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Avaliação Psicológica em Casos de Abuso Sexual
na Infância e Adolescência

Psychological Assessment in Sexual Abuse Cases in Childhood and Adolescence

Luísa Fernanda Habigzang*, Fabiana Dala Corte, Roberta Hatzenberger,
Fernanda Stroeher & Sílvia Helena Koller
Universidade Federal do Rio Grande do Sul

Resumo
A avaliação psicológica de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual é um desafio para os profissionais,
devido à complexidade do fenômeno. O presente artigo tem como objetivo apresentar os resultados de um
modelo de avaliação psicológica. O estudo foi realizado com 10 meninas com idade entre nove e 13 anos. As
participantes foram clinicamente avaliadas em três encontros individuais. Os resultados apontaram que a maioria
das meninas foi vítima de abuso sexual por pelo um ano até revelarem a situação a alguém. As meninas
apresentaram sintomas de transtorno do estresse pós-traumático, depressão e ansiedade. O método de avaliação
utilizado mostrou-se efetivo, possibilitando a formação de vínculo, o conhecimento da história do abuso sexual
e a identificação dos sintomas psicológicos decorrentes.
Palavras-chave: Abuso sexual; infância; adolescência; avaliação psicológica.

Abstract
Psychological assessment done with children and adolescents victims of sexual abuse is still a challenge for
professionals due to the complexity of the phenomenon. This article aims to present the results of a psychologi-
cal assessment method conducted with girls who were victims of sexual abuse. Ten girls with age raging from
9 to 13 years old were evaluated in three individual meetings. The results have shown that the sexual abuse
lasted for, at least, one year before it was revealed. The girls presented symptoms of Post-Traumatic Stress
Disorder (PTSD), depression and anxiety. The assessment method which was used showed to be efficient,
favoring the creation of bonds, the knowledge of the sexual abuse history and the identification of related
psychological symptoms.
Keywords: Sexual abuse; childhood; adolescence; psychological assessment.

O presente artigo tem como objetivo apresentar os resul- to, na qual a vítima estiver sendo usada para estimulação
tados da avaliação psicológica de meninas vítimas que pas- sexual do perpetrador. A interação sexual pode incluir
saram pela experiência de abuso sexual intrafamiliar. O toques, carícias, sexo oral ou relações com penetração
abuso sexual contra crianças e adolescentes tem sido con- (digital, genital ou anal). O abuso sexual também inclui
siderado um grave problema de saúde pública e a literatura situações nas quais não há contato físico, tais como
especializada aponta a existência, em vários países, de pro- voyerismo, assédio, exposição a imagens ou eventos sexu-
gramas para estudo, prevenção e tratamento. No Brasil, ais, pornografia e exibicionismo. Estas interações sexuais
apesar da intensificação de pesquisas que investigam a di- são impostas às crianças ou aos adolescentes pela violên-
nâmica e os efeitos desta forma de violência, constata-se a cia física, ameaças ou indução de sua vontade (Azevedo &
necessidade de estudos sobre a avaliação e a intervenção Guerra, 1989; Thomas, Eckenrode & Garbarino, 1997).
psicológica. O desenvolvimento de pesquisas sobre tais O abuso sexual também pode ser definido, de acordo com
métodos é importante, devido à elevada incidência e às o contexto de ocorrência, em diferentes categorias. O abu-
conseqüências negativas para o desenvolvimento cognitivo, so sexual intrafamiliar ou incestuoso é aquele que ocorre
afetivo e social. no contexto familiar e é perpetrado por pessoas afetivamente
Esta forma de violência pode ser definida como qual- próximas da criança ou do adolescente, com ou sem laços
quer contato ou interação de uma criança ou adolescente de consangüinidade, que desempenham um papel de
com alguém em estágio mais avançado do desenvolvimen- cuidador ou responsável destes (Cohen & Mannarino,
2000a; Habigzang & Caminha, 2004; Koller & De Antoni,
2004). Por outro lado, o abuso sexual que ocorre fora do
*
Endereço para correspondência: Universidade Federal do ambiente familiar envolve situações nas quais o agressor é
Rio Grande do Sul, Instituto de Psicologia, Ramiro Barcelos,
2600, sala 104, Porto Alegre, RS, 90035-003. Tel.: (51) 3316 um estranho, bem como os casos de pornografia e de ex-
5150; Fax: (51) 3333 9819. E-mail: luisa.h@terra.com.br ploração sexual (Koller, Moraes & Cerqueira-Santos, 2005).

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por si só. nam os sentimentos de medo e de desamparo. 2001. traumáticas de intervenção sem incorrer. A criança sente-se vulnerável. Entretanto. 2004. 2004. tais como percepção de que é revelação é um momento crucial que pode. ciam (De Antoni & Koller. está relacionado a três conjuntos de fatores: fatores intrín. repre- culpada pelo abuso. Runyon & Kenny. em alguns casos conhecem a situação. 1997). associado ao abuso sexual. mudanças nos padrões mente. sentar um risco de trauma suplementar para a criança ou confiança e percepção de inferioridade e inadequação. da saúde são fundamentais e eles precisam estar conscien- bilidade (Cohen & Mannarino. perpetrador utiliza recursos. 2002). 1993. os profissionais da saúde capacitados para trabalhar com rações cognitivas incluem: baixa concentração e atenção. 21(2). 2000). Dessa forma. 2005). 2003. tristeza. grau aças e desenvolve crenças de que é culpada pelo abuso.. O agressor utiliza. inflamação e infecção cia sexual encontram-se diante do desafio de evitar formas nas áreas genital e retal. e. A criança. 1993). não a revela a ninguém. fatores extrínsecos. 2004). 2000). ansiedade. 2003). refúgio na fantasia. As adolescente. Saywitz et al. é a presença de outras formas de violência risco para o desenvolvimento de psicopatologias (Saywitz intrafamiliar. Lindblad. À medida que o abuso se tes de diferentes formas e intensidade (Elliott & Carne. tais como negligência. Juventude de Porto Alegre no período de 1992 a 1998. reação dos sentindo vergonha e medo de revelá-lo à família e ser cuidadores não-abusivos na revelação e presença de outras punida. hiperatividade e buem para que o abuso sexual seja mantido em segredo déficit de atenção e transtorno do estresse pós-traumático pela própria vítima e por outros membros da família que. a denúncia do abuso aos órgãos alterações emocionais referem-se aos sentimentos de de proteção e o acompanhamento do caso por profissionais medo. o 2001. acredita nas ame- violência sexual em si. saúde e da educação em reconhecer e denunciar o abuso. que dificulta que sua dinâmica esta experiência é considerada um importante fator de seja rompida. ditando manter a estabilidade nas relações familiares Devido à complexidade e à quantidade de fatores (Cohen & Mannarino. torna mais explícito e que a vítima percebe a violência. coceira. estresse pós-traumático (TEPT) é a psicopatologia mais Fatores externos à família também contribuem para que citada como decorrente do abuso sexual. Haugaard. As alte. Estes contri- res e dissociativos. A violência gera um ambiente. de seu papel de cuidador. Crianças e adolescentes podem desenvolver cionais. crianças e ado. razão. Kellog & Menard. afetivo e social de crianças e adolescen. a criança que fazia revelações de abusos sexuais de sono e alimentação. A experiência de abuso sexual pode afetar o desenvolvi. O abuso sexual também pode ocasio. encoprese. abuso de substâncias. na maioria secos à criança. Habigzang pessoal. 2002. Entre negar e a subestimar a severidade e a extensão do abuso as alterações comportamentais destacam-se: conduta hi. Habigzang. tifica imediatamente que a interação é abusiva e. culpa. ros os casos em que as crianças não dizem a verdade. Foi 339 . Mannarino.Psicologia: Reflexão e Crítica. não iden. uma vez que é o abuso sexual não seja interrompido. O impacto da violência sexual ças para que a criança mantenha a situação em segredo. doenças psicossomáticas e desconforto postura negligente (Ferreira & Schramm.. comportamentos autodestrutivos. 2003. adapta-se à situação abusiva. transtornos de ansiedade. zação e a eficácia das redes de apoio às crianças e aos ado- O abuso sexual no contexto familiar é desencadeado e lescentes vítimas de abuso sexual foram avaliadas através mantido por uma dinâmica complexa. Cohen et al. Jonzon & de sua omissão (Saywitz et al. Alguns profissionais tendem a rações comportamentais. era suspeita de fantasiar (Thouvenin. que são ra- disso-ciação. acre- formas de violência (Habigzang & Koller. furtos. 2000b. da confiança e do todos os expedientes de casos de violência sexual ajuiza- afeto que a criança tem por ele para iniciar. em geral. contudo. 2003. Até recente- isolamento social. 2006. 2000). vergonha. Saywitz. dos pela Coordenadoria das Promotorias da Infância e o abuso sexual. Habigzang & Koller. 2000). Habigzang & Caminha. 338-344. a saber. Azevedo & Macha- social e afetiva da vítima. como por exemplo. sexual. duração. Mannarino & Rogal. Atualmente. comprovação do abuso para a proteção da vítima e para a lescentes vítimas de abuso sexual podem apresentar alte. na qual foram analisados se. bem como a insistência dos tribunais por regras estritas de Além de transtornos psicopatológicos. 2006). Runyon & Kenny. 2005). crianças vítimas de violência tendem. tes das implicações legais e éticas de suas intervenções ou Habigzang & Koller. fatores relacionados com a do. como o incesto (Furniss. (Briere & Elliott. penalização do agressor. abusos físicos e emo- et al. raiva e irrita. envolvendo a rede de apoio & Caminha. mas não a denun- Duarte & Arboleda. Estudos apontam que esse segredo é mantido. em uma síveis. enurese. tais como barganhas e amea- Berliner & Cohen. des.. doenças sexualmente transmis. baixo rendimento esco. Dessa forma. devido ao fato de que esse significa a violação de persexualizada. A lar e crenças distorcidas. de uma pesquisa documental. por pelo menos um ano (Furniss. de parentesco/confiança entre vítima e agressor. Cohen. fugas do lar. Koller. Outro fator freqüentemente envolvidos no impacto da violência sexual para a criança. alimenta. 2001.. por esta mento cognitivo. diferença em relação aos pares. 2000. tais como vulnerabilidade e resiliência dos casos. de forma sutil. 2000a). Estes fatores estão estimado que 50% das crianças que foram vítimas desta relacionados com a relutância de alguns profissionais da forma de violência desenvolvem sintomas (Cohen. Os profissionais e as instituições que constituem a rede nar sintomas físicos tais como hematomas e traumas nas de apoio social para crianças e famílias vítimas de violên- regiões oral. no qual predomi- quadros de depressão. A organi- em relação ao corpo (Sanderson. 2004. tabus sociais. genital e retal. 2000). agressividade. na maioria dos casos. gravidez. cognitivas e emocionais. o transtorno do 2006. tais como se machucar e tentativas de suicídio.

especializados de atendimento e capacitar os profissionais A seleção das participantes ocorreu através do contato que trabalham com essas crianças e com suas famílias. cido através de correspondência. que foram submetidas a abuso sexual sendo que as intervenções se deram em função de outras intrafamiliar. ficou evidente que o O estudo foi realizado com 10 meninas com idade entre abuso sexual. (PROAME) encaminhou uma menina e esta também foi incluída na pesquisa. stress. à família e à rede de atendimento. (d) meninas. Desta forma. Os critérios de inclusão para o estudo foram: violações. Contudo. entretanto a denúncia se efetivou por motivos diversos do ato em si. Os critérios de exclusão foram presen- maioria dos casos analisados. a violência sexual já Método era do conhecimento dos familiares. 2006). receu ao atendimento agendado. Os agressores. O Programa de Apoio a Meninos e Meninas sintomas de depressão e ansiedade. Koller & Machado. O dos durante as entrevistas. e o restante não residia mais no endereço informado e não Considerando as conseqüências negativas de ex- foi possível localizar. foco da denúncia. Os conselheiros tutela- avaliação de sintomas de depressão. pois a família não residia mais no ende- compreensão da história e da dinâmica do abuso sexual. com o Programa Sentinela e o Conselho Tutelar. foram punidos criminalmente. Des- como conduzir uma intervenção adequada (Habigzang. O Progra- permitindo-lhes obter uma compreensão real dos casos. Psicologia: Reflexão e Crítica. mas não compareceram. totalizando 17. nove e 13 anos. O presente estudo tem como objetivo apre. Tabela1 Características Biosociodemográficas das Participantes Nome Idade Idade no início Com quem residia Escolaridade Agressor do abuso durante o estudo A 10 08 Tia e avó 1ª série irmão B 12 08 Abrigo 5ª série pai C 11 08 Pais 5ª série tio D 11 10 Pais 5ª série tio E 09 05 Pais 3ª série Padrinho/madrinha F 12 05 Pais 6ª série tio G 11 08 Abrigo 4ª série pai H 09 07 Abrigo 3ª série avô I 11 09 Abrigo 4ª série avô J 13 11 Abrigo 5ª série avô 340 . não houve acompanhamento. foi muitas vezes ignorado. uma vez que três casos configuravam-se como abuso sexual extrafamiliar Azevedo. bem ma Sentinela encaminhou oito casos para a pesquisa. atendimento através do Conselho Tutelar para as outras 11 nados à criança. Os casos que não foram incluídos no periências sexualmente abusivas para o desenvolvimento estudo foram re-encaminhados para o Programa Sentine- de crianças e adolescentes e a complexidade da dinâmica la. res encaminharam seis casos de abuso sexual que ainda TEPT. O processo de avali. ansiedade. O Conselho Tutelar permitiu que a equipe de pesquisa deste fenômeno. Em relação Participantes ao atendimento efetuado pela rede. (b) foram devolvidas. as crianças foram abrigadas ça de sintomas psicóticos e retardo mental grave. reço informado. Apenas uma menina compa- vítimas de abuso sexual intrafamiliar. O contato foi estabele- sionais da saúde. 21(2). na maioria dos casos. e. apenas dois foram incluídos no estudo. constatado que. A equipe enviou um segundo convite para (c) identificação de fatores de risco e de proteção relacio. A Tabela 1 apresenta um resumo dos dados biosociodemográficos sobre as participantes. Foram selecionados casos denunciados capacitação especializada dos psicólogos e demais profis- entre 2000 e 2004. 338-344. ava. intrafamiliar. presença de pelo menos um episódio de abuso sexual liação e atendimento adequado aos casos. avalia- e alguns pais agressores destituído(s) do pátrio poder. desencadeadoras e mantenedoras de amostra. tes. Na compor a amostra. bem como de crenças disfuncionais relacionadas à estavam sendo acompanhados e estes foram incluídos na experiência abusiva. Cinco correspondências ação priorizou: (a) formação de vínculo com a vítima. não houve caso de estudo apontou a necessidade emergente de criar serviços meninas com os critérios de exclusão. na qual foi oferecido aten- sentar os resultados da avaliação psicológica de meninas dimento psicológico gratuito. observa-se a dificuldade para a avaliação realizasse um levantamento em seu arquivo para selecio- psicológica destes casos e a necessidade de providenciar a nar participantes. ser do sexo feminino e da idade esperada para com poucas exceções.

1998). H. a entrevista avalia a ram comparadas. Cada escala é composta por foi desenvolvido para mensurar questões específicas 20 itens e cada item é constituído por três afirmações do abuso em crianças (Mannarino. Este in. psicológicas. F. O instrumento é uma entrevista semi-estruturada 6. Stroeher. As versões fo. Des.Escala de Estresse Infantil (ESI): a escala é composta tas que deveriam ser realizadas e informações a serem pres- por 35 itens relacionados às seguintes reações do tadas aos cuidadores não-abusivos e às participantes. do por Spielberger em 1970. A resposta ao item é feita por visão com a coordenadora da equipe. intensidade e a freqüência de cada um deles. medindo estados como principal objetivo obter o relato da participante transitórios de sentimentos subjetivos.Habigzang. Quatro aspectos são avaliados nóstico e Estatístico dos Transtornos Mentais (DSM) em quatro subscalas: sentimentos de diferença com são utilizados como base para identificação da pre- relação aos pares. A mente. a utilização na pesquisa aqui relatada. associados com o trauma. A escala on Child Abuse (1995). criando um do tipo auto-avaliação. em crianças encontros semanais para planejamento. auto-atribui. longo de toda a coleta e análise de dados. cada um com três seis seminários teóricos sobre abuso sexual infantil e qua- opções de resposta. lógica. aumentada). medindo gráficos. sintomas de excitabilidade Estes aspectos estão relacionados a crenças disfuncio. 1994). (2001). para verificar a compreensão do instrumento. zados. menor percepção de para facilitar a compreensão das perguntas pelas crian- credibilidade e de confiança interpessoal. Hatzenberger.. (2008). que representam diferentes intensidades do sintoma. Durante variam em intensidade. e. O objetivo do CDI é detectar a Grande do Sul. traduzida para o Português e de ansiedade-estado indica como a criança se sente em adaptada por Kristensen (1996). Cohen & Berman. em 1983). meio de uma escala Likert de cinco pontos. o objetivo foi estabelecer um (IDATE-C): o inventário é constituído de duas escalas vínculo terapêutico com a participante. com idade entre 10 e 13 anos. Nestes encontros. na qual a As meninas encaminhadas foram convidadas para uma criança pinta um círculo dividido em quatro partes.. ação de Psicologia e o treinamento foi desenvolvido em ventário é composto por 27 itens.Children’s Attributions and Perceptions Scale (CAPS): ceptibilidade à ansiedade. foi realizado o treina- presença e a severidade do transtorno depressivo. e. maior auto. que varia entre critérios diagnósticos estabelecido pelo Manual Diag- nunca (0) e sempre (4)]. A tradução para o português desta entre- nais comumente verificadas em crianças vítimas de vista foi desenvolvida por Del Bem et al. F. Avaliação Psicológica em Casos de Abuso Sexual na Infância e Adolescência. no qual a entrevista foi aplicada em cin- português por um pesquisador bilíngüe e depois tradu. L. a equipe fez algu- mento de diferença com relação aos pares. na qual foram consultadas quanto à par- 341 . Instrumentos conforme a freqüência com que os participantes expe- Os instrumentos utilizados para avaliação psicológica rimentam os sintomas apontados pelos itens (Lipp & foram: Lucarelli. tro encontros com a equipe para simular a avaliação psico- lher a opção que melhor descreve o seu estado nos úl. esquiva de estímulos abuso). sença dos sintomas que compõem o transtorno (re-expe- ção dos eventos negativos (auto-culpabilização pelo rienciação do evento traumático. a equipe treinou a aplicação e a timos tempos. A equipe foi constituída por alunas de gradu- adolescentes dos sete aos 17 anos de idade.Entrevista estruturada com base no DSM IV/SCID para com 18 itens.Inventário de Ansiedade Traço-Estado para crianças partes: na primeira parte. As opções são pontuadas de 0 a 2 e o avaliação dos instrumentos psicológicos. Para abuso sexual. adaptado do Beck Depression vado pelo Comitê de Ética da Universidade Federal do Rio Inventory para adultos. verificar a presença dos sintomas. 1. entrevista inicial. F. tensão e preocupação. A escala de ansiedade-traço a entrevista foram coletados os dados biosociodemo. A criança/adolescente deve esco. Dala Corte. sendo que a criança responde a cada um avaliação de transtorno do estresse pós-traumático: os através de cinco respostas [escala Likert. que foram utili- teste pode ser aplicado individualmente ou coletiva. respectiva. percebidos de apreensão. diferenças individuais relativamente estáveis em sus- 2. bem como mapear a fre. ninas. Ao estresse: físicas.Inventário de Depressão Infantil (CDI): foi elaborado Inicialmente o projeto desta pesquisa foi avaliado e apro- por Kovacs (1992). Esta entrevista tem um determinado momento do tempo. mento teórico-metodológico e ético da equipe que auxiliou tina-se a identificar alterações afetivas em crianças e na pesquisa. a equipe realizou ponente depressivo e psicofisiológica. co meninas com idade entre 10 e 13 anos. S. Os itens da entrevista foram traduzidos para o estudo piloto. Além de zidos de volta para o inglês por outro. confiança nas pessoas. sendo que o foco principal foi a entrevista inicial. equipe dramatizou a entrevista para padronizar as pergun- 4.Entrevista semi-estruturada inicial constituída por duas 5. ças e adolescentes. Procedimentos 3. psicológicas com com. mas alterações na linguagem utilizada na entrevista atribuição por eventos negativos. discussão e super- entre seis e 14 anos. que visam a medir dois concei- espaço seguro baseado em uma relação de confiança.. percepção de credibilidade dos outros em si. & Koller. Escores mais altos refletem maior senti. conscientemente com relação ao abuso sexual. R. e adaptado para uso no da pelo The Metropolitan Toronto Special Committee Brasil por Biaggio & Spielberger. que qüência e a dinâmica dos episódios abusivos. avalia como a criança geralmente se sente. ajustadas e aplicadas em cinco me. tos distintos de ansiedade: traço e estado (foi elabora- A segunda parte está baseada na entrevista preconiza. Após a aprovação. tendo como base os resultados do mente.

sendo incluídas na amostra median. possibilidade de confiar em um adulto não-abusivo. emocionais (seis casos). vizinha (um caso). loja que revelou as fotografias da menina. Kellog & compartilhados os principais achados da avaliação e foi Menard. sido vítimas desta forma de violência. ticipação na pesquisa. tras pessoas que efetivaram a denúncia. nesta avaliação inicial. Psicologia: Reflexão e Crítica. 1997). Estes fatos confirmam que o estabe. sendo que cinco meni- compartilhando os relatos sobre as situações abusivas e nas foram abrigadas e uma residia com a tia. durante o estudo. O perpetrador da violência foi: pai biológico (dois nas quais os casos e os procedimentos eram discutidos. freqüentes em casos de abuso sexual na literatura não-abusivos e com as meninas.. avô (três casos). A idade precoce de início do Após os três encontros para avaliação psicológica. Alguns fatores de risco adicionais foram mapeados nas oito famílias das vítimas. cinco meninas estavam entre sete e oito Os encontros foram supervisionados em reuniões semanais. mas estas não deram os fatos relatados pelos cuidadores não-abusivos. Uma das (IDATE-C) e entrevista semi-estruturada (CAPS). acolhidas (Habigzang & Caminha. 338-344. tio (três casos). Os sintomas decorrentes da violência sexual foram tadores é fundamental para que esta se sinta à vontade para constatados. 2005. caso). dez participantes. As outras outras situações-problema. ansiedade em três casos relações sexuais com penetração. Também encontro: Entrevista estruturada com base no DSM-IV foi verificado que oito meninas foram vítimas de abusos para avaliação do transtorno do estresse pós-traumático e psicológicos e físicos e todas sofreram ameaças para man- a escala de estresse infantil. proteção nos casos em que a as para quem as crianças revelaram o abuso sexual (seis violência sexual continua ocorrendo. foram aplica. Em cada encontro. Em duas situações. percepção de que existem pessoas que acreditam no seu caso de pornografia infantil foi denunciado à polícia pela relato. (c) 3ª participantes foi vítima de pornografia infantil. O ca. mães com depres- e a dinâmica do abuso sexual. bem como identificar sinto. uma vez que demonstraram confiança na mesma. Eckenrode & Garbarino. Furniss. no qual a criança percebe agressores. escolaridade (cinco casos). principalmente com a pesquisadora responsável pela ava. Com relação aos te o seu consentimento livre e esclarecido (TCLE). presença de outras formas de violência contra a vítima e A avaliação psicológica permitiu compreender a história entre os demais membros (sete casos). Nesta entrevista. a atenção. fato com riqueza e outras apenas afirmaram que haviam Thomas. (b) sete ocorreram toques. foi abuso e a presença de outras formas de violência são. são ou ansiedade (quatro casos). Estes fatores de risco são comumente encon- riou entre as participantes. O dos os seguintes instrumentos: (a) 1ª encontro: Entrevista tipo de abuso sexual variou entre os casos. o que pode participação dessas no estudo. casal de padrinhos (um caso). A casos). Contudo. foram (Cohen & Mannarino. Sete meninas apresentavam diag- to pode desencadear emoções intensas que precisam ser nóstico de TEPT e outras três os critérios de revivência e 342 . a disponibilidade e a credibilidade dos entrevis. 21(2). e. credibilidade e. Isto é fundamental. irmão (um caso) e ordem de aplicação dos instrumentos foi alterada aleato. Além disso. 2003). as crianças pediram ajuda para ou- cipantes estabeleceram forte vínculo afetivo com a equipe. sendo que em semi-estruturada inicial. anos. Dos 10 casos. que se a família ou o abrigo. os cuidadores não-abusivos responsáveis dades de compreensão e execução. casos). realizado o encaminhamento para a grupoterapia. as meninas já haviam tentado A história de abuso sexual estava em consonância com revelar o abuso sexual para a mãe. Esta foi gravada e transcrita. As meninas demons- também foram consultados e assinaram o TCLE sobre a traram empenho e atenção para respondê-los. trumentos psicológicos. O ato de relatar a A revelação dos casos de abuso sexual foi feita para a situação abusiva é importante para a vítima por uma série diretora da escola (um caso). É importante salientar que também ser atribuído ao bom vínculo estabelecido com a todas as meninas estavam protegidas de abusos sexuais equipe. violência aos órgãos de proteção foi realizada pelas pesso- rença em relação aos pares. Após a denúncia do abuso sexual. 1993. desemprego ou subemprego (quatro casos). nove partici- riamente no segundo e terceiro encontros para evitar o efeito pantes foram vítimas de mais de um episódio de abuso se- de ordem nos resultados. As parti. Além instrumentos aplicados. mãe (um de fatores: ativação e reorganização da memória traumáti. afastadas do convívio com os pais. ou mulheres. xual e a violência teve duração de pelo menos um ano. organizaram de forma protetiva. dificuldades conjugais mas psicopatológicos e alterações cognitivas. Todas as meninas revelaram a situa. baixa e comportamentais. outros familiares (três casos) e amiga (um caso). afastando as meninas dos lecimento de um espaço seguro. seis meninas foram liação. então. 2000a. sendo que algumas relataram o trados em famílias incestuosas (Habigzang et al. relacionadas com a escola e com quatro participantes permaneceram com os pais. seis haviam vitimizado sexualmente outras crianças de informações e detalhamento sobre o abuso sexual va. dos nove agresso- ção abusiva na primeira entrevista. a quantidade res. não foram identificadas dificul- das meninas. tam- agendada uma entrevista de devolução com os cuidadores bém. uma vez que este rela. sendo que das com duração de uma hora cada e com freqüência semanal. tais como: abuso de álcool (qua- Resultados e Discussão tro casos). 2004). através do uso de ins- relatar o abuso. ter o abuso sexual em sigilo. manipulação de genitais e assédio e 2ª encontro: Inventários de depressão (CDI). Na entrevista foi identificado que a idade do início do A avaliação psicológica foi composta por três encontros abuso sexual variou entre cinco e 11 anos. A denúncia da reestruturação de crenças distorcidas sobre culpa e dife. dificuldades econômicas (sete casos).

sociais e jurídi. que apontam a prevalência de sintomas de TEPT Caminha.. Child lência sexual confirmados nos casos atendidos (Furniss. P. (Ed. Cohen. (2000). Habigzang & Koller. C. Outras conseqüências apontadas pela literatura e não vam repetindo o ano escolar. mas o acolhimento e vem estar coordenados. J. Child Abuse & Neglect. A. contrados na literatura consultada. Inventário de ansieda- a identificação do abuso. P. a presença de 24(7). precoce e a duração de pelo menos um ano. resiliência familiar. J. (1989). F... Cohen. estruturada para o DSM-IV . quatro meninas revelaram in. A. comportamentos hipersexualizados. & Spielberger. Outro aspecto identificado foi o baixo ren. liação e tratamento do abuso sexual infantil. criança de outras situações abusivas (Ferreira & Schramm. (2000a). Crippa. salienta-se a necessidade de desen- volver instrumentos psicológicos validados para avaliação Considerações Finais dos casos de abuso sexual contra crianças e adolescentes.. Briere. Furniss. Duarte & Transtornos gerais (pp. a postura do pro- vidade de métodos de avaliação tem sido um importante fissional diante da criança e seu comprometimento com desafio para psicólogos clínicos e pesquisadores. & Mannarino. Vulnerabilidade e A avaliação permitiu verificar que as meninas apresen. ao qual foram enca. Além para o desenvolvimento e intervenções clínicas. através dos instrumentos psicológicos minhadas após a avaliação psicológica individual. 2004). freqüentemente asso- tomas de ansiedade e crenças de diferença em relação aos ciados com abuso sexual infantil. 2006). M.). ansiedade e. Também foi Del Ben. bem como sintomas de depres. Tais instrumentos poderiam garantir maior acurácia nas A psicologia tem contribuído para a compreensão do abu. 156-159. Referências cos. Vilela. Treatment dos episódios abusivos foram fatores da dinâmica da vio. 2004). Caballo lência sexual para as vítimas sugeridas por estudos ante. 1205-1222. A presença de outras violence (pp. conhecimento da história de abuso. & Guerra. C. uma vez que reduz o risco de revitimizações.Versão clínica traduzida para o diferença em relação aos pares e desconfiança. metodológicos. de intervenções clínicas adequadas. ansiedade e crenças distorcidas em relação à violência avaliação psicológica empregado possibilitou a compreen- (Briere & Elliott. Cohen. SP: IGLU. Predictors of treatment formas de violência na família.. Hersen (Eds. H. Psico. te. A. utilizados. J. (2003).. E. Dala Corte. C. J. De Antoni. M. D. encaminhamen- sequelae of self-reported childhood physical and sexual abuse to para atendimento médico e psicológico para a vítima e in a general population sample of men and women. bem como para os re- liar. 2003. baixo rendimento escolar. Child Abuse acompanhamento da família para garantir a proteção da & Neglect. em vítimas de abuso sexual. SP: Santos. O presente estudo teve resultados semelhantes aos en. de transtorno do estresse pós-traumático. New York: Klewer Academic. J. Tais alterações cognitivas e Duarte. (1983). São Paulo. Runyon & Kenny. fundamentais para uma avaliação de de saúde e qualidade de vida das vítimas e suas famílias. hipervigilância. avaliações psicológicas. RJ: CEPA. R. dimento escolar em oito meninas. H. Considerando os resultados encontrados. S. através da entrevista inicial. A. o acompanhamento de traço-estado-Idate-C Manual. 31. R. M. & Elliott. N. In V.. 343 . 123-135. Azevedo. Labate. & Mannarino. 1993. Prevalence and psychological do caso nos órgãos de proteção à criança. Todas as meninas bem como auxiliou na investigação de sintomas psicoló- aderiram ao processo de grupoterapia. éticos e técnicos de. gicos decorrentes. Stroeher. uma vez ela é o fator mais importante para garantir. 2002). C. W. ram maus tratos intrafamiliares. Hallak. ava- comportamentais são as principais conseqüências da vio. (2003). 209-229). principalmen. 23(3). Habigzang & Caminha. M. Os sintomas identificados nas identificadas nas meninas foram ideações e comportamen- participantes estão em consonância com os achados da tos suicidas (Cohen & Mannarino. P. (2000b). nha. In R. sendo que quatro esta. incidência epidemiológica. L. 2003. 39-66. A. Cohen. Incest. Cases studies in family negativas para o desenvolvimento. 827-833.. S. F. J. 25. Contudo. a denúncia. Society of Biologial Psychiatry. visando à proteção e à promoção confiança da vítima. Habigzang & Cami. de um modelo estruturado de avaliação. Rio de Janeiro. J. 2004. necessidade de métodos de avaliação efetivos que incluem: Biaggio. C. Revista Brasileira de Psiquiatria. contribuindo para o planejamento so sexual infantil. Avaliação Psicológica em Casos de Abuso Sexual na Infância e Adolescência.. & Arboleda. A. ameaças e barganhas à criança. comportamentais e emocio. practices for childhood posttraumatic stress disorder. (2008). Habigzang & literatura. bem como português. Hatzenberger. conseqüências do trauma latórios solicitados pela área jurídica sobre os casos. São Paulo. Contudo. Crianças vitimizadas: nais para a vítima. A. S. F. J. (2001). qualidade. J. & Koller. 2004). nâmica do abuso intrafamiliar quanto às conseqüências Ammerman & H.. tanto em relação à di. com altos índices de incidência. A complexidade do problema aponta a A síndrome do pequeno poder. os rituais de início e fim Cohen. M. Um estudo com adolescentes que sofre- tavam sintomas de depressão. & Koller. Também foram identificados sin. A. Treating acute posttraumatic reactions in 2000. 1993. Confiabilidade da entrevista identificada a presença de crenças distorcidas de culpa.). 2003. não apenas o que aspectos teóricos.. (2004). as meninas não apresentavam dicadores de depressão. & Zuardi. 2000a. Além disso.. as meninas. 983-994. Sintomatologia. 27. A. 293-321).. V. que pode ocasionar sérias alterações cognitivas. 53. C. Abuse & Neglect. children and adolescents. O abuso sexual infantil intrafamiliar é um fenômeno com- plexo que envolve aspectos psicológicos. A ausência de tais com- pares. A. D.Habigzang. Cohen.. A. o processo de são. A efeti.. o início do abuso em idade outcome in sexually abused children. Mannarino.. Manual de psicologia clínica infantil e do adolescente: riores (Briere & Elliott. A. 2003. através de estudos sobre dinâmica fami. Arboleda. (2001). são da dinâmica de cada caso. A. & Rogal. culpa pelo abuso e baixa percepção de confiança portamentos pode ser considerada um fator de proteção para interpessoal. J.

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