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“Louca, eu?

”: tensionamentos e subversões da/na política pública de saúde mental

Ana Paula Müller de Andrade1

A política de saúde mental brasileira tem demandado respostas para vários desafios
cotidianos, resultantes dos tensionamentos, questionamentos, embates e entraves para o
desenvolvimento de suas propostas, bem como por sua complexidade. Situa-se no campo da
saúde mental, reconhecido como de maior discordância no âmbito da saúde, especialmente no
que se refere ao próprio conceito de “saúde mental”, alvo de muitas críticas.
Na discussão que faz em A outra saúde: mental, psicossocial, físico moral?, Luiz
Fernando Duarte (1994) argumenta que o conceito “saúde mental”, assim como os de “doença
mental” e “distúrbio psicossocial” além de culturalmente específicos, representam uma
dinâmica eminentemente psicológica, própria das sociedades modernas. A proposta de Duarte
(1994) traz à tona elementos que ajudam a entender algumas concepções – muitas vezes
pouco relativizadas – presentes no processo dinâmico e inventivo da política de saúde mental
no país.
Não é demasiado dizer que a Política Nacional de Saúde Mental apresenta um
atravessamento marcante de gênero, como discutido em trabalhos como os de Sônia Maluf
(2010), Sônia Maluf e Carmen Tornquist (2010) e Ana Paula Andrade (2010; 2012). Cabe
dizer que o gênero é entendido aqui “como uma forma de constituição de sujeitos, que
estabelece lugares de poder, tal como tem sido proposto por Judith Butler, Joan Scott e Teresa
de Lauretis” (ANDRADE, 2012). Pensado nestes termos, é possível perceber que ele tem
atravessado de maneira significativa a política pública de saúde mental e afetado de distintas
maneiras o processo da reforma psiquiátrica brasileira, no que diz respeito às práticas
assistenciais e as experiências singulares dos sujeitos.
Considerando a necessidade de relativização desses conceitos como eixo central deste
trabalho, tomei as experiências sociais de alguns sujeitos, entendidos como o público alvo da
política pública de saúde mental – homens e mulheres “usuárias/os” dos serviços de saúde

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Doutora em Ciências Humanas pela Universidade Federal de Santa Catarina, com doutorado-sanduíche na
Università degli Studi di Torino – Itália. Pós-Doutorado na Universidade Federal de Pelotas.

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assim como tantas outras mulheres que buscam os serviços de saúde mental para alívio de suas angústias. Prosseguiu: “agora eu vou é te contar. Pesa também sobre os homens. dentre outras coisas. Mais do que isso. de forma significativa. “usuária” de um serviço de saúde mental.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas mental substitutivos ao hospital psiquiátrico. como veremos nas discussões aqui apresentadas. Agora me diz: Louca. pertencente às classes populares. eu vim.. Entretanto.. isso [a irritação daquele momento] não é de ser louca não. as práticas assistenciais no campo da saúde mental. era afetada por uma determinada configuração de gênero presente em nossa sociedade que marca. Tais autoras argumentam. por parte do serviço e dos profissionais. disse Marília. tá!” (fragmento do diário de campo). branca. se sobre as mulheres pesam os desdobramentos destas concepções relacionadas a um suposto “sofrimento feminino”. Isso sem falar em outras categorias bastante significativas como as de raça/etnia e classe presentes no contexto contemporâneo. eu? Ah. Marília estava bastante incomodada por ter sido chamada ao serviço de saúde mental que frequentava. Tais subversões dizem respeito ao caráter relacional destas categorias sobre as quais são articulados saberes/modelos interpretativos diversos por parte dos sujeitos que fazem 150 . em sua fala expressava uma boa dose de indignação e fazia questão de salientar que a mesma não era resultante de sua suposta “loucura”. agora vão ter que resolver. uma mulher. Ela. Experiências de subversão e tensionamentos da/na política “Louca. eu não gosto é de ver tudo errado e ficar quieta. No dia em que conversamos. Se disseram que eu tinha que vim. tal como prevê a Lei 10216 – como ponto de apoio para as reflexões aqui desenvolvidas. ou como mulheres loucas. tal como discutido em Maria Lucia Silveira (2000) e Maluf (2010). não sou [louca] não. geralmente relacionados ou ao útero ou ao cérebro das mesmas. mas da falta de resolutividade para seus problemas. pelos preconceitos. ou como mulheres. eu?”. estereótipos e até mesmo por uma concepção que relaciona as mulheres a algo que seria de sua natureza. sobre os quais se declinam diversas práticas marcadas por tais categorias. são elas que estabelecem em suas experiências sociais movimentos de ruptura e resistência que subvertem esses regimes hegemônicos que tendem a capturá-las. ou como loucas. tampouco de sua condição precária de vida. já que não via motivo razoável para tal. que o gênero tem motivado o atendimento diferenciado na assistência. naquele momento.

“assim com essa coisa assim” cujo gestual geralmente aponta para um correlato corporal. me disse: “eu não posso fazer nada disso aí (fazendo referência a atividade de costura que ela apenas acompanhava. outra interlocutora. é no domínio das redes sociais constituídas pelos sujeitos que é possível reconhecer como se articulam várias estratégias sobre aquilo que entendem fazer parte de seus sofrimentos e tratamentos. Concepções em tensão “Isso que não aparece em raio-x. que não podem ser considerados culturalmente apenas como físico ou apenas como moral (no sentido amplo do termo). é possível perceber que as mesmas criam linhas de fuga (DELEUZE. viúva e avó de três netas. Tal como argumentam Paulo Alves e Iara Souza (1999). “Estar nervoso”. apareceu no contexto pesquisado como uma maneira frequente de falar de si. “com o nervo”. nas mãos (me mostrando as mãos trêmulas. aspecto bem comum entre os experientes com quem convivi)”. Adélia. o modelo biomédico passa a ser apenas mais uma possibilidade de interpretação dentre outras como o modelo religioso e o modelo dos nervos. por causa que tenho assim. disse Mateus. como veremos a seguir. Alguns relatos são bastante significativos dessa articulação e subversão dos quais destacaremos aqui aqueles que se referem a “saúde- doença mental”. tais sujeitos e suas experiências nos ajudam a relativizar as concepções e teorias que atravessam a política pública de saúde mental. Assim. ao discutir em um grupo quais os motivos que os reunia 151 . mesmo em um contexto que tende a naturalizar/hormonizar/(hiper)medicalizar o sofrimento das mulheres. especialmente entre as classes populares urbanas do Brasil. “normalidade”. um interlocutor. que aparentava ter em torno de 60 anos. pelas ideias que tem de “perturbação”. Tal como apresentado por Duarte (1988) o modelo dos nervos abarca uma série de perturbações físico-morais e abrange diferentes dimensões da vida dos sujeitos.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas parte dessa realidade. esse nervoso assim. Tal modelo estaria atravessado pelos valores e concepções próprios desta cultura. como diz o autor. Nele. que que pode ser?”. cujas referências apontam para o modelo descrito por Duarte (1988). branca. não aparece em exame de sangue. sentada à mesa com as demais mulheres que participavam). Ao articular esses diferentes saberes e modelos interpretativos. GUATTARI) por onde conseguem escapar aos regimes hegemônicos de subjetivação e criar novas possibilidades tal como expressado na fala de Marília e em outras situações vividas em campo.

Respondendo a pergunta de Nino Vascon sobre o fato de ele e seu grupo prescindirem da doença. Outro lhe responde: Antes era é depressão. um doente. de alguma forma... para estabelecer uma relação com um indivíduo. como se faz com aquelas palavras ou expressões que precisam ser relativizadas e questionadas incessantemente. 28).) respondeu: Não.. mostrando como a colocação da mesma entre parênteses significava uma importante inversão para o processo da reforma psiquiátrica. para ter a possibilidade de agir em um território ainda não codificado ou definido” (id. p. mas pensamos que. como se ela não existisse. Nesse sentido. Questionava também que tipo de adoecimento era esse. o que não significa que procuremos negar o fato de que o doente seja.. isto sim. nós não prescindimos da doença. Basaglia (Id. quanto no mundo externo. é necessário considerá-lo independentemente daquilo que pode ser o rótulo que o define. p. as superestruturas. em decorrência da condição do estar institucionalizado.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas naquele momento. p. depois.. que era esquizofrenia e aí melhorou. 152 . Para o autor.. Segue o fragmento de meu diário de campo com parte da conversa: “Durante uma conversa entre alguns „usuários‟ um deles diz: Antes as pessoas diziam que era nervos. Quando Franco Basaglia (1985) sugeriu colocar a “doença mental” entre parênteses para pensar as instituições psiquiátricas. 29). da aceitação da elaboração teórica da psiquiatria em dar conta do fenômeno da loucura e da experiência do sofrimento. colocar entre parênteses a definição e o rótulo (id. assim como o questionamento que abre esta seção. em consequência da rotulação social que é fortemente autorizada pelo saber psiquiátrico (AMARANTE.. que não. feita por Fabrício. referia-se ao fato de colocar “entre parênteses todos os esquemas.... nominado como “doença mental”. seria mais adequado colocá-la entre aspas. 80). 1996. Uma conversa que ouvi durante o trabalho de campo. eles disseram que era depressão e agora. A questão da “doença mental” foi discutida por Paulo Amarante (1996..) a necessidade de colocar a doença entre parênteses significa a negação. eu. ibid. (. 2007) a partir das concepções de Basaglia. mas de compreender como a experiência de sentir-se “doente” é significada pelos sujeitos que entendo ser necessária a discussão. significa realizar uma operação prático- teórica de afastar as incrustações. É este o sentido de colocarmos o mal entre parênteses. (.” (Fragmento do Diário de Campo). ou seja.) O diagnóstico tem um juízo discriminatório. produzidas tanto no interior da instituição manicomial. mostra como a experiência do “adoecimento” circula entre as pessoas. um interlocutor sobre o que seria essa doença que não aparece em raio-x ou exame de sangue. penso que ao invés de colocá-la entre parênteses. ibid. É sobre o argumento de que não é preciso negar a existência da doença.

Diz respeito também ao fato de terem sido “eles” que. As maneiras de reconhecer tais rupturas também variavam.(. decifrar e remediar (literalmente) tal situação. Disse: “(..) Chega um tempo e dá aquela alegria... eu era muito triste antes dessa visão. a “depressão”.. Para ele. que. ou seja. de repente. casado e pai de duas filhas. Eu não fui lá na ala. em que se viam acometidas por alguma espécie de sofrimento que abalavam suas condições no mundo. com história de longas e sucessivas internações psiquiátricas e que aparentava ter aproximadamente 65 anos. como é possível perceber em dois relatos que ouvi.. ou seja..Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas Podem ser os “nervos”.. Falavam de um momento de ruptura. e outras possíveis interpretações do estado de desconforto que tais experiências provocam. O outro relato ouvi de S. é. No campo da “saúde mental”. eu fico muito alegre. me disse: “Comigo foi assim. uma pessoa assim.. como se pega uma gripe ou um vírus. eu tive uma visão.. contando sua experiência.. depressão e ansiedade se pegava assim. se apropriaram dessa experiência. criando um objeto obscuro.. diferente. Armando. um homem. Eu peguei ansiedade e depressão. Um deles ouvi de Pedro. Todas as pessoas com quem conversei tinham tido alguma experiência que as levou a buscar algum serviço de saúde mental no qual haviam recebido algum diagnóstico psiquiátrico ao qual faziam referência em nossas conversas. de repente”. a forma como tais experiências são nominadas. a “esquizofrenia”. aí fiquei muito contente. eu tava em casa e aí peguei. muito alegre. “eles” terem o poder de nominar. Meu problema é mais leve. de aproximadamente 50 anos. O que dizem estas pessoas está relacionado ao fato da psiquiatria. assim. que tinha precisado se afastar das atividades de trabalho e reorganizar sua vida em torno de seu tratamento psiquiátrico. me explicou sobre os motivos que o levaram pela primeira vez para um hospital psiquiátrico e o que entendia como sendo seu problema.) o meu probleminha é assim. fui direto pro CAD. de branco. da experiência dos sujeitos. em um tom simples mas convincente. um homem branco.. transformando-a em “doença mental”. ao separarem esse “objeto fictício”. narradas e significadas estão intimamente relacionadas com o contexto cultural dos indivíduos e suas interpretações sobre as mesmas. não entendia que seu problema era grave uma vez que não tinha sido internado nem na ala psiquiátrica nem em um hospital psiquiátrico. como disse Basaglia. e aqui especificamente da reforma psiquiátrica. aí eu tenho que ir para o hospital”. Foi assim. negro. Enquanto conversávamos sobre sua história e experiências nos serviços de saúde mental. Na sua concepção. Acho importante contar 153 .

Como argumentou S. havia concluído que seu problema era que sua alegria não cabia nele. Sua religiosidade.essas coisa assim da cabeça não são de doença. ou seja. dentre outras expressões. Eu pensei em me matar. diante de toda sua experiência de internações e tratamentos psiquiátricos. cuja imagem mostrava uma pessoa de branco. Adão: “Diz que a gente não tem que dizer que é doente porque as pessoas têm muita preocupação. as pessoas sempre se referiam a suas experiências através de “noções menos duras” (MALUF. tal como pude perceber nos dados da pesquisa. seja da cabeça. Georges Canguilhem (2006[1966]) diz que (. Como disse S. Apesar dos indivíduos reconhecerem algumas experiências como momentos de intenso sofrimento e adoecimento.. receber um diagnóstico psiquiátrico parece ser diferente de receber outro tipo de diagnóstico médico... como pressuporia o modelo biomédico de interpretação. Quando então seria possível transformar tais experiências de sofrimento em adoecimento e/ou em um diagnóstico psiquiátrico? Como é possível definir tais limites? Discutindo os limites entre o normal e o patológico. extrapolava os limites do permitido socialmente. que parece estar relacionada à outra ordem de desconfortos. Tinham problemas. S. é claro que o limite entre o normal e o patológico torna-se impreciso. essas coisas assim.. ficavam nervosas. usam a palavra “louco” ou “loucura” para se referir mais à experiência dos outros do que as suas.135). Armando me presenteou com um santinho com uma imagem da “comunhão da menina”. mas é perfeitamente precisa para um único e mesmo indivíduo considerado sucessivamente (id. ou estão “nervosas”..”. Ser “doente”. e sim a flexibilidade de uma norma que se transforma em sua relação com condições individuais.. no máximo. também compunha sua narrativa e sua interpretação de tal visão. relacionados somente ao corpo. talvez pelas características da “doença” a que as pessoas se veem acometidas. Adão: “Doente é quem tem Aids. mas sim Jesus.. desses momentos em que as pessoas sentem que algo está diferente. é algo que parece não fazer parte da realidade das pessoas com quem conversei que nominam suas experiências como “problemas”. p. (. estavam ruins. Não foi uma alucinação visual. dos nervos ou qualquer outra coisa. mas depois 154 . Não se referem a este estado com a palavra “doente”. S. diabetes. 1999). como ele fez questão de esclarecer quando me presenteou com o santinho.. ou estão “ruim” e. Armando.. Em nenhum momento ouvi dizer que a pessoa estava “doente”.) A fronteira entre o normal e o patológico é imprecisa para diversos indivíduos considerados simultaneamente.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas que durante nossa conversa.. acionada não apenas na visão que teve e que o fez sair da tristeza e ficar contente.) se o normal não tem a rigidez de um fato coercitivo coletivo..

) a maior parte deles aceitou delegar ao psiquiatra o controle dos seus distúrbios. segundo o autor. destruição e reconstrução das pessoas que experimentam a passagem de um estado de bem-estar para um estado de mal-estar. na Itália e outros países – pareciam desenvolver um senso crítico com relação às instituições 155 . com danos.. que participavam de contextos culturais e sociais diferentes do psiquiátrico – e nesse ponto o autor faz referência aos movimentos dos Survivors of mental health [Sobreviventes da saúde mental]. p. ocorre de diversas maneiras e varia conforme o contexto em que tais pessoas estão inseridas. eu falo para a minha mãe”. é a objetificação de tais experiências que as transforma em diagnósticos psiquiátricos e assim são subjetivados. uma disposição que se entende só pela diferença. desenvolvido especialmente nos países de língua inglesa.. Isto se relaciona com uma representação da própria diversidade geralmente relacionada com desabilidades. Apesar dos diagnósticos psiquiátricos terem caráter prescritivo e normatizador. Tal recomposição. o contexto. Mario Cardano (2008) argumenta que ela é capaz de provocar transformações. 127 [ tradução livre]). laceração e geradora de uma transição biográfica. A partir da amostra dos sujeitos da pesquisa realizada. logo. Agora quando eu tenho essas ideias assim na minha cabeça. bem como as trajetórias de vida de tais pessoas e o modo como experimentam estes momentos de ruptura interferem no processo de reconstrução das mesmas e na forma de confrontá-las. Ainda assim. mostrando uma boa adesão farmacológica junto com um comportamento substancialmente positivo nos confrontos com as instituições psiquiátricas. Para Cardano (2008). Em seu estudo. esses sujeitos confrontados com aquelas pessoas que não escolheram. buscaram ou lhes foi imposto o tratamento em um serviço psiquiátrico. baseado na história de vida de quatro pessoas que passaram por esse momento. não sem resistências. ou seja. o autor mostra como a experiência do sofrimento psíquico provoca uma ruptura biográfica e.. o autor afirma que aquelas pessoas que escolheram ou a quem foi imposto o tratamento em um serviço público de saúde mental mostram uma maior adesão ao “papel” de paciente psiquiátrico e diz: (. Foi uma só vez. desenvolvido na Itália. nascido na Holanda e desenvolvido no Reino Unido. as maneiras através das quais as pessoas se relacionam com eles dizem respeito ao contexto no qual eles são enunciados. Em sua narração.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas passou. a recomposição. bem como ao Movimento de Ouvidores de Vozes. relacionando os relatos recolhidos neste estudo com aqueles que provem de contextos sociais e culturais de outros gêneros (id. No trabalho em que discute a experiência com a doença mental como um momento de ruptura.

e apenas quando.71). mas como uma forma diferente de habilidade.. neste sentido. e que o corpo e a subjetividade são a base onde esse sofrimento opera. por isso. fora dali ela também “adere a outros papéis” necessários aos demais espaços nos quais circula e. também busca alívio em seus momentos de ruptura. “antes era nervos”. em uma de suas conferências no Brasil: 156 .. também pelos serviços de saúde mental] (id.. advinda da necessidade de categorizar uma experiência. p. mas agora é depressão ou esquizofrenia ou outro diagnóstico possível. ainda que recebam diagnósticos psiquiátricos que tendem a uma captura total do sujeito. penso que na realidade da reforma psiquiátrica brasileira ela pode ser entendida como uma definição médico-jurídica. como disse Basaglia (2000). Michel Foucault (2000). pois acredito. a “adesão ao papel” é precária e ocorre concomitantemente à “adesão” a outros modelos interpretativos. em muitos dos quais. No contexto brasileiro. (. O que pretendo evidenciar aqui é que.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas psiquiátricas e uma leitura de suas experiências não como desvio. nem psicológico. Ao mesmo tempo em que a pessoa “adere ao papel de paciente” ou “de louco” nos serviços de saúde mental. Apresenta-se como um momento de ruptura no fluxo das experiências dos sujeitos e faz emergir conflitos próprios do viver humano. conforme os argumentos de Erving Goffman (1975). não se resumiria a um evento biológico. Ela faz parte da condição humana. Assim.) a interpretação psiquiátrica de uma pessoa só se torna significativa na medida em que essa interpretação altera seu destino social – uma alteração que se torna fundamental em nossa sociedade quando. É apenas uma das interpretações possíveis sobre uma determinada experiência e. Não quero dizer aqui que tais pessoas teatralizam situações de sofrimento para terem alguns benefícios. Entendo que a “doença mental” não tem existência fora das interpretações e do contexto que lhe dão origem. A doença. a pessoa passa pelo processo de hospitalização [no caso da pesquisa. que as pessoas fazem uso dos papéis que lhe são atribuídos quando capturadas pelo saber psiquiátrico. 112). exigindo o reconhecimento de que somos passíveis de sofrimento. p. Como argumentou Goffman (2008 [1961]). como percebido no contexto pesquisado. as pessoas se articulam entre as possibilidades que tal prescrição pode oferecer. em seu texto sobre loucura e cultura.. afirma que “a doença só tem realidade e valor de doença no interior de uma cultura que a reconhece como tal” (id. nem a um conjunto de sintomas. onde muitas vezes tal adesão é necessária para as negociações e reivindicações próprias destes espaços.

O problema é que a sociedade. “Louca. 34 [tradução livre]). Tal como disse Pelbart (2009. eu? Ah. como colocado por Marília em seu questionamento. As concepções são muitas e variadas. Penso que. Na maior parte das conversas que tive durante o trabalho de campo. p.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas Eu disse que não sei que coisa é a loucura. do desvario ou da desrazão em “doença mental” como apontam Foucault (1997[1972]. ao contrário. O sofrimento é entendido aqui não apenas como uma categoria nosográfica. interpretações e configurações que compõem as experiências dos sujeitos de maneiras variadas e que precisa não apenas ser deslocada do seu lugar de verdade. tá!” Para finalizar as discussões aqui apresentadas. quando entre parênteses. 2000) e Peter Pál Pelbart (2009) é um fenômeno complexo. 157 . deveria aceitar tanto a razão quanto a loucura. é possível reconhecer os atravessamentos de práticas. discursos. os comentários sobre os diagnósticos psiquiátricos vieram à tona como um modo de falar de si que elencavam diferentes maneiras de interpretar tais experiências para além do modelo biomédico. relativizado e compreendido na sua relação com o contexto do qual emerge. e então torna a loucura razão através de uma ciência que se encarrega de eliminá-la (id. os valores de determinada classe social e. deve ser tensionado. É uma condição humana. a loucura existe e é presente como é a razão. quando entre aspas e tensionada.. Em nós. incorporam o discurso biomédico. p. retomo o argumento de Marília de que o/a “louco/a” e a suposta doença mental do qual ele/a é acometido/a não deve ser tomada como um dado natural. mas também relativizada. mas sim como uma experiência subjetiva atravessada pelos modelos e significados do processo de adoecimento e cura atribuídos por cada sujeito e permeada pelas características socioculturais dos contextos em que se desenvolvem. como o religioso. diante deste objeto obscuro e de difícil definição. para chamar-se civil. tampouco se resume a um evento biológico ou a um conjunto de sintomas. “nem sempre aquilo que nós chamamos de loucura significou doença”. A transformação da loucura. em geral. Assim como nem sempre o que a biomedicina entende como doença mental é concebida como loucura ou mesmo como doença pelos sujeitos que têm sua experiência com problemas dessa ordem. histórico e culturalmente situado.40). Pode ser tudo ou nada. elas trazem elementos de outros contextos de significação.

Tais estratégias vão desde a utilização da mesma para negociar com o mundo. como por exemplo. podem produzir novos significados para suas experiências. familiares. estes lidam com o mesmo de maneiras as mais variadas. Ao conferir um estatuto epistemológico ao saber destes sujeitos – pessoas que ocupam um lugar paradoxal de ser o centro das ações das ações das políticas e ao mesmo tempo manterem-se “à margem” porque considerados “loucos/as” – é possível tensionar teorias. ora se deixando capturar. o modelo biomédico. 158 . trabalhadoras e gestoras dos serviços de saúde. e também em como pensar o sujeito potência que surge de processos de mortificação. bem como em suas relações com o mundo. apesar de tal enunciado ter muita importância na constituição dos sujeitos e na fixação de seus lugares na hierarquia própria do modelo interpretativo que predomina no contexto dos serviços de saúde mental pesquisados. quando recebem a denominação/prescrição de “doente mental” ou “louco/a”. é possível perceber que. mas fazer uso dele para negociar e reivindicar uma determinada condição no mundo. ora criando resistências e subversões.Estudos Feministas e de Gênero:ArticulAÇÕES e Perspectivas Tal como apresentado. Considerando as experiências singulares e os conhecimentos produzidos pelos sujeitos nos serviços de saúde mental. Fazem pensar também em como considerar as possibilidades de resistência dos sujeitos ante tais práticas homogeneizadoras. Evidenciam-se também na possibilidade de falar da experiência de mulheres e homens acometidas/os por algum tipo de sofrimento da ordem do mental que por não terem sido asiladas em função de suas diferenças e/ou aflições. ambíguo e paradoxal do que hoje tem sido entendido como sujeito na sociedade ocidental – o sujeito da razão – que se configura por modelos que se pretendem absolutos. ou seja. como fez Marília. o uso da mesma para sobreviver economicamente em um mundo marcado por desigualdades de todo tipo e também a relativização do mesmo. Tais experiências fazem pensar no caráter relativo. como “usuárias”. tais como as práticas manicomiais. Fazem pensar que aceitar o diagnóstico não significa sujeitar-se a ele. Questionam. bem como para resistir e subverter o poder prescritivo e normativo do mesmo. verdadeiros. na hipermedicalização da experiência delas e sua articulação às assimetrias de gênero. as pessoas entendem porque foram diagnosticadas desta ou daquela maneira e não acatam passivamente os mesmos. Entendo que os efeitos da Política Nacional de Saúde Mental se evidenciam na presença das mulheres no campo da assistência em saúde mental. traçando itinerários terapêuticos e articulando saberes diversos. utilizam estratégias diversas diante das mesmas. concepções e práticas.

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