando beisebol. com as mãos diante do rosto. Naquela tarde. mas um dia vai saber. Apontou a faca para o meu estômago.” Com um sorriso de escárnio. ra-ra-rapaz”.sua garganta e deixar você sangrar. Nicky. como o animal que ri como você. Não conhece as regras”. porque eu tomara a posição tradi- cional de pugilista. só isso”. No dia seguinte. durante a aula de educação física. Deixe-o. Ouvi-os gritar: “Lutem! Lutem!” e percebi que o círculo aumentava. e os demais meninos formaram um grande círculo à nossa volta. Tomamos posição um diante do outro. ele recuou.” Levantei-me e limpei a roupa. disse ele. gaguejei. um moreninho espigado. Todos os outros meninos começaram a gritar: “Dá nele. disse eu. na escola. Esse menino acaba de chegar de Porto Rico. “vamos ver se você é bom de briga. Roberto riu. “Vamos. alguns meninos ou- viram falar do incidente da praça.

Nicky. mas se limitaram a ficar ali. Agarrei as suas mãos e tirei-as dos meus olhos. torcendo. quando chegou um professor que o afastou de mim. Dancei em direção a ele. e eu caí no pó do pátio da escola. Senti que ele me deu um pontapé. Ele levantou-se vagarosamente. Dancei em sua direção e acertei-lhe dois socos de esquerda no rosto. Todas as minhas brigas haviam sido segundo as regras do boxe. Usando a cabeça como um bate-estacas. De repente. Rolei para o lado. olhando-me surpreso. Meu nariz começou a sangrar e fiquei cego de dor. desajeitadamente. prendendo meus braços ao lado do corpo. enterrando os meus dentes no seu dedo. acertando-me no estômago e jogando-me de costas no chão. e antes que pudesse mover-se. “Eles vão matar você. Avancei de novo. Eu lhe disse para .fechados. Eu o ferira. enterrando deliberada-mente os dedos nos meus olhos. Naquela noite quando fui para casa. Fiquei pensando que os outros meninos iriam me ajudar. mas ele me chutou com seus sapatos pontudos. De um pulo fiquei de pé e tomei novamente po- sição de pugilista. Tentei levantar-me. ele baixou a cabeça e carregou contra mim como um touro. Ele gritou de dor e saiu de cima de mim. mas pensei que aquele rapaz iria me matar. O sangue espirrou de seu nariz e ele deu um passo para trás. ou pelo menos apartar a briga. Frank gritou comigo. se não fizesse algo. ele começou a dar-me cabeçadas no rosto. segurando a mão ferida. Era óbvio que não estava acostumado a lutar daquela forma. quando ele me agarrou pela cintura. e avancei para socá-lo de novo. acertei-lhe um soco de esquerda. Finalmente ele me soltou e me deu dois socos. e ele pulou sobre minhas costas e puxou-me a cabeça para trás. Eu não sabia brigar daquela forma.

Comecei a andar mais depressa. rapaz?” perguntou o grandalhão. . menino. que é operado com o auxílio de uma mola. em direção à porta. Sabia que era comum haver brigas feias entre rapazes porto- riquenhos e negros. e eles caíram numa vala cheia de água suja. Atrás de mim havia cinco garotos negros e uma menina. e um deles. Dei uma olhada por sobre o ombro. Quase todos os rapazes andavam com um desses. Olhei ao redor. a mola solta-se e a lâmina se abre. Saindo pela porta. A “próxima vez” foi várias semanas mais tarde. e outro rapaz chutou-os corredor abaixo. Naquele momento ouvi um clique e percebi que era o ruído de um canivete automático. mas percebi que eles também apressavam o passo. Derrubei os livros. “Não banque o espertinho comigo. “O que você está fazendo nestes domínios. Os garotos de cor me cercaram. Não pertence a quadrilha alguma”. Eles preferiam usar um tipo de canivete de pressão. Eu era capaz de lutar tão deslealmente como eles — e até mais. As aulas tinham terminado. Eles vão matar você. Eu sabia.” Colocou a mão contra o meu peito e me apertou contra a parede. me empurrou contra a parede. um grandão. Quando um pequeno botão de lado é apertado. não gosto de você. que daí para frente ninguém mais levaria vantagem sobre mim. porém. e eu ia descendo pelo corredor. Da próxima vez estaria preparado . disse eu.ficar longe das quadrilhas. “Você não sabe que isto aqui é nosso?” “Essa não! Isto é domínio da escola. porém não vi ninguém que pu- desse chamar em meu socorro.” Minha face estava muito ferida e meu nariz parecia estar quebrado. eu descia um corredor que dava para a rua. Percebi que alguns alunos estavam me seguindo.

naturalmente. pensava que eu era destro. pressionando-a a ponto de marcar a pele. picando os botões da minha camisa com a ponta afiada e fina. afastando-a do meu peito. disse ele. “Olha o que vou fazer. Ele deixou cair a faca e eu apanhei-a do chão. Você nos paga vinte e cinco centavos por dia e nós garantimos que ninguém te amola. também. Você apenas nos dá o dinheiro. sem furá-la. Torci a sua mão. “Você é novo nesta escola. espertinho”. nós garantimos que não amolamos você. meu chapa. morre”. respondeu ele. com receio de que eu fosse . vocês não judiarão de mim?” “Ninguém prova. Então eu disse: “Ah. A mocinha começou a gritar.” Um dos outros rapazes deu uma risadinha forçada e disse: “Sim. de qualquer forma. e nós fazemos todos os novatos nos pagarem para receber proteção de nós. Então é melhor que vocês me matem agora mesmo. O rapagão colocou a arma contra meu peito. logo abaixo da orelha. menino inteligente. O rapagão que tinha a faca contra o meu peito. É um bom negócio. é? E quem me prova que mesmo que eu dê vinte e cinco centavos para vocês todos os dias. Porque se vocês não matarem.” Todos os outros rapazes riram. o fiz girar sobre si mesmo e dobrei-lhe o braço por detrás das costas. não esperava que fosse agarrá-lo com a mão esquerda.” Pude perceber que os outros ficaram um pouco amedrontados . Empurrei o seu rosto contra a parede com a faca no lado da sua garganta. Coloquei-a contra a sua garganta. “Está bem. Senti-me bem como ela na mão. eu voltarei mais tarde e matarei vocês um por um. da mesma forma. Se não dá. Por isso.

Um rapaz de cor chegou atrasado. seria melhor que eles pensassem duas vezes antes de se enroscarem com o Nicky”. Ele deu a volta e beijou-a na boca. Hoje à noite vou até lá e te mato. Sei onde é a sua casa. Deixei que se fosse. Veio gingando e tinha um sorriso cínico nos lábios.matá-lo. Foge!” Eles fugiram. A explosão final veio dois meses depois de eu ter começado a estudar. Era o primeiro “canivete de pressão” que segurava em minha mão. “Daquela hora em diante. Aquilo fez de mim uma isca atraente para qualquer rapaz que quisesse brigar. inclusive o rapagão que estivera preso contra a parede. pensei. quer?” Ela gritou mais alto e agarrou o braço de um dos outros rapazes. Apanhei-os e sacudi-os. Virei-me para ela e disse: “Ei. Achei delicioso manejá-lo. sabendo que eles poderiam ter-me matado. Cheguei à conclusão de que algo drástico aconteceria: era apenas uma questão de tempo. ao mesmo tempo tentando acariciá-la. eu conheço você. Ela pulou do lugar e começou a gritar. Ainda tinha o punhal na mão. boneca. estava preparado. Ela afastou-se dele e sentou-se ereta na carteira. abrindo e fechando a lâmina. Desci pela calçada até onde os livros estavam jo- gados na água. se tivessem tentado. Havia uma linda garota porto-riquenha sentada na última fileira. Fiquei parado muito tempo. começando a puxá-lo para longe: “Foge! Foge!” gritava ela. . Logo espalhou-se o boato de que eu era terrível. Mas. “Esse cara é louco. Deixei-o cair no bolso do paletó e fui para casa. Ele curvou-se e beijou-a no pescoço. A professora acabara de estabelecer a ordem na classe e estava fazendo a chamada.

dei-lhe uma cadeirada no alto da cabeça. A esta altura. larga brasa!” Dei uma olhadela para a professora. limpando as unhas. A professora limpou a garganta e começou de novo a fazer a chamada. enquanto o sangue escorria de um profundo corte na cabeça. rapaz. Ele afundou na carteira. Os outros alunos estavam rindo e gritando: “Va- mos. divertindo-se. mas um latagão levantou-se diante dela e disse: “Ora. . e tomava providências para que alguém cuidasse do rapaz ferido. e recuou para a sua mesa. eu tenho uma coisa para você. olhe. enquanto a classe urrava. vai?” A professora encarou o rapaz que era mais alto do que ela. Levantei-me da carteira e dirigi-me aos fundos da classe. Algo estalara dentro de mim. Cheguei por trás do rapaz. enquanto a professora fazia a chamada. Ele agarrou-me pelo braço e me empurrou corredor a fora. que agora estava sentado na carteira. Peguei uma pesada cadeira de madeira que estava no fim do cor- redor e disse: “Ei. Ela pôs-se a descer entre as fileiras. A professora saiu correndo da classe e voltou em um segundo com o diretor. e tentava beijar lhe a boca. Ele finalmente desistiu e deixou-se cair pesada- mente no seu lugar. o rapaz tinha a garota presa contra a parede. A garota sentara de novo e soluçava. professora. para seu escritório. Fiquei sentado lá enquanto ele chamava uma ambulância. garotão.” Quando ele virou-se para olhar. a senhora não vai querer estragar a festa. Ela gritava e tentava afastá-lo.

e não pare enquanto não estiver fora das minhas vistas. Vou chamar a polícia. disse eu. e um dia pego o senhor sozinho e o mato. as confusões em que eu estivera metido. Vou deixar você ir desta vez. para explicar o que não tem explicação. mas nunca mais deixe que eu veja a sua cara aqui por perto. Não estou para me sentar aqui todos os dias e ver vocês se matando e mentindo depois. “Pelo menos o resto desses monstros que há aqui aprenderão a respeitar a autoridade. Vocês vêm aqui e pensam que podem agir da mesma forma que agem nas ruas.” Pus-me de pé: “Senhor. Disse-lhe que o rapaz estava se aproveitando da garota porto-riquenha. Cruz. Compreendeu?” . Por isso eu me colocara a seu lado. “e quando eu sair da cadeia. Mas nunca mais quero vê-lo nesta escola. Não me importa onde você vai.” “Chame a polícia”. encostei na porta tremendo de medo e de raiva. “Está bem. nos últimos dois meses. Penso que já é hora de dar um exemplo. Sua face empalideceu e ele pensou durante um momento. Enquanto falava. pediu-me uma explicação do que acontecera na classe. Finalmente.” “Espero que sim”. isto é. Contei-lhe exatamente o que houvera. Quero que saia daqui correndo. O diretor ficou branco. já agüentei essas brigas até onde pude.” Meus dentes rangiam enquanto falava. para mim. e que a professora nada fizera para impedi-lo. Virou-se para mim. voltarei. ele se levantou e disse: “Está bom. e quem sabe se a autoridade será mais respeitada aqui dentro. pode ir para o inferno. pude ver o seu rosto se aver- melhar. ao mesmo tempo. disse o diretor. a polícia vai me pôr na cadeia. Depois de dizer tudo o que ouvira a meu respeito.

não posso forçar você a voltar para a escola. inclusive Frank. Você precisa estudar. tem de voltar. sob um monte de lixo. sozinho. Capítulo 3 SOZINHO UMA VIDA MOTIVADA pelo ódio e pelo temor não tem lugar para mais nada a não ser o próprio ego. “Nicky”. resolvi deixá-lo. e eu sabia que tinha de tentar viver por minha conta. Frank. vive pela lei da selva. Nicky. Ele representava a autoridade. viciados em narcóticos. até que algum malandro tropece no seu corpo em decomposição. está louco.” “Não tenho nada a ver com isso. “Nova York é uma selva. ninguém vai saber que está morto. O povo que vive aqui.. Estava insistindo para que eu voltasse à escola. Só os fortes sobrevivem. está perdido. Este lugar está cheio de prostitutas. Na verdade. disse ele. Mas eu não podia mais ficar ali. Ele disse para eu não voltar nunca mais. “Nicky. e quando começou a reclamar porque eu não ia mais à escola e ficava fora até tarde da noite.” Frank tinha razão. E saí.” “Se pensa que vou voltar. Moro aqui há cinco anos e sei. Mas se você não fizer isso. Eu odiava a todo mundo. ébrios e assassinos. você ainda não viu nada.” . Eu compreendi.. Se quiser viver aqui. Esses indivíduos podem matar você.” “Mas o diretor me expulsou. correndo.

todavia não podia ficar mais com Frank. porque não tem onde ir. “O meu velho é zelador daqueles apartamentos. Ele é o que está bêbado. “Sim”. antes de Frank sair para o trabalho.” “Nicky. Naquela noite. “Se tentar me obrigar. O Conjunto Habitacional de Fort Greene vai desde a Av. Eu não tinha amigos. Isto não é coisa que se fale. Naquela tarde deixei um bilhete sobre a mesa da cozinha. Lafayette. O prédio a que o rapaz se referira pertencia ao projeto Fort Greene. tirando baforadas de um cigarro. Dirigi-me a alguns rapazes que estavam parados numa esquina. Mas se ficar. Encaminhei-me para o grupo de homens e per- .Respondi com maus modos. se quiser. vai para a escola e é só. dizendo-lhe que fora convidado por alguns amigos para ficar com eles du- rante uma semana. eu te mato. disse ele. “Alguém sabe onde eu posso encontrar um quarto para morar?” Um deles virou se e olhou para mim. Fale com ele.” Todos os outros rapazes riram. apontando com o polegar sobre o ombro. vagueei por Bedford-Stuyvesant. você é meu irmão. procurando lugar para ficar. jogando baralho com aqueles outros caras. Mais de trinta mil pessoas viviam nos altos edifícios. e a Praça Washington fica no centro. do outro lado da rua. Mamãe e papai me disseram para tomar conta de você e não vou deixar que fale assim. na direção da Escola de Brooklin. que encontrará um lugar para você. Ou você vai para a escola. no coração de um dos maiores conjuntos residenciais do mundo. Park até a Av. sendo que a maioria era de negros e porto-riquenhos. Mas você voltará. um bairro de Brooklin. Lá está ele sentado na escada. Vá embora. ou sai daqui.” Isso foi na sexta-feira de manhã.

Bar Paradise. The Esquire.guntei ao zelador se havia um quarto para alugar. Sabia que se tentasse assaltar alguém e fosse apanhado. cuspindo fumo na direção de meus pés. Um quarto custava dinheiro. entrei em um beco. Minha mão tremia ao pensar como iria praticar o roubo. e voltou ao baralho.” “Tem quinze pacotes aí?” perguntou. mas estava desesperado. Parando ao lado do último. Os outros homens nem se dignaram a levantar os olhos. ou apenas amedrontá-los? E se gritassem?. Encostei a ponta contra a palma da mão. Roube de alguma velha. Lafayette: passei por Papa John's.. Dissera a Frank que só voltaria depois de uma semana. não me importo. A lâmina abriu-se com um estalido. Por quê?” Hesitei e gaguejei: “Bem. não meta mais o nariz aqui.” Voltei para a Av. Eram quase dez horas da noite. argumentei. iria para a cadeia. . você está me enchendo. e eu não tinha um centavo. e vi pessoas passando na calçada. Mas até que você tenha o dinheiro.. mas. Casa de Carne Harry. Ele tirou os olhos das cartas e grunhiu: “Sim. “Bem. Tirei o punhal do bolso e apertei o botão. “Mas posso conseguir o dinheiro”.. Shery's. Recuei para a escuridão do beco. não.. o quarto é seu. garoto. Não me importa como vai consegui-los. e Rendezvous do Lincoln. Seria melhor empurrá-los para o beco? Eu deveria esfaqueá- los. quando você puder mostrar-me quinze pacotes adiantados.” “Então não tem quarto”. e o vento de inverno estava frio de rachar. Bar Valhal. disse ele. “Olhe. procurando descobrir como conseguir dinheiro. porque eu preciso de um lugar para morar. tem um. agora não.

Ambos estávamos morrendo de medo. homem. Duas maçãs rolaram pela calçada. Atravessou-me a mente o pensamento de que o velho. Logo que o rapaz se fosse eu o puxaria para o beco e tiraria o dinheiro dele. apertando-o contra o muro. O velho pedia- lhe uns trocados para tomar café. tentando escapar. Ele ficou petrificado quando eu levantei a faca diante do seu nariz. é um .” Minha mão tremia tanto que eu tive medo de deixar cair a faca. Enfiou a mão no bolso e encontrou uma moeda. Tirou a carteira do bolso e tentou passá-la para mim. por favor. O rapaz estava pousando o saco de mantimentos no chão. mas preciso de di- nheiro. “Por favor. Chutei a carteira ainda mais para o fundo do beco. Leve tudo. mas não me mate”. se eu o roubasse. antes que o mate. dizer ao bêbedo que não tinha dinheiro. Ele tremia mais do que eu. Não ousaria gritar pedindo socorro. Ouvi o rapaz. que levava um enorme saco de mantimentos. “Corra. mas derrubou-a. disse eu. rogou o rapaz. “Que faço agora?” Naquele instante o rapaz derrubou o saco de mantimentos. mas eu tinha a vantagem da surpresa. corra! E se parar de correr antes do segundo quarteirão. e eu o puxei para o beco. O velho resmungou um agradecimento e foi embora. Já! De- pressa! Tudo o que tem. Ele curvou-se para apanhá-las. Um velho bêbedo fez parar um rapaz de uns dezenove anos. “Diacho”. provavelmente. “Caia fora”. “Não quero machucar você. pensei comigo. Estou desesperado. estava com o bolso cheio de dinheiro mendigado e roubado. Dê-me dinheiro. Meus pensamentos foram interrompidos por duas pessoas que conversavam na entrada do beco.

Apanhei a caixa e sacudi-a. Afinal de contas.homem morto. vou fazer isto. e começou a correr. pensei. Emergindo da escuridão em De Kalb. em direção às árvores. Abrindo a carteira. e peguei o primeiro trem que chegou. O zelador subiu comigo três lances de escadas. A essa altura. que estava toda amassada. com os olhos arregalados de terror. saiu correndo rua abaixo. voltei então ao lugar onde havia cometido o roubo. Reconstituí o acontecido em meus pensamentos. As quadrilhas estão matando vagabundos por menos de um dólar. Dirigi-me para a entrada do metrô. O quarto . e eu conseguira dezenove na primeira tentativa. Escondendo-me por trás de um aterro. Alguém já juntara todos os mantimentos que haviam caído. e contei o dinheiro outra vez. Da próxima vez. Passei a noite no metrô. contei dezenove dólares. Era uma sensação agradável ter as notas na mão. estava de volta à Rua Fort Greene para alugar o quarto. peguei a carteira e corri com todas as forças na direção oposta. pensei. até depois da meia-noite. já era tarde demais para ir procurar o quarto. só para ver como era. Mas o sentimento de autoconfiança não removeu todo o medo e permaneci escondido detrás dos arbustos. Atirei a carteira no meio da grama alta. Logo que virou a esquina. as coisas não iam assim tão mal.” Olhou para mim. Tropeçou nos mantimentos e estatelou-se na calçada. e meio de gatinhas. com exceção de uma caixa de bolachas. saltei a cerca de corrente que cerca o parque. parei para tomar fôlego e permitir que o meu coração acelerado se acalmasse. e corri pela grama alta. logo cedo. meio em pé. antes de dobrá-lo e colocá-lo no bolso. e sorri. fazendo com que os pedaços e o farelo caíssem na calçada. perto de Papa John. Cambaleando. e no dia seguinte. levantou-se outra vez. na entrada do beco. Eu devia tê-lo cortado. Nada mal.

O zelador disse-me que havia um banheiro comum no segundo andar. Ocupava todo o quarteirão e impedia a visão de qualquer outro panorama. Parei no patamar e fiquei a observá-lo. mas não fazia muita diferença. Havia duas camas de solteiro. eu estava por conta própria. olhando inexpressivamente para a rua. e que eu podia regular o sistema de aquecimento com a maçaneta do radiador de aço. O trânsito. A porta fechou-se atrás dele. logo cedinho. Naquela manhã. Escutei seus passos soando pesadamente escada abaixo. movia-se com um zumbido na Av. O paletó sujo e esfarrapado caía de um dos ombros. O cara parou de vomitar e deixou-se cair no último degrau. Debruçou-se sobre o corrimão e vomitou na calçada. Um grupo de “pequenos” irrompeu por uma porta lateral do primeiro andar e correu para fora. no fim do quarteirão. Passei por ele e desci para a calçada. enquanto saía pela porta e descia os degraus externos. dei a primeira volta pela vizi- nhança. um lavatório e um pequeno guarda-roupa. e as suas calças ficaram com a braguilha aberta. e disse-me que o aluguel vencia todo sábado. lá embaixo. Descendo as escadas do pardieiro. vi um rapaz sair cambaleando de debaixo da escada. com rachaduras no forro. ignorando completamente sua presença. uma cadeira. Indo à janela. Do outro lado da rua erguia-se a Escola Técnica de Brooklin.tinha janelas para a rua que ficava defronte à Escola Técnica de Brooklin. olhei a rua. Sua face estava pálida como um lençol. Sobre a minha cabeça ouvi uma janela abrir-se e olhei para cima exatamente a tempo de desviar-me rapidamente de uma . uma mesinha. uma semana adiantado. Não sabia dizer se estava bêbedo ou dopado. Lafayette. e seus olhos profundamente encovados. Entregou-me a chave. depois dele ter urinado atrás do radiador. Era pequeno. Voltei-me e olhei o quarto. Pelo menos.

Chutei-o e entrei . Possivelmente havia mais cinco no pequeno apartamento de três cômodos. O portão de ferro estava aberto. Algumas árvores esqueléticas esticavam seus galhos desnudos para o céu cinzento. Eles me fizeram pensar em animaizinhos engaiolados. Por trás do edifício de apartamentos havia um terreno baldio. estava vago. Parte da janela estava quebrada e em seu lugar haviam posto folhas de papelão manchado de umi- dade. Caixas velhas de papelão. estendia-se através do lote. usando uma entrada de porão como latrina. debaixo do número 54. temerosos de serem feridos ou mortos. um dos “pequenos” estava agachado na penumbra. ansiando pela liberdade. debaixo da escada. Edward. com seus narizes apertados contra a vidraça suja. N. Dois prédios além. dos E.). Uma cerca de arame toda estragada. Chutei uma lata de cerveja vazia — o terreno estava cheio delas. O apartamento do porão. mas as árvores pareciam relutantes em fazer brotar novos rebentos e enfrentar outro verão do gueto (Gueto: Nome dado a uma área pobre de cidade grande. e algumas das janelas do primeiro andar tapadas com tábuas ou com folhas de zinco. para resguardar os apartamentos do vento frio. mas com medo de aventurar-se fora da gaiola. mas disse a mim mesmo que acabaria me acostumando com aquilo. cheio de espinheiros e mato que che- gavam à altura da cintura. em que habitam pessoas de uma mesma raça ou cor. Estremeci. até outro edifício de apartamentos que fazia frente com a Rua St. Contei cinco faces amedrontadas. A primavera começara. Olhando para trás. e retornei à frente do apartamento. Dei a volta. logo adiante. jornais e caixas quebradas estavam espalhados no meio do mato crescido. Em outra porta. eu vi as faces redondas de uns negrinhos pequenos. observando-me chutar o lixo.avalanche de lixo que era jogada do terceiro andar. vi o meu prédio.

Dois meses se passaram e eu ainda não me acos- tumara com Nova York. Myrtle. Os animais não foram feitos para viver desta forma. só havia edifícios de apartamentos até perder de vista. As mulheres brancas exerciam o seu comércio do lado direito da rua e ocupavam um prédio de apartamentos a um quarteirão do meu. elas vivem assim. Comecei a descer pela calçada. só com uma floresta pintada na parede de trás da jaula. logo de manhã. Sobre minha cabeça um trem rugiu e matraqueou. e viviam perto da entrada do metrô. na esquina da Av. Eles se espojavam na sua própria imundície. fumo e graxa era maior do que eu podia suportar. amontoada em quartos minúsculos. mas aqui. As prostitutas constituíam uma cena patética. vestidas com casacos sujos. Parei no meio-fio. em grupos. Lá em Porto Rico vira gravuras da estátua da Liberdade e do edifício das Nações Unidas. Cada janela simbolizava uma família. vinho. Mas aqui. Saí depressa prendendo a respiração. para animá-las. nos guetos.O cheiro de urina. es- perando o sinal abrir. onde os ursos andavam lentamente. Algumas bocejavam ou porque estavam doentes. Eram todas viciadas em narcóticos. nesta área pobre. Lutavam uns contra os outros. levando uma vida miserável. As mulheres de cor “trabalhavam” do outro lado da rua. uma picada de heroína. ou porque precisavam de um “estimulante”. Pensei no jardim zoológico de San Juan. e a única vez em que concordavam era quando se reuniam para rechaçar um intruso. a recordar-lhes o lugar onde deveriam estar. Comiam carne estragada ou alface murcha. Pelo menos eu tinha um quarto no terceiro andar. Nem as pessoas. cheios de carne humana. excrementos. e os macacos tagarelavam detrás das grades. Picavam por ali. cobrindo os que estavam embaixo .

algumas flores artificiais . Mas era um esforço desesperado à semelhança de um homem que está se enterrando em areia movediça. porém. Roupas de baixo que uma vez haviam sido brancas agora eram de um cinzento encardido. sujo. Havia evidências de tentativas anêmicas dos ocupantes. Em muitos quarteirões não havia loja que não tivesse uma grade de ferro em forma de tela ou barras de ferro. de uma chaminé a outra. feita com a madeira rústica de um engradado. procurando alguma forma de identidade. aparecia dependurada de uma janela imunda. As camisas azuis e calças cáqui drapejavam ao vento gélido. Um vaso de cerâmica. O sábado amanhecera. via um apartamento com esca- das pintadas de cores vivas. que o povo atravessava quando o sinal abria. Nos fundos dos prédios de apartamentos os varais iam de uma sacada a outra. que tateia às bordas do lodaçal com dedos frementes. Ocasionalmente. devido à constante exposição ao ar poluído. para protegê-la das quadrilhas que por ali vagueavam à noite. o que mais me deprimia. Um gerânio mal cuidado apoiava-se contra o vidro. Nela. aparecendo assim em flagrante contraste com as pedras escuras. Os apartamentos eram.com uma camada fina de fuligem e poeira. agarrando-se a ela desesperadamente. com a raiz quase esmagada nas mãos apertadas em desespero. procurando uma raiz que seja. Os lojistas abriam as pesadas grades de ferro defronte às lojas. enfeitava o batente de uma janela coberta de fuligem. acima da selva de concreto e dos precipícios de tijolos. Em outro local uma jardineira improvisada. com flores. As ruas estavam cobertas com uma mistura lamacenta de neve. enquanto é arrastado para o fundo. e às vezes os umbrais de uma janela estavam pintados. sujeira e sal.

Suas seiscentas janelas davam para a rua. Voltei sobre os meus passos. Vestiam blusões negros. Nem grama. com dois M vermelhos costurados nas costas. no pátio que havia atrás da Igreja Católica de St. Nem árvores. outrora de cores brilhantes. agora desbotado devido às intempéries. Michael e St. A música do realejo era quase sufocada pelo barulho que os rapazes estavam fazendo. tremendo por trás das vidraças De uma das janelas pendia um trapo esfarrapado. . Naquela tarde. deitado na rua. que cobria um quarteirão inteiro. cada uma representando um estado miserável de humanidade. Eu chegara à Rua St. Não há escapatória na selva de asfalto. em direção à Praça Washington. e o pensamento de uma quermesse fazia meu sangue formigar. Nem espaços abertos. Cheguei às quatro horas. fica prisioneiro dela. Ainda tinha um pouco de dinheiro que restara do furto. Edward. batendo palmas e dançando no meio da calçada. desci rua abaixo de novo. Edward na esquina das ruas Auburn e St. notei um grupo de rapazes em volta de um tocador de realejo. aqui neste lugar imundo? pensei. Eu não sabia que uma vez que alguém muda para uma daquelas gaiolas de concreto. Na porta. Eu notara que havia uma espécie de parque de diversões e espetáculos. A maior parte das janelas' não tinha venezianas ou cortinas — estavam ali. perto do Distrito Policial.desafiavam o vento de inverno. A música do alto-falante ressoava no volume máximo. Edward. Era uma quermesse. Por que vive assim? Não há quintais. Do outro lado da rua havia um enorme edifício de apartamentos de doze andares. arregaladas como os olhos de um cadáver congelado. O que há de errado com este povo. cobertas da fuligem que saía de milhares de chaminés erguidas por toda a cidade. e parara defronte à biblioteca Walt Whitman.

moleque?” “Não tenho turma”. cara. encaminhou-se para mim e me empurrou com o peito.” Devolvi-lhe o olhar duro. pro- curando minha faca. e ao meu quarto. Isso vai cortar sua barriga. Atrás de mim pude ouvir . e percebi que os outros rapazes de blusão preto haviam. você sabe o que é isto?” disse ele. e continuou: “Sabe. respondi. “Vim aqui para entrar na quermesse. e pus a mão no bolso. Com as mãos na cintura. rindo: “Qual a sua “turma”. meu chapa. enquanto ele sapateava. cara. “Isto é um punhal. “Ei. um qua- drado pode ser morto num instante. brandindo uma faca aberta. Quero ver você a bancar o espertinho comigo! Eu não sou mole como o Israel. em ritmo acelerado. “Ei. ele girava ao ritmo da música. É crime?” Um rapaz do grupo avançou para mim.” Eu estava com raiva. Assenti com a cabeça e voltei rua acima. Seu rosto bonito abria-se num sorriso.” O rapaz a quem ele chamara de Israel fez sinal para o outro afastar-se. em direção à Praça Washington. bem magro. de olhos frios como o aço. No centro do grupo estava um rapaz de cabelos negros. O rapaz bonito. Parou de repente e o sorriso foi instantaneamente substituído por um olhar duro e frio. Repentinamente seus olhos negros encontraram os meus. Pode ser que eu o mate. mas cheguei à conclusão de que a minha desvantagem era muito grande. for- mado um pequeno círculo ao nosso redor. silenciosamente. mas sabia que haveria outra oportunidade para demonstrar minha coragem. Nós não queremos nenhum quadrado rondando por aqui. mais ou menos da minha idade. o que é que você está fazendo neste território? Aqui é domínio dos Mau-Maus. se você quer viver. é melhor pinicar . Agora. Não queria portar-me como covarde.

Passando por baixo do pontilhão do trem na Av. tirando do bolso da camisa um cigarro feito em casa. Ele enfiou a mão no bolso da camisa e tirou um cigarro dobrado e amarfanhado. “É preciso tragar”. “é assim. “Não”. riu o menino. as quadrilhas aqui são duronas”. É bárbaro. Aquele pirralho aprendeu a lição. Recuara uma vez naquela tarde.” Ele acendeu o cigarro e comecei a fumar cuida- dosamente . Myrtle. Estava dobrado em ambas as pontas. entrei na praça e sentei-me em um banco. “Quer experimentar? Tenho mais um. “Se não. mas seria um bobo se tosse lutar contra todos de uma só vez. que riu e sentou-se no banco. onde ele lambera o papel para colá-lo. bicho. não?” disse ele. Israel. “Eu dou em todos eles. Meneei a cabeça. embora soubesse do que estava falando. disse o rapaz. ele se apaga.” “Claro”. Vai fazer frio no inferno antes que ele ponha o nariz aqui de novo.” “Rapaz. e manchado lateralmente. Virei-me e olhei para ele. disse o menino.a quadrilha rindo e apupando: “Isto é que é falar. Não notei que um garoto de cerca de treze anos me seguira. “Você fuma maconha?” perguntou. “Eles lhe fizeram passar um aperto. “Matam a gente se não concordar com eles.” Acendeu o cigarro e notou que eu o observava. e não queria recuar de novo.” Eu estava zangado e frustrado. “O que você está pensando?” perguntei. respondi. ao meu lado. desta vez.” .

“Meu chapa. Cuba. É como uma pequena lata de . melhor lutador. ele se queima e você não aproveita. meu chapa!” Eu traguei. mas é melhor comprar uma lata. como isto é bom! Se você der baforadas. começando a sentir os efeitos atordoantes da erva. “O que acontece?” perguntei. Não é tão boa como outros tipos de mercadoria. Tinha um gosto estranhamente doce. procurando aprender o vocabulário e um pouco embaraçado pelo fato de um menino de treze anos saber mais do que eu. respondeu o rapaz. Faz a gente achar que é o melhor dançarino. Eles conseguem de contatos mais importantes.” “Quanto custa. melhor namorador. Algumas vezes a gente encontra a setenta e cinco centavos. a gente comprando numa boca de fumo?” perguntei. e o meu velho plantou algumas sementes no meio do mato. isto faz a gente voar”. A maior parte dos rapazes pode consegui-la para você. Nós temos umas mudas. Você precisa tragar. México. é fácil. “Puxa. observando o brilho dos olhos. Todos aqueles rapazes lá na quermesse estavam fumando a erva. “Faz a gente rir um bocado.” “Onde é que você consegue isto?” “Ah. Você não viu como os olhos deles estavam vermelhos? A gente pode saber se eles estão “altos”. Nosso quintal está cheio de mato. Tem umas cem bocas de fumo aqui na vizinhança. mas é de graça. Eu? Meu velho tem uma plantação de maconha no fundo do quintal. Deu um trago profundo no cigarro e inalou va- garosamente a fumaça para os pulmões. para o gasto. “Alguns “pacaus” custam um dólar. Ninguém vai lá. e um cheiro forte.

Estou só esperando pegar aquele vagabundo sozinho. Dessa forma a gente pode fazer os próprios “pacaus” por quarenta centavos. Alguns caras podem querer tapear você. Voltei-me para olhar o garoto. Sempre é bom provar antes de pagar. espera só . precisa ter cuidado. Pra te contar a verdade. por que é que eu vou rir?” disse ele. eu nem sei quem é o meu velho. que pegou nas suas costas. Mas. Eles misturam orégano com a maconha. “Meu velho é um beberrão. Esse homem bate na minha mãe o tempo todo. “Pensei que esta droga devia fazer a gente feliz. “Esse é o mesmo homem que plantou a maconha no fundo do quintal?” perguntei. deixando-me uma sensação de estar flutuando em uma nuvem de sonho. Então minha mãe. minha própria mãe me xingou e disse para eu me mandar. Também não gosto mais de minha mãe. “É. Só que ele não é meu verdadeiro pai. Joguei um despertador nele. Que motivo tenho para sorrir?” Nenhuma vez levantou a cabeça enquanto falava. Ele veio morar com minha mãe no ano passado. Meu chapa. esperando a hora de poder matá-lo. mais ou menos. descansando a cabeça nas costas do banco. que eu não tinha direito de machucar o seu homem. e a tontura desaparecera. Por que você não está rindo?” “Rapaz. e esticara as pernas para a frente. Não faço parte de nenhuma quadrilha. com a cabeça nas mãos. Na semana passada tentei tirá-lo de cima dela e ele deu uma garrafada na minha cara. Agora eu estou morando na rua.. Ele também é traficante. Não parecia estar sentindo o vento frio. Ele estava sentado no banco. pois certamente eles quererão tapear. e assim a gente não compra a erva pura. Não estou unido a ninguém. quebrando-me dois dentes. para matá-lo.fumo.” Eu terminara de fumar o meu “pacau”..

que você aprende. eu sou de sorte. soqueiras de bronze. pôr pregos nos sapatos. rifles. e algumas das quadrilhas dos italianos carregam navalhas. revólveres. Eles te matam. e o que você me diz dessas quadrilhas? Quantas são?” “Centenas”. espingardas de cano serrado.. Chegam a afiar a ponta do guarda-chuva.” Ele olhou para cima. tijolos. pistolas. Tome cuidado com as quadrilhas. garrafas quebradas.” . e você vai ver. quando vão dar socos. “Sou sozinho. acrescentou: “Bem. o rosto contorcido e cansado. “E o seu velho. o que mais? Estão sempre saindo para lutar contra outra gang. pedras.” Depois. Mas você vai aprender. disse ele. animando-se. e fico longe deles. tacos de beisebol. correntes de bicicleta. estão combatendo com a polícia. meu chapa.” O menino levantou a cabeça: “É. Vou furá-lo — atravessá-lo com uma faca. ou então ficam perto de casa para defender seus domínios contra al- guma gang invasora. baionetas. fica por aí. agora eu tam- bém. “Rapaz. É por isto que não me uno a eles. porretes. ele também é um pau dágua?” “Não. eles usam para matar. rapaz. qualquer coisa que você pensar. Eu só ando pelos becos e ruas escuras.. Fique por aqui. Eu nem mesmo tenho um velho ou uma velha”. Quando não estão combatendo uns com os outros. do que a de um rapazinho de treze anos. e colocam lâminas de barbear entre os dedos. Carregam facas.” “O que é que eles fazem?” “Brigam. Usam tudo o que podem para brigar. “ciao”. menti.eu o pegar sozinho. há tantas que a gente nem pode contar. Parecia mais a face de um macaco velho. se te pegarem na rua durante a noite!” “Ei. espero.

e cambaleou ao mesmo . saí de meu apartamento por volta de oito da noite. Tive dificuldade em acostumar os olhos com a penumbra. fumando. entramos em um porão debaixo de um lance de escadas de um edifício de apartamentos. Nicky. Um moço porto- riquenho chamado Tico estava encostado na parede do edifício. Ele se levantou e foi andando sem destino pela praça. vinda das luzes da rua.” Eu tinha ouvido falar dessas “festinhas”. pude ver figuras agar- radas umas às outras. Quando entrei no salão. Voltei ao número 54 da Fort Greene. dançando ao som de música suave. Ele olhou para mim e disse: “Ei. Um quebra-luz estava aceso a um canto. e um pouquinho. por isso aceitei pressuroso o seu convite. enquanto os pés moviam-se em compasso com a música lenta. e fui até Papa John's. Um pouco de claridade entrava pelas janelas. Capítulo 4 BATISMO DE SANGUE VÁRIAS SEMANAS MAIS TARDE. presidente da gang. lá fora. Um dos rapazes agarrou uma garrafa de vinho por trás das costas do seu par. numa esquina da Av. Eu já me encontrara com ele uma ou duas vezes. pela porta. você gostaria de ir a uma “festinha”? Vou apresentá-lo ao Carlos. mas nunca fora convidado. Suas cabeças caíam no ombro uma da outra. Já estava ficando escuro. Lafayette. desaparecendo no crepúsculo. e sabia que era perito na faca. e acompanhei-o por uma rua transversal.

este é um amigo meu. Coloquei a mão ao redor da sua cintura e disse: “Ei. dois casais estavam deitados numa esteira.tempo que rodeava o pescoço da moça com o braço e tomava um longo trago da garrafa. Antes que eu pudesse responder. jogando baralho e fumando ma- conha.” Dançamos um pouco e depois paramos para ver . Tico falou: “Seu nome é Nicky. pensei. Tico agarrou meu braço e empurrou-me salão adentro. Bem ao fundo do salão. turma. uma saia vermelha. Nicky. levantaram. Um casal estava aparentemente dormindo. Tico olhou para mim e piscou. e descalça. Eles podem fazer amor quando quiserem. e me agarrou pelo braço. isto é uma “festinha”. boneca. Vamos fazê- lo sentir-se em casa.” Um monte de revistas com figuras de mulheres nuas e semi-nuas estava no chão. se você é tão bom de briga. longe da lâmpada. “Há uma cama ali. e saíram tropeçando por uma porta lateral. Pode ser que entre na nossa turma. Vários rapazes se achavam sentados diante de uma pequena mesa. Estava com um suéter preto apertado. quer dançar comigo?” “Como se chama?” perguntou. aos meus pés. como vim a saber mais tarde. Ele é meu amigo e é um cara muito bom de briga. “Tá bom. “Ei.” Uma garota loura surgiu das trevas perto da por- ta. um nos braços do outro. Uma garrafa de vinho fora colocada no meio da mesa. Enquanto eu ainda os observava. “Então.” A garota deslizou à minha frente e ficou bem perto de mim. vamos ver se é bom também para dançar.

dois rapazes fazer o jogo da “galinha” com uma faca. ele era um “galinha”. A idéia de ver sangue me excitava. esperando que ele errasse. Veio com Tico. e machucasse o outro. sem acertar nos pés. Nicky. Depois arreganhou os dentes num sorriso e estendeu a mão. Quero que você conheça um cara que é muito importante. Tico disse que ele é bom de briga. “Ei!” gritou para nós. encostada nele. Se o rapaz recuasse. virou-se de lado. escorregando a palma contra a . Uma garota estava sentada a cavalo em seu colo. Ali de pé.” Segui-a até uma sala ao lado.” Cuidadosamente encostei minha mão aberta na sua e puxei-a para trás. O objetivo era espetar a faca tão perto quanto possível. ele perguntou: “Quem é esse cara?” A loura respondeu: “É meu amigo Nicky. e deu tapinhas nos quadris da garota com ambas as mãos.” O rapaz alto tirou a garota do colo e olhou carrancudo para mim. Olhando para mim. Surpreendi-me desejando que ele ferisse o rapaz. com as pernas sobre uma mesinha à sua frente. comecei a rir interiormente. Presidente dos Mau-Maus.” Riu. “Toca aqui. Um dos rapazes estava de pé contra a parede. Um porto-riquenho alto e esbelto estava estirado numa cadeira. Meu nome é Carlos. “Vocês não têm educação? Não sabem que não podem entrar aqui sem pedir licença? Vocês podem me pegar fazendo alguma coisa que não quero que ninguém veja. A loura de suéter negro me puxou pelo braço: “Venha comigo. e ele soprava fumaça através do cabelo dela e sorria. e o outro atirava uma faca em direção aos seus pés.

demonstrando renovado in- teresse. respondi. você já “furou” alguém ?” “Não”. Seus profundos olhos negros pareciam querer perscrutar minha alma. Descobri mais tarde que o presidente e o vice- presidente estão quase sempre juntos. mas falando a verdade. com seus blusões de couro com dois M vermelhos costurados às costas. “Dezesseis”. até com a polícia?” “Claro”. Nicky?” perguntou Carlos. “Ei. Esta é a maneira de cumprimentar das quadrilhas. deixando-me embaraçado. estava inexpressivo. “E o que foi que você fez com o cara?” . Eles tomaram esse nome emprestado dos sanguinários selvagens da África. ao olhar para mim. respondi.” “Está disposto a brigar com qualquer um. repliquei pesaroso. Quase todos carregavam bengalas e usavam sapatos pontudos e podiam matar um homem a pontapés em questão de segundos. Carlos acenou com a cabeça para o canto da sala e eu reconheci o rapaz que vira na quermesse. “É ?”. muitos dos quais enfeitados com fósforos de madeira. Ouvira falar dos Mau-Maus.” O rosto de Israel. Usavam chapéus alpinos extravagantes. “Aquele é Israel. Já os vira nas ruas. “Sabe brigar?” “Claro. respondi outra vez. “Quantos anos. disse Carlos. “Alguém já tentou “furá-lo” ?” “Já”. vice-presidente dos Mau-Maus.dele. Protegem-se um ao outro no caso de um dos dois ser atacado.

não pode ser “bolha”. eu o mato antes de você dizer “ai”. pois já ouvira contar de rapazes que tinham sido mortos por suas próprias quadrilhas. precisa ser como nós. nós acertamos você quando sair da cadeia. Atraíra a garota para si. rapaz: se você entrar para os Mau-Maus. “mas vou fazer.” Israel interrompeu-nos: “Escute. meu chapa.” Eu sabia que Israel estava falando a verdade. e Carlos disse: “Ei. eu me esqueci de lhe dizer: se você contar a alguém. ou entramos na cadeia e acertamos você lá. Nicky. disse Carlos. Morou?” . Mas não queremos “bolhas”. outra vez. Ninguém pede demissão. onde estamos.” “Tá bom. se a polícia te pegar e você der o serviço.” Israel mostrou um sorriso escarninho no rosto simpático: “Que tal. por terem denunciado um colega de gang. então falou: “Duas coisas. Até a polícia tem medo da gente. menino. Quero saber sua decisão. a qualquer pessoa. é para toda a vida. Só estou es- perando pegá-lo de novo. meu chapa”. Carlos. ao redor dos quadris. disse eu. nós cortamos e matamos você. Virei-me para sair.. Segundo. No fim desse prazo. e quando isso acontecer. Tá certo? Se você bancar o “galinha”. O fato é que acertamos.” Ele ainda estava meio deitado na cadeira com as pernas sobre a mesa. Somos os mais durões. vou matá-lo. você ainda quer entrar na turma?” “Dêem-me três dias”.. “Se eu entrar para a sua gang quero ir até o fim.. volte aqui. disse eu. se você quer entrar para a nossa gang. e estava com a mão esquerda sob a sua saia. Para entrar para a nossa quadrilha.. “tem três dias para pensar. “Nada”.

por que você não é o presidente ?” “Eu não. a comida e as roupas. Eu gosto é de brigar.” “Ei.” “Que é que você acha de Carlos ?” perguntei. Você sabe. Ele tem de ficar para trás e fazer os planos. Ele tem a parte do leão em tudo o que roubamos — o que geralmente dá para ele pagar o aluguel. A quadrilha cuida do presidente. elas gostam disso. E eu sabia que ele falava sério. respondi. “É um negócio bom. para continuar vivo por aqui. você vai ter que entrar para uma quadrilha. na rua.” “É disso também que eu gosto”. todo mundo escuta. Tico. meu chapa. E isto não é tudo. mas quando fala. “Morei”. cara. Ser presidente é um alto negócio. pensei. Além disto. se você é tão bom de faca. Não fala muito. Rapaz. se quiser. “É”. “Tem umas setenta e cinco garotas em nossa gang e o presidente escolhe qualquer uma delas. Se não entrar. Não quero ser presidente. Elas brigam para ver quem vai divertir-se com ele. eles são capazes de matá- lo por não ter entrado. Se entrar. interroguei Tico: “O que é que você acha. “que tipo de sujeito é ele?” “É cem por cento. “Prefiro . e todos sabem disso. disse Tico. eles tomam conta de você. Você não tem muita escolha agora. Cada dia é uma diferente. Tico? Acha que eu devo entrar para os Mau- Maus?” Tico apenas encolheu os ombros. Lá fora.” “É verdade que o presidente escolhe a garota que quiser?” perguntei. Ele é o chefe. namorar o presidente é ser importante. O presidente não briga mui- to.

. e eu voltei para o n. “Ei. as garotas. hein?” “Não”. Quero brigar. “Vim para dizer que quero entrar.. brigar. Há outro rapaz que deseja entrar para os Mau-Maus. e depois será a sua vez.” “Bom”.” Tico foi para o Papa John's outra vez. E depois veremos se você . Vamos ver se é mesmo. Porém. Eu não teria mais de brigar sozinho. você chegou bem na hora. As “festinhas”. voltei à sede da quadrilha. ou encosta na parede esperando a faca. como se estivesse com uma faca atacando e ferindo figuras imaginárias na escuridão.. Ou ele fica imóvel enquanto cinco dos nossos rapazes mais fortes o surram. repliquei. Entrei. Quase que já podia enxergar o sangue escorrendo pelas minhas mãos e pingando na rua. “você pode assistir. Carlos continuou: “Mas quem sabe se você veio para dizer que não quer entrar para a gang. as brigas. Sentia o sangue ferver nas veias ao imaginar o que me esperava.. Dissera a Carlos que resolveria em três dias. golpeando o ar. Duas noites mais tarde. Fiz movimentos com as mãos. Poderia ferir tanto quanto quisesse. Meu coração começou a bater mais depressa. e luto melhor do que a maioria dos outros. e Carlos veio me encontrar na porta.brigar. Este rapaz diz que é durão. Nicky. Talvez eu tivesse a chance de esfaquear alguém. não pode entrar para a quadrilha. mas queria assistir. disse Carlos. enquanto andava. Se fugir de qualquer uma das provas. sem ser ferido. mas já me decidira. Acho que sou tão durão como qualquer de vocês. acima de tudo. Quer ver o ritual de iniciação ?” Eu não tinha idéia do que fosse uma iniciação.° 54 de Fort Greene. Temos duas maneiras de saber se o cara é covarde. Tudo o que queria era que alguém me desse um punhal e um revólver.

Era pequeno e magro. disse Carlos. “Você fica onde está. “Se ficar com medo enquanto eu estiver contando os passos. Se aparecer. “Agora. mesmo que a faca acerte em você. “Vamos. manchada na frente e repuxada sobre o cinto. cara. Tinha cerca de treze anos. e pode entrar para os Mau-Maus. Havia cerca de quarenta rapazes e garotas es- perando ansiosamente o espetáculo. disse ele. Carlos estava na direção. é só gritar. nós vamos cortar essas orelhonas. A lâmina de aço brilhava mesmo na luz fraca. Morou?” O menino fez que sim. Carlos deu as costas para o menino e . e todo mundo encostou nas paredes. Carlos mandou que o menino se encostasse na parede nua. “Vou dar as costas para você e dar vinte passos em direção à outra parede”. Bem. Pensei já ter visto aquele rosto espinhento na escola. Se não. Mandou que abrissem espaço.também é. outra coisa”. Você diz que é durão. e ficou à sua frente. espinhas por todo o rosto. vamos ver se é. pois ele era mais novo do que eu. é durão. e depois arrancar o seu umbigo com um abridor de latas e deixar você sangrar até morrer “ Os rapazes e garotas começaram a rir e a aplau- dir. com um punhal aberto na mão. levantando a faca diante do nariz do menino. fazer você comer. Quando eu acabar de contar vinte. vou virar e atirar esta faca. e longos cabelos negros que caíam sobre os olhos. e seus braços caíam duros ao longo do corpo.” Olhei para o outro lado do salão e vi o outro garoto. é “galinha”. mas então é melhor nunca mais mostrar o nariz por aqui. vamos!” gritavam para Carlos. mas não tinha certeza. Se você se encolher ou tirar o corpo fora. Estava vestido com uma camisa branca de mangas compridas.

Carlos ficou com raiva.” rugiu a turba. A turba de adolescentes mostrava-se selvagem no seu furor. . Os cantos de sua boca apertaram-se e os seus olhos se franziram. Carlos atravessou o salão e parou diante do me- nino que tremia. “Galinha”. dois.. rapaz.” A turma começou a gritar e a zombar : “Acerta nele. silvou ele. e os seus olhos estavam arregalados de terror. A tensão chegou ao auge.. Segurava a longa faca reluzente pela ponta da lâmina e cruzou os braços. “Peguem-no”. falou ele entre dentes. Seus braços rígidos ao longo do corpo. Estava tentando desesperadamente ser valente. e gritando : “Não ! Não !” A faca chocou-se surdamente contra a parede.. Carlos ! Atravessa os olhos dele! Mostra a cor do sangue dele. as unhas enterrando-se na palma da mão... pedindo sangue. . segurando a faca pela ponta da lâmina.” Carlos contava em voz alta. galinha !.. pontuda como uma agulha.. o menino dobrou-se. empurrando-o contra a parede. Dois rapazes avançaram de cada lado da sala e agarraram o garoto encolhido de medo.. No instante em que ele lançou o punhal para a frente. .. à medida que rapazes e garotas vaiavam e clamavam por sangue. faz um furo nele. três. Seu rosto perdera todo o sangue.. pelos braços. . “Galinha ! eu sabia que era covarde desde a primeira. “Um.. suas mãos apertadas em punhos minúsculos. galinha !. à altura da orelha. “Dezenove. vinte. enquanto media as passadas. com a faca diante dos olhos. parecendo um ratinho que tivesse sido pego por um tigre..compassadamente cruzou a sala. “Galinha !. “Onze. . treze. doze... a poucos centímetros de onde estivera a sua cabeça. encos- tado à parede. cruzando as mãos por trás da cabeça. ..” O rapazinho estava petrificado de medo. “ Vagarosamente Carlos virou- se e levantou a mão.

“sou canhoto também. os dois rapazes.” Arrancou a faca que estava espetada na parede de madeira.” Os rapazes por toda a sala aproveitaram-se do tema : “Mate ! Mate esse sujo !” “Sabe o que fazemos com os covardes ?” pergun- tou Carlos. passou- o rapidamente para a outra mão. para não voarem mais. O sangue saiu aos borbotões.vez que te vi. abriram-lhe os braços. “Cortamos as asas. “Tirem isso daqui”. «Eu vou lhe contar o que fazemos com “galinhas”. com os braços cruzados sobre o peito e as mãos apertando lamentosamente a carne dilacerada. Devia te matar. agarrando-o pelos braços. puseram-no de pé. ordenou Carlos rispidamente. Ele gritava e gemia. rolando pelo chão. e enfiou-a quase até o cabo na axila do garoto. Os olhos do garoto. de um vermelho vivo. O menino olhou para ele tentando mover os lábios. Ele atirou a cabeça para trás e gritou em agonia. Movendo-se tão rapidamente que com dificuldade podia-se acompanhar o movimento da sua mão. Arrancando o punhal da carne do garoto. mas nenhum som saía. jactou-se ele. com toda a força. Carlos levantou a faca em um golpe rápido. Dois rapazes avançaram e. afastando-os do corpo. levantando-o ameaçadoramente e enterrando-o na outra axila. Antes que o menino pudesse mover-se. A camisa estava quase que completamente ensopada de sangue. e em poucos instantes manchou de vermelho sua camisa branca. “Estiquem o bicho!” disse ele. com um repelão.” Os dois rapazes largaram o menino e ele caiu no chão. . “Veja. O menino contorceu-se e gritou de dor. Carlos tapou-lhe a boca e o grito cessou. quando eles lhe levantaram os braços. disse Carlos. cara”.

Percebi então que eu não estava amedrontado. de cuja lâmina o sangue ainda corria sobre o cabo de madrepérola. “Vai para casa. A vista de todo aquele sangue me dava uma sensação selvagemente deliciosa. Uma das garotas. O assoalho. A quadrilha de adolescentes no salão gritou quando ele saiu: “Vai para casa. meninão. Avancei para o meio da sala e olhei à minha volta. levantou o punhal. O garoto fez que sim com a cabeça. olhando bem nos meus olhos. Ela tinha razão. Respondi: “Eu não. A turba silenciou. tá?” Enquanto falava.. Eu estava com inveja de Carlos. O bom senso me dizia que Carlos ainda estava enraivecido. eu tinha ficado tão envolvido com as facadas e a dor que estava gostando do espetáculo. ou se você nos delatar. vou cortar sua língua também. “galinha”! Se eu ouvir você gritar mais uma vez. Os rapazes levaram-no meio arrastado pelo chão até a calçada.” A turba vaiou e gritou rindo. com calças compridas bem justas. “Quem é o seguinte ?” pergun- tou.arregalados de terror. Mas agora era a minha vez. “Tem outro covarde aqui?” pilheriou Carlos. estava coberto com uma camada grossa de sangue. Pode me . iria tentar acertar-me de propósito. De fato. perto da parede onde o menino estivera. ou o que é? Sobrou algum sangue. você está com medo. Dentre as duas provas. Não tenho medo. gritou: “O que é que há. olhavam-nos por sobre a mão de Carlos. Se eu permitisse que ele atirasse o punhal em mim. “Morou?” repetiu Carlos. esbelta e alta. “galinha!” Carlos voltou-se. se você não tem. parecia mais sábio escolher a outra. Lembrei-me da declaração de Carlos que eu podia escolher a forma da minha iniciação..

como um símio. Coruja. mas os seus braços eram compridos. As garotas assobiaram e suspiraram enquanto ele continuava sua luta fantasma. “Coruja!” Uma aclamação fez-se ouvir dos outros rapazes que estavam na sala. era . como um pugilista. olhando-me de todos os ângulos. Tinha o dobro do meu corpo. Por isso disse: “Estou pronto”. Foi até o centro da sala e estalou os dedos. bufando pelo nariz enquanto se esquivava e dava pequenos golpes. Tinha uma cicatriz profunda na face esquerda. dando socos no ar. Carlos gritou cinco nomes. Sua cabeça parecia descansar diretamente sobre os ombros. muito mais longos do que os meus. olhando por entre as sobrancelhas. “Mattie !” Outro rapaz apresentou-se. Procurei imaginar meus cinqüenta quilos contra os seus quase cem quilos. Ele apenas olhou-me inexpressivamente. mas por dentro estava com medo. esmurrando o ar com a velocidade do relâmpago. “ Johnny!” Um rapaz troncudo saiu do grupo e parou à minha frente. Era pouco maior do que eu. Compreendi que aquela gente não era de brincadeira. Ele dançou no centro da sala. com um ruído seco e forte. sem dúvida. menina. Tinha a constituição física de um halterofilista. Conservava o queixo bem junto ao peito. esperando a ordem de ataque. Deu uma volta no salão. uma testa profundamente vincada e quase não tinha pescoço. Rodeou-me. “José !” Um terceiro rapaz juntou se ao grupo. Começou a tirar a camisa e flexionar os músculos. Mas eu preferia morrer do que ser “galinha”. que ia desde sob o olho até a ponta do queixo.experimentar. Tinha certeza de que ia acabar machucado. Onde estão os rapazes que querem me surrar?” Eu estava tentando aparentar calma.

e tinha um olhar maldoso. Ouvi alguém . A dor foi excruciante. Meu corpo despencou no chão. Algum tempo depois percebi que alguém estava me sacudindo e estapeando-me as faces. um dos outros rapazes me esmurrou no estômago com tanta força que perdi o fôlego. Virei-me para olhar e ele me deu um murro nas costas. às minhas costas: “Ei. quando elas se aproximassem. Ouvi-o dizer o meu nome. pouco acima da cintura. e eu ouvi o osso do nariz quebrar-se sob o impacto. mas minha cabeça continuava suspensa pelo cabelo. e um nariz recurvado que certamente fora quebrado diversas vezes. Isso acontecera durante um tumulto no pátio da escola. Perdera metade de uma orelha ao ser atingido por uma tábua com um prego comprido. Percebi que alguém me agarrou pelo meu cabelo comprido. Não tive oportunidade de revidar. o que estava me agarrando pelo cabelo. golpeava-me na têmpora. Senti-me cair. Nicky”. Senti que começava a desmaiar de dor. Mais tarde fiquei sabendo que eles o chamavam Coruja porque era capaz de ver tão bem de noite como de dia. e o prego rasgara sua orelha. Procurei tomar fôlego. Eu estava levando chutes em todas as partes do corpo e. mas ele me golpeou de novo. Coruja era um garotão baixo e gordo. Quando eu me endireitei e coloquei as mãos às costas para apertar o lugar dolorido. durante os “quebra-paus”. “Paco!” Não cheguei a ver Paco. para que ele avisasse os outros da presença de quadrilhas inimigas. arrancando mais da metade. Tinha olhos grandes e rasgados.um dos favoritos. Parecia que ele me rompera o rim. e pude sentir a areia em meus lábios e rosto. Lutava na linha de frente. As luzes então se apagaram e eu não me lembro de mais nada. quando alguém me deu um soco no rosto. Um deles chutou-me o rosto com um sapato sujo. o pior que eu já vira.

batendo com as mãos e com os pés. ele passou pelo meu apartamento para dizer que ia haver um “quebra- pau” com os Bishops.” Enquanto Israel descrevia o plano . “Por fim”.” Capítulo 5 TUMULTO NAS RUAS DESDE O PRINCÍPIO. Era um revólver trinta e dois. mesmo deitado. eu e Israel nos tornamos quase inseparáveis. Repentinamente. acorda. Eu estava deitado de costas naquela grande poça de sangue endurecido. O sangue me fez ficar louco. No duro. e pude sentir sangue na pele. mas não é covarde. Mau-Mau. você pode nos ajudar. até passar a fúria. mas não era capaz de ver nada além do forro. e comecei a voltear. pensei. “Você é Mau-Mau agora. xingando. gritando. “uma oportunidade para usar meu revólver — uma oportu- nidade para lutar. Olhei para cima e vi o rosto do rapaz a quem chamavam de Coruja. Passei a mão pelo rosto. chutando todos os que estivessem ao meu alcance. “Você é um dos nossos. Três noites depois. Estava coberto de sangue. toda a minha energia retornou.” Procurei focalizar os olhos. Nicky. Nicky. Rapaz. Alguém agarrou meus pés e imobilizou-me contra o solo.” Ele apertou algo contra a minha mão. Com um movimento rápido acertei-o na boca. rindo. Você pode ser um monte de coisa.dizer: “Ei. Nicky. Toque aqui. Israel curvou-se sobre mim.

tacos de beisebol. que eram arma perigosa quando batiam na cabeça de alguém. Deveríamos estar lá. O nosso conselheiro de guerra já havia se encontrado com o conselheiro de guerra dos Bishops. Alguns rapazes deveriam ir dois quarteirões abaixo. na Av. Vamos dar uma lição nos Bishops. Somos os Mau-Maus. Haviam escondido suas armas nas árvores e na grama alta. Os Mau-Maus africanos bebem sangue. Às dez horas havia mais de cem rapazes vagueando pela praça. Uns poucos. Mas naquela noite não havia polícia.senti-me arrepiar. Dez da noite no parque atrás do 67.° Distrito. e Heitor tem um rifle serrado. Outros tinham correntes de bicicleta. cairemos lutando. com medo que a polícia chegasse. Todos os outros rapazes têm armas. Movemo-nos silenciosamente. Park. e Heitor. quando eu cheguei à praça às oito e meia. Deveriam esperar até ouvir o barulho da luta e então atacar pela retaguarda. porretes com pregos nas pontas. apanhando nossas . mataremos. Se tivermos de matar. Carlos tinha uma baioneta de cerca de sessenta centímetros. cara. tentando forçar os Bishops a recuarem para onde o nosso pelotão de retaguarda cortaria sua retirada. Edward. e Israel e Carlos estavam dando ordens. uma quadrilha de rapazes de cor. O restante avançaria da R. Os tais. Israel disse: “Leva seu revólver. Alguns deles tinham revólveres. para cortar a retirada dos Bishops. A maioria tinha facas. ou clavas feitas em casa. ao lado da escola. por volta das nove da noite. Os Mau-Maus deveriam reunir-se na Praça Washington perto de De Kalb. e nós somos iguais a eles. Alguns fizeram suas próprias espingardas. a sua espingarda serrada. Mas se cairmos. St. passar por trás do pátio da escola.” A gang já estava reunida. para marcar a hora e o lugar.

com um barulho ensurdecedor. gritando. disse Tico. Reunimo-nos defronte da escola. Israel desviou-se para um lado.” “Puxa”. Vi Heitor correr por uma quadra de basquete. disparando a espingarda ao mesmo tempo. girando o seu taco de beisebol. está com medo ?” “Rapaz. enquanto enxameávamos em direção ao pátio. xingando e atacando uns aos outros. sem dúvida. “Quantas balas tem aí?” perguntou. e corríamos pelo espaço aberto que separava as duas quadrilhas. “não está nada mal. Parecia um saco de milho.” Dividimo-nos em grupos pequenos. Devia haver duzentos rapazes no pátio. Você deve pegar um daqueles bastardos pretos esta noite. Edward. e vi alguém correndo em direção a ele com uma tampa de lata de lixo. e era difícil distinguir-se as quadrilhas. Estendi as mãos para . “Está cheio. rindo. assobiando baixo. Rapazes volteavam ao meu redor. fui empurrado por trás. Tico estava ao meu lado. Perto dele um rapaz negro caiu para a frente. Arremeti à frente do grupo. disse. e Carlos deu o sinal de ataque. com sangue escorrendo de um ferimento na cabeça. Os Bishops estavam nos esperando. “Que tal. Corremos ao redor do edifício. Nicky. Heitor caiu para trás. tirando o revólver do cinto. eu não ! É isto que eu estava esperando”. a fim de pas- sarmos despercebidos pela delegacia que havia na es- quina das ruas Auburn e St. Eu ? Fico com a minha faca. menino. Cinco balas. mas estava escuro. abrindo o blusão para que ele pudesse ver o meu revólver. De repente. “Eia! eia! matem! peguem!” gritávamos.armas nos esconderijos ao sairmos. Passei correndo perto dele e chutei seu corpo. e entramos no pátio. e me espar- ramei no cimento duro da quadra.

ficando cada vez mais para trás dos Bishops que fugiam. cercando os Bishops que fugiam pelo beco. Nicky. Corremos na direção oposta. Na penumbra. e puxei o gatilho. Israel estava a meu lado. Olhei para ver quem me empurrara. ao meu lado. A batalha não durara mais de dez minutos. apertando os ferimentos. Um grande grito levantou-se dos Mau-Maus. espalhando-nos pelo fundo do pátio da escola. aí vêm os tiras. ao pular uma cerca de corrente. turma. rapaz. Agarrei o revólver com ambas as mãos. A bala disparou. quando Israel agarrou o meu braço e gritou: “Vamos nos mandar. você acertou. e desviei rapidamente a cabeça exatamente no instante em que um taco de beisebol espatifava-se contra o pavimento. pude ver ainda três rapazes caídos no pátio e vários outros sentados. Fiz mira com o revólver na direção da figura cambaleante. Carlos e mais dois rapazes uniram-se a nós. ago- ra em confusão. começavam a fugir pelas ruelas que davam para a Rua St. atira nele. . acabem com eles !” Levantei-me cambaleando. Um golpe direto teria me matado. tentando escapar. Edward. que havia atrás de um posto de gasolina. e senti a pele da palma das minhas mãos esfolar-se. “Acabem com eles. cara. mas ele ainda corria.diminuir o impacto da queda. gritando: “Atira naquele lá. ao impacto da bala na coxa. meio coxeando. enquanto os Bishops.” Ele apontava para um menino que tentava fugir mas fora ferido e estava tentando correr. e puxei o gatilho outra vez. “Você acertou. Ouvi o taco estilhaçar- se ao bater.” Ouvimos os apitos e gritos dos guardas diante da escola. e pulamos numa valeta de esgoto. quando o resto da nossa quadrilha atacou pela retaguarda. Olhei para trás.” Vi o rapaz cair para a frente. Corremos seis ou sete quarteirões. até ficarmos exaustos. e a polícia rodeando. Ele ainda rastejava.

“Certo.” Os outros estavam retomando o fôlego e rindo também. Rapaz. “O que é que você vai fazer? assaltar alguém?” perguntou Israel. ele pensou que era um filme de mocinho e ficou dando tiros para o ar. Sentia-me bem. Participei da alegria geral. “Você é dos bons. rindo. “Quem tem grana?” Estávamos todos “duros”.” Caímos na risada outra vez. mas dentro de mim pensei que era melhor ser louco e desejado. Israel estendeu o braço e colocou-o ao redor dos meus ombros. Tudo o que você . turma. rindo a mais não poder. Eu jamais tivera aquela sensação de pertencer a um grupo como a que sentia ali dentro daquele fosso. com o dedo esticado. mas ria tanto que quase não agüentava. Tinha visto sangue correr. ainda empolgado pelo êxito. Somos do mesmo tipo — nós dois somos doidos. que tal a gente beber?” disse Carlos. Estava es- perando alguém como você há muito tempo. e talvez o houvesse matado. Nicky. meu chapa. fez: “Bang! Bang! Bang!” caindo outra vez na risada. com aqueles rapazes. e pela primeira vez na vida senti que era aceito e querido. Israel tomou fôlego e. Quer ir também ?” Israel deu um soco no meu braço: “Você é legal. Estávamos deitados de costas na valeta. e havíamos conseguido escapar. “Vou arrumar dinheiro”. nem sentimentos. você não tem coração. Era quase como se fôssemos uma família. Israel estava sem fôlego. do que ser normal e viver sozinho. Até pensamos que nossos pulmões iriam estourar. “Ei. “Rapaz. Nós apertávamos a barriga e rolávamos na valeta. Havia atirado em alguém. Nicky. “Você viu esse Nicky maluco ?” arquejou ele entre gargalhadas. disse eu.

você quer morrer. e estava pagando a conta. Dá aqui”. grandão ?” zombou ele. “Vamos. Dirigi- me para lá. Israel empurrou o homem para trás. “Pronto. Ele virou-se com surpresa e medo. apanhou o fone e ficou a segurá-lo pelo fio. Empurrando-o com força con- tra o balcão. rosnei. estavam por trás do balcão. na parede. Já estava de pé.” Olhei para Carlos. fazendo sinal com a cabeça para as notas em sua mão. ao ver-me apertar o botão da minha faca. estonteado. ele disse: “Ei. Cheguei perto dele e empurrei-o contra o balcão. pronto para sair. diante do balcão. “Você quer chamar os tiras. Um velho acabara de levantar-se dum banquinho. cara. nós estamos com você. Vamos. que devia ser o líder. aqui está!” Deu um sorriso de mofa. velho. enquanto arrancava o receptor da parede e atirava para o homem.quer é brigar. Levantamo-nos do fosso. hein?” Ouvi a mulher engasgar-se e colocar a mão na boca para sufocar um grito. lábios trêmulos. que oscilava como o fio de um pêndulo. abri-la. Havia três pessoas na lanchonete. Na esquina. O homem que estava atrás do balcão começou a mover-se em direção ao telefone público. um homem e uma senhora. e atravessamos a rua. velho. “Pode chamar !” O homem. o mais sedento de sangue. correndo para uma ruela escura. disse eu. Não posso esperar a noite toda”. sobre a caixa e tirou o fone do gancho. brilhavam luzes em um bar que ficava aberto a noite inteira. cara. Duas delas. e encostá-la de leve no seu estômago. o mais corajoso. Ele estendeu a mão trêmula à minha . Israel abriu o punhal e agarrou o homem pela parte superior do avental. “Vamos depressa. Foi a minha primeira indicação de que os outros rapazes seguiriam o que fosse o mais cruel.

Os olhos começaram a girar para trás nas órbitas. Ele tentou responder. Naquela noite tivemos uma grande reunião da quadrilha no auditório da escola perto do 67. e rapou todas as notas. porque tinha medo do filho. e eu fui escolhido como vice-presidente por unanimidade. “Ei.frente. O velho despencou por terra. gargalhou. Apanhei um pesado açucareiro e espatifei-o contra o vidro da vitrine. rindo e gritando. Carlos apertou um botão da caixa registradora. espera”. e o velho estava ajoelhado no chão. e eu arrebatei as notas de entre os seus dedos. enquanto dava grunhidos esquisitos. disse Israel. enquanto nos afastávamos para a porta. mas fizemos um trato com Firpo. cujo pai era zelador da escola. Naquela noite promovemos Israel à presidência. O homem e a mulher ainda estavam presos à ponta do balcão. todo curvado.° Distrito. apertando o peito com as mãos. vice-presidente dos Chaplains. “Isto é tudo?” perguntei.” O velho caiu para frente. “Rapaz. “Nunca saia de uma espelunca sem deixar uma gorjeta”. produzindo ruídos. Ele deixava as quadrilhas usarem o auditório do prédio. para reuniões. “Vamos nos mandar daqui”. Israel estava rindo. como de cacarejo. gritou Carlos e começamos a correr rua abaixo. Ninguém podia entrar na escola fora do expediente. de rosto no chão. “Isto vai atrair todos os tiras de Brooklin. você é louco”. . enquanto agarrava um punhado de troco da caixa registradora. disse um dos rapazes. e condenado a seis meses de cadeia. mas nenhum som saiu dos seus lábios trêmulos. a saliva a correr dos cantos da boca. de noite. Dois meses depois Carlos foi apanhado pela po- lícia. Corremos pela rua escura até em casa. Moedas de todos os tamanhos tilintaram no chão duro. Todos rimos. Vamos nos mandar daqui.

Quando cheguei ao apartamento dela. Havia um grande número de “bonecas”. recebendo apenas uma advertência. no escuro. Meu sangue ferveu e eu disse que ia matar Lídia. Sempre que você me quiser. Puxei Lídia pela mão: “Vamos cair fora. Voltei ao meu apartamento para pegar o revólver. e estava disposto a brigar tanto à plena luz do dia. como sob o manto das trevas. Mais seis Mau-Maus reuniram-se a nós formando um pequeno . Um dos rapazes contou ao irmão dela e ele correu a avisá-la.” Nos quatro meses seguintes houve brigas. e outras atividades da quadrilha. Saímos procurando o Apache de quem Luís nos falara. Picamos muito tempo na escola. Depois da reunião da quadrilha. e batera nela. na noite anterior. Certa tarde um dos Mau-Maus contou que Lídia havia me delatado a um Apache.” Quando saímos pela porta. a fim de subir ao primeiro andar. Saí de lá e segui para o apartamento de Israel. Lídia. bebendo vinho barato. conversei com Luís. que morava defronte à escola. Fui agarrado pela polícia quatro vezes. e um dos rapazes me apresentou sua irmã. naquela noite. seu irmão mais velho. e sentados na escadaria interior. Nicky. Encontramo-lo na esquina das ruas Lafayette e Fort Greene. Eu não tinha medo de coisa alguma. Ele me disse que um dos Apaches encontrara Lídia na rua. namorando. pois queria me matar. enquanto outros dançavam ao som de um fonógrafo. Todas as vezes saí livre. Os membros da quadrilha gostavam de mim e me respeitavam. fumando maconha. defronte à Casa de Carnes Harry. ela chegou-se a mim: “Sou sua para sempre. para fazer amor. A escada estava fechada por um gradil que vários casais abriam. mas em nenhuma delas puderam provar coisa alguma contra mim. eu sou sua. para saber onde eu morava. tivemos uma “festinha” no porão da escola. roubos.

Pulamos para dentro e Mannie sentou-se atrás do volante. e bati nele com um cano de metal. O calor nos apartamentos era insuportável. e continuei batendo nele até que caiu.” “Você sabe de algum ?” perguntei. Os espectadores correram. derrubando-o. maldosamente. À medida que o verão avançava. Era um Chevrolet conversível com a capota abaixada.” Saímos correndo. amassei o cano contra os seus ombros. Se queríamos ir a algum lugar. Mannie virava a direção para um . Ele rogou-me que não o matasse. Finalmente. Mannie tinha razão. enquanto a surra continuava. É uma beleza. sebento ! Isto te ensinará a não bater na minha garota. sacudindo as cinzas por sobre a porta. continuei golpeando-o. A turma estava rindo. embora uma hora antes estivesse disposto a matá-la. Dificilmente uma noite se passava sem atividade das quadrilhas. ou roubávamos um carro. Dei um soco no rapaz. em uma poça de sangue. “Sim. Reclinei-me no banco ao seu lado. Ninguém de nossa gang tinha carro.” Fui com ele e vi o carro. Eu não sabia guiar. e nós ficávamos na rua a maior parte da noite. acertei-o repetidas vezes. tomávamos o metrô. inconsciente. meu chapa. eu.círculo. era uma beleza. e o bobo do dono deixou as chaves no contato. quando ele não podia mais levantar os braços para proteger-se contra os golpes. defronte a um prédio de apartamentos. Eu estava ansioso para dizer a Lídia o que fizera para defender sua honra. e fumava um cigarro. “Estúpido. logo ali virando a esquina. mas uma noite Mannie Durango chegou para mim e disse: “Vamos roubar um carro e dar uma volta. e ele ficou coberto de sangue. como um grã-fino sofisticado. as brigas de rua tornavam-se piores.

Mannie engatou a primeira e nós nos arremessamos para a rua. eu me retesei no ban- co. rindo desbragadamente. en- quanto saíamos à toda. Mannie. que se agarrava desesperadamente à porta. trombando com um caminhão que estava estacionado atrás.” Ele girou a chave que estava pendurada no con- tato e o carro rugiu. Puxa.lado e para outro. e o carro chispou para a frente. Ele virou a esquina. falei. Peguei uma garrafa de refrigerante que estava no banco do carro e dei-lhe uma forte pancada na mão. “Ei. De novo houve um estrondo forte de vidro quebrado e de lata amassada. Mannie arrancou para ré e fez o homem perder o equilíbrio. com os pneus cantando. olhe só. Joguei a garrafa na calçada. “Rrruuuuummmmmmm! Rruuuummmmmmm! Rroooouurrrrr!” Comecei a rir. Ouvimos barulho de vidro quebrado. Por pouco não colidimos com dois carros. Engatou em marcha-ré e calcou o pé no acelerador. e ouvia quebrar-se. e entrou no lado errado da Av. . imitando pneus derrapando e motor de carro de corrida. “você é um motorista bacana. rindo. Park. Quero ver agora se sabe andar para a frente. batendo na traseira de outro carro. Nós dois ríamos tanto que não vimos um homem sair correndo do apartamento.” Mannie engatou a marcha. você sabe mesmo mexer com esse troço. rapaz. jogando-o para trás. você sabe mesmo guiar este carro?” “Claro. seus cachorros!” gritava ele. “Saiam do meu carro. Ele gritou de dor. fazendo ruídos com a boca. e gritar conosco. tentando tirar-me do assento. Mannie não sabia guiar. e outro. “Ei. meu chapa”. Eu ainda estava recostado no assento.

“Não. duas vezes cada um. Nós dois estávamos rindo e gritando. Todos os dias nos dávamos a muitas atividades criminosas. cara! Este carro é uma beleza. Mais tarde ela o identificou. onde os cinco abusaram dela. deixando-o ensangüentado na calçada. arrastaram-na para um jardim. e antes que eu pudesse mover-me. espetando de leve o seu pomo de Adão. Rodeamo-lo e jogamo-lo ao solo. “Vamos pôr fogo neste carro”.buzinando insistentemente. isto é para ensinar você a não pisar nos domínios dos Mau-Maus”. Vamos ficar com ele. eu e mais quinze pegamos um rapaz italiano andando nos domínios dos Mau- Maus. Coloquei-me sobre ele. Uma noite. Duas semanas depois. brincando com a faca.” Porém Mannie não foi capaz de fazer a volta e finalmente enfiou-o na traseira de um caminhão que parara diante de um sinal vermelho. ele deu um tapa na faca. Xingando-me. Saímos correndo. Mannie atravessou um posto de gasolina e saiu por uma rua lateral. O rapaz gritou quando Tico cortou sua camisa e riscou um enorme “M” nas suas costas. Mal sabia eu o horror que estava reservado para ele. “Olhe aqui. disse Mannie. Tony tentou matá-la por asfixia. Tony e mais quatro rapazes atacaram uma senhora que voltava do serviço para casa. e cutucando os botões da sua camisa. deixando o carro seriamente danificado enfiado sob a carroceria do caminhão. com o seu cinturão. arrebatando-a da minha mão. Vamos mostrá-lo as garotas. . disse ele. para evitar uma colisão. cara. Mannie era o tipo ideal de companheiro para mim. Pulamos para fora e corremos rua abaixo. e ele foi condenado a doze anos de prisão. Tico pegou-a e riscou o rosto dele. subiu na calçada. As noites eram ainda piores.

a Viceroys e a Quentos. Os jornais calcularam que mais de oito mil . Por isso. deixávamos as garotas carregar nossos revólveres e facas. tira sujo! Largue dele. mesmo as do quinto andar. Naquele verão. Se um guarda parasse para nos revistar. e novas quadrilhas estavam se formando. no dia quatro de julho. durante a noite. Todas as janelas. as garotas ficavam para trás e gritavam: “Ei. Todas as noites havia “quebra-pau”. Ei. Mas nós conseguimos fabricar grande número deles e vendê-los para membros de outras quadrilhas — sabendo que eles os usariam contra nós. Todos os dias os jornais estampavam reportagens de assassinato nos jardins. Os diretores da Escola Técnica de Brooklin man- daram colocar telas de arame grosso sobre as portas e janelas da escola. nos becos. usando antena de carro e peças de fechadura. nas travessas. até na hora em que precisássemos deles. tira. nos saguões dos prédios de apartamentos. Muitos proprietários de lojas estavam comprando cães policiais. Descobrimos pouco depois que a lei da cidade de Nova York proibia os policiais de revistarem mulheres. e deixavam-nos presos dentro das lojas. Ocasionalmente um desses revólveres explodia na mão de alguém. está limpo. estavam cobertas de tela metálica. todas as gangs reuniram-se no parque de diversões de Coney Island. você não quer pôr as mãos em mim? Venha!” Aprendemos a fazer revólveres para balas calibre vinte e cinco. As gangs estavam ficando mais organizadas. Por que você não vem me revistar? depois eu te ponho na cadeia. Ele não tem nada. se tivessem oportunidade. ou atirava para trás cegando-o. Três gangs novas haviam surgido em nosso bairro: a Scorpions. nos metrôs.

e bebiam cerveja e vinho barato. “Onde está seu irmão?” perguntei. membros de quadrilhas. fomos todos a um grande baile que era promovido pelo centro social da igreja de St. e que eu havia ganhado reputação de ser um valentão sanguinário. Na semana anterior nós havíamos nos embebedado. A polícia veio e nos pôs a correr. Toda sexta-feira havia ali um conjunto de dança e todos os membros das quadrilhas iam ao centro para dançar. batemos e cuspimos neles. Eles apenas entraram empurrando o portão. O mesmo aconteceu no metrô. até que a situação esfriasse. Certa noite. Raramente passava-se uma sexta-feira sem que o baile da cantina não se transformasse em tumulto. designando Israel para servir como vice-presidente até que tudo esfriasse. Quando saiu da cadeia. Não levei muito tempo para perceber que os Mau- Maus eram muito temidos. e quando os padres tentaram fazer-nos ficar quietos. “Ninguém vai . Israel foi apanhado pela polícia. Concordamos. Es- távamos bebendo muito e fumando maconha. No dia primeiro de agosto. Marquei uma bonita garota loura e dancei várias vezes com ela. Edward — St. e ninguém ousou dizer coisa alguma. e a quadrilha me elegeu presidente. disse-nos que as coisas estavam mesmo pretas para ele. e que queria assumir uma posição secundária. Michael. Eles iam matá-lo. defronte ao centro. Eu me gloriava dessa reputação. Eu fazia parte da quadrilha há seis meses. Ninguém pagou. para realizar bailes nos fins de semana.jovens. Ficavam na rua também. Naquela noite. Ela me disse que o irmão estava complicado com a gang Phantom Lords. A igreja estava fazendo uma tentativa para afastar os rapazes das ruas. e havia aberto uma cantina logo abaixo da delegacia de polícia. convergiam para Coney Island. quando passei a ser chefe. eu fora com Mannie e Paco.

Disse-lhe que teria de fazer tudo o que eu quisesse. vagabundo.” Eu já marcara encontro com a garota.machucá-lo sem minha ordem. Bedford queria matá-lo porque ele namorava uma das suas “bonecas”. e deu-lhe um soco. e disse que iria comigo. Depois de Israel. mas o rapaz voou para o lado de Mannie. e tinham chaveiro com corrente longa.” “Está querendo morrer”. e respondi: “Ninguém. Ela deu-lhe as costas e eu pus o braço ao seu redor.” Comecei a me afastar. “Ei. Ele disse que a turma Phantom Lords da Av. O rapaz estava completamente bêbedo e muito amedrontado. “Bruto”. e o banco de trás fica reservado só para nós. vou tomar conta de você também. mas eu senti a tempestade no ar. Mannie era o meu . e apresentou-me ao irmão.. mas não queria que nenhum dos outros rapazes tocasse nela. “Olhe”. Nós nos beijamos e eu disse que enquanto ela estivesse comigo eu cuidaria dela. Ela ficou amedrontada. Levantamos os olhos exatamente no instante em que três Phantom Lords entravam pela porta. e bem podemos matar você também. Um dos rapazes passou perto de nós girando a corrente e piscou para a minha garota.” Levou-me a um canto da sala. menina”. Estavam vestidos com paletós espalhafatosos e calças xadrez. “que tal sair comigo? Meu irmão está com o carro aí fora. Vamos falar com ele. porque eu era o presidente dos Mau-Maus. riu o rapaz.” Mannie deu uma gargalhada zombeteira. Acho que vou querer sair com ela mais vezes. O rapaz virou-se rápido: “Quem foi?” Mannie começou a rir. rosnei. zombou ele. derrubando-o. disse eu “sua irmã é uma menina bacana. para levá-la ao cinema.. “nós já estamos planejando matar o seu amigo bêbedo. e como gosto dela.

menino”. Sabe quem são os Mau-Maus?” “Sim.” Os rapazes olharam um para o outro. “Vamos”. Eu peguei a minha também e os outros rapazes formaram um semicírculo e avançaram contra nós. naquela noite. “está sendo bobo. Quando ele tropeçou devido à violência do golpe frustrado. Mannie levantou-se aos tropeções e puxou da faca.” . garotão. Ele errou o golpe. qual é o seu nome? Santo do Dia?” Mannie riu. mas a faca cortou meu paletó. e voltamos para incendiar este lugar. Eu disse: “Ei. Mannie puxou o meu paletó e nós começamos a correr. “Olhe. um rapagão arremeteu contra mim com uma faca. gritei. “Vou procurar os Mau-Maus. Dois outros pularam sobre mim. “Qual de vocês é Santo?” perguntei. disse eu. e vi alguns Phantom Lords. Não havia muitos de nosso grupo para brigar. e o rapaz olhou para mim e me xingou de um palavrão. atingi-o na nuca e chutei-o pelos degraus de concreto abaixo. e Mannie e eu viramo-nos e saímos. No dia seguinte chamei Mannie e Paco. Mannie e eu havíamos bebido. bem acima dos rins. sem receber o troco. Quando chegamos à escada. o Phantom Lord que havia ameaçado o irmão da loura. Um dos rapazes deu uma olhadela na direção de um rapaz alto de cabelo anelado. Eles são sabidos demais para ficar vadiando por aqui. Começaram a recuar para a sala. por isso recuamos para a porta.melhor amigo. e estávamos quase bêbedos. pois estava vestido de paletó e gravata. Não sabiam que eu era Mau-Mau. Fomos até a Loja de Doces da Rua Três. Ninguém iria feri-lo na minha presença. e gritou de dor. Estávamos atrás de Santo. ouvi falar deles. Ele apertou os rins com as mãos. Voltei e dei no rapaz um golpe terrível nas costas.

Quando chegamos à rua. como se tivesse um revólver no bolso. e eu desci diretamente pela rua. “vamos sair daqui. e dirigimo-nos para os domínios dos Phantom Lords. Aqui estão os Mau- Maus.” Rimos um para o outro e saímos. Poucos instantes depois. a fim de surpreendê-los antecipadamente.” O dono da loja estendeu a mão para o telefone. “Hoje eles estão aqui.” Viramo-nos e começamos a sair. Esses caras estão com medo. Israel e Mannie rodearam o quarteirão. Quando chegamos perto da ponte de Brooklin. disse eu a Paco. Naquela noite Israel foi à minha casa e disse que os Phantom Lords estavam se preparando para um grande “quebra-pau”. Conservava ainda a outra mão no bolso: “Quem sabe se você agora vai lembrar de mim. moleque. “Da próxi- ma vez. “largue isso!” Os outros ficaram com medo e recuaram. Israel e eu passamos na casa de Mannie para apanhá-lo. Você vai lembrar este nome o resto da vida.” Ele vacilou. cara. e tinham-no deitado na calçada. cuspi por sobre o ombro. “Você aí!” gritei. . Vocês ainda são nenês. separamo-nos. antes de deixá-los sair. Sou o presidente. e eu o golpeei no estômago. Rimos e descemos bamboleando rua abaixo. por causa da briga da confeitaria. Eles haviam surpreendido um Phantom Lord sozinho. En- caminhei-me para Santo e dei-lhe dois tapas no rosto. Os rapazes desafi- velaram o cinto e tiraram-lhe a calça. ouvi Israel gritar e saí correndo a toda. Jogaram-na na sarjeta de água suja. ordenei. rodeando o edifício. cara. diga à sua mamãe para não se esquecer de pôr a fralda em vocês. “Vamos”. Pus a mão no bolso e espetei o dedo contra o forro. e depois rasgaram sua cueca. Meu nome é Nicky. pedindo misericórdia. Mannie colocou a mão no bolso do paletó e apontou o dedo através do tecido: “Bang! bang! bang! Você está morto!” gritou ele. “Tira a calça dele”.

e. de bruços. Eles haviam-me arrastado o caminho todo. As chapinhas eram afiadas como giletes. Ficamos rindo e gritando nomes.” Observamo-lo enquanto ele corria aterrorizado. e caí na calçada. Precisamos nos raspar “ Desmaiei de dor outra vez. Reconheci alguns membros de uma gang de judeus com eles. Foi então que eu senti uma explosão na nuca. dei uma guinada e golpeei-o no lado da cabeça com o cano. Tentei levantar-me. Vamos voltar para casa. e comece a correr. Caí de volta na calçada.” Co- meçamos a voltar. levando-me até meu . Senti o aço afiado rasgando minha calça e afundando-se na carne de minhas coxas e nádegas. Minha cabeça parecia que ia estourar. Era uma emboscada. “Vamos”. e senti que o rapaz que tinha chapinhas no sapato pulou nas minhas pernas e depois sapateou sobre as minhas costas. quando repentinamente fomos rodeados por uma turma de doze ou quinze Phantom Lords. porque não era capaz de firmar as pernas. “nenhum daqueles malo- queiros está por aqui. e subido os três lances de escada. corra!” continuavam a dizer. Eu sabia que eles iriam matar-me. “Aqueles bastardos vão estar de volta num minuto. Outro chutou-me nas costas. mas fui atingido acima dos olhos. estava no chão de meu apartamento. Eu sabia que estava muito ferido. disse Israel. mas não conseguia levantar-me. até em casa. se eu não fugisse. Um rapaz avançou para mim com uma faca. com um cano. à altura da cintura. e eu o feri com um cano de ferro. aborto. Tentei olhar para cima. Desmaiei de dor A primeira coisa de que me lembro a seguir. rua abaixo. “De pé. quando recuperei os sentidos. é de Israel e Mannie arrastando-me por um beco. Outro arremeteu com ímpeto contra mim. “Vamos. porém um deles chutou-me o rosto com um sapato de chapinha.

quarto. Tentei tirar as calças. Capítulo 6 O INFERNO NAQUELE OUTONO. quando acordei e arrastei-me para fora da cama. você está correndo risco de vida. Estava tão dolorido que mal podia mover-me. e ambos desejavam que eu fosse para o apartamento deles. Haviam-me ajudado a deitar na cama. Está fazendo um jogo perigoso. lembrando-me do rapaz que correra de nós. sem calças.. Ser presidente dos Mau- Maus era bom. . e eu senti que estava rasgando a pele. ao tirá-la. até o banheiro e fiquei debaixo do chuveiro.” Arrastei-me até o quarto e passei o resto do dia fazendo curativos nos meus cortes. “Puxa”. meu irmão que vivia em Bronx. mas havia certas horas em que podia significar a morte. onde eu desmaiara de novo. Minhas costas e quadris eram uma verdadeira massa de cortes profundos e chagas horríveis. Desci cambaleante um lance de escadas. LUÍS. Desta vez ela chegara bem perto. até que o sangue amoleceu e pude afastar a roupa das feridas. Voltei cambaleante. pensei. de roupa e tudo. “Nicky. “se ele pudesse me ver agora. Vai acabar sendo assassinado. Minha resposta foi uma risada. A parte inferior do meu corpo estava coberta de sangue coagulado. foi ao meu apartamento pedir-me para ir morar com ele. subi nu as escadas. mas o sangue colara o tecido à minha carne. Ele lera nos jornais de Nova York que eu estivera envolvido com a polícia..” Disse que tinha conversado sobre mim com a esposa. O sol forte jorrava através da janela.

Frank. nem mamãe. Ele não tinha tempo para gastar com ninguém.” “Espere aí”. “papai e mamãe amam você. nem papai. “Ninguém mais me quer. nem Gene. Ajudam-me a pagar o aluguel. Você é como um selvagem..” Luís levantou-se e começou a andar pelo quarto. e setenta e cinco garotas que estão comigo sempre que eu peço. sabe quantas vezes na vida papai conversou comigo? Uma. Até a polícia tem medo de mim. como se estivesse fugindo de alguma coisa. Só uma vez na vida ele sentou e tivemos uma conversa. o tempo todo. espertalhão?” “Eles mandaram você para cá porque não podiam com a sua vida. “ninguém me quer..” “Você acha? Talvez eu estou mesmo fugindo de vocês. como vocês de- cidiram que me querem?” “Está errado. todos nós queremos você. Tenho duzentos amigos que fazem o que eu mando. Nem você. Uma vez só! Nada mais.. “Por que vocês querem que eu mude para lá?” perguntei. disse eu. Aqui eu me realizei.. respondeu Luís. não vem me dizer que ele me ama.” “Escute”. Gene. interrompeu Luís. Você é mesmo um tapeador. Por que eu haveria de ir para a sua casa. Contou-me então uma estória sobre um passarinho estúpido. nem Frank. será que você não pode ouvir a voz da razão?” “Por que tenho de ir para sua casa? Você quer me mandar de novo para a escola. como Frank queria . Escute. “Nicky. Eles me dão todo o dinheiro que preciso. a não ser consigo mesmo.” “Ah. seus vagabundos. é? Então por que foi que eles me mandaram embora de casa? Como explica isso. Mas é preciso que sossegue. . Rapaz. Nicky”. “todos queremos você.

vi papai acorrentado nas trevas. e eu queria aproximar me dele e afagá-lo. os . na tarde seguinte. Seus dentes eram como os de um lobo.morar com você? A gang é a minha família. Cada vez que eu conseguia livrar-me deles. Eu lhe disse que não pensasse mais no assunto. se eu não fosse morto ou jogado no cárcere. Sonhei que ele estava acorrentado em uma caverna. O efeito continuou. Não tenho medo “ Mas quando caí no sono outra vez. Recostei na cama. Disse que. de gelar o sangue! Sonhei com papai. e o seu corpo estava coberto por um pelo sarnento Ele estava latindo que dava dó. É só o que preciso. Aquela noite dormi de roupa. via Luís voando como uma pequena mancha no céu. porém não estava preparado para a experiência que passei — pesadelos! pesadelos horríveis.” Luís ficou sentado à beira da cama. noite adentro. Fui depois rodeado por milhões de pássaros que dilaceravam minha carne e bicavam-me os olhos. Por mais de dois anos eu tive medo de dormir. Vieram então os pássaros. tentando me convencer que um dia tudo aquilo iria mudar. o medo. para me atacar. Levantei-me gritando: “Não tenho medo. A face de Luís ia e vinha à minha frente. durante muito tempo. um dia eu precisaria arranjar um emprego e teria necessidade de instrução. e eu não estava disposto a abandonar aquela posição cômoda. cavalgando um pássaro que voava para uma liberdade desconhecida. Sozinho no quarto. tomou conta de mim. Cada vez que pegava no sono. e bebi vinho até ficar tão embriagado e tonto que não conseguia ficar sentado. mas tinha medo de que me abocanhasse. e os pássaros que se ajuntavam ao meu redor. que tão bem conseguira dissimular. Tudo me corria bem. pois se achava montado em um pássaro. que voava livremente pelo céu.

Precisamos de ajuda. “Ei. de Williamsburg. Embora fôssemos suficientemente fortes para sobreviver sozinhos. procuraram-nos para formar aliança conosco. “Meu nome é Willie Açougueiro”. A noite vinha perto e alguns de nós estávamos reunidos no parque infantil. Os Mau-Maus tinham-se tornado parte da minha vida. disse o rapaz. e de noite ficava deitado na cama. lutando contra o sono e repetindo indefinidamente: “Vai mal.” Só as atividades da quadrilha me impediam de enlouquecer completamente . o líder dos Mau- Maus. No inverno de 1955 os Hell Burners.” Eu continuava desconfiado. “Sou o líder dos Hell Burners. a fim de afastar aqueles demônios de mim. “Estamos procurando Nicky. não queremos tapear ninguém.” . para discutir uma “guerra” que teríamos contra os Bishops. “Escute.sonhos horríveis voltavam. Lembrava-me de papai e desejava que ele viesse a Nova York. suficientemente perto agora. Eu estava possuído de um sentimento de culpa e de medo.” Um deles falou pelos outros. cara. “Que atrapalhação é essa?” perguntei. Imediatamente colocamo- nos em guarda. para que eu pudesse vê-lo. encaminhando-se para nós. o que é que querem com o Nicky?” Eu sabia que podia ser um truque.° Distrito. Não tenho saída. Não tenho saída. Estamos atrapalhados. Um dos Mau-Maus esgueirou-se pelas sombras e colocou-se por trás dos três que já estavam quase nos alcançando. e precisamos falar com o Nicky. perto do 67. o que é que estão querendo?” gritei. Vai mal. “Bem. ocasionalmente formávamos aliança com outra quadrilha. Levantei os olhos e vi três rapazes saindo das trevas.

“Vocês são os únicos que podem ajudar. Os outros conseguiram fugir. Todo mundo tem medo dos Mau-Maus. derramaram fluido para isqueiro sobre as suas mãos. Se não vingarmos Ike. pois isso nos dava uma desculpa para brigar. Quando ele tentou reagir. e lhe deram socos e chutes até que perdeu os sentidos. E nós gostávamos. onde caiu e foi encontrado por uma radiopatrulha que passava. e puseram fogo. amarraram-no com as mãos para a frente. Ele cambaleou até a rua. do outro lado da rua. Toda a história tinha sido pu- blicada nos jornais. Estava brincando com dois meninos. e morava na Rua Keap. mas Ike foi cercado e empurrado contra uma cerca. Ike tinha quatorze anos. Eu agora estava certo de quem se tratava: “Que tipo de ajuda?” “Vocês ouviram falar do que os Phantom Lords fizeram com o Ike?” apontou com a cabeça o rapaz à sua direita. Não era a primeira vez que alguém nos procurava. de acordo com a reportagem dos jornais. somos covardes”. continuou Willie. Que- remos ser clubes irmãos. e nós precisamos da sua ajuda para brigar com Phantom Lords. Dei uma rápida olhadela no rapaz que Willie Açougueiro apresentara como Ike. As mãos e os braços estavam cobertos de ataduras. Depois. pedindo ajuda. quando uma turma de Phantom Lords os atacara. Ali. e o seu rosto estava muito ferido. “E se nós não ajudarmos?” “Vamos perder o nosso território para os Phantom . Eu tinha ouvido. foi dominado e arrastado para um porão. As outras quadrilhas conheciam a minha repu- tação e a reputação da gang dos Mau-Maus.

” No dia seguinte. lá em baixo. e faremos planos para matar aqueles esnobes. Olharam para trás. saí do meu apartamento. “Aiiiiii!” gritaram. até o último andar. Devagarinho. rapaz. pude ver os rapazes na parte da frente do telhado. Ontem à noite eles já entraram lá e puseram fogo em nossa confeitaria. Felizmente a pontaria deles era péssima. eu sou Nicky. Eles estavam com medo e tinham subido aos telhados. ou o quê?” Não pude deixar de rir. Levantando um pouco a tampa do alçapão. e dei- lhes um tapa no ombro. Amanhã à noite eu estarei no território dos Hell Burners. eu vou queimá-los. debruçados na beirada. sentimos a tensão no ar. De repente. Os dois quase caíram do telhado.Lords.” “Eles queimaram a sua confeitaria? Bem. logo que escureceu.vo-você?” gaguejaram. convidei dez membros da minha quadrilha. Esgueirei-me silenciosamente pelo alçapão. No caminho. “Q-q-quem é Nicky?” gaguejou um deles. Disse aos outros rapazes que continuassem es- condidos. bocas abertas de medo. enquanto eu subia pelo prédio de aparta- mentos. para escapar à avalanche de pedras e vidro que despencava do alto. meu chapa. e dirigi-me para Williamsburg. Todos eles. Ao entrarmos no território dos Hells. “Ei. aproximei-me de dois deles. . Quem é você? Uma coruja. Ali descobri uma escada que subia até o teto. e me escondi atrás do tubo de ar. com os olhos arregalados. mãos agarradas nervosamente ao parapeito. fomos bombardeados com pedras e garrafas. com um alçapão dando para o telhado. olhando a rua. “Q-q-q-quem é-é-é. e nós nos enfiamos pela porta de um prédio de apartamentos.

” Fiz uma pausa para causar efeito. Pude ouvir assobios baixos dos rapazes que nos rodeavam. “Vocês estão perdendo porque estão na defensiva. Escutei o que tinham a dizer e depois comecei a traçar os planos para a batalha. Cerca de quinze Hell Burners aglomeraram-se ao nosso redor. completa. Naquela noite. Onde está o seu líder? Onde está Willie Açougueiro?” Ele estava em outro telhado. mas nunca se sabia quando a quadrilha surgiria nas ruas. tudo estava quieto. eu sou o líder dos Mau-Maus. A turma ficou quieta enquanto eu falava. mas pelo que pude compreender. Levaram-me até lá. “Vamos. moleque. nenhum dos outros rapazes tinha arma de fogo. a menos que nos matem primeiro. Tirei-a da bainha.” Abri o paletó e tirei uma baioneta de uns sessenta centímetros. e assim têm de defender o seu próprio território. e depois con- tinuei: “E nada de armas de fogo.” “Nada de armas de fogo? Como é que se pode brigar sem revólver?” Houve um movimento entre eles. Estamos aqui par. “Vamos usar armas silenciosas.a ajudar. Agora ou- . Estão deixando que eles venham aqui. A maneira de vencer é ir atrás deles. e o resto dos Mau-Maus subiu e juntou-se a nós. para picá-los em pedacinhos. com bainha. brandindo-a no ar. Willie tinha um revólver. Eu ganhara seu respeito e aprovação. mas como até então não tinham conseguido nada. Willie nos contou como estavam tentando frustrar a invasão dos Phantom Lords. mas nada podia fazer para impedi-la. A polícia sabia que estava havendo uma guerra de quadrilhas.

viam-me, ansiosos para ver como é que eu ia liderá-los.
Virei para Willie: “Quero cinco dos rapazes mais
fortes. Nós vamos escolher cinco dos nossos. Amanhã à
noite vamos entrar no território dos Phantom Lords, e
conversar com os chefes. Eles não querem inimizade
com os Mau-Maus. Digo que agora somos clubes irmãos,
e se eles não deixarem vocês em paz, terão de lutar
também com a gente. Se não quiserem acordo, vamos
botar fogo na confeitaria deles, só para eles ficarem
sabendo que estamos falando sério. O que é que
acham?”
“Sim, sim, meu chapa”, começou a gritar a gang.
“Vamos tocar fogo naqueles bastardos. Vamos acabar
com eles. Vamos mostrar a eles.”
Na tarde seguinte fui com cinco de nossos ra-
pazes, e nos reunimos na confeitaria da Rua White, no
território dos Hell Burners. A confeitaria fora fechada
desde a briga das quadrilhas, alguns dias antes. Cinco
dos Hells, inclusive Willie, nos encontraram lá.
Conversei com o gerente, e disse que sentíamos muito
que os Phantom Lords tivessem depredado a casa, e
que iríamos providenciar para que aquilo jamais
acontecesse de novo. Pedi-lhe então para guardar a
minha baioneta até que voltássemos
Eram cerca de cinco da tarde, e uma chuva fina
estava caindo no crepúsculo frio. Saímos dali e
atravessamos a cidade, em direção à Rua Três, no
território dos Phantom Lords. Havia cinco deles na
confeitaria. Eles nos viram chegando, mas não puderam
escapar porque tínhamos bloqueado a porta.
Todos entramos de mãos no bolso do paletó, como
se portássemos revólveres. Dirigi-me aos rapazes que
tinham ficado de pé, por trás da mesa. Perguntei
praguejando: “Quedê o chefe?”
“Freddy é o nosso líder”, disse um rapaz de ex-

pressão maldosa, que usava óculos escuros.
“Qual de vocês é Freddy?”
“Eu sou Freddy; que diacho são vocês?” perguntou
um rapaz de cerca de dezoito anos, de feições
abrutalhadas e cabelo negro e crespo, que deu um passo
à frente.
Eu mantinha ainda a mão no bolso, e a gola da
capa de chuva levantada atrás.
“Sou Nicky, Presidente dos Mau-Maus. Já ouviu
falar de nós? Este é Willie Açougueiro, chefe dos Hell
Burners. Agora nós somos clubes irmãos. Queremos
acabar com a briga.”
“Tá certo, meu chapa”, disse Freddy. “Vamos bater
um papo. “
Reunimo-nos a um canto para conversar, mas um
dos Phantom Lords xingou Willie com um palavrão
Antes que eu pudesse mover-me, Willie tirou a mão do
bolso e abriu um punhal. Em vez de recuar, o rapaz
estendeu o guarda-chuva na direção dele. A ponta de
metal, afiada como uma agulha, rasgou a capa de chuva
de Willie, esfolando-lhe o lado, perto das costelas.
Imediatamente, um dos Hell Burners agarrou um
pesado açucareiro, e atirou-o no rapaz que empunhava
o guarda-chuva, atingindo-o no ombro e derrubando-o
por terra.
“Ei calma!” gritou Freddy, mas ninguém lhe deu
atenção. Os rapazes lançaram-se uns contra os outros.
Freddy virou-se para mim: “Manda parar.”
“Ora, manda você. Foi sua turma que começou.”
Foi então que algo me atingiu na nuca. Ouvi um
tinido de vidro quebrado, quando uma garrafa espatifou-
se contra um espelho por trás do balcão.
Lá fora, um carro da radiopatrulha parou no meio

da rua, com um rangido de freios, luzes vermelhas
piscando. Dois policiais uniformizados saltaram,
deixando as portas do carro abertas, e correndo para a
confeitaria, com os cassetetes na mão.
Os outros rapazes também os viram. Como por
um sinal, todos voamos para a porta e nos espalhamos
por entre os carros. Um guarda estava bem atrás de
mim, mas eu virei uma grande lata de lixo no meio da
calçada, retardando-o o suficiente para escapar por uma
travessa.
O palco estava montado para um “quebra-pau” em
grande escala.
Na noite seguinte, mais de cem Mau-Maus se
reuniram na confeitaria, no território dos Hells. Willie
Açougueiro estava lá com mais de cinqüenta dos seus
rapazes. Marchamos juntos pelo meio da rua, em
direção à confeitaria na zona dos Phantom Lords.
Cortez, um dos Mau-Maus, tinha passado a se-
mana toda “alto” com heroína, e naquela noite estava
louco para brigar. Quando chegamos à confeitaria, ele
empurrou a porta e agarrou um Phantom Lord que
tentou escapar. Cortez tentou golpeá-lo com uma faca,
mas errou, e empurrou-o para mim, que vinha atrás.
Eu estava rindo. Era aquela a proporção em que
eu gostava de brigar — cerca de cento e cinqüenta
contra quinze. Com um pedaço de cano de chumbo que
levava na mão bati no rapaz que cambaleava. Ele gritou
de dor quando o pesado cano o acertou no ombro.
Enquanto ele caía na calçada, golpeei-o de novo, desta
vez na nuca. Ele despencou pesadamente no concreto, e
o sangue escorreu por um ferimento profundo.
“Vamos gente”, gritou alguém, “vamos queimar
todo o território.” Os rapazes espalharam-se. Alguns
entraram na confeitaria e outros arremeteram contra
um salão de bilhar que ficava ao lado. Eu fui levado pela

onda, e vi-me na confeitaria. Ainda estava com o cano
na mão, e ia batendo em tudo que encontrava. As
janelas já tinham sido quebradas, e pude ver o gerente
encolhido debaixo do balcão, procurando proteger-se. O
pessoal estava como louco, quebrando tudo. Alguém fez
tombar a vitrola, e eu me vi sobre ela, arrebentando-a
com o cano. Outros tinham entrado atrás do balcão, e
estavam arrancando as prateleiras da parede, e
quebrando garrafas e pratos. Alguém “limpou” a caixa
registradora, e então dois rapazes atiraram-na através
da vidraça quebrada.
Corri para a rua, com o rosto coberto de sangue,
ferido por um estilhaço de vidro. Corria para baixo e
para cima, quebrando os pára-brisas dos carros com o
cano.
Cerca de cinqüenta rapazes estavam dentro do
salão de bilhar. Tinham virado todas as mesas de bilhar
de pernas para o ar, e quebrado todos os tacos. Agora
tinham voltado para a rua e atiravam bolas de bilhar em
todas as lojas.
Uma turma de rapazes fez parar um carro no meio
da rua, e subia nele, pulando sobre o teto e o cofre do
motor, até que o carro ficou disforme. Todos estavam
rindo, gritando e destruindo.
Sirenes gemeram quando carros da polícia con-
vergiram de ambas as extremidades da rua. Normal-
mente, aquilo seria um sinal para os rapazes pararem e
fugirem, mas a febre de destruição assumira o controle,
e já não ligávamos mais.
Um carro da radiopatrulha conseguiu chegar até o
meio do quarteirão, mas os tiras não puderam abrir as
portas do carro, pois os rapazes arremeteram de todos
os lados, batendo neles com garrafas quebradas, tijolos
e porretes, quebrando os faróis e despedaçando as
janelas. Os policiais, enjaulados dentro do veículo,
tentaram chamar a central de polícia pedindo ajuda,

mas nós subimos em cima do carro e arrancamos a
antena. Um dos rapazes começou a dar pontapés na
sirene, e ela soltou-se e caiu na rua.
Mais carros da polícia brecaram, os freios ran-
gendo, no fim do quarteirão. Era a baderna. Mais de
cento e cinqüenta rapazes estavam lutando, gritando,
virando carros, quebrando vidros. Policiais
aventuraram-se no meio daquela multidão efervescente
e ruidosa, brandindo os cassetetes. Vi Cortez lutando
contra dois guardas no meio da rua. Corri para ajudá-lo,
mas ouvi estampidos de tiros, e percebi que era hora de
dar o fora.
Espalhamo-nos em todas as direções. Alguns dos
rapazes correram rua abaixo e enveredaram pelas
travessas. Outros entraram nos prédios de apartamento,
subiram as escadas e esconderam-se nos telhados. Em
questão de minutos a cena estava vazia, e nada mais
restava além de todo um quarteirão destruído. Nenhum
carro ficara intacto. A confeitaria fora completamente
demolida. O salão de bilhar também. Todas as vidraças
haviam sido quebradas no bar do outro lado da rua, e
quase todo o uísque fora roubado das prateleiras.
Alguém abrira a porta de um carro, cortara os assentos,
e depois pusera fogo no estofamento. Os policiais
estavam tentando apagar o fogo, mas o fogo ainda ardia,
quando fomos embora.
Todos escaparam, menos Cortez e três Hells. A lei
das quadrilhas declarava que se o cara fosse preso, teria
que “se virar sozinho”. Se começasse a “cantar” ou a
“dar o serviço”, seria punido pela quadrilha. Ou, se
estivesse na cadeia, a gang se vingava na família dele.
Cortez foi sentenciado a três anos, e os outros também
receberam condenação.
Mas os Phantom Lords nunca mais voltaram ao
território dos Hells.

Capítulo 7

FILHO DE LÚCIFER

QUANDO O SEGUNDO VERÃO se aproximou,
parecia que o gueto inteiro estava pegando fogo, cheio de
ódio e violência. As quadrilhas haviam diminuído as
atividades durante o inverno, surgindo na primavera
com forças muito bem organizadas. Durante todo aquele
inverno nós nos ocupáramos, fazendo revólveres
caseiros, roubando armas de fogo, e estocando munição.
Eu ganhei a reputação de ser o chefe de quadrilha mais
temido do Brooklin. Fui preso dezoito vezes, e uma vez
naquele inverno, passei trinta dias na cadeia,
aguardando julgamento. Jamais, porém, puderam
provar qualquer acusação.
Com a chegada do calor, começamos a agir como
loucos ou selvagens. Os Dragons estavam empenhados
em batalha contínua contra os Viceroys. No dia primeiro
de maio, Mingo, presidente dos Cha-plains, entrou em
uma confeitaria, tendo no braço uma espingarda de
cano serrado.
“Ei garoto”, disse ele, apontando a espingarda por
sobre o braço, para um rapaz sentado em um reservado.
“Você é o Sawgrass?”
“Sou eu, sim. O que é que há?”
Mingo não respondeu. Fez mira com a espingarda
e apontou para a cabeça dele.
“Ei, cara” disse Sawgrass rindo amarelo, enquanto
se punha de pé e recuava. “Não aponte esse negócio
para mim. Pode disparar.”
Mingo estava “alto” de heroína, e contentava-se

Ela explodia . Nossa pontaria era péssima. exceto em disparos à queima-roupa. e nossos revólveres de fabricação caseira eram muito imprecisos. Um dos nossos golpes favoritos era atirar bombas de gasolina. púnhamos fogo e atirávamos a garrafa na parede de um edifício ou em um carro da polícia. Nosso maior sonho era matar um guarda. Naquele verão declaramos guerra à polícia. Rou- bávamos gasolina de carros que ficavam estacionados durante a noite. e arrancou o alto da sua cabeça. avisando que estávamos em guerra contra eles e que daquela hora em diante qualquer guarda que entrasse em nosso território era um homem morto. Mingo virou-se e saiu da confeitaria. nós abríamos fogo. A polícia dobrou as patrulhas. Quando saíam para ver quem estava atirando aquelas coisas. Eles abriram fogo e Mingo caiu na rua crivado de balas. dentro de cada um de nós havia um Mingo. Distrito e para a Central de Polícia. Quando a polícia o encontrou. Em lugar de obedecer. Sangue. Isto não nos intimidava. ossos e grãos de chumbo foram chocar-se contra a parede que lhe ficava por detrás. Contudo. O disparo atingiu o rapaz pouco acima do nariz. Subíamos nos telhados. Gritaram-lhe para que parasse.em olhá-lo sem qualquer expressão. e atirávamos tijolos. virou-se e apontou a arma para os guardas. chamadas “coquetéis Molotov”. ao puxar o gatilho. segurando a espingarda indolentemente. Fazíamos um pavio com um trapo. O resto do corpo caiu debatendo-se no chão. Es- crevemos uma carta para os guardas do 88º. e geralmente faziam a ronda em grupo de três. ele descia a rua. Era como se toda a cidade tivesse enlouquecido. e a colocávamos em garrafas de refrigerante e de vinho. garrafas e latas de lixo neles.

e procuravam exibir-se. e queria sair naquela noite e queimar os prédios de apartamentos dos Bishops. Contudo. no Dia do Trabalho e no Dia da Independência grande parte das duzentas e oitenta e cinco gangs da cidade reuniam-se em Coney Island. Levaram depressa Dan para o hospital. o que resultava em lutas terríveis. todo o seu corpo já estava coberto de gasolina em chamas. Ele tinha só treze anos de idade. elas foram logo reiniciadas com fe- rocidade ainda maior. Naquele 4 de julho — Dia da Independência dos EUA — os Bishops mataram Larry Stein. acendeu um “coquetel Molotov” para atirar na delegacia. Certa tarde Dan Brunson. mas os médicos disseram que só após muitos anos é que ele voltaria ao normal. Algumas vezes o feitiço virava-se contra o feiti- ceiro.em chamas. e muitas vezes fatais. e a bomba explodiu na mão dele. nos reunimos no porão da escola — éramos quase duzentos — para uma assembléia de vingança. O pavio queimou depressa demais. diminuímos o ritmo das brigas. Um deles ficou gravemente queimado ao abafar o fogo. Cinco deles surraram- no com correntes de bicicleta até matá-lo. depois. porém. Antes que alguém pudesse chegar até ele. Quando ficamos sabendo disso. um de nossos rapazes. Na semana seguinte. Bedford que ficava no bairro de Brooklin. membro da nossa gang. Metade dos rapazes estava embriagada. debaixo de uma passagem de tábuas. Os feriados eram ocasiões excelentes para os “quebra-paus” das quadrilhas. Os guardas correram e apagaram as chamas com as próprias mãos. Na Páscoa. A sala estava carregada de ódio. Todos iam vestidos com as suas melhores roupas. e pôr fogo na parte da Av. eu consegui manter a . enterraram seu corpo na areia. Ele só foi encontrado uma semana mais tarde.

e os filhos ficaram estáticos de terror. e depois reunirmo-nos outra vez. Stein e continuavam a cerimônia fúnebre. e que o funeral seria realizado no dia seguinte. Ela me viu chegando e gritou: “Tirem esses monstros daqui! Levem esses diabos!” Ela voltou-se e começou a andar em direção ao carro. mas o administrador do cemitério agarrou-o pelo braço.” Começou a aproximar-se de mim. disse-me o administrador. seu pai e seus quatro irmãos. en- quanto eles reanimavam a Sra. a maioria vestida de blusões negros com um duplo M escarlate nas costas. Se não fosse você e sua gang imunda. mas desmaiou e caiu na grama. Ficamos sabendo na tarde do mesmo dia. puxando-o para trás. disparando chispas de ódio pelos olhos. à noite. Na tarde seguinte reunimo-nos no cemitério para o enterro. “Por favor. “Colabore conosco. Os Mau-Maus estavam vagueando pelo cemitério. e quando o funeral chegou. Dirigi-me à Senhora Stein para falar com ela. espere do outro lado da cova”. na tarde seguinte. aproximando-se da cova. olhando nossa quadrilha que se esgueirava por entre os túmulos. e concordamos em assistir ao enterro de Larry. Dois carros pararam e um pequeno grupo de pessoas que choravam saiu deles. que os GGI haviam matado um dos Bishops. certo?” Fiz o que pedia e afastamo-nos do túmulo. O pai de Larry olhou para mim e amaldiçoou-me: “Você é o culpado. para traçar os planos de batalha. cambaleando. Reconheci a mãe de Larry. Larry estaria vivo hoje. Os rapazes queriam acabar com o funeral atirando . O marido curvou-se sobre ela. todos avançamos — mais de duzentos rapazes e garotas.ordem. Naquela noite tivemos a segunda reunião. Desta vez nada haveria de nos segurar.

razão. “Se esperarmos até amanhã. será tarde demais. Todos ferviam de ódio. era espantosa. vamos”. até falar quase aos gritos quando . reservado aos negros. Vamos agora. onde o corpo do rapaz dos Bishops aguardava a hora do enterro. Papai ficou de pé à porta. Eu era um animal sem consciência. que estava sentado à beira da cama “Frank me contou tudo sobre você”. disse ele. Mamãe não apareceu. mas nós nos sentimos vingados.bombas dos edifícios A intensa lealdade da quadrilha. Ele queria que eu fosse ao seu apartamento na noite seguinte. Mas eu preferia obter o de que precisava por meus próprios meios. “Vamos pôr fogo naquela baiúca”. Mais de quinze deles convergiram em direção ao pequeno salão da empresa funerária.” “Sim. moral. olhando para mim. e finalmente não podiam mais contê-lo. Os tumultos nas ruas eram superados apenas pelos pesadelos de violência que fervilhavam em meu coração. e eu agora não queria qualquer contato com eles. Recusei-me. e Frank me ajudava um pouco. Eu não precisava deles. sim. tombaram caixões e rasgaram as cortinas com facas. em vingar o seu parceiro morto. levantando a voz. A quadrilha me sustentava com o produto dos seus roubos noturnos. Frank veio ver-me e disse que mamãe e papai vinham de Porto Rico para visitar- nos. Na noite seguinte. Mannie foi quem gritou que já ia para a agência funerária. já que eu não quisera vê- la. Eles me haviam rejeitado. O enterro foi realizado no dia seguinte sob forte escolta policial. Frank trouxe papai ao meu quarto. gritaram em coro. gritou ele. por muito tempo. e sem qualquer senso do que era certo ou errado. Na primavera de 1957. para vê-los.

como se estivesse tentando abrir a tampa de um recipiente. mas eles eram fortes demais para mim. Preciso libertá- lo. “Sinto cinco espíritos maus nele”. É verdade?” Não respondi. Empurrou-me com força. exerceu grande pressão. que es- tava de pé ao lado do velho. mas virei-me para Frank.” Papai atravessou o quarto e colocou sua pesada mão em meu ombro. suas mãos enormes prendendo-me como correntes. disse Frank cal- mamente. disse papai.” Papai estava falando com os demônios da minha mente. disse papai. “Ele disse que você é agora chefe de uma quadrilha e que a polícia está procurando-o.” “Ele tem um demônio”. “Cinco demônios!” cantou papai. e torcendo as mãos. Mas agora até os demônios têm medo de mim. “Sai! Sai!”. até que fui obrigado a ajoelhar-me por terra.terminou. apertando para baixo. “eu ordeno que vocês saiam. Dominou-me em toda a sua altura. encarando-me sem piscar os olhos.” Cruzando as mãos sobre a minha cabeça. Lutei para libertar- me. “Ele está possesso. gritava ele. Fez sinal para que Frank agarrasse meus braços e os levantasse acima da minha cabeça.” Olhei para papai e ri nervosamente: “No ano passado eu pensei que tinha um demônio. e rosnei: “Que diabo andou falando para ele? Eu te disse para não vir aqui com eles. “Talvez já seja hora de você também enfrentar a verdade.” “Contei-lhe a verdade. . Nicky”. “é por isso que ele é delinqüente! Hoje nós vamos curá-lo.

sobre as orelhas.” Depois gritou: “Pronto. Eu disse um palavrão e saí como um pé-de-vento pela porta a fora. correndo pelas escadas. Afinal ele me soltou e Frank afastou-se dizendo : “Ele te fez um grande favor. sai. “Há um demônio na sua língua.” Papai estava de pé no meio do quarto. Frank continuou segurando meus braços acima da cabeça. Os pesadelos ficaram piores. Eu ainda era filho de Lúcifer. tapas com as duas mãos em am- bos os lados da cabeça. Sai. Ele já está saindo. dormindo em um banco na Praça Washington. Redobrei minhas brigas frenéticas. tentando encobrir o medo que me consumia interiormente. A visita de meu pai pareceu aumentar o meu medo do futuro. e começou a me estrangular. ao acordar de um pesadelo após outro. Se papai tinha expulsado os demônios de mim. mas papai te purificou. dando-me tapas nas virilhas e ordenando aos espíritos maus que saíssem das minhas entranhas. que até pensei que minhas costelas iriam partir-se. Virei-o de lado e roubei-lhe a carteira. não demorou muito tempo para que eles voltassem. e deu-me vários socos no peito. Duas horas depois encontrei um marinheiro bêbedo. Finalmente. Deu-me. Estava gritando com os demônios para que saíssem de meus ouvidos. em direção à rua. ele me agarrou pela cintura e me colocou de pé. e papai colocou suas mãos imensas ao redor do meu pescoço. Você tem sido muito mau. Noite após noite rolava pela cama gritando. repetidas vezes. disse ele.” “O seu coração também está negro”. tremendo como vara verde. então. Naquele verão nossa luta contra a polícia tornou- . demônio. Nicky.

Os rapazes já haviam observado isso. testando o revólver. principalmente de rifles. e isto custava dinheiro. eu me aproximaria dele e faria uma pergunta. atirávamos garrafas e pedras neles — mas precisávamos de armas de fogo. Então Willie e Mannie apareceriam. num degrau da escadaria. Achávamos que estava se encontrando com a mulher de Mário. esperando que os guardas passassem por baixo. Certa noite. Quando chegamos ao prédio de apartamentos. Ele tirara todas as balas e colocara uma ao lado da outra. Willie já estava por ali. Eu tinha notado que todo sábado. Pedimos a Willie Açougueiro para trazer o seu revólver. Sabíamos que ele vinha da cidade de Jersey. e contávamos muitas piadas sobre o caso. e encontrar-se conosco às duas da madrugada. para realizar um roubo fácil. Todo sábado às três da manhã acontecia a mesma coisa. Eu disse a Mannie que achava que seria um trabalhinho fácil e ele concordou. Ele estacionava o carro. Vendo-nos chegar. Tive uma idéia. dirigindo-se para um dos apartamentos. às três da madrugada. recarregou a arma e colocou-a no cinto. Trepamos assim pela escada de incêndio e vimo-lo entrar no apartamento de Silvério. . Derrubávamos sacos de areia. e que esperava sempre que Mário Silvério saísse para o trabalho. enquanto o revistávamos e tomávamos seu dinheiro. Quando o homem saísse do carro. trancava as portas e subia as escadas até o apartamento. Todas as noites ficávamos nos telhados.se ainda mais intensa. Nosso plano era: Willie e Mannie esperariam atrás do edifício. um homem chegava em um grande carro preto. alguns dos rapazes desafiaram a mim e Alberto a espiá-los. o primeiro apontando a arma para o homem.

ou eu te mato. moço”. Desta vez dirigiu-se aos fundos do edifício. disse eu. Quando me aproximei. falou Willie entre dentes. O homem saiu do carro. Só os carros que transi- tavam pela avenida próxima quebravam o silêncio. Era um sujeito grandalhão. “Suma. “ “Olhe.” Dei uma risada e pus a mão no bolso da capa. Lafayette. Willie e Mannie esconderam-se nas sombras. “Socorro! Ladrões !” gritou o homem. Fechou o carro cuidadosamente. como se tivesse um revólver apontado para ele. Depois começou a gritar : “Socorro! Socorro!” Naquele momento Willie passou o braço ao redor do seu pescoço. e comecei a andar pela calçada. Willie quis examinar o revólver de novo. deu três badaladas. “Ei. “estou perdido. está morto”. moleque”.” Ele engoliu em seco. tudo o que eu quero saber é onde fica a Av. e olhou-me incrédulo. “não quero amolação. Lafayette ?” O homem virou-se e olhou em todas as direções. moço. . por trás. batendo-lhe no rosto com o tambor do revólver : “Se der um pio. na esquina da Rua Houston. Pode me dizer onde é a Av. dizendo que tudo estava pronto. e voltou dentro de poucos minutos. disse. Mais ou menos às três e quinze o carro virou a esquina e parou defronte ao prédio. O relógio do grande edifício de Flatbush. recuando para o carro. de cerca de quarenta anos e usava chapéu e casaco de elevado preço. As ruas estavam desertas. e começou a andar em direção ao edifício. ele apertou o passo. Encostei-me nele : “Cale a boca. Enrolei a capa de chuva em torno do corpo.

cara. rodeando-o : “Atira nele. “Ei. com todas as forças. nós estamos prestando um favor a você”. “Vamos.” Abriu o cinto e o homem começou a gritar outra vez. disse Mannie. veja todo este dinheiro. Willie! Fura ele ! Ele me mordeu. Fiquei de lado. “ Willie recuou e com ambas as mãos apontou o revólver para as costas do homem e puxou o gatilho. Ele dobrou-se. vamos tirar a calça como um bom menino. enquanto Mannie e eu co- meçávamos a revistá-lo. Pulei para trás gritando : “Atira nele. “Que tal. mas nada aconteceu. se eu deixar você dormir com a minha velha. Puxa. Zé ? Não se importa se tirarmos sua calça para que todas as senhoritas vejam como você é simpático?” O homem rilhou os dentes e começou a gemer. “Ei. Ele enterrou os dentes com força na palma da minha mão. Willie. Willie. O homem ficou duro. você me dará dinheiro toda semana ?” Mannie começou a desafivelar o cinto do homem.” . Tínhamos achado uma mina de ouro. mas senti tanta dor que pensei que ia desmaiar..” Mas eu pulei e fechei-lhe a boca com a mão.” Afastei-me rindo. cara.. “Socorro! Soc. Comecei a caçoar dele : “Ei. e eu dei-lhe outro soco na fonte com a outra mão. Que tal ? Este cara é rico. olhe. No bolso do paletó encontrei o maior maço de notas que já vira. Estavam presas por um elástico. Dei um soco no estômago do homem. Penso que estava levando aquele dinheiro para a mulher de Mário. Dê-lhe uma lição. Ouvi o pino cair.

Ele continuou tentando. A carne se rompeu e eu pude ver o branco do osso facial. Eu devia tê-lo deixado cair. e dei uma coronha-da no rosto do homem. Corri para a mi- nha rua e subi a escada até meu quarto. lembrei. As sirenes da polícia gemeram à distância. tranquei a porta e fiquei na escuridão arquejando e rindo. Luzes se acendiam nas ja- nelas dos apartamentos. e ouvimos alguém gritar. e apalpei o bolso. “Isto sim. Nada aconteceu de novo. Ele estava tentando gritar quando eu o feri de novo no alto da cabeça. e atalhamos por uma travessa que ia dar atrás da escola. Corremos rua abaixo. De repente. Eu não podia voltar lá aquela hora. Apaguei a luz e deixei-me cair na cama. Houve um ruído de metal batendo no osso. Lavei-a com um pouco de vinho e enrolei um lenço. Agarrei o revólver de Willie. E o revólver? O revólver de Willie também se fora. Vi cla- ramente as marcas dos dentes do homem na palma. Ah. tirei a capa e joguei-a em uma lata de lixo. Não esperamos mais. O lugar devia estar regurgitando de guardas. E esta agora ? Não estava lá ! Fiquei de pé. e eu sorri para mim mesmo. procurando o maço de notas. Willie puxou o gatilho outra vez. Separamo-nos na rua seguinte. Enquanto corria. “Que pacote!” pensei. pro- curando freneticamente em todos os bolsos.” Acendi a luz e olhei para a minha mão. uma das mãos pendentes sobre o bueiro que havia sob o meio-fio. Ele caiu prostrado na sarjeta. era vida. e o sangue começando a correr. Já dentro. mas o revólver não disparou. Eu o colocara no bolso da capa. no começo da briga. não ! Eu havia jogado a capa na lata de lixo. Precisaria esperar até de . depois que dera a coronhada no homem.

Sentia o estômago . fiquei tremendo na cama. Capítulo 8 A GARGALHADA DO DIABO DURANTE O PERÍODO de dois anos em que fui líder dos Mau-Maus. e lançou uma pomba pela porta. Acordei julgan- do ter ouvido a gargalhada do diabo. eu estava debaixo da cama. “O que é que há. sonhei que estava caindo. no meio da noite. Quando finalmente consegui pegar no sono. Fui preso mais vezes do que sou capaz de me lembrar. Caí na cama. Quando ele abriu a porta e acendeu a luz. Ficou de fora e deu gargalhadas ao ouvir meus gritos de medo. Tentei encobrir meu terror. rindo enquanto ele atirava a pomba pela janela. Nada era sagrado. Nós vivíamos — todos os componentes das quadrilhas — como se não existisse lei.manhã. Mas depois que ele se foi. e nenhum resultado. Certo dia Israel entrou furtivamente em meu quarto. Todo aquele esforço. mas então o lixeiro teria passado e a capa e o dinheiro estariam perdidos. “que cara é essa?” Não pude responder na hora. Nicky ?” disse ele depois de contar como fora a facada. exceto a nossa lealdade uns para com os outros — principalmente os laços de lealdade que eu sentia em relação a Israel e a Mannie. dezessete pessoas foram mortas. com o som de asas ruflando nos ouvidos. Na manhã seguinte Israel voltou para me contar que Mannie fora esfaqueado e estava no hospital. batendo com os punhos no colchão.

Ele ainda estava usando . “Ninguém vai bater e esfaquear você sem levar o troco. É por isso que os tiras estão aí fora. Eles me pegaram sozinho. Vou visitar Mannie e descobrir quem fez isso. meu chapa. De repente. para traçar planos de vingança. Depois vamos queimar esse cara direitinho. Homer foi guiando o carro. “Quem fez isto. mas havia dois policiais uniformizados na porta. via minha segurança abalada. É o novo vice-presidente deles. Trepei pela escada de incêndio e bati de leve na janela e Mannie a abriu por dentro. Es- condemos o bicho atrás de um velho armazém durante duas semanas.” “Quem foi ?” perguntei. “Você sabe quem fez isso?” “Sim.” “Bem. Estávamos na semana anterior ao Natal de 1957. enquanto Israel me contava que Mannie quase morrera. e o sangue fugindo de minhas faces. Decidimos fazer um seqüestro. Ele estava fraco e mal pôde arrastar-se de volta para o leito. vamos agarrar aquele negro sujo. quando entramos em ação. No dia seguinte Homer roubou um carro. e nós apanhamos Mannie. até Mannie sair do hospital. É só raiva.” Naquela tarde tentei entrar no hospital. Pensa que é o tal. Foi aquele cara chamado Joe.” “Foram os Bishops.” Esgueirei-me de volta pela escada de incêndio e naquela noite encontrei com Israel e Homer Belanchi. Quando fugiu disse que eles voltariam para me matar. Mannie e Israel eram os únicos amigos que eu tinha. Sacudi a cabeça : “Estou bem. cara ?” perguntei.embrulhado. nosso conselheiro de guerra. E quando sair daqui. e me acertaram duas vezes: na perna e no lado. só quero que você fique bom.

sentado no chão. ao lado da garota que parecia horrorizada: “Ei.” O proprietário parecia que ia ter um acesso. Ele levantou os olhos e Augie disse : “Bicho. ao lado de uma mocinha. nós estamos procurando o nosso amigo. . Cruzamos a Rua St. Alguém disse que ele quer fazer um acordo. você tem duas coisas para escolher: ou vai conosco. nós somos os tais. Augie tirou o revólver e apontou para os outros que estavam no local. e dois policiais uniformizados estavam de guarda à porta. Havia um baile de Natal no Centro. Paco e eu ficamos no banco de trás. depois do Centro Católico. O primeiro que mexer é homem morto. que ainda estava sentado no chão. naquela noite. mas Augie pôs o pé sobre o seu ombro e empurrou-o para trás. Eram quase onze horas da noite.” Falei com Joe. pulha. e estacionamos do lado oposto. Ele está por aqui ?” “Você está falando do Joe ? Está lá no canto.bengala.” Joe tentou levantar. disse Augie. beijando a garota”. e eu disse: “Ei. turma. Não vimos nenhum dos Bishops por ali. Os Mau-Maus. disse um dos Bishops. e nós viemos por causa disso. Viemos buscar você. Vice- Presidente dos Bishops. dissemos a Mannie para esperar no carro. Ninguém. “Não se movam. Saímos devagar e fomos até onde Joe estava. por isso. “Não vamos fazer nada com você. Nós dois estávamos armados e ele viu que apontávamos para ele. Augie. continuamos descendo a rua. “Fique quieto que nós vamos cair fora num mi- nuto. até a confeitaria. Começou a gritar. Edward. velhinho”. Havia vários Bishops na confeitaria. Atravessamos a rua e entramos na confeitaria.

e saímos pela porta. entre Augie e eu. levamos vinte e cinco Mau-Maus conosco. Foi ele . falei zombando. Tentara escapar. Joe estava caído de lado. “Mannie. disse Augie.ou nós o matamos aqui mesmo. “Digam aos Bishops que vamos trazê-lo de volta depois de mostrar o que acontece quando alguém põe a mão num Mau-Mau”. perto da Ponte de Manhattan. Fechamos a porta atrás de nós e o obrigamos a correr. Era meia- noite. fico alegre por você ter resolvido. Pusemos a cadeira em pé e acendemos a luz. e Israel ficou apontando o revólver para os outros rapazes que ficaram no bar. e durante todo o tempo apontamos as armas para ele. Chamei Mannie para ficar diante dele. Só voltamos dois dias depois. Quando o fizemos. Ele sentou-se atrás. “Foi ele. Homer deu partida no carro. mas fora muito bem amarrado.” De um arranco coloquei-o de pé. Augie cuspiu no rosto dele e saímos batendo a porta atrás de nós. atravessamos a rua empilhamo-nos no carro. e saímos em direção a um edifício abandonado. Ele tinha passado dois dias inteiros sem comida e sem água. “Talvez sua morte seja rápida. O edifício estava gelado. Ele piscou de medo e horror. com uma mordaça na boca. Talvez vá ficar aqui o resto da vida”. Levamos Joe para dentro. quando nos agrupamos ao seu redor. e eu disse : “Bem. amarrando-o a uma cadeira. ainda amarrado à cadeira. foi este que te deu uma facada e amea- çou te matar?” Mannie aproximou-se mancando. Quer um minuto para pensar ?” O rapaz começou a gaguejar algo.

Cada rapaz que estava no prédio acendeu um ci- garro. forçando sua cabeça para trás. ele está confessando”. Augie agarrou-o pelos longos cabelos e puxou-lhe a cabeça para trás. enquanto Augie o agarrava pelo cabelo outra vez. os rapazes deram-lhe chutes. pessoal. ao tentar falar. disse Augie a Mannie. O queixo do rapaz tremia enquanto ele corria a língua crestada pelas feridas avermelhadas. em meio à sujeira e teias de aranha. “Outra vez”. forçando-o deliberada- mente entre os lábios rachados. Mannie sacudiu a cinza de seu cigarro. disse eu rindo. com os sapatos pontudos. disse Augie. Os rapazes chegaram-se a ele.mesmo. até desmaiar de dor. Ele gritou de dor. e colocou-o perto do pescoço do rapaz. “Veja. que ele cerrava for- temente. em uma débil tentativa de livrar-se da cinza e dos fragmentos de fumo que se haviam apegado a elas. cada um apagando o cigarro contra o seu rosto e pescoço. Tiramos as cordas que o prendiam e ele escor- regou para o solo.” Tirei a mordaça da boca de Joe. Gritando palavrões. como de lixa esfregada em uma tela. e Mannie tirou o cigarro. e Mannie riu ao encostar levemente a ponta acesa do cigarro na pele fina. é a vez de vocês”. Ele gritou de dor e a garganta produziu ruídos estranhos. “Agora. e avançou para ele. Os olhos de Joe estavam arregalados de medo. quebrando-lhe as costelas e o .” Desta vez Mannie esmagou vagarosamente o ci- garro contra a boca do rapaz. “ele esfaqueou você duas vezes. Tinha a garganta seca e produziu ruídos esquisitos e ofegantes. Seus lábios e sua língua estavam inchados e rachados. Ele gritou sem parar.

Baixei a cabeça e corri diretamente através deles. e tocou insistentemente a buzina enquanto eu me safava por pouco. e rindo do que acontecera na semana anterior. Parei de correr e voltei pela rua. Tínhamos algum tempo de vantagem sobre eles. Mannie foi ficando para trás.maxilar. para ver o que . chispamos para longe dali. estávamos sozinhos. “Ninguém fere um Mau-Mau e fica sem o troco. caindo no meio da rua. e corremos porta a fora. mas fraco como estava. e eles não estavam preparados para o ataque. Peguei-os de surpresa com minha ousadia. Esperava que Mannie aproveitasse a vantagem do meu ataque.” Passamos vagarosamente pela confeitaria. Vamos nos raspar. Pus a mão sobre a capota de um carro estacionado. Um carro de entregas vinha a toda pela rua. Levantei os olhos e vi cinco Bishops atravessando a rua. No dia de Natal encontrei Mannie no bar do Gino. percebi que Mannie não me seguira. meu chapa. atravessamos a rua e nos en- fiamos por uma travessa Corríamos o mais depressa possível. Dei uma olhadela em volta : embora estivéssemos no centro do território dos Mau-Maus. Cutuquei Mannie : “Bishops. Augie escreveu uma nota e prendeu-a com um alfinete às suas costas. de cabeça. Nenhum dos Bishops estava me se- guindo. Estávamos sentados em banquetas diante do balcão.” Mas era tarde demais. De repente. e rolamos o seu corpo inconsciente para a rua. e me seguisse. Olhei para trás. Eles nos viram mergulhar detrás do balcão para tentar sair pela porta lateral. e ele caiu de costas na calçada. fumando. e saltei sobre ele. Atingi um deles no estômago. Quando viramos a esquina da travessa e saímos na outra rua — eles estavam à nossa frente. Depois. Foi depois atirado no carro e levado à confeitaria que havia no território dos Bishops.

e eu o sentia quente e pegajoso em minhas mãos. o rapaz. Corri para o grupo brandindo a faca e dando socos com a outra mão. Vi o rapaz que estava com a faca levantar o braço. com o que vazava de sob o casaco de couro. abaixá-lo em direção à costela de Mannie. Fiquei como louco. Estava deitado de bruços. e os seus olhos me encaravam cheios de terror. abraçando-a contra meu blusão de couro. Porém. só saíram pequenas bolhas de sangue. Ajoelhei-me e virei-o de costas. mas tinha o rosto virado de lado. Na entrada da travessa vi que os cinco tinham cercado Mannie.tinha acontecido. depois começou a cair de rosto no concreto. Não acreditava que eles tentariam matá-lo. e percebi que era o reflexo da luz do sol na lâmina de uma faca. Seu sangue manchou minhas calças. muito tarde.” Era. Tentou falar. porém. Algo brilhou por um instante. e num golpe desleal. tudo o que pude ouvir foi um gorgolejo que subia dos pulmões. e gritando: “Bastardos! Larguem dele Vou matar vocês. Continuou tentando dizer-me algo. mas quando abriu a boca. Levantei sua ca- beça e coloquei-a em meu colo. Enquanto caía. Corri para eles. Mannie ficou caído na calçada. com grande força. e uma poça começou a formar-se ali. . O sangue corria da boca e do nariz. procurando tirar apressadamente a minha faca do bolso. e davam-lhe socos e chutes no estômago e na virilha. Este gemeu e vi-o ereto contra o muro por um curto momento. Eles espalharam-se e correram em todas as direções. Eu tinha parado no meio-fio. Os olhos es- tavam arregalados de terror. maldosamente enterrou a faca outra vez no seu peito. apertando-o contra o muro. quando abriu a boca para falar. Continuou soltando pequenas bolhas de sangue com os lábios.

enquanto corria pela travessa. eles tentariam culpar-me. Ele fora meu amigo. com sangue escorrendo da boca. Mannie”. Estava morto! “Mannie! Mannie! Mannie!” eu estava gritando com todas as forças. estava deitado na rua. ainda estava vendo Mannie caído na calçada com a face virada para mim. Corri até chegar ao meu apartamento. Mannie. e pude ouvir um som como de ar escapando. com a pistola armada apontada para a porta fechada. Eu estava petrificado de terror. gritei. ecoava em cada uma de minhas passadas. Em minha mente. O som cavo de sua cabeça.. As vozes se aproximavam. “Mannie. Minha respiração saía aos arrancos. Bati a porta atrás de mim. “não morra.” Ele abriu a boca uma vez. Eu estava com medo. e tirei o revólver do guarda-roupa. Mannie. com aqueles olhos mortos. e minha própria voz se enchera do horror infinito da realidade que eu acabara de presenciar. Levantei-me cambaleando. . até sair na rua seguinte. Não havia outra coisa que eu pudesse fazer naquela hora. na beira da cama. Um minuto antes estava rindo e falando. chocando-se contra o concreto duro. Não morra. tremendo. arregalados de terror. Olhei para os seus olhos fixos.. Sua cabeça rolou em meus braços e senti que o seu peito baixava sob a jaqueta. muito pouco. Uma mulher gritou: “O que está acontecendo aí?” Eu não podia mais ficar ali. O corpo inerte de Mannie caiu pesadamente na calçada. Ouvi vozes rua abaixo. Nunca vira a morte tão de perto — pelo menos não face a face. e eu me sentei. Parecia um pneu acabando de se esvaziar. Com todas as minhas passagens pela polícia. No minuto seguinte.

Vi o sangue coagulado em minha pele e sob as unhas. Abri a boca para gritar. Parecia que estava possuído por demônios. Parecia estar a dez quilômetros de distância. e eu senti minha cabeça chocando-se contra o solo com um ruído como o da cabeça de Mannie. Olhei para minhas mãos. vendo a porta e a janela que pareciam estar a centenas de metros acima de mim. As paredes do quarto pareciam aproximar-se de mim. Piquei deitado no fundo daquele retângulo minúsculo. Mas a morte era demais para mim.” Exausto. Mas meu pescoço insistia em cair de lado. Fiquei de pé e corri em direção à parede. quadrado. como um canudinho de refresco. Grandes ondas de náusea me dominaram. de cima. gritando: “Ninguém pode me fazer mal! Ninguém pode me fazer mal! Ninguém. “Não estou com medo! Não estou com medo!” gritei repetidas vezes. terrificante! Era como se um pesadelo tivesse se tornado realidade. ao rolar de . que tinha dez quilômetros de altura. para mim. quando. invencível. Então. Medo! Terror infinito. grossa e lodosa apareceu e começou a achatar o canudo em minha direção. Comecei a bater a cabeça na parede. olhando para cima. Pensara que era valente — que não tinha medo de nada. Aquela imagem. à medida que o forro se afastava. Rolei no chão durante muito tempo. Eu estava apertado e preso no fundo do que era. Eu estava sufocando. mas nada saía a não ser bolhas de sangue. de lábios rachados e olhos arregalados atravessou de novo minha mente. sem saída. uma nuvem negra. mas não conseguia.. tentando escapar. Queria chorar. Comecei a sentir-me mal. gemendo e gritando.. indefensável.Eu não podia agüentar aquilo. tentando trepar. caí ofegante no chão. e eu me esforcei para não vomitar. Eu estava arranhando a parede. apertando o peito com os braços.

Sabíamos que os padres recebiam muito dinheiro durante as missas especiais da semana santa. chocara-se contra a calçada de cimento. Era a nuvem da morte — morte — morte.. Michael. Ouvi o chiado suave do ar escapando dos meus pulmões que se esvaziavam. defronte à Igreja St.. Morte . Então.. e eu fiquei deitado de costas.. Escutei-o em meu próprio peito. e estávamos planejando entrar na igreja. ainda cobertas de sangue endurecido. Edward. quando o sangue enchera seu pulmão e subira pela garganta. Era a gargalhada do Diabo. a nuvem negra me envolveu e ouvi uma gargalhada fan- tasmagórica ecoar pelas paredes daquele canudo quadrado no fundo do qual eu estava. MORTE.meu colo. e vinha buscar-me. Edward e St. O sol estava tentando penetrar pela minha janela imunda. A nuvem negra foi descendo. Tive náuseas e tentei gritar.. tentando afastá-la. era dia. Quando acordei. Capítulo 9 NA FOSSA TRÊS DIAS ANTES DA Páscoa. atravessou a rua e viu-nos encostados na grade de ferro que rodeia a igreja. com as mãos e os pés estendidos para cima. A primeira coisa que notei foram minhas mãos. e enregelado. e então aquele gorgolejo cavo que ouvira no peito de Mannie. eu e mais três de nosso grupo estávamos na esquina das Ruas Auburn e St. Morte.. mas só saíram mais bolhas. . dolorido. O eco repetiu-se vezes sem conta. Um policial saiu do Distrito. Eu ainda estava no chão paralisado. .

então. seus porto- riquenhos porcos. ao mesmo tempo que gritava. como se fosse me bater. Era duas vezes maior do que eu.” . disse eu. O guarda que lutara comigo bateu com força no meu rosto. e atravessaram a rua correndo. já disse que caiam fora!” Os outros rapazes se espalharam mas eu não me movi.Aproximou-se de nós e disse: “Caiam fora. antes que mate alguém. abraçando a grade. e ele me agarrou pelo pescoço. fingi que desmaiava e caí no chão. mas eu o mataria. Ele me bateu outra vez. Afastei-me depressa e levantei as mãos. Deve ficar preso até mofar. “Eu me entrego! Eu me entrego!” Vários policiais derramaram-se pela porta do Distrito.” Ficamos ali. pedindo socorro. Cuspi nele. e este foi atingir a grade. Brandiu o cassetete em minha dire- ção.” Enquanto eles me arrastavam para outra sala. Agarraram-me e arrastaram-me para a Delegacia. ouvi o sargento escrevente murmurar : “Acho que esse cara é louco. Investi contra o policial. porco imundo.” Levantou o cassetete. vagabundo. contemplando-o com olhos inexpressivos . se pudesse. Procurei apanhar a faca. Desta vez vamos ajus- tar as contas com você. “Levante-se. “Você é um valentão quando está armado. O guarda olhou-me fixamente: “Eu disse mexa-se. Senti na boca o sangue que saía dos lábios. quando percebi que ele abriu o coldre e estava tentando tirar o revólver. vá circulando. O guarda repetiu: “Vagabundos. mas eu me baixei. fazendo-me subir os degraus e entrar no prédio. mas por dentro é um covarde como todo o resto desses tiras sujos”.

O carcereiro deu- me um empurrão. gritei. “mas um dia vou à sua casa e mato a sua mulher e seus filhos. “por que você não se levanta e briga conosco agora? Você não é tão durão?” Mordi os lábios e não respondi. “Está bom. No dia seguinte o carcereiro voltou à minha cela. enquanto ele me esmurrava à vontade. Eu já fora preso muitas vezes.” Empurraram-me de novo para a cela. por ter resistido à prisão e desobedecido à autoridade. O homem puxou-me para o corredor. joguei-me de novo contra ele. e outro guarda me segurou. e se não entrar na linha. e eu caí no chão duro. Dessa vez eles me levaram para o outro lado da cidade. pode bater em mim”. Ninguém testemunhara contra mim. quando entrei na cela. italianos e porto-riquenhos. disse o carcereiro ao fechar a porta da cela. empurrando-o de volta para o corredor. mas eles nunca conseguiram me segurar por muito tempo. Senti o sangue correr de um corte no supercílio. O carcereiro me deu um soco. A cadeia está cheia de negros. Ele me bateu na cabeça com o molho de chaves. mas sabia que iria matá-lo quando saísse. é bater neles até matá-los”. Você é igualzinho ao resto. dirigindo-lhes palavrões. jogando-me de . Mas estava piorando a minha própria situação. Espere para ver.” Eu estava sendo acusado apenas de uma pequena contravenção. “A única maneira de tratar esses p. ou os Mau-Maus matariam para mim. porque sabia que quando eu saísse da cadeia haveria de matá-lo. Virei-me e arremeti contra ele dando socos. “Vamos. vagabundo”. disse ele. “São uma súcia de porcos sujos e fedorentos. e colocaram-me em uma cela. Quando abriu a porta... vai acabar desejando que estivesse morto.

repetiu ele firmemente “Dezoito”. “Você tem dezoito anos e já foi preso vinte e uma vezes e já compareceu ao banco dos réus três vezes. respondi. “Levante-se quando eu falar com você!” explodiu o juiz. e fechou a porta. meritíssimo”. respondi.” “Há quanto tempo vive sozinho?” . e tem sido acusado de tudo. você pode apodrecer aí!” Meu julgamento foi na semana seguinte.” O juiz virou-se e olhou para mim: “Quantos anos você tem. O juiz. Fui algemado e marchei para o tribunal. desde roubo até assalto a mão armada e tentativa de homicídio. Por que seus pais não vieram com você?” “Eles estão em Porto Rico”. de cerca de cinqüenta anos. Além disto. cachorro. ele tem vinte e uma prisões na sua folha corrida. Fiquei de pé e olhei para ele “Perguntei quantos anos você tem”. Não preciso de ninguém. “Pois bem. um homem de rosto severo. disse. respondeu o policial. “esta é a terceira vez que ele é trazido ao tribunal. Vivo sozinho. e um policial começou a ler as acusações. que usava óculos sem aro. Sentei-me em uma cadeira. “Espere um minuto: este rapaz já não esteve no banco dos réus?” “Sim. “Com quem você vive?” “Com ninguém. rapaz?” Curvei-me na cadeira e fixei os olhos no chão.costas no chão da cela.

e creio que o Estado. Nunca vimos um rapaz tão malvado e incorrigível como este.” “Sim. É o centro de todos os problemas que temos tido no conjunto habitacional. briga e mata? Centenas de rapazes como ele passam pelos tribunais todos os dias. “Estes rapazes mataram três policiais nos últimos dois anos. Não apenas trancá-los pelo resto de suas vidas. uma obrigação de tentar salvar alguns destes rapazes. meritíssimo. Só com- preendem a linguagem da força. há três anos atrás. o colocasse na prisão até que ele completasse vinte e um anos. creio que você tem razão”.” “Meritíssimo”. e a única coisa que se pode fazer com um cachorro louco é enjaulá-lo. por assim dizer. É como um animal. meritíssimo”. Quem sabe se até então poderíamos manter um pouco de ordem em Fort Greene. “Desde quando cheguei a Nova York. não é? Um cachorro louco. . Exª. Creio que bem no fundo do coração deste perverso “cachorro louco” há uma alma que pode ser salva. disse o policial. disse o juiz. E se V. olhando para mim outra vez “Mas penso que pre- cisamos pelo menos tentar descobrir o que é que faz com que ele seja como um animal. que Vossa Exª. É o presidente dos Mau-Maus. ele matará alguém antes do escurecer. e tivemos quase cinqüenta assassinatos na- quele bairro. “ele não presta. soltá-lo.. Gostaria de recomendar. interrompeu o oficial de justiça. tem. meritíssimo. Estou certo de que. desde que estou naquela ronda.” Virou-se para o oficial de justiça: “Você acha que devemos tentar ?” “Não sei. rouba. não é assim ?” “Exatamente. Por que é tão depravado? Por que odeia.” O juiz virou-se e olhou para o oficial de justiça: “Você diz que ele é como um animal.

o Dr. Nicky Cruz. se fizer qualquer coisa errada.” Sacudi a cabeça. e fique de pé diante da mesa. Vive como um animal e age como um animal. John Goodman. O oficial tem razão. “Nicky. Ele não se mete em barulho. e eu quero saber o motivo. Ficará sob a custódia do psicólogo do tribunal. Devia tratá-lo como a um animal. pelo menos por enquanto. soltá-lo. eu tenho um filho da sua idade. mas compreendi que ele não ia mandar-me para a cadeia. Exª. Ele vai à escola. Nicky. Não estou qualificado para decidir se você é ou não um psicopata. se eu tiver uma só queixa contra você. Senti que meus joelhos começavam a tremer. Joga beisebol no time da escola e tem boas notas. Parece evidente que ninguém ama você — e você também não ama a ninguém Não tem capacidade para amar.se V. mas vou tentar descobrir porque você é tão anormal. “se você arranjar novas encrencas. Você não é normal como os outros rapazes. e aceitar responsabilidades. em um bairro agradável. teremos de prendê-lo de novo Só que da próxima vez poderá ser por assassinato . Você está doente.” Levantei-me e fui até onde ele estava. Você é um animal. Não é um cachorro louco como você A razão é que tem alguém que o ama. “Cruz. disse o Juiz. e será imediatamente enviado para . Nicky”. Quero saber o que faz você odiar tanto. não é? Venha aqui.” O juiz lançou os olhos à folha de papel que tinha à sua frente. “Mais uma coisa. O juiz debruçou-se sobre a mesa e olhou-me dentro dos olhos. Eu não sabia se ele iria me soltar ou deixar na cela. saberei então que é completamente incapaz de seguir ordens. Ele vai examiná-lo e dar a decisão final. vive em uma boa casa.

se quer bancar o valente. o psicólogo do tribunal. converso com vinte sujeitos como você todos os dias. “Deixe-me dizer-lhe algo. e quase me levantou do chão. Está vendo esta cicatriz?” Ele virou a cabeça para que eu pudesse ver a profunda cicatriz que ia da ponta do seu queixo até o colarinho da camisa. senhor”. Passei quatro anos nas gangs e três nos Fuzileiros Navais. encontrou o homem certo. O colarinho de sua camisa estava gasto e os sapatos sem brilho.” Fiquei surpreendido com seus modos rudes. antes de ir para a Faculdade.” Ele me empurrou para trás. senão vai ser pior para você. Tropecei no catre e .” “Está certo. Agora. vagabundo. E fiquei surpreso comigo mesmo. logo de manhã. entrou em minha cela. respondi. No dia seguinte. seja como quiser. Era a primeira vez que respondia a alguém dizendo “senhor”. o médico havia me agarrado pelo colarinho.” “Escute. Era um homenzarrão de cabelos prematuramente grisalhos nas têmporas. “Ganhei isto nas quadrilhas.Elmira. para a colônia agrícola . sentando-se no meu catre e cruzando as pernas. John Goodman. e uma profunda cicatriz na face. Compreendeu?” “Sim. Veja como fala comigo. grandão. mas repliquei com arrogância: “Quem sabe quer receber uma visita dos Mau-Maus uma noite destas?” Antes que pudesse mover-me. espirro. mas não antes de ter matado seis outros pulhas com um taco de beisebol. “Fui encarregado de acompanhar o seu caso”. Mas pareceu-me a coisa mais correta a dizer naquele caso. disse ele. “Isto significa que teremos de passar algum tempo juntos. Dr.

é? Por quê?” “Odeio esses bichos fedorentos. “Não aceito isto. quando me fazia perguntas.” Sentamos em um banco do parque. O Dr. e pediu-me para fazer alguns desenhos. e conversa- mos. Fiz uma casa com uma porta enorme na frente. e então conversaremos. “Por que colocou uma porta tão grande na casa?” perguntou ele. respondi. No dia seguinte estive sob o exame informal do psicólogo. Senti um certo entusiasmo. “Para o estúpido psiquiatra poder entrar”. “Ah.caí sentado. “Você gosta de zoológicos.” “Muita gente desenha portas para entrar. John tirou alguns cadernos de uma pasta.” “Pois bem. Era a minha primeira viagem fora da selva de asfalto. res- pondi .” . Nicky ?” perguntou ele. Saímos da cidade e entramos no Estado de Nova York. Casas. Depois de uma breve parada na clínica. mas não falei mais nada. três anos antes. Sempre andando para lá e para cá. Sempre querendo sair. Parei e observei os animais selvagens andando para lá e para cá. levou-me ao jardim zoológico. Sua voz voltou a um tom normal quando disse: “Amanhã de manhã tenho de fazer uma viagem à montanha Bear. desde que chegara de Porto Rico. detrás das grades. “Detesto”. Você pode ir comigo. para eu poder sair depressa no caso de alguém estar atrás de mim. Cavalos. mas permaneci amuado e arrogante. no parque público. Cuspi no chão. Vacas. Dê-me outra resposta. Andamos pelo caminho que passava defronte às jaulas. dando as costas para as jaulas e descendo caminho abaixo.

” “Você pensa que pode livrar-se de todas as coisas de que tem medo. O Dr. Já está morto. “Pensa que pode me fazer desenhar uma figura estúpida. fazer-me algumas perguntas bobas. O Dr. Eu não tenho medo de ninguém.” “Agora desenhe uma árvore”. enquanto o enfrentava. Desenhei uma árvore.” “Sim. Estou querendo sair. então.” Minha voz se elevara febrilmente. que não es- tava certo ter uma árvore sem um passarinho. Todo mundo tem medo de mim. Aquele homem estava começando a me ame- drontar com suas perguntas. matando-as. Não há nenhuma quadrilha de Nova York que queira encrenca com os Mau-Maus. Goodman olhou para o desenho e disse: “Você gosta de pássaros. disse ele.” “Você parece que tem ódio de tudo. e por isso desenhei um no alto da árvore. eles lhe contarão. “Eu não. Nicky?” “Detesto. “por que são livres ?” Ouvi um trovão rolando surdamente no céu. “Então esqueça o passarinho.” “Por quê ?” perguntou ele. John continuou escrevendo coisas em seu bloco. . não é?” “Que diacho você pensa que é. Pergunte aos Bishops. Pode ser que sim. à distância. seu charlatão estúpido?” gritei. Mas detesto pássaros mais do que tudo. e saber tudo a meu respeito? Eu não tenho medo de ninguém. Pensei. Peguei um lápis e fiz um buraco no lugar da figura do pássaro.

levantando os olhos. mas o sol já se escondera quando passamos pelas centenas de quarteirões de altos edifícios de apartamento encardidos. tremendo. disse ele.” A viagem de volta foi horrível. “não precisa tentar impressionar-me. antes de dar partida no carro e sair para a estrada. John ficou sentado silenciosamente durante muito tempo. em direção ao conjunto habitacional de Fort Greene. em lugar de dirigir-se ao presídio. Eu me sentia como se estivesse afundando em uma fossa. A idéia de voltar para a cadeia me amedrontava. disse. Lafayette. Ele sacudiu a cabeça: “É melhor irmos embora antes que fiquemos molhados”. “não sei mesmo. Continuei de pé à sua frente. Tenho direito de trancá-lo ou soltá-lo.” “Escute. mas os pingos de chuva começaram a cair com força no caminho. Era insuportável ficar enjaulado como um animal selvagem A chuva parou. Odiava ter de voltar para a cidade. O Dr. “Não vai me levar para a cadeia?” perguntei. disse ele. senão acabo com você “ O ribombar no horizonte tornou-se mais forte. John diminuiu a marcha e entrou na Av. Eu estava perdido em meus pensamentos. Dr. Gostaria de sair e correr. o Dr. confuso. O Dr. Mas. John olhou para cima e começou a dizer alguma coisa. A chuva bombardeava o carro sem compaixão. para de encher. “Sente-se. Nicky”. John guiava silenciosamente. Não acho que a cadeia vai lhe trazer nenhum benefício .” . ao nosso lado. Nicky”. “Não. Fechamos as portas do carro exatamente no instante em que a primeira pancada forte de chuva salpicava o pára-brisa. cara. “Eu não sei.

Não reagiu a nada que eu lhe disse. “Não. Nicky. Não preciso de você nem de ninguém . meu chapa.. Mas é a primeira vez que vejo alguém tão duro. “Onde?” perguntou. andando. Odeia a tudo e a todos. pode ir para o inferno. Ele estacionou o carro na esquina da Av Lafayette com Fort Greene. Não tem esperança A menos que mude. disse eu. meu chapa”. quando eu comecei a afastar-me do carro.. Eram sete horas da noite. doutorzinho. falei rindo. doutor. sendo levado . respondi. andando..” “Nicky”. “quero ser bem claro : você está condenado. disse ele. “Exatamente. Eu vivi num gueto. está numa estrada que o levará direto à cadeia. andando. “Boa. mas o som morreu na minha garganta. Eu me senti como uma folha no mar da humanidade. dando uma risada.” “Acha ? Vejo você lá então”. à cadeira elétrica. você não compreende o que eu quero dizer. Acho que nada pode ajudá-lo!” “Que é isso. pessoas de passos apressados. e tem medo de tudo que possa ameaçar a sua segurança. Tentei continuar rindo. frio e selvagem como você. acha que não há esperança?” gargalhei. perdendo-se em meio à noite escura. agora você está na minha”. “No inferno. Tenho trabalhado com ra- pazes como você durante anos. e as ruas estavam cheias de incontáveis rostos. Ele sacudiu a cabeça e arrancou. e ao inferno.” Abri a porta e saí: “Olhe. Fiquei parado na esquina com as mãos nos bolsos da capa.

. Seriamente. imundo. As palavras do psicólogo continuaram soando em minha mente como um disco enguiçado: “O seu único caminho é a cadeia. Sempre fora um rapaz asseado. As buzinas tocavam. mas o vento era frio. O trânsito na rua era intenso: um carro encostado no pára-choque do outro. Comecei a subir a rua em direção ao meu quarto na Fort Greene. não. perdido. pessoas gritavam.” Eu jamais havia olhado para mim mesmo. apitos silvavam. Aquele era o verdadeiro Brooklin. Alguns mendigos estavam embriagados.. o que é um pouco incomum para a maioria dos porto-riquenhos do meu bairro. Da vitrola automática no bar do Papa John ouvia- se o som gritante de um disco de música popular. O Nicky que eu via no espelho não era o verdadeiro Nicky. Todo mundo se movia. Estávamos em maio. Gostava de usar gravatas e camisas coloridas. Aquele o verdadeiro Nicky. O vento fustigou minhas pernas e esfriou- me por dentro. e o inferno. E o Nicky que eu estava vendo agora era sujo.. Olhei para os seus rostos inexpressivos e anônimos. a maioria dos sujeitos estava maconhada. porém. sujo por dentro. Ninguém sorria. Senti-me. antes.. Todos pareciam apressados. e usava montes de loção no rosto. a cadeira elétrica. Gostava de olhar para mim mesmo no espelho.para todas as direções pelas minhas próprias paixões insensatas. Não fumava muito. Sempre procurava conservar as calças bem passadas. Alguns estavam correndo. Na frente do bar. Olhei para o povo. eu me orgulhava da forma como me vestia.. para evitar o mau hálito produzido pelo cigarro.. Havia garrafas quebradas e latas de cerveja . Folhas de jornal levadas pelo vento agarravam-se à cerca de ferro e às grades de aço diante das lojas. Diferentemente de quase todos os rapazes da quadrilha. repentinamen- te.

uma grande onda de compaixão . Naquele momento um cachorrinho veio correndo rua abaixo em nossa direção. Reconheci-a como uma das prostitutas decadentes que viviam no meu quarteirão. Que ódio senti dele. aparecia nas beiradas. Ela virou-se e olhou para ele com olhos vazios e mortiços. quando os trens passavam matraqueando rumo às trevas desconhecidas.vazias ao longo da calçada. Fiquei imaginando com que força precisaria golpeá-la para que a lâmina atravessasse o casaco grosso e atingisse suas costas. Meu primeiro instinto foi correr para o meio da rua e pisá-lo. sem meias. envoltas em calças negras. pelos olhos semicerrados. Calçava sapatos de homem. Suas pernas magras. Ela era baixa. Ao fazê-lo. Odiei-a. pareciam palitos abaixo do casaco. vi seus olhos vazios observando um balão vermelho vivo. Seu cabelo amarelo-avermelhado. Repentinamente. e desviou-se dela. Ela simbolizava toda a sujeira e imundície da minha vida. Desta vez eu não estava brincando. bem apertado. mas pelas costas não se podia dizer a sua idade. Procurei a faca no bolso. voltando a pensar em mim mesmo. tingido repetidas vezes. inexpressivos. e comecei a ultrapassá-la. Pela sua aparência. O cheiro de comida sebosa descia até a rua. Era livre. Tinha um lenço preto enrolado na cabeça. percebi que estava “baratinada”. levado pelo vento para o meio da rua. Encontrei-me com um trapo de velha. seis números maior que o tamanho certo. Eu disse “velha”. deu-me uma sensação pegajosa de calor. Imaginar que o sangue gotejaria da barra do casaco e se empoçaria na rua. A calçada tremia debaixo dos meus pés. e eu me senti nauseado. mais baixinha do que eu. Um balão. Vestia uma velha jaqueta de lã de marinheiro. Soltei a faca.

Fiquei pensando: “Pode ser que ele consiga. Identifiquei-me com aquela estúpida bola flutuante. livre. O que acontecerá se ele chegar ao jardim? E depois? Não há nada para ele ali. foi por um objeto inanimado sendo levado pelo vento. Prendia a respiração cada vez que ele saltava no asfalto. Será atirado. esperando o estouro final e inevitável. Ao seu redor havia papéis e lixo também soprados pelo vento frio. Pode ser que chegue até o fim do quarteirão. Porém. embora soubesse que ele não duraria muito. Ou mesmo que consiga . contra a cerca enferrujada e explodirá. ultrapassei a mulher e apertei o passo para acompanhar o balão que voava e saltava pela rua suja. desbotadas. sendo levada pelas forças invisíveis do vento. É estranho que a primeira vez em que tive piedade em toda a minha vida. da prisão inescapável onde eu morava. Era muito delicado.me dominou. Muito limpo. Aquela praça mal-cheirosa e estúpida. livre. em vez de descer até o meio da rua e estourá-lo.” Eu estava quase rezando para que tal aconte- cesse. Surpreendi-me desejando que o balão não batesse em um pedaço de vidro e estourasse. estava uma bola vermelha. e seja levado pelo vento. E ali. tenro e puro demais para continuar a existir no meio daquele inferno. Na calçada viam-se garrafas de vinho quebradas e latas de cerveja amassadas. Afinal de contas. De ambos os lados da rua ficavam as paredes de concreto e pedras negras. pelo vento. para a praça. no meio de tudo aquilo. é possível que ele tenha chance de sobreviver . sem destino. a depressão voltou quando pensei na praça. O que havia naquele estúpido balão que me in- teressava? Apertei ainda mais o passo para acompanhá- lo. Assim. mas continuou seu trajeto saltitante pelo meio da rua. Parecia estranhamente deslocado naquele lugar imundo.

mas por dentro. Eu estava com medo. Estava na fossa.. Ouvi um pequeno estouro. É exatamente como o Dr. O carro sumiu — desceu a rua e virou a esquina. sem aviso prévio. Voltei e sentei-me na escada. quando o carro. Eu. um carro da po- lícia surgiu na esquina. seu destino é a cadeia.” Subitamente. ele estava em cima do balão. John disse. Mas eu quis correr atrás do carro e gritar: “Meganhas imundos. e pensei: “Não adianta. Outro metrô matraqueou debaixo da terra. “mesmo que alguém o pegue. Não há esperança para o Nicky. Antes que eu pudesse inter- romper minha cadeia de pensamentos. Estava com medo. sem compaixão. porém não havia sinal do balão. não de frio. e retumbou nas trevas. no meio da rua. e lá se vai. e atirados contra a cerca que rodeava a praça. Coloquei a cabeça entre as mãos. onde ficará aprisionado para o resto da vida.” Depois daquilo nada mais me importava.. não se importaria.passar por cima da cerca e entre no gramado. Seus restos se misturaram com o lixo e o cascalho. não enxergam?” Queria matá-los por me terem esmagado no meio da rua. pensei com meus botões. a cadeira elétrica e o inferno. Devolvi a presidência da quadrilha a Israel. Estava tremendo. “Ou então”. Nicky. esmagou-o contra o chão. não . O vento ainda assobiava e os papéis e o lixo continuaram sendo soprados rua abaixo. Nem percebeu o que acontecera. vai levá-lo para o seu imundo apartamento. Não há esperança para ele — nem para mim. Estou condenado. Não há esperança. e se identificaram com toda a sujeira de Brooklin. cairá em cima de algum espinho na grama ou nos arbustos. e mesmo que soubesse. A velha meretriz desaparecera nas trevas. Parei no meio-fio e olhei para a rua escura. Senti um desânimo mortal.

Acontecimentos extraordinários são raros em Brooklin. para ver o que estava acontecendo. atravessamos o jardim em direção à escola da Rua St. Não havia mais esperança. to- cando “Avante. Um homem se achava de pé sobre o hidrante. Lídia e eu estávamos sentados na escada defronte ao meu apartamento. Israel. . o que está acontecendo ?” gritei para eles. Qualquer coisa era melhor do que ficar ali sentado. Quando chegamos. respondeu um dos meninos. derrubando ao chão os meninos pequenos. ó Crentes” em um pistom. e recorrer à agulha. Abrimos ca- minho através do povo. uma grande multidão se for- mara em frente ao Posto Policial n°. O que o juiz dissera que me faltava? Amor! Mas onde poderia encontrar amor dentro da fossa? Capítulo 10 O ENCONTRO ERA UMA TARDE QUENTE de sexta-feira. narcóticos e sexo. estava outro homem. quando alguns dos garotos vieram correndo rua abaixo. vezes sem conta. em julho de 1958. “É um circo que está lá na escola”. Por isso. Avante. Eu podia muito bem fazer como todos os outros no gueto. Esta é uma das razões que temos para criar nossos próprios divertimentos. 67. Edward. Ele ficou repetindo a mesma música. “Ei.podia descer mais fundo. Ao seu lado. em forma de lutas. de pé na calçada. Estava cansado de fugir.

repentinamente me dominou. Mas agora. em casa. Das outras vezes eu pudera afastá-lo. presa a um mastro. pareciam não estar fazendo ruído algum. mais fraco e mais insig- nificante que eu já vira. O magrinho tinha uma banqueta de piano que trouxera da escola. Ele ficou ali. Subiu nela e abriu um livro preto. Fiquei amedrontado. Queria escapar — mas todo mundo estava escutando — esperando. drapejava uma bandeira americana. a mesma que costumava sentir quando. Quase cem rapazes e moças se haviam reunido. O velho medo. Começamos a gritar e a gracejar. mas tenha a vida eterna. A gritaria tornou-se maior. percebi que tudo silenciara. Era o medo que eu precisara combater no tribunal. que eu não sentira desde que me juntara aos Mau-Maus. Sobre eles. bloqueando a rua e a calçada. Tudo ficou estranhamente quieto. ele se agarrava ao meu coração e ao meu corpo. meu pai praticava a feitiçaria. ou fugir dele. até os carros na Av. e eu podia senti-lo tomar posse da minha própria alma. começou a ler no livro preto: “Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito para que todo o que nele crê não pereça. Park. De repente. o magricela levantou a cabeça e.” . diante do juiz. A multidão era compacta. De repente. a meio quarteirão dali. e a turba começou a gritar para ele. O indivíduo mais magro. Ele curvara a cabeça e segurara o livro preto. aberto. Era um silêncio esquisito. Uma sensação de medo percorreu o meu corpo. Desviei a atenção de Lídia e olhei para o homem de pé sobre o banquinho. era o medo que sentira na noite em que fora para casa. nu- ma voz tão fraca que mal se podia ouvir. com a cabeça curvada e vimos que estava com medo. O pistonista finalmente parou. depois da entrevista com o psicólogo do tribunal.

esperando alguma coisa acontecer. Nicky. Ficaram lá conversando. Ouvi um bulício atrás. não é?” Houve um movimento na multidão. Eles se cumprimentaram. Comecei a achar aquele homem perigoso. de forma alguma. e eu não queria ser diferente. Stage e os outros dois rapazes para a entrada da escola. ou coisa parecida. Ele estava falando de amor. e depois o pregador e o pistonista levaram Buck. Dei uma olhada ao meu redor. Eu não sabia o que era um milagre. Ele estava falando a respeito de pedirmos que acontecesse um milagre. e parecia que todo mundo estava sorrindo e abrindo caminho para Buck e Stage passarem. não terão medo de vir aqui e apertar a mão de um pregador magricela. Fiquei mais nervoso. Dirigiram-se para o pregador magrinho. o presidente dos Chaplains. que agora descera da banqueta e os esperava. Estendi a mão e belisquei a coxa de Lídia. nossa quadrilha irmã. Ele continuou: “Se vocês são tão grandes e tão fortes. Ela olhou para mim : “Escute o que ele diz. mas todo mundo estava escutando. lá de trás: “Ei Buck. ou feiticeiro. Eu conhecia o “amor”. o que é que há. Alguém gritou. Eu tremia de medo. eu . Ele estava invadindo o nosso mundo e eu não queria que nenhum estranho se intrometesse. Não estava gostando daquilo. na multidão. O homem tinha parado de falar e estava ali de pé.” Fechei a cara e voltei os olhos de novo para o magricela. e olhei: ali vinha Buck ao lado de Stage e mais dois membros daquela gang de rapazes de cor. está com medo?” Referiam-se a Buck. Disse a seguir que queria falar com os presidentes e vice-presidentes das quadrilhas. Era experiente nisso. Aquele sujeito devia ser uma espécie de padre.

” Vi que ele estava falando sério. Ele está com medo do pregador magrinho.me afastei de Lídia. Eu ainda estava com medo. Havia algo de sinistro naquilo tudo. eu vi todos eles se ajoelhando ali mesmo. vamos. Nicky. na rua.” Subitamente. pre- . De repente. Israel não respondeu. meu nome é Davi Wilkerson. Estava dizendo. Sou um pregador da Pensilvânia. algo perigoso e enganador. isto não é hora de piadas. “Vamos. e me aproximei de Israel.” Eu não tinha escolha: fui à frente e me coloquei diante dos dois homens. retraído. O homem magrinho veio até mim e estendeu a mão. Seu olhar penetrou profundamente no meu. veja o nosso líder. também?” Israel me cutucou e acenou com a cabeça em di- reção aos dois homens. alguém gritou para mim: “Ei. Israel deu a mão para eles. será que aqueles negrinhos vão deixar você pra trás? Está com medo de ir à frente. muito sério.. Nicky. você é crente agora?” Buck era um rapaz corpulento. ajoelhados ali na calçada. “Vamos. embora não entendesse o que lhe acontecera. “O que estão fazendo ?” perguntei-lhe. e me afastei. Nicky. Virou-se e olhou para mim de uma forma que eu nunca vira antes. voltaram para o meio da multidão. “Nicky..” Israel puxou-me pelo paletó. A turba começou a vaiar e a gritar: “Ei. Eu gritei para Buck: “Ei.80m de altura. tinha naquela época uns oitenta quilos e cerca de 1. e compreendi o que queria dizer. Quando se levantaram. com os olhos: “É melhor você cair fora. Buck. Tinha um ar estranho. Nicky.” Olhei bem para ele e disse: “Vá pro inferno. Seu rosto estava sério. Buck e Stage tinham tirado o chapéu e o seguravam. Fazia- me lembrar de algo de que eu tinha terror mortal.

” “Você não gosta de mim. buscando a proteção do povo. Rosnei algo para ele e pus-me a andar através da multidão. Nicky”. sorrindo. pregador.” Pensei: “Quando nossa própria mãe não ama a gente. disse eu.” E eu nunca tivera que enfrentar alguém que se . teria rido dele. Gosto de você. que também ama você. Estava amedrontado e não sabia como enfrentar a situação. Com muito medo de que aquele homem fosse me pôr numa jaula. e bem sabia disso. e por isso eu o odiava. quando ouvira minha mãe dizer com ódio: “Não gosto de você. a face sorridente daquele homem franzino falando de amor. prestes a ser enjaulado. mas é que não conseguia enfrentar uma situação como aquela. Ninguém jamais me amara. Eu estava fugindo. Na minha frente. “Este homem é comunista. retraindo-me. falou ele. gritei. Mas. mas sabia que era algo que todos deveriam combater. Sentia-me quase em pâ- nico.gador. turma”. Ele é comunista. Ele ia roubar- me os amigos.” Eu me senti como um animal apanhado numa armadilha. Eu sempre me orgulhara de não ter medo. “Saiam daqui. e lhe daria um soco nos dentes. teria enfrentado. “Se chegar perto de mim. Ninguém me amava.” O pregador continuava ali de pé. recordei me daquela ocasião. Ia transtornar tudo em minha vida. Atrás de mim estava a multidão. Mas ele veio dizendo: “Gosto de você. “mas eu penso diferente. eu te mato”. Enquanto estava ali de pé. O pavor me dominava. Se tivesse vindo rogando e suplicando. Se ele tivesse me atacado com uma faca. ninguém nos ama — nem pode amar. com a mão estendida. Nicky. estava com medo. E não é só isto: vim para lhe falar sobre Jesus. tantos anos antes.” Eu não sabia o que era um comunista.

o cigarro pendente dos lábios.. Tinha um sorriso a iluminar-lhe a face. com o terno bonito. bebi meia garrafa de vinho barato e fumei um maço de cigarros. levantei os olhos e vi o pregador magricela entrando. Descemos ao porão e liguei a vitrola ao máximo. A seguir. E com medo. quem sabe você deveria conversar com o pregador. Atravessei a multidão com a cabeça levantada e o peito estufado.” Antes que pudesse terminar. Eu me sentia miserável. Ele tentou forçar um sorriso. a ponto de sentir o estômago embrulhado. Ele parecia completamente deslocado. De repente. Davi atravessou a sala como se o lugar lhe pertencesse.” Por que um fato como aquele me deixara tão confuso? Dancei um pouco com Lídia. Fumei muito — acendendo um cigarro no toco do outro. Lídia percebeu que eu estava nervoso. conseguiu controlar-se e outra vez o medo brotou dentro de mim. dizendo: “Nicky. ali naquele porão sujo. camisa branca e gravata limpa. Edward. começamos a subir a Rua St. e levei a comigo.. Perguntou a um dos rapazes : “Onde está o Nicky ?” O rapaz apontou para o lugar onde eu me achava sentado com o rosto escondido nas mãos. dei-lhe um tapa na cara — com toda força. mas era evidente que eu o impressionara. Ser cristão pode não ser tão ruim como você pensa. porém. Cheguei até Lídia.” Olhei-a carrancudo: ela baixou a cabeça. Estendeu a mão outra vez. agarrei-a pelo braço. “Nicky. . houve uma agitação na porta.aproximasse de mim com afeto. afastando-nos da escola. Estava tentando abafar o som daquelas palavras: “Jesus ama você. eu apenas queria acertar a sua mão e. Fiz a única coisa que sabia fazer. para me vingar: cuspi nele. Alguns rapazes nos seguiram.

” “Saia daqui! Vá pro inferno!” gritei. tão desesperado. tentando concen- trar-me na ponta do meu taco. Saí porta afora. “Nicky. “se ele voltar aqui. ponho fogo nele. comecei uma partida. “Lembre-se. ainda sorrindo. olhando-o pelas costas. e ele orou : “Pai. “Convencido”.” Bati a porta atrás de mim e permaneci na calçada. Se desse demonstração das minhas verdadeiras emoções. A única maneira que conhecia para en- ganá-los era agir rudemente. furioso. disse eu. Nicky. “ele não vai me as- . e empurrei-o para a porta. depois. quero dizer só uma coisa: Jesus ama você. Porém tudo o que eu conseguia ouvir em minha mente era a voz do pregador magricela. e andei na direção oposta. maluco”. “Aquele macumbeiro estúpido. padre doido. enquanto ele se retirava apressado. Vou lhe dar vinte e quatro horas para deixar meu território. pensei. Nunca me sentira tão frustrado.” Era mais do que eu podia suportar. antes de sair. Peguei a garrafa de vinho vazia que estava no chão e atirei-a no assoalho espatifando-a. Não sabe o que fala. mesmo por um instante. e as palavras : “Jesus ama você. Parei no sa- lão de bilhar. pensei.” O Rev. Percebi que todos os outros rapazes sabiam que aquele sujeito conseguira me impressionar. cuspiram em Jesus também. te mato. Wilkerson retirou-se. Apesar de tudo. porque não sabem o que fazem.” “Caia fora. O meu orgulho borbulhava dentro de mim. perdoa-lhes. Voltei-me. lá no fundo eu sabia que havia algo de verdadeiro naquele homem estranho.” “Que me importa”. batendo os pés. sentia que perderia todo o respeito da quadrilha. “Nicky. Jesus ama você. tão insatisfeito.

Tremia ao atravessar o quarto e ao acender o pequeno quebra-luz sobre a mesa. Virava-me de um lado para outro. ao lado da cama. acendi a luz e olhei o relógio : cinco da madrugada. Disse aos rapazes que estava doente e arrastei-me de volta ao meu apartamento. novamente. Ouvia as palavras de Davi Wilkerson repetindo-se sem cessar: “Jesus ama você. Jesus ama você.. Deixei o maço de cigarros sobre a mesa. Fechei a porta e tranquei-a. as palavras ressoavam nos meus ouvidos. e deixei-o também na mesa. que bocejava e se espreguiçava. Peguei meu revólver no guarda-roupa. Não conseguia dormir. “Jesus ama você”. À distância. Novamente. ouviam-se os sons da grande cidade. Tinha medo de estar realmente doente.. desci os dois lances de escadas e abri a porta da frente do prédio de apartamentos. levantei-me. . Sentei-me nos degraus do prédio.” Fiz as duas jogadas seguintes e atirei o taco na mesa. Ninguém me mete medo. Eu me revirara na cama a noite inteira. deitei. “Jesus ama você. Senti o peso da mão de alguém em meu ombro. e fiquei olhando para o forro. Não conseguia repousar. Jesus ama você. Finalmente. Eram vinte e duas e trinta e eu sempre esperava até três ou quatro horas da madrugada para ir dormir. vesti-me e guardei o revólver no guarda-roupa.. Nunca me recolhera tão cedo. As horas passavam. Nicky. Peguei os cigarros. com a cabeça nas mãos. Chutei fora os sapatos e troquei de roupa. Levantei a cabeça e vi o pregador franzino de pé.” Levantei a mão.sustar. apaguei a luz e acendi um cigarro.” Ouvi um carro parar em frente ao apartamento e a porta bater. Levantei-me.. fumei um cigarro atrás do outro. O céu tinha começado a ficar cinzento. voltando à vida. coloquei duas balas no tambor. Jesus ama você.

estalando dois dedos. Você fala grosso. a verdade. Está com medo. não é ?” Fiquei de novo admirado. para fora do meu alcance. Mas.” Eu tentei intimidá-lo com meu aspecto belicoso. e o povo vai começar a dizer : Nicky Cruz — anjo — santo ?” Mas eu compreendi que ele estava decidido. não tenho medo de você. Mas Jesus ama você. Estava ainda sorrindo. E que era sincero. Jesus ama você. Como alguém podia saber que me sentia isolado? Esta era. elas desciam da calçada e andavam pelo meio da rua. Você se lembra do que lhe falei ontem à noite? Tive vontade de voltar e dizer-lhe outra vez : Nicky.” Algo deu um estalo em mim: como é que ele sabia que eu me sentia solitário? Eu não sabia do que ele falava quando mencionou pecado. tinha medo de admitir meus temores. Tentei parecer esperto : “Você acha que vai me transformar de um momento para outro?” disse eu. Nunca poderá escapar disto. “Nicky. Eu era o chefe da gang. “Você acha que vou atendê-lo. cada pedaço continuaria gritando: “Jesus ama você”. como ele sabia que eu me sentia solitário ? A quadrilha estava sempre ao meu lado.” Fiquei em pé de um salto e fiz um movimento para atingi-lo. Nicky. Davi tinha certamente percebido. e disse: “Você pode me matar. As pessoas tinham medo de mim — ao me verem. você não dormiu muito esta noite. Está cansado dos seus pecados. pois pulou para trás. mas por dentro é exatamente igual a todos nós. Mas. mas ele continuou falando: “Nicky. Sente-se solitário. Fiquei rosnando como um animal pronto para o bote. Você pode me cortar em mil pedaços e jogá-los na rua. E aquele pregadorzinho sabia disso. Ele olhou-me bem nos olhos.diante de mim. Nicky. e disse: “Oi. Como é que ele sabia que eu . porém. Tinha tido todas as garotas que desejara. vou pegar uma Bíblia e andar por aí pregando.

Nicky. Ele ama você. fechando a porta atrás de mim. pensei que ele devia ser algo semelhante à estrela matutina que ainda brilhava no céu que se coloria com as primeiras tintas do arrebol. o céu estava começando a ficar rosado. Esse dia estava mais perto do que eu pensava. Mais do que aqueles edifícios altíssimos. orando por você. Toda vez que nos encontrávamos. Levantei-me. bloqueava a minha visão do horizonte. de concreto — aquelas prisões de vidro e pedra. Nicky. Nos dias que se seguiram. sentado ali na cama. Olhe. Subi a escada. eu não pude escapar a um encontro com o homem que representava Deus. entrei no meu apartamento e sentei-me na cama. Nicky. assim como sentimos a brisa marítima quando ainda estamos a muitos quilômetros do mar. e vai correr para ele.. vi que o carro dele se fora. conversei com alguns dos rapazes daqui..não dormira ? “Eu também não dormi muito esta noite. Um dia. Porém. tinha de ouvir alguma coisa a . dei-lhe as costas e entrei no prédio. eu vim para dizer-lhe que alguém se importa com você: Jesus. No leste. Fiquei acordado a maior parte da noite.” Eu nem sabia quem era ele. olhando para a rua cheia de lixo e ouvindo o ruído dos caminhões que desciam rangendo e rugindo. Olhando pela janela. o Espírito de Deus começará a operar em você.. Algum dia. Todos têm medo de você. Antes disso. Pensei nas palavras dele: “Um dia você vai parar de fugir e correrá para ele. tive uma sensação de que havia. subitamente. e não demora muito. Eles me disseram que ninguém pode aproximar-se de você. mas. Um enorme edifício. Era Israel que me atormentava constantemente. do outro lado da rua.” Eu não disse nada. algo mais do que aquilo que eu conhecia.. na vida. Talvez. Nicky. você vai deixar de fugir.” Olhou-me então bem firme nos olhos : “Um dia.

olhando para o forro. Eu não estava gostando daquilo. “Diacho. Não suportava mais ouvir falar de Davi Wilkerson. só Israel ficara. Deitei-me no leito. Israel passou a noite comigo. e em vez disso. no escuro. exatamente na hora em que o furador de gelo . O meu grito acordou-o e ele se levantou rapida- mente. quase consumido de medo. e eu suspeitei que estivesse se encontrando com Davi Wilkerson às escondidas. levaram-me às raias do desespero. “Isto vai ensinar você a não me encher mais”.respeito de Deus. Mais tarde. quando todas as quadrilhas deviam convergir para o parque de Coney Island. Falou até tarde da noite. gritei. na cama ao lado. Quanto mais pensava nele. Israel. me amolando a respeito de Deus. Não agüentei mais. encontrei o cabo de madeira do furador de gelo que eu tinha escondido ali. mais furioso ficava. eu te mato.” Mas Israel continuou falando sobre ele. E até ele parecia estar se desviando para outra direção. quatro de julho. As suas constantes referências a Davi Wilkerson e o seu insistente desejo de me forçar a falar. Tateando sob o colchão. Tapei os ouvidos. Agora que Mannie se fora. que fosse conversar com Davi Wilkerson. Achava que aquele homem podia até mesmo destruir a nossa quadrilha. Não agüentava mais. procurando abafar a sua conversa incessante. Na véspera do dia da in- dependência dos Estados Unidos. ele caiu no sono. Tinha de fazer Israel calar. Eu tinha de parar com aquilo. Ouvia Israel ressonando profundamente. se você não pára de falar nesse negócio de Deus. enquanto arrancava o furador de gelo de sob o colchão e o lançava em direção às costas de Israel. procurando convencer-me a que não fosse a Coney Island na noite seguinte.

e tentei brandi-lo outra vez. enquanto gritava e lutava comigo. Eu sou seu amigo. mas depois atirou- o raivosamente para um lado. sobre a minha cabeça. Ele me deitou de costas e caiu sobre mim. confuso e exausto. ten- tando manter-me seguro. pára. Eu sou seu amigo. “O que é que há com você?” Israel gritava. Por um momento pensei que ia golpear-me na cabeça com o furador. Seu amigo. atrás dele. Agarrava-o com tanta força que os nós dos seus dedos surgiam brancos na penumbra. sen- tando-se sobre o meu peito. Ainda estava chorando quando me soltou e jogou-se na cama. Ele havia falado exa- tamente da maneira como Davi Wilkerson fizera.” Ele havia dito aquilo! Aquelas palavras caíram sobre mim como água gelada. Arranquei-o. Não me obrigue a machucá-lo. gritando: “Eu mandei você calar a boca e não falar mais sobre Deus. Eu gosto de você. O que há com você?” Repentinamente. segurando-me as mãos contra o assoalho. Sou eu. Estava trêmulo pela tensão muscular.penetrava profundamente no colchão. Lágrimas corriam pela sua face. O que havia de errado comigo ? Tentara matar o meu . caindo no chão. Relaxei a pressão sobre o furador de gelo e ele arrancou-o da minha mão. Eu rolei no chão. Eu nunca vira Israel chorar. Pára. “Nicky. Nicky. frustrado. Por favor. Por que você não se calou? Por quê? Por quê ?” Israel me agarrou e começamos a lutar corpo a corpo. enquanto eu o golpeava cega- mente. percebi que ele estava chorando. “Você está louco. “Por que você não parou?” continuei gritando. Por que chorava agora? Ficou com o furador de gelo suspenso sobre o meu rosto.

Por fim. separei completamente a cabeça do corpo. e gritei: “Agora. Abri a gaiola e peguei uma pomba. Aquele pássaro era livre. esticando-lhe o pescoço. como eu odiava os que eram livres. e fugiram na noite. quando os ossos do pescoço se separaram. Tão livres! Ó. Pássaros! Eu os odiava. dirigi-me para perto do tubo de ar. o corpo ainda trêmulo. Segurei a pomba bem apertada contra o meu peito nu. depois.” Atirando longe a cabeça da pomba. aquele passarinho danado estava morto. esmaguei contra a laje.” O pássaro deu um piado curto e abafado e senti seu corpo tremer. Davi Wilkerson era livre. “Veja. As outras esvoaçaram. e sentei-me. Israel aproximava-se da liberdade. mãe. Ninguém é livre. voltei . Mirei a cabeça ensangüentada na minha mão.melhor amigo ! Fugi do quarto e subi os degraus que levavam ao telhado do edifício. mais horrível do que antes. “Não estou com medo. Fiquei no telhado. debateram-se. dormindo e acordando inter- mitentemente. Ao amanhecer. pingou nos meus joelhos e correu pela laje de concreto. Deus. Lá fora estava escuro e abafado. Torci-lhe o pescoço para diante e para trás. Meus dedos se apertaram em torno da cabeça da pomba. mas eu estava preso na minha gaiola de ódios e temores. O sangue quente jorrou nas minhas mãos. com um forte repelão. o pesadelo voltava. até que senti a pele e os ossos se separarem. Eu estava sentindo isso. Cruzei a laje dirigindo-me para o lugar onde o velho Gonzales guardava as suas pombas em uma gaiola. Cada vez que dormia. eu não estou com medo.” Perdi o controle. nunca mais as- sombraria meus sonhos. você não está livre.

Israel dissera a Davi Wilkerson que levaria os Mau- Maus. “você não é covarde. ele viera conversar com Israel e convidar os Mau-Maus para a reunião. Acho que alguma coisa está errada comigo. cara. Durante a segunda semana de julho de 1958. somos iguais — malucos. Eu não queria nada com aquilo. “Ei. cara”. desculpe pelo que aconteceu ontem à noite”.” Passei o resto da tarde com ele. e senti-me tão sufocado que tinha dificuldade de falar. Nicholas.” Israel levantou-se e fingiu dar-me um soco no queixo. “Esqueça”. e teríamos assentos reservados nos primeiros bancos do auditório. Não costumo fazer isso. Finalmente encontrei-o sentado sozinho no porão onde realizávamos as nossas “festinhas”. chamou Israel quando voltei-me para sair. Todos os outros rapazes haviam ido a Coney Island.° 67. “Certo. Israel me procurou e falou a respeito da grande reunião que Davi Wilkerson iria realizar na Arena St. meu chapa. “Não. cara. “Ei. é?” Israel me atingira na única falha da minha ar- . Ondas de terror começaram a rolar sobre mim. respondeu Israel com um sorriso amarelo. Haveria um ônibus especial para nós. eu sinto mesmo. Era a primeira vez em três anos que eu não ia a Coney Island no dia quatro de julho. Israel se fora. De fato. Passei a maior parte do dia seguinte procurando- o. Meneei a cabeça e comecei a subir os degraus do prédio do meu apartamento. defronte ao Posto Policial n. comecei.para meu quarto. novamente.

Virei- me e subi os degraus em direção ao meu apartamento.. Não tinha nenhum.. por isso fumei um cigarro comum.” Israel sorriu e desceu rua abaixo. correr agora. Mas. Você vai ?” “Claro.. Quem sabe se a maconha ajudaria. Fechei a porta atrás de mim. “A que horas chega o ônibus?” perguntei. A única coisa que eu sabia era fugir — continuar fugindo. Só de pensar em sair dos acanhados limites do território com que estava familiarizado. Voltei-me para ele: “Nicky não tem medo de ninguém. e joguei-me de costas na cama.. em face do desafio de Israel. indo parar sobre os lençóis sujos da cama. Sentia-me doente. por que não quer ir?” Lembrei de Buck e Stage ajoelhados na calçada. nem mesmo de Deus. um terror desmedido nascia no meu coração..madura — meu único ponto fraco. daria a impressão de que estava com medo. Então. Procurei um “pacau”. “Sete da noite”.. nem de você. três andares acima.” Israel ficou ali com um pequeno sorriso brincando no seu rosto simpático. “Parece que você está com medo de alguma coisa. “A reunião começa às sete e trinta. gingando. respondeu Israel. Tinha medo de me encontrar em meio a uma . nem daquele pregadorzinho. Estava aterrorizado! O cigarro tremeu e as cinzas caíram na minha camisa. como a água correndo por uma comporta que transborda. Detestava a idéia de abandonar nossos domínios. Tinha certeza de que se aquilo podia acontecer a eles. Tinha medo de pegar aquele ônibus. Com medo mesmo. Os pensamentos inundaram minha mente. diante da escola.. meu chapa ! Você pensa que sou covarde ? Vamos levar a turma toda lá e pôr fogo naquela espelunca..

eu — nunca. Tinha verdadeiro horror de lágrimas. puxando a campainha. tentaram manter a ordem. bebendo vinho. boneca. que deviam manter a ordem. Quando chegamos à Arena. gritando palavrões. e gritando para o ônibus partir. em que lotamos um ônibus. abrimos a porta de emergência e alguns chegaram mesmo a pular pelas janelas. abrindo janelas. seria chamado de covarde por Israel e pelo resto da turma. Um porteiro . Mas nada conseguiram. fracasso. Eu nunca mais chorara depois dos oito anos de idade. O barulho no ônibus era ensurdecedor. estupidez e criancice.grande multidão. aflitos. No ônibus era diferente. Algo fizera Israel chorar. de ser engolido por ela e me tornar uma bolha — nada. A turma ficou se esmurrando. Eu não tinha escolha. Os monitores. De todos os lados ouviam-se gritos como : “Ei. usando blusas justas e “shorts”. teria de fazer algo para chamar a atenção sobre mim. na arena. Eu me senti melhor por estar no meio da minha gang. fumando. Havia várias mocinhas na frente do prédio. Acima de tudo. vamos fazer uma “festinha” divertida”. Mas. porém. se eu não fosse. aquele dia. Mais de cinqüenta Mau-Maus estavam comprimidos dentro dele. me dá um pedaço? “Venha comigo. Algumas das meninas juntaram-se a nós. quando entramos. Era a solidão do meu quarto que me deprimia. eu estava com medo do que vira diante da escola. Havia dois homens de terno e gravata. Mas. Fazia muito calor naquela noite de julho. Sabia que. Elas simbolizavam fraqueza. Israel e eu fomos à frente da tropa. mas finalmente desistiram e nos deixaram à vontade. Tinha medo de que alguém ou alguma coisa maior e mais poderosa do que eu me forçasse a cair de joelhos diante do povo e me fizesse chorar.

GGI. Os Mau-Maus. quando irrompemos no saguão. batendo forte no assoalho com nossas bengalas. desce aqui. Um jovem porto-riquenho le- vantou-se. lá dentro. Jesu-u-us ! Salve a minha alma grande e encardida. Havia Bishops. Vários rapazes e moças foram para perto do órgão e começaram a requebrar. deu um murro no peito com as duas mãos. Afinal de contas.tentou fazer-nos parar na porta interior. As meninas bamboleavam as cadeiras num ritmo duas vezes mais rápido do que a . Tem lugar reservado para nós. Des- filamos pelo corredor abaixo. “Ei.” Lá na frente. Podíamos ver que. gritando e assobiando para a multidão. isso não seria mau. e entramos empavonados na Arena. Bedford. pude ver membros de qua- drilhas rivais. Olhando para o povo. O próprio padre nos convidou. assobiando. A arena estava quase cheia e continha todos os ingredientes para um conflito em grande escala. Nenhum de nós tirou o chapéu preto.” Caiu de novo na cadeira entre vaias e gargalhadas estrondosas de todas as quadrilhas. gritando e batendo com as bengalas no chão. pessoas se voltavam e olhavam para nós. Sentamos e começamos a participar. cara. “Nós somos a gang. deixa a gente entrar!” disse Israel. O barulho era terrível. Estávamos vestidos com os nossos uniformes de Mau-Mau. bem como alguns Phantom Lords do parque da Av. Estes lugares são para vocês. uma jovem co- meçou a tocar o órgão. jogou a cabeça para trás e gritou : “Ó. um membro dos Chaplains nos viu. levantou-se e gritou : “Ei. cara.” Empurramos o indeciso e espantado porteiro para um lado. Em um dos lados da plataforma. Nicky.

Meu coração deu um salto e o terror voltou. que eu nunca tinha visto. uma jovem dirigiu-se ao centro do palco. estendeu os braços. De repente. era impossível ouvir a sua voz acima da balbúrdia em que estava a multidão. Davi! Estou aqui. num tom efeminado : “Mamãe!” A turba aumentou os aplausos e assobios. sapatos pontudos e chapéus de ponta. Começamos a aclamar e aplaudir e pedir outra canção. as mãos unidas diante de si.música. “Ei. “Vamos marcar um encontro. querida ?” Um rapaz magro. levantou-se. A moça começou a cantar. boneca. como a inundá-lo. Era como uma nuvem negra que penetrava em todos os recantos da minha personalidade. eu disse que viria. Aplausos e gritos de aprovação saudaram a sua proeza. E olhe quem está aqui”. Enquanto ela cantava. “Ei. requebra um pouco mais”. disse ele. ela saiu do palco e de repente o pregador magricela avançou para o microfone. com “shorts” bem curtos. As garotas. Colocou-se atrás do microfone. Veja. o que é que . pregador. apontando para mim. As coisas estavam começando a sair dos limites. na terceira fileira. Israel estava de pé. vários rapazes e garotas levantaram-se de seus lugares e começaram a girar e a dançar. e os rapazes gingavam ao redor delas. e os rapazes com jaquetas Mau Mau. Contudo. gritou alguém. Fiquei de pé e gritei: “Ei. Eu sabia que tinha de fazer algo ou iria arrebentar de medo. e disse. Eu não o vira desde aquele encontro de madru- gada. cobertos de fósforos e com uma estrela prateada na frente. esperando o barulho diminuir. Aumentou. A moça terminou o seu cântico e olhou nervosa- mente em direção aos bastidores. Mesmo de nossa po- sição privilegiada. várias semanas antes. fechou os olhos.

para tirarem a coleta. Wilkerson começou a falar: “Esta é a última noite de nossa campanha para a mocidade de Nova York. Eu esperarei até que tragam a coleta. você. sentindo-me melhor. Davi Wilkerson curvou-se e entregou a cada um de nós uma grande caixa de papelão. ainda era o líder deles e ainda riam das minhas piadas. Hoje vamos fazer uma coisa diferente. Eles ainda reconheciam a minha autoridade. Atrás de nós o auditório ficou em silêncio — silêncio mortal. Mas eu estava de pé em um segundo. Indiquei outros cinco. o Estripador.” Era bom demais para ser verdade. quero que vocês dêem a volta por aquela cortina e subam ao palco. ou o quê ?” Os Mau-Maus acompanharam em gargalhadas e eu me sentei de novo. mas se ele queria. “Agora”. Os membros de todas as quadrilhas presentes no auditório conheciam a nossa reputação. “quero que vocês se enfileirem aqui diante da plata- forma. servisse de ama- seca. você. Vou pedir aos meus amigos. Estivera esperando uma oportunidade para me mostrar. para chamar a atenção de todos sobre mim.” Nós seis marchamos para a frente e nos alinhamos defronte ao palco. nós realmente o faríamos. Ninguém du- .você vai fazer: converter-nos. Quando terminar.. Não podia imaginar que o pregador iria chamar-nos. O Rev. “Você. de maneira espetacular. Estava de novo no controle da situação. os Mau-Maus.” Irrompeu o pandemônio. inclusive Israel. disse. Chegara a hora. Apesar de sentir-me petrificado de terror e ter abdicado a presidência em favor de Israel. vamos. Pedir aos Mau-Maus para tirarem a coleta era como pedir que Jack. O pessoal começou a rir e a gritar. O órgão vai tocar e vou pedir ao povo para vir à frente e dar a sua oferta.

escrito : “SAÍDA” Podia ser visto por todos. Alguns dos membros das quadrilhas vieram à frente.” . Muitos dos adultos deram notas grandes e outros deram cheques. atrás da cortina. até perceberem que eu fa- lava sério. Você se esqueceu de pôr alguma coisa. até que todo o auditório estava contorcendo-se de rir do pobre pregador que fora logrado pelos Mau-Maus. atravessando a cortina que cobria a parede. um piscar de olhos em direção à saída. Eu podia dizê- lo com os olhos. começamos a ouvi- los aumentarem num crescendo. em letras vermelhas. Os ra- pazes olharam para mim com grande expectativa. acenei com a cabeça e nós marchamos pelo lado direito do auditório. mas tirar. Quando todos tinham vindo à frente. as gargalhadas começaram. e tão logo desaparecemos por detrás das cortinas.” Eles começavam a rir. o que significaria : “Vamos correr. Alguns não pretendiam por dinheiro na caixa. requebrando e dançando pelo corredor. o padre disse : dê! Você vai dar. Bem sobre as nossas cabeças estava um letreiro enorme. No começo eram apenas risinhos reprimidos. Reunimo-nos em círculo. Quando isto acontecia. Pouco a pouco. Vamos pegar este dinheiro e desaparecer daqui. Qualquer sujeito que não aproveitasse uma situação daquelas seria um bobo. Estavam esperando um sinal. espere um minuto. eu punha a mão no bolso como se fosse agarrar uma faca e dizia: “Ei. “Rapaz. ou preciso fazer com que os rapazes o tirem de você ?” Quase todos fizeram alguma contribuição. meu chapa. Se nós íamos receber a oferta.vidava do que iríamos fazer. Os corredores estavam cheios de gente que se dirigia à frente. eu resolvi que ela deveria ser bem boa. A coleta foi grande. es- perando que eu lhes dissesse o que fazer.

” Os rapazes quase não acreditavam. “Vamos levar este saque para o magricela. você! Que diacho pensa que está fazendo ? Devolva esse dinheiro.” “Quanto?” perguntei de novo.. “Ei. A confiança do pregador acendeu uma faísca em meu íntimo. incrédulos. ou o que ele esperava que eu fizesse. Todavia. meninão?” “Ora.” Eles olharam para mim. não fique nervoso. Nicky. à caixa. Um deles tirou uma nota de vinte da caixa e meteu-a no bolso da jaqueta. disse eu.” Meti a mão no bolso e num movimento rápido saquei a minha faca. isto vai ser seu cemitério.” Não houve mais discussão. quando começamos a subir os degraus por trás da plataforma. Nicky. Ele devolveu humil- demente. Eu podia fazer o que a turba esperava de mim. “Ei. se você não devolver a gaita. disse eu. Pertence ao padre. Minha mãe me deu para comprar uma calça. “Este di- nheiro é meu. “Quanto dinheiro você tem no bolso. O pregador me escolhera e demonstrara confiança na minha pessoa. Ninguém vai ficar sabendo. mas tinham de fazer o que eu lhes ordenava. Havia dois rapazes na minha frente. Veja que monte. a nota roubada. Em vez de piscar os olhos em direção da porta de saída. puxa vida”. Brandindo a lâmina aberta. sacudi a cabeça: “Não. algo dentro de mim estava me arrastando em outra direção. . Venham”. gaguejou ele. ainda não terminou”. Vamos! Há bastante para todos nós e para ele também.. disse: “Meu chapa. apontando a ponta brilhante da faca para o seu pomo de Adão. “Espera um minuto.

Amassou as notas e atirou-as na caixa. Falou durante cerca de quinze minutos. com incredulidade. Wilkerson começou a pregar. A sensação era deliciosa. Uma coisa honrada. Interiormente. Eu sabia que podia contar com você. Um grupo de rapazes começou a vaiar. como teriam feito. O punhal convenceu-o de que falava sério. “isto é seu.” Viramos e. Porém. pregador!” disse eu.” Estava nervoso. Quando estendi a ele o dinheiro. Marchamos em fila para o palco. Eu disse: “Na caixa. Mas algo . “Obrigado. tive a sensação agradável de saber que fizera uma coisa certa. “Aqui. “Bem. se você não obedecer. você está louco. Fiquei lembrando a sensação agradável que tivera quando lhe entregara o dinheiro. disse eu. Pensavam que nós iríamos enganar o pregador e estavam decepcionados porque não tínhamos fugido com o dinheiro. meninão: eu vou te pelar vivo agora mesmo. ali na frente da multidão. enfiou a mão no bolso e tirou duas notas de dez e uma de cinco. eu vou lhe dizer uma coisa. eu me reprovava por não ter caído fora com a grana. O auditório estava tão quieto que se poderia ouvir um alfinete cair. Davi Wilkerson pegou as caixas de nossas mãos e me olhou bem nos olhos. Todo mundo estava em silêncio. O Rev. Ele ficou vermelho. se eu perder este dinheiro. o auditório ficou silencioso outra vez. mas eu não ouvi palavra. Pela primeira vez em toda a minha vida.” Ele estava quase chorando. Nicky. “Agora vamos”. Na caixa !” Ele olhou para mim outra vez. voltamos para nossos lugares. em fila. ou o quê? Minha velha vai me pelar vivo.” “Meu chapa. agira corretamente porque quisera.

ou coisa parecida. Você quer que eu ame esses gringos? Está louco! Olhe aqui. Parando na frente. levantou-se derrubando cadeiras.. Sim. e.adquirira vida dentro de mim e eu sentia que aquilo crescia. com veneno na voz. Davi chegara a um ponto do sermão em que dizia que devemos amar uns aos outros. Israel dirigiu-se rapidamente a três dos rapazes . eu vou amá-los — com um pau de fogo. Era uma sensação de bondade — de nobreza — de justiça.” Um negrinho levantou-se. “Um negro me cortou com uma navalha. você quer expe- rimentar agora?” De uma hora para outra. é ?” um rapaz dentre os italianos levantou-se de um salto e abriu a camisa. Um rapaz negro.. os negros devem amar os brancos. Um fotógrafo desceu pelo corredor com a máquina fotográfica. virou-se e começou a tirar fotos. gritou: “Ei. dos Chaplains. Ele estava dizendo que os porto- riquenhos devem amar os italianos. guinéu. lá no fundo.” Levantou a camisa e mostrou uma grande cicatriz vermelha no seu lado. Senti que um tumulto generalizado estava se formando. Augie levantou-se por trás de mim : “Ei. se eu o encontrar outra vez. a sala estava carregada de ódio. e todos devemos amar-nos uns aos outros. Tentava abrir caminho para o lugar onde se achavam os Phantom Lords. “Há dois meses um daqueles guinéus sujos me deu um tiro. os italianos devem amar os negros. Sentimentos que eu jamais experimentara. Você acha que posso esquecer disto ? Eu vou matar aquele. você é maluco. pregador.” “Ah. Fui interrompido na minha sucessão de pensa- mentos por uma desordem atrás de mim. “Está vendo isto ?” Apontou uma cicatriz de faca que dava uma volta no seu ombro e descia pelo peito.

Nunca mais voltei. a baderna continuava. correndo atrás da máquina. Todos estávamos de pé. No momento em que estendeu uma das mãos para apanhá- la. O fotógrafo já estava de pé. mas antes que pudesse alcançá-la. corajoso. Quando eu era criança. outro rapaz chutou-a com força: ela deslizou pelo chão e foi espatifar-se na parede de concreto — quebrada e inútil. Quando o fotógrafo se curvou para apanhá-la. Ele estava de pé no palco. Ao meu redor. Um “quebra-pau” em grande escala estava se formando. A cabeça curvada. O padre mastigou algumas palavras e o povo respondeu cantando. O auditório fervia de ódio. O fotógrafo arrastou-se de gatinhas atrás dela. um rapaz do outro lado chutou-a corredor abaixo. Ali estava aquele homem franzino.que estavam na ponta da fileir : “Agarrem-no !” Eles levantaram-se e entraram em luta corpo-a-corpo com o fotógrafo. Algo apertou o meu coração. meus pais haviam me levado à igreja. . As mãos cruzadas diante do peito. no meio de todo aquele perigo. Eu podia ver seus lábios se movendo. De repente. Culpado. senti uma necessidade imperiosa de olhar para Davi Wilkerson. outro rapaz chutou a para longe dele. Eu procurava um meio de sair para o corredor. Sabia que orava. Um dos rapazes conseguiu arrancar-lhe a máquina das mãos e atirou-a no assoalho. Estava cheia de gente. do outro lado. Foi uma hora horrível. A única coisa que eu sabia acerca de Deus era o que aprendera ao observar aquele homem. como todos nós ? Senti-me envergonhado. De onde ele recebia esse poder? Por que não tinha medo. mas eu estava olhando para dentro. Nada parecia aplicar-se a mim. Pensei em minha única experiência anterior a respeito de Deus. muito calmo. até a frente do salão. Parei e olhei para mim mesmo. em direção à parede.

dos lados do auditório. Israel levantou-se e olhou para trás... pedindo silêncio. minhas ações ou palavras.. o ódio. Alguma coisa estava acontecendo comigo. maior era o sentimento de culpa e vergonha. e depois as galerias. A única coisa que conseguia era recordar. Vi as facadas. Davi Wilkerson falava outra vez.” Os Mau-Maus se sentaram. Israel continuou gri- tando. o pan- demônio continuava.. Estava completamente insensível ao que se passava ao meu redor. temendo que alguém pudesse olhar dentro deles e ver o que eu estava vendo.. em um rio turbulento. Não tinha forças para resistir. Eu me achava sob a influência de um poder um milhão de vezes mais forte do que qualquer droga. Era como se tivesse sido apanhado por uma correnteza selvagem. Ao meu lado. Disse algo sobre arrependimento de pecados. Quanto mais eu recordava... Era repulsivo. Só sabia que o medo desaparecera. Não era responsável por meus movimentos... como o vento que balança as copas das árvores. Caí sentado na minha cadeira. o desejo. Como um nevoeiro vindo do mar. Estava recordando. ouvi Israel assoando o nariz. Outra vez um silêncio mortal dominou o salão. da frente para o fundo. Vi as garotas. Tinha medo de abrir os olhos. Algo estava varrendo aquela arena lotada. quando corria como um animal selvagem libertado de uma jaula. Começou a gritar: “Ei! Calma! Vamos ouvir o que o pregador tem a dizer. . o sexo. Recordei os primeiros dias em Nova York.. a dor. Recordei a minha infância — o ódio que dedicava à minha mãe. o silêncio invadiu o auditório... Era quase insuportável. Ao redor. Não compreendia o que estava acontecendo dentro de mim. Atrás de mim. Até as cortinas. Foi como se estivesse em um cinema e as minhas ações fossem passando diante dos meus olhos. ouvi gente chorando. O barulho arrefeceu.

Ele terminou a reunião e convidou-nos para segui-lo para as salas do fundo. e . você virou crente ?” Levantei a cabeça. pode dizer adeus para isto aqui.começaram a mover-se e a farfalhar como se animadas por um sopro misterioso. o que é que há. olhando para Davi. Atrás de nós. Empurrei-a para longe. na hora em que uma das meninas dirigiu-se a nós. o lenço no rosto. Reunimo-nos de pé diante do palco. Atravessamos a porta e encontramo-nos em um vestíbulo que levava aos camarins. “Rapazes.” Exclamou então com autoridade : “Levantem se ! Os que desejam receber Jesus Cristo e ser transformados — levantem-se! Venham à frente!” Percebi que Israel ficou de pé. cara. Quem vai comigo ?” Eu estava de pé. Virei-me para a minha quadrilha e acenei com o braço : “Vamos. Davi Wilkerson dizia: “Ele está aqui! Ele está nesta sala. aquilo não me atraiu.” Compreendo agora que elas estavam com ciúme. cuspindo no chão.” Houve um movimento espontâneo: levantaram-se e foram à frente. lá em cima. cerca de trinta rapazes de outras quadrilhas seguiram o nosso exemplo. Sentiam que íamos repartir nosso amor com Deus e queriam que o déssemos só a elas. Ela levantou a blusa e mostrou-nos o seio nu. com a cabeça curvada. “Se você for lá. Israel ia à minha frente. Mais de vinte e cinco dos Mau-Maus atenderam ao apelo. onde receberíamos conselhos. meu bem. este é o momento exato. Vários membros da minha quadrilha estavam ali no vestíbulo. eu estou indo. naquela hora. Era tudo o que eu também conhecia do amor. Se querem que suas vidas sejam transformadas. Nicky. Ele veio especialmente para vocês. Mas. Era tudo o que sabiam acerca do amor. dando risadinhas: “Ei.

Mas uma força invisível me pressionou. Senti meus joelhos dobrarem. quando olhamos um para o outro. Era um sentimento estranho. senti a mão de Davi Wilkerson sobre a minha cabeça. mas rindo ao mesmo tempo. chorando alto.K. desde que chorara à vontade no porão da casa em Porto Rico. indescritível. eu estava chorando. O contato com o chão duro me trouxe de volta à realidade. As lágrimas correram mais livremente quando baixei a cabeça. en- tão. Era verão. Eu nunca me ajoe- lhara diante de ninguém. Foi como se uma gigantesca mão estivesse me empurrando para baixo.” Pensei que ele estava louco. exceto o fato de que eu desejava ser seguidor de Jesus Cristo — fosse ele quem fosse. até meus joelhos tocarem o solo.. e dali a pouco elas transbordaram pelos cantos dos olhos e desceram pelas minhas faces. mas cho- rava. Abri os olhos e pensei: “O que você está fazendo aqui?” Israel estava ao meu lado..disse: “Você me enoja. Israel. No meio de toda aquela tensão. Um homem falou a respeito da vida cristã. Davi Wilkerson entrou: “O. Era época dos “quebra-paus”. E. Lágrimas e risos. eu tive uma estranha sensação. “Ei. o . rapazes”. com lágrimas correndo pela face. Senti lágrimas encherem os meus olhos. Pela primeira vez. e aquilo me trazia felicidade.. disse. Eu me sentia feliz. lado a lado. e a vergonha. sobre o qual eu absolutamente não tinha controle. “ajoelhem aqui no chão. Israel e eu estávamos de joelhos. você está me enchendo com esse cho- ro. De repente. Eu estava chorando.. comecei a rir.. Mas... Ele orava por mim. Algo estava acontecendo em minha vida.” Israel olhou para cima e sorriu entre lágrimas.” Nada mais importava naquele momento. Não consegui permanecer em pé.

Estou cansado de fugir. Clame a ele.. e a todas as pessoas ao meu redor. Todos os meus temores tinham findado. Mas senti-me envolvido e levado para o céu. Toda a minha ansiedade terminara. vem para a minha vida. Fui literalmente batizado com amor. é nova criatura: as coisas antigas já passaram: eis que se fizeram novas.” Abri a boca. Ma- ravilhosa. transforma-me.) Era isto mesmo. Vem transformar minha vida. Maconha ! Sexo ! Sangue! Todas as emoções sá- dicas e imorais de um milhão de vidas juntas não podiam igualar-se ao que eu sentia. e a maravilhosa alegria da salvação misturaram-se em minha alma. “Continue. 5:17. disse ele. Eu fora renovado. Liberdade. Nicky”.. Davi Wilkerson mencionou alguns versículos da Escritura para nós: “Se alguém está em Cristo. Amava até a mim mesmo. em uma vida nova. Gozo. mas não era mais Nicky. Eu era Nicky. se você me ama. a Jesus Cristo. A velha vida havia desaparecido. Alívio. Todo o meu ódio se fora. Pela primeira vez na vida eu compreendia.arrependimento...” (II Cor. Era como se eu tivesse morrido para a velha vida — mas estava vivo. compreendi que a razão pela qual eu procedera de forma tão mesquinha em relação à minha pessoa. Eu parara de fugir. Eu amava a Deus. “Ó Deus. Felicidade. De repente. “Continue chorando. Depois que a crise emocional passou. era . Por favor. O ódio que sentira por mim mesmo transformara-se em amor. Derrame a sua alma diante de Deus. Alegria. mas as palavras que saíram não eram minhas.” Foi só isso. maravilhosa liberdade.

Não sentia mais necessidade de ser reconhecido como chefe de gang. Não tinha mais medo da noite. Eu o amava também. Eu o amava. “Ei. Tenho bíblias para todos os outros Maus também. pegou alguns novos testamentos. disse ele. como uma nova pessoa. Eram pouco mais de onze horas. Os “livros grandes” eram exatamente isso. Israel e eu nos abraçamos. Lágrimas nos corriam pelo rosto. Israel”. e começou a nos dar. “que tal ? Uma Bíblia de dez quilos!” Eu também achava. mas já estava de volta à sala. Tarde da noite. Eram bíblias enormes. Ali. “Nicky. subi os degraus para o meu quar- to. havia exemplares do livro preto. em caixas que estavam no chão. mas eu estava ansioso para voltar ao meu quarto. Não havia mais necessidade de correr. Mas. Ele era meu irmão. mas o peso dela era pequeno em comparação com o peso tirado do meu coração naquela noite. o que para mim era cedo.” Nós o seguimos até outra sala. Aquele pregador franzino e sorridente em quem eu cuspira semanas atrás — eu o amava. perguntei. Venham comigo. disse Israel rindo para mim. Ele se curvou. “quero dar uma Bíblia a vocês.porque eu realmente não amava a mim mesmo como Deus queria que amasse. de púlpito. quando o pecado fora removido e o amor inundara. “e aqueles livros grandes? Nós poderíamos ganhar dos grandes ? Queremos que todo mundo saiba que agora somos cristãos “ Davi pareceu surpreso. tamanho de bolso. As ruas não tinham mais atrativo para mim. . Davi Wilkerson saíra. “Menino”. os rapazes queriam aquelas e ele estava disposto a dá- las. Davi”. molhando a camisa um do outro.

Não podia crer nos meus olhos. pus a cabeça no travesseiro e dormi maravi- lhosamente durante nove horas. agora que é tão simpático. pensei. Pena que tenha de desistir de todas as garotas. Tirei as balas. ao que me lem- brava. coloquei-as de volta na caixinha e devolvi o revólver à prateleira.” Finalmente vieram as palavras.” Naquela noite.. lembrei. para dormir com o revólver no criado-mudo. Por força do hábito.” Estendi a mão para a prateleira e tirei o revólver. obrigado. Jesus me ama. Nenhum medo de ruídos fora do quarto. “Jesus. de repente... na noite anterior. tirei o blusão Mau-Mau e os sapatos pontudos e coloquei-os em uma sacola. Sorri para mim mesmo. Ajoelhei-me ao lado da cama. dirigi-me ao guarda-roupa. Os pesadelos tinham terminado. Podia rir. Mas estava feliz. “Não vou precisar mais disso. O peso dos temores se fora. diante da ironia de tudo aquilo. Ele me protegerá. bem cedo. que jamais vira. Nicky. pela primeira vez. Jesus. “Nunca mais”. De manhã. Havia uma luz radiosa em minha face. “Obrigado. Disse-lhes que trouxessem as armas e a .” não pude dizer mais nada. iria entregá-lo à polícia. Porém. comecei a por as balas no tambor.” Dei uma gargalhada. “Jesus. Nada de rolar na cama. Capítulo 11 SAINDO DO DESERTO NO DIA SEGUINTE. “Ei. Passei pelo espelho. veja como você é simpático. e joguei a cabeça para trás. eu já estava na rua procurando os rapazes que haviam ido à frente. Entrei....

pegando minha Bíblia grande. Deus não vai me castigar. Estou indo para a delegacia. No passado ela costumava atravessar a rua quando me via. Desta vez levantei meu grande livro preto que. Edward. enquanto seu rosto se abria em um sorriso. e marchamos pela Rua St. Ela balançou a cabeça. tinha as palavras “Bíblia Sagrada” na capa. “Onde você roubou essa Bíblia ?” A velha arrega- lou os olhos. até a Delegacia de Polícia na esquina da Rua Auburn. “Não roubei. Levantando os braços. Descendo pela Rua Fort Greene. e aproximei-me dela. pus o revólver no cinto e. “Não estou mentindo. Ganhei de um pregador. em direção à Praça Washington. gritou de novo: “Aleluia!” Sorri e passei por ela. quase dei de encontro com uma velha senhora italiana que já vira antes. “Não sabe que não deve mentir sobre as coisas sagradas ? Deus vai castigar você”. e se encontrassem comigo na Praça Washington. Cerca de vinte e cinco Mau-Maus estavam ali. Não pensamos no que a polícia poderia achar de nossa atitude. marchando pelo .” Dei uma risada.munição. em letras douradas. para entregar o meu revólver. Voltando ao meu quarto.” Abri a camisa e mostrei a arma debaixo do cinto. gritou ela. Vinte e cinco dos mais endurecidos membros de quadrilhas do Brooklin. Seus olhos moveram-se do revólver para a Bíblia : “Aleluia!”. Israel organizou-os. porque me perdoou. Íamos marchar para a delegacia de polícia. voltei à Praça Washington para encontrar os outros.

calma.” O delegado apareceu à porta : “O que é que esses rapazes estão fazendo aqui ?” perguntou ao sargento. “Que negócio é esse afinal?” Virou-se e gritou por trás do ombro: “Delegado.” Todos rimos.” “Entregar o quê?” disse o sargento. e agora queremos dar nossos revólveres para a polícia. depois que todos nós entregamos o coração a Cristo. “Ora. ou coisa parecida. Viemos entregar nossas armas. teriam erguido barricadas às portas e provavelmente atirado em nós ainda de longe. Davi Wilkerson. Não vamos mais ser membros de quadrilhas. disse Israel. somos crentes. e o delegado virou-se para o sar- gento: “Será verdade? Então é melhor mandar alguns guardas dar uma olhada lá fora. acho que é melhor o senhor vir aqui já.meio da rua. seu guarda”. Aquele pregador magrinho . o sargento levantou-se de um salto e procurou o revólver. Agora. “O pregador nos deu estas bíblias ontem à noite. “quem sabe vão servir para vocês atirarem nos moleques malvados . “O que é que há. rapazes ? O que estão querendo agora?” “Ei. “não que- remos encrenca.” Levantei a minha Bíblia.” “Que pregador ?” perguntou o delegado. carregando um arsenal de armas e mu- nições. Tenho agradecido a Deus muitas vezes pelo fato deles não nos terem visto antes de chegarmos à porta da delegacia. Quando entramos.” “É sim”. delegado olhe aqui. concordou um dos rapazes. Pode ser uma emboscada.” Dei um passo à frente: “Ei. “o que é que há?” Israel virou-se para o delegado : “Nós todos demos o coração para Deus. Se nos tivessem visto a um quarteirão de distância.

telefona pra ele. e ficaram ali com os olhos arregalados de incredulidade para o monte de pistolas. disse: “Pois bem suponhamos que agora você me conte a verdade sobre o que está acontecendo. conversando com os membros das quadrilhas. Se não acredita na gente.” “Claro. Tragam os revólveres e ponham no balcão.que tem estado por aqui. Ortez.” O sargento fez a ligação. disse Israel. Quando terminamos. vou metê-lo na cadeia tão depressa que ele vai ficar tonto. e entregou o fone para o delegado. senhor. “Ele está a caminho. o delegado só balançou a cabeça.” Os policiais não podiam crer no que viam.” . que crescia mais e mais. general”. “é para isso que estamos aqui. revólveres de fabricação caseira e espingardas pica-pau. Pode ser que estejamos metidos em grande encrenca. Teve uma grande reunião na Arena St. e eu não sei o que está acontecendo.” Depois. Se isto foi algo inventado por ele.” “Chame-o e diga-lhe para vir aqui o mais depressa possível. “Reverendo Wilkerson? É bom o senhor vir aqui agora mesmo. está hospedado em casa de uma tal Sra. e nós todos nos entregamos a Deus. A sala está cheia de Mau-Maus.” Houve uma pausa. e depois o delegado colocou o fone no gancho. virando-se para a turma. Deixem as balas também.” O delegado olhou para o sargento: “Você tem o telefone do pregador ?” “Sim. A essa altura mais quatro guardas tinham chegado. Mas antes de chegar quero suas armas — todas. Virando-se para Israel. disse : “Vamos. turma. Nicholas ontem à noite.

” O Rev. Disse-lhe que nós agora éramos crentes. Agora. estupefato. e o senhor sabe o que eles queriam ?” Davi sacudiu a cabeça em negativa. entra toda esta tropa aqui. Davi empurrou a porta. Wilkerson estava sem fala “Vocês pediram aos policiais o quê ?” gaguejou Abri minha Bíblia e mostrei-lhe o autógrafo do delegado na folha de rosto. e começaríamos uma vida diferente. sem ninguém esperar. Este pediu que todos os outros guardas entrassem na sala. “quero apertar a sua mão Davi Wilkerson olhou em torno de si com um ar surpreso. Depois perguntou ao delegado se ele podia autografar a sua Bíblia. Isto pareceu-nos uma grande idéia. . Naquele momento. Como é que o Senhor conseguiu isto ?” perguntou. e nós todos reunimo-nos em torno dele e dos guardas. diante dele. Israel relatou outra vez o que havia sucedido na Arena St. delegado. Wilkerson. Deu uma olhada rápida para nós e caminhou direto para o delegado. Nicholas. Estes rapazes declararam guerra contra nós. pedindo-lhes que autografassem nossas bíblias. mas estendeu a mão que o delegado apertou firmemente. “Reverendo”. disse ele. e só tem nos dado trabalho. glória a Deus!” disse Davi. “Veja. tendo uma pilha de armas amontoadas no balcão. Deus está operando aqui em Fort Greene!” Saímos todos para a rua e deixamos o homem sacudindo a cabeça. durante anos. Aglomeramo-nos ao redor do Rev. “Bem. “Queriam nosso autógrafo em suas bíblias.

na minha ignorância. Pensei na minha própria atitude para com Davi. veio ao meu apar- tamento. Com voz suave começou a contar os acontecimentos que motivaram a sua conversão.Israel falou : “Ei. feita por Israel. O Rev. Viu ? Israel. A menção do nome de Davi. Ele levantou-se detrás do púlpito. trou- xe-me de novo para a realidade. chamada Iglesia de Dios Juan 3:16. Israel estava lá. sentei-me na pri- meira fileira e ouvi Israel dar o dele. para dar testemunho. Era um culto de quarta- feira à noite. Arce pregou um sermão mais ou menos longo. Israel e eu estávamos na plataforma. Sou famoso. Foi a primeira vez que o ouvi falar em público. Sou eu. e o templo se encontrava lotado. Passamos muito tempo juntos. Arce queria que fôssemos à sua igreja no dia seguinte. Foi o primeiro culto verdadeiro que assisti em uma igreja. Embora tivéssemos passado juntos a maior parte das últimas semanas. e depois chamou-me para dar meu testemunho. Arce. Davi. orando em voz alta. quando ele tão prontamente atendera ao evangelho. o Rev. O meu nome está em toda parte. O Rev. passei a maior parte da noite lendo a Bíblia. naquela noite eu observei nele uma profundidade de sentimentos e de expressão que não vira antes. Cantamos durante quase uma hora.” Várias semanas depois. Depois que terminei de falar. pastor de uma igreja cujos cultos eram realizados em espanhol. xingara e desejara matá-lo. Suas palavras levaram-me de volta à Arena St. Tivera ódio dele — Deus sabe como eu o odiara! Como pudera estar tão errado ? Tudo o que ele queria era deixar Deus me amar através dele — mas. . Veja! Eu estou na Bíblia. lendo a Bíblia e andando pelo quarto. e ele prometeu passar em minha casa para apanhar-nos. eu cuspira nele. Nicholas. seu rosto simpático irradiava o amor de Cristo.

“Estava certo de que se Davi Wilkerson fosse um impostor. uma das maiores quadrilhas de rua da cidade de Nova York. e usava-as até que ficavam em farrapos e. depois roubava mais. Quando ele se encaminhou para Jo-Jo. Só indiquei-o. Não queria que ele soubesse que eu o identificara para Davi pois os Dragons eram grandes inimigos dos Mau-Maus. “Naquele dia ele usava um par de alpargatas ve- lhas e sujas. e grandes calças velhas amarfanhadas. em que ouvira Davi pregar. e eu mostrei-lhe Jo-Jo. que serviriam bem para um gorducho. Roubava roupas das caixas grandes que ficavam nas esquinas para as organizações beneficentes. Jo-Jo olhou bem para ele e depois cuspiu nos seus sapatos. dizia Israel. ele veio à minha casa e pediu-me para apresentá-lo a alguns dos líderes de outras gangs. Ele queria convidá-los para as reuniões que estava realizando na Arena St. relatando seus sentimentos depois daquela primeira reunião ao ar livre. De fato. “Eu ainda estava testando a sinceridade do Rev. “Disse a Davi que ia para casa. “Certa tarde. “Jo-Jo não tinha casa. Dormia na praça durante o verão. Nicholas. não possuía coisa alguma. com os dedões aparecendo. Jo-Jo era um rematado vagabundo. dormia no metrô. “Começamos a andar juntos pelo bairro de Brooklin. Depois. que era presidente dos Dragons de Coney Island. Jo-Jo não disse palavra: só cuspiu nos sapatos de Davi. seria desmascarado em seu encontro com Jo- . escondi-me por trás da esca- daria de um prédio de apartamentos. Esse é o maior sinal de desprezo que se pode de- monstrar a um indivíduo. virou-se de costas para ele e sentou-se nos degraus da escada. para ouvir. e quando chovia ou fazia frio. Wilkerson”.

Se ele não fosse sincero. calce. Mais tarde ele me disse que foi por ter lembrado de algo que um certo General Booth dissera: “É impossível aquecer o coração dos homens com o amor de Deus. Pra fim de conversa.” “Mas Davi respondeu-lhe à queima-roupa: “Meu chapa”. eu conheço o seu tipo. e calças novas — e nós não temos nada. “Ele levantou os olhos para Davi e disse: “Vá embora. é melhor você dar no pé antes que alguém enfie uma faca na sua barriga.” “Jo-Jo respondeu : “Mas eu nunca tive um sapato novo. “você estava choramingando por causa de sapatos.” “Jo-Jo calçou assim o sapato de Davi. Agora.” “Davi apenas continuou dizendo: “Calce. dizendo que Deus transforma as pessoas. “Jo-Jo olhou espantado para Davi e disse: “Que está tentando provar. e neca de dinheiro. Jo-Jo era esperto. Você chega a Nova York. Você é um estranho aqui. ou o quê ? Eu não vou calçar seus sapatos fedidos. ou pare de chorar. homem rico.Jo. quando seus pés estão duros de frios. Tem sapatos novos. bem en- graxados. mas de qualquer forma Davi disse que isso passara pela sua mente. cara. porque tem dez crianças lá no nosso buraco. Minha velha me chutou para fora de casa.” “Eu percebi que alguma coisa estava apertando o coração de Davi. Te manca. falando bonito.” Pode ser que eu não esteja citando textualmente suas palavras. Pode ser que ele soubesse que Jo-Jo falava a verdade. Você está aqui visitando os guetos como aqueles caras ricos que levam seus ônibus pelo bairro de Bowery. e descobriria logo um impostor. Jo-Jo lhe daria uma facada. disse ele. Em segui- . pregador ? que tem coração. E sabem o que ele fez ? Sentou- se naqueles degraus — bem ali na rua — tirou os sapatos e entregou a Jo-Jo.

ao meu lado. e outros correndo aterrorizados para dentro do templo. ainda emocionado com o trabalho e com o poder da presença de Deus dentro de mim. enquanto todo mundo ria e caçoava dele. Mas aquele homem não era um impostor: ele vivia o que pregava. Ouvi um grito de mulher. Percebi que não poderia resistir à espécie de poder que podia levar um homem a um ato como aquele em favor de alguém como Jo-Jo. Continuei escondido por trás dos degraus. mas senti que precisava de tempo para pensar no assunto. enquanto os carros arrancavam velozmente. Olhando naquela direção. Havia gente caindo em frente à igreja. Naquele mo- mento.da. enquanto balas ricocheteavam na parede de pedra. em frente ao templo. Quando a confusão se dissipou.” Depois do culto.” Israel parou um pouco. Continuava recebendo cumprimentos ao sair pela porta central. O pessoal ainda conversava no vestíbulo e na calçada. dois carros do outro lado da rua ligaram os motores. este começou a afastar-se em direção ao carro. Eles começaram a atirar selvagemente em minha direção. um senhor de idade encaminhou-se para mim e rodeou-me os ombros com o braço : “Filho. enquanto Jo- Jo corria atrás de Davi rua abaixo. Fiquei pensando que talvez ele quisesse que eu fosse pregador. e reconheci alguns dos Bishops. Abaixei-me por trás de uma porta. reprimindo as lágrimas. “Nada do que Davi dissera até então me impressionara. não fique desanimado. vi canos de espingarda saindo pelas janelas. O próprio . procurando escapar à fuzilaria. atravessei vagarosamente a multidão. enquanto falara. e teve de andar assim dois quarteirões para chegar ao carro. O pobre Davi estava só de meia. Os carros desapareceram na noite. Seria aquela a sua forma de comunicar-se comigo? Não encontrei a resposta. Foi aí que tive a certeza de que ele era sincero.

Estava lutando para me libertar quando vi a faca . Por que não volta ?” De repente. Nicky. onde você tem estado todo esse tempo ? Disseram que saiu da quadrilha. depois do seu batismo. Arce levara Israel de carro para casa. Precisava pensar. que estivera trabalhando com Davi Wilkerson.” Deu-me umas palmadinhas no ombro e desapareceu no meio da multidão. Ao atravessar a Av. rapaz. contudo queria fazer grandes coisas para Deus. das roupas velhas. e reconheci Joe. um Apache a quem havíamos raptado e queimado. Mas não estava muito certo de ser uma honra o fato de Satanás ter mandado os Bishops para me matar. e me disse que se precisasse de dinheiro. O ambiente parecia ter-se acalmado e saí de novo.Jesus foi tentado no deserto. É verdade ?” Disse-lhe que sim. iniciando o longo caminho de volta para casa. Era um homem amável. e recusei o convite. vi Loca diante do seu apartamento. Fiquei envergonhado dos meus maus modos. Pensei que ele devia ser muito rico. gelado de terror. gentil. convidara-me para ir à sua casa passar a noite com ele. se perseverar. Agradeci e comecei a voltar para o apartamento. alguém me abraçou por trás. Já não é a mesma coisa. Ele me deu uma nota de um dólar. Eu prevejo que fará grandes coisas para Deus. O Rev. vocês querem mesmo que eu volte. mas eu quis ir a pé. Virei a cabeça de- pressa. Eu ri: “Puxa. bastava avisá-lo. você está fazendo falta. Vanderbilt. Deve sentir-se honrado pelo fato de Satanás ter marcado você para ser perseguido. O rosto de Loca transfigurou-se. Delgado. hein?” pensando que fosse um dos nossos. Eu não sabia o que era “perseverar”. sem você lá. “Puxa. “Ei. O Sr. bem vestido.

em direção ao coração. cochichei. Podia cegá-lo. Agora podíamos lutar de igual para igual. eu sabia qual seria o seu próximo movimento. Vou fazer um favor para o mundo e matar um covarde que virou honesto. ficando escondido detrás de uma igreja. “Pensa que pode fugir. mas está muito enganado. “Desta vez eu te mato”. enquanto brandia a lâmina sobre o meu ombro. Será a última. esgrimindo no ar com a vara de metal. entre o anular e o mínimo.” Os olhos de Joe estavam apertados. enquanto a direita. Segurei a antena com a mão esquerda. cheios de . e ele me golpeou de novo. e paralisá-lo ou matá-lo com um segundo golpe.” Gritei para Loca: “Saia daqui! Este cara está louco!” Ele avançou para mim e deu uma facada em di- reção ao meu estômago. daria um passo atrás. meu velho. menino”. Quando ele arremetesse contra mim com a faca. “tente mais uma vez. uivou. “Vamos. girando o corpo e o braço e atingindo-o nos olhos. conservava à minha frente para me resguardar da faca. atravessando-me a mão e esfolando um pouco o peito. Estava agora de volta ao meu elemento. Senti-me confiante de que poderia matá-lo.na mão dele. Só uma vez. Nas minhas mãos. mas pulei para trás e arranquei a antena de um carro que estava estacionado ali. Joe me segurou por trás passando a mão esquerda em volta do meu pescoço. que pingava sangue do ferimento que ele me fizera. Por experiência. Rodeei o rapaz. a antena era uma arma tão mortífera quanto a peixeira dele. fazendo com que perdesse o equilíbrio. Girei sobre mim mesmo. Levantei a mão direita para frustrar o golpe daquela lâmina de vinte e quatro centímetros e ela me feriu na mão.

e fui embora.” A voz era audível. Ele avançou para mim. Ela quis me levar para casa. Eu sabia que teria de matá-lo. Vi-me no seu lugar. mas eu disse que era capaz de ir sozinho. eu repeti. orei por mim: “Deus. e eu dei um passo atrás. cuspindo palavrões. “Atira nele. Levantei a antena como um chicote. Pela primeira vez na vida. e a faca sibilou. ali no meio da noite. ajuda-me. senti como se a mão de Deus tivesse agarrado o meu braço. Ficou logo empapado de sangue e Loca subiu correndo ao seu quarto. mas em vez de atirar o caco de garrafa no Apache que fugia. Agora! Ele perdera o equilíbrio. Olhei para aquele Apache não como um inimigo.ódio. Senti pena dele. .” O Apache recuperou o equilíbrio e olhou para mim: “O que você disse ?” “Deus. quase tocando o meu estômago. e muito real.” O rapaz começou a correr. Repentinamente. Depois. para bater-lhe no rosto desprotegido. Nicky. atira nele !” Levantei o braço. na rua escura. ajuda-me”. atirei-o contra a parede do prédio. Loca correu. Orei. e trouxe uma toalha de banho para absorver o sangue. algumas semanas atrás. com o ódio gravado em seu rosto. Nicky. peguei um lenço e enrolei-o na mão que sangrava muito. “Dê a outra face. mas como uma pessoa. porque nada mais o faria parar. enfiando o gargalo quebrado de uma garrafa em minha mão : “Corta a cara dele. Ele parou e arregalou os olhos. procurando matar um inimigo.

eu esperava a luz do semáforo acender. A mãe de Israel abriu e me convidou para entrar. Tarzan concordou em pegar minha carteira onde estava o dólar que eu ganhara. para chegar ao Hospital Cumberland. mas senti a cabeça tonta e resolvi atravessar a rua antes de desmaiar. e um dos Mau-Maus veio correndo pela rua para me ajudar. Israel e Tarzan me ajudaram a descer as escadas.” Tarzan foi comigo até o apartamento de Israel. Achei melhor ir antes que me esvaísse em sangue e morresse. e ir contar ao meu irmão Frank o que me acontecera. Israel esperou o médico examinar minha mão. “Rapaz. “Que é isto.” “Puxa ! nunca pensei que isto pudesse te acon- tecer. Precisava atravessar a Praça Washington e a Praça Fulton. Já estava ficando fraco devido à perda de sangue. Nicky. por favor. está querendo se matar?” Ele pensava que eu estava louco. até o quarto dele. e me levaram ao pronto- socorro do hospital vizinho. Ajude-me a chegar à casa de Israel.” A mãe de Israel nos interrompeu e insistiu para que eu fosse para o hospital. Ela percebeu que eu estava ferido. porque entregara o coração a Jesus. Tinha medo de ir ao hospital. . Então ouvi um grito. Cambaleei pelo meio do tráfego. mas sabia que precisava de ajuda. o que aconteceu com você?” “Fui esfaqueado por um Apache. Israel saiu do outro quarto. “Rapaz. Era Tarzan. Alguns tendões tinham sido cortados. Muito ferido. e eu ia precisar de anestesia. eu estou ferido. um rapagão que usava um enorme chapéu mexicano. Olhou para mim e começou a rir. Era meia-noite quando bati à porta. e nós subimos os cinco lances de escadas. perto do Corpo de Bombeiros. De pé na esquina de De Kalb.

mas deixei-o nas mãos de Deus. Aqueles caras vão entrar no hospital e matá-lo. nunca mais sairá. Eu ainda estava meio tonto devido à anestesia. Meu chapa.. cara. pois ainda estava fraco com a perda de sangue e a cirurgia. Estamos esperando você. desde a ponta dos dedos até o cotovelo. Esse negócio de Jesus não dá pé. A velha expressão voltara ao rosto de Israel. se você não voltar para a quadrilha. careca. bem cedo. primeiro eles quase nos furam como peneiras diante da igreja. Vamos fazer como nos velhos tempos. Caí.. porém.. Lembre-se do que Davi falou sobre lançar a mão ao arado. fique comigo e esqueça a briga. No dia seguinte.” Eu queria dizer-lhe que não precisávamos mais de vingança. “Ei..” . mas pude perceber que estava diferente. o que é que há ?” murmurei. Ela falou: “Nicky. Deus cuidaria disso. você não pode fazer isso. Vou pegá-lo para você. Finalmente consegui abrir os olhos e vi que ele tinha rapado completamente a cabeça. nós vamos acertar o cara que fez isto.” Lutei para ficar sentado. “Não se preocupe. Mas a porta fechou se vagarosamente atrás de mim. e levantei-me na cama. O meu braço inteiro estava em um só molde de gesso. Israel tem razão. “Ei. Loreta era uma bela italianinha de cabelos negros com quem tivera vários encontros. de costas na cama. Se você voltar às ruas. meu chapa. e agora esfaqueiam você. Você fica bom e volta para os Mau-Maus. Aquele cara não podia fazer isso.” Eu estava recuperando os sentidos.Israel estava sério quando me levaram na maca. Israel estava no meu quarto de hospital. “Caramba. Eu poderia tê-lo acertado sozinho. e notei que Lídia e Loreta tinham entrado com Israel.

e vamos pegar aquele cara que fez isto com você. Recorde dos bons tempos. “Estou envergonhada. quando Lídia curvou- se e me beijou. Volte para a gang. Nicky. preciso te contar uma coisa. quase pude sentir a pre- sença de Satanás no quarto. e lágrimas vieram aos seus olhos. Vou falar com alguns dos rapazes.” Eu não disse nada. Loreta e eu achamos que você deve voltar para a quadrilha.” Dei-lhe as costas. “Nicky. Ela me beijou outra vez e saiu depressa. por favor. Se falasse a verdade. Nicky. Senti lágrimas em meu rosto. não creio em você. Já faz dois anos que sou crente. “você é um bobo. enquanto ela torcia o lençol com as mãos.” Israel aproximou-se da cama. Estava me preparando através da minha decepção com respeito a Lídia. Ouvi a porta fechar-se atrás deles.” Lídia mordeu o lábio inferior. Você está apenas confuso. Estou envergonhada. Eles não se envergonham de Jesus. Lembre-se da satisfação de vingar-se. “É isso que você acha também ?” Ela baixou a cabeça. você não me quereria mais. Perdoe-me. Eu tinha medo de lhe falar de Cristo. Vai sentir-se melhor mais tarde. cochichou ele. Devia ter falado há muito tempo. Ele falara comigo por intermédio de Israel e Loreta. Loreta chegou-se e beijou me na face. “Sinto muito. Lembre como era . Virei e olhei para Lídia. Nicky. “Você quer me dizer que acreditava em Cristo todo este tempo e não me contou? Como é que pode ser crente e fazer tudo que tem feito? Os cristãos não agem assim. Mas pense nisso e não se preocupe. Depois que eles saíram.” “O quê ?” encarei-a incrédulo. Eles têm razão. Não sei o que Lídia acha. “Nicky”. “Vamos. Não.

jogando- a no chão: “Vá para o inferno !” Quis dizer mais alguma coisa. correndo de um Apache e deixando-o escapar. Enquanto ele orava. “Se virar para cá. ao apro- ximar-se do meu leito. chame um ministro Chame o Rev. Naquela noite. ajoelhei-me ao lado do leito do hospital. Você traiu sua quadrilha. Cruz?” Era a enfermeira falando. solucei. mas pensei que ele . e bateu de leve no meu ombro: “Vou chamá-lo agora mesmo. Em pouco tempo o Rev. depois que a enfermeira me ajudou a trocar o paletó do pijama. Delgado para me visitar.” Silenciosamente. Arce chegou e orou em meu favor. eu me senti libertado do espírito que se apossara de mim. “Desculpe”. e bati na bandeja. Disse-me que pediria ao Sr. “Por favor. Arce. não fui nem capaz de lembrá-los.” Deitei a cabeça no travesseiro. De tarde eles haviam colocado um outro paciente na cama ao lado da minha. Nicholas. Nicky.” Enquanto me tentava. Mulherzinha. ainda soluçando. Santinho Medroso. porém não saiu nada. e de repente lágrimas começaram a correr dos meus olhos. na manhã seguinte. eu arrumarei a sua bandeja. Deite e descanse. mas ainda não é tarde demais para voltar. Covarde! O grande e bravo Nicky Cruz chorando na Arena St. a enfermeira entrou com a bandeja do jantar. Naquele instante. descendo ao longo do rosto como dois regatos.doce estar nos braços de uma garota bonita.” Dei um pulo na cama. a enfermeira apanhou os pratos do chão.” “Sr. Ouvi-o ainda a segredar : “Ontem à noite foi a primeira vez na vida em que você não revidou. Fiquei ali sentado com a boca aberta. e ele providenciaria para que eu tivesse os cuidados necessários. Todos os antigos palavrões tinham desaparecido.

estava muito pálido e a sua voz era um murmúrio. “Pensei que o senhor estivesse dormindo.” O ancião estendeu o braço e agarrou a minha mão sã. “muito obrigado pela sua oração. Na manhã seguinte. Eu lhe disse que iria onde quer que desejasse e faria o que ele quisesse. fazendo me sinal para chegar perto dele. quando o homem da cama ao lado falou baixinho. Pedi a Deus que perdoasse o rapaz que havia me esfaqueado. con- fessei. e por ter dado aquele tapa na bandeja. O aperto era muito fraco. Lembrei a Deus que eu não estava com medo de morrer. estava me vestindo para deixar o hospital. “Muito obrigado”. Fiquei de joelhos muito tempo. cochichou ele. e que o protegesse de todo mal. Fiquei um pouco envergonhado e dei um sorriso tolo. disse ele. e a única maneira de fazê-lo era falando com ele — em voz alta. Comecei a orar em voz alta. Tremia. com seus dedos frios e úmidos. Ninguém me dissera que se pode orar “em pensamento”. Sabia apenas que tinha de orar a Deus. o único jeito que eu sabia. Era um velho que tinha um tubo na garganta. Pedi a Deus que me perdoasse pela maneira como eu tratara Lídia. “Eu estava acordado ontem à noite”. Eu estava orando por mim mesmo. até que ele pudesse aceitar a Jesus.” “Mas eu não estava orando pelo senhor”. derrubando-a das mãos da enfermeira. antes de jogar-me na cama e cair no sono.estivesse dormindo. mas pude sentir que ele estava apertando com energia. Comecei assim a orar. . mas pedi que me deixasse viver o bastante para um dia falar a mamãe e a papai a respeito de Jesus.

Ele quer que eu leve você e Israel para lá. e levou-me para o seu carro. Pela primeira vez em muitos. Delgado disse que Israel concordara em ir conosco. Eu disse: “Deus o abençoe.” Parecia uma ironia o fato de eu estar indo para Elmira para avistar-me com Davi. Israel não . mas por uma razão diferente. para que ele não voltasse para a quadrilha.” “Vou encontrar-me com ele hoje à noite. levantamo-nos bem cedo e atravessamos a cidade de carro. E eu também orei. “Telefonei para Davi Wilkerson ontem à noite”. e deveria encontrar-se conosco na esquina das ruas Myrtle e De Kalb às sete da manhã. em minha vida. disse ele. Mas sentia de forma confortadora e forte que o Espírito de Deus operara por meu intermédio. Na manhã seguinte. Pagou a minha conta. e saí. Eu nunca tentara ajudar ninguém. você está enganado. Vamos sair amanhã bem cedo para Elmira. em direção ao Brooklin e ao Conjunto Habitacional Fort Greene. O Sr. O Sr. amanhã “ “Davi mencionou isso a última vez em que nos encontramos”. “Está em Elmira realizando uma série de reuniões.” Grandes lágrimas rolaram pelas suas faces. Quando ali chegamos. mas resolvesse ir comigo para Elmira. Delgado estava me esperando no saguão. muitos anos. eu orei. disse eu. meu amigo”. E nem sabia como o fizera. Mas hoje quero que você fique na minha casa. Era para lá que a polícia queria me mandar. onde estará em segurança. não. enquanto ele falava. “Oh. Acho que ele não vai. Muito obrigado. Você estava orando por mim. “mas Israel voltou para a quadrilha. Estava satisfeito. vin- cadas de profundas rugas. Eu também orei. naquele dia. Passei o resto do dia orando por Israel. Eu também desejo fazer o que Jesus quer que eu faça.

mas são seis horas de viagem até Elmira. “eu sei que você gosta de Israel e está com medo que ele volte para a quadrilha. e Davi está nos esperando às duas da tarde. Nicky”. Recostei-me no banco e suspirei. “Será que não podemos dar só mais uma volta no quarteirão?” disse eu. Demos a volta no quarteirão. Vamos dar mais uma volta no quarteirão. defronte ao 67. O peso fora retirado. Mas ele precisa aprender a arranjar-se sozinho.. e contar a minha história . “pode ser que o encontremos desta vez. tive uma sensação de alívio. envolvendo condenação e desespero. Comecei a sentir um frio na boca do estômago. Mas no meu coração havia uma profunda tristeza porque estávamos deixando Israel para trás. Edward. O Sr. e não está aqui. não obstante.° Distrito. e depois fomos para o Bronx. passamos pelo seu apartamento. em relação ao futuro dele.? “Olhe. Naquela noite Davi apresentou-me ao povo de Elmira e dei o meu testemunho. para ver se podíamos encontrá- lo. Davi pedira ao Sr.” Fizemos a volta do quarteirão mais uma vez. Delgado ficou olhando para o relógio.estava. mas não vimos sinal dele. mas. e finalmente disse que tínhamos de ir embora. O Sr. mas não o vimos. Davi me pedira para começar desde o princípio. na Rua St. Eu não sabia naquela época. e eu tinha um pressentimento de algo ameaçador. seis anos se passariam antes que nos encontrássemos de novo. para pegar Jeff Morales. Passamos lá. respondeu. Quando saímos da cidade. Delgado que o levasse para servir-me de intérprete quando falasse na igreja. Jeff era um rapaz porto-riquenho que queria entrar para o ministério da Palavra de Deus. Disse que nos encontraria às sete horas.. Delgado disse que tínhamos pressa.

Nicky. Escola! Há três anos que eu não ia à escola.exatamente como acontecera. Ele me perguntou se eu estava mesmo decidido a ingressar no ministério. “Não é aquela escola. Contei. No dia seguinte tive oportunidade de conversar com Davi por muito tempo. Davi disse que faria tudo o que lhe fosse possível para me arranjar uma escola. ele me entrega à polícia. a história da melhor maneira que pude. É uma Escola Bíblica. não posso voltar para a escola. E eu sei que ele é . “Davi. Estou vendo que o Senhor vai ter de operar muito em você. e nem podia falar um inglês inteligível. Você gostaria de ir para a Califórnia?” “Para onde ?” “Califórnia. mas sentia que Deus esperava algo de mim. e estava me guiando nesse sentido. Nicky. mas também apagara muitas daquelas recordações da minha mente. Compreendi logo que Deus não apenas tirara de mim muitos dos antigos desejos. Muitas vezes adiantei-me ao meu intérprete. Davi caiu na gargalhada “Oh. Fui obscuro nos detalhes. quando vi que Deus estava operando através da minha vida. na costa ocidental.” Davi riu. Respondi que não sabia direito o que era isso. e não pude lembrar-me de muita coisa. muitos aproximaram-se do altar para dar seu coração a Cristo. Nicky. O diretor disse que se eu voltar. porém. não. e quando foi feito o apelo. A sensação de que Deus estava me chamando para um ministério especial ficou ainda mais forte. desde que fora expulso. espere por mim.” O povo riu e chorou.” “É perto de Brooklin?” perguntei. e Jeff tinha de dizer: “Calma.

Concordamos em orar a respeito do problema. mas falava de meus sonhos e ambições. Estou certo disso. O curso bíblico era para moças e rapazes que desejavam preparar-se para o ministério e não tinham possibilidades financeiras de ir para a faculdade. Deus deseja transmitir-lhe o seu poder. As coisas em Elmira não estavam correndo muito bem. Ele disse que eu não estava escondendo nada a respeito da minha vida pregressa. enquanto ele escrevia para a Escola Bíblica. Explicou que depois que uma pessoa é salva. e percebeu que aquilo podia significar distúrbio. Ouvi-o atentamente. Davi ficou aborrecido. Ele leu passagens das Escrituras nos livros de Atos. Alguém espalhou o boato que eu ainda era chefe da gang e que estava procurando formar uma quadrilha ali. Espere para ver grandes coisas acontecerão através do seu ministério. fiquei sabendo que ela ficava em La Puente. perto de Los Angeles.” Sacudi a cabeça. mas tinha medo de que passassem a criticá-lo. mas Davi escreveu uma carta expressa pedindo-lhes que me aceitassem assim mesmo. o curso durava três anos. mas não entendi o que ele estava querendo me ensinar. Mais tarde. nesse meio tempo. É claro que eu não terminara o ginásio. e pedia que fizessem uma experiência comigo. Eu passava a noite com Davi. . Davi quis que eu ficasse em Elmira.suficientemente poderoso para fazê-lo. Explicou a conversão de Saulo em Atos 9. embora eu tivesse me tornado cristão há poucas semanas. fazia votos fervorosos para que fosse em algum lugar fora da cidade de Nova York. Se precisava ir para a escola. I Coríntios e Efésios. Tinha medo dos guardas de Brooklin. Califórnia. três dias depois de sua conversão. Naquela noite Davi falou-me sobre o batismo no Espírito Santo.

porém fechou a Bíblia : “O Senhor disse aos apóstolos para “esperar”. e dons especiais. Davi parecia preocupado quando voltou da reunião matutina. cremos que todos os que são batizados no Espírito têm dom de línguas. mas receberá alguns. quando você lhes disser que não é. Nicky”. e estou certo de que..” “Que espécie de dons você quer dizer ?” perguntei- lhe. . Não quero ser apressado a esse respeito. Davi ia continuar falando. Ele abriu a Bíblia em I Coríntios 12:8-10 e explicou a respeito dos nove dons do Espírito.” “Você quer dizer que eu serei capaz de falar em inglês mesmo sem estudar?” perguntei. Eu conheço a garota italiana mais bacana que existe. recebendo um novo poder. na verdade. e ele vai batizá-lo. e precisamos orar para resolvê-lo. Já é quase dia..” Na manhã seguinte. um assassino. disse Davi. é melhor que seja algo que este povo possa entender. estupefato.” Fui interrompido pelo travesseiro de Davi que sibilou através do quarto e amassou-se contra o meu rosto. Por enquanto. quando estiver preparado para isso. “Durma. Nós. “Deus deseja dar-lhe poder.” Ele desligou a luz e eu disse: “Se ele me der outra língua espero que seja italiano. Nicky. Se ele lhe der outra língua. Vamos esperar no Senhor. “São dados aos que são batizados no Espírito San- to. com você. temos um problema nas mãos. Nicky. “É disso que você precisa. pentecostais. e então receberiam poder.Saulo foi batizado com o Espírito Santo. e metade da ci- dade pensa que você ainda é um chefe de quadrilha. Pode ser que você não receba todos.

estamos atrasados. “Não compreendo”. disse ele. Entramos e o pastor apresentou-nos à Sra. às duas horas da tarde.” Davi olhou-me surpreso. mas eu penso que realmente é Sra. de sua casa. Ananias”. Estou com fome. e afirmou que o Espírito Santo a avisara de que eu estava em dificuldades. Davi disse que sairíamos imediatamente. Lera as notícias a meu respeito nos jornais. Johnson. “Você orou para que Deus tomasse conta de mim?” “Você sabe que sim. Tinha setenta e dois anos. Johnson que viajara trezentos quilômetros. e você?” Naquele dia. e eu não sei para onde pode ir. Olhei para Davi: grandes lágrimas corriam pela sua face. a menos que seja de volta para Nova York. É por isto que eu oro: porque creio que ele me ouve. por que está tão preocupado ?” Davi levantou-se e encarou-me durante um mi- nuto: “Vamos tomar café. a quem o Espírito Santo tocou e enviou para . disse. Olhou com estranheza para Davi. “É claro que sim. “Ele está se referindo ao Ananias mencionado em Atos 9. Nicky. e disse que na noite anterior o Espírito Santo lhe falara. no norte do Estado de Nova York. e que deveria ir ao meu encontro. Era o pastor da igreja onde Davi estava pregando. “O seu nome pode ser Sra.” “Então. Havia uma senhora no seu escritório que queria falar conosco. “A situação não está boa. tocou o telefone no quarto do motel.” “Você acha que o Senhor ouviu nossas orações ontem à noite ?” perguntei. Vamos precisar tirar você daqui antes de cair a noite.

interrompeu o pastor. os problemas tinham um meio de me achar.auxiliar Paulo”. “Ei. e vendo o que estava acontecendo. fiquei com medo e atendi. da sensação de estar voltando a cair na fossa. Duas semanas mais tarde recebi um telefonema de Davi. “Ei. para evitar problemas. disse um deles. disse sorrindo a Sra. e da terrível depressão que senti. lendo uma revista. Eu teria de esperar cinco horas na estação ro- doviária. Concordara em esperar na própria rodoviária. olha o menino bonito”. Eu não queria ir. antes que Davi fosse encontrar comigo. que concordaram em dispensar todos os requisitos e aceitar-me como aluno. Estavam tão intrigados a respeito da perspectiva da minha ida. A fossa. fa- zendo referência ao meu terno e gravata. mas depois de saber o que acontecera na noite anterior. Desta vez não senti medo durante a viagem para Nova York. sabem quem é este? É aquele Mau- . e me avisaria o mais depressa possível. John. Johnson. você está fora do seu território. turma. desaparecera. Lembrei-me da viagem com o Dr. pois sairia para a Califórnia no dia seguinte. enquanto me achava sentado. Não sabe que isto é domínio dos Viceroys?” “Ei. Disse também que deveria ter uma resposta de La Puente dentro de poucos dias. Desta vez eu estava saindo do deserto. Estava exultante. Contudo. Vieram na forma de dez Viceroys que formaram um círculo silencioso ao meu redor. porém. Ele mandou que eu tomasse um ônibus de volta a Nova York. almo- fadinha. “Só sei que o Senhor me dirigiu para vir buscar este rapaz e levá-lo para casa”. Davi mandou que me preparasse para voltar com ela. Os diretores do Instituto Bíblico tinham respondido.

” “Puxa”. o velho Nicky ressuscitando. Outro aproximou-se de mim e espetou o dedo no meu rosto: “Ei. gritei. Subi . passei por uma igreja de pessoas de origem espanhola. “É melhor vocês se mandarem. Quando se dobrou com o golpe. porque se estiverem aqui quando eu voltar. “Eu volto”. Mas. “Ponha outra vez a mão em mim. disse de repente um dos rapazes. Os outros rapazes estavam surpresos demais para se moverem. As pessoas que estavam na estação rodoviária começaram a se espalhar. Algo em mim fez com que eu diminuísse o passo. Olharam uns para os outros e se afastaram em direção à outra porta. Afastei-me em direção à porta. posso encostar em você ? Pode ser que a sua santidade pegue em mim. e a se esconder por trás dos bancos. Vou atrás dos Mau-Maus depois volto para matar todos os Viceroys. Ele parece pregador. tentem qualquer coisa. “Vejam só. fingindo surpresa. pulou para trás. já sabem que vão morrer. mas fala como um.” Corri porta a fora..” Dei um tapa na sua mão: “Você quer morrer?” rosnei. arrastando o companheiro meio desmaiado. e mato vocês. no caminho.” e usou um palavrão. e você é um homem morto.. fazendo-o cair inconsciente por terra. “Vocês aí. Antes que pudesse mexer-se. pregador. Viram que eu falava sério e sabiam que os Mau- Maus eram duas vezes mais depravados e mais fortes do que eles. e voltasse.Mau simplório que virou pregador”. em direção a uma entrada do metrô que havia ali perto. levantei-me de um salto e mergulhei o punho no seu estômago. golpeei-o na nuca. com o punho fechado.

é acanhado e despretensioso. e saímos em direção ao carro dele. respondi. Cali- fórnia. imaginei que estivesse aqui”. Quem sabe era melhor que eu orasse antes. e as aulas iam de terça a sábado. esqueci os Mau- Maus — e os Viceroys. bem perto da cidade. A maior parte dos setenta alunos matriculados na escola era de fala espanhola. Comecei a pensar em Jesus. Ajoelhei-me ao pé do altar e os minutos se passaram como segundos. e quase todos tinham origem modesta. A maior parte dos alunos vivia em dormitórios do tipo alojamento militar. A escola era diferente — muito diferente de tudo o que eu já experimentara. A escola era muito sistemática. Os regulamentos e horários eram muito rígidos. “Quando não encontrei você na estação rodoviária. Uma vez. “Onde você acha que eu estaria: de volta à gang?” Ele deu uma risada.vagarosamente os degraus e entrei no edifício aberto. Steve Morales e eu chegamos de avião de Nova York. porém. Era Davi Wilkerson. disse ele. Foram necessários vários meses para que eu me . Está localizado em um pequeno trato de terra. Iria depois buscar os Mau-Maus. até que finalmente senti um tapinha no ombro. e na nova vida que me esperava no futuro. dentro da igreja. Olhei. “Naturalmente”. Capítulo 12 ENVOLVIDO NA ESCOLA O INSTITUTO BÍBLICO DE LA PUENTE. pensei.

havia algumas semanas. Isto era estritamente proibido. Lembro-me de certa manhã. ministrando a pessoas de fala espanhola. até o momento das luzes se apagarem. que se assentava à minha frente. Embora isso fosse muito difícil para mim. De modo geral. não havia tempo disponível. mas no Instituto tudo era regulado por um sino. Procurava compensar minhas falhas. forçados a viver em circunstâncias bem humildes. Eu estivera espreitando. além das seis horas de aula. ou enquanto estávamos lavando pratos. Seríamos. porém não . pois a maioria iria trabalhar em regiões ou bairros pobres. e exigiam de nós que passássemos mais de duas horas por dia em oração. muito bonita e espiritual. durante o cumprimento de nossa escala na cozinha. e a única oportunidade em que podíamos conversar era em uns poucos momentos roubados antes e depois das aulas. Qualquer coisa menos severa me proporcionaria liberdade em excesso. geralmente comíamos mingau com torradas. Contudo. e me sentia terrivelmente inseguro. a filosofia da escola era ensinar disci- plina e obediência. quando estávamos de pé enquanto o pro- fessor nos dirigia em uma longa oração no início da aula. desde a hora em que nos levantávamos. era justamente o tipo de treinamento de que eu precisava. Eu não sabia como agir. Porém essa dieta típica era parte definida do nosso treinamento.acostumasse com o Instituto. às seis da manhã. Meu maior problema era não poder conversar com as garotas. durante o terceiro mês escolar. às nove e trinta da noite. De manhã cedo. então. aquela garota mexicana de cabelos negros. Os professores foram muito pacientes comigo. agindo com esperteza e ostentação. mas uma vez por semana tí- nhamos ovos. mas estavam longe de ser apetitosas. As refeições eram fartas. Eu sempre vivera sem freios.

Cruz!” disse ele. Sorri debilmente. pensando que assim ela iria sem dúvida ter sua atenção voltada para mim. Penso que nunca sentira tanta dor em toda a minha vida. porém ela me encarou furiosa e pôs-se de pé sem minha ajuda. ela bateu deliberadamente com a perna pontuda da mesma na minha canela. Enquanto colocava a cadeira de volta no lugar. e reprová-lo nesta matéria. “Sr. e olhou para mim com olhos que despediam chispas de fogo. Sr. O sangue fugiu-me das faces. de certa forma. afastando-a silenciosamente da carteira. não tenho escolha : preciso dar-lhe um zero. Cruz será o primeiro a ser argüido esta manhã. Não disse uma palavra e. Sei que tem grande dificuldade com a língua. “Sr. mas minha perna doía tanto que não pude falar. não foi?” Tentei dizer algo. Ela devolveu-me o olhar com olhos que seriam capazes de fundir a blindagem de um tanque de guerra. mas a menos que coopere. Depois do “amém”. a coisa perdeu mesmo a graça. Finalmente recuperei o controle e olhei para ela. olhando para o professor. mas sentia o estômago embrulhado. estendi a mão para ajudá-la a levantar- se. Quase morrendo de rir. “O senhor preparou a lição. Todos estamos tentando ser pacientes com o senhor. Este limpou a garganta. Cruz. sabe qual é o castigo para quem não prepara a lição. Ela virou-se e sentou-se ri- gidamente na cadeira. No meio da oração peguei a cadeira dela. e fiquei de pé. . e que ainda não disciplinou a mente para pensar em termos acadêmicos.” Olhei para ele com olhos fracos e inexpressivos.conseguira chamar sua atenção. em sua posição deselegante no chão. todos nos sentamos. Virou-se para trás. Toda a classe caiu na risada. e disse: “Agora que terminamos a devoção matinal. Ela realmente me notou. Vou perguntar-lhe mais uma vez : preparou a lição?” Sacudi a cabeça afirmativamente. e pensei que ia desmaiar. comecemos a aula.

Mas estas pessoas eram diferentes. Eu sentia decepcioná-lo. Eu era um desajustado. confuso e frustrado. Pedi-lhe para mandar-me uma passagem de avião.” Fiquei doente. Ela sorriu docemente. Pena que eu não tenha dinheiro em caixa.Minha mente estava completamente vazia. Ame a Deus e fuja de Satanás. para encontrar um pe- queno bilhete : “Querido Nicky : Fico satisfeito em saber que você está indo tão bem. Mandei a carta expressa. e que eu cometera um erro em ter aceito sua oferta. Sentei-me na cama e escrevi uma longa carta para Davi Wilkerson. Elas me toleravam porque tinham dó de mim. e enderecei-a à casa de Davi na Pensilvânia. em direção ao dormitório. mas tinha medo que fosse deixá-lo embaraçado. se continuasse na escola. Pensara que podia ser “vivo” e todos iriam rir. Encarei a garota bonita de olhos negros. Disse-lhe que era duro viver ali. Eu me fizera de tolo. Davi. Seu amigo. agora. para que pudesse voltar. quando conseguir algum dinheiro. Ras- guei o envelope ansiosamente. Escrevi então .” Corri para fora da classe. Olhei para o professor e disse debilmente : “Desculpe-me. e olhei para a classe. A resposta dele chegou uma semana depois. um proscrito. Fui man- quejando até a frente da sala de aula. e abriu o seu caderno de forma que pude ver páginas e mais páginas de notas escritas com uma belíssima caligrafia — a lição que eu deveria apresentar. Escreverei mais tarde para você. como faziam nas quadrilhas.

uma carta expressa ao Sr. Delgado. Eu sabia que ele
tinha dinheiro, mas tive vergonha de contar-lhe que
estava passando por horas tão duras na escola. Disse-
lhe que minha família em Porto Rico precisava de
dinheiro e eu tinha de ir para lá, arrumar um emprego e
ajudá-la. Fazia um ano que eu não tinha notícias de
minha família, mas parecia-me a única estória que eu
podia contar, sem me complicar.
Uma semana depois, recebi uma carta expressa
do Sr. Delgado :

“Querido Nicky:
Fiquei satisfeito em receber notícias suas. Enviei
dinheiro para a sua família, para que você possa ficar na
escola. Deus o abençoe.”

Naquela noite, fui conversar com o Diretor, o Sr.
Lopez. Contei-lhe os problemas que estava tendo. Estava
me rebelando contra toda a autoridade. No dia anterior,
fora minha vez de lavar o auditório, e eu atirara o
esfregão no assoalho e dissera a eles que viera à
Califórnia para estudar, e não para trabalhar como um
escravo. Eu ainda andava gingando. Sabia que não devia
pensar como o velho Nicky pensava — mas não
conseguia. Quando os outros rapazes do dormitório
tentaram orar por mim, eu os empurrei e disse-lhes que
eram bons demais para mim. Eu era um trapaceiro. Um
gangster. Eles todos eram santos. Eles queriam orar por
mim e impor as mãos sobre mim, mas eu me recusei a
permitir que se aproximassem. Chorei lágrimas
amargas, sentado em seu pequeno escritório, e clamei
pedindo sua ajuda.
O Sr. Lopez era um homem pequeno, de pele
bronzeada. Ouviu-me silenciosamente, meneou a ca-
beça, e finalmente estendeu a mão, pegando sua velha

Bíblia que estava escondida debaixo de uma pilha
enorme de provas não corrigidas.
“Nicky, você precisa de um relacionamento mais
íntimo com o Espírito Santo. Você foi salvo e quer seguir
a Jesus, mas jamais terá qualquer vitória real em sua
vida, enquanto não receber o batismo do Espírito
Santo.”
Fiquei ali sentado, ouvindo o Sr. Lopez ler, na
Bíblia aberta, versículos que falam da maravilhosa
vitória que eu poderia alcançar, se recebesse o Espírito
de Deus.
“Em Atos 1”, disse ele, “os apóstolos estavam na
mesma situação em que você está. Tinham sido salvos,
porém, não tinham poder. Dependiam da presença física
da pessoa de Jesus Cristo para proporcionar-lhes poder.
Enquanto estavam perto dele, sentiam poder. Quando,
porém, foram separados dele perderam o poder. Só uma
vez nos Evangelhos encontramos o registro de Jesus
curando alguém sem estar presente. Foi o caso do servo
do centurião. Porém, mesmo nesse caso, o centurião
precisou dirigir-se a Jesus para exercer sua fé. Em
Mateus registra-se que Jesus comissionou os doze
discípulos e deu-lhes poder sobre os espíritos imundos,
para expulsá-los, e para curar toda sorte de
enfermidades. Mas, mesmo tendo recebido a ordem, eles
não possuíam poder suficiente para continuar sozinhos.
Encontra-se evidência disso no fim do mesmo livro,
quando um homem levou seu filho para ser curado por
Jesus, dizendo que o apresentara aos discípulos, e eles
não tiveram poder para curá-lo.”
Ouvi atenciosamente, enquanto os dedos do di-
retor moviam-se agilmente, demonstrando familiaridade
com a Bíblia, gasta pelo uso. “No Jardim do Getsêmani,
Jesus afastou-se dos discípulos para orar. Mas logo que
ele desapareceu de vista, eles perderam o poder. Jesus
pedira que ficassem acordados e vigiassem, mas eles

caíram no sono.”
Pensei com meus botões : “É justamente isso que
acontece comigo. Sei o que ele quer que eu faça, mas
não tenho forças para fazê-lo. Eu o amo e quero servi-lo,
mas não tenho poder.”
O diretor continuou falando, acariciando a Bíblia
com as mãos, como se estivesse tocando a ponta dos
dedos de um velho e querido amigo. Seus olhos bri-
lhavam, úmidos, enquanto ele falava do seu precioso
Senhor: “Depois, você se lembra, naquela mesma noite
quando Pedro estava ao lado de fora do palácio, no
momento em que levaram o seu Senhor, ele perdeu o
poder. Tornou-se um covarde espiritual. Naquela noite,
até mesmo uma criada pôs a descoberto sua mentira,
fazendo com que Pedro blasfemasse contra o seu
Salvador, e até negasse que o conhecia.”
Lopez respirou fundo, dando um suspiro, e gran-
des lágrimas se formaram nos seus olhos, caindo nas
páginas amareladas da Bíblia aberta: “Nicky, isto é
muito semelhante a todos nós. Como é trágico! Como é
terrivelmente trágico, que na sua hora de necessidade,
ele teve de ficar sozinho! Aprouvesse a Deus que eu
estivesse lá para ficar com ele... para morrer com ele.
Mas assim mesmo, Nicky, tenho a impressão de que eu
seria igual a Pedro, porque o Espírito Santo ainda não
viera, e eu, dependendo das minhas próprias forças,
teria também abandonado meu Salvador.”
Parou de falar por um momento, pois sua voz
ficou sufocada. Tirou o lenço do bolso e assoou rui-
dosamente o nariz.
Reabriu a Bíblia em Atos, e continuou: “Nicky,
lembra-se do que aconteceu depois da crucificação ?”
Meneei a cabeça. Eu conhecia muito pouco a Bí-
blia.
“Todos os discípulos desistiram. Foi isto que

aconteceu. Eles disseram que tudo estava terminado, e
iam voltar aos seus barcos de pesca. O único poder que
eles tinham era o que fluía da presença física de Jesus,
em quem vivia o Espírito Santo. Mas, depois que
ressuscitou, Jesus lhes recomendou que voltassem a
Jerusalém e esperassem até receberem novo poder... o
prometido poder do Espírito Santo.
“A última promessa feita por Jesus aos seus se-
guidores, foi a de que eles receberiam poder. Veja aqui
em Atos 1:8.” Ele estendeu a Bíblia por sobre a
escrivaninha, para que pudéssemos ler juntos: “Mas
recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo, e
sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como
em toda a Judéia, e Samaria, e até aos confins da terra.”
“Veja, Nicky, isto não é uma ordem para sair pelo
mundo dando testemunho. É uma promessa de que
receberíamos poder. E quando os apóstolos receberam
poder, não puderam deixar de ser testemunhas.
Receberam poder por ocasião do batismo do Espírito
Santo. O Espírito voltara dos céus de maneira poderosa
e magnificente, enchendo cada um daqueles apóstolos
com o mesmo poder possuído por Jesus.”
Eu me remexi na cadeira: “Se ele já enviou o seu
Espírito”, disse eu, “por que não o enviou a mim ?”
“Mas ele enviou”, respondeu o diretor, que se pôs
outra vez de pé, e começou a andar para cá e para lá, ao
lado de sua pequena escrivaninha; “ele enviou! Só que
você ainda não o recebeu.”
“Enviar. Receber. Qual é a diferença ?”
“O Espírito de Deus está em você, Nicky. Ele en-
trou em sua vida naquela noite, na Arena St. Nicholas.
Ninguém pode dizer: “Senhor Jesus!” senão pelo Espírito
Santo. Foi o Espírito quem o convenceu dos seus
pecados. Foi o Espírito quem lhe deu o poder para
aceitar a Jesus como seu Senhor. Foi o Espírito quem

abriu as portas para que você entrasse nesta escola.
Mas você ainda não deixou que ele o possuísse
completamente.”
“Como é que eu faço, então?” perguntei since-
ramente. “Tenho tentado purificar minha vida, livrar-me
de todos os meus pecados. Tenho jejuado e orado, mas
nada aconteceu.”
“Você nada faz, Nicky. Você simplesmente o re-
cebe.” Sacudi a cabeça. Ainda estava confuso.
O Sr. Lopez pegou a Bíblia de novo e encontrou
com facilidade o livro de Atos. “Vou contar-lhe a história
de um homem chamado Saulo. Estava a caminho de
Damasco para um grande “quebra-pau”, mas foi
derrubado pelo Espírito de Cristo, na estrada. Três dias
depois ele foi batizado no Espírito e começou a pregar.
Desta vez o poder veio através da imposição de mãos.”
“É esta a maneira pela qual eu posso recebê-lo ?”
perguntei. “Alguém irá impor as mãos sobre mim e serei
batizado com o Espírito Santo?”
“Pode ser que seja dessa maneira”, respondeu o
Sr. Lopez. “Ou você pode recebê-lo quando estiver
sozinho. Mas, uma vez que isto aconteça, a sua vida
jamais será a mesma.”
Ele parou, e depois, olhando-me bem no fundo
dos olhos, disse: “O mundo precisa de sua voz, Nicky.
Há centenas de milhares de jovens pelos Estados Unidos
que ainda vivem onde você viveu — e da mesma forma
como você viveu. Estão presos nos laços do medo, do
ódio e do pecado. Necessitam de uma voz profética
poderosa que se levante nas favelas e nos guetos, e
indique-lhes Cristo, que é a única saída para as suas
misérias. Eles não vão ouvir os eloqüentes oradores dos
púlpitos modernos. Nem dar atenção aos professores de
seminários e institutos bíblicos. Nem atender aos
visitadores sociais. Não darão crédito aos evangelistas

profissionais. Não vão às grandes igrejas, e mesmo que
o fizessem, não seriam bem recebidos. Eles precisam de
um profeta saído de suas próprias fileiras, Nicky. E
desde este momento, vou começar a orar para que seja
você esse profeta. Você fala a linguagem deles. Viveu
onde eles vivem. É como eles. Você odiou como eles
odeiam. Teve medo como eles têm. Agora Deus tocou
sua vida e o chamou para fora da sarjeta, a fim de que
possa chamar outros para seguirem o caminho da cruz.”
Houve um longo período de silêncio sagrado. Ouvi-
o dizer: “Nicky, quer que eu ore para que você receba o
Espírito Santo?”
Pensei bastante, e depois respondi: “Não. Acho
que isto é algo que devo receber sozinho. Se tenho que
me manter por mim mesmo, devo recebê-lo sozinho.
Creio que ele virá quando chegar a hora... porque eu já
estou preparado.”
O diretor olhou para mim e sorriu: “Você é
prudente, Nicky. Suas palavras só poderiam ter vindo do
Espírito de Deus. Muito breve sua vida vai mudar
completamente. Orarei por você, enquanto você ora por
si próprio.”
Olhei rapidamente para o relógio de parede. Eu
passara quatro horas com ele. Eram duas da ma-
drugada.
As cinco noites seguintes foram passadas em
oração agonizante, na capela. Meus dias eram cheios de
atividade estudantil, mas à noite eu me dirigia para a
capela, a fim de suplicar a Deus para que me batizasse
no seu Santo Espírito. Eu não sabia orar, exceto em voz
alta. Comecei assim a orar em voz cada vez mais alta.
Eu me ajoelhava diante do altar, e clamava a Deus:
“Batiza-me, batiza-me, batiza-me!” Mas, nada acontecia.
Era como se o salão fosse uma caixa hermeticamente
fechada, o que impedia minha voz de subir até os céus.
Noite após noite eu ia à capela, ajoelhava, dava socos no

Se ele tocara Roberto. Freando à porta. eu estava a ponto de estourar sob a tensão emocional. por favor. Deslizei pela porta do edifício e corri saguão a dentro. há poucos minutos. quando ouvi alguém gritando atrás do prédio onde ficavam as salas de aula. podia ser que ainda estivesse lá e me tocasse também. Na sexta-feira à noite. batiza-me. apontou para o prédio da escola. e quase sem fôlego. até o salão. Corri para o lado de onde ouvira o barulho e dei de frente com Roberto. Não posso parar. e estava atravessando vagarosamente o pátio. espiei.gradil do altar. espere um minuto”. Agora mesmo. Roberto ? O que foi?” Ele levantou os braços e gritou: “Glória a Deus! Glória a Deus ! Glória a Deus !” “O que aconteceu ? Por que você está tão alegre ?” “Eu fui batizado no Espírito. Preciso contar ao mundo inteiro. e gritava: “Batiza-me. bem tarde. e ele me encheu de fogo. glória ao seu maravilhoso nome!” Ele saiu correndo pelo pátio. “Na classe. Nicky. ex viciado em drogas: “O que foi. Glória a Deus. depois de uma semana de quatro a cinco horas de oração infrutífera por noite. mas não saiu nada. Preciso ir. Saí da capela. de joelhos. ó Deus. em direção à classe. pulando e gritando: “Aleluia! Glória a Deus!” “Ei. “Roberto ! Roberto ! Onde você recebeu o batismo? Onde você estava quando isso aconteceu ?” Ele virou-se. Eu estava na frente. para que eu tenha o poder de Jesus. Saí correndo lou- camente pelo pátio. Aleluia! Glória a Deus!” Não esperei para escutar mais. eu estava orando e Deus tocou minha vida e encheu-me de alegria e felicidade. Na sala grande. saí gritando atrás dele.” Tentei mesmo pronunciar palavras em uma língua desconhe- cida. Tudo estava .

até chegar à frente. e as lâmpadas dos postes piscavam quando o vento agitava os ramos . e meus joelhos começaram a doer. Talvez eu esteja falando com a pessoa errada. Nada aconteceu. Entrei devagar na sala vazia e escura. puxando vagarosamente os vagões carregados. porém. ouvi o canto solitário de um curiango. Minha boca estava aberta.escuro e silencioso. na posição tradicional de prece. ladeira acima. Nicky Cruz. Vou tentar outra vez. “sou eu. Permite que eu receba o batismo. O assoalho tornou-se duro. Nada. A grama estava úmida debaixo dos meus pés. ouvi o resfolegar grave e plangente de uma locomotiva diesel. quando afastei a cadeira. aqui na sala de aulas. Estou esperando para ser batizado no teu Espírito. Ajoelhei ao lado da carteira onde a garota bonita de olhos negros se estendera tão sem cerimônia no chão. Batiza-me!” Esperei ansiosamente. e ergui o rosto. à distância. Não tive tempo para reconstituir o acontecimento em minha mente. A lua escondeu-se por trás de uma nuvem escura semelhante a uma dama sedutora. Nicky! Eu também estou aqui. Levantei-me vagarosamente e saí desanimado. gritei então: “Deus. pronta para falar em línguas. prontas para pular e correr como Roberto. pensei. gritei com todas as forças dos pulmões. O ar recendia com o perfume dos jasmins que desabrochavam durante a noite.” A ansiedade era tão grande que eu quase me sentia suspenso no ar. aconteceu. Nos arbustos. em La Puente. e algures. atravessei o pátio escuro e fui para o dormitório. coloquei-me de mãos postas. esgueirou-se para dentro do seu apartamento e fechou a porta. sou eu. Nada. “Jesus”. regada pelo orvalho da madrugada. Minhas pernas estavam tensas debaixo de mim. Em alta voz. Silêncio. O perfume dos jasmins flutuava no ar frio da noite. e tateei por entre as carteiras.

das palmeiras diante dos raios da sua luz. no dia seguinte. Tinha resolvido sair furtivamente da escola. Não adiantava ficar ali. guiado pela força do hábito. Vou voltar amanhã. Eu ajo como um imbecil em relação às outras pessoas. Eu quero ser bom. na Rua Fort Greene. Naquela noite. Mas não posso ser bom sem o teu Espírito. Deitei-me de costas na cama. Tudo o que sei é da gang. Não obstante. Estou tão deslocado aqui. Entrei silenciosamente no dormitório. para meu beliche na penumbra. Nem sei como segurar o garfo e a faca. mas o que acontece é que não consigo me ajustar aqui. voltei ao dor- mitório para arrumar minhas malas. e sobre o travesseiro. E senti lágrimas escaldantes me subirem aos olhos e correrem para dentro de minhas orelhas. reconheço que estou fora do meu lugar. Eu estava sozinho no paraíso de Deus. e eu comecei a tremer incontrolavelmente. tu não o dás porque eu não sou bastante digno. Não sei ler direito.. Depois da aula..” A imagem do meu velho quarto. Eu podia ouvir o ressonar suave dos outros rapazes. atravessou-me a mente como um relâmpago. sentado no meu beliche. com as mãos cruzadas sob a cabeça.” Virei-me de lado. e eu tão impuro e pecador. e caí num sono agitado. e tu não me atendeste. Já sei porque não pude receber-te: é porque eu não sou digno. e sou tão sujo e pecador. nem raciocinar com ligeireza suficiente para assimilar os ensinamentos. e empreender a longa jornada de volta para casa — pedindo carona. Eu não presto. “Deus!” solucei. 54.. de olhos arregalados na escuridão. meu Deus. os meus pensamentos foram interrompidos por um dos alunos . “Faz uma semana que eu estou pedindo. e encami- nhei-me.. “Eu não quero voltar. Todos estes rapazes e estas moças são tão espirituais e santos.

continuou ele num tom alegre. . raspe-se e deixe-me descansar. O rapaz estava louco. Sentou-se aos pés de minha cama. e tenho de pregar. o Espírito. “e além disso. Convide um dos outros rapazes. é? Bem. não se surpreenda se eu cochilar no culto. suspirei. e cruzou as pernas.” “Vamos”. disse ele enquanto me dava um tapinha nas costas. disse Gene alegremente. e tenho muito o que estudar. Gene. Meti no bolso às pressas a escova de dentes e alguns outros pertences e resolvi deixar o resto da bagagem. Nicky! É você mesmo que eu queria en- contrar. Eu quero que você vá comigo.externos. Agora. Mas.” “Mas não há nenhum outro rapaz por aqui”. Será que não percebia que eu não queria ir ? “Tá bom”. não valia muita coisa.” “Nicky”.” Sacudi a cabeça: “Hoje não. e arranjar uma carona para a cidade. disse ele teimosamente. “Ah. Afinal de contas. puxando-me pelo braço. pois eu tenho estado muito ocupado falando com ele a semana inteira.” Deitei e dei-lhe as costas. o Espírito me mandou ficar aqui e descansar um pouco.” Pensei com meus botões: “É você mesmo que eu não queria encontrar.” “Hummm. “Não sairei daqui se você não for comigo”. Estou cansado.” Eu concordara em ir porque decidira sair de man- sinho depois do culto. “vou com você. “vamos realizar um estudo bíblico e um culto na pequena igreja do Boulevard Guava. o Espírito Santo me mandou procurar você. “Estamos atrasados. Fiquei exasperado.

“Nicky. a princípio. tropeçando e cambaleando. e tentei segurar a avalanche. Jesus. Jesus. em direção ao altar. Jesus.” Algo moveu se dentro de mim. Enquanto Gene orava. Oh. “Obrigado. até que caí de encontro ao gradil de madeira bruta. exceto Deus. Pelo menos estão aqui porque querem. obrigado. chorando incontrolavelmente. “Obrigado. rebocada por dentro. Todos os rapazes e . como se ele tivesse vindo diretamente do campo sem ter tomado banho. Eu estava sentado no último banco. pensei. “Oh.” Como ele sabia ? Ninguém sabia! Ninguém. Jesus”. “Deus me enviou a você. para buscar e trazer você a este culto. Jesus”. “Pelo menos estou em boa companhia”. e depois fez o apelo. depois. Deus!” solucei.” Gene pregou cerca de quinze minutos. Eu sabia que você planejava fugir. um pouquinho só.” “Oh. Ele enviou-me para impedi-lo. murmurava ele sem parar. começasse a jorrar.” Cerrei os dentes. mas as comportas não agüentaram. orava o velho granjeiro ao meu lado. Senti as mãos de Gene sobre mim. Eu estou aqui porque fui forçado a vir. Chegamos à pequena capela mais ou menos às sete e trinta da noite.” Eu quase não ouvia a sua voz. e eu me vi correndo corredor abaixo. e que. “Até mesmo esta gente é melhor do que eu. O seu Espírito veio a mim há uma hora atrás. Os toscos bancos de madeira estavam cheios de mexicanos simples e sinceros. meu vizinho de banco começou a chorar: “Jesus. ao lado de um homem de cabelos grisalhos que recendia fortemente a sujeira e suor. “Nicky. Jesus. Era feita de adobe. e mandou que fosse ao dormitório. “obrigado. Era como se al- guém tivesse aberto uma torneira. Suas roupas estavam sujas. Deus não ia deixar você fugir esta noite. por causa de meus soluços. Nicky. Jesus.

professores estão orando por você, na escola. Sentimos a
mão de Deus sobre você de maneira maravilhosa.
Sentimos que ele está para encaminhá-lo a um grande e
precioso ministério. Nós gostamos de você. Nós amamos
você. Amamos você.”
As lágrimas corriam como regatos. Eu queria
falar, mas não consegui dizer nada. Percebi que ele deu
a volta pelo gradil tosco, sem pintura, pôs o braço ao
redor dos meus ombros, e ajoelhou-se ao meu lado.
“Posso orar por você, Nicky ? Posso orar para que Cristo
o batize no seu Santo Espírito ?”
Tentei responder, mas o choro aumentou. Acenei
afirmativamente com a cabeça, resmunguei qualquer
coisa que ele interpretou como sendo uma resposta
afirmativa.
Eu não tive consciência da sua oração, nem
prestei atenção nela. Nem sei se ele orou ou não. De
repente, abri a boca, e dela saíram os mais belos sons
que eu já ouvi. Senti uma grande purificação interior,
como se o meu corpo estivesse sendo limpo, desde a sola
dos pés até o alto da cabeça. A linguagem com que eu
estava louvando a Deus não era inglês nem espanhol.
Era uma língua desconhecida. Eu não tinha idéia do que
estava falando, mas sabia que era louvor ao Deus San-
tíssimo, em palavras que, por mim mesmo, jamais seria
capaz de formar.
O correr do tempo perdeu qualquer significado, e a
dureza das tábuas em que eu estava ajoelhado não fez
diferença. Eu estava louvando a Deus da maneira que
sempre desejara, e nunca mais ia parar.
Pareceu-me que se haviam passado apenas alguns
momentos, quando senti Gene me sacudir pelo ombro:
“Nicky, está na hora de ir. Precisamos voltar para a
escola.”
“Não, está muito bom aqui”, ouvi-me dizer, “deixe-

me ficar aqui para sempre.”
“Nicky”, ele insistiu, “precisamos ir. Você pode
continuar quando voltarmos, mas agora precisamos ir
embora.”
Levantei os olhos. A igreja estava vazia; só nós
dois estávamos ali. “Ei, onde está o pessoal?”
“Rapaz, são onze horas da noite. Faz uma hora
que todos saíram.”
“Quer dizer que estive orando duas horas?” Não
podia acreditar.
“Obrigado, Jesus, obrigado!” gritei, enquanto
corríamos para o carro.
Gene deixou-me defronte ao dormitório, e foi
embora. Corri para dentro e acendi a luz. Comecei a
cantar com todas as forças: “Santo, Santo, Santo, Deus
onipotente!”
“Ei, que barulho é esse ? O que é que deu em
você?” começaram a gritar. “Apague essa luz. Que
loucura é essa? Apague a luz!”
“Calma”, gritei. “Hoje estou celebrando. Vocês não
sabem o que me aconteceu, mas eu sei, e quero cantar...
Glória, glória, aleluia!...” Uma fuzilaria de travesseiros
me atingiu, vindo de todos os cantos do quarto. “Apague
a luz!” Mas eu sabia que uma luz se acendera em minha
alma, que jamais haveria de apagar-se. Brilharia para
sempre.
Naquela noite, sonhei de novo — pela primeira vez
desde que fora salvo. No sonho, eu estava no alto da
colina, perto de Las Piedras, em Porto Rico, onde eu
subira muitas vezes em meus pesadelos. Olhando para o
céu, vi a forma de um pássaro. Mesmo dormindo,
comecei a tremer, e tentei levantar-me. “Oh, Deus, não
permita que isso comece de novo. Por misericórdia!” Mas
o pássaro chegava cada vez mais perto. Só que desta vez

não era o passarinho sem pernas — era uma pomba.
Encolhi-me de terror, pensando que ela iria bicar-me, e
bater com as asas no meu rosto. Mas não — nada disso
aconteceu. Era uma pomba mansa e meiga. Ela foi des-
cendo... descendo... e pousou mansamente sobre a
minha cabeça. O sonho se desfez, e eu caí num sono
profundo, calmo, delicioso.

Capítulo 13

ONDE OS ANJOS TEMEM
ANDAR

OS DIAS QUE SE SEGUIRAM foram cheios de
alegria e de vitória. A primeira transformação que notei
foi na minha conduta. Não andava mais gingando.
Ficava atento durante as orações, orando com a pessoa
que dirigia. Em lugar de bancar o “vivo”, comecei a
demonstrar consideração pelos outros, principalmente
pela garota de lindos olhos negros que se sentava à
minha frente.
Descobri que o nome dela era Glória. No dia em
que dei meu testemunho diante da classe, ela en-
caminhou-se para mim e apertou-me a mão de maneira
digna, como uma dama: “Deus o abençoe, Nicky. Tenho
orado por você.”
Tinha uma desconfiança de que ela provavelmente
estivesse orando para que eu “caísse morto”. Mas
percebi que estava realmente feliz pelo fato de Deus ter-
me tocado. Seus olhos, profundos e negros, piscavam
como as estrelas à meia-noite e seu sorriso era lindo.

Na semana seguinte encontrei coragem suficiente
para convidá-la a ir comigo a uma campanha de
evangelização, que estávamos realizando em uma pe-
quenina igreja perto da escola. Ela sorriu, e duas
covinhas apareceram, quando acenou afirmativamente.
No decorrer daquele ano fomos juntos a muitos
cultos. Embora estivéssemos sempre na companhia de
outras pessoas, fiquei sabendo muitas coisas a seu
respeito. Nascera no Estado de Arizona. O pai era
italiano, e sua mãe mexicana. Tinham mudado para a
Califórnia quando ela estava com cinco anos, e seus pais
abriram um bar em Oakland. Na última série do ginásio,
fora salva e decidira entrar na Escola Bíblica. Seu
pastor, o Rev. Sixto Sanchez, sugerira que ela escrevesse
para o Instituto Bíblico. Eles a aceitaram, e entrara na
escola no outono daquele ano.
Perto do fim do ano escolar, senti que Glória
estava passando por algum profundo desassossego
íntimo. O regime escolar era muito pesado para ela. Nos
últimos dias de aula, ela me disse que achava que não
agüentaria cursar outro ano, e que por isso não voltaria
à escola depois das férias. Fiquei desapontado, mas ela
prometeu que me escreveria.
Passei aquele primeiro verão em Los Angeles.
Alguns amigos me levaram para lá e providenciaram um
lugar para eu morar. Mas senti muito a falta de Glória.
Quando as aulas começaram, no outono, fiquei muito
satisfeito ao encontrar uma carta à minha espera. Ela
cumprira a promessa.
Glória revelou-me, em parte, os motivos que a
levaram a deixar a escola. “Minhas experiências foram
diferentes das suas, Nicky”, escreveu ela. “Embora
mamãe e papai trabalhem num bar, fui criada em uma
atmosfera moralmente boa. Quando fui salva, fui a
extremos exagerados. Aprendi que era pecado copiar os
padrões do mundo. Desfiz-me de toda maquilagem,

deixei de usar maiô, e desisti até de enfeitar-me com
jóias. Tudo em mim era negativo. Quando fui para a
escola, a situação piorou ainda mais. Estava a ponto de
sofrer um colapso mental. Queria contar isso a você,
mas nunca tivemos oportunidade de estar a sós. Espero
que compreenda e continue orando por mim. Mas eu
não voltarei para a escola...”
O segundo ano na Escola Bíblica passou
depressa. Minhas notas melhoraram, e os outros alunos
estavam começando a me aceitar como igual. Tive várias
oportunidades de pregar em trabalhos ao ar livre, e dar
meu testemunho em algumas igrejas vizinhas.
Em abril, recebi uma carta de Davi Wilkerson. Ele
ainda estava morando na Pensilvânia, mas queria que
eu voltasse para Nova York naquele verão, para
trabalhar entre as quadrilhas do Brooklin. Planejara
alugar um apartamento na Av. Clinton, entre as ruas
Fulton e Gates, e havia conseguido que Thurman Faison
e Luiz Delgado trabalhassem comigo, se eu fosse. O
dinheiro era pouco, mas teríamos moradia e pagariam
sete dólares por semana a cada um de nós.
Naquela noite, depois da hora de estudo, fui ao
escritório do diretor, e telefonei para Davi, a cobrar. O
telefone tocou durante muito tempo, e finalmente uma
voz sonolenta atendeu. Ele resmungou que pagaria a
taxa.
“Ei, Davi, sou eu, Nicky. Você já acabou de jan-
tar?”
“Nicky, sabe que horas são?” “Claro, meu chapa,
são dez da noite.” “Nicky...” havia uma pontinha de
exasperação na voz, “podem ser dez horas na Califórnia,
mas aqui é uma da madrugada. Eu e Gwen estamos
dormindo há duas horas. Agora você acordou o bebê
também.”
“Mas Davi, só queria dar-lhe as boas novas.”

Ouvi perfeitamente a criança berrando, como “fundo
musical”. “O que é tão bom que não pode esperar até de
manhã, Nicky ?”
“Isto não pode esperar, Davi. Eu vou para Nova
York trabalhar com você neste verão. Deus me disse que
quer que eu vá.”
“Isso é ótimo, Nicky. Estou vibrando, Gwen
também, e o bebê também. Vou mandar uma passagem
de avião para você. Boa noite.”
Fiquei acordado a noite inteira, fazendo planos
para a minha volta a Nova York.
A viagem para a “minha cidade” ajudou-me a ver
como eu tinha mudado. Era como se toda a minha vida
tivesse se tornado realmente viva. Quando começamos a
descer no aeroporto de Nova York, meu coração
começou a bater mais depressa ante as recordações, e o
entusiasmo cresceu. Localizei a silhueta do Edifício
Empire State no horizonte, e depois, a ponte de
Brooklin. Nunca percebera como a cidade era tão
compacta, nem como se espalhava por centenas de
quilômetros quadrados. Meu coração transbordava de
amor e compaixão pelos milhões de pessoas que
estavam amarradas, ali em baixo, na selva de asfalto do
pecado e do desespero. Meus olhos ficaram rasos de
água quando o avião fez um círculo sobre a cidade.
Estava triste e feliz — amedrontado e ansioso. Estava
em casa.
Davi foi me buscar no aeroporto, e nós nos
abraçamos e choramos sem acanhamento. Com o
braço rodeando meus ombros, levou-me até o carro,
falando, cheio de entusiasmo, a respeito do seu novo
sonho.
Escutei, enquanto ele falava dos planos que tinha
para o futuro; do seu novo Centro — Desafio Jovem.
Porém, ele percebeu que algo estava me preocupando, e

depois que você foi para a escola.” “Não. o Sr. “Não. Respirei fundo. e me contou que houvera uma grande mudança na vida do filho depois que ele aceitara Cristo. Eu quero sa- ber. Acho que devo contar tudo agora. e já tinha sido levado para a penitenciária de Elmira. A mãe dele contou me que no dia em que você saiu do hospital. Nicky. você soube alguma coisa de Israel? Onde ele está? Se está bem?” Davi curvou a cabeça. enquanto Davi me contava a situação de Israel. “Davi. “Você não sabe?” “Você se refere ao fato de eu ter sido esfaqueado? Ele disse que ia pegar o cara que fizera aquilo. depois do desengano.” “Quando tive notícias dele tudo estava terminado. nem tudo está bem. Fui até Nova York para visitar a mãe de Israel.” Ficamos algum tempo no carro abafado. porque temia desanimá-lo. Até agora. Davi. Delgado passou no apartamento pediu-lhe para . Foi envolvido em um assassinato. ele voltara para a quadrilha. em dezembro. no pátio de estacionamento do aeroporto. Ela chorou ao conversar comigo. e finalmente olhou para mim com um olhar sombrio. “Conte-me tudo o que sabe.” Meu coração acelerou-se. não saiu da prisão.finalmente seu entusiasmo arrefeceu o suficiente para perguntar-me o que era. “Israel está na prisão. para que comece a orar comigo nesse sentido. mas. Nicky.” “Que desengano?” perguntei. foi algo mais profundo do que isso. Senti um suor frio na palma das mãos. Não falei nada sobre isto em minhas cartas.

“Escrevi-lhe. só para vê-lo. Delgado disse que precisávamos ir. e finalmente perguntei a Davi se ele o tinha visto.” Davi assoou o nariz e prosseguiu: “Depois que voltou para a quadrilha. jogou a mala no chão.ir com você encontrar comigo em Elmira. e arrumou a sua mala. e disse à mãe que todos os crentes eram uma cambada de trapaceiros. “Nós o procuramos. Oh. vocês se desencontraram. mas o Sr. e permitiram que eu me entrevistasse com ele durante alguns minutos. Israel ficou entusiasmado e disse que iria. Orei por ele todo o verão seguinte. Ele voltou para o apartamento. passou as roupas dele. Ele foi até a Av. sentados em silêncio. Procuramo-lo por toda parte. e finalmente empreendi uma viagem a Elmira. ou tivera notícias dele desde que fora preso. Naquela noite voltou para a gang. quando me virei para Davi. poderia ser que ele agora estivesse na escola comigo. mas ainda tem mais de três anos para ficar atrás das grades. Eu queria parar e procurar mais. durante longo . Só pode escrever para a família. Flatbush e esperou das seis até às nove da manhã. Ela o acordou na madrugada do dia seguinte às quatro horas. ele e outros quatro atiraram em um rapaz da quadrilha dos Angels da Rua Sul.” Senti lágrimas vindo aos meus olhos. Israel está bem. penso eu. e sentenciado a cinco anos na penitenciária do Estado. Davi. Está lá agora. Estavam preparando a sua transferência para a colônia penal agrícola de Comstock. Ele morreu imediatamente.” Ficamos ali. se soubéssemos! Se tivéssemos olhado um pouco mais detidamente. Até os seus cursos por correspondência precisam ser enviados através do capelão da prisão.” Houve uma longa e sofrida pausa. De alguma forma. no dia seguinte. mas vim a saber que ele não podia responder. Israel foi acusado de assassinato em segundo grau. defronte à Arcada Penny.

Você está pronto para por mãos à obra?” “Vamos”.” Davi virou-se para mim. Há muito o que fazer. Clinton. Nicky. se fosse você. disse eu. Eu teria muito cuidado. Desde que você foi embora. mas há uma cidade cheia de outros. por enquanto. Virei-me de costas. e disse: “Eu. Freando diante de um edifício de apartamentos. Mas eu sabia que minha obra jamais estaria completa enquanto não pudesse libertar Israel. Ele irá comigo e me protegerá. e nós arrancamos. com os cotovelos apoiados no banco. mas eu vou com Jesus. mas desta vez sou louco por amor de Jesus. Nicky. Os anjos podem ter medo de entrar na zona dos Mau-Maus. Davi disse: “Fizemos tudo o que nos é possível fazer por Israel. disse como que desinteressadamente. “Quero falar-lhes de Jesus. . abrindo a curva. ali no pátio de estacionamento. Só loucos entram onde os anjos temem andar. avançaria devagar. amanhã”. e ajoelhei- me no piso do carro.” Davi sorriu e balançou a cabeça como a concor- dar. enquanto entrava na Av. Davi deu partida no carro. e finalmente eu disse: “Penso que devemos orar por ele. no assento. muita coisa aconteceu. sem se envolver tão cedo com os Mau-Maus. ele disse: “Ele é o seu guia. Você se lembra quando se converteu? Quase mataram você.” O semáforo mudou de cor. “Posso ser louco. “Quero visitar os membros da minha velha quadrilha.tempo. Passamos quase quinze minutos orando. que nós ainda podemos salvar para Jesus Cristo. iguaizinhos a ele. Davi. Eu estava abrasado de zelo pelo Senhor.” Davi curvou-se sobre o volante e começou a orar em voz alta. Quando terminamos. ao sair da preferencial e brecar diante de um sinal vermelho. e enveredou pelo intenso tráfego de Nova York. para ultrapassar um ônibus.

atravessei a cidade em direção ao conjunto habitacional de Fort Greene. As palavras de Davi relampejaram pela minha mente: “Só loucos entram onde os anjos temem andar”. dois anos antes. De manhã. só queria ter sabedoria para manejar a situação para a glória de Deus. Quando saí da praça. não eu. quando me vissem. vesti o terno e pus uma gravata vistosa. Quando atravessei a Praça Washington. Engordara e cortara o cabelo. meu chapa.” O dia seguinte seria o grande dia. quero que conheça Thurman e Luís. Havia cerca de treze rapazes naquela turma. disse: “Ei. Passei a maior parte da noite acordado. Comecei a procurar os Mau-Maus. pedindo que o Espírito Santo fosse comigo..” “Puxa.Nicky. meu co- ração começou a bater mais depressa. Contudo. estava preocupado a respeito da maneira como saudá- los — e o que eles diriam. orando.” Cortez voltou-se e arregalou os olhos: “Não me diga que você é o Nicky?” “Sim. meu chapa. e você só terá vitória. vi uma turma de Mau-Maus encostada na parede de um edifício. Como eu me apresentaria? Não estava com medo. Tudo o mais permanecia como eu deixara. Vamos. Willie. e encaminhei-me para a “tropa” de desocupados. pela primeira vez. com minha Bíblia nova de capa de couro debaixo do braço. Mas eu estava diferente.. Faça o que ele ordenar. Eu era um novo Nicky. mas eu murmurei uma oração em voz alta. a diferença maior estava no íntimo. sou o Nicky. contudo. Alguns dos prédios mais antigos tinham sido condenados. A cidade não se modificara muito. Ia ao encontro dos Mau-Maus. e havia tapumes ao seu redor. e dando-lhe um tapinha nas costas. Reconheci Willie Cortez. você parece .

não acredito. quero contar a você o que Cristo fez em minha vida. Quase todos os rapazes eram mais novos.” “Conversa. e aglomeraram-se ao nosso redor.” Os rapazes tiraram os chapéus. muito mais novos. disse. Tinham ouvido falar de mim. Nicky. e eu percebi que a sua voz tremia: “Ei. Coloquei o braço ao redor do ombro de Willie e sorri para ele. que estavam olhando curiosamente. para um lugar onde agora eu era um ser humano útil. Nicky. virando-se para os outros membros da gang.” Ele não levantou a cabeça. Contei-lhe como eu me sentira quando era membro da quadrilha. Willie andava vagarosamente ao meu lado. mas continuou an- dando enquanto eu falava. Era um cara bem bom de briga e fez história com os Mau-Maus. Acabo de chegar da Califórnia. arrastando os pés no cimento. vamos dar uma volta pela praça. Era o mais durão de todos. Não posso acreditar. “Puxa.” Ele agarrou meus ombros com ambas as mãos e fez-me girar várias vezes. ou coisa parecida. dois anos antes.um santo. respeitosos. estendendo a mão. te manca! Você me faz . Quero conversar com você. “Olha. Willie. Willie Cortez era o único do grupo a quem eu conhecia. Ele foi nosso presidente. Sou crente e estou estudando. rapaz. com as mãos nos bolsos. tirem o chapéu. Willie interrompeu-me. mas todos ficaram impressionados. e como eu entregara o coração a Cristo. pára com isso. Este é o Nicky. olhando para minhas roupas e meu aspecto.” Afastamo-nos do grupo e entramos na Praça Washington. “Ei. Contei- lhe a maneira como Deus me guiara para fora do deserto de concreto. Quebrei o silêncio: “Willie.” Depois. As coisas estão indo bem para mim. rapazes.

para que você não precise morrer. Willie. Agora eu amo as pessoas. fala mais de Deus. ele salvará você. se você confessá-lo. Quando fala. com um ar de desespero no rosto. Percebi a solidão na sua face. Sou um homem diferente. Não tenho mais medo. Ele era exatamente como eu fora dois anos antes. Nicky? Se eu sou pecador. Que devo fazer?” Seus olhos mostravam grande excitação. e abri a Bíblia nas passagens marcadas com lápis vermelho. mas as lágrimas conseguiram passar por . e fiz sinal para Willie sentar. E se você aceitá-lo.” “Tem razão.” Willie deixou-se cair no banco. Willie olhou para mim com medo estampado no rosto.sentir mal. Você está diferente. de um salto. e ele ficou de pé. estou limpo. a ignorância — o medo. Você me dá medo. Deus ama você. Vou contar o resto da história. Willie. puxa. com os olhos cheios de lágrimas.” Chegamos a um banco. Amo você. Mas agora eu queria mostrar-lhe como escapar. Ele não quer que vá para o inferno. Ele sentou-se e olhou-me. Ele enviou Jesus para morrer em seu lugar. ainda não acabei.” Pela primeira vez na minha vida percebi como era importante falar de Cristo para os meus amigos. O sangue de Cristo transformou-me e lavou-me. preciso fazer alguma coisa. alguma coisa mexe aqui dentro do meu peito. “O que quer dizer. alguma coisa me transformou. o que posso fazer? Quero dizer. dizendo: “Nicky. Ele o ama tanto que mandou seu único Filho para pagar o preço de seus pecados. Não tenho mais ódio. Li as passagens bíblicas referentes ao pecado do homem. Sentei ao lado dele. e Deus vai me matar porque pequei. Fechei os olhos com força e comecei a orar. Não é mais o mesmo velho Nicky. E quero dizer-lhe que Jesus te ama. Quando li : “Pois o salário do pecado é a morte”. “Sente-se. Fiquei olhando para ele. Willie. mas possa ter vida eterna. agora.

Willie voltou ao seu apartamento. naquela tarde.. e correram pelas minhas faces. Ao crepús- culo. até sumir-se ao longe. Acho que não andei até a Av. sabe o que significa arrepender-se?” Ele fez que não. Faz com que ele seja um líder para levar outros a ti. Ele pôs-se a orar... Você quer ajoelhar-se?” Eu não tinha idéia de como ele iria reagir. ajuda-me!” Ficamos no jardim o resto da tarde. e sem hesitação. Algo fluíra através de mim e alcançara Willie Cortez.. clamei: “Senhor! Toca em Willie! Toca em meu amigo. prometendo trazer o resto da gang à minha casa. en- quanto chorava e gritava: “Oh. Jesus.” Willie orava em voz alta e torturada: “Jesus. “Willie. Clinton. Salva-o. Pode ferir o seu orgulho. Se você não se importa. Jesus. Olhando para cima.. bem defronte ao banco em que estávamos sentados. mas Willie acenou afirmativamente... Fiquei ali de pé vendo-o afastar-se. flutuei. mas eu vou orar por você. Através de uma cortina de lágrimas. Quando abri os olhos. Willie também estava chorando. Senti seu corpo estremecer sob minhas mãos. Dar marcha-ré. Mesmo olhando por trás. na calçada. Você ora por mim agora?” Coloquei as mãos sobre a cabeça de Willie e co- mecei a orar. Lembrei-me da vez em que correra pelo . pode me transformar também.. se Deus pôde mudar você. louvando a Deus a cada vez que respirava. quero que faça uma coisa. na noite seguinte. podia-se notar a diferença. Estávamos ambos orando em voz alta — muito alta. Havia gente andando para lá e para cá. “Significa mudar de direção.entre as pálpebras cerradas. Ajuda-me! Ajuda-me!” Estava ofegante. e ouvi seus soluços. ajoelhou-se na calçada. ele disse: “Nicky.

e ultimamente suas cartas estavam ganhando um tom amigo e amável. antes de voltar à escola. Ali em Nova York. Jejuava reli- giosamente. pregando ao ar livre e realizando trabalho pessoal. Passei o resto do verão com a gang. aconteciam coisas em minha vi. Foi imensa a minha emoção. Os seus planos para o ano seguinte eram ainda indefinidos.da. Também escrevi várias vezes para Glória. É Nicky Cruz”. subindo até a casinha branca de madeira. defronte à nossa casa em Porto Rico. Descobri que quando jejuava e passava algum tempo em oração. colina acima. Cheguei a San Juan numa segunda-feira. Disse-me que queriam dar-me alguma coisa extra pelo trabalho que eu realizara. que fazia parte da junta de conselheiros de Davi. e tomei um ônibus para Las Piedras. naquela noite. como se ela estivesse gostando de me escrever. Finalmente estava voando. Cem mil recordações inundaram meu coração e minha mente. levantei a cabeça e respirei fundo. ficando sem comida das seis horas da manhã de quarta-feira até seis da manhã de quinta- feira. Fazia cinco anos que não os via. um ne- gociante cristão. Duas semanas antes de voltar à escola. Já estava quase escuro. no topo do outeiro. e quatro dos meninos mais novos saíram voando colina abaixo. à tardinha. Alguns segundos depois a porta abriu-se de um golpe. e eu orei muito por ela. a fim de visitar meus pais. quando desci do ônibus e comecei a atravessar a cidadezinha. mas eu . e vi um homem correndo à minha frente. Alguém gritou: “É Nicky. e sugeriam que eu usasse o cheque para comprar uma passagem de avião até Porto Rico.grande pasto. chegou com um cheque. batendo os braços e tentando voar como um passarinho. em direção à conhecida trilha que serpeava pela colina gramada. para contar a papai e mamãe que eu estava chegando.

à noite. ereto. e corri para encontrá-los.reconheci meus irmãos. Dirigi-me vagarosamente para ele. e ali de pé. e me encontrou na frente da casa. e na sua superstição tinham medo de se aproximar. Olhei para a casa. e que eu estava estudando. observando-me. Afinal. Recuperando a calma. com a saia voando ao vento. e ele começou a descer vagarosamente os degraus para me encontrar. Disseram que outros queriam ver-me. . na Califórnia.” Disse-lhes que iria ajeitar as coisas. Atrás deles. e que na noite seguinte teríamos um grande culto cristão em minha casa. e muitos dos membros das igrejas em Las Piedras foram à nossa casa. bem-vindo. dizendo que minha vida mudara. levantou-me do chão e apertou-me contra o peito amplo.” Frank escrevera a mamãe e papai. Contudo. Os meninos treparam às minhas costas. Têm medo de seu pai. olhando em minha direção. Nicky. passarinho. à sua casa. irrompeu também numa corrida. estava a figura poderosa e solitária de papai. Espalhara-se a notícia de que me tornara crente. lágrimas e abraços apertados. vi que dois dos meninos mais novos tinham corrido para apanhar a minha mala e traziam-na trilha acima. Deixei cair a mala. derrubando-me por terra em uma luta animada. Pus-me então a correr. Colidimos em uma agitação de exclamações felizes. muitos dos nossos irmãos têm medo dos demônios. para me ver. queriam ter um culto na casa de um dos crentes e pediram-me para pregar e dar meu testemunho. Olharam uns para os outros. Mamãe pôs-se de joelhos. “Bem-vindo. alta e importante. abraçando-me o pescoço. e o dirigente do grupo disse: “Mas. Apertando-me nos braços peludos. Disse-lhes que dirigiria o culto. e sufocando-me de beijos. mas ficaram com medo de ir à “casa do feiticeiro”. Criam que papai podia falar com os mortos. que permanecia imóvel. vinha minha mãe. mas teria que ser em minha casa.

Se tivermos um culto aqui. Eu estava todo suado. Mantive minha posição. Raramente mamãe discutia com papai. convidando os que quisessem aceitar a Cristo como salvador pessoal que dessem um passo à frente e se ajoelhassem. um ministro cristão. fechei os olhos e comecei a orar silenciosamente. O povo manifestava audivelmente seu agrado. O calor era escaldante. enquanto eu descrevia os vários acontecimentos que cercaram a minha salvação. ele era como um animal. Não haverá culto cristão nesta casa. “Não permito isso. mas quando isto acontecia. murmurando aprovação. contando o domínio que Satanás exercera sobre mim. sempre saía vencendo. Senti que algumas pessoas estavam se aproximando. devido ao . Mais tarde. Houve um movimento na multidão. objetou violentamente. estarei arruinado como espírita. Então. bem como de vários pregadores de cidades vizinhas. pedi a todos que curvassem a cabeça. enquanto se ajoelhavam à minha frente. os outros nunca mais virão. Nós teremos o culto e você assistirá”. e algumas vezes gritando e batendo palmas de júbilo. também foi assim.. Ao fim do culto. Desta vez. Agora é um pregador. Essa gente vai arruinar meus negócios. Podia sentir a transpiração descendo pelo meu rosto. enquanto eu pregava. A última vez em que o viu.. naquela mesma noite. Entrei em muitos detalhes. argumentou mamãe. quando papai ouviu o que tínhamos planejado. na frente da sala.” “Você não é capaz de ver como o Senhor trans- formou o seu filho? Tem de haver algo nisso. com os olhos fechados e o rosto voltado para o céu. Na noite seguinte a casa ficou lotada de gente da vila. Fiquei de pé. e como eu fora liberto das suas garras pelo poder de Cristo. Proíbo isso. correndo pelas minhas costas e gotejando pelas minhas pernas. e dei o meu testemunho. Ouvi-as chorar.

Creio em ti. mas sentia que Deus estava operando. levantando-se ereta sobre as cabeças curvadas. Não pude conter minha alegria: ali. e todos nos aconchegamos. meu filho.” Ela começou então a orar. Agora eu creio. e depois para o porão. pedindo salvação. enquanto ela orava pedindo perdão: “Por misericórdia. estava minha mãe e também dois de meus irmãos menores. e grandes soluços sacudiram meu corpo. Salva-me. Ali.” Abri os braços e cingi os meus dois irmãos mais novos. Quero que ele seja o Senhor de minha vida. levantei-me e olhei para a multidão. Caí de joelhos diante dela. Nossos olhos se cruzaram em um longo olhar. com gritos histéricos de: “Eu odeio você. com o rosto enterrado na saia.. orando e chorando. ajoelhada à minha frente. e orando por eles. Muitos outros tinham vindo e estavam ajoelhados no chão. salva-me. e por não ter crido em ti.calor que se gerara em mim. ó Deus. meu filho. . “Oh. Perdoa meus pecados. Ouvi então uma mulher que ajoelhada diante de mim. começou a orar. Seus olhos encheram-se de lágrimas — mas ele virou-se e deixou repentinamente a sala. Fui de um para outro. e continuei a orar. Reconheci sua voz. enquanto pregava. Ouvi a mesma voz que um dia me mandara para o quarto. e rodeei-a com os braços. Finalmente. e quero este Jesus como meu Salvador. Perdoa-me por tê-lo afastado do lar. parei e olhei para o fundo da sala. impondo as mãos sobre as suas cabeças.” clamando agora a Deus. um de quinze e outro de dezesseis anos.. Nicky. via-se a figura solitária de papai. Mais tarde. eu também creio nele. perdoa-me por ter falhado em relação ao meu filho. Deus querido. encostado à parede. Não suporto mais ouvir falar de demônios e espíritos maus. orando e louvando a Deus. e o seu queixo estremeceu visivelmente. e abri os olhos incredulamente.

meus chapas. quando eu voltasse. Fizera amizade com Steve. Preguei como um moribundo a moribundos. No fim do culto. aqui é território de Deus. Papai jamais declarou abertamente sua fé.” O resto da quadrilha caiu na gargalhada e entrou no auditório. mas nada de beijar nem de bolinação. na semana seguinte. não houve mais nenhuma sessão espírita na casa da família Cruz. Esqueci-me de restringir as emoções. No vestíbulo. Sabia que iria embora para a Califórnia no dia seguinte. vai em frente. gritei-lhes: “Ei. eu examinava os velhos orifícios feitos pelas balas de dois anos antes. levaria com certeza a gang ao culto. Fizemos um grande esforço para levar os Mau-Maus a assistir. A pequena igreja ficou completamente lotada. Voltei a Nova York dois dias depois. e derramei o coração. antes de viajar para a Califórnia. Nicky. Ninguém se . Já estávamos na igreja havia duas horas. Um rapaz estava no canto do vestíbulo. quando os Mau-Maus começaram a chegar. Mas sua vida abrandou-se desde então. Quando entraram. posso abraçar minha garota aqui?” Respondi: “Sim. meu chapa. Preguei. e um calafrio subiu pela minha espinha. Na noite anterior à minha viagem houve uma grande concentração da mocidade na Igreja de Deus João 3:16. o pastor pediu-me para dar meu testemunho. Alguns daqueles rapazes estariam mortos ou presos. antes do culto começar. para fazer meu último ano na escola. e um dos pastores porto-riquenhos batizou minha mãe e meus dois irmãos nas águas.” Eles obedeceram de boa vontade. com uma das garotas. Depois daquela noite. Gritou: “Ei. Tirem o chapéu. Eu tinha menos de uma semana disponível em Nova York. e ele disse que se eu fosse estar presente. seu novo presidente. Virei-me e olhei para os rapazes. Mais de oitenta e cinco deles apareceram. e eu preguei mais quarenta e cinco minutos.

Nicholas. mas eles não aceitavam. e eu apelei a eles para entregarem a vida a Deus. Tornamo-nos ativos na igreja. Eu queria arranjar festinhas para a mocidade. Hector Furacão. Ficaram com vergonha de mim. Quando terminei lágrimas corriam pela minha face. Ele se encontrara mais tarde com os Mau-Maus..” Era a mesma velha história.” “Rapaz. e eles o convidaram a voltar para a quadrilha. Você se lembra? eu fui um dos rapazes que foram à frente naquela noite na Arena St. Abandonara a gang. Lembrei-me da época em que o fizera passar pela cerimônia da iniciação. e ajoelharam-se diante do altar. Furacão estava agora ajoelhado diante do altar. e todos os meus familiares foram convertidos. convidei minha família para ir à igreja comigo.. porém. Visto que fora por meu intermédio que entrara na gang. Perguntei- lhe onde vivia. da mesma forma como haviam tentado comigo. Um dos rapazes que se apresentou era meu velho amigo. era muito exigente.movia. A igreja. Disseram que os crentes eram . com você e Israel. Depois do culto. como você e Israel. por que não está morando mais com sua família?” perguntei. Várias semanas depois. “Eles me chutaram. para entrar na quadrilha. Treze rapazes foram à frente. sentia muita responsabilidade por ele. e tudo o mais. Se Israel estivesse ali. fui andando com ele até Fort Greene. e da vez em que havíamos tido uma “briga leal” e ele fugira ao ver que eu ia matá-lo por ter roubado meu despertador. Finalmente fiquei desanimado e desviei . e eu estava trabalhando com a mocidade. Furacão era o conselheiro de guerra dos Mau- Maus. “Estou morando em um apartamento abando- nado.

“Fui à frente porque. ele o . “Furacão. Ouvi o relógio da torre dar quatro horas. Dormia sobre um acolchoado estendido no chão. referindo-me ao fato dele ter atendido ao apelo para salvação. Tudo o que pensa é em ir à igreja e ler a Bíblia. como é que você apareceu esta noite?” perguntei. vagabundos. Seus pais ten- taram conversar com ele. “Algumas vezes passo fome”.“quadrados”. se você estivesse aqui. e depois desvio. Preferiu sair. É tarde. Nicky. disse ele. onde conseguira forçar um dos tapumes e esgueirar-se para dentro. eles o “evangelizaram”. Mas se você der o coração a Jesus. Quem sabe se eu voltaria para Cristo. Cada vez que me volto para ele. fazendo com que voltasse à quadrilha. Mas não consigo encontrar a solução certa. Ele é “quadrado” mesmo.” Chegamos ao edifício onde ele morava. Eu costumava ser assim. Seguiu-se uma série de prisões. e que a gang era o único grupo que tinha a verdadeira solução para os problemas da vida. nos fundos. O relógio acaba de dar quatro horas. mas ele teimou e finalmente ficaram tão exasperados a ponto de dizer que teria de sair de casa. bem dentro de mim. sinto o Espírito de Deus dizendo-me para falar isto a você.” Sentamo-nos na guia da calçada e conversamos madrugada a dentro. afeminados. se não concordasse com as regras familiares. mas agora estou de volta ao meu ambiente — os Mau- Maus. eu desejo ser correto. Gostaria que você voltasse para a gang. Nicky. Quero seguir a Deus. Na verdade. “Furacão. Todas as janelas estavam cobertas por tapumes. as coisas ficam piores. “mas prefiro morrer de fome do que pedir alguma coisa ao meu velho. e ele me contou que havia um lugar. e desde então morava em um velho edifício condenado.

levará de volta. enquanto eu profetizava para ele. viajei para a Califórnia. Nicky. Não posso.” Na tarde seguinte. apertei-lhe a mão: “Furacão. não sabia quão exatamente a minha profecia viria a ser cumprida. volto para a quadrilha amanhã mesmo. mas não tarde demais. espero vê-lo quando voltar. É tarde. Quero fazer isso.” “Hector. Capítulo 14 GLÓRIA O VERÃO PASSADO EM NOVA YORK transformou . nunca mais o verei. Mas sinto profundamente que. mas Deus o perdoará. Mas sei que se fizer. “Não vai adiantar nada. Lafayette. Você estará morto. Não posso. eu sei disso. Você sente a sua culpa. e eu não posso fazer nada. Você não quer entregar-se a Jesus agora?” Hector escondeu o rosto nas mãos e começou a chorar. Eles vão matar você. e orei para que Deus abrandasse o seu coração. “Se acontecer. você não viverá nem mais um ano se não se render a Cristo agora. Perguntei-lhe se podia orar por ele. Quando terminei. coloquei as mãos sobre a sua ca- beça. para que ele pudesse voltar a Cristo. Ele encolheu os ombros. Hector apenas balançou a cabeça. a menos que você volte para Cristo.” Estávamos sentados no meio-fio da Av. aconteceu. neste mesmo dia do ano que vem.” Levantei-me. Naquela época.” Meu coração transbordava com palavras que não eram minhas. Não posso mesmo. Nicky. Mas continuou a sacudir a cabeça e a dizer: “Não posso.

em uma cozinha cheia de . por favor”. porém. em parte. Toda vez que tínhamos alguns minutos a sós. Voltei à Califórnia resolvido a pregar. quando havíamos sentido a mesma frustração. a maior bênção. estou certo. por causa do exercício extra junto à pia da cozinha. achava quase impossível sentir-me romântico diante de uma pia repleta de pratos gordurosos. Tudo parecia conspirar para nos separar. A frustração estava me pondo louco. mas invariavelmente alguns estudantes entravam ali.minha vida. À medida que os meses voavam. e Glória enxaguando e enxugando. Não sabia quanto sentira a sua falta. meus pensamentos e meus pontos de vista. com o propósito de ficar perto de Glória. A cozinha barulhenta era tudo. lavando pratos. Não tinha encontrado. até o momento em que a encontrei de novo. Os regulamentos eram os mesmos de dois anos antes. mas descobri que podíamos manter uma conversa semi- reservada. senão quando cheguei à escola em La Puente — Glória voltara ao Instituto Bíblico. menos reservada. Minhas notas continuavam a melhorar. A situação na escola continuava ainda impossível. Mesmo levando em conta minha origem latina. comecei a apresentar-me como voluntário para serviços extra. e eu tinha um apetite de leão. contanto que estivéssemos ambos curvados sobre a pia — eu com os braços enterrados até os cotovelos em água quente e sabão. justamente na hora em que eu tentava falar a sério com Glória. mas sentia-me frustrado porque não podia expressar-lhe o meu amor. e os professores com olhos de águia observavam cada um dos nossos movimentos no pátio. alguém nos interrompia. A conversa à mesa era limitada a frases como “passe o sal. Procurava chegar mais cedo à sala de aulas. Embora eu detestasse trabalhar na cozinha. cheguei à con- clusão de que estava apaixonado por ela.

“Talvez seja melhor voltar para o meu quarto e parar de aborrecer você. “Nicky. elas vão ficar sabendo que sou eu”. Agora diga- me o que você está procurando dizer. lembrando-se de que pensavam que ela estava falando com o pai. “Não me importa que fiquem sabendo.” Fiz um tremendo esforço para encontrar as pa- . po- deria expressar-me melhor”.estudantes a cantar hinos. recebi permissão para ir à cidade. Glória estava resolvida a forçar-me a falar. quando me ouviu ga- guejando do outro lado da linha. o que é que você está procurando dizer?” cochichou Glória. em voz de baixo profundo. Estava frustrado e desesperado. Não obstante. coloquei um lenço sobre o fone e.” Ouvi as outras moças do quarto rindo. Houve uma pausa. pedi para falar com a Srta. Numa quinta-feira à noite. mas os termos certos não me vinham à mente. “Preciso encontrar-me com você”. e eu realmente não sabia como conversar com uma moça tão pura e doce como Glória.” Glória deu uma risadinha. murmurei. Parei na primeira cabina telefônica que encontrei. Quando a conselheira atendeu. Todas as minhas associações com garotas haviam sido em termos de gang. “Penso que se pudesse vê-la pessoalmente.” “Nickyyy!” escutei-a gritar. e ouvi a conselheira cochichar para Glória: “Penso que é o seu pai. “Psiu. respondi. Gaguejei e enrolei as palavras. e disquei o número do dormitório de Glória. Steffani. “não ouse colocar o fone no gancho. disse eu.

Nicky. “Queria que você saísse comigo. Finalmente. “Significa isso mesmo”. fiquei sabendo que depois que Glória pôs o fone no gancho. mas eu estava alagado de suor frio. seria maravilhoso. a um quilômetro de distância. e finalmente disse: “Estou pensando que seria maravilhoso se você aceitasse andar comigo.lavras certas. e minhas mãos tremiam como varas verdes. que eu seja a sua namorada?” “É isso mesmo o que quero dizer”. dizendo com uma voz severa: “Glória. Vou escrever um bilhete bem comprido e passá-lo a você na hora do café. disse eu. esperando a reação dela. Não é todo o dia. Percebi que ela encostou bem a boca no fone quando suspirou: “Sim. fiquei parado na cabine durante muito tempo. Tenho sentido que Deus nos vem aproximando com um propósito. amanhã cedo. disse meio acanhado. ainda vermelho e tentando encolher-me dentro da cabine telefônica. e pedir para você sair com ele?” Uma das garotas falou entre risadas: “Porque o nome do pai dela é Nicky. Glória ficou rubra. Senti meu rosto queimar embora estivesse sozinho na cabine.” Embora bem morena.” Depois de colocar o fone no gancho. A noite estava quente. por que o seu pai haveria de telefonar a esta hora da noite. Mais tarde. tinha conseguido.” Eu confessara. a conselheira olhou para ela. que uma garota recebe um . e todo o quarto explodiu em uma grande gargalhada.” Glória voltou a cochichar: “Você quer dizer que quer. Fiquei de respiração suspensa. “Andar com você? Que significa “andar” com você?” Glória estava gritando e dessa vez ouvi as moças rindo alto.

A conselhei- ra ficou indignada. Gabriel. Sr. Os alunos ajudariam a lavar e preparar o pequeno edifício. “Creio que podemos fazer um bom trabalho para Cristo com o excelente comitê que escolheu.convite do homem dos seus sonhos para ser namorada dele. que nos ajudou a encontrar uma forma pela qual o nosso amor pudesse desenvolver-se e desabrochar de maneira natural. Esta ficou totalmente ilegível. Pude perceber que a notícia de que Glória con- cordara em ser minha namorada já se espalhara. junto comigo. “O senhor é um professor muito sábio. Várias semanas depois. orientada por Deus. O Professor Castilho seria o pregador e pastor. porém. perto da escola. Esteben Castilho. . convidando o povo para os cultos na capela. Glória. tendo só a tênue luz da rua como iluminação. Senti-me honrado com o convite. passou a metade da noite com a cabeça debaixo do travesseiro.” “Quem sabe se depois que terminarem o trabalho sobrará algum tempo para outras coisas importantes”. escrevendo-me a sua primeira carta de amor. mas foi a carta mais esperada que eu já recebi. Fiquei muito grato àquele mestre sábio e compreensivo. Disse que alistara mais sete alunos para trabalhar com ele nos fins de semana. com quarenta colegas escutando tudo. e fiquei muito emocionado quando ele piscou um olho e me contou que Glória fora também convidada para servir no comitê. Os alunos deveriam sair aos sábados. que pediu-me para ajudá- lo a iniciar uma obra evangelística em S. Descobrira uma pequena capela que fora fechada e abandonada. e deu-lhes três minutos para se aprontarem para dormir. Esteben”. e ensinariam na escola dominical. replicou ele. e bater em todas as portas da vizinhança. fui abordado por um dos professores. disse-lhe sorrindo.

Compreendi isso quando voltei para a escola e vi sua transformação. retraiu-se e ficou em silêncio. Nicky. mas sempre na companhia de outros. porém. Depois. com as costas apoiadas em uma grande árvore. fomos a um pequeno parque para comer e conversar. teríamos três horas gloriosas só para nós. Naquele dia.” e . e saímos de casa em casa convi- dando o povo para os cultos de domingo. Fale você agora. “Você primeiro. Você está diferente. Nicky. conversando. De repente. Glória? Continue.” Ela começou. como era. amadureceu. “Desculpe. enquanto ficávamos ali sentados. Perdoe-me por ter falado tanto. e ela ouviu com atenção. Conte-me o que está no seu coração. Você cresceu. Os minutos se fizeram horas. mas logo as palavras começaram a fluir facilmente. e depois de uma atarefada manhã. Falei interminavelmente. Começamos a falar ao mesmo tempo — e depois rimos um para o outro. e tem grande espiritualidade. disse Glória. Quero que saiba tudo o que me aconteceu no passado.. devagar a princípio. Glória preparou um lanche de piquenique. convidando o pessoal para os cultos. No mês seguinte. absorta. embaraçados. mas há tanta coisa no meu coração. todo o bem e todo o mal. Estivera tão ansioso para contar minha vida a ela com todos os detalhes. Você não é tolo nem inseguro. “O que foi. Vejo em você uma vida que foi entregue ao Senhor. trabalhamos todos os sábados na pequena capela. Glória. e eu quero que você saiba de tudo. Finalmente... Víamos um ao outro constantemente.” “Eu esfriei muito. e ela derramou o coração diante de mim. eu e Glória tivemos oportunidade de passar um dia juntos. e ela só fizera ouvir.. Nicky. caí em mim: só eu estava falando. Eu ouço”. pela primeira vez.

” Ela baixou a cabeça e escondeu o rosto nas mãos. quero casar-me com você. eu serei sua para sempre. Os meus braços rodearam seu corpo trêmulo. “Eu o amo de todo o coração. Ficamos deitados na grama. espiritualmente sinto-me fria. Desejo aquilo que vejo em você. mas nada acontece. bem juntinhos. e nossos lábios se en- contraram em outro beijo. Ela virou-se para mim e enterrou a cabeça no meu peito. Pequei muito. Sei disso há muito tempo. os . abraçados como duas videiras enlaçadas. querido.” Ela levantou a cabeça. Estou vazia. bem dentro do meu ouvido. durante muito tempo. e alisei o seu cabelo com a mão. Embora Deus tenha me curado e mandado de volta à escola. Quero viver o resto da minha vida com você. espiritualmente.os seus olhos se encheram de lágrimas. Glória voltou a face manchada de lágrimas em direção à minha. Eu me sinto seca. “Glória.” As palavras derramaram-se da sua boca. Se Deus o permitir. Sim. enquanto estávamos ali sob a ramada da árvore. Aproximei-me e coloquei desajeitadamente o braço ao redor dos seus ombros. “Eu-eu-eu quero isso para mim. “Sim. e ficamos sentados ali. Nicky. a certeza que você tem na sua vida. Deixei-me cair de costas. e nossos lábios se encontraram em um longo e hesitante beijo de amor. subindo em direção aos céus.” Senti seus braços me enlaçarem ao redor da minha cintura. quero que seja minha esposa. Procuro orar. a segurança. E se você acha que o seu coração também pode perdoar. Nada tenho a oferecer. Quero a paz. e ela deitou a cabeça no meu ombro. e puxei-a para mim. “Eu amo você. Morta. mas Deus me perdoou.” Não nos mexemos de nossa posição.

Ela rolou na grama. Senti em minhas pernas uma sensação de quei- madura. pude dizer a Glória que ela podia virar-se. gritou “o que foi?” “Formigas”.. Lutei freneticamente com a fivela do meu cinturão. Tornou-se mais aguda. “Vire-se! Não olhe!” gritei. “Olhe para o outro lado! Depressa. com ar incrédulo.” começou ela. e fez menção de virar-se.. “Vire-se! Vire-se!” gritei. De repente. e virou-se. batendo furiosamente nas pernas. “Nicky. mas o passado ainda estava dentro de mim. e soltei-a. Levei muito tempo para afastar todas as formigas. Glória me olhava de olhos arregalados. Tive que bater as calças numa árvore. gritei. . Ela compreendeu o que eu estava fazendo. empurrando-a para trás. chutei fora os sapatos.” Ela virou-me as costas e olhou para o parque. obedientemente. nada parecia interromper o seu ataque sem tréguas e o seu avanço para cima. Não adiantou. Deus estava perto. dando tapas nas pernas e coçando-me. Por mais que batesse na calça. Minhas meias estavam cobertas de pequenos demônios vermelhos. Finalmente. “Nicky”. para fazê-las cair. ergui-me de um salto. Estava eu para contaminá-la com desejos pecaminosos? A sensação de fogo continuava a subir por minhas pernas. enquanto eu corria em círculo. Eu as sentia andando às centenas pelas minhas pernas. Algumas tentavam penetrar debaixo da minha pele.braços ao redor um do outro. “Milhões de formigas! Estou coberto delas!” Comecei a correr. Surgiu na minha mente o pensamento de que aquela era uma das mais belas criaturas de Deus. em um apertado abraço. de comichão.

quando ela se ajoelhou diante do altar e curvou a cabeça em oração. “sei que ela é para mim. Castilho impôs as mãos sobre nós e orou. e eu coxeando. arranjou para eu falar em uma pequena igreja onde os cultos eram feitos em espanhol. em Oakland. fui escalado para pregar na missão de S. quando dei meu testemunho para o pequeno grupo de gente humilde que viera ao culto. e o Sr. Eu passava os dias com Glória. Senti o Espírito de Deus sobre mim. Estava comprando uma grande casa . Gabriel. Rev. recebi outra carta de Davi. Glória providenciara para que eu ficasse com amigos. Mas.” No dia seguinte. fiz o apelo. Tentei não perder a calma. Ajoelhei- me ao lado dela. “Senhor”. Ela foi andando. domingo à noite. ali naquela pequenina igreja. As formigas foram uma prova. e peço que nunca mais pre- cises disciplinar-me de novo. No fim do culto. Senti a mão de Glória apertar meu cotovelo. Observei Glória quando ela escorregou do seu assento. Seu pastor. agradeci a Deus por Glória — e pelo poder protetor do seu Espírito. e veio à frente. ao fundo. disse eu sob a cascata que se derramava do chuveiro. De pé sob a água fria. enquanto o Espírito de Deus enchia seu coração. fui para sua casa. palavra. e esfregando sabão nos vergões vermelhos que cobriam minhas pernas. a Missão Betânia. No Natal. Louvo o teu nome por me teres provado. Nossos olhos prenderam-se num abraço. Nada poderia ter me feito mais feliz. A mão de Deus estava sobre nós dois. pois ela estava rindo. Sanchez. Voltamos para a escola. que eu não conseguia ver nada de engraçado naquilo. Na primavera do meu último ano. e pregava à noite. Deixei-a defronte ao dormitório das moças. e fui direto para meu quarto e para o chuveiro. visto os pais dela não simpatizarem com seus estudos no Instituto.

Nós nada tínhamos e de nada precisávamos. Era muito pequeno e tosco. Davi contratara os serviços de um jovem casal para morar no casarão. Eu sabia que não poderia voltar sem ela. Pensávamos ter de esperar mais um ano. até que Glória terminasse o seu curso. a poucos quarteirões do Conjunto Habitacional de Fort Greene. e disse-lhe que eu precisaria orar antes de tomar uma decisão. antes de nos casarmos. Eles prepararam um pequeno apartamento para mim e Glória em uma garagem. ficava no coração de um velho bairro residencial do Brooklin. Respondeu que ficaria esperando minha decisão. e parecia que Deus queria que eu voltasse para Nova York. como supervisores. na Av. Naquele verão. Convidava-me para voltar a Nova York depois de receber o diploma. Quando Davi começou a desculpar-se . Clinton. O chuveiro ficava do lado de fora. para aceitar o oferecimento de Davi. Tínhamos um ao outro. Conversei àquele respeito com Glória. mas para nós era o céu. e começamos o nosso trabalho no Centro Desafio Jovem. A enorme e velha mansão de três andares. e a única cama era um sofá. e que Glória também seria bem-vinda. e um desejo abrasador de servir a Deus a qualquer custo. alguns estudantes tinham ido ali e tinham dado uma limpeza no edifício. nos fundos da casa. a fim de começar o ministério.velha na Av. Escrevi a Davi. e trabalhar no Centro Desafio Jovem. Clinton. as portas estavam se abrindo. Parecia que o Senhor estava nos forçando a aceitar os seus planos. 416. Mas agora. Disse-lhe também que Glória e eu queríamos nos casar. Resolvemos casar em novembro. e um mês depois chegamos a Nova York. para abrir um centro para adolescentes e viciados em entorpecentes. pegado ao edifício principal.

Tivemos um grande “quebra-pau” com os Apaches. “Quem foi ?” “Furacão. “Depois que falou com você. “Vamos descer para a rua. e perguntei-lhes: “Onde está o Furacão?” “Converse com Steve.” “Como foi que aconteceu?” perguntei. Pouco antes do Natal.por nossas acomodações pobres e pequenas. ele ficou muito impaciente. e queria encontrá-lo e trabalhar com ele pessoalmente. Ele vivia sozinho no quinto andar de . Eu temia a verdade. e ele portou- se como um selvagem. Nunca o vira daquele jeito. mais dois rapazes e eu. mas fui ao apartamento de Steve. fomos matar um Apache. e eu lhe contarei. disse um deles e os rapazes se entreolharam. o nosso presidente. ele contará o que aconteceu”. Não quero que a minha velha escute. naquela noite antes de sua volta para a Califórnia. Gilbert. e paramos no saguão do edifício. lembrei-lhe que servir a Jesus nunca era sacrifício — mas uma honra. Meu coração sentira o peso da res- ponsabilidade por Hector Furacão. até os Mau-Maus. três meses depois ele levou a dele. E então. agora que voltara para o Brooklin para ficar. procurando matar todo mundo que atravessasse seu caminho.” Steve sacudiu a cabeça e olhou para a parede. “O que aconteceu a Hector?” perguntei-lhe. e Steve me contou a história. para nos resguardar do vento frio. sentindo já a depressão borbulhar em meu coração e pulmões. voltei a visitar a zona dos Mau-Maus. Descemos as escadas. Encontrei um grupo de Mau- Maus na confeitaria. fazendo com que a minha respiração se tornasse ofegante e curta.

indo encontrar Furacão em pé. e morreu. Gilbert disse que a ponta estava aparecendo nas costas. descobrimos que aquele não era o cara. Furacão estava com um revólver. Estava escuro.” Minha garganta estava seca. com aquela baioneta inteira cravada nele. Mais tarde. e depois ouvimos um grito terrível: “Ele me matou! Ele me matou!” Não sabíamos quem era. e chorava. Não conseguíamos ver nada. e minha língua pa- recia como se eu tivesse enrolado algodão nela. em direção ao seu apartamento. e pensamos que Furacão matara o Apache. para o corredor.um prédio de apartamentos. viu Furacão com o revólver. para ver se alguém estava pro- curando ouvir. Todos os rapazes se espalharam e . atravessando seu ventre. Furacão disparou o revólver três vezes. Está- vamos em pânico. Ele estava como um louco. Havia uma lâmpada acesa. Abrindo rapidamente a porta. brandindo a baioneta. Pulou para fora. que Furacão não estava conosco. e depois caiu no corredor. mas o careta era esperto. Saímos correndo escada abaixo — cinco lances de degraus. Gaguejei: “Por que vocês o deixaram lá?” “Porque estávamos todos amedrontados. então. Disse que tinha medo de morrer. O Apache voltara correndo para o quarto e trancara a porta. Gritou algo a respeito das batidas do relógio. encostado na parede. com aquela enorme faca enterrada. Ele se apoiara à parede. Gilbert saiu correndo e subiu as escadas. “Vimos. sobre a baioneta. e implorava a Gilbert que não o deixasse morrer. e nós fomos com ele para ajudá-lo. e chegamos à rua. mas Furacão resolvera matar aquele mesmo. Hector estava com medo. e ele a estourou com a baioneta. Nunca tínhamos visto ninguém morrer assim. Batemos à porta do sujeito. e dando golpes para todos os lados. no teto.” Steve virou-se e olhou escada acima. brandindo uma baioneta de sessenta centímetros.

o que você acha que ele quis dizer sobre o relógio?” Balancei a cabeça “Não sei. que outrora se satisfaziam em fumar maconha e beber vinho. mas não conseguiu provar nada. Davi Wilkerson escrevera um pequeno folheto que chamávamos “Folheto Galinha”. além de quarto e comida. nas ruas de Brooklin e de Harlem. A cada passo parecia ouvir as batidas do relógio da torre na Av. murmurei. Continha mensagem para os jovens. esbanjávamos a maior parte dos nossos dez dólares. Mas. não me deixe afastar outra vez de um amigo. “por favor. eu nunca mais o verei. mas não demais. Dado o fato de que o pequeno apartamento na garagem não tinha cozinha. deixando de ser “covardes” (galinhas). Era o nosso único prazer extra na vida. Ficou evidente.” Estava atordoado enquanto voltava à Av. todas as semanas. Ficamos muito chocados com tudo o que aconteceu. Por isso. se você não entregar seu coração a Cristo. Muitos dos membros das quadrilhas. Glória e eu gostávamos muito de comida espanhola apimentada. imediatamente. A polícia foi lá. Começamos o trabalho nas ruas. Distribuíamos aquele folheto aos milhares.fugiram. Flatbush e minha voz dizendo a Hector Furacão: “É tarde. tomávamos as refeições na casa grande. e soltaram o Apache. e Steve me perguntou: “Nicky. desafiando-os a aceitarem a Cristo. que a nossa obra mais importante seria entre os viciados em entor- pecentes.” Meu salário inicial era de dez dólares por semana. Mas no Centro. em comida. . Clinton. sem tentar um pouquinho mais. precisávamos comer alimento bem equilibrado. haviam começado a fazer uso de heroína.” Virei-me para sair.” “Deus querido”. Até mais tarde. Hector.

qualquer coisa disponível para obter dinheiro suficiente para alimentar o vício. uma gang do outro lado da cidade. de madrugada. Arranjam dinheiro em furtos. “Venha ao Centro Desafio Jovem. só isso? Bem. pelo poder de Deus. meu chapa. ouvi sua história. e ofereci-lhe refúgio no Centro . Nosso método era ousado. Conheci-o certa noite. leite das portas. meu chapa. “Ei. A maior parte do tempo era gasta andando entre grupos de jovens que estavam pelas esquinas. Os viciados não trabalham. batendo carteiras e pegando “otários” no conto do vigário. Aproximávamos de grupos de rapazes que estavam parados nas esquinas. planejando roubos ou procurando descobrir como se livrar de coisas roubadas. há pequenas turmas de oito a dez pessoas pelas esquinas. mas como?” respondiam eles invariavelmente. Seu nome era Pedro. Era um rapaz alto. que vivera com uma mulher casada. e outros “contos”. Roubam roupas dos varais. conversando. O homem era membros dos Scorpions. Roubam bolsas de senhoras. Você pode dar um pontapé no vício. Nós vamos orar por você. e entabulávamos conversa. Fora um Mau-Mau. Cremos que Deus responde às orações. Clinton. Na época do Natal.” Dávamos-lhes um exemplar do folheto “Galinha”. roubam os móveis e vendem. Um dia o marido dela encontrou-o em um bar. Eles entram em apartamentos fechados. de cor. “Puxa vida. enfim. e Pedro feriu-o com uma faca.” Foi um começo muito vagaroso. quer largar o vício?” “Sim. talvez eu telefone para vocês. ou apareça lá algum dia. na Av. tivemos o primeiro convertido no Centro. e Pedro ouviu falar que estavam atrás dele. Por toda a parte em Williamsburg.

o que é que há ?” Foi o bastante. Você não entende. Nos fins de semana. massageando-lhe as costas e confortando-a.” “Entender o quê?” Estava confuso diante da sua atitude hostil. Ele aceitou de boa vontade. Durante os três meses que se seguiram. Nicky. Esgueirando-me para debaixo das cobertas. menina. em março. “Aquele parasita do Pedro! Será que ele não compreende que quero passar um pouco de tempo sozinha com você ? Faz apenas quatro meses que estamos casados. fui dormir tarde. em nosso pequeno apartamento de dois cômodos. quando percebi que ela estava chorando. ele seria capaz . Pensei que ela estivesse dormindo. para não acordá- la. e me despi silenciosamente. Ele tomava todas as refeições conosco. Glória? Você não está se sentindo bem. Glória já se havia aninhado em nosso sofá- cama. tendo Pedro como nosso hóspede. “Ei. no quarto da frente. até que ela se acalmou suficientemente para podermos conversar. Fiquei ao seu lado. e nunca entenderá. Três dias depois que se mudou para o Centro. Ia conosco a todos os lugares aonde fôssemos. e ele tem de ir conosco a todos os lugares onde vamos ? Se no banheiro não coubesse só uma pessoa. aceitou a Cristo. o que foi ?” “Não é nada.Desafio Jovem. enquanto ela soluçava. coloquei o braço em torno de seus ombros. Pedro sempre ia conosco . “O que há. entregando sua vida ao Senhor. Glória e eu passamos o nosso primeiro Natal depois de casados. como de costume. Uma noite. íamos de metrô a várias igrejas. vivemos e respiramos Pedro. “Aquele parasita!” Glória exclamou. as lágrimas vieram com soluços. para assistir cultos. Senti seu corpo sacudindo-se sob o meu braço.

afinal de contas? Um Deus que o soltará no mundo. Ou você está casado comigo. eu não quero saber desse negócio. está. Um de nós precisa ir embora.” “Mas. Precisamos conservá-lo aqui. Pelo menos. ou você vai dormir com Pedro. ele é o meu primeiro convertido. Você devia estar agradecendo a Deus. “nem parece que você é a minha Glória.de pedir para tomar banho conosco . se um homem tem uma experiência de conversão. Se eu o mandar de volta para a rua.” “Talvez seja isto que está errado entre você e ele. devo poder passar algum tempo com você sem ter aquele Pedro de dentes arreganhados por perto. Você não pode ter nós dois. “Mas. dizendo o tempo todo: Glória a Deus!” “Você não está falando sério. a primeira vez em que ele se encontrar em dificuldades ? Não creio nisso. Glória?” “Nunca falei tão sério. Eu me casei com você. Estou falando sério. eu não quero partilhar você com outras pessoas.” “Ei. ou os Scorpions o matarão. ele voltará diretamente para a quadrilha.” “Bem... E se formos obrigados a bancar a ama-seca para todos esses rapazes que você está convidando a vir aqui. Se fosse um convertido do Senhor. se ele voltar para a quadrilha. Deus é suficientemente grande para guardá-lo para sempre. querida. escute. você não precisaria ficar tão preocupado com o . Glória. Ele é o seu convertido. Devia sentir-se orgulhosa. Que espécie de Deus Pedro tem. acalmei-a. e você é o meu marido.” “Ei.” A voz de Glória alterou-se enquanto ela falava. vamos”. Creio que. o tempo todo. então há algo errado com o seu Deus. Ele é o nosso primeiro convertido. Nicky.

Entrei na capela. temos a obrigação de providenciar um lugar para ele ficar. Deixe-me dizer-lhe uma coisa. em vez de ficar atrás de nós o tempo todo.” “Você não precisa me partilhar com ninguém agora. e que não é capaz de livrar-se do vício.” O rapaz levantou a cabeça e olhou-me inexpressivamente. comecei a falar-lhe francamente. ao mesmo tempo que deitava a cabeça no meu ombro e aconchegava-se a mim.” “Mas. e ver se ele pode encontrar alguma coisa para fazer. é um farrapo.perigo dele voltar para a quadrilha. Ele pode ajudá-lo. Deus se importa. Era o primeiro viciado em entorpecentes com quem eu trabalharia . Glória. Fiquei sabendo mais tarde que fora criado em um lar religioso. disse que o seu nome era Sonny. “Sei que você é viciado.. Nicky. Ficou com a cabeça curvada. “Certo”. Passando o braço por sobre os seus ombros. murmurou ela. sentado num canto. Só isto. dirigi-me a ele e sentei ao seu lado. Percebi logo que ele era viciado. E lembre-se. mas fugira de casa e fora parar na . enquanto eu falava. pode ser que você esteja certa. o que eu não quero é partilhar você com os outros. Sonny chegou no último dia de abril — junto com uma predição de neve em maio. que o Senhor me chamou para esta obra. Certo?” Abracei-a carinhosamente. e notei um rapaz de rosto muito pálido. Finalmente. o tempo todo. e você concordou em vir comigo. Percebo que já está “fisgado” há muito tempo. E amanhã eu vou falar com Pedro. Pensa que ninguém se importa com você. aquela noite.. Mas assim mesmo. olhando para o chão.” “Bem.

” A senhora parava de gritar chamando a polícia. Teve de deixar o vício “na marra” nas várias vezes que passou pela cadeia.” “Não”. que eu volto em um minuto. disse eu.cadeia vezes sem conta.” “Eu levo você. eu disse : “Quero orar por você. Quando ela começava a gritar. de amor. “Você não pode fazer isso. vamos ficar com você aqui”. e enquanto ela ficava esperando. “Deus está me usando para ajudá-lo. Fique conosco aqui no Centro esta noite. Sonny disse : “Preciso ir para casa. Espere aqui. Ele está morrendo. Estava “fisgado” irremediavelmente. “Não”. Conheço aquele ladrão. disse eu. mas ao sair. Ajoelhado a seu lado. Vou buscar sua bolsa. Você precisa de Jesus em sua vida. na capela.” “Você está aqui porque Deus o mandou”. Nem sei mesmo por que estou aqui.” Quando terminei. Eles vão me sentenciar a prisão. voltava aos entorpecentes. “preciso ir ao tribunal amanhã cedo. e arrebatava a bolsa de uma senhora. Por misericórdia. ajuda este rapaz. Ele precisa de esperança. Sonny saía correndo para juntar-se ao amigo e dividir o despojo. e comecei a chorar enquanto orava : “Senhor.” Eu sabia que ele estava dando um jeito de escapar para tomar uma “picada”. Então. Só tu podes ajudá-lo.” Senti uma onda de compaixão encher meu coração. Seu companheiro saía correndo pela rua. respondeu com expressão de pânico no rosto. Sonny era um viciado que tinha um meio singular de conseguir dinheiro para alimentar seu vício. Sonny aproximava-se dela e dizia: “Não grite. respondeu. ajuda-o. minha senhora. amanhã irei ao tribunal com . por uso de droga e por roubo.

Trepou na mesa e tentou pegar o juiz. eu lhe disse: “Sonny. fazendo com que adie o julgamento do caso de Sonny.você. finalmente ele disse : “Por alguma razão. O terceiro rapaz que foi julgado começou a gritar quando o juiz pronunciou sua sentença. e eu prometi encontrar-me com ele às oito da manhã. Olhando por cima dos óculos.” Sorriu. e Sonny apresentou-se ao oficial de justiça. por uma porta lateral. Quando o arrastaram para fora.” Sonny pôs-se de pé nervosamente. ficou junto aos outros acusados. e o juiz enxugou a testa e disse: “O seguinte. para que ele possa tornar-se crente. Muito obrigado por responderes à minha oração. Quando estávamos subindo os degraus do grande edifício. vamos ouvir o juiz dizer que vai adiar o seu caso. Todos os que estavam na sala de audiência ficaram de pé. Ele me porá na cadeia antes do meio-dia. e sentenciou os rapazes a prolongados períodos de prisão. eu te peço em nome de Jesus que mandes o teu Espírito Santo tocar aquele juiz. ele gritava e dava pontapés. Amém. Aquele juiz sem-vergonha nunca adia nada.” Ele insistiu em ir para casa. e eu me sentei no fundo da sala. gritando que ia matá-lo. Depois. Depois disso.” “Vai ser difícil. enquanto o magistrado folheava seu processo. Tomei-o pelo braço: “Vamos. para que você possa deixar o vício e conhecer a Cristo. O juiz ouviu três casos. pode ser até que ele absolva você.” Entramos na sala de audiência. No dia seguinte. enquanto os policiais derrubavam o rapaz e o algemavam. vou orar para que Deus faça com que o juiz adie o seu julgamento por dois meses. sua .” Sonny olhou para mim como se eu estivesse louco. Espere para ver. Parei nos degraus do tribunal e comecei a orar em voz alta: “Senhor. fui com ele ao tribunal.

Deixar a heroína “na marra” é uma das expe- riências mais agonizantes que se pode imaginar. até que passasse pela prova. não dá para largar o vício. para tomar um lanche. Arrastei-o de volta até a calçada. então ao nosso quarto no terceiro andar. onde caiu. apertando o estômago com ânsias de vômito. para esperar e orar. e ele recuperasse as forças. avisei a Glória que passaria os três dias seguintes com Sonny. Levantei-o. Nem bem havíamos saído do Centro. Por isso. Na madrugada do segundo dia. Fiquei sentado a seu lado noite a dentro. Sorri e fiz sinal para que ele viesse comigo. quando ele começou a vomitar. Arrumei uma vitrola com discos evangélicos. eu não consigo. Às vezes ele conseguia escapar de mim e corria para a porta. Fui longe demais. Quero que você se apresente de novo daqui a sessenta dias. até que os tremores passassem. e precisávamos iniciá-la. enquanto terríveis crises de calafrio se sucediam e seu corpo era violentamente sacudido. Quando a noite se aproximava.” Sonny virou-se e olhou para mim com os olhos cheios de incredulidade. e segurei sua cabeça no meu colo. Pre- parei um quarto para Sonny no terceiro andar do Centro. Sugeri que déssemos uma volta no quarteirão. e resolvi ficar sentado ao lado dele naquele quarto.” . os dentes castanholavam. mas ele safou-se de mim e foi cambaleando até o meio da rua. Preciso de uma “picada. Curvou-se sobre a calçada.investigação preliminar não está completa. seu tremor di- minuiu. Tínhamos uma tarefa difícil pela frente. e ele não podia sair. Naquela noite ele começou a tremer. e eu o levei para baixo. Eu sabia que seria necessária constante su- pervisão. mas eu a trancara. No primeiro dia ele ficou desassossegado. chegando até a fazer vibrar o quarto todo. ele começou a gritar: “Nicky. Voltamos. andando pelo quarto e falando rapidamente.

Tentei outra vez fazê-lo engolir algum alimento. mas eu não tinha mais forças. Sonny poderia escapar. mas havia quarenta e duas horas que eu não dormia. a ponto de eu pensar que o seu estômago ia virar pelo avesso. vamos atravessar juntos esta prova. Deixe-me ir. e senti meu queixo cair sobre o peito. Tentei lutar para afastá-la.. “Não. e desaparecer. Pelo amor de Deus. mas devolveu tudo na mesma hora. Duas vezes levantou-se agitadamente e tentou alcançar a porta. sentado na cadeira ao lado da cama. e passamos ali a noite inteira. deixe-me ir.” Sentei-me com ele. O brilho melancólico das lâm- padas da rua refletiam-se no grande quarto simples do terceiro andar do prédio.” No dia seguinte eu estava morrendo em pé. Sonny. Banhei sua cabeça com toalhas molhadas. Não me segure aqui. Pelo amor de Deus eu não deixo você ir.” “Não. e cantei para ele. Por volta de meia noite. so- bressaltado. Você é precioso para ele.. liguei a vitrola no último volume. Da última vez tive de agarrá-lo e arrastá-lo de volta para o leito. Estávamos perto da vitória. mas não pode fazê-lo enquanto este demônio possuir você. Não pensava que tivesse . e dando repelões. Sabia que se caísse no sono. Pelo amor de Deus. e orei até o por do sol. Sonny. senti a nuvem negra do sono cair sobre mim. Deus lhe dará forças para vencer. Ele caiu num sono espasmódico. vou segurá-lo aqui até que esteja bom de novo.” Acordei assustado. Preciso dela. “Talvez se fechar os olhos só uns minutinhos. Por favor. Nicky. acompanhando os cantores dos discos. Sentei-me ao lado da sua cama. gemendo. Quero uma “picada”. Ele suou frio e teve náuseas terríveis. por favor. Ele quer usá-lo.” “Não quero força nenhuma.

Nunca vi coisa mais bela. e murmurei : “Obrigado. ao lado da janela. com seus minúsculos brotos delicados que começavam a surgir. Seus olhos estavam claros. É indescritível. Sua face mostrava-se radiante. Senti uma onda de alívio. e a voz firme. e os ramos das árvores. Eu olhava para ele. Ele me libertou da escravidão. Ele sorriu para mim : “Deus é bom. Estava vazia. sua língua não estava grossa. Faziam-me lembrar de uma figura de cartão de Natal. brilhavam devido à neve branca e fofa que os cobria. ajoelhando-me nas tábuas nuas. Cada floco macio reluzia individualmente. quando flutuava diante da luz das lâmpadas. A rua e a calçada confundiam-se debaixo de um só tapete de um branco imaculado. ao lado dele. Nicky.” Pela primeira vez deixei Sonny a sós. Os cobertores estavam em desordem. perto da janela. “É maravilhoso. Tinha a cabeça descoberta. Olhei para a cama de Sonny. obrigado. e você?” disse Sonny. e me aproximei devagar da janela. Senhor. Levantei-me de um pulo. Esta noite ele me libertou de um destino pior do que o próprio inferno.dormido mais do que alguns segundos. quando o vi ajoelhado no assoalho. nem sua fala pastosa.” Olhei para fora. admirei o quadro delicado de beleza pura que estava diante de mim. Ele é maravilhoso.” E ouvi Sonny murmurar : “Muito obrigado. e jogados de lado. caindo ao chão. e a neve . atravessei o pátio coberto de neve fofa. mas algo dentro de mim me advertia de que dormira muito mais do que isso. Uma nevada primaveril caía suavemente. e refletia na calçada a luz dos postes. e saí em direção à porta. em direção ao meu apartamento. Ele fora embora! Meu coração pulou para a garganta.

mergulhando o quarto em completa escuridão. Glória. “Uma nova vida nasceu para o reino. Com as mãos ela acariciou meu rosto e minha cabeça. enquanto eu subia os degraus exteriores. cobrindo tudo o que era escuro e feio com um lençol maravilhosamente branco. Não tenho tido tempo de falar com você. Sentando-me ao lado dela. Nicky. “Oh. pousei a cabeça suavemente no seu ventre macio. Sonny levou-nos a co- . cobriu meu cabelo e rangia suavemente debaixo dos meus pés. “Sonny encontrou-se com Cristo”. enquanto observávamos a neve suave e fofa amontoar-se silenciosamente no chão. A exaustão me dominou e caí num sono profundo e sossegado. e apertei-a amorosamente contra mim. muito!” Suavemente. Então. Carreguei-a para o sofá. Houve uma longa pausa. disse Glória de manso. “Quase três da manhã”. Encontramo- nos na soleira da porta. e Glória abriu a porta.gélida. Depois de sua conversão. “Sonny não é a única nova vida que passou a existir. respondi. que caía tão mansamente. cheio de amor e alegria. passei os braços por trás dos joelhos dela. disse eu. também. Dei um pontapé na porta. como a inocência. e coloquei- a carinhosamente na cama.” “Eu te agradeço. Vamos ter um nenê. admirando o maravilhoso quadro diante de nós. “Que horas são ?” perguntou ela estremunhada. e vagarosamente levantei-a no colo. mas há uma vida nova em mim. eu amo você! Eu a amo muito. Bati de leve. que se fechou com um estalido. curvei-me.” Puxei-a para mim e estreitei-a junto ao meu peito. e ficamos na soleira da porta. aconchegando-me ao máximo à nova vida que estava ali dentro. senti o braço de Glória apertar minha cintura. porque tem estado tão ocupado nestes últimos três dias. Jesus”.

e mu- dou-se. a cozinha. Não obstante. quando viajou para La Puente.nhecer o escuro submundo da grande cidade. Pedro alugou um apartamento em Jersey. Glória e um dos rapazes saíam duas vezes por semana para apanhar membros de gangs e trazê-los ao Centro. para supervisionar o trabalho. a necessidade de viver na mesma casa com quarenta viciados em psicotrópicos não propiciava uma vida de calma e paz. Esperava que depois que nos mudássemos para o casarão. isto ajudaria a diminuir a tensão que Glória sentia. mas Sonny ficou até setembro. O dormitório dos homens ficava nos fundos do segundo andar. tive de fazer uma viagem de emergência a Porto Rico. Davi mudara-se para uma casa em Staten Island. No primeiro. pois eu passava todas as horas disponíveis com os viciados. A maioria era constituída de adultos. e eu e Glória mudamo-nos para lá. embora como diretor estivesse encarregado dos dois grupos. para os cultos. Papai morrera. Abrimos o terceiro andar para recolher as mulheres. e eu trabalhava com os rapazes. e o número de pessoas que eram atendidas no Centro cresceu. e in- troduziu-nos no reino dos viciados. Naquele mesmo verão. Glória e eu passamos muitas horas nas ruas. . Frank. No outono de 1962. o refeitório e uma sala grande que usávamos como capela. havia o escritório. distribuindo folhetos. Glória ajudava a cuidar das moças. e dos criminosos. bem poucos adolescentes. Tínhamos contudo. A tensão continuou. Glória e eu tínhamos bem poucos momentos a sós. das prostitutas. Mamãe enviara um cabograma a Frank. e vinha ao Centro todos os dias. o apartamento do segundo andar do Centro foi desocupado. quando estava na cidade. Compramos uma Kombi. Gene e eu voamos para Porto Rico com nossas esposas. onde foi cursar o Instituto Bíblico.

Eu ansiava por ficar algumas horas com elas. sabia que suas mentes severamente prejudicadas pelas drogas eram capazes de qualquer coisa. realizei aquela cerimônia com a certeza de que houvera uma transformação na sua vida. durante os longos dias que passava sozinha. Nenhuma outra mulher teria podido agüentar uma vida daquelas. continuaram vivendo no meu coração. afastava-me do lar desde o alvorecer até a meia-noite. visto que agora ela possuía alguém com quem repartir seu amor. por ocasião do sepultamento do meu pai. sem dúvida. pois embora eu amas-se os viciados. seria capaz de julgá-lo de acordo com o seu coração. na solidão de nosso apartamento. Alicia Ann nasceu em janeiro de 1963. na sua misericórdia. mas o desejo dominante de ministrar aos farrapos humanos viciados em entorpecentes. Glória falou-me de Maria. e embora papai jamais tivesse aceitado abertamente a Cristo como filho de Deus. . Ajudou a preencher um vazio na vida solitária de Glória. a escolha certa de Deus para mim. Ela fora. Mas nunca fiquei sabendo quantas noites Glória ficou chorando sozinha até dormir. Recomendei-lhe que não deixasse ninguém pegar o bebê. Capítulo 15 PASSEIO AO INFERNO EU PASSARA DOIS DIAS FORA da cidade. Tinha vinte e oito anos. quando voltei. Eu retornava como pastor evangélico. e que Deus. O “Grande” estava morto — mas as recordações de um pai que eu aprendera a amar.onde eu dirigi um culto.

“Esta noite”. enquanto não estiver disposta a morrer para você mesma. falei-lhe a respeito do perfeito amor de Deus. Aproximei-me dela e coloquei a mão no seu ombro.” Antes . Ela escondeu o rosto nas mãos e começou a chorar. na pequena capela. tão lindo. “Estou disposta a fazer qualquer coisa para escapar. Glória levou Maria ao meu es- critório. “Maria.” Expliquei-lhe que ela estava experimentando o que a Bíblia chama “arrependimento”. “tive a estranha sensação de que desejava libertar-me desta vida inútil. Deixe-me falar-lhe de Jesus. sepultada e esquecida para sempre?” “Sim. soluçou ela.” “Está disposta a morrer para o “eu”?” perguntei.. sim. Enquanto você pregava. sofrendo ainda a privação da droga. pela primeira vez na vida. reprimindo as lágrimas. tão esplêndido que pode mudar até mesmo uma pessoa como você tornando-a pura e santa.Fora recolhida da rua meio congelada. que foi derramado sobre nós em Jesus Cristo. tive um estranho sentimento de que realmente desejava morrer para esta vida miserável.. ao pregar naquela noite. quer morrer para a sua velha vida ? Quer que a velha vida de drogas e prostituição seja condenada à morte. Não obstante. Diga-me. Ela gaguejava o tempo todo. vamos ficar de joelhos e orar. e no limiar da morte. disse ela. sim”.” Durante cerca de dez minutos. “Sim”. Não consigo entender isso. “Maria. Glória pediu-me que pensasse especialmente nela. com sintomas agudos de privação de heroína. eu quero viver. respondeu ela. Depois do culto. você não pode receber o amor de Deus. “até isso.” “Então deixe-me falar-lhe a respeito de um amor tão maravilhoso.

Maria caíra de joelhos no assoalho. “Foi Johnny quem me ensinou a fumar maconha. Remontamos à época em que Ma- ria tinha dezenove anos. Maria. Senti que a represa se rebentara. para uma nova vida em Jesus Cristo. e eu achava tudo muito di- vertido. Tinham dito que não havia problemas. Maria nascera de novo. ela entrou em meu escritório. “Fale. literalmente. qual era o efeito?” Ela relaxou o corpo na cadeira. respondeu ela. senti que eu mesma estava flutuando quilômetros e quilômetros . disse eu. contanto que não se lançasse mão de coisa mais forte.” Maria parou. e ela queria deixar o Centro. abandonando o Centro alguns dias antes. Deixei-a falar. “Eu sentia que os problemas.que eu terminasse de falar. Minhas amigas haviam-me contado sua experiência com a erva. e começou a contar-me a história. “Maria”. e pensei como sua atitude era típica das dezenas de viciados que estavam se apresentando no Centro. mas senti que ela precisava desabafar. “nada em minha vida é tão importante como o seu futuro.” Ela concordou. nas caladas da noite. Levantei-me e fechei a porta. já se rendera à pressão da droga. “Certa vez. quando começara sua descida ao inferno. Johnny parecia ter sempre um bom suprimento de “pacaus”. voavam para longe de mim”. com os olhos semi-cerrados. como se lembrasse daqueles primei- ros dias. A necessidade que sentia da droga estava se tornando insuportável. Noventa por cento deles tinham começado com maconha e depois tinham ido além. Percebi o que vinha a seguir. e tirara o diploma do ginásio. viciando-se em nar- cóticos. Johnny. Falemos a respeito do que aconteceu em sua vida. seu namorado. Um mês depois.

Não senti nada quando ele tirou a agulha. fazendo gotejar o potente líquido na parte mais larga da agulha hipodérmica. Ele vinha falando disso há semanas. “Johnny. . e em seguida acendeu um fósforo sob a colher. apertou o conta-gotas. sendo esta a forma mais terrível do vício. Eu estava mentalmente “fisgada”. depois de ter chorado o dia inteiro. até que a veia saltou como um grande caroço. Parti-me em milhões de pedaços que voaram. O que ela fazia era apenas aguçar em mim um desejo de algo mais forte. Então comecei a partir-me em pedaços. que deixei-o prosseguir. Outra vez. garota”. “Nada disso. Os braços e pernas deixaram meu corpo.” Ela parou de novo. bem apertado. sob a minha pele. com o conta-gotas. “Mas a maconha não era suficiente. As mãos saíram dos punhos. no espaço. Deixando o conta-gotas de lado. Naquela época eu nada sabia a respeito do vício de narcóticos. furou minha veia com a ponta da agulha hipodérmica. Meus dedos soltaram-se das mãos e voaram para longe. moveu a agulha para baixo e para cima. Então. pouco acima do cotovelo. um pó branco e semelhante a açúcar. mas ele me garantiu que tudo iria sair bem. em meu braço. até o líquido ferver. Não sabia então. até o líquido desaparecer na veia. Johnny chegou então com a agulha e a colher. Amarrou um cinto em torno do meu braço.acima da terra. mas ele parecia tão certo de que aquilo me ajudaria. sugou a heroína agora dissolvida. relembrando. “Foi Johnny quem me deu a primeira “picada”. Certa tarde. Adicionou água com um conta-gotas. levados por uma brisa suave. não estou boa”. cuidadosamente. você está bem. respondeu. com perícia. mas acabara de me tornar uma viciada que injeta narcótico diretamente na veia. disse eu. Esvaziou na colher o conteúdo de um envelope. Depois. parecia que tudo ia mal. Eu sabia o que ele ia fazer.

acima de mim podia ver a face sorridente de Johnny. Tinha a impressão de que me elevava em direção ao forro. “Hoje não.” “Johnny sorriu: “Não tem. e uma sensação quente.” Eu começara a minha incursão no inferno. Eu não tenho tempo nem dinheiro. Comecei a ter ânsias. Depois disso. “Na semana seguinte. “Escute. Es- queça. Logo relaxei os músculos. você está começando a me custar caro. Não o sabia então. eu gosto de você e tudo o mais.” “Por favor. Johnny não precisava mais sugerir. Prometi. eu é que pedia. Johnny. boneca ?” “Delicioso”.” “Johnny”. Puxa. Ele curvou-se sobre mim e murmurou: “Como é que está indo. Johnny”. mas esta droga custa dinheiro. você sabe. Não percebe que eu preciso de uma “picada ?” “Johnny dirigiu-se para a porta. e nunca deixo de cumprir minhas promessas. e antes que pudesse mexer-me. de fluidez. Caí atravessada na cama. .. Pedi-lhe uma “picada”. mas preciso de uma “pi- cada . mas já estava viciada. vomitei no assoalho. atravessou meu corpo. A dose seguinte veio após três dias. “fisgada”. eu estava começando a tremer. menina. não é mesmo?” “Mas eu não o ouvia mais. Johnny sentou-se ao meu lado e segurou minha mão. boneca. concordei prontamente. . “não brinque comigo.“Descanse e logo estará voando. Desta vez. “Não me abandone. eu estava gritando. quando Johnny chegou em casa. está ficando bom. quando Johnny fez a sugestão. “Puxa. insisti com ele. e comecei a tremer e a suar.” “Eu sei disso. “Só recebi outra picada uma semana mais tarde. murmurei.

por favor. e ouvi a chave girar na fechadura. Estava tremendo e soluçando ao mesmo tempo. e não me deixava tomar uma “picada”? Deus.Pelo amor de Deus. e voltou para o apartamento. mediante uma co- missão. “Tentei conter-me. com todas as forças dos pulmões. e elas passavam a droga aos fregueses. Eu sabia quem eram. “Johnny fechou a porta. ele avançou para mim e bateu-me na boca com as costas da mão. Preciso de uma “pi- cada”. “Fiquei olhando pela janela. Sentia o gosto do sangue que escorria pelo canto da boca. mas não me importava. “Quer que eu seja preso. Eram prostitutas que compravam a droga de que precisavam com o dinheiro que ganhavam na profissão. não saia!” Mas ele se fora. Cheguei à janela. mas antes que pudesse dizer qualquer coisa. . como eu precisava de uma! “De repente. “Que diabo está querendo?” gritou ele. Vi você dar a droga para aquelas garotas. Johnny fornecia a “mercadoria”. Tudo o que eu queria era a agulha. ou o quê ?” “Johnny. Trabalhavam para Johnny. mas nada pude fazer. não pude agüentar. conversando com duas garotas. Ele olhou para cima. Sentei na cama e tentei falar. e vi Johnny na esquina. Johnny deu uma risada. Por que não dá para mim? Por favor!” Eu chegara a um estado de completo desespero. um pequeno envelope branco. eu estava atravessada na cama. Ao ver Johnny desfazer-se da preciosa heroína. Ele se referia a elas como parte do seu “estábulo”. ajude-me. soluçando e tremendo. Eu sabia que era a droga. Quando entrou. Por que ele a dava para ela. e vi quando ele pôs a mão no bolso do paletó e passou disfarçadamente. para uma das garotas. ouvi meus próprios gritos: “Johnny! Johnny!” eu gritava da janela. Havia perdido todo o autocontrole.

e levou-me para a cama. Fale o que é. Tudo. Com você ao meu lado. sim. menina. Adicionou água e segurou-a sobre a chama. e acendeu uma boca. e muito.” “Johnny aproximou-se do fogão. sim. quando joguei-me aos seus pés e abracei seus joelhos para não cair com o rosto no chão. Mas . hein ?” “Eu vou trabalhar.” “Johnny. menina. Tirou a colher e colocou nela um pouquinho de pó branco. Johnny. Rapaz. Que tal? Eu teria muito dinheiro e poderia comprar para você toda H (heroína) que quisesse e você nunca mais passaria por isto. “Você pode. Só quero que você me dê uma “picada. “Puxa. O que é que você está fazendo para conseguir a sua. Aquelas garotas lá embaixo trabalham para conseguir a delas. Farei qualquer coisa.“Escute. você é diferente daquelas cadelas que estão lá na rua. Johnny. Os homens vão enxamear ao seu redor. disse Johnny. eu sei que você pode. garota. isto é o começo do céu para nós dois. Enchendo a agulha. podemos alcançar a lua. onde eu caí em profundo sono. Que tal? É isso que você quer?” “Sim. que estava agachada no chão. se quiser.” “Não sei não”. Mas esta droga não se consegue de graça. “Você quer dizer que está disposta a trabalhar para mim na rua?” Ele parou e depois continuou com entusiasmo. de dez contra um. “Você tem classe demais para trabalhar na rua.” Senti o soalho subir ao meu encontro. A tremura parou quase imediatamente — em questão de segundos. Você tem classe.” Senti a agulha penetrar na veia. farei qualquer coisa. e entre nós dois podemos fazer muito dinheiro. Johnny ajudou-me a levantar. aproximou-se de mim. Custa. Só quero que você me dê aquela agulha. você pode passar por cima daquelas frangas.

ela disse: “Sim. Não era o começo do céu.” “Procurei afastar-me. naquela tarde. É você que anda atrás do meu homem. e o povo passava apressado ao nosso redor. Antes que eu pudesse responder. e ele queria que eu me prostituísse para dar- lhe dinheiro. tornei- me também escrava dele. sem nunca chegar ao fundo. não é?” Era uma mulher morena de longos cabelos negros que se espalhavam pelos ombros. mas eu não estava para ser empurrada por ninguém.. Esse. Seus olhos despediam chispas de fogo. “O inferno é um abismo sem fundo. Ele me fornecia droga. “O movimento fora pequeno na noite anterior. mas ela deu-me um tapa no rosto.. Não o céu — mas o inferno. Estendi a mão.Johnny estava enganado. Tinha de fazer o que ele quisesse. Vou ensiná-la. o caminho que eu começava a trilhar. mas nunca imaginara que estivesse sustentando outra. “Você é Maria. Não há ponto de parada nem interrupção na queda no vício dos tóxicos. Eu sabia que ele não queria casar comigo. no qual a gente cai e continua caindo. esperando o sinal abrir. Quando me tornei escrava das drogas. puxei-a pelo cabelo. cadela imunda. Soube disto de maneira crua. Já te conheço. “Descobri logo que Johnny tinha outra mulher. puxando-me com força. O sinal se abrira. . Era o começo de um pesadelo horrível. para fazer algumas compras. é você. e empurrei-a para trás com a outra mão. que haveria de durar oito longos anos. Gostava de sair e esquecer-me do que eu era. quando senti alguém agarrar-me o ombro. se eu não fosse viciada. imaginando ser igual às outras pessoas. daquela forma. Estava na esquina das ruas Hicks e Atlantic. de forma que me fez dar meia- volta. mas eu via que a situação não era exatamente o céu que ele prometera. “Johnny não poderia usar-me. e eu havia levantado e descido à rua.

gritando de dor. Descobri que podia conseguir “picadas” com muitos outros homens. Naquela noite voltei para a rua. Ali lavei a mão e pedi à vizinha para me fazer um curativo. “Eu não sentia mais nenhuma obrigação para com Johnny. onde tropecei e caí. contra o gradil. “Peguei sua cabeça e empurrei-a para trás. ela enterrou os dentes na minha mão. alguém me agarrou e a mul- tidão me separou dela. A multidão ainda estava aglomerada em torno da outra mulher. “Quando me afastei. na entrada da estação do metrô.. Ouvi quando respirou fundo no momento em que bateu a espinha no duro cano de ferro. Tentou acertar-me com a bolsa. Vou matar você. contra o cano. Nunca mais vi aquela mulher. mas na maior parte eram inteiramente estranhos. e continuei correndo pela calçada. quando arranquei a mão de sua boca. Nós alugávamos um quarto para a noite. Saíamos para a rua e esperávamos. Passei a viver com um homem após outro. Empurrei-a com o corpo.” Estava como louca. italianos. Isto tornou-se um longo pesadelo. Eu vendia meu corpo. do outro lado. “Não olhei para trás. O homem que me agarrara fez- me dar meia volta e me atirou na rua. Atravessei a rua depressa. Negros. em direção aos degraus negros que levavam à estação do metrô. “Cadela suja. . onde tinha certeza de que iria feri-la. Todos eram viciados em entorpecentes. “Ela começou a gritar como uma louca. Alguns homens eram fregueses regulares. De repente. Dormindo com o meu homem.. mas eu me abaixei. cada um dos quais ficaria contente se eu trabalhasse para ele. Senti a carne rasgar-se. eles roubavam. Eu estava tentando enterrar as unhas nos seus olhos. e ela caiu de costas. mas corri para meu aparta- mento. “Comecei a trabalhar em sociedade com algumas das outras mulheres.

quando eu estava na rua. daquela imundície. chorei muito. e tirei o dinheiro da escrivaninha. vagabundagem. “Os policiais estavam constantemente me assedi- ando. Estava aprisionada em meu próprio corpo.. Desci para o Harlem. A sentença mais comprida foi de seis meses. Um guarda vinha de dois em dois dias. “Mas a heroína estava me destruindo. Eu também estava em constante dificuldades com a polícia. Fui presa a propósito de tudo: roubo em lojas. e . Voltei dez vezes. por isso nunca cedi. Prometi a mim mesma que nunca mais faria algo que me levasse a ser presa de novo. e eu em um escritório. aterrorizada com sonhos terríveis. naquela tarde. o dinheiro deles tinha uma só cor. e implorei tanto que levei a a fazer um empréstimo no banco. vício de entorpecentes. Lembro-me da primeira vez em que tomei uma dose exagerada. Abandonara Johnny. Mas quatro meses depois. Eu ainda estava trabalhando. furto de pequenas quantias. procurando fazer com que me entregasse a ele. Não havia fuga daquele temor. e voltara para a casa de minha mãe. Da primeira vez. “Os homens das ruas não eram os únicos que me davam problemas. e do horror daquele pecado. onde morava o traficante. prostituição. “Era o inferno: quando conseguia dormir durante o dia. “Cheguei cedo do serviço. comprei a heroína e coloquei-a dentro do soutien. e também. Andei mais uns dois quarteirões. porto-riquenhos. durante os oito anos do meu vício. brancos. Mas eu sabia que não lucraria nem um tostão com aquilo. “Eu odiava cadeia.. estava de volta. e era a minha própria carcereira. Fui presa onze vezes.orientais. acordava gritando. Mamãe estava trabalhando em uma fábrica. Eu disse a mamãe que precisava de algumas roupas novas para trabalhar.

Posso lembrar- me de que alguém me tocou. consegui levantar- me e olhei. Eu estava desesperada. e mergulhei-a na veia. Foi a primeira de uma série de três. Disse-lhes que estivera be- bendo. Percebi logo que alguma coisa estava errada. Mas eles sabiam. Três guardas rodeavam minha cama. Posso lembrar a sensação estranha que tive. mas caí no soalho. roubou o resto de H. Eu fora roubada. meus conhecidos. deixando-me caída na calçada. e o cigarro caiu em meu cabelo. enchi a agulha. Pára de me sacudir.. estava no Hospital Bellevue. Rastejando até o espelho. levando-me para o hospital. Todo o dinheiro desaparecera. Meu rosto era uma .cheguei a um porão onde viviam alguns viciados... “Quando acordei. “A última quase me matou. Eu estava careca. Lembro-me que disse: “Te manca. Tentei levantar-me. A polícia me encontrara. Fizeram o médico marcar “DE” na minha ficha. e continuou a sacudir-me. “Estivera bebendo no quarto. e que alguém pusera algo na minha bebida. E eu acordei. Esquentei a droga em uma tampinha de garrafa. Penso que eles ficaram com medo quando não reagi. me deixa sozinha. Sonhei que a mão de Deus estendeu-se e sacudiu- me . Fiquei tonta e desmaiei. Senti o odor de algo podre — um cheiro de carne queimada. O rosto que vi não era o meu. “Eu sabia que alguma coisa estava errada. indicando “dose exagerada”. e depois jogou-me para fora do porão. Alguém rasgou meu soutien. Deus. Todo o cabelo fora queimado. “Fiquei inconsciente na cama. tentando fazer-me ficar de pé. porém não percebi nada. fez-me desmaiar. todos fazendo per- guntas ao mesmo tempo. trêmula.. A combinação de vinho barato e de dose exagerada de heroína.” Mas as sacudidelas não pararam.

e a dor tornou-se insuportável. “Mas. Como estava “fisgada”. Piquei lá um mês e meio. Inez. teria de deixar o vício. e sabendo que eu era viciada em drogas. mas eu recusei. quando tentei virar a maça-neta. voltei para as ruas. por ter tentado apagar o fogo com elas. e eu passei a noite lá. “Não sei como. Tomei a minha primeira “picada” quarenta e cinco minutos depois de ter saído do hospital e naquela noite eu estava de volta ao trottoir. Eu sabia que morreria. e delas subia uma espiral de fumaça. “Cambaleei até a porta e agarrei o trinco. ouviu meus gritos histéricos. sabia que se fosse para o hospital. “Comecei a gritar. “na marra”. Minhas orelhas tinham sido quase completamente queimadas. A carne de minhas mãos desprendeu-se. inconscientemente. e estava com medo de morrer. Ela não teve de insistir muito. eram de segundo e terceiro grau. Queria levar-me para o hospital. “As queimaduras. Só que agora tudo estava mais difícil. até as queimaduras sararem. porém. Eu achava que não agüentaria. se não fosse. “Quando saí do hospital. ele conseguiu abrir a porta pelo lado de fora. . e não pude abrir. no dia seguinte. Um homem que morava do outro lado do corredor.massa de bolhas e carne crestada. pro- curando abri-la. como que de uma torrada queimada. e pedi que me levasse ao apartamento de minha amiga. veio e começou a esmurrar a porta. devido às cicatrizes e queimaduras. As duas mãos estavam queimadas e empoladas. Eu tinha medo do hospital. Caí sem forças na cama. Ele me levou. mas a carne das palmas de minhas mãos grudou no metal. Inez forçou-me a ir para o hospital. Já estivera lá anteriormente.

“Certa noite fria de março. eu estava precisando desesperadamente de uma “picada”. Seus olhos refulgiam. mas devido a uma luz interior que resplandecia sobre mim. Pensei: se é necessário isto para permanecer viva. Tornara se crente. Vomitei em minha blusa e no chão. e abandonara o vício. e durante os últimos meses vinha insistindo comigo para que eu viesse aqui e também abandonasse a droga. As outras moças que estavam na capela me rodearam. “Um rapaz espanhol chamado René costumava conversar comigo nas ruas. “ajoelhe-se e ore. não devido à maconha ou H. “Levantei os olhos. e eu me apoiei nela. Maria”. Ela me levantou suavemente. e caí amontoada no chão. mas antes que pudesse curvar a cabeça. Estavam sorrindo.” Eu me sentia entorpecida. atrás de um dos bancos.° 416 da Av. comecei a vomitar. Havia um brilho em suas faces. disse ela. Pareciam anjos flutuando no ar entre as cadeiras e mesas. Reconheci algumas que eu ficara conhecendo na cadeia.Ninguém me queria. ao lado da mesa e passamos para a capela. mas esteve no Centro Desafio Jovem. e caí sem forças na escadaria. O vício estava me pondo louca. sobre meu próprio vômito. Minhas roupas estavam cobertas de queimaduras de cigarro e manchas de café. virei a esquina próxima ao n. “Mário estava na portaria naquela noite. Ajoelhei-me no chão. Ele chamou Glória. Ele fora traficante. Comecei a chorar e a tremer. “Sentia-me em pouco tonta. Meu corpo vivia sujo e cheirava mal. descendo vagarosamente sobre mim. e parecia que minha . com as duas mãos à minha frente. vou fazê-lo. mas estavam diferentes. Algumas vezes eu andava pela rua vomitando. Clinton. Entramos pela porta lateral. Desci pela rua cambaleando. “Ajoelhe-se. e julguei estar morrendo.

“Senti mãos fortes sob meus braços. “Glória ali estava. Glória punha outra bala em minha boca. e ouvi-as orar. levaram-me para uma cama em um grande quarto cheio de outras camas. Algumas moças estavam cantando. vestiram uma combinação. fluindo de suas mãos delicadas para o meu corpo queimado. Prove. Cada vez que eu pedia um cigarro. quando uma das moças me levantou e quase me carregou escada acima. e me lavaram. percebi que ela estava ajoelhada no meu vômito. Penso que ajudará você”. atravessou-me o corpo. Pensei que talvez fossem um grupo de lunáticos e pretendiam matar-me. À noite. “Nós não fumamos aqui. Foi a primeira vez em vários meses que tomei um banho inteiro. e depois. “As moças reuniram-se ao meu redor. Ouvi o ruído de água corrente. Ajudaram a enxugar-me. ao . Virei a cabeça e tentei chorar. “Ficaram ao meu lado durante dois dias e duas noites. pedi a uma das moças. Mas tome uma bala. Um poder eletrizante. Elas se revezaram. Pensei que iam me afogar. será que posso ir para a cama?” ga- guejei. espiritual. e valeu a pena. e senti que estavam tirando minha roupa. Maria. ao meu lado. disse Glória. eu acordava tremendo e via Glória ali. “Dê-me um cigarro”. Mas eu não estava ligando. mas só consegui vomitar. “Elas me colocaram carinhosamente sob o chu- veiro. Estremeci e vomitei de novo. Glória levantou-se e senti suas mãos sobre minha cabeça.cabeça girava como um pião. quase erguendo-me do solo. Eu estava doente demais para me importar. “Por favor. massageando minhas costas. “Ouvi música.

Muito fraca. murmurei suavemente. lendo a Bíblia ou orando em voz alta. e descobriu que estava fazendo o papel de administrador — papel esse que não queria assumir.” Capítulo 16 COM CRISTO NO HARLEM DAVI VIAJAVA A MAIOR parte do tempo. mas que lhe fora imposto pelas circunstâncias. Foi nessa noite que eu entrei neste escritório. Com a ajuda de Deus. “Naquela noite você pregou. “Continue orando por mim. ajoelhei-me aqui e abri meu coração para o Senhor. “o Senhor ouviu seu clamor?” Ela olhou para mim: “Sim. recru- tando obreiros para trabalhar durante o verão. “Foi na terceira noite que Glória me convidou: “Maria. e levantando dinheiro para o Centro. Mas quando a necessidade da droga se torna forte demais. . Não fiquei sozinha nem um instante. “Maria”. tenho vontade de ceder. Nunca duvidei disto.” Maria parou de falar.” Eu estava fraca.lado de minha cama.” Uma lágrima correu- lhe pela face. ele tinha cada vez menos contato pessoal com os viciados. À medida que o tempo passava. quero que você desça para o culto na capela. Nicky. e sentei-me bem atrás. Sua cabeça curvara-se para a frente e tinha os olhos pregados na Bíblia que estava sobre a minha escrivaninha. vou vencer agora. Mas desci para a capela.

Deixe que eu resolvo isto”. Era uma verdadeira aventura de fé. disse Mário. esperando que Deus pro- videnciasse a chuva. E ele providenciou. até o coração do Harlem Espanhol. Mário me disse: “Vou buscar gente. Acho que é melhor desarmar tudo e ir para casa. Rindo timidamente.” “Não”. construindo a arca no alto da montanha seca. Começamos a montar o equipamento.” “Hoje não dá”. como é que você pensa que vai realizar um culto. quando vi um enorme grupo de rapazes correndo pela rua. Estavam . “Ninguém está inte- ressado. distribuindo folhetos. “nós vamos conseguir gente para ouvir.” “Rapaz. Em menos de uma hora vamos ter o maior culto ao ar livre. sem gente? Hoje eles não estão mesmo interessados. na minha direção. e de encontros casuais na rua. Distribuíamos folhetos. Quase todas as tardes armávamos nossa plataforma e nosso serviço de alto-falantes em algum bairro pobre da cidade. Você e os outros podem começar a colocar os alto-falantes nos lugares. procurando reunir uma multidão para um culto ao ar livre. mas estávamos tendo pouco êxito. A maior parte do nosso trabalho era feito através dos cultos ao ar livre. e eu estava de volta à esquina. Quinze minutos depois ha- víamos terminado. Mário e eu levamos um pequeno grupo em nossa Kombi. disse Mário. ele saiu correndo rua abaixo e virou a esquina. Mas continuamos a trabalhar. Certa tarde. respondi. Eu me sentia como Noé.” “Não se preocupe.

por causa da corrida. Puxa. “enrolando” o auditório antes de apresentar o show. . “Você viu? Eu disse que conseguiria uma multidão.” Mário ainda estava rindo. Venham ouvir o grande Nicky Cruz. “esses rapazes vão ter um “quebra-pau.” Os rapazes derramavam-se dos apartamentos. gritando e agitando porretes. Fiquei esperando pela briga.” Mas era tarde demais! Fui rodeado pela turma que gritava e dava cotoveladas. de Brooklin. Os rapazes ouviram-no falar. Onde está o chefe dos Mau-Maus?” Mário chegou.agitando porretes e tacos de beisebol. esses rapazes parecem terríveis . Ele havia reunido uma turba de tamanho respeitável. Venham ouvi-lo. “Só espero que não sejamos todos mortos.” O suor escorria-lhe pelo rosto. sua congregação está esperando. quando vi novo grupo de rapazes vindo de outra direção. descendo pelas escadas de emergência. o sujeito mais perigoso de Brooklin. pedindo silêncio. o chefe da terrível quadrilha dos Mau-Maus. Ele é um matador. e ainda é perigoso. vai falar dentro de quinze minutos. mas ele trepou até a plataforma. Virei me e ia voltar para a plataforma. “Vamos. e gritavam: “Onde está o Nicky? Quero vê-lo. agarrou o microfone e levantou a mão. Balancei a cabeça. “Preciso cair fora daqui”. e gritavam com todas as forças. ofegante. com um sorriso que ia até as orelhas. gritando a plenos pulmões: “Ei turma. Devia haver uns trezentos rapazes rodeando-nos. pensei. pregador. no meio da rua.” Olhamos ao nosso redor. à semelhança de um camelô de feira. vi Mário correndo por uma travessa que havia no meio do quarteirão. Venham preparados. e correndo em minha direção. De repente. Enxameavam ao meu redor.

. assobios e aplausos diminuíram. Eu não sabia quem era Jesus. ouvi um pregador falar de alguém que podia transformar minha vida. um de cada lado do povo. É ex-chefe. Eu era igual a vocês: vivia cor- rendo pelas ruas. O chefe da terrível e famosa quadrilha Mau-Mau vai falar a vocês. Senti-me fortemente ungido pelo Espírito Santo. e ele me deu uma nova vida. Estou percebendo que vocês já ouviram falar de mim. “Senhores e senhoras.. Levantei os braços. ficando por trás do microfone. Ele é temido tanto por moços como por velhos. sem dificuldade. enquanto eles aplaudiam. Levantei os braços. Ele me disse que Jesus me amava. Mas Davi Wilkerson disse que Jesus me amava. As palavras saíram livre- mente. “Eu era o chefe dos Mau-Maus.” Estava gritando quando terminou. Sou ex- chefe porque Jesus transformou meu coração! Um dia. Cerca de duzentos adultos tinham-se reunido por trás da multidão de adolescentes. Eu me entreguei a Deus. Fui expulso da escola por causa de briga. Fiquei de pé na plataforma. Dois carros da polícia pararam. Dormia nos telhados. e porque está associado a Jesus. Os gritos. Muitos deles me conheciam ou haviam lido a meu respeito nos jornais. Esta tarde vai contar- lhes porque não está mais na gang.” Outra vez a multidão irrompeu em aplausos espontâneos. Hoje é um grande dia. ex-chefe dos Mau-Maus. Só que agora não é mais o chefe. quando comecei a pregar. Pulei para a plataforma. O homem mais perigoso de Nova York. . Em um instante a turba estava silenciosa. “Quero contar-lhes porque sou ex-chefe dos Mau-Maus. sorrindo e acenando com a mão. Agora a minha vida está mudada. e sabia que ninguém me amava. A polícia estava atrás de mim. em uma reunião de rua exatamente igual a esta. e pedi silêncio. o primeiro e único. Os garotos na multidão começaram a gritar e bater palmas. Apresento a vocês NICKY CRUZ.

e muitas vezes dormi na cadeia. Procurava não agir de forma antipática. nem mato. as frutas e vegetais. Ela não conseguia acostumar-se com o cheiro. Não tenho mais pesadelos. Pareciam . e tenho uma filhinha. Ele me deu esperança. com medo.” A multidão estava silenciosa e atenta. Os policiais tinham saído dos carros.. mas algumas das feiras livres eram quase demais para o seu estômago. e ajoelharam-se defronte à multidão. Terminei a mensagem e fiz um apelo para os que queriam aceitar a Cristo. havia o cheiro dos viciados. e a necessidade do evangelho era mais aparente do que em qualquer outro lugar em que havíamos pregado. A polícia me respeita. Virei o rosto para o céu. e estavam de pé. Mas. Não fico mais acordado de noite. sou feliz e não vivo mais fugindo de tudo e de todos. superabundou a graça”. O sol brilhava no Harlem. O Harlem Espanhol tornou-se nosso lugar pre- dileto para cultos ao ar livre. Ele me deu um alvo para o qual eu agora vivo. nem brigo. o que é mais importante de tudo. Eu estava com medo. enquanto eu orava. Estou casado. e as cabeças curvadas.. Ele me deu um novo objetivo na vida. Até para mim. então. Vinte e dois atenderam ao apelo. Porém. era difícil acostumar-me com as moscas que enxameavam sobre a carne.e fui preso muitas vezes. Além disto. Eu não fumo mais maconha. Eu não me cansava de lembrar à nossa equipe que “onde abundou o pecado. Jesus transformou minha vida. Terminei a oração. Glória teve dificuldades em aceitar o Harlem Espanhol. Agora as pessoas conversam comigo quando eu passo. Parecia que ali éramos capazes de atrair multidões maiores. com os quepes na mão. e levantei os olhos.

prostitutas e viciados. os viciados que se aglomeravam procuravam tentar e provocar nossos auxiliares. Descobrimos que esses eram nossos melhores pregadores.” A tentação era quase irresistível. Eu não tinha tanto êxito. durante os cultos de pregação nas ruas. Contudo. Um Deus que. várias vezes. na pessoa do seu filho Jesus Cristo. ao pregar para viciados em entorpecentes quanto os que tinham sido viciados. e dar testemunho da graça de Deus. isto também trouxe problemas. Precisa experimentar. Descobri que Maria. A maior parte daquela gente jamais soubera da existência . não sente falta disto? Rapaz. mas aquelas vidas estavam protegidas pelo escudo da força de Deus. particularmente. principalmente sob o calor do verão. Aprendemos que as pessoas que tinham mais êxito eram as que haviam saído das ruas. e agitá-los na cara de um de nossos obreiros que se livrara das drogas.desprender um mau cheiro. Cheguei a ver um homem tirar uma agulha e um pacote de heroína. Acendiam um “pacau” em frente deles. quando falava de um Deus que é um amigo íntimo e pessoal. Seus testemunhos. menino. O seu testemunho simples levou. Muitas vezes. Começamos a levá-los conosco sempre que íamos pregar nas ruas. E quando agrupados. Aprendemos muito durante aqueles primeiros meses de pregação nas ruas. causavam um impacto tremendo nos outros viciados. e podiam apresentar um testemunho de primeira mão a respeito do poder transformador de Jesus Cristo. tocando nos pecados do povo e libertando-o deles. honestos e minuciosos. era quase insuportável ficar perto deles. palmilhou as duras estradas da Palestina. dizendo: “Ei. isto é que é vida. os ouvintes até às lágrimas. não tinha acanhamento de levantar-se diante de um grupo dos seus antigos colegas. e deliberadamente sopravam a fumaça em seus rostos.

O seu sentimento de culpa era maior do que podia suportar. na selva das ruas. estava dando testemunho a respeito da sua infância. e viviam exatamente conforme a descrição dele. ocorria o mesmo. Não obstante. Ela tivera cinco filhos que haviam abandonado o lar. O Deus de quem ouviam falar. porque o apartamento era muito apertado. Seu choro tornou-se quase histérico. Estava vivendo como um animal selvagem. na extre- midade da multidão. . A pobre mulher encontrou paz junto a Deus naquela tarde.de um Deus assim. Certo dia. como um policial. Contou como dormira nos telhados e no metrô. nas ruas da cidade. Ou. e usava os telhados ou ruelas como latrina. Falou dos diversos homens que viveram com sua mãe. sabíamos que Deus não esperava que ganhássemos o mundo — apenas que testificássemos e fôssemos fiéis. mas o dano causado aos filhos já estava feito. um jovem de cor que fora viciado em heroína. onde quer que eles estivessem. um ex-membro de quadrilha. Ela levou a cabeça para trás e olhou para os céus. colocando-as na linha. e oramos a seu favor. Sentíamos como se estivéssemos procurando esvaziar o oceano com uma colher de chá. começou a chorar. Em milhares de outros casos. e eu rodeei o povo para chegar até ela. Enquanto falava. pedindo que Deus a perdoasse e protegesse seus filhos. Contou que fora obrigado a fugir de casa aos treze anos. mendigar e roubar. Ele não tinha casa de espécie alguma. identificavam Deus com as igrejas frias e formais que tiveram oportunidade de observar. E esse era o nosso alvo. Reunimo-nos ao seu redor. ela me disse que aquele rapaz poderia ser seu filho. era um juiz severo que abomina o pecado e fustiga as pessoas. se é que conheciam algum. Quando conseguiu dominar-se. Afirmou que precisara surrupiar comida. uma velha senhora. talvez.

e sacudindo as cadeiras. eu notei uma perturbação. cara.. no ritmo da música. de cerca de vinte e oito anos de idade. meninos. e batia com as mãos nos quadris. dizendo: “Meu chapa. bamboleando as cadeiras e sapateando. e marcar o ritmo. bater palmas. e uma grande multidão reuniu-se para ouvir os alegres corinhos em espanhol.. Eram cerca de cinco ou seis “pequenos”. dança. A multidão estava inquieta e nervosa.” . por que vocês estão dançando aqui? Aqui é território de Jesus!” Um deles disse: “Aquele homem lá pagou para nós dançarmos. Ele viu que eu me aproximava e começou a saracotear. cha-cha-cha. A um lado. Um grupo de “pequenos” estava dançando ao som da música. cha-cha-cha. dum-di- dum-dum. Algumas pessoas tiveram sua atenção desviada para eles e começaram a aplaudi-los. preparamos um culto ao ar livre na esquina de uma escola. e rodeei o povo. todavia. O verão estava quente. Quando a música chegou a um ritmo mais acelerado. Veja..” Girava em torno de si mesmo.. rindo e batendo palmas com eles. mas continuou dançando. em direção ao grupo. “Ei. gingando em plena rua. sapateando. Na quinta-feira. Procurei falar com ele. Cantava sacudindo as cadeiras e a cabeça como um louco: “Bi-bop.” Finalmente consegui sua atenção: “Ei. Deixei o lugar onde estava. isso é música pra frente. e a música evangélica de ritmo acelerado que fluía de nossos alto-falantes. dança. acompanhando o ritmo. que estava na extremidade da multidão.” Apontaram para um moço magro. meu chapa. quero perguntar-lhe uma coisa. tarde da noite. Dirigi-me a ele para conversar. ele nos deu dez centavos. no Harlem Espanhol. alguns de nossos rapazes e moças colocaram-se defronte ao microfone e começaram a cantar.

alguns tiraram o chapéu. Este é um dos melhores sinais de reverência e respeito. cerrando os punhos e avançando para ele. e arregalou os olhos. dançando no ritmo da música: “Sim. da-da-di-da. di-dum-dum. da pobreza. fingindo terror. Da- da-dum-di-dum. “Pois bem. você está falando com o cara certo. o que é que você quer?” Eu disse: “Você deu dinheiro àqueles garotos para que eles dançassem e atrapalhassem nossa reunião?” Minha paciência estava começando a acabar. Ele continuou da mesma forma. “Por quê?” gritei- lhe.” Perdi a calma. Sou o homem. paizinho.. Bi-bop. Pensei que ele estivesse louco. Não...” Ele viu que eu falava sério. Não. mas seu orgulho não lhe permitia acabar com a brincadeira imediatamente. ou então eu vou lhe dar uma surra. preguei sobre a culpa dos pais que permitem que seus filhos cresçam em tal pecado. Roguei-lhes que dessem um bom exemplo para os filhos.. “O que há de errado com você. Não.. “vamos continuar este culto. Não gostamos de crentes... . e você vai ficar quieto a força. respondeu: “É isso mesmo.. Mas parou de dançar e calou-se. enquanto girava. Enquanto eu falava. seu”. Voltei ao microfone e preguei naquela tarde a respeito das minhas experiências de adolescente em Nova York. Testifiquei a respeito da sujeira. disse. meu chapa. afinal?” “Porque não gostamos de vocês.” Dava estalos com a língua e sapateava. Em seguida. Não gostamos de crentes. levantando os pés à sua frente. e você vai calar a boca. o que é que você quer? O que é que você quer?. da vergonha e do pecado que existiram em minha vida. Girando ainda. Pôs a mão na boca fingindo surpresa.

notei um velho. com os joelhos nus sobre o pavimento duro e sujo. Era evidente que o poder do Espírito de Deus estava naquela reunião. pó imundo. e vi alguns lenços aparecerem. diante do microfone. Depois do culto. Levou minha esposa embora. chorando no meio de todo aquele povo. Dois dos nossos ex-viciados rodearam-no. Percebi que o Espírito e o poder de Cristo estavam operando de maneira especial. orando com ela. Uma de nossas auxiliares deixou o grupo e ajoelhou-se ao lado da menina. Maldito! Maldito!” Caiu de joelhos no chão. claramente embriagado. Fui de um para o outro impondo as mãos em suas cabeças e orando por eles. na extremidade da multidão. Uma mocinha. Ele enfiou a mão no bolso da camisa. Matou meus filhos. sapateando nos pequenos envelopes brancos. aos seus pés. em grande agonia espiritual . Enquanto pregava. e atirou-os na rua. e o outro ajoelhado. Oito ou nove viciados em entorpecentes vieram à frente e ajoelharam-se na rua. Quanto a mim. que estava na frente. Mandou minha alma para o inferno. escondeu a face nas mãos e ajoelhou-se na rua. completamente esquecido do barulho do trânsito intenso e dos olhares dos transeuntes curiosos. continuei a pregar. tirou vários pacotinhos. com o rosto nas mãos. notei um viciado em narcóticos. “Maldito. todos orando em voz alta enquanto ele gritava pedindo perdão. Começou a gritar. mas não previ o impacto que ele produziria alguns momentos depois. chorando e balançando- se para a frente e para trás. demos uma palavra em particular . Um de nossos obreiros correu para o lado dele. um com a mão sobre a sua cabeça.Notei lágrimas nos olhos de muitas pessoas. Você arruinou a minha vida. Quando terminei a pregação e fiz o apelo.

e ele disse que o “dançador” queria falar comigo. e não em minha própria força e poder.a cada um dos que haviam aceitado a Cristo. mas. lembrei-me de Davi Wilkerson procurando-me no porão onde eu fora esconder-me. Sempre havia alguns que se dispunham a nos seguir imediatamente. olhando para o céu escuro. Ele balançou a cabeça e disse que o homem precisava conversar comigo. mas estava muito envergonhado para encontrar-me no claro. Outros hesitavam e recusavam-se. Quando a multidão se dissolveu. Nós os convidamos para morar conosco. O garoto saiu correndo. Perguntei-lhe onde estava o homem. enquanto se livravam do vício. Lembrei-me de como ele entrou sem medo e disse: “Nicky. do outro lado da rua. debaixo das luzes da rua. Aquela coragem e compaixão me levaram a aceitar a Cristo como meu salvador. e voltou dentro de ins- tantes. Disse ao garoto para avisar ao homem que eu teria prazer em conversar com ele — ali. Um dos meninos que estivera dançando na rua. e pediam para serem admitidos. repentinamente. Perguntei-lhe o que queria. disse ao Se- nhor que. depois do primeiro culto ao ar livre. Comecei a dizer ao garoto: “Nada feito”. reunimos nosso equipamento e começamos a guardá-lo na Kombi. A noite já caíra. e eu não sentia vontade de entrar num beco escuro onde se escondia um louco. Assim. Já havíamos quase terminado de desmontar nosso equipamento. Jesus ama você”. . se ele queria que eu fosse conversar com aquele “dançador” selvagem. e falamos a respeito do Centro. faria a sua vontade. e ele apontou para um beco escuro. Mas ia no seu Espírito. e estava esperando que ele fosse adiante de mim — principalmente por ser naquela ruela escura. Outros apareciam dentro de uma semana ou mais. começou a puxar a manga do meu paletó.

Esta. espero que tenhas entrado aqui antes de mim”. Aproximei-me e ajoelhei-me a seu lado. implorou-lhe que não os abandonasse. preparando se para o serviço do Senhor. Por favor. e na penumbra pude ver o homem agachado no meio de algumas latas de lixo mal- cheirosas. Eu sabia. Deixara o emprego e se matriculara em uma escola bíblica para estudar. afastando-o de sua esposa. Ouvi falar que você se converteu e foi para a Escola Bíblica. Ele havia me perdoado. procurando atrapalhar nossa reunião. Avancei. Tinha a cabeça entre as pernas e o seu corpo era sacudido por soluços convulsivos. Voltando a Nova York. encontrou uma mulher que o seduziu. Apalpando as paredes de alvenaria. porém. “Ajude-me. Atravessei a rua e parei na entrada do beco. e entrei. em meio à sujeira do beco. soluçava ele. Há muito tempo atrás.” Disse-lhe que Deus o perdoaria. Fiz algumas perguntas a respeito de sua vida. enquanto permanecia ajoelhado ali. Lembrou-lhe os votos feitos a Deus. ajude-me. Por favor. O cheiro rançoso das latas de lixo era insuportável. Mas havia ali um ser humano em desespero. mergulhei na escuridão. ajude- me. Contou-me sua história. com seus dois filhos. Ouvi então o som amortecido de alguém solu- çando. Murmurei uma oração: “Senhor. será que eu me distanciei demais dele? Será que ele me perdoa? Por favor. e os votos do . ele sentira que Deus o estava chamando para o ministério.” Não podia crer que aquele era o mesmo homem que apenas alguns minutos antes estava dançando e cantando na rua. “Será que Deus me perdoa? Diga-me. Era como a entrada de um túmulo. ajude me”. e o desejo de ajudá-lo foi maior do que a podridão reinante no beco. “Li a seu respeito no jornal.

tuinal e seconal (barbitúricos). Perguntei-lhe que tipo de comprimido estava tomando. fumando maconha e tomando “bolinhas”. Ficou desesperado. enviando o marido dela para a frente de batalha. Ajudei-o a levantar-se e saímos do beco. Éramos seis. Quero voltar para Deus. e do seu treinamento no Instituto Bíblico. atra- vessamos a rua e entramos na Kombi. Quero voltar para minha esposa e meus filhos. e vi seus olhos cheios de angústia e culpa. recebeu o Espírito de Cristo e repetiu chorando a sua confissão. Jamais sentira o poder de Deus tão próximo de mim. segundo a multidão das tuas misericórdias. pedindo ajuda. segundo a tua benignidade. Sentia que estava ficando louco. pedindo perdão nas palavras das Santas Escrituras: “Compadece-te de mim. e respondeu que eram “bombitas”. gemeu ele. Ele também começou a orar. percebi que estava citando versículos da Bíblia. Começamos a orar por ele. Você pode orar por mim?” Levantou a cabeça. e purifica- me do meu pecado. e caiu no vício. e. Lava-me completamente da minha iniqüidade. Medo de Deus e medo de enfrentá-lo. todos em voz alta. .casamento. nembies. como quando aquele ex-ministro. Dois meses depois esta o deixou dizendo que estava cansada dele e que sua companhia já não lhe agradava. com a cabeça encostada nas costas do banco à sua frente. Do fundo da sua memória. De repente. “Foi por isto que agi daquela forma no meio da rua. mas ele estava possesso de um demônio: deixou a esposa e foi morar com a outra mulher. Estava com medo. estavam-se derramando as palavras do Salmo 51 — o salmo que o Rei Davi pronunciou depois de ter cometido adultério com Bate-Seba. que se tinha tornado servo de Satanás. mas não sei como. “Eu estava tentando afastar você”. apaga as minhas transgressões . Ele sentou-se no banco do meio. ó Deus.

Faze-me ouvir júbilo e alegria.Pois eu conheço as minhas transgressões. Restitui-me a alegria da tua salvação. Eu nasci na iniqüidade. e os pecadores se converterão a ti. nem me retires o teu Santo Espírito. ó Deus. renova dentro de mim um espírito inabalável. Purifica-me com hissopo. e em pecado me concebeu minha mãe. e apaga todas as minhas iniqüidades. e o meu pecado está sempre diante de mim. e ficarei limpo. um coração puro. Então ensinarei aos transgressores os teus caminhos. Esconde o teu rosto dos meus pecados. e puro no teu julgar. de maneira que serás tido por justo no teu falar. e fiz o que é mal perante os teus olhos. Livra-me dos crimes de sangue. Deus da minha salvação. suave — terminando as palavras do salmo: “Sacrifícios agradáveis a Deus são o espírito . Não me repulses da tua presença. e no recôndito me fazes conhecer a sabedoria. Eis que te comprazes na verdade no íntimo.” Ele terminou a oração. e sustenta-me com um espírito voluntário. Cria em mim. para que exultem os ossos que esmagaste. contra ti somente. lava-me. A Kombi estava em silêncio. Pequei contra ti. Então Glória levantou a voz — bela. e ficarei mais alvo que a neve. ó Deus. e a minha língua exaltará a tua justiça.

“Terão notícias minhas”. Ele enxugou o rosto com o lenço. Ele pegou a nota. Será que você pode me dar vinte centavos para eu telefonar para minha esposa e pegar o metrô? Vou para casa. ó Deus. Depois. o dinheiro seria gasto em entorpecentes ou bebida. com o rosto ainda molhado de lágrimas. disse ele.” Levantamo-nos todos. Mas aquela era uma exceção. Enfiei a mão no bolso e tirei o meu último dólar. Sua fisionomia estava radiante. Sabíamos que quase sem exceção. coração compungido e contrito não o desprezarás. Era a luz do Senhor. e não ter problemas .” E voltou mesmo. tinha um brilho que jamais poderia ser produzido por drogas ou comprimidos. Virou-se então para mim: “Dei meu último centavo para aqueles meninos malucos dançarem na rua. Nós outros também estávamos fungando e limpando os olhos.” Tínhamos estabelecido a praxe de nunca dar di- nheiro a viciados em narcóticos ou bêbedos. Levou sua esposa e os dois filhos ao Centro. Capítulo 17 NO VALE DAS SOMBRAS É QUASE IMPOSSÍVEL colocar quarenta viciados em tóxicos debaixo do mesmo teto. aproximou-se de cada um dos outros e também abraçou-os. Dois dias depois. para que os co- nhecêssemos.quebrantado. e assoou o nariz. e atirou-se ao meu pescoço. “eu voltarei.

tornando-se assim difícil distinguir quem era autêntico e quem era falso. e a perceber a minha própria insegurança. para mandar alguém embora. eu sabia que nem todos tinham este sentimento. e ainda menos a respeito dos aspectos psicológicos das relações pessoais necessárias para manter a comunicação. Davi concordava com a minha filosofia. A única coisa que impedia a organização do Centro Desafio Jovem de explodir era o Espírito Santo. A maioria daqueles homens e mulheres era perita na arte de enganar. caindo no esquecimento. A única esperança era conservar-nos tão perto de Deus quanto possível.— principalmente se supervisionados por pessoal inexperiente. ou até mesmo. De fato apoiavam-se na disciplina. Grande parte das decisões mais importantes cabia a mim. no meio da noite. e para me relacionar com os outros membros da equipe. Nós confiávamos naquelas pessoas tanto quanto podíamos. a maioria dos quais acabava de sair da universidade. Eu era intransigente quanto à disciplina. Podia perceber inveja da . Porém a desagradável responsabilidade de precisar repreender a toda hora os delinqüentes começou a pesar demais sobre os meus ombros. e qualquer um de nós podia acender o pavio na mente de algum psicopata. Eu pouco ou nada sabia a respeito de processos administrativos. para resolver uma querela. Contudo. Muitas vezes precisava sair da cama. porque lhes dava uma base firme de operação — um sólido sentimento de participação. e logo descobri que a maior parte deles não se ressentia se fôssemos justos e razoáveis. e fazer-nos ir todos pelos ares. e precisávamos aumentar o nosso quadro de colaboradores. Comecei a sentir profundamente minha falta de preparo. Estávamos sentados num barril de pólvora. algumas vezes. Ganhavam a vida contando mentiras. por ter quebrado as regras.

Tenho grande confiança na sua capacidade. no grande auditório. Sua obra. para acomodar as mulheres. antes de uma tempestade. demonstrando um interesse especial pelo meu trabalho. continuaram a acumular-se como nuvens negras no horizonte. alcança todas as partes do globo Ela visitara o Centro Desafio Jovem. fui com Davi até Pittsburg. fui levado pela grandiosidade do programa. para falar na cruzada de Kathryn Kuhlman. Depois do culto. Clinton. Fizemos negociações para arranjar uma casa do outro lado da rua. “Se um dia tiver um pro- blema grande demais para resolver. Nicky. o trabalho havia crescido muito e já não podíamos conservar as mulheres alojadas no terceiro andar do casarão da Av. porque meu coração estava cada vez mais pesado. jantamos em um pequeno restaurante. O ministério da Srta. No outono. através da Fundação Kathryn Kuhlman. até então. “Agradeço a Deus por ter tirado você destes cortiços”. porém. não tivera oportunidade de falar a sós com a Srta. pode me telefonar . dei meu testemunho perante milhares de pessoas. Quando Davi passava pelo Centro. Eu já . ainda mais frustrado com minha incapacidade de resolver meus problemas pessoais. eu tentava explicar que tinha problemas grandes demais para mim.parte de alguns dos que trabalhavam sob minha direção. enquanto estivesse em Pittsburg.” Pensei que devia tentar falar com ela. e comecei a notar um estremecimento gradual em nossas relações. Em janeiro de 1964. 416. mas. disse-me ela. Contudo. falando através do meu amigo Jeff Morales. mas ele sempre me dizia: “Você saberá resolvê-los. Deixei assim Pittsburg. Eu lhe havia mostrado a cidade e as favelas. Naquela noite. Kuhlman.” Os problemas. que me acompanhara como intérprete. Kuhlman é um dos mais abençoados pelo Espírito em todo o mundo.

Era uma situação confusa. Glória advertiu-me sobre o erro de levar todo o peso sozinho. mas a responsabilidade pesava grande- mente em meus ombros. Percebi que estava me deixando envolver pessoalmente. lideradas por alguns viciados que me vira obrigado a disciplinar. tínhamos recebido várias lésbicas no Centro. Além disto. comprimidos. Durante anos dirigira uma “galeria de picadas” no seu apartamento. Cuidar de viciados era como tentar apagar um in- cêndio na floresta com uma toalha de banho molhada. recipientes para ferver a droga. Foi nessa época que Quetta chegou ao Centro. que estavam causando grandes problemas. calças. Vestia roupas de homem. sapatos e até sua roupa de baixo era masculina. Homens e mulheres iam ali. . Quetta era uma das maiores traficantes de nar- cótico da cidade.percebera algumas conspirações. Tinha pouco mais de trinta anos. Era uma garota magra. Ela fornecia tudo o que era necessário: agulhas. e para os sexualmente depravados: homens e mulheres. Cada vez que eu conseguia controlar um pequeno problema. heroína. Eu temia constantemente que qualquer delas tentasse seduzir alguma das estudantes inexperientes que nos ajudavam como conselheiras. era dona de uma bonita pele e com cabelos muitos negros cortados como de homem. mas também para participar de orgias sexuais. esbelta e atraente. camisa. outro maior surgia. não só para comprar heroína. tomei aquilo como fracasso pessoal. Fazia o papel de “homem” e fora certa vez “casada” com outra moça. com personalidade marcante. e quando um viciado em narcóticos voltou para o mundo.

enquanto estava em liberdade condicional. “O que foi. que valia milhares de dólares. Duas semanas mais tarde. e descobriu dez “apetrechos” (colheres. eu sentia que havia algo de falso nela. e tremendo como vara verde. e disse- lhe que devia vestir roupas de mulher e deixar o cabelo crescer. até descobrir o seu esconderijo de drogas. Quando a polícia deu uma batida no apartamento de Quetta. etc. que acabara de diplomar- se na Escola Bíblica. uma ga- rota provinciana de Nebraska. Diane? Entre e sente-se. levantando as tábuas do assoalho. Estava branca como um lençol. inclusive algumas prostitutas profissionais.. “O que houve com elas?” perguntei. uma das conselheiras veio procurar-me logo de manhã. Em menos de uma semana aceitou a Cristo.” Diane era a mais nova de nossa equipe. Senti os lábios secos. Estava freqüentando os cultos. e apresentou todas as evidências externas de uma verdadeira conversão. e conta-gotas). “Não sei como contar-lhe. agulhas. a não ser acompanhada de uma de nossas auxiliares. Embora usássemos Quetta para testificar em muitos trabalhos ao ar livre. Os policiais demoliram literalmente o apartamento. prendeu doze pessoas. Expliquei-lhe as regras. Ela estava demasiado doente para discordar. Contudo. logo cheguei à conclusão de que mesmo a conversão pode ser fingida. arrancando o reboco das paredes. nunca poderia ficar a sós com qualquer das outras ex-viciadas. mas ainda não se entregara ao Senhor. . Quetta veio para o Centro. Nicky”. disse ela. e parecia estar alegre por ter se livrado das grades. “É sobre Quetta e Lilly. Além disto.” Lilly era uma viciada que viera para o Centro havia apenas uma semana.

e na maravilhosa transformação de sua . pe- dindo sabedoria. o próprio Jesus teve fracasso entre os seus seguidores”. estudando para ser pastor. As duas. com a cabeça entre as mãos.. “Não fui capaz de dormir a noite toda. Nicky. me- dindo o escritório a passos. elas estavam . e que têm tido êxito. estavam. Sentia a derrota pessoalmente — fora um golpe duro. disse ela. Durante três dias Glória orou e conversou comigo. decidi.” Diane saiu. Não podemos admitir que coisas assim aconteçam aqui. Aproximei-me delas e. Encontrei Diane na escada. e depois saí. Esperei mais de uma hora. para ver o que estava acontecendo. Diane enrubesceu e baixou a cabeça. Lembre-se de Sonny. que está no Instituto Bíblico. ontem. Ficaram com medo. Pense em Maria.. orando desesperadamente.. e disseram que iam embora. “Elas saíram. Os jornais tinham publicado sua história e dado muita publicidade. a respeito da transformação ocorrida em sua vida. Ela falara até em igrejas.” Sua voz embargou-se. “Nicky. devido à vergonha e ao acanhamento.” Virei-me e entrei vagarosamente no Centro. O que podemos fazer?” Levantei-me da cadeira e comecei a andar. “Lembre-se de todos os que têm sido fiéis.. “Este lugar é dedicado ao Senhor. e eu me sentei novamente. Em que ponto eu falhara? Havíamos permitido que Quetta testificasse em nome do Centro. Não pudemos impedi-las. “Volte ao prédio e diga-lhes que quero vê-las no meu escritório imediatamente”. enquanto eu me sentia completamente desiludido com a minha aparente incapacidade de alcançar aquelas viciadas com a verdadeira mensagem de transformação. “Estavam juntas na cozinha. por volta de meia-noite.

procurando sair do meu escritório. observou Glória.” Levantei-me e aproximei-me dele. pensei que isto fosse uma clínica. “Sente-se. O único ponto alto foi a chegada de Jimmy Baez. Ele vivera “fisgado” pelos narcóticos durante oito anos. mas eu percebia. “Já tentei. “Veja”. e de repente caiu de joelhos. A medida que o verão avançava. Glória continuou tentando tirar-me daquela atitude derrotista.” Olhou ao seu redor. aguda e dolorosamente.” “Ninguém pode me transformar”. disse-lhe. Julgava- me um completo fracasso. Colocando as mãos sobre sua cabeça. Cristo pode transformá-lo. Vocês são uma cambada de birutas. as constantes falhas do Centro. “Não tem outro remédio aqui a não ser Jesus”. Entrou no Centro pedindo remédios. Quero conversar com você. a sensação de culpa se avolumava. Lembre se do que Deus fez por você. pensando que era um hospital. Senti que ele estremecia. desesperadamente. resmungou. quando lhe falei da con- . comecei a orar.vida. Davi ainda acreditava em mim. mas tudo o que eu fazia era inteiramente negativo. Pensou que eu estivesse louco. A tensão crescia. Daquela noite em diante nunca mais sentiu necessidade de outra “picada” de heroína. Esqueceu-se da sua própria experiência de salvação? Como é que pode duvidar de Deus e ficar desanimado com esses fracassos isolados?” Glória tinha razão. clamando a Deus. mas não consigo. mas eu me sentia incapaz de livrar-me daquele desânimo. Não havia comunicação entre mim e a maioria dos outros membros da equipe. “Puxa. Jimmy.

“Israel! Israel!” gritei-lhe. e. Parecia que prestava bastante atenção.. levantei os olhos e. “Israel”. De repente. Ele resistiu e permaneceu imóvel. Quando me aproximava do fim. e concordei em dirigir os cultos ao ar livre na última semana de agosto. Todos aqueles anos. Abracei-o com força. um rosto na multidão. fiz um apelo. Talvez Deus o tivesse man- dado de volta. Não nos víamos há seis anos. e sentirá a orientação do Espírito Santo. na extremidade da multidão eu o vi. Como é que você pode continuar duvidando dele? Por que não pensar positivamente? Há vários meses que você não sai para os cultos noturnos ao ar livre. abri ca- minho furiosamente entre a multidão. Senti o velho fogo derramar se em meu coração. e procurei arrastá-lo de volta para a reunião. tentando alcançá- lo antes que ele desaparecesse. “Espere! Espere!” Ele parou e virou-se. eu orara. e senti que me saíra bem. “Deus está mostrando que ainda pode ajudá-lo. Pulei da plataforma e. esticando o pescoço para ouvir as minhas palavras. inquirira. Meu coração pulou. Era Israel. às cotoveladas. O órgão portátil começou a tocar. ali estava ele. transbordando de alegria. Preguei com todas as forças.” Aceitei o conselho. e comecei a pregar. de repente. Vi Israel virar-se para se afastar. Na primeira noite. enquanto fazia o apelo. Tinha ganhado corpo e amadurecido. Era uma noite quente e abafada. e um trio feminino começou a cantar.. “é você . Mas o seu rosto harmonioso tinha a aparência de mármore cinzelado.versão de Jimmy. Seu rosto era inconfundível. armamos nossa plataforma em Brooklin. e os seus olhos estavam fundos e tristes. como sentia antes. procurara. mas a vasta multidão estava atenta. gritei. Ponha-se a trabalhar para Deus.

sua maneira. Nicky. e começou a afastar-se. disse ele entre os dentes. “Mais tarde. e chamei-o desespe- radamente. “Ei.” Comecei a puxá-lo. Nicky. Por que não me telefonou? Tenho procurado você em todos os cantos de Nova York. para a escuridão. Tive muito prazer em ver você de novo. Continuou andando.” “Precisa ir? Faz seis anos que não nos vemos. Tenho orado todos os dias por você. Mas ele nem se virou. Não pode ir embora assim. Virou-se abruptamente e desceu rua abaixo. “Senhor”. Hoje é o melhor dia da minha vida. espere um minuto. “Preciso ir.” Tirou minha mão do seu ombro. “o que é que eu fiz? Israel está perdido. agarrei os seus ombros. Pude sentir os músculos fortes enrijecendo sob a sua pele. “Outro dia. gritei com voz agoniada. “Por onde tem andado? Onde você está morando? O que está fazendo? Conte-me tudo. Dava socos desesperados na parede. O que é que há com você? Você é o meu melhor amigo. . Não recebi resposta. olhando para ele. e a culpa é minha. Hoje não.” Virou-se e quase me congelou com um olhar gé- lido daqueles olhos inflexíveis. Piquei imóvel pela surpresa. e retornou à penumbra de onde viera. Nicky”. Durante duas horas fiquei no sótão abafado. mas ele sacudiu a cabeça e retirou o braço.” Caí no chão e passei muitos minutos chorando incontrolavelmente.mesmo?” Dei um passo atrás. em um dos quartos do sótão. e fechei a porta atrás de mim.” Seus olhos estavam distantes e frios. Você vai para casa comigo. estranha e retraída. cinzentos como o aço. Arrastei-me es- cada acima. até o terceiro andar. Perdoa-me. Voltei alquebrado para o Centro.

Eu errei. Eu não sabia se ele me ouvira ou não. Seus braços rodearam-me a cintura. Tudo em que eu tocava. Por fim o choro passou. Fechei a porta e encaminhei-me para a cadeira. e fui para o meu apar- tamento. ela pôde perceber que eu fora ferido. e ela me atraiu para si. Mata-me. e levantei-lhe o rosto com ambas as mãos. “Senhor. estou disposto a confessar o meu terrível pecado. jorrando . Durante muito tempo ficamos ali. Desci de novo as escadas. emocional e espiritualmente. Eu sabia que iria deixar o Centro. Apertei-a contra mim. Deus querido. Antes que eu pudesse sentar. Pus-me de pé e fiquei olhando pela janelinha do sótão.exaurindo-me física. olhando profundamente nos seus olhos. Glória já tinha posto o nenê na cama. Não adiantava ficar lutando contra os problemas crescentes que não podia vencer. Israel. olhando para o quarto. para o céu escuro. Não sabia nada do que acontecera na rua ou no sótão. Sentia que o meu ministério estava terminado. Silêncio. estou derrotado. Eu já fizera tudo o que sabia. e me dar forças na hora da necessidade. e estava ao meu lado para sustentar o meu espírito abatido. como fontes profundas. Fulminado. não me lances no lixo. pouca diferença fazia. Mas naquele momento. Estavam cheios de lágrimas. Não adiantava continuar no ministério. e estava arrumando a cozinha. enquanto as lágrimas começavam a cair de novo. ela estava à minha frente. Eu era um fracasso em tudo o que tentava fazer. Tenho confiado em mim mesmo. Se é esta a razão pela qual tu permitiste que isto acontecesse. Encostei-me à porta. Quetta. Lilly. terminava mal. meu corpo sacudido pelos soluços. Todavia. se necessário. e escondi o rosto no seu ombro. Eu estava arrasado. mas porque somos uma só carne. e não em ti. abraçados um ao outro. Derrotado. Humilha-me. Agora.” Sacudia-me em soluços.

Pude sentir o sal das minhas próprias lágrimas. Em vez disso. e a quentura úmida da sua boca contra a minha. e então os seus lábios se abriram. Ele se importou o suficiente para salvá-lo. Sou um fracasso. Ela estava linda. “Você não pode culpar-se pelo que aconteceu a Israel. Mas. Glória. Mais linda do que nunca. e está perdido. há seis anos atrás. passou cinco anos na prisão. movendo a ca- . sem o poder de Deus. Está errado ao culpar-se a si próprio.” “O que é. ele estaria trabalhando hoje ao meu lado. Não sei. Ela estava sorrindo. disse Glória. Nicky?” Sua voz era macia e suave. com voz ainda suave. Estou como Sansão. da terra pura. mas sei que o Espírito afastou-se de mim. cabe a mim. Pela primeira vez depois de seis anos. Pode ser que eu tenha ficado orgulhoso. Não foi sua a culpa de não ter encontrado Israel. ao sair para guerrear os filisteus. não passava de um garoto amedrontado. Apertei o seu rosto com as mãos. E o amor que fluía do seu coração transbordava dos seus olhos. Deus não se importa mais. terminou. Arruíno todas as coisas em que toco. Ele me deu as costas. A culpa dele ser o que é.água. Talvez tenha pecado. Glória sorriu. vi o meu melhor amigo.” “Nicky. “O que aconteceu?” “Vi Israel hoje. embora fracamente. quando ela se aconchegou a mim em um beijo suave e demorado. isto é quase uma blasfêmia”. não chorava. Como tem coragem de dizer que Deus não se importa mais? Ele se importa." "Você não compreende" disse eu. Naquela manhã em que saiu da cidade. Vou embora. Se eu não o tivesse deixado sozinho na cidade. “Pronto. enquanto as lágrimas gotejavam e corriam em pequenos regatos pela face bronzeada.

"Desde que Davi me contou que Israel voltou para a quadrilha. Sou incapaz.. Mas ele sempre está ocupado demais..." . Eles precisam lançar-me ao mar. todo o Centro Desafio Jovem vai ser destruído. "Meu lugar não é aqui. e já é tempo de admiti-lo. pelo menos fale com Davi primeiro. que conversa louca! Satanás é quem está fazendo você ficar assim". Glória passou o braço em torno da minha cabeça e acariciou meu pescoço. "Tem razão." "Nicky. o barco inteiro vai afundar. você não pode desistir agora.beça. Acha que eu posso resolver tudo sozinho. culpei-me a mim mesmo." "Já tentei. quase chorando. Não agüento mais. e ele virou-me as costas." "Nicky. um fracasso. interrompi. Mas eu vou renunciar. Tenho carregado o peso da culpa em meu coração. Meu travesseiro estava molhado de lágrimas. Nicky." "Amanhã vou me demitir". para que um peixe me coma.. e não saiba disso. Meu lugar não é no ministério. Sou como Jonas. Pode ser que ainda esteja fugindo de Deus. jus- tamente quando Deus está começando a operar. Nem quis falar comigo. "Nicky. Afastei-me dela. Não sou suficientemente bom. e ouvi Glória murmurar: "Nicky. Satanás está em mim. Se eu ficar. Esta noite eu o vi. com a cabeça. antes de renunciar você me promete uma coisa? Você telefona para Kathryn Kuhlman e conversa com ela?" Acenei que sim. Se não se livrarem de mim. disse Glória. mas está errado. centenas de vezes. Sou um fracasso . Deus vai tomar conta de nós." Depois que fomos deitar. Se você tivesse visto a dureza do seu semblante!" "Mas.

que ele conservasse aquela nuvem de desânimo ao meu redor. Ela insistiu para que eu fosse a Pittsburg. com as despesas pagas por ela. Lembre-se. Se quisesse que eu permanecesse. Não fique amargurado nem desanimado. Deus pôs a mão sobre você. Enterrei a cabeça no travesseiro. Nicky. Naquela noite. declarou: "Talvez Deus esteja dirigindo você para um mi- nistério diferente. Começaríamos tudo de novo. Em vez disso. do outro lado. Naqueles dias de trevas e indecisão. Voltei à cidade na manhã seguinte. Fiquei surpreso quando ela não procurou forçar-me a ficar no Centro. que parecia transpirar a própria presença do Espírito Santo. grato pela amizade e confiança daquela senhora cristã. ele está conosco. pedindo a Deus que não me permitisse ver o sol despontar outro dia. conserve os olhos em Jesus. e não vai abandoná-lo agora. pelo telefone. Só o fato de conversar com a Srta. Glória disse que me seguiria onde quer que eu fosse. O seu grande amor e sua confiança davam-me . Pode ser que ele o esteja levando pelo vale das sombras. parece que ajudou. só uma es- trela brilhante surgiu. em minha vida. se fosse da vontade de Deus que eu deixasse o Centro Desafio Jovem. a fim de que possa sair ao sol. Tão somente. para que eu me sentisse disposto a ficar em Nova York. na forma daquela senhora majestosa. Na tarde seguinte. antes de tomar uma decisão final. tomei o avião para Pittsburg." Oramos e ela pediu que. gentil e dinâmica. no dia seguinte. dissipasse a nuvem. Nicky. Kuhlman. quando passamos pelo vale da sombra. depois que o nenê dormiu. sentei à mesa da cozinha e conversei outra vez com Glória. talvez na Califórnia. Eu queria mesmo sair.

“Nicky”.” Aí. levantando dinheiro para o Centro. antes de conversarmos. Davi.novas forças. Mas sei que. e caiu na cadeira. “Será que eu estava tão ocupado que não fiquei aqui o tempo suficiente. peguei um pedaço de papel e uma caneta. Ele fechou a porta. não sei o que está por trás de tudo isto. quero pedir-lhe que me perdoe por ter falhado com você. e entramos no escritório.” “É tarde demais para conversar. Davi suspirou fundo. vamos conversar . Está sendo preparada há muito tempo. e esperei enquanto ele lia. quando Davi chegou ao Centro. Várias vezes procurei falar-lhe. Antes de ir para a cama. então. abri o coração diante dele. com os olhos penetrantes fixos . “Nicky. disse Davi. Nicky? O que causou esta decisão repentina?” “Não é repentina. Foi um fim de semana horrível. Nicky?” Baixei a cabeça. Nicky. Não tenho tido tempo nem para a minha família. “Vamos conversar. Então.” “Mas. Sinto que é isto que eu devo fazer. Você me perdoa. e meneei-a silenciosamente. Na segunda-feira cedo. “Fui eu quem falhei com você. quando você precisou de mim? Venha ao meu escritório. Sinto em meus ombros o pesado fardo da responsabilidade. e encarou-me com um semblante profundamente aflito. e escrevi meu pedido de demissão. sou culpado. Nicky?” perguntou suavemente. em grande parte. estendi-lhe meu pedido de demissão. Davi. Vivo correndo.” Segui-o silenciosamente pelo saguão. por que. Ele baixou a cabeça. Todos os dias tenho me repreendido por não passar mais tempo com você.

” No dia seguinte.” “Elas não são pequenas para mim. pregando naquela cidade. porém. apercebi-me de que não estava mais viajando por conta do ministério. a minha alma. Freqüentemente. Eu passara dois anos e nove meses no Centro Desafio Jovem. toma agora.em mim. Toda a minha vida fora dedicada ao Centro. e dois dias depois voei até Houston.” Contudo. e as passagens de avião e despesas de mudança iriam deixar-nos sem dinheiro. fiquei meio envergonhado de contar que saíra do Centro. Nada queria para mim. Em Houston. “todos nós passamos por esses períodos de depressão. quando pregara em concentrações e conferências. Davi. Já re- solvi. tenho me sentido como Elias. Com medo. foi fria e ineficaz. Fiquei assustado. Não consigo imaginá-lo fugindo destas pequenas derrotas. Havíamos economizado muito pouco. A minha pregação. Estávamos em agosto de 1964. Glória e Alicia embarcaram de avião para Oakland. Inseguro. sabendo que eu mal . Enquanto voava através do país. Parecia irônico que até mesmo em Houston eu tinha continuado a dizer. Estava ansioso para seguir para a Califórnia e encontrar-me com Glória. você entrou em lugares onde os anjos temeriam andar. debaixo de um zimbro. Pensei em desistir várias vezes. aos que queriam contribuir. para cumprir o meu último compromisso. Eu agradecia. gritando: “Basta. Senhor. Lembrei-me das vezes em que pessoas tinham tentado colocar dinheiro em minhas mãos. Eu já decepcionei algumas pessoas. e mandava que fizessem um cheque em nome do Centro Desafio Jovem. e já fiquei decepcionado com outras. Desculpe. que fizessem os cheques em nome do Centro Desafio Jovem. Nicky.

disse a Glória para não atender mais interurbanos. todavia. Ela alugara um apartamento pequeno. estava desesperado. deixar o ministério. Finalmente. quanto a mim. porém. dizendo que ela podia orar. e todo meu mundo afundou na escuridão. Fiquei chocado com a minha atitude mercenária. não considerava as coisas as- . Se me pagassem. mas eu me sentia desanimado e afastava-a de mim. então não me sentia obrigado a buscar a sua bênção para pregar. Começaram a chegar convites para falar nas igrejas. O Senhor. preferindo ficar sentado em casa. admirei minha própria dureza e frieza. e Glória não conseguira achar emprego. sentia-me vazio. espalhou-se a notí- cia de minha volta à Califórnia. Estávamos “que- brados” e deprimidos. em Nova York. Pretendia desistir. como eu sentia que ele o fizera. e sentia que ele me voltara as costas. Pela primeira vez na vida. Era simplesmente isso. mas. Sentado na plataforma. subi ao púlpito sem orar. olhando para as paredes. Glória tentou orar comigo. Glória foi encontrar-se comigo no aeroporto. eu aceitaria. Se Deus me deixara cair. e começar da estaca zero. Eu dera a Deus quase seis anos da minha vida. Como último recurso. em alguma outra atividade. desespera- dora. e não responder às cartas. Não obstante. Estava espiri- tualmente frio. Não queria ir à igreja com Glória. Havíamos gastado todas as economias.tinha dinheiro para viver. Não sabia para onde me voltar. Nossa situação financeira era. Logo me cansei de dizer “não” e de inventar desculpas. O sol mergulhou no Oceano Pacífico. Dentro de algumas semanas. nos dias seguintes. aceitei um convite para pregar em uma cruzada para jovens. Percebi que estava me afastando de tudo.

Havíamos planejado sair para lanchar e depois dar um passeio de carro. Outros ainda vieram à frente.. concordamos em ir para casa. sussurrando. derramei a alma perante o meu Deus. Depois. atrás dos que se ajoelharam diante do gradil superlotado. relembrando-me que. meus olhos encheram-se de lágrimas e eu. De repente. Ali. Senti os joelhos tremerem. . não voltará para mim vazia. Tão grande era o número de jovens ali na frente. Estava me dizendo. mas com voz trovejante. Dizia-me que ainda estava no seu trono. ajoelhando-se diante do altar.. de joelhos diante do gradil.” Quando fiz o apelo. Nunca estivera em um culto em que o Espírito de Deus caísse sobre a congregação com tanto poder. O Senhor procurava dizer-me algo. No fundo da igreja. Glória e eu entramos no carro que estava estacionado no pátio da igreja. Outros continuavam se apresentando.sim tão simples. o pregador da noite. e os corredores ficaram cheios de jovens dirigindo-se ao altar. vi gente caindo de joelhos e clamando a Deus. e que ainda queria usar-me. numa nova dedicação a ele. mais do que apenas receber um cheque como pagamento pela pregação... Em vez disso. embora eu não estivesse disposto a ser usado. não baixinho. e tentei segurar-me no púlpito. Primeiro. ele não me decepcionava. Depois do culto. que muitos precisaram ficar de pé. embora eu o decepcionasse. outro veio do canto mais afastado do auditório. com o coração cheio de arrependimento. em termos inconfundíveis. que não terminara sua obra em minha vida. Pregar Cristo é coisa sagrada — e ele prometeu: “Minha palavra. algo aconteceu. um jovem saiu do meio da multidão e aproximou-se. Ele tinha planos muito mais elevados para mim. ajoelhando-se defronte do gradil e entregando suas vidas a Cristo. caí para a frente.

e agora a luz do sol já coroava o pico das montanhas distantes. caí de joelhos.. Minhas concentrações e cruzadas. Quase podia ouvir as palavras: Sim. Glória ajoelhou- se ao meu lado. quando recebi um convite de um grupo de leigos conhecido como “Full Gospel Business Men's Fellowship International”. . Capítulo 18 NO TERRITÓRIO DE JESUS A GRANDE OPORTUNIDADE surgiu pouco antes do Natal.. Abri os olhos.” Salmo 23. Sabia que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus. Sabia que havia mais ainda. em sua maior parte patrocinadas por igrejas de todas as denominações. Havíamos atravessado o vale da sombra da mor> te. estavam obtendo maravilhoso êxito. vi que ele estava ao meu lado. Podia sentir a sua presença. Foi através desse grupo de comerciantes dedicados que começaram a chegar convites para falar em ginásios e universidades. e eu falei a multidões de mais de dez mil pessoas. Durante 1965 estive na maioria das cidades mais importantes do país. Quando entramos. mas a sua graça nos guiara. e nós dois choramos e clamamos a Deus. “ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte. não temerei mal nenhum. porque tu estás comigo: a tua vara e o teu cajado me consolam. e através das lágrimas. E eu sabia. anunciando o alvorecer de um novo dia.

eu estivera falando através do intérprete Jeff Morales. de elevada estatura. com pneumonia.. Você terá que se virar sozinho. Jeff mudara-se para a Califórnia. diante de uma bateria de microfones e de câmaras de TV. cerca de meia hora antes de deixar o aeroporto. Daniel ajudou a preparar uma cruzada de quatro dias em Seattle. Não parecia encontrar a solução para o problema. mas suas palavras ficaram gravadas em minha mente. Recordei minha própria infância. Deus estava usando o meu testemunho em grandes cruzadas. talvez. Não respondi à sua observação. Casualmente ele mencionou certa noite que sabia que o meu desejo original fora trabalhar com os “pequenos”. Continuávamos orando para que Deus nos mostrasse o caminho para nos aproximarmos dessas crianças. ainda estava impaciente e tinha um profundo anseio no coração. estou de cama. trouxe à tona o meu problema. examinei a enorme multidão. Será que eles seriam capazes de entender-me. Porém. apesar do sotaque porto-riquenho? Será que ririam do .” De pé na plataforma. e por isso tornava-me cada dia mais impaciente. meu coração doía. um negociante extrovertido.. O médico não me deixou ir. Se tão somente alguém tivesse se preocupado em me levar a Cristo quando criança. Conversei a esse respeito com Glória. sem o saber. Porém. Foi então que fiquei conhecendo Daniel Malachuk. mas cada vez que eu lia nos jornais um artigo sobre crianças presas por terem cheirado cola ou terem fumado maconha. Agradecia diariamente a Deus por sua bondade. e que. a fim de viajar comigo para as grandes concentrações onde as pessoas tinham dificuldade em entender meu sotaque. Poucos meses depois. que vivia em Nova Jersey. ele telefonou: “Nicky. Durante todo esse tempo.

Jeff fora substituído por Jesus e.” Levantei a cabeça e comecei a falar. e fluíram de minha boca com poder sobrenatural.” “Nicky”. “Dê-lhe o nome de “Esforço para a Juventude. Daniel foi ao meu quarto. disse Daniel. mas polidamente. As palavras vieram perfeitas. Uma oferta de amor de três mil dólares foi levantada para você usar em seu ministério. tive a certeza de que sempre que estivesse falando dele. não posso aceitar esse dinheiro. Depois do último culto. desde aquele momento. e saiu uma coisa que parecia com “uuuggghhhllkfg”.meu inglês arrevesado? Nervosamente. Não adiantava.” “Daniel. as bênçãos de Deus estão se derramando de maneira maravilhosa.” “Maravilhoso”. no hotel.” “E posso usá-lo de qualquer forma que sinta que Deus quer?” perguntei. As palavras não saíram — só um murmúrio enrolado.” E o nome foi “Esforço para a Juventude”. A multidão mexeu-se nervosa. Limpei a garganta outra vez. Quero co- meçar um centro para ministrar a eles. limpei a garganta e abri a boca para falar. esparramando-se no sofá e tirando o sapato. sentando no sofá. “Nicky. É para Deus operar através da sua pessoa. disse Daniel. confio em que podes dar-me uma língua conhecida para falar de ti a estes jovens. Eu já tinha me habituado à ajuda de Jeff. Voltei à . explodiu Daniel. “o dinheiro não é para você. enquanto se colocava à von- tade. “Então vou usá-lo para os “pequenos”. não precisaria mais de intérprete. Curvei a cabeça e pedi poder: “Senhor amado. se podes dar-me uma língua desconhecida para louvar o teu nome. “Isso mesmo”.

respondeu o garoto. respondi. e final- mente disse: “Rubem. A princípio. e fa- zíamos estudos bíblicos diários no Centro. por que quer saber?” “Não sei”.” “Com os diabos”. e ganhá-los para Cristo.” Espontaneamente ele me contou que o pai era viciado em tóxicos. Estabelecemos o nosso Centro em Fresno. resolvido a abrir um Centro onde pudesse tirar os pequenos das ruas. comecei a vasculhar as ruas. Broadway.Califórnia com os três mil dólares.” O comissário ficou satisfeito com a notícia. “Você quer mesmo que eu vá?” “Claro”. O único que vai se importar é o comissário de menores. “mas temos de falar primeiro com seu pai. Ele me examinou com o canto dos olhos.” Logo em seguida. respondi na mesma linguagem errada que ele usara. Nicky Cruz. Diretor. No primeiro dia. Escutei sua história. encontrei um garoto de onze anos dormindo no vão de uma porta. e Rubem mudou-se para o Centro naquela mesma noite. na Av. recolhemos mais dois meninos. Sentei-me ao seu lado e perguntei como se chamava. e perguntei-lhe se gostaria de ir morar comigo. “o meu ve- lho vai pular de alegria por se livrar de mim. Poucas semanas depois. e depois contei-lhe que eu estava abrindo um Centro para garotos como ele. Deixara a escola no sexto ano. Foram todos matriculados na escola. N. Requeremos o alvará oficial do Estado da Califórnia. “Você me pareceu tão simpático que quis conversar com você. 221. . Ele mesmo tinha cheirado cola no dia anterior. e pendurei uma placa na porta da frente: “Esforço para a Juventude.

e como . Glória e eu passamos muito tempo em oração.Rubem nos deu muito trabalho. Em questão de semanas. J. Na tarde seguinte. alto. À medida que os dias se passavam.” Era outra resposta de oração. depois de apenas algumas horas de sono. contador. gerente de uma estação de TV local. começamos a receber telefonemas de mães aflitas. pedindo a Deus que nos guiasse. um rapaz de cor. com o Rev. quando era chefe de uma quadrilha em Nova York. naquele mesmo mês. Era Daniel Smith. nossas acomodações estavam lotadas. de que a sua conversão foi sincera?” disse ela. que diziam que os filhos estavam completamente impossíveis. o telefone tocou. ao voltar da escola. e ainda continuávamos recebendo telefonemas. mas no fim da segunda semana aceitou a Cristo durante um estudo bíblico. Eu não precisava de nenhuma outra. Estamos dispostos a trabalhar com você. e pediam que os recolhêssemos. Keener. Deus está nos dirigindo por um misterioso caminho. Paulo Evans. para ajudar na direção. Cambaleei até o aparelho. o fato daquele pe- queno grupo de negociantes e profissionais liberais se colocarem à disposição do Centro. se nos aceitar. Davi Carter jun- tou-se à nossa equipe. Várias pessoas de nosso grupo têm orado em favor da obra que você está realizando. “Que outra evidência você quer. para trabalhar com os meninos. dirigiu-se diretamente para o seu quarto e começou a estudar. Mais tarde. Falei com Earl Draper. Eu conhecera Davi. e com H. membro ativo da sociedade “Full Gospel Business Men's” de Fresno: “Nicky. interiormente. Fora para o Instituto Bíblico depois da sua conversão. Certa manhã. Senti-me bem. A inquietude estava desaparecendo . Glória piscou para mim. quieto. Deus colocou no meu coração o desejo de ajudá-lo a formar uma Junta de Diretores.

Ele viria para trabalhar como nosso supervisor. e nos membros da quadrilha — principalmente em Israel.não tinha laços de família. podia passar muitas horas aconselhando pessoalmente os meninos famintos de amor. de voz suave. mas para mim. Naquele outono. Comecei a pensar nos velhos amigos. Contudo. dê-me outra oportunidade de dar meu testemunho em presença . Era difícil imaginar que aquele jovem de aparência culta. pálido. Algo me tocava o coração. Deus estava abençoando. Havia também duas moças mexicanas: Frances Ramírez e Angie Sedillos. Tratava-se de Jimmy Baez. O último membro da equipe era uma pessoa muito especial para mim. orei. Recostei-me no banco. não há limite para as surpresas do amanhã. Jimmy acabara de diplomar-se na Escola Bíblica. “por favor. ao lado dele. tipo cortiço. e as mãos ocupadas com os “pequenos”. Eu não fazia mais parte do gueto. e fiquei observando os velhos prédios passarem velozmente. fosse o mesmo garoto franzino. mas ele ainda era uma parte de mim. e ajudar no trabalho da secretaria. que se juntaram a nós para promover o contato com as meninas. era muito mais do que isso. continuamos avançando. Daniel Malachuk escalou me pa- ra uma série de palestras em Nova York. tremendo devido à privação de heroína. Depois de me apanhar no aeroporto. e suplicando que lhe dessem drogas. Com o coração cheio de fé em Deus. rosto simpático e óculos de aros escuros. e desposara uma jovem calma. Ele era uma prova viva do poder transformador de Jesus Cristo. passando por quilômetros e mais quilômetros de apartamentos. para os que amam a Deus. entramos no seu carro e fomos para a cidade. que ficara agachado horas a fio no Centro Desafio Jovem. e eu pensava já ter recebido o máximo em surpresas maravilhosas. “Jesus”.

no Bronx. O encontro longamente esperado foi marcado para as seis horas da tarde seguinte. Ele não apareceu. Daniel foi co- migo para o quarto do hotel onde eu ia passar a noite. a fim de ganhar o seu co- ração para Cristo. “Glória a Deus! Minha oração foi respondida. pedindo a Deus para me dar as palavras certas. Acabei de ler no jornal que você estava na cidade. . O coração subiu-me à garganta. Frank. eu-eu-eu estava pensando se poderia vê-lo en- quanto está na cidade. nove anos antes. mas ele me interrompeu: “Nicky. das cinco e trinta às sete horas da noite.” “Convide-o para se encontrar conosco no hotel. De repente. Orei por ele a noite inteira.” Quase não podia crer nos meu ouvidos. Ele disse que eu poderia encontrá-lo no hotel.” “Israel!” gritei. para jantar”. Daniel e eu ficamos medindo o saguão do hotel com nossos passos. sou eu. e houve um longo silêncio do outro lado da linha. O telefone estava tocando quando entramos. antes que eu ouvisse uma voz fraca. naquela noite.dele. Israel. eu o vi. enquanto eu me lembrava daquela manhã. Nicky. Onde você está?” “Estou em casa. Só para conversar a respeito dos velhos tempos. disse Daniel. e telefonei para o seu irmão.” Depois da reunião. quando nos tínhamos desencontrado da primeira vez. Virei-me para Daniel: “Israel. Atendi. amanhã à noite. mas bem conhecida dizer: “Nicky. Suas feições harmoniosas.” Comecei a dizer algo. Ele quer me ver.

no décimo . por causa das baratas.” Ao seu lado estava uma jovem porto-riquenha. com um sorriso que tomava conta de todo o seu bonito rosto. completamente esquecidos do trânsito intenso ao nosso redor. Israel estava descontraído. disse ele com voz estrangulada. Israel fala muito de você estes três anos. “Está alegre de conhecer você”.” Fomos até o salão Hay Market Room para jantar.quarto andar. quero que você conheça minha esposa.” Repentinamente. Rosa. É chique demais. “nem posso crer. Israel e Rosa ficaram para trás. Curvei-me para apertar-lhe a mão. “Tenho vivido perto de você todo este tempo. disse ele. Vamos!” Israel olhou para mim embaraçado. peça o troço mais caro que encontrar na lista e deixe o “dono do ouro” aqui pagar”. qual é o problema? Daniel vai pagar a conta.olhos profundos. “Nicky”. Não sei o que fazer. Israel. Mas poderia ser pior. porém ela me agarrou pelo pescoço e beijou-me resolutamente na face. os ratos vêm dos esgotos e mordem as crianças . não posso entrar aí. começamos a rir e falar ao mesmo tempo. baixinha e simpática. “Ei. e pude perceber que algo os preocupava. quando nos falou da sua casa. falando um inglês arrevesado.” Rodeei-lhe os ombros com o braço. Passado algum tempo. sorri. Israel se afastou e disse: “Nicky. tomamos o elevador para o meu apartamento. “Nicky. Não pude falar. e finalmente me puxou de lado. Nada mudara. piscou. pois as lágrimas vieram-me aos olhos. Depois do jantar. e parecia o mesmo velho Israel. “Eu também não sei o que fazer”. respondi. cabelo ondulado. no gueto “Não é um lugar muito agradável para se viver”. “Olhe. “Precisamos guardar os pratos na geladeira. apontando para Daniel. No andar térreo.

enquanto dormem. É como se estivéssemos
acorrentados ali”, disse. “Não podemos livrar-nos. É um
lugar péssimo para criar os filhos. Na semana passada,
três meninas do meu edifício, todas de cerca de nove
anos, foram estupradas em uma viela, nos fundos do
prédio. Não temos coragem de deixar as crianças saírem
à rua, e eu estou doente de preocupação . Quero sair de
lá. Mas...”
A sua voz falhou, e ele levantou-se da cadeira, foi
até a janela, e olhou para fora, em direção à torre
reluzente do edifício “Empire State”. “Mas a gente
precisa viver em algum lugar, e em qualquer outro lugar
o aluguel é alto demais. Quem sabe no ano que vem...
talvez no ano que vem nos mudemos para um lugar
melhor. Até que eu não me saí tão mal. Comecei lavando
pratos, e prosperei. Agora sou contínuo em um edifício
na Wall Street.”
“Mas depois que você conseguir mudar, o que
acontecerá?” interrompi.
“O que foi que você disse?” perguntou.
Percebi que chegara a hora de me aprofundar no
passado. “Israel, conte-me o que foi que saiu errado.”
Ele voltou para o sofá onde Rosa estava, sentou-se
nervosamente ao seu lado. “Não me incomodo de falar
nisso agora. Acho mesmo que preciso falar. Nunca
contei, nem para Rosa. Você se lembra daquela manhã,
depois que saiu do hospital, quando você e aquele
homem iam encontrar comigo?”
Acenei que sim. A recordação era dolorosa.
“Esperei três horas. Fiquei como louco. Eu fiquei
danado com os crentes, e naquela noite voltei para a
quadrilha.”
“Israel, sinto muito. Nós procuramos você...”
“Não importa. Faz muito tempo. Talvez as coisas

fossem diferentes se eu tivesse ido com vocês. Quem
sabe?”
Fez uma pausa, e depois começou de novo. “De-
pois, arranjamos uma encrenca com os Angels da Rua
Sul. Aquele cara entrou em nosso território e dissemos
que não queríamos nenhum “bicho de pé” por ali. Quis
bancar o engraçadinho, e batemos nele. Correu, e cinco
dos nossos foram atrás dele até os domínios da Rua Sul,
e o agarramos na Arcada. Nós o puxamos para fora, e
começamos a lutar com ele. A coisa de que me lembro a
seguir, é que um dos nossos tinha um revólver na mão e
começou a dar tiros. Paco pôs-se a segurar a barriga e
dizer brincando: “Oh, peguei um tiro! peguei um tiro!”
Todos os rapazes riam.”
“Então, o “bicho-do-pé” caiu no chão. Estava
mesmo ferido. Estava morto. Eu vi o buraco da bala na
sua cabeça.”
Israel fez uma pausa. O único som que se ouvia
era o do trânsito, atenuado pela distância, lá embaixo.
“Fugimos. Eu e mais três fomos agarrados. Os
outros se safaram. O cara que puxou o gatilho tomou
vinte anos. O resto, de cinco a vinte anos.”
Ele parou de falar, e baixou a cabeça: “Foram
cinco anos de inferno.”
Recuperando a serenidade, prosseguiu: “Tive de
fazer um “acordo” para sair da prisão.”
“O que é um “acordo?” interrompeu Daniel. “A
Junta de Livramento Condicional disse que eu seria
solto, se pudesse provar-lhes que tinha um emprego me
esperando. Eles me disseram que eu teria de voltar para
meu antigo lar. Eu não queria voltar para o Brooklin.
Queria começar a vida de novo, mas disseram que eu
tinha de voltar para casa. Assim, eu fiz um “acordo”
através de um viciado que estava lá dentro comigo. Ele
conhecia um homem que tinha uma fábrica de roupas

no Brooklin, e disse à minha mãe que, se ela lhe
pagasse cinqüenta dólares, ele me prometeria um
emprego. Ela deu ao homem o dinheiro, e ele escreveu
uma carta dizendo que eu tinha um emprego na sua
fábrica, quando saísse da prisão. Foi a única maneira de
arranjar emprego. Rapaz, quem é que vai querer um ex-
preso como empregado?”
“Mas você conseguiu o emprego?” perguntou Da-
niel.
“Nada” disse Israel, “eu disse a vocês que era um
“acordo”. Não havia emprego nenhum. Era só um jeito
para eu sair da cadeia.”
“Saí, então, e fui a uma agência de empregos, e
menti sobre o meu passado. Você pensa que eles me
teriam contratado, se eu contasse que saíra da cadeia
no dia anterior? Arranjei um emprego de lavador de
pratos, e depois uma dúzia de outros empregos. Desde
então, tenho mentido. A gente precisa mentir para
conseguir um emprego. Se meu patrão soubesse que eu
sou um ex-preso, ele me mandaria embora, apesar de eu
estar fora da cadeia há quatro anos, e ser um bom
empregado. Portanto, eu minto. Todo mundo faz isso.”
“O oficial de justiça responsável por você durante
seu livramento condicional, ajudou-o?” perguntou
Daniel.
“Sim ele foi o único sujeito que realmente tentou.
Mas o que é que poderia fazer? Ele tinha mais de cem
rapazes como eu para ajudar. Não, a responsabilidade
era minha, e consegui tudo sozinho.”
O quarto ficou em silêncio. Durante todo o tempo
Rosa estivera sentada, quieta, ao lado de Israel. Ela não
conhecia essa parte da vida de seu marido.
Depois eu falei: “Israel, você se lembra daquela vez
em que estávamos procurando os Phantom Lords, e
caímos em uma emboscada?”

“Lembro.”
“Você salvou a minha vida naquela noite, Israel.
Esta noite eu quero retribuir aquele favor. Quero dizer-
lhe algo que salvará sua vida.”
Rosa estendeu a mão e passou o braço pelo dele.
Ambos viraram-se e me olharam com ar de expectativa.

“Israel, você é o meu melhor amigo. Você pode
notar que houve uma transformação na minha vida. O
velho Nicky morreu. A pessoa que você vê agora não é
realmente o Nicky, é Jesus Cristo vivendo em mim.
Você se lembra daquela noite, na Arena St. Nicholas,
quando demos nosso coração ao Senhor?” Israel fez que
sim, baixando os olhos para o chão. “Deus entrou no
seu coração naquela noite, Israel. Eu sei disso. Deus fez
um acordo com você e ainda mantém a sua parte do
acordo. Ele não se esqueceu de você, Israel. Você tem
fugido todos estes anos, mas a mão dele ainda está
sobre você.”
Peguei a Bíblia: “No Velho Testamento tem a
história de um homem chamado Jacó. Ele também fugiu
de Deus. Então, uma noite, exatamente como esta, ele
teve uma luta com um anjo. O anjo venceu, e Jacó
rendeu-se a Deus. Naquela noite Deus mudou o seu
nome. Não era mais Jacó — mas Israel. E Israel significa
“aquele que anda com Deus.”
Fechei a Bíblia e fiz uma pausa, antes de conti-
nuar. Os olhos de Israel estavam molhados, e Rosa
apertava o seu braço. “Durante todos estes anos, tenho
ficado acordado durante a noite, muitas vezes, orando
por você — pensando como seria maravilhoso se
estivesse trabalhando ao meu lado — não como fazíamos
antes, mas na obra de Deus. Israel, esta noite eu quero
que você passe a andar com Deus. Quero que entre no
território de Jesus.”

Israel olhou-me com os olhos rasos de água.
Virou-se e olhou para Rosa. Ela estava confusa, e falou-
lhe em espanhol. Eu estivera falando em inglês, e vi que
Rosa não compreendera tudo o que dissera. Ela
perguntou-lhe o que eu queria. Israel explicou que eu
queria que eles dessem o coração para Cristo. Ele falou
rapidamente em espanhol, contando-lhe do seu desejo
de voltar para Deus — como outrora Jacó teve vontade
de voltar ao lar, e perguntou-lhe se ela iria com ele.
Ela sorriu, e os seus olhos brilharam, enquanto
acenava que sim.
“Glória a Deus!” gritei. “Ajoelhem-se ao lado deste
sofá, enquanto oro.”
Israel e Rosa ajoelharam-se ao lado do sofá. Da-
niel escorregou da cadeira e ajoelhou-se, do outro lado
da sala. Coloquei as mãos sobre suas cabeças, e comecei
a orar, primeiro em inglês, depois em espanhol,
oscilando entre as duas línguas. Senti o Espírito de
Deus fluindo através de meu coração, meus braços, e
meus dedos, e alcançando as suas vidas. Orei, pedindo
a Deus para perdoá-los e abençoá-los e recebê-los na
plenitude do seu reino.
Foi uma oração longa. Quando terminei, ouvi Is-
rael começar a orar. Temerosamente a princípio, e
depois com intensidade, ele clamou: “Senhor, perdoa-
me. Perdoa-me. Perdoa-me.” Então a sua oração mudou,
e eu pude sentir novas forças atuando em seu corpo,
quando começou a dizer: “Senhor, muito obrigado.”
Rosa uniu-se à sua oração: “Obrigado, Senhor,
muito obrigado.”
Daniel pôs Israel e Rosa em um táxi, e pagou a
corrida até o seu apartamento no Bronx. “Nicky” disse
ele limpando os olhos, enquanto se afastavam, “esta foi
a melhor noite da minha vida, e sinto que Deus vai
mandar Israel para a Califórnia para trabalhar com

você.”
Concordei. Pode ser que sim. Deus tem sempre
uma forma de cuidar de tudo.

Epílogo

Em uma tarde no fim da primavera, Nicky e Glória
descansavam nos degraus da frente do Centro, na Av. N.
Broadway, 221, observando Ralphie e Karl cortando a
grama, enquanto a noite se aproximava. Estava quase
na hora do culto ao ar livre no gueto. No quintal,
podiam-se ouvir os sons alegres de Davi Carter e Jimmy
Baez rindo para Allen, Joly e Kirk, que jogavam bolinha.
O jantar terminara, e lá dentro Frances e Angie
supervisionavam os outros meninos que tomavam o
banho diário. Alicia e a pequena Laura, agora com um
ano e quatro meses, brincavam alegremente na grama
recém cortada.
Glória estava sentada em um degrau mais baixo,
olhando com afeto e pensativamente para o seu marido,
encostado numa coluna do balaustre com os olhos semi-
serrados, como se estivesse perdido no mundo dos
sonhos. Ela inclinou-se e colocou a mão no joelho dele.
“Querido, o que há? Em que está pensando?” “O
que foi?” perguntou ele distraído, relutando em deixar
seus pensamentos.
“Qual o seu sonho agora? Ainda está fugindo? Já
temos o Centro para os “pequenos”. Israel e Rosa estão
morando em Fresno e servindo ao Senhor. Sonny está
pastoreando uma grande igreja em Los Angeles. Jimmy
está trabalhando com você e Maria está servindo a Deus
em Nova York. Na semana que vem você vai para a
Suécia e Dinamarca, para pregar. Por que ainda está
sonhando? O que mais poderia pedir a Deus?”

interrompeu Glória.” Nicky balançou a cabeça.” “Nicky”. “Você é um sonhador. mantendo os olhos fixos nele.. no centro da cidade. disse Glória. se fossem à igreja certa manhã de domingo. Não desejam ver seus tapetes sujos com o pó de pés descalços. Nicky endireitou-se e olhou bem no fundo dos olhos inquiridores da companheira. mas o que ele pede a mim. e um bando de ex-viciados em narcóticos e cheiradores de cola nos saguões do templo? Não. catres. respondeu Nicky. e encontrassem seu “santuário” profanado com camas. mas desejam que outras pessoas o façam em seu lugar. “Fico pensando em todas aquelas enormes igrejas. Nicky”. que ficam vazias durante a semana. “não é tarefa só para você. quando disse: “Não é o que eu peço a Deus. dirigido por voluntários. . apertando-lhe o joe- lho. Você acha que os membros daquelas igrejas vão transformar os seus belos prédios em dormitórios para crianças perdidas e sem lar? Eles querem prestar ajuda. É a tarefa de todos os cristãos — em toda parte. Não seria maravilhoso se aquelas salas de aula inúteis pudessem ser transformadas em dormitórios para ser cheios de centenas de crianças e adolescentes dos guetos. Essa gente não quer sujar as mãos. Com nosso trabalho estamos só arranhando a superfície. “Mas. querida. Só os ruídos das ativi- dades alegres soavam em torno da casa. Fico sempre imaginando o que Jesus faria. Ficam irritados quando um bêbedo perturba o seu culto. Sua voz tinha um tom distante. é claro. você é um sonhador. “Você tem razão.” “Sei disto”. Imagine o que diriam. Será que ele sujaria as mãos?” Ele parou e olhou para as montanhas distantes.” Houve uma longa pausa.. Nicky. que nunca souberam o que é amor? Cada igreja poderia tornar-se um Centro.

A igreja ainda continua com a sua luz brilhando. e olhou para Glória. “É isto que está acontecendo hoje em dia. disse Nicky.” As risadas dos garotos no quintal tornaram-se mais altas. Mas você tem de prosseguir sozinho. refletindo profunda alegria e compreensão em sua voz. não”. eles terminaram o jogo e entraram. disse Glória. mas agora os tempos mudaram.” Glória ouvia atentamente. Você sabe disso. e estavam sentados no meio-fio.” “Eu sei”. “Estarei andando no território de Jesus. e co- locando as mãos sobre as dela. O marido dela quer que ele vá para a cadeia. defronte da casa.” Parou. esperando uma reação. porque os tempos mudaram. para que a luz possa passar por baixo das nuvens de fumaça. bem alto. Todavia. Glória esperou que ele continuasse.refletindo: “Você se lembra da viagem que fizemos no ano passado a Ponta Loma. Só quero estar onde há ação. onde o povo está. porque estava vendendo maconha. Não. Li na semana passada que a fumaça das fábricas é tão espessa que eles precisam construir um novo farol bem perto da água. Faz-se necessário que uma nova luz brilhe perto do chão — bem embaixo. . eu não estou fugindo mais. Nicky baixou a cabeça. poucas pessoas conseguem vê-la. “O filho de doze anos foi apanhado pela polícia. “Mas não temos lugar para ele. “É isto o que eu desejo para você. abaixando-se. não sabe?” “Sozinho. e há muita fumaça. Não é suficiente ser o guarda do farol: eu preciso também ser o portador da luz. “Hoje de manhã recebi um telefonema de uma senhora de Pasadena.” Nicky fez uma pausa. Karl e Ralphie tinham pegado suas Bíblias. na baía de San Diego? Lembra-se daquele enorme farol? Durante muitos anos ele tem orientado os navios que entram no porto.

. disse ela suavemente.. enquanto en- laçava suas pernas com os braços. Nicky pôs Glória de pé: “Vamos! Depressa! Está na hora de realizar a obra de Jesus. quando Nicky Cruz entrou. só para chamar a atenção de alguém.. Nicky observava um pardalzinho que pulava na grama. procurando Jesus. ao lado do meu escritório. “Nicky”. Sua face quase não tinha expressão. disse ele laconicamente. mesmo sem o saber.” disse Glória. tirando vagaro- samente as mãos dos bolsos.. “Tome”. Nicky. E Deus vai suprir o que faltar. as mãos enfiadas bem fundo nos bolsos da calça.. com os ombros curvados. embora.. Olhando à sua volta. enquanto pensava na criança desconhecida.” “Oh Nicky. Por alguns instantes. Os meninos su- biram nela. seus dedos entrelaçados com os dele.. procurando alguma coisa real. Vou me interessar. “Eu o amo! Sempre há lugar para mais um.nem dinheiro para sustentá-lo. “o que é que você vai fazer?” Nicky sorriu e olhou-a nos olhos.. eu não sabia se devia ficar calma ou alarmada! Então. Seus olhos encheram-se de lágrimas. famintas de amor. disposta a enfrentar a cadeia. fechou a porta e ficou à minha frente silenciosamente. quando eu a estudei. para assegurar-se de que ninguém mais se achava ali. dizendo: Farei o que Jesus quer que eu faça. Nicky come- çou a colocar a mais estranha coleção de objetos que eu . uma entre milhares de outras... Glória interrompeu seus pensamentos.” Eu estava para começar a gravação de um pro- grama no estúdio de rádio.. percebesse sinais de que lutava para controlar suas emoções. para ir ao culto ao ar livre no gueto..” Jimmy tirou a Kombi da garage.” Silêncio. sobre a mesa diante de mim...

como num adeus. Entregou-os a mim. feridas pelos cravos. como a uma espécie de depositária. De vez em quando eu a tomo entre as mãos para recordar-me do que foi Nicky Cruz. com os olhos brilhantes de decisão. tocando cada um dos objetos com a ponta dos dedos.” Ele os teria literalmente colocado nas mãos de Jesus. Ainda conservo aquela bizarra coleção. se isso fosse possível.já vira. Mas agora minha necessidade cessou. Ele os identificava à medida que os colocava na mesa: uma garrucha feita em casa. Olhou para a mesa. Pensilvânia *** .. “Esta é a minha entrega final”. e “os apetrechos” — uma agulha hipodérmica. duas bolinhas de chumbo engenhosamente amarradas na ponta de um chicote de couro. Minha vida dependeu deles. Agora era minha vez de ficar emocionada. e do Deus cuja misericórdia e graça fez dele o que ele é hoje em dia. Eu os entrego a ele. um conta-gotas e uma tampinha de cerveja para ferver a droga — as ferramentas indispensáveis de um viciado em psicotrópicos. um punhal de cabo de osso. “Eu vivi por eles.. um par de soqueiras que me pareceram horríveis. disse Nicky. Kathryn Kuhlman Pittsburg.

com. disponível em vídeo: www. no filme A Cruz e o Punhal.com.minasdeleitura. no livro Bom Dia Espírito Santo.br/videosvhs/038.br/forumnovo/portal. de Benny Hinn.php Leia mais sobre Kathryn Kuhlman. também disponível no PDL (Projeto de Democratização da Leitura): www.portaldetonando.php . Nicky Cruz Notas da digitalizadora: A história de David Wilkerson e Nicky foi também contada no cinema.