10/11/2017 Tribunal de Justiça de Mato Grosso

Gerado em: 10/11/2017 11:36

Numeração Única: 5459-49.2015.811.0042 Código: 401217 Processo Nº: 0 / 2015
Tipo: Crime Livro: Processos Criminais
Lotação: Sétima Vara Criminal Juiz(a) atual:: Selma Rosane Santos Arruda
Assunto: Autos Vindos APN 545/MT 2008/0151522-2 Artigo 312, CAPUT, C/C ARTIGO 327, § 2°,
ARTIGO 70, ARTIGO 71, 288, CAPUT, ARTIGO 69, AMBOS DO CÓDIGO PENAL, ARTIGO 1°,
V, § 1°, II DA LEI 9.613/98.
Tipo de Ação: Ação Penal - Procedimento Ordinário->Procedimento Comum->PROCESSO CRIMINAL
Partes
Autor(a): MINISTÉRIO PÚBLICO DO ESTADO DE MATO GROSSO
Réu(s): HUMBERTO MELO BOSAIPO
Vítima: O ESTADO
Andamentos
09/11/2017
Certidão de Envio de Matéria para Imprensa
Certifico que remeti para publicação no DIÁRIO DA JUSTIÇA, DJE nº 10137, com previsão de disponibilização em
10/11/2017, o movimento "Certidão" de 08/11/2017.

08/11/2017
Certidão
Nos termos da Legislação vigente e provimento 52/2007 - CGJ, INTIMO a defesa do acusado da r. sentença de fls.
4504/4529, cuja parte dispositiva transcrevo a seguir: “(...)Tenho, pois, que o acusado HUMBERTO MELO BOSAIPO
merece a condenação pela prática dos crimes de PECULATO e LAVAGEM DE DINHEIRO. É, pois, parcialmente
procedente a denúncia, eis que foi excluído o crime de quadrilha, em face do qual ocorreu a prescrição, inclusive já
reconhecida nos autos.(...)Passo, portanto, a dosar-lhe as penas: (...)Assim, para os crimes de peculato, fixo a pena-
base em 08 (oito) anos de reclusão e 200 (duzentos) dias-multa, fixado cada dia-multa em 1/10 do salário mínimo
vigente à época do fato, a ser corrigido quando do efetivo recolhimento. Considerando a continuação prevista no artigo
71 do CP e verificando que se trata de 32 crimes praticados ao longo de dois anos (2000 a 2002), aumento a pena em
2/3 (dois terços).(...)Resulta assim definitivamente fixada a pena em 13 (treze anos e 04 meses de reclusão) e 333
(trezentos e trinta e três dias-multa). Para o crime de lavagem de dinheiro, fixo a pena-base em 05 (cinco) anos de
reclusão e 100 (cem) dias-multa, fixando cada dia-multa em 1/10 do salário mínimo vigente na época do fato, a ser
corrigida até o efetivo pagamento. Torno-a assim definitiva, à falta de modificadoras. Resulta a soma das penas ora
aplicadas em 18 (dezoito anos e quatro meses de reclusão e 433 (quatrocentos e trinta e três dias-multa). A teor do que
dispõe o artigo 33, “a” do Código Penal, fixo o regime inicial a ser cumprido no fechado. Já que responde ao processo
em liberdade, inexistindo causa para a decretação da custódia cautelar, defiro-lhe o direito de assim apelar. A multa, já
fixada, será recolhida na forma do que dispõem os artigos 49 e seguintes do CP.(...)Custas pelo condenado. (...)”.

08/11/2017
Juntada de Petição do Réu e documentos
Juntada de documento protocolado pela WEB através do Sistema PEA.

Petição do Réu e Documentos, Id: 501211, protocolado em: 01/11/2017 às 14:39:32.

30/10/2017
Carga
De: Entidade: COORDENAÇÃO CRIMINAL

Para: Sétima Vara Criminal

26/10/2017
Carga
De: Sétima Vara Criminal

Para: Entidade: COORDENAÇÃO CRIMINAL

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VOLUMES 01, 13/21

26/10/2017
Vista ao MP

26/10/2017
Carga
De: Gabinete - Sétima Vara Criminal

Para: Sétima Vara Criminal

26/10/2017
Com Resolução do Mérito->Procedência

VISTOS ETC.

A presente ação penal iniciou-se em face de Humberto Melo Bosaipo e outros acusados sob acusação dos delitos de
Peculato e lavagem de dinheiro perante o Tribunal de Justiça do Estado de Mato Grosso em 11 de dezembro de 2007.

Aproximadamente um mês depois, o acusado Humberto Bosaipo foi nomeado Conselheiro do Tribunal de Contas do
Estado de Mato Grosso e, por este motivo, o Tribunal de Justiça determinou a remessa dos autos ao foro competente,
ou seja, ao STJ.

Os autos foram recebidos naquele juízo, porém o acusado José Geraldo Riva requereu o desmembramento do feito em
razão de que apenas Humberto possuía aquela prerrogativa de foro.

Notificados os réus para oferecimento de resposta, José Riva interpôs recurso de agravo regimental contra o
indeferimento do pedido de desmembramento do feito.

Ainda naquele Superior Tribunal os acusados João Arcanjo Ribeiro, Milton Roberto Teixeira, Geraldo Lauro, Nivaldo de
Araújo e Varney Figueiredo Lima ofereceram respostas, bem como o réu Humberto Melo Bosaipo.

O feito acabou sendo redistribuído por conta do reconhecimento de prevenção quanto à ação penal 524/MT na Corte
Especial. Nos autos da ação penal 545/MT foi acolhido o pedido de desmembramento, de modo que permaneceu no
Superior Tribunal de Justiça apenas em relação a Humberto Bosaipo.

Em 5 de junho de 2013 a denúncia foi recebida parcialmente em relação aos crimes de peculato e lavagem de dinheiro,
porquanto o crime de formação de quadrilha, também contido na peça inicial, já havia prescrito, de modo que foi extinta
a punibilidade do acusado em relação a esta imputação.

Em 26 de novembro de 2013 o acusado apresentou defesa prévia e foram ouvidas as testemunhas Kátia Maria Aprá,
Hércules Ferreira Sodré, Romildo Rosa do Nascimento, Edil Dias Correia, Celso Emílio Calhao Barini, Raquel Alves
Correia, bem como Cristiano Guerino Volpato e Juracy de Brito.

A perda do foro por prerrogativa da função fez com que os autos viessem a este juízo, quando o Ministério Público
ratificou todas as manifestações realizadas pelo órgão federal e requereu o prosseguimento do feito.

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Este juízo ratificou parcialmente os atos praticados e reanalisou o rol de testemunhas, prosseguindo-se os demais
termos do processo, até que em 5 de maio de 2016 o acusado foi devidamente interrogado.

O Ministério Público nada requereu a título de diligências complementares sendo as diligências requeridas pela defesa
indeferidas eis que o juízo entendeu que são desnecessárias ou protelatórias.

As alegações finais das partes vieram por memoriais e os autos vieram conclusos.

É O RELATÓRIO.

FUNDAMENTO E DECIDO.

As preliminares arguidas pela defesa de Humberto Melo Bosaipo são as seguintes:

A) Nulidade do interrogatório do corréu José Geraldo Riva;

B) Obrigatória reunião de processos – continuidade delitiva – conexidade temporal, espacial, delitiva e probatória em
outras ações penais;

C) Nulidade da investigação que deu origem à presente ação penal – diligências realizadas em outro procedimento
investigatório criminal – desvio de objeto do inquérito civil público 095/2001 que deu origem ao inquérito civil público
118/2004;

D) Ligação do Inquérito Civil Público 118/2004, que deu base à denúncia, com o Inquérito Civil 095/2001, com o
procedimento investigatório criminal PR/MT/CJ 389/2001 e com a medida cautelar n. 2002.36.00.000981-8;

E) Falha na defesa técnica e

F) Recusa do Juízo em proporcionar o resgate da falha da defesa técnica – cerceamento do direito à ampla produção
de prova – prejuízo do acusado – cerceamento de defesa.

No que tange ao pedido de nulidade do interrogatório do corréu José Geraldo Riva, sob a alegação de que não é parte
neste processo, motivo pelo qual, deveria ter sido ouvido como testemunha e não como réu, entendo que o pleito não
merece guarida.

Conforme já registrado anteriormente, o desmembramento dos processos não desfez a condição de corréu entre ele e
os que estão sendo processados em autos apartados, pois há identidade nos fatos.

Assim, não poderá ser ouvido como testemunha, ainda que na condição de informante, alguém que também detenha a
condição de indiciado, mesmo em processo desmembrados.

Sobre a impossibilidade de corréu ser ouvido como testemunha ensina Guilherme de Souza Nucci : " não pode ser
testemunha, pois não presta compromisso, nem tem o dever de dizer a verdade. "( in Código de Processo Penal
Comentado, 2ª edição, Editora Revista dos Tribunais, São Paulo: 2003, pg.370). Perfilando mesmo entendimento
(Damásio E. de Jesus in Código de Processo Penal Anotado, 19ª edição, Editora Saraiva, São Paulo: 2002, pg.177).

A propósito do tema, confiram-se ainda os seguintes julgados:

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“RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. ESTELIONATO (ARTIGO 171 DO CÓDIGO PENAL). ALEGADO
CERCEAMENTO DE DEFESA. INDEFERIMENTO DO PEDIDO DE OITIVA DE CORRÉU COMO TESTEMUNHA.
IMPOSSIBILIDADE. CONSTRANGIMENTO ILEGAL NÃO CARACTERIZADO. 1. Ao magistrado é facultado o
indeferimento, de forma fundamentada, do requerimento de produção de provas que julgar protelatórias, irrelevantes ou
impertinentes, devendo a sua imprescindibilidade ser devidamente justificada pela parte. Doutrina. Precedentes do STJ
e do STF. 2. No caso dos autos, a defesa pretendeu a oitiva de corréu que aceitou a proposta de suspensão condicional
do processo como testemunha, o que foi indeferido pela togada responsável pelo feito. 3. O corréu, por não ter o dever
de falar a verdade e por não prestar compromisso, não pode servir como testemunha, o que afasta o constrangimento
ilegal de que estaria sendo vítima a recorrente. Doutrina. Precedentes. 4. Recurso improvido. (STJ - RHC: 40257 SP
2013/0278605-8, Relator: Ministro JORGE MUSSI, Data de Julgamento: 24/09/2013, T5 - QUINTA TURMA, Data de
Publicação: DJe 02/10/2013).

Quanto às arguições de que a prova emprestada é originaria de outro processo e assim sendo, somente haveria
possibilidade de reproduzi-la mediante a juntada de CD, registro que a própria defesa requereu a designação de
audiência de instrução e julgamento para o interrogatório do corréu José Geraldo Riva, na sua presença e do réu
HUMBERTO MELO BOSAIPO (fls. 3884/3886).

Assim, não há que se falar em nulidade da prova, já que o CD com o interrogatório foi juntado aos autos pelo Ministério
Público e para garantia plena do direito ao contraditório e à ampla defesa e, atendendo ao requerimento formulado pela
própria Defesa foi realizada a audiência, possibilitando que o douto defensor do réu ora processado nestes autos
pudesse formular perguntas e esclarecer as declarações prestadas pelo corréu.

Registro, por oportuno, que a prova documental pode vir aos autos a qualquer tempo. Nulidade haveria caso a prova
fosse considerada na sentença sem que a defesa tivesse oportunidade de se manifestar nos autos, o que não ocorreu
neste caso, já que a defesa teve oportunidade de se manifestar em audiência e nas alegações finais.

Em relação ao pedido de nulidade do feito, pelo indeferimento do pedido de acareação entre os acusados Humberto
Melo Bosaipo e José Geraldo Riva, registro que tal tese já foi suscitada pela Defesa anteriormente e rechaçada por este
Juízo, restando, portanto, superada qualquer argumentação neste sentido.

Conforme decidido na audiência, embora exista previsão legal para a realização de tal procedimento, a acareação entre
réus seria infrutífera diante do descompromisso dos réus de falarem a verdade.

Quanto à alegação de cerceamento de defesa por falta de intimação dos advogados do acusado para o interrogatório
dos corréus, em que pese os argumentos tecidos, também não merece acolhimento essa preliminar.

Não há qualquer nulidade em razão da defesa não ter sido intimada para o interrogatório dos corréus que respondem
em outras ações penais, já que inexiste no procedimento processual penal pátrio amparo legal para a participação do
advogado de acusado, com a finalidade de formular questionamentos aos outros corréus interrogados. Assim, mesmo
que fossem repetidos os interrogatórios, não haveria, legalmente, a possibilidade da defesa do réu Humberto Melo
Bosaipo formular perguntas aos demais corréus.

Os corréus, poderiam, inclusive, permanecer em silêncio em relação aos questionamentos realizados.

Nesse sentido, é a Jurisprudência:

“HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. CRIMES DE TRÁFICO E ASSOCIAÇÃO PARA O TRÁFICO ILÍCITO DE

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ENTORPECENTES. INTERROGATÓRIO. AUSÊNCIA DE ELABORAÇÃO DE PERGUNTAS DA DEFESA DO
PACIENTE AO CORRÉU. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. PRECEDENTES. EXCESSO DE PRAZO. SENTENÇA
CONDENATÓRIA PROFERIDA. QUESTÃO SUPERADA. 1. Embora o novo tratamento dado ao interrogatório, que
passou a ser considerado como meio de produção de prova, não prescinda do contraditório, o mencionado ato mantém
seu caráter de instrumento de autodefesa, logo, devem ser respeitados, primeiramente, os direitos do interrogado, que
não pode ser coagido a se sujeitar às perguntas de advogado de corréu. 2. Qualquer alegação do corréu que
porventura incrimine o Paciente poderá ser reprochada em momento oportuno, pois a Defesa dela tomará
conhecimento antes do encerramento da instrução. Assim, não há como se reconhecer a existência de cerceamento à
defesa do Paciente ou ofensa ao contraditório na ação penal. 3. Constatando-se que já foi proferida a sentença
condenatória, resta superada a alegação de excesso de prazo para a formação da culpa. 4. Habeas corpus
parcialmente conhecido e, nessa extensão, denegado.” (STJ - HABEAS CORPUS Nº 117.531 - ES (2008/0219927-2)
Relatora: Ministra Laurita Vaz – Quinta Turma – Data do Julgamento: 20/10/2009 – Dje: 09/11/2009).

"HABEAS CORPUS. PROCESSUAL PENAL. CRIMES DE RECEPTAÇÃO QUALIFICADA E FORMAÇÃO DE
QUADRILHA. CONCURSO DE AGENTES. INTERROGATÓRIO. AUSÊNCIA DE ELABORAÇÃO DE PERGUNTAS DA
DEFESA DO PACIENTE AO CORRÉU DELATOR. NULIDADE. INEXISTÊNCIA. PRECEDENTES. 1. Em que pese a
alteração do art. 188, do Código de Processo Penal, advinda com a Lei n.º 10.792/03, o interrogatório judicial continua a
ser uma peça de defesa, logo, não se pode sujeitar o interrogado às perguntas de advogado de corréu, no caso de
concurso de agentes. 2. Qualquer alegação do corréu que porventura incrimine o ora Paciente, como ocorreu no caso
ora em tela, poderá ser reprochada em momento oportuno, pois a Defesa dela tomará conhecimento antes do
encerramento da instrução. Em sendo assim, não há que se falar em qualquer cerceamento à defesa do Paciente ou
ofensa ao contraditório na ação penal. 3. Precedentes do Superior Tribunal de Justiça. 4. Ordem denegada." (STJ - HC
90.331/SP, 5.ª Turma, Rel. Min. LAURITA VAZ, DJe de 04/05/2009.)

"PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. EXTORSÃO MEDIANTE SEQÜESTRO. INTERROGATÓRIO. DELAÇÃO
DE CO-RÉU. PARTICIPAÇÃO DE DEFENSOR DO DELATADO. I - O interrogatório, nos termos da novel legislação (Lei
nº 10.792/03), continua sendo, também, um meio de prova da defesa (arts. 185, §2º, 186, caput e parágrafo único, do
CPP), deixando apenas de ser ato personalíssimo do juiz (art. 188, do CPP), uma vez que oportuniza à acusação e ao
advogado do interrogado a sugestão de esclarecimento de situação fática olvidada. II - A sistemática moderna não
transformou, de forma alguma, o interrogado em testemunha. Ao passo que esta não pode se manter silente, aquele,
por seu turno, não pode ser induzido a se auto-acusar (o silêncio, total ou parcial, é uma garantia do réu, ex vi art. 5º,
LXIII, da CF e art. 186, parágrafo único, do CPP). III - Apesar de ser meio de prova da defesa, aquilo que é dito no
interrogatório integra o material cognitivo por força do princípio da comunhão probatória. IV - A participação de
advogados dos corréus não tem amparo legal, visto que criaria uma forma de constrangimento para o interrogado
(Precedentes desta Corte). Writ denegado." (STJ - HC 100.792/RJ, 5.ª Turma, Rel. Min. FELIX FISCHER, DJe de
30/06/2008.).

Ademais, a defesa não demonstrou o prejuízo supostamente sofrido pelo réu, em vista da inexistência de sua intimação
ao interrogatório dos corréus, em outros feitos desmembrados. Assim, não há que se falar em cerceamento de defesa.

Nesse sentido a melhor jurisprudência:

“CONSTITUCIONAL, PENAL E PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. CRIMES DE FORMAÇÃO DE
QUADRILHA (ART. 288, DO CP) E FUNCIONAL CONTRA A ORDEM TRIBUTÁRIA (ART. 3O, II, DA LEI Nº 8.137/90).
INCONFUNDIBILIDADE ENTRE O TIPO PENAL DO ART. 3º, II (FORMAL), DA LEI Nº 8.137/90, E O DO ART. 1O
(MATERIAL), DA MESMA LEI. REPERCUSSÃO DA DISTINÇÃO NA EXIGIBILIDADE DO LANÇAMENTO TRIBUTÁRIO
DEFINITIVO COMO CONDIÇÃO AO OFERECIMENTO DA DENÚNCIA. AUSÊNCIA DE INTIMAÇÃO DOS PACIENTES
PARA PARTICIPAÇÃO NO INTERROGATÓRIO DE CO-RÉUS, EM OUTROS FEITOS. NULIDADE DO PROCESSO.
NÃO OCORRÊNCIA. AUSÊNCIA DE DEMONSTRAÇÃO DO PREJUÍZO. DENEGAÇÃO DA ORDEM. 1. Habeas
corpus impetrado com vistas: a) ao trancamento da ação penal quanto à acusação de cometimento do crime tipificado
no art. 3o, II, da Lei nº 8.137/90 (motivo deduzido: nos casos de crime contra a ordem tributária, a denúncia apenas
poderia ser oferecida com o encerramento do processo administrativo fiscal e o lançamento definitivo do tributo,
segundo, inclusive, compreensão do STF); e b) à invalidação do processo especialmente quanto ao crime do art. 288,
do CP (razão sustentada: ausência de intimação dos pacientes para as audiências de interrogatório dos co-réus, nas
ações penais conexas, formadas por desmembramento do feito principal, com prejuízo ao direito de defesa). 2. A
denúncia foi oferecida contra os pacientes e mais 80 pessoas, ditas integrantes de organização criminosa voltada para
a prática de sonegação de tributos, falsificação de selos e notas fiscais, lavagem de dinheiro e corrupção de servidores
públicos. Em vista do elevado número de acusados, inclusive em situação diferenciada, com condutas enquadradas em
tipos penais diferentes - alguns, servidores públicos, submetidos a procedimento especial; alguns já presos -, bem

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como ante a complexidade dos fatos, foi determinado o desmembramento do processo em 16 ações penais, tudo com
amparo no art. 80, do CPP, sem qualquer insurgência naquele momento por parte dos pacientes. 3. Os pacientes foram
acusados da prática dos crimes do art. 288, do CP (formação de quadrilha), e do art. 3o, II, da Lei nº 8.137/90 ("exigir,
solicitar ou receber, para si ou para outrem, direta ou indiretamente, ainda que fora da função ou antes de iniciar seu
exercício, mas em razão dela, vantagem indevida; ou aceitar promessa de tal vantagem, para deixar de lançar ou
cobrar tributo ou contribuição social, ou cobrá-los parcialmente"). 4. Não há que se confundir o delito constante do art.
1o, da Lei nº 8.137/90, com o do art. 3o, II, do mesmo diploma legal. É correto afirmar que o STF tem entendido que
"crime material [ou de resultado] contra a ordem tributária não se tipifica antes do lançamento definitivo de tributo
devido" (trecho da do HC nº 89.739-8/PB, j. em 24.06.2008). Ocorre que o art. 3o, II, da Lei nº 8.137/90, traz capitulado
delito formal ou de mera conduta, não sendo condição sine qua non ao oferecimento da denúncia, quanto a ele, a
existência de lançamento tributário definitivo por conclusão do processo administrativo de apuração de sonegação
fiscal. 5. No HC nº 89.739-8/PB, invocado pelos impetrantes, a ordem foi concedida pelo STF, apenas parcialmente, em
relação a alguns dos corréus acusados pela prática de crimes tipificados no art. 1o, da Lei nº 8.137/90 .(além de outros
delitos) No feito referenciado, o STF, apesar de determinar o trancamento da ação penal quanto à imputação calcada
no art. 1o, da Lei nº 8.137/90, concluiu pela manutenção da tramitação do processo criminal em relação aos crimes de
quadrilha ou bando, falsificação de documento público, corrupção ativa e lavagem de dinheiro, tendo sido ressaltada,
especialmente, no aludido julgado, a existência de indícios suficientes do crime de corrupção ativa. 6. Não demonstrado
o prejuízo supostamente sofrido pelos pacientes, em vista da inexistência de sua intimação ao interrogatório de corréus,
em outros feitos desmembrados do principal, não há como se determinar a invalidação do processo. Inteligência do art.
563, do CPP. Todas as acusações (recebimento de propina para deixar de cobrar tributo) e as provas (especialmente,
recibos, inclusive especificados, e comprovantes de depósito bancário) contra os pacientes integram os autos nos quais
eles foram chamados, regularmente, a exercitarem seu direito de defesa, em atendimento às exigências constitucionais
de garantia do devido processo legal. 7. Pela denegação da ordem de habeas corpus.” (TRF-5 - HC: 3797 PB 0121180-
89.2009.4.05.0000, Relator: Desembargador Federal Francisco Cavalcanti, Data de Julgamento: 14/01/2010, Primeira
Turma, Data de Publicação: Fonte: Diário da Justiça Eletrônico - Data: 21/01/2010 - Página: 97 - Ano: 2010).

Desta forma, sem mais delongas, afasto esta preliminar.

Outrossim, a alegação de falha na defesa técnica, pois o advogado anterior do réu, Paulo Zamar Taques, seria primo do
atual Governador Pedro Gonçalves Taques, os quais teriam se juntado para prejudicar Humberto Melo Bosaipo, não
merece prosperar.

Ainda, segundo a atual defesa do réu, os advogados anteriores, Paulo Zamar Taques e A. Nabor A. Bulhões, também
teriam deixado de abordar o mérito das imputações constantes na denúncia, arrolar testemunhas idôneas e arguir
preliminares válidas.

Ocorre que, apesar das alegações defensivas trazidas, não restou comprovado qualquer prejuízo ao acusado.

Primeiramente, consigno que Humberto Melo Bosaipo tinha conhecimento de que o advogado Paulo Cesar Zamar
Taques era primo do, à época, Procurador da República José Pedro Gonçalves Taques, hoje Governador do Estado, e,
mesmo assim, contratou-o para proceder a sua defesa. Ora, se assim o procedeu, o fez por confiar no referido
profissional, outorgando a ele poderes para proceder-lhe a defesa, o que foi feito plenamente, eis que apresentou
defesa prévia, na qual deduziu todas as arguições que entendia pertinentes ao caso.

Pensar da forma como posta pela defesa nas alegações finais, seria acreditar que o réu, pessoa instruída, advogado
devidamente registrado na Ordem dos Advogados do Brasil – Seccional de Mato Grosso (OAB/MT nº. 2655), foi
obrigado a aceitar que o referido causídico procedesse a defesa à sua revelia.

Ademais, o advogado Paulo Cesar Zamar Taques não foi o único advogado a patrocinar a defesa do réu na Instância
Superior. O réu também foi assistido pelo causídico A. Nabor A. Bulhões, OAB/DF 1.465-A, o qual, inclusive,
apresentou resposta à acusação, na qual alegou as preliminares que entendeu cabíveis ao caso, bem como arrolou as
testemunhas que entendia pertinentes para o objeto da prova.

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Assim, verifica-se que Humberto Melo Bosaipo foi defendido plenamente pelos causídicos de sua confiança, eis que por
ele constituídos à época. Ademais, a defesa também não conseguiu comprovar qualquer irregularidade praticada pelos
então advogados.

Acolher as alegações nesse sentido, seria o mesmo que dar um “salvo conduto” a acusados em geral para que, com o
fito único de procrastinar a tramitação de ação penal, constituírem patrono no início do processo/investigação e, no final
da instrução, aduzir que aquele(s) causídico(s) anterior(es) não atuou (aram) satisfatoriamente, e, assim, anular o
processo, com o único fim de se almejar a prescrição dos crimes que lhe são imputados.

Veja que não se trataram de defensores dativos, nomeados pelo Juízo, mais sim de causídicos constituídos pelo próprio
acusado que, como dito acima, é pessoa instruída e também advogado.

Além disso, apenas para registro, consigno que em relação às testemunhas arroladas após o término da instrução
processual pela atual defesa, que seriam imprescindíveis para a busca real da verdade, mesmo estando preclusas as
oitivas, o objeto da prova que a defesa pretendia fazer com tais oitivas foi devidamente analisado e refutado por este
Juízo, bem como pelo E.TJMT, em Habeas Corpus impetrados pela defesa em outra(s) Ação(ões) Penal(is).

Assim, rejeito também qualquer alegação desse sentido.

No que tange ao pedido de nulidade do feito, sob a alegação de que a presente ação penal não foi instaurada com base
em provas decorrentes do inquérito civil Público n.º 095/2001, mas sim, baseada nas investigações realizadas no
procedimento investigativo criminal n.º PR/MTCJ-389/2001 e do processo cautelar n.º 2002.36.00.000981-8 n.º
95/2001, dos quais teria sido instaurada e presidida pelo Procurador da República, José Pedro Taques e pelo Promotor
de Justiça, Paulo Ferreira Rocha, sem delegação da PGJ e sem supervisão do TJMT, entendo que também não merece
acolhida.

Do que se infere dos autos, a defesa do acusado após ter sua tese de nulidade do inquérito civil por desvio de
finalidade rechaçada pela instância superior vem novamente, por via transversa, tentar a anulação do presente feito.

No entanto, o procedimento investigativo criminal n.º PR/MTCJ-389/2001 e o processo cautelar n.º 2002.36.00.000981-
8 foram instaurados na Justiça Federal, com objetivo de desmantelar a organização criminosa liderada por João
Arcanjo Ribeiro, a qual era voltada à prática de delitos contra o sistema financeiro nacional.

O Juízo Federal de Cuiabá/MT, ao proferir sentença condenando o "Comendador" JOÃO ARCANJO RIBEIRO à pena
de 37 anos de reclusão em regime inicialmente fechado (fl. 592/686), constatou que os agentes denunciados naqueles
autos integravam organização criminosa sediada no Estado de Mato Grosso (com ramificações nacionais e
internacionais) dedicando-se à prática continuada de crimes de diversas espécies, incluindo-se homicídios e tentativas
de homicídio.

Tem-se da referida sentença que a Receita Federal, atendendo à requisição do Juízo Federal, constatou que a
CONFIANÇA FACTORING tinha, no período de 1997 a 2001, patrimônio a descoberto de R$ 500.312.665,71 e que os
integrantes da organização criminosa experimentaram patrimônio a descoberto de aproximadamente R$
900.000.000,00 (novecentos milhões de reais) no período de 1997 a 2001.

O "Comendador" operava com as instituições financeiras em nome de suas empresas, sendo estas colocadas em nome
de "laranjas" e administradas por seus procuradores, dentes estes, NILSON ROBERTO TEIXEIRA, corréu condenado
pelo Juízo Federal de Cuiabá/MT a uma pena de 10 (dez) anos de reclusão em regime inicialmente fechado.

http://servicos.tjmt.jus.br/processos/comarcas/dadosProcessoPrint.aspx 7/67
10/11/2017 Tribunal de Justiça de Mato Grosso

O Juízo Federal de Cuiabá/MT consignou ser "NILSON TEIXEIRA o homem do dinheiro e das operações de crédito,
patrocinando, auxiliando e promovendo a captação de recursos localmente", sendo o "responsável pela emissão de
duplicatas e outros títulos cambiais relacionadas às operações de empréstimo realizadas pelas casas de factoring de
propriedade do comendador".

Em razão dos dados colhidos, encaminhou, em 30/06/2003, cópia do relatório do BACEN e do depoimento prestado
pelo denunciado NILSON ROBERTO TEIXEIRA ao Procurador-Geral de Justiça do Estado de Mato Grosso, a fim de
que o parquet estadual apurasse a eventual prática de ato de improbidade administrativa e de crimes por parte dos
então Deputados Estaduais HUMBERTO MELO BOSAIPO e JOSÉ GERALDO RIVA.

Por conta disso, o Ministério Publico Estadual instaurou inquérito civil, que por sua vez, resultou no ajuizamento de
ação de improbidade administrativa contra o acusado Humberto Melo Bosaipo e outros.

Após a conclusão da investigação que teve como foco a dilapidação do patrimônio público, o Promotor de Justiça da
23ª Promotoria de Justiça de Defesa do Patrimônio Público Estadual de Mato Grosso, por ter também vislumbrado a
existência de elementos suficientes para a propositura da ação penal em desfavor de deputados estaduais, comunicou
o fato ao Procurador-Geral de Justiça deste Estado.

Verificando-se, que um dos denunciados possuía foro por prerrogativa de função no Superior Tribunal de Justiça, por ter
assumido o cargo de Conselheiro do Tribunal de Contas de Mato Grosso, determinou-se a imediata remessa dos autos
ao Procurador-Geral da República, que designou o Subprocurador Francisco Teixeira para atuar no feito.

O Ministério Público Federal, então, ofereceu a denúncia, com a dispensa do inquérito policial, o que não configura
também qualquer nulidade, pois a investigação civil que serviu de base para a propositura da ação penal foi efetuada
pelo Parquet local, dentro de suas atribuições constitucionais, qual seja a de proteger o patrimônio público.

Vê-se assim, apesar de ter sido instaurado procedimento criminal na Justiça Federal, referida ação penal não versava
sobre os fatos ora em apuração, bem como, naqueles autos, não existia investigado/denunciado com prerrogativa de
foro.

Ressalto que a própria defesa deixa claro nas alegações finais que o acusado não constava como parte e também não
tem envolvimento com os processos que tramitam na Justiça Federal contra João Arcanjo Ribeiro.

Ademais, não há como, nestes autos, declarar suposta nulidade ocorrida naqueles, já que, além de tramitarem em
esferas totalmente diferentes, apuram fatos que não se relacionam entre si. Pensar da forma como quer a defesa, seria
o cúmulo do absurdo e afrontaria a própria Constituição Federal, eis que possibilitaria um Juízo intervir na competência
e em processo do outro, o que, por óbvio, é impossível no ordenamento pátrio.

Assim, não há que se falar em nulidade do feito, já que restou demostrado que a denúncia foi oferecida a partir de
peças compartilhadas do Inquérito Civil número 00392/2004-GEAP/PGJ, o qual foi instaurado e presidido por
autoridade totalmente competente, motivo pelo qual, rejeito também a referida preliminar.

A defesa do acusado busca a reunião de todos os processos que tramitam neste Juízo em desfavor do acusado
HUMBERTO MELO BOSAIPO com a ação penal de ID. 400215, sob a alegação de que além de existir a patente
conexão fática e instrumental/probatória entre os processos, na ação penal de ID. 400215 ficará provado que houve
nulidade na investigação que deu origem às denuncias de todos os processos.

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Pelo que se vê, a defesa tem como objetivo a procrastinação do feito, buscando, por vias diretas e indiretas, gerar
vários incidentes, atravancando o andamento regular do feito em que o acusado é processado visando reabrir a
instrução processual e, com isso, ganhar tempo até que a prescrição lhe beneficie.

Muito embora os denunciados nas ações penais sejam praticamente os mesmos, bem como são os mesmos tipos
penais em apuração, o que contribuiria para a impressão de se tratar de crimes conexos em apuração, tal conexão não
se verifica, conforme se verá.

Dispõe o Código de Processo Penal, em seu artigo 76:

“Art. 76. A competência será determinada pela conexão:

I - se, ocorrendo duas ou mais infrações, houverem sido praticadas, ao mesmo tempo, por várias pessoas reunidas, ou
por várias pessoas em concurso, embora diverso o tempo e o lugar, ou por várias pessoas, umas contra as outras;

II - se, no mesmo caso, houverem sido umas praticadas para facilitar ou ocultar as outras, ou para conseguir
impunidade ou vantagem em relação a qualquer delas;

III - quando a prova de uma infração ou de qualquer de suas circunstâncias elementares influir na prova de outra
infração.”

Ensina a doutrina que “... conexão intersubjetiva (art. 76, I, CPP): teremos duas ou mais infrações interligas, e estas
devem ter sido praticadas por duas ou mais pessoas. Assim, na conexão intersubjetiva, encontraremos
obrigatoriamente pluralidade de criminosos. A conexão intersubjetiva se triparte em: a.1) Conexão intersubjetiva por
simultaneidade: nesta modalidade, ocorrem várias infrações ao mesmo tempo, por várias pessoas reunidas. Ou seja, o
vínculo entre as informações se materializam pelo fato delas terem sido praticadas nas mesmas circunstâncias de
tempo e de espaço (...) a.2) conexão intersubjetiva concursal: ocorre quando vários pessoas, previamente acordadas,
praticam várias infrações, embora diverso o tempo e o lugar...”

De acordo com o que se constata da análise das ações penais em questão, as mesmas apuram condutas autônomas,
apesar de executadas pelo mesmo réu, em tempo diverso, bem como envolvendo pessoas jurídicas diferentes.

Assim, não havendo interdependência entre os fatos tratados em um e noutro caso, a prova de um não interfere na dos
outros e as decisões a serem prolatadas nestes autos em nada influenciarão ou serão influenciadas pelas decisões
naqueles. Até porque os róis de testemunhas da acusação são distintos, o que, de per si já indica que a prova em
questão não depende da prova levada a cabo na ação penal de id. 400215.

Isto posto, sem mais delongas, afasto essa preliminar.

A defesa requereu, ainda, que seja declarado nulo o depoimento da testemunha Raquel Alves Coelho, realizada no dia
09/11/2016 nos autos de id. 149579, que tramita em relação aos demais corréus, sob alegação de que a defesa do
acusado Humberto Melo Bosaipo não foi intimada para o referido ato, assim a oitiva da testemunha não poderá ser
juntada neste feito e nem mesmo utilizada como elemento de convicção deste Juízo.

Primeiramente, consigno que não há como tornar nulo um ato que não foi realizado no presente feito e que sequer foi
utilizado como prova emprestada para embasar a condenação do acusado.

Ademais, conforme acima exposto, é desnecessária a intimação da defesa do réu para oitiva de testemunha em autos

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desmembrados, até porque a referida testemunha foi inquirida nestes autos, conforme se vê às fls. 2107/2111.

Além disso, a defesa não demonstrou o prejuízo supostamente sofrido pelo réu, em vista da inexistência de sua
intimação na oitiva da referida testemunha. Assim, não há que se falar em cerceamento de defesa.

Diante do exposto, afasto também a preliminar de nulidade do depoimento da testemunha Raquel Alves Coelho,
realizado nos autos de nos autos de id. 149579.

Quanto ao pedido para que seja solicitada à Justiça Federal cópia do processo n. 2003.36.00.008505-4, registra que
apesar do réu não ser parte naqueles autos, o feito não tramita em segredo de justiça, sendo assim a própria defesa
poderia ter solicitado as cópias pretendidas.

Ademais, a própria defesa em suas extensas alegações finais informa que os documentos foram juntados na Ação Civil
Pública n.º 33835-97.2005.811.0041 - Código – ID 226546, onde o acusado é parte. Assim, caso tivesse realmente
interesse poderia ter trazido aos autos, motivo pelo qual, indefiro o pleito da defesa nesse sentido.

No que tange ao pedido de reabertura da instrução processual, inquirição de testemunhas, acareações e a vinda de
alguns documentos aos autos, verifico que os pedidos já foram amplamente analisados em momentos anteriores por
este juízo, que proferiu decisões fundamentadas a respeito, de modo que me reporto a tais decisões, sem mais
delongas, afastando-as, por absolutamente improcedentes e protelatórias.

No mérito, tenho que a denúncia é procedente.

Trata-se de ação penal instaurada com prévio procedimento administrativo instaurado no âmbito da Procuradoria-Geral
de Justiça a partir do encaminhamento de peças compartilhadas do Inquérito Civil número 00392/2004-GEAP/PGJ que
visou apuração de práticas ilícitas envolvendo a Assembleia Legislativa do Estado de Mato Grosso e, no caso, a
empresa individual EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ ME.

As investigações iniciais culminaram na deflagração da Operação Arca de Noé, que tinha como alvo principal João
Arcanjo Ribeiro, mas que visava também a desarticulação do grupo criminoso que atuava na Assembleia Legislativa de
Mato Grosso.

A Operação desencadeou-se tanto em sede do Ministério Público Federal como no Ministério Público Estadual.

Durante os trabalhos de investigação foram localizados diversos cheques oriundos da Assembleia Legislativa de Mato
Grosso de posse empresa pertencente a João Arcanjo Ribeiro.

A partir daí, mediante quebra de sigilo bancário, constatou-se que a Assembleia Legislativa efetuou 32 pagamentos
suspeitos à empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ-ME entre julho de 2000 e novembro de 2002.

As investigações lograram descortinar também que a empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ era fraudulentamente
utilizada para possibilitar desvio de dinheiro público da Assembleia Legislativa em favor de vários dos denunciados.

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Apurou-se que a empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ foi constituída por EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ em 6 de
setembro de 1996, visando o comércio varejista de vestuários e bijuterias em geral.

A sede da empresa ficou fixada na Praça Barão do Rio Branco, número 86, Bairro Centro, em Cáceres, interior de Mato
Grosso.

Ocorre que a referida empresa funcionou por apenas um mês e, em 30 de julho de 1999, teve o endereço alterado para
Várzea Grande, sem o conhecimento da proprietária, que na época já residia fora do Brasil, na Espanha.

Com efeito, ainda na fase de diligências, constatou-se que a empresa em destaque estava ativa entre 4 de novembro
de 1996 a 13 de fevereiro de 2002 quando o funcionamento foi suspenso em razão da ausência da titular.

Localizado o contador da pessoa jurídica senhor Silvain Ramires, o mesmo forneceu o endereço do irmão da titular da
empresa EDLAMAR.

Ouvido, Hércules Ferreira Sodré afirmou que sua irmã tentou abrir uma loja na Galeria Curvo, em Cáceres, visando o
comércio de roupas e acessórios, cujo nome fantasia era VICE E VERSA MODAS, porém não conseguiu manter o
funcionamento por mais de um mês e acabou abandonando o comércio e mudando-se para Várzea Grande, onde
permaneceu por dois anos e dali mudou-se para a Espanha, onde trabalha como lavadora de carros.

Essas afirmações, colhidas na fase investigatória, foram confirmadas em juízo como se vê as folhas 2078 e 2099/2101,
quando a testemunha ainda confirmou que desconhece o fato de EDLAMAR ter prestado qualquer serviço para
Assembleia Legislativa.

Além disso, o irmão da titular da empresa foi categórico em afirmar que as assinaturas apostas nos cheques não são
parecidas com as assinaturas da sua irmã.

Restou ainda apurado que em 28 de junho de 2000 foi realizada nova alteração no contrato social da empresa
EDLAMAR quando foi modificou-se o objeto social da empresa, antes de comércio de roupas e acessórios, para
locação de ônibus, carros, aeronaves, bimotores e venda de passagens aéreas e rodoviárias nacionais e internacionais.

Ademais, o relatório inserto nos autos dá conta que em julho de 2003, no local indicado como sede da empresa de
EDLAMAR funcionava uma loja de cestas de café da manhã.

Lá, em conversa com pessoa ligada ao proprietário do imóvel, foi informado que no ano de 1999 a senhora EDLAMAR
foi inquilina no local, mas que desde então não tiveram mais contato.

Outras diligências foram empreendidas, a fim de obter informações sobre a empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ-
ME, como a expedição de ofícios ao INSS e a SEFAZ de Mato Grosso, quando constatou-se que não consta registro de
vínculos empregatícios e de benefícios relacionados a esta empresa, bem como que a empresa não possui alvará de
funcionamento e nem autorização para emissão de notas fiscais, tampouco sendo cadastrada na Secretaria Estadual
de Fazenda.

O Ministério Público apurou, ainda em fase de inquérito, que a utilização da empresa foi possível graças ao trabalho
ilícito de Joel Quirino e José Quirino, ambos contadores que teriam providenciado a montagem e a mudança de objeto

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social e outras fraudes que possibilitaram a utilização indevida da empresa, conclusão a que se chega ao verificarmos
que os documentos constitutivos da empresa foram apreendidos no escritório dos dois irmãos, conforme se vê as folhas
923/1196.

Está, ainda, nos autos, que o Ministério Público requisitou os documentos relativos às licitações necessárias para
aquisição dos bens que teriam sido fornecidos pela empresa EDILAMAR à Assembleia Legislativa, porém a instituição,
por meio de seus dirigentes da época recusou-se a fornecê-los, exatamente visando dificultar a elucidação dos crimes.

Com a vinda das microfilmagens dos cheques emitidos pela Assembleia Legislativa, as investigações constataram que,
no período compreendido entre julho de 2000 a novembro de 2002 trinta e dois cheques foram repassados a empresa
EDILAMAR MEDEIROS SODRÉ no valor total de R$ 1.685.822,95 (UM MILHÃO, SEISCENTOS E OITENTA E CINCO
MIL, OITOCENTOS E VINTE E DOIS REAIS), todos compensados em favor da empresa Confiança Factoring ou
sacados na boca do caixa por servidores da Assembleia Legislativa, contra quem pesa a acusação de integrarem o
apontado grupo criminoso.

Consta nos autos que as 27 cártulas que foram sacadas na boca do caixa continham, no verso, assinatura-endosso do
representante da empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ, porém, ao que tudo indica, tais assinaturas são
absolutamente falsas, pois, como já relatei, na época a empresa não estava mais em funcionamento e a titular estaria
vivendo fora do País desde os idos de 1998 ou 1999.

Os versos dos cheques contêm, também, assinaturas de alguns personagens que, na época, representavam a
Assembleia Legislativa, tais sejam, Luiz Eugênio Godoy Geraldo Lauro, Guilherme Garcia e José Geraldo Riva.

Constata-se inclusive, em um dos cheques, anotação no verso “confirmado por nei”.

Por conta dessas evidências tem-se que os atos foram praticados pelos próprios representantes da Assembleia
Legislativa, mediante prévia falsificação de assinatura no verso e da apresentação de contrato social igualmente
falsificado pelos contadores acima referidos, com o que compareciam à agência bancária e efetuavam pessoalmente a
apropriação indevida do dinheiro público.

No caso do acusado Humberto Melo Bosaipo, que era o ordenador de despesas da Assembleia na ocasião, era
também o responsável pela emissão dos cheques nominais à empresa fictícia EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ-ME.

Outro dado importante a ser considerado é que a alteração contratual fraudulenta da empresa, ocorrida quando a sua
titular já morava fora do País e quando a empresa já não estava mais em atividade há anos, foi realizada em 28 de
Junho do ano de 2000, sendo que menos de um mês depois, em 18 de julho de 2000 recebeu vultosa quantia do Poder
Legislativo como pagamento de prestação de serviço de locação de veículos ou de compra de passagens.

As circunstâncias, portanto, evidenciam a ocorrência da fraude noticiada na denúncia, mormente porque os dirigentes
do órgão público deveriam ter feito prova que desconstituísse os indícios da prática de crimes, mas preferiram omitir e
esconder quaisquer documentos relativos às aquisições que dizem ter realizado.

Em outras palavras, a robustez dos indícios e provas documentais das fraudes que envolvem a empresa EDLAMAR
MEDEIROS SODRÉ-ME poderia ter sido derrubada, se o acusado tivesse providenciado de forma transparente a
demonstração do efetivo serviço prestado.

Ao contrário, preferiu não acolher a requisição do Ministério Público na época, para, agora, comodamente, depois da

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destruição de tais documentos (se é que existiram) negar a acusação.

A constatação da existência de tais provas traz a presunção da ocorrência das fraudes noticiadas pelo Ministério
Público.

Neste caso, a presunção deveria ter sido desconstituída pelo acusado, porém o mesmo não se desvencilhou deste
ônus, de modo que merece a condenação.

Aliado a isso tem-se as provas de que tanto Humberto Melo Bosaipo quanto José Geraldo Riva negociavam com
frequência com a Factoring de João Arcanjo Ribeiro.

Assim, adquiriam créditos junto à referida Factoring e quitavam seus débitos com a utilização de cheques da empresa
EDILAMAR MEDEIROS SODRÉ, já adredemente preenchidos de acordo com as necessidades pessoais de cada um
dos dois.

São nesse sentido as declarações das testemunhas ouvidas, tanto na fase de inquérito quanto em juízo, as quais
confirmaram as operações financeiras realizadas entre a confiança Factoring, de propriedade de João Arcanjo Ribeiro e
os então Deputados Estaduais José Geraldo Riva e Humberto Melo Bosaipo, afirmando inclusive que os mesmos
compareciam pessoalmente ou por interpostas pessoas na referida factoring, a fim de efetuarem desconto ou troca de
cheques da Assembleia Legislativa.

Restou ainda apurado que no âmbito da Assembleia Legislativa vários servidores podem ter concorrido para a prática
dos delitos nominados, tanto ligados ao setor de patrimônio, que simulava a necessidade inexistente de alguma
prestação de serviços ou aquisição de bens e encaminhava tal solicitação à mesa diretora, composta exatamente por
Humberto Melo Bosaipo, na qualidade de Presidente e José Geraldo Riva, na qualidade de Primeiro-Secretário.

A mesa diretora aprovava a falsa solicitação e encaminhada para o setor de licitações, que confeccionava e publicava
apenas no mural do interior da Assembleia, edital que desce ares de licitude para a simulação.

A Assembléia Legislativa, propositalmente se utilizava da modalidade carta-convite para a simulação de aquisição de
bens e serviços, eis que, neste caso, a publicidade seria menor e o limite de aquisição chegaria a R$ 80.000,00.

Nesse sentido, útil o depoimento de Nivaldo de Araújo, ainda que tomado apenas na fase inquisitorial, porém com
acompanhamento de dois advogados, um deles Procurador da própria Assembléia, descortina que os editais das
cartas-convites eram apenas fixadas no mural interno da Assembléia, não eram enviadas pelo correio e nem entregues
na sede das empresas convidadas, o que contraria frontalmente a lei 8.666/93, que é regida pelos princípios básicos da
legalidade, da impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da publicidade, da probidade administrativa, da vinculação
ao instrumento convocatório, do julgamento objetivo e dos que lhes são correlatos, na forma expressa em seu artigo 3º.

Assinala-se que Nivaldo de Araújo não foi ouvido em juízo porque faleceu antes da instrução processual, de modo que
o depoimento tomado na fase inquisitorial é perfeitamente válido como prova, dada a impossibilidade de sua repetição
em juízo, até porque como já afirmei, tal pessoa prestou declarações acompanhado não apenas de um, mas de dois
advogados, um deles Procurador da própria instituição lesada.

Outrossim, o que se vê às folhas 2934/3469, é que as participantes das licitações eram justamente as empresas
envolvidas nos inúmeros processos que tramitam nesta vara, que têm objetos semelhantes e envolvem as mesmas
pessoas com imputações também semelhantes, ou seja, eram empresas fantasmas.

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Uma vez simulado o procedimento de licitação, o caso era encaminhado à Secretaria de Finanças que compõe o setor
de patrimônio onde se determinava o empenho do valor contratado para realização do pagamento e não havia
nenhuma observância quanto a efetiva entrega de material ou a prestação de serviço à Assembléia.

Uma vez determinado o pagamento, a Mesa Diretora, ou seja, o réu Humberto Melo Bosaipo e seu Primeiro-Secretário
José Geraldo Riva, assinavam os cheques que seriam posteriormente descontados ou trocados e reverteriam em seu
próprio favor.

Observo, mais, que para o saque no caixa era necessário a apresentação do contrato social da empresa, porém não
havia dificuldade quanto a isso porque a própria quadrilha que havia simulado a aquisição de bens ou serviços era a
detentora dos documentos fraudulentos das empresas fantasmas.

As relações e as ligações entre os envolvidos também restaram satisfatoriamente comprovadas nos autos.

Veja-se que Joel Quirino Pereira e José Quirino Pereira eram amigos de Nivaldo de Araújo, conforme testemunhou Edil
Dias Correia, tanto na fase inquisitorial quanto em juízo.

Consta que Nivaldo foi secretário de obras da Prefeitura de Barão de Melgaço e os irmãos Quirino eram contadores da
prefeitura por indicação de José Geraldo Riva e Humberto Melo Bosaipo e, inclusive, ambos afirmavam que estavam a
trabalho naquele município a pedido de Humberto Bosaipo.

Outros acusados também tiveram participação decisiva para o sucesso das empreitadas criminosas, como os
encarregados de patrimônio e finanças que geravam as demandas fictícias e determinavam o empenho do valor
contratado para que fosse realizado o pagamento.

A fraude se completava quando o réu Humberto Bosaipo e seu Primeiro-Secretário assinavam os cheques contra a
conta corrente da Assembleia Legislativa e simulavam o pagamento, apropriando-se dos valores desviados daquela
instituição.

Restou também evidenciado que o próprio Banco do Brasil, por meio de seus funcionários, especialmente de Raquel
Alves Coelho, contribuiu de maneira inegável para que as fraudes tivessem sucesso, já que pelo que se dessume dos
autos, os pagamentos feitos na boca do caixa não eram para a representante legal da empresa, que residia na época
fora do País, mas eram feitos para servidores da própria Assembléia, o que, no mínimo, deveria causar estranheza por
parte da agência bancária, dada a frequência com que os saques eram feitos desta forma.

No presente caso, os documentos que se encontram às folhas 799/859 comprovam que 27 cártulas foram sacadas na
boca do caixa, contendo assinaturas falsas da representante legal da empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ-ME.

Outros cinco cheques foram emitidos pela Assembleia e descontados junto à Confiança Factoring, de propriedade de
João Arcanjo Ribeiro.

A testemunha Kátia Maria Aprá esclareceu, tanto na fase inquisitorial quanto em juízo, que tanto Humberto Melo
Bosaipo como seu assessor Juracy Britto iam até a Confiança factoring trocar cheques emitidos pela Assembleia em
favor de várias empresas, os quais às vezes eram compensados e outras vezes trocados por cheques da Confiança
Factoring, em nítida prática de branqueamento de capitais, ou seja, Lavagem de Dinheiro.

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Esta modalidade de operação consistia em que os cheques, quando trocados pela Confiança Factoring, não fossem
emitidos em nome de José Geraldo Riva ou de Humberto Bosaipo, mas sim em nome de seus assessores, fato que foi
inclusive confirmado por Juracy Brito, o qual declarou que, quando trabalhou como assessor parlamentar do então
Deputado Humberto Bosaipo, entre 1999 e 2002, foi até a Confiança factoring buscar cheques a mando de Humberto,
sendo que tais títulos, apesar de envolverem empréstimos pessoais do então Deputado, estavam emitidos em nome do
próprio Juracy.

Outra prova que não pode ser desprezada é o relatório do Banco Central do Brasil que está nos autos as folhas
480/534, onde se vê que Humberto Melo Bosaipo foi destinatário de recursos obtidos junto à confiança Factoring no
total de R$ 225.000,00 à época, sendo que, ao mesmo tempo, a Confiança Factoring recebeu grande volume de
recursos da Assembleia Legislativa de Mato Grosso.

Assim, a tese apresentada pela defesa de que as empresas recorreriam à Factoring para trocar cheques pré-datados
não prospera, até porque, no caso em pauta, a representante legal da empresa sequer estava no Brasil.

Conforme referi logo acima, ficou demonstrado que o acusado Humberto Melo Bosaipo, no período compreendido entre
2000 a 2002, ocultou e dissimulou a origem de valores obtidos de forma ilícita da Assembleia Legislativa de Mato
Grosso, visando despistar os desvios praticados, no caso presente por pelo menos uma oportunidade.

Com efeito, restou provado nos autos que Humberto Melo Bosaipo e seus comparsas trocaram junto à Confiança o
cheque número 7606 no valor de R$ 65.000,00, utilizando esse valor para quitar empréstimos pessoais junto à
Confiança Factoring.

No caso presente não se pode acolher a alegação ministerial de que o acusado Humberto Melo Bosaipo tenha agido de
forma reiterada e habitual, eis que a prova constante nos autos refere-se apenas a uma cártula.

É importante assinalar que neste caso a prova dos autos, ao contrário do que ocorre na maioria das ações penais por
crimes comuns, é muito mais documental do que testemunhal. Diante disto é que assinalo que boa parte do
convencimento do juízo reside nas provas obtidas mediante o deferimento de medidas cautelares, como buscas e
apreensões e transferência de juros bancários.

Além disso, como já frisei alhures, o depoimento da testemunha que posteriormente veio a falecer Nivaldo de Araújo,
que se configura prova não repetível por conta do falecimento, comprova em conjunto com as circunstâncias e as
demais provas, inclusive as testemunhas colhidas em juízo, que a denúncia é parcialmente procedente, até porque
trata-se de testemunha que prestou declarações acompanhada de advogado.

Observo e reafirmo que a valoração do testemunho de Nivaldo de Araújo não é isolada, mas tomada no conjunto de
todas as demais provas existentes nos autos e, portanto, a teor do que expressamente dispõe o artigo 155 do Código
de Processo Penal, é suficientemente apta a formar o convencimento para a condenação.

O conjunto das provas trazidas aos autos me convence de que Humberto Melo Bosaipo tinha plena ciência das fraudes
praticadas e não só isso, locupletava-se permanentemente dos desvios que vitimaram a Assembleia Legislativa de
Mato Grosso.

A alegação da defesa de que o Presidente da Assembleia Legislativa não tinha como aferir a legalidade dos processos
licitatórios e nem como detectar se havia fraudes na contratação de serviços ou no fornecimento de bens não procede,
a uma porque, como já restou comprovado, ele mesmo locupletava-se de tais desvios e, a duas, porque era dever do

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acusado na qualidade de Presidente ou de Primeiro-Secretário, cargos que revezou com José Geraldo Riva ao longo
dos anos, zelar pela regularidade das aquisições feitas por aquela Casa.

Ademais disso, é certo que todos os envolvidos nas fraudes foram indicados para a Assembleia Legislativa pelos
próprios deputados, ou seja, ou por Humberto Melo Bosaipo ou José Geraldo Riva, o que denota que os atos
criminosos praticados pelos subalternos eram de conhecimento dos chefes e mais, eram praticados a mando de tais
pessoas.

A alegação do réu Humberto não merece respaldo nem mesmo diante da tese da cegueira deliberada, que ocorre
quando o agente finge desconhecer as fraudes, com intuito claro de locupletar-se de tal desconhecimento.

A Teoria da Cegueira Deliberada é uma doutrina criada pela Suprema Corte dos Estados Unidos e também é conhecida
no meio jurídico com muitos nomes, tais como “Willful Blindness Doctrine” (Doutrina da cegueira intencional), “Ostrich
Instructions” (instruções de avestruz), “Conscious Avoidance Doctrine” (doutrina do ato de ignorância consciente),
“Teoria das Instruções da Avestruz”, entre outros. Essa doutrina foi criada para as situações em que um agente finge
não enxergar a ilicitude da procedência de bens, direitos e valores com o intuito de auferir vantagens. Dessa forma, o
agente comporta-se como uma avestruz, que enterra sua cabeça na terra para não tomar conhecimento da natureza ou
extensão do seu ilícito praticado. Sendo assim, para a aplicação da Teoria da Cegueira Deliberada, é necessário que o
agente tenha conhecimento da elevada possibilidade de que os bens, direitos ou valores sejam provenientes de crimes
e que o agente tenha agido de modo indiferente a esse conhecimento. Em síntese, pode-se afirmar que a Teoria da
Cegueira Deliberada busca punir o agente que se coloca, intencionalmente, em estado de desconhecimento ou
ignorância, para não conhecer detalhadamente as circunstâncias fáticas de uma situação suspeita .

Sobre o assunto, André Callegari afirma que:

[…] quando uma pessoa ocupa determinados cargos em órgãos diretivos que pressupõem dever de informação, o
direito de alegar desconhecimento não poderia ser usado em seu favor [e] quem não se informa propositalmente acerca
de um fato penalmente relevante assume o risco pelo resultado.

Não é crível, por outro lado, a versão apresentada pelo acusado Humberto Melo Bosaipo de que, desde o ano de 2003,
quando deflagrou-se a operação Arca de Noé os então servidores federais José Pedro Taques e Julier Sebastião da
Silva, o primeiro Procurador da República e o segundo Juiz Federal, teriam forjado provas, visando enfraquecer o poder
político de José Geraldo Riva e Humberto Bosaipo, tudo no intuito de que hoje Pedro Taques ocupasse o cargo de
Governador do Estado.

Ao contrário, não há indício de que provas tenham sido forjadas, não há provas ilegais ou obtidas por meios ilícitos nos
autos, e não há sequer contradição entre as provas até agora colhidas que pudessem indicar pelo menos de longe que
a tese esposada pela defesa tenha qualquer cabimento.

Ademais, ainda que naquela época esses dois personagens tivessem este intuito, o fato de não se constatar nos autos
e irregularidades com relação às provas colhidas põe por terra toda a alegação defensiva.

Além disso, como argumenta o Ministério Público, as provas colhidas durante a investigação não foram obtidas pela
Justiça Federal ou pelo Ministério Público Federal, mas sim em sede estadual, que visava apurar atos de improbidade.

Outro fator importante a levar em consideração é o fato de que o próprio Humberto Melo Bosaipo contratou o advogado
Paulo Taques como seu advogado, sendo fato notório que Paulo Taques é primo do atual Governador José Pedro
Taques.

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Ainda persiste outro fator em desfavor do acusado Humberto Melo Bosaipo: os relatórios do Banco Central acusam
apenas o recebimento por parte do réu do valor de R$ 225.000,00 da Confiança Factoring, mas não há qualquer indício
ou prova de que tal valor, que segundo ele foi obtido mediante empréstimo, tenha sido pago e mesmo durante a longa a
instrução processual o réu não fez prova de tal pagamento.

Aliás sequer fez prova do contrato de mútuo que certamente deveria existir entre a empresa Factoring e o réu.

Não acredito, por fim, que o réu tenha agido com dolo eventual, ainda que alhures tenha feito referência, meramente
elucidativa, à teoria da cegueira deliberada.

O conjunto das provas e das circunstâncias indica que agiu com dolo direto e, como já disse, foi o mandante da prática
das fraudes noticiadas nestes autos, contando com a colaboração de assessores e pessoas colocadas adredemente
em cargos de confiança, que agiram de modo a garantir o sucesso dos desvios praticados.

A estratégia defensiva de apontar para um sujeito falecido a responsabilidade pelas fraudes praticadas também destoa
do conjunto probatório e indica a intenção deliberada do agente em transferir a responsabilidade pelos atos que
praticou para pessoa cuja punibilidade está extinta, ou seja Luiz Eugênio de Godoy, o que é no mínimo imoral.

A aprovação das contas da Assembleia pelo Tribunal de Contas do Estado pouco influencia no deslinde desta ação
penal, já que a análise daquela corte foi meramente formal, ou seja, não houve qualquer diligência de campo que
pudesse trazer a conhecimento das autoridades, por exemplo, que a empresa não existia, não tinha sede e sequer que
sua proprietária residia há anos fora do Brasil.

Tenho, pois, que o acusado HUMBERTO MELO BOSAIPO merece a condenação pela prática dos crimes de
PECULATO e LAVAGEM DE DINHEIRO.

É, pois, parcialmente procedente a denúncia, eis que foi excluído o crime de quadrilha, em face do qual ocorreu a
prescrição, inclusive já reconhecida nos autos.

Os fatos ocorreram entre os anos de 2000 e 2002, sempre tendo como cenário a Assembléia Legislativa de Mato
Grosso e a empresa Confiança Factoring, envolvendo sempre os mesmos agentes.

HUMBERTO MELO BOSAIPO pode, pois, ser beneficiado com o reconhecimento da continuidade delitiva,
considerando-se que se enquadra nos requisitos legais expressamente dispostos no artigo 71 do Código Penal, não se
podendo falar, olhando-se isoladamente o caso dos crimes praticados em face desta empresa, que se trata de
habitualidade criminosa.

Durante anos a fio, a Assembléia Legislativa do Estado de Mato Grosso foi assacada sem piedade pelo acusado,
mediante a utilização de empresas fantasmas e da simulação de contratação de serviços ou aquisição de bens e isso
retrata verdadeira continuidade delitiva.

Foram 32 (trinta e dois) desvios praticados apenas envolvendo a empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ-MT, que
resultaram em prejuízo ao erário de mais de um milhão e meio de reais em dinheiro da época.

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Apenas para ilustrar, reajustado esse valor pelo INPC, tratamos de um milionário desvio de R$ 5.274.912,46 (cinco
milhões, duzentos e setenta e quatro mil, novecentos e doze reais e quarenta e seis centavos) apenas neste caso.

Mais do que isso: nesta unidade judiciária tramitam dezenas de processos tratando de outros desvios praticados em
situação semelhante, que envolvem este mesmo acusado.

Trata-se, portanto, de um contexto muito maior, o qual retrata que os crimes foram praticados em continuação, durante
anos a fio, fazendo verdadeira sangria nos cofres da Assembléia Legislativa de Mato Grosso.

Segundo Heleno Fragoso a continuidade delitiva é uma ficção jurídica criada quando há pluralidade de crimes, sempre
conferindo ênfase à unidade de desígnios.

No caso em questão, trata-se da prática de crimes da mesma espécie, idênticos, todos previstos no mesmo tipo penal
(art. 312 do CP).

Todos foram praticados nas mesmas condições de tempo, ou seja, o caso preenche o requisito temporal exigido pelo
artigo 71 do Código Penal. Houve uma certa continuidade no tempo, uma periodicidade que faz perceber que se tratava
de ações sucessivas, praticadas sempre com o uso da empresa EDLAMAR MEDEIROS SODRÉ-MT, em espaços
temporais bastante curtos.

Conforme entendimento do Superior Tribunal de Justiça: Tratando-se de crimes da mesma espécie e cometidos em
lapso inferior a 30 dias não há o que ser alterado no acórdão recorrido, aplicando-se a súmula 83/STJ (Agrg no ARE-sp
468.460/MG, REL. Min. Sebastião Reis Júnior, 08.05.2014).

Além disso, vejo que o critério das condições de espaço também previsto no artigo 71 foi devidamente preenchido
neste, caso já que todos os delitos foram praticados no mesmo palco, tal seja, a ALMT.

A forma de execução dos delitos também foi bastante semelhante, variando apenas quando alguns cheques foram
sacados na boca do caixa e outros remetidos para a empresa Confiança Factoring. Assim, no que diz respeito aos
crimes de peculato, o modus operandi era a simulação de aquisição de mercadoria, que gerava a emissão de cheques,
que por conseguinte eram falsamente endossados ou sacados conforme já restou exaustivamente esclarecido. Então, a
conclusão é que a forma pela qual o réu praticou o crime de peculato não variou.

Da mesma forma ocorreu em relação à Lavagem de Dinheiro, sempre praticada com utilização da empresa Confiança
Factoring, mediante a simulação de desconto antecipado das cártulas, que visava o branqueamento dos recursos
ilicitamente desviados da Assembléia.

Passo, portanto, a dosar-lhe as penas:

HUMERTO MELO BOSAIPO é primário e até o momento em que praticou esses delitos ostentava ficha criminosa
intacta. Praticou os crimes por ganância, fazendo da vida política um meio de locupletamento ilícito. Tratava a coisa
pública como se sua fosse, ora praticando os desvios em favor próprio, ora para aquisição de bens, ora para quitação
de dívidas ilicitamente contraídas durante a campanha eleitoral (caixa 2) e ora beneficiando comparsas. O réu tem
formação superior, portanto, tem entendimento suficiente da ilicitude de seus atos, de modo que tenho que praticou os
crimes com dolo direto e intenso. Sua vida familiar é aparentemente normal e seu relacionamento social, embora tenha
a vida marcada por tais desvios de conduta, ainda é bastante intensa. Não há dados concretos que me façam aquilatar

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sua personalidade, embora já tenha deixado bem claro que é pessoa extremamente gananciosa e relativiza seus
escrúpulos quando se trata de enriquecer. Não se mostrou colaborativo durante a instrução criminal: ao contrário,
tumultuou o andamento do processo por várias vezes, mediante pedidos desconexos e impróprios, na nítida intenção
procrastinatória. A nocividade da ação do réu foi além dos fatos por ele praticados, já que, tratando-se de líder político,
utilizava dos próprios desvios para alimentar suas campanhas eleitorais e retroalimentava sua permanência no poder. O
prejuízo causado ao erário foi milionário, conforme já apontei nesta decisão e até agora o Estado não foi ressarcido.

Assim, para os crimes de peculato, fixo a pena-base em 08 (oito) anos de reclusão e 200 (duzentos) dias-multa, fixado
cada dia-multa em 1/10 do salário mínimo vigente à época do fato, a ser corrigido quando do efetivo recolhimento.

Considerando a continuação prevista no artigo 71 do CP e verificando que se trata de 32 crimes praticados ao longo de
dois anos (2000 a 2002), aumento a pena em 2/3 (dois terços).

Assim, procedo não apenas em face do lapso temporal em que os crimes foram praticados (por dois anos e dois meses
ininterruptos, ou durante um mandato da mesa Diretora), mas também pelo número de vezes em que o desvio foi
praticado, ou seja, em mais de 30 oportunidades.

Resulta assim definitivamente fixada a pena em 13 (treze anos e 04 meses de reclusão) e 333 (trezentos e trinta e três
dias-multa).

Para o crime de lavagem de dinheiro, fixo a pena-base em 05 (cinco) anos de reclusão e 100 (cem) dias-multa, fixando
cada dia-multa em 1/10 do salário mínimo vigente na época do fato, a ser corrigida até o efetivo pagamento. Torno-a
assim definitiva, à falta de modificadoras.

Resulta a soma das penas ora aplicadas em 18 (dezoito anos e quatro meses de reclusão e 433 (quatrocentos e trinta e
três dias-multa).

A teor do que dispõe o artigo 33, “a” do Código Penal, fixo o regime inicial a ser cumprido no fechado.

Já que responde ao processo em liberdade, inexistindo causa para a decretação da custódia cautelar, defiro-lhe o
direito de assim apelar.

A multa, já fixada, será recolhida na forma do que dispõem os artigos 49 e seguintes do CP.

Deixo de condená-lo a indenizar o erário por falta de previsão legal nesse sentido, à época dos fatos. É que, diante do
princípio da irretroatividade da lei penal, resta proibido, uma vez determinada por lei como ilícita determinada conduta,
que os efeitos penais, incriminantes e condenatórios dessa lei sejam válidos em período anterior à sua vigência.

Havendo interposição de recurso e sendo confirmada a presente sentença em 2ª Grau de Jurisdição, expeçam-se guias
de execução, remetendo-as ao Juízo competente para cumprimento da pena. Outrossim, transitada em julgado a
sentença, lance-lhes o nome no rol dos culpados, (art. 5o., LIV da CF, c/c art. 393, II do CPP), e expeçam-se guia de
execução, remetendo-as ao Juízo competente para cumprimento das penas.

Custas pelo condenado.

http://servicos.tjmt.jus.br/processos/comarcas/dadosProcessoPrint.aspx 19/67
10/11/2017 Tribunal de Justiça de Mato Grosso

Lançada esta decisão no Sistema Apolo estará registrada.

Publique-se.

Intimem-se.

Cumpra-se.

08/06/2017
Carga
De: Sétima Vara Criminal

Para: Gabinete - Sétima Vara Criminal

08/06/2017
Concluso p/Sentença

02/06/2017
Juntada de Alegações Finais do Réu
Juntada de documento protocolado pela WEB através do Sistema PEA.

Alegações Finais do Réu, Id: 478515, protocolado em: 25/05/2017 às 17:40:46

02/06/2017
Certidão de Abertura de Volume
Abertura de Volume

CERTIDÃO

Certifico e dou fé que, nesta data, em cumprimento ao item 2.3.8 da Consolidação das Normas Gerais da Corregedoria
Geral da Justiça do Estado de Mato Grosso - CNGC, procedi à abertura do volume nº 21 destes autos, a partir das fls.
4330.

Cuiabá - MT, 2 de junho de 2017.

Luciana Cristina Pistore

Escrivão Judicial

02/06/2017
Certidão de Encerramento de Volume
Encerramento de Volume

CERTIDÃO

Certifico e dou fé que, nesta data, em cumprimento ao item 2.3.8 da Consolidação das Normas Gerais da Corregedoria
Geral da Justiça do Estado de Mato Grosso - CNGC, encerro o volume nº 20 destes autos, com 4329.

Cuiabá - MT, 2 de junho de 2017.

Luciana Cristina Pistore

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