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LEITT]RAS "POPT]LARE S''

A culturyr popular é uma categoria erüdita. Por que enunciar, no

início deste texto, uma proposiEáo táo abrupta? Ela quer somente lembrar que osdebates engajados em torno da própria definiEáo da cultura popular foram (e sáo) realizados a.propósito de um conceito que pretende delimitar, caracte rizar, nomear práticas que náo sáo jamais designadas por seus atores

$

.,

como pertencendo á "cultura popular". Produzido como uma categoria

erudita q,ue visa a definir e a descrever produEóes e comportamentos sifuados fora da cultura erudita, o conceito de cultura popular traduziu, em suas'múltiplas e contraditórias acepEóes, as relagóes entre os intelectuais ocidentais com uma alteridade cultural ainda mais difícil de pensar qu e a encontrada nos mundos "exóticos" Tomando o risco de simplificar extremamente, pode-se remeter as inumeráveis definig.óes da cultura popular, a dois grandes modelos de

..

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*o, ¿n,":",J;;; .ou rorma de

simbé-

descri'áo e de interpietasáo

  • I ".u|

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etnocentrismo cultural, concebe a cultura,popular como um sistema

lico coerente e aut.nomo, que firnciona segundo uma lógica absolutamente desconhecida e irredutível áquelas da cultura letrada. o segundo, preocu- pado ern lembrar a existéncia das relaEóes de dominaEáo que o¡gqnizam o

mundo social, percebe a cultura popurar em suas dependéncias e suas

lacunas em relaEáo á culturq dos dominanle.g, De um lado, portanto, uma

cultura popular que constitui um mundo á parte, fechado em si mesmo, independente' De ouho, uma cultura popular inteiramente definida porsua

distáncia da legitimidade cultural, da qual é privada.

Possuindo estuatégias de pesquisa, estilos de descriEáo e proposigóes

teóricas efetivamente opostas, esses dois moderos de inteligibilidade aba_ vessaram todas as disciplinas especializadas pesquisando o popurar: a

história, a antropologia e a sociólogia. Recentemente,le3l;CQ¡$e f.*

ron mostrou os perigos metodológicos de uma eue outra: ,,Mesmo que a cegueira sociológica do relativismo curfural apricado ás culturas populares encoraje o popurismo. para que o sentido das práticas populares se rearize

._

,

integralmenté na felicidade monádica da auto-suficiéncia simbólica, a teoria

da legitimidade cultural sempre corre o risco t

...

r

de revar ao regitimismo,

que' na forma exhem a de miserabiridade,só deve descontar de um ar de <lesolagáo as diferenEas como oriundas das racunas, todas as alteridades

c<rmo oriundas do menob-ser."l A oposiEáo é feita termo a termo: a

rr'lcllraEáo de uma cultura popurar em majestade se inverte em uma

tlcscrigáo "genénca"; o reconhecimento da igual dignidaJe de todos os

r¡rrivcrsos simbólicos em uma lembranEa das impracáveis hierarquias do

f

'

l

clarrde

Grignon e Jean-claude passe¡on,.L " r"n^nt ut Llpoprilairc. Misérab,isme et

en socrblogie et en üttératwe. paris, Gallimard/Le Seuil, Hautes Études,

¡xrprrlrisme 1$tif), p. 36.

142

'u

ii

mundo social. pode-se seguir Jean-Claude Passeron quando ele s¿llicttl't que essas definigóes da cultura popular sáo lógica e metodologicamente contraditórias; elas náo se fundamentam por isso num princípio cÓmodo clc

classificaqáo das pesquisas e dos pesquisadores: "A oscilag do entte as duas maneiras de descrever uma cultura popular se observa na mesma obra, no

mesmo autor" e sua fronteira "corre sinuosamente em toda descriEáo das culturas populares, que ela d,ivide quárn sempr e emmovimentos alternati-

vos de interpretaq áo" .2

Como historiador, pode-se acrescentar que o'contraste entre essas

duas perspectivas - aquela que acentua a autonomia simbólica da cultura popula r e aque insiste em sua dependéncia em rela9áo á culfura dominante - fundou todos os modelos cronológicos que opóem uma suposta idad e de ouro da cultura popular, matricial e independen te, eum tempo de censuras e derestriEóes que a desqualificam e a desmantelam. Entretanto, náo é mais possível admitir sem nuan9a a periodizaEáo

clássica, que considerava a primeira metade do século XVII como o tempo

de uma ruptura maior, separando muito fortem enle o apogeu da cultura

popular, viva, liwe, profus d, e o tempo de disciplinas eclesiais e estáticas,

que a reprimem e a submetem. Esse esquema, durante longo tempo,

pareceu pertinente para dar conta da trajetória cultural da Europa ocidental:

após 1600 ou 1650, as aEóes conjugadas dos estados absolutistas, centra-

lizadores e unificadores, e das igrejas das reformas protestante e católica,

repressivas e aculturantes, teriam sufocado ou expulsado a exuberáncia

inventiva de uma antiga cultura do povo. Impondo disciplinas intirlit¿rs,

2.

Ibid., P. 37 .

inculcando novas submissóes, definindo novos modelos de comportamen-

to, os estados e as igrejas teriam destruído em suas raízes eseus equilíbrios

antigos uma maneira tradicional de ver e de viver o mundo.

,/

"A cultura popular, tanto rural quanto urbana, conheceu um eclipse

quase total na época do Rei sol. sua coeréncia interna desapareceu

definitivamente. Ela náo podia mais ser um sistema de sobrevivéncia, uma filosofia da existéncia" , escre\reRobert Muchembled descrevendo a repres-

sáo da culfura popular na FranEa dos séculos XVII e xvm.3 De maneira mais sutil, Peter Burke descreve também os dois movimentos que desen_ raizaram a cultura popular tradicional: de um lado, o esforEo sistemático

das elites, em particular dos creros protestante e catórico, para ,,to change

the attitudes and values of the rest of the populations,, (,,hansformar as

atitudes e valores do resto da popuraEáo") e "to suppress, or at least purifu,

many items of haditional populai curture" ("erradicar ou, ao menos,

purificar muitos dos hagos da curtura popular tradicionar"); de ouho, o

retrato das classes superiores de uma cultura antes comum. o resuttado é

claro: "ln 1500, popular curture was everyone's culture; a second culture

krr the educated, and the only culture for everyone erse. By 1g00, however.

ir r ¡rost parts of Europe, the clergy, the nobirity, the merchants, the profes- cit ¡rr.rl mcn - and their wives - had abandoned popular curture to the lower

¡ l' rss.s' from whom they were now seirarated, as never before, by profound

rhlk'r¡'rc.s in world view" ("Em 1500, a cultura popular era a cultura de

  • J. f tr rf ¡t rr l' Mttc;hembled , cultwe populaire et culture des

éIites4¿ns Ia France moderne

(xV' xvllf' s'réc/e,). -E'ssai. Paris Flammarion, 1g7B, p. 3{J,lNum prefácio a uma Ittt:tl¡1,;¿¡<l rltl sctt liwo (Paris, Flammarion, l.gg1), o autor matiza fortemente o seu

¡ror rl.o r lt: vist¿r.

cada um; uma segunda cultura para os letrados e a única para tocl's t¡s

outros. Em 1g00, na maior, parte da Europa, o clero, a nobrcz¿r, ()s

vendedores, os membros das profissóes liberais - e suas esposas - tinhanl abandonado a cultura popular para as classes inferiores' das quais eles

estavam a partir de entáo separados, como nunca antes, por profundas diferen'as na forma de conceb et o mundo" ).4 Há várias razóespara retomar com muita prudéncia essa periodiza- Eáo e esse diagnóstico que concluem pela desqualificagáo da cultura

popular e sua desapariEáo. De iníclo, éclaro que o esquema que opóe, em

torno de um momento de articulaEáo (1600 ou 1650), o esplendor e a

miséria da cultura da maior parte reitera para a idade mcderna um contraste

que outros historiadores reconheceram em outros tempos. Assim, oo século XIII, a reordenaEáo teológica, científica, filosófica distancia a cultura erudita e as tradiEóes folclóricas, censurando as práticas a partir de entáo tidas como supersticiosas ou heterodoxas, constituindo em objeto colocado a distáncia' sedutor ou perigoso, a curtura dos humildes. se Jacques Le Goff reconh ece

antes de 1200 ,,o crescimento de uma cultura popular laica que se perde

na brecha estabelecida nos séculos XI e xll pela cultura da aristocracia laica'

irrÍpregnada do único sistema cultural a sua disposiqáo fora do sistem¿r

clerical, precisamente aquele das tradiEóes folclóricas"',5 o século XIll'

segundo Jean-Claude Schmitt, abre o tempo de verdadeira "aculturagácl":

  • 4. peterBurke, Ltd., 1gzg,

polularcultureinearlymodernEurope.

Londres, Mattrit;*Tt:ltt¡rkr lj¡¡lrl lt

reedigáo, Novayork, Harper and Row, 1g7B, p-20'1, ¡r. 20u, ¡r' ,"/0

  • 5. Jacgues le GOff, ,,culture ecclésiastique Marcelde paris etle dragon" Temps, travail et, curture en

(i.gz0), in:

et culture folkloric¡ttc ¿ltt l¡l()yr!lr ii1¡r! t¡¡lll¡l

Jacquos L. (lrf f , I),t'¡ tlll

¡¡tlf l,lll,ytll rtr'r'

occident;18 c.ss¿ri.s. r);rrir;, ( i¡rllrru¡ilt1, 19'l'1, rrp '1'lli ;l /rl

(citagáo P.276)-

145

necessário se perguntar se a suspeita crescente que pesa sobre as práticas

folclóricas do corpo (a danEa, pár exemplo), a personalizagáo sempre

crescente da pastorar, gragas á generalizaEáo do sacramento da pB*rtenÁ

["'i, a instituigáo, no sécuro xv, de,ma educaEao religioradesJu inran.iu

(ver Gerson) náo conhibuíram conjuntamente para interiorizar o sentido do

pecado e "culpar" tgdos esses homens, para mascarar a seus olhos a aculfuraEáo que eles sofriam, convencendo-os da imoralidade de sua própria cultura".6

Supóe-se que uma mudanEa como essa ocorreu na FranEa (e, aliás,

na Europa) durante as cinco décadas que separam a guena de r.g70 e a de

7974 e que sáo consideradas como o tempo privilegiado da abertura,

portanto do desenráizamento, das curfuras tradicionais, camponesas e.

populares, em proveito de uma cultura nacional e republicana.T uma outra transformaEáo radicar está sifuada contra e a favor da emergéncia de uma

cultura de massa, cujas noiás mídias sáo vistas como desbuidoras de uma

culfura antiga, orar e comunitária, festiva é forcrórica, que era ao mesmo tempo criadora, plural e liwe. O destino historiográfico da cultura popular

é, portanto, ser sempre sufocada, expulsa, usada e, ao mesmo t"mpo, tut como Fénix, sempre renascer das cinzas. Isso indica, sem dúvida, que o

verdadeiro problema náo é datar seu desaparecimento tido como *,#*

<liável, mas considerar, para cada época, como se estabelecem as relagóes

ó' 'ltrittl claude schmitt,

I fr76, Irp. 941_953,

" Religion populaire' et culture fplklorique,,, Annales'.,s.c.

7' Fitrl¡crrr weber' Pensanüs into Frenchmen:

I8'/o 1914" stanford, stanford university Press,

ll

The ^oalrnization of rural France,

1,g76(tradugáo

francesa.La

Frn des

Fayard, 1gB3).

t¡ttnilrs: lrt modermsation de Ia France rurale, 1870-1g14.paris,

14f'

complexas entre as formas impostas, mais ou menos restritivas e im¡rtrr;rli 'vas, e as identidades afirmadas, mais ou menos radiosas ou contidas. Daí uma outra razáopara náo organizar toda a descriEáo das culturas

do Antigo Regime a partir da rupturapercebida no século XVII. Com efeito,

a forEa da imposiEáo dos rnodeios culturais náo anula o espaEo próprio de sua recepgáo, que pode ser resistente, sutil, rebelde. A descriEáo das normas

e das disciplinas, dos textos ou das falas, graEas aos quais 'a cultura

reformada (ou contra-reformada) e absolutista pretendia submeter os povos náo significa que esses foram realmente submetidos, totalmente ou univer-

salmente. Ao contrário, é necessário postular que existe uma separagáo

entre a norma e o vivido, a injungáo e aprática, o sentido visado e o sentido produzido - uma separaEáo em que se podem insinuar reformulaEóes e desvios. Náo mais que a cultura de massas de nosso tempo, a imposta pelos poderes antigos náo póde reduzir as identidades singulares ou as práticas enraizadas que lhe eram refratárias. O que se modificou, com evidéncia, foi

a maneira pela qual essas identidades puderam enunciar e se afirmar

fazendo uso de dispositivos que deviam destruí-las. Recon heceressa muta-

Eáo incontestável náo implica, pot isso, romper as continuidades culturais

qLle atravessaram os trés séculos da idade moderna, nem decidir que após

a metade do século XVII náo existe lugar algum para os gestos e os

pensamentos diferentes daqueles que os homens da lgreja, os servidores do Estado ou as elites letradas pretendiam inculcar a tudo e a todos.

Essas parecem-me ser questóes de mesma ordem dug que sáo feit¿rs

na tese da "cultural .bifurcation" ("bifurcaEáo cultural") sustentacl¡r Ix)r Lawrence W. Levine para caracterizar a trajetória cultural americ'¡rtt¡l n()

século XIX. Ela repousa sobre um contraste cronológico m¿¡it)r, ()l)(!ntlo o

147

ant¡go tempo da partilha, da mistura, da exuberáncia culturar a este, novo,

das separaEóes (ente os públicos, os espa'os, os géneros, os est'os etc.):

"Everyn'rrhere in the society of the second half of the ninete enth cegtúry

American culture was undergoing a process of fragmentation [

...

J

,, ,u,

manifest in the relaüvá declineof a shared public culture which in the second half of the nineteenth century fractured into a series of discrete culfures that

had less and less to do one with another. Theaters, opera houses, museums,

auditoriums that had once housed mixed crowds of people experieÁcing an ecletic blend of expressive culture were increasingry firtering their clientere

and their programs so that cut across the sociar and economic spectrum

enjoying an expressive culture which brended together mixed elements of

whatwe would today cail high, low, and folk culfure". ("Em todaasociedade

da segunda metade do século XIX, a cultura americana conheceu um

processir de fragmentasao t

]
]

Esse processo se manifestou pelo relativo

declínio de uma cultura pública compartirhada que se rompeu na segunda

metade do sécuro XIX em uma série de curfuras separadas que tinham cada

vez menos relagáo uma com a ouha. Os teatros, as óperas, os museus. as

salas de concerto, qúe antes tinham acorhido um púbrico misto que parti-

lhava as misturas ecléticas de uma curtura expressiva, serecionaram mais e

mais seus clientes, táo bem que se tornou raro encontrar púbricos compostos prrr diferentes meios sociais e tendo prazercom uma curtura expressiva em (rrc se encontravam'associados

_elementos daquilo que nós designamos

lroic r:omo alta cultura, cultura popular e culfura folclórica,,).8 Uma dupla

.v'lugri<l ,eva da "shared pubric culture" (,,cultura pública compartilhada,,)

  • B. L¿twtotr(:o w' Levine' Frigh brow/Lowbrow. The emergence of

curtural hierarchy in

At¡rctrica' cambridge (Mass.), Harvard university press, 1gBB, pp. 20g _20g.

14A

á "bifurcated culture" ("cultura bifurcada"): de um lado, um proc:t'sso tltr

retiro e de subtragáo que atribui ás práticas culturais um valor distirrlivtr muito mais forte quanto menos elas sáo partilhadas; de outro lado, unl

processo de desqualificaEáo e de exclusáo que expulsa da cultura sacraliza- da, canonizada, as obras, os objetos, as'formas a partir de entáo remetidas

ao divertirnento popular.

Esse modelo de compreensáo espanta por sua homologia com o que

foi proposto para descre ver a trajetória cultural das sociedades ocidentais

entre os séculos XVtr e XVIil. Naquele modelo, já havia também uma

bifurcagáo culfural, operada pelo retiro das elites, e o isolamento da cultura popular teria deslocado uma base durante muito tempo comum - a cultura "bakhtiniana" da praga pública, folclérica, festiva, carnavalesca. Nos dois

casos, as mesmas questóes podem ser feitas. A cultura compartilhada, dada

como primei ra, étáo homogénea quanto parece? Eno tempo das separa- Eóes e dos distanciamentos, as fronteiras entre a cultura legítirna e a cultura desqualificada sáo táo delimitadas e impermeáveis quanto parecern? Para a América do século XIX, David D. Hall responde negativamente ás duas

interrogaEóes: de um lado, a "cultura pública compartilhada" da primeira

parte do século XIX náo ignora as exclusóes, as clivagens internas e as

concorréncias externas; de outro, a "commodification" ( "com ercializaEáo" )

dos bens sirnbólicos aparentemente os mais estranhos ao mercado e a

captura pela culfura comercial de grande quantidade de signos e de valores

da legitimidade cultural mantendo potentes trocas entre a culturJ letrtlcl¿r e

a culfura popular.e

9. David D. HaIl, relatório do liwo de Lawrence W. Levine, Fii.r¡hI¡rowllttwbt()w, ()l)

cit., em Revieitvs in American History, marQo cle,: 1990, p1). 10'14'

149

Uma outra questáo é a da articulagáo cronológica entre as

_dual

hajetórias, a européia e a americana. É necessário supoi quá a cultura

americana percoryeu' um ou dois sécuro.s mais tardq, o mesmo caminho

das sociedades do Anügo Regime na Europa ocidental? Ou é necessário

considerar que as evoluEóes curturais da segunda metade do século XIX que fazem com que as elites menosprezem'uma curfura popular identificada

..

a uma culfura indushial, sáo idénticas no conjunto de mundo ocidental

unificado pelas migraEóes transatlánticas? sem dúvida, é forte a relagáo que

liga a reivindicaEáo de uma cultura ,,pura,, (ou purificada), colocada a

distáncia dos gostos vulgares, substrato das leis aa p.oaugao económica,

fundada na cumplicidade estética existente enhe os criadores e seu público

escolhido, e, de outo lado, as conquistas da cultura comerciar, dominada

pela empresa capitalista e proposta ao maior número. como mostou

recentemente Piene Bourdieu, a constifuiEáo, na Franga da segunda me-

tade do século XIX, de um campo literário, definido como um mundo

separado, e a definiEáo de uma posigáo estética fundamentada na autono- mia, no desinteresse e na absoluta riberdade da criagáo estáo diretamente

ligadas tanto á rejeiEáo da subordinaEáo da "literatura induíhial,, como ds

preferéncias populares que fazem,seu sucesso: ..

fu

reragóes que os escritores

e os artistas mantém com o mercado, cuja sanEáo anónima pode criar entre eles disparidades sem precedente, contribuem sem.dúvida para orienrar a representaEáo ambivalente que eresfazemdo "grande público,,, ao mesmo

tempo fascinante e desprezível, no qual confundem o ,,burgués,,, submetido

i)s preocupaeóes wlgares do negócio, e o "povo", deixado ao emburra-

rncnto das atividades produtivas." lo

ro.

Pierre Bourdieu'

r'es Rég/es de I'art. Genése süruc ture du champ. paris, Éditions

du Seuil, Lgg2, p. Bg.

16('

Durante muito tempo, a concepgáo clássica e dominante cla ctrlttlril

popular foi baseada, na Europa e quem sabe nos Estados Unidos, em trOs

.

idéias: que a cultura popular poderia'ser definida p9r contraste com o que ela

ll¡r"J;+,

|

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náo era, a saber, d cultura letrada e dominante;lque eraprossÍvel caracterizar

.

.

;;. "popular" o público de cnrtas produEóes culturais;;que as expressóes culturais podem ser tomadas por socialrnente puras e, para algumas dentre elas, como intrinsecamente populares, Sáo trés postulados que conduziram os fuabalhos clássicos realizados na FranEa (e em outros lugares) sobre a "literatura popular", identificada com os repertórios das liwarias ambulantes,

e sobre a "religiáo popular", ou seja, o conjunto de crengas e de gestos

considerados como próprios da religiosidade do maior número.

É claro agora que essas afirmaEóes devem ser colocadas em dúüda. A "literatura popular" e a "religiáo popular" náo sáo radicalmente diferentes da

literatura das elites ou da religiáo dos clérigos, eu impóem seu repeftóno e seus modelos; elas sáo partilhadas por meios sociais diversos que náo sáo exclusiva-

mente populares; elas sáo, ao mesmo tempo, aculturadas e aculturantes.

Assim, é váo tentar identificar a cultura popular a partir da distribui-

, Eáo que se supóe específica de certos objptos ou modelos culturais. Tanto quanto sua divisáo, sempre mais complexa que pareca importa, com efeito, sua apropriagáo pelos grupos ou indivíduos. Uma sociologia da distribuiEáo

que supóe implicitamente que á hierarquia das classes ou dos grupos

corresponde uma hierarquia paralela das produEóes e dos hábitos culturais náo podg mais ser aceita sem crítica. Em toda a sociedade, as formas de apropriaEáo dos textos, dos códigos, dos modelos partilhados sáo táo, se

náo mais, distintivas que as práticas próprias a cada grupo social. O

"popular" náo se encontra no corpus que seria suficiente delimitar, iltvtrtl-

151

tariar e descrevet. Antes de tudo, ele qualifica um modo de rela'áo, uma

maneira de utilizar os objetos ou as normas que circulam em toda a

sociedade, mas que sáo recebidos, compreen,Cidos, manipulados de diver- sas formas. Uma constataEáo como essa desloca necessariam enteo trabalho

do historiador, pois o obriga a caracte rizar náo conjuntos culfurais dados

como "populares" em si mesmos mas as modalidades,ciferencia,cas de sua apropriaEáo.

É por isso que essa última noEáo parece central para toda história

cultural - com a condiEáo, quem sabe, de ser reformulada. E,sa reformu-

laEáo, que coloca o acento sobre a pluralidade dos usos e das compr een- sÓes, se distancia, em primeiro lugar, do sentido que Michel Foucault dá ao

conceito, tendo a "apropriaEáo social dos discursos" como um dos princi- pais procedimentos pelos quais os discursos sáo assujeitados e confiscados

pelas instifuiEóes ou pelos grLlpos que se atribuem seu controle exclusivo.lt

Ela se distancia igualm ente do sentido que a hermenéutica dá á apropria- Eáo, pensada como o momento em que a "aplicaEáo" de uma configuraEáo

narrativa particular á sifuaQáo do sujeito transforma, pela interpretaEáo, a

compreensáo que ele tem de si mesmo e do mundo, portanto sua experién- cia fenomenológica.'2 AapropriaEáo, tal qual nós a entendemos, visa a uma

história social dos usos e das interpretaEóes, remetidas ás suas de{ermina-

gÓes fundamentais e inscritas nas práticas específicas que as constroem. Dar,

¡tssim, atenEáo ás condiEóes e aos processos eu, muito concretamente, It¡rrclamentam as operaEóes de produEao do sentido é reconhecer, contra-

I

l

'

Mic;hel Foucault, L' ord.re du dr'scours. Paris, Galli

12' l)¿rul Ricoeur, Du texte á I'action Essar d.'herméneutique//.

1986, pp.152-153.

^^n{tgzl,p.

54.

paris, Éditions du seuil,

riamente, a antiga história intelectual, que nem as idéias nem as intelig¿nci'ts sáo desencarnadaS, , contrariamente aos pensamentos universalistas, qtlc

as categorias dadas como invariantes, que sejam fenomenológicas ou

filosóficas, devem ser pensadas na descontinuidade das trajetórias históri-

cas. Se ela permite romper com uma definiEáo ilusória da culfura popular, a noEáo de apropriaEáo, utilizada como um instrumento de conhecimento,

pode também reintroduzir uma outra ilusáo: a que faria considerar a

exposiEáo das práticas culturais como um sistema neutro de diferen9ds, como um conjunto de práticas diversas mas equivalentes. Aceitar uma tal

perspectiva seria esquecer que os bens simbólicos assim como as práticas

culturais sáo sempre o objeto de lutas sociais que tém por risco sua

classificagáo, sua hierarquizaEáo, sua consagraEáo (ou, ao contrário, sua

desqualificaEáo). Compreender a "cultura populaf' é,portanto, situar nesse espago de afrontamentos as relaqóes estabelecidas entre os dois conjuntos t

de dispositivos: de um lado,'os mecanismos da dominaEáo simbólica que visam a fazer reconh ecer pelos próprios dominados as representagóes e as

consumaEóes que, justam enie, qualificam (ou melhor, desqualificam) sua cultura como inferior e ilegítima; de outro, as lógicas específicas á obra nos

empregos, ysos, maneiras de fazer seu o que é imposto' ,

Um recurso precioso para que se pense essa tensáo (e se evite a

oscilaEáo entre as abor,cagens que insistem na dependéncia da cultura

popular e aquelas que exaltam sua autonomia) é fornecido pela distingácl

entre estratégias e táticas tal como a formulou Michel de Certeatt ' As

estratégias supóem lugares e instituigóes, produzem objetos, normas, tll()

delos, acumulam e capitalizam; as táticas, desprovidas de lugerr prciprit), st'lrl

controle sobre o tempo, sáo "maneiras defazer", ou nlclhclr, Illiltlt'ir'lti "(lt'

153

fazer apesar de". As formas "populares" da cultura, daspráticas do cotidiano

aos consumos culfurais, podem ser pensadas como táticas

sentidos - mas de sentidos possivelmente estranhos áqueles

produtoras de

visados peros

quanto

produtores: "A uma produEáo racionalizada, táo gxpansionista

centralizada' agitada e espetacular, corresponde uma outraproduEáo,

qualificada

de "consumo"; esta última é sutir, dispersa, mas se insinua,

ívelem todo lugar, pois náo se perc ebecom produtos

de empregaros produtos impostos por uma ordem

silencíosa e quase invis

próprios mas em modos

económica dominante,¡. 13

um modelo de inteligibilidade como esse permite transformar

pro-

fundamente a compreensáo de uma prática, do mesmo tempo exemprar e

cenhal: a

leitura"Aparentemente passiva e submissa, a leifura é, com efeito,

criadora. Michel de certeau, a propósito da

maravilhosamente esse paradoxo: *A

constituir o ponto máximo da

constituído em observador

espetáculo,,. De fato, a

traEos de uma produ-

do

texto pero orho

induzidas por

erat

...

l

to

a sua maneira' inventiva'e

sociedade contemporánea, sublinhou

Ieifura (da imagem ou do texto) parece,

passividade que caracte rizava o consumidor,

(troglodita ou itinerante) em uma "sociedáde do

atividade de leitura apresenta, ao corrhário, todos os

c;áo silenciosa: deriva através da página, metamorfosé

rl' viajante' improvisaEáo e expectativa de significaEóes

'rl1¡urtas palavras, transposiEáo dos espagos escritos, danEa efém

It'iltrrf insinua as sutilezasdo praz er ede uma reapropriaEáo no texto do

r3.

ill:;:::l|,,:,"",o, i;"ffidu

suo tidien,'t', Arts de raire(le8'), nova edisáo,

15,4

outro: ele caEa ilegalmente aí, ele é transportad o, ele se faz plural como os

barulhos do corpo't .14

Essa ir4agem do leitor caEador ilegal em uma