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EUTANÁSIA, DISTANÁSIA E ORTOTANÁSIA SOB A ÉGIDE DA CONSTITUIÇÃO

FEDERAL DO BRASIL DE 1988
EUTHANASIA, ORTHOTHANASIA AND UNDER THE AEGIS OF THE FEDERAL
CONSTITUTION OF BRAZIL FOR 1988
Zamira de Assis*
Natércia Ventura Bambirra**

SUMÁRIO: 1. INTRODUÇÃO. 2. EUTANÁSIA. 2.1. Qualidade
versus quantidade de vida? 2.2. Conceito de saúde. 2.3.
Elementos caracterizadores da eutanásia. 2.4. Eutanásia
como ato exclusivo ou não de médicos. 2.5. Princípios e
direitos do paciente. 2.6. Eutanásia no Direito Brasileiro. 3.
DISTANÁSIA. 4. ORTOTANÁSIA. 5. CONCLUSÃO. 6.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS.

SUMMARY: 1. INTRODUCTION. 2. EUTHANASIA. 2.1.
Quality versus quantity of life? 2.2. Concept of health. 2.3.
Characteristic elements of euthanasia. 2.4. Euthanasia act as
exclusive or non-clinicians. 2.5. Principles and rights of the
patient. 2.6. Euthanasia in Brazilian Law. 3. Futility. 4.
Orthothanasia. 5. CONCLUSION. 6. REFERENCES.

RESUMO

O presente trabalho vem a ser um questionamento às correntes que defendem e as
que censuram a prática da eutanásia, da distanásia e da ortotanásia, bem como, aos
fundamentos nos quais se baseiam as críticas favoráveis e contrárias a estas
práticas. Com isso revelou-se o cerne da discussão que envolve estes atos e que
por tantas vezes têm sido tratado como mero objeto perdendo assim sua
personalidade e individuação, qual seja, o paciente crônico ou terminal e o respeito à
sua decisão e aos seus direitos.

Palavras-Chave: Defensores, Distanásia, Eutanásia, Opositores, Pacientes,
Princípios Constitucionais.

ABSTRACT

This work has to be a challenge to current defending and complain that the practice
of euthanasia, futility and orthothanasia, as well as the grounds on which to base the
criticism for and against these practices. With that proved to be the core of the
discussion surrounding these acts, which have so often been treated as a mere
object and lose your personality and individuation, ie, chronic or terminal patients and
respect their decision and their rights.

_______________________________
*Bacharel em Direito pelo Centro Universitário Fundação de Ensino Octavio Bastos. Mestra em Direito
pela PUC/Campinas. Doutoranda em Direito Processual pela PUC/Minas. Professora de graduação
em Direito da PUC/Minas.
**Acadêmica da Faculdade Mineira de Direito da PUC Minas.

Patients. Euthanasia opponents. Consiste em minorar os sofrimentos de 2 . entre discursos de opositores e favoráveis à prática destas medidas. religiosos. cujas principais giram em torno da eutanásia ativa. éticos e medicinais. de imensa complexidade e que envolve aspectos jurídicos. visto que é ele um dos fundamentos no qual a Constituição Federal de 1988 foi erigida e sem o qual não haveria sentido suscitar debates e polêmicas a respeito do tema em foco. boa’. passando pela distanásia que atua no extremo oposto da eutanásia e encerrando com a ortotanásia. INTRODUÇÃO O direito à morte tem sido tema recorrente na literatura moderna. objetivo do presente trabalho é. da distanásia e da ortotanásia. ela tem como fim eliminar o sofrimento do paciente com a morte do mesmo. Assim sendo. É relevante frisar que toda a argumentação e questionamento se darão sob a luz do princípio constitucional da dignidade da pessoa humana. 2. Constitutional Principles. enquanto portador da dor. 1. Além disso. são eles: o conceito de vida e morte digna. há dois paradigmas que irão nortear o presente trabalho ora em prol da eutanásia ora tendendo à distanásia ou à ortotanásia.Keywords: Defenders. tem como proposta induzir a morte precoce de uma maneira suave e sem dor. EUTANÁSIA A eutanásia ou “boa morte” ou eutanásia ativa. como meio para atingir este fim. e o conceito da vida como bem jurídico maior. Desse embate surgiram inúmeras correntes. longe de ter a pretensão de esgotar o tema ou defender a algum posicionamento. apresentar e questionar as controvérsias acerca da eutanásia. O Dicionário Jurídico 2007 da Editora Rideel assim define a eutanásia: “Palavra originária do grego: eu = a boa e thanatos = morte. de acordo com Sérgio Ibiapina Ferreira Costa. sendo que esta é tida por muitos como a solução para o impasse entre eutanásia e distanásia. ou seja. morais. Isso se deve ao fato de si tratar de assunto controverso. Dysthanasia. o que dá o sentido de ‘morte piedosa.

Para facilitar a compreensão tais considerações foram divididas em tópicos e serão abordadas e discutidas a seguir.”. que tenha discernimento e esteja consciente. a eutanásia é um meio para alcançar um fim. poderia. qual seja. todavia. O mesmo que homicídio piedoso ou por compaixão. E ainda. a eutanásia será analisada conforme o Direito brasileiro e o Código de Ética Médica. estaria apta a proceder ao ato. independentemente do risco de morte ou da fase da doença. uma pessoa doente. Por fim. qualquer paciente. são eles: a motivação de beneficiar o doente ou mitigar seu sofrimento e compaixão. Além disso. 2. para se caracterizar como tal são necessários alguns elementos sem os quais não haveria eutanásia em si. ou seja. da qualidade de vida demonstrando a indignidade de doenças crônicas e terminais. É como se o primeiro grupo preconizasse a vida desde que com dignidade. Uma vez conceituado o termo algumas considerações precisam ser feitas. a extinção da dor e do sofrimento do paciente. de prognóstico fatal ou em estado de coma irreversível. que vem a ser um prolongamento máximo da vida. apressando-lhe a morte ou proporcionando-lhe os meios para o conseguir (sic). a definição dada à palavra saúde. Assim como. mas desde que esteja sofrendo física ou psicologicamente. se.1 Qualidade versus quantidade de vida? Ao se tratar sobre eutanásia os conceitos de qualidade e quantidade de vida aparecem em lados opostos. Já os que condenam o ato têm como corolário de seus argumentos uma vida longa e duradoura. em conformidade com o conceito de eutanásia apresentado no início deste trabalho. Outra questão que surge quanto a natureza da eutanásia é se a mesma é um ato exclusivo de médicos ou se qualquer pessoa. sem possibilidade de sobrevivência. a quantidade com uma forte tendência a sair em defesa da distanásia.. os defensores da prática da eutanásia tratam. e o segundo grupo 3 . sobre o prisma da ética e dos princípios constitucionais. a depender da situação. sobretudo. A primeira delas é se há de fato uma oposição entre qualidade e quantidade de vida no término da existência humana. consentir com a eutanásia. 1º da Constituição Federal do Brasil de 1988. em conformidade com o art.. dentro de sua autonomia.

organizado por Luís Rey. profissionais e sociais. ou seja. e não um objetivo de vida. excelência de algo” o último é tido como “grande número. não há necessidade de colocá-los em lados opostos. Em resumo. porção”. não dependendo apenas de funcionamento satisfatório dos órgãos. compatível com plena atividade funcional. pois. Do ponto de vista teórico. desde que de forma proporcional. Além. biológicas. em perfeito equilíbrio social e ambiental. assim define o termo: "Saúde é uma condição em que um indivíduo ou grupo de indivíduos é capaz de realizar suas aspirações. conforme definição do Minidicionário Aurélio. pela habilidade para tratar com tensões físicas. do site RAFE. em oposição simples. do respeito à decisão do paciente quanto ao que melhor lhe convier. promover a qualquer pessoa a possibilidade de se tratar. sem cair nos extremos da distanásia. é claro. mas também da personalidade do 4 . é um conceito positivo. não se pode mais identificar o conceito de "saúde" com o conceito de "normal". 2. psíquicos e físicos considerados em determinado momento. fisiológica e psicológica. Assim como. Decerto que qualidade e quantidade não se confundem. Ambos podem incorrer para o mesmo fim no momento em que seja tomada a postura de garantir um final de vida saudável e qualitativo por quanto tempo os avanços tecnológicos e seus poderosos medicamentos tornarem possível." Segundo a Enciclopédia da Saúde. enfatizando recursos sociais e pessoais. abundância.2 Conceito de saúde A Organização Mundial de Saúde. define saúde como “o estado de completo bem-estar físico. porém. mental e social. enquanto o primeiro termo é definido como “superioridade. satisfazer suas necessidades e mudar ou enfrentar o ambiente. de se tornar paciente e de ter uma morte digna. É um estado de equilíbrio entre os seres humanos e o meio físico. saúde é o: “Estado definido como de ausência de perturbações físicas ou mentais. ou simplesmente OMS. A saúde é um recurso para a vida diária. pela capacidade de desempenhar pessoalmente funções familiares. biológico e social.defendesse a vida a qualquer preço. a saúde representa um conceito coletivo. enquanto bem jurídico maior a ser tutelado pelo Estado. poder-se-ia dizer que ela resulta do equilíbrio entre todos os fatores sociais. É um estado caracterizado pela integridade anatômica. tanto quanto as aptidões físicas. O Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde. e não apenas a ausência de doença”. psicológicas ou sociais com um sentimento de bem-estar e livre do risco de doença ou morte extemporânea. Os conceitos de "saúde" e "doença" não estão.

Além do mais.3 Elementos caracterizadores da eutanásia Ao discorrer sobre a eutanásia. as pessoas que condenam a eutanásia fazem alerta para os potenciais abusos não só por parte da equipe médica como também da família ou responsável legal pelo paciente. uma vez que as mesmas mãos usadas para salvar vidas e sanar doenças serão empregadas para ceifar aquelas. há grande receio em transformar a figura do médico. Assim sendo. a ausência de doenças e de enfermidades incapacitantes não caracteriza a pessoa necessariamente como saudável. quando este não puder se manifestar.4 Eutanásia como ato exclusivo ou não de médicos 5 . na medida em que visa pôr termo a dor e ao sofrimento do doente. não se pode. mais um embate é suscitado entre opositores e simpatizantes. As críticas positivas giram em torno do nobre fim do ato eutanásico. afirmar que doentes crônicos ou terminais não tenham saúde também seria equivocado. 2. quando “couber” a este praticar o ato. E ainda. o que requer grande compaixão e altruísmo. reduzir o conceito de saúde a uma fórmula simplista de aplicação universal. onde a grande questão é: A partir do momento em que esse dito equilíbrio se rompe seria apropriado falar em eutanásia? Ou o que pode ser feito para proporcionar ao paciente em “desequilíbrio” se não a saúde ao menos algo que alivie a sua dor e angústia? 2. Os fatores que a determinam são de ordem biológica. psicológica e social (. em um assassino. Desta forma. pois..)”. paralelo a isso. os contrários a eutanásia chamam a atenção para uma questão ainda mais grave a respeito do que alegam ser o real motivo que leva a família ou responsável legal pelo paciente. As negativas se preocupam principalmente com a abreviação da vida. à prática da eutanásia que não é compaixão ou o beneficio do doente e sim poupar-se dos grandes encargos gerados emocional e economicamente. paciente e do contexto social em que viva. e ainda apontam para possibilidades alternativas de aliviar a dor. também são alvos de críticas positivas e negativas os elementos ditos acima como necessários para caracterizá-la. Além disso. não importando o estado clínico em que o paciente se encontre.. Seguindo este raciocínio.

terá se valido da eutanásia. tecnicamente. que. Segundo Maria de Fátima Freire de Sá (1): “Vê-se que referido parágrafo não determina quem seja o agente.. uma vez que. segundo eles. segundo Flávio Carvalho Ferraz (3): 6 . por exemplo. abriria margem para o cometimento de crimes de homicídio. ela envolve toda uma conjuntura de ações.)” . não há.5 Princípios e direitos do paciente Inciaremos este tópico tratando do princípio da autonomia. os que rejeitam a eutanásia advertem quanto à gravidade da situação. ou seja. desde que compelida por motivo de relevante valor moral. se a eutanásia fosse considerada prática exclusiva de médicos seria possível o uso dos mesmos requisitos para transplantes de órgãos (2). Aqui as reflexões a serem feitas são: não sendo a eutanásia um ato de competência restrita de médicos como ficaria a questão judicial quando uma pessoa tirasse a vida de outra alegando ter realizado uma ação eutanásica? Quais as provas que poderiam ser usadas a seu favor? Como mensurar a dor e o sofrimento de alguém que deseja pôr termo a própria vida? Por outro lado. ser realizada.. Portanto. 121 do Código Penal: “Se o agente comete o crime impelido por motivo de relevante valor social ou moral (. Já os favoráveis a eutanásia alegam que tal temor não tem fundamento uma vez que a eutanásia não é apenas um ato isolado.grifos nossos. Diz o §1º do art. como. a exigência de que a eutanásia seja praticada por médico. donde a conclusão de que qualquer pessoa que realizar o ato. Ao admitir este conceito tem-se que a eutanásia não se caracteriza como uma prática privativa de médicos. Diante disso. elementos e mesmo uma regulamentação para que possa. pessoa que tira a vida de paciente terminal ou crônico objetivando beneficiar-se da herança. para evitar abusos e garantir a veracidade do diagnóstico e prognóstico aplicado ao doente como terminal ou crônico? 2. é entendida”. no Direito brasileiro. com a justificativa de se estar praticando eutanásia. caso seja legalizada. a avaliação do quadro do enfermo através do diagnóstico de dois médicos independentes.

em outras palavras. fundamenta todos os direitos humanos. por bem intencionada que seja”.. IV. Há de si destacar ainda. estando aqui compreendidos os maiores de 18 anos. Nesse sentido a liberdade afigura-se como a possibilidade de decidir e. É oportuno ressaltar que a autonomia para deliberar validamente sobre a continuidade ou não do tratamento. causa essa que. Ou seja. Destaca-se ainda o princípio da igualdade visto que nas palavras de Maria de Fátima Freire de Sá: “O princípio da igualdade. E. os menores de 18 anos que por força de lei.) a vida só deve prevalecer como direito fundamental oponível erga omnes quando for possível viver bem. conforme Maria de Fátima Freire de Sá: “A visão segundo a qual se deve atribuir a cada um o direito de pensar e agir por motivos próprios. no momento em que vários são os preceitos constitucionais que tratam do assunto. além de base dos direitos individuais. 3º..) é autônomo aquele que goza de liberdade e pode.. ou seja.) A autonomia é condição sine qua non para a delimitação do campo da ética.. (.este princípio relaciona-se com a causa ética da emancipação do sujeito em direção à sua autodeterminação. bem como sobre viver ou morrer. e mesmo a adoção de nova terapêutica. e àqueles antes interditos que foram reabilitados e que detenham competência mental para decidirem. art. conforme o art. Sem a existência de um sujeito autônomo não se pode sequer colocar em questão o julgamento do caráter ético de uma ação ou do sujeito que a pratica (. 5º do Código Civil. dar a si mesmo a regra. podendo-se citar os art. 5º da Constituição Federal brasileira e que é essencial para promover a dignidade da pessoa humana.grifo nosso.. autodeterminar-se”. No 7 . a preservar a individualidade pela anulação da interferência externa. assim. 7º e art. De acordo com Maria de Fátima Freire de Sá: “Ser livre é estar disponível para fazer algo por si mesmo. tende a proteger a concepção de bem-estar individual ou. XXXI e XXXII do art. (. em última instância. com capacidade de exercício ou de fato. XLII. diz respeito à afirmação da cidadania. ao decidir. 5º. cabe às pessoas plenamente capazes e sem nenhum tipo de interdição ou restrição aos seus direitos.. incisos XXX. autodeterminar-se” .. 14 – todos da Constituição da República. que toda pessoa humana goza do direito à liberdade que é garantido no caput do art.. “. I. por estranhos que estes possam parecer a terceiros. por ato voluntário ou por decisão judicial tenham sido emancipados.

2. caracterizando o homicídio privilegiado onde o agente terá sua pena reduzida de 1/6 a 1/3. e no art. 121. qual seja. e por isso defendem que o ato seja praticado apenas em pessoas com o prognóstico acima referido. momento em que a saúde do corpo não mais conseguir assegurar o bem- estar da vida que se encontra nele. no Brasil é vedada a prática da eutanásia e o sujeito que a pratica responde pelo art. os partidários da eutanásia afirmam que proibir ao paciente. mas também a reafirmação de sua autodeterminação. 1º da Declaração Universal dos Direitos Humanos. Do outro lado. É que a vida passará a ser dever para uns e direitos para outros. a possibilidade de optar pela eutanásia além de ferir o princípio da autonomia e ao da igualdade fere também o direito à liberdade e à dignidade. a eliminação daquele que sofre e sente dor. também. sendo que esta última não é um direito tutelado apenas na Constituição. §1º. há de serem considerados outros direitos. Isso porque o que se busca com a eutanásia é a eliminação da dor e do sofrimento. Esse último posicionamento se deve não ao fim proposto pelo ato eutanásico. ilícita e culpável. 11 da Convenção americana sobre direitos humanos . a cessação da dor e do sofrimento e sim do meio empregado. aqueles que se posicionam contrários à eutanásia em pacientes crônicos e terminais a consideram inaceitável em quaisquer outros grupos de doentes independentemente da moléstia. a título de exemplo. no art. cabendo ao juiz na análise do caso concreto aplicar a pena mais branda ou a mais severa. dessa forma. Afirmam ainda que permitir ao doente deliberar sobre a sua doença e quanto à sua vida não significa apenas o respeito aos seus direitos. apreende-se que a eutanásia é conduta típica. indiferente que tenha ou não havido consentimento do paciente. sob pena de infringência ao princípio da igualdade. sendo. em suma. Dito isso. quando este se encontrar com uma doença terminal ou crônica incuráveis. bem como da indignidade proporcionada por certas enfermidades e não o simples descarte da vida humana. Assim sendo. 8 .6 Eutanásia no Direito Brasileiro Tendo em vista o foco das discussões é importante pontuar como a questão é tratada no ordenamento jurídico brasileiro.Pacto de São José da Costa Rica.” Assim sendo. mas.

299 do Código Penal de 1890 punia também a indução além do auxílio ao suicídio. ainda que a pedido deste ou de seu representante legal. O art. em qualquer caso. para o extermínio do ser humano ou para permitir e acobertar tentativa contra sua dignidade e integridade. De acordo com o Dicionário Jurídico 2007 da Editora Rideel. considerando a vida indisponível . 41 do capítulo V: Art. cabe ressaltar que a garantia do direito à vida somente foi assegurada constitucionalmente em 1988. o art. O Código de Ética Médica de 1988 vedava ao médico em seus artigos 6º e 66º o uso da medicina para promover o “extermínio do ser humano” ou para “utilizar. 122 do Código Penal de 1940 (ainda em vigor). O Código Criminal do Império do Brasil de 1830. já considerava crime o auxílio ao suicídio.O médico guardará absoluto respeito pelo ser humano e atuará sempre em seu benefício. meios destinados a abreviar a vida do paciente. a tratamento médico ou a intervenção cirúrgica”. no capítulo I que trata dos Princípios Fundamentais. 5º da Constituição Cidadã. 196). aponta três formas: auxílio. 41. Jamais utilizará seus conhecimentos para causar sofrimento físico ou moral. Tais premissas foram mantidas no novo Código de Ética Médica que começou a vigir no dia 13 de abril de 2010. o médico aceitará as escolhas de seus pacientes.. A lei penal brasileira não acolhe o ‘homicídio piedoso’. no caput do art. induzimento e instigação. de acordo com seus ditames de consciência e as previsões legais. o texto do artigo permite ao paciente deliberar sobre o que mais lhe apraz. com risco de vida. do capítulo I. destaca-se a questão da autonomia do paciente: XXI .. relativas aos procedimentos diagnósticos e 9 . 15 versa sobre a autonomia do paciente: ”Ninguém pode ser constrangido a submeter-se. Já no inciso XXI. com pena de prisão (art. Na órbita do Código Civil de 2002.”.No processo de tomada de decisões profissionais. É vedado ao médico abreviar a vida do paciente. Todavia. Considerações a respeito do equívoco do legislador na utilização da expressão “risco de vida” no lugar de “risco de morte” à parte. Bem como no caput do art. ainda que a pedido deste ou de seu responsável legal”. o inciso VI dita que: VI . “O art.

24 do capítulo IV. transmissão de dados. 23 veda ao médico: Art. O prefixo dis significa afastamento e thanatos morte. internações. Deixar de garantir ao paciente o exercício do direito de decidir livremente sobre sua pessoa ou seu bem-estar. dentre as mais importantes cabe destacar: a atribuição da vida como bem maior. 3 DISTANÁSIA Ao contrário da eutanásia a distanásia tem como fim o prolongamento máximo da vida. cabe destacar que nos Estados Unidos da América o único estado onde ela é permitida é no Oregon. 23. participação em pesquisa clínica. onde é vedado ao médico: Art. Tratar o ser humano sem civilidade ou consideração. etc. A palavra distanásia tem. terapêuticos por eles expressos. A pessoa é livre para escolher seu médico. Por sua vez. É também conceituada como adiamento da morte através de métodos reanimatórios. Os meios de que dispõe são os recursos tecnológicos aliados aos avanços na descoberta de tratamentos e medicação. São várias as justificativas para esse prolongamento da vida. bem como. sendo então 10 . consultas. assim como a eutanásia. (grifo nosso) O direito à liberdade do indivíduo é outro ponto fundamental do atual Código. prontuários médicos. é livre para aceitar ou rejeitar o que lhe é oferecido. E no mesmo sentido preceitua o art. 22. desde que adequadas ao caso e cientificamente reconhecidas. Ressalta-se também que o paciente deve dar o consentimento sendo vedado ao médico: Art. Deixar de obter consentimento do paciente ou de seu representante legal após esclarecê-lo sobre o procedimento a ser realizado. Já no âmbito do direito internacional são poucos os países que autorizam a prática da eutanásia. 24. que trata dos Direitos Humanos. desrespeitar sua dignidade ou discriminá-lo de qualquer forma ou sob qualquer pretexto. bem como exercer sua autoridade para limitá-lo. origens gregas. cabe citar: exames. salvo em caso de risco iminente de morte. o art.

pois esta tem como fim promover. tida como o último inimigo. visto que o objetivo a que se almeja é o adiamento do instante da morte. onde dentro de uma lógica capitalista os inúmeros hospitais particulares existentes atuam como empresas e a manutenção da vida do paciente terminal gera lucros na medida em que para que esse prolongamento seja possível são utilizadas tecnologias de ponta e medicamentos com alto valor aquisitivo.os avanços tecnológicos se por um lado trazem melhorias consideráveis à tratamentos de doenças. Outra questão alegada pelos contrários à distanásia é se tal procedimento é realmente útil em determinados diagnósticos e prognósticos. É nesse aspecto que se encontra a substancial diferença entre distanásia e eutanásia. Por fim. de outro lado têm características desumanas. Os partidários da distanásia têm como principal argumento o fato de considerarem a vida como bem maior. pois enquanto na eutanásia o consentimento daquele ou na sua impossibilidade do seu representante legal é imprescindível. Os que a rejeitam colocam a culpa do ato distanásico nos avanços científicos e tecnológicos que inibem cada vez por mais tempo o processo “natural” de morte. Nas palavras de Maria de Fátima Freire de Sá. de certa forma. porque buscam a todo custo. “. por vezes. e se ao invés de significar um bem para o paciente ela cause ainda mais dores e sofrimentos. o prolongamento de vidas de pacientes por meio do emprego de medidas heróicas”. sendo assim. Um ponto muito abordado em escritos sobre a distanásia é de que ela em seus excessivos esforços para “combater” a morte e prolongar a vida nada mais faz que prolongar o processo de morte. Dessa forma. 11 . a vida á qualquer preço. na distanásia o médico não faz uso desse assentimento passando... há grande preocupação com a autonomia do paciente. e àquela que tem uma visão oportunista. A distanásia também é alvo de grande polêmica. é dever do médico fazer de tudo para promover a manutenção daquela e para prorrogar a morte. o bem-estar do paciente ao cessar sua dor e sofrimento.inquestionável a decisão de prolongá-la ao máximo. em cima da decisão do doente. em outras palavras. Além disso. pois nela é predominante o paradigma da quantidade de vida acima de tudo. para este grupo a distanásia pode se transformar em um método elitizado sendo desta forma mais um meio de excluir àqueles de baixa renda e ainda passar a valorar a vida como fonte de extração de lucros. como o foco deixa de ser o enfermo e passa a ser a enfermidade a dor e a agonia a ele causada é desconsiderada.

o médico evitará a realização de procedimentos diagnósticos e terapêuticos desnecessários e propiciará aos pacientes sob sua atenção todos os cuidados paliativos apropriados. No art. a ortotanásia é uma prática que não visa à cura do doente cujo prognóstico é de morte iminente e também não tenciona a interrupção precoce de sua vida. E no parágrafo único do art. dispõe que: XXII . no inciso XXII do capítulo I – dos Princípios Fundamentais. o grande questionamento que parece estar por trás de ambas é o seguinte: Frente ao direito à liberdade. 41. todavia.Nas situações clínicas irreversíveis e terminais. e que os contrários a uma tendem a defender a outra. parágrafo único. E é por esse motivo que 12 . Nos casos de doença incurável e terminal. pois enquanto estas “pecam” pelos ditos excessos a ortotanásia não objetiva nem prolongar por demasia e ás vezes inutilmente à vida do doente. Há de se perceber que se trata de dois extremo-opostos. a de seu representante legal. Praticar ou indicar atos médicos desnecessários ou proibidos pela legislação vigente no País. tem-se que. ela procura dar a este paciente toda assistência e cuidado para que ele possa fazer a sua “passagem” da maneira mais tranquila e digna possível. na sua impossibilidade. deve o médico oferecer todos os cuidados paliativos disponíveis sem empreender ações diagnósticas ou terapêuticas inúteis ou obstinadas. 14 do capítulo III – que trata da Responsabilidade Profissional. à igualdade e aos princípios da dignidade da pessoa humana e da autonomia até em que ponto o indivíduo pode autodeterminar-se no sentido de livremente dispor ou não de sua vida? Cumpre citar que o novo Código de Ética Médica reforça o caráter antiético da distanásia. 14. nem induzi-lo a uma morte prematura. 41: Art. é vedado ao médico: Art. 4 ORTOTANÁSIA A ortotanásia também chamada de eutanásia passiva é considerada por muitos como o meio termo entre a distanásia e a eutanásia. distanásia e eutanásia. Assim. levando sempre em consideração a vontade expressa do paciente ou.

através do processo de análise. conforme o já mencionado art. Desse modo. correta ou no seu tempo. orto quer dizer correto e thanatos morte. evitando-se possível ação judicial contra o profissional. se traduz tão-somente em. distanásia e ortotanásia. observada a consulta à família. ou ortotanásia. Assim sendo. tentar entendê-los. eutanásia.a ortotanásia é tida como uma solução ideal a ser aplicada em detrimento da distanásia e da eutanásia. a uma porque são os parentes os guardiões dos interesses do doente incapaz. longe de fazer a defesa ou a rejeição a algum dos métodos abordados. 5 CONCLUSÃO A intenção deste artigo.) A consulta à família se torna necessária. na impossibilidade deste. questionar.. “(. Portanto. o que poderá ser diagnosticado pela própria evolução da doença. visto que o processo de morte já se instaurou em seu corpo. ou dar-lhe continuidade. 5º da Constituição Federal. assim como. a pedido do paciente. por isso mesmo. e proporcionar-lhe os devidos cuidados paliativos. A palavra ortotanásia também tem origens gregas. aspectos a eles relacionados. significando morte certa. 13 . Na ortotanásia o enfermo faz uso de sua autonomia na medida em que cabe a ele a decisão de interromper o tratamento. em caráter pleno e despido de pré-conceitos seja preciso encará-las sob a visão do paciente e dos entes que com ele convivem. pode ser traduzida como mero exercício regular da medicina e. suspender a medicação utilizada para não mais valer-se de recursos heróicos. quando pertinente. uma vez presente o pedido do paciente ou. entendendo o médico que a morte é iminente. entre outros. a duas. dor e sofrimento que os atinge no final de vida. porque tal medida traria segurança ao médico. ao profissional seria facultado. conclui-se que para entender tais métodos. De acordo com Maria de Fátima Freire de Sá: “Entende-se que a eutanásia passiva. em caso de eutanásia passiva.. Ao médico cabe respeitar a decisão do paciente. Além disso. nem sequer haveria que se falar em imputação de qualquer espécie de penalidade”. que só têm o condão de prolongar sofrimentos (distanásia)”. seria possível tomar nota de toda angústia.

euthanasia. Thus. Embora tais fatores possam não justificar para inúmeras pessoas a adoção de algum (ns) destes métodos ao menos remete o pensamento a avaliar de forma menos moralista e mais humana como se sente o enfermo quando se depara com todas estas adversidades e como ele decide enfrentá-las. one might take note of all anguish. uma morte digna e o respeito a sua decisão. where relevant. São Paulo: Rideel. loss of independence from oppressive situations in which the patient may be exposed to the same frustration and helplessness in the face to the disease. há de se evitar julgamentos precipitados e pré-concebidos acerca da eutanásia. according to the case. Dessa forma. distanásia e ortotanásia e procurar um meio de.da perda de independência. and orthothanasia. Therefore. as well as questioning. we conclude that to understand such methods. try to understand them. ed. Vade Mecum Acadêmico de Direito. aspects related to them. 14 . reflected merely in through the review process. through the prism of the principles and constitutional rights. sob o prisma dos princípios e direitos constitucionais. das situações vexatórias na qual esse paciente pode estar exposto. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS BRASIL. 4. dentre outras coisas. far from making the defense or rejection of any of the methods discussed. and orthothanasia and seek a means of. de acordo com o caso concreto. Thus. and a dignified death I respect your decision. Organização de Anne Joyce Angher. 6. pain and suffering that strikes at the end of life. on a full and stripped of preconceptions have to face them in the patient's vision and entities who live with them. provide the patient. among other things . à frustração e mesmo impotência frente à enfermidade. 2007. Although these factors can not justify to many people to adopt some (s) of these methods leads to less thought to assess in a less moralistic and more human as the patient feels when faced with all these adversities and how he decides to face them. we should avoid hasty judgments and preconceived about euthanasia. proporcionar ao doente. CONCLUSION The intent of this article.

Aurélio Buarque de Holanda. JUS NAVIGANDI. João Álvaro. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. Volume 9. Doutora em Direito Constitucional pela UFMG e Membro do CEBI – Centro de Estudos em Biotecnologia e Direito.Volnei Garrafa coordenadores. 2001.asp?id=8018> Acesso em 01 jul.org/defensoriapublica/penal/doutrina/mr- eutanasia. 2005.com.uol. Mestra em Direito pela PUC MINAS.org/saude. Eutanásia e Direito Penal.br/doutrina/texto.. Disponível em: <http://www. SÁ.rafe. Iniciação à bioética. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan.br/doutrina/texto. Biodireito e direito ao próprio corpo: doação de órgãos. Brasília. Brasília: Conselho Federal de Medicina. CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. 9. 2010.uol. 6. incluindo o estudo da Lei n. Notas (1) Maria de Fátima Freire de Sá – Professora dos Programas de Graduação e Pós- Graduação em Direito da FMD/PUC MINAS. 2010. Margarida dos Anjos. ed. Aurélio Buarque de Holanda Ferreira. Metodologia científica: guia para eficiência nos estudos. Ver. lexicografia. Sérgio Ibiapina Ferreira. Bioética.211/01. [et al]..asp?id=7571>.fonoesaude. Maura. 2008. 2001. Bioética.com. Acesso em: 25 jan. 2. FONO E SAÚDE. Dicionário de termos técnicos de medicina e saúde. 2010. atual. Gabriel Oselka. 2003.htm>. Marina Baird Ferreira. Belo Horizonte: Del Rey. COSTA.com. suicídio assistido. 4ª edição ver. 15 . 2 ed. Disponível em: <http://jus2.htm> Acesso em 01 jul. Maria de Fátima Freire de.10. JUS NAVIGANDI.ibap.br/sql_enciclopedia/encic. Professora do Curso de Direito do Centro Universitário Izabela Hendrix. Miniaurélio Século XXI Escolar: O minidicionário da língua portuguesa. com as alterações introduzidas pela Lei n.CONSELHO FEDERAL DE MEDICINA. FERREIRA. 2 reimpr. Disponível em: <http://www. nº 1. nº 1. Instituto Brasileiro de Advocacia Pública. coordenação de edição. Disponível em: < http://www. Acesso em: 25 jan. SÁ. Luís. Acesso em: 25 jan. 2010. São Paulo: Atlas. RUIZ. REY. 2 ed.. 2003. 2003. Margarida dos Anjos. 2010. ROBERTI. Ampliada. Direito de morrer: eutanásia. Maria de Fátima Freire de. Volume 11. RAFE. Disponível em: <http://jus2.asp?id=1863&p=1>. E ampl. 1998.437/97. Belo Horizonte: Del Rey. Brasília. ed.

9. 2001.268. nº 1. psicanalista. Artigo: A questão da autonomia e a Bioética. 16. com pós doutaramento pela PUC SP/Fabesp. 2. membro do Departamento de Psicanálise do Instituto Sedes Sapientiae (SP) e professor do curso de Psicanálise deste Instituto. (3) Flávio Carvalho Ferraz – Psicólogo e doutor em psicologia pelo IPUSP. 3º e 5º.(2) Lei 9.434. §§§1º. de 30 de junho de 1997 – art. publicado no livro Bioética vol. de 04/02/1997 (Lei de remoção de órgãos e tecidos) e Decreto n. 16 .